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FISIOLOGIA DA GESTAÇÃO CASO CLÍNICO: Cadela da raça Golden Retriever, 4 anos, com histórico de três tentativas reprodutivas sem sucesso. A tutora relata que a cadela apresenta cios regulares, monta natural ocorreu nas duas primeiras tentativas, e na terceira tentativa foi utilizada inseminação artificial com sêmen fresco. Exames prévios não indicavam alterações significativas, e os ciclos ovulatórios foram confirmados por dosagem de progesterona. Agora, a cadela está com suspeita de gestação, apresentando leve aumento de volume abdominal e mudanças comportamentais. EXAMES COMPLEMENTARES: ➤ ULTRASSONOGRAFIA ABDOMINAL ● Presença de estruturas anecóicas compatíveis com vesículas gestacionais. ● Batimentos cardíacos fetais detectáveis em dois fetos, mas outros ainda sem atividade definida. ● Espessamento moderado do endométrio. ● Leve quantidade de líquido livre na cavidade uterina. ➤ DOSAGEM HORMONAL ● Progesterona: 12 ng/mL (compatível com gestação em desenvolvimento, mas em nível limite para manutenção gestacional). ● Relaxina: Positiva (confirma a presença de gestação). ● Estrogênio: Levemente elevado, sugerindo estímulo hormonal ativo. ➤ HEMOGRAMA ● Leucócitos: 15.000/µl (discreta leucocitose, possível resposta fisiológica à gestação). ● Eritrócitos: 5,2 milhões/µl (ligeira anemia normocítica normocrômica, comum na gestação). ● Plaquetas: 180.000/µl (dentro da normalidade). ➤ BIOQUÍMICA SÉRICA ● Glicose: 85 mg/dL (dentro da normalidade). ● Ureia: 35 mg/dL (dentro da normalidade, sem indícios de doença renal associada). ● ALT (Alanina Aminotransferase): 45 U/L (normal, sem alterações hepáticas relevantes). ● Albumina: 2,8 g/dL (ligeira hipoalbuminemia, possível redistribuição proteica gestacional). ➤ EXAME DE URINA ● Densidade urinária: 1.025 (normal). ● Proteína: Traços (compatível com gestação, mas requer monitoramento). ● Glicose: Ausente. ● Cetonas: Ausentes. ● Células epiteliais: Escassas. QUESTÕES: 1. Quais hormônios envolvidos na gestação? Progesterona - concentrações elevadas de progesterona são necessárias para a manutenção da gestação, pois ela é responsável pelo desenvolvimento das glândulas endometriais, secreção de fluidos uterinos, crescimento endometrial, manutenção da placenta, inibição da motilidade uterina e eliminação da resposta leucocitária no interior do útero. A principal fonte deste hormônio na cadela é o corpo lúteo (CL). O principal evento endócrino do parto é a alteração da razão estrógeno-progesterona, devido a queda de progesterona. O declínio deste hormônio reflete no descolamento da placenta, dilatação da cérvice e aumento da contratilidade uterina. Ocorre o aumento da sensibilidade do miométrio à ocitocina e esta estimula a produção de PGF2α pelo útero. Hormônio Luteinizante (LH) - sua função seria mais luteotrópica (estimulação da produção de progesterona pelo corpo lúteo). Estrógeno - contribui para a síntese de receptores intracelulares para progesterona e promove o desenvolvimento das glândulas mamárias. Hormônio Folículo Estimulante (FSH) - A concentração de FSH encontra-se elevada no terço final da gestação e contribui para o aumento de estrógeno neste mesmo período. Prolactina - principal hormônio hipofisário que sustenta a esteroidogênese pelo corpo lúteo. Relaxina - inibe a contração miometrial, aumentar o crescimento uterino para acomodação do desenvolvimento fetal e fornecer flexibilidade à pelve e distensão à cérvix uterina, preparando o útero para o parto. 2. Qual hormônio é responsável pela manutenção da gestação? E qual seu papel? A gestação da cadela é sustentada pela progesterona (P4) oriunda do corpo lúteo (CL). Portanto, é necessária uma disponibilidade contínua de P4 tanto para o início como para a manutenção da gestação. Este hormônio vai garantir a diferenciação da secreção do endométrio e da glândula endometrial, bem como a manutenção da sua integridade e a fixação da placenta, além de suprimir a contratilidade uterina, tornando o útero quiescente, impedindo a atividade contrátil provocada pelos estrógenos, indesejada na fase gestacional. 3. Relaxina como marcador gestacional; Na cadela a relaxina é produzida pela placenta, mais especificamente pelo trofoblasto fetal, sendo o único marcador de gestação atualmente disponível para esta espécie. A relaxina é detectada somente em cadelas gestantes, portanto sua detecção pode ser considerada um método de diagnóstico de gestação. 4. Quais diferenças entre gestação normal e uma pseudociese? Devido a fisiologia do diestro ser semelhante em fêmeas gestantes e não gestantes, estas podem apresentar um síndrome chamado de pseudogestação. Os sinais clínicos mais comuns são desenvolvimento da glândula mamária, secreção uterina, construção de ninho, adoção de objetos inanimados, entre outras alterações comportamentais. Os sintomas geralmente começam a manifestar-se seis a oito semanas após o estro sendo considerada como a fase de declínio da progesterona, que parece estimular a síntese e secreção de prolactina, que é um hormônio luteotrófico liberado pela hipófise anterior e que atua no controle do desenvolvimento da glândula mamária, na estimulação da síntese de leite e no sistema nervoso central (SNC) para induzir o comportamento materno. Algumas cadelas devem ser mais sensíveis a estes eventos endócrinos, resultando no aparecimento da pseudogestação, e aquelas que desenvolvem pseudogestação tendem a apresentá-la nos ciclos subsequente. Para o tratamento desta manifestação são utilizados inibidores de prolactina, progestágenos e andrógenos. As características únicas inerentes as gestações de cadelas englobam uma elevação da P4 sérica por intervalos superiores aos 60 dias de uma gestação normal; bem como uma concentração sérica de P4 aparentemente semelhante em animais gestantes e não gestantes, ausência de proteínas específicas da gestação, além da produção placentária exclusiva de relaxina. No final do proestro ocorre um aumento nas concentrações plasmáticas de P4, atingindo um pico aproximadamente 20 a 30 dias após o aumento do LH e, em seguida, diminuem lentamente para concentrações basais em 60 a 70 dias, tanto em animais gestantes como não gestantes. Embora as concentrações plasmáticas de P4 permaneçam semelhantes, a detecção de metabólitos fecais da P4 diferencia uma gestação, pois ocorre aumento da sua produção pelo CL gestacional em comparação com o do diestro; fato que resulta em um aumento significativo nos metabólitos deste hormônio nas fezes durante a gestação. A relaxina não é detectada em cadelas com pseudogestação, as quais apresentam padrão hormonal semelhante às cadelas gestantes. 5. Quais animais podem vir a desenvolver quadros de pseudociese? A pseudociese canina e felina, também conhecida como pseudogestação e popularmente chamada de gravidez psicológica, é uma síndrome que ocorre devido às alterações hormonais que resultam no aumento do hormônio prolactina, acometendo cadelas e gatas não esterilizadas que estejam na fase lútea ou de diestro, onde a progesterona está mais predominante. A pseudociese é muito comum nas cadelas que não copulam com certa frequência e também pode ocorrer nas gatas, mas em menor proporção, já que a ovulação da fêmea felina costuma ocorrer no ato da cópula, resultando em uma gestação real. 6. Quais alterações cardiovasculares são observadas durante o estado gestacional? Além das mudanças hormonais, nas cadelas prenhes ocorrem alterações associadas ao sistema cardiovascular, dentre elas: o aumento da frequência cardíaca, volume plasmático, débito cardíaco e diminuição na resistência vascular e da pressão arterial média. Na fase gestacional, um aumento da demanda metabólica implica diretamente no aumento do débito cardíaco, fluxo sanguíneo uterino, da ventilação e do consumo de oxigênio e, com consequente diminuição na pressão parcial de dióxido de carbono no sangue arterial.O comprometimento