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Conteudista: Prof.ª M.ª Janaina Cristina Barêa de Assis Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites Objetivos da Unidade: Conhecer aspectos históricos, culturais, filosóficos e científicos e a consolidação da Psicologia no Brasil; Refletir sobre as produções psicológicas realizadas no Brasil durante o período colonial e o período imperial; Articular o conhecimento psicológico produzido com o contexto social e histórico brasileiro. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências História do Pensamento Psicológico no Brasil Introdução Recapitulando... Olá, caro(a) estudante, como avalia seu processo de aprendizado até aqui? Esperamos que esteja gostando do assunto e se identificando com os conteúdos apresentados. Aproveitamos para reforçar que as leituras complementares são de extrema importância para compreender ainda mais os assuntos que estamos apresentamos. Bem, já vimos sobre a importância do ensino de história e sobre as influências filosóficas e fisiológicas no processo de consolidação da Psicologia como ciência. Também abordamos brevemente os primeiros movimentos psicológicos do Estruturalismo e Funcionalismo, bem como algumas das principais escolas da Psicologia: o Behaviorismo, a Gestalt, a Psicanálise, o Humanismo e a Sócio-histórica. Você deve ter percebido que o conteúdo apresentando até aqui faz referência a uma História da Psicologia Mundial e traz como palco o continente europeu e o americano, mas e o Brasil nessa história? Posteriormente tratarão da história da nossa ciência e profissão em território nacional. A professora Marina Massimi, uma estudiosa da produção do conhecimento psicológico produzido no Brasil durante a colônia e o Império, em um artigo que publicou nos cadernos da PUC-SP, no ano de 1987, que tem por título As Origens da Psicologia Brasileira em Obras do Período Colonial, pontua sobre uma desvalorização dos saberes psicológicos produzidos em nosso país. 1 / 3 ˨ Material Teórico Para a autora, os brasileiros teriam uma tendência a superestimar as produções estrangeiras e desvalorizar as produções nacionais. Menciona em seu artigo um trecho bastante interessante de João Cruz Costa, do livro Contribuição à História das Ideias no Brasil: O Desenvolvimento da Filosofia no Brasil e a Evolução Histórica Nacional (1956): Segundo Marina Massimi (1987), a distância entre a produção intelectual e o povo se deu, inicialmente, pelo processo de colonização. Durante o período da colônia, não eram permitidas no país instituições de ensino superior, por isso caso algum jovem quisesse dar seguimento aos seus estudos deveria o fazê-lo na Europa. Quando retornava, aqui encontrava apenas objetos de estudo de suas pesquisas científicas ou de ação política, por meio dos quais validariam o conhecimento aprendido fora e reforçariam seu lugar de sujeitos dominadores. O território nacional parecia não ter nada de novo a lhes ensinar. Compreender o contexto cultural em que a Psicologia surge no nosso país possibilita, de acordo com a autora, além de recuperar nossa memória, desenvolver uma consciência crítica do psicólogo (pesquisador ou profissional), entendendo seu percurso e construindo alternativas para as reais necessidades dos sujeitos humanos que compõem a nossa sociedade, não mais importando conhecimento de fora de forma descontextualizada. - CRUZ COSTA, 1956 apud MASSIMI, p. 96, 1987 “Na história da nossa inteligência aparece (...) a mais completa e desequilibrada admiração por tudo que é estrangeiro (...) talvez uma espécie de “complexo de inferioridade” que deriva do afastamento em que se mantiveram por muito tempo as nossas elites em relação aos problemas concretos da terra e do povo, e que, talvez também se explique em função da situação colonial em que por longo tempo vivemos. Desconfiamos das nossas empresas, das nossas interpretações e preferimos sempre nos apoiar no pensamento alheio.” Você sabia que a produção do conhecimento psicológico no Brasil teve início nos séculos XVII? Que tal conhecermos um pouquinho