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INDUZIMENTO, INSTIGAÇÃO OU AUXÍLIO A SUICÍDIO OU A AUTOMOTILAÇÃO ➔ Bem jurídico tutelado: A vida humana. O suicídio e a automutilação em si não constituem ilícitos penais, mas a participação em tais atos sim, pode-se concluir que no art. 122 do Código Penal o legislador tornou crime a participação em fato não criminoso (participação em suicídio ou em automutilação). Legislação brasileira pune toda participação em suicídio, seja moral ou material. Para ser considerado crime é indispensável que tais instigações ou auxílio realmente levem à morte ou a lesões corporais de natureza grave. ● Sujeito passivo e ativo: Quando uma pessoa convence outra a matar a vítima, o homicida é chamado de autor (passivo) e quem a induziu a praticar tal crime é partícipe (ativo). No art. 122 do Código Penal, todavia, quem comete o ato suicida ou a automutilação é considerado vítima, e não pode ser punido. Logo, quem induz, instiga ou auxilia outrem a cometer suicídio ou automutilação é autor do delito e esse aspecto gera certa confusão, já que o crime do art. 122 é também chamado de participação em suicídio ou automutilação. Ex: André convence João a procurar Pedro e instigá-lo a cometer suicídio. Nesse caso, João também é autor do crime de participação em suicídio, pois foi ele quem manteve contato com a vítima Pedro e a convenceu a se matar. André, por sua vez, é partícipe do crime. Daí a frase: é possível participação em participação em suicídio. ➔ Adequação Típica Objetiva: Só existe juridicamente um suicídio em caso de supressão consciente e voluntária da própria vida. Ou seja, é necessário que o autor possua consciência e voluntariedade no ato de suprimir a própria vida. Nos casos em que a parte não possuía consciência ou em que estava coagida considera-se homicídio. A) Induzimento: O agente faz surgir a ideia do suicídio ou da automutilação na vítima, sugerindo a ela tais atos e a incentivando a realizá-los. B) Instigação: Consiste em reforçar a intenção suicida ou de automutilação já presente na vítima. Pode se dar em conversa entre amigos ou pela internet, mas o principal exemplo a ser lembrado é aquele em que a vítima já se encontra no alto de um prédio dizendo que vai se matar e alguém passa a incentivá-la gritando para que realmente pule. C) Auxílio: É também chamado de participação material, pois consiste em colaborar de alguma forma com o ato executório do suicídio ou da automutilação. A vítima já está convicta de que quer se matar e o agente a ajuda a concretizar o ato. É necessário que o sujeito saiba da intenção suicida ou de automutilação da vítima, ou seja, que haja dolo. ➔ Elemento Subjetivo: É o dolo, direto ou eventual, no sentido de a vítima cometer suicídio ou se automutilar. Não existe modalidade culposa por opção do legislador. Considera-se ter havido dolo direto quando evidenciado que o agente queria mesmo que a vítima morresse mediante suicídio. Já o dolo eventual se mostra presente quando o sujeito, com sua conduta, assume o risco de estimular um ato suicida. É o que ocorre quando alguém incentiva outra pessoa a fazer roleta-russa, mirando a arma contra a própria cabeça. Não se sabe se a vítima irá realmente morrer, porque só há um projétil no tambor do revólver, porém é evidente a possibilidade de o evento ocorrer, de modo que o incentivador do ato responde pelo crime. ➔ Consumação, tentativa e figuras qualitativas: Se o agente realiza o ato de induzimento, instigação ou auxílio visando ao ato suicida, mas a vítima não o realiza ou o realiza e não sofre lesão ou sofre apenas lesão leve, configura-se o crime do caput do art. 122, cuja pena é de detenção, de 6 meses a 2 anos. Se, em consequência do induzimento a vítima sofrer lesão corporal grave ou gravíssima, o delito considera-se qualificado, sendo a pena de reclusão, de 1 a 3 anos, nos termos do art. 122, § 1º. Ademais, se, em consequência do induzimento ao suicídio, a vítima morrer, o delito será também qualificado, sendo a pena de reclusão, de 2 a 6 anos, nos termos do art. 122, § 2º. Se o agente pretendia efetivamente incentivar um ato suicida, o resultado agravador do crime qualificado é doloso. Se o agente pretendia incentivar exclusivamente um ato de automutilação e a vítima acabou falecendo em decorrência disso, o crime qualificado é preterdoloso (dolo no antecedente e culpa quanto ao resultado agravador). ➔ Causas de aumento da pena: Art. 122, § 3º — A pena é duplicada: I - se o crime é praticado por motivo egoístico, torpe