hemodinâmico materno durante a gestação é bastante complexo. Além do estabelecimento de um aporte sanguíneo uterino adequado, a circulação materna é responsável pelas trocas de calor do feto e preparo da glândula mamária para a lactação. A maior parte do fluxo cardíaco no início da gestação vai para tecidos não envolvidos diretamente com a prenhez. Conforme a gestação progride e a vascularização placentária aumenta, os fluxos sanguíneos uterino e placentário aumentam. Desta forma, o aumento no débito cardíaco é adequado para suprir o útero e a glândula mamária e para manter o fluxo sanguíneo nos demais tecidos em níveis correspondentes ao estado não gestante quando a fêmea está em descanso. Quando o trabalho de parto se inicia, o débito cardíaco aumenta a cada contração uterina, retornando a seus níveis basais durante a fase de descanso. Estas flutuações são atribuídas a um aumento no retorno venoso, conforme o sangue deixa o útero em contração. A cada contração, o pulso declina, indicando que o débito cardíaco ocorre devido ao grande incremento no volume sanguíneo. Logo após o parto, o débito cardíaco aumenta ainda mais, provavelmente devido à descompressão das veias abdominais pressionadas pelo aumento do volume uterino. Esta elevação permanece por alguns dias, acompanhada de uma leve bradicardia, mas dentro de poucas semanas o estado fisiológico não prenhe se estabelece. 7. Quais alterações metabólicas e nutricionais? A gestação causa inúmeras alterações metabólicas no organismo da cadela, como aumento do peso (ideal no máximo 20-30%), resistência a insulina, aumento da volemia, do débito cardíaco (de aproximadamente 40%) e da frequência cardíaca, do consumo de oxigênio (de aproximadamente 20%), das proteínas totais e do colesterol, e também do fibrinogênio próximo ao parto. Além disso, a cadela apresenta anemia normocítica normocrômica fisiológica devido a hemodiluição, a contagem de hemácias vai decrescendo gradativamente ao longo das semanas, começando na 2ª semana com 8,85 milhões/µL, e chegando a termo com 4,58 milhões/ µL; similarmente o hematócrito vai decrescendo de 53% a 32%, da 2ª semana ao parto. Estas alterações devem ser conhecidas pelo profissional para não serem confundidas com anormalidades. A necessidade de energia e nutrientes aumenta durante a gestação e, principalmente, durante a lactação. O feto é totalmente dependente de substratos e energia obtidos a partir das reservas maternas, e o neonato, da produção láctea da mãe. As modificações metabólicas que ocorrem durante a gestação visam, então: ● Suprir adequadamente o feto em desenvolvimento de oxigênio e nutrientes; ● Fornecer ao feto condições de manter um estoque de energia adequado a suas necessidades no início da vida neonatal; ● Armazenar energia suficiente para garantir a sobrevivência do filhote no caso de eventual restrição alimentar durante o período de lactação. O custo energético da gestação engloba o custo metabólico do processo de biossíntese dos produtos formados durante a gestação, incluindo feto, placenta, membranas extraembrionárias, fluidos fetais e tecidos maternos (plasma e eritrócitos adicionais, reservas de lipídio e aumento de tecidos mamário e uterino), o custo metabólico de manutenção destes tecidos e o trabalho extra associado à manutenção e à locomoção de uma gestante progressivamente mais pesada. Durante o período inicial de gestação, a única preocupação é manter a fêmea em boa condição física, visto que o desenvolvimento fetal nesses estágios iniciais parece não exigir grandes demandas nutricionais da mãe. Entretanto, 2/3 do crescimento fetal ocorrem no último terço de gestação. Como regra geral, o ideal seria um aumento de todos os nutrientes da dieta diária em torno de 25 a 35% acima dos níveis recomendados para a manutenção, a fim de garantir um peso normal no parto, o que favorecerá a taxa de crescimento normal do filhote. A necessidade de água aumenta durante a gestação devido à expansão do compartimento fluido extracelular, tecidos maternais e fetais e lactação. Este aumento pode variar de acordo com a necessidade de manutenção da mãe, o tipo de alimentação, e em razão da produção de leite. Em geral, os requerimentos de água em mL/dia são aproximadamente equivalentes aos requerimentos de energia em kcal. Desta forma, água potável deve estar disponível todo o tempo. Devido ao aumento da demanda energética durante a gestação, alimentos de alta digestibilidade e energeticamente densos ajudam a reunir ingestão calórica e minimizar abastecimento estomacal para conceder maior espaço para o útero gravídico. Gorduras liberam acima de duas vezes a quantia de calorias quando comparadas com os carboidratos, representando uma importante fonte de energia. Em cadelas, deficiências em ácidos graxos essenciais, como ômega-3, estão associadas a ninhadas de pequeno tamanho, baixo peso ao nascer, parto prematuro e desenvolvimento placentário deficiente. Alimentos com digestibilidade maior que 85% são mais convenientes, pois melhoram a disponibilidade dos nutrientes, reduzem o volume alimentar e o preenchimento abdominal e evitam a evacuação de grandes quantidades de nutrientes do cólon, que pode levar a diarreia. Durante a gestação, os requerimentos nutricionais de proteína também aumentam de 40 a 70% acima da manutenção. Cálcio e fósforo são requeridos em quantidade maiores do que na manutenção para suportar o desenvolvimento do esqueleto fetal e a lactação. No entanto, a suplementação de cálcio é raramente indicada. Adequada ingestão de cálcio e fósforo e sua proporção na dieta materna são importantes. Uma relação cálcio:fósforo de 1,1:1 a 1,5:1 é adequada. O ganho de peso na prenhez pode ser um bom indicador do sucesso de nutrição. A gestante deve aumentar seu peso em 25% até o parto, e deve entrar na lactação 5 a 10% acima do peso antes da gestação para manter a produção láctea adequada. Se o nível de energia for inadequado durante a gestação a fêmea perderá peso, desviando nutrientes do feto. Além disso, haverá um efeito negativo sobre a produção de leite e dificuldades para a nova prenhez após o parto. O oposto, ou seja, excesso de energia durante a gestação, provocará elevação excessiva do peso corporal e depósito de gordura nos tecidos. Não se deve permitir excesso de aumento de peso levando à obesidade. Independentemente do estado nutricional, a fêmea gestante sofre adaptações metabólicas, as quais levam inicialmente a um aumento das reservas energéticas maternas e, posteriormente, a um redirecionamento de substratos e energia, da mãe para o feto. Devido a seu pequeno tamanho, a demanda do feto, no início da gestação é pequena. Assim, os 2/3 iniciais da gestação são caracterizados por aumento de peso, expansão do volume sanguíneo e depósito de gordura e talvez proteína no corpo da mãe. Os ajustes metabólicos se tornam mais importantes da metade para o final da gestação, com o aumento da produção de progesterona pela placenta e o crescimento do concepto. Nesta fase, ocorre um decréscimo das concentrações de glicose no sangue materno e o metabolismo materno passa a utilizar outras fontes de energia, como o lactato e a gordura, poupando assim glicose para o feto. Os mecanismos que levam à modificação do metabolismo de carboidratos e lipídios em fêmeas gestantes ainda não são totalmente conhecidos, mas parecem estar associados à ação da progesterona e lactogênios placentários. A progesterona pode influenciar os depósitos de gordura de duas formas: a hipótese inicial foi de que a progesterona reduziria o gasto total de energia por meio de um efeito na regulação central do balanço energético e/ou da diminuição da atividade física da gestante. Além disso, foi proposto que a progesterona promoveria a redistribuição de substrato, em favor da gordura, por meio de um efeito direto nos adipócitos ou nas ilhotas do pâncreas. Os lactogênios placentários parecem exercer umefeito anabólico