dessa história? Os Saberes Psicológicos no Período Colonial Esse período foi nomeado por Isaías Pessotti (1988) como o período pré-institucional da psicologia brasileira, em que as obras publicadas por jesuítas, apesar de tratarem de temáticas psicológicas, não tinham o compromisso com a construção ou divulgação da Psicologia e aconteceram antes da criação das faculdades no país. Durante o período colonial, o Brasil serviu para a expansão comercial europeia, constituindo-se como colônia de exploração de Portugal, que se apropriava de suas riquezas e produtos e, como metrópole, determinava como e o que deveria ser produzido (ANTUNES, 2012). A Companhia de Jesus do Brasil foi o nome atribuído ao grupo de jesuítas que tinham por objetivo evangelização e aplicação de regras disciplinares visando garantir a ordem da colônia. A Companhia de Jesus, segundo Mitsuko Antunes (2001), durante o período colonial, sustentou, com um sólido aparato ideológico, o lugar de exploração do país, até a expulsão dos jesuítas do Brasil, com o final das capitanias hereditárias e as conhecidas Reformas Pombalinas. A maior parte dos autores, do então chamado período pré-institucional, seriam brasileiros, apenas com algumas exceções, que apesar de terem a nacionalidade portuguesa, passaram a maior parte de sua vida no Brasil. Os, em sua maioria missionários, tiveram sua formação jesuítica na Universidade de Coimbra ou em outras universidades europeias. Segundo Mitsuko Antunes (2001), em sua maioria, exerciam função religiosa ou política, ocupando cargos importantes na colônia ou na metrópole. Para Isaías Pessotti (1988), quem realizava essas produções eram considerados os poderosos, a elite da época. Estavam acima do nível cultural da população, iluminados pela cultura europeia. Além da criação de forças repressivas para se proteger de invasões externas e manifestações internas, de acordo com Mitsuko Antunes (2012), a metrópole necessitava garantir a ordem e sustentar os princípios ideológicos na colônia. Nesse sentido a Companhia de Jesus foi de extrema importância. Esse controle se deu de diversas formas, mas uma das mais significativas funções foi a de cuidar da educação do país, em especial da educação dos filhos dos portugueses para que pudessem dar continuidade nos estudos na metrópole e na catequização e ensino elementar para os indígenas, uma educação pela disciplina e pelo medo. Em seu artigo, Mitsuko Antunes (2012) dá o exemplo dos estudos da época acerca da temática do suicídio, que visavam diminuir ou inibir a morte voluntária de indígenas e posteriormente africanos escravizados, por meio da ideia de um pecado eterno associado a essa manifestação de sofrimento. Os saberes produzidos pelos jesuítas não só defendiam os interesses ideológicos da metrópole. Conforme afirma Mitsuko Antunes (2012), em alguns momentos se opuseram a eles, como em questões referentes à educação e ao processo de aprendizado das crianças e ao lugar da mulher na colônia. Padre Antônio Vieira, por exemplo, segundo os relatos apresentados por Antunes (2012) e Pais (2010), defendeu os judeus e se posicionou contra a escravidão de indígenas e africanos. Segundo os autores no Sermão Vigésimo Sétimo, ele diz em defesa dos negros escravizados: “Outra razão é serem também homens os que são escravos. Se a fortuna os fez escravos, a natureza fê-los homens; e por que há de poder mais a desigualdade de As produções do período eram impressas na Europa, pois no Brasil ainda não se tinha impressora e os conteúdos dessas obras descreviam as seguintes temáticas: emoções; autoconhecimento; sentidos; percepções; teologia; moral; possíveis “causas” da loucura; processos psicológicos; educação de crianças e jovens; características relacionadas ao sexo feminino; diferentes comportamentos entre sexos e raças; questões referentes ao trabalho; adaptação ao ambiente, aculturação e técnicas de persuasão de “selvagens”; controle político e aplicação do conhecimento psicológico à prática médica; entre outros (MASSIMI, 1987; PESSOTTI, 1988; ANTUNES, 2012). Segundo Mitsuko Antunes (2001), as produções do Padre Vieira, do Frei Mateus da Encarnação Pinna e do Padre Angelo Ribeiro de Sequeira, tinham um caráter ético-religioso e apresentavam reflexões sobre as emoções e como administrá-las ou mesmo “curá-las”. Mathias Aires Ramos da Silva de Eça em suas obras tratava de assuntos relacionados à Filosofia Moral e Francisco de Mello Franco abordava temáticas da medicina. Todas as obras referidas apresentavam análises no âmbito do comportamento e discorriam sobre as paixões e emoções e suas relações com as enfermidades. As obras relacionadas às percepções, sentidos e sensações tiveram destaque no século XVIII e parecem ter sido influenciadas pelo empirismo da época. Esses estudos realizados a partir das - PADRE ANTÔNIO VIEIRA apud PAIS, p. 63, 2010 fortuna para o desprezo que a igualdade da natureza para estimação? Quando o desprezo a eles, mais me desprezo a mim; porque neles desprezo o que é por desgraça, e em mim o que sou por natureza. A esta razão forçosa em toda parte se acrescenta outra no Brasil, que convence a injustiça e exagera a ingratidão. Quem vos sustenta no Brasil, senão vossos escravos? Pois se eles são os que vos dão de comer, porque lhe haveis de negar a mesa, que é mais sua que vossa? Contudo a majestade, ou desumanidade da opinião contrária, é a que prevalece, e não só não são admitidos à mesa, mas nem às migalhas dela, sendo melhor a fortuna dos cães que a sua, posto que sejam tratados com o mesmo nome (...).” observações e experimentações tinham por principais temáticas a loucura, aspectos relacionados à sexualidade, instintos, ilusões de ótica e fantasias, e por principais autores: Padre Vieira, Encarnação Pinna, Mathias Aires, Sequeira e Mello Franco. Havia no período, segundo os estudos da professora Marina Massimi e os escritos de Mitsuko Antunes (2001), pesquisas sobre a infância, mais precisamente sobre o processo educativo das crianças, onde eram discutidas temáticas relacionadas à personalidade, ao desenvolvimento, aspectos relativos ao comportamento e o papel dos pais em sua formação. Os principais nomes que teriam tratado desse assunto foram: Alexandre de Gusmão, Mathias Aires, Mello Franco, Americus, Manoel de Andrade Figueiredo, Azeredo Coutinho e Fernão Cardim. - FIGUEIREDO, 1722 apud MASSIMI, p. 105, 1987 “Com este (o menino rude) deve o prudente mestre usar de menos rigor no castigo, pois vemos que o demasiado mais lhe redunda em ruina, do que em proveito; porque a�icto de não poder perceber a lição e temeroso ao mesmo tempo do castigo, que o intimida, e mortifica, lhe confundem estas considerações, de tal sorte, o fragil entendimento, que confuso e aereo, muitas vezes succede, que abraçando o medo natural, se ausenta e foge da escola; e com estes melhor he que o mestre se mostre mais respectivo, que justiceiro, levandoos com castigo moderado, e ás vezes fingindo, applicando-lhes a grandeza da lição, segundo a capacidade dos talentos, até de lhes irem purificando os nervos da rudeza e alcançarem, com o exercício, mais clareza de engenho (...) Assim como todos os acertos se atribuem aos mestres que ensinão, e não aos discipulos que aprendem, assim tambem os erros que se achão nos mininos, são nodoas, que se poem na fama dos mestres, que não ensinarão bem.” Os estudos sobre a mulher também protagonizaram o período, principalmente com obras que discutiam sobre seu papel na sociedade e aspectos psíquicos e biológicos do feminino, como comportamentos relacionados a maternidade, gestação, amamentação, sexualidade e comportamentos “desviantes”. Porém é importante registrar que havia diferenças entre a mulher indígena e a mulher “colonizada” (ANTUNES, 2001). Marina Massimi (1987) relata contribuições importantes como a defesa pela instrução feminina, apresentada nas obras de Alexandre de Gusmão; a desconstrução de Feliciano de Souza Nunes sobre uma possível inferioridade da mulher; e a criação de uma metodologia específica para a formação feminina, realizada por Azeredo Coutinho. O Trabalho também foi objeto de estudo durante o período colonial, de acordo com