Prévia do material em texto
Direito penal 3 TEORIA GERAL DA PARTE ESPECIAL DO CP TEORIA DO TIPO • ESTRUTURA DO TIPO PENAL Núcleo (verbo) Elementos • Objetivos ou descritivos (são elementos que dispensam o juízo de valoração e não se limita ao sujeito que o pratica. É o juízo de certeza. Ex.: ‘Alguém’.) • Subjetivos (elemento anímico do agente) • Normativos (necessita de interpretação valorativa – juízo de valoração) • Princípios que regem a classificação dos crimes em espécies: a importância da classificação para coesão lógica do sistema. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE E DA ANTERIORIDADE (art. 1º, CP e art. 5º, XXXIX, CF) “não há crime sem lei anterior que do defina”– “nullum crimen sine lege”; • “não há pena sem prévia cominação legal” “nulla poena sine lege”; PRINCÍPIO DA LESIVIDADE OU OFENSIVIDADE OU ALTERIDADE Funções do princípio da lesividade: ➢ Proibir a incriminação de uma atitude interna; ➢ Proibir a incriminação de uma conduta que não exceda o âmbito do próprio autor; ➢ Proibir a incriminação de simples estados ou condições existenciais; ➢ Proibir a incriminação de condutas desviadas que não afete qualquer bem jurídico. PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA ou DA ULTIMA RATIO • O Direito Penal só deve preocupar-se com a proteção dos bens mais importantes e necessários à vida em sociedade; • Se outras formas (extra penais) de sanção ou meios de controle social forem suficientes para tutelar bens jurídicos, a criminalização se tornará inadequada – caráter subsidiário do Direito Penal (Claus Roxin). Ex.: Lei nº. 11.106/05 – descriminalizou o adultério. Obs.: Discute-se atualmente sobre os crimes de descaminho , de uso de drogas e de emissão de cheque sem suficiente provisão de fundos. • PRINCÍPIO DA FRAGMENTARIEDADE ‘Não é tudo que o Direito Penal vai tutelar, mas somente uma parte (fragmento) do que é mais importante a sociedade’. • PRINCÍPIO DA ADEQUAÇÃO SOCIAL. “Apesar de uma conduta se subsumir ao modelo legal não será considerado típico se for socialmente adequada ou reconhecida, isto é, se estiver de acordo com a ordem social da vida historicamente condicionada”. Luiz Regis Prado. Funções: 1. Restringir o âmbito de abrangência do tipo penal, limitando a sua interpretação e dele excluindo as condutas consideradas socialmente adequadas e aceitas pela sociedade. 2. Dirigida ao legislador em duas vertentes: ➢ Orienta o legislador para a seleção dos bens a serem tutelados; ➢ Legislador repense os tipos penais. ➢ O princípio da adequação social não revoga tipos penais incriminadores. • PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA ou DA BAGATELA “Segundo o princípio da insignificância, que se revela por inteiro pela sua própria denominação, o direito penal, por sua natureza fragmentária, só vai aonde seja necessário para a proteção do bem jurídico. Não deve ocupar-se de bagatelas”. Assis Toledo. CÓDIGO PENAL Parte Especial Dos crimes contra a vida Do homicídio • Conceito: Eliminação da vida de uma pessoa praticada por outra (matar alguém). • Objeto jurídico: vida • Objeto material: a pessoa • Ação nuclear: “matar” - Crime de ação livre. • Crime instantâneo com efeitos permanentes. a) Sujeito ativo: qualquer pessoa; b) Sujeito passivo: qualquer pessoa. Obs.: Tratando-se das autoridades enumeradas no art. 29 da Lei nº 7.170/83 (Presidente da República, Deputado Federal, Senador ou Ministro do STF), o fato pode constituir crime contra a segurança nacional, a depender da motivação e dos objetivos do agente (art. 2º da Lei nº 7.170/83), e não homicídio; c) Elemento subjetivo: Dolo (animus necandi ou occidendi). d) Consumação: com a morte, tratando-se de crime material. O critério legal hoje é o da “morte encefálica” comprovada, criado pela Lei nº 9.434/97 – Lei de Transplantes de Órgãos (art. 3º); e) Tentativa imperfeita ou propriamente dita: f) Tentativa perfeita ou acabada (crime falho): g) Tentativa abandonada (arrependimento eficaz e desistência voluntária): h) Tentativa inidônea (crime impossível): i) Tentativa branca: Espécies : ➢ simples; ➢ privilegiado; ➢ qualificado; ➢ Culposo; ➢ Híbrido. (qualificado-privilegiado ou privilegiado- qualificado). Homicídio “privilegiado” (§1º): Privilégio: causa especial de diminuição de pena (1/6 a 1/2); Hipóteses: 1) relevante valor moral: quando o fim é individual, ligado a interesses particulares do agente. Ex.: eutanásia, para evitar a dor. 2) relevante valor social: quando o objetivo é coletivo para o bem da sociedade. Ex.: mata o traidor da pátria. 