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Prévia do material em texto

© 2017, Marisa Lajolo, Regina Zilberman
2017, PUCPRess
Este livro, na totalidade ou em parte, não pode ser reproduzido por qualquer meio sem 
autorização expressa por escrito da Editora.
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)
Reitor
Waldemiro Gremski
Vice-reitor
Vidal Martins
Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação
Paula Cristina Trevilatto
Conselho Editorial
Auristela Duarte de Lima Moser
Cilene da Silva Gomes Ribeiro
Eduardo Biacchi Gomes
Evelyn de Almeida Orlando
Jaime Ramos
Léo Peruzzo Júnior
Rodrigo Moraes da Silveira
Ruy Inácio Neiva de Carvalho
Vilmar Rodrigues Moreira
Zanei Ramos Barcellos
 
PUCPRess – Editora Universitária Champagnat
Coordenação editorial
Michele Marcos de Oliveira
Editor
Marcelo Manduca
Editora de arte
Solange Freitas de Melo Eschipio
Administrativo
Larissa Conceição
Revisão
Camila Fernandes de Salvo 
Amanda Rodrigues Soares
Capa, projeto gráfico e diagramação
Solange Freitas de Melo Eschipio
Produção de ebook
S2 Books
Editora Universitária Champagnat 
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Rua Imaculada Conceição, 1155 - Prédio da Administração
6º andar - Câmpus Curitiba - CEP 80215-901 - Curitiba / PR
Tel. (41) 3271-1701
http://www.s2books.com.br/
editora.champagnat@pucpr.br
editorachampagnat.pucpr.br
 
 
Dados da Catalogação na Publicação 
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Sistema Integrado de Bibliotecas – SIBI/PUCPR – Biblioteca Central
L191L 
2017
Lajolo, Marisa
Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história. Marisa Lajolo, Regina
Zilberman. Curitiba : PUCPRess, 2017.
152 p. : il. ; 23 cm.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-68324-42-4
eISBN 978-85-68324-66-0
1. Literatura infantojuvenil – História e crítica. 2. Literatura infantojuvenil
brasileira. I. Lajolo, Marisa. II. Zilberman, Regina. III. Título.
CDD 20. ed. − 809.89282
mailto:editora.champagnat%40pucpr.br?subject=
http://editorachampagnat.pucpr.br/
SUMÁRIO
Capa
Folha de rosto
Créditos
Prefácio
Citação
Abrindo o livro
Literatura infantil e juvenil para além do livro
1. Pode haver “livro depois do livro”?
2. “Que coisa é o livro?”
3. E a literatura?
4. Novas fronteiras
5. Autores de leitores on-line
5.1 Sérgio Capparelli e Ana Cláudia
Gruszynski
5.2 Leo Cunha
file:///C:/Users/SUPORTE06/AppData/Local/Temp/calibre_zb84xiet/Text/Capa.xhtml
5.3 Angela Lago
6. Entre as antigas fronteiras
7. “Tudo ao mesmo tempo agora”
O peso dos números e das instituições
1. O mercado editorial
2. A profissionalização dos agentes da cadeia do
livro
3. A interferência da escola e o papel do estado
Novos territórios de criação para crianças e jovens
1. Livros de histórias sobre histórias
2. Um novo indianismo
3. Presença do não verbal
Pode haver livro e leitura para além da escola?
1. Uma ficção para lá de fantástica
2. Herança e transformação da liberação
feminina
Fechando o livro
Referências
PREFÁCIO
Este livro sutil e sábio de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, a
propósito da história da literatura brasileira para crianças e jovens
dos trinta últimos anos, permite refletir sobre três apostas mais
fundamentais de nosso tempo.
A primeira diz respeito à relação entre nossas definições
tradicionais do “livro” entendido como um discurso que tem suas
próprias características e as possibilidades técnicas oferecidas pelo
mundo digital. Descrevem as duas modalidades desta relação. A
primeira modalidade quer manter, na nova técnica de publicação dos
textos, os critérios que a partir do século XVIII definiram o que é um
“livro”: a originalidade da escritura, a identidade sempre reconhecível
da obra e a propriedade literária de seu autor. As edições digitais de
obras que já têm uma larga história impressa exemplificam o esforço
de libertar-se de formas e conceitos, através de textos móveis,
abertos, maleáveis, que podem ser palimpsestos e polifonia.
A segunda modalidade deriva da inventividade dos criadores de
literatura infantil e juvenil. Neste caso, são as possibilidades digitais
que propõem gêneros, objetos, criações irredutíveis à forma
impressa. São no cenário digital “alternativas de criação”. Não se
limitam à introdução na cultura do livro dos gêneros da rede (e-mails,
