Prévia do material em texto
© 2017, Marisa Lajolo, Regina Zilberman 2017, PUCPRess Este livro, na totalidade ou em parte, não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização expressa por escrito da Editora. Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Reitor Waldemiro Gremski Vice-reitor Vidal Martins Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação Paula Cristina Trevilatto Conselho Editorial Auristela Duarte de Lima Moser Cilene da Silva Gomes Ribeiro Eduardo Biacchi Gomes Evelyn de Almeida Orlando Jaime Ramos Léo Peruzzo Júnior Rodrigo Moraes da Silveira Ruy Inácio Neiva de Carvalho Vilmar Rodrigues Moreira Zanei Ramos Barcellos PUCPRess – Editora Universitária Champagnat Coordenação editorial Michele Marcos de Oliveira Editor Marcelo Manduca Editora de arte Solange Freitas de Melo Eschipio Administrativo Larissa Conceição Revisão Camila Fernandes de Salvo Amanda Rodrigues Soares Capa, projeto gráfico e diagramação Solange Freitas de Melo Eschipio Produção de ebook S2 Books Editora Universitária Champagnat Pontifícia Universidade Católica do Paraná Rua Imaculada Conceição, 1155 - Prédio da Administração 6º andar - Câmpus Curitiba - CEP 80215-901 - Curitiba / PR Tel. (41) 3271-1701 http://www.s2books.com.br/ editora.champagnat@pucpr.br editorachampagnat.pucpr.br Dados da Catalogação na Publicação Pontifícia Universidade Católica do Paraná Sistema Integrado de Bibliotecas – SIBI/PUCPR – Biblioteca Central L191L 2017 Lajolo, Marisa Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história. Marisa Lajolo, Regina Zilberman. Curitiba : PUCPRess, 2017. 152 p. : il. ; 23 cm. Inclui bibliografia ISBN 978-85-68324-42-4 eISBN 978-85-68324-66-0 1. Literatura infantojuvenil – História e crítica. 2. Literatura infantojuvenil brasileira. I. Lajolo, Marisa. II. Zilberman, Regina. III. Título. CDD 20. ed. − 809.89282 mailto:editora.champagnat%40pucpr.br?subject= http://editorachampagnat.pucpr.br/ SUMÁRIO Capa Folha de rosto Créditos Prefácio Citação Abrindo o livro Literatura infantil e juvenil para além do livro 1. Pode haver “livro depois do livro”? 2. “Que coisa é o livro?” 3. E a literatura? 4. Novas fronteiras 5. Autores de leitores on-line 5.1 Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski 5.2 Leo Cunha file:///C:/Users/SUPORTE06/AppData/Local/Temp/calibre_zb84xiet/Text/Capa.xhtml 5.3 Angela Lago 6. Entre as antigas fronteiras 7. “Tudo ao mesmo tempo agora” O peso dos números e das instituições 1. O mercado editorial 2. A profissionalização dos agentes da cadeia do livro 3. A interferência da escola e o papel do estado Novos territórios de criação para crianças e jovens 1. Livros de histórias sobre histórias 2. Um novo indianismo 3. Presença do não verbal Pode haver livro e leitura para além da escola? 1. Uma ficção para lá de fantástica 2. Herança e transformação da liberação feminina Fechando o livro Referências PREFÁCIO Este livro sutil e sábio de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, a propósito da história da literatura brasileira para crianças e jovens dos trinta últimos anos, permite refletir sobre três apostas mais fundamentais de nosso tempo. A primeira diz respeito à relação entre nossas definições tradicionais do “livro” entendido como um discurso que tem suas próprias características e as possibilidades técnicas oferecidas pelo mundo digital. Descrevem as duas modalidades desta relação. A primeira modalidade quer manter, na nova técnica de publicação dos textos, os critérios que a partir do século XVIII definiram o que é um “livro”: a originalidade da escritura, a identidade sempre reconhecível da obra e a propriedade literária de seu autor. As edições digitais de obras que já têm uma larga história impressa exemplificam o esforço de libertar-se de formas e conceitos, através de textos móveis, abertos, maleáveis, que podem ser palimpsestos e polifonia. A segunda modalidade deriva da inventividade dos criadores de literatura infantil e juvenil. Neste caso, são as possibilidades digitais que propõem gêneros, objetos, criações irredutíveis à forma impressa. São no cenário digital “alternativas de criação”. Não se limitam à introdução na cultura do livro dos gêneros da rede (e-mails, blogs, links), senão que produzem criações que são, segundo as expressões das autoras, “hibridismo de linguagens” ou “amálgamas de linguagens”. O site substituiu o livro, a liberdade do leitor, que pode escolher entre opções narrativas, ao absolutismo do texto, e, muitas vezes, a gratuidade do acesso ao comércio editorial. A aposta não é sem importância, pois pode levar tanto à introdução na textualidade eletrônica de alguns dispositivos capazes de perpetuar os critérios clássicos de identificação de obras, na sua identidade e propriedade, quanto ao abandono dessas categorias para inventar uma nova maneira de compor novas produções estéticas que exploram uma “plurimidialidade” mais rica que a simples relação entre texto e imagens e que localizam o leitor numa posição que permite escolhas ou mesmo participação. A segunda aposta discutida neste livro refere-se à relação entre o mundo digital e o mercado editorial, já que a edição na sua forma comercial clássica se apresenta como a forma dominante da circulação das novas criações digitais. Enfatizam Marisa Lajolo e Regina Zilberman dois elementos: por um lado, “situação de precariedade de práticas leitoras” no Brasil, por outro, a importância das políticas públicas de aquisições dos livros para as escolas. Concordam, assim, com os dados levantados pela pesquisa Retratos da leitura no Brasil e as políticas públicas e publicados neste ano de 2016 por José Castilho Marques Neto, que mostram os efeitos positivos das políticas nacionais da leitura e a escrita. Entre 2011 e 2015, a população dos leitores aumentou no Brasil de 6%, passando de 50% a 56%. Não parece muito, mas na escala do Brasil significa que 16 milhões de pessoas iniciaram-se em prática de leitura. Os instrumentos deste crescimento foram a renovação das bibliotecas públicas, as feiras do livro, as manifestações literárias, os apoios na edição. O desafio do presente é manter ou acrescentar estas intervenções que associam a leitura e a cidadania. No momento em que existe a forte tentação de desmantelar as políticas e instituições públicas, e não só no Brasil, a primeira responsabilidade dos governos e da sociedade é a defesa do direito ao saber e à poesia dos mais vulneráveis dos cidadãos. A terceira aposta contemplada pelo livro de Marisa Lajolo e Regina Zilberman vincula-se à relação ou ausência de relação entre as leituras propostas ou impostas pela escola e as novas produções da literatura infantil e juvenil. Depois da análise dos tópicos originais dessas criações, constatam as autoras: “ainda que não ostensivamente voltadas para o circuito escolar, obras que tematizam outras criações literárias, tratam das culturas indígenas ou investem solidamente na dimensão visual do objeto livro, também circulam entre carteiras e alunos.” A mesma conclusão se impõe para o gênero da “fantasy fiction” inaugurado por Harry Potter. Daí as questões finais do livro. Deve a literatura infantil e juvenil tornar-se “aliada explícita da pedagogia” ou ficar fora da escola para manter seu “caráter libertário”? Devemos atribuir à inventividade dessa literatura, que se vale de “procedimentos metalinguísticos e intertextuais”, um papel decisivo no incremento, não somente dos tempos de leitura dos jovens, senão também na difusão de competências de leitura capazes de favorecer o desfrute das invenções literárias? E se é o caso, como articular aprendizagem escolar e leituras livres tanto digitais como tradicionais? Marisa Lajolo e Regina Zilberman obrigam seus leitores a dar resposta às questões que assim formulam. É o grande mérito do seu elegante livro. Roger Chartier Surgirá a História Nova do Brasil em suas verdadeiras dimensões. Na medida em que ela surgir é que o país se transformará naquilo que todos desejamos – em que o povo brasileiro bem merece. Joel Rufino dos Santos [1] abrindomaiores investimentos em educação, saúde e segurança, bem como melhor aparelhamento urbano no âmbito do saneamento, transporte público, meio ambiente e cultura. O comércio de bens de consumo prospera, e fortalece-se uma nova classe média que, depois de um longo período de arrocho, pode beneficiar-se das facilidades de financiamento para aquisição de bens menos ou mais duráveis, como eletrodomésticos e casa própria. Um tal cenário se manifesta em todas as áreas sociais e afeta profundamente a cultura em seus processos e produtos. Afeta de maneira específica distintas modalidades artísticas, mas mexe com todas. Da pintura à dança, da música ao teatro e ao cinema multiplicam-se projetos públicos de apoio à produção estética, e proliferam espaços e eventos que favorecem a circulação de criações artísticas e seu consumo. No que respeita à literatura, cresce consideravelmente o número de livros impressos, em especial das obras – didáticas e literárias – destinadas a crianças e jovens. Livros para crianças e jovens exibem espetacular desenvolvimento quantitativo e qualitativo, propondo, desdobrando e consolidando novas formas de produção e difusão. Os quadros a seguir, organizados a partir de levantamentos da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), registram o aumento do número de obras dirigidas ao público infantil e juvenil. Embora tais dados sejam, desde 1992, [61] levantados anualmente, nem sempre se mantêm constantes as categorias em torno das quais eles se agrupam. Acresce a este embaraço a pouca autoconfiança das autoras quando transpõem as fronteiras do mundo das letras para o dos números. No entanto, a decisão de arriscar algumas discussões fundadas em cifras foi tomada em função da já mencionada indissociabilidade – a partir de um certo ponto – entre quantidade e qualidade. O primeiro quadro dá conta da população brasileira nas últimas décadas. O segundo, da produção de livros no Brasil em diferentes anos do século XXI. A oscilação dos números encontrados em diferentes fontes, se não invalida as reflexões aqui propostas (e acreditamos que não as invalida), relativiza a objetividade que os desfamiliarizados com algarismo costumam atribuir a eles. QUADRO I - POPULAÇÃO BRASILEIRA Ano POPULAÇÃO 1980 118.5 (milhões) [62] 1990 143.3 (milhões) [63] 1991 146.825.475 [64] 2000 165.5 (milhões) [65] 2010 186.5 (milhões) [66] 2014 202.7 ( milhões) 2015 204.4 ( milhões) QUADRO II [67] - PRODUÇÃO DO SETOR EDITORIAL BRASILEIRO (Primeira edição e reedições) PRODUÇÃO Ano Títulos Exemplares 2002 39.800 338.700.000 2003 35.590 299.400.000 2010 54.754 492.579.094 2011 499.796.286 58.192 2012 57.473 485.261.331 2013 62.235 467.835.900 2014 60.829 501.371.513 2015 52.427 446.848.571 Fonte: SNEL – Sindicato Nacional de Editores de Livros [68] QUADRO III - VENDAS ANO TÍTULOS EXEMPLARES 1990 22.479 239.392.000 1995 40.503 330.834.320 2000 45.111 329.519.650 2005 41.528 306.463.687 2010 54.754 492.579.094 Fonte: SNEL – Sindicato Nacional de Editores de Livros [69] O próximo quadro discrimina o número de títulos editados nas áreas de didáticos, paradidáticos, infantis e obras destinadas ao público adulto. Importa assinalar a falta de nitidez entre as fronteiras que pretendem estabelecer a distinção entre uma e outra categoria. QUADRO IV - TÍTULOS EDITADOS 1990 1995 2000 2005 2010 INFANTIL - 5.791 3.776 2.768 - JUVENIL - 3.026 4.065 1.730 - INF + JUV 4.890 8.817 7.841 4.498 3.539 ADULTA 3.356 2.089 2.628 5.399 - DIDÁTICOS 2.163 13.104 9.640 15.965 - 2011 2012 2014 2015 INFANTIL - 7.047 7.802 6.783 JUVENIL - 3.964 6.783 3.952 INF + JUV 3.508 11.011 14.585 10.735 ADULTA - 5.863 6.563 4.841 DIDÁTICOS - 10.276 8.801 9712 Tabela construída com base nos dados constantes de relatórios O comportamento do setor editorial brasileiro, de anos diversos (FIPE, CBL, SNEL) O quadro V registra os exemplares editados em cada categoria. QUADRO V - EXEMPLARES EDITADOS 1990 1995 2000 2005 2010 INFANTIL 31.941.520 39.916.745 26.125.767 14.205.773 26.500.755 JUVENIL - 13.169.185 7.964.627 8.172.365 43.790.281 INF + JUV 31.941.520 53.085.930 34.090.394 22.378.138 70.291.036 ADULTA 28.896.440 - 8.568.078 24.906.597 39.652.617 DIDÁTICOS 104.308.640 193.736.323 196.223.729 171.531.776 230.208.962 2012 2013 2014 2015 INFANTIL 32.030.337 39.269.715 37.259.612 12.499.466 JUVENIL 15.383.065 20.315.473 20.085.348 11.277.437 INF + JUV 47.413.402 59.585.188 57.344.960 23.776.903 ADULTA 37.870.478 43.342.414 48.491.769 31.649.010 DIDÁTICOS 214.250.244 195.575.296 211.518.868 219.390.259 Tabela construída com base nos dados constantes de relatórios O comportamento do setor editorial brasileiro, de anos diversos (FIPE, CBL, SNEL) Como já apontado, nem sempre é muito nítida a identidade das categorias em torno as quais se desenham as pesquisas a partir das quais os quadros até aqui propostos foram montados. Contudo, elas evidenciam que a produção de literatura infantil e juvenil quase sempre supera a da literatura destinada ao público adulto. Tais dados mostram que o processo de encorpamento da literatura infantil e juvenil, iniciado a partir dos anos 1970, foi levado adiante e fortalecido, fazendo com que livros para crianças e jovens passassem a representar fatia cada vez maior do mercado. Observa- se, no mesmo sentido, que é o livro didático – parente próximo do livro de literatura infantil e juvenil, por circularem ambos, em grande parte dos casos, entre o mesmo público – que lidera, com ampla vantagem, esse mercado. Que consequências acarreta essa configuração do mundo dos livros? 2. A profissionalização dos agentes da cadeia do livro Andam todos curiosos por ler as tais Memórias da Emília, que não saem nunca. Como vão elas? Emília, toda ganjenta com o elogio – respondeu – rebolando-se: - Vão indo bem, muito obrigada. Mas devagar. Meu secretário (o Visconde) briga muito comigo e faz greves. Eu ordeno: “Escreva isto”. Ele, que é um “sabugo ensinado”, escandaliza-se. “Oh, isso não! É impróprio”. E vem o “fecha” e o livro vai atrasando… Monteiro Lobato [70] O mundo editorial brasileiro do século XXI, expresso inicialmente pelos dados numéricos até agora apresentados, é moderno e globalizado. Sua modernidade supõe distintas instâncias: editoras, distribuidoras, livrarias convencionais e on-lineonde atuam e interagem profissionais com funções diferenciadas, entre os quais se contam escritores, capistas, ilustradores, editores de texto, revisores etc. Tudo, é claro, em função do leitor, consumidor da mercadoria por eles fabricada. Esse conjunto de profissionais compõe a chamada cadeia do livro. A denominação é originária da economia, e seu emprego tende a retirar a produção do livro – inclusive o literário – da esfera de um único indivíduo. A percepção da importância da cadeia do livroenfraquece a concepção de literatura, durante um bom tempo subscrita e chancelada pelos estudos literários, centralizada exclusivamente na figura do autor, nos recursos textuais por ele agenciados e nos sentidos por ele (presumidamente) pretendidos. Sabe-se hoje que o autor não está sozinho em cena, pois presencia-se o que parece ser um irreversível movimento de profissionalização por parte dos participantes da cadeia do livro. O novo cenário afeta desde os artistas (escritores e ilustradores) até os envolvidos com a circulação do produto final, como agentes literários, divulgadores e gestores culturais responsáveis por políticas de difusão da leitura (professores, bibliotecários, contadores de histórias, críticos literários), cujo papel de mediadores é destacado na maioria dos discursos e projetos voltados para livros e formação de leitores. Se essas personagens responsabilizam-se pela mediação entre obras e públicos, na relação autor/obrafazem-se presentes profissionais nem sempre evidentes em outras instâncias do sistema literário. Entre esses podem-se incluir o leitor crítico ou parecerista, a quem a editora encomenda umaprimeira avaliação da obra, o coordenador de uma coleção ou série, podendo-se ainda somar um supervisor pedagógico. O estabelecimento de metas de produção complementa o quadro de uma ação planejada que precisa levar em conta as características do mercado consumidor. [71] Com a palavra, um premiado escritor brasileiro, Luís Antônio Aguiar: Escrevo sob encomenda. Agora mesmo criei um livro sobre violência no Rio de Janeiro. Mas isso não é uma concessão ao mercado, não. Eu sou um escritor profissional. Então um editor diz: “eu estou precisando de um livro assim, sobre violência no Rio de Janeiro”, aí eu escrevo o livro. [72] Ainda que se possa entender o mundo do consumo enquanto unidade homogênea, o comércio do livro o subdivide em nichosque a literatura – em especial, a infantil – precisa levar em conta, pois seu mercado é segmentado em subgrupos para os quais os produtos literários são direcionados. As tabelas anteriormente apresentadas apontam para reflexos, na categorização dos livros, desta segmentação progressiva do mercado consumidor. Às categorias mencionadas nos quadros exibidos, podem somar-se os livros para jovens adultos, bebês, ou a chicklit, denominação adotada para as obras destinadas a jovens do sexo feminino. Assim, os livros infantis e juvenis são oferecidos a seus possíveis destinatários, considerando as variadas faixas etárias em que se distribui o flutuante público de crianças e jovens. Tais leitores – nas origens do gênero no Brasil indistintamente nomeados como crianças – são agora sofisticadamente redistribuídos em subcategorias como jovem adulto, leitor proficiente, leitor pré- alfabético e mais outras tantas denominações pelas quais a imaginação editorial, com uma mãozinha da Pedagogia, distribui sua clientela virtual segundo sua competência leitora. Exemplar disso é a categorização exibida por uma editora brasileira em seu site: FILTRO POR NÍVEL DE LEITURA SOBRE OS NÍVEIS Iniciação à leitura Leitor Iniciante Leitor em Processo Leitor Fluente Leitor Crítico [73] Em tal contexto, um autor pode ser chamado a redigir muitos títulos ao longo, por exemplo, de um ano. Manifesta-se, com isso, no universo da literatura infantil e juvenil, um ritmo de produção aparentemente diverso daquele tradicionalmente associado à criação artística. A bibliografia de autores mais considerados inclui às vezes mais de uma centena de títulos, distribuídos entre obras assumidamente literárias e outras didáticas ou paradidáticas. Desse modo, ao lado de obras elaboradas por iniciativa própria, por conta da vontade, projeto literário ou (para quem acredita) inspiração do artista, autores contemporâneos também podem escrever (e muitas vezes escrevem, como depõe Luís Antônio Aguiar) outras, encomendadas por editoras, para satisfazer expectativas específicas do mercado. Parece bastante intensa a demanda editorial por obras destinadas a certas faixas etárias, focalizando determinadas temáticas ou ainda transcorrendo em ambientes ou espaços por alguma razão tornados relevantes. Mais ainda: o escritor hoje, talvez mais do que em outras épocas, é também chamado a colaborar ativamente para o sucesso do produto que oferece, muitas vezes desdobrando-se na tarefa, corrente a partir dos anos 1970 do século XX, de visitar escolas ou participar de feiras de livros e de eventos literários. Em tais oportunidades, autores e leitores encontram-se sem a mediação da página impressa, ainda que este encontro face a face tenha por objetivo final o incentivo à leitura. Visitas a escolas e participação em eventos como bienais, feiras e festivais dedicados ao livro são ações multifacetadas, e algumas de suas faces não são isentas de risco. De uma parte, tais iniciativas parecem humanizar o objeto livro muitas vezes visto com reserva, temor, desconforto. Neste caso, a presença do escritor pode ser decisiva: ele representa o ângulo mais visível e aureolado do processo de produção da literatura, centralidade essa sublinhada por pelo menos cinco séculos de estudos literários. De outra, a participação em eventos e visitas a escolas representa riscos quando o componente didático e formador do livro infantil torna-se privilegiado no contato com o público leitor. Ou, sobretudo, quando autores e livros tornam-se meros objetos de consumo, midiaticamente promovidos e espetacularizados, tendência que alguns estudiosos do pós-modernismo consideram em ascensão na produção cultural do mundo globalizado. O fortalecimento e expansão do mercado editorial brasileiro oferece a escritores e ilustradores atuantes no espaço da literatura infantil e juvenil possibilidade de uma efetiva profissionalização, meta distante e quase inalcançável antes de meados do século XX. E ainda muito pouco comum na área da literatura para adultos, sobretudo a considerada alta literatura. A independência financeira pode constituir uma das vantagens do atual estágio do mundo editorial brasileiro. Sua contrapartida é a eventual subordinação do escritor a projetos editoriais, que predeterminam temas, épocas históricas, características dos leitores e outros quesitos a serem contemplados no texto. Soma-se a isso a disponibilidade permanente para atuar junto ao público, buscando atraí-lo e cativá-lo para a leitura, talvez – em especial – a de suas próprias obras. Esta contrapartida, bastante visível na área de livros para crianças e jovens, parece sugerir que os profissionais desta área ocupam a ponta do iceberg da cadeia do livro. E a ocupam de forma exemplar, haja vista os prêmios internacionais recebidos por artistas brasileiros nos últimos trinta anos. QUADRO VI ANO PRÊMIO AUTOR OBRA 1981 PRÊMIO CASA DE LAS AMÉRICAS ANA MARIA MACHADO DE OLHO NAS PENAS 1982 PRÊMIO HANS CHRISTIAN ANDERSEN - AUTOR LYGIA BOJUNGA NUNES LIVROS ATÉ ENTÃO PUBLICADOS LISTA DE HONRA DO IBBY ANA MARIA MACHADO O MENINO PEDRO E SEU BOI VOADOR 1983 Bienal de Ilustração de Bratislava RICARDO AZEVEDO UM HOMEM NO SÓTÃO 1985 PREMIO MIRLOS BLANCO WERNER ZOTZ RIO LIBERDADE 1989 ENCOMENDA DA UNESCO RUTH ROCHA VERSÃO INFANTIL DA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS 1989 ENCOMENDA DA UNESCO RUTH ROCHA DECLARAÇÃO SOBRE ECOLOGIA PARA CRIANÇAS 1991 PRÊMIO OCTOGONALES ANGELA LAGO O CASO DA BANANA 1993 ANO A PARTIR DO QUAL AUTORES BRASILEIROS SÃO PRESENÇA CONSTANTE NO CATÁLOGO WHITE RAVENS [74] 1994 PRÊMIO IBEROAMERICANO DE ILUSTRACIÓN ANGELA LAGO LIVROS ATÉ ENTÃO PUBLICADOS 1996 PRÊMIO NORMA FUNDALECTURA MARINA COLASANTI LONGE COMO O MEU QUERER 1998 LISTA DE HONRA DO IBBY SYLVIA ORTHOF LIVROS ATÉ ENTÃO PUBLICADOS 2000 PRÊMIO HANS CHRISTIAN ANDERSEN - AUTOR ANA MARIA MACHADO LIVROS ATÉ ENTÃO PUBLICADOS 2003 UNESCO PRIZE FOR CHILDREN’S AND YOUNG PEOPLE’S LITERATURE ROGÉRIO BORGES E DANIEL MUNDURUKU MEU AVÔ APOLINÁRIO 2004 ASTRID LINDGREN MEMORIAL AWARD (ALMA) [75] LYGIA BOJUNGA NUNES LIVROS ATÉ ENTÃO PUBLICADOS 2006 PRÊMIO BIENAL INTERNACIONAL DE BRATISLAVA ANGELA LAGO JOÃO FELIZARDO, REI DOS NEGÓCIOS Somam-se a essas premiações – aqui tomadas como chancela internacional da qualidade da produção brasileira – as duas vezes (2008 e 2010) em que Bartolomeu Campos Queirós (1944-2012) foi escolhido finalista na categoria escritor do prêmio Hans Christian Andersen, do IBBY. Por quantos e quais circuitos se espraia o prestígio que prêmios como os antes elencados conferem a livros e a escritores? 3. A interferência da escola e o papel do estado O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o Império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à sustância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-seao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou recepções da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos de berloques. Raul Pompéia [76] Muito embora se possa acreditar que os leitores escolhem os livros que querem ler, em certas situações, nem todos desfrutam dessa desejada autonomia. Sobretudo os leitores mais jovens. Para este segmento do público, muitas vezes as instâncias que fazem a mediação com a obra não levam em conta a vontade do leitor, embora costumem falar em nome dele. Entre tais instituições mediadoras, destaca-se a escola. Livros destinados ao público escolar são muitas vezes escolhidos a partir de pressupostos pedagógicos contemporâneos, mas ainda assim tão pedagógicosquanto patriotismo e obediência, valores difundidos, por exemplo, em Poesias infantis, de Olavo Bilac, [77] que contavam com a aval e com a compra de autoridades educacionais de seu tempo. A carta a seguir, provavelmente de 1898/1899, dirigida pelo poeta a Alberto Torres (1865-1917), na época governador do estado do Rio de Janeiro, e relativa à adoção do livro Terra Fluminense, resultado da parceria entre Bilac e Coelho Neto (1864-1934), é bastante sugestiva da estreita e antiga relação entre literatura infantojuvenil, livros didáticos e governo: Rio de Janeiro 31 de julho Exmo. e il. amigo sr. Dr. Alberto Torres. Particular. Cumprimento etc. Fui honrado com uma carta do exmo. dr. Martinho Campos dizendo-me que o governo espera apenas, para definitivamente adotar o livro escolar A T. F. [Terra fluminense], que os autores marquem o preço pelo qual pretendem fornecê-lo ao Estado. Por ser mau o meu estado de saúde, e não poder eu subir a Petrópolis, - escrevi logo a S. Exa.: o que os autores da T. F. pedem é tão razoável e tão moderado, - que Coelho Neto e eu ousamos pedir a V. Exa. que mais uma vez usando de benevolência dê à sua pretensão o favor de seu exame... Peço a V. Exa. que desculpe a minha importunação e creia etc etc etc. Olavo Bilac [78] A carta parece ter surtido efeito: a folha de rosto da obra (que teve apenas uma edição, em 1898) informa que se trata de “livro unanimemente aprovado pelo Conselho Superior de Instrução do Estado do Rio de Janeiro”. Aparentemente, no Brasil do século XXI, livros para crianças e jovens continuam, salvo em fugidios momentos de invenção e vanguarda, gerenciados pelo discurso didático e ideológico de órgãos centrais da Educação e da Cultura, reforçando-se com isso, ainda que sob nova roupagem, a tão antiga vocação gramscianamente orgânica da literatura infantil e juvenil. Se uma tal situação talvez não seja exclusividade brasileira – e certamente não o é – sem dúvida também não é invenção contemporânea, como sugere episódio mencionado em capítulo anterior, protagonizado por Monteiro Lobato e Lourenço Filho em 1922, bem como a correspondência de Bilac antes transcrita. Se a carta de Lourenço Filho a Monteiro Lobato tem quase um século, vale a pena observar que procedimentos normativos continuam – neste nosso século XXI – pautando a leitura escolar dos mais jovens, como se pode observar em trecho de edital do Ministério da Educação, de 2014, transcrito a seguir: 1.1. Este edital tem por objeto a convocação de editores para o processo de inscrição e seleção de obras de literatura sobre a temática indígena que, por meio das artes verbais, divulguem e valorizem a diversidade sociocultural dos povos indígenas brasileiros, bem como suas diversas e amplas contribuições no processo histórico de formação da sociedade nacional, no âmbito do PNBE. [...] 1.1.1. Compreendem-se como artes verbais manifestações que apresentam uma visão integrativa das tradições ou produções atuais e que fazem uso da linguagem de uma forma especial, privilegiando suas dimensões estética, social e cultural. 