ou fútil. II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. § 4º - A pena é aumentada até o dobro se a conduta é realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real. § 5º - Aumenta-se a pena em metade se o agente é líder ou coordenador de grupo ou de rede social. INFANTICIDIO “Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após: Pena - detenção, de dois a seis anos.” ● Bem jurídico tutelado: Vida humana. Protege-se aqui a vida do nascente e do recém nascido. ● Elemento temporal: O crime de infanticídio pode ser praticado no momento em que o filho está nascendo (passando pelo canal vaginal, por exemplo) ou logo após o nascimento. Como a duração das alterações no organismo feminino podem variar de uma mulher para outra, acabou pacificando-se o entendimento de que a expressão “logo após o parto” estará presente enquanto durar o estado puerperal de cada mãe em cada caso concreto. Está, entretanto, demonstrado que essas alterações duram no máximo alguns dias, daí por que foi sábia a decisão do legislador em permitir o reconhecimento do infanticídio somente quando o crime acontecer logo depois do nascimento. Não se estipulou um prazo certo, mas fixou-se um parâmetro para os juízes e os jurados. ● Sujeito Passivo e Ativo: A) Passivo: O sujeito passivo se figura exclusivamente com o filho recém-nascido ou feto nascente. B) Ativo: O sujeito ativo se figura exclusivamente como a mãe, já que o elemento que configura o crime é o estado puerperal. B.1) Possibilidade de coautoria e participação: (doutrina acredita que coautor responde também por infanticido - professor não concorda) ● Estado puerperal: Estado puerperal é o conjunto de alterações físicas e psíquicas que ocorrem no organismo da mulher em razão do fenômeno do parto. Toda mulher que está em trabalho de parto encontra-se em estado puerperal. O tipo penal, contudo, exige, para a configuração do infanticídio, que a mãe mate sob a influência do puerpério, isto é, que as alterações ocorridas em seu organismo a tenham levado a um sentimento de rejeição ao filho. Questiona-se, na prática, se essa perturbação psíquica é presumida ou se deve ser provada. Em nosso entendimento, por se tratar de elemento do crime, deve ser provada, o que se faz por meio de perícia médica. Os médicos devem apreciar os sintomas exteriorizados pela mãe, os motivos por ela apresentados para a conduta, os meios empregados e outros fatores relevantes. Se concluírem que existiu a perturbação, haverá infanticídio, mas, se atestarem que ela não ocorreu, estará tipificado o homicídio. Com efeito, não se pode dispensar a formalização de depoimentos de testemunhas que, por exemplo, alegam ter ouvido a mulher, durante toda a gestação, dizer que iria matar o filho tão logo ele nascesse — fato plenamente indicativo do crime de homicídio. ● Admite a possibilidade de tentativa. ● Elemento subjetivo: É o dolo, direto ou eventual. Não existe modalidade culposa de infanticídio. ABORTO “Art. 124 - Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque: Pena - detenção, de um a três anos. Art. 125 - Provocar aborto, sem o consentimento da gestante: Pena -reclusão, de três a dez anos. Art. 126 - Provocar aborto com o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de um a quatro anos. Parágrafo único. Aplica-se a pena do artigo anterior, se a gestante não é maior de quatorze anos, ou é alienada ou debil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência” ● Aborto criminoso: O aborto criminoso é subdivido em: 1. Autoaborto: No autoaborto, previsto na 1ª parte do art. 124, é a própria gestante quem pratica as manobras abortivas que levam à morte do feto. O ato executório mais comum é a ingestão de medicamentos abortivos. Pode o autoaborto, contudo, consistir em quedas intencionais, esforços excessivos a fim de provocar o aborto, utilização de brinquedos contraindicados a mulheres grávidas, como montanhas-russas etc. Em caso de tentativa de suicídio da gestante, não responde ela por tentativa de aborto já que não se pune auto lesão. 2. Consentimento para o aborto: Nessa modalidade, a gestante não pratica em si o ato abortivo, mas permite que outra pessoa nela realize a manobra provocadora da morte do feto. Muitas vezes, a gestante até paga por isso, o que, todavia, não é requisito do crime, bastando sua anuência. Nesse caso, o crime consiste no consentimento e não na ação. A terceira pessoa que realiza a manobra abortiva responde pelo crime do art. 126 do Código Penal, que possui pena mais elevada — trata-se do crime de provocação de aborto com o consentimento da gestante. 