e diabetogênico durante a gestação, aumentando a secreção de insulina, promovendo a conservação de proteínas, a liberação de ácidos graxos dos estoques de lipídios e diminuindo a utilização de glicose. Essa modificação do metabolismo materno durante a gestação é responsável pela formação de um reservatório materno nos 2/3 iniciais da gestação, que persiste por toda a gestação, permitindo o crescimento fetal. A mudança no metabolismo é controlada pelos hormônios da gestação e não está relacionada com a dieta do animal, mas sim com o crescimento placentário. A progesterona, predominante na primeira metade da gestação, atua na conservação de energia (via insulina), e os níveis crescentes de estrógeno, na segunda metade, são responsáveis pelo redirecionamento da energia para o feto. 8. Como o sistema imunológico responde à gestação? A relação imunológica entre a mãe e o feto, ou seja, a interface materno-fetal é uma comunicação bidirecional em que se observa a apresentação de antígenos pelo feto e o reconhecimento destes pelo sistema imune materno. Essa interação é uma etapa importante na manutenção da gestação, e falhas nesse processo podem resultar em abortos espontâneos. Nos estágios primários do desenvolvimento, o embrião se divide em dois grupos de células: um interno, que dá origem ao próprio embrião, e um externo, o trofoblasto, que, mais tarde, dará origem à placenta. A placenta separa os sistemas sanguíneo e linfático de mãe e feto. Dessa forma, o movimento de células do sistema imune para dentro e para fora dos tecidos é impedido, e o trofoblasto desempenha o principal papel na falta de resposta do sistema imune materno ao feto. Além da barreira física, fatores como antígenos leucocitários (HLA) e a modulação da resposta imune materna podem auxiliar nos fenômenos de tolerância à gestação. O feto canino não depende completamente dos mecanismos maternos para sua proteção. A placenta é fonte de muitos fatores imunossupressivos; além dos hormônios estradiol e progesterona, algumas proteínas do soro fetal são imunorreguladoras, como isoformas da fetoproteína-α, e também da placenta, como macroglobulina-α e interferon placentário. O líquido amniótico, por sua vez, é rico em fosfolipídeos imunossupressivos. A imunossupressão suave é uma característica do final da gestação. Os animais podem apresentar deficiências menores na reatividade imune, mediada por células contra antígenos não fetais. Isso é notório em animais parasitados, nos quais a resposta imune pode não controlar o parasita, como nas cadelas com ácaros do gênero Demodex, cujas populações se elevam e eles, então, podem ser transmitidos aos filhotes. A proteção do neonato contra as infecções inicia-se já intraútero, onde o líquido amniótico constitui barreira muito eficiente, devido à presença de vários fatores de defesa já identificados. Esses fatores incluem betalisina, peroxidase, transferrina, imunoglobulinas e lisozima, e a concentração desses fatores aumenta à medida que a gestação progride até o termo. 9. Quais as adaptações uterinas e quando e como ocorre a placentação em cães? À medida que progride a gestação, o útero aumenta gradativamente para permitir a expansão do feto, porém o miométrio permanece quiescente para prevenir a expulsão prematura. Três fases podem ser identificadas na adaptação do útero para acomodar os produtos da concepção: proliferação, crescimento e dilatação. A duração de cada uma varia conforme a espécie animal. A proliferação do endométrio ocorre antes da união do blastocisto e caracteriza-se por sensibilização progestacional preparatória do endométrio. As modificações características do endométrio que são iniciadas por hormônios, principalmente a progesterona, incluem vascularização aumentada, crescimento e enovelamento das glândulas uterinas e infiltração leucocitária no lúmen uterino. O crescimento uterino começa após a implantação e inclui hipertrofia muscular e extenso aumento dos elementos fibrilares e conteúdo de colágeno do tecido conjuntivo. Durante o período de dilatação uterina, o crescimento do útero diminui, enquanto seus conteúdos estão crescendo em ritmo acelerado. O feto e as membranas fetais crescem em taxas diferentes. As membranas fetais crescem mais rapidamente no início da gestação enquanto o feto permanece estável em tamanho. Ocorre acúmulo de líquidos. No entanto, este acúmulo e o crescimento das membranas fetais requerem menos energia que o crescimento do feto. Durante a 2a metade da gestação as necessidades energéticas do feto aumentam substancialmente, pois é nesta etapa que ocorre o máximo de seu crescimento. Em todos os animais domésticos o útero se desloca para frente e para baixo na cavidade abdominal à medida que progride a gestação. Nos animais multíparos, como a cadela, a gata e a porca, o corno gravídico é tubular e com quase o mesmo diâmetro em todo o seu comprimento. Os fetos geralmente se distribuem em forma quase igual em cada corno. Os cornos repousam no assoalho da cavidade abdominal de forma dobrada, semelhante ao intestino. A placentação consiste na forma com que as membranas fetais vêm a se desenvolver e a se associarem ao endométrio. Neste processo de desenvolvimento da placenta estão relacionadas quatro estruturas membranosas: o corion, o âmnio, o saco vitelino e o alantóide. O zigoto tem a sua formação resultante da fusão dos gametas feminino e masculino. Depois de sucessivas divisões mitóticas (estágio de mórula) este desenvolve uma cavidade central (blastocele) e passa para o estágio de blastocisto. No primeiro momento, o blastocisto é uma estrutura unilaminar que tem como característica a presença de uma massa celular interna, circundada por uma parede composta apenas por células ectodérmicas, que é chamada de trofoblasto. A massa celular interna e o trofoblasto são dois tipos celulares especializados que originarão o embrião e os componentes fetais da placenta. Em um estágio subsequente, a união de uma camada endodérmica ao trofoblasto delimitará o saco vitelino primário. Pouco depois, uma camada de mesoderma se desenvolve entre o endoderma e o trofoblasto, tornando o blastocisto uma estrutura trilaminar. As células da camada mesodérmica proliferam e, durante este processo, surgem pequenas cavidades no interior desta camada, que ao se associarem originam o exoceloma. Durante a formação deste, uma camada externa e avascular de mesoderma se associa ao trofoblasto dando origem ao cório, que posteriormente desenvolverá seu próprio sistema vascular. Além disso, uma camada vascular de mesoderma se associa ao endoderma, compondo a parede definitiva do saco vitelino, estrutura anexa ao intestino médio embrionário. O alantóide se desenvolve a partir do endoderma do intestino terminal embrionário, sendo circundado por mesênquima ricamente vascularizado. O âmnio é uma camada epitelial derivada do ectoderma embrionário, que como o córion, obtém suporte mesenquimal e permanece avascular. A placenta dos caninos é zonata (zonária), endoteliocorial e labiríntica. A sua organização característica é estabelecida a partir da metade da gestação, ou seja, a partir do 1º mês após a fecundação. Na zona anular assenta-se o folheto externo do alantóide, o qual se une ao córion no 20º dia no caso de gestações em cães. A partir daí os vilos do trofoblasto desenvolvem-se de modo considerável formando lamelas que se aprofundam muito no endométrio. A placenta dos carnívoros é zonária e portadora de vilos coriônicos que ocupam o anel placentário. Este se relaciona ao saco coriônico e ao endométrio. Além disso, é designada como possuidora de fluxo contracorrente. Nos carnívoros, o tipo de placenta encontrada é zonária, onde a interface de contato entre os tecidos materno e fetais restringe-se a uma cinta ao redor do saco coriônico, ou seja, as vilosidades estão dispostas em forma de anel ou cinturão que envolve o feto no sentido transversal, determinando,assim, uma zona