1.2. Serão aceitas para participar do processo de aquisição obras de literatura de autores indígenas e não indígenas que apresentem produção literária relacionada aos povos indígenas brasileiros, fomentando a ruptura de estereótipos sobre as suas histórias, culturas e identidades, em uma abordagem positiva da pluralidade cultural indígena e da afirmação de direitos culturais diferenciados dos povos indígenas. [79] A partir da constituição aprovada em 1988, sucederam-se discussões relativas à inadequação da legislação educacional brasileira, considerada em desacordo com a nova situação do país, em esforço de redemocratização. Como resultado, em 1996/1997, aprova-se e promulga-se a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Vem, na sequência, uma série de medidas legais para implementá-la, e aparecem iniciativas políticas de distintos formatos e com diferentes horizontes ideológicos. É neste contexto, atravessado por variadas correntes de pensamento, que, em 1997, o Ministério da Educação divulga documentos – intitulados, respectivamente, Parâmetros Curriculares e Temas Transversais – que, a partir de então, pavimentam o percurso da cultura escolar, afetando direta e profundamente a literatura infantil. Os temas transversais elencados pelos documentos são seis: Ética, Pluralidade Cultural, Meio Ambiente, Saúde, Orientação Sexual e Temas Locais. Desde então, eles passam a constar de catálogos de editoras, como se vê na transcrição a seguir, extraída do catálogo digital da Editora Ática, que, ao lado de especificar grau de escolaridade e faixa etária de cada obra, assinala o(s) tema(s) transversal(is) que nelas pode(m) ser identificado(s) e posteriormente trabalhado(s) em classe: A aldeia sagrada Paradidáticos - Literatura Juvenil Faixa etária/Ano: 11 anos/ 6º ano, 12 anos/ 7º ano Temas: Crítica social/ Desigualdade/ História Temas transversais: Pluralidade cultural Categorias: Novelas [80] A caixa de Fernão - Eduardo Garrafa Paradidáticos - Literatura Juvenil Faixa etária/Ano: 13 anos/ 8º ano, 14 anos/ 9º ano Temas: Ambição/ Ganância/ Família/ História Temas transversais: Ética, Saúde Categorias: Novelas [81] A atenção a temas que se fazem presentes em livros voltados para crianças e jovens, ultrapassando o âmbito editorial, chega às instâncias que os avaliam, sobretudo quando candidatos às compras governamentais. É, ao menos, o que sugerem os pareceres transcritos a seguir, [82] que ilustram alguns dos discursos que – ao avaliarem – correm o risco de pautar, formatar e gerenciar a literatura infantil e juvenil brasileira contemporânea, priorizando recortes pedagógicos bastante próximos dos sugeridos pela carta de Lourenço Filho a Monteiro Lobato: Trata-se de obra bem intencionada, mas no entanto apresenta a figura do índio tutelada pelo branco, na medida em que é apenas ao frequentar a escola que o indiozinho aprende hábitos de higiene. Seria necessário incluir na história a ideia dos valores autênticos das comunidades indígenas. Recomenda-se o livro (xxxxx) para (esta determinada clientela xxxxx) por encontrar-se nele um excelente exemplo de trabalho cooperativo na sala de aula, quando todos os alunos da classe se esforçam para serem solidários nas festas de formatura com a coleguinha que é cadeirante. O livro corresponde de forma total ao tema transversal diversidade cultural permitindo que o professor, ao discutir com seus alunos questões de imigração e de migração interna, habilite-os a serem cidadãos plenos e responsáveis em um mundo globalizado que precisa aprender a respeitar a alteridade. Talvez seja desnecessário apontar que discursos deste teor podem espartilhar a produção literária, patrulhando de forma impiedosa enredos, peripécias, personagens, com risco grande de pasteurização do produto. Tais gestos, se fortalecidos e generalizados,denegam ao livro infantil o perfil de vanguarda se se entender – como pré-requisito da vanguarda – ruptura, ao invés de satisfação das expectativas do público. Se e quando interiorizados pelos artistas, tais critérios e valores transformam a literatura infantil em discurso pedagógico e paradidático, ainda que etiquetado como literatura e justificado pela alegada necessidade deestimular o gosto pela leitura e a assiduidade aos livros. Este projeto se consolida a partir dos anos 1970, quando começou a frequentar a fala de educadores, intelectuais e políticos o que passou a ser chamado “crise de leitura”, diagnosticada sob vários ângulos, desde o econômico ao cultural. O baixo poder aquisitivo da grande maioria da população brasileira e o pequeno interesse pela cultura letrada, sobretudo quando se trata de suas manifestações mais sofisticadas, como a literatura, foram (e são ainda?) seguidamente responsabilizados pela pouca intensidade e baixa qualidade das práticas leitoras de boa fração da população jovem (só a jovem?) brasileira. Pesquisa recente promovida pelo Instituto Pró Livro apresenta dados muito sugestivos. O Instituto Pró-Livro, entidade fundada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), pela Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (ABRELIVROS) e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), liderou a iniciativa de patrocinar, em 2011, a realização da pesquisa Retratos da leitura no Brasil, cujos resultados foram publicados no primeiro semestre de 2012. Suas edições anteriores ocorreram em 2001 e 2008, e a comparação permite auferir e avaliar como se comportam os leitores e consumidores de livros no país. Para a consecução da tarefa, foram entrevistadas 5012 pessoas, de 315 municípios brasileiros, consideradas representativas da população nacional com mais de cinco anos de idade. [83] Os resultados da pesquisa fornecem os dados a seguir resumidos: a) a média de livros lidos nos últimos três meses anteriores à entrevista, entre todos os sujeitos, foi de 1,85 livros no total, sendo que 0,82 desses foram lidos inteiros, e 1,03 apenas em parte; b) dentre os 1,85 livros lidos, 0,81 foram indicados pela escola, e 1,05 livros foram escolhidos por iniciativa própria; c) entre os entrevistados leitores, a média de livros lidos nos últimos três meses anteriores à entrevista alcançou 3,74 livros no total, sendo que 1,66 desses foram lidos inteiros, e 2,08 apenas em parte; d) dentre os 3,74 livros lidos, 1,63 foram indicados pela escola, e 2,11 livros foram escolhidos por iniciativa própria; e) o número de livros lidos por ano, entre todos os entrevistados em 2011, alcançou 4 livros por habitante/ano, sendo que 2,1 foram lidos por inteiro e 2,0 em parte; f) este número é inferior ao alcançado em 2007, quando foi constatada a leitura de 4,7 livros por habitante/ano. Os resultados registrados não foram propriamente animadores. A eles soma-se o dado mais recente, mencionado em 2013 pelo secretário executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), José Castilho Marques Neto, por ocasião da 15ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, de que apenas 26% dos alfabetizados no Brasil “são leitores plenos, aqueles capazes de compreender o conteúdo dos textos.” [84] Por outro lado, pesquisa mais recente ainda que se debruça sobre o uso do Vale Cultura, do Ministério da Cultura, aponta que significativa percentagem dos recursos por ele disponibilizados a trabalhadores foi empregada na compra de jornais, revistas e livros. [85] Assim, às entidades – públicas, privadas e do terceiro setor – e aos eventos voltados para o fomento à leitura, bem como aos mediadores, como professores, escritores, contadores de histórias restam ainda muitas tarefas pela frente e um longo caminho a percorrer. A situação de precariedade de práticas leitoras aqui delineada não afeta apenas o segmento de livros para crianças e jovens; afeta a produção literária em geral. É, no entanto, sobre o segmento de crianças e jovens que mais se discute, talvez porque seja sobre ele que se acredita poder atuar com expectativa de reversão do quadro. São inúmeras, através ou não da escola, iniciativas que buscam (com diferentes graus de sucesso) alterar hábitos de consumo e de lazer da população jovem, na hipótese de que a leitura promovida em sala de aula possa prolongar-se por toda a vida. Em decorrência, a literatura infantil, enquanto gênero, vê-se investida da missão de redimir a leitura e alterar o panorama de práticas letradas ralas e precárias do país. Esta precariedade, no entanto, vem de longe e articula-se bem à História brasileira. [86] O país só teve imprensa no século XIX, e seu primeiro sistema educacional, implantado pelos jesuítas no século XVI, foi objeto de desmanche no século XVIII. Reconstruído de modo bastante lento no Segundo Reinado e nas primeiras décadas da República, apenas na segunda metade do século XX tem sido objeto de medidas voltadas para a universalidade da alfabetização e letramento, habilidades essenciais para a leitura e, consequentemente, para o consumo/desfrute de livros. Pesquisas em andamento atenuam em parte a interpretação deste quadro, documentando e discutindo formas, digamos, clandestinas de circulação de livros e de práticas de leitura. [87] É diante desse panorama que chamam a atenção os generosos números ligados ao mercado de livros infantis e juvenis com que se abriu este capítulo. Políticas de Estado ligadas a livros e a leitura são antigas. Podem ter como baliza inicial a fundação, em 1937, durante o Estado Novo, do InstitutoNacional do Livro(INL), criado com função de expandir a rede de bibliotecas públicas, elaborar enciclopédia e dicionário brasileiros, e editar obras literárias consideradas relevantes. Quase setenta anos depois da fundação do INL, em 2006, é proposto um Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) que, ligado aos ministérios da Educação e da Cultura, é contemporâneo e muitas vezes agente de medidas importantes que dinamizam o mercado com vultosas compras e distribuição de livros a escolas, bibliotecas e mesmo jovens cidadãos. Entre uma data e outra – 1937 e 2006 – muitas outras medidas voltadas para o desenvolvimento e fortalecimento de práticas leitoras foram propostas, com maior ou menor eficácia. Assinalam-se a seguir alguns projetos de âmbito nacional formulados nas últimas três décadas. QUADRO VII ANO PROGRAMA ENTIDADES ENVOLVIDAS 1982 CIRANDA DE LIVROS FNLIJ LABORATÓRIOS HOESCHT FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO 1984 SALAS DE LEITURA FUNDAÇÃO DE ASSISTÊNCIA AO ESTUDAN TE/ FAE, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO 1992 PROLER BIBLIOTECA NACIONAL, MINISTÉRIO DA CULTURA 1997 PROGRAMA NACIONAL DE BIBLIOTECA NA ESCOLA (PNBE) FUNDO NACIONAL DO DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO (FNDE) SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA (SEB). MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO 2006 PLANO NACIONAL DO LIVRO E DA LEITURA (PNLL) MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO MINISTÉRIO DA CULTURA Se a Ciranda de Livros foi programa pioneiro, o projeto Salas de Leitura pode ser considerado a ‘versão zero’ do contemporâneo e bem sucedido Programa Nacional de Biblioteca na Escola (PNBE). Fazendo parte do PNLL, gerenciado pelo Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE) e pela Secretaria de Educação Básica (SEB), do Ministério de Educação, o PNBE tem por missão distribuir acervos de literatura para estruturar as bibliotecas das escolas públicas. Ao longo de suas várias reformatações, o PNBE previa em 2007 um orçamento de 54.000.000,00 (cinquenta e quatro milhões de reais), [88] cifra que dialoga razoavelmente com os “mais de R$ 55 milhões” que a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro 2008 registra como representando o “faturamento relativo ao PNBE”. Tentando chegar às entrelinhas de tantas siglas, cabe inicialmente retornar aos Quadro I a V e analisá-los na contraluz de observação da jornalista Maria Fernanda Rodrigues. Em matéria publicada em O Estado de São Paulo e reproduzida em Reporter News, Maria Fernanda Rodrigues aponta que o mercado editorial brasileiroproduziu e imprimiu mais títulos na passagem de 2010 para 2011. Contudo, segundo ela, “em termos de faturamento (...) o crescimento de 2011 comparado ao de 2010 foi mínimo, de apenas 0,81% - já descontada a inflação e somadas as vendas das editoras para livrarias e leitor final e também para o governo” [89]. Assim, se excluídas dessa conta as expressivas compras do governo, sobretudo o Federal, que sustentam muitas editoras, o que se registrou, no último ano, foi queda real de 3,27%. As compras do governo federal decorrem de programas de Estado, destacando-se, além do já citado Programa Nacional Biblioteca na Escola (PBNE), o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM) e o Programa Nacional do Livro Didático para Educação de Jovens e Adultos (PNLD-EJA). Além das aquisições governamentais, livros didáticos têm ainda outros compradores: por intermédio das escolas públicas e privadas, estudantes e professores do Ensino Básico também consomem livros. Entende-se assim que não se deve ao acaso o fato de os entrevistados pelos pesquisadores de Retratos da leitura no Brasil indicarem que quase metade de suas leituras, completas ou incompletas, resultam de indicações feitas em sala de aula. Por essa razão, os livros didáticos representaram, em 2011, a maior fatia do mercado editorial brasileiro, registrando, segundo a matéria de Maria Fernanda Rodrigues, antes citada, “crescimento de 7,87% em relação a 2010, quando o faturamento foi de R$ 1,1 bilhão. O setor fechou 2011 com R$ 1,18 bilhão.” Na reportagem de O Estado de São Paulo aqui referida, anota-se que, “dos R$ 4,8 bilhões que o mercado editorial fatura, R$ 3,4 bilhões são de venda para livrarias e outros canais de distribuição e R$ 1,3 bilhão para o Governo - e esse valor depende sempre dos programas de compra vigentes naquele ano.” Em termos de circulação de livros, “foram vendidos, em 2011, 469.468.841 exemplares – dos quais 283.984.382 para o mercado e 185.484.459 para o Governo.” A presença maciça do estado foi confirmada ao final de 2012, quando o Ministério de Educação divulgou a lista das 360 obras literárias selecionadas para o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) de 2013. [90] O orçamento previsto para a aquisição de 6,7 milhões de obras literárias, a serem distribuídas em 85,2 mil escolas públicas do Ensino Básico de todo país, alcança a cifra de 75 milhões de reais, elevando em mais de 35% o valor dispendido em 2007. Desses 360 títulos, 180 destinam-se aos quatro últimos anos do ensino fundamental, dirigindo-se, pois, a leitores de 10/11 a 14/15 anos; outros 180 títulos serão distribuídos entre alunos do ensino médio, situados na faixa etária de 15/16 a 17/18 anos. No total, serão atendidos 12,3 milhões de estudantes matriculados no ensino fundamental e 7,4 milhões matriculados no ensino médio, em um total de quase vinte milhões de jovens. Tais dados tornam visível e bem-vinda a presença forte do Estado por meio de projetos e políticas de criação e manutenção de bibliotecas escolares ou mesmo da distribuição de livros a alunos. Tais práticas talvez tornem invejáveis – para outras áreas da cultura – a soma destinada pelo governo a fomentar a leitura através da aquisição de livros para crianças e jovens, o que acarreta crescimento quantitativo da produção, visível nas tabelas que abriram este capítulo. Sintoma também desse crescimento quantitativo e da atratividade do segmento de livros infantis e juvenis é o notável aumento do número de editoras e selos voltados quase que exclusivamente para a produção de literatura para crianças e jovens. Como observa Juliana Bernardes Tozzi, na década de 1990, instalaram-se 52 novas editoras dedicadas àquele segmento, número a que se somaram mais 49 marcas até 2008, em um total que ultrapassa a centena em menos de vinte anos. [91] Circulação escolar e chancela governamental, entretanto, não precisam comprometer o gênero dirigido ao público infantil e juvenil. Apenas evidenciam práticas que cercam a comercialização da literatura e constituem o farol condutor de sua produção e circulação. Asseguram, assim, o encorpamento e a atratividade do gênero que, mais do que outros, consolidou alto padrão de qualidade (reconhecida internacionalmente) e de profissionalismo, tornando-se inclusive mercado interessante para o capital internacional. Com efeito, assiste-se, nos últimos anos, a chegada contínua e crescente de empresas estrangeiras, especialmente europeias, no cenário editorial brasileiro. Isto, por um lado, não é novidade: o panorama brasileiro de livros e de leituras foi por longo tempo assinalado pelo papel de relevo aqui desempenhado por filiais de Casas cuja matriz localizava-se em outros países, tendo inclusive Portugal e França praticamente monopolizado o campo editorial brasileiro ao longo do século XIX. Este panorama editorial mais antigo, comandado por capital estrangeiro, parece ter-se alterado na primeira metade do século XX, que marca o surgimento e expansão de editoras brasileiras, de que são exemplos as trajetórias da Livraria do Globo (fundada em 1883 e consideravelmente ampliada em 1928), de Porto Alegre; a José Olympio (1931), do Rio de Janeiro; e a Livraria Martins Editora de São Paulo, estabelecida em 1937. Desde a última década do século XX, no entanto, grandes editoras brasileiras foram compradas por grupos internacionais, quando a esses não convinha simplesmente instalar seus representantes no país. É, pois, nesse cenário globalizado e economicamente vicejante, que escritores e ilustradores têm produzido muitos e belos livros, dos quais o próximo capítulo apontará e discutirá algumas tendências. novos territórios de criação para crianças e jovens Eu amo o Longe e a Miragem Amo os abismos, as torrentes, os desertos… José Régio [92] 1. Livros de histórias sobre histórias Todo grande clássico da literatura é um plágio, ainda que não intencional. E todo grande manifesto de vanguarda é um clássico, ainda que não seja intencional. Os pequenos plágios são intencionais, ainda que não. Glauco Mattoso [93] Os dois capítulos anteriores discutiram, como em uma grande angular do cinema, impactos das novas tecnologias e alterações no panorama da produção, circulação e consumo da literatura brasileira mais contemporânea voltada para crianças e jovens. Vamos agora a um zoom redutor, observando como se expressam, no interior de algumas obras e ao longo de algumas tendências, essas novas condições de existência dessa literatura. Sem deixar de colaborar para a formação do leitor e, com isso, responder de algum modo às expectativas nela depositadas, a literatura infantil e juvenil do Brasil do século XXI tem buscado investir em modos originais e instigantes de expressão. Resiste, por esse meio, a meramente dobrar-se às exigências de seus financiadores, públicos e privados, ao mesmo tempo em que requer e forma um leitor inteligente, capaz de interagir com obras criativas e inovadoras. Dois são os traços mais evidentes do empenho em propor desafios a seus destinatários: o recurso à intertextualidade e o apelo à metalinguagem, traços que também se manifestam na melhor literatura contemporânea não infantil. Na literatura infantil brasileira, é Monteiro Lobato o primeiro autor a se valer com competência da prática intertextual: em Reinações de Narizinho, ele desconstrói contos de fadas convencionais, ao alojar no sítio do Picapau Amarelo as princesas que abandonam o mundo da fantasia em que viviam, e ao expulsar dona Carocha, quando esta busca repatriar as fugitivas. E mais: desde Reinações de Narizinho até O Sítio do Picapau Amarelo (1939), passando por Memórias de Emília (1936), Lobato incorpora a suas obras elementos da linguagem cinematográfica (o caubói Tom Mix e o marinheiro Popeye) e reelabora clássicos e modernos da literatura ocidental, como Dom Quixote (1605-1615) e Peter Pan, peça encenada em 1904, a que se seguiu a versão narrativa de 1906. A obra de Lobato não apenas incorpora procedimentosde intertextualidade, como também os inspira, do que são exemplos duas obras protagonizadas pelos moradores do sítio do Picapau Amarelo: Amigos secretos (1996), de Ana Maria Machado, e Minhas memórias de Lobato (recorte biográfico) (1997), de Luciana Sandroni. Nesta vertente intertextual, cabe destacar O fantástico mistério de Feiurinha (1986), de Pedro Bandeira (1942), vencedor do prêmio Jabuti no ano de sua publicação. O enredo é simples e divertido: um escritor travestido de narrador, em primeira pessoa, é procurado por um enviado das princesas das histórias tradicionais para ajudá-las a encontrar Feiurinha, princesa como elas, porém inexplicadamente desaparecida. Do elenco do livro participam personagens como Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho, entre outras migrantes dos contos de Charles Perrault e das narrativas dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) Grimm. Porém, ao se transferirem de um ambiente para outro, as personagens incorporam traços caricatos, que recontam e reescrevem suas histórias originais. Chapeuzinho, por exemplo, lamenta Perrault não ter incluído um príncipe encantado em seu conto, e Branca de Neve desenvolve intensa aversão a maçãs. Embora as princesas sejam heroínas, não cabe a elas, figuras tradicionais da literatura infantil, o protagonismo da narrativa. Protagonista é, em um primeiro momento, o escritor, aliado delas na busca por Feiurinha. Mais para frente, a liderança é dividida com Jerusa, empregada doméstica que conhece, recorda e narra a história da princesa desparecida. Nas entrelinhas, um recado: a escrita é a ferramenta de que dispõe a humanidade para tornar eternas algumas histórias. E, como o livro de Bandeira foi objeto de versão cinematográfica, [94] pode-se dizer que a escrita ganhou a parceria de outras linguagens na sua ancestral tarefa de constituir um suporte material para a memória e para a voz humana. Sintonizada com a modernidade, a história de Feiurinha ensina que hoje não basta contar e ouvir histórias. É preciso escrevê-las, o que começa envolvendo, por exemplo, problemas de autoria, tema de ponta nos estudos literários. Quem será, no enredo, o autor da história de Feiurinha: o escritor que a redige ou Jerusa que a narra? Esse tópico, na trama do texto, traz para o livro um assunto que cintila constantemente na melhor literatura contemporânea. Ao retomar histórias antigas, é pela metalinguagem que o livro de Pedro Bandeira celebra a aliança narrador-leitor, desde que o destinatário esteja familiarizado com as histórias tradicionais e tenha sido por elas seduzido. Sem que os leitores disponham de uma ‘biblioteca mental’ e consigam acessá-la, perdem a graça passagens que carnavalizam as princesas, como a entrada em cena de uma Chapeuzinho sempre comendo, de uma Cinderela que massageia os pés doloridos ou de uma Bela Adormecida que boceja o tempo todo. Na contramão da paródia, inscrevem-se outras narrativas de perfil igualmente metalinguístico e intertextual, que buscam rever os mitos consagrados. Em capítulo anterior, observou-se como a versão digital que Angela Lago propõe para o conto de Chapeuzinho Vermelho confere à personagem-título um posicionamento próativo: ela não se deixa abater pela ameaça representada pelo lobo. Também o livro de Ana Maria Machado, Procura-se lobo, revisita com humor e sabedoria cenários de narrativas clássicas às quais comparece um lobo. O protagonista da narrativa não é mais o animal, mas um homem chamado Manuel Lobo, que, desempregado, encontra o serviço de “respondedor de cartas”, [95] enviadas por lobos que gostariam de obter um trabalho. Comparece à história o conjunto de lobos do mundo imaginário – desde a loba romana, até o antagonista de Chapeuzinho Vermelho, a que se soma toda uma alcateia: o feroz animal que perseguiu os porquinhos, o que quis engolir os sete cabritinhos, o que se esconde em pele de cordeiro, o inimigo de outro cordeiro [na fábula de La Fontaine (1621-1695)], o “lobo mau” da canção popular, a personagem das histórias em quadrinhos (cuja indecifrável redação é corrigida pelo bem- comportado Lobinho) de Walt Disney (1901-1966), o protetor de Mowgly, o menino-lobo, de Rudyard Kipling (1865-1936), o lobo acusado por Pedro, da lenda russa, e até mesmo o cantor Lobão se apresenta na narrativa. Ao final, o narrador sumaria o elenco de lobos com os quais o escriba Manuel interage por meio de suas educadas cartas: Tinha carta de um tal lobo que uivava para a lua, de um misterioso lobo das estepes, de outro que corria com mulheres, de outro que perseguia trenós, de outro que tinha virado bolo por causa de uma Chapeuzinho Amarelo. Tinha outro que devia achar que era lindo, e servia de inspiração para os poetas, porque dizia que era o Lobo Bobo, mas que agora vivia na coleira e não jantava nunca mais e que já tinham até feito uma música para ele. Até mesmo o Lobisomem escreveu. (p. 34) Como se vê, o inventário dos lobos proposto pela narrativa trabalha o papel que o animal desempenha no imaginário ocidental. Mas a busca suscitada pelo livro é pelo animal real – o “lobo de verdade” – que todos aparentemente desconhecem e está ameaçado de desaparecimento. “Mostrar (...) como é o comportamento deles, seus hábitos, como vivem, de que gostam, qual é seu ambiente, que riscos correm” garante a defesa da natureza e do “futuro desses animais, para que não corram o risco de extinção.” (p. 37) O posicionamento preservacionista ganha sentido original: não se trata apenas de evitar o extermínio de uma espécie do mundo animal, mas também de assegurar sua presença no patrimônio de fantasia da humanidade, sem a qual as histórias ficam capengas ou pueris. Rejeitando o chamado ‘politicamente correto’ que assola muitas narrativas e versos contemporâneos para crianças, e apostando na importância de figuras representativas do medo, da insegurança e, inclusive, do mal, Procura-se lobo tematiza a relevância de expressá-las sem constrangimentos, nem que seja para combatê-las com mais eficiência. O apelo à metalinguagem – frequente não só na literatura infantil e juvenil, nem tampouco apenas nas Letras nacionais – pode apresentar distintos sentidos: por um lado, talvez se contraponha às queixas sobre a perda da popularidade do livro e da leitura, mas, por outro, não seria possível interpretá-la como réquiem inconsciente da cultura letrada? Desdobrando a questão, uma obra como o premiado O menino que vendia palavras, de Ignácio Loyola Brandão, [96] traz para jovens leitores reflexões sobre a natureza da criação literária, sobre a ética da autoria e sobre a profissionalização do escritor. Tema até pouco tempo de escassa presença na literatura infantil nacional (não apenas na infantil brasileira e também recente nos estudos literários), o livro de Loyola, como anuncia o título, conta a história de um menino que ‘vendia’ palavras. Isto é, vendia o conhecimento do significado de palavras. Ainda que fosse o pai do menino quem sabia o que queriam dizer as palavras vendidas, era o filho quem lucrava com este conhecimento: desafiava os colegas a descobrir palavras desconhecidas e ganhava todas as apostas, sendo pago com miudezas de criança, como chicletes, balas, figurinhas. Em uma interpretação voltada para o discurso contemporâneo da crise da leitura, pode-se identificar, nesta história, a defesa apaixonada do consumo / amor aos livros, prática da qual resulta a superioridade do homem que conhecia todas as palavras. Também aí se pode reconhecer a metáfora da profissão de escritor, levantando a discussão do profissionalismo no mundo das letras. Ainda na linha da produção metalinguística e intertextual, destaca- se o trabalho do ilustrador e escritor Nelson Cruz. O caso do saci, de 2004, põe em cena um ente do folclore brasileiro, e da literatura infantil em particular, destacando-se a posição que ele desfruta na obra de Monteiro Lobato (e não apenas na infantil). A história de Nelson Cruz transporta o saci para o meio urbano brasileiro, pobre e desatendido de uma favela. É com a famosa obra de LewisCarroll (1832-1898) que Nelson Cruz dialoga em Alice no telhado, de 2011, vencedor, no ano de sua publicação, do Prêmio Glória Pondé, concedido pela Biblioteca Nacional ao melhor livro de literatura infantil e juvenil. A trama é simples: em dia de pouca inspiração, um escritor traça um círculo em uma página em branco, e é desse ‘não lugar’ que emergem as personagens que protagonizam Alice no país das maravilhas (1865): a menina do título, o coelho, o chapeleiro maluco, a rainha de copas, o gato de Cheshire. Fora de seu habitat original, o “país das maravilhas” do livro de Carroll, aquelas figuras sentem-se perdidas e desejam retornar à origem. Só que o papel onde o artista desenhara fora parar na cesta de lixo, de onde ele o resgata, para receber de volta o desesperado grupo, reinstalando-se a paz e, na mesma proporção, a criatividade do narrador. O tema da ‘falta de inspiração’ aproxima Alice no telhado do já comentado O fantástico mistério de Feiurinha, assim como essa narrativa avizinha-se de Um homem no sótão (1982), de Ricardo Azevedo. [97] Esta premiada obra, abordando a história do escritor que entra em crise ao inverter a representação tradicional de vilões e heróis da literatura infantil, opera com altos níveis de intertextualidade. Personagens como uma bruxa, anõezinhos, uma raposa e patinhos ora exigem que o escritor os represente ‘como sempre foram’, ora que o escritor altere os comportamentos com que a tradição literária costuma exibi-los. A situação se resolve, quando o escritor decide escrever a história de seus impasses; ele é o “homem do sótão” que dá título ao livro. Apesar do happy end, a narrativa não deixa de sugerir, também, o eventual esgotamento do cânone, ainda que de um cânone reescrito. No limite, o desenrolar do enredo pode expor – como já se aventou anteriormente a propósito da metalinguagem – o réquiem de uma certa cultura letrada. Relegada ao sótão, a cultura letrada (a literatura? apenas a infantil?) precisa ‘abrir as janelas’,gesto que, no livro de Azevedo, é decisivo para a resolução da crise do escritor. Desse modo, a intertextualidade opera ora por fora – diálogo com Lewis Carroll – e ora por dentro, conforme um percurso de que participam Bandeira e Azevedo. Trata-se de buscar a superação do bloqueio criativo com a ajuda de uma tradição, não necessariamente brasileira (exceto em O caso do saci). Em Alice no telhado, trata-se de incorporar ao patrimônio nacional a Alice de Lewis Carroll, obra considerada um clássico do Modernismo. Com efeito, Alice no país das maravilhas constitui um dos primeiros investimentos da ficção inglesa nos processos de modernização da linguagem literária. [98] Calcada no nonsense, na paródia dos comportamentos da burguesia britânica e das atitudes imperiais da Inglaterra, e na renovação da linguagem, a obra de Carroll vale-se de procedimentos que, mais adiante, serão usuais em propostas de vanguarda, dentro e fora da Europa. Um projeto de pretensão tão ampla e tão radical ter se manifestado em obra dirigida ao público infantojuvenil mostrou-se paradoxal, ao confiá-lo a um gênero de grande sucesso público, mas já então ignorado pelo cânone da poética vigente. E que assim aconteceu fica sugerido pelo fato de muitos críticos e historiadores da literatura moderna recusarem ao livro a classificação de literatura dirigida a crianças e jovens. O desprestígio do gênero voltado para crianças e jovens é histórico e persiste até hoje, como manifesta Sebastião Uchoa Leite (1935-2003), tradutor e adaptador de uma notável edição brasileira de Alice no país das maravilhas: Lewis Carroll carrega até hoje o fardo de ser considerado autor de literatura infantil. A maioria só ouviu falar de Alice no país das maravilhas, que vagamente leu na infância em adaptações. Alguns poucos leram também Através do espelho e ficaram por aí. (...) Que os dois livros mais celebrados de Carroll, Alice in the wonderland e Through the lookingglass, sejam livros para crianças é verdade muito relativa. Na época, talvez. Hoje, mais de um século depois que foram publicados, são cada vez mais leitura para adultos. [99] Com o tempo, Alice no país das maravilhas converteu-se em clássico do ‘moderno’, tal como se deu com outras obras seminais do começo do século XX, a exemplo do Ulisses (1922), de James Joyce (1882-1941), ou Orlando (1928), de Virginia Woolf (1882-1941). É com esse paradoxo que Nelson Cruz se depara, comportando- se de modo simultaneamente reverente e transgressor: reverente, porque as personagens do livro de Carroll saltam de sua imaginação – o desenho – para a ‘vida’ da literatura, escapando de seu controle; transgressor, porque os devolve para o lugar de onde saíram, após ter jogado seu inconsciente – o papel com o círculo desenhado – na lata do lixo. O paradoxo, por sua vez, não é menos sugestivo, pois dele emerge uma obra inteiramente nova e original. Rodrigo Lacerda, em O fazedor de velhos (2008), obra premiada pela FNLIJ e contemplado com o Jabuti, igualmente se posiciona diante do passado e da tradição, para torná-los tema de uma narrativa dirigida aos jovens. O protagonista da história é Pedro, jovem em vias de concluir o ensino médio que, nas primeiras páginas do relato, tenta passar-se por maior de idade. Precisando embarcar desacompanhado em um avião, mas não dispondo de documento que o autorizaria a viajar, o rapaz finge-se de mais velho e acaba por enganar a funcionária da companhia aérea. Mais adiante, porém, outro episódio evidencia plenamente sua imaturidade: orador encarregado de fazer o discurso em nome dos formandos de sua turma, engasga-se e atrapalha-se, quando presencia a ex-namorada aos beijos com um novo amor. A trajetória de Pedro corresponde, assim, à passagem da imaturidade juvenil para maturidade adulta, percurso que requer um ‘mentor’, como ocorre com Telêmaco, filho de Ulisses e que protagoniza, em 1699, Les aventures de Télémaque, de François Fenelon (1651-1715). No livro de Lacerda, esse papel é desempenhado por Nabuco, um professor idoso, que ajuda Pedro a fazer a travessia da juventude à maioridade. Pode-se pensar que o fazedor de velhos é o sábio professor, mas talvez não seja. Ou talvez não seja ele o único a desempenhar tal papel, compartilhado pelas leituras indicadas e cobradas por Nabuco. A primeira delas é a da tragédia de William Shakespeare (1564-1616), Rei Lear (1605-6), escolha não ocasional. Quando Pedro desejara passar-se por maior de idade, recorrera a um grosso volume das peças de Shakespeare, acreditando na hipótese de que apenas adultos levariam consigo um livro daquele porte. Nabuco faz com que o fingimento se transforme em fato, induzindo Pedro a ler, compreender e admirar a triste história do rei que não soube envelhecer com sabedoria, preferindo a vaidade dos elogios das filhas hipócritas ao amor verdadeiro, mas incondicional, de Cordélia, sua herdeira mais moça. Em Rei Lear, a idade das personagens é inversamente proporcional à lealdade: a mais jovem é mais sincera e verdadeira que as irmãs mais velhas, assim como mais madura que o pai. A fábula que inspira Shakespeare provém da cultura popular e dos contos de fadas, quando são os mais jovens, ainda que mais frágeis, que se revelam mais aptos ao desempenho das tarefas mais importantes. Ao tornar Shakespeare a principal referência intertextual de sua história, Rodrigo Lacerda procede a uma nova inversão: em sua narrativa, o mais idoso – Nabuco – é o mais sábio, e o mais pueril é o mais jovem, Pedro, sobretudo quando esse quer se fazer passar pelo que não é, a saber, maior de idade. Cabe a Pedro ocupar a posição de Cordélia, sem que Nabuco tenha de se identificar a Lear, conforme um processo de revisita de uma tradição literária, que favorece uma representação mais complexa de um tema de nosso tempo – o conflito de gerações. Esse tema assume configuração particular em O fazedor de velhos: ainda que não esteja em atrito com o pai, Pedro não mantém uma relação propriamente harmoniosa com ele. Na figura de Nabuco, acaba por encontrar umpai substituto, que o orienta. Ao advogar a necessidade de aceitar conselhos e indicações dos mais velhos, a obra parece ir na direção contrária à de seu leitor, presumivelmente jovem. Essa interpretação encontra respaldo no modo como, neste livro, parecem ocorrer as apropriações intertextuais: obras clássicas são acatadas e valorizadas, o que se passa não apenas com a tragédia de Shakespeare, intencionalmente reconstituída pelo enredo de O fazedor de velhos, mas também com autores canônicos da língua portuguesa, como Gonçalves Dias (1823-1864) e Eça de Queirós (1845-1900), preferências do protagonista a que o levam leituras sugeridas por sua mãe. Ao final da narrativa, quando decide ser escritor, Pedro descobre sua vocação. Considerando que essa se constrói a partir da leitura e experiência da literatura a que o conduziram seus mentores – a mãe, primeiramente, depois, Nabuco –, pode-se acreditar que o livro acompanha uma exemplar formação de leitor: família e escola representando os mediadores de leitura que, por meio de grandes escritores do passado, inspiram os mais jovens a viver uma vida com arte. Tal retomada da tradição deixa no ar a interrogação de se e como outras vertentes da literatura brasileira mais contemporânea voltada a crianças e jovens trabalham com aquele patrimônio. Trabalham? E se trabalham, como trabalham? 