3. Provocação de aborto com o consentimento da gestante: O consentimento, para que seja válido, deve ter sido obtido de forma livre e espontânea. Ademais, para que este se enquadre é necessário que perdure até a consumação do ato. Este crime possui como sujeito ativo o agente que consuma o ato podendo haver participação, enfermeiras, por exemplo. 4. Provocação de aborto sem o consentimento da gestante: Esta é a modalidade mais grave do crime de aborto e pode se caracterizar em duas hipóteses: 1ª) Quando não há qualquer autorização por parte da gestante. Exs.: quando alguém agride uma mulher grávida para causar o abortamento, ou, ainda, quando, clandestinamente, introduz substância abortiva na bebida dela. 2ª) Quando há autorização da gestante, mas tal anuência carece de valor jurídico em razão do que dispõe o texto legal. É o que se dá nas cinco hipóteses elencadas no art. 126, parágrafo único, do Código Penal: - se o consentimento foi obtido com emprego de fraude. Ex.: o médico e o pai da criança em gestação, que, mancomunados, falsificam exame e convencem a moça de que o prosseguimento da gravidez provocará a morte dela e, com isso, obtêm sua assinatura concordando com a realização do aborto. Descoberta a farsa, o médico e o pai respondem por aborto sem o consentimento. Para a gestante enganada, o fato não é considerado crime; - se o consentimento foi obtido com emprego de grave ameaça; - se foi obtido com emprego de violência; - se a gestante não é maior de 14 anos; - se é alienada ou débil mental, de modo que não tenha capacidade para compreender o significado de seu gesto. IMPORTANTE: Quem mata uma mulher, ciente de sua gravidez, e com isso provoca também a morte do feto, responde pelos crimes de aborto sem o consentimento da gestante e homicídio. Como a morte do feto é decorrência do homicídio da gestante, pode-se concluir que o agente teve, no mínimo, dolo eventual em relação ao aborto. A não ser que este não saiba da gravidez, nesse caso, responde apenas por homicídio. O mesmo acontece em caso de latrocínio de mulher grávida. ● Bem jurídico tutelado: A vida humana intrauterina. ● Consumação: O crime de aborto, qualquer que seja sua modalidade, só se consuma no momento da morte do feto. Trata-se de crime material. Mesmo no crime de consentimento para o aborto, é evidente que a consumação não se dá com a mera anuência da gestante, pois pode ela desistir e se retirar do local, hipótese de desistência voluntária. Somente no instante em que o terceiro nela realizar a manobra abortiva, haverá a consumação dos dois crimes (arts. 124 e 126). ● Tentativa: É possível em todas as figuras de aborto criminoso. Basta que seja realizado um ato capaz de provocar aborto e que a morte do feto não ocorra por circunstâncias alheias à vontade do(s) envolvido(s). ● Meios de execução: Os crimes de aborto enquadram-se no conceito de crime de ação livre, pois admitem qualquer forma de execução, evidentemente, desde que aptos a causar o resultado. Podendo ainda ser cometido por omissão. Exemplo: Médico que, percebendo a possibilidade de aborto natural e ciente da existência de medicamentos que podem evitar sua ocorrência, intencionalmente deixa de receitá-los. ● Elemento subjetivo: É o dolo. Todas as modalidades podem ser praticadas com dolo direto, o que se verifica quando o agente quer efetivamente causar o aborto. As modalidades de autoaborto e provocação de aborto sem o consentimento da gestante são ainda compatíveis com o dolo eventual. ● Aborto de gemeos: Quando a conduta é realizada antes de o agente saber que se trata de gravidez de gêmeos, responde por crime único, já que imaginava tratar-se de feto único. Se, todavia, já havia sido feito exame de ultrassom ou outro similar, e o agente (terceiro ou gestante) sabia que se tratava de gêmeos, responde por dois crimes de aborto, na medida em que houve dolo em relação a ambos. A hipótese é de concurso formal impróprio, em que as penas são somadas, porque o agente queria efetivamente os dois resultados. ● Causas de aumento da pena: Art. 127. As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço, se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte. AÇÃO PENAL PÚBLICA E INCONDICIONADA. __________________________________________________________________________ ● Aborto Legal: “Art. 128. Não se pune o aborto praticado por médico: I — se não há outro meio de salvar a vida da gestante; II — se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.”