3) Domínio de violenta emoção + Logo após a injusta provocação da vítima: choque emocional e reação imediata. Obs.: Homicídio passional (movido pela paixão) Homicídio qualificado (§2º): Pode ter: • caráter pessoal • caráter real Comunicabilidade em caso de concurso de pessoas: só as objetivas, desde que haja ciência (conhecimento) do outro agente. A. Paga ou promessa de recompensa ou outro motivo torpe: Torpe é o motivo moralmente reprovável, desprezível, abjeto, repugnante. Parâmetro: senso comum da coletividade. Paga ou promessa de recompensa – Homicídio mercenário. Obs.: Vingança nem sempre é torpe. Ciúme não é torpe. B. Motivo fútil: é o motivo insignificante, vil, desproporcional em relação ao crime praticado. Parâmetro: senso comum da coletividade. - Ciúme não é motivo fútil: divergência. C. Meio insidioso e veneno: venefício. Veneno = Qualquer substância que, introduzida no organismo, seja capaz de colocar em risco a vida e a saúde humana. (chumbinho, açúcar para o diabético etc.) O emprego insidioso de outras substâncias, como o açúcar e o sal, traz a possibilidade de configuração da qualificadora, pois o que qualifica o homicídio não é o objeto escolhido ou usado para a prática do crime, mas o modo (meio) insidioso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima. D. Meio cruel: Ocorre quando o agente efetua o ato com manifesto intuito de maldade, impondo à vítima um sofrimento desnecessário (RT 768/559). Exige-se, ainda, que o agente esteja com o ânimo (mente, espírito) calmo ao empregar a crueldade, pois só este estado permite ao agente a escolha dos meios capazes de infligir maior padecimento à vítima. E. Fogo ou explosivo: são meios cruéis. F. Asfixia: é a falta de oxigênio no sangue (anoxemia) ocasionada por: • esganadura (constrição do pescoço da vítima com as mãos); • estrangulamento (constrição muscular com fios, arames, cordas, seguros pelo agente); • enforcamento (constrição pelo próprio peso da vítima); • afogamento (submersão em meio líquido); • soterramento (submersão em meio sólido); • sufocação (uso de objetos como travesseiros, mordaças); • confinamento (colocação em local onde não penetre o ar). G. Tortura: é o tormento que obriga a vítima a sofrer desnecessariamente antes da morte. É meio cruel por excelência. Ex.: esfolamento, decepar dedos. Homicídio qualificado pela tortura é diferente do crime de tortura qualificada pelo resultado morte previsto no art. 1º, §3º, da Lei nº 9.455/97 (crime preterdoloso). H. Outro meio que possa resultar perigo comum: expõe em risco um número indeterminado de pessoas. I. Traição: é a quebra de confiança existente entre o agente e a vítima. Para que a traição qualifique o crime de homicídio é necessário que o ataque seja brusco e inopinado, pegando a vítima desprevenida. J. Emboscada: é a chamada tocaia, que pressupõe necessariamente a premeditação do delito. K. Dissimulação: é a ocultação da intenção hostil, para acometer a vítima de surpresa. O criminoso age com falsas mostras de amizade, de modo que a vítima, iludida, não tem motivo para desconfiar do ataque e é apanhada desatenta e indefesa. L. Outro recurso que dificulte ou torneimpossível a defesa da vítima. Ex.: surpresa, amarrar a vítima. M. Conexão: espécies: • Teleológica (assegurar a execução). • Consequencial (assegurar a vantagem, a impunidade ou a ocultação). • Ocasional (praticado