placentária restrita. Microscopicamente as vilosidades, em carnívoros, assemelham-se a um labirinto, fato que relaciona mais intimamente os tecidos maternos e fetais. Nas bordas da placenta zonária observa-se uma estrutura classificada como “hematoma” que resulta de hemorragia materna quando a invasão do trofoblasto no endométrio uterino. Estes hematomas desempenham papel importante na nutrição do feto, pois o sangue materno é uma fonte importante de ferro. O crescimento de vasos sanguíneos tem papel vital durante o desenvolvimento embrionário e também em diversos processos fisiológicos e patológicos. Durante a formação vascular dois processos podem ser citados: a vasculogênese e a angiogênese. A vasculogênese é caracterizada pelo desenvolvimento capilar a partir da diferenciação de células precursoras de origem mesenquimal, sendo um processo envolvido na formação dos vasos ocorrido durante a embriogênese. A angiogênese consiste na formação de novos capilares a partir de vasos sanguíneos pré-existentes e, além de ser indispensável durante o desenvolvimento embrionário e fetal, está envolvida em diversos processos normais e patológicos durante a vida pós-natal. A placentação ou processo de formação placentária é caracterizado por extensiva angiogênese, tanto na parte materna quanto na fetal e é acompanhado por acentuado aumento no fluxo sanguíneo uterino e umbilical. O estabelecimento de circulações funcionais, materna e fetal, é um dos primeiros eventos que ocorre durante o desenvolvimento embrionário e placentário. Foi demonstrado que o grande aumento das trocas placentárias característico da segunda metade da gestação depende primariamente do crescimento acentuado de leitos vasculares placentários e do resultante aumento do fluxo sanguíneo umbilical e uterino. Também foi relatado que um aumento da resistência vascular uterina ou um fluxo sanguíneo uterino diminuído podem ser usados como apontadores de gestação de risco e estão associados com retardo no crescimento fetal. A rede capilar materna se origina a partir de vasos pré-existentes no endométrio (angiogênese), enquanto no compartimento fetal os primeiros vasos extra-embrionários são formados a partir de células precursoras sanguíneas (vasculogênese) situadas no mesoderma que compõe a parede do saco vitelino e alantóide, seguido pelo contínuo crescimento destes vasos sanguíneos (angiogênese). 10. Quais hormônios envolvidos na placentação? A secreção pituitária de hormônios luteotróficos, como o hormônio luteinizante (LH) e a prolactina, é responsável pela manutenção dos níveis elevados de progesterona durante a gestação. A progesterona promove o desenvolvimento endometrial e a integridade placentária e previne o parto por reduzir a atividade miometrial e a sensibilidade à ocitocina, desta maneira, proporciona a quiescência miometrial. Em contrapartida, o rápido aumento da relação estrógeno/progesterona placentários é o principal evento endócrino responsável pelo desencadeamento do parto, ou seja, a queda dos níveis de progesterona e o aumento estrogênico são provavelmente as maiores causas de descolamento placentário, dilatação da cérvix e aumento da contratilidade uterina. 11. Descreva a cronologia do desenvolvimento embrionário canino. Ovulação e maturação oocitária - Na cadela, os oócitos liberados apresentam-se em estado imaturo, na prófase da meiose I, ainda em estado de vesícula germinativa (VG), sendo também denominados de oócitos primários, não podendo, portanto, ser fecundados imediatamente após sua liberação. Estão presentes nas tubas uterinas, 44 horas após a ovulação, ou dois dias após a onda pré-ovulatória de LH. A fase de metáfase I (MI) ocorre dentro de 44 a 48 horas da ovulação, sendo caracterizada pela extrusão do primeiro corpúsculo polar. O segundo corpúsculo polar é liberado após o término da meiose II, ou seja, após a fertilização, cerca de 54 horas após a ovulação. A maturação nuclear nas cadelas está completa após 48 a 72 horas das ovulações, juntamente com elevados níveis de progesterona, quando os oócitos atingem a porção média das tubas uterinas. Transporte gametogênico e fertilização - O transporte espermático apresenta propriedades inerentes ao trato reprodutivo da fêmea, sendo conhecido como transporte passivo. As contrações vaginais e as contrações miometriais, ocorridas durante o coito, são fatores que proporcionam a propulsão espermática no trato reprodutivo feminino, fazendo com que os espermatozoides sejam encontrados nas tubas uterinas, em pouco tempo após o acasalamento, cerca de 20 a 50 segundos. 24 horas após o acasalamento, uma quantidade pequena de sêmen é ainda encontrada livre no lúmen uterino, e, nesse caso, os espermatozoides estão aderidos às criptas luminais das glândulas endometriais. No processo de fertilização, ocorre a penetração do espermatozoide já capacitado no oócito secundário maduro presente na porção distal da tuba uterina, levando à fusão dos pró-núcleos feminino e masculino e à liberação do segundo corpúsculo polar, formando o núcleo de uma nova célula, a primeira célula do embrião. A fertilidade dos espermatozoides caninos apresenta um declínio cerca de 1 a 2 dias após serem depositados no trato genital da fêmea, porém o número de espermatozoides férteis permanece alto, em média por 6 a 7 dias. O ápice de fertilidade nas cadelas está compreendido entre o dia 0 do surgimento da onda de LH até o 5° dia após, já que nesse período estão incluídos o pico de LH e as ovulações. Esse período termina com o fechamento da cérvix e a subsequente degeneração dos oócitos não fecundados. Desenvolvimento embrionário inicial Os oócitos fertilizados são mantidos dentro das tubas uterinas por 9 a 10 dias e entram no útero no estágio de mórula. O desenvolvimento embrionário na espécie canina é considerado lento, e o período anterior à implantação é particularmente demorado (18 a 20 dias) se comparado às outras espécies domésticas. As clivagens se iniciam por volta de 72 a 96 horas após as ovulações. Os zigotos apresentam-se bipartidos na porção média/distal da tuba uterina, após 120 horas das ovulações, com diâmetro variando entre 110 a 170 µm. As clivagens prosseguem com o estágio de 8 células, de 124 a 288 horas após as ovulações ou 4,5 a 12 dias, sendo essa fase correspondente à ativação do genoma embrionário. Nesta etapa, alguns embriões ainda estão envolvidos por uma camada de células do cumulus. A divisão subsequente em 16 células ocorre na porção distal da tuba uterina, com diâmetro variando entre 188 a 200 µm (incluindo ZP). Aparentemente, a clivagem embrionária de 2 a 16 células ocorre mais rapidamente após a fertilização de oócitos jovens, se comparada a de oócitos em estágio de maturação mais avançada. O período de ocorrência das fertilizações tem uma duração limitada de 5 a 7 dias após a onda pré-ovulatória de LH. Clivagens mais rápidas no período pré-implantação são necessárias para tornar os estágios de desenvolvimento embrionários similares, compensando esta variação de tempo entre as fertilizações, possibilitando que os embriões atinjam estágios similares antes de serem efetivamente implantados. As mórulas são visíveis com 192 a 216 horas após as ovulações (8,5 a 10 dias) e permanecem acumuladas no segmento distal das tubas uterinas, sendo dependentes da secreção dessa estrutura para garantir sua nutrição. Uma cavidade se desenvolve rapidamente no centro da mórula, após 10 a 12 dias das ovulações. Essa cavidade, repleta de fluido, que se acumula nos espaços intercelulares irregulares é denominada blastocele. O blastocisto é caracterizado por conter em média 32 a 64 células que se tornam expandidas ao final do 12º dia. O diâmetro do blastocisto inicial é de 215 a 350 µm, chegando a 500 a 750 µm na fase expandida, porém, pode chegar a 1.000 µm, quando atinge o estágio de blastocisto tardio. Nas células embrionárias, ocorre simultaneamente a diferenciaçãodos tecidos