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Entrevista Clínica: a importância da escuta 
Relação médico paciente Transferência e contratransferência 
Professora: Dra. Juliana Marcondes Pedrosa de Souza
O encontro entre médico e paciente não é regido por
elementos objetivos e racionais apenas. Ao entrar em
contato com um doente, o médico recebe uma pessoa que
traz à consulta sua visão de mundo e também suas dúvidas,
aflições e expectativas conscientes e inconscientes. Em
grau maior ou menor, mesmo o indivíduo mais equilibrado e
forte, ao ficar doente, deposita no médico temores e
esperanças, matizados por necessidades psicológicas
primitivas. Neste capítulo, focalizamos como a pessoa do
médico responde a essa demanda de seus pacientes, bem
como a influência do contexto institucional nessa relação.
 (Neury José Botega)
Prática psiquiátrica no hospital geral : interconsulta e Emergência [recurso
eletrônico] / Organizador, Neury José Botega. – 4. ed. – Porto Alegre :
Artmed, 2017. e-PUB.
Guia Calgary – Cambridge para o processo de comunicação e entrevista
médica
Aula 04 Entrevista Clínica: a importância da escuta 
Entrevista clínica
Elementos essenciais para o sucesso da consulta médica
Entrevista clínica
Modelo Calgary-Cambridge
(Entrevista Clínia)
Aborda diferentes etapas do processo de entrevista,
incluindo a construção do relacionamento com o
paciente, coleta de informações, e comunicação de
informações e planejamento. 
Amplamente utilizado em treinamento de habilidades de
comunicação médica: valorizado por sua abordagem
sistemática e centrada no paciente, ajudando a melhorar
a prática clínica e a experiência do paciente.
Objetivos: facilitar uma comunicação clara e eficiente,
ajudando os profissionais de saúde a obter informações
precisas, diagnosticar de forma adequada e estabelecer
uma relação de confiança com os paciente; envolver o
paciente de forma ativa no processo de diagnóstico e
tratamento, considerando suas preocupações e
preferências.
Guia de Habilidades Processuais de Comunicação de Calgary-Cambridge. https://doi.org/10.1590/1981-52712015v42n2RB20170138
Transferência Contra -
Transferência
https://doi.org/10.1590/1981-52712015v42n2RB20170138
Componentes Principais do Guia Calgary-Cambridge
Estabelecimento do Relacionamento
Saudação e Introdução: Começar a consulta com uma saudação cordial e uma
introdução adequada, estabelecendo um ambiente de confiança e respeito.
Desenvolvimento de Relacionamento: Criar uma atmosfera de conforto e colaboração
para facilitar a comunicação aberta.
Coleta de Dados
Exploração do Problema Principal: Incentivar o paciente a falar sobre suas
preocupações e sintomas, usando perguntas abertas para entender melhor o
problema.
Histórico Médico e Pessoal: Coletar informações relevantes sobre o histórico médico,
familiar e social do paciente para contextualizar o problema atual
Exemplo Clínico
 Consulta com Paciente com Dor Abdominal
1. Início da Consulta
Ambientação
O médico recebe uma paciente, sexo feminino, 45 anos, que se queixa de dor abdominal.
O médico a cumprimenta, se apresenta e convida-a a se sentar em uma cadeira confortável.
Abertura da conversa
 "Olá. Eu sou o Dr. XX Como você está hoje? O que a trouxe ao consultório?"
Identificação da queixa principal
Paciente responde: "Estou com dor na barriga, que começou há dois dias".
2. Coleta de Informação
Exploração inicial 
O médico usa perguntas abertas para permitir a paciente a descreva a dor: "Pode me contar
mais sobre essa dor? Onde ela está localizada e como é a sensação?"
História médica detalhada
Após ouvir a descrição inicial, o médico continua com perguntas fechadas para obter mais
detalhes: "A dor piora depois de comer? Você teve febre ou náuseas? Já teve algo semelhante
antes?"
História social e pessoal
O médico também pergunta sobre o estilo de vida da paciente: "Como está sua alimentação?
Você tem consumido alimentos diferentes recentemente? E o estresse, tem estado sob
pressão ultimamente?"
3. Exame Clínico
Explicação do exame
Antes de iniciar o exame físico, o médico explica: "Agora vou examinar seu abdômen para
entender melhor o que pode estar causando essa dor. Vou começar palpando suavemente. Se
sentir algum desconforto, por favor, me avise."
Realização do exame
Durante o exame, o médico observa as expressões faciais da paciente para identificar sinais de
dor e se comunica constantemente: "Está tudo bem até agora? Alguma área mais sensível?"
4. Explicação e Planejamento
Discussão do diagnóstico
Após o exame, o médico se senta com paciente e explica: "Com base na sua história e no exame,
pode ser que você esteja com uma gastrite ou algum tipo de irritação no estômago. Vamos
precisar fazer alguns exames para confirmar."
Exploração das expectativas
O médico pergunta a paciente: "Você já teve algum problema de estômago antes? Já fez uso de
algum medicamento para alívio desses sintomas? Realizou algum exame anteriormente? 
Elaboração do plano
Médico orienta que a paciente fará uma endoscopia e, enquanto aguarda os resultados,
prescreve um tratamento para os sintomas. O médico explica o uso correto do medicamento e
discute mudanças na dieta que podem ajudar a aliviar os sintomas.