por ocasião de outro crime). Feminicídio (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) VI - contra a mulher por razões da condição de sexo feminino: Pena - reclusão, de doze a trinta anos. § 2o-A Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve: I - violência doméstica e familiar; II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher. § 7o A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado: I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto; II - contra pessoa maior de 60 (sessenta) anos, com deficiência ou com doenças degenerativas que acarretem condição limitante ou de vulnerabilidade física ou mental; (Redação dada pela Lei nº 14.344, de 2022) III - na presença física ou virtual de descendente ou de ascendente da vítima; (Redação dada pela Lei nº 13.771, de 2018) • IV - em descumprimento das medidas protetivas de urgência previstas nos incisos I, II e III do caput do art. 22 da Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. (Incluído pela Lei nº 13.771, de 2018) VII – contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição: (Incluído pela Lei nº 13.142, de 2015). VIII - com emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido: Homicídio contra menor de 14 (quatorze) anos (Incluído pela Lei nº 14.344, de 2022) IX - contra menor de 14 (quatorze) anos: Pena - reclusão, de doze a trinta anos. § 2º-B. A pena do homicídio contra menor de 14 (quatorze) anos é aumentada de: I - 1/3 (um terço) até a metade se a vítima é pessoa com deficiência ou com doença que implique o aumento de sua vulnerabilidade; II - 2/3 (dois terços) se o autor é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tiver autoridade sobre ela. Homicídio duplamente/triplamente qualificado: Divergência: A. considera uma circunstância como qualificadora e as demais como agravantes. B. considera uma como qualificadora e as demais como circunstâncias judiciais na fixação da pena- base. • Homicídio, quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que praticado por um só agente; • Homicídio qualificado (tentado ou consumado); Crimes hediondos (art. 1º, I, da lei 8072/90) Homicídio híbrido ou qualificado-privilegiado ou privilegiado-qualificado: a) Possibilidade, desde que as circunstâncias sejam compatíveis (qualificadoras objetivas). b) Não é hediondo. Homicídio culposo (art. 121, §3º, CP). Tipo penal aberto, pois não menciona a conduta típica ou o núcleo do tipo. Realiza o crime com a quebra do dever de cuidado. Delito de homicídio culposo no trânsito (art. 302 do CTB). Causa de aumento de pena (art. 121, §4º, do CP). Perdão judicial (§5º). • Natureza jurídica da sentença concessiva. Divergência. • Efeitos da condenação. § 6o A pena é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio. (Incluído pela Lei nº 12.720, de 2012) Dos crimes contra a vida. Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação. Suicídio – matar a si mesmo; é o extermínio de si próprio. Automutilação - conhecido como “cutting”. Ferir a si mesmo deliberadamente, resultando em dano imediato a uma parte do corpo, sem intenção suicida, e não aprovado socialmente dentro da própria cultura, nem mesmo para exibição (GIUSTI, 2013; ISSS, 2017; MUEHLENKAMP et al., 2013; WHITLOCK; LLOYD-RICHARDSON, 2019). A conduta suicida ou de autolesão não lesa interesses de terceiros, sendo, por isso, impossível criminalizá-la, em respeito ao princípio da alteridade ou da transcendentalidade. Logo, fato atípico. Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação. Art. 122. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou a praticar automutilação ou prestar-lhe auxílio material para que o faça: (Redação dada pela Lei nº 13.968, de 2019) Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. § 1º Se da automutilação ou da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 129 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. § 2º Se o suicídio se consuma ou se da automutilação resulta morte: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos. § 3º A pena é duplicada: I - se o crime é praticado por motivo egoístico, torpe ou fútil; II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. § 4º A pena é aumentada até o dobro se a conduta é realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real. § 5º Aumenta-se a pena em metade se o agente é líder ou coordenador de grupo ou de rede virtual. § 6º Se o crime de que trata o § 1º deste artigo resulta em lesão corporal de natureza gravíssima e é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime descrito no § 2º do art. 129 deste Código. § 7º Se o crime de que trata o § 2º deste artigo é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime de homicídio, nos termos do art. 121 deste Código. Tipo Penal: art. 122. CP. O partícipe do suicídio ou da automutilação é punido a título de autoria, eis que a participação (instigação, induzimento ou auxílio) constitui o próprio núcleo do tipo penal. Insta notar que se o agente vier a realizar a conduta “matar” ou “lesar” estará cometendo o delito de homicídio (art. 121) ou lesao corporal (art. 129), e não o de participação em suicídio (art. 122). Condutas: - Induzir (apoio moral): quando o suicida não tem em mente o suicídio por sua própria vontade, porém alguém o induz a cometer o ato. Dar a ideia. - Instigar (apoio moral): quando uma outra pessoa reforça a ideia do autor de tirar sua própria vida, sendo que já existia uma predisposição para o ato. Prestar auxílio (apoio material): quando o autor é ajudado com meio material para obtenção do resultado morte. Tipo penal misto alternativo (ação múltipla ou de conteúdo variado) Sujeito ativo: qualquer pessoa, tratando-se de crime comum. Sujeito passivo: qualquer pessoa com discernimento e capacidade para consentir em dispor de sua vida. (divergência) Participação em suicídio Questões especiais: 1. Roleta Russa. 2. Duelo americano. 3. Pacto de morte. 3. Pacto de morte = duas pessoas resolvem suicidar juntas. Ex.: Trancados num quarto com o gás aberto. 3.1. havendo um sobrevivente: Quem abriu = art.121, CP Quem não abriu = art. 122, CP 3.2. Se os dois sobrevivem, havendo lesão corporal grave: Quem abriu = art.121 c/c 14, II, CP Quem não abriu = art. 122, CP 3.3. Se os dois sobrevivem, não havendo lesão corporal grave: Quem abriu = art.121 c/c 14, II, CP Quem não abriu = fato atípico 3.4. Se os dois sobrevivem e ambos abriram a torneira = art.121 c/c 14, II, CP. Doscrimes contra a vida. Infanticídio. a) Tipo Penal (art. 123). Núcleo e elementares do crime: Matar + o próprio filho + durante o parto ou logo após + sob influência do estado puerperal. b) Sujeito ativo e passivo. É crime bi-próprio, pois exige qualidade especial tanto do sujeito ativo (mãe) como da vítima (próprio filho, que deve ser o nascituro – nascente ou neonato). • Se a mãe, conscientemente, matar outro filho, sob a influência do estado puerperal, haverá o crime de homicídio e não de infanticídio. • Ressalva-se a possibilidade de erro sobre a pessoa (§3º do art. 20 do CP), quando a mãe continuará respondendo pelo infanticídio, como se tivesse atingido o próprio filho. c) Estado puerperal. Trata-se de alterações de ordem física e psicológica que acometem as mulheres e são decorrentes do parto. Produz sentimentos de angústia, ódio, desespero, terminando por eliminar a vida do próprio filho. De fato, reconhece-se que a presença do puerpério pode: 1. Não produzir nenhuma alteração na capacidade de entendimento da mulher; Neste caso, a mulher responderá pelo homicídio. 2. Acarretar-lhe perturbações psicossomáticas que a levem a matar o próprio filho; cometerá infanticídio. 3. Reduzir-lhe a capacidade de entendimento ou de determinação; o que seria algo superior a mera perturbações psicossomáticas; gera a semi-imputabilidade. 