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2 Este material é exclusivo para os inscritos no curso “A Arte de Amar”, com Christian Dunker, realizado pela Casa do Saber em maio de 2021. É proibida a reprodução ou divulgação deste material, parcial ou em sua totalidade, sem autorização. Os direitos autorais são exclusivos da Casa do Saber. suporte@casadosaber.com.br AVISO CONTEÚDO AMANDA PÉCHY DANILO KOVACS RONALDO VITOR DA SILVA ISADORA JARDIM SALAZAR APROVAÇÃO ISADORA JARDIM SALAZAR Curadora DESIGN DEBORAH KUTNIKAS Designer QUEM PRODUZIU O MATERIAL FALE COM A GENTE Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 3 Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o amar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. “Amar” – Carlos Drummond de Andrade Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 4 AMAR AO OUTRO COMO A TI MESMO? O amor, quais as contingências e as impossibilidades 01 37Respondeu Jesus: “ ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. 38Este é o primeiro e maior mandamento. 39E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. O amor é indissociável das formas de falar sobre ele, é algo que se produz sob a forma como o caracterizamos. Seja na literatura, nas artes, no cinema, no teatro, todas as histórias que tratam sobre o amor, ao mesmo tempo que inventam, o expandem. No ocidente, podemos pensar em duas grandes matrizes para entender a experiência amorosa e suas imbricações: A primeira se trata de uma matriz Judáico-Cristã. Em Mímesis (1946), Erich Auerbach trabalha com o entendimento da Bíblia como um texto fundador do pensamento e da sociedade ocidental, através de uma hermenêutica, pôde se perceber uma nova forma de interpretar a história, através de uma ótica que tenha início meio e fim, da Gênesis, a passagem e vinda de Cristo, até o Apocalipse. Na junção dessas duas culturas há o livro de Mateus (22), onde serão tratados os conceitos fundamentais, os mandamentos: “Amarás ao senhor, teu Deus, em todo seu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito” e o segundo mandamento, de certa forma semelhante, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 5 Quem é este outro? Podemos pensar no outro como alguém próximo, que divide momentos e situações, mas também o outro que fala outra língua, o outro que mora em outra localidade, aquele que seria intitulado outrora de “adversário natural”. Questão esta que fora objeto de estudo de Freud, que é: O que significa amar o outro como a si mesmo? Freud entende que esta forma de amor implica em uma noção de si, de um eu, de uma objetividade, bem como de uma subjetividade e completa de forma a alertar os perigos desta afirmação, amar ao próximo como a si mesmo é uma coisa necessária, mas também impossível, pois o amor não reage bem às coerções. A ideia de ser obrigado a amar é profundamente incompatível com um dos principais fragmentos que mais procuramos na experiência amorosa, que é a liberdade. VERDADEIROS AMORES CRUZAM A NORMA Esses amores verdadeiros, além de serem incompatíveis com a coerção, acabam por se tornarem também transgressores, de forma a contrariar a lei da família, contrariar os bons costumes, contrariar os padrões socialmente impostos, todas as formas de amor, historicamente, foram conquistadas. A segunda parte desse processo analisado por Freud é a impossibilidade, que concerne à forma como entendemos o eu, para os modernos o eu era entendido como uma unidade, indivíduo, é o sujeito do contrato. Quem é o amante e quem é o amado quando amamos a si mesmo? A descoberta freudiana se dá na percepção que o eu é um divíduo. Amar o outro como a si mesmo, nesta situação temos dois outros, temos o outro outro, que está fora de mim, e o outro que é uma versão de mim. Aprendemos a amar pela experiência amorosa, a partir das nossas experiências de amor com quem cuida de nós, logo no começo de nossas vidas. Isso vai produzindo e conferindo ao amor, de certa forma, uma estrutura repetitiva, o tipo de apego que se forma no começo da vida, tende a se repetir nas expectativas amorosas, visando fugir de um desamparo, do “hilflosigkeit”. O bebê humano, comparado ao de outros mamíferos demora muito tempo para criar a sua independência daqueles que o cuidam, algumas hipóteses foram formuladas para tentar entender essa relação e, justamente, por conta desse período maior que necessitamos para nos estabilizar no mundo, seja por conta da má formação do sistema extrapiramidal, pelo Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 6 sistema viso motor mal formado e ainda não estabilizado, são estes fatores que fazem com que ele seja mais amável. O amor vem, primariamente, de encontrar o outro que depende de você, este movimento passa a ser um movimento irresistível para a nossa espécie e isto é um prototípico para o amor, mas será que só isso é amor? Para Rousseau, existe uma forma de amor que diz respeito a si, a experiência de si, a experiência de dois: Do si como o outro. Este conceito é interpretado como “Amour-de-soi”, ou amor de si, e teria relação com uma autoconservação, com um experienciar-se como alguém, ser alguém, de forma a nos gerar satisfação, uma vez que nos afasta do desamparo. São as experiências que a criança conquista de intimidade, da possibilidade de ficar sozinho, da possibilidade de ficar consigo mesma. Esta seria outra forma prototípica do amor. Há também para Rousseau outra forma de amor, o “amour propre”, ou amor próprio, percebera esta forma se voltando aos moralistas franceses do século dezesseis, entendendo as matrizes de formação dos contos de fadas, das fábulas, que tinham uma função de explicar para as crianças emas complexos, entre eles, justamente como amar e ser amado. Nisso tudo havia uma espécie de moralidade crítica e de reconhecimento que, junto com o surgimento do indivíduo como valor, tínhamos descoberto e valorizado o “si próprio.” O próprio remete a propriedade, a posse, ou seja este alguém está sujeito a uma lógica de mercadoria. Duas experiências distintas marcam este conflito, poder estar consigo de forma amistosa, a satisfação de estar, a experiência proto amorosa de que eu sobrevivo, e do outro lado da equação a experiência se dá de forma concorrencial, que posso ser outro, que posso me aperfeiçoar e ser melhor. Para Rousseau, há um conceito muito importante a ser trabalhado nesta questão, que é o da perfectibilidade, este senso de querer ficar melhor e da combinação entre essas duas formas de amor, o amor de si e o amor próprio. Para Freud, a forma como a gente se ama, é uma forma muitas vezes masoquista, uma forma sádica e ofensiva a si, portanto, amar ao outro como a si mesmo, não parece a melhor opção, o que talvez faltasse para os antigos, e sobretudo a concepção bíblica de si, é que o si mesmo trata também da relação patológica que acompanha o si mesmo. Não é um lugar puro e neutro, pelo qual instanciamos a experiência de observar o mundo, Licenciadopara - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 7 esta crise se dá seja porque na percepção de que a perfectibilidade inventada não pode ser atingida, os ideais fracassaram, portanto, para amar os outros é muito importante amar a si próprio, para também suportar que os outros te amem. Amar ao outro como a si mesmo, na mensagem e experiência bíblica, diz respeito a experiência de humildade, de reconhecimento do outro e reconhecimento no outro. Já a outra matriz que ajuda a explicar não só o amor, mas também a experiência amorosa é a Greco-Romana, e se embasa na noção de que é possível se aprender a amar. Ovídio em seu Livro das transformações (metamorfose), se propõe a narrar as epifanias de Zeus e suas diferentes formas de se manifestar, é de nosso interesse porque narra a origem de um herói, pois estão são indivíduos, pessoas que não só vivem a sua vida, mas vivem uma vida que serve de exemplo e paradigma para outras vidas, cruzando a barreira da ordem, da lei, de forma a criar novas leis, novos paradigmas de individualização.Uma destas estórias é a da saga de Narciso, que foi posteriormente reapropriada por Freud em v trabalhando acerca desse aspecto da individualização que é o narcisismo e pra falar e definir o narcisismo como uma forma de amor. Um amor narcísico, uma forma de escolher narcísica, uma gramática narcísica que Freud vai tematizar homenageando os gregos. Cefiso era um sujeito extremamente bonito, desejado, mas que não deixava que ninguém se aproximasse de si, porque a outra pessoa não seria, de certa forma, auto suficiente. Pelo seu excesso de soberba e pela impossibilidade de estar com o outro, Cefiso estupra Liriope e desta relação abusiva nasce, o lindo, Narciso. O pai de narciso, por não conseguir dar espaço ao outro, só pode transformar a relação amorosa, sexual e a experiência erótica em uma experiência de poder, de dominação. Após o nascimento de Narciso, fora levado a presença do Oráculo, e perguntaram se o viveria bem, de maneira longeva, a resposta que fora apresentada pelo Oráculo fora “Ele viverá tanto tempo quanto ele se desconhecer”, acarretando que o conhecimento de si se transforme em uma condição trágica. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 8 Na adolescência de Narciso, conhecera Eco, uma ninfa que acabara se apaixonando por ele, e que, só conseguia repetir as últimas palavras do que o outro disse pra ela. Juno, que protege Eco, não gosta muito dessa situação de desprezo que Narciso revela por aquela que o ama, de forma que acaba por perpetuar uma maldição sobre Narciso, “Que ele ame e, quiçá, não possua o amado”, dando a noção de posse, de propriedade para o objeto incorporado. Podemos então observar outro conflito, neste sentido, amar como uma experiência real encontra com a imagem e o corpo do outro em encontro com o amor como uma experiência como uma quase imagem e sombra, que não se pode possuir, portanto, não se pode perder. “ No êxtase ele se depara, com um signo marmóreo: uma estátua de Paros”. Uma outra forma de dizer de um corpo que não é corpo. “Sem o saber, deseja a si mesmo e se louva, cortejando, corteja-se; incendeia e arde”. Há aqui um ponto chave, ao não saber, levanta-se a hipótese do inconsciente, de não saber o que se está sendo produzido no mundo, e neste movimento, quanto mais narcísico, menos há o conhecimento dessa situação. Menos se dá conta de como é o personagem. Não há mais a experiência de si, há portanto a experiência do próprio, só que agora, diferente da tradição judáico-cristã há um suporte efetivo no qual esse amor se dá, que são as imagens corporais, das quais se nos afastamos delas, temos efeitos e despersonalização, portanto, um amor em uma estrutura de alienação. Quando Freud trata do narcisismo amoroso, ressalta também que quando a gente ama, de forma inevitável, acabamos nos alienando no outro, na experiência do outro. Mas esta alienação é interessante uma vez que, as artes, a literatura, o cinema, o teatro podem servir como fonte de reflexão para tornar o amor mais assertivo, mas também mais interessante. “Faço o fogo que sofro” Narciso então se dá conta da sua divisão, só que neste caso a paixão pela unidade faz com que ele se lance contra a sua imagem refletida e seja então levado pelo rio Estige. “Mas lá no estige, corpo nenhum havia” A narrativa romântica é a narrativa sobre um amor que não dá certo, por mais que podemos dizer que essa pessoa que está no corpo é a imagem Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 9 AMAR DÁ TRABALHO Luís Mauro Sá Martino ASSISTIR FIM DO AMOR ROMÂNTICO Maria Homem ASSISTIR APRENDA MAIS COM A CASA DO SABER NO YOUTUBE do corpo, é o efeito do corpo, não é o corpo enquanto aquele que é dotado de imperfeições, aquele que sofre com as intempéries do tempo e este é o corpo que Narciso está condenado a não ter. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 10 AFINAL, O QUE É PAIXÃO? 02 Há diferenças entre amar e se apaixonar? Qual o limite entre esses dois sentimentos? Quando tratamos das distinções, associações e relações entre o amor e a paixão, podemos tratar de diferentes pontos que fazem as fronteiras do amor. A primeira poderia ser a dimensão do desejo, uma experiência amorosa que consideramos rica, que consideramos transformativa, que não está dissociada do desejo mas sim intimamente ligada de forma dialética entre o amor. É possível perder o desejo e, mesmo assim, continuar amando essa pessoa, e perder o amor e continuar desejando a pessoa. O mesmo pode ser dito com relação ao gozo, em congruência com o que Freud definiu como “Campo da sexualidade humana”, tem relação com toda uma economia de prazeres. Orais, anais, fálicos, narcísicos. Tudo que nos gera prazer está referido ao campo do gozo. Ainda que prazer e gozo sejam diferentes, ainda que satisfação e gozo sejam diferentes. O amor possui uma zona de sobreposição com o gozo, mas as coisas podem acontecer separadas. Há uma terceira dimensão que está na borda do amor, a angústia. Faz parte desse momento de descoberta que algo está acontecendo, a mudança do corpo. A quarta fronteira e dimensão, na entrada de um grande amor, existe uma grande paixão. A paixão tem certas características, que podem levar à dependência, como gostar de se apaixonar, do flerte e etc.. Ao se apaixonar, se perde autonomia e independência. Mas toda relação é de dependência, de submissão? Não, vivemos o apaixonamento como passividade. A paixão é um conceito filosófico, antes de ir para a experiência cotidiana, é um conceito que vem do grego pathos, sempre esteve ligado a Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 11 certo dualismo. Gérard Lebrun aponta que há na ética de Aristóteles, uma correlação de duas recusas, de um lado a recusa de declarar guerra contra as paixões, mas deve se aprender a dominá-las, não reprimi-las, a recusa a considerar o comportamento passional como involuntário. Sim, há escolha possível na paixão, inclusive porque há a escolha por não se apaixonar, compreendido como um afeto mórbido, passível de controle, o pathos carrega originalmente dois conceitos diferentes, o passional (que tem a ver com a ética), ou de forma ativa. Portanto, não há nenhum demérito nas dinâmicas da passividade. A passividade é um modo de existência, um modo de experiência, tão interessante quanto a atividade, amar e ser amado estão em pé de igualdade, do ponto de vista ético. Mas qual é a potência dessa relação? As inversões, quando o amante passa a ser amado e o amado passa a ser amante, essa circulação que vai dar intensidade ética para o amor. Um duplo sentido que podemos ver ilustrado através do entendimento passional versus patológico do apaixonamento, uma tradição que vai ver no apaixonamento um tipo de loucura, quando não uma infração, um delito. ParaFoucault é importante distinguir as paixões infantis e as paixões adultas, indagando o que ainda lhe resta de infantil, quais as loucuras secretas que nele habitam e que crime fundamental desejam praticar. Sugerindo que a paixão adulta envolve um conhecimento, um certo domínio dos riscos, e uma espécie de discernimento que a paixão é uma paixão, já a paixão infantil nos carrega para uma ingenuidade, para a demissão do pensar, para uma resposta. Indo do amor para o desejo, uma resposta a pergunta do apaixonado que é: O que o outro espera de mim? Quais posturas tenho que tomar para garantir a manutenção dessa relação? Quanto mais aguda essa resposta, mais vamos nos aproximando de formas elementares de amor, que remetem, primariamente, a imagem infantil, a posição de objeto de cuidado de outro. O fato de que a pessoa que se apaixona, recorrentemente, passa a ter noção da textura de ilusão que está vivendo e enfrentando, por isso, ela necessita de efeitos de realidade para dar sustentação ao contexto. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 12 Na Metapsicologia, ou no funcionamento do “eu” diante da experiência da paixão, descrita por vários psicanalistas, sobretudo Freud, como uma experiência que retoma uma alienação formativa, retomando a discussão apresentada no primeiro encontro sobre o eu quanto um divíduo, que não nascemos com um “eu” formado, mas o adquirimos e o formamos. Mais especificamente segundo Lacan, entre os 6 e os 8 meses de idade, quando a criança passa a ter uma alteração na sua relação com a imagem do espelho. Em um primeiro momento, ao olhar para a imagem a reação da criança a sua imagem no espelho não se diferencia muito de um animal. A criança e o gato não conseguem se diferenciar de outro animal, ou pessoa, inclusive quando a criança pequena, menor de seis meses de idade, olha para sua própria mão investigando e descobrindo algo, e parece fascinada com aquela mão, que é dela e ao mesmo tempo não é dela. Neste primeiro momento de relação com a imagem demonstra então uma determinada alienação, onde aquele “eu” não se reconhece na imagem que acaba sendo produzida. No segundo momento, o tempo do transitivismo ou da indeterminação, onde a criança, diante do espelho, demonstra um interesse maior pelo espelho, não é só pelo outro, ela passa a observar, se interessar pela imagem, brinca com uma problemática que reflete uma forma indeterminada, um interesse de discernimento entre quem é o agente e quem é o paciente do ato, sentindo em si o que faz com o outro. Onde é que está o eu, nesta relação, na imagem? Ou no olho que observa esta imagem? Na imagem, ou no corpo? Como na história de Narciso e a perda da possibilidade de ouvir o outro como diferente. Um paradigma da loucura humana, onde o articulador percebe algo que não sente e acaba projetando no outro, porque ela é ruim, o outro que nem sabe o que passa, diz algo que responde a você, como a realização daquilo que o articulador não suporta em si mesmo. O transitivismo acaba gerando aquilo que ele mesmo nega, aquilo que não estava passível de ser reconhecido. Em um terceiro tempo, a criança finalmente olha para sua imagem e passa a se reconhecer, a compreender e investigar seu funcionamento, todas as realizações do esclarecimento nesta experiência formativa do eu. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 13 O que acontece quando o “eu” descobre esse ponto de passagem do transitivismo? Ele experimenta uma satisfação típica, satisfação de tipo narcísica, onde goza de ser e ter uma imagem, as duas experiências se confundem no ser, de forma a criar uma confluência das duas histórias para este ponte onde temos duas paixões. O pathos, é o pressuposto básico na qual certas experiências fundamentais podem se dar, neste sentido algumas linhas interpretam o pathos como: Passividade, patologia e “sentimento de mundo” (Experiência do lugar, da época, do outro). Três sentidos de pathos convergentes para o momento onde se adquire uma imagem, onde há a percepção que esta imagem não sou eu, no sentido de uma projeção do “eu”, uma extensão, mas que acaba representando simbolicamente. Ganho este que vem junto com um prazer, que poderíamos ligar a paixão da fascinação e a paixão pela agressividade. A partir do momento que percebo o outro, o espelho, o olhar, me torno alienado ao outro, o outro detém o lugar de onde “eu sou eu”. Se eu não estou me sentindo satisfeito, a culpa, causa e responsabilidade, passam a ser do outro. Justificando portanto, um caráter agressivo com o outro, demandando este lugar de volta, “me olhe deste lugar onde eu realizo o ideal de mim mesmo para você”. Pensando que o “eu”, como instância instável está sempre sujeito a uma crise, quando o olhar muda, há uma mudança no sentido de si. Mas em momentos críticos, limitamos para uma opinião, um olhar que me tire dessa incerteza sobre mim mesmo e este olhar desencadeia a paixão, portanto, a paixão é quando me coloco neste lugar onde a imagem do outro me torna uma unidade tamanha em mim que me apaixono, no três sentidos de pathos, por esta pessoa. Quanto mais perto, mais ameaço este efeito alienante que vem junto com a paixão, um efeito com borda gozante e ao mesmo tempo é um abismo, uma angústia. O apaixonado dá um salto no escuro, no vazio, abandonado diante de uma catástrofe iminente. Em alguns casos, sabendo que a paixão acaba ou diminui quando se vive, Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 14 criam-se paixões que não vão poder ser submetidas a choques de realidade, permitindo um gozo indeterminado com o que poderia ter sido. Como vimos, o amor se encontra entre os dois pólos, o do necessário e o do impossível, segundo Freud, agora temos outra gramática possível de ser acrescentada: Da contingência, da possibilidade. A estratégia das cartas não enviadas, como descrito por Darian Leader em “Por que as mulheres escrevem mais cartas de amor que enviam?” (1998), é um meio de se lidar com a experiência do apaixonamento criando sobre ela um certo controle. O que