2. Um novo indianismo Ó guerreiros da Taba sagrada, Ó guerreiros da tribo tupi Falam Deuses nos cantos do Piaga, Ó guerreiros, meus cantos ouvi. Gonçalves Dias [100] Sou Pataxó Sou Xavante e Cariri Ianonami, sou Tupi Guarani, sou Carajá Sou Pancaruru Carijó, Tupinajé Potiguar, sou Caeté Ful-ni-o, Tupinambá Antonio Nóbrega [101] Destaca-se um novo indianismo, no amplo leque de temas e assuntos que, articulados a movimentos políticos e sociais, e incentivados por distintos discursos institucionais, políticos e estéticos marcam a produção brasileira contemporânea para crianças e jovens. Despido do exotismo que desde o século XVIII revestia a imagem do indígena presente na prosa e na poesia brasileiras, o indígena que protagoniza a literatura infantil contemporânea é diferente. Não é um Peri, protagonista de O guarani (1857), de José de Alencar (1829-1877), que, por amor à loira Cecília, rompe com sua tribo, por extensão, com sua etnia. Tampouco é uma Iracema, do livro homônimo (1865), que, por amor ao loiro Martim, colonizador português, abandona seu povo. Fazendo valer os espaços que conquistou na sociedade nacional, sobretudo a partir de 1988, o protagonista deste novo indianismo constitui-se sujeito e narrador de sua própria história. A conquista dessa condição leva-o a assinar os livros com sua identidade indígena, expressa em um sobrenome. Assim, muitas vezes, é no que na cultura ocidental equivale à linhagem paterna que se identifica a etnia do autor, como ocorre em Daniel Munduruku ou Eliane Lima dos Santos Potiguara. Tal procedimento não é exclusivo de indivíduos de etnia indígena: nas redes sociais, a identidade de vários usuários ostenta sobrenomes indígenas, talvez como forma de manifestar solidariedade a causas indígenas. Nesse sentido, reedita-se, no século XXI, um procedimento relatado como ter sido frequente nos arredores da Independência, quando cartórios registravam muitas Iracemas, enquanto expressão de nacionalismo. No novo indianismo, abordam-se questões e representações a partir de posições e pontos de vista indígenas. Ficam, assim, para trás representações como as que, na literatura infantil, estiveram presentes em As aventuras de Tibicuera (1937), de Erico Verissimo (1905-1975), no Papa Capim (1960), de Maurício de Souza, ou nos Contos dos meninos índios (1982), de Hernâni Donato (1922-2012), obras essas ainda encontráveis nos catálogos de suas respectivas editoras. Não que a transformação tenha sido súbita e inesperada. Apenas um curumim (1979), de Werner Zotz (1947), exemplifica o empenho de escritores nacionais em propor uma representação não estereotipada, nem submissa, do indígena. O livro narra como Tamãi, um velho pajé, e Jari, o curumim do título, derradeiros sobreviventes de seu grupo, lutam para conservar seu mundo original. Para tanto, Tamãi precisa conduzir Jari a uma nova tribo, onde esse recuperará sua identidade indígena, modo de o autor denunciar a destruição do ambiente natural, em decorrência da cobiça e imprevidência dos brancos, e a dizimação das coletividades nativas, com a consequente perda da noção de pertença a um grupo ou povo com características identitárias. Como expõe Tamãi a seu pupilo, o menino “vai ter que aprender tudo de novo, porque o índio que havia dentro de você está morto.” [102] Zotz, contudo, fala ainda de um lugar distinto do indígena, emprestando sua voz às personagens. A alteração do lugar de onde procede essa voz que se expressa por meio da literatura é possivelmente a alteração mais importante das últimas décadas, correspondendo a profundas mudanças em processo na sociedade brasileira. Data dos anos 1970 a legislação que favorece o fortalecimento da identidade indígena: através da lei 6.001 de 19 de dezembro de 1973, cria-se o Estatuto do Índio, cujo primeiro artigo expressa sua finalidade: “regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas com o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmonicamente à comunhão nacional”. [103] No ano seguinte, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) promove uma reunião de lideranças indígenas. No entanto, apenas com a constituição de 1988, promulgada a partir da derrubada da ditadura militar em 1985, o tema ganha contornos mais minuciosos. O artigo 231 contempla especificamente a questão, estabelecendo que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. [104] Na década seguinte, a Lei de Diretrizes e Bases (9.394/1996), traduzindo valores e princípios expostos na Constituição, assegura oferta de ensino regular (bilíngue) para povos indígenas. Doze anos depois, a lei 11.645/08 institui a “obrigatoriedade do ensino de temática indígena em todos os níveis de ensino”, [105] disposição que se operacionaliza, ao traduzir-se em um dos temas transversais indicados nos Parâmetros Curriculares Nacionais: a pluralidade cultural. [106] Manifestando a abrangência mais do que nacional – continental – de lutas pelos direitos indígenas, o tema reponta no âmbito da literatura, a partir de 1994, quando o Prêmio Casa de las Américasinclui a literatura indígena entre as categorias contempladas. A iniciativa repete-se no Brasil dez anos depois, quando a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil adota posição semelhante, ao avaliar a produção anual dirigida a crianças e adolescentes. A literatura indígena torna-se, assim, uma categoria, digamos, oficializada na pauta da literatura infantil, o que transparece em editais do governo federal voltados para a compra de livros para escolas. Coroando esta sucessão de medidas, em 2011 funda-se o Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (INBRAPI), com a missão de “promover a articulação dos povos indígenas brasileiros para a discussão da temática da propriedade intelectual, visando à proteção dos conhecimentos tradicionais.” [107] Este último gesto é decisivo e simbólico: assinala a entrada de produtos da cultura indígena – incluindo e talvez priorizando livros sobre ela, nela e por ela produzidos – no reino da mercadoria, estatuto de que goza a literatura, desde a ascensão da burguesia, no século XVIII. E, talvez, da mesma forma que a literatura romântica, particularmente o romance, significou a difusão de valores e comportamentos burgueses, a literatura indígena voltada para crianças e jovens constitui forma de resistência, afirmação da identidade e instrumento para conferir visibilidade social a um grupo de brasileiros tradicionalmente sub-representados.Dado o caráter tradicionalmente escrito das práticas literárias ocidentais e o caráter ágrafo das culturas indígenas nacionais, o desencontro entre ambas seria inevitável. Autores ainda no século XIX – como, por exemplo, José de Alencar (Iracema) e Gonçalves Dias (“Marabá”, de Últimos cantos, 1851) – confiavam à oralidade do estilo narrativo e ao ritmo de seus textos, resgate e registro deste traço das culturas nativas. Só mais de um século e meio depois, e na área da literatura para crianças e jovens, é que a autoria indígenase impõe e começa a surtir resultados interessantes, traduzidos por livros elaborados por grupos e indivíduos de distintas etnias e publicados por variadas editoras. O aparecimento da nova vertente literária não se processou, no entanto, por fora de um sistema literário tão institucionalmente articulado como o da literatura infantil brasileira contemporânea. Foi na esteira de movimentos políticos de reivindicação de direitos indígenas, de organizações e de legislação específica antes mencionada, que se delineou o contexto em que surgem autores e livros oriundos de comunidades indígenas ou que em nome delas se apresentam. Os textos e autores a seguir comentados conferem concretude a esta tendência. A novidade que ela representa – o novo indianismo conta com menos de duas décadas de existência –, se impede sínteses mais abrangentes, instiga futuras interpretações que talvez, por paradoxal que possa parecer, lancem luzes sobre tendências mais antigas da literatura brasileira. a) Daniel Munduruku Daniel Monteiro Costa, como vários outros escritores indígenas contemporâneos, recorreu ao nome de seu povo, Munduruku, para a construção de sua identidade autoral. Sua estreia na literatura data da segunda metade dos anos 1990, conta com mais de uma dezena de livros publicados [108] e figura dentre as obras pioneiras mais destacadas e premiadas da vertente do novo indianismo. Seu primeiro livro, História de índio, desde o título, retoma, para inverter, o caráter pejorativo que tinha (tem ainda?) na cultura brasileira a expressão “de índio”, congelada em “programa de índio” para referir uma atividade sem graça. Em 2006, ano em que recebeu a Comanda de Mérito Cultural, do Ministério da Cultura, seu livro Meu avô Apolinário foi objeto de Menção Honrosa por parte da UNESCO; em 2007, foi a vez de O olho bom do menino ser premiado pela Academia Brasileira de Letras. Ancorada em um projeto de resgate da memória e da cultura indígena, esta obra, que tematiza o extraordinário poder de “ver as coisas por dentro”, deu origem à coleção Memórias Ancestrais coordenada pelo escritor. O tema da ancestralidade é constante em sua obra. Em um de seus títulos mais recentes, a introdução reivindica a origem indígena de histórias que percorrem o Brasil, reforçando a dimensão ancestral do novo indianismo: Fábulas fazem parte do repertório nacional, mas a origem delas é da gente indígena, cujos nomes foram esquecidos ou apagados da memória brasileira. Não faz mal. Essa tem sido a silenciosa contribuição que os povos indígenas têm dado para tornar nossa terra mais bonita, sábia e equilibrada. O importante é que o ensinamento que fica serve para alimentar o nosso espírito e a nossa memória ancestral. [109] Forma bastante original em livros para crianças e jovens de expressar a ancestralidade da cultura indígena é o capricho e a sofisticação do aspecto gráfico da maioria das obras. Imagens que se espalham por mais de uma página, em Coisas de onça são figurativas e delineiam, em cores fortes, tanto elementos das narrativas que Munduruku recolhe (como o veado e a onça do conto homônimo), quanto a sugestão da situação da narração: o céu noturno e as redes armadas dão visualidade à informação de que “quando o dia vai caindo, sendo engolido pela noite, todos já estão se posicionando para mais uma rodada de engraçadas histórias contadas pelos velhos da aldeia.” [110] Reforça a ideia da ancestralidade da cultura indígena a menção constante a situações de oralidade (não poucas vezes protagonizadas por idosos na posição de narradores), nas quais, entre os povos indígenas, se transmitem as narrativas que Daniel Munduruku recolhe em seu livro. b) Professores Maxacali – Myriam Martins Álvares A autoria se coletiviza em certas obras da literatura indígena. O livro que conta histórias de antigamente, de 1998, [111] é original e abre trilha promissora nesta vertente da literatura infantil brasileira indígena mais contemporânea: com texto bilíngue e de autoria coletiva, assumida por “nós, professores Maxakali” (p. 8), [112] foi incluída no Programa de Implantação das Escolas Indígenas. Seu bilinguismo tem uma expressão gráfica muito interessante, ao adotar procedimentos de que se valeram algumas vanguardas literárias, e não apenas brasileiras, do século XX: o texto em português aparece em letra de forma, e o texto em maxacali em diferentes caligrafias, sempre em forma cursiva. No sumário da obra, os títulos das histórias – os em maxacali e os em português – aparecem em letra que simula manuscrito (infantil?). Trata-se, sem dúvida, de transposição para a visualidade do livro, do inevitável e tão rico hibridismo de culturas como a brasileira, particularmente no que dela retoma traços da cultura pré-cabralina (Figuras 14 e 15). MEC/SEE-MG Figura 14 MEC/SEE-MG Figura 15 Fiéis ao prometido no título – “histórias de antigamente” – as histórias voltam-se para a transmissão de valores culturais de uma comunidade de povos da floresta, objetivando tanto resgatar tradições indígenas, quanto ensinar as gerações mais novas a ler e a escrever, como informa a introdução não assinada da obra: Este é o primeiro livro feito por nós, professores Maxacali, para ser usado em nossas escolas. Este livro é para ensinarmos as crianças que já estudam, isto é, para nós ensinarmos a escrever e a ler. [113] A esta introdução segue-se uma apresentação, assinada por Myriam Martins Álvares, organizadora e revisora do livro, na qual a vocação escolar da obra se reforça, manifestada por outro ângulo que também amplia sua pretendida circulação, ao frisar a possibilidade de sua circulação em escolas não indígenas, com o que se renova o contumaz parentesco entre literatura infantil e escola: “este livro possibilita, também para as crianças não índias, um novo olhar para a diversidade dos povos de nosso país.” [114] (p. 9) Manifesta-se, assim, explicitamente, neste novo indianismo, e com sinal trocado, a parceria literatura infantil / literatura escolar que acompanha o gênero destinadas às crianças desde seu nascimento. A natureza das histórias reunidas no livro é variada. Dentre os vários textos, há algumas narrativas já recolhidaspor estudiosos, como, por exemplo, A onça e o coelho, que integra os Contos populares do Brasil (1885), de Sílvio Romero (1851-1914). Há textos pragmáticos, registrando o conhecimento dos Maxacali de propriedades terapêuticas da flora brasileira. Outros ainda registram narrativas da tradição dos Maxacali, que tanto tematizam interdições culturais (História da antepassada que ficou com vergonha, História dos bichos da água), quanto o simbolismo de explicações filosóficas e narrativas mitológicas, como a História do sol. Traço interessante desta vertente da literatura infantil é a rica mestiçagem cultural de que ela se tece para além da expressão gráfica antes apontada. A ideia de resgate de tradições, que poderia talvez criar expectativas de um indianismo monolítico, parece matizar-se no caráter híbridoda cultura brasileira em todos seus segmentos, hibridismo interiorizado inclusive pelas populações indígenas. Em uma outra interpretação, o hibridismo cultural, tão proclamado e reivindicado, parece conflitar com as diferentes fontes tipográficas presentes em O livro que conta histórias de antigamente, se, na rígida distinção entre o cursivoda língua indígena e a letra de formada versão em português, quisermos ler a imagem de uma separação radical entre uma e outra cultura. Na versão do texto em português,as reiterações em todos os níveis, a curta extensão das frases, a mimese da situação de transmissão constituem recursos estilísticos que reforçam traços da oralidade sempre presente em narrativas de culturas ágrafas: História da água Para que contar a história da água? A água serve para quê? Tem água pra dar força pra todo mundo. Para todos os bichos: os de duas e quatro pernas. Os pássaros também bebem água. A água dá força pra todos. Tem água pra nós e para os bichos. Também pra carro tem que ter gasolina. Se não tem gasolina o carro não anda. Se nós não temos água nós não andamos também. E o peixe tem água também. A água é boa e muito forte. A história da água é forte. [115] Como se vê, em seus procedimentos estilísticos, o texto, a olhos e ouvidos urbanos, manifesta a singeleza que se atribui, tradicionalmente, a histórias que circulam em culturas ágrafas: a presença de animais, as reiterações, o diálogo com o interlocutor facilitado pela narração in preaesentia. No entanto, essa representação de ancestralidade bem expressa nos níveis, digamos, sintático e discursivo, não se prolonga no nível semântico, a partir da menção a carros e gasolina. É esta ruptura semântica que, aqui, marca o hibridismoda literatura indígena. A comparação aponta para o irremediável – talvez inevitável e positivo – cruzamento e miscigenação de culturas em países como o Brasil. É o que se registra na expressão ‘pluralidade cultural’, que a legislação de 2008 já comentada trouxe para o cotidiano escolar e, consequentemente, para projetos editoriais. c) Comunidade Tapirapé Em Xanetawa parageta: histórias de nossas aldeias (Comunidade Tapirapé), obra de 1996, anterior a O livro que conta histórias de antigamente, ocorre similar recurso ao bilinguismo, sem, no entanto, sublinhar a duplicidade de escritas com diferentes tipografias: aqui os textos são unificados em letra de imprensa. Esta unificação cria instigantes efeitos de sentido, quando observada a partir da reprodução da fala do professor Tapirapé, Kamoriwa’i: Os brancos não perdem sua língua nem as coisas de sua tradição porque fazem muitos livros. É por isso que nós temos que fazer nossos próprios livros, na nossa língua e não ficar usando o livro do branco. [116] O traço metalinguístico do texto dos Tapirapé irmana-o a títulos contemporâneos da literatura infantil brasileira já comentados. Registra-se ainda, no texto transcrito, a certeira intuição de articular escrita e livros à permanência de identidades culturais, como se discutiu a propósito, por exemplo, da obra de Pedro Bandeira. d) Professores Ticuna Em outras obras, como O livro das árvores, também de organização coletiva, línguas indígenas e a língua portuguesa compõem, lado a lado, os textos, empregando-se, no entanto, o itálico para marcar palavras não portuguesas que também se identificam pela constante presença de Y e W: No princípio, estava tudo escuro, sempre frio e sempre noite. Uma enorme samaumeira, wochine, fechava o mundo, e por isso não entrava claridade na terra. Yo ‘i e Ipi ficaram preocupados. Tinham que fazer alguma coisa. [117] O Eware é protegido por animais e gente encantada. De cada lado do Igarapé ainda estão a casa de Yo’i e a de Ipi. [118] Este hibridismo de grafias se entrelaça à ancestralidade, como já assinalado, tema invocado e mencionado em muitos – praticamente quase todos – os textos que fazem parte desta vertente da literatura mais contemporânea. A sequência Kç, absolutamente estranha à grafia portuguesa, já ocorre em obra de 2001, de Daniel Munduruku: Em tempos que vão longe, as mulheres habitavam o ekça – a casa dos homens – e os homens alojavam-se numa vasta casa coletiva. [119] e) Olívio Jekupé [120] Olívio Jekupé, além de escritor, participa institucionalmente da defesa de direitos indígenas, sendo fundador da Associação Guarani Nae’en Porã. Sua obra articula-se às tradições indígenas da narrativa oral, dando – mais uma vez – particular ênfase à ancestralidade, expressa, por exemplo, no adjunto adverbial de tempo (“muitos e muitos anos”), como se vê no texto de “Verá o contador de história”, obra de 2003 ilustrada por crianças guaranis: Certa vez, há muitos e muitos anos, uma moça que estava grávida e com muita vontade de comer pirá ficou esperando o marido voltar com a lenha para acender uma tatypi. [121] Para nós, da aldeia, um contador de histórias é como se fosse um livro que nós não temos e por meio dele ficamos sabendo muitas coisas. [122] Vale apontar, nessa transcrição, o interessante paralelo, de novo sinalizando mestiçagens e hibridismos, entre a oralidade da cultura indígena (expressa na menção ao “contador de histórias”) e o caráter escritural de culturas de recorte ocidental. f) Yaguarê Yamã [123], [124] Yaguarê Yamã, que reúne em suas raízes duas etnias indígenas, tem obra numerosa e reconhecida internacionalmente, destacando- se Sehaypóri –O livro sagrado do povo Saterê Mawé, selecionado para o Catálogo White Ravens 2008 e para o Catálogo de Bolonha – categoria Reconto (2008). É também artista plástico especialista em grafismo indígena, o que confere excepcional qualidade visual a seus livros. Militante de causas indígenas, é vice-coordenador da Associação Geral do Povo Indígena Maraguá (Aspim), organização que luta pelo reconhecimento das terras dos Maraguá. Seus livros enraízam-se em elementos ancestrais das etnias indígenas das quais descende, e o hibridismo, que tem marcado a produção literária indígena mais recente, pode igualmente ser encontrado no duplo nome do escritor, que também se assina Ozias Glória de Oliveira, identidade de origem e fonética portuguesas. Traduzindo-se na indicação de um tempo remoto enquanto contexto da história a ser narrada, como se manifesta no texto a seguir, a ancestralidade, valor maior das culturas indígenas, se faz presente na obra de Yamã: Há muito tempo havia um homem chamado Ykawy’poty, que vivia sozinho na floresta. Ele não podia ir para longe porque não existiam caminhos, e tinha medo de se perder. Por isso, um dia resolveu procurar a mãe dos caminhos, a Jiboia-Grande. Por meio dela poderia achar os caminhos e assim nunca mais teria medo de andar na floresta. [125] Nota-se, no texto, a presença de grafia estranha à língua portuguesa, manifestada no nome da personagem, ao lado da sugestão de uma temporalidade arcaica, insinuada na indicação de que “não existiam caminhos.” As narrativas de Yaguarê Yamã têm um forte lastro mítico, tematizando ritos de passagem articulados a diferentes imaginários amazônicos. Ao circularem no suporte livro e na linguagem verbal escrita, as histórias que seus livros contam contribuem decisivamente para o (urgente) fortalecimento da vertente indígena do caráter mestiço e polifônico da identidade da cultura brasileira. g) Eliane Lima dos Santos Potiguara Descendente dos potiguara, de onde vem seu sobrenome, a autora participa intensamente de movimentos indígenas, desempenhando várias responsabilidades na esfera institucional de tais ações. Participa do Conselho do Instituto Indígena de Propriedade Intelectual, coordena a Rede de Escritores Indígenas da Internet e também faz parte da rede Grumin de Mulheres Indígenas. Ao levar a redes sociais a cultura indígena, a escritora parece dar um passo adiante no já tão mencionado hibridismo. Aqui a mestiçagem não se limita à vizinhança de ortografias e caligrafias díspares, como apontado antes, mas se expressa por diferentes suportes, da oralidade à escrita e ao mundo digital. Tanto sua história pessoal, quanto seu envolvimento com projetos de valorização da cultura indígena, militância na defesa dos direitos dos índios, ao lado de sua docência na Universidade Federal de Pernambuco, reforçam o caráter híbrido e mestiço da cultura brasileira, da qual a cultura indígena é parte muito importante. Com obras traduzidas para outras línguas (A terra é mãe do índio, 1989) e também de apoio à alfabetização de jovens e adultos (Akajutibiró, terra do índio Potiguara, 1994), Eliane é ainda a organizadora do primeiroo livro Que não parece razão Nem seria cousa idônea Por abrandar a paixão, Que cantasse em Babilônia As cantigas de Sião. Luís de Camões [2] Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história constitui uma apresentação da literatura brasileira para crianças e jovens em circulação no Brasil nos últimos trinta anos. Não obstante constituir obra independente, autônoma e autorreferenciada, ela dialoga com outros livros nossos, especialmente com Literatura infantil brasileira: história e histórias (1984) e Um Brasil para crianças (1986). Nas últimas décadas do século passado, a literatura infantil ganhou status acadêmico, oferecendo-se enquanto campo de investigação original e estimulante para os estudos literários. Na esteira de trabalhos pioneiros como Problemas de literatura infantil (1950), [3] de Cecília Meireles (1901-1964), e de Literatura infantil brasileira: ensaio de preliminares para a sua história e suas fontes (1968), [4] de Leonardo Arroyo (1918-1986), a década de 1980 abre- se com a publicação de A literatura infantil: história, teoria e análise (1981), [5] de Nelly Novaes Coelho, que, no ano seguinte, publica seu Dicionário crítico de literatura infantil e juvenil brasileira. [6] Os trabalhos de Nelly Novaes Coelho marcam, com a concretude do livro impresso e com a chancela da Universidade de São Paulo, a maturidade da área, que também passou a integrar currículos de cursos de Letras. De lá para cá e particularmente no século XXI, articulados com a expressiva produção do setor, multiplicam-se livros, ensaios, dissertações de mestrado e teses de doutorado, cursos e eventos voltados para a literatura infantil e juvenil. É neste contexto que surge, desenvolve-se e amadurece este Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história. Tratar livros para crianças e jovens enquanto literatura implica conferir-lhes o mesmo statusda literatura não infantil e, consequentemente, considerá-los aptos a receber o idêntico tipo de reflexão voltado àquela. Implica, assim, considerar seu estudo habilitado a desenvolver-se através de metodologias e epistemologias formuladas a partir de e desenvolvidas a propósito da literatura não infantil e vice-versa. Com tais pressupostos, nossos livros anteriores Literatura infantil brasileira: história e histórias e Um Brasil para crianças, seguindo a lição de estudos clássicos da literatura brasileira, formatam em épocas o panorama da literatura infantil brasileira que delineiam, estabelecendo traços textuais e temáticos característicos de cada período, elencando seus autores representativos e discutindo suas criações. A portabilidade desejável para Literatura infantil brasileira: história e histórias, que pretendia, como efetivamente conquistou, largo trânsito na graduação universitária, aconselhou a migração para outro título – Um Brasil para crianças – a extensa antologia de textos representativos de cada época. De um título para o outro, um movimento de condensação e ilustração. Examinados em perspectiva, do livro de 1984 para o de 1986, desfere-se um trajeto de afunilamento, representado pela busca e discussão de elementos cada vez mais básicos e estruturantes de textos voltados para crianças e jovens. Como contrapartida deste afunilamento da visada que norteou as obras de 1982 e 1986, dez anos depois, A formação da leitura no Brasil (1996) desferiu trajetória oposta. Em um zoom significativo, discute práticas sociais através das quais se forma e se desenvolve (ou não se forma, nem se desenvolve...) o público brasileiro, do qual faz parte o leitorado de livros infantis e juvenis. Transposto o ano 2000, o novo século – com a sedução dos números redondos – aguçava a curiosidade e propunha desafios: que sistematização poderia trazer, dialogando com os livros anteriores – Literatura infantil brasileira: história e histórias e Um Brasil para crianças –, a reflexão para mais perto dos dias atuais? Afinal, o que dizer no século XXI, quando a discussão de eventuais danos e vantagens representados pelos quadrinhos se substitui pela discussão de eventuais vantagens e desvantagens representadas pelo e-book e pelos games (capítulo I)? Se os livros anteriores propunham uma determinada forma de olhar e discutir a produção de literatura infantil brasileira em circulação até a década de setenta do século XX, que debates e olhares suscitava a extensa produção posterior a 1980 (capítulo II)? O primeiro aprendizado que a questão patrocinou foi que o espantoso volume da produção de livros infantis e juvenis (capítulo II) proscrevia de forma radical a retomada do modelo cronológico dos livros anteriores. Ao longo das várias decisões que precisaram ser tomadas durante a longa ruminação e elaboração deste livro, também se confirmou a velha lição de que quantidade afeta qualidade, entendida essa última, aqui, não no sentido de avaliação positiva, mas no sentido de natureza, de modo de ser dos seres do mundo, inclusive delivros. O gigantismo da produção da área permitiria ainda a discriminação autor por autor ou a delimitação de épocas? Salvo em algumas passagens, a tradicional apresentação autor a autor ou obra a obra pareceu desaconselhável. A grande produção contemporânea de livros que hoje circulam entre crianças e jovens – quer por sugestão escolar, quer por leitura espontânea, quer por compra governamental, quer por aquisição individual – parece proscrever qualquer categorização ortodoxa de títulos. O panorama cultural das últimas décadas sofreu alterações profundas. Inclusive – e talvez sobretudo – na área de livros infantis e juvenis. A literatura para crianças e jovens, mais do que a literatura não infantil, mostra-se sensível a esse panorama, marcado pela intensa movimentação política de segmentos sociais pouco expressivos até as décadas finais do século XX. Recortada por legislação que, de forma crescente a partir da aprovação e promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996/1997), pauta a leitura escolar, transforma-se a cadeia que vai da produção ao consumo de livro destinados à infância e juventude. Concebendo a literatura enquanto um sistemapor meio do qualobras, autores e públicos interagem a partir de condições sociais que diferentes momentos históricos proporcionam, [7] o novo contexto cultural do país afeta a literatura infantil e juvenil (apenas ela?) desde seu modo de produção até sua forma de circulação, multiplicando as (outras) linguagens com as quais precisa dialogar. À medida que esta percepção se foi impondo, pareceu-nos pouco produtiva qualquer ordenação cronológica de épocas, tendências, autores ou obras. Foram então abandonadas propostas de abordagem individual de autores e de obras, exceto quando obras e autores davam concretude à discussão de uma ou outra tendência. Assim, este Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história, ao longo dos capítulos que o constituem, propõe um conjunto de reflexões sobre o gênero literatura infantil e juvenil,focalizando-o da perspectiva que nos pareceu enriquecer o conhecimento, discussão e fruição da literatura infantil e juvenil brasileira dos últimos trinta anos. Se a decisão foi ou não acertada, fica para os leitores decidirem. Pois a prerrogativa maior dos leitores é discordarem dos autores que leem, o que – claro! – constitui também uma forma de diálogo. Literatura infantil e juvenil para além do livro Nós estamos em um momento de muita nostalgia da possibilidade da perda de um objeto que nós amamos, o livro. Isso provoca, em qualquer um de nós, um apaixonamento pelos últimos livros que estamos construindo. Se é que de fato – eu tenho as minhas dúvidas – o livro de papel vai desaparecer completamente. Eles podem substituir o papel por algum outro material que não seja tão caro à natureza. Mas o livro digital, quer dizer, a possibilidade do livro digital, da compra imediata, da diminuição de custo, da ausência da necessidade de lugar para guardá-los, tudo isso faz com que o livro digital seja um caminho sem volta mesmo. Angela Lagoe-book indígena (Sol do pensamento, Grumin / Rede de Comunicação Indígena / Núcleo de Escritores indígenas no INBRAPI). h) Elias Yaguakãg Extremamente sugestivos são os efeitos de sentido da instância visual de As aventuras do menino (2010), de Elias Yaguakãg, que assina texto e ilustração. A partir da capa, que se derrama pelas orelhas do livro (em um efeito de quase origami), o desenho foge ao figurativismo e ocupa os diferentes espaços do livro que, ao branco e preto das páginas destinadas ao texto verbal, alterna páginas coloridas que ostentam belíssimas formas e cores, cujo diálogo com o texto é, digamos, metonímico. O livro se encerra por um glossário que, a partir de seu título, põe lado a lado palavras e grafismos: “palavras e grafismos maraguás” e regionalismos amazônicos. As seis folhas do glossário têm margens caprichosamente decoradas em seu corte externo. Palavras e imagens dividem-se em colunas que pedem ao leitor um constante movimento de olhos que, ao longo da obra, transitam entre o grafismo e os algarismos que, no canto inferior esquerdo, numeram as páginas. Os livros do novo indianismo caracterizam-se, quase sempre, por ilustrações inspiradas no grafismo indígena, [126] o que levanta uma questão interessante: como ela dialoga com a visualidade tão presente, como veremos a seguir, na literatura brasileira contemporânea para crianças e jovens? 