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Kaizen na Direção dos Serviços Administrativos da SONAE 15 | P á g i n a CAPÍTULO II - FUNDAMENTOS DO KAIZEN 2.1 – Os cinco princípios do Kaizen De acordo com Imai (1986) os valores abaixo apresentados são verdadeiros princípios de funcionamento que garantem os bons resultados de qualquer atividade de melhoria contínua, tais como: a) Criar valor para o cliente b) Envolvimento das pessoas c) Eliminar desperdício d) Ir para o gemba e) Gestão visual Figura 2 – Os cinco princípios do Kaizen Fonte: www.sonae.pt (Sonae 2015) a) Criar valor para o Cliente Atualmente, devido ao mercado globalizado e altamente competitivo, aumenta cada vez mais a pressão para que as empresas encontrem maneiras novas de criar e entregar valor aos clientes com o objetivo de assegurar os lucros nos negócios e manter vantagem competitiva. O cliente deverá ser a prioridade de todos os colaboradores. Para que tal aconteça, não deverá existir um ambiente rígido e funcional que conduza ao isolamento das várias áreas em torno de si próprias. Criar um produto de valor acrescentado para a satisfação do cliente surge numa perspetiva de unidade e de trabalho em torno de um objetivo comum: O cliente em 1º lugar. A orientação para o mercado é focalizado no cliente, assim é necessário: - Compreender as necessidades e expectativas dos clientes; - Antecipar as vontades e tendências antes da concorrência. Kaizen na Direção dos Serviços Administrativos da SONAE 16 | P á g i n a A figura 3 indica as consequências que terão de ser impostas para se atingir os objetivos iniciais, sem por em causa a máxima qualidade do produto e/ou serviço final e assim satisfazer as necessidades e expectativas dos clientes: Figura 3 – Satisfação das expetativas dos clientes com qualidade Fonte: www.sonae.pt (Sonae 2015) De acordo com Júnior e Cardoso (2012), as empresas devem trabalhar para atender as necessidades do cliente, neste sentido necessitam ter agilidade e flexibilidade para poder responder de forma relativamente rápida as variações dos pedidos dos clientes, mudanças no volume de produção e mudanças nas datas de entrega, sem ter elevado volume de stocks. Segundo Guedes (2008) uma organização deve rejeitar qualquer ação que não aumente valor para o cliente, procurando sempre a perfeição e que elimine todo o desperdício que possa ocorrer nos processos de produção; b) Eliminar Desperdício (“Muda”) A ideia base é a de elaborar os processos de negócio de forma a diminuir ao máximo o desperdício, obtendo, desta forma, um fluxo contínuo composto apenas de processos que acrescentam valor ao objeto de negócio Imai (1987) A criação de um fluxo contínuo nos processos de negócio irá forçar a uma diminuição no stock de matéria-prima ou de informação. Essa diminuição expõe ineficiências que exigirão soluções imediatas, caso contrário, todo o fluxo irá parar por mais tempo e o prejuízo será ainda maior. Quando os processos estão ligados uns aos outros, há mais trabalho em equipa, feedback mais rápido sobre os problemas, maior controlo sobre o processo e pressão constante sobre as pessoas para resolver problemas, pensar e crescer. Kaizen na Direção dos Serviços Administrativos da SONAE 17 | P á g i n a Identificação dos Três Mus (Muri, Mura e Muda) Os três Mus permitem que haja equilíbrio entre a capacidade e a carga, que normalmente dá origem a grandes perdas para a empresa. Os três vocábulos japoneses são: Muda – Refere-se ao desperdício, a tudo o que não acrescenta valor e, como tal, deve ser reduzido ou eliminado. Posto de uma outra perspetiva, desperdício refere-se a todas as componentes do produto e/ou serviço que o cliente não estará disposto a pagar (Pinto, 2009); Mura – Refere-se às inconsistências ou às irregularidades que devem ser eliminadas através da adoção do sistema Just-In-Time (JIT) procurando fazer apenas o necessário e quando pedido. Este é aplicado através do sistema pull deixando o cliente puxar os produtos ou serviços; Muri – Manifesta-se a partir da insuficiência ou do excesso que deverá ser eliminado pela uniformização do trabalho (garantindo que todos seguem o mesmo procedimento, tornando os processos mais previsíveis, estáveis e