4. Provocar-lhe doença mental; gera a inimputabilidade. D) Momento do crime: “durante ou logo após o parto”. O início do parto ocorre com o rompimento do saco amniótico (entendimento dominante). “Logo após” deve ser entendido nos limites do tempo de duração do estado puerperal, que, em regra, vai de 6 (seis) dias a 6 (seis) semanas. E) Elemento subjetivo do tipo: dolo. • Caso a mãe, sob a influência do estado puerperal, durante ou logo após o parto, venha a matar, por culpa, o próprio filho: 1. Noronha, Mirabete, Bitencourt e Capez: homicídio culposo. 2. Frederico Marques e Damásio, o fato é atípico. f) Consumação e Tentativa. • Consuma-se com a morte do filho. • É possível a tentativa. g) Concurso de Pessoas. Divergência. Comunicabilidade das elementares: Hipóteses: 1. O terceiro é autor (ele mata a criança) e a mãe é partícipe: terceiro pratica homicídio e a mãe é partícipe do infanticídio (quebra da teoria monista) 2. A mãe é autora (ela mata o filho) e o terceiro é partícipe: Há divergência. Corrente Majoritária: ambos responderão pelo infanticídio. 3. Mãe e terceiro são coautores: Há divergência. Corrente Majoritária: ambos responderão pelo infanticídio. Aborto. Conceito: Aborto é a interrupção da gravidez com a morte do produto da concepção, seja ele ovo, embrião ou feto, pois a lei não restringe a fase de evolução da vida intra-uterina. No sentido etimológico, aborto significa privação (ab) do nascimento (ortus). a) Consumação e tentativa. Consuma-se o aborto com a interrupção da gravidez e morte do feto. É possível a tentativa quando não ocorrer o óbito do feto, por circunstâncias alheias à vontade do agente. b) Espécies de aborto: • Provocado: consiste na interrupção da gravidez por intervenção humana, seja da própria gestante ou de terceiro. • Natural: é a interrupção espontânea da gravidez. • Acidental: é a interrupção da gravidez por conduta humana não intencional, isto é, provocada, não por dolo, mas por culpa. Destas, a única espécie que constitui crime é o aborto provocado. c) Espécies delitivas: • Auto-aborto (aborto provocado pela gestante em si mesma) ou aborto com o consentimento da gestante (art. 124); • Aborto provocado por terceiro sem o consentido da gestante (art.125); • Aborto provocado por terceiro com o consentido da gestante (art. 126). d) Aborto provocado pela gestante (auto-aborto) ou com seu consentimento (art. 124,CP). Sujeito ativo: a gestante (crime de mão própria) Sujeito passivo: o feto. Admite-se a participação de terceiros. Impossível que terceiro seja coautor do delito em estudo. Casos: • Se o terceiro comprar um remédio abortivo e o entregar para a mulher, ambos responderão pelo crime do art. 124, ela como autora e ele como partícipe. • Se o terceiro colocar o remédio na boca da gestante, sobrevindo o aborto, a gestante responde pelo crime do art. 124 (consentir que outrem lho provoque) e o terceiro pelo art. 126 (aborto consensual). • Se não houver o consentimento da gestante, o delito do terceiro será o do art. 125. f) Aborto provocado por terceiro sem o consentimento da gestante (art. 125). - Sujeito ativo: qualquer pessoa (crime comum). - Sujeito passivo: gestante e o feto (crime de dupla subjetividade passiva) - Dissentimento: pode ser: real (expresso) ou tácito (presumido). (parágrafo único do art. 126 do CP) 1. Real: gestante expressamente contrária ao aborto, ou quando o agente empregar violência, grave ameaça ou fraude para a obtenção de seu fim. 2. Presumido: gestante menor de 14 anos ou alienada ou débil mental. g) Aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante (art. 126). • Sujeito ativo: Qualquer pessoa. • Sujeito passivo: o feto. Obs.: A gestante e seus partícipes respondem pelo crime do art. 124 (pena de detenção de 1 a 3 anos); É necessário que a gestante tenha capacidade de consentir, pois, em caso contrário, seu dissentimento será presumido (parágrafo único do art. 126 do CP). e) Formas “Qualificadas”. (Art. 127, CP). Causas de aumento de pena • se do aborto resultar lesão grave na gestante, a pena deve ser aumentada de um terço; • se resultar