Mitsuko Antunes (2001), principalmente na perspectiva moral, social e psicológica. O trabalho é compreendido como salvação, cura e instrumento para civilização. Já o ócio é entendido como um pecado. Dentro desses aspectos, os indígenas por vezes eram descritos como preguiçosos. Temáticas como importância do trabalho para a criança, estudos relacionados ao controle das atividades produtivas, trabalho como instrumento de controle e adaptações relacionadas ao trabalho estavam presentes nos estudos da época. - FELICIANO DE SOUZA NUNES, 1758 apud MASSIMI, p. 109-110, 1987 “(...) Não só têm as mulheres a mesma aptidão e capacidade de entendimento e discurso, que nos homens se acham, senão também que sem comparação os excederiam se as aplicassem às artes e ciências a que eles ordinariamente se aplicam; e que ‘ex-vi’ disto, seriam tanto mais úteis e admiráveis, quanto nas operações do discurso melhor fossem instruídas.” Assuntos relacionados à aplicação do conhecimento psicológico à Medicina também tiveram destaque no período colonial, em especial nas obras de Mello Franco, que abordam a relação mente-corpo e suas teorias, estudos sobre o sistema nervoso, psicopatologia, terapêuticas, questões ligadas ao sonho e ao sono. Como destaque, Mitsuko Antunes (2001) considera as obras do autor ligadas à concepção da sexualidade como determinante da loucura. Isaías Pessotti (1988) refere que nas obras do período colonial, pré-institucional da psicologia brasileira, é possível confirmar elementos de um moralismo cristão e uma pedagogia racionalista de matriz empirista. Um conhecimento que apresenta de forma bastante evidente a preocupação da conquista ou da catequização da inteligência brasileira. Tabela 1 – Produzida a partir da Classificação das Obras, Produzidas Durante o Período Pré- Institucional da Psicologia Fonte: Adaptada de PESSOTTI, 1988 Mitsuko Antunes (2001) reforça que apesar da importante relação do conhecimento produzido no Brasil colonial com os interesses sociais da época, é inegável e incontestável a originalidade e criatividade das pesquisas e estudos sobre os saberes psicológicos apresentados no país durante esse período. Como podemos constatar, os estudos e produções realizados durante o período pré- institucional da Psicologia no Brasil são importantes contribuições para a compreensão da história do país, além de apresentarem objetos de estudo, temas e assuntos presentes nas pesquisas e práticas psicológicas até o dia de hoje. Os Saberes Psicológicos no Império No século XIX, junto com a mudança do período colonial para o Império, com a chegada da família real e da corte no Rio de Janeiro, vieram muitas e importantes transformações políticas, econômicas e sociais no país (ANTUNES, 2012). A sociedade assistia à formação do capitalismo industrial e à ascenção da burguesia. Portugal era considerado um país atrasado e dependia da Inglaterra para protegê-lo da França. Segundo Boris Fausto (1995), Napoleão controlava praticamente toda a Europa Ocidental e estabeleceu - ANTUNES, 2001, p. 22 “Essas idéias são faces de uma mesma realidade, pois refletem as contradições da formação social em questão. Assim, é possível compreender a originalidade de várias idéias psicológicas como tendo surgido do fato de que, em busca de soluções para alguns problemas, a criatividade tornou-se um imperativo; as necessidades impostas pela realidade exigiram soluções que, ao mesmo tempo que buscavam a manutenção da ordem estabelecida, também se constituíam em forças impulsionadoras do real em direção ao futuro, ou ainda, poderiam estar articuladas às forças que colocavam em questão o próprio “status quo”, no sentido da busca de uma nova ordem, o que pode ser confirmado pelo fato de que vários autores estudados por Massimi tiveram em uma ou outra ocasião problemas com o poder metropolitano ou com a Inquisição.” um bloqueio econômico entre a Inglaterra e o continente. Portugal era uma brecha ao bloqueio e, por isso, escoltados pelos ingleses, a família real portuguesa viajou ao Brasil. Com a família real, chega ao Brasil todo o aparelho