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DEFINIÇÃO
Identificação dos principais conceitos de Marshall McLuhan (1911-1980) sobre os meios de
comunicação de massa e as críticas ao teórico. Apresentação do hibridismo nos meios de comunicação
e as sensorialidades acionadas pelas diversas mídias, bem como as mudanças nos papéis de produtor
e de consumidor de conteúdo na era digital.
PROPÓSITO
Discutir a passagem da cultura impressa para a digital a fim de identificar diferentes práticas de
produção e consumo da informação de acordo com os meios e compreender o cenário atual de mídia e
suas potencialidades.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer os conceitos de meios quentes e meios frios de McLuhan e as principais críticas ao teórico
MÓDULO 2
Definir hibridismo, comparando sensorialidades despertadas pelas mídias impressa, digital, audiovisual
e móvel
MÓDULO 3
Comparar os conceitos de mídias de massa e de nicho e os papéis de produtor e de consumidor de
conteúdo no cenário atual
MÓDULO 4
Comparar os efeitos do texto linear e do hipertexto em contextos cross-media, transmídia e multimídia
INTRODUÇÃO
Você sabia que tocamos nossos smartphones, em média, 2.617 vezes por dia? Isso significa consultá-
los 109 vezes por hora, de acordo com Tozzi e Gómez (2018). Em breve, preveem os especialistas,
consumiremos cada vez mais informações em dispositivos vestíveis, que dispensam o uso das mãos,
como óculos e relógios inteligentes, conectados à internet. Será que esses aparelhos podem ser
considerados extensões do corpo humano?
MÓDULO 1
 Reconhecer os conceitos de meios quentes e meios frios de McLuhan e as principais críticas ao
teórico
LIGANDO OS PONTOS
O modo Live View do Google Maps, lançado em 2018, nos ajuda a entender como os meios de
comunicação podem alterar nossa forma de perceber e interagir com o mundo. Esse aplicativo de
realidade aumentada permite que os usuários apontem a câmera do smartphone para a rua e recebam
indicações sobre a rota a seguir até o destino desejado. O diferencial desse app é que as orientações
ocorrem por meio de projeções inseridas na tela, sobre as imagens captadas em tempo real pela
câmera.
Esse modo de navegação pelo espaço urbano demonstra como o virtual não se opõe ao real, mas
convive com ele, lado a lado, ampliando a prática do habitar e fornecendo mais informação ao usuário.
Diante desse exemplo, podemos refletir como os dispositivos de geolocalização foram, de certa forma,
naturalizados por grande parte das pessoas que têm acesso aos dispositivos digitais.
Conforme as ideias de McLuhan, tais serviços constituiriam uma forma de extensão da sensibilidade
humana capaz de expandir a visão, pois tornam desnecessário o conhecimento prévio de trajetos e
referências urbanas. O usuário também amplia sua visão ao ganhar a possibilidade de aproximar as
imagens para ver detalhes ou afastá-las para a visualização de um plano geral do trajeto. Além disso, o
aplicativo torna esse tipo de navegação urbana uma experiência tátil, acionada ao toque da ponta dos
dedos na tela do smartphone.
Apesar de toda a tecnologia envolvida em um dispositivo de realidade aumentada, o Live View também
pode servir para compreendermos outras questões elementares colocadas por McLuhan. Assim como
propôs o autor, o dispositivo do Google faz uso da linguagem gráfica dos impressos, com seus
diagramas e elementos de orientação visual. De maneira oposta, os aplicativos desse tipo, com suas
projeções sobre a realidade, retroalimentam a linguagem de produções audiovisuais, se fazendo notar
em filmes e em vídeos publicitários, como forma de sobrepor informações simultâneas.
Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos?
1. A PARTIR DE MEADOS DOS ANOS 1990, COM A EXPANSÃO DA INTERNET
COMERCIAL, AS IDEIAS DO PENSADOR CANADENSE MARSHALL MCLUHAN
VOLTARAM À TONA COM FORÇA. EM SUAS OBRAS, O AUTOR HAVIA
AFIRMADO QUE CADA NOVO MEIO ALTERA A RELAÇÃO ENTRE OS NOSSOS
SENTIDOS E O MUNDO. O GOOGLE MAPS PODE SER ENTENDIDO COMO
EXEMPLO DE COMO A EVOLUÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
RECONFIGUROU PROGRESSIVAMENTE A SENSIBILIDADE HUMANA. A ESSE
RESPEITO, LEIA AS AFIRMATIVAS E, EM SEGUIDA, MARQUE A OPÇÃO QUE
REÚNE APENAS AS VERDADEIRAS.
O GOOGLE MAPS, ASSIM COMO OUTROS DISPOSITIVOS DO MEIO DIGITAL, PROMOVE
UMA EXTENSÃO DA VISÃO HUMANA.
APENAS A PARTIR DO ADVENTO DA MÍDIA ELETRÔNICA, OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
COMEÇARAM A INFLUENCIAR A MANEIRA COMO PERCEBEMOS O MUNDO.
A ESCRITA RECONFIGUROU NOSSA CULTURA PARA UM MUNDO VISUAL, BASEADO NA
ABSTRAÇÃO, NA LINEARIDADE E NO INDIVIDUALISMO.
A) Apenas a afirmativa I está correta.
B) Apenas a afirmativa III está correta.
C) Apenas as afirmativas I e II estão corretas.
D) Apenas as afirmativas I e III estão corretas.
E) As afirmativas I, II e III estão corretas.
2. APESAR DA GRANDE INFLUÊNCIA QUE ALCANÇOU NAS DÉCADAS DE 1960
E 1970, A OBRA DE MCLUHAN PASSOU A SOFRER DURAS CRÍTICAS A PARTIR
DOS ANOS 1980. PENSADORES COMO UMBERTO ECO, PETER ZUMTHOR E
JAMES CAREY APONTAM CERTOS EXAGEROS E ALGUMAS OMISSÕES
DECISIVAS NAS IDEIAS DO CANADENSE. O USO DE APLICATIVOS DE
GEOLOCALIZAÇÃO COMO O GOOGLE MAPS, POR EXEMPLO, NÃO SUBSTITUI
COMPLETAMENTE A CULTURA IMPRESSA DOS MAPAS, MAS INCORPORA
SUAS CARACTERÍSTICAS EM UM PROCESSO DE HIBRIDIZAÇÃO. DENTRE AS
ALTERNATIVAS A SEGUIR, ESCOLHA A ÚNICA QUE NÃO ESTÁ RELACIONADA A
ESSE TIPO DE INCONSISTÊNCIA NA OBRA DE MCLUHAN.
A) McLuhan foi criticado por apresentar em suas obras um pensamento evolucionista, como se um meio
tecnológico novo necessariamente superasse o anterior.
B) O pensamento de McLuhan deixa pouco espaço para a contextualização cultural das interações
humanas, em uma linha de pensamento que conduz ao determinismo tecnológico.
C) Críticos argumentam que, ao contrário do que sugere McLuhan, uma nova forma de percepção
elimina totalmente a anterior.
D) Para muitos críticos, McLuhan privilegia o aspecto tecnológico e menospreza o aspecto cultural.
E) McLuhan é criticado por não ter levado em consideração a própria evolução dos meios de
comunicação que aborda em sua obra.
GABARITO
1. A partir de meados dos anos 1990, com a expansão da internet comercial, as ideias do
pensador canadense Marshall McLuhan voltaram à tona com força. Em suas obras, o autor havia
afirmado que cada novo meio altera a relação entre os nossos sentidos e o mundo. O Google
Maps pode ser entendido como exemplo de como a evolução dos meios de comunicação
reconfigurou progressivamente a sensibilidade humana. A esse respeito, leia as afirmativas e, em
seguida, marque a opção que reúne apenas as verdadeiras.
O Google Maps, assim como outros dispositivos do meio digital, promove uma extensão da
visão humana.
Apenas a partir do advento da mídia eletrônica, os meios de comunicação começaram a
influenciar a maneira como percebemos o mundo.
A escrita reconfigurou nossa cultura para um mundo visual, baseado na abstração, na
linearidade e no individualismo.
A alternativa "D " está correta.
A afirmativa II está incorreta, pois a capacidade dos meios de alterar a percepção do mundo pode ser
verificada muito antes da invenção da internet. McLuhan destaca o surgimento da cultura tipográfica
como uma transição importante na sensibilidade humana.
2. Apesar da grande influência que alcançou nas décadas de 1960 e 1970, a obra de McLuhan
passou a sofrer duras críticas a partir dos anos 1980. Pensadores como Umberto Eco, Peter
Zumthor e James Carey apontam certos exageros e algumas omissões decisivas nas ideias do
canadense. O uso de aplicativos de geolocalização como o Google Maps, por exemplo, não
substitui completamente a cultura impressa dos mapas, mas incorpora suas características em
um processo de hibridização. Dentre as alternativas a seguir, escolha a única que não está
relacionada a esse tipo de inconsistência na obra de McLuhan.
A alternativa "C " está correta.
A obra de McLuhan é criticada por apresentar certo determinismo e defender que a tecnologia presente
em um novo meio é capaz de apagar completamentedo usuário brasileiro, mostrou que 95% deles
assistem à TV e navegam pela internet ao mesmo tempo. Dentre eles, 9% assistem à TV e navegam na
internet simultaneamente para interagir com a programação a que estão assistindo e outros 9%
discutem com amigos sobre o programa que estão vendo. Não é à toa que, durante as transmissões de
programas populares, como o Master Chef e o Big Brother, e de partidas de futebol, hashtags referentes
a eles entrem no topo dos Trending Topics do Twitter. No caso do Big Brother, por exemplo, os
telespectadores podem votar pela internet para escolher quem será o eliminado da vez.
Paremos para pensar nas outras mídias de massa da era analógica. O rádio foi estendido para as redes
sociais, aplicativos de trocas de mensagens e até mesmo para a televisão. Os repórteres da Band
News, por exemplo, depois de gravarem suas reportagens em áudio, precisam fazer um vídeo para ser
publicado nas redes sociais da emissora. Eles também podem ser solicitados a gravar a mesma
reportagem para ser exibida na televisão aberta. Os principais programas de estúdio têm transmissão ao
vivo pelo Facebook. Além disso, diversas pautas surgem porque os ouvintes são convidados a enviarem
denúncias e sugestões pelo número de WhatsApp divulgado no ar. Se um ouvinte perder a programação
ao vivo, ela também estará disponível no aplicativo da rádio. Aliás, isso também vale para a TV. A TV
Globo, por exemplo, envia a programação da TV aberta para o aplicativo Globoplay para smartphones e
smart TVs.
Fonte:Shutterstock
SE VIVEMOS EM UMA SOCIEDADE EM REDE, O JORNALISMO NÃO
PODERIA ESTAR EXCLUÍDO DELA. O CONCEITO DE JORNALISMO
EM REDE, PROPOSTO POR ANSGARD HEINRICH (2011), IMPLICA
ENXERGAR AS ORGANIZAÇÕES JORNALÍSTICAS COMO NÓS DE
UMA COMPLEXA REDE DA QUAL PARTICIPAM TAMBÉM OS
CIDADÃOS COMUNS, AS FONTES, OS JORNALISTAS
INDEPENDENTES E BLOGUEIROS, ENTRE OUTROS.
Ansgard Heinrich enxerga o jornalismo em rede extrapolando a esfera da internet. Como todos estão em
rede – fontes noticiosas, jornalistas e público – todos influenciam e são influenciados pelos demais
agentes envolvidos no processo, independentemente do grau de influência de cada um e do suporte em
que a comunicação se dá.
PORTANTO, O CONCEITO DE JORNALISMO EM REDE
ACABA COM A OPOSIÇÃO ENTRE MEIOS DIGITAIS E
ANALÓGICOS.
BARSOTTI, 2017.
QUANTO MAIS INFORMAÇÃO, MAIS
NECESSIDADE DE MEDIAÇÃO
E como lidar com tanta informação? A internet registra o maior crescimento entre as mídias na história.
No clássico A Sociedade em rede – A Era da Informação: economia, sociedade e cultura, Manuel
Castells afirma que, em 1973, quando a internet estava em seus primórdios, havia 25 computadores
conectados à rede. Durante os anos 1970, o número aumentou para 256 e, na década seguinte, para
alguns milhares de usuários. Em 1999, nove anos após o surgimento da World Wide Web (www), a
interface gráfica que permitiu a criação de sites, a internet já conectava 63 milhões de computadores,
950 milhões de telefones (a internet era discada) e cinco milhões de sites e era usada por 179 milhões
de pessoas em todo o mundo.
MANUEL CASTELLS
Manuel Castells é um sociólogo espanhol e referência nos estudos da sociedade em rede e no
pensamento sobre as transformações sociais no século XX.
E qual o volume de informação que circulava na rede? Em 2002, um estudo da Universidade de
Berkeley mediu a extensão dele. Intitulado How Much Information?, ele somou as informações lidas,
vistas e ouvidas, ao longo de 2002, em meios impressos, rádio, TV, internet e telefone. Foram 70
milhões de horas transmitidas pelo rádio e 31 milhões pela TV, cinco bilhões de mensagens
instantâneas enviadas por telefone e 31 bilhões de e-mails trocados. Somente a internet gerou 170
terabytes de informação, o equivalente a 17 bibliotecas do Congresso dos EUA, o triplo do registrado no
estudo anterior, realizado em 2000. (BARSOTTI, 2012)
Em 2019, éramos 3,9 bilhões de pessoas conectadas à rede ao redor do globo, ou 51% da população
mundial, segundo estudo da UIT, agência das Nações Unidas. A empresa Visual Capitalist mensurou o
que isso quer dizer em um minuto na internet:
1 milhão de logins no Facebook
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41,6 milhões de mensagens enviadas no Facebook Messenger e no WhatsApp
3,8 milhões de buscas no Google
4,5 milhões de vídeos assistidos no YouTube
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
Nessa avalanche de informações, seria ainda necessário o papel de seleção e curadoria exercido por
jornalistas, produtores culturais e editores de livros? Você acha que o fato de haver espaço ilimitado
para uma infinidade de produtos e serviços na web significa que ela dispense a necessidade de
mediação? Como fica a relação entre os emissores e os receptores à medida que todos têm acesso aos
meios de publicação?
Fonte:Shutterstock
Pierre Lévy está entre os autores que apostam nos efeitos democratizantes da rede. Em Wikinomics:
como a colaboração em massa pode mudar o seu negócio, Tapscott e Williams veem com bons olhos o
desaparecimento das fronteiras claras entre público e autor na internet. Eles se referem aos prosumers,
termo criado por Toffler (1980) para designar o produtor-consumidor (producer + consumer, em inglês)
de conteúdo. Para os autores, a democratização da tecnologia estaria permitindo a inclusão de todos.
EM UM MUNDO ONDE TUDO O QUE VOCÊ PRECISA É DE
UM CELULAR COM CÂMERA PARA MOSTRAR O QUE ESTÁ
ACONTECENDO À SUA VOLTA, NÃO É MAIS TÃO SIMPLES
LIMITAR O PAPEL DE UMA PESSOA.