acaba tendo consequências politicamente perigosas quando falamos da paixão, estudado por Freud no texto de 1927, Psicologia de massas e análise do eu. Demonstrando haver formas de apaixonamento artificiais, que geram massas de apaixonados e que exploram o apaixonamento. Não deveríamos reduzir o amor à experiência interpessoal de duas pessoas, há amores que são coletivos, há amores que são mais horizontais, há amores que intercalam diferentes tipos e qualidades de amor. A paixão, por sua vez, como forma preliminar de amor muito intensa e que produz efeitos, de certa forma, semelhantes a aqueles que temos em funcionamento de massa. A relutância a esses apaixonamentos se dá principalmente a apaixonamentos que violam a regra genérica da intimidade (que é “aposte um pouco mais ou um pouco menos do que a experiência te trouxe, para evitar descompasso). Esta violação é muito perigosa, porque manipuladores podem se aproveitar dessa situação, onde, na pior das hipóteses, acaba brincando com os sentimentos alheios, ou para uma posição de gozo pela indiferença. Uma paixão é uma intensificação artificial das nossas idealizações e das nossas identificações, que promete, por um espaço curto de tempo, que um complete o outro. Um mundo sem ilusões seria uma vida muito pobre, uma vez que as ilusões são formas brandas de sentir nossos sonhos diante da realidade, pensando uma realização. Mas em geral, realizamos a paixão pela sua negação como forma de amor. Um processo de escolha mútua, onde há o apaixonamento, onde se vislumbram as possibilidades sobre o que de fato fazer com este amor Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 15 e em um terceiro momento, o que fazer quando esta paixão acaba? O que fazer com esta realidade transformadora? QUEM É CONTRA O AMOR? Clóvisde Barros Filho ASSISTIR APRENDA MAIS COM A CASA DO SABER NO YOUTUBE Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 16 AS FACES DO DESEJO 03 Desejar ou ser desejado? O desejo não é somente um impulso para o amor — é uma força que movimenta os sujeitos. Para a psicanálise, o desejo é um fator central no desenvolvimento dos indivíduos desde seu nascimento — ele se transforma ao longo da vida e definirá uma série de características em na psique, no comportamento, no modo de enxergar o mundo. Na vida adulta, o desejo perpassa pela sexualidade, pelos relacionamentos amorosos e até mesmo pela vontade de viver. E, talvez de forma à primeira vista óbvia, o desejo interage e se compõe com o amor — essencial para a continuidade das relações. O desejo é uma questão extremamente relevante para o século 21, até existencial. Um estudo publicado em março deste ano pelo SAGE Publishing, um dos maiores conglomerados de publicações acadêmicas dos Estados Unidos, Why Are Fewer Young Adults Having Casual Sex?1 (“Por que menos jovens adultos estão fazendo sexo casual?”, em tradução livre), indica que a diminuição do consumo de álcool, o tempo gasto com redes sociais, o aumento do uso de videogames e o aumento do tempo que jovens adultos moram com os pais levaram a uma queda de 14% nas relações sexuais entre 2007 e 2017, sendo os jovens americanos de 18 a 23 os que têm vida sexual menos ativa. A tendência definida como “afastamento da intimidade” se repete ao redor do mundo: o Japão, por exemplo, registrou em 2019 a sexta queda consecutiva nos registros de casórios — pouco mais de 580.000 foram selados em 2018, o menor índice desde a Segunda Guerra Mundial. Como menos uniões significam menos bebês, o governo decidiu até ressuscitar a prática milenar das casamenteiras, mas quem promove as uniões é o próprio Estado. Como Emma Dalton, PhD em Filosofia, coloca em seu artigo Online Konkatsu and the Gendered Ideals of Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 17 Marriage in Contemporary Japan2 (“Konkatsu Online e os Ideais de Gênero do Casamento no Japão Contemporâneo”, em tradução livre), publicado em 2016, a busca por uma cara-metade ganhou até nome: konkatsu, uma variação de shukatsu, a procura por emprego. A resistência à intimidade é um mal do século 21, especialmente pensando na questão do trabalho. As mulheres japonesas, por exemplo, têm escolhido colocar a carreira como prioridade em um primeiro momento, ao invés de construir uma família, porque é muito difícil ter ambos (o problema é que, ao contrário dos homens, elas correm contra o relógio biológico, e adiar a intimidade pode também significar abandonar a maternidade — gerando a preocupação com a demografia). Envolver-se tira, além de energia subjetiva e psicológica, tempo do precioso espaço da produção. Essa narrativa, contudo, foi encapsulada muito antes por Wilhelm Jensen, em 1902, quando publicou o romance Gradiva. O texto sintetizou tão bem a questão do desejo e o recalque da intimidade que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, abordou Jensen e escreveu um de seus clássicos, O Delírio e os Sonhos na Gradiva de Jensen. O romance conta a história de um jovem arqueólogo alemão, Norbert Hanold. Obcecado pelo trabalho com o Império Romano no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, passa seus dias lendo textos e estudando, sem nenhuma vida amorosa ou qualquer abertura para isso. Um dia, sentado em um banco em uma praça, ele vê uma mulher passar — uma mulher como nunca antes havia visto, com um vestido e sandálias exóticos, e um andar decisivo marcado pelo momentum de suas solas dos pés empurrando o chão. Para ele, parecia uma deusa saída diretamente do Império Romano, de outro mundo. Ele é tomado pelo desejo, que o desperta do estado de torpor anterior. A cena causa um efeito imediato de apaixonamento, o efeito de abismo. Angustiado, Norbert não consegue dizer nada, fazer nada—só observa sua aparição ir embora. Encantado e desesperado, ele decide escavar suas anotações para entender a conexão da moça com essa outra época. De repente, descobre um afresco idêntico à imagem que ele viu passar no parque: o afresco de Gradiva (do latim “aquela que avança”). 1SCOTT, J. South; LEI, lei. Why Are Fewer Young Adults Having Casual Sex?. Sage Journals, Vol. 07, march, 2021. Disponível em: <https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/2378023121996854> 2Emma Dalton & Laura Dales (2016) Online Konkatsu and the Gendered Ideals of Marriage in Contemporary Japan, Japanese Studies, 36:1, 1-19, Disponível em: <https://¶.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10371397.2016.1148556> Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 18 É neste momento de apaixonamento, quase que a antecâmara do amor, que os elementos do desejo interrogam o sujeito. O que eu quero naquela pessoa que eu quero? O que faz com que eu me encante por uma pessoa? A característica fundamental do desejo, que não está no amor, é que ele introduz uma falta, uma ausência. Gradiva vem, mas depois deixa Norbert. Não é a moça que determina o desejo: é a sua falta. A demanda, o amor, pelo contrário, é um estado em que se encontra um objeto, composto posteriormente como um signo de amor—junção do significante (imagem literal) e significado (conceito). O desejo, por sua vez, tem um significante sem significado. O desejo parte de um encontro com o Outro, um estrangeiro, gerando quase uma epifania. É como se fosse a primeira vez que Norbert viu uma mulher. Para Freud, isso se relaciona a um esforço de retorno a traços mnêmicos de repetição. O desejo é aquilo que alguém quer de novo No percurso de descobrir esses padrões, o sujeito se depara com a Constituição interna do seu desejo: a fantasia (que sai do inconsciente). A fantasia, por sua vez, gera uma pergunta: “o que você quer?” Nas palavras de Christian Dunker, “o desejo é sempre o desejo do desejo do Outro”. O interesse em alguém é sucedido pela vontade de encaixotar, possuir, o desejo deste estrangeiro — de Gradiva. É um processo perigoso, já que pode criar um padrão de comportamento em que o sujeito começa a agir da forma que ela acho que o outro quer, ficando, desta forma, surdo para entender o que o outro realmente quer. O que se escuta é apenas a fantasia mobilizada para vestir esse outro. Norbert, inclusive, chega a pensar: “Gradiva quer que eu a estude”, iniciando uma investigação profunda sobre essa figura no afresco — não diferente da forma como um indivíduo usa suas redes sociais para fazer a arqueologia do passado de seu objeto de interesse. Neste momento, dois processos entram em conflito. A identificação amorosa (os pontos em comum que o sujeito identifica no Outro, imaginando um pacto de absoluta intimidade) e a movimentação do desejo. Alguém tem que fazer o primeiro movimento. De um lado, se eu não fizer nada, posso perder essa pessoa. Do outro, se eu forçar, nunca saberei se a pessoa me quer porque me quer, ou só porque eu a quero. O desejo se realiza quase que por telepatia, em uma conversa individual com o seu próprio desejo, e não se sabe nada sobre o outro lado. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 19 Essa fixação arqueológica está na zona de transição entre o desejo e o amor. A partir dela, são criados pontos de identificação e signos de amor, aprofundando o movimento de retornos. Na prática, quanto mais se deseja o outro, mais o outro te deseja. Está aí o rapto de Freud: o momento em que o sujeito é arrebatado, puxado para o universo do outro. E inicia-se o balanço do processo de sedução, em que se um desejo se afasta, o outro se aproxima, gerando uma resposta do primeiro (às vezes marcado pelos ciúmes, porque gera o medo da perda, do afastamento). Tudo se transforma a partir do momento em que se diz “eu te amo”. A partir desse dito, a realidade não é a mesma, as pessoas não são maisas mesmas — mesmo diante da rejeição. Esta é uma das coisas mais atraentes no desejo, esse efeito de transformação. A partir da instauração do desejo, tudo que diz respeito ao Outro passa a ser imediatamente interessante. Uma parte pode ser mentira, mas aos poucos aquilo começa a transformar o sujeito: sua vida é elevada pelo Outro, para experimentar. A dinâmica se dá desta forma desde que haja inversão do amante e amado. Sempre há alguém que ama mais em uma relação (o amor não é democrático), mas é imprescindível que os papéis se invertam com o tempo: a inversão vai criando o desejo. Não é dual: ou o Outro deseja, ou não deseja. O que acontece é que um provoca o outro, gerando um ciclo de aproximação e afastamento. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe uma alegoria chamada “Síndrome do Noivo Canadense”. As jovens moças costumam viajar para acampamentos de verão, muitas vezes no Canadá, onde se apaixonam pela primeira vez—e, logo em seguida, precisam deixar os seus amados. Isso permite o início do processo de desejar alguém em ausência, à distância, imaginando futuros garantidos e protegidos contra os efeitos de realização do desejo. É um respiro interessante e formativo. Todo amor precisa desse ponto de recuo, para que o sujeito possa se refazer, e refazer o Outro. Quem é aquela pessoa? Quem sou eu para aquela pessoa? Em casamentos longevos e bem-sucedidos, o que ocorre são, na verdade vários casamentos: montagens de amor e desejo que se fazem e refazem. Nisso, há, essencialmente, duas formas de amar. Na primeira, o amor se dá em relação ao ser. O sujeito é apaixonado pela existência do Outro. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 20 É o amor incondicional, importantíssimo de se ter na infância para que a criança sinta segurança. Mas pode ser perigoso, já que, se o amado faz algo ruim, é desrespeitoso, o amor não morre. Na segunda forma, mais qualificada, o amor se dá em relação ao que o Outro faz. Precisa cuidar, merecer, se não se perde o amado. Do delírio à verdade Enquanto estuda a Gradiva de mármore, Norbert continua tendo outros encontros esporádicos com sua Gradiva de carne e osso. No parque, ela passa, olha, para, passa de novo. Um dia, ela se senta ao seu lado no banco e os dois têm uma conversa estranha, em que começa a contar detalhes sobre a vida do arqueólogo que uma desconhecida não poderia saber. A narrativa de Jensen conversa com o momento da mágica amorosa em que o objeto de afeto parece adivinhar o desejo — mas, na verdade, ele só sabe porque escuta. Ao final, contudo, Gradiva se revela de forma extremamente literal. Ela conta que seu verdadeiro nome é Zoe Bertgang e só sabe dos detalhes sórdidos da vida de Norbert porque era sua vizinha de infância, motivo porque ele sempre sentiu que já a havia visto. Os dois estudavam juntos, brincavam juntos no mesmo pátio e se apaixonaram com a paixão doce da juventude. Ela nunca o havia esquecido, e ele também não, mas em seu delírio só conseguia enxergar a mulher do afresco. Envolto no seu mundo do trabalho e da arqueologia, ele reprimia e recalcava seu desejo, que só pôde aparecer deformado n’“aquela que avança”. “Zoe” significa vida, “Bertgang”, ou “gang”, é “direção”. A vida direcionada, a mulher que anda como se soubesse para onde vai. O nome da vizinha, seu primeiro amor, nunca saiu de sua mente. Foi o significante que apareceu no primeiro momento do arrebatamento. Freud usa o romance de Jensen para falar sobre a busca nas origens do passado pelos desejos que ficaram para trás, parte decisiva e para criar os desejos possíveis do futuro. Ignorar as paixões passadas é jogar fora as pistas para descobrir onde o seu desejo se liga ao amor, e onde o seu amor se liga ao desejo. Na história, Zoe é analista e sintoma ao mesmo tempo: é o delírio de Norbert e a cura de seu amor delirante, o amor que ele amava sozinho. Não apenas uma ilusão, o delírio é um meio de aproximar-se da sua realidade. E quando o arqueólogo se apaixona é como se aquele amor sempre estivesse escrito em sua vida (a repetição, a volta), e o amor é a reunião, ou despertar, do indivíduo que estava esquecido de si. No arrebatamento, a neurose de Norbert se transforma profundamente. Primeiro, o desejo Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 21 nega o amor, mas depois o absorve e conserva. E vice-versa. O próprio pai da psicanálise denomina esse poderoso competidor para a cura: o amor. AS RELAÇÕES SEXUAIS SÃO INCOMPLETAS Welson Barbato ASSISTIR AMOR É DESENCONTRO Clóvis de Barros Filho ASSISTIR APRENDA MAIS COM A CASA DO SABER NO YOUTUBE Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 22 A SOLIDÃO CONTEMPORÂNEA 04 Amar pressupõe o outro? É possível estar acompanhado e mesmo assim se sentir só? Como explicar a solidão, esse sentimento de ausência que paradoxalmente nos atinge em um mundo cada vez mais conectado? Mais do que isso: a solidão dificulta o amor ou é sua companheira? O século 21 implicou em novas formas de interação com o mundo, principalmente pelo protagonismo da internet: empresas reinventaram seus serviços, governos adotaram ferramental digital, diferentes partes do mundo se conectam com dois ou três cliques e ideias de múltiplas matizes são compartilhadas com amplitude imensurável. Essa renovação de paradigmas ainda em curso, porém, não veio sem custos, em seu livro Reinvenção da Intimidade: políticas do sofrimento contemporâneo, Christian Dunker argumenta que as relações amorosas atuais têm como principal desafio a solidão, isso porque tal experiência de desamparo cresce linearmente a cada geração, sobrepondo-se com intensidade entre os mais jovens, já familiarizados com as dinâmicas virtuais e perenes dos ambientes online. Não à toa, de acordo com reportagem publicada no periódico El País, em 2016, um em cada três brasileiros afirmam que se sentem sós3. Mas onde está enraizado esse mal-estar? Para Dunker, uma das principais razões reside no descompasso entre os ideais da modernidade e a verificação de suas realizações no mundo. Ancorando-se no filósofo polonês Zygmunt Bauman, Dunker analisa que o projeto moderno traz consigo duas frentes contraditórias de compreensão da realidade, a primeira que impõe a força da discriminação, da separação e visualização do outro; a segunda que aponta para a impossibilidade de estar só e, portanto, da dependência de diferentes 3CACIOPPO, John; CACIOPPO, Stephanie. Solidão, uma nova epidemia. El País online. 13 de abril de 2016, Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/06/ciencia/1459949778_182740.html> Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 23 sujeitos. De tal modo, entre essas espécies de consagração do indivíduo e reconhecimento de sua diminuta presença na coletividade, o autor lê a virada para o século XXI como a afirmação de um “acordo digital” que demanda energia e infiltração pessoal em interesses ou projetos particulares. Desprendido a não ser de si mesmo, o sujeito elenca suas prioridades – o trabalho, por exemplo – assim como as demandas menos importantes, entre elas a experiência amorosa. Numa sociedade que relega o amor a um papel marginal e que tem o neoliberalismo como modelo socioeconômico, Dunker entende que as estruturas da política, da economia e da cultura perpetuam o sofrimento psíquico de cada um, logo, de toda sociedade. A solidão, portanto, é fruto do Neoliberalismo como gestão do sofrimento (DUNKER, 2021). A partir desse ponto de vista, o amor e a solidão, portanto, estão conectados não apenas à análise psíquica ou fisiológica dos sujeitos, mas também ao universo das interações sociais e, sobretudo, do trabalho. Dunker compreende que com a emergência do neoliberalismo na década de 1970 e sua consagração após a Queda do Muro de Berlim, esse estilo de produção e vida ancorou-se na globalização paradeterminar um padrão de comportamento universalizante, caracterizado antes pelo sofrimento que pela seguridade geral. Elencando o indivíduo em sua capacidade produtiva como força-motriz da nova ordem que se desenhava, articulou-se também os contornos de uma “política de sofrimento” que tem o trabalho como principal parâmetro das potências de cada um. Dessa maneira, pressupostos como a competitividade, as relações predatórias, a flexibilização associada à produtividade e a disponibilidade integral, caracterizam-se como índices de valoração pessoal. A vida, assim, é analisada sob a lente da gestão do sucesso de uma empresa, pelo vocabulário do empreendedorismo. Os sujeitos não se constituem por si ou pela forma como acumulam repertórios variados, mas pelos sucessos pessoais de uma lógica competitiva. Tal financeirização da experiência é verbalizada por Dunker sob o epíteto de “Você S/A”, ou seja, os pronomes e a identidade pessoal são constituídos mediante o código trabalho. Desdobra-se daí a pergunta: como amar sob essas condições? De acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, o amor e o desejo são problemáticos para um discurso do mestre, uma vez que essa voz imperiosa almeja não o êxtase afetivo-amoroso, mas sim a realização que se dá na entrega dos serviços, isto é, o mestre não abre espaço para o amor, pois seu olhar prioriza o trabalho. Nesse cenário lacaniano Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 24 atravessado pelo neoliberalismo, a grande crise da experiência amorosa está na virada do longo século 20, como nomeia Giovanni Arrighi, para o século 21, na medida em que há uma “deflação da experiência amorosa” incentivada pela compreensão da vida sob padrões de produção econômica. O impacto dessa crise da experiência amorosa a partir dos anos 2000 é, para Dunker, potencializado por algumas razões: o fácil acesso e amplitude de recursos ou plataformas de interação digital (redes sociais), a comparação autodestrutiva que se desdobra de uma idealização de outras pessoas e a dificuldade de se amar numa ordem social ainda em trânsito. A relevância do acesso irrestrito as redes sociais, por exemplo, se dá pela capacidade dessas mídias de deslocar a experiência presencial (o bar com os amigos, o encontro para conversas, as festas intimistas etc.) para um espaço periférico em relação ao mundo virtual, já que dele se extrai a possibilidade de encontrar o que for mais interessante e personalizado num cardápio de ofertas infinitas. Se a substituição da presença pela virtualidade minimiza a exposição aos riscos do encontro pessoal, a troca de olhares, o medo de uma rejeição, ela também amplia seu grau de idealização, fechando as portas para a efetivação de uma possível experiência afetiva. Na equação de enfrentar o desafio da possibilidade de amar ou resignar-se no conforto pessoal, o sujeito se debruça na segunda opção. Mas o amor não pressupõe o risco? A comparação crônica, por sua vez, nasce como grau de autocobrança por uma vida que não atinge as metas, resultados e perspectivas delineadas dentro do padrão neoliberal. Se a vida é estruturada sob a concepção do “Você S/A”, toda formação toma como parâmetros as conquistas e méritos, de tal modo que o sucesso pessoal é posto em paralelo com a leitura idealizada da vida de outra pessoa, sempre superior, mais vigorosa em recursos e possibilidades. O outro é o sonho e o fim do autorreconhecimento. As redes sociais nessa questão funcionam como curadoria de imagens que ficcionalizam identidades, mascaram fraquezas, medos e incertezas. Daí que amar em tempos neoliberais seja cada vez mais difícil, afinal o amor se produz através da palavra, do jogo comunicativo em sua totalidade: expressão facial, tons, vibrações, gestos, inseguranças, entre outros. Se é da comunicação interpessoal que nasce o amor, a ordem neoliberal estabelece caminhos outros para o reconhecimento do indivíduo, ao passo que monetiza a imagem e o sucesso, desvalorizando as oscilações naturais da personalidade. Em outras palavras: aquilo que se posta no ambiente digital inventa uma vida que está alinhada com a forma que gostaríamos de ser vistos, e não com o que somos. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 25 O que somos ou o amor que queremos, surge apenas na palavra vivida, dos verbos trocados entre sussurros, toques e olhares. Amar: verbo intransitivo. Christian Dunker é categórico ao afirmar que o amor é algo que se produz, não algo que se tem. Isso porque amar pressupõe as trocas ativas de palavras entre os sujeitos, não uma comunicação virtual por mensagens online, telefonemas ou cartas. A produção amorosa emerge da experiência vivida e compartilhada, já que é nela que se expressa o que somos em nossa totalidade e não numa performance neoliberal. A presença cria a aproximação e intimidade de onde pode surgir o amor, afinal, é como diz Rubem Alves, as cartas de amor ilustram “o que está ausente”4 e não os sujeitos que se dispõe a amar. Dessa perspectiva, viver o amor pressupõe a linguagem e, consequentemente, a complexidade expressiva da linguagem. Com isso, a ação amorosa é também a troca que duas ou mais pessoas fazem dos seus sentimentos nebulosos e até recônditos. É o desnudar da própria intimidade perante o outro, falar e expor a si mesmo com e para um interlocutor(a) novo(a), a ponto de que essa enunciação de si e escuta da experiência alheia seja também uma transformação pessoal. Rememorando as interpretações de Christian Dunker, o amor é um é uma produção e expressar a intimidade de si mesmo é uma maneira de cultivá-lo. O que ocorre, porém, quando já afirmamos ou negamos um amor? Que tensões nos atravessam após o encontro realizado? Como lidamos com o desenrolar do que em efetivação da experiência amorosa ou desamparo por sua não realização? Retornando à filosofia de Zygmunt Bauman, Christian Dunker desenha um panorama da consonância de duas experiências cada vez mais rarefeitas na contemporaneidade: a comunalidade e os sentidos possíveis do encontro. Por comunalidade entende-se a necessidade de estar junto colocando o pronome nós a frente da individualidade dois sujeitos (o pronome eu), é o interesse mais pela companhia e pelo estar junto, do que pelo que se faz com o parceiro(a); nesse caso, o que está em jogo não é a ida a algum parque, um encontro no cinema ou um jantar, e sim o desejo maior de estar lado a lado de outra pessoa. Já os sentidos possíveis do encontro são as possibilidades futuras que idealizamos a partir do contato, isto é, como sonhamos e imaginamos os dias por vir com a pessoa desejada; essa elaboração passa por incertezas, dúvidas e tensões próprias do momento da decisão. 4ALVES, Rubem. O retorno e eterno: crônicas. Campinas, SP: Papirus, 1992, p. 43-44 Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 26 A decisão do desejo: intimidade, solidão e solitude Se no século 21 a intimidade é associada com a fraqueza e o amor demanda essa particularidade, como nasce intimidade? De que forma criamos esse vínculo? Dunker compreende que a compreensão da experiência íntima germina a partir da solitude, isto é, a capacidade de estar só e não se sentir solitário. Aparece então uma diferenciação fundamental do comportamento psíquico: a oposição entre solidão e solitude. A experiência da solitude compreende a qualidade de estar em bem-estar consigo mesmo, ainda que sozinho; é a zona de conforto e segurança que poetas ingleses como Edgard Allan Poe associaram com a finitude. Voluntária por se tratar de uma busca própria pela admiração e experimentação da vida, a solitude se constitui como hábito de conhecimento pessoal, é a tranquilidade de manter-se em paz consigo mesmo. Com atuação em campo diametralmente oposto, a solidão é destrutiva e muitas vezes involuntária, nela as pressões psíquicas dos julgamentos pessoais e sociais atuam como narradores fantasmasque impedem a apreciação e conhecimento de si, o mal-estar preenche a solidão e ela, carregada de negatividade, deságua no sujeito. Paulinho da Viola talvez tenha composto alegoria ideal para esse sentimento ao mostrar que a “solidão é lava que cobre tudo”5. Colocada a diferença entre solidão e solitude, uma nova afirmação aparece para esmiuçar a intimidade e o amor: o apaixonado vive apenas a solidão. E por quê? Sentindo-se em posição de entrega os com as possibilidades do encontro a flor da pele, germina no apaixonado um caminho duplo que permite tanto a elaboração positiva do amor (sua concretização), como sua face de incerteza e desencontro. Daí que em desconforto e com anseio por algo incerto, a possibilidade de vivenciar a solitude é cerceada. Em outras palavras, nascem perguntas como: e se eu não for correspondido? E se eu me machucar? E se me entregar demais? Como ele(a) vai se sentir daqui para frente? O apaixonado se descobre no temor pelo próprio sofrimento, assim como pelo de quem ele almeja. As novas experiências amorosas contemporâneas em seu grau de solidão passam, de tal modo, por duas importantes dificuldades: uma que diz respeito ao fato de que normalmente cada uma das partes de um relacionamento já possuiu outros relacionamentos anteriores e com eles a verbalização repetida da principal sentença amorosa: “eu te amo”. A outra é o apêndice do que Dunker nomeia como “lutos amorosos pendentes”, a substituição das Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 27 experiências de superação, finalização e luto do fim de uma relação por uma característica particular do século 21, o apagamento virtual dos antigos parceiros. Com recursos para deixar de seguir, bloquear, cancelar ou excluir pessoas de um círculo, a dinâmica das redes sociais favorece que as vivências de términos não sejam sentidas em sua completude, uma vez que a exclusão do outro age, em certa medida, como apagamento da memória e da história pessoal. Soma-se que junto dos desejos pendentes e dos casos mal resolvidos, o fardo dos “lutos amorosos pendentes” cresce gradativamente em mal-estar. Encontros e desencontros Se o amor ficou de fora das estruturas neoliberais do século 21, seria favorável apostarmos nele para a melhora do mundo? É de mais amor que precisamos? A compreensão de que é pelo acréscimo desse sentimento que o sujeito se torna melhor e de que a transformação do mundo segue os mesmos passos é questionada por Dunker. Para ele, a experiência amorosa não deve ser lida com onipotência divina, espécie de elemento messiânico dos problemas particulares e sociais, pelo contrário, tal compreensão confunde dimensões como o desejo e os anseios. Aparece nesse cenário uma nova preocupação: os encontros e desencontros. Um exemplo ilustrativo dessa narrativa incipiente aparece na produção hollywoodiana de comédias românticas. Ali são comuns os filmes em que um amante se vê apaixonado por alguém em um momento incerto ou impreciso, limitando a consagração amorosa. Mesma situação pode ser lida através da literatura brasileira, quando Machado de Assis escreve o conto Troca de Datas, narrativa da paixão ideal de Cirila e Eusébio, mas que por ocorrer em momento inapropriado leva o narrador a dizer “não eram as naturezas que eram opostas, as datas é que não se ajustavam”6. Ancorando-se em Lacan e nas leituras que o francês fez do romance O deslumbramento, de Marguerithe Duras, para além do envolvimento e do desejo das partes que se amam, Dunker também esmiúça que quanto maior o desencontro, mais poderosa a sensação de rapto, de captura sentimental que o outro impõe sobre o amante. Essa transformação que se aproxima de uma possessão pela figura alheia, se esparrama para além dos comportamentos psíquicos, evidenciando-se em alterações físicas do corpo, o que a relaciona não com o conceito de desejo, mas de gozo. Ao pensar no amante, o desencontrado 6ASSIS, Machado de. Troca de datas. In: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. Disponível em: <http://¥.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000177.pdf>Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 28 fica com a respiração ofegante, as mãos tremem, os poros se sensibilizam, as pupilas se dilatam etc. Esse sentimento de estar raptado ou possuído é a experiência do sublime que explode junto com o amor. Tecendo-se entre a oscilação do prazer pela presença do outro, assim como pela solidão de não tê-lo ainda que por alguns minutos, sobretudo, numa sociedade como a do século 21 (que erodiu as distâncias temporais),; o amor oferece a alternativa do risco contra a passividade de solidão individual. É melhor lidar com os perigos de amar ou se manter seguro na própria solidão? Narciso acha feio o que não é espelho Uma das principais faces da sociedade do século 21 é a reprodução em projeção geométrica das relações narcísicas, a supervalorização da imagem, do sucesso, dos lucros simbólicos e materiais que um sujeito pode empreender a seu favor. Nesse palco onde a enunciação de si é a marca de distinção em relação à coletividade, como podemos entender o amor enquanto resultado de uma matriz narcísica? O que é amar nessa sociedade narcisista? Em contraponto está o amor anaclítico, cuja principal determinação é o vínculo com a anterioridade, as experiências de amores já vividas em outras relações. Navegando em mares opostos ao do narcisismo que exige singularidade e novidade dos laços criados, o amor anaclítico faz-se pelo reconhecimento do patrimônio sentimental em ação no presente, ou seja, a partir da consciência de que o que já foi vivido e enunciado ressoa não como nostalgia, mas forma de carinho e elogio transformado para as dinâmicas e interações do presente. Solidário e vendo-se como parte fundamental de um quebra-cabeças em curso, o amor