burocrático: ministros, conselheiro, juízes da corte suprema, funcionários do tesouro, membros do alto clero e também os arquivos do governo: máquina impressora e várias bibliotecas (base para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro) (FAUSTO, 1995). Nesse período, desenvolveu-se a vida cultural no Rio de Janeiro, criaram-se os jornais, teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas. De acordo com Boris Fausto (1995), o número de habitantes aumentou. Muitos imigrantes portugueses, espanhóis, franceses e ingleses passaram a formar a classe média de profissionais e artesão qualificados. No Brasil, o café encontrava-se em alta e a escravidão ainda estava presente, conforme Boris Fausto (1995), principalmente no Sul do país. Os traficantes de escravos constituíam uma potente burguesia na época e resistiram à abolição até 1888. Em 1850, extinguiu-se o tráfico de escravos, durante o auge da economia cafeeira no vale do Paraíba. O capital usado no tráfico levou a uma intensa atividade de negócios e especulação: bancos, indústrias, empresas de navegação a vapor, ferrovias para transporte do café. Assim como ao incremento da indústria pesada: ferro, aço e carvão (FAUSTO, 1995). Segundo Boris Fausto (1995), o Brasil parecia estar se modernizando, mas nenhuma alteração da estrutura social é vislumbrada. A economia brasileira baseada na monocultura do café permaneceu submissa às flutuações dos mercados consumidores. Só a elite tinha acesso à educação. De acordo com Isaías Pessotti (1988), em 1822, a independência política possibilitou o desenvolvimento cultural e científico do Brasil. Nesse momento, os estudiosos não eram mais missionários e/ou políticos, então estavam interessados apenas na ciência da Psicologia e sua interface com a medicina e com a pedagogia. Não estavam mais preocupados com a moral, a civilização ou a aculturação dos indígenas e nem estavam a serviço da religião. Isaías Pessotti (1988) nomeia esse período de institucional, que teria tido início mais precisamente com a criação, em 1833, das Faculdades da Bahia e do Rio de Janeiro, as primeiras do Brasil. Esse período se caracteriza pelos primeiros estudos institucionais do conhecimento psicológico, realizados dentro das faculdades e escolas do ensino do magistério, e se encerram em 1889, com a Proclamação da República do Brasil. Até o século XIX, segundo Ana Maria Jacó-Vilela (1999), o que encontrávamos no Brasil eram ideias psicológicas e não a Psicologia enquanto saber e prática. As produções eram realizadas por meio de obras filosóficas e teológicas. O momento tinha por maior preocupação a moral e as temáticas das produções traziam conteúdos referentes às emoções, ao autoconhecimento, à educação para a “salvação da alma”, primeiramente dirigida aos indígenas e posteriormente, segundo a autora, estendida aos africanos. Para Mitsuko Antunes (2012), durante o Império, a questão deixa de ser os indígenas, que já estavam “domesticados”, e passa a ser os afrodescendentes, por isso coube à ciência produzir conhecimentos e discursos que confirmassem a supremacia do povo branco europeu e a segregação étnica. Na tentativa de enfrentamento à escravidão, os africanos buscavam estratégias lentas, mas sólidas e fortes de resistência. Apesar de muitas das preocupações se manterem as mesmas dos séculos anteriores, conforme descreve Mitsuko Antunes (2012), no que diz respeito aos saberes psicológicos, as questões sociais, no século XIX, passaram a ser prioridade das áreas da Saúde e da Educação, ainda que, assim como os conhecimentos produzidos durante o período colonial, também com muitas divergências e contradições. O Brasil do século XIX também é reconhecido pelo início do intercâmbio cultural, principalmente com os países europeus e da França. Você se lembra do que acontecia no mundo no século XIX? Podíamos constatar importantes e significativas transformações nos campos da Filosofia e da Fisiologia. Também é importante recordarmos do quanto a produção de conhecimento da época servia ao sistema social e econômico de então. Teorias