3. Presença do não verbal Se um pinguinho de tinta Cai num pedacinho Azul do papel Num instante imagino Uma linda gaivota A voar no céu Toquinho e Vinícius [127] Marcos da ilustração na literatura infantojuvenil brasileira são obras como Flicts (1969), de Ziraldo, ou O rei de quase tudo (1972), de Eliardo França. Entre autores paradigmáticos incluem-se Gian Calvi, Regina Yolanda Werneck, Rui de Oliveira, que renovaram os padrões gráficos e visuais dos livros dirigidos às crianças, modernizando o processo de produção das obras, sem deixar de conferir-lhes qualidade artística e experimental. Também foi fundamental para a transformação dos livros nacionais, do ponto de vista da ilustração, a incorporação de técnicas provenientes de outros meios de comunicação. Alcy Linares e Walter Ono, por exemplo, ilustradores de vários livros de Ruth Rocha no final dos anos 1970, exploraram as virtualidades do traço peculiar ao cartoon, enquanto Ricardo Azevedo valeu-se de elementos próprios à xilogravura. Muito frequente na literatura de cordel, Azevedo lança mão dela para compor obras que tratam da cultura popular e do folclore, como seus Contos de enganar a morte (2003) ou Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões (2009). Eva Furnari, por sua vez, em Bruxinha atrapalhada (1982), primeira de uma série de livros protagonizados pela personagem-título, retoma elementos da história em quadrinhos, estabelecendo uma ponte criativa entre dois gêneros associados às práticas de leitura da infância. Para além das técnicas sugeridas pelos meios de comunicação do mundo do impresso, a tecnologia digital suscitou novas possibilidades de expressão que repercutem positivamente na produção de livros para crianças. Conforme destaca Kimberley Reynold, os meios de comunicação que se difundem por meio da tela ou do monitor oferecem alternativas originais por não se organizarem segundo “a lógica do impresso, mas conforme a lógica de ícones e princípios de visualização.” [128] Assim, a informação pode ser organizada espacialmente, e não em cadeia, substituindo a linearidade pelo processo de vaivém, a que o jovem leitor pode estar habituado desde seu convívio com objetos digitais, mas que não costuma encontrar em livros. Em produtos impressos, a criatividade é então desafiada: de uma parte, é estimulada a importar técnicas e processos inusuais no mundo do livro, porque provêm de outros suportes. De outra, induz o artista a continuar inovando, além de colocá-lo em posição autoral, já que o desenho, o traço, a cor, passam a desempenhar as funções da escrita e da expressão verbal. É em Eva Furnari que se encontram bons exemplos dessas possibilidades artísticas. Cacoete (2005), livro impresso, narra a história da cidade que lhe dá título, caracterizada por uma organização impecável: as ruas alinhavam-se em ordem alfabética, assim como seus moradores; as roupas das mulheres tinham estampas semelhantes, o que também ocorria com as vestimentas masculinas. A arrumação dos armários, as comemorações, as lições ensinadas nas escolas – tudo seguia uma ordem prévia e imutável. É nesse contexto que Frido, o garoto que protagoniza a história, decide presentear sua professora com uma maçã: “Presente de Dia dos Professores, na cidade de Cacoete, tinha que ser maçã, não podia ser outra coisa.” [129] Frido passa por vários percalços até atingir seu objetivo: compra uma maçã com muita antecedência, e a fruta apodrece; procura adquirir outra, mas a vendedora, que descobre ser uma bruxa, o persegue; experimenta mutações físicas. Mas o resultado de sua aventura é mais abrangente, pois alcança transformar completamente a cidade e o comportamento de seus habitantes. Até o tempo se altera: “O tempo, às vezes, corria tanto que quando alguma coisa ia começar, já estava acabando. Outras vezes ele andava para trás e então as coisas começavam pelo fim.” [130] Enfim, o livro tematiza a divergência e a possibilidade de expressão diferenciada em uma sociedade até então marcada pela homogeneidade. O motivo central é suscitado pela maçã, propriedade de uma bruxa pouco sociável, habitante da floresta, em oposição ao mundo urbano, regulado e domesticado em que vive Frido, sua professora e os demais cidadãos de Cacoete. A bruxa, sinal da desordem e do caos até então evitados pelos cacoetecas, é provocadora das mutações radicais que a envolvem também, pois, ao final, “ela nunca mais foi a mesma”. [131] Da sua parte, o motivo da maçã também passa por deslocamentos, pois, oriundo, de um lado, da mitologia judaico- cristã, de outro, do conto de fadas, nesta obra de Eva Furnari deixa de sinalizar a desobediência e a culpa (de Eva, a figura da Bíblia, não a autora) ou a sedução e a perdição (Branca de Neve), para indicar as possibilidades de ruptura em uma sociedade fortemente hierarquizada, como a de Cacoete. É a linguagem visual que traduz a ordem, o caos e a nova configuração do mundo cacoeteca. As primeiras páginas do livro (páginas 3 a 11) caracterizam-se pelas linhas retas e por certa uniformidade cromática. É o primeiro encontro de Frido com a bruxa (página 12), que começa a romper a unidade e a monotonia até então reinante. A ruptura manifesta-se, por exemplo, nas árvores, que fazem o pano de fundo, agora retorcidas, e no casarão, cujo telhado que ostenta “chaminé preta e torta” aparece em cor entre rosa e magenta. A partir daí, as tonalidades em vermelho se impõem, e os traços retos desaparecem, a não ser na página 16, quando Frido procura conferir uma ordem à desarrumação da casa da bruxa. Editora Moderna, 2016./FURNARI, Eva Figura 16 O momento mais expressivo da ilustração (Figura 16) [132] aparece na página 28 (a partir da página 20, são empregados distintos meios gráficos para indicar a numeração das páginas, sendo que a 28 aparece em dígitos romanos), quando a unidade se desarticula inteiramente: ainda que haja um núcleo central de conteúdo – a professora dando aula, e os alunos assistindo – as informações adicionais se disseminam pelo espaço gráfico, obrigando o olho do leitor a identificá-las e decodificá-las. Assim, o miolo da ilustração da página corrobora o texto, mas, por suas bordas, apresentam-se situações adicionais a serem percebidas por quem não se preocupa com a continuidade da narrativa, e sim com a simultaneidade de enfoques variados. Cacoete não chega a romper com a linearidade do livro impresso, mas exige do leitor idas e vindas através das páginas do livro, o que configura sua originalidade. Maçãs argentinas (2013), [133] texto de Paulo Venturelli e ilustração de Odilon Moraes, retoma não apenas a questão simbólica do ‘fruto proibido’, mas tambémsua tradução gráfica. A história narrada em primeira pessoa, por um adulto que relembra a infância pobre, quando maçãs argentinas eram caras e inalcançáveis, encontra sua transcrição na ilustração, que se faz, sobretudo, pela apropriação de imagens sugeridas pela pintura do belga René Magritte (1898-1967). A figura da página 24 do livro, em que o rosto do menino é substituído por uma maçã (Figura 17), bem como a da página 59, em que a fruta, na mesma posição, está mordida (Figura 18), indicam a combinação entre dois quadros de Magritte, “Isto não é uma maçã” (Figura 19) e “O filho do homem” (Figura 20). O primeiro deles é constituído pela reprodução realista da fruta que lhe dá título, encimada pela frase “Ceci n’est pas une pomme”; o segundo pela apresentação de um homem, de terno e chapéu coco, sendo seu rosto encoberto por uma maçã. Editora Positivo Ltda, 2013/ VENTURELLI, Paulo; LOPES, Odilon Figura 17 Editora Positivo Ltda, 2013/ VENTURELLI, Paulo; LOPES, Odilon Figura 18 MAGRITTE, René. Ceci n’est pas une pomme. 1964. Óleo sobre tela, 60 cm x 40 cm. © Photothèque R. Magritte, Magritte, René/ AUTVIS, Brasil, 2016. Figura 19 MAGRITTE, René. Le fils de l’homme. 1964. Óleo sobre tela, 116 cm x 89 cm. © Photothèque R. Magritte, Magritte, René/ AUTVIS, Brasil, 2016. Figura 20 A incorporação da pintura de Magritte à literatura para crianças e jovens é matéria também de Caulos, em O segredo de Magritte, [134] que, como o pintor belga na obra que inspirou o livro antes comentado, escolhe temas e procedimentos insólitos. Tal prática sugere que o diálogo intertextual dos livros brasileiros não se faz apenas com a literatura, mas com as Artes Plásticas, representada por renomados pintores. Bichos do lixo (2013), de Ferreira Gullar, é igualmente sugestivo dos rumos que toma o não-verbal na literatura brasileira contemporânea para crianças e jovens. Escreve o poeta na apresentação dirigida “Ao leitor”: A palavra lixo nos faz pensar em sujeira, mas não é este o caso aqui. Este é um lixo limpo, colorido, que, não obstante, iria certamente para a lixeira, não fosse essa minha mania de brincar com restos de envelopes, convites, propagandas, revistas, calendários, catálogos e muitos outros materiais em papel que recebo pelos correios. Na verdade, brinco com as possibilidades do acaso, isto é, com a probabilidade de que, lançados a esmo, os recortes coloridos façam nascer alguma coisa: um bicho, por exemplo. Um bicho que eu identifico aleatoriamente como uma ave e você talvez o identificasse com outro animal qualquer. Animal que, aliás, não precisa existir. É em suma uma brincadeira. Divirta-se. [135] A apresentação do livro de que Ferreira Gullar é simultaneamente autor e ilustrador pode ser colocada em paralelo com o começo de Alice no telhado, de Nelson Cruz. Neste, como se apontou antes, a personagem escritor traça uma linha circular na página em branco e joga-a na lixeira, de onde precisa depois recuperá-la, para que as personagens do clássico de Lewis Carroll possam retornar a seu país das maravilhas. No livro de Gullar, o lixo, presente desde o título, tem outra função, pois o autor não joga fora papéis aparentemente descartáveis, e deles emergem, por meio de colagens, as figuras, menos ou mais fantásticas, que inspiram seus versos, a maioria deles epigramáticos. “Seres azuis” é exemplar: o poema é constituído por um único verso – “Aqui, diferentemente da natureza, a essência dos seres é a cor.” [136] – ilustrado por imagens não figurativas, na maioria azuis (Figura 21, página par; Figura 22, página ímpar). Os recortes podem impulsionar a imaginação, que atribuirá àqueles objetos alguma identidade, o que fica a critério do leitor, pois, para o autor, a cor é sentido suficiente (e talvez não ocasionalmente, no interior da palavra ‘recorte’ está o substantivo ‘cor’), dando prosseguimento à poética de Flicts, de Ziraldo, igualmente um livro sobre os matizes. Ferreira Gullar Figura 21 Ferreira Gullar Figura 22 A colagem é o processo técnico utilizado originalmente por Gullar, prática que foi guindada à condição de arte pelas vanguardas do século XX, de que o poeta participou em seu tempo de Concretismo e Neoconcretismo. Mas a colagem é igualmente um dos modos de ser da bricolagem, a saber, o reaproveitamento de resíduos, conforme um procedimento heteróclito, ainda que utilitário. A bricolagem aproxima-se do brechó, espaço da quinquilharia e do à primeira vista descartável, porque superado e desnecessário. A reabilitação desse material, como faz Gullar, une, assim, o moderno e o antigo, a vanguarda e o anacrônico, inovando por não se desfazer do rejeitado, e sim por colocá-lo em outro patamar. No contexto da sociedade pós-capitalista, caracterizada pelo consumo inveterado e pela rapidez com que os modismos são superados e jogados fora, Gullar, tal como Rodrigo Lacerda, em O fazedor de velhos, encontra um novo e original espaço para os objetos do cotidiano. É de certo modo na mesma direção que trabalha Angela Leite de Souza em Entre linhas (2013), quando ilustra os poemas de seu livro, cujo título explora dois universos – o da costura, tema perseguido na obra, e o da escrita, própria à matéria impressa. Seus versos lidam com costura, bordados e os seres, humanos e não humanos, que pertencem a esse mundo. Costurar, bordar, fazer croché ou tricô são atividades originalmente manuais e associadas, de preferência, ao mundo feminino. A expansão da indústria do vestuário e a mecanização reduziram sensivelmente o espaço de execução dessas práticas, tornadas quase anacrônicas, a ponto de os objetos que as constituem – botões, agulhas, linhas, fitas métricas, giz – terem quase desaparecido. É o que o livro de Angela Leite de Souza busca resgatar, de uma parte, por meio de seus versos, de outro, através das ilustrações. Assim, em vez das figuras abstratas, são empregadas fotografias ou desenhos bastante realistas, para que se identifiquem com facilidade os termos a que se referem. A preocupação referencial, reduzindo o simbolismo da imagem ao mínimo, completa-se ao final do livro, quando se apresentam as “Palavras do mundo da agulha e da linha”, [137] glossário que dá conta do vocabulário vinculado à costura e seus produtos (tecidos, cortes, enfeites, ações específicas), bem como um “Passo a passo” dos “Trabalhos Manuais” (p. 43), contendo instruções sobre as maneiras de alinhavar, chulear, fazer uma bainha ou pregar um botão, entre outras. De certo modo, livros como os de Ferreira Gullar e Angela Leite de Souza facultam idas e vindas, aplicadas não à linearidade do espaço do livro, mas à linearidade do tempo, ao propiciar avanços e recuos entre práticas às vezes obscurecidas ou apagadas em nome de uma modernidade consumista ou mecanicista. De 2010, Telefone sem fio, [138] de Ilan Brenman e Renato Moriconi, é um livro sem texto. Em cada uma de suas grandes páginas, uma figura (na página da esquerda) cochicha para outra, da mesma dimensão, na página da direita. Esta, por sua vez, na próxima página da esquerda, cochicha para outra figura à direita, e assim sucessivamente, até que, na última, fecha-se o círculo, figurando como ouvinte quem cochichava no começo. Como indicado em seu título, o livro retoma a antiga brincadeira do telefone sem fio, o que configura uma eficiente transposição do oral para o visual. As imagens, algumas, conforme o ilustrador, retomando figuras de pintores como Paolo Ucello (1397-1475), Piero della Francesca (1415-1492) e Hans Holbein (1497-1543), alternam, no virar das páginas, perfil e frente, e provêm de diferentes imaginários: rei, índio, pirata, uma menina de chapéu vermelho são exemplares da variedade de matrizes a que recorre o livro que incentiva, sem palavras, eventual dupla interação com o leitor. Este tanto pode brincar de telefone sem fio, quanto inventar o conteúdo do cochicho que sofre alterações, quase sempre divertidas, na passagem de página a página. É ao virar da página, elemento por excelência da materialidade do livro, que as personagensmudam de função, passando de emissor a ouvinte e vice-versa, e mimetizando, por meios gráficos, o papel do leitor quer de imagens quer de letras. Nos livros de Roger Mello, vencedor do Prêmio Hans Christian Andersen de 2014, na categoria Ilustrador, que, como muitos dos artistas mencionados, escreve e ilustra seus livros, os processos aqui destacados aparecem com grande criatividade. Em livros como Nau catarineta, [139] o autor apropria-se da tradição popular, explorando as estrofes de conhecido poema de circulação oral e origem portuguesa. A ilustração investe nos elementos marinhos, mágicos e religiosos dos versos, incorporando-os à cultura brasileira, ao utilizar cores fortes, usualmente associadas à geografia tropical, e introduzir instrumentos musicais como tamborins, ao lado das guitarras lusitanas (Figura 23). Roger Mello Figura 23 A composição da página impressa é igualmente inovadora, já que supõe uma leitura que, se é contínua no que diz respeito à sequência das estrofes do poema, é não-linear no que se refere às figuras. A primeira página em que os versos são reproduzidos mostra o espaço de uma cidade, suas ruas sendo ocupadas por pessoas que dançam e festejam, e a cercadura do espaço assinalada por residências e casas comerciais onde provavelmente vivem aqueles indivíduos. A apresentação obriga não apenas o leitor a acompanhar, de baixo para cima, o desenho dos imóveis, como a movimentar os olhos da direita para a esquerda, em contraposição ao posicionamento a que está acostumado quando interage com uma obra impressa. Por sua vez, esse procedimento, que se multiplica nas páginas subsequentes, não ignora o texto escrito, que se oferece ao leitor sob várias formas gráficas, sendo também a tipologia um modo de mobilizar a atenção permanente do destinatário. Do mesmo autor, Zubair e os labirintos, [140] identificado no catálogo de sua editora como livro-brinquedo, igualmente inova, ao se mostrar um livro desdobrável, que se abre para o leitor, mas que se oferece enquanto um labirinto, sendo esse o tema principal da obra. Por sua vez, o uso da cor se faz mais presente em outras duas obras, Carvoeirinhos (2009) e Contradança (2011), em que Roger Mello investe nas potencialidades do preto & branco. No primeiro, à cor negra, que reproduz o mundo do protagonista, opõe-se o vermelho do fogo, que, parecendo saltar da página, o ameaça. Em Contradança, as páginas de texto carregam uma tonalidade, enquanto as figuras apresentam variações entre o preto e o cinza. O procedimento como que inverte modos habituais com que os livros se valem das cores: tradicionalmente, os tipos, em preto, opõem-se à folha em branco, enquanto que as figuras aparecem em cores brilhantes. Resultado, de uma parte, do investimento financeiro das editoras nacionais nos processos de produção gráfica da literatura para crianças e jovens, e, de outra, da criatividade de escritores e ilustradores brasileiros, os livros impressos tornam-se internacionalmente competitivos, de que são provas os vários prêmios e menções que os acompanham nas últimas décadas. Ainda que não ostensivamente voltadas para o circuito escolar, obras que tematizam outras criações literárias, tratam das culturas indígenas ou investem solidamente na dimensão visual do objeto livro, também circulam entre carteiras e alunos. Mas, a este percurso mais tradicional, soma-se um fenômeno curioso. Tem altíssimo trânsito entre o mesmo público jovem, em nome de quem se tecem queixas e se organizam campanhas relativas a livros e leitura, outro tipo de produto que talvez a escola desqualifique e que os setores mais acadêmicos ligados à literatura com certeza não chancelam. O que seria a fantasy fiction e a chicklit, cuja tradução para o vernáculo ainda não encontrou unanimidade? pode haver livro e leitura para além da escola? O leitor jovem adulto hoje já é adulto, né? Os moleques de 12 anos estão lendo Guerra dos Tronos, como se o livro fosse infantojuvenil. Essa classificação acaba caindo mais em relação aos personagens e para as livrarias separarem nas estantes. Nesse sentido, Cemitérios é adulto. Espero que o cenário agrade tanto ao público de literatura fantástica, quanto o público acostumado com a cultura pop japonesa, dos animes aos tokusatsus, que nem sempre é fanático pela literatura fantástica necessariamente, mas também não deixa de ser apaixonado por histórias fantásticas. Raphael Draccon [141] Em setembro de 2013, quando se encerrou a 16ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a Folha de São Paulo noticiou o êxito de vendas representado pelos livros destinados ao público jovem: “A literatura juvenil virou um nicho forte, basta olhar as listas de mais vendidos”, disse Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros, citando fenômenos nacionais como Eduardo Spohr, Paula Pimenta e Carina Rissi, que deram longas sessões de autógrafos. [142] Entre os autores bem sucedidos, a Folha de São Paulo destacou a estreante Renata Ventura, cujo livro A arma escarlate (2013) “nem chegou a ‘esquentar’ a prateleira do estande da editora Novo Século. Em menos de um dia, ou melhor, em poucas horas, todos os exemplares já estavam vendidos. Sobraram apenas os marcadores de livros.” [143] Outra postagem na internet informa o alcance de vendas e o faturamento obtido, além de caracterizar os visitantes do evento livreiro: durante os quinze dias da Bienal realizada no Rio de Janeiro, foram comercializados “3,5 milhões de volumes”, tendo o faturamento alcançado “71 milhões de reais”. Embora o público tenha diminuído, se comparado com o da feira de 2011, acorreram ao Riocentro 660 mil pessoas (em vez das 670 mil, de 2011), sendo que se verificou a “presença maciça de um público com idades entre 15 e 29 anos, consumidor de séries nacionais e internacionais, que vêm dominando as listas de mais vendidos.” A matéria complementa: “essa faixa etária correspondia a 46% dos frequentadores da Bienal em 2011 e passou a representar mais da metade do público nesta edição, chegando a 51%.” [144] Nem todos os mais de trezentos mil moças e rapazes adquiriram obras de autores brasileiros, mas, entre os escolhidos, constaram certamente os já mencionados Eduardo Spohr, Paula Pimenta, Carina Rissi e Renata Ventura, que exemplificam bem algumas das preferências de leitura do público jovem, dividido entre a fantasy fiction, em que predomina a magia e a hiper-realidade, e a representação do cotidiano de adolescentes e jovens adultos, em geral do sexo feminino, envolvidos frequentemente em tramas amorosas. Cada uma dessas duas vertentes tem suas peculiaridades, que, embora às vezes se mesclem, podem também ser examinadas em separado, porque, em qualquer circunstância, nunca chegam a se confundir. 1. Uma ficção para lá de fantástica Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. Arthur C. Clarcke [145] A fantasy fiction não é um gênero de fácil definição. Expressão pleonástica, redundância evitada no termo ‘fantasia’ que, às vezes, é escolhido para traduzir o vocábulo em inglês ‘fantasy’, ela não se restringe ao campo literário, nem mesmo artístico, aparecendo não apenas em livros, filmes e novelas gráficas, mas também em jogos e performances. Qualquer das denominações, seja em inglês ou em português, nomeia produções povoadas por seres sobrenaturais, deuses e heróis imortais, detentores de poderes mágicos, capazes de fundar universos e de transitar com relativa facilidade entre o mundo dos vivos e dos mortos. Há séculos, personagens com esse recorte frequentam a cultura: mitos, lendas, relatos religiosos, epopeias, contos de fadas – eis todo um contingente de criações com a palavra que não se constrange em transpor fronteiras inacessíveis aos simples mortais, que apenas podem cruzá-las em sonhos, o espaço que a tradição ensina ser, por excelência, o território da fantasia e da imaginação. De todo modo, fantasy fiction ou fantasia tornou-se recentemente o termo empregado para indicar produções – literárias e não literárias,verbais e não verbais – que apareceram nas últimas décadas do século XX e primeiras do XXI. No campo da produção infantojuvenil, talvez a publicação, entre 1997 e 2007, na Inglaterra, e entre 2000 e 2007, no Brasil, da saga de Harry Potter, de autoria de J. K. Rowling, possa ser considerada o acontecimento fundador do gênero, ainda que, dois anos antes, em 1995, Philip Pullmann tenha inaugurado o primeiro volume da trilogia His dark materials (Fronteiras do universo na tradução nacional). [146] A obra de Pullman parece ter impulsionado a criação de universos ficcionais que se espraiam para além do conhecido e do vivido, por meio da imaginação, de uma parte, e, de outra, da reapropriação da tradição de mitos e narrativas populares produzidas no Ocidente. Nas narrativas de Pullman e Rowling, verifica-se um conjunto de marcas que, ainda que não o esgotem, podem ser tomados como característicos do gênero fantasy fiction. 1) Quando dirigidos ao público jovem, livros de fantasia são, na maioria das vezes, protagonizados por crianças, adolescentes ou jovens adultos. Esses dispõem, ou não, de poderes mágicos [a exemplo de Harry Potter e, mais recentemente, Percy Jackson (2005-2009)], de inteligência excepcional dirigida sobretudo a engenhos tecnológicos, como Artemis Fowles (2001-2012), da série criada pelo irlandês Eoin Colfer, ou de alguma virtude de que nem sempre estão conscientes quando se inicia a história de que participam. É o caso de Lyra Belacqua, de A bússola de ouro, que abre a trilogia de Fronteiras do universo, e também de seu parceiro, Will Parry, introduzido a partir do segundo volume da saga, A faca sutil. Quase todos os heróis evidenciam qualidades positivas e virtudes (exceção feita, em algumas circunstâncias, a Artemis Fowles), e a eles se opõem as figuras do mal, que podem ser humanas, como a Sra. Coulter, de Fronteiras do universo, ou um bruxo à maneira de Lord Voldemort, o arqui-inimigo de Potter. Importante é que os adversários são, se não adultos, ao menos mais velhos que o(a) protagonista, podendo ou não ter com ele/ela uma relação familiar. O confronto entre eles pode ser interpretado como mimetizando o conflito de gerações, o atrito entre pais e filhos, e, em sentido mais amplo, o antagonismo entre o Bem e o Mal. A vitória do Bem sobre o Mal pode apontar, simultaneamente, para a resolução de diferentes conflitos: a supremacia do jovem sobre o velho, do novo sobre o antigo, do futuro sobre o passado. Mesmo em narrativas distópicas, que têm configuração particular, de que é exemplo a saga Jogos vorazes (2008-2010), de Suzanne Collins, o futuro recebe algum tipo de crédito, pois está corporificado pelo herói vencedor. O tema, de conotação mítica, pode valer-se da cosmogonia difundida por distintos credos religiosos para expressar sua temática básica. Fronteiras do universo é um bom exemplo: narrando a luta permanente entre os anjos rebeldes e a autoridade religiosa, apropria-se do assunto do poema épico O paraíso perdido (1667- 1674), de John Milton (1608-1674) desde o título original, His dark materials, extraído de um verso daquela obra, integrando-o à trajetória das personagens, que, assim, conseguem resgatar a validade do projeto dos insurgentes seres alados. Não há, pois, solução de continuidade entre a realidade das personagens e a magia do universo que habitam, povoado por sujeitos, objetos e animais fantásticos. A fantasy fiction, fazendo jus a seu nome, tudo absorve, desde que se estabeleça o pacto de ficção que conferirá verossimilhança às situações apresentadas. 2) É também frequente na fantasy fiction a inter-relação de mundos diversos. Não se trata apenas de apresentar a existência em outros planetas ou em outras épocas, como fazem a ficção científica ou o romance histórico. Universos paralelos, com suas vidas independentes, podem coexistir, podendo suas personagens (Lord Asriel, por exemplo, na saga de Pullman), transitar entre eles. Em A faca sutil, Lyra e Will pertencem a dois universos distintos, e é graças à faca, instrumento nomeado no título, que podem cruzá-los. Por sua vez, a médica Mary Malone, de A luneta âmbar, vem para o mundo de Mulefa, com a qual aprende a operar a luneta âmbar, no último volume da série. A descontinuidade do tempo não decorre da hipótese de retornar ao passado, ainda que essa opção esteja à disposição dos autores engajados com a fantasy fiction, mas, principalmente, da simultaneidade existente entre épocas e períodos distintos. Muitas vezes as narrativas parecem anacrônicas, porque inventos científicos muito avançados compartilham o espaço ficcional com situações arcaicas ou primitivas. Outro caminho da fantasia diz respeito às possibilidades de ultrapassar o limite da morte, alternativa bastante frequente em obras que tematizam mortos-vivos, como vampiros e fantasmas, tópico explorado por Stephenie Meyer (1973), criadora da saga Twilight (2005), ou Crepúsculo (2008) na tradução brasileira. 