anaclítico acolhe os desafios de amar e enfrentar a solidão neste século. Amar ou não? Dedicar-se ao outro desnudando a si mesmo? Sofrer em si ou sofrer com e pelo outro. A decisão pendular não é óbvia e nem correta, no entanto, como fala o próprio Christian Dunker, há duas vias principais: “a solidão do seu condomínio ou o parque de diversões que o mundo oferece”. A IMPORTÂNCIA DE ESTAR SÓ Maria Homem ASSISTIR APRENDA MAIS COM A CASA DO SABER NO YOUTUBE Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 29 A LIBERDADE DE AMAR 05 A contemporaneidade traz consigo novas elaborações de como viver—e de como amar. Relacionamentos abertos, poligâmicos ou monogâmicos são constantemente colocados à mesa para discussões sobre quais são as possibilidades de viver um amor. Como a psicanálise enxerga essa variabilidade de relações e seus impasses? Como o amor pode ser reflexo das novas formas de enxergar o mundo? Historicamente, formas de amor que desafiam a “tradicional família brasileira” são reprimidas e restringidas. Regimes totalitários, desde a Alemanha nazista de Adolf Hitler à União Soviética comunista de Joseph Stalin, sempre perseguiram as minorias sexuais que hoje se enquadram no grupo LGBTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Queer, Interssexuais e demais desafiantes da heteronormatividade. Ainda hoje, países como a Arábia Saudita, a Mauritânia ou o Iêmen criminalizam a homossexualidade. Por isso, não é de se espantar que a descoberta do amor como o conhecemos hoje tenha ocorrido na Modernidade. O início da Idade Moderna varia de acordo com a área de conhecimento, mas o conceito de Zygmunt Bauman é propício para explicar a descoberta do amor. Em “Modernidade Líquida” (1999), o filósofo marca a transição de épocas com o momento em que a vida social passa a ter como centro o individualismo, uma expansiva autonomia do homem em relação à vida em sociedade. Deixando a posição de subordinado das instituições sociais, e assim suas impostas crenças, regras e valores,aparece o individualismo seguindo o viés do liberalismo, baseado na igualdade e liberdade como meio de se superar a dominação social. O amor, neste contexto, tem a ver com a forma que o ser humano se desprende da instituição família — locus, por sua vez, da experiência primária do amor. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 29 A LIBERDADE DE AMAR 05 A contemporaneidade traz consigo novas elaborações de como viver—e de como amar. Relacionamentos abertos, poligâmicos ou monogâmicos são constantemente colocados à mesa para discussões sobre quais são as possibilidades de viver um amor. Como a psicanálise enxerga essa variabilidade de relações e seus impasses? Como o amor pode ser reflexo das novas formas de enxergar o mundo? Historicamente, formas de amor que desafiam a “tradicional família brasileira” são reprimidas e restringidas. Regimes totalitários, desde a Alemanha nazista de Adolf Hitler à União Soviética comunista de Joseph Stalin, sempre perseguiram as minorias sexuais que hoje se enquadram no grupo LGBTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Queer, Interssexuais e demais desafiantes da heteronormatividade. Ainda hoje, países como a Arábia Saudita, a Mauritânia ou o Iêmen criminalizam a homossexualidade. Por isso, não é de se espantar que a descoberta do amor como o conhecemos hoje tenha ocorrido na Modernidade. O início da Idade Moderna varia de acordo com a área de conhecimento, mas o conceito de Zygmunt Bauman é propício para explicar a descoberta do amor. Em “Modernidade Líquida” (1999), o filósofo marca a transição de épocas com o momento em que a vida social passa a ter como centro o individualismo, uma expansiva autonomia do homem em relação à vida em sociedade. Deixando a posição de subordinado das instituições sociais, e assim suas impostas crenças, regras e valores, aparece o individualismo seguindo o viés do liberalismo, baseado na igualdade e liberdade como meio de se superar a dominação social. O amor, neste contexto, tem a ver com a forma que o ser humano se desprende da instituição família — locus, por sua vez, da experiência primária do amor. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 29 A LIBERDADE DE AMAR 05 A contemporaneidade traz consigo novas elaborações de como viver—e de como amar. Relacionamentos abertos, poligâmicos ou monogâmicos são constantemente colocados à mesa para discussões sobre quais são as possibilidades de viver um amor. Como a psicanálise enxerga essa variabilidade de relações e seus impasses? Como o amor pode ser reflexo das novas formas de enxergar o mundo? Historicamente, formas de amor que desafiam a “tradicional família brasileira” são reprimidas e restringidas. Regimes totalitários, desde a Alemanha nazista de Adolf Hitler à União Soviética comunista de Joseph Stalin, sempre perseguiram as minorias sexuais que hoje se enquadram no grupo LGBTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Queer, Interssexuais e demais desafiantes da heteronormatividade. Ainda hoje, países como a Arábia Saudita, a Mauritânia ou o Iêmen criminalizam a homossexualidade. Por isso, não é de se espantar que a descoberta do amor como o conhecemos hoje tenha ocorrido na Modernidade. O início da Idade Moderna varia de acordo com a área de conhecimento, mas o conceito de Zygmunt Bauman é propício para explicar a descoberta do amor. Em “Modernidade Líquida” (1999), o filósofo marca a transição de épocas com o momento em que a vida social passa a ter como centro o individualismo, uma expansiva autonomia do homem em relação à vida em sociedade. Deixando a posição de subordinado das instituições sociais, e assim suas impostas crenças, regras e valores, aparece o individualismo seguindo o viés do liberalismo, baseado na igualdade e liberdade como meio de se superar a dominação social. O amor, neste contexto, tem a ver com a forma que o ser humano se desprende da instituição família — locus, por sua vez, da experiência primária do amor. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 30 Amar, então, aparece como ponta de lança para descobrir formas de liberdade. Não é à toa que os regimes totalitários previamente mencionados fizeram e fazem tanto esforço para restringir a diversidade de arranjos amorosos, na esperança de, assim, restringir também ideias e desejo de liberdade. A consequência é que a vida dos afetos vai sendo excluída para o espaço privado — uma fantasia para ser vivida exclusivamente entre duas pessoas. Nas palavras de Christian Dunker, é como se esse raciocínio político soubesse que, nas formas de amar, “se inscrevem invenções possíveis de uma lei ainda não escrita”. Na música, Milton Nascimento canta que “qualquer maneira de amor vale à pena / qualquer maneira de amor valerá”7. As quatro dimensões do amor Muito conhecido por sua série de ficção As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis também é referência por suas obras envolvendo a apologia cristã. Entre elas, está Os Quatro Amores (1960), em que o romancista e acadêmico destrincha as naturezas do amor, das mais básicas às mais complicadas, que muito têm em comum a princípio. Para o autor, “a forma mais elevada não fica sem a mais baixa”. O conceito se divide em quatro categorias, baseadas nas palavras gregas para o amor: philia, ágape, eros e storge. Apesar do amor ser uma invenção moderna, como mencionado anteriormente, é possível enxergar as dimensões do amor em materiais muito anteriores. Antígona, tragédia grega escrita por Sófocles por volta de 442 a.C., do amor philia. Cronologicamente, é a terceira peça de uma sequência de três — a chamada Trilogia Tebana —, cuja protagonista é Antígona, filha de Édipo e Jocasta, e irmã de Etéocles e Polinices. A história começa com a morte dos dois homens, que se matam na luta pelo trono de Tebas. Quem sobe ao poder é Creonte, cuja primeira ordem é que o corpo de Polinices fosse largado a esmo, sem o direito de ser sepultado, para que as aves de rapina e os cães o dilacerassem. Seu objetivo era criar uma forma de aviso contra quaisquer tentativas de derrubar seu governo. Antígona, por sua vez, se recusa a abandonar o corpo do irmão, mesmo que tenha que pagar com a própria vida. Para ela, as leis humanas estavam indo contra as leis divinas e, em um ato de rebeldia, joga uma camada de pó sobre Polinices. Na sequência, Antígona é presa por Creonte e se suicida (novamente, 7NASCIMENTO, Milton, Minas, EMI-Odeon, 1975 Disponível em: <https://open.spotify.com/track/7F1cbFaGSfZE1GTh6wKIAr?si=P_UiS7_1TZ-EI-ocQASabg> Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 31 o regime totalitário reprimindo o amor). Contudo, a teimosia do tirano causa uma sequência de tragédias posteriores: seu filho, Hêmon, que se apaixona pela rebelde em cativeiro, também se mata após a amada falecer, o que faz com que Eurídice, sua mãe e esposa de Creonte, também dê fim à própria vida. Sófocles descreve um governo em que a philia — amizade, fraternidade — não deve estar presente na gestão da vida pública, ao que a protagonista diz não. Antígona acredita que todas as pessoas têm direito a um funeral, à lembrança, à existência, e portanto ao defender seu irmão, estava defendendo todos os tebanos. Seu amor por Polinices confronta o estado das coisas e o renova, estabelecendo novas leis. Já ágape, associado às formas religiosas de amor, está presente em Blaise Pascal, matemático, filósofo e teólogo católico francês nascido em 1623. Influenciado por Santo Agostinho, Cornelius Jansenius e Saint- Cyran, Pascal sugere que ágape é o amor que deve acontecer apesar de tudo, o amor não recíproco, ou que não precisa ser recíproco. Do reino nefasto do amor-próprio: A origem do Mal em Blaise Pascal (2018), de Andrei Venturini Martins, discute as teorias do filósofo a respeito da origem do mal no mundo, que viria de um mal-direcionamento de ágape. Masnão é preciso ser religioso para pensar nesta dimensão do amor: ágape seria um amor universal ao humano, à experiência maior, uma expressão de verdadeira solidariedade, ou caridade. É a dimensão que nos coloca em proporção (de pequenez) em relação ao outro. Talvez eros seja o mais conhecido dos amores, talvez a dimensão mais retratada pela literatura. Para falar de liberdade, contudo, Marquês de Sade cai como uma luva — ou um chicote. Nascido em 1740, o nobre, político e filósofo francês é conhecido como o pai da libertinagem