embrionários: o trofoblasto, que dará origem a placenta e a massa celular interna, a qual dará estruturação ao próprio embrião. Entre os estágios de blastocisto inicial e expandido (10 a 12 dias), ocorre uma diminuição da espessura da zona pelúcida, provavelmente por consequência de ação enzimática e crescimento embrionário. Com 16 a 20 dias, o blastocisto chega a 2500 µm e sua conformação expandida previne o flushing de embriões intactos do útero com 20 a 21 dias. Os embriões entram no útero, permanecem livres nos cornos e corpo do útero, por um período variável de 12 a 17 dias após as ovulações. Nesta fase, os embriões atingem um diâmetro de 2.300 µm e ocorre a migração trans-uterina. Implantação - Os estudos sobre o momento da implantação nos cães são bastante discordantes entre os autores. Segundo Reynaud et al. (2005), a implantação se completa com 18 a 21 dias após as ovulações. Allen (1995) e Concannon (2000) sugerem que a implantação ocorre por volta do 22º ao 23º dia a partir da onda pré-ovulatória de LH ou cerca do 24º ao 25º dias após as ovulações. A invasão endometrial ocorre por volta do 13º dia de gestação e foi caracterizada pelo aparecimento de massas de sinciciotrofoblasto que penetravam entre as células epiteliais maternas de forma crescente em direção ao perimétrio, espalhando-se pelo lúmen e dentro das glândulas endometriais. O trofoblasto que cresceu ao redor da camada de capilares foi caracterizado por estabelecer uma estreita relação com os vasos sanguíneos maternos. No 16° dia de gestação foi verificada uma expansão considerável dos sítios de implantação e a invasão primária estendeu-se completamente por todo o útero, menos ventralmente ao embrião, porém, a penetração máxima do trofoblasto só foi observada em torno do 26º dia, caracterizando a maturação do sincício fetal. Entre o 21º e 40º dia de gestação cada embrião adquire um formato esférico. Até o 35º dia há uma constricção entre cada vesícula embrionária, após este período há expansão dessas constricções, de forma que as membranas corio-alantoídeas adjacentes entram em contato umas com as outras e ambos os cornos uterinos tornam-se uniformemente distendidos, permanecendo assim até o final da gestação. 12. Quando ocorre a fixação e placentação? Após a sinalização do embrião e o reconhecimento da gestação ocorre a fixação do embrião às camadas superficiais do epitélio materno. Esse processo nos carnívoros domésticos é mais gradual, os embriões flutuam dentro do lúmen uterino por intervalos prolongados; aproximadamente 15 dias nas cadelas. A implantação no útero ocorre 18 a 21 dias após a ovulação, esses processos dificultam estimar com exatidão a idade gestacional. A placenta se forma a partir da implantação do blastocisto no útero, a partir daí passa a ser um órgão transitório complexo e funcional, que no curso de seu desenvolvimento apresenta diversas modificações. 13. Quais as possíveis causas de reabsorção fetal? Dentre as causas não-infecciosas de mortalidade fetal e neonatal canina destaca-se a hipóxia associada a intercorrências durante a transição fetal-neonatal. Outras causas não-infecciosas de mortalidade fetal e neonatal canina são: agressões físicas, distúrbios genéticos, intoxicações e desequilíbrios nutricionais. A morte fetal ou neonatal associada a infecções pode decorrer de placentite, sem acometimento direto dos tecidos fetais pelo agente, de infecção direta do feto ou neonato com lesões inflamatórias, ou de malformações e sequelas decorrentes da infecção. Ainda, o adoecimento da cadela pode levar à morte fetal/neonatal, sem a infecção direta do filhote ou da placenta. As infecções bacterianas são consideradas a principal causa infecciosa de mortalidade fetal e neonatal canina. A Brucella canis é citada por muitos autores como um agente bacteriano muito importante como causa de aborto, natimortalidade e morte neonatal na espécie canina. Os agentes bacterianos isolados com mais frequência em casos de sepse neonatal canina são a Escherichia coli, Streptococcus spp., Staphylococcus spp., Proteus sp., Pseudomonas aeruginosa, Enterococcus sp., Klebsiella pneumoniae. Dentre os agentes virais, o herpesvírus canino e o vírus diminuto dos caninos são os mais estudados. Há ainda raríssimos relatos de infecção perinatal pelo parvovírus canino, adenovírus canino e vírus da cinomose canina. Os agentes protozoais são pouco estudados e pouco relatados em fetos e neonatos caninos. Ocorre transmissão transplacentária de Leishmania infantum, Neospora caninum e Toxoplasma gondii. 14. Descreva alguns fatores que poderiam ter afetado as gestações anteriores da cadela. A P4 sérica deve ser acompanhada a cada 1 a 2 semanas em cadelas com histórico de falha gestacional ou insuficiência luteínica, pois uma condição oposta também pode acometer a cadela como baixas concentrações de P4 que pode ocorrer aproximadamente nos dias 30 a 35 da gestação. Essa baixa produção de P4 pode ter várias causas como: aumento da demanda de P4 uterina, aumento do metabolismo ou ovários com produção insuficiente de P4 (hipoluteoidismo). A origem dessa insuficiência não é compreendida em sua totalidade, mas pode ser ocasionada pela secreção placentária anormal de relaxina, secreção insuficiente de prolactina ou outras causas não identificadas (incluindo doenças infecciosas como o Herpes Vírus). 15. Qual seria o momento para o uso da ultrassonografia é o momento ideal para detecção embrionária? O exame ultrassonográfico é extremamente útil como auxílio no diagnóstico e acompanhamento gestacional de cadela. A realização de exames ultrassonográficos é recomendada mesmo antes da fêmea estar prenhe, especialmente em cães de criadores e de alto valor comercial. Essa recomendação se inicia no período pré-cópula, visando avaliar os ovários, o útero e a bexiga em busca de eventuais sinais de processos inflamatórios, além de realizar um check-up das demais estruturas da cavidade abdominal. Durante o diagnóstico gestacional, o exame ultrassonográfico é fundamental para identificar precocemente a gestação, analisar possíveis complicações, como a reabsorção embrionária, acompanhar o crescimento do embrião e do feto, e detectar mortes fetais precoces. No terço final da gestação, o exame ultrassonográfico é particularmente relevante para monitorar os fetos, analisando as variações na frequência cardíaca fetal juntamente com o índice de resistência da artéria umbilical, e para detectar precocemente possíveis sofrimentos fetais, permitindo uma melhor avaliação do momento mais próximo do parto iminente. A ultrassonografia pré-natal em cadelas é uma ferramenta diagnóstica crucial para diversos propósitos, incluindo a análise da viabilidade fetal, desenvolvimento embrionário, estimativa da idade gestacional, sexagem fetal, detecção precoce de sofrimento fetal por meio da avaliação de parâmetros como as variações na frequência cardíaca fetal nos estágios finais da gestação, auxiliando na decisão sobre a necessidade de uma cesariana. 16. Dosagem de relaxina: quando e por que fazer? Testes de dosagem plasmática de relaxina podem detectar gestação 21 dias após a cópula em cadelas, por ser a relaxina um hormônio sintetizado pela placenta. O aumento de sua concentração inicia-se entre os dias 20 e 30 da gestação, com o pico ocorrendo entre os dias 40 e 50. Suas concentrações a partir da placenta se elevam 21-24 dias após o pico de LH até o final da gestação, alcançando concentrações máximas (5ng/mL) no final da gestação (40–50 dias de gestação). As concentrações de relaxina diminuem após o parto, mas permanecem detectáveis por pelo menos 30 dias durante a lactação. Um ensaio imunoenzimático para relaxina está disponível e pode ser usado para o diagnóstico da gestação, no entanto podem ocorrer resultados falso-positivos após o abortamento. 