3) Na fantasy fiction, ciência e feitiçaria, como registra a epígrafe, tomada de Arthur C. Clarcke, compartilham o espaço ficcional. Esse constitui outro traço que distingue o gênero, de uma parte, da ficção científica, em que a ciência e a tecnologia ocupam lugar de destaque, e, de outro, do conto de fadas, do mito, da fábula e da legenda, em que se encontra tão somente a magia. De certo modo, a fantasy fiction aponta o tanto de mágico que costuma ser creditado à ciência, quando as descobertas e formulações desta ainda não são de domínio comum. Tecnologias inovadoras soam diabólicas para usuários pouco afeitos a elas; de outro lado, a feitiçaria corresponde igualmente à posse de alguns saberes específicos, que a aproximam da ciência. É nesse, digamos, ‘entre-lugar’ que opera o gênero. São obras com esse perfil, aqui genericamente descrito e exemplificado sobretudo por séries, que exercem, de certo modo, o papel de fundadores, ao tomarem de assalto a cultura jovem. Espraiaram-se não apenas pelo mundo dos livros, mas igualmente pela internet (haja vista a expansão da fanfiction digital associada a Harry Potter), pelo cinema, pelo universo de games eletrônicos, pela celebração em cosplays. Elas são objeto de encontros de fãs e seguidores, imitadores e parodistas, multiplicando seus efeitos, ao atingir exércitos de consumidores. Um desses efeitos é o percurso retroativo, em busca de escritores e obras que, em décadas anteriores às da efervescência da fantasy fiction, continham muitos dos elementos aqui indicados. O mais popular dos autores é J. R. R. Tolkien (1892-1973), cujas primeiras narrativas datam dos anos 1930 – O hobbit foi publicado em 1937; a trilogia O senhor dos anéis, entre 1954 e 1955 – mas que só em meados dos anos 1990 tornou-se um fenômeno mundial de consumo, valendo o mesmo para seu conterrâneo C. S. Lewis (1898- 1963), cujas As crônicas de Nárnia, hoje bastante populares em distintos continentes, foram lançadas entre 1949 e 1954. Outro desses efeitos, no Brasil, foi a emergência, difusão e sucesso da produção de escritores nacionais vocacionados para a fantasy ficction. Como mostram as notícias sobre a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, antes reproduzidas, Eduardo Spohr esteve entre os autores brasileiros mais vendidos, posição compartilhada com Raphael Draccon, André Vianco e Leonel Caldela, graças aos quais se consolida uma vertente de fantasy ficction em nossa literatura. Dragões de éter, de Raphael Draccon, constitui uma saga em três volumes, datando o primeiro – Caçadores de bruxas – de 2007. Sua integração ao gênero da fantasy fiction deve-se inicialmente ao universo representado, o de Nova Ether, espaço sem existência material, mas, como sugere a denominação, etérea, onde o moderno e avançado compartilham a ação narrada com o arcaico e primitivo, gerando o anacronismo peculiar ao gênero. E participam da história figuras mágicas e sobrenaturais – bruxas, fadas e animais fantásticos, como o cavalo Bóris, troll cinzento e sua montaria, o Mamute de Guerra –, ao lado de um contexto enigmático, derivadodas mensagens em caracteres sagrados, a serem decifrados por sábios dotados de poderes especiais. A ação transcorre sobretudo em Arzallum, em particular em Andreanne, a capital do reino. Quem governa é Primo Branford, que, ao lado dos irmãos, Segundo e Tércio, suplantou as bruxas, o que lhe permitiu, apesar da origem plebeia, alçar-se à condição de rei. Seu filho mais velho, Anísio, noivo de Branca Coração-de-Neve, deverá sucedê-lo, mas o herói popular é o jovem Axel, que frequenta as tabernas da cidade em lutas de boxe, conquistando muitos admiradores. Quando começa a narrativa, o reino experimenta um período de grande tranquilidade, garantida pela celebração anual da vitória do rei sobre as bruxas, cerimônia realizada no Teatro Majestade em que se encenam os episódios mais importantes desse período do passado de Arzallum. A chegada do pirata Jamil Coração-de- Crocodilo, filho bastardo de James Gancho, perturba a paz, pois ele ataca a cidade, rapidamente vence suas resistências e domina a família real, exceto Axel, que se encontra fora. Paralelamente, uma segunda intriga se desenvolve: a da adolescente Ariane Narin, quase devorada, na infância, por um terrível lobo, que, todavia, engolira a avó da garota. A salvação de última hora não impediu a morte da senhora, nem o trauma de Ariane. Enlaça-se à trajetória da menina a de dois irmãos, João e Maria, que, aprisionados por uma temível bruxa, igualmente estiveram a perigo em crianças. Reconhece-se, no enredo, mescla de fantástico e de realismo. O primeiro resulta da apropriação do universo do conto de fadas e da literatura juvenil, por meio da retomada de passagens e eventos característicos de histórias tradicionais, bem como da presença de personagens com poderes sobre a natureza e de espaços estranhos, às vezes até surrealistas. Por sua vez, o realismo expressa-se na representação de cenas do cotidiano, especialmente da rotina de adolescentes, que vão à escola, namoram, experimentam rivalidades amorosas. Esse realismo se manifesta igualmente na linguagem do narrador e das figuras ficcionais, muito próxima do idioleto jovem, como explica o primeiro a seu presuntivo leitor: Você deve estar estranhando o palavreado de Ariane, pois não deve lembrar um palavreado comum a mundos etéricos de fantasia heroica. Mas garanto a você e a qualquer outro que, se isso acontece, é porque anda conversando com contadores de histórias elitizados, ou que apenas contam história da elite nobre. Pois, se passear em algumas das salas de aula dos pré-adolescentes, e digo mesmo dos adolescentes, de Andreanne, encontrará com certeza esse mesmo palavreado aqui demonstrado de forma comum. [147] Constata-se, no enredo, a apropriação do universo do conto de fadas e da literatura juvenil. O primeiro capítulo abre-se com a frase “E um lobo lhe devorou a avó”, [148] encaminhando de imediato para a história de Chapeuzinho Vermelho, cognome de Ariane. Os irmãos João e Maria remetem igualmente ao conto dos Grimm, enquanto os piratas e vilões, James Gancho e Jamil Coração-de-Crocodilo, migram diretamente de Peter Pan. Outra personagem, segundo o narrador, viveu “a história mais interessante e famosa” do trio de irmãos, pois “se tornou marquês com a ajuda de um bichano humanoide linguarudo e exibido, que vestia roupas e botas de couro e as vestimentas oficiais dos soldados do Reino de Mosquete”, [149] alusão que associa sua trajetória à do Gato de Botas, criação de Charles Perrault. Essas apropriações não são propriedades exclusivas de Draccon e de seu livro. Já se apontou como a intertextualidade é parte significativa da literatura infantil e juvenil brasileira das últimas décadas. A cultura de massa vem reciclando as histórias dos Grimm e de Perrault em filmes e animações, além de fundi-las a narrativas similares. Draccon acompanha esse processo que fertiliza a arte, posicionando-se de modo original entre a cultura erudita e a cultura pop. Produz, assim, uma obra em que o hibridismo é marca de distinção, compondo um conjunto heteróclito que mimetiza, de certo modo, o mundo que representa. A batalha do apocalipse (2010), de Eduardo Spohr, apresenta uma estruturação complexa, propriedade sinalizada pela necessidade, ao final da narrativa, de incluir um glossário, indicando a identidade das personagens e locais onde transcorrem as ações, e uma linha de tempo, que se estende desde o protouniverso, como é denominado, até o século XXI da era cristã. A extensão do arco temporal da história, por sua vez, sugere a abrangência do projeto: o romance narraria desde a criação do mundo até sua destruição, reprisando, de uma parte, o tema de livros bíblicos, como o Gênesis, no Pentateuco, e o Apocalipse. Spohr, porém, não se contenta com a mitologia judaico-cristã, enriquecendo-a com contribuições das mitologias greco-romana, persa e egípcia. A batalha do apocalipse inclui, pois, grande contingente de referências da cultura elevada e tradicionais, a que se somam elementos do mundo pop, difundidos por intermédio dos meios de comunicação de massa. De uma parte, ressoam informações importadas de epopeias clássicas, como A divina comédia, de Dante Alighieri, e de O paraíso perdido, de John Milton; de outro identificam-se processos de representação utilizados em filmes como a saga de George Lucas, Guerra nas estrelas, exibida entre os anos 1977 e 1985, e depois entre 1999 e 2005. O enredo gira em torno da eminência da batalha que levará o arcanjo Miguel a substituir Yahweh, Criador que deu origem aos arcanjos, ao mundo e ao homem, e depois descansou, no sétimo dia. No âmbito dessa moldura, ressoam narrativas míticas que alimentaram a cultura ocidental. Mas Spohr introduz uma personagem fundamental, o renegado Ablon, que, com Miguel, combatera o arcanjo rebelde, Lúcifer, e seus seguidores, mas, depois, decepcionara-se com o novo senhor dos céus. Por isso, é expulso do convívio dos arcanjos e querubins, sendo jogado à Terra – ou Haled, como referida no texto –, quando perde sua condição etérea e materializa-se. É a Ablon que compete evitar que os dois arcanjos – Miguel, por um lado, Lúcifer, por outro – concretizem suas respectivas e sinistras metas. É, pois, o protagonista do romance, mas não age sozinho, contando com a eficaz e nunca dispensável ajuda de Shamira, a feiticeira que, como ele, atravessa os séculos sem mudar de aparência, nem de idade. Para seus inimigos, que governam de modo absoluto seus reinos – o dos Céus e o subterrâneo – Ablon é um renegado e um pária; mas, para o narrador e o leitor, trata-se de um ser pleno de virtudes e de princípios éticos, e que, mesmo nas situações mais perigosas, nunca esmorece. Corresponde, assim, a um autêntico herói, e suas fragilidades – o amor, a insegurança que o leva a duvidar de suas potencialidades, a sociedade com outras personagens igualmente carentes de força física e poder – não o impedem de levar sua tarefa ao final. Por seu enredo, personagens, tema e presença de deuses, feiticeiras e objetos mágicos, A batalha do apocalipse aproxima-se da narrativa épica: a de tradição clássica, de uma parte, e, de outra, a que a cultura de massas estimulou e que mantém vivo aquele gênero. Sua integração à fantasy fiction decorre não apenas desses fatores, mas também da apropriação de procedimentos característicos. Entre esses, verificam-se a simultaneidade de tempos, facultando a fusão entre o passado e o presente, o trânsito entre espaços míticos (Babel, Atlântida, a Jerusalém sagrada das Escrituras cristãs, o inferno) e realistas (o Rio de Janeiro, com suas praias e metrôs), a passagem da morte à ressurreição e a ocorrência de metamorfoses fantásticas. Essas características confirmam a marca talvez mais saliente da fantasy fiction produzida no Brasil – seu hibridismo radical, pois se constrói a partir da soma e integração entre contribuições diversas, oriundas da cultura elevada e popular, do erudito e do folclórico, do clássico e do pop. Por consequência, talvez a fantasy fiction realize, melhor do que qualquer outro tipo de produçãoliterária, a ambicionada antropofagia dos modernistas, alargando, como sugere Raphael Draccon no trecho transcrito antes, suas fronteiras para além da elite intelectual em que primeiramente foi concebida. 2. Herança e transformação da liberação feminina Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos – declarou a personagem de meu romance As meninas. Lygia Fagundes Telles [150] Ao lado da fantasy fiction, outro gênero que supera a tradicional circulação escolar de livros para jovens é representado por obras assinadas por mulheres e que contam histórias que envolvem ambientes femininos. Este gênero, como se apontou a propósito da fantasy fiction, tem reconhecida tradição. Em 1868, Louise May Alcott (1832-1888), escritora norte- americana e militante feminista, publicou seu livro de maior sucesso: Little Women, Mulherzinhas, na tradução brasileira, protagonizado por Jo Marsch, a garota que, junto com sua família (a mãe e as irmãs), precisa sobreviver economicamente em um período em que os Estados Unidos, sua pátria, estão divididos pela guerra civil. Três anos antes dessa novela, em 1865, o britânico Lewis Carroll lançara Alice no país das maravilhas, narrativa igualmente liderada por uma menina, mas de natureza bastante diversa: o universo de Alice, como anuncia o título do livro, é predominantemente imaginário, e até onírico, conforme sugere o fechamento da história, enquanto que o de Jo Marsch é realista. As duas obras, publicadas quase simultaneamente, representam, desde seu lançamento, tendências que tomarão a literatura para jovens. Alice no país das maravilhas sinaliza a preferência pela fantasia, estendendo ao máximo os limites da imaginação e promovendo experiências na linguagem e na sintaxe narrativa. Pertence ao âmbito da literatura infantil, ainda que, como já se observou, o vanguardismo de sua apresentação motive muitos historiadores da literatura a excluí-la daquele cânone, por julgá-lo menor, inscrevendo-o na categoria mais geral de arte literária. Contudo, a obra de Carroll teve seus sucessores entre escritores dedicados às crianças, de que são exemplos o norte-americano L. Frank Baum (1856-1919), de O fantástico mágico de Oz (1900), narrativa comandada não pela personagem do título, mas pela garota Dorothy, e o inglês James M. Barrie (1860-1937), de Peter Pan, em que se destaca, ao lado do protagonista que dá nome à narrativa, a menina Wendy. No Brasil, seu seguidor mais próximo parece ter sido Monteiro Lobato, na primeira metade do século XX, criador do igualmente fantástico Sítio do Picapau Amarelo. Mulherzinhas, voltada provavelmente para adolescentes e jovens adultas, nem sempre foi considerada literatura juvenil, categoria aliás inexistente ao tempo tanto de sua publicação original quanto de sua tradução no Brasil (1934). Seu grande sucesso deu margem à literatura feminina, que se expandiu de modo notável ao final do século XIX e começo do século XX. O sucesso dos romances assinados por M. Delly (pseudônimo dos irmãos Frédéric Henri Petitjean de la Rosiére (1870-1949) e Jeanne Marie Henriette Petitjean de la Rosiére (1875-1947), e no Brasil conhecido inadvertidamente como Madame Delly), é indício da robustez do gênero, em nosso país, impresso pela Companhia Editora Nacional, por meio da Biblioteca das Moças, em circulação a partir da década de 1920. Compõe ainda esse conjunto a bem sucedida história de Poliana (1913), criação da também norte-americana Eleanor Hodman Porter (1868-1920). Esse filão de livros, em cujo centro transitam figuras femininas, gozou sempre de sucesso de público, de que são exemplos a obra da prolífica Barbara Cartland (1901-2000) e, mais recentemente, as novelas açucaradas de Danielle Steel. Consumidas sobretudo por mulheres, essas autoras circulam igualmente entre o público jovem. O novo leitorado feminino fortaleceu e remoçou o gênero de que faz parte Mulherzinhas, que retomou seu impulso a partir dos anos 1990, representado por autoras de grande vendagem em todo o mundo. Exemplares são a irlandesa Marian Keyes, cujos livros Melancia (2003), Férias (2004) e Sushi (2004), já alcançaram mais de 22 milhões de exemplares impressos, a norte-americana Meg Cabot, autora da série Diário da princesa (2002) e de O livro da princesa (2013), este elaborado em parceria com a brasileira Paula Pimenta, e a britânica Sophie Kinsella, criadora da consumista Becky Bloom. Os traços em comum entre essas três escritoras não se resumem à circunstância de terem nascido durante a década de 1960, isto é, à época dos movimentos emancipacionistas femininos. A tendência dessa chicklit, a um tanto pejorativa denominação norte-americana do gênero, aparentemente sem equivalente vernáculo, parece ainda ter usufruído dos resultados do movimento liderado pela militante Betty Friedan (1921-2006): liberação sexual, igualdade de gênero e oportunidades de trabalho equivalentes no campo profissional masculino. Talvez seja este o pano de fundo que viabiliza a criação de narrativas protagonizadas por garotas e jovens que, ainda quando têm pela frente apenas dilemas amorosos, precisam valorizar sua identidade feminina, a capacidade de solucionar problemas e a possibilidade de não perderem a independência, mesmo quando o enredo as coloca perante o casamento e a constituição de uma família no contexto da sociedade moderna. Traduções dessas autoras aparecem, com bastante sucesso, nos catálogos das editoras brasileiras. Concorrem com produção nacional de teor equivalente, evidenciando uma resposta local a uma vertente de ampla aceitação mundial, o que pode marcar a maturidade desse segmento em nosso país. Esse segmento pode ter começado com as histórias de Glorinha, publicadas por Isa Silveira Leal a partir de 1959 (Glorinha, 1959; Glorinha bandeirante, 1964; Glorinha e a quermesse, 1965), anunciando o protagonismo feminino na literatura brasileira para jovens. Expandiu-se com Thalita Rebouças, que soma mais de um milhão e meio de volumes impressos. Esta cifra, que pode parecer pequena no contexto internacional de vendas de obras adolescentes, é notável para padrões brasileiros, o que aparentemente confere à autora a liderança em termos cronológicos e financeiros. Seus livros mais conhecidos pertencem à coleção “Fala sério”, cujos títulos foram lançados entre 2003 e 2012, protagonizados pela adolescente Malu. Cada um dos volumes tematiza um tópico do mundo jovem – a relação com os pais, com o professor, com os amigos – apresentado sob a forma de crônicas, que, colocadas temporalmente em sequência, formam a biografia da personagem, pelo menos no que diz respeito ao tema escolhido: conflito de gerações, relacionamentos na escola, namoros divididos entre o ‘pegar’ e o ‘ficar’. Malu sintetiza um certo modelo de jovem brasileira: residindo na Tijuca, bairro do Rio de Janeiro situado entre a sofisticada Zona Sul e a mais proletária Zona Norte, tipifica a classe média urbana nacional; é filha de pais separados, cujo rompimento não impede um relacionamento amistoso, e que trabalham com relativa tranquilidade em suas respectivas profissões. Malu frequenta escola particular, como em Fala sério, professor!, de 2008, e os problemas com que se depara podem incluir a amizade ou rivalidade com moças de sua idade, paixões de curta duração por professores homens, a aceitação das fragilidades emocionais das professoras mulheres. A crônica, digamos, mais contestadora naquele volume é a que narra o movimento, liderado por Malu, contra o aumento do preço dos lanches na cantina do colégio. De resto, estão ausentes questões mais amplas, como as de ordem política, reivindicações salariais, contrastes sociais entre mais ricos e não tão ricos (grupo a que pertence a protagonista) ou entre a burguesia ascendente (de novo: grupo a que pertence Malu) e as classes despossuídas. A violência urbana, a infância abandonada, a degradação do transporte e da saúde pública, a poluição das cidades – enfim, os temas frequentes de uma agenda, digamos de novo, maisprogressista – estão ausentes dos livros. A narrativa é ágil, desenrola-se em uma sucessão quase ininterrupta de episódios, já que a narradora se limita a discretas intervenções ou comentários em um registro linguístico similar ao usualmente empregado pelos leitores. Destaca-se ainda a presença do humor a cada passo do relato, de que é exemplar, em Fala sério, professor!, a crônica “Comida é pasto”, em que Malu faz cômica incursão ao universo vegano da alimentação alternativa. Em Fala sério, professor!, as histórias são apresentadas em primeira pessoa, em flashback, manifestando pendor memorialístico, já que a narradora faz questão de destacar que recorda episódios de sua vida escolar. Seus comentários enfatizam que ela hoje não é mais a pessoa que foi antes, mas encara esse passado com otimismo, simpatia e bom humor. Por outro lado, os hábitos e atitudes pretéritas aparentemente não estão muito distantes, pois, a cada passo, leitores contemporâneos podem reconhecer-se em comportamentos, linguagem e aspirações. Esse competente jogo entre os tempos importa muito para a aceitação do livro junto a seu leitor. A narradora assume não ter a mesma idade, nem a mesma maturidade de sua personagem, já que rememora, analisa e julga o ocorrido; esse, porém, equivale ao hoje do leitor, que, assim, iguala-se à personagem pela faixa etária, embora possa simultaneamente projetar-se na narradora em termos de maturidade. A juventude do leitor contamina a narradora, caso contrário não haveria comunicação entre eles, perenizando ao mesmo tempo o presente de ambos. É como se nada mudasse, e essa garantia de continuidade afiança a zona de conforto em que os livros se situam. A opção pela primeira pessoa é comum na literatura contemporânea, e não apenas no âmbito da literatura juvenil. A hipertrofia do eu, frequente na ficção tanto adulta quanto juvenil, parece abonar a verossimilhança e o realismo das obras: os temas e as ações expostas parecem verdadeiras, pois são narradas por quem delas participou. Correspondem, assim, ao que Paula Sibília chamou de “o show do eu”, em que a intimidade transforma-se em espetáculo. [151] Outra característica importante do livro é o modelo literário em que os relatos se inscrevem: a crônica, gênero com o qual a escola, desde o ensino fundamental, vem familiarizando as gerações mais jovens. A crônica parece o gênero sob medida para o leitorado que frequenta livros como os de Thalita Rebouças. Trata-se de textos não muito extensos e encerrados em si mesmos. Compete ao leitor a decisão de lê-los sequencialmente ou de modo randômico, ou até de abandonar o livro. Qualquer que seja a opção do leitor, fica excluída a noção de leitura interrompida e inconclusa. Assim, o leitor, sobretudo adolescente, depara-se com uma obra que se refere a seu mundo, reproduzido de um modo que oscila entre o realismo – da expressão linguística e dos hábitos expostos – e a idealização, já que desse universo estão excluídos conflitos radicais e insolúveis. Constitui-se, assim, uma modalidade de leitura sem culpa, sendo essa talvez outra das causas de seu sucesso entre jovens divididos entre tantos apelos de consumo cultural. O recurso ao texto breve justifica-se ainda por outra razão: assemelha-se àquele que vem sendo veiculado em blogs desde o começo do século XXI e que encontrou sucessores nas postagens do Facebook, Tumbrl, Twitter e Instagram. O usuário dessas mídias está habituado a redigir e acompanhar essa modalidade de texto e, digamos, gênero de discurso, o que o anima quando o reencontra em uma obra literária. Não surpreende, pois, quando textos originalmente difundidos em blogs migram para livros bem sucedidos, como faz Bruna Vieira (1994), em Depois dos quinze: quando tudo começou a mudar, de 2012. Seus textos não se assemelham aos de Thalita Rebouças: a narração, ágil e bem humorada desta é substituída, na obra de Bruna Vieira, pelo pendor intimista e reflexivo, com pretensões intelectuais e passagens retrospectivas, como na crônica de abertura, em que a narradora recorda o reencontro com um ex-namorado. Predomina, porém, o tom ponderado de quem tem experiência e parece querer compartilhá-la com o leitor, ainda quando esse não é invocado de modo ostensivo. Em “Se ele não mudar”, a narradora comenta seus namoros passados: “Se tem uma coisa que meus dois últimos namoros me ensinaram, é que o amor não deve nunca se transformar em obrigação.” [152] O discurso segue em formato de prescrição – “ninguém pode carregar o outro no colo e deixar todo o resto de lado” [153] –, frase que pode ser enunciada porque quem o faz já passou pelo problema, facultando a retomada da primeira pessoa: “Vai por mim, cobrança exagerada é, na verdade, falta de autoestima camuflada. Experiência própria.” [154] Observada de perto, por quem divide problemas desse tipo com o sujeito da enunciação, a frase aproxima-se da autoajuda, que se mostra tanto mais confiável porque provém da vivência de quem a expressa. A narradora ocupa a posição da amiga um pouco – mas não muito – mais velha, que pode dar conselhos e oferecer receitas com garantia de êxito, procedimento aceitável, aliás, porque conselheiro e aconselhado pertencem à mesma geração. Observado à distância, por outro lado, o estilo não difere do que se encontra em revistas femininas, onde, aliás, muitas autoras de livros para garotas começaram suas respectivas carreiras literárias. Bem sucedida entre o público juvenil é também Paula Pimenta, cuja série “Fazendo meu filme” vendeu, até 2012, mais de 100 mil exemplares. O primeiro volume, A estreia de Fani, foi lançado em 2008, e a ele seguiram-se outros cinco títulos protagonizados pela jovem Estefânia Castelino Belluz, a Fani do título, aluna do ensino médio, fã de cinema e autora do diário que o leitor acompanha por um ano. Essas características pautam o projeto da série assinada por Paula Pimenta: a identidade escolar de Fani estabelece de imediato o pacto de leitura com seu público, pertencente à faixa etária dos jovens adultos que, frequentando os últimos anos do ensino médio, precisam decidir que rumo(s) darão à sua vida futura. Fani, sob esse aspecto, não difere da Malu de Thalita Rebouças: divide-se entre amizades com garotas, namoros com rapazes, programas de final de semana e problemas – ou não – em sala de aula com professores e colegas. A indecisão amorosa é a primeira encruzilhada com que a jovem se depara, já que demora a reconhecer quem ocupará a posição de “verdadeiro amor”. Seu grande interesse, porém, é o cinema, e é a partir dele que sua própria existência parece entendida como um longa-metragem. Não por acaso cada entrada de seu diário é encimada pela citação de um diálogo extraído de um filme. Por sua vez, o repertório cinematográfico de Fani é próprio da juventude brasileira: predomina o gosto por fitas norte-americanas de enredos sentimentais ou de aventura, lideradas por atores e atrizes jovens e atraentes. Do ponto de vista gráfico, porém, não são as conquistas da Sétima Arte que predominam. Essas aparecem quase que exclusivamente nas vinhetas que ocupam o canto superior esquerdo da página, a propósito das entradas do diário. De resto, sobressai o emprego de recursos visuais ligados a suportes da escrita: o diário, a epígrafe, o uso de fontes gráficas variadas, a introdução de tabelas. Eventualmente Fani transcreve mensagens enviadas por correio eletrônico ou postagens, mas, ainda nesse caso, são alternativas da escrita que ocupam o desenvolvimento da narrativa. Ainda que a obra se denomine Fazendo meu filme, o resultado é um livro – e, no interior desse, a transcrição de um diário. Diários são outra modalidade de escritas do eu bastante frequente entre adolescentes, especialmente do sexo feminino. [155] O gênero tem um ilustre precursor no Brasil em Minha vida de menina (1942), de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant (1880- 1970). À diferença de que, conforme declarado pelos editores, essa obra mais antiga não teria sido redigida originalmente para ser publicada,excluindo-se assim o caráter ficcional do narrado. Fazendo meu filme, pelo contrário, supõe o compartilhamento do leitor e lida com acontecimentos fictícios. Mas sua inscrição em um gênero, o do diário, cuja tradição se supõe composta por narrações verídicas e confessionais, como o clássico Diário de Anne Frank (1947), assegura a verossimilhança e, ao afiançar a sinceridade da narradora, a jovem Fani, também garante a confiabilidade do discurso. O fato de que a personagem, tal como nas obras antes examinadas, constrói-se a partir do conhecimento dos comportamentos habituais e das aspirações da jovem da faixa etária pretendida como público, complementam a sintonia entre o livro e o leitor. A concretização dessa sintonia funda-se na reiteração das marcas já indicadas: pertença à classe média urbana brasileira, atritos entre pais e filhos que não são levados às últimas consequências, ausência da representação das zonas de conflito da vida contemporânea nacional. Mais uma vez ficam de fora a violência, a miséria, as drogas, as trangressões de modo geral. E entra em cena uma aspiração até aqui não manifestada: o desejo de emigração ou, pelo menos, de experimentar uma existência fora das fronteiras brasileiras. Assim, Fani candidata-se a um intercâmbio nos Estados Unidos, sendo bem sucedida em seus intentos. O término da narrativa não coincide tão somente com a descoberta do “verdadeiro amor”, mas também de um futuro – longe, porém, da pátria e da família. Concluir com um novo começo é igualmente oportunizar a continuidade da série e, com isso, fidelizar as leitoras, sócias prováveis dos sonhos internacionais da garota Fani. Fechando o livro “Esses fragmentos têm alguma ligação entre si?” perguntou-me um leitor. Respondo que são fragmentos do real e do imaginário aparentemente independentes, mas há um sentimento comum costurando uns aos outros no tecido das raízes. Eu sou essa linha. Lygia Fagundes Telles [156] É no leque de rumos sugerido nos quatro capítulos precedentes que este livro foi estruturando as perspectivas que, a nosso ver, direcionam o olhar por sobre os livros brasileiros para crianças e jovens em circulação nos últimos trinta anos. As tiragens gigantescas, os mercados diferenciados, a complexa convergência e divergência de projetos em curso, a pluralidade e intersecções de linguagens, marcam a literatura infantil e juvenil brasileira mais contemporânea que se oferece aos cinquenta milhões de brasileiros entre – digamos – sete e dezoito anos, exemplarmente catalogados em distintas (às vezes duvidosas e sempre flutuantes) faixas etárias e competências leitoras. Se comparada à relação existente entre oferta de exemplares e o número de seus presuntivos leitores em outros momentos de nossa história, os números que pesquisas contemporâneas registram são alvissareiros: medem indiscutível avanço na difusão da leitura no país, muito embora nem sempre esta leitura possa ser considerada competente. Corre na mesma clave o risco de retrocesso que vem à tona na esteira de determinações pedagógicas que, ao fazerem da literatura infantil aliada explícita da pedagogia, podem comprometer o caráter libertário que, a partir de Monteiro Lobato nos anos trinta do século XX e, depois dele, com os melhores de nossos escritores, vem assumindo a literatura brasileira para crianças e jovens. Dialeticamente, no entanto, o risco representado por esta tendência talvez se compense pelo surgimento de outras linhas de ação, como o apontado novo indianismo e, ao lado dele, a temática da cultura afrodescendente. Como ocorre com o que aqui se chama de novo indianismo, esta vertente também se fortalece tanto da grande força de movimentos sociais, como da priorização do tema em alguns editais de compras governamentais. Este avanço de condições de leitura do público – quantitativamente registrado – também se manifesta quando a atenção se volta para outros perfis da literatura infantil brasileira mais contemporânea. Se são corretas as observações aqui desenvolvidas a propósito da notável presença de procedimentos metalinguísticos e intertextuais na produção dos últimos anos, é razoável postular o domínio, no polo dos leitores, das competências necessárias para a interação com e fruição de tais recursos. Como, entre tais competências, se destaca a frequência aos livros, podemos esticar as conclusões possíveis para a eficiência da rede de instituições, eventos e publicações voltadas para o incremento da leitura, sobretudo entre a população escolar mais jovem. Outro aspecto também articulado aos números com que a área opera é o favorecimento da profissionalização de seus produtores. Com efeito, parece ser mais comum a profissionalização de escritores voltados para o público infantil e juvenil do que dos autores voltados para outros públicos. Esta profissionalização, forma moderna de o escritor inscrever-se no sistema literário, é, por sua vez, também responsável pela alta qualidade do gênero, que, como se apontou anteriormente, é reconhecida pela contínua premiação internacional de autores brasileiros. No mesmo sentido, é de registrar-se a força que, neste cenário positivo, pode ter o desenvolvimento da literatura infantil e juvenil enquanto área acadêmica de grande demanda, objeto de cursos e pesquisas. Este novo estatuto desfrutado pelos livros para crianças e jovens é bastante distinto do existente até as décadas de setenta/oitenta do século XX. Abandonando a simples transposição de procedimentos e epistemologias desenvolvido/as a propósito da literatura não infantil, o trabalho em andamento com livros para crianças e jovens vem encontrando suas próprias categorias de análise. Particularmente a visibilidade e importância da materialidade do livro voltado para leitores não adultos pode, inclusive, invertendo a tendência até hoje manifestada pelos estudos literários, patrocinar bem-vindos avanços nos estudos literários tout court, o que é marca decisiva da definitiva maturidade da literatura brasileira para crianças e jovens. referÊncias A TRIBUNA. Quem disse que brasileiro não lê?. Disponível em: . Acesso em: 01 de jul. de 2014. ABREU, Márcia (Org.). Trajetórias do romance: circulação, leitura e escrita nos séculos XVIII e XIX. Campinas: Mercado de Letras, 2008. ABREU, Márcia. Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado de Letras; ALB; São Paulo: FAPESP, 2003. ABREU, Márcia; BRAGANÇA, Aníbal (Org.). Impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Editora da UNESP, 2010. ABREU, Tâmara Maria Costa e Silva Nogueira de. O livro para crianças em tempos de Escola Nova: Monteiro Lobato & Paul Faucher. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2009. ALMEIDA, Gustavo Martins de. Lendo o leitor ou quem está lendo quem? Disponível em: . Acesso em: 14 de julho de 2014. ALMEIDA, Presciliana Duarte. Páginas infantis. São Paulo: Typografia Brazil de Rothschild & Co., 1910. p. 11-12. ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 2002. ANDRADE, Carlos Drummond de. Viola de bolso novamente encordoada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955. ANTUNES, Arnaldo. Uma coisa de cada vez. Disponível em: . Acesso em: 7 de jun. de 2015. ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. Ensaio de preliminares para sua história e suas fontes. São Paulo:, Melhoramentos, 1968. ASSIS, Machado de. Bons dias! Crônicas (1888-1889). Edição, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Hucitec; Editora da Unicamp, 1990. p. 101-102. AZEVEDO, Ricardo. Um homem no sótão. São Paulo: Melhoramentos, 1982. BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Jornal de Letras, 1954. p. 11. BEIGUELMAN, Giselle. O livro depois do livro. São Paulo: Peirópolis, 2003. BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. BRADBURY, Ray. Farenheit 451. São Paulo: Globo, 2009. BRANDÃO,Ignácio de Loyola. O menino que vendia palavras. 2. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. BRENMAN, Ilan; MORICONI, Renato. Telefone sem fio. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2010. CAMÕES, Luis de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. p. 501. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Momentos decisivos. 2. ed. revista. São Paulo: Martins, 1964. 2v. http://www.atribunanews.com.br/artigos/quem-disse-que-brasileiro-nao-le-karine-pansa http://www.publishnews.com.br/telas/colunas/detalhes.aspx?id=74033 CAPPARELLI, Sérgio. 33 ciberpoemas e uma fábula virtual. Ilustr. Marilda Castanha. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 18. CAPPARELLI, Sérgio; GRUSZYNSKI, Ana Cláudia. Ciberpoesia. Disponível em: . Acesso em: 30 de jul. de 2012. CAPPARELLI, Sérgio; GRUSZYNSKI, Ana Cláudia. Poesia visual. 3. ed. São Paulo: Global, 2002. CARRIÈRE, Jean-Claude; ECO, Umberto. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record, 2010. CAULOS. O segredo de Magritte. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. CHADWYCK-HEALEY, Charles. The New Textual Technologies. In: ELIOT, Simon; ROSE, Jonathan. A Companion to the History of the Book. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009 [2007]. CHARTIER, Roger. As revoluções da leitura no Ocidente. In: ABREU, Márcia (Org.). Leitura, história e história da leitura. São Paulo: FAPESP; Campinas: ALB; Mercado das Letras, 2000. CLARKE, Arthur C. Profiles of the future. Apud Eisenstein, Elizabeth. Divine art, infernal machine. The reception of printing in the West from first impressions to the sense of an ending. Philadelphia: Oxford: University of Pennsylvania Press, 2011. p. 248. COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil. História, Teoria, Análise. São Paulo, Quíron, Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1981. COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. 1882- 1892. São Paulo, Quíron, 1983. COLÉGIO WEB. População brasileira. Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014. CONGRESSO INTERNACIONAL DE GESTÃO DE TECNOLOGIA E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO, 2004, São Paulo. 1º CONTECSI. São Paulo: TECSI/FEA/USP, 2004. Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014. CUNHA, Leo. Perdido no ciberespaço. Disponível em: . Acesso em: 28 de ago. de 2012. CUNHA, Leo. Poemas animados. Disponível em: . Acesso em: 2 de ago. de 2012. DARNTON, Robert. A questão dos livros. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. DIAS, Gonçalves. Poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1959. p. 106. DRACCON, Raphael. Dragões de éter. 5. reimpressão. São Paulo: Leya, 2010. p. 81. ECO, Umberto. A memória vegetal. Rio de Janeiro: Record, 2011. EDITORA ATICA. Catálogo digital. Disponível em: . Acesso em: 02 de jan. de 2014. EDITORA ATICA. Catálogo digital. Disponível em: . Acesso em: 02 de jan. de 2014. http://www.ciberpoesia.com.br/ http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco http://www.leocunha.jex.com.br/livro+a+livro/perdido+no+ciberespaco http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados http://www.atica.com.br/SitePages/Obra.aspx?cdObra=2707 http://www.atica.com.br/Sitepages/Obra.aspx?cdObra=2842 EDITORA BIRUTA. Catalogo completo. Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. FOLHA DE SÃO PAULO. Em um dia, escritora iniciante vende todos os seus livros na Bienal. Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. FORUM NACIONAL PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO. Jovens puxam vendas e Bienal do Livro Rio faz seu melhor resultado. Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. FUNDO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO. Edital 01/2014 CGPLI. Disponível em: . Acesso em: 24 de jun. de 2014. FURNARI, Eva. Cacoete. São Paulo: Ática, 2005. GARCIA, Pedro Benjamim; DAUSTER, Tania (Org.). Teia de autores. Belo Horizonte, Autêntica. 2000. p. 84. GIL, Gilberto. Pela internet. Disponível em: . Acesso em: 20 de set. de 2014. GRUBER, Jussara Gomes (Org.). O livro das árvores. Benjamin Constant: Organização Geral dos Professores Ticuna; São Paulo: Global, 1999. p. 14. GULLAR, Ferreira. Bichos do lixo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. p. 3. INSTITUTO INDÍGENA BRASILEIRO PARA PROPRIEDADE INTELECTUAL. Nossa missão. In: Pequeno catálogo literário de obras de autores indígenas. S. l: NEFRAN (Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas do INBRAPI), s. d. INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da leitura no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 24 de abr. de 2012. INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da leitura no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 23 de abr. de 2012. IVO, Ledo. Antologia poética. Belo Horizonte: Leitura, 1965. p.112. JEKUPÉ, Olívio. Verá o contador de histórias. Il. das crianças guarani. São Paulo: Peirópolis, 2003. p. 28. KRISTEVA, Julia. Le mot, le dialogue et le roman. In: ___. Semeiotiquè. Recherches pour une sémanalyse. Paris: Seuil, 1969. LAGO, Angela. Chapeuzinho. Disponível em: . Acesso em: 2 de ago. de 2012. LAJOLO, Marisa (Org.). Monteiro Lobato livro a livro (obra adulta). São Paulo: UNESP, 2014. LAJOLO, Marisa. Usos e abusos da literatura na escola; Porto Alegre: Globo, 1982. LAJOLO, Marisa; Ceccantini, João Luís (Org.). Monteiro Lobato livro a livro. São Paulo: UNESP; Imprensa Oficial, 2008. LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996. http://www.editorabiruta.com.br/catalogo-completo http://www.fndc.org.br/clipping/jovens-puxam-vendas-e-bienal-do-livro-rio-faz-seu-melhor-resultado-928185/ http://www.youtube.com/watch?v=628zOWAy64g http://www.angela-lago.com.br/Chapeuzinho.html LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitura rarefeita. Livro e literatura no Brasil. São Paulo: Ática, 2002. LEITE, Sebastião Uchoa. O que a tartaruga disse a Lewis Carroll. In: CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice. Trad. e organização de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Summus; Rio de Janeiro: Fontana, 1977. p. 7. LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado. Ed. facsimilada. São Paulo: Metal Leve, 1982. LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado. São Paulo: Globo, 2007. Cf. Disponível em: . Acesso em: 28 de jan. de 2013. LOBATO, Monteiro. Histórias das invenções. In: ___. Serões de dona Benta e História das invenções. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1956. p. 287. MACHADO, Ana Maria. Procura-se lobo. São Paulo: Ática, 2005. MATTOSO, Glauco. Jornal dobrabil. São Paulo: s. e., 1981. MAXACALI. O livro que conta histórias de antigamente. Belo Horizonte: MEC/SEE-MG; Projeto Nordeste / PNUD, 1998. McCAIN, Murray; ALCORN, John. Livros! Trad. Rodrigo Lacerda e Mauro Gaspar. Rio de Janeiro: Pequena Zahar, 2014. MEIRELES, Cecília. Problemas de literatura infantil. 2. ed. São Paulo, Summus, 1979. MELLO, Gustavo. Desafios para o setor editorial brasileiro de livros na era digital. Economia da Cultura. BNDES Setorial 36, p. 450. Disponível em: .Acesso em: 21 de mai. de 2014. MELLO, Gustavo. Desafios para o setor editorial brasileiro de livros na era digital. Economia da Cultura. BNDES Setorial 36, p. 450. Disponível em: . Acesso em: 21 de mai. de 2014. MELLO, Roger. Nau catarineta. Rio de Janeiro: Manati, 2004. MELLO, Roger. Zubair e os labirintos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2007. MELO NETO, João Cabral. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. MENDES, Murilo. Convergência. São Paulo: Duas Cidades, 1970. MENDES, Murilo. Convergência. São Paulo: Duas Cidades, 1970. In: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Acervo de literatura chegará a 85,2 mil unidades de ensino. Disponível em: . Acesso em: 25 de nov. de 2012. MINISTERIO DE EDUCACIÓN. Ver par leer. Acercándonos al libro album. Santiago de Chile: Unidad de Curriculum y Evalución, [2009]. http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:XnlpYy8MUwgJ http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/bnset/set3612.pdf+&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:XnlpYy8MUwgJ http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/bnset/set3612.pdf+&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br http://gilvanmelo.blogspot.com.br/2013/03/texto-de-consulta-murilo-mendes.html MONTEIRO, Manoel. Conheça o enigma das inscrições rupestres do Lajedo Pai Mateus. Campina Grande: Fundação de Cultura e Esportes, 2002. MORAES, André Carlos. Entre livros e e-books: a apropriação de textos eletrônicos por estudantes ingressados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2011. Porto Alegre: Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação, 2012 (dissertação de mestrado). MORAES, Odilon; HANNING, Rona; PARAGUASSU, Maurício. Traço e prosa: entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rosa Hanning e Maurício Paraguassu. São Paulo: Cosac Naify, 2012. MUNDURUKU, Daniel. As serpentes que roubaram a noite e outros mitos. Il. das crianças Munduruku da aldeia Katô. São Paulo: Peirópolis, 2001. p. 19. MUNDURUKU, Daniel. Coisas de onça. São Paulo: Mercuryo Novo Tempo, 2011. p. 5. MURRAY, Janet H. Hamlet no Holodeck. O futuro da narrativa no ciberespaço. Trad. Elisa Khoury Daher e Marcelo Fernandes Cuzziol. São Paulo: Editora UNESP; Itaú Cultural, 2003. p. 41. NASCIMENTO, José Augusto. Literatura infantil e cultura hipermidiática. Relações sócio- históricas entre suportes textuais, leitura e literatura. São Paulo: Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, 2009 (dissertação de mestrado). NÓBREGA, Antonio. Chegança. Disponível em: . Acesso em: 02 jul. de 2014. NOTÍCIA JATO. Bienal do livro termina com mais jovens e vendas maiores. Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. NUNBERG, Geoffrey (Org.). El futuro del libro. Barcelona e Buenos Aires: Paidós, 1998. PADRINO, Jaime Garcia (Coord.). Gran diccionario de autores latinoamericanos de literatura infantil e juvenil. Madri: Fundacción SM, 2010. PALÁCIO DO PLANALTO. LEI Nº 11.645. Disponível em: . Acesso em: 03 jan. de 2014. PALÁCIO DO PLANALTO. LEI Nº 6.001. Disponível em: . Acesso em: 03 jan. de 2014. PINSKY, Luciana. Do papel ao digital. Como as novas tecnologias desafiam a função do editor de livros de história. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013 (dissertação de mestrado). POMPÉIA, Raul. O Ateneu. In: ___. Obras. Organização e notas de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Oficina Literária Afrânio Coutinho; Brasília: FENAME, 1981. V. 2, p. 32-33. RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 17. ed. São Paulo: Martins, 1972. p. 61. RÉGIO, José. Cântico negro. Disponível em: . Acesso em: 10 de set. de 2016. REPORTERNEWS. Disponível em: . Acesso em: 4 de dez. de 2012. REYNOLDS, Kimberley. Radical Children’s Literature. Future Visions and Aesthetic Transformations in Juvenile Fiction. New York: Palgrave Macmillan, 2010 [2007]. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp http://www.reporternews.com.br/noticia.php?cod=368586 SANTOS, Joel Rufino et al. História Nova do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1965. v.I,p.XI SCHNAPP, Jeffrey T.; BATTLES, Matthew. The library beyond the book. Cambridge; London: Harvard University Press, 2014. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural, orientação sexual. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: . Acesso em: 03 jan. de 2014. SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS.O comportamento do setor editorial brasileiro, de anos diversos (FIPE, CBL, SNEL). Disponíveis em: . Acesso em: 30 de ago. de 2016. SMITH, Lane. É um livro. Trad. Julia Moritz. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2010. SOUZA, Angela Leite de. Entre linhas. Belo Horizonte: Lê, 2013. TAVARES, Otávio Guimarães. Elementos (do Amor): breve leitura de alguns elementos da obra digital Amor de Clarice. In: RIBEIRO, Ana Elisa; VILLELA, Ana Maria Nápoles; COURA SOBRINHO, Jerônimo; SILVA, Rogério Barbosa da. Leitura e escrita em movimento. São Paulo: Peirópolis, 2010. TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor (memória e ficção). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 192. THOMAS, Sue; JOSEPH, Chris; LACCETTI, Jess; MASON, Bruce; MILLS, Simon; PERRIL, Simon; PULLINGER, Kate. Tranliteracy: Crossing divides. In: First Monday. V. 12, n. 12. 3 Dezembro de 2007. Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. THOMPSON, John B. Mercadores de cultura. O mercado editorial do século XXI. Trad. Alzira Allegro, São Paulo: Editora UNESP, 2013. TOQUINHO; MORAES, Vinícius de. Aquarela. Disponível em: . Acesso em: 03 out. de 2014. TORAL, André Amaral; PAULA, Eunice Dias de; PAULA, Luiz Gouvêa (Coord.). Xanetawa parageta. Histórias das nossas aldeias. Comunidade Tapirape. São Paulo: MARI; Brasília: MEC/SEF, 1996. p. 35. TOZZI, Juliana Bernardes. Livro infantil no Brasil (2007-2008): marcas em circulação, catálogos de divulgação e infâncias anunciadas. Campinas: Faculdade de Educação, UNICAMP, 2011 (dissertação de mestrado). TOZZI, Juliana Bernardes. Uma aproximação às ideias de infância que acompanham catálogos editoriais de livros para leitores em formação. In: LINS, Heloísa Andreia de Matos. Leitores na contramão. Campinas: Leitura Crítica, 2012. UOL. Raphael Draccon fala sobre seu novo livro e projetos futuros. In: . Acesso em: 11 de jun. de 2015. VARGAS, Maria Lucia Bandeira. O fenômeno fanfiction. Novas leituras e escrituras em meio eletrônico. Passo Fundo: UPF Editora, 2005. VEJA. Balanço da Bienal do Livro 2013: a vez dos infantojuvenis. Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. VELOSO, Caetano. Livros. Disponível em: .[8] 1. Pode haver “livro depois do livro”? [9] Todas as principais formas de representação dos primeiros 5 mil anos da história humana já foram traduzidas para o formato digital. Não há nada criado pelo homem que não possa ser representado nesse ambiente multiforme: das pinturas no interior das cavernas de Lascaux às fotografias de Júpiter feitas em tempo real; dos pergaminhos do Mar Morto ao primeiro exemplar de Shakespeare; das maquetes de templos gregos pelas quais se pode passar aos primeiros filmes de Edison. E o reino digital assimila, o tempo todo, mais capacidades de representação, à medida que pesquisadores tentam construir dentro dele uma realidade virtual tão densa e tão rica quando a própria realidade. Janet H. Murray [10] Em 2007, a Editora Globo, a partir de então detentora dos direitos autorais de Monteiro Lobato (1882-1948), lançou versão eletrônica de A menina do narizinho arrebitado. [11] O e-book contém 56 telas, permitindo aos leitores acessar as primeiras aventuras da neta de Dona Benta no reino das Águas Claras por meio de texto verbal e visual, e de sons e figuras em movimento. Com ilustrações de Rogério Borges (Figura 1), o enredo retoma o capítulo inicial do livro que, originalmente de 1920, foi reescrito para a edição de 1931 de Reinações de Narizinho, obra que reúne várias das histórias publicadas isoladamente ao longo da década anterior. É muito sugestivo que uma das primeiras obras brasileiras – se não a primeira – efetivamente interativa, digital, multi e hipermidiática relance o livro de estreia do escritor mais importante – e para muitos o fundador – da literatura infantil nacional. Como sublinha Vladimir Sacchetta na apresentação, esta versão em suporte digital patrocina “um mergulho na fantasia”. Ambientada em cenários predominantemente aquáticos, a história se desenrola em telas que alternam a imagem de páginas convencionais e as que representam água (Figura 2). Ao toque de dedos (e, às vezes, prescindindo deste gesto do leitor), algumas telas são cruzadas por figuras que se movem (peixes, folhas, uma carruagem, apresentação de vestidos a Narizinho) sendo acompanhadas de músicas (cenas de bailes) e de sons relativos aos episódios narrados (o espirro de Narizinho, gotas que caem, zumbido de abelhas e de motores). Globo Livros/ © Monteiro Lobato, 2007 Figura 1 Globo Livros/ © Monteiro Lobato, 2007 Figura 2 Na cena final da história – o despertar de Narizinho –, um belo recurso de dissolução de telas: a cena subaquática desmancha-se e, em seu lugar, emerge a tela inicial de Narizinho sentada à beira do ribeirão no fundo do qual se passa(ra)m as aventuras. O texto, conforme a editora, “teve como base a edição de 1920”, incluindo, pois, passagens descartadas em versões posteriores, como, por exemplo, a irreverente cena em que um Fr. Louva a Deus dá a extrema unção a uma barata moribunda. [12] A omissão desta passagem em edições posteriores à primeira deveu-se provavelmente à carta, a seguir reproduzida, que o escritor recebeu do amigo, então Diretor da Instrução Pública do Ceará e professor da Escola Normal de Fortaleza, Lourenço Filho (1897- 1970), alertando-o para o desagrado de autoridades educacionais com a irreverência religiosa e os consequentes riscos de um possível encalhe do livro: Lobato, V. não tem razão. A esta hora já terá recebido o jornal com a nota oficial da aprovação e adoção dos seus livros, bem como do Dr. Doria. E veja como V. é ingrato: o único embaraço na minha ação, aqui, foi exatamente o resultado da aprovação de Narizinho arrebitado. O clero me moveu tremenda guerra, sob o pretexto de que a adoção do livro visava ridicularizar a sagrada religião católica. Foi preciso, para manter a aprovação, que eu inventasse haver uma 2ª edição, sem os inconvenientes da primeira. Lembra-se V. de que lhe falei sobre aquele tópico do frei com os sacramentos etc. Esse tópico, aí mesmo, ofendeu a muitos professores. V. só terá vantagens em suprimi-lo, quando reeditar o livro. (...) Abraços. Saudade aos camaradas. Lourenço Filho. [13] Sensível a questões tanto literárias quanto financeiras, o escritor seguiu o conselho e, a partir de então, omitiu a cena nas outras edições do livro. Foi esse, talvez, seu primeiro – e posteriormente constante – gesto de reescrita de sua própria obra ao longo de suas inúmeras reedições. [14] A questão da reescrita, tão rica e importante na trajetória da obra lobatiana, parece excelente entrada para propor uma reflexão sobre a literatura infantil brasileira mais contemporânea. O recente aparecimento de e-books e de e-readers, e as consequências disto para o livro de papel, para a leitura e a literatura, são temas que têm (pre)ocupado quase todos os que se movem pela cidade das letras. É instigante a escolha da primeira obra do escritor pioneiro na modernização da literatura infantil brasileira enquanto título comercialmente inaugural na utilização plena e recorrente de recursos digitais no âmbito de livros e de leituras. Sugere as nuances da dialética entre continuidade e ruptura que, como grande interrogação, pontua debates recentes sobre alterações que a cultura digital imprimirá – ou já está imprimindo – à cultura do impresso. E, quando se diz cultura do impresso,talvez já se esteja, metonimicamente, dizendo cultura ocidental. Sintomático do encaminhamento polêmico da questão livro impresso versus digital é a obra É um livro, [15] do escritor e ilustrador norte-americano Lane Smith, publicada originalmente em 2010, traduzida no Brasil no mesmo ano e premiada, na categoria Tradução/Adaptação, pela Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil (FNLIJ). À sua maneira, ela traz para primeiro plano o desconforto que o aparecimento de e-readers acarreta às vezes para alguns nativos e cidadãos plenos do mundo do impresso. De forte cunho metalinguístico, a história é um diálogo seco, apresentado em balões como os que pontuam histórias em quadrinhos, entre duas figuras de feições animais: um macaco e um burro. Uma delas, o macaco, é grande; a outra, o burro, é pequena. Esta, ao ver que a primeira segura um livro, manifesta, através de perguntas, sua completa falta de familiaridade com tal objeto. O macaco (um adulto?), representante de indivíduo habituado ao mundo do impresso e talvez figura insatisfeita com o mundo digital, responde, de modo impaciente e nem sempre bem humorado, às perguntas da figura menor (uma criança?). A obra inscreve-se no discurso contemporâneo de valorização do livro impresso, e o faz de forma categórica e incisiva, que parece desqualificar outros suportes de leitura. Tal estratégia, no entanto, talvez produza efeito oposto ao pretendido. Ao desqualificar o interlocutor menor, destinatário presuntivo da obra e por hipótese familiarizado com o mundo digital, é bem possível que É um livro hostilize boa parte do segmento de mercado ao qual se dirige. A versão original norte-americana dessa obra inclui postagem no YouTube, [16] dinâmica e divertida. A duplicidade de linguagens, a impressa e a digital, parece sinalizar evidente contradição, pois a superioridade do impresso parece ser comprovada por uma demonstração via formato digital, em tese superior àquele, mas não na prática. Se o atual surgimento e difusão de e-books e e-readers é o contexto ao qual se articula a obra de Lane Smith, não deixa de ser singular a argumentação monolítica pela qual nela se faz a defesa do antigo suporte da escrita. Bastante distinta é a forma de antecipar a questão nos versos de alguns poetas brasileiros, que se ocuparam do livro quando a cultura digital ainda não fazia parte do horizonte. De que livro falavam eles? 2. “Que coisa é o livro?” Nada é novo sobre a terra nem permanece hodierno Logo fica obsoleto o que agora é moderno Se hoje vai sendo ontem só o futuro é eterno. Manoel Monteiro [17] Talvez se possa afirmar que a literatura nasceu quando começou a era do livro. Antes dele, havia a poesia, o gesto, a imagem, o som, que se produziam e eram transmitidos por meio da voz,Acesso em: 14 de jul. de 2014. VENTURELLI, Paulo; LOPES, Odilon. Maçãs argentinas. Curitiba: Positivo, 2013. VIDAL, Lux (Org.). Grafismo indígena. Ensaios de Antropologia Estética. São Paulo: Studio Nobel; EDUSP; FAPESP, 1992. VIEIRA, Bruna. Depois dos quinze: quando tudo começou a mudar. 3. ed. Belo Horizonte, Gutenberg, 2013. YAMÃ, Yaguarê. Sehaypóri: o livro sagrado do povo Saterê-Mawé Yaguarê Yamã. São Paulo: Peirópolis, 2007. ZERO HORA. Com apenas 26% de leitores plenos, país precisa “correr atrás” da formação de mediadores, diz representante do MinC. Disponível em: . Acesso em: 09 de set. de 2014. ZOTZ, Werner. Apenas um curumim. 6. ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982. http://www.letrasdemusicas.com.br/caetano-veloso/livros/ http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2013/08/com-apenas-26-de-leitores-plenos-pais-precisa-correr-atras-da-formacao-de-mediadores-diz-representante-do-minc-4249829.html [1] SANTOS, Joel Rufino et al. História Nova do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1965. V. I, p. XI. [2] CAMÕES, Luis de. “Sôbolos rios que vão”. In: ___. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. p. 501. [3] Cf. MEIRELES, Cecília. Problemas de literatura infantil. 2. ed. São Paulo, Summus, 1979. [4] Cf. ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. Ensaio de preliminares para sua história e suas fontes. São Paulo, Melhoramentos, 1968. [5] Cf. COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil. História, Teoria, Análise. São Paulo, Quíron, Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1981. [6] Cf. COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. 1882-1892. São Paulo, Quíron, 1983. [7] Cf. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Momentos decisivos. 2. ed. revista. São Paulo: Martins, 1964. 2v. [8] Traço e prosa: entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rosa Hanning e Maurício Paraguassu. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 238. [9] Cf. BEIGUELMAN, Giselle. O livro depois do livro. São Paulo: Peirópolis, 2003. [10] MURRAY, Janet H. Hamlet no Holodeck. O futuro da narrativa no ciberespaço. Trad. Elisa Khoury Daher e Marcelo Fernandes Cuzziol. São Paulo: Editora UNESP; Itaú Cultural, 2003. p. 41. [11] LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado. São Paulo: Globo, 2007. Cf. Disponível em: . Acesso em: 28 de jan. de 2013. [12] Cf. LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado. Ed. facsimilada. São Paulo: Metal Leve, 1982. p. 16. [13] BR UNICAMP CEDAE FML Mlb 3.2.00284 cx 6. [14] Cf. Lajolo, Marisa; Ceccantini, João Luís (Org). Monteiro Lobato livro a livro. São Paulo: UNESP; Imprensa Oficial, 2008. E Lajolo, Marisa (Org). Monteiro Lobato livro a livro (obra adulta). São Paulo: UNESP, 2014. [15] SMITH, Lane. É um livro. Trad. Julia Moritz. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2010. Sobre a natureza e, digamos, superioridade do livro impresso, v. também McCAIN, Murray; ALCORN, John. Livros! Trad. Rodrigo Lacerda e Mauro Gaspar. Rio de Janeiro: Pequena Zahar, 2014. [16] Cf. Disponível em: . Acesso em: 2 de ago. de 2012 [17] MONTEIRO, Manoel. Conheça o enigma das inscrições rupestres do Lajedo Pai Mateus. Campina Grande: Fundação de Cultura e Esportes, 2002. [18] Cf. CHARTIER, Roger. As revoluções da leitura no Ocidente. In: ABREU, Márcia (Org.). Leitura, história e história da leitura. São Paulo: FAPESP; Campinas: ALB; Mercado das Letras, 2000. http://www.youtube.com/watch?v=XwoW9hnB4vY [19] José Olympio Pereira Filho (1902-1990 ) fundou, em 1931, a Casa José Olympio Editora, uma das mais importantes editoras brasileiras do século XX, tendo publicado boa parte da obra de Carlos Drummond de Andrade. Atualmente faz parte da Grupo Editorial Record. [20] ANDRADE, Carlos Drummond de. A José Olympio. In: ___. Viola de bolso novamente encordoada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955. p. 59. Reproduzido em ANDRADE, Carlos Drummond de. A José Olympio. In: ___. Viola de bolso I. Poesia completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 2002. p. 330-331. © Grana Drummond. www.carlosdrummond.com.br [21] MELO NETO, João Cabral. O poema. In: ___. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 76-77. © by herdeiros de João Cabral de Mello Neto. [22] MELO NETO, João Cabral. Para a feira do livro. In: ___. Op. cit. p. 367. © by herdeiros de João Cabral de Mello Neto. [23] MELO NETO, João Cabral. Psicologia da composição. In: ___. Op. cit. p. 93. © by herdeiros de João Cabral de Mello Neto. [24] Almeida, Presciliana Duarte. Páginas infantis. São Paulo: Typografia Brazil de Rothschild & Co., 1910. p. 11-12. [25] Cf. ABREU, Tâmara Maria Costa e Silva Nogueira de. O livro para crianças em tempos de Escola Nova: Monteiro Lobato & Paul Faucher. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2009. V. também MINISTERIO DE EDUCACIÓN. Ver par leer. Acercándonos al libro album. Santiago de Chile: Unidad de Curriculum y Evalución, [2009]. [26] Bandeira, Manuel. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Jornal de Letras, 1954. p. 11. [27] IVO, Ledo. Antologia poética. .Belo Horizonte: Leitura, 1965. p. 112. [28] GIL, Gilberto. Pela internet. Disponível em: . Acesso em: 20 de set. de 2014. © Gege Edições / Preta Music (EUA e Canadá) [29] Cf. KRISTEVA, Julia. Le mot, le dialogue et le roman. In: ___. Semeiotiquè. Recherches pour une sémanalyse. Paris: Seuil, 1969. [30] Foi Ted Nelson (Theodor Holm Nelson, 1937) quem, entre 1963 e 1965, cunhou os termos hipertexto e hipermídia. Cf. MURRAY, Janet H. Op. cit. p. 94. V. também CHADWYCK-HEALEY, Charles. The New Textual Technologies. In: ELIOT, Simon; ROSE, Jonathan. A Companion to the History of the Book. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009 [2007]. [31] Cf. VARGAS, Maria Lucia Bandeira. O fenômeno fanfiction. Novas leituras e escrituras em meio eletrônico. Passo Fundo: UPF Editora, 2005. [32] Cf. BRADBURY, Ray. Farenheit 451. São Paulo: Globo, 2009. [33] Cf. NUNBERG, Geoffrey (Org.). El futuro del libro. Barcelona e Buenos Aires: Paidós, 1998. CARRIÈRE, Jean-Claude; ECO, Umberto. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record, 2010. DARNTON, Robert. A questão dos livros. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. ECO, Umberto. A memória vegetal. Rio de Janeiro: Record, 2011. SCHNAPP, Jeffrey T.; BATTLES, Mathew. The library beyond the book. Cambridge; London: Harvard University Press, 2014. http://www.carlosdrummond.com.br/ http://www.youtube.com/watch?v=628zOWAy64g [34] Relativa à produção literária em meio digital, cf. TAVARES, Otávio Guimarães. Elementos (do Amor): breve leitura de alguns elementos da obra digital Amor de Clarice. In: RIBEIRO, Ana Elisa; VILLELA, Ana Maria Nápoles; COURA SOBRINHO, Jerônimo; SILVA, Rogério Barbosa da. Leitura e escrita em movimento. São Paulo: Peirópolis, 2010. [35] ASSIS, Machado de. 29 de julho de 1888. In: ___. Bons dias! Crônicas (1888-1889). Edição, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Hucitec; Editora da Unicamp, 1990. p. 101-102. [36] Cf. Disponível em: . Acesso em: 30 de jul. de 2012. [37] Movimento e som ausentes da reprodução aqui exibida, já que a página de papel imobiliza em figuras estáticas o que, na tela, altera-se a todo momento. Outras questões ligadas à leitura em meio digital podem ser conferidas em ALMEIDA, Gustavo Martins de. Lendo o leitor ou quem está lendo quem? Disponível em: . Acesso em: 14 de julho de 2014. E em PINSKY, Luciana. Do papel ao digital. Como as novas tecnologias desafiam a função do editor de livros de história. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013 (dissertação de mestrado). [38] Cf. resultados da pesquisa promovida pelos Instituto Pró-Livro, Retratos da leitura no Brasil. Disponível em: .Acesso em: 24 de abr. de 2012. E MORAES, André Carlos. Entre livros e e-books: a apropriação de textos eletrônicos por estudantes ingressados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2011. Porto Alegre: Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação, 2012. [39] Observa Gustavo Mello: “a expectativa é de que os livros digitais ainda vão demorar a configurar uma parcela significativa do mercado brasileiro.” (MELLO, Gustavo. Desafios para o setor editorial brasileiro de livros na era digital. Economia da Cultura. BNDES Setorial 36, p. 450. Disponível em: . Acesso em: 21 de mai. de 2014. [40] Cf. Disponível em: . Acesso em: 2 de ago. de 2012. [41] Cf. Disponível em: . Acesso em: 2 de ago. de 2012. [42] Cf. Disponível em: . Acesso em: 2 de ago. de 2012. [43] Cf. Disponível em: . Acesso em: 2 de ago. de 2012. [44] Cf. Disponível em: . Acesso em: 02 de ago. de 2012. http://www.ciberpoesia.com.br/ http://www.publishnews.com.br/telas/colunas/detalhes.aspx?id=74033 http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:XnlpYy8MUwgJ http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/bnset/set3612.pdf+&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados/versao+do+poema+jesus+clips+ http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados/versao+do+poema+gol+de+letra+ http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados/versao+do+poema+agua+ http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados/versao+do+poema+piscar+ [45] Cf. o refrão, bastante conhecido: “Quand il me prend dans ses bras Il me parle tout bas, Je vois la vie en rose. Il me dit des mots d'amour, Des mots de tous les jours, / Et ça me fait quelque chose.” [“Quando ele me toma em seus braços / Ele me fala em tom baixo, Vejo a vida em rosa. Ele me diz palavras de amor, Palavras de todos os dias, E isso me provoca alguma coisa.”] [46] Cf. BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. [47] Relativamente à narrativa de Angela Lago. Disponível em . Acesso em: 2 de ago. de 2012, v. NASCIMENTO, José Augusto. Literatura infantil e cultura hipermidiática. Relações sócio-históricas entre suportes textuais, leitura e literatura. São Paulo: Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, 2009 (dissertação de mestrado). [48] Relativamente ao transletramento (transliteracy), a saber, “a habilidade de ler, escrever e interagir através várias plataformas, ferramentas e mídias desde a língua de sinais e da oralidade por meio de manuscritos, impressos, TV, rádio e filme, até redes sociais digitais”, cf. THOMAS, Sue; JOSEPH, Chris; LACCETTI, Jess; MASON, Bruce; MILLS, Simon; PERRIL, Simon; PULLINGER, Kate. Tranliteracy: Crossing divides. In: First Monday. V. 12, n. 12. 3 Dezembro de 2007. Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. [49] VELOSO, Caetano. Livros. Disponível em: . Acesso em: 14 de jul. de 2014. Warner Chappell Edições Musicais Ltda. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. [50] Cf. CAPPARELLI, Sérgio; GRUSZYNSKI, Ana Cláudia. Poesia visual. 3. ed. São Paulo: Global, 2002. [51] CAPPARELLI, Sérgio. 33 ciberpoemas e uma fábula virtual. Ilustr. Marilda Castanha. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 18. [52] Id. p. 25. [53] Id. p. 48. [54] Id. p. 8. [55] Id. p. 9. [56] Id. p. 13. [57] Cf. Disponível em: . Acesso em: 28 de ago. de 2012. [58] ANTUNES, Arnaldo. Uma coisa de cada vez. Disponível em: . Acesso em: 7 de jun. de 2015. Warner Chappell Edições Musicais Ltda. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. [59] MENDES, Murilo. Convergência. São Paulo: Duas Cidades, 1970. Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. © by herdeiros de Murilo Mendes. [60] RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 17. ed. São Paulo: Martins, 1972. p. 61. http://www.angela-lago.com.br/Chapeuzinho.html http://www.letrasdemusicas.com.br/caetano-veloso/livros/ http://www.leocunha.jex.com.br/livro+a+livro/perdido+no+ciberespaco [61] Em suas primeiras edições, a pesquisa intitulava-se Diagnóstico do setor editorial brasileiro. [62] Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014. [63] Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014. [64] Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014. [65] Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014 [66] Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014. [67]67 Os quadros II, III, IV e V foram organizados a partir de dados recollhidos na pesquisa O comportamento do setor editorial brasileiro, de anos diversos (FIPE, CBL, SNEL). Reultados para os vários anos, disponíveis em: . Acesso em: 30 de ago. de 2016. [68] Disponível em: . Acesso em: 30 de nov. de 2012. [69] Disponível em: Acesso em: 23 de jun. de 2014. [70] LOBATO, Monteiro. Histórias das invenções. In: ___. Serões de dona Benta e História das invenções. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1956. p. 287. [71] Cf. THOMPSON, John B. Mercadores de cultura. O mercado editorial do século XXI. Trad. Alzira Allegro, São Paulo: Editora UNESP, 2013. [72] GARCIA, Pedro Benjamim; DAUSTER, Tania (Org.). Teia de autores. Belo Horizonte, Autêntica. 2000. p. 84. [73] Cf. Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. [74] Lista anual de livros considerados notáveis por especialistas reunidos pela International Youth Library de Munique, Alemanha. [75] Prêmio Internacional conferido pelo governo sueco. [76] Pompéia, Raul. O Ateneu. In: ___. Obras. Organização e notas de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Oficina Literária Afrânio Coutinho; Brasília: FENAME, 1981. V. 2, p. 32-33. [77] Cf. LAJOLO, Marisa. Usos e abusos da literatura na escola. Porto Alegre: Globo, 1982. [78] Reg. n. 172, 1974. Cópia manuscrito. Divisão de manuscritos, Biblioteca Nacional. A ortografia foi atualizada. [79] Edital 01/2014 CGPLI. Disponível em: . Acesso em: 24 de jun. de 2014. [80] Disponível em: . Acesso em 02 de jan. de 2014. http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco http://www.snel.org.br/ http://www.snel.org.br/dados-do-setor/producao-e-vendas-do-setor-editorial-brasileiro/ http://www.editorabiruta.com.br/catalogo-completo http://www.atica.com.br/SitePages/Obra.aspx?cdObra=2707 [81] Disponível em: . Acesso em: 02 de jan. de 2014. [82] Esses pareceres estão parcialmente reescritoscom a finalidade de não se identificarem autores e obras a que se referem. [83] Cf. INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da leitura no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 23 de abr. de 2012. [84] Disponível em: . Acesso em: 09 de set. de 2014. [85] Disponível em: . Acesso em: 01 jul. de 2014. [86] Cf. LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitura rarefeita. Livro e literatura no Brasil.São Paulo: Ática, 2002. LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996. [87] Cf. ABREU, Marcia. Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado de Letras; ALB; São Paulo: FAPESP, 2003. ABREU, Marcia (Org.). Trajetórias do romance: circulação, leitura e escrita nos séculos XVIII e XIX. Campinas: Mercado de Letras, 2008. ABREU, Marcia; BRAGANÇA, Aníbal (Org.). O impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Editora da UNESP, 2010. [88] Disponível em: . Acesso em: 16 jun. 2010 [89] Disponível em: . Acesso em: 4 de dez. de 2012. [90] Cf. Disponível em: . Acesso em: 25 de nov. de 2012. [91] Cf. TOZZI, Juliana Bernardes. Livro infantil no Brasil (2007-2008): marcas em circulação, catálogos de divulgação e infâncias anunciadas. Campinas: Faculdade de Educação, UNICAMP, 2011 (dissertação de mestrado). V. também TOZZI, Juliana Bernardes. Uma aproximação às ideias de infância que acompanham catálogos editoriais de livros para leitores em formação. In: LINS, Heloísa Andreia de Matos. Leitores na contramão. Campinas: Leitura Crítica, 2012. [92] RÉGIO, José. Cântigo negro. Disponível em: Acesso em: 10 de set. de 2016. [93] MATTOSO, Glauco. Jornal dobrabil. São Paulo: s. e., 1981. [94] Cf. Xuxa em o mistério de Feiurinha, de 2009, dirigido por Tizuka Yamazaki. [95] MACHADO, Ana Maria. Procura-se lobo. São Paulo: Ática, 2005. p. 7. [96] BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O menino que vendia palavras. 2. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. [97] Cf. AZEVEDO, Ricardo. Um homem no sótão. São Paulo: Melhoramentos, 1982. [98] Cf. REYNOLDS, Kimberley. Radical Children’s Literature. Future Visions and Aesthetic Transformations in Juvenile Fiction. New York: Palgrave Macmillan, 2010 [2007]. http://www.atica.com.br/Sitepages/Obra.aspx?cdObra=2842 http://www.atribunanews.com.br/artigos/quem-disse-que-brasileiro-nao-le-karine-pansa http://www.reporternews.com.br/noticia.php?cod=368586 http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp [99] LEITE, Sebastião Uchoa. O que a tartaruga disse a Lewis Carroll. In: CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice. Trad. e organização de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Summus; Rio de Janeiro: Fontana, 1977. p. 7. [100] DIAS, Gonçalves. Canto do piaga. In: Poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1959. p. 106. [101] NÓBREGA, Antonio. Chegança. Disponível em: . Acesso em: 02 jul. de 2014. [102] ZOTZ, Werner. Apenas um curumim. 6. ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982. p. 26. [103] Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. [104] Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. [105] Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. [106] Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014. [107] Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual. Nossa missão. In: Pequeno catálogo literário de obras de autores indígenas. S. l: NEFRAN (Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas do INBRAPI), s. d. p. 4. [108] São algumas de suas obras: História de índio (1996); As serpentes que roubavam a noite e outros mitos (2001); O segredo da chuva (2003); O sinal do pajé (2003); Contos indígenas brasileiros (2004); Caçadores de aventuras (2006); Catando piolhos (2006); O homem que roubava horas (2007); O olho do bom menino (2007); Uma aventura na Amazônia (2007); Karú Tarú: o pequeno pajé (2009). [109] MUNDURUKU, Daniel. Coisas de onça. São Paulo: Mercuryo Novo Tempo, 2011. p. 5. [110] Id. p. 23. [111] MAXACALI. O livro que conta histórias de antigamente. Belo Horizonte: MEC/SEE-MG; Projeto Nordeste / PNUD, 1998. [112] Gilberto Maxacali, Gilmar Maxacali, Ismail Maxacali, João Bidê Maxacali, José Maxacali, Joviel Maxacali, Pinheiro Maxacali e Rafael Maxacali são os autores. João Bidê Maxacali, José Maxacali e Rafael Maxacali são os tradutores. [113] MAXACALI. Op. cit. p. 10. [114] Id. p. 11. [115] História da água. In: O livro que conta histórias de antigamente. Trad. Rafael Maxacali. Brasília: MEC/SEE-MG; Projeto Nordeste / PNUD, 1998. p. 79. [116] TORAL, André Amaral; PAULA, Eunice Dias de; PAULA, Luiz Gouvêa (Coord.). Xanetawa parageta. Histórias das nossas aldeias. Comunidade Tapirape. São Paulo: MARI; Brasília: MEC/SEF, 1996. p. 35. [117] Gruber, Jussara Gomes (Org). O livro das árvores. Benjamin Constant: Organização Geral dos Professores Ticuna; São Paulo: Global, 1999. p. 14. [118] Id. p. 23. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm [119] Munduruku, Daniel. As serpentes que roubaram a noite e outros mitos. Il. das crianças Munduruku da aldeia Katô. São Paulo: Peirópolis, 2001. p. 19 [120] São suas obras: Arandu Ymanguare – Sabedoria antiga (2003); Iarandu – O cão falante (2003); Verá – O contador de histórias (1997); O saci verdadeiro (2003); Xerekó Arandu – A morte de Kretã (2003); A ajuda do saci (2007). [121] Jekupé, Olívio. Verá o contador de histórias. Il. das crianças guarani. São Paulo: Peirópolis, 2003. p. 28 [122] Id. p. 8. [123] São obras suas: Yaguarê Puratig, o remo sagrado (2001); O caçador de histórias (2004); Murugawa (2007); Sehaypóri – O livro sagrado do povo Satere Mawe (2007); Curumi Guaré no coração da Amazônia (2007). [124] O texto relativo a Yaguarê Yamã retoma passagens da apresentação que Marisa Lajolo faz do escritor no Gran diccionario de autores latinoamericanos de literatura infantil e juvenil. Cf. PADRINO, Jaime Garcia (Org.). Gran diccionario de autores latinoamericanos de literatura infantil e juvenil. Madri: Fundacción SM, 2010. p. 929. [125] Yamã, Yaguarê. Sehaypóri: o livro sagrado do povo Saterê-Mawé Yaguarê Yamã. São Paulo: Peirópolis, 2007. p. 92. [126] Cf. VIDAL, Lux (Org.). Grafismo indígena. Ensaios de Antropologia Estética. São Paulo: Studio Nobel; EDUSP; FAPESP, 1992. [127] Toquinho; MORAES, Vinícius de. Aquarela. Disponível em: . Acesso em: 03 de out. de 2014. © Universal Music Publishing Group. [128] REYNOLDS, Kimberley. Op. cit. p. 39. [129] FURNARI, Eva. Cacoete. São Paulo: Ática, 2005. p. 6. [130] Id. p. 31. [131] Id. p. 32. [132] FURNARI, Eva. Cacoete/ Eva Furnari; ilustrações da autora. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2016. (Série Pimpolhos). p. 28. [133] VENTURELLI, Paulo; LOPES, Odilon. Maçãs argentinas. Curitiba: Positivo, 2013. [134] CAULOS. O segredo de Magritte. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. [135] GULLAR, Ferreira. Bichos do lixo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. p. 3. [136] Id. p. 24. [137] SOUZA, Angela Leite de. Entre linhas. Belo Horizonte: Lê, 2013. p. 33. [138] Cf. BRENMAN, Ilan; MORICONI, Renato. Telefone sem fio. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2010. [139] Cf. MELLO, Roger. Nau catarineta. Rio de Janeiro: Manati, 2004. [140] Cf. MELLO, Roger. Zubair e os labirintos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2007. [141] Raphael Draccon fala sobre seu novo livro e projetos futuros.Disponível em: . Acesso em: 11 de jun. de 2015. [142] Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. V. também . Acesso em: 26 de dez. de 2013. [143] Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. [144] Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. [145] CLARCKE, Arthur C. Profiles of the future. Apud Eisenstein, Elizabeth. Divine art, infernal machine. The reception of printing in the West from first impressions to the sense of an ending. Filadélfia: Oxford: University of Pennsylvania Press, 2011. p. 248. [146] Formam a trilogia: Northern lights (The golden compass, na versão norte-americana), 1995; The subtle knife, 1997; The amber spyglass, 2000. Na tradução brasileira os títulos que compõem a trilogia, todos de 2010, são: A bússola de ouro, A faca sutil e A luneta âmbar. [147] DRACCON, Raphael. Dragões de éter. 5. reimpressão. São Paulo: Leya, 2010. p. 81. [148] Id. p. 23. [149] Id. p. 28. [150] TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 192. [151] Cf. SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. [152] VIEIRA, Bruna. Depois dos quinze: quanto tudo começou a mudar. 3. ed. Belo Horizonte, Gutenberg, 2013. p. 32. [153] Id. p. 32. [154] Id. ibid. [155] Cf. LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. [156] TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 156. http://www.fndc.org.br/clipping/jovens-puxam-vendas-e-bienal-do-livro-rio-faz-seu-melhor-resultado-928185/ Capa Folha de rosto Créditos Prefácio Citação Abrindo o livro Literatura infantil e juvenil para além do livro 1. Pode haver “livro depois do livro”? 2. “Que coisa é o livro?” 3. E a literatura? 4. Novas fronteiras 5. Autores de leitores on-line 5.1 Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski 5.2 Leo Cunha 5.3 Angela Lago 6. Entre as antigas fronteiras 7. “Tudo ao mesmo tempo agora” O peso dos números e das instituições 1. O mercado editorial 2. A profissionalização dos agentes da cadeia do livro 3. A interferência da escola e o papel do estado Novos territórios de criação para crianças e jovens 1. Livros de histórias sobre histórias 2. Um novo indianismo 3. Presença do não verbal Pode haver livro e leitura para além da escola? 1. Uma ficção para lá de fantástica 2. Herança e transformação da liberação feminina Fechando o livro Referênciasdo corpo, do olhar e da audição. A visão foi desviada para as letras, quando se disseminou o emprego da escrita. A criação do códice, abrigando e reunindo em volumes de feitio retangular um conjunto de manuscritos registrados em pergaminho, reduziu as tarefas da voz e obscureceu as funções do corpo. No agora longínquo século I d. C. aparecia o livro no formato que conhecemos até hoje. Sua ampla difusão, no entanto, só se viabilizou a partir da invenção da prensa mecânica, ocorrida em meados do século XV. Com Johannes Gutenberg (c. 1398-1468), estabilizaram-se várias práticas que percorriam caminhos paralelos: a leitura silenciosa, [18] a cópia artesanal de manuscritos, a organização dos estudos laicos, em então recentemente fundadas universidades europeias. Do códice romano ao livro moderno, poucas mudanças se registraram. Pelo menos até poucos anos. Talvez tenham sido poetas os mais sensíveis na percepção de sinais de mudanças no horizonte do mundo letrado. E, pressentindo os sinais, tematizaram a instabilidade do suporte da escrita e da leitura. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), nos versos dedicados “A José Olympio”, [19] já em 1955 pergunta-se: Que coisa é o livro? Que contém na sua frágil arquitetura transparente? São palavras, apenas, ou é a nua exposição de uma alma confidente? De que lenho brotou? Que nobre instinto da prensa fez surgir esta obra de arte. Que vive junto a nós, sente o que sinto e vai clareando o mundo em toda a parte? [20] Para o poeta, o livro “brotou” de um “lenho”, metonímia que o relaciona ao mundo vegetal, fornecedor de uma das matérias-primas responsáveis pela produção do papel, configurando-o enquanto um organismo vivo para além de sua aparente objetualidade. Mais adiante, o poema menciona o processo industrial da fabricação do livro, em paralelo com sua dimensão emocional e intelectual: a “prensa fez surgir essa obra de arte que vive junto a nós, sente o que eu sinto e vai clareando o mundo em toda a parte”. Enquanto suporte privilegiado da escrita, o papel é também tema de versos de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), em “O poema”, de O engenheiro, de 1945: O papel nem sempre é branco como a primeira manhã. É muitas vezes o pardo e pobre papel de embrulho; É de outras vezes de carta aérea, leve de nuvem. Mas é no papel, no branco asséptico, que o verso rebenta. Como um ser vivo pode brotar de um chão mineral? [21] A menção a distintas espécies de papel – de embrulho e de carta – abre espaço para a celebração de sua vocação maior: constituir suporte da poesia. Com isso, o poeta substitui a assertividade das quatro primeiras estrofes pela interrogação com a qual entrelaça a metáfora da poesia enquanto elemento orgânico ao mundo inorgânico do chão mineral, assinatura maior do poeta de A educação pela pedra. Em “Para a Feira do Livro” (Educação pela pedra, 1966), João Cabral retoma a relação entre o livro, a folha, sua origem vegetal e o registro da escrita, cujo enlace é celebrado por meio da sonoridade dos versos em que sons fricativos se sucedem: Folheada, a folha de um livro retoma o lânguido vegetal de folha folha, e um livro se folheia ou se desfolha como sob o vento a árvore que o doa; folheada, a folha de um livro repete fricativas e labiais de ventos antigos, e nada finge vento em folha de árvore melhor do que o vento em folha de livro. [22] Com tudo isso, no entanto, permanece a pergunta do primeiro verso do poema de Drummond, que em 1955 indagava a si e a seus leitores: “Que coisa é o livro?” De lá para cá, no mais de meio século de distância dos versos com que o poeta mineiro celebrava o editor José Olympio, os atributos até então identificados como característicos do livro parecem já não bastar para defini-lo. Não é mais possível falar do livro com segurança, já que novas tecnologias impuseram outros formatos e materiais, novos modos de produção e de circulação, distintas maneiras de leitura, restaurando em muitos casos as relações entre comunicação, corpo, voz, olhar e gesto. Uma questão se apresenta: que consequências a pluralidade de suportes pode trazer para a literatura? 3. E a literatura? Esta folha branca me proscreve o sonho, me incita ao verso nítido e preciso. João Cabral de Melo Neto [23] Como se disse antes, a era do livro fomentou a literatura. A expressão literatura [originária do latim (littera = letra)], encampou o que, até então, era denominado poesia, favorecendo a prática da leitura silenciosa em detrimento do som e da voz. Assim como a poesia que, conforme ensina a Poética, de Aristóteles (384-322 a. C.), desde o século IV a. C. subdividiu-se em gêneros diferentes, também a noção de literatura passou a recobrir grande variedade de gêneros. A – digamos – natureza literáriade certos textos é postulada reconhecida avaliada por um grupo específico – críticos e acadêmicos – a quem se avocou a missão de estabelecer, alterar e legislar a respeito da identidade e do valor dos escritos que almeja(va)m o status de arte. A emergência da modernidade, processo que se estende do século XVI ao XVIII, deu origem a novos gêneros, ampliando o número de formas narrativas (o conto, a novela, o romance constituindo os tipos básicos), e definindo-os por distintos critérios: ora por seus consumidores (literatura infantil e juvenil, literatura de massa), ora por seus temas (literatura policial, literatura fantástica), ora pelas formas de relatar (memórias, autobiografia), ora por sua aplicação (literatura escolar, didática, paradidática), e outras vezes por seu emprego (dicionários, enciclopédias, receitas culinárias).Mas, não obstante a permanência da chamada literatura oral, um fator unificava os gêneros mais tradicionais: o formato livro, que garantia certa uniformidade ao universo do impresso, embora se tratasse de uma unidade precária, precariedade bem visível na materialidade do objeto (dimensões, capas, matérias-primas etc.). No âmbito da literatura infantil e juvenil, amplia-se e expressa-se de distintas maneiras essa parceria antiga entre a escrita, o impresso e o livro, ao mesmo tempo em que nela também se manifesta hibridismo de linguagens. Com efeito, desde suas manifestações iniciais, ainda no século XVIII, obras destinadas a crianças eram acompanhadas de ilustrações, ultrapassando assim o âmbito do escrito, de que a literatura é a principal fiadora. Essa parceria foi enunciada, há mais de um século, pelos versos de uma autora paulista, que, desde o título de seu poema, registra, em presuntivo diálogo com seus leitores, a pluralidade de linguagens que, cada vez mais, se fazem presentes em livros para crianças e jovens: LIVRO BONITO - P’ra mim, livro bonito É aquele que tem figuras, P’ra você não é, Carlito? - P’ra mim é o que tem doçuras, E nossas almas retrata E da terra as formosuras! Mas a mim também é grata Uma gravura risonha, Com vermelho, azul e prata... Perto d’água uma cegonha, E nos verdores da mata, Um passarinho que sonha... [24] Com a emergência e expansão das histórias em quadrinhos, ao final do século XIX, e, depois, com sua plena difusão no Brasil a partir da segunda metade do século XX, a imagem passou a ser tão ou mais relevante que o texto, impondo sua presença nos gêneros com os quais compartilhava o público. E como o maior número de seus consumidores situava-se na faixa etária definida como infantil e juvenil (e, mais contemporaneamente, jovens adultos), a literatura dirigida a esse segmento de mercado incorporou a linguagem visual, cedendo espaço crescente à matéria figurativa. A nova parceria de linguagens – a verbal, escrita e a visual – não se fez, nem se faz, sem custos. Implicou aumento das despesas de produção, exigindo a remuneração de vários criadores e técnicos, assalariados e empresários. E também implicou a eventual necessidade de uma nova concepção de autoria, bem como de sua legitimação e valoração no campo intelectual e estético. Historicamente, parece ter sido a ilustração o primeiro elemento a desafiar o privilégio da escrita, rompendo a soberaniada linguagem verbal, ao incluir em cenários de leitura elementos de natureza gráfica e pictórica. Com efeito, desde muito cedo, na Europa e também no Brasil, o gênero infantil circulou em livros que acoplavam visuale verbal. Vem desta aliança a denominação álbum, que nomeava a produção de Père Castor, coleção fundada por Paul Faucher (1898-1967) na França da década de 1930, [25] e os “livros de figuras”, mencionados por Manuel Bandeira (1886-1968), ao relembrar suas memórias de leitura: Procuro me lembrar de outras impressões poéticas da primeira infância e eis que me acodem os primeiros livros de imagens: João Felpudo, Simplício olha para o ar, Viagem à roda do mundo numa casquinha de noz. Sobretudo este último teve influência muito forte em mim; por ele adquiri a noção de haver uma realidade mais bela, diferente da realidade quotidiana, e a página do macaco tirando cocos para os meninos despertou o meu primeiro desejo de evasão. No fundo, já era Pasárgada que se prenunciava. [26] Sintoma do reconhecimento progressivo e contemporâneo da importância desta parceria verbo-visual são as transformações ocorridas nas categorias de distribuição de prêmios literários a livros para crianças e jovens. O principal deles, a medalha Hans Christian Andersen, desde 1956 concedida a cada dois anos pelo International Board on Books for Young People (IBBY), destinava-se, originalmente, apenas a escritores. A partir de 1966, o prêmio passou a ser atribuído também a ilustradores. Processo similar ocorreu no Brasil: a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) criou, em 1974, o prêmio “O Melhor para Criança”, outorgado a um escritor; a partir de 1981, incluiu, entre os prêmios que distribui anualmente, a categoria “Imagem”, destinada a ilustradores. Da sua parte, o prêmio Jabuti, conferido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), inclui atualmente os quesitos capa, projeto gráfico e ilustração, distinguindo dos demais, neste último ponto, livros voltados para crianças e jovens. Mesmo sem mencionar livros mais contemporâneos, dirigidos a crianças muito pequenas, que exploram texturas e cheiros, constata- se que a plurimidialidade se faz presente há muito tempo na literatura para crianças e jovens, não constituindo, pois, uma novidade de nosso tempo, ainda que contemporaneamente ela se manifeste em grau mais intenso. Livros para crianças podem, inclusive, prescindir do texto escrito, como evidenciam Ida e volta (1976), de Juarez Machado, ou Cena de rua (1994), de Angela Lago. Podem igualmente abrir mão do papel, apresentando-se como livros de pano ou de plástico, ou ainda como livro brinquedo, conceito limítrofe, pois talvez já não pertença à esfera do literário, mas à do lúdico. Ao lado da plurimidialidade, o livro de literatura infantil e juvenil, mais do que outros gêneros, constitui, muitas vezes, resultado de produção coletiva, somando no mínimo um escritor, um ilustrador e um editor, o que traz para seu âmbito a intersubjetividade, pois a qualidade do produto final decorre da integração, adequada e eficiente, entre os vários sujeitos que participam de sua realização. Neste contexto de livros compostos por amálgamas de linguagens, até onde chegam as novas fronteiras que delimitam livros e literatura de seus outros? 4. Novas fronteiras Andam no dia cibernético As tar ta ru gas eletrônicas. Eu robô? Ledo Ivo [27] Eu quero entrar na rede pra contactar Os lares do Nepal, os bares do Gabão Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar Gilberto Gil [28] O dado novo, na cena contemporânea é a literatura infantil (mas talvez não apenas ela...) prescindir do livro. Experiências pioneiras de uma literatura sem livro foram, por exemplo, os discos gravados por Braguinha (1907-2006), compositor e carnavalesco que, entre 1965 e 1980, musicou vários contos de fadas tradicionais. Os pequenos discos de vinil colorido, no entanto, não sobreviveram isolados, e seu sucessor, o CD, passou a acompanhar os livros para crianças, via de regra encartado neles. Tratava-se de complemento do livro, não de seu substituto. Foram a expansão e a popularização da internet que fizeram diferença, possibilitando ruptura radical entre literatura e livro. Constituída por um conglomerado de redes de comunicação, a internet opera de modo interligado no que se denomina ciberespaço, ambiente de existência virtual disponibilizado pela tecnologia. Por meio de aplicativos baixados em equipamento eletrônico, torna-se possível o intercâmbio de mensagens representadas por texto escrito, gráficos, vídeos, imagens, animações, sons e música. Sites e blogs, em número infinito, ao lado das redes sociais – Facebook, Linkedin, Twitter, Instagram, entre as (hoje, 2015) mais populares – colocam em relevo não apenas novos formatos de comunicação, mas a possibilidade de interação entre sujeitos, grupos, comunidades e projetos. Incluem-se, entre as interações viabilizadas, intercâmbios inovadores entre autores e leitores... O processo de comunicação digital, operando com múltiplas plataformas, impõe novas sensibilidades e formas de percepção, facilitando a associação entre texto e imagem. Inclui também a possibilidade de articulação entre texto, movimento, som e a terceira dimensão. Neste cenário digital, emergem, assim, alternativas de criação, sendo que, no âmbito da produção literária, uma notável contribuição, até agora experimentada com sucesso, é representada pelo hipertexto, que materializa de forma radical os procedimentos de construção do intertexto. Intertexto, noção presente nos estudos literários a partir de 1966, quando Julia Kristeva difundiu a expressão intertextualidade, [29] é a possibilidade de as manifestações da escrita se apropriarem de textos anteriores, em processo permanente de citação e reelaboração. Bastante presente no mundo da literatura impressa, o intertexto, para fazer sentido, supõe a memória, por parte dos leitores, da matéria verbal que cita. Já o hipertexto – de formato digital – prescinde da memória, já que, por meio de links, remete de imediato de um produto escrito a outro. [30] Linkstambém podem ampliar e completar o texto em que ocorrem. O hipertexto favorece ainda leitura não sequencial e não linear. Mais do que o texto impresso em papel, o hipertexto permite ao leitor-internauta percorrer caminhos próprios de leitura, na medida em que cabe a ele, através dos links que escolhe, eleger os atalhos e interagir. Como interatividade e simultaneidade pertencem de antemão à natureza da comunicação digital, compete ao hipertexto acentuá-las e aprofundá-las, levando seu usuário a mergulhar no universo virtual do ciberespaço. Quando ao hipertextoassociam-se imagem, animação e som, entramos no universo da hipermídia. Com tais possibilidades, o hipertexto abre campos até então inexplorados de criação, favorecendo o aparecimento de novos gêneros literários, como, por exemplo, a fanfiction que consiste na apropriação (in)devida de obras alheias, redigindo novos relatos a partir dos originais. Concebida como reescrita continuação retomada de obras alheias, a fanfiction não é propriamente invenção dos tempos da internet. Talvez se possa alinhar, entre seus precursores remotos, Alonso Fernández de Avellaneda (pseudônimo não identificado), o autor do falso Dom Quixote, publicado em 1614, que dava continuidade às aventuras do fidalgo espanhol narradas por Miguel de Cervantes (1547-1616) em publicação de 1605. Foi, no entanto, com a explosão da cultura de massa que o gênero tomou corpo, sendo que sua propagação deveu-se efetivamente às possibilidades oferecidas pela internet. Graças à interatividade, histórias protagonizadas por personagens de grande popularidade, oriundas da literatura, de histórias em quadrinhos ou de seriados da televisão, podem envolver-se em novas aventuras, propostas e disponibilizadas no ciberespaço por fãs dos originais. [31] No universo do ciberespaço, a produção e a circulação de textos – os hipertextos – são extremamentefacilitadas. Espaços como blogs, sites e redes sociais acolhem hipertextos ao lado de textos à moda antiga, como notícias, receitas de cozinha, autoajuda, narrativas e confissões, e ainda gêneros canônicos, como poemas e crônicas. No ciberespaço, o livro pode aparecer sob um formato específico – o do e-book –, mas não fica restrito a esse, já que incorpora obras tradicionais digitalizadas por meio de softwares adequados. Provavelmente, o ciberespaço veio para ficar. E o que ele representa de novo é às vezes assustador. A dimensão distópica da tecnologia foi tema de inúmeras obras. Projeções relativas ao futuro da sociedade humana imaginadas antes da emergência e expansão do universo digital incluem os efeitos deste na humanidade. Distopias como Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley (1894-1963), 1984 (1949), de George Orwell (1903-1950), e Farenheit 451 (1953), de Ray Bradbury (1920- 2012), obras vizinhas do final da Segunda Guerra (1939-1945), quando se evidenciou que a vitória pendeu para as nações que melhor lidaram com o mundo da informação, antecipam a importância de máquinas na vida cotidiana. A expansão da cultura cibernética e das ferramentas eletrônicas determinou, por sua vez, discussões sobre modos e riscos de controle social por mecanismos como computadores. Filmes como 2001 – Uma odisseia no espaço, de 1968, do cineasta Stanley Kubrick (1928-1999), sugerem a hipótese de as máquinas tornarem-se autossuficientes, passando a gerenciar a vida dos seres humanos. Por sua vez, o totalitarismo exercido pela tecnologia mostra-se vinculado ao enfraquecimento e mesmo desaparecimento da cultura considerada elevada: em Farenheit 451, o grupo social, dominado por um estado centralizador e despótico, abre mão da fantasia, de que a literatura é expressão, e do livro, seu suporte convencional. A posse de obras impressas é crime, punível com a destruição delas, por uma brigada de bombeiros, que queima livros, objetos tidos por subversivos. [32] O título Farenheit 451 alude à temperatura necessária para a queima do papel. A data de sua publicação, próxima dos poemas brasileiros antes comentados, antecipa a questão tão contemporânea: a criação e difusão de textos em meio digital encerrará a era do livro? Acabará igualmente com a literatura, uma vez que, como se observou, sua existência coincide com a era do livro? Têm, assim, longa e respeitável genealogia os debates que opõem livro impresso e livro digital. [33] Também se discute amiúde a permanência da literatura, destacando-se sobretudo a observação de que a natureza do texto literário não sofreu alterações – sejam ganhos ou perdas – ao migrar (ou deixar de migrar) para o formato digital. Tal ponto pode ser controverso no âmbito da literatura não infantil, [34] porém, no caso dos livros para crianças e adolescentes, esses se beneficiam da familiaridade maior de gerações mais jovens com o mundo da cibercultura, o que faz com que talvez o gênero infantil possa oferecer algumas lições à sua irmã mais velha, a literatura que não se dirige especificamente a crianças e jovens. Será? E se for? Quais e como são algumas das primeiras obras brasileiras a desafiar as fronteiras do livro e da literatura? 