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Estratégias Metodológicas da Educação em e para os Direitos Humanos: potencialidades e desafios O que dizer do rumo que a educação escolar está tomando nos últimos tempos: intolerância, desrespeito, agressividade, desmotivação, estresse, violência, reprovação, altos índices de analfabetismo, desvalorização da categoria, falta de compromisso com o ofício, dentre tantos outros problemas que assolam o espaço escolar, não é mesmo? A educação, como dimensão fundamental do processo de constituição dos seres humanos e da sociedade, não pode, impunemente, ser relegada a tamanho descaso e indiferença. E, embora o filme se passe em uma escola de ensino fundamental, a discussão que dele emerge pode ser estendida aos demais níveis, até o ensino superior, que é hoje, salvo raras exceções, um mercado imoral de diplomas. A temática do filme não poderia ser mais oportuna, atual e relevante. Entre os temas abordados, estão o papel inquestionável do professor, e a facilidade com que, nesse sistema, os alunos são tachados de incapazes, sem que lhes seja concedida a chance real de colocar em prática suas potencialidades. Além disso, questiona-se um método de ensino que tem como principal característica a punição, em que os alunos são compelidos a estudar para não sofrer sanções em vez de serem incentivados a experimentar o prazer de descobrir, de conhecer, de aprender. E o questionamento final, que vem à tona em uma cena de tocante sensibilidade, é se realmente aprendemos algo na escola. O interessante do filme são os espaços recorrentes no nosso cotidiano como a sala de aula, o conselho de classes, pátio da escola, reunião de pais e também conselho disciplinar. Toda essa composição de cenários nos faz ver circular um aglomerado de professores que seguem no seu desabafar constante, deixando evidente o desgaste emocional e psicológico que infelizmente, o contexto escolar faz cada um enfrentar diariamente. Parte desses professores vítimas do descontrole, descontam nos alunos palavras desrespeitosas que se insere nesse ambiente, gerando atrito na relação professor-aluno, já difícil de ser conquistada. Todo esse conflito é gerado também por péssimas condições de trabalho que os professores precisam enfrentar diariamente, o que acaba influenciando diretamente na saúde do profissional. Uma questão que precisa ser constantemente pensada e analisada, por ter influência direta com alunos vítimas de desigualdade social que já perderam a fé na escola e na capacidade da formação. Falta nessa escola representada no filme uma postura democrática no corpo estudantil que envolva tanto os alunos, quanto os professores. O distanciamento entre eles fica claro quando há exclusão entre melhores alunos e piores comportamentos. Até a participação dos pais, em companhia de alunos durante as reuniões deixa claro que existe uma tentativa de diálogo entre instituição e família, aluno e professor, mas sem fugir do debate “comportamento do estudante em sala”. Mesmo que não tenha um final que deixe uma solução para os problemas da escola, o filme nos traz questões não só de desigualdade social, mas questões que possibilitam o despertar de uma análise mais aprofundada, já que sem a capacidade de mudar o contexto social presente na vida dos alunos, nos apresenta à problemática. As palavras dos professores revelam uma crise na profissão de professor que exige uma análise profunda e cuidadosa. De maneira breve, pode-se dizer que grande parte da explicação para esse desconforto está nas más condições de trabalho enfrentadas por esses profissionais. Essas más condições não estão relacionadas apenas ao salário, mas ao fato de que a escola continua com uma estrutura seriada e apoiada num binômio aprovação/reprovação que não permite que se priorize a formação de cada um desses alunos. Por que esses alunos têm que aprender a mesma quantidade de conteúdos em determinado ano escolar? A aprendizagem significativa exige a participação ativa do aluno e que nem todos aprendem da mesma maneira e no mesmo ritmo. Se o ensino fundamental tem oito ou nove anos, os alunos deveriam ter oito ou nove anos para dominar o que o currículo oficial pede, levando o tempo que precisam em cada área do conhecimento. Experiências escolares mais inovadoras têm mostrado como é possível uma escola diferente, sem “flexibilizar” currículo ou cortar conteúdos escolares. Além disso, não levar em consideração as desigualdades que as crianças vivem na sociedade, longe de ser uma atitude equalizadora, só afasta ainda mais essas crianças do conteúdo a ser aprendido. Não há nenhum conhecimento que não tenha sido forjado por uma necessidade humana. Dessa forma, todo ser humano é capaz de aprender mesmo os conhecimentos mais abstratos, desde que as experiências sociais sejam organizadas na escola de forma que respeite o aluno real e suas experiências reais. A escola em que