TAPSCOTT e WILLIAMS, 2006.
 ATENÇÃO
Cabe aqui uma ressalva: como vimos, apenas 51% dos habitantes do planeta têm acesso à internet. No
Brasil, a exclusão digital atinge um a cada quatro brasileiros, de acordo com dados do IBGE.
Rosenbaum (2011) utiliza o termo curador de conteúdo que, para ele, é exercido tanto por amadores
quanto por profissionais, sem hierarquia entre eles. Ele enfatiza, no entanto, o valor da curadoria
humana sobre a dos algoritmos, que também atuam na seleção de conteúdos na web: eles estão
presentes nos sistemas de recomendação, nas redes sociais e nos buscadores. Eles filtram nossas
buscas e escolhas, mas são os humanos que adicionam valor à informação, ressalta o autor.
Por outro lado, há autores que enxergam como preocupante o excesso de informações publicadas por
amadores na web, sem curadoria. Andrew Keen (2009), em O culto do amador, é bastante crítico. Ele
sustenta que a nação web 2.0 é tão digitalmente fragmentada que não é mais capaz de debate
informado. Para ele, na web, “as palavras do sábio não contam mais que os balbucios de um
tolo.” Vale lembrar que Keen escreveu o livro muito antes do cenário a que estamos assistindo, de
propagação de desinformação, com as chamadas fake news.
Fonte:Shutterstock
ESSE APAGAMENTO DAS LINHAS ENTRE PÚBLICO E
AUTOR, FATO E FICÇÃO, INVENÇÃO E REALIDADE
OBSCURECE AINDA MAIS A OBJETIVIDADE. O CULTO DO
AMADOR TORNOU CADA VEZ MAIS DIFÍCIL DETERMINAR A
DIFERENÇA ENTRE LEITOR E ESCRITOR, ARTISTA E
RELAÇÕES-PÚBLICAS, ARTE E PUBLICIDADE, AMADOR E
ESPECIALISTA. O RESULTADO? O DECLÍNIO DA
QUALIDADE E DA CONFIABILIDADE DA INFORMAÇÃO QUE
RECEBEMOS, DISTORCENDO ASSIM, SE NÃO
CORROMPENDO POR COMPLETO, NOSSO DEBATE CÍVICO
NACIONAL.
KEEN, 2009.
No caso do jornalismo, diversos autores já apontaram para o risco da falta de curadoria da informação
que trafega na internet e sustentam que a era digital fortalece o papel do profissional. Neveu (2006)
acredita numa revalorização da função do jornalista, diante da abundância de informação na web. Ele
afirma que o caos da oferta de informação na internet pode devolver sentido à necessidade de
uma forma de certificado de garantia para o profissionalismo dos jornalistas.
Wolton (2010) vai na mesma linha de pensamento. Para ele, a informação se tornou abundante, mas a
comunicação é uma raridade no cenário contemporâneo. Daí a necessidade do intermediário, que seria
o jornalista.
NÃO É O SUPORTEQUE DÁ SENTIDO À INFORMAÇÃO,
NEM O RECEPTOR, MAS O JORNALISTA. NESSA
LEGITIMIDADE DO JORNALISTA RESIDE O PAPEL
ESSENCIAL DA PROFISSÃO DE INTERMEDIÁRIO, QUE
MUITOS QUEREM REDUZIR, OU SUPRIMIR, EM FAVOR DE
UMA SUPOSTA ‘DEMOCRACIA DIRETA’.
WOLTON, 2010.
Um dos maiores youtubers do país, Felipe Neto disse, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo
(MEIRELES, 2020) que, sem os jornalistas, “não há chance de batalha” contra “os obscurantistas,
negacionistas e revisionistas”, referindo-se ao cenário das fake news em meio à pandemia de
coronavírus. “É preciso destruir o terraplanismo científico e histórico e trazer à luz (e à popularidade) os
verdadeiros cientistas, historiadores e comunicadores comprometidos com a verdade”, afirmou.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. O CENÁRIO CONTEMPORÂNEO DE MÍDIA DEMONSTRA QUE HÁ UMA
CONVIVÊNCIA DO SISTEMA BROADCAST COM O INTERCAST OU DAS MÍDIAS
DE MASSA COM AS MÍDIAS DE NICHO. HÁ AINDA OUTRA CLASSIFICAÇÃO
PARA DEFINI-LAS: “MÍDIAS-SOL” E “MÍDIAS-POEIRA”. A RESPEITO DELAS,
ASSINALE A ÚNICA OPÇÃO QUE NÃO É VERDADEIRA:
A) No sistema broadcast, a comunicação é vertical e centralizada. Já no intercast, ela é horizontal e
descentralizada.
B) Os meios de massa preveem um modelo de comunicação de emissão de mensagem de todos para
todos.
C) Não é mais possível fazer a distinção entre mídias offline e online porque todos os meios atualmente
convergem para a internet e são dependentes de interações digitais.
D) A metáfora das “mídias-sol” foi utilizada por Ramonet para caracterizar os meios de comunicação de
massa no cenário contemporâneo da comunicação.
2. NA INTERNET, O PÚBLICO PODE TANTO COMPRAR UM BEST-SELLER
QUANTO UM LIVRO DE UM ESCRITOR DESCONHECIDO. OU ASSISTIR A UM
FILME INDEPENDENTE QUE NÃO CHEGOU A NENHUMA COMPETIÇÃO
CONCORRIDA DO CINEMA MUNDIAL. ESSA POSSIBILIDADE ESTÁ
RELACIONADA AO SURGIMENTO DE NICHOS DE MERCADO PARA PRODUTOS
QUE NÃO VIRARIAM HITS E FOI CLASSIFICADA COMO “CAUDA LONGA”.
ASSINALE A ÚNICA OPÇÃO QUE NÃO CARACTERIZA O CONCEITO:
A) Produtos de nicho, antes da internet, não tinham visibilidade porque não entravam em cartaz nos
cinemas, não chegavam às livrarias nem tocavam nas rádios.
B) No varejo online, existe uma busca infinita por produtos de nicho que, somados, representam um
mercado significativo para bens culturais.
C) A “cauda” de variedades de produtos disponíveis é longa porque há demanda para eles,
independentemente de suas datas de lançamento.
D) A economia da era do broadcast era a economia da abundância: programas, filmes, discos e livros
eram campeões de venda e audiência.
GABARITO
1. O cenário contemporâneo de mídia demonstra que há uma convivência do sistema broadcast
com o intercast ou das mídias de massa com as mídias de nicho. Há ainda outra classificação
para defini-las: “mídias-sol” e “mídias-poeira”. A respeito delas, assinale a única opção que não é
verdadeira:
A alternativa "B " está correta.
Os meios de comunicação de massa, da era analógica, operam na lógica da oferta, onde a comunicação
seria estabelecida de um para todos: um emissor transmitindo a mensagem para todo o público.
Os meios de comunicação da era digital trabalham com a lógica da demanda, onde a comunicação
acontece de todos para todos.
2. Na internet, o público pode tanto comprar um best-seller quanto um livro de um escritor
desconhecido. Ou assistir a um filme independente que não chegou a nenhuma competição
concorrida do cinema mundial. Essa possibilidade está relacionada ao surgimento de nichos de
mercado para produtos que não virariam hits e foi classificada como “cauda longa”. Assinale a
única opção que não caracteriza o conceito:
A alternativa "D " está correta.
A economia da era do broadcast era a economia da escassez: poucos programas, filmes, discos e livros
tinham espaço nas salas de cinema, na grade da televisão, nas estantes das lojas. Mas as apostas
tinham que ser certeiras e eles precisavam gerar audiências de massa. Na internet, temos o inverso: a
economia da abundância, pois os custos da era analógica foram reduzidos no mundo virtual.
MÓDULO 4
 Comparar os efeitos do texto linear e do hipertexto em contextos cross-media, transmídia e
multimídia
LIGANDO OS PONTOS
Em 2010, um grupo de filmakers passou seis meses seguindo a Cruz Vermelha no Haiti, dias após o
país ter sido severamente atingido por um terremoto. O resultado desses registros foi o projeto Inside
Disaster Haiti, uma cobertura transmídia sobre as consequências trágicas do desastre, que está
disponível no site Inside Desaster (insidedisaster.com). Essa iniciativa pode nos ajudar a compreender
as possibilidades que plataformas multimídia criaram para o jornalismo, assim como a construção de
uma narrativa transmídia como estratégia para ampliar a experiência do público em um conteúdo
noticioso.
Além de notícias publicadas na página e de um documentário gravado no país, a equipe produziu um
newsgame, em que o jogador pode assumir três avatares diferentes: um médico da Cruz Vermelha, uma
haitiana atingida pelo terremoto ou um jornalista trabalhando na cobertura do desastre. O objetivo da
equipe era proporcionar ao público uma experiência completa da situação do país, por narrativas
complementares que representam diferentes olhares.
O projeto obviamente explora a capacidade multimídia das plataformas digitais ao oferecer uma
cobertura que recorre a texto, vídeos e games. Porém, muito além disso, a equipe foi bem-sucedida ao
criar uma narrativa transmídia para conseguir mostrar como o terremoto afetou a vida das pessoas de
maneiras diferentes.
Com extenso conteúdo captado nos dias de gravação, foi possível desdobrar esse material em três
produtos que não se repetem; pelo contrário, se complementam. É importante notar que o público pode
acessar cada uma das modalidades de maneira independente e aleatória, sem que haja prejuízo para a
compreensão do conteúdo. No entanto, a experiência completa só se dá para quem lê os textos, assiste
ao vídeo e joga o game na perspectiva dos três personagens.
Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos?
1.O CONTEÚDO DISPONIBILIZADO NO SITE INSIDE DISASTER HAITI EXPLORA
DIFERENTES MODALIDADES DE MÍDIA A PARTIR DE UMA MESMA COBERTURA.
O OBJETIVO DA EQUIPE REALIZADORA FOI LEVAR AO PÚBLICO DIFERENTES
VISÕES DA TRAGÉDIA HUMANITÁRIA NO HAITI, PROPORCIONANDO UMA
EXPERIÊNCIA ABRANGENTE, SEM QUE HAJA NECESSIDADE DE UMA
SEQUÊNCIA ESSENCIAL NA LEITURA DOS CONTEÚDOS. QUAL
CARACTERÍSTICA DAS PLATAFORMAS DIGITAIS PERMITE AOS LEITORES
ESSE TIPO DE NAVEGAÇÃO NÃO-LINEAR?
A) A multimídia, uma vez que permite a convergência de meios nas plataformas digitais.
B) A multimídia, por ser a única linguagem possível em plataformas digitais.
C) O hipertexto, modalidade de construção narrativa com textos associados, mas que podem ser lidos
sem uma ordem pré-definida.
D) O hipertexto, estrutura textual articulada por links, que surgiu com a internet.
E) A hipermídia, nome que se dá a narrativas construídas a partir de diferentes mídias.
2. UM DOS CONTEÚDOS PRODUZIDOS NO PROJETO INSIDE DISASTER HAITI
FOI UM GAME EM QUE O USUÁRIO TEM A OPÇÃO DE ESCOLHER ENTRE TRÊS
DIFERENTES AVATARES, QUE TRAZEM EXPERIÊNCIA DISTINTAS EM RELAÇÃO
AO TERREMOTO DO HAITI. PARTINDO DO CONCEITO DE TRANSMÍDIA,
ANALISE AS AFIRMATIVAS ABAIXO E MARQUE A OPÇÃO QUE REÚNE APENAS
AS VERDADEIRAS.
A UTILIZAÇÃO DOS GAMES PELO JORNALISMO É UMA ESTRATÉGIA QUE NÃO TEM O
OBJETIVO DE INFORMAR, MAS DE ENTRETER
A EXPERIÊNCIA DO PÚBLICO AO JOGAR OS GAMES, COM OS DIFERENTES AVATARES, É
COMPLETADA PELA LEITURA DOS TEXTOS E PELO DOCUMENTÁRIO PRODUZIDOS NO
PROJETO.
O PROJETO EM QUESTÃO CONSTRÓI UMA NARRATIVA TRANSMÍDIA UMA VEZ QUE
TRANSPORTA PARA OS GAMES O MESMO CONTEÚDO VEICULADO EM OUTRAS
MODALIDADES MIDIÁTICAS
A) Apenas a afirmativa I está correta.
B) Apenas a afirmativa II está correta.
C) Apenas as afirmativas I e II estão corretas.
D) Apenas as afirmativas I e III estão corretas.
E) As afirmativasI, II e III estão corretas.
GABARITO
1.O conteúdo disponibilizado no site Inside Disaster Haiti explora diferentes modalidades de
mídia a partir de uma mesma cobertura. O objetivo da equipe realizadora foi levar ao público
diferentes visões da tragédia humanitária no Haiti, proporcionando uma experiência abrangente,
sem que haja necessidade de uma sequência essencial na leitura dos conteúdos. Qual
característica das plataformas digitais permite aos leitores esse tipo de navegação não-linear?
A alternativa "C " está correta.
O hipertexto é constituído por textos associados, mas que podem ser lidos de forma não-linear, sem que
haja necessidade de uma sequência obrigatória. Esse tipo de conexão torna possível uma maior
participação do usuário, com experiências personalizadas de leitura.
2. Um dos conteúdos produzidos no projeto Inside Disaster Haiti foi um game em que o usuário
tem a opção de escolher entre três diferentes avatares, que trazem experiência distintas em
relação ao terremoto do Haiti. Partindo do conceito de transmídia, analise as afirmativas abaixo e
marque a opção que reúne apenas as verdadeiras.
A utilização dos games pelo jornalismo é uma estratégia que não tem o objetivo de informar,
mas de entreter
A experiência do público ao jogar os games, com os diferentes avatares, é completada pela
leitura dos textos e pelo documentário produzidos no projeto.
O projeto em questão constrói uma narrativa transmídia uma vez que transporta para os
games o mesmo conteúdo veiculado em outras modalidades midiáticas
A alternativa "B " está correta.
A afirmativa I está errada porque é possível informar por meio de games. A afirmativa III, por sua vez,
está incorreta, pois a adaptação de um mesmo conteúdo para diferentes mídias não configura um
exemplo de transmídia, mas de cross-media.
3. O PROJETO INSIDE DISASTER HAITI PODE SER
CONSIDERADO UM EXEMPLO BEM-SUCEDIDO DE
JORNALISMO TRANSMÍDIA. COM BASE NESSE CASO, O
QUE VOCÊ IMAGINA QUE PERMITE DISTINGUIR ESSE TIPO
DE NARRATIVA DE UMA COBERTURA CROSS-MEDIA?
RESPOSTA
A cobertura promovida pela equipe do projeto Inside Disaster Haiti produziu conteúdo multimídia, incluindo
textos, galerias de imagens, um documentário e um game. Cada uma dessas produções traz conteúdos
diferentes, que se complementam mutuamente. O público pode acessar de maneira independente cada um
deles, sem prejuízo para a compreensão.