controláveis). c) Envolvimento das pessoas O desenvolvimento das pessoas através do envolvimento é uma crença muito forte para a melhoria contínua. Para cada tipo de melhoria existe um hábito a mudar. Para cada hábito existe um grupo de pessoas que vai ter de adotar novos hábitos, abandonando os anteriores. Desde os diretores aos operadores, todos necessitam de ser envolvidos, de forma a estarem aptos a adotar novos hábitos. O caminho para uma organização se tornar e manter bem-sucedida passa, obrigatoriamente, pelas pessoas que fazem parte dessa organização. O espírito do Sistema Toyota de Produção é aqui enfatizado, é que para criar equipas que excedam os parâmetros de desempenho, é preciso, além de indivíduos com excelente formação técnica, líderes que sirvam de exemplo técnica e filosoficamente para as suas equipas. Primeiramente, espera-se que um líder incuta aos seus colaboradores a cultura da empresa, ele precisa de ser um modelo para os trabalhadores, para isso tem de saber como o trabalho é realizado, mesmo as tarefas mais básicas, em cada parte do Gemba que está sob a sua responsabilidade. O capital Humano é o recurso mais valioso de uma organização. São as pessoas quem conhecem os processos, que são confrontadas com problemas e que são o grande motor da melhoria. É por isso fundamental, que em qualquer projeto Kaizen haja um comprometimento total das pessoas envolvidas, totalmente desprovido de julgamento ou culpa. Kaizen na Direção dos Serviços Administrativos da SONAE 18 | P á g i n a O mote “Não culpar / Não julgar” (anteriormente adotado pela SONAE) tenta passar exatamente a mensagem de que um ambiente repressivo contribui para a omissão dos problemas, quando o importante é promover a confiança entre as pessoas que lhes permita identificar e eliminar rapidamente qualquer problema que possa surgir. d) Ir para o Gemba A palavra gemba é um termo japonês que significa “lugar verdadeiro”, ou seja, “lugar onde ocorre o trabalho que agrega valor” (Imai, 1996), onde os problemas são detetados e resolvidos. Podemos apresentar como exemplos, a fábrica no caso da Toyota, a loja no caso do Continente e os centros administrativos no caso dos escritórios da SONAE. É o local mais importante de uma empresa, pois é onde se passa a maior parte do tempo, a resolver problemas e a melhorar os processos do dia-a-dia, a detetar falhas e a implementar melhorias. “… é no Gemba que tudo se joga, o Gemba é o espelho do trabalho dos gestores, a qualidade do seu trabalho reflete-se na forma como as pessoas trabalham, por isso é onde se deve passar a maior parte do tempo possível. “ (Imai, 2010) Para obter um Gemba ativo, é necessário: Ajudar as pessoas a compreender as suas responsabilidades de melhoria; Dar tempo às pessoas para a melhoria; Dar tempo às pessoas para desenvolver confiança na organização; A Gestão deve assumir riscos e liderar o processo, reconhecendo os sucessos e confrontando os problemas; Garantir que a conceção e desenho do Gemba estão em sintonia com as atividades Kaizen. Figura 4 – Equipas de trabalho Para uma constante melhoria, os métodos utilizados no gemba têm por finalidade desenvolver um trabalho em grupo, de forma a identificar os problemas e suas causas / raízes, propor soluções, padronizar os processos e acompanhar os resultados para garantir a concretização das metas estabelecidas. Kaizen na Direção dos Serviços Administrativos da SONAE 19 | P á g i n a e) Gestão Visual: A gestão visual é uma poderosa ferramenta, uma vez que 83% da informação que os seres humanos recolhemé através da visão. O objetivo da gestão visual é evidenciar anomalias e facilitar a comunicação, permitindo transmitir a informação de forma rápida e fácil a todas as pessoas. O termo “gestão” significa: orientar, medir, controlar, tomar decisões. Então, “gestão visual” significa fazer tudo isso, recorrendo a ajudas visuais, sejam gráficos, sinais, parâmetros, entre outros. A informação deve estar disponível para todos sob forma mais simples possível. Assim, normas de trabalho, regras de segurança ou utensílios de trabalho, todos devem estar munidos de auxílios visuais que facilitem a transmissão de informação. Figura 5 – Gestão visual Fonte: www.sonae.pt (Sonae 2015) Um aspeto fundamental nas empresas é a existência de uma passagem de informação eficiente entre os vários níveis da empresa. Hoje em dia, geralmente a informação existe e está disponível, mas a partilha e troca da mesma dentro da organização é, frequentemente ineficiente (Bilalis et al, 2002). Nesta medida, são utilizadas ferramentas visuais de modo a permitir a todos os intervenientes saber em que estado está o processo que lhes pertence. A Gestão Visual serve para apoiar o aumento da eficiência e eficácia das operações, tornando-as mais visíveis, lógicas e intuitivas. Foca a ideia que “uma imagem vale mais do que mil palavras” e que “uma norma é o caminho conhecido como mais eficiente de desempenhar determinada tarefa” (Imai, 2010). A filosofia Kaizen considera deveras importante a redução ou eliminação de desperdícios em tudo o que não acrescenta valor. Assim, no próximo capítulo referimos alguns tipos de gastos mais recorrentes nas organizações. Kaizen na Direção dos Serviços Administrativos da SONAE 20 | P á g i n a 2.2 – Modelo dos 7 “MUDA” “Não há nada mais inútil do que fazer de forma eficiente algo que nunca deveria ter sido feito”. Peter Drucker (2001) “Muda” = Desperdício Para a redução efetiva dos custos da produção, os desperdícios (“muda”) devem ser analisados e ponderados, pois têm uma relação entre si e são muitas vezes ocultados pela complexidade de uma grande organização. De acordo com Pinto (2009), o desperdício corresponde a todas as atividades que não acrescentam valor. A estas atividades os Japoneses chamam de “muda”, isto porque consomem em excesso os recursos e o tempo, que pode fazer com que os produtos ou serviços sejam disponibilizados no mercado a um preço superior do que deviam. O Kaizen visa a eliminação dos sete “Mudas” mais recorrentes nas empresas, de forma a alcançar a competitividade e a excelência, que são os seguintes: 1. Erros: Serviços ou Informação errados; materiais estragados. Provocam retrabalho, correção, transporte adicional, custos adicionais. Ex: Endereços errados, documentos errado. 2. Pessoas paradas: Espera da chegada de informação, autorização, ou materiais (consumíveis, material escritório, entre outros.). Tudo isto provoca desperdício de tempo de trabalho, tempos de processo longos. Ex: Espera de acessos (password / autorização) no computador. 3. Processos complicados: Instruções de processos (procedimentos) inadequados ou não existentes e deficiente armazenagem de informação (material). Tudo isto provoca desmotivação, esforço adicional de trabalho, recursos mal utilizados (pessoas, equipamento, conhecimento). Ex: Tarefas que não são necessárias para cumprir os requisitos do utilizador. 4. Movimento de pessoas: Pessoas que são obrigadas a deslocações. Movimento não significa trabalho, o que se traduz em desperdício. Ex: Distância a equipamento centralizado (impressora) 5. Informação (ou materiais e equipamentos) parados: -Stocks de informação: Dados guardados em memória ou armazenados em disco e que nunca são utilizados; -Stocks de trabalho em curso: Processos em curso de trabalho e que estão à espera da sua vez de processamento. 6. Informação a mais: Significa gerar mais informação do que aquela que é necessária. Informação a mais consome tempo e gera stocks de informação desnecessários, o que leva a uma espera desnecessária por parte do cliente. Ex: Fazer relatórios que ninguém vai ler em detalhe. Kaizen na Direção dos Serviços Administrativos da SONAE 21 | P á g i n a 7. Transferência de informação (ou materiais): Informação transmitida por diversos interlocutores e entre vários processos. Provoca custos, procura e perda de tempo e informação. Ex: Transporte entre vários andares e departamentos (correio interno). Nas empresas, adquirem-se hábitos e rotinas nas atividades e tarefas que, posteriormente se constata serem desnecessárias e em nada acrescentam valor á execução de tarefas. Assim, é necessário identificar as situações causadoras de desperdício (anteriormente apresentadas), e fazer com que estas sejam mitigadas. Depois de se terem considerado os principais enfoques do Kaizen, no capítulo seguinte serão abordadas as ferramentas usadas por esta metodologia de gestão.