e ideias que valorizavam o indivíduo e buscavam nas diferenças sociais explicações para as desigualdades. É nesse cenário e nesse século que surge a Psicologia como ciência. Devido ao desenvolvimento da Psicologia e ao acesso aos conhecimentos produzidos mundialmente, ampliam-se no Brasil as produções psicológicas, principalmente nas áreas da Educação e da Saúde, buscando dar respostas às questões sociais do país. No início do século XIX, começam a surgir estudos influenciados pelo modelo positivista, um modelo de ciência que visa a um rigor nas pesquisas e ao fim de uma produção de conhecimento “ultrapassada” e “caritativa”, de acordo com Ana Maria Jacó-Vilela (1999). Em 1832, como já mencionado, são inauguradas as Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia e a produção de teses para a conclusão dos cursos também passa a ser obrigatória, o que também gera um aumento significativo no conhecimento produzido no campo dos saberes psicológicos. Os processos de urbanização, principalmente nas cidades do Rio de Janeiro e de Salvador geraram importantes problemas de saúde, conhecidos e nomeados pelas elites da época como “imundices físicas e morais”, que eram personificados nas figuras dos “leprosos, loucos, prostitutas, mendigos, vadios, crianças abandonadas, alcoólatras”, personagens do cenário urbano que “atrapalhavam” o desenvolvimento do país. Nesse contexto, a medicina social se estabelece, fundamentada nos ideais de normatização e higienização social, vislumbrando exterminar os desvios e as desordens (ANTUNES, 2012). Esses conhecimentos extrapolavam as teses e estavam presente na sociedade em outras produções escritas (jornais, livros), entrevistas e na própria prática médica. Muitos representantes da medicina, conforme relata Mitsuko Antunes (2012), na função de controle social, buscavam corresponder aos ideais higienistas de normatização e controle da sociedade, prescrevendo a reclusão de pessoas tidas como indesejáveis socialmente, posicionando-se a favor de práticas excludentes e moralistas, atendendo assim aos interesses das classes dominantes da época. Importante registrar que havia médicos que se opunham a essa lógica. Mitsuko Antunes (2012) cita o nome de Abílio César Borges, o Barão de Macahubas, apresentado em estudos e pesquisas feitas pela professora Nádia Rocha, que propunham uma educação sem práticas de castigos físicos. Esse período também marca a criação das instituições de Educação, “Escolas Normais” e dos Hospitais Psiquiátricos ou Asilo de alienados. Em 1842, segundo Mitsuki Antunes (2001), inaugura-se no Rio de Janeiro o Hospício Pedro II e, em 1852, em São Paulo, o Asilo Provisório de Alienados da cidade de São Paulo, também conhecido como Hospício Velho. Em 1861, o Hospício São João de Deus é fundado, em Recife. Em 1874, é inaugurado um estabelecimento dessa natureza em Salvador e, em 1884, na cidade de Porto Alegre. O Rio de Janeiro teve, desde o início, preocupações médicas em suas produções realizadas dentro das instituições psiquiátricas, porém em São Paulo as preocupações pareciam apenas com a reclusão. As discussões dentro do campo médico na cidade de São Paulo se iniciariam no final do século com Franco da Rocha (ANTUNES, 2001). Como já mencionado, segundo Isaías Pessotti (1988), as obras do período institucional da psicologia brasileira não tratavam de elementos de um moralismo religioso, mas sim apresentavam discussões e reflexões no campo da ciência. As primeiras teses defendidas no Rio de Janeiro relacionadas às questões psíquicas foram: Tabela 2 – Produzida a partir das Pesquisas Apresentadas por Isaías Pessotti Fonte: Adaptada de PESSOTTI, 1988 O Rio de Janeiro nesse período foi palco das produções e estudos científicos nacionais, aparentemente mais preocupados com a originalidade de seu saber do que com a sua utilidade e aplicabilidade desse conhecimento na sociedade (PESSOTTI, 1988). Em cada grande Hospital, conforme descreve Isaías Pessotti (1988), surge um Laboratório de Pesquisa Psicológica, diferentemente dos Laboratórios Europeus e Americanos, que surgiam