Será que é 100% verdadeira a afirmação de que a leitura de um livro ou de um jornal é sempre linear?
Quantas vezes você já ficou curioso em saber logo o final de um romance e foi xeretar o fim do livro? Ou
ainda pulou da página 5 de um jornal e foi direto para o Caderno de Cultura, evitando a leitura do
noticiário local e internacional, que vinham nas páginas imediatamente seguintes àquelas em que você
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estava? Agora pensemos no mesmo livro e no mesmo jornal sendo lidos em um dispositivo móvel. É
claro que você também pode “pular” páginas tanto no e-book quanto no jornal que estão disponíveis em
sua tela. A diferença é que poderá optar também por outros caminhos a partir dos hiperlinks que
encontrar em ambos. De um livro, poderá até mesmo ir para outro. De uma edição do dia do jornal,
poderá ir para a da semana anterior.
Fonte:Shutterstock
O HIPERTEXTO: CAMINHOS MÚLTIPLOS
De acordo com Fachinetto (2005), o termo hipertexto foi criado nos anos 1960, por Theodor H. Nelson,
com seu projeto Xanadu. Ele foi concebido para ser um processador de textos capaz de lidar com várias
versões de um texto e mostrar as diferenças entre elas.
O objetivo de Nelson, que era estudante em Harvard, era facilitar a escrita não linear. Por meio de um
documento eletrônico, o usuário poderia escolher seu próprio caminho de leitura. No livro O labirinto da
hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço, Lúcia Leão (1999) expõe o pensamento de Nelson:
para ele, o hipertexto se constitui de escritas associadas não sequenciais, conexões possíveis de
se seguir, oportunidades de leitura em diferentes direções.
Fonte:Shutterstock
Refletindo sobre as diferenças entre hipertexto e hipermídia, George Paul Landow afirma que o
hipertexto é composto de fragmentos de texto e dos links que os conectam entre si. Para ele, o termo
hipermídia estende a noção de hipertexto, ao adicionar informação visual, sonora, animação e outras
formas de informação, além do texto (apud FACHINETTO, 2005).
GEORGE PAUL LANDOW
George Paul Landow é professor emérito de História da Arte na Brown University. Ele é um
especialista em literatura, arte e cultura vitoriana, é ainda pioneiro em crítica e teoria da literatura
eletrônica, hipertexto e hipermídia.
Vale lembrar que, assim como no hipertexto, o usuário também escolhe seu caminho na hipermídia:
posso decidir entrar em outro vídeo “linkado” ao que estou assistindo, posso interagir com infográficos
(de modo que eles me apresentem os dados específicos que estou buscando), posso seguir alternativas
distintas em games e assim por diante.
DIFERENTEMENTE DA NARRATIVA LINEAR, O LEITOR TEM MAIS
LIBERDADE DE ABANDONAR A ORDEM PREVISTA PELO AUTOR E
ESCOLHER SEU PRÓPRIO CAMINHO DE LEITURA NO HIPERTEXTO.
NOS MEIOS DIGITAIS, O TEXTO PODE SER FRAGMENTADO E
RETIRADO DE UMA SEQUÊNCIA QUE OBEDECE À LÓGICA DA
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ESCRITA, DE CAUSALIDADE ENTRE AS ORAÇÕES. A LINEARIDADE,
COMO JÁ VISTO, CARACTERIZOU O HOMEM TIPOGRÁFICO,
SEGUNDO MCLUHAN.
Mas será que foi somente com o hipertexto que aconteceu essa quebra da linearidade? Foi essa
pergunta que Aguiar e Barsotti (2010) fizeram no artigo As novas tecnologias digitais e as perspectivas
para o jornalismo e a literatura eletrônicos. Os autores notam que a linearidade já vinha sendo
problematizada mesmo antes da era digital. Uma hipótese é que seu surgimento possa estar
relacionado à forma fragmentada de lidar com a noção de espaço e tempo na contemporaneidade.
Como já vimos, desde a invenção do telégrafo, os jornais passaram a noticiar eventos que, antes, só
poderiam ser incluídos nas edições muito tempo depois de terem acontecido. Teria começado ali uma
nova noção geográfica e temporal, que se aceleraria no século XX, com o rádio e a TV. As transmissões
ao vivo (o “aqui” e o “agora”) nos teriam levado à aldeia global prevista por McLuhan. Eventos distantes
geograficamente passaram a ficar próximos de nós e com cada vez mais instantaneidade.
Na literatura, a tendência de quebra da linearidade nas narrativas já era observada em livros publicados
no século XX, citam Aguiar e Barsotti (2010). Dois exemplos são as obras O jardim dos caminhos que se
bifurcam (1941), de Jorge Luis Borges, e Se um viajante numa noite de inverno (1979), de Italo Calvino,
uma história que termina e reinicia continuamente. No cinema, a quebra da sequência temporal pode ser
observada no clássico Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, assinalam Aguiar e Barsotti (2010). A Ética,
de Spinoza, é um livro de filosofia do século XVII organizado em axiomas, proposições, definições, que
se remetem uns aos outros. É possível começar a leitura desse tratado em qualquer parte do livro e
seguir as remissões conforme se desejar.
Fonte:Shutterstock
 Representação do ator John Travolta no cenário de Pulp Fiction, no Museu Madame Tussauds em
São Francisco.
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PULP FICTION
O filme começa e termina em assalto a um restaurante, e outras histórias se entrecruzam, sem
qualquer ordem cronológica. A estrutura, circular, estaria mais próxima do pensamento mágico-
mítico que teria voltado a nos encantar. Vale lembrar que o filme é de 1994, ainda no início da
popularização da internet.
O hipertexto é, portanto, uma inovação narrativa anterior à era digital. Mas o cenário digital acelerou o
processo. As histórias impressas, os filmes, os áudios e os vídeos estão transformando os formatos
lineares do passado. Aguiar e Barsotti (2010) sustentam que seria ingênuo acreditar no purismo do
texto impresso atualmente porque ele se interpenetra profundamentecom o eletrônico, a
começar pelo meio em que são escritos.
MESMO QUE NÃO SE UTILIZE NENHUM RECURSO DIGITAL
COMO TÉCNICA DE LEITURA, É PRECISO LEMBRAR QUE
TODOS OS LIVROS E OS JORNAIS QUE SE DESTINAM AO
SUPORTE IMPRESSO SÃO ESCRITOS ATUALMENTE NO
COMPUTADOR. OU SEJA, ELES TAMBÉM SOFREM
INFLUÊNCIA DO NOVO MEIO E SÃO POR ELE
MODIFICADOS.
AGUIAR e BARSOTTI, 2010.
Umberto Eco, assim como fez em Apocalípticos e Integrados, em que expôs os argumentos dos críticos
e dos defensores dos meios de comunicação de massa, buscou o equilíbrio ao analisar os efeitos do
hipertexto no livro Sobre a literatura. Para ele, os contos “imodificáveis”, ou seja, os já consagrados
pelos livros impressos, ao contarem uma história, também contam a de cada indivíduo. Por isso,
sustentou, são amados. Por outro lado, Umberto Eco viu valor no hipertexto, que pode educar para a
liberdade e para a criatividade.
NARRATIVAS SEM FRONTEIRAS
Narrativas migram de um meio para o outro e adaptam-se às linguagens de cada um. Se houver a
crença de que o futuro das boas histórias dependerá da exploração dos recursos dos novos meios,
assistiremos a um descentramento cada vez maior das produções culturais e sua interseção com outros
campos. Assim como o hipertexto, essa falta de centralidade é anterior ao computador. Instalações de
artes plásticas que utilizam poesia multimídia não são novas. O mesmo ocorre quando textos de jornais
são lidos em rádio, lembram os autores. Mas é inevitável sua aceleração na era digital, com a
convergência das mídias. A especificidade de cada meio vem se diluindo.
Fonte:Shutterstock
 ZKM, Centro de Arte e Mídia de Karlsruhe, Alemanha.
Imaginando os diversos campos da cultura, como a fotografia, o cinema e a música, como círculos que
se interpenetram, Arlindo Machado (2007) constatou:
CHEGA UM MOMENTO EM QUE A AMPLIAÇÃO DOS
CÍRCULOS ATINGE TAL MAGNITUDE QUE HÁ INTERSEÇÃO
NÃO APENAS NAS BORDAS, MAS TAMBÉM NOS SEUS
NÚCLEOS DUROS. ORA, ESSE É JUSTAMENTE O PONTO
DE RUPTURA: NO MOMENTO EM QUE O CENTRO MAIS
DENSO DO CÍRCULO, IDENTIFICADOR DE SUA
ESPECIFICIDADE, COMEÇA A SE CONFUNDIR COM OS
OUTROS, CHEGAMOS A UM NOVO PATAMAR DA HISTÓRIA
DOS MEIOS: O MOMENTO DA CONVERGÊNCIA DOS MEIOS,
QUE SE SOBREPÕE À ANTIGA DIVERGÊNCIA.
A narrativa multimídia pode abrigar vários campos artísticos, entre eles as artes plásticas, o design, o
vídeo e a música, os games e a programação. Flusser (2010) observou que a fronteira entre a categoria
“arte” e a categoria “ciência e técnica” é eliminada pela produção multimídia: a Ciência evidencia-se
como forma artística e a Arte, como fonte de conhecimento científico.
Mesmo um romance pode combinar meios anteriormente usados em outras narrativas. Um exemplo é
Alice inanimada, de Kate Pullinger e Chris Joseph, que usa uma combinação de várias mídias para
contar a história de uma menina que sai de uma região da China para se tornar designer de jogos.
Como classificá-lo? Literatura, game, animação?
No jornalismo, um marco inaugural desse uso de diferentes mídias foi o especial Snow Fall, do New York
Times, publicado em 2012. No ano seguinte, a reportagem, sobre uma avalanche ocorrida no estado de
Washington com vítimas fatais, ganhou o Prêmio Pulitzer. Dividida em seis capítulos, a história foi
contada utilizando recursos multimídia: infográficos animados, vídeos aéreos, animações, fotografias e
hiperlinks.
Durante seis meses, uma equipe de reportagem e de especialistas em programação e design planejou o
projeto. A iniciativa foi considerada um divisor de águas no jornalismo online e foi replicada no mundo
todo. O Brasil também começou iniciativas do gênero, como o especial Belo Monte, sobre a usina
hidrelétrica, na Folha de S. Paulo. Na edição impressa, mereceu duas páginas. Ou seja, nos meios
analógicos, permanece a especificidade de cada um. Nos meios digitais, as fronteiras ficam cada vez
mais esmaecidas.
É BOM RESSALTAR QUE OS SITES JORNALÍSTICOS ESTÃO
PRESENTES NA INTERNET DESDE A SEGUNDA METADE DOS ANOS
1990. ENTRETANTO, NOS PRIMÓRDIOS, ERA COMUM QUE AS
PÁGINAS IMPRESSAS FOSSEM APENAS TRANSPOSTAS PARA O
MEIO ONLINE. AS ATUALIZAÇÕES ERAM RARAS NAQUELE
MOMENTO. TAMPOUCO RECURSOS MULTIMÍDIA ERAM USADOS.
OS SITES LANÇAVAM MÃO APENAS DO HIPERTEXTO. PORTANTO,
O SNOW FALL FOI CONSIDERADO UM MARCO POR TER UTILIZADO
AS DIVERSAS LINGUAGENS QUE A CONVERGÊNCIA TORNOU
POSSÍVEL DE FORMA FLUENTE E INTERATIVA.
MULTIMÍDIA, CROSS-MEDIA E TRANSMÍDIA
No artigo Interfaces e linguagens para o documentário transmídia, Renó (2013) procura demonstrar a
confusão que há entre os conceitos multimídia, cross-media e transmídia, embora muitas vezes eles
sejam aplicados sem distinção. Ele lembra que cross-media é um termo que significa a transmissão de
um mesmo conteúdo por plataformas diferentes, segundo demarcou Henry Jenkins (apud RENÓ, 2013).
Ou seja, você pode assistir a um filme na televisão aberta, na tela do seu smartphone ou na sala de
cinema. O conteúdo será exatamente o mesmo, embora as experiências sejam bem diferentes.
Para Vicente Gosciola (apud RENÓ, 2013), os termos também devem ser usados de forma distinta. Ele
nota que o cross-media é uma linguagem geralmente adotada pelo marketing e que teria ambições
voltadas para o mercado. Já a narrativa transmídia, contaria uma história expandida e dividida em
várias partes que são distribuídas entre diversas mídias, exatamente aquelas que melhor possam
expressar a sua parte da história. Ou seja, os produtos transmídia seriam complementares.
 RESUMINDO
Enquanto a estratégia cross-media distribui a mesma mensagem em multiplataforma, a narrativa
transmídia oferta mensagens distintas, ainda que relacionadas e complementares, em ambiente
multiplataforma.
Nos primórdios da internet, era comum veículos jornalísticos lançarem mão de uma estratégia cross-
media, distribuindo o mesmo conteúdo para várias plataformas. Mas aos poucos as redações
começaram a produzir conteúdos específicos para os meios.
Veja também a explicação do professor Anderson Lopes sobre multimídia, cross-media e transmídia.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. O “NÚCLEO DURO” DE CADA MEIO VEM SE DILUINDO NA ERA DIGITAL.
QUANTO MAIOR FOR A INTERSEÇÃO ENTRE ELES, NOTAREMOS O FENÔMENO
DA CONVERGÊNCIA, QUE SE SOBREPÕE À ANTIGA DIVERGÊNCIA DA ERA
ANALÓGICA. SOBRE A CONVERGÊNCIA, TODAS AS AFIRMAÇÕES ABAIXO
ESTÃO CORRETAS, EXCETO:
A) Reúne diferentes linguagens e meios.
B) Favoreceu a narrativa transmidiática.
C) Enfatiza a oposição entre as mídias analógicas e digitais.
D) Permite que os usuários participem e construam narrativas.
2. A HIPERMÍDIA ESTENDE O CONCEITO DE HIPERTEXTO PARA OUTRAS
LINGUAGENS, COMO A SONORA, A INFOGRÁFICA, A AUDIOVISUAL E A DOS
GAMES. NO HIPERTEXTO, O USUÁRIO DECIDE QUAL CAMINHO DE CONSUMO
VAI PERCORRER. MARQUE O ÚNICO EXEMPLO ABAIXO QUE ESTÁ EM
DESACORDO COM ESSA AFIRMAÇÃO:
A) Assim como no cinema, os usuários de um webdocumentário assistem ao filme obedecendo à
sequência linear, do contrário não entenderiam o desfecho da história.
B) Em um infográfico interativo, o usuário pode filtrar as informações que deseja consumir a partir de
alternativas apresentadas pelo produtor de conteúdo.
C) Em um podcast, assim como quando se ouve música online, o usuário retorna para ouvir alguns
trechos que não compreendeu ou vai diretamente para o episódio ou a canção seguintes caso não
esteja satisfeito com o que está ouvindo.