a morte, a sanção penal será duplicada. Crime Preterdoloso: o resultado qualificador (morte ou lesão grave) é obtido a título de culpa. Se houver dolo do agente em relação à morte ou à lesão grave, responderá ele por dois delitos em concurso formal. h) Formas “Qualificadas”. (Art. 127, CP). Causas de aumento de pena Ausência de aborto e existência do resultado qualificador: Ex.: morte da gestante e aborto tentado: Crime de aborto qualificado tentado (Rogério Greco) Crime de aborto qualificado consumado (Capez). Tratando-se de figuras preterintencionais não se pode falar em tentativa. h) Formas “Qualificadas”. (Art. 127, CP). Causas de aumento de pena Responsabilização do terceiro partícipe da gestante, havendo o crime do art. 124 com morte ou lesão grave nesta. Há três posições: (1) Responde somente por homicídio culposo ou lesão culposa (Hungria); (2) Responde somente pela participação no crime do art. 124 (Noronha e Mirabete); (3) Responde pela participação no crime do art. 124 e por homicídio culposo ou lesão culposa, em concurso formal, sendo inaplicável, na hipótese, o art. 127. (Damásio e Capez) Diferença entre: Aborto “qualificado” pelas lesões graves e lesões graves qualificadas pelo aborto (art. 129, §2°, V). A diferença reside no dolo do agente. • No delito do art. 129, o agente não quer o aborto, que resulta a título de culpa. • A seu turno, no aborto “qualificado”, a intenção do sujeito é provocar o aborto, sobrevindo a lesão grave na gestante ou a sua morte a título de culpa. • Assemelham-se, por fim, por serem ambos os delitos preterdolosos. i) Aborto legal (art. 128). Espécies. • aborto necessário (ou terapêutico): (inciso I) • aborto sentimental (humanitário ou ético): (inciso II) Beneficiário: Em ambos os casos, só o médico e sua equipe. • Obs.: Se o aborto for praticado por outra pessoa (Ex. enfermeira), sem a presença de um médico: • Na hipótese do inciso I: estado de necessidade de terceiro (art. 24). • Na hipótese do inciso II: não é beneficiada pelos arts. 24 ou 128, CP. (não está salvando vida). Aborto necessário. Requisito: 1. Risco da vida. Não impõe o CP qualquercondição para a prática do aborto necessário, eis que o próprio inciso I do §3° do art. 146 permite a intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida. Aborto sentimental. Requisitos: 2. Consentimento da gestante ou de seu representante legal 3. Médico convencido de que a gravidez é consequência de prática delituosa. • Não exige a abertura ou encerramento de inquérito policial ou de processo relativo ao estupro. • É conveniente que o médico se acautele, exigindo prova cabal do consentimento e da prática do estupro. • Dispensável autorização judicial ou prova de condenação do agente pelo crime sexual. • Boletim de ocorrência, testemunhos colhidos perante a autoridade policial são provas hábeis à comprovação da prática do estupro. Natureza jurídica das excludentes. • Trata-se de causas de exclusão da antijuridicidade, e não de isenção de pena, pois o legislador penal excluiu a punição do fato (“não se pune o aborto”), e não do agente (neste caso, o CP usa a frase “é isento de pena”). • Rogério Greco defende que, no aborto sentimental, há causa de excludente da culpabilidade, por inexigibilidade de conduta diversa. Crítica: o CP adota a teoria da acessoriedade limitada, que prevê a punibilidade do partícipe quando o fato praticado pelo autor for típico e antijurídico. f) Aborto Eugênico ou eugenésico ou piedoso ou antecipação terapêutica do parto: • É o aborto realizado para impedir que a criança nasça com deformidade ou enfermidade grave e incurável. • O direito penal não exclui o crime. • O caso da anencefalia. • A decisão proferida pelo STF na ADPF 54 acrescentou nova modalidade que exclui a hipótese de crime de aborto, qual seja, quando se tratar de feto anencéfalo. A tese abraçada pelo STF segue a linha adotada pela medicina, que considera o feto anencéfalo um natimorto cerebral.