5. Autores de leitores on-line Os leitores pensam com razão que são apenas filhos de Deus, pessoas, indivíduos, meus irmãos (nas prédicas), almas (nas estatísticas), membros (nas sociedades), praças (no exército), e nada mais. Pois são ainda uma certa coisa, – uma coisa nova, metafórica, original. Machado de Assis [35] 5.1 Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski Exemplos de produção brasileira recente sugerem eficiente ocupação das novas fronteiras, provindo um deles do endereço www.ciberpoesia.com.br, de autoria de Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski. [36] Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski Figura 3 A tela de abertura (Figura 3), como a página de rosto de um livro, identifica o conteúdo (ciber & poemas,no canto superior esquerdo) e a autoria (Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski, no canto superior direito). Na sequência, informa os procedimentos (“cliques nos ícones”) necessários à interação do leitor, aqui tratado como http://www.ciberpoesia.com.br/ internautaexperiente. Ao longo da navegação, o leitor-internauta não apenas lêpoemas, mas é convidado a compor seus próprios versos. O primeiro ícone tem a forma de um computador de mesa, e o segundo – que leva às poesias visuais – representa um olho, sublinhando as características imagéticas dos textos exibidos. Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski Figura 4 A figura 4 reproduz um dos poemas visuais: os versos de Sérgio Capparelli inscrevem-se sobre pintura de Vincent Van Gogh (1853- 1890), copiada em variações de cinza. Os versos distribuem-se por linhas assimétricas e descontínuas, simulando visualmente os caminhos que os sapatos, tema do quadro, podem ter percorrido. Por sua vez, naquilo que corresponderia a uma segunda estrofe, há um diálogo do sujeito poético com o autor da pintura, sugerindo agora uma interação entre o escritor e o pintor, de que participa o leitor, na medida em que ele pode conferir movimento às figuras disponibilizadas na tela. Um terceiro ícone, na tela de abertura (Figura 3), propõe outro percurso de navegação: ao lado da imagem de lombadas de livros, o usuário é convidado a visitar “outros sites e ideias de ciberpoesia”, o que favorece a familiaridade de seus internautas com produções literárias pioneiras na utilização de recursos digitais para a criação artística. Ao convidar a conhecer “a poesia como um jogo dentro e fora da sala de aula”, o siteextrapola o âmbito estritamente escolar. Como ocorre a grande parte das home pages, as possibilidades de navegação neste site são inúmeras. De uma parte, elas acompanham a proposta criativa dos autores dos ciberpoemas, de outra, colocam seu trabalho em perspectiva, ao se integrar a produtos resultantes de outros projetos on-line. O www.ciberpoesia.com.br (disponível em setembro de 2014) assume a dimensão própria de ambientes digitais multimídia, ao lidar simultaneamente com texto, imagem, animação e som, [37] além de proceder a apropriações intertextuais e figurativas, como a pintura de Van Gogh. Enquanto proposta, o produto digital de 2000, que é hiper / intermidiático, mostra-se mais arrojado do que a obra impressa a que remete, lançada naquele mesmo ano. Por outro lado, o produto impresso pode ser comercializado e remunerado, retorno financeiro que não ocorre (ainda) à maioria dos sites brasileiros dedicados à literatura, cujo acesso é livre e gratuito, embora sua realização incida em custos com os quais precisam arcar seus proponentes. Não tendo rentabilidade, não inspira investimentos altos, o que talvez reduza as possibilidades de sua produção. Vale a pena debruçar-se sobre algumas questões: a disponibilização gratuita de sites remete a livros e autores enquanto marketing do produto impresso? O problema se resolveria com o lançamento de e-books, produto tão comercializável quanto o livro de papel? Pesquisas recentes, porém, têm revelado que ainda é incipiente o acesso às obras literárias via internet [38] e rarefeita a http://www.ciberpoesia.com.br/ difusão, e consequente aquisição, de versões digitais de livros de autores brasileiros. [39] A resposta a essas questões certamente levará em conta ganhos e perdas: ganhos são literalmente os lucros a auferir pelos empresários e a remuneração a ser alcançada por autores, ilustradores, programadores, editores, revisores, enfim, os profissionais envolvidos no processo de produção de sites e e-book. As perdas relacionam-se à redução das oportunidades de improvisação colocadas ao alcance do leitor-internauta. De todo modo, alargam-se as possibilidades de criação, circulação e acesso aos bens literários, sendo essas provavelmente as maiores vantagens, ao alcance de todos os usuários. 5.2 Leo Cunha Também exemplar em relação ao emprego de recursos digitais na produção de literatura infantil é a home page de Leo Cunha.O autor disponibiliza em http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados [40] quatro poemas, datados de 20 de agosto de 2011, que se apresentam em permanente movimento. Jesus Clips dispensa a linguagem verbal, utilizada apenas no título do poema, acessível na página do poeta. O texto vale-se da imagem de clipes, pequenos objetos de arame ou plástico, utilizados, usualmente, para prender folhas de papel. Na tela, vários clipes unidos formam a cruz em que Jesus Cristo foi sacrificado. O substantivo comum clips substitui o nome próprio Cristo, facultando o trocadilho, que também remete a significados mais contemporâneos do vocábulo, no universo da comunicação e da informação: os clips de notícias e os videoclipes. [41] Por outro lado, uma interpretação metalinguística pode ser igualmente acrescentada: no mundo em que o papel vem sendo substituído pela tela, o clipe não deixa de, da sua parte, também ser sacrificado, como o Cristo na cruz. Gol de letra é outra produção de Leo Cunha extremamente inventiva. Nela predominam as cores verde e amarelo, alusão explícita ao apego nacional ao futebol. A composição vale-se da visualidade dos grafemas, ao transformar o “G”, que aparece deitado na imagem proposta, em uma baliza, com suas traves, por onde passa a bola, chutada pelo craque. [42] Em outro poema, Água, Leo Cunha vai um pouco mais longe. O título remete ao conteúdo do poema, que se constitui de uma sequência de palavras relacionadas a água: torneira, cascata, cachoeira e catarata, dispostas em diagonal na tela. As palavras mimetizam quedas d’água, avançando da mais simples à mais volumosa, efeito construído pelo diferente tamanho das fontes http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados gráficas, que aumentam à medida que os vocábulos remetem a volumes de água cada vez maiores, de “torneira” a “catarata”. Preserva-se ainda o recurso a rimas (torneira/cachoeira; cascata/catarata), tradicional em poemas impressos, embora sua realização maior ocorra na oralidade [43]. No mesmo sentido de sonorização, trabalha a repetição alternada de oclusivas, sibilantes e vibrantes. A figura 5 mostra o momento final do processo: Leo Cunha Figura 5 Um último poema do sitede Leo Cunha compõe-se aparentemente de uma única frase: “A poesia se faz num piscar/pescar de olhos”. A alternância entre as palavras “piscar/pescar” fragmenta o período em duas orações que se substituem uma à outra pelo revezamento das vogais, que se dá por intermédio de movimento que simula a ação de piscar que o poema menciona. [44] Na alternância dos verbos que compõem o verso de onze sílabas, a rima entre as palavras que comutam pode ainda sugerir ações que remetem respectivamente ao poeta e ao leitor-internauta. Qualquer das duas interpretações sugere tanto o trabalho de seleção que preside à produção literária (“pescar”), quanto a volatilidade da tela e o caráter visual do poema em meio eletrônico (“piscar”). 5.3 Angela Lago O site www.angela-lago.com.br/Chapeuzinho.html hospeda proposta bastante criativa inspirada na clássica personagem de Chapeuzinho Vermelho, conhecida pelo público infantil desde a publicação das Histórias do tempo passado com moralidades, ou Contos da mamãe gansa (1697), de Charles Perrault (1628-1703). Em razão da extrema popularidade da personagem e de sua trajetória, a narrativa digital pode prescindir da reprodução do texto, invocando já na tela de abertura elementos principais do enredo. A história inaugura-se com a protagonista cantarolando La vie en rose (1946), de Edith Piaf (1915-1963) e Louis Gugliemi (1916-1991). A escolha da canção pode produzir interessantes efeitos de sentido. Trata-se, em primeiro lugar, de uma canção de temática adulta e de letra em francês, o que talvez limite o público capaz de lera inter/hipertextualidade da proposta. Estabelece-se ainda a associação entre a cor vermelha da indumentária da personagem e o título da melodia. Mas o fato de a letra da canção manifestar evidente conteúdo erótico [45] ratifica interpretações dadas ao conto de Perrault, entendido como um ritual de iniciação à vida amorosa. [46] É, pois, de modo figurativo que, nas telas do sitede Angela Lago, se desdobra a trama. Esta se desenvolve desde o momento em que a menina deixa sua casa, para visitar a avó, e a mãe a adverte dos perigos que poderá encontrar no caminho, até o final, quando o lobo é punido. A transcrição visual poderia não se mostrar original, se a narrativa se restringisse à repetição do enredo de antemão conhecido através de diferentes mídias como livros, cinema, teatro, televisão, quadrinhos e mesmo outros sites. Contudo, no trabalho de Angela Lago, o enredo sofre alterações profundas. A narrativa digital não confere ao caçador papel de herói. Pelo contrário: embora multiplicado em várias figuras masculinas http://www.angela-lago.com.br/Chapeuzinho.html absolutamente iguais e portando todas uma espingarda ao ombro, nenhuma delas ajuda Chapeuzinho. Temerosos face ao lobo, seguem direção contrária à da protagonista, como se vê na figura 6. Angela Lago Figura 6 Tal reversão de expectativas acrescenta um perfil feminista à intriga, reiterando o protagonismo da menina. A essa mudança radical de foco, somam-se procedimentos que multiplicam o andamento da trama. Recursos digitais permitem que, a cada trecho da narrativa, o usuário faça opções que conduzem a ação a distintos desdobramentos. Na figura 7, Chapeuzinho está diante de uma encruzilhada: a seta reta, de cor verde, aponta uma direção positiva, pois, se escolhida, a garota se depara com o lobo, a quem põe a correr, atacando-o com a cesta de comidas; a seta em ziguezague, cuja sinuosidade a assemelha uma serpente (podendo evocar, para alguns leitores, a figura da serpente que tentou Eva no Jardim do Éden), conduz a personagem ao trajeto do perigo, distraindo-a e permitindo ao lobo chegar antes dela à casa da avó. Angela Lago Figura 7 Esse procedimento repete-se ao longo da narrativa, facultando a eleição de percursos próprios, a partir de múltiplos roteiros, que reproduzem, no plano figurativo, as virtualidades do hipertexto no âmbito verbal. Outro elemento bastante inventivo presente no enredo proposto por Angela Lago é o livro impresso, a que recorrem as personagens quando não sabem como se conduzir ou a que levarão suas escolhas. A figura 8 ilustra a passagem. Angela Lago Figura 8 A presença do livro, no corpo de uma obra da qual a linguagem verbal está excluída, é significativa: parece sugerir e encenar o diálogo de dois modos contemporâneos de existência da literatura. Atesta, além disso, a anterioridade da expressão verbal sobre a digital, explicitando um percurso histórico de que esta versão on-line de Chapeuzinho Vermelho é herdeira e tributária. Trata-se de uma inserção metalinguística – inter/hipertextual e dialógica – que enriquece o produto final e aponta para a importância do permanente trânsito entre os suportes de que a literatura se vale. [47] O desenvolvimento e difusão da informática parece ter encontrado na literatura infantil e juvenil – particularmente na fatia infantil do gênero –campo extremamente favorável à expansão da inventividade de seus criadores. Como a iniciação dos internautas à navegação hipertextual dá-se desde cedo, porque absorveram o “transletramento”, [48] supõe-se que a informática continuará, nos próximos anos, oferecendo à literatura sugestões originais para a produção artística, com resultados a serem observados inclusive no âmbito da cultura mais tradicional do livro. E como se faz presente, no universo do papel e tinta, a cultura de telas, teclados e links? 6. Entre as antigas fronteiras Tropeçavas nos astros desastrada Quase não tínhamos livros em casa E a cidade não tinha livraria Mas os livros que em nossa vida entraram São como a radiação de um corpo negro Apontando pra a expansão do Universo Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (E, sem dúvida, sobretudo o verso) É o que pode lançar mundos no mundo. Tropeçavas nos astros desastrada Sem saberque a ventura e a desventura Dessa estrada que vai do nada ao nada São livros e o luar contra a cultura. Caetano Veloso [49] Como se vem observando, a introdução das novas tecnologias eletrônicas afeta a produção e a circulação da literatura. Não é, entretanto, apenas nesses novos suportes que a cultura digital se faz presente. Ela também invade o universo do livro, ao propor temas, ideias e procedimentos artísticos singulares. Um exemplo pode ser encontrado em Poesia visual, livro a que remete o endereço www.ciberpoesia.com.br, já mencionado. A obra impressa constitui-se de poemas em que se mesclam elementos textuais e figurativos, como o reproduzido na figura 9, que tanto aparece no site, como também faz parte do volume assinado por Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski. Observe-se que, se o salto é constituído por um desenho, a gáspea é formada por versos dirigidos à menina Carolina, em um cenário poético em que uma adolescente, cruzando uma praça florida, atrai o olhar do sujeito lírico, que confessa a ela seu sentimento amoroso. Os versos, embora mantendo o recurso à linguagem verbal, dispõem o escrito de maneira a conferir a ele também uma dimensão visual, de desenho. O mesmo poema mostra-se espelhado na página impressa (Figura 10), de modo que se apresenta um par de sapatos, mas as palavras, agora invertidas e http://www.ciberpoesia.com.br/ expostas em fonte menor, tornam-se menos visíveis e, pela mesma razão, mais intimistas. [50] Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski Figura 9 Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski Figura 10 Na página 11 do livro, outro poema, mesclando texto, imagem e cor, evidencia como recursos distintos podem compor uma obra literária e intensificar seus significados (Figura 11). Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski Figura 11 Em livro, contudo, essas obras perdem o movimento e a interatividade, efeitos que a linguagem digital propicia. Impressos, os poemas contam com a materialidade do papel, o que acarreta a presença física mais concreta e imobilizada, não ultrapassando, porém, a bidimensionalidade e linearidade. Também resulta da interação entre produção literária e criação digital o livro de Sérgio Capparelli 33 ciberpoemas e uma fábula virtual que, embora circule em volume impresso, evoca, desde seu título, o mundo digital. No livro, elementos do mundo digital tornam-se matéria literária, oferecendo-se sob a forma de metáforas, temas e ideias. Ações como clicar, conectar, digitar ou imprimir aparecem nos versos de Quando, que também se vale do vocabulário da programação eletrônica e da formatação de textos para expressar o tema amoroso: Quando você me clica, quando você me conecta, me liga, quando entra nos meus programas, nas minhas janelas, quando você me acende, me printa, me encompassa, me sublinha, me funde e me tria: Meus caracteres esvoaçam, meus parágrafos se acendem, meus capítulos se reagrupam, meus títulos se põem maiúsculos, e meu coração troveja! [51] É também o mundo eletrônico que comparece ao poema Compatível: O CD-Rom formata o fim do dia entoando a Ave Maria de Schubert. [52] Por sua vez, um dos poemas inova a representação da figura familiar da avóque, desde as coleções dirigidas às crianças, lançadas pela Livraria Quaresma, até a Biblioteca Infantil, da editora Melhoramentos, passando pela Poesias infantis (1904), de Olavo Bilac (1865-1918), protagoniza poemas e narrativas para leitores mirins: Se alguém seguir a luz, bem sei, vai logo descobrir vovó (tarde na noite, cedo na cidade) com os pássaros dos dedos pousando nas teclas, a tricotar um xale luminoso de 200MB de memória RAM. [53] Unidades de informação armazenáveis ou transmitidas na computação e de quantificação da memória virtual aparecem na condição de metáfora da energia existencial em Bits: Vem, amor, mata essa minha fome de chips, de vips, de bits e de bytes. Mata essa minha fome de ais. [54] São as instâncias de comunicação, como a mais popular delas, o e-mail ou correio eletrônico, que frequentam com assiduidade os textos literários que extraem sugestões do universo cibernético. Em Mensagem, Sérgio Capparelli não apenas menciona o recurso, como se vale dele para o trocadilho provocado pela semelhança fônica entre ‘e-mail’ e ‘meio’: Envio mensagens pelo e-mail e me respondes inteira: interativa super ativa superativa [55] Mensagens perdidas, por sua vez, reflete sobre os limites da comunicação: Tenho pena dessas mensagens que se perdem pelo caminho e nunca chegam ao destino. Por causa de um engano por causa de um comando malsucedido. [56] Também Leo Cunha, cuja obra, como vimos, transita com desenvoltura no ciberespaço, aproveita, em Perdido no ciberespaço (2007), sugestões conceituais do mundo digital para expressar sentimento de perda e separação, tema clássico da poesia que, no caso de suas estrofes, e por meio da invocação de São Longuinho, articula-se com a menção a práticas e crenças populares: Veja o meu drama, amigo, ou amiga, estou perdido na Internet, fui fisgado pela rede, não encontro a saída. Maldita hora em que inventei de navegar por esses lados. Qualquer coisa deu errado, de uma hora pra outra tudo ficou escuro, tudo ficou estranho, já não sei meu paradeiro! Abre-te, página! Abre-te, Sésamo! Valha-me, São Longuinho! Eu já dei meus três pulinhos, mas não consigo me achar! [57] Da mesma forma que o e-mail, também blogsinspiram a formatação de obras literárias que aparecem no suporte livro. Novamente, nesse caso, a literatura se apropria de um procedimento da cultura virtual, incorporando-a no universo do impresso, como faz Luís Dill, em Todos contra D@nte, de 2008. O assunto da narrativa é o bullying praticado contra o Dante do título, aluno de uma escola de elite que não é aceito pelos colegas, por pertencer a uma classe média emergente e residir em zona suburbana da cidade, provavelmente Porto Alegre, a se julgar pelas indicações do texto e as expressões linguísticas empregadas pelas personagens. O assédio, brutal, acaba resultando na morte do garoto, e o enredo se concentra nos eventos posteriores à ação dos quatro adolescentes agressores que buscam escapar à punição, escondendo-se por trás do anonimato e da falta de testemunhas. A exposição da trama faz-se por meio de três tipos de discurso que ocupam as páginas ímpares do livro. Os diálogos, transcritos em 21 passagens, reproduzem as trocas de informações, por telefone (geralmente celular) ou pessoalmente, entre os agressores (a menina Manu e os garotos Cauã, Davi e James) e colegas de turma. Os diálogos são introduzidos por uma curta oração do narrador, que identifica os falantes; seguem-se conversas nas quais os agressores planejam como se proteger mutuamente. O segundo tipo de discurso reproduz as manifestações ofensivas e corrosivas dos membros da Comunidade Eu sacaneio o Dante (criada à época em que o Orkut era a rede social em evidência), composta por vários alunos, que rechaçam jovens provenientes de segmentos sociais mais humildes por meio do aviltamento de sua figura física, família e caráter. O terceiro discurso, em primeira pessoa, é emitido pelo protagonista, que cria um blog em que dialoga imaginariamente com seu xará, o poeta florentino Dante Alighieri (1265-1321), autor de A divina comédia, obra clássica do Renascimento italiano, escrita no século XIV e impressa no século XV. O blog tem teor eminentemente confessional, permitindo ao garoto falar dos problemas na escola, a paixão por Geovana, que considera a sua Beatriz, e da situação familiar. Esta caracteriza-se pela ausência do pai, o trabalho da mãe, que almeja ver o filho bem sucedido nos estudos, e pelo apoio emocional e material manifestado por Ulisses, o irmão mais maduro e experiente. A esses três discursos soma-se uma quarta voz, exibida nas páginas pares, e anunciada por um vínculo, um link disponibilizado em algum dos outros três discursos. Ele permite o retrospecto dos acontecimentos, quer este retrospecto se faça pela voz de um narrador onisciente,por uma citação (como as dos versos de Alighieri relembrados pelo Dante brasileiro), ou uma explicação, que esclarece os eventos mencionados nas páginas ímpares. Como se vê, a estrutura da obra aproveita sugestões do mundo da comunicação virtual. Comunidades, blogs, links são elementos do mundo digital, facultando a navegação entre páginas distintas. O ousado projeto gráfico da obra transforma-os em procedimentos narrativos e seus consequentes efeitos de sentido. A esses elementos o autor acrescenta recursos da linguagem literária, como o intertexto, ao introduzir o poema épico de Dante Alighieri. Concebendo o poeta de A divina comédia enquanto um dos fundadores da modernidade, o livro de Luis Dill une as pontas: valendo-se de recursos da linguagem digital, evoca a imagem do Inferno, ao modo como a Teologia cristã o concebe, inferno esse que o protagonista do livro, o menino Dante, vive diuturnamente. A oposição entre o conteúdo das páginas ímpares e das pares permite superar, ainda que não inteiramente, a bidimensionalidade de um livro impresso, uma vez que tenta esboçar a profundidade de campo que a linguagem digital propicia. Além disso, ao obrigar o leitor a voltar o olhar da página ímpar para a página par que a antecede, e não para a que a sucede, a técnica narrativa de Dill produz relevante modificação nos modos de percepção do texto impresso, cuja apreensão dá-se, no sistema da escrita ocidental, da esquerda para a direita. A página 27 reproduz o que conversam – e na ortografia em que escrevem, ainda que sem os sublinhados em azul que na tela indicam links – os participantes da Comunidade Eu Sacaneio o Dante. O leitor do livro é pilotado para retroceder à página anterior (p. 26). As duas próximas figuras reproduzem ambas as páginas: DILL, Luís. Todos contra Dante. Seguinte, 1ª edição, 2008 Figura 12 DILL, Luís. Todos contra Dante. Seguinte, 1ª edição, 2008 Figura 13 E que perspectivas abre essa superposição de fronteiras? 7. “Tudo ao mesmo tempo agora” Uma coisa de cada vez Tudo ao mesmo tempo agora Arnaldo Antunes [58] As novas ferramentas e linguagens da cultura digital abrem perspectivas inusitadas para o mundo do livro e da leitura. Inclusive para a literatura, o que evoca o polêmico disco dos Titãs de 1991, que repete ininterruptamente a contradição dos versos “uma coisa de cada vez / tudo ao mesmo tempo agora”. Ao longo deste capítulo, apontaram-se algumas das parcerias celebradas entre a cultura do impresso e a cultura digital, no que respeita às linguagens de que se podem valer a poesia e a prosa que se pretendem voltadas para leitura literária. Não é, no entanto, apenas na esfera da criação que os meios eletrônicos fazem parte do cenário literário contemporâneo. Eles parecem imprimir alterações profundas e amplas também nos modos de divulgação de obras e de autores. Os meios digitais podem ser uma porta que se abre sobretudo no caso de autores ainda não suficientemente conhecidos ou de gêneros literários (como a poesia), cuja publicação em livro encontra resistência por parte de editoras de grande porte. Escritores notáveis, por sua vez, começam a manter blogs ativos como forma de se comunicar mais diretamente com seu destinatário (de que é exemplo o endereço http://paulocoelhoblog.com/), e inovam de forma instigante a relação com os leitores, quer adiantando o lançamento de obras, quer testando a reação do público diante de eventuais mudanças de rumo em suas criações artísticas. Nesta nova era que se inaugura para a literatura e para o livro, o mundo digital ocupa um lugar muito expressivo, metamorfoseando- se em formas distintas de apresentação, seja amalgamando-se ao impresso, seja substituindo-o. Vivemos, efetivamente, um cenário de transição e de superposição, em um horizonte de muitas questões e poucas certezas, materializado, de uma parte, em sites, e-readers e e-books, que reproduzem formas de livros; e, de outra, em livros formatados com a sintaxe de sites. Com tais traços, a literatura infantil parece desfrutar de invejável pioneirismo. Do relançamento de Lobato ao livro de Dill, os resultados que a literatura infantil brasileira vem atingindo hoje, por um lado, lhe são próprios, mas, por outro, podem bem servir de exemplo para suas coirmãs do campo criativo com a palavra e a imagem, a literatura tout court. O volume da produção de literatura infantil e não infantil reforça ou enfraquece esta hipótese? O peso dos números e das instituições O texto quando escreve Escreve Ou foi escrito Reescrito? O texto será reescrito Pelo tipógrafo o leitor o crítico; Pela roda do tempo? Sofre o operador: O tipógrafo trunca o texto. Melhor mandar à oficina O texto já truncado. Murilo Mendes [59] Debruçar-se sobre a produção e a circulação de literatura infantil e juvenil brasileira das últimas décadas do século XX e das primeiras do século XXI não se limita à discussão sobre o impacto de novas linguagens e novas mídiasna cultura literária do livro impresso. O universo tradicional do livro impresso, particularmente o que se destina a crianças e jovens, agregou, de forma lenta, porém irreversível, outros novos e importantes traços. Alguns destes, talvez, decorrentes de uma marca das últimas décadas: forte tendência à institucionalização e, a ela relacionada, a marcante presença do Estado através de políticas de incentivo à produção, circulação e consumo de obras literárias. Além de medidas governamentais em âmbito federal, estadual e municipal, inúmeras instituições de ensino superior, organizações não governamentais e similares aparelhos da sociedade civil são agentes bastante ativos no cenário da literatura infantil e juvenil brasileira de nossa época. Qual é o Brasil em que tais processos, resultados, efeitos e perspectivas ocorrem? 1. O mercado editorial Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do “Cruzeiro”. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa. Paulo Honório [60] As décadas finais do século XX e as primeiras do século XXI constituem um tempo particularmente eufórico para o Brasil. Na esteira de movimentos populares, ação armada, articulações políticas, em 1985 uma eleição para presidente, ainda que indireta, põe fim a uma ditadura militar de mais de vinte anos, iniciada com a deposição, em 1964, do presidente João Goulart (1919-1976). A posse de um presidente civil, José Sarney, dá-se em 1985. Uma nova constituição é votada em 1988 e, com ela, o país prepara-se, mais uma vez, para prosseguir sua lenta, inconclusa porém sempre teimosamente retomada, caminhada em direção a uma sociedade mais justa, a uma modernidade mais humana. A redemocratização, oficializada em 1985, vem acompanhada de alterações de ordem econômica. A inflação, constante e crescente nos anos 1980, é controlada a partir de 1994 com o Plano Real, que rebatiza e estabiliza a moeda nacional. O Estado brasileiro, por sua vez, passa a guiar-se pela cartilha neoliberal. A globalização impõe igualmente suas regras, e o Brasil entra na rota dos mercados capazes de atrair investimentos estrangeiros. Amplia-se o parque industrial do país, ao mesmo tempo em que se desenvolve a agroindústria. Os efeitos sociais desta política fazem-se sentir na primeira década do século XXI, aumentando a oferta de empregos e estendendo-a a segmentos sociais até então marginalizados do mercado de trabalho. Nesse cenário, tem lugar nova explosão urbana, e a oferta de escolarização alcança faixas mais amplas da infância e da juventude. Uma população politicamente mais amadurecida reivindica