D) Em um game, o comando de ação do usuário vai determinar as etapas seguintes que enfrentará.
GABARITO
1. O “núcleo duro” de cada meio vem se diluindo na era digital. Quanto maior for a interseção
entre eles, notaremos o fenômeno da convergência, que se sobrepõe à antiga divergência da era
analógica. Sobre a convergência, todas as afirmações abaixo estão corretas, exceto:
A alternativa "C " está correta.
A convergência permite a reunião das mídias analógicas com as digitais. Um exemplo: Uma rádio
continua com suas transmissões pelas ondas eletromagnéticas ao mesmo tempo em que está presentena web, com seu site, e nos smartphones, seja em aplicativos ou em plataformas de distribuição de
podcasts, como o Spotify.
2. A hipermídia estende o conceito de hipertexto para outras linguagens, como a sonora, a
infográfica, a audiovisual e a dos games. No hipertexto, o usuário decide qual caminho de
consumo vai percorrer. Marque o único exemplo abaixo que está em desacordo com essa
afirmação:
A alternativa "A " está correta.
Embora o diretor de um webdocumentário tenha previamente traçado um roteiro para o consumo
daquela narrativa audiovisual, com princípio, meio e fim, o usuário pode subvertê-lo, adiantando cenas,
retrocedendo para o começo da história quantas vezes quiser ou mesmo começando pelo fim.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na passagem da cultura impressa para a digital, estamos assistindo a um longo caminho de adaptações
e mudanças que envolvem tanto o modo como produzimos quanto como consumimos informação, o que
engloba transformações tecnológicas, mas também culturais. Se atribuirmos toda a revolução a que
estamos assistindo no mundo contemporâneo à evolução das máquinas, reduziremos o protagonismo
dos humanos nesse cenário.
A grande mudança de paradigma da cultura impressa para a digital reside na migração da escrita linear
para o hipertexto. Em vez de seguir uma ordem de leitura sequencial, inaugurada pelo alfabeto fonético,
o usuário agora decide seu próprio caminho de consumo da informação. Na contemporaneidade, o
conceito de hipertexto foi estendido para hipermídia.
Para analisar esse cenário, estudamos os conceitos de meios quentes e meios frios, hibridismo, mídia
de massa e mídia de nicho, transmídia e cross-media. Assim, buscamos entender os efeitos das novas
mídias sobre nós, mas também as possibilidades que trazem para os produtores de conteúdo do século
XXI, que podem se valer das potencialidades de todas elas.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
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EXPLORE+
Pesquise na internet sobre a entrevista do filósofo e teórico da comunicação Herbert Marshall
McLuhan ao programa Monday Conference, da ABC, Austrália, em junho de 1977. Nesse vídeo, o
pensador canadense fala de alguns de seus principais conceitos e, com respostas espirituosas,
comprova o caráter visionário de sua obra.
Leia o artigo Imprensa sensacionalista: o entretenimento e a lógica da sensação, no qual seu
autor, Leonel Aguiar, distingue imprensa sensacionalista de imprensa sensacional e defende a
recepção pela “lógica da sensação”.
Leia o texto Tradição oral e a preservação de culturas, de Fabiana Pinto, para saber mais sobre a
preservação da história entre membros de culturas de tradição oral, cujo conhecimento se dá com
base nos relatos dos antepassados transmitidos continuamente dos bisavós para os avós, dos
avós para os filhos.
Pesquise na internet sobre o vídeo de demonstração do Google Home para entender melhor sobre
os dispositivos e seu acionamento.
Leia a íntegra da entrevista de Chris Anderson, autor do livro A Cauda Longa, para a Revista
Época (edição 433, 1º set. 2006), quando ele explica de forma clara sua teoria. Embora tenha
trabalhado durante muitos anos como jornalista nas revistas The Economist e Wired, Anderson é
formado em Física.
O especial transmídia Snow Fall – The Avalanche, do New York Times, é considerado um divisor
de águas no uso da transmídia no jornalismo. Em cada plataforma, o conteúdo foi expandido e não
meramente reproduzido como acontece nos projetos cross-media. O sucesso foi tanto que Snow
Fall também foi editado em e-book. Além dele, outros especiais com as mesmas características
foram lançados pelo jornal desde então:
A Game of Shark and Minnow;
The 1619 Project.
CONTEUDISTA
Curadoria de Humanidades | Leonardo Ramos de Toledomeios anteriores.
3. O MODO LIVE VIEW INOVA AO ACRESCENTAR UMA
VISUALIZAÇÃO EM REALIDADE AUMENTADA DOS
SERVIÇOS DE GEOLOCALIZAÇÃO OFERECIDOS PELO
GOOGLE MAPS. NO ENTANTO, É POSSÍVEL PERCEBER
QUE O APLICATIVO UTILIZA ELEMENTOS DE OUTROS
MEIOS JÁ ASSIMILADOS PELO USUÁRIO, COMO FORMA DE
TORNAR A NAVEGAÇÃO MAIS INTUITIVA. DIANTE DISSO,
QUAIS LINGUAGENS CARACTERÍSTICAS DE OUTRAS
MÍDIAS VOCÊ CONSIDERA QUE ESTEJAM PRESENTES NO
APP DO GOOGLE E QUE TIPO DE SENSIBILIDADE VOCÊ
ACHA QUE ELAS SÃO CAPAZES DE EXPANDIR NO
USUÁRIO?
RESPOSTA
O Live View insere orientações de geolocalização sobre imagens captadas em tempo real pela câmera do
smartphone. Sendo assim, é um atributo do meio fotográfico capaz de expandir a visão humana. O aplicativo
também recorre a ícones de orientação espacial típicos da cultura impressa. Além disso, esse serviço está
conectado ao Google Maps original, que utiliza a estrutura de representação cartográfica tradicional.
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Autor do livro Os meios de comunicação como extensões do homem (1974), o canadense Marshall
McLuhan, um dos teóricos mais controversos da Comunicação no século XX, foi tão reverenciado
quanto criticado. Em 1977, ele chegou a fazer uma ponta no filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de
Woody Allen, em que contesta um professor de mídia que discorria sobre seu pensamento em uma fila
de cinema. Com o surgimento da internet e o desenvolvimento do campo dos estudos de cibercultura,
McLuhan voltou a ficar em evidência, como veremos no fim deste módulo.
McLuhan cunhou a expressão “o meio é a mensagem”, partindo da premissa de que os meios de
comunicação não são tecnologias neutras. Até então, os estudos no campo da Comunicação davam
mais ênfase ao conteúdo das mensagens do que à forma como elas se apresentavam e eram
veiculadas. McLuhan se deteve nas características materiais dos suportes em que as mensagens eram
transmitidas para verificar a influência que exerciam sobre nós.
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 Marschall McLuhan em 1945.
UM EXEMPLO: A MESMA INFORMAÇÃO VEICULADA EM UM
JORNAL, OUVIDA EM UMA RÁDIO OU ASSISTIDA NA TELEVISÃO
ACIONARIA DIFERENTES PERCEPÇÕES NOS LEITORES, OUVINTES
E TELESPECTADORES. OS MEIOS INFLUENCIAM O MODO COMO
SENTIMOS E PENSAMOS.
Mouillaud (1997, p. 29) também analisa a questão:
À PRIMEIRA VISTA, A EMBALAGEM E O OBJETO PODEM
SER SEPARADOS SEM QUE O OBJETO PERCA SUA
IDENTIDADE; ENTRETANTO, UM PERFUME CONTINUA A
SER UM PERFUME SEM SEU FRASCO? O LIMITE MATERIAL
ESTÁ EVIDENTE, E O LIMITE SIMBÓLICO?
Ou seja, o mesmo perfume despertará diferentes percepções dependendo da embalagem em que ele se
apresentar. No caso do jornal, o mesmo texto impresso pode ser veiculado em um website. Mas ele
provocará no leitor e no usuário a mesma experiência e os mesmos significados nos dois suportes?
Mesmo depois de 30 anos do lançamento do primeiro website, o senso comum tende a classificar o
suporte impresso ainda como mais crível que os suportes digitais.
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Mas nem sempre o meio impresso esteve entre os mais prestigiados. O filósofo francês Régis Debray
(1993), em seu livro Curso de Midiologia Geral, ressalta que, no início de sua utilização, o papel não
desfrutava de credibilidade. Prova disso foi o fato de as universidades terem mantido durante muito
tempo os canudos de formatura confeccionados com pele para a colação dos alunos. Posteriormente, foi
a vez de os livros de bolso provocarem indignação nos meios literários por serem vistos como uma
profanação do livro convencional. Portanto, assim como Mouillaud, Debray acredita que não há como se
menosprezar o valor simbólico da materialidade dos suportes.
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VALOR SIMBÓLICO DA MATERIALIDADE DOS
SUPORTES
Não é à toa que ouvimos com frequência as expressões “Deu no jornal” ou “Vi na televisão” como
sinônimos de credibilidade. Uma pesquisa do Datafolha (MARQUES, 2020), realizada em meio à
pandemia de coronavírus, revelou que programas jornalísticos da TV (61%) e jornais impressos
(56%) lideraram no índice de confiança do público, seguidos de programas jornalísticos de rádio
(50%) e sites de notícias (38%). Podemos partir da premissa de que as principais notícias, como
decisões e pronunciamentos de autoridades e organismos internacionais, foram informadas por
todos os veículos. Entretanto, o jornal e a TV despontam como mais merecedores de crédito por
parte da população do que os sites.
Um dos maiores historiadores da leitura, o francês Roger Chartier também acentua a importância da
forma na comunicação, ressaltando a influência dos suportes materiais na compreensão dos
significados das mensagens. Chartier (1998) observa, por exemplo, que um romance de Balzac pode
ser recebido de maneira diferente, mesmo sem que uma linha do texto tenha sido mudada, caso ele seja
publicado em um folhetim, em um livro ou em uma coletânea.
Voltando a McLuhan, ele sustenta que a forma como experimentamos a realidade é mediada pelos
sentidos. Desse modo, cada meio de comunicação acionaria predominantemente um ou vários sentidos
humanos. Cada novo meio introduzido alteraria a relação entre os nossos sentidos, modificando nossa
forma de experimentar o mundo. Embora seus estudos tenham sido motivados pelo advento da
televisão, McLuhan volta à época da tradição oral, antes da invenção da escrita, para fazer valer seu
raciocínio.
DA CULTURA ORAL PARA A IMPRESSA E A
ELETRÔNICA
Em Galáxia de Gutenberg, publicado em 1962, os capítulos indicam a divisão proposta por McLuhan
entre a oralidade, a escrita e a era eletrônica. Antes da invenção do alfabeto fonético, éramos
marcados pela cultura da oralidade. McLuhan lembra que, em uma conversa presencial entre as
pessoas, todos os sentidos estavam presentes: gestos, cheiros, ambiente, audição e visão se
articulavam simultaneamente. A invenção da escrita teria reduzido o espaço para a oralidade e nos
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guiado em direção a uma cultura visual, separando os sentidos que se entrecruzavam antes. Na leitura,
o sentido que prevalece é a visão.
ALFABETO FONÉTICO
Antes dele, havia a escrita pictográfica ou hieroglífica, quando os sistemas, baseados em figuras e
símbolos, ainda não representavam sons.
O ALFABETO FONÉTICO É CAPAZ DE TRADUZIR O
AUDÍVEL E O TÁTIL NO VISÍVEL E NO ABSTRATO.
BARBOSA, 2017.
Segundo Barbosa (2017), McLuhan sustenta que a consequência da adoção da escrita reconfigurou
nossa cultura para um mundo visual, baseado na abstração, na linearidade e no individualismo. Todos
os sentidos continuaram a ser acionados ainda para a obtenção de conhecimento, mas a confirmação
passou a ser pela visão: é preciso ver escrito para crer.
A prensa de Gutenberg, para McLuhan, acelerou ainda mais a característica visual de nossa cultura
devido à uniformidade no formato das letras. Ele demarca uma diferença crucial entre a cultura
manuscrita e a impressa. Na primeira, a leitura era ainda mais social, feita em voz alta, não havia índice
nem numeração das páginas, como nos livros. Com a prensa de Gutenberg, tem origem um processo de
mecanização, que inaugura o modo linear de produção. A leitura passa a ser predominantemente
silenciosa, nossos olhos passam a acompanhar as páginas da esquerda para a direita e as frases e
orações dependem de uma relação de causalidade entre elas.
Fonte:Shutterstock
 Prensa de tipos móveis de 1811, em exposição em Munique, Alemanha.
A IMPRENSA EXIGE A FACULDADE VISUAL NUA E
ISOLADA, NÃO A SENSORIALIDADE UNIFICADA.
MCLUHAN, 1969.
Se, por um lado, a cultura escrita permitiu a expansão do conhecimento, por outro reduziu a
comunicação ao aspecto visual. A era eletrônica estaria recriando um mundo à imagem de uma “aldeia
global”, a partir do advento da TV. Até o surgimento da televisão, vivíamos na "Galáxia de Gutenberg".
Para McLuhan, a evolução dos meios de comunicação de massa estaria reorganizando nossas
percepções e nos levando de um mundo linear e tipográfico para um mundo audiotátil, tribalizado e
cósmico da era eletrônica.
ALDEIAGLOBAL
Quando Marshall McLuhan cunhou o termo “aldeia global”, a internet estava restrita aos circuitos
militar e acadêmico norte-americanos e ainda estávamos distantes do uso de computadores
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pessoais.
Mas se alguém tinha dúvidas sobre esse conceito inicialmente pensado em relação à televisão, ele
foi concretizado na web: estamos conectados 24 horas por dia ao redor do mundo e sem
obstáculos geográficos.
MEIOS QUENTES E MEIOS FRIOS
McLuhan acreditava que a mudança na comunicação da forma tátil-acústica, característica das práticas
orais, para a visual poderia ser sistematizada pelos conceitos de meios quentes e meios frios. Essa
divisão foi apresentada no livro Os meios de comunicação como extensões do homem (1974). O que
determina se os meios são quentes ou frios é o grau de participação dos indivíduos e os sentidos que
são acionados no ato da comunicação.
Veja alguns exemplos desses meios e tente identificar as razões pelas quais eles foram definidos como
quentes ou frios.
Meios quentes Meios frios
Alfabeto Caricatura
Filme Desenho
Fotografia Fala
Jornal Hieróglifos
Palestra Telefone
Rádio Televisão
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
Quantas vezes você já não assistiu a uma palestra e ficou bocejando? E quantas conversas ao telefone
não te deixaram entusiasmado? Então a palestra não deveria ser considerada “fria” e o papo ao telefone
“quente”?
O pensamento de McLuhan vai contra o senso comum em relação ao que nos acostumamos a perceber
como “quente” e “frio”. Os meios quentes, para ele, seriam os que prolongam um dos nossos
sentidos e em “alta definição”, ou seja, nos suprem com uma elevada clareza de informação. Se o
meio nos proporciona uma mensagem de fácil compreensão ou “mastigada”, como diríamos na gíria, os
nossos sentidos são pouco requisitados para a recepção da mensagem. O rádio, por exemplo, pela
definição de McLuhan, estenderia a audição. Já o telefone, embora dependa da audição, seria “frio”
porque tanto o emissor como o receptor precisam participar da conversa para completar a mensagem.