e escreveu uma série de obras eróticas, que combinavam discurso filosófico com pornografia. O Marquês retratou fantasias sexuais com ênfase na violência, sofrimento e sexo anal (que ele chama de sodomia, crime e blasfêmia contra o Cristianismo). Em Os 120 Dias de Sodoma (1904), há uma história em que, no ermo castelo Silling, em meio à Floresta Negra, quatro nobres e quatro prostitutas se reúnem para torturar 36 jovens diariamente, até serem sacrificados e descartados. Defensor de bordéis públicos gratuitos fornecidos pelo Estado, da liberdade absoluta, moralidade irrestrita, sem religião ou lei, o único comportamento sexual violento de Sade é um suposto espancamento de uma empregada doméstica e uma orgia com várias prostitutas. Seu legado, por outro lado, Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 32 é muito mais amplo: não apenas criou um repertório de diferentes formas de amar e de ter prazer sexual, mas também abriu precedentes para a liberdade de amar. Com suas fantasias, Sade declara que todas as forças de amor (no caso, eros) têm direito e dignidade de existência. Nada é proibido, o que é uma total e completa revolução. Juliette, publicado anonimamente por Sade em 1797 e acompanhado de “Justine”, prega que o amor do sádico por sua vítima é legítimo, assim como o amor pedofílico (sempre extremamente polêmico). Nas palavras de Dunker, usa-se o argumento da pedofilia contra a liberação de todas as formas de eros na tentativa de coibir a lógica expansiva do amor: é preciso ir ao extremo para procurar algo a que se possa dizer “não”. O impasse surge quando o amor não respeita o outro, o viola, mas nada impede que todas as suas formas existam no nível do sujeito. A quarta dimensão descrita por C. S. Lewis é menos conhecida. Storge, segundo o autor, é a ternura, afeição, definida pela capacidade de se ter um amor empático e separar a corrente sexual da corrente terna. É extremamente potente, pois ultrapassa o modelo formulado no contrato monogâmico: com storge, é possível amar em multiplicidade. Dizer “eu te amo” costuma ser sinônimo de “você me é fiel” — não deseja outras e outros. Mas, sendo possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, o que fazer com os outros amores? Perverso-polimorfo Os amores contemporâneos, mais múltiplos e fluidos, estão revisando essa narrativa. Temáticas como abrir a relação, ou formar um “trisal” (casal com três indivíduos), propõem uma nova distribuição entre as quatro figuras — às vezes com mais storge, às vezes com mais eros — e mostram que o amor pode ser mais do que imaginamos. Em uma leitura mais superficial do Complexo de Édipo, há apenas duas dinâmicas de relacionamento. Inspirado na tragédia grega de Sófocles Édipo Rei, Sigmund Freud designou o conjunto de desejos amorosos e hostis que uma criança desenvolve em relação às figuras parentais. O filho homem se identificaria com o pai e amaria a mãe, enquanto a filha mulher se identificaria com a mãe e amaria o pai (desenvolvendo, no primeiro caso, um amor narcísico e, no segundo, um amor objetal). O resultado: uma forma de amar heterossexual, genital e monogâmica. A teoria, contudo, não previa apenas essa interpretação dual. Para Freud, todos têm uma predisposição à bissexualidade. Em sua obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), a partir de sua leitura Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 33 dos “desvios sexuais”, o pai da psicanálise explica que a pulsão não possui objeto fixo. No momento inicial da vida humana, inclusive, a pulsão seria independente do seu objeto, detectável por Freud a partir das experiências de satisfação sexual, codificadas por ele a partir do conceito de autoerotismo. Tal afirmação pretendia fragilizar o argumento da psicopatologia da época, cuja nosografia estabelecia objeto e finalidade fixos para a pulsão sexual, fora dos quais todo comportamento deveria ser considerado uma “aberração”. Com o conceito de “perverso-polimorfo”, Freud explica que a fixação de libido, a inversão e a transgressão anatômica fariam parte do repertório psíquico corriqueiro da pulsão sexual. Ou seja, a criança tem os lados feminino e masculino, e seu gênero também é impactado por sua interpretação do mundo. As duas versões do Complexo de Édipo estão presentes para todas as pessoas: algumas reprimem uma articulação, outras reprimem outra, para constituir sua fantasia fundamental. Depois de constituída, ela é inalterável—incurável. Como essa fantasia é o limite que dá liberdade para cada sujeito, a tentativa de alterá-la (como, por exemplo, em supostas terapias de reorientação sexual) causa muito sofrimento. Assim, a liberdade é pensada não de um limite exterior, mas de um limite interior, formado na relação com o Outro, nas diferentes qualificações do amor. O “eu-objeto”, o “outro-objeto” e uma nova definição de liberdade Agora, que objeto é este a quem alguém direciona seu amor? O eros, storge, que seja, objetifica o Outro? Faz parte da matriz ideológica, neoliberal e capitalista imaginar que só existe liberdade no campo individual. Para autores como Adam Smith e Stuart Mill, os seres humanos nascem livres por contrato, pensando a condição como uma potência do sujeito identificado como indivíduo. Hoje, essa liberdade se traduz no “modelo Tinder” de encontrar um amor —a suposta autonomia de escolher quem se quer no infinito cardápio de fotografias. Contudo, não é esta a liberdade (de escolher um entre os possíveis) importante do amor, que faz o indivíduo expandir. Isso porque todos os seres humanos são ambos sujeito e objeto, mas objetos não passivos, não dominados, que escolhem. É importantíssimo, inclusive, ter um lado objeto para conectar-se com o próprio corpo. O que ocorre é que, diante da inexistência do amor romântico como criação de um sujeito soberano capaz de escolher o outro contratualmente, muitos escolhem ignorar ao amor, batendo no alvo errado. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 34 Esta imprecisão tem raízes profundas na ideologia amorosa. O que não falta em Hollywood, por exemplo, são massivas narrativas sistemáticas de amor heterossexual dominativo, e não a dominação erótica de Sade. Assim como regimes totalitários, a indústria empurra certas formas de amor para fora do espaço público, uma violência contra a força libertária e libertadora. Amor tem a ver com palavras, com a história dos relacionamentos pregressos —como alguém amou e foi amado—, por isso seria imprescindível criar um repertório extenso de referências. Diante disso, uma nova definição do que é liberdade se faz necessária, não mais baseada no sujeito autoconsciente de suas próprias escolhas e no objeto passivo e dominado, mas envolvendo tanto a condição de sujeito quanto a de objeto. Negar a condição de objeto é negar a potência passiva do corpo, sua contingência de encontro. Há mais no humano que sua cabeça pensante: o corpo fala, muitas vezes coisas em extrema contradição em relação ao pensamento. Surge o amor baseado na contingência, o modo de ser daquilo que não é necessário, nem impossível —mas que pode ser ou não. A liberdade é a possibilidade do amor, não as possibilidades de escolha de um entre muitos. “Todo amor contingente demanda nomear a verdade que está em jogo nele, e que você não sabe”, diz Dunker. É o amor que se transforma,e transforma todos que estão nessa jornada. É o amor em devir, que mistura philia, ágape, eros e storge. O grande desafio é, neste processo de transformação, driblar o principal “anjo destruidor” do amor: a familiaridade. No ensaio “Sobre a degradação geral da vida erótica”, contido na obra Cinco lições da psicanálise: Contribuições à psicologia do amor (1910), Freud escreve que todos os amores, uma vez constituídos, iniciam imediatamente o seu processo de erniedrigung (degradação, decaimento). Muitos casais tornam-se meros cuidadores de casa, criadores de filhos, acumuladores de bens, principalmente com a diminuição do eros na dinâmica. Neste caso, não adianta apelar para um rearranjo do acordo—abrir o casamento, fazer uma amizade colorida—para “consertar” o amor. Nas palavras de Dunker, “o melhor momento para abrir uma relação não é quando o casal está mal, mas quando está bem”. Então, como lidar com o erniedrigung? Já se disse muito que amor sem obstáculos não é amor. Como construir resiliência e renovar a vida amorosa? Por que amar? Ou melhor, por que continuar amando? Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 35 A RELAÇÃO SEXUAL NÃO EXISTE Christian Dunker ASSISTIR ORIGENS E RESSIGNIFICAÇÕES DO CORPO NEGRO Jaqueline Conceição ASSISTIR APRENDA MAIS COM A CASA DO SABER NO YOUTUBE Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 36 POR QUE AMAR – OU POR QUE CONTINUAR AMANDO? 06 Após tantas decepções, dúvidas, e em meio ao caos, por que persistir no amor? Aquilo que nos resta em tempos sombrios é amar? Como o amor — de si mesmo, ao próximo e ao mundo — pode ser a chave para mudanças e uma fonte de esperança? A psicanálise enxerga que essa força oriunda do amor pode ser potência para novos tempos. Está ficando cada vez mais claro quanto amor exige do subjetivo. Se antes havia certas soluções prêt-à-porter, como formar uma família, por exemplo, amar hoje se tornou muito menos claro, o que causa um recuo diante da percepção do tamanho da transformação psíquica que o ato requer. Quando Gustave Flaubert escreveu Madame Bovary em 1856, mal sabia ele que nos tornaríamos uma sociedade bovarista: como Emma, jovem sonhadora e apaixonada por romances que se decepciona com o casamento com o indiferente Charles e passa a praticar adultério, o indivíduo contemporâneo preza o desejo de ser outro. Ter várias vidas, carreiras e amores dentro de uma mesma experiência. Segundo o filósofo francês Jules de Gaultier, em Le Bovarysme, la psychologie dans l’œuvre de Flaubert” (1892) bovarismo consiste em uma alteração do sentido da realidade, na qual uma pessoa se considera outra. O termo faz referência ao estado de insatisfação crônica de um ser humano, produzido pelo contraste desproporcional entre suas ilusões e aspirações e a realidade frustrante. O amor entra neste contexto como meio de realizar o desejo de transformar-se em outro, amando sem repetições, de maneiras diferentes. No seriado Black Mirror, produzido pelo serviço de streaming Netflix, o quarto episódio da terceira temporada, chamado “San Junipero”, ilustra