17. Radiografia para contagem fetal: fazer ou não? Por que? A radiografiaapós o 45º dia de gestação, momento em que já ocorreu a mineralização óssea, é o método mais indicado para a contagem do número de filhotes. Além disso, a radiografia também pode servir como método de observar mortes fetais e determinar possíveis causas de distocias que podem interferir no momento do parto, como a realização do exame pelvimétrico e indicar a possível necessidade de uma cesariana. 18. Diagnóstico diferencial entre gestação e pseudogestação. O diagnóstico é feito com base na anamnese, histórico do animal, presença de sinais clínicos e pode incluir exames complementares, como a ultrassonografia para diagnóstico diferencial entre gestação real, pseudociese e piometra. 19. Quais os cuidados nutricionais e suplementação? A gestação da cadela tem duração média de 63 a 65 dias. Nesse período é fundamental que a mãe seja assistida nutricionalmente e que sejam feitas mudanças na dieta de acordo com a necessidade individual de cada uma. Para que o manejo seja feito de forma saudável, deve-se fazer o controle da ingestão energética, para que a cadela não apresente sobrepeso nem desnutrição, pois ambos os fatores influenciam diretamente no desenvolvimento da ninhada. Após a cópula, a fêmea apresenta ganho de peso médio de 15% a 20% até o parto, com aumento de 5% a 10% no pós-parto. A necessidade de maior ingestão energética se dá a partir do 40º dia de gestação, quando há o início de desenvolvimento significativo dos fetos, o aumento da ingestão deve ser de 25% a 60% a depender do porte da cadela, quanto maior o porte e a massa muscular prevista para o padrão da raça, maior deve ser a ingestão. Não há necessidade de aumento de ingestão energética no momento da cópula e nem imediatamente após, é importante que a dieta seja mantida como está para não levar à obesidade, a habilidade de cópula dos animais e favorece o envelhecimento precoce. Outras consequências negativas para a gestação advindas do sobrepeso são taxa de ovulação diminuída; baixa fertilidade; fetos pequenos, subdesenvolvidos e mal-formados em razão da perda do ácido fólico, que possui efeito protetor; número de filhotes por ninhada reduzido; produção de leite comprometida e com composição alterada; parto distócico; cio silencioso e anestro prolongado. Outro problema observado é a desnutrição, que baixa as atividades metabólicas e síntese de hormônios esteroidais, que levam à insulinemia e, portanto menor estímulo à ovulação, e baixa concentração de esteróides, levando a menor produção de hormônios sexuais, devido à produção de opióides endógenos, mais especificamente o neuropeptídeo Y, que inibe o estímulo noradrenérgico de GnRH e causa supressão da pulsatilidade de LH. De acordo com a FEDIAF (European Pet Food Industry Federation), um dos melhores guias de nutrição animal juntamente com a AAFCO (Associationof American Feed Control Officials) e a NRC (National Research Council), a recomendação nutricional quantitativa para suprir as necessidades nutricionais da cadela, a partir de cinco semanas de gestação, é: 132 X PCkg0,75+(26 XPCkg) Sendo PC correspondente a “peso corporal”. Uma dieta específica para cadelas gestantes deve ser formulada para atender às necessidades crescentes de proteínas, vitaminas, minerais e calorias. As proteínas são especialmente importantes para o desenvolvimento muscular e do tecido fetal, enquanto as vitaminas e minerais desempenham papéis essenciais em diversos processos metabólicos e de desenvolvimento. As calorias adicionais fornecidas pela dieta são necessárias para sustentar o aumento do metabolismo da mãe e o crescimento dos filhotes. Uma formulação altamente digerível e de alta qualidade para o crescimento e desenvolvimento dos filhotes é geralmente recomendada durante o terceiro trimestre, e múltiplas pequenas refeições podem fornecer à mãe os meios para manter a ingestão adequada de nutrientes e calorias. Após a sexta semana de gravidez, a ingestão de alimentos da cadela deve aumentar gradualmente. À medida que os fetos crescem, a pressão abdominal aumenta e são aconselhadas pequenas refeições frequentes. Foi demonstrado que dietas contendo altos níveis de ácido docosahexaenóico (DHA) ômega-3 melhoram a saúde e o desenvolvimento dos filhotes e devem ser consideradas. Durante as últimas três semanas de gravidez, a ingestão de alimentos deve aumentar até uma vez e meia o nível normal, alimentandoos animais em refeições menores e com mais frequência. Isso ajudará a manter a saúde e a condição corporal da cadela enquanto ela está nos estágios finais da gravidez, assim como a melhor produção de leite após o parto. Durante a gestação, é comum que as cadelas apresentem uma redução no consumo de alimentos no início, seguida por um aumento gradual à medida que a gestação avança. Assim sendo, é importante oferecer alimentos altamente palatáveis e de fácil digestão para garantir que a cadela esteja recebendo a quantidade adequada de nutrientes, mesmo com a variação do apetite. Principais nutrientes para a cadela gestante e lactante Água A ingestão de água em quantidade correta é de suma importância para as cadelas lactantes, pois quanto maior for o consumo maior será o volume de leite produzido. As fêmeas devem ingerir em média de 50 a 60mL de água por quilo , podendo chegar em até 3 vezes mais do que o volume de matéria seca ingerida. Deve ser oferecida limpa e fresca, preferencialmente filtrada, para evitar contaminação por insalubridade, especialmente por endoparasitas. Além disso, a fêmea deve ter acesso ao líquido na hora que quiser, tanto durante a gestação quanto após o parto. Proteínas As proteínas são fundamentais na nutrição dos cães, visto que são animais carnívoros de acordo com sua fisiologia, apresentam intestino curto e dentição voltada para rasgar o alimento e, além disso, representa uma alimentação com baixo consumo de energia com 80% de digestibilidade de proteína bruta. A quantidade mínima saudável para a alimentação de cães é 25% de proteína. Para as fêmeas gestantes é de suma importância que seja oferecida a quantidade correta de proteína em sua alimentação, pois ela interfere na atividade dos hormônios sexuais envolvidos na liberação de GnRH, gonadotrofinas, esteróides sexuais, entre outros hormônios importantes na reprodução. A tirosina é importante para modular a pulsatilidade do LH. Além disso, suplementação de tirosina propicia aumento no número de cadelas prenhas e as fêmeas demonstraram maior receptividade aos machos. Com a lisina deve-se ter atenção em relação aos filhotes, pois em excesso esse aminoácido influencia negativamente no ganho de peso do filhote. O máximo que um filhote pode ter de lisina em sua dieta sem causar maiores danos ao seu crescimento é de 2,9%. Outro aminoácido importante é a arginina, sua deficiência na alimentação acarreta na intoxicação por amônia, salivação excessiva, vômito, tremores e pode levar à morte. Além de sua função na excreção da amônia, é também importante para o relaxamento dos vasos sanguíneos e auxilia na liberação de hormônios diversos. A arginina está presente em carnes e vísceras. A fenilalanina, além de apresentar grande importância fenotípica, por ser vital na produção de feomelaninas, responsáveis por definir a cor da pelagem do animal, é também vital para a síntese da tirosina e para a produção de hormônios esteroidais, auxilia no bom funcionamento do cérebro e no sucesso da reprodução. Sua ausência pode acarretar descoordenação motora, disfunção neurológica, hiperatividade e, em caso de cães de pelagem preta, o pelo pode ficar avermelhado. A histidina é um aminoácido precursor de compostos neurológicos, como, por exemplo, a histamina, além disso, possui função estrutural em proteínas. Se não estiver em quantidade correta pode acarretar em perda de peso e falta de apetite. Conhecida como um alfa aminoácido, a treonina age como precursora de moléculas atuantes na produção de energia, podendo acarretar perdade peso administrada de forma insuficiente. Outro