OS MEIOS FRIOS, PORTANTO, SÃO AQUELES QUE DEMANDAM QUE
ACIONEMOS MAIS DE UM SENTIDO SIMULTANEAMENTE OU AINDA
UMA MAIOR PARTICIPAÇÃO PARA INTERPRETARMOS AS
MENSAGENS. ELES NOS DEIXAM MARGEM PARA PREENCHERMOS
OS SIGNIFICADOS DELAS.
Fonte:Shutterstock
 A primeira imagem transmitida por ondas de televisão pela NBC foi de um boneco do Gato Félix
Quando recebemos uma informação por um meio frio, precisamos acionar mais de um sentido para
compreendê-la. É o que acontece com a televisão, em que visão e audição se articulam. Além disso, as
observações de McLuhan se referem aos primórdios da televisão, quando a baixa definição da imagem
exigia do telespectador um esforço maior para decodificar a mensagem. A título de exemplo, veja como
era a definição da imagem do Gato Félix em 1928.
Diferentemente da fotografia, um desenho ou uma caricatura também ampliam a nossa capacidade
perceptual. Para compreender melhor, veja a classificação dos meios segundo suas características:
Meios quentes Meios frios
Baixa participação Alta participação
Linear Não linear
Fragmentário (individual) Tribal
Aciona um sentido em alta definição Aciona mais de um sentido em baixa definição
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
Fonte:Shutterstock
Você se lembra de que, na introdução a este tema, foi questionado se o smartphone seria uma extensão
do corpo humano? McLuhan entende que os meios – ou as tecnologias – expandem a existência, as
capacidades e o corpo humano. O telefone seria a extensão do ouvido. O livro, por exemplo, a da visão.
Ao estender nossos sentidos, os meios seriam prolongamentos de nosso corpo, como uma projeção de
nosso sistema nervoso central para restabelecer o equilíbrio sensorial que foi modificado pela introdução
de um novo meio. Para o teórico, os meios seriam tanto extensões quanto “amputações”, entorpecendo-
nos com seus efeitos.
A extensão exigiria um processo de “autoamputação” realizado pelo nosso corpo para aliviar a
perturbação dos meios sobre o nosso sistema nervoso central. A adoção dessas extensões acionaria em
nós essa autoproteção com o entorpecimento da área prolongada. Esse estado de êxtase revelaria a
incorporação de um novo aparato tecnológico por nós.
CRÍTICAS AO PENSAMENTO DE MCLUHAN
De intelectual pop, McLuhan caiu no ostracismo a partir da década de 1980. Com a internet, porém,
seus estudos voltaram a ficar em evidência. O teórico sofreu várias críticas, entre as quais a de adotar
um pensamento evolucionista e de ser determinista tecnológico.
DETERMINISMO
Determinismo é a doutrina filosófica que defende que os fenômenos têm relação causal e
necessária. Mas é usado em um sentido mais geral para dizer que o meio em que as pessoas
estão inseridas as determinaria de maneira inescapável, uma leitura reducionista da causalidade.
Estudos que investigam as relações entre a oralidade e a escrita muitas vezes estabelecem uma
oposição ou subordinação entre os dois universos ou ainda uma linha evolutiva, como foi o caso de
McLuhan, que demarcou a passagem da oralidade para a escrita a partir da invenção do alfabeto
fonético. Mas será que deixamos de ser uma sociedade oral com a invenção da escrita e da
tipografia?
Paul Zumthor está entre os críticos de McLuhan, embora reconheça a importância de suas
contribuições. Para ele, existem três tipos de oralidade:
PAUL ZUMTHOR
Paul Zumthor (1915-1995) foi um importante linguista, crítico literário e historiador da literatura
suíço.
ORALIDADE PRIMÁRIA
Característica das sociedades que não têm contato algum com a escrita.
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ORALIDADE MISTA
Ocorre quando as linguagens oral e escrita estão presentes, mas a influência da escrita é apenas
parcial.
ORALIDADE SECUNDÁRIA
Caracterizaria as culturas letradas, em que a voz e o imaginário perderam força.
A diferença é que, para Zumthor, as existências desses tipos de oralidade não estariam condicionadas a
uma linha evolutiva. Elas dependeriam do contexto cultural de cada sociedade.
ORALIDADE E ESCRITA COEXISTIRAM SEMPRE, EM
ÉPOCAS HISTÓRICAS, E SUAS DIFERENÇAS AFETAM A
MENSAGEM DE MODO MENOS DEMARCADO DO QUE FEZ
ACREDITAR MCLUHAN.
ZUMTHOR, 2014.
Um exemplo evidente seria pensar nas aldeias indígenas, marcadas pela oralidade ainda no século XXI.
Entretanto, mesmo nas grandes capitais, não podemos supor que o sucesso da troca de mensagens em
áudio por aplicativos de conversas, como o WhatsApp, revela o aspecto oral de uma cultura? Pesquisa
realizada pela empresa Panorama Mobile Time/Opinion Box revelou que 76% dos brasileiros enviam
mensagens por áudio na plataforma. Não à toa o fundador do WhatsApp, Brian Acton, afirmou, em
entrevista à Revista Exame, que os brasileiros amam ligar e mandar áudios. (AGRELA, 2017)
Outra crítica comumente dirigida a McLuhan gira em torno de seu aforismo “o meio é a mensagem”. De
acordo com o teórico, são os meios que determinam as mudanças culturais em nossos
comportamentos. Essa visão, para muitos críticos, privilegia o aspecto tecnológico e menospreza o
cultural, ou seja, a ação humana. Sem referir-se ao canadense, o filósofo Pierre Lévy (2000)
indiretamente questionou suas afirmações ao voltar-se contra o determinismo tecnológico. Ele prefere
utilizar o termo “condicionamento tecnológico”. Assim, as invenções tecnológicas apenas seriam parte
do ambiente de transformação cultural de nossas sociedades. O homem tipográfico, por exemplo, não
teria sido determinado pela prensa de Gutenberg, mas condicionado por ela. As tecnologias ajudariam
a compor os cenários de transformação, mas as mudanças não dependeriam exclusivamente delas.
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Fonte:Shutterstock
 Pierre Lévy
AFORISMO
Aforismo: Máxima ou sentença que em poucas palavras contém uma regra ou um princípio de
alcance moral.
Outro crítico de McLuhan é UmbertoEco, autor do livro Apocalípticos e Integrados (1979), em que
critica tanto os defensores quanto os detratores da indústria cultural. Um dos grandes problemas do
pensamento de McLuhan, para Eco, seria a falta de conceituação sobre meios, mídias e mensagens.
McLuhan se referia indistintamente a eles. Além disso, Eco aponta que o conteúdo importa sim. O modo
como os meios são percebidos por cada indivíduo e os contextos político, histórico e sociocultural
em que as mensagens se inserem têm de ser levados em conta para uma análise estrutural dos meios
de massa.
UMBERTO ECO
Umberto Eco (1932-2016) foi um escritor, filósofo e linguista, titular da cadeira de Semiótica e
diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha. Além de acadêmico
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e articulista de jornal, escreveu romances de grande notoriedade, entre os quais O Nome da Rosa
e O pêndulo de Foucault.
OS CONTEXTOS POLÍTICO, HISTÓRICO E
SOCIOCULTURAL EM QUE AS MENSAGENS SE
INSEREM
Para exemplificar, a primeira transmissão de TV ocorreu no Reino Unido, em 1926. No ano
seguinte, a CBS (Columbia Broadcasting System), uma das maiores emissoras de TV e rádio, foi
inaugurada nos EUA. No Brasil, somente em 1950 ocorreria a primeira transmissão, pela TV Tupi,
que alcançou 200 brasileiros. Portanto, contextos inteiramente diversos precisam ser considerados
ao se observar os efeitos dos meios.
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As críticas mais contundentes se referiram ao conceito de meios quentes e meios frios. Para James
Carey, eles são o ponto fraco da obra do canadense, aponta Barbosa (2017). O grande problema é que
a classificação proposta por McLuhan não leva em conta as mudanças das características dos meios
com o passar do tempo. Atualmente, classificar a televisão como um meio frio soa problemático, com
TVs apresentando as imagens em alta definição. Em 1948, poderia fazer sentido, já que a TV tinha
menos linhas de definição e, portanto, uma qualidade de imagem que era inferior em relação aos filmes,
considerados como meios quentes. Como observa Carey:
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JAMES CAREY
James William Carey (1934-2006) foi um teórico de comunicação americano, crítico de mídia e
instrutor de jornalismo na Universidade de Illinois e, mais tarde, na Universidade Colúmbia.
OS MEIOS QUE SÃO QUENTES EM UM MINUTO PODEM SER
FRIOS. É IMPOSSÍVEL AFIRMAR QUE A TEMPERATURA É
UMA PROPRIEDADE ABSOLUTA DE UM MEIO OU SE UM
MEIO É QUENTE OU FRIO RELATIVAMENTE A OUTRO. E A
CLASSIFICAÇÃO DAS MÍDIAS SEGUNDO ESSAS
CATEGORIAS SÃO SEMPRE ARBITRÁRIAS.
CAREY apud BARBOSA, 2017.
A televisão seria um meio mais frio em relação ao rádio. E, mesmo assim, em determinado período.
Seguindo os argumentos de Carey, seria mais produtivo enxergar essa classificação entre meios
quentes e meios frios como relativa, dependendo das mudanças que os meios sofressem em sua
estrutura e seu conteúdo. Em tempos de convergência, por exemplo, seria ainda possível afirmar que o
rádio é um meio quente diante do cenário de interatividade que se verifica atualmente, em que o ouvinte
participa até da programação, entrando ao vivo no ar?
Para recapitular a diferença e alguns questionamentos a respeito de meios quentes e meios frios,
assista ao vídeo abaixo.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. UM DOS TEÓRICOS MAIS POLÊMICOS DO SÉCULO XX, MCLUHAN PROPÔS O
CONCEITO DE MEIOS QUENTES E MEIOS FRIOS PARA CLASSIFICAR OS MEIOS
DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO DE NOSSA SOCIEDADE A PARTIR DO
SURGIMENTO E DISSEMINAÇÃO DA TV COMO MÍDIA DE MASSA. ABAIXO,
APRESENTAMOS ALGUNS MEIOS E AS RAZÕES PELAS QUAIS FORAM
LISTADOS COMO FRIOS OU QUENTES. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE ESTÁ
EM DESACORDO COM O PENSAMENTO DE MCLUHAN:
A) A televisão foi considerada um meio frio por acionar vários sentidos no telespectador e por demandar
dele uma capacidade de imaginação para a recepção da imagem.
B) O rádio seria um meio frio por aguçar a audição e permitir pouca participação dos ouvintes.
C) O jornal foi classificado como um meio frio por ser linear e teria reduzido nossa percepção ao aspecto
visual.
D) A palestra e a fala são ambas meios frios por demandarem muita interatividade dos envolvidos.
2. O PENSAMENTO DE MCLUHAN FOI BASTANTE CRITICADO POR TEÓRICOS
DA COMUNICAÇÃO, PRINCIPALMENTE SEUS ARGUMENTOS SOBRE OS MEIOS
QUENTES E FRIOS, EMBORA O CANADENSE TENHA VOLTADO A FICAR EM
VOGA COM O ADVENTO DA INTERNET. AS ALTERNATIVAS ABAIXO APONTAM
FALHAS ACERCA DO PENSAMENTO DO TEÓRICO CANADENSE, EXCETO:
A) A divisão entre meios quentes e frios é estática e não leva em conta que os meios sofrem
transformações em suas características ao longo do tempo.
B) Mais produtivo seria pensar sobre as propriedades dos meios de forma relativa entre eles, ou seja,
um meio seria mais quente ou mais frio em comparação com outro.
C) O único problema do aforismo “o meio é a mensagem” seria a perspectiva cultural.
D) A classificação da televisão como um meio quente só fazia sentido à época do início das
transmissões, em que os aparelhos tinham baixa definição de imagem.
GABARITO
1. Um dos teóricos mais polêmicos do século XX, McLuhan propôs o conceito de meios quentes
e meios frios para classificar os meios de comunicação e expressão de nossa sociedade a partir
do surgimento e disseminação da TV como mídia de massa. Abaixo, apresentamos alguns meios
e as razões pelas quais foram listados como frios ou quentes. Assinale a alternativa que está em
desacordo com o pensamento de McLuhan:
A alternativa "D " está correta.
A palestra e a fala, embora pareçam ser da mesma natureza, não o são, segundo a classificação de
McLuhan. A palestra é um meio quente porque os ouvintes têm uma posição passiva diante do orador.
Já na fala, um meio frio, só há o desenrolar da comunicação se ambos os envolvidos preencherem a
conversa.
2. O pensamento de McLuhan foi bastante criticado por teóricos da comunicação, principalmente
seus argumentos sobre os meios quentes e frios, embora o canadense tenha voltado a ficar em
voga com o advento da internet. As alternativas abaixo apontam falhas acerca do pensamento do
teórico canadense, exceto:
A alternativa "C " está correta.
Ao afirmar que “o meio é a mensagem”, McLuhan tende a um determinismo tecnológico. Para Umberto
Eco, a análise dos meios de comunicação não pode se ater às suas formas. É preciso contemplar as
propriedades dos meios, mas também os conteúdos das mensagens, as percepções individuais dos
receptores e os contextos em que eles estão inseridos.
MÓDULO 2
 Definir hibridismo, comparando sensorialidades despertadas pelas mídias impressa, digital,
audiovisual e móvel
LIGANDO OS PONTOS
Marcado pela capacidade de permitir a convergência, as plataformas digitais constituem ambientes
muito ricos para se pensar como ocorre o processo de hibridização entre as diferentes mídias.
Alimentado com dados captados pela Universidade de Oxford, o site Our World in Data
(ourworldindata.org) tornou-se uma importante referência na cobertura de eventos com relevância
global, como a pandemia de Covid-19, as ondas migratórias e a Guerra da Ucrânia. Vamos entender
como?
Apesar de publicar textos de pesquisadores, o site se destaca pelos infográficos interativos como
principal modo de difusão de informações. Esse tipo de conteúdo articula características importantes
desse meio, como possibilidade de customização, leitura não-linear, experiência tátil, sem falar na
própria possibilidade de interação. Porém, mais do que isso, exemplifica como uma nova mídia pode
incorporar, mesmo que parcialmente, linguagens anteriores e realinhar a experiência do leitor a um novo
tipo de sensibilidade.
Originalmente, os gráficos são herança da cultura impressa. Mesmo sem recorrer a textos longos, esse
tipo de informação promove a abstração de estatísticas em elementos visuais, com a utilização de eixos,
proporções e fluxos de linhas. Na TV, essa linguagem gráfica recebeu o acréscimo do movimento,
explorandoa possibilidade de ressaltar tendências e criar campos de atração visual.