a dilacerante escolha entre um grande amor e um amor que nunca foi. Já se pode imaginar qual foi o eleito. A liberdade presente no amor contingente se manifesta pelo Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 37 que não se sabe sobre si mesmo, sobre o outro, sobre o mundo. A possibilidade. Então, se o amor abre um leque tão diverso — ainda mais pensando na possibilidade de dividir seus objetos de storge, ágape, philia e eros —, por que continuar amando um? Em primeiro lugar, é quase impossível parar de aprender, mesmo coisas desprazerosas. É a vocação do ser humano, diz Christian Dunker. Em segundo lugar, todo amor é “infinito enquanto dura”, como lembra Vinícius de Moraes em seu Soneto de Fidelidade. Não é só porque acaba que não foi verdadeiro, e a arrogância de colocar-se diante da infinitude tende à decepção. Relacionamentos com essa perspectiva, na verdade, correm perigo de se tornarem demasiado dependenciais, muitas vezes baseados na insegurança e temor à solidão. É o cubículo de Jean-Paul Sartre, pai do existencialismo, na peça teatral “Entre Quatro Paredes”. A história é protagonizada por Garcin, um escritor covarde cujo sonho era ser herói, Estelle, uma burguesa fútil que foge da culpa por ter assassinado o bebê que teve com seu amante, e Inês, uma lésbica agressiva e amarga que trabalhava nos correios. Os três morrem e chegam a um inferno — sem demônios ou fogo. É apenas um quarto fechado, sem janelas, onde os três terão de conviver juntos pela eternidade. Confinados, os três são obrigados a se ver através dos olhos dos outros. Inês tenta conquistar Estelle, que, por sua vez, mostra interesse por Garcin. Inês joga um contra o outro, forçando-os a exibir seus defeitos. Depois, Estelle tenta matar Inês — já morta. Garcin tenta se vingar tendo relações sexuais com Estelle na frente de Inês. Os chegam à famosa conclusão: o inferno são os Outros. É exemplo claro das formas de degradação amorosa, entre elas o ciúme, que não suporta dividir o amor com outros, quer tudo para ele. Fora do cubículo apertado do ciúme, divide-se o amor com o outro para que ele cresça, se multiplique, fique mais rico. Regras para desamar Por vezes, ao invés de “Por que continuar amando?”, a pergunta é “Por que deixar de amar?”. No caso de maus tratos, intolerância, amores tóxicos, desrespeito e humilhação — já que amor não é desculpa para nada disso, o contrário é apenas autoengano —, ou quem sabe de algo mais brando, como a familiarização discutida na aula 5, é preciso deixar de amar para poder continuar amando. Por isso, Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 38 a receita para desamar passa por amar melhor, ou encontrar um afeto melhor. O poeta Arthur Rimbaud propôs um projeto moderno de reinventar o amor, para deixar o último para trás. Outro meio de fazer a transição é a solitude, que permite o olhar e a experiência de si para além da dupla, da vida a dois em que o outro faz parte de tudo Resumo da obra: o amor comporta sua própria lógica de separação. Também na aula 5, foi discutido que o aprendizado primordial das dinâmicas do afeto ocorre na unidade familiar, e os pais — por mais que não o demonstrem — desejam que o filho parta, vá para o mundo. Desde essa primeira interação, fica claro que não é só sobre a união, mas também sobre o saber, o prazer e a vida autônoma. Não à toa, algumas das obras mais marcantes do cinema têm como tema o amor separador: Humphrey Bogart e Ingrid Bergman dizem adeus em Casablanca (1942); em Love Story: Uma História de Amor (1970), Jenny Cavilleri (Ali MacGraw) adoece; dois estranhos comprometidos se apaixonam e se desencontram em Escrito nas Estrelas (2001); Francesca (Meryl Streep) vive um intenso, mas breve, amor em As Pontes de Madison (1995); em Para Sempre Alice (2014), o Alzheimer é eminente separador de uma mãe de família de seu marido e filhos; Eu te amo (1981) retrata o romance insustentável de um homem falido e uma prostituta; Romeu e Julieta morrem ao fim da peça escrita por William Shakespeare no fim do século 16. Passado e presente fazem amor Retomando os conceitos de C. S. Lewis em Os Quatro Amores (1960), há quatro dimensões do sentimento: philia, ágape, eros e storge. Nos anos seguintes à publicação do romancista, contudo, o psicanalista francês Jacques Lacan propôs uma quinta forma de amor chamada transferência. No Seminário 8, ele detalha que esta é a dimensão utilizada pelos profissionais da psicanálise para curar as pessoas—permitirem que amem, trabalhem, tenham menos sintomas, reduzam os pesos dos ideais, se separem das exigências superegóicas. É restrito, sim, mas envolve ternura e abertura ao outro, e funciona como uma máquina de passagem de um afeto ao outro. Uma revisão da potência de amar.A teoria conversa com a obra Os instintos e suas vicissitudes (1915), de Freud, em que ele define a teoria das pulsões. “Se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, uma pulsão nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o somático Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 39 e o psíquico, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo”, define (p. 127). Na pulsão escópica, ou eu olho, ou sou olhado. Na anal, o objeto ou entra ou sai do ânus. Para o pai da psicanálise, contudo, a pulsão funciona de forma um pouco diferente quando se trata de amor. Há três oposições fundamentais: amar ou ser amado (a substituição, ou transferência), amar ou odiar (substituição por inversão, alterando a valência semântica) e amar ou ser indiferente (ou o fim do amor). É falando da transferência que O Banquete, escrito por Platão por volta de 380 a.C., abre com o discurso de Fedro. No clássico texto sobre amor, sete homens fazem pronunciamentos sobre a natureza e as qualidades do amor durante um banquete. O primeiro discurso afirma que o amor é uma grande metáfora, matriz de todas as que existem na vida. Por isso, envolve simbolicamente a capacidade de substituição: amamos primeiro os pais vigorosamente, depois professores, amigos, amantes. A transferência ocorre enquanto passagem, sem apagar o passado, mas assimilando o novo. Ou seja, afetos múltiplos não são incompatíveis, pelo contrário. Amar não é só a vida com o outro: ensina a fazer este processo subjetivo de substituição simbólica e cognitiva. Pausânias discursa em seguida, dizendo que, na verdade, há duas formas de amar: a carnal e a etérea (eros e ágape). Seu principal ponto, contudo, é que o amor ensina a dar valor às coisas, à existência humana. Posteriormente, Lacan também entra nesta discussão para dizer que o amor é como um óleo, ou uma cola, que junta desejo sexual, afeto e amizade. Segundo ele, só o amor faz o gozo consentir ao desejo, como uma questão intermediária, que faz com as duas coisas coabitem o mesmo espaço. O médico Erixímaco fala em seguida, defendendo o amor como a ginástica para a alma, uma recomendação médica (o que a psicologia contemporânea comprova, segundo Dunker: pessoas que têm amor em suas vidas são mais resilientes, sobrevivem melhor a traumas, enfrentam melhor a terminalidade, saem-se melhor em seleções no trabalho). Para viver por mais tempo, Erixímaco receita o amor, que deixa a alma saudável da mesma forma que o exercício deixa o corpo saudável. Então, entra Aristófanes com o famoso mito do andrógino, ser de quatro braços e quatro pernas cujo poder deixou Zeus tão receoso que decidiu partir-lhe ao meio. Para o resto da eternidade, as duas metades tentariam se reencontrar (o resistente mito das metades da laranja, a tampa da panela). A linguagem desta história é tão forte que, até hoje, é difícil sair Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com 40 das representações duais do amor. Contudo, séculos depois, Lacan nota que Aristófanes é nada mais, nada menos que um comediante, indicando que seu mito não deve ser lido como tragédia, mas como comédia. Por isso, pode ser usado como recurso para estar junto ao outro e servir este propósito, desde que fique claro que esta dissolução de duas individualidades em prol de uma nova união não existe, na realidade. Antes de Sócrates, fala Agatão, o anfitrião, que afirma que o amor envolve uma atopia, cria um “fora de lugar”. Quem ama, está à deriva — como em Se Meu Apartamento Falasse (1960), filme em que o flat do protagonista Bud Baxter anula instituições como trabalho e família, tornando-se point de relações extra-conjugais de diversos colegas de escritório (e onde Bud se apaixona pela amante de seu chefe). O não-lugar rompe com relações de poder, exatamente como o amor deve ser. Quem interrompe o discurso de Agatão é o jovem e belo guerreiro Alcebíades, que entra na residência do anfitrião alterado e caluniando Sócrates, seu professor. No contexto da Grécia Antiga, professor e aluno desenvolviam relações afetivas e sexuais, e Alcebíades sentia que o mestre lhe incitava um amor não correspondido, que não permitia a substituição de amante e amado (erastes, o sábio, e eromenos, o aprendiz). Ao invés de responder-lhe, Sócrates passa a louvar Agatão com muita astúcia e desenvoltura. Ao fim e ao cabo, Alcebíades termina a noite com Agatão. O grego desempenhou a manobra clínica da transferência. O Banquete, há séculos atrás, já apresenta a perspectiva de que o amor não é direcionado a uma pessoa, mas a uma coisa de que o sujeito acha que o Outro é portador: o saber. Sócrates, na verdade, era apenas um receptáculo vazio pronto para que fosse investido com as coisas que criam o amor. Não apenas um filósofo, ele era também um teórico do amor. Por que amar, por que continuar amando? O amor é direcionado ao saber, que faz com que os indivíduos amem melhor e retornem novamente ao saber, em um ciclo sem fim de busca pela verdade. Afinal, é a verdade do amor que se procura em cada amor: a autenticidade, a consequência da implicação, o que salva, o que transforma. Na tragédia de Shakespeare “Rei Lear” (1605), um rei idoso, em busca de um sucessor, acaba por escolher duas filhas indignas de sua confiança, em vez daquela que o ama. Os amores que Goneril e Regan declaram são falsos, com discursos aduladores em que afirmam que o amam mais que qualquer coisa no mundo. Cordélia, por outro lado, contraria as expectativas do rei e afirma que o ama “como uma filha, nada mais, nada menos”. O amor verdadeiro é este: o que contraria. Licenciado para - Guilherme Peres - Protegido por Eduzz.com