aminoácido que resulta na falta de apetite caso não seja administrado corretamente é o triptofano, é um precursor para a síntese da niacina e importante na produção de hormônios. Gorduras Em quesito de reprodução, as gorduras estão associadas à síntese de hormônios esteróides, função estrutural, fornecimento de energia com baixo teor calórico, transporte de vitaminas lipossolúveis e fornecimento de ácidos graxos essenciais.Em termos reprodutivos é necessário que a quantidade de gordura na alimentação das cadelas seja 0,5% a 8,5%. Os ácidos linoléico e α-linoléicos são os precursores de outros ácidos graxos, que estão dentro dos grupos ômega 3 e ômega 6, respectivamente, são portanto, essenciais para a manutenção da gestação. Ômega 3 e 6 são ácidos graxos essenciais, possuem elementos estruturais membranais que auxiliam na formação de novos tecidos e são de suma importância para o desenvolvimento do neonato, portanto devem ser administrados à gestantepeixes de água salgada ou óleo de peixe. Durante a gestação e o período neonatal, o ácido docosahexaenóico (DHA) e eicosapentaenoico (EPA) e o ácido araquidônico (AA), tipos de ômega 3 e 6 respectivamente, são depositados no tecido fetal dos filhotes e seu transporte ocorrerá por meio da placenta. Ambos são de suma importância para o desenvolvimento neonatal, pois fazem parte dos 11 ácidos graxos cerebrais principais. Eles se acumulam no cérebro e na retina dos filhotes, porém a suplementação com o ácido α-linoleico (ALA) e linoleico não é uma forma eficiente de aumentar os níveis de ácido docosahexaenóico (DHA) e ácido araquidônico (AA) no leite. Os ácidos graxos acima têm como principal função serem precursores dos eicosanóides, compostos representados especialmente pelos leucotrienos, tromboxanos e prostaglandinas, que possuem função de desencadear efeitos da resposta inflamatória e na resposta imune. Quando o balanceamento dos níveis de proteína na dieta do animal é correto, há tolerância de grande quantidade de gordura na alimentação, entretanto caso haja deficiência de proteína na dieta, o excesso de gordura na alimentação pode ocasionar efeitos adversos. Carboidratos Por mais que os carboidratos sejam essenciais aos fetos e simbolizem um bom desenvolvimento durante a prenhez, por causa da glicose, não há necessidade de suplementação, visto que as fêmeas têm capacidade de produzir glicose a partir da neoglicogênese de forma eficiente. Porém, caso a dieta da cadela não tenha nenhum carboidrato, durante o período gestacional, a quantidade de proteína ingerida por ela deve aumentar, para evitar hipocalcemia na mãe e morte dos filhotes. Os carboidratos que podem contribuir para alimentação da cadela são os monossacarídeos, presentes em frutas, legumes e cereais, pois possuem maior simplicidade estrutural e, portanto, são mais absorvíveis. Outras duas fontes de carboidrato que podem ser administradas são as fibras, pois contribuem para o funcionamento do sistema gastrointestinal dos cães, devido à sua estrutura conformacional que não permite ação enzimática. Já o amido, é uma fonte de carboidrato que deve ser evitada, pois uma parte dele não é hidrolisada devido a fatores antinutricionais, como o tanino. Um dos fatores que contribuem para a digestão incompleta do amido é a falta de acessibilidade física dos cães para efetuar essa digestão quando ele está presente em alimentos como grãos e sementes integrais ou moídas parcialmente, pois fica inacessível à ação enzimática. Ainda sobre o amido, é fundamental que seja moído ou cozido quando administrado para animais carnívoros, por exemplo, para a boa digestão dos cães, o amido de milho tem que ser moído e micronizado, já os amidos de mandioca e batata precisam ser cozidos. Minerais Os minerais contribuem para melhorar o desempenho na reprodução e com a viabilidade fetal e neonatal. Alguns alimentos ricos em minerais que podem ser oferecidos aos animais são fígado (rico em cobre, folato, riboflavina, selênio e zinco), banana (rica em cálcio) e a gema do ovo (rica em cálcio e selênio). Os minerais quelatados, são os compostos por íons metálicos que são sequestrados por substâncias orgânicas, promovem uma maior absorção por parte dos cães, pois não há necessidade de fazer ligação iônica com os aminoácidos estomacais livres, o que contribui para que o mineral não seja integralmente absorvido. Por essa razão, deve-se evitar o uso de minerais não quelatados na dieta do animal. O cálcio é um mineral importante, mas que, em excesso, é muito prejudicial à saúde, pois gera supressão do paratormônio e ausência de cálcio no parto, que gera perda de força da contração uterina, levando a um quadro de eclampsia. Nesses casos os neonatos não podem mamar na mãe e devem ser alimentados por fórmula própria para filhotes. Portanto nunca deve ser suplementado em dietas já balanceadas, sendo o mínimo recomendado de 1%, caso haja essa quantidade de cálcio na alimentação não há necessidade de suplementação. Em condições normais há a homeostase, a partir da ação do paratormônio e da calcitonina. Vitaminas São importantes para a viabilidade fetal, auxiliam na manutenção da placenta, e neonatal e para auxiliar no processo reprodutivo, pois influenciam na produção de hormônios ovarianos e de proteína uterina. Alguns alimentos benéficos para cães ricos em vitaminas são o fígado, melão, maçã, beterraba crua, brócolis, abóbora, ovo, entre outros. A vitamina B9 (ácido fólico), possui atividade enzimática moduladora da síntese de DNA, portanto, em déficit, pode levar a anomalias crânio-faciais, fenda palatina e defeitos na formação do tubo neural dos filhotes. Já a vitamina A possui alta demanda dos anexos fetais do próprio embrião, portanto é necessário ter atenção aos níveis dessa vitamina para garantir que não faltará a quantidade necessária para a cadela.Os betacarotenos, precursores da vitamina A, além de ter efeito antioxidante, protegem o feto contra os radicais livres. A vitamina E em cadelas prenhas é mais baixo do que em cadelas não prenhas por causa do aumento do estresse oxidativo ou por demanda do feto. Essa vitamina é um antioxidante lipossolúvel que está no plasma, eritrócitos e tecidos específicos que eliminam radicais livres, essa ação previne a oxidação dos ácidos graxos poliinsaturados nas proteínas de membrana e ácidos nucléicos. Além disso, os tocoferois são importantes doadores de hidrogênio do grupo 6-OH, que tem como objetivo a eliminação de radicais livres. A suplementação com vitamina D acima dos níveis fisiológicos é desaconselhável, pois, ao final da gestação, o excesso dessa vitamina aumenta a probabilidade de haver dilatação gástrica, prejudica a absorção de minerais essenciais, além de predispor distocia e hipocalcemia após o parto. Alimentação contra-indicada Em nenhum momento as dietas vegetarianas e veganas devem ser incentivadas para cães, por serem animais primordialmente carnívoros, porém em fase de gestação é ainda mais prejudicial tanto à mãe quanto ao desenvolvimento dos filhotes. Esses alimentos revelaram falta ou deficiência de diversos nutrientes, como o ácido araquidônico e vitaminas A e B12 e excesso de zinco e cobre. Dietas com baixo teor ou sem proteína animal podem acarretar em filhotes com problemas congênitos e ninhadas com alta mortalidade neonatal. 20. Descreva o manejo da cadela para minimizar o risco de reabsorção fetal. Cuidados com a saúde materna antes do acasalamento, como vacinação e vermifugações periódicas, e boa nutrição, são fundamentais, assim como cuidados ao longo da gestação. É importante acompanhar a gestação com exames pré-natais periódicos, e evitar o uso de fármacos com potencial embriotóxico ou de toxicidade fetal; deve-se realizar o diagnóstico precoce da gestação e dispensar cuidados extras a fêmea, como alteração da alimentação e realização de vermifugação, principalmente contra Toxocaracanis e Ancylostoma caninum. 