5. Encerramento da Consulta
Revisão do plano
O médico revisa o plano: "Então, faremos a endoscopia e, enquanto isso, você usará o antiácido e
tentará evitar alimentos que possam irritar o estômago, como comidas muito apimentadas ou
gordurosas."
Oportunidade para perguntas
 Ele pergunta: "Você tem alguma dúvida sobre o que discutimos hoje ou sobre o plano de
tratamento?"
Despedida:
Após esclarecer todas as dúvidas, o médico finaliza a consulta de forma acolhedora: "Espero que
você se sinta melhor. Qualquer coisa, estou à disposição."
Lori Gottlieb
Autora do livro: escreve sobre seu trabalho mostrando os dois
lados da relação terapêutica :do paciente e do médico a partir
de sua vivencia e experiência
“Como terapeuta, sei muito sobre dor, sobre as maneira
como a dor está ligada à perda. Mas também sei algo menos 
entendido normalmente: que a mudança e a perda andam 
juntas. Não podemos ter mudança sem perda, motivo pelo 
qual é tão frequente as pessoas dizerem que querem mudar, 
mas mesmo assim continuarem exatamente iguais.”
A autora nos conta as histórias de quatro pacientes:
John, um executivo de Hollywood com prêmios Emmy nas prateleiras
de casa mas que acha que todos ao redor dele são idiotas que não
sabem absolutamente nada sobre coisa nenhuma;
Rita, uma mulher de quase setenta anos que carrega a culpa por não
ter protegido os filhos o suficiente de seu ex-marido abusivo. A
tristeza e a culpa que Rita sente são devastadoras e na vida ela
entende que não pode se permitir ser feliz — em seu ponto de vista,
ter qualquer tipo de alegria na vida é invalidar o sofrimento que
seus filhos sentiram.
Charlotte, uma jovem de vinte e pouco anos que tem problemas
com a bebida e entra em relacionamentos amorosos fadados ao
fracasso, um após o outro;
Julie, uma jovem recém-casada lidando com um câncer terminal.
 A perda da confiança é a mais difícil de consertar.
Médico está tentando estabelecer o que é conhecido como uma aliança terapêutica, uma
confiança que precisa se desenvolver para o trabalho ser iniciado.
Antes de falar, pergunte a si mesmo: Como isso vai ressoar na pessoa (paciente) com quem
estou falando?
A felicidade/bem estar do paciente equivale à realidade menos as expectativas.
Os pacientes altamente funcionais são aqueles que conseguem estabelecer relações,
administram responsabilidades de adultos e têm capacidade para uma autorreflexão
O que podemos aprender sobre a relação medico paciente?
Lori Gottlieb
Tipos de relação médico-paciente
01
Médico ativo /
paciente passivo
02
Médico dirigindo /
paciente
colaborando
03
Médico agindo /
paciente
participando
ativamente (aliança
terapêutica)
O que pode influenciar a relação médico-paciente?
Desconfiança/abuso do saber
Vulnerabilidade ou dano da doença
Grandiosidade/merecimento 
Crençasnegativas sobre si, o mundo e o futuro
Transferência
É o fenômeno a partir do qual transferimos sentimentos e
atitudes de uma pessoa ou situação (relação) do passado
para uma pessoa ou situação (relação) no presente.
Paciente em direção ao médico
O paciente projeta expectativas no profissional de saúde
Admiração/desafeição do paciente pelo profissional de
saúde que lembra pessoas do seu ciclo pessoal.
Paciente descoloca sentimentos positivos ou negativos
ao profissional de saúde
A transferência pode gerar resistência
Transferência negativa
 Rupturas na relação
Atrasos/ Faltas
Indiretas/ Mentiras/ Comparações / Desconfiança Negativas em
seguir o tratamento
Mudanças no comportamento não verbal
Transferência positiva 
Necessidade exagerada de agradar
Sedução/ Mentiras (indicando que o tratamento está funcionando,
mesmo que não esteja);
Preocupação repentina do paciente com a sua imagem
diante do médico;
Foco no profissional e não no seu adoecimento ou tratamento.
Contratransferência
A contratransferência compreende o que da personalidade do
profissional, pode interferir no tratamento.
Medico em direção ao paciente 
Médico oferece aconselhamento – ética do bem querer
Médico divulga inapropriadamente experiências pessoais
durante a consulta
Médico ultrapassa os limites na relação com o paciente
(proximidade para a intimidade)
A contratransferência se refere ao movimento do
profissional de saúde que transfere os aspectos afetivos
para o seu paciente
O que mais me afeta é a
mulher que está grávida
e rejeita a gravidez ou a
criança.
A gente se influenciava pelo
ambiente. Mas ao longo do tempo
mudei minha atitude, porque
ninguém aborta por prazer. Aborto
é uma experiência terrível pra
mulher. Atualmente sinto pena
(Botega, Neury José; pág 70)Lembro-me de plantões que
fazia no início da carreira, em
que tinha que realizar várias
curetagens pós-aborto. Então
fazia sem anestesia, como uma
parte da punição a uma
criminosa... E a gente assumia
isso: “Fez aborto?! Agora
sofre!”.

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