A internet faz referência a essas características, mas se diferencia ao colocar na mão do usuário o
comando do acesso aos dados. Através do toque dos dedos, torna-se possível visualizar um panorama
geral das informações ou buscar por números bastante específicos, conforme interesses perfeitamente
customizáveis (permite expandir o conteúdo de maneira seletiva, acionando novas caixas de
informação). Esse tipo de experiência, aliás, parece despertar o usuário para um tipo de acesso menos
passivo, em que a informação prescinde da interpretação prévia dos textos. Ao buscar os dados que
mais interessam para si, o leitor constrói sua própria leitura com base nos dados disponibilizados.
As informações obtidas pelo Our World in Data serviram de fonte para diferentes veículos jornalísticos
ao redor do mundo, seja na mídia impressa, radiofônica ou televisiva.
Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos?
1. HIBRIDIZAÇÃO FOI O TERMO ESCOLHIDO POR MCLUHAN PARA DEFINIR A
ASSIMILAÇÃO DE ELEMENTOS DE UMA MÍDIA TRADICIONAL POR OUTRA MAIS
NOVA. CONFORME O AUTOR, TODO MEIO NOVO BUSCA INCORPORAR OS
MEIOS QUE O PRECEDERAM E REFERENCIÁ-LOS. NOS GRÁFICOS
INTERATIVOS PUBLICADOS NO SITE OUR WORLD IN DATA PODEMOS
PERCEBER A ASSIMILAÇÃO DE LINGUAGENS PERTENCENTES A MÍDIAS
ANTIGAS ALÉM DE RUPTURAS TRAZIDAS PELAS PLATAFORMAS DIGITAIS.
LEIA AS ALTERNATIVAS E MARQUE A ÚNICA INCORRETA EM RELAÇÃO A ESSE
EXEMPLO DE HIBRIDAÇÃO:
A) Textos e grafismos presentes nos gráficos do site remetem à linguagem tradicional da mídia
impressa.
B) As características dos gráficos de jornais impressos precisaram ser eliminadas para possibilitar sua
adaptação aos meios eletrônicos, especialmente à TV.
C) A mídia digital permite a utilização de recursos típicos do audiovisual, como o acréscimo de
movimento aos gráficos.
D) É possível incluir músicas de fundo ou ruídos específicos como forma de enfatizar alguma
informação.
E) Gráficos interativos da internet apresentam maior possibilidade de customização do conteúdo em
relação às mídias anteriores.
2. PARA MCLUHAN, A RUPTURA ENTRE AS FORMAS SENSÍVEIS DE
PERCEPÇÃO DE UM MEIO E OUTRO MAIS NOVO PROVOCAM UM MOVIMENTO
DE TRANSIÇÃO, EM QUE O PÚBLICO PARECE TOMAR CONSCIÊNCIA SOBRE
OS EFEITOS DE DETERMINADO MEIO SOBRE OS NOSSOS SENTIDOS E CERTA
AUTOMATIZAÇÃO PROVOCADA POR ELA. O SITE OUR WORLD IN DATA, POR
EXEMPLO, APOSTA NA INTERATIVIDADE CARACTERÍSTICA DA INTERNET
COMO FORMA DE DISPONIBILIZAR UMA GRANDE QUANTIDADE DE
INFORMAÇÕES AO LEITOR, SEM PARECER CANSATIVO. ANALISE AS
ALTERNATIVAS E MARQUE A ÚNICA QUE EXPLICA CORRETAMENTE ESSA
ESTRATÉGIA.
A) Esse tipo de gráfico dá continuidade a uma tradição do jornalismo impresso, que sobreviveu nos sites
de notícias, de resumir os dados apresentados a partir da visão do jornalista.
B) Os gráficos interativos provocam uma ruptura em relação à dependência do usuário por imagens,
como ocorre na TV.
C) Ao permitir maior interatividade, o site em questão procura evitar a customização dos dados por parte
do leitor.
D) Os dados nos gráficos são apresentados com poucos textos para evitar distorções na interpretação
dos dados apresentados.
E) Apesar da grande quantidade de dados, os gráficos permitem a customização do acesso, de modo
que cada usuário possa buscar pelas informações de maior interesse para si.
GABARITO
1. Hibridização foi o termo escolhido por McLuhan para definir a assimilação de elementos de
uma mídia tradicional por outra mais nova. Conforme o autor, todo meio novo busca incorporar
os meios que o precederam e referenciá-los. Nos gráficos interativos publicados no site Our
World in Data podemos perceber a assimilação de linguagens pertencentes a mídias antigas além
de rupturas trazidas pelas plataformas digitais. Leia as alternativas e marque a única incorreta
em relação a esse exemplo de hibridação:
A alternativa "B " está correta.
Nos gráficos interativos presentes nos dispositivos digitais não há a eliminação completa das
características do videografismo. Ao contrário, há uma ampliação das possibilidades inauguradas por
esse meio com a inserção da interatividade por parte do usuário, que pode acionar movimentos nos
gráficos ou optar pela expansão de um conteúdo em detrimento do outro.
2. Para McLuhan, a ruptura entre as formas sensíveis de percepção de um meio e outro mais
novo provocam um movimento de transição, em que o público parece tomar consciência sobre
os efeitos de determinado meio sobre os nossos sentidos e certa automatização provocada por
ela. O site Our World in Data, por exemplo, aposta na interatividade característica da internet
como forma de disponibilizar uma grande quantidade de informações ao leitor, sem parecer
cansativo. Analise as alternativas e marque a única que explica corretamente essa estratégia.
A alternativa "E " está correta.
A internet permite a customização do conteúdo. Nos gráficos interativos, essa possibilidade é explorada,
uma vez que é possível a inserção de uma grande quantidade de informações, permitindo visualizações
mais generalizantes e, simultaneamente, o acesso a informações específicas.
3. APESAR DOS PRIMEIROS SITES DE JORNALISMO
REMONTAREM A MEADOS DA DÉCADA DE 1990, MUITOS
AUTORES CONSIDERAM QUE GRANDE PARTE DOS SITES
DE NOTÍCIAS CONTINUAM REPRODUZINDO AS
LINGUAGENS DE MEIOS MAIS ANTIGOS, COMO O
IMPRESSO, O RÁDIO E A TV. TOMANDO COMO BASE O
EXEMPLO DOS GRÁFICOS INTERATIVOS, QUE OUTRAS
POSSIBILIDADES VOCÊ CONSIDERA QUE O HIBRIDISMO
DAS MÍDIAS – CONFORME O CONCEITO DE MCLUHAN –
ABRE PARA O JORNALISMO?
RESPOSTA
O ciberjornalismo contemporâneo pode ser tátil, por meio da tecnologia touchscreen. No site Our World in
Data, as informações podem ser expandidas por meio do toque nas linhas dos gráficos e nos ícones de
orientação. Nos gráficos interativos também é possível observar a convergência de textos, imagens e
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grafismos em uma estrutura hipertextual, customizável. Esse tipo de jornalismo também é marcado pela
perenidade, devido à grande capacidade de armazenamento de conteúdo, e pela instantaneidade.
Imagine um esloveno ou um egípcio que chegue ao Brasil e acesse websites de notícias de diversos
veículos, sem traduzi-los para o português. O importante para esse exercício de imaginação é que
sejam cidadãos de países que não conheçam o português. De curiosidade, eles entram no site do jornal
Folha de S. Paulo, no da rádio CBN e no do Jornal Nacional. Supondo que não entendam português,
você acha que eles saberão identificar qual é o site originariamente de um jornal, de uma rádio e de uma
TV? A resposta, por enquanto, ainda é sim e torçamos para que tal cenário mude em breve. Embora a
internet tenha proporcionado a possibilidade da utilização de uma linguagem híbrida ou multimídia, ainda
notamos a prevalência do texto no site da Folha de S. Paulo, do áudio no da CBN e do audiovisual no
do Jornal Nacional.
HIBRIDISMO E REMEDIAÇÃO
Vimos que a classificação de McLuhan sobre os meios quentes e frios ficou datada. Entretanto, seu
pensamento voltou a ser valorizado com a internet pelo fato de o meio permitir um hibridismo entre as
linguagens impressa, sonora, audiovisual e tátil se as consumirmos nos smartphones.
McLuhan percebia que, num primeiro momento, todo meio novo busca incorporar os meios que o
precederam e referenciá-los. Assim, cada meio tornava-se o conteúdo do que substituía:
O manuscrito tornou-se o conteúdo do impresso

A fotografia e o romance tornaram-se o conteúdo do filme

O filme tornou-se o conteúdo da TV
Ou seja, uma mídia era sempre assimilada ou representada na mídia mais nova.
O termo hibridização foi usado por McLuhan na década de 1960 para caracterizar as mudanças
provocadas pela introdução e disseminação da televisão. No século XXI, voltou a ficar atual com a
convergência entre as mídias possibilitada pela rede mundial de computadores.
 SAIBA MAIS
Parte das críticasa Marshall McLuhan se deram também pela incompreensão à sua forma de se
expressar, adaptando frases de outros autores e empregando metáforas, exemplos e aforismos. De
acordo com Barbosa (2017), a forma de escrever do autor lembrava um mosaico, em vez de seguir uma
linearidade sequencial da escrita. Ao tentar romper com a ideia de causalidade e sequência, McLuhan
se expressava em livros de maneira não convencional, usando o meio como forma de crítica a uma de
suas principais características: a linearidade. Seu livro O meio é a massagem: um inventário de
efeitos, de 1967, é um exemplo disso.
O MEIO É A MASSAGEM
O título do livro teria sido resultado de um erro tipográfico, segundo um sobrinho de McLuhan, que
ao voltar do tipógrafo atentou que no lugar da palavra message (mensagem) havia a palavra
massage (massagem). McLuhan, na ocasião, preferiu o título com o erro, alegando que estava na
proposta certa, e levava a refletir sobre os demais sentidos sensórios. As edições brasileiras têm o
nome tanto de O meio é a mensagem, quanto O meio é a massagem.
O HÍBRIDO, OU ENCONTRO DE DOIS MEIOS, CONSTITUI UM
MOMENTO DE VERDADE E REVELAÇÃO, DO QUAL
CRESCE A FORMA NOVA. ISTO PORQUE O PARALELO DE
DOIS MEIOS NOS MANTÉM NAS FRONTEIRAS ENTRE
FORMAS (...). O MOMENTO DE ENCONTRO DOS MEIOS É
UM MOMENTO DE LIBERDADE E LIBERTAÇÃO DO
ENTORPECIMENTO E DO TRANSE QUE ELES IMPÕEM AOS
NOSSOS SENTIDOS.
MCLUHAN apud DEL BIANCO, 2005.
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Fonte:Shutterstock
 Forte em Saint Tropez ao por do sol
Lembra-se do conceito de extensão e autoamputação que os meios provocam sobre os nossos sentidos
ao acentuar determinada forma de recepção da mensagem em detrimento de outras? Pois o que
McLuhan está tentando transmitir com a citação anterior é que, ao assimilarmos um novo meio, ficamos
em um estágio de transição entre formas que nos permitem ter consciência sobre os efeitos de
determinado meio sobre os nossos sentidos, libertando-nos da sensação anestésica que eles
despertavam em nós. Ou seja, sairíamos do “modo automático”. Ao suscitarem novas sensações, um
meio nos faria refletir sobre elas.
Na contemporaneidade, entretanto, não é mais possível enxergar esse cenário evolutivo de uma mídia
para a outra. Aliás, será que algum dia os meios foram excludentes? Quem via televisão não poderia ler
jornal na manhã do dia seguinte? Ou ouvir um programa de rádio? Na época do surgimento da TV, dizia-
se que ela acabaria com o rádio. Entretanto, a previsão não se concretizou. Com a era digital, a profecia
ficou ainda mais distante porque meios e práticas convergem. Quando navegamos por um website,
estamos experimentando o encontro de todas as mídias anteriores. Para Del Bianco, a hibridização
entre os meios realinha o sistema de comunicação:
É POSSÍVEL ENTENDER HOJE QUE AS MUTAÇÕES
EMERGENTES POR HIBRIDIZAÇÃO DESENCADEIAM UM
REALINHAMENTO DO SISTEMA DE COMUNICAÇÃO,
ABRINDO CAMINHO PARA A CONVERGÊNCIA DE
PROCESSOS E PRÁTICAS. E NESSE AMBIENTE DE
MODIFICAÇÕES E RECICLAGENS, ONDE UMA FORMA NÃO
SUBSISTE SEM A OUTRA, É QUE ESTÃO SENDO
MOLDADAS NA CONTEMPORANEIDADE AS BASES DO
PROCESSO DE CONVERGÊNCIA OU INTEGRAÇÃO ENTRE
NOVOS E VELHOS MEIOS. REVOLUCIONÁRIO E
VISIONÁRIO, O PENSAMENTO DE MCLUHAN SAIU DO
OSTRACISMO PARA INSPIRAR PESQUISADORES EM TODO
MUNDO.
DEL BIANCO, 2005.
Esse processo de incorporação de um meio pelo outro foi chamado de “remediação” por Bolter e
Grusin (2000). Os autores analisaram os diferentes graus em que as mídias digitais “remediam” as
anteriores, surgidas na era analógica dos meios de comunicação de massa.
BOLTER E GRUSIN
Em seu livro Remediation: Understanding New Media (2000), Bolter e Grusin fazem uma releitura
do clássico de McLuhan Understanding media: the extensions of man.
Como o jornal, o cinema, o rádio e a televisão estão representados na internet? Para Bolter e Grusin, os
níveis de incorporação variam da absorção total à parcial de uma mídia pela outra:
Absorção total
As rupturas em relação ao meio anteriormente prevalente são pouco percebidas.

Absorção parcial
As diferenças entre os antigos e novos meios se sobressaem, sem que isso resulte, no entanto, no
apagamento da mídia anterior.
Entre os extremos, estariam diferentes formas de remediação.
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Voltando ao exemplo dos sites da Folha de S. Paulo, da CBN e do Jornal Nacional, em que grau desse
fenômeno você acha que eles se encontram? Certamente não é o de absorção total, já que ainda
notamos neles, claramente, traços da mídia anterior que remediaram: o rádio, o jornal e a TV.
Fonte:Shutterstock
Importante notar que, para os autores, o processo de remediação, entretanto, age nos dois sentidos:
tanto da mídia anterior para a nova quanto da nova para a que a antecedeu. Como exemplo, eles citam
os filmes que incorporaram características das mídias digitais, como a computação gráfica, num
movimento que parte da mídia mais nova para uma anterior: o cinema. Quantas vezes você já deve ter
visto diálogos de aplicativos de mensagens projetados na tela de cinema, simulando o diálogo entre os
personagens que estão usando seus smartphones em cena? Ou tweets reproduzidos em páginas
impressas? Na visão de Bolter e Grusin, o processo de remediação é inevitável: todo meio estaria
absorvendo o outro.