dentro das Universidades. Os autores que protagonizaram esse período foram os médicos Teixeira Brandão, Henrique Roxo, Maurício de Medeiros, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Na Faculdade de Bahia, os médicos que iniciaram os estudos na área da Psicologia foram Juliano Moreira, Raimundo Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Afrânio Peixoto e outros. No período de 1840 a 1900, foram defendidas no estado 43 teses com o tema na Psicologia. Algumas delas, de acordo com Isaías Pessotti, foram: Tabela 3 – Produzida a partir das Pesquisas Apresentadas por Isaías Pessotti Fonte: Adaptada de PESSOTTI, 1988 Enquanto no Rio de Janeiro os estudos, teses e pesquisas eram relacionados à temática da Neurologia, Psicologia e Neuropsiquiatria, na Bahia, as produções, segundo Isaías Pessotti (1988), buscavam aplicação social da Psicologia e tinham por principais assuntos: Criminologia, Psiquiatria Forense e Higiene Mental. Em Síntese Estamos finalizando mais uma unidade. Você já conhecia essa história? Conseguiu aprender com o conteúdo abordado? Antes de Wundt fundar a ciência da Psicologia na Alemanha, em 1879, com a criação do primeiro laboratório de Psicologia, como já vimos, aqui no Brasil, muitos escritos e reflexões já haviam sido publicadas por jesuítas e outras lideranças da época. Como pudemos verificar, as produções escritas durante o período colonial (período pré-institucional) não tinham caráter científico, mas tratavam de aspectos relacionados às emoções, percepções e comportamentos, principalmente dos povos indígenas. Já as produções realizadas durante o período Imperial (período institucional) traziam conteúdos científicos e já estavam sendo feitas dentro das instituições do período, nas primeiras faculdades, algumas escolas, hospitais psiquiátricos e seus laboratórios. Na próxima Unidade, continuaremos com essa história, que passará por um período de autonomização até chegar em sua regulamentação como ciência e profissão aqui no Brasil. Figura 1 – Para compreender e descontrair Fonte: Adaptada de Getty Images Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Site Linha do Tempo – História da Psicologia Apesar de ter por título “A História da Psicologia em São Paulo”, a pesquisa apresenta informações referentes aos movimentos e personalidades da área em todo país, além de trazer vários dos fatos apresentados durante essa Unidade. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Livros História da Psicologia no Brasil: Primeiros Ensaios Livro organizado pela professora Dra. Mitsuko Antunes, em 2004, que apresenta alguns dos 2 / 3 ˨ Material Complementar https://bit.ly/3wJ8wtY textos clássicos sobre a História da Psicologia Brasileira. Uma oportunidade de conhecer a História a partir de produções de seus pioneiros. ANTUNES, M. A. M. História da psicologia no Brasil: primeiros ensaios. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004. 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A psicologia no Brasil: um ensaio sobre suas contradições. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 32, n. spe, p. 44-65, 2012. Disponível em . ________. A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua constituição. 2.ed. São Paulo: Unimarco/EDUC, p. 129, 2001. FAUSTO, B. História do Brasil. 2. ed. Universidade de São Paulo: São Paulo, p. 650, 1995. JACÓ-VILELA, A. M.; FERREIRA, A. A. L.; PORTUGAL, F. T. (org.). História da psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: Nau Ed., p. 598, 2006. ________. Formação do psicólogo: um pouco de história. In: Interações, Vol 4., n˚8, p. 79- 91, 1999. MASSIMI, M. História dos saberes psicológicos. Pia Sociedade de São Paulo, Editora Paulus, 2016. ________. As origens da psicologia brasileira em obras do período colonial. In: Cadernos PUC, nº 23. São Paulo: EDUC, p. 95-117, 1987. PAIS, A. P. Padre Antônio Vieira. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. 3 / 3 ˨ Referências PESSOTI, I. Notas para uma história da psicologia Brasileira. In: Quem é o psicólogo brasileiro?. São Paulo: EDICOM, p. 17-31, 1988.