se passa o filme, por exemplo, tem como característica marcante a diversidade étnica e social. Os alunos são de origens muito diversas e, em se tratando de um país em que a escola pública é frequentada por diferentes classes sociais, possuem experiências sociais também muito diversas. Há famílias, por exemplo, que não dominam a língua francesa. A partir das representações dos aprendizes, dos erros e obstáculos à aprendizagem, que se envolvam os alunos em atividades de pesquisa, e o que vimos foi praticamente nenhuma ação para isso, pelo contrário, houve uma fuga deste tipo de prática. Administrar a progressão das aprendizagens, ou seja, conceber e administrar situações-problemas ajustadas ao nível e às possibilidades dos alunos, observar e avalia-los em situações de aprendizagem, de acordo com uma abordagem formativa, fazer balanços periódicos de competências e tomar decisões de progressão: no filme em questão, esta prática foi contrária, quando o professor se vê diante de um aprendiz com graves problemas de aprendizagem, ele simplesmente o abandona, como ele mesmo disse – “não se exige nada dele já que ele não será capaz de fazê-lo”, ou seja, nenhuma decisão sensata foi tomada para que houvesse alguma progressão na aprendizagem desse aprendiz. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação, administrando a heterogeneidade no âmbito da turma, ampliar a gestão de classe para um espaço mais vasto, fornece apoio integrado, trabalhar com alunos portadores de grandes dificuldades, desenvolver a cooperação entre os aprendizes e formas simples de ensino mútuo. Tais ações não apenas foram deixadas de lado na prática deste professor como também não foram estimuladas a serem trabalhadas pelos aprendizes e o único momento em que vemos uma cooperação parte da turma, quando estes resolvem se unir contra o professor para defenderem suas colegas. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho, procurando suscitar neles o desejo pelo aprender, explicitar a relação com o saber, o sentido do trabalho escolar e desenvolver neles a capacidade de auto avaliação, instituir um conselho de alunos e negociar com eles diversos tipos de regras e de contratos: como já vimos anteriormente, não há esta ligação entre o que se aprende e a vida dos alunos, muito menos há uma busca em envolvê-los na aprendizagem; também não houve negociação e foi justamente isto que ocasionou o drama principal do filme, a falta de regras, de conversar com as alunas sobre o seu papel no conselho de classe. Seguindo o pensamento freiriano, o professor François teria desrespeitado todos os direitos de seus aprendizes, não apenas por ignorar suas diferenças, mas também o gosto específico de cada um, ele abusou de sua autoridade utilizando a disciplina como um instrumento de dominação e de controle destinado a suprimir ou domesticar os comportamentos divergentes. Um regime disciplinar em que os indivíduos são diferenciados em relação uns aos outros e medidos quantitativamente. Digamos que falta ao professor do filme a prática do bom-senso. Por algum motivo que não fica evidente no filme, não há este bom-senso por parte do docente e também não há um esforçode sua parte que sinalize uma possível mudança neste sentido. É preciso encurtar a distância entre conteúdo programático e realidade e interesses dos alunos em sala de aula. Do contrário, o ensino será deficiente e a aprendizagem precária. É preciso observar o estilo de vida, o comportamento e o contexto familiar de cada estudante, oferecendo a este o devido respeito e valorização de suas potencialidades, como também ajudá-lo a rever e melhorar suas dificuldades, tendo sempre a família como aliada neste processo de ensino e aprendizagem. Os alunos querem um pouco mais de “calor humano” no sentido de atenção, solidariedade, compreensão, respeito, carinho, admiração, valorização das suas habilidades e competências e ser ajudado em suas dificuldades – ingredientes que geralmente não fazem parte do contexto familiar. E se o professor não estiver atento a estas questões e comprometido com o seu trabalho, certamente todo o seu planejamento de aula e carreira será frustrante, e a intolerância e a violência certamente estarão entre os muros da escola. A análise das cenas permite que possamos reconhecer quais fatores influenciam na relação entre professor e aluno na sala de aula, pois apesar de se tratar de um contexto específico (um filme), as reflexões ultrapassam o limite entre ficção e realidade. A construção de uma prática reflexiva permite a reformulação de conceitos, assim como uma participação mais ativa e contestadora do docente sobre sua própria ação, tirando este da posição de mero transmissor de conteúdo. A partir deste exercício de reflexão o professor tem condições de desenvolver uma prática mais significativa, mais coerente não apenas com seu perfil de educador mas também com a realidade de seus aprendizes.