Manovich (2003), ao analisar as chamadas novas mídias – ou mídias digitais – observou que elas se
nutrem das características das velhas, tornando-se, assim, metamídia. O grande divisor de águas entre
elas seria a migração das mídias para o software, que permite novas formas de distribuição e
interatividade. Entretanto, as novas mídias se valem das convenções culturais já existentes e
construídas pela chamada velha mídia.
Mas será que as “velhas mídias” são tão antigas assim?
O MEIO IMPRESSO E A LINEARIDADE
Vilém Flusser (2010) observou que o motivo por trás da invenção do alfabeto foi superar a
consciência mágico-mítica (pré-histórica) e garantir espaço para uma nova (histórica)
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consciência. Discípulo de McLuhan, Walter Ong (1912-2003) defendeu no livro Oralidade e escrita: a
tecnologização da palavra que a escrita separa o conhecido do conhecedor por meio do texto. Para ele,
a cultura oral reduziria o espaço para a experimentação intelectual, pois a mente está ocupada com o
que classifica como tarefas conservadoras: como o conhecimento é transmitido sem cessar entre os
indivíduos e as gerações, é preciso que a mente se encarregue disso. Por que Ong as chama de
conservadoras? Porque é por meio delas que uma cultura é preservada. Exemplos são as diversas
culturas indígenas e afro-brasileiras, e num outro âmbito, a cultura surda mundial, que não têm tradição
escrita, mas nem por isso deixam de ter história.
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 Capa da edição do trigésimo aniversário de Oralidade e Escrita, De Walter J. Ongl
VILÉM FLUSSER
Grande pensador da comunicação sob um viés filosófico, Vilém Flusser (1920-1991), nascido em
Praga, refugiou-se do nazismo mudando-se para o Brasil e se naturalizando brasileiro.
WALTER ONG (1982) AFIRMA QUE O TEXTO, POR SER
LITERALMENTE CONSERVADOR (ELE SE CONSERVA), LIBERARIA A
MENTE DE TAREFAS CONSERVADORAS. ELE ACREDITA QUE
ESCREVER FORTALECE A CONSCIÊNCIA. PARA O TEÓRICO, O USO
DE UMA TECNOLOGIA PODE ENRIQUECER A PSIQUE, ALARGAR O
ESPÍRITO HUMANO E INTENSIFICAR SUA VIDA INTERIOR, E A
ESCRITA É UMA TECNOLOGIA AINDA MAIS PROFUNDAMENTE
INTERIORIZADA.
Walter Ong demarcou a existência entre a oralidade primária e a secundária. A primeira diz respeito à
oralidade das culturas sem conhecimento da escrita. Já a secundária seria a das culturas em que o
rádio, a televisão e outros meios eletrônicos transmitem uma nova oralidade que, entretanto, depende
da escrita. Faz sentido. Afinal, os noticiários de rádio, TV, as radionovelas e as novelas pressupõem a
existência de um texto jornalístico ou roteiro.
O RÁDIO E A TV: VOLTA À TRIBALIDADE?
Já o rádio e a TV, para McLuhan, trariam um retornoàs possibilidades sensórias mágico-míticas das
culturas orais. O teórico atribuiu à imprensa a construção do pensamento tipográfico ou linear e viu nos
meios eletrônicos perspectivas mais ricas de interação com os nossos sentidos.
Comecemos pelo rádio. Embora tenha classificado o rádio como um meio quente pela baixa participação
do público, McLuhan, por outro lado, escreveu o texto Rádio, o tambor tribal, o trigésimo capítulo do
clássico Understanding Media: The Extensions of Man, em que discorre sobre como o rádio
restabeleceu uma conexão íntima com a cultura oral.
O meio, com seu poder de envolver, teria alargado a audição, como notam Del Bianco e Meditsch
(2005). McLuhan, apontam os autores, recorreu à metáfora do tambor tribal para definir o rádio como
uma tecnologia que fortalece a conexão do homem com o grupo, com a comunidade, que foi capaz de
reverter rapidamente o individualismo do homem tipográfico para o coletivismo. O rádio, para Del
Bianco, trouxe à tona ecos de antigos tambores tribais.
ESSA FORÇA ARCAICA DO RÁDIO, SEGUNDO MCLUHAN,
ESTÁ NA PRÓPRIA NATUREZA TECNOLÓGICA DO MEIO. AO
PRODUZIR IMAGENS AUDITIVAS, O RÁDIO CRIA UM
AMBIENTE TOTALMENTE INCLUSIVO E ABSORVENTE QUE
PROPICIA ÀS PESSOAS UM MUNDO PARTICULAR EM MEIO
ÀS MULTIDÕES. ALARGA O SENTIDO DA AUDIÇÃO E AS
FACULDADES HUMANAS, TORNANDO-SE UMA EXTENSÃO
DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL. POR ESSA
CARACTERÍSTICA, ALTERA OS ÍNDICES DE SENSIBILIDADE
OU MODOS DE PERCEPÇÃO DE QUEM TRANSITA EM
AMBIENTES MOLDADOS POR ELE.
DEL BIANCO, 2005.
O rádio elenca a linguagem oral, a penetração, a mobilidade, o baixo custo, o imediatismo, a autonomia
(a pessoa pode receber a mensagem em qualquer lugar que esteja) e a sensorialidade. Segundo
Ortriwano (1985), ele envolve o ouvinte, fazendo-o participar por meio da criação de um “diálogo mental”
com o emissor e faz a imaginação ser ativada mediante a emocionalidade das palavras e dos recursos
da sonoplastia, permitindo que as mensagens tenham nuances individuais, de acordo com as
expectativas de cada um.
Em relação à televisão, à mídia digital e à mídia impressa, alguns autores defendem que nelas a
imaginação seja limitada pela presença de imagens. O argumento vai na contramão de McLuhan. Como
já vimos, desde então, a configuração da TV se modificou.
Pode soar estranho atualmente imaginar que uma TV nos anos 1960 pudesse acionar um mundo
audiotátil, e não audiovisual, como defendia McLuhan. Com alta definição e som surround, agora a
televisão se aproxima mais da experiência audiovisual do cinema. Estivesse exagerando ou não, o autor
canadense foi um visionário. E não se pode esquecer das smart TVs, que podem inclusive ser
acionadas por gestos. Já poderíamos afirmar que a TV é audiovisual e tátil. E podemos ir além se
considerarmos o uso crescente de dispositivos acionados por comando de voz interconectados com os
smartphones.
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OS DISPOSITIVOS MÓVEIS E A TACTILIDADE
É possível notar a influência da materialidade como impulsionadora de uma nova linguagem no
conteúdo produzido para telas sensíveis ao toque, como os smartphones e os tablets. Palácios e Cunha
(2012), ao analisarem os impactos desses novos dispositivos sobre o jornalismo, enumeraram a
tactilidade como mais um atributo do ciberjornalismo contemporâneo, além da multimidialidade,
hipertextualidade, interatividade, customização, memória e da instantaneidade. Embora tenham
analisado os efeitos sobre o jornalismo, cabe ressaltar que as conclusões a que chegaram se aplicam a
quaisquer produtos desenvolvidos para esses meios.
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DIFERENTEMENTE DE RECURSOS COMO A
“MULTIMIDIALIDADE” E A “MEMÓRIA”, QUE NOS
PRIMÓRDIOS DA INTERNET ERAM APENAS
POTENCIALIDADES, A TACTILIDADE JÁ NASCE
PLENAMENTE APROPRIÁVEL PARA UTILIZAÇÕES EM
APLICATIVOS CRIADOS PARA PLATAFORMAS MÓVEIS. SEU
USO NÃO ESTÁ LIMITADO POR BARREIRAS TÉCNICAS,
MAS APENAS CIRCUNSCRITO PELA CAPACIDADE
CRIATIVA PARA UM MELHOR APROVEITAMENTO.
PALÁCIOS e CUNHA, 2012.
No artigo Duas telas, dois caminhos: a produção de notícias para celular e tablet no panorama dos
jornais brasileiros, Barsotti e Aguiar (2014) sustentam que a produção de produtos jornalísticos para
tablets possibilitou o surgimento de uma nova linguagem nesses dispositivos. Eles observaram que, nos
produtos jornalísticos para smartphones, a tactilidade se revelava apenas no ato do consumo, já que as
redações, à época, só reproduziam automaticamente para as telas de celulares os seus sites, fazendo
uma operação de transposição.
Já nos tablets, a tactilidade tornava-se um componente necessário para experimentar os produtos, tendo
em vista que a produção jornalística era pensada especificamente para essas telas.
BARSOTTI E AGUIAR (2014) AFIRMAM QUE O JORNALISMO FEITO
SOB MEDIDA PARA ESSES DISPOSITIVOS TEM APOSTADO NA
LÓGICA DAS SENSAÇÕES, AO APOIAR-SE NA RECEPÇÃO POR
MEIO DOS TRÊS SENTIDOS: A VISÃO, A AUDIÇÃO E O TATO.
Os produtos analisados à época valiam-se de textos, áudios e vídeos, mas também de infográficos
interativos e testes que demandavam a tactilidade para o usuário interagir com o conteúdo.
A LINGUAGEM HIPERMÍDIA E A
INTERATIVIDADE
Interação é a palavra-chave para a compreensão da mudança radical de um consumo mais passivo de
informação que caracterizou a era dos meios de comunicação de massa para um mais ativo na era
digital. Bardoel e Deuze (2001) identificaram quatro características do jornalismo online que se aplicam
de modo geral aos produtos veiculados na rede mundial de computadores: a hipertextualidade, a
interatividade, a mutimidialidade e a customização de conteúdo.
A multimidialidade se refere à convergência de diversas mídias tradicionais para a internet, com a
possibilidade de utilização de som, imagem e texto, transpondo características originariamente do jornal,
do rádio e da TV.
A interatividade na web pode acontecer de várias formas. Para alguns autores, ela é múltipla, de modo
que não é possível falar de interatividade no singular. Segundo Mielniczuk (2001), ela estaria presente
em uma série de processos.
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Diante de uma tela de computador conectado à internet, o usuário estabelece relações:
com a máquina

com o conteúdo

com outras pessoas – seja o autor ou outros leitores
No trecho a seguir, Mielniczuk faz referência à ocorrência de tais processos em um site jornalístico:
NAVEGANDO PELO WEBJORNAL E ELEGENDO O PRÓPRIO
PERCURSO DE LEITURA, OS USUÁRIOS TERIAM ACESSO
ÀS INFORMAÇÕES DE UM JEITO MUITO DIFERENCIADO
ENTRE SI. É POSSÍVEL DIZER QUE DIANTE DE UM JORNAL
IMPRESSO CADA LEITOR FAZ O SEU PERCURSO DE
LEITURA OU QUE DIANTE DA TELEVISÃO CONVENCIONAL
CADA PESSOA TROCA OS CANAIS – DURANTE O
TELEJORNAL – DE ACORDO COM SUA VONTADE, PORÉM
EM AMBOS OS CASOS EXISTE UMA UNIDADE PROPOSTA.
NO WEBJORNAL, ESSA DITA UNIDADE PROPOSTA É TÃO
COMPLEXA – SOBRETUDO PELA CONSTANTE
ATUALIZAÇÃO, PELO GRANDE VOLUME DE INFORMAÇÕES
E PELO FORMATO HIPERTEXTUAL – QUE O PRODUTO
DEIXA DE SER PERCEBIDO PELOS LEITORES COMO
SENDO ÚNICO.
MIELNICZUK, 2001.
No trecho destacado, a autora indiretamente está abordando outra característica gerada pela navegação
na web: a customização. No exemplo, ela menciona a customização gerada pelo percurso de leitura
escolhido pelo usuário por meio dos hiperlinks. Nenhum produto será único, já que existem escolhas o
tempo inteiro a serem feitas pelo usuário, como em um jogo. Dependendo das opções que façam, os
usuários serão apresentados a diferentes alternativas de leitura.
A customização tem duas outras faces: em muitos sites e aplicativos, o usuário configura os produtos de
acordo com suas preferências. Entretanto, existe ainda uma customização algorítmica nas redes sociais
e nos mecanismos de busca. Por meio do nosso comportamento ao navegarmos na web, os algoritmos
presentes nessas plataformas filtram o que nos será mostrado e ocultado.
NO CASO DO JORNALISMO, TAL FILTRAGEM PODE TRAZER
CONSEQUÊNCIAS IMPREVISÍVEIS, TENDO EM VISTA QUE APENAS
ALGUMAS NOTÍCIAS SERÃO MOSTRADASAOS USUÁRIOS NAS
REDES SOCIAIS (BARSOTTI, 2018). UM DOS PRINCÍPIOS DO
JORNALISMO É JUSTAMENTE LEVAR DIVERSIDADE DE PONTOS DE
VISTA AOS USUÁRIOS. A CULTURA ALGORÍTMICA TAMBÉM
ENVOLVE QUESTÕES DE PRIVACIDADE E ALGUNS AUTORES
DEFENDEM QUE PODE INDUZIR ESCOLHAS E COMPORTAMENTOS.
No vídeo a seguir, Anderson Lopes, doutor em Ciências da Comunicação pela USP, explica os dilemas
da customização e da cultura algorítmica.
Por fim, resta descrever os efeitos da hipertextualidade. A conexão entre os textos por meio de links
rompe com a linearidade da leitura tal como no texto impresso. Essa característica da linguagem digital
também contribui para a personalização do conteúdo, já que cada leitor escolherá seu caminho de
leitura. É claro que, no jornal impresso, você também poderia ler apenas o primeiro parágrafo de uma
notícia, abandoná-la e decidir pular da Política para o Caderno de Esportes, por exemplo. Ainda assim, o
“cardápio” de notícias ofertado a você seria composto apenas pelas notícias que aconteceram no dia
anterior.
Na televisão e no rádio, o telespectador poderia trocar de canal ou estação quantas vezes quisesse.
Portanto, já havia interatividade, mas as escolhas do leitor, ouvinte e telespectador eram limitadas pela
grade de programação ou pelo tamanho do jornal. Na web, a liberdade de escolhas é infinita.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. EMBORA A PALAVRA HIBRIDISMO OU HIBRIDIZAÇÃO TENHA SURGIDO NOS
ANOS 1960, ELA GANHOU FORÇA E UM SIGNIFICADO MAIS PALPÁVEL COM O
ADVENTO DA INTERNET. AS AFIRMATIVAS ABAIXO REPRESENTAM
CARACTERÍSTICAS DO HIBRIDISMO, EXCETO:
A) A convergência entre os meios de comunicação possibilitada pela rede mundial de computadores.
B) A dependência de um meio em relação ao outro: eles tornam-se complementares e dependentes na
web.
C) O abandono das convenções culturais preexistentes quando um novo meio surge no sistema de
comunicação.
D) Processo que leva à incorporação de um meio pelo outro nos dois sentidos: da mídia mais velha para
a mais nova e vice-versa.