21. Como poderíamos estar realizando o monitoramento do bem-estar fetal? O acompanhamento pré-natal é uma prática fundamental para garantir a saúde e o bem-estar das cadelas gestantes, bem como o sucesso da gestação e do parto. O período gestacional em cadelas requer cuidados específicos e atenção especializada para prevenir complicações e assegurar o desenvolvimento saudável dos filhotes. Além disso, a identificação precoce de potenciais problemas de saúde, tais como infecções uterinas, deficiências nutricionais, distocia e complicações obstétricas são fundamentais para possibilitar intervenções oportunas e reduzir riscos tanto para a mãe quanto para os filhotes. O pré-natal em animais desempenha um papel crucial na promoção da saúde reprodutiva e no bem-estar da mãe e dos filhotes. Fornecer cuidados adequados durante a gestação não apenas aumenta as chances de um parto seguro e sem complicações, mas também contribui para o desenvolvimento saudável dos filhotes desde o início de suas vidas. O acompanhamento pré-natal em cadelas gestantes desempenha um papel fundamental na garantia da saúde materna e na viabilidade dos filhotes. É essencial fornecer cuidados especializados desde o início da gestação até o momento do parto. Esses cuidados envolvem uma série de medidas, como, garantir a nutrição adequada e identificar precocemente quaisquer problemas que possam surgir ao longo do processo gestacional. O desenvolvimento fetal normal depende de uma troca intrínseca entre mãe e embrião, em que vários elementos podem influenciar esta interação íntima, incluindo fatores genéticos, ambientais ou epigenéticos, representando um impacto significativo no desenvolvimento embrionário. Um dos aspectos mais importantes do pré-natal em cadelas é a avaliação nutricional. Durante a gestação, as necessidades nutricionais da cadela aumentam significativamente para suportar o crescimento dos filhotes e as demandas metabólicas associadas à gravidez. Portanto, é crucial fornecer uma dieta balanceada e adequada em nutrientes, incluindo proteínas, vitaminas, minerais e calorias suficientes para garantir o desenvolvimento saudável dos filhotes e evitar deficiências nutricionais na mãe. Além da nutrição adequada, o acompanhamento pré-natal também envolve o monitoramento regular do estado de saúde da cadela gestante. Isso inclui exames clínicos regulares realizados por um médico veterinário para verificar o peso corporal, a condição corporal, a temperatura corporal e quaisquer sinais de possíveis patologias ou desconforto. Exames de ultrassom também podem ser realizados para monitorar o desenvolvimento dos fetos, avaliar o estado do útero e detectar qualquer anomalia precocemente. A importância do pré-natal vai além da simples monitorização da gravidez, sendo um processo abrangente que envolve avaliações médicas, exames, orientações nutricionais e educativas. A efetividade desse acompanhamento regular se reflete não apenas na saúde da gestante, mas também na promoção de um ambiente propício para o desenvolvimento adequado do feto, prevenindo potenciais riscos e complicações que podem impactar negativamente o desfecho da gestação. Cuidados no início da gestação A detecção das ovulações, bem como das concentrações plasmáticas de progesterona (P4) ao longo da gestação podem ser realizadas pela mensuração seriada de P4, permitindo o diagnóstico de anovulação (quando a concentração de P4 não ultrapassa 1-2 ng/mL) ou hipoluteoidismo (quando há diminuição abrupta da progesterona na gestante, fora do padrão clássico lento e gradativo). Por outro lado, se a cadela ovulou, foi acasalada com um macho de fertilidade conhecida e no momento fértil do estro, e não apresenta vesículas embrionárias ao exame ultrassonográfico precoce, isto significa que houve mortalidade embrionária precoce ou que oócitos não fertilizados degeneraram no interior das tubas uterinas ou útero. Além disso, caso a fêmea gestante entre em contato com alguma substância embriotóxica, pode ocorrer mortalidade embrionária, geralmente assintomática. Um dos principais cuidados nessa fase é o diagnóstico precoce da gestação, que pode ser feito por palpação abdominal, ultrassonografia ou dosagem sérica de relaxina. O exame radiográfico não é aconselhável como método de diagnóstico de gestação devido as radiações emitidas. A palpação abdominal pode ser realizada principalmente entre os dias 23-30 após o acasalamento, ou 25-30 após o pico de LH. Entretanto, em algumas situações, pode não ser possível a diferenciação do aumento de volume uterino gestacional ou aquele relacionado a afecções uterinas. A ultrassonografia gestacional é um exame precoce e quando realizado por profissional experiente, com equipamento de boa qualidade, vesículas embrionárias podem ser detectadas a partir de 19-21 dias após o pico de LH, e entre 23-25 dias já se detecta os batimentos cardíacos. Além disso, é possível calcular a idade gestacional e diagnosticar a viabilidade embrionária, morte fetal, anomalias fetais e até mesmo realizar a sexagem fetal. O diagnóstico de gestação pode ser realizado também pela mensuração plasmática de relaxina, hormônio produzido predominantemente pela placenta canina, que funciona como marcador gestacional. Aumento significativo da concentração plasmática de relaxina é observado no dia 24 após a ovulação, mas deve-se ter cuidado para não correr o risco de falso-positivo, nos casos de abortamento ou interrupção medicamentosa da gestação. Cuidados no final da gestação Um dos principais cuidados no terço final da gestação é o suporte nutricional da cadela gestante. Além disso, é o momento de se preocupar com a vermifugação da fêmea para controlar e minimizar a presença de larvas vivas de T. canis e A. caninum, e mais a frente, iniciar os preparativos para o parto. Cinco a 10 dias antes do parto é recomendado que a fêmea gestante passe por um exame pré-natal (“Exame dos 55 dias”). A gestante deve passar por um exame clínico completo, e quando possível avalia-se as concentrações de glicose e cálcio séricos, além da avaliação hematológica. Idealmente, a cadela deve passar também por exame ultrassonográfico e/ou radiográfico. O exame radiográfico é útil para determinar o número exato de fetos, diagnosticar fetos mortos, mas ele não permite determinar a estática fetal devido a mobilidade fetal. Já a ultrassonografia é um exame melhor para avaliar a saúde fetal, por meio da frequência cardíaca fetal (FCF) e movimentos fetais, quantidade de líquido amniótico, e até mesmo a presença de fetos com anormalidades. 22. Como explicar ao tutor sobre o momento da preparação para o parto e sinais de alerta para complicações? É de extrema importância que o tutor seja orientado sobre como se desenvolve e como proceder no momento do parto, para ser capaz de reconhecer o parto normal do anormal, e poder recorrer ao auxílio veterinário de forma precoce, se necessário. O tutor deve ser informado, por exemplo, sobre como ocorre o desencadeamento do parto e suas fases, a duração total do parto, os sinais normais e as possíveis anormalidades, a duração média do intervalo entre nascimentos, os cuidados básicos com os neonatos, e a temperatura ambiente ideal para os neonatos. Essas orientações são cruciais para minimizar a mortalidade neonatal. Outra questão muito importante é a previsão acurada da data do parto. Além de permitir que o tutor se programe melhor e não perca noites de sono desnecessárias, irá maximizar a sobrevivência neonatal se o parto for assistido de perto pelo tutor, e se necessário, pelo veterinário. REFERÊNCIAS AGUIAR, Cristiane Silva; RIBEIRO, Márcio de Oliveira. Endocrinologia da gestação e parto de cadelas: revisão de literatura. Endocrinologia e Imunologia. Capítulo 4, p.28-34, 8 ed., Editora Pasteur. CASALS, J. B. Células-tronco localizadas na cinta placentária de carnívoros domésticos (Canisfamiliaris e Felis domesticus). 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