2. DE ACORDO COM O PENSAMENTO DE MCLUHAN, A RECEPÇÃO DE CADA
MEIO DESPERTA NO PÚBLICO DIFERENTES SENTIDOS OU SENSORIALIDADES,
INDEPENDENTEMENTE DAS MENSAGENS QUE VEICULAM. ABAIXO, ESTÃO
LISTADAS ALGUMAS SENSAÇÕES PROVOCADAS PELOS MEIOS. ASSINALE A
ALTERNATIVA INCORRETA:
A) Pela profusão de imagens, a televisão desperta nos telespectadores a visão.
B) Os dispositivos móveis, com telas sensíveis ao toque, acionam a visão, a audição e o tato.
C) A leitura dos jornais impressos aguça a visão, direcionando a uma leitura linear.
D) O rádio ecoa um tambor tribal, estendendo a audição.
GABARITO
1. Embora a palavra hibridismo ou hibridização tenha surgido nos anos 1960, ela ganhou força e
um significado mais palpável com o advento da internet. As afirmativas abaixo representam
características do hibridismo, exceto:
A alternativa "C " está correta.
Os novos meios se valem das convenções culturais compartilhadas amplamente pela sociedade e que
tiveram origem no contexto de consumo dos velhos meios. Com isso, conseguem facilitar a
compreensão de suas mensagens pelo usuário sem provocar uma grande ruptura com a experiência
previamente adquirida por eles.
2. De acordo com o pensamento de McLuhan, a recepção de cada meio desperta no público
diferentes sentidos ou sensorialidades, independentemente das mensagens que veiculam.
Abaixo, estão listadas algumas sensações provocadas pelos meios. Assinale a alternativa
incorreta:
A alternativa "A " está correta.
A televisão, pela definição de McLuhan, teria nos levado de um mundo tipográfico para um mundo
audiotátil. O conceito de McLuhan foi cunhado em uma época em que a TV apresentava imagens de
baixa qualidade e que, portanto, demandava do telespectador diversos sentidos para interpretar os
pontos na tela a que estava assistindo. Com a evolução dos aparelhos, a TV se aproximou do cinema,
com imagens de alta definição. Mesmo assim, ela é, no mínimo, um meio audiovisual: aciona a visão e a
audição. Já há alguns aparelhos comandados por gestos no mercado. Nesse caso, a televisão seria
audiovisual e tátil.
MÓDULO 3
 Comparar os conceitos de mídias de massa e de nicho e os papéis de produtor e de consumidor de
conteúdo no cenário atual
LIGANDO OS PONTOS
A possibilidade de explorar nichos de mercado, aberta pela internet, permitiu a renovação de um meio
que enfrentou períodos de acentuada decadência a partir dos anos 1980. A produção de conteúdo para
áudio superou a crise de audiência que as rádios vivenciaram nas últimas décadas e voltou a se tornar
tendência nos últimos anos com o podcast.
Esse tipo de conteúdo em streaming começou a emplacar no Brasil a partir de 2019. Atualmente, a
Associação Brasileira de Podcasters (AbPod) aponta que 40% das pessoas com acesso à internet no
país já ouviram algum podcast, o que totaliza cerca de 50 milhões de pessoas.
Pesquisa realizada pelo grupo Globo, em parceria com o instituto Kantar Ibope, aponta que o consumo
de podcasts no Brasil aumentou significativamente entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021. Dos
mais de mil entrevistados ouvidos, 57% começaram a acompanhar algum canal regularmente. Isso fez
com que o Brasil passasse a ocupar a quinta posição mundial no consumo desse formato de mídia.
Uma das explicações para os números impressionantes está na diversificação de temas disponíveis. A
AbPod estima que, até o início de 2022, havia mais de 850 mil podcasts ativos no mundo, com uma
variedade de assuntos imensurável.
A pesquisa detectou ainda que esse crescimento foi, em grande parte, acelerado pela pandemia de
Covid-19. Os entrevistados destacaram a relação de proximidade provocada por esse formato, que
aposta em uma linguagem mais informal, em tom de conversa íntima com o público. Em tempos de
isolamento, esse tipo de interação teria despertado a sensibilidade de brasileiros, que afirmam terem se
sentido mais integrados.
Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos?
1. DE ACORDO COM OS DADOS DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PODCASTERS (ABPOD), 64% DOS PODCASTS DISPONÍVEIS NAS
PLATAFORMAS DE STREAMING PRESENTES NO BRASIL SÃO PRODUZIDOS DE
FORMA INDEPENDENTE. OS GRANDES CONGLOMERADOS DE MÍDIA DO PAÍS
RESPONDEM POR MENOS DE 14% DESSE TOTAL. DIANTE DESSAS
ESTATÍSTICAS, ESCOLHA A ÚNICA ALTERNATIVA QUE NÃO RELACIONA
CORRETAMENTE ESSES DADOS DO MERCADO DE PODCASTS BRASILEIROS
ÀS NOVAS DINÂMICAS CRIADAS PELO MERCADO DE NICHOS.
A) Os podcasts com menor audiência, mesmo quando agregados, não contribuem significativamente
para o aumento da audiência desse tipo de conteúdo no país.
B) O mercado de nichos possibilita uma grande variedade de temas abordados nos podcasts.
C) No ambiente digital, as regras são mais flexíveis e a hierarquia é mais frouxa do que nas mídias de
massa.
D) Os podcasts com menor audiência podem não ser relevantes individualmente, mas representam uma
fatia significativa de mercado quando somados.
E) Os podcasts com maior audiência têm maior alcance individual, mas se resumem a um número
menos significativo de opções.
2. NAS PLATAFORMAS DE STREAMING É POSSÍVEL ENCONTRAR UMA
VARIEDADE MUITO GRANDE DE TEMAS NA OFERTA DE PODCASTS. HÁ,
INCLUSIVE, EXEMPLOS DE CONTEÚDOS DEDICADOS A PÚBLICOS BASTANTE
ESPECÍFICOS, QUE OBTIVERAM CONSIDERÁVEL SUCESSO DE AUDIÊNCIA.
ESSA SERIA UMA CARACTERÍSTICA DO MODELO DE COMUNICAÇÃO
CONHECIDO COMO INTERCAST. BASEADO NESSE CONCEITO, ANALISE AS
AFIRMAÇÕES E ESCOLHA A OPÇÃO QUE REÚNE APENAS AS ALTERNATIVAS
VERDADEIRAS.
O MODELO INTERCAST É ASSOCIADO À INTERNET, ENQUANTO O BROADCAST ESTÁ
VINCULADO AOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA.
O MODELO BROADCAST FAVORECE A COMUNICAÇÃO HORIZONTAL, O QUE PERMITE A
PARTICIPAÇÃO DE QUALQUER PESSOA COM ACESSO À INTERNET.
NO INTERCAST, CADA RECEPTOR É TAMBÉM UM EMISSOR EM POTENCIAL.
A) Apenas a afirmativa I está correta.
B) Apenas a afirmativa III está correta.
C) Apenas as afirmativas I e II estão corretas.
D) Apenas as afirmativas I e III estãocorretas.
E) As afirmativas I, II e III estão corretas.
GABARITO
1. De acordo com os dados da Associação Brasileira de Podcasters (ABPod), 64% dos podcasts
disponíveis nas plataformas de streaming presentes no Brasil são produzidos de forma
independente. Os grandes conglomerados de mídia do país respondem por menos de 14% desse
total. Diante dessas estatísticas, escolha a única alternativa que não relaciona corretamente
esses dados do mercado de podcasts brasileiros às novas dinâmicas criadas pelo mercado de
nichos.
A alternativa "A " está correta.
Os podcasts com menor audiência podem não fazer muita diferença quando considerados
individualmente. Mas, devido a sua quantidade, quando agregados, podem interferir significativamente
nos números finais.
2. Nas plataformas de streaming é possível encontrar uma variedade muito grande de temas na
oferta de podcasts. Há, inclusive, exemplos de conteúdos dedicados a públicos bastante
específicos, que obtiveram considerável sucesso de audiência. Essa seria uma característica do
modelo de comunicação conhecido como intercast. Baseado nesse conceito, analise as
afirmações e escolha a opção que reúne apenas as alternativas verdadeiras.
O modelo intercast é associado à internet, enquanto o broadcast está vinculado aos meios
de comunicação de massa.
O modelo broadcast favorece a comunicação horizontal, o que permite a participação de
qualquer pessoa com acesso à internet.
No intercast, cada receptor é também um emissor em potencial.
A alternativa "D " está correta.
Ao contrário do que diz a afirmativa II, o modelo broadcast é marcado pela verticalidade, o que dificulta o
feedback do público.
3. O JORNALISMO TAMBÉM TEM OCUPADO DE MANEIRA
EXPRESSIVA O ESPAÇO ABERTO PELOS PODCASTS.
CONFORME PESQUISA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PODCASTERS, ASSUNTOS RELACIONADOS À
COMUNICAÇÃO SÃO MAIORIA NAS PLATAFORMAS
PRESENTES NO PAÍS. NA INTERNET, PORÉM, A
INFORMAÇÃO NÃO TEM A MEDIAÇÃO DE JORNALISTAS.
BASEADO NISSO, EXPLIQUE O A IMPORTÂNCIA DA
CURADORIA DIANTE DA PROFUSÃO DE CONTEÚDO
NOTICIOSO NOS PODCASTS.
RESPOSTA
A grande quantidade de conteúdo na internet não significa necessariamente que as pessoas estão mais bem
informadas. A curadoria de um profissional de jornalismo pode ser decisiva, por exemplo, contra a
disseminação de fake news.
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Você já assistiu a Black Mirror: Bandersnatch? No filme, os usuários podem decidir cinco finais possíveis
para o personagem Stefan, um jovem programador que desenvolve um game nos anos 1980 que
começa a misturar a realidade com o mundo virtual. O destino do personagem principal é fruto das
escolhas dos usuários. Foi a primeira experiência interativa do serviço de streaming Netflix.
Outro exemplo são os QR codes que têm aparecido em intervalos comerciais de TV, para que se saiba
mais sobre alguma oferta. Ou, em uma emissão de rádio, o âncora anunciar que determinado ouvinte
está enviando informações por WhatsApp. Ou, ainda, a escolha de assentos nas compras online para ir
fisicamente assistir a um filme. Ainda será possível distinguir tão marcadamente as mídias online e
offline?
BROADCAST E INTERCAST
No livro We media: How audiences are shaping the future of News and information, Bowman e Willis
(2003) fizeram a distinção entre a mídia broadcast e a que denominaram como intercast. A mídia
broadcast seria representada pelos meios analógicos de comunicação de massa: jornais, cinema, rádio
e televisão. A intercast seria composta pelos meios na internet. Para os autores, a rede mundial de
computadores facilita a comunicação horizontal, diferentemente dos veículos tradicionais, que seriam de
comunicação vertical.
No sistema broadcast, que consideram mais hierarquizado, as decisões são centralizadas e
comunicadas para o público de cima para baixo. Os meios analógicos teriam consolidado um modelo de
relacionamento com suas audiências dentro do conceito clássico de emissor-receptor. Como se fosse
“eu falo e vocês escutam”. Tal modelo se baseava numa amostragem do público que era possível de ser
obtida com pesquisas quantitativas e qualitativas de mercado. No caso dos jornais, a aferição era feita
pelo Índice de Verificação de Circulação (IVC), que recentemente foi renomeado e agora se chama
Instituto Verificador de Comunicação, passando a medir também os assinantes digitais.
Na TV e no rádio, são comuns as pesquisas de audiência. Entretanto, quaisquer decisões baseadas no
comportamento do público só poderiam ter tomadas a posteriori. Embora existissem canais de
comunicação abertos para a audiência – como a seção de cartas nos jornais e telefones para atender à
audiência no rádio e na TV –, eles eram mais escassos do que são atualmente.
No modelo nomeado por eles de intercast, o feedback do público é instantâneo. É possível saber em
tempo real quais são as notícias mais lidas em determinado site ou as mais compartilhadas em redes
sociais, acompanhar o termômetro de votações de reality shows na TV ou ainda saber quais são os
filmes mais assistidos numa plataforma de streaming.
BROADCAST
Meios analógicos de comunicação de massa
Decisões centralizadas
Comunicação vertical

INTERCAST
Dispositivos digitais, conectados à internet
Feedback instantâneo
Comunicação horizontal
Cabe ressaltar que a internet permite reunir, simultaneamente e no mesmo ciberespaço informativo, os
produtores de conteúdo, a audiência, as fontes de informação, os sites do governo, de empresas e do
terceiro setor. Nesse ambiente, em que qualquer um dos usuários pode participar, as regras são mais
flexíveis e a hierarquia é mais frouxa. Antes da internet, por exemplo, um livro precisava de uma boa
crítica literária para entrar na lista de mais lidos. Atualmente, os leitores podem também ajudar a
construir a reputação de uma obra, enviando suas próprias avaliações. Existe, inclusive, o fenômeno dos
booktubers, que são “críticos” literários do YouTube, além de blogs, já há mais tempo, também tratando
de literatura. Ou podem descobrir leituras afins sem precisar da ajuda de uma resenha, pois os sistemas
de recomendação se encarregam disso.
MÍDIAS DE MASSA E MÍDIAS DE NICHO
No vídeo a seguir, entenda a diferença entre mídias de massa e mídias de nicho:
“Mídias-sol” e “mídias-poeira” são outras classificações propostas para definir a separação entre as
mídias offline e online. Ela é de autoria de Ignacio Ramonet (2012). As mídias-sol seriam as de
comunicação de massa, e as mídias-poeira, as de nicho.
Imagine o desenho de um dinossauro. A parte principal do seu corpo é bem mais alta do que a cauda,
que é longa, mas tem pouca altura. O mercado de nicho seria como a cauda de um dinossauro. Há
pouco ou nenhum impacto no mercado quando esses produtos são lançados, mas a demanda por eles,
embora baixa em termos de volume, é contínua. Anderson observou que existia uma “cauda longa” na
busca por tais produtos e notou três características principais desta teoria: “(1) a cauda das variedades
disponíveis é muito mais longa do que supomos; (2) ela agora é economicamente viável; (3) todos esses
nichos, quando agregados, podem formar um mercado significativo.” (ANDERSON, 2011, p.10)
Vamos recorrer a um exemplo prático: em 2018, a youtuber Jout Jout leu o livro infantil A parte que falta
em um vídeo em seu canal. Houve um aumento de mais de cem vezes nos pedidos de livrarias, e a
editora Companhia das Letrinhas anunciou uma reimpressão para dar conta da Amazon. O livro, que
não era um lançamento, ficou no topo dos mais vendidos no site de compras.
A FALSA OPOSIÇÃO ENTRE MÍDIA ONLINE E
OFFLINE
Como visto no vídeo, não há mais como separar os mundos físico e virtual, que se entrelaçam cada vez
mais na sociedade em rede. Isso também vale para as mídias. Elas não se excluem, mas se
complementam. Quantas vezes você se sentou no sofá diante da TV com o celular na mão e ficou
navegando no Twitter e comentando o programa a que assistia?
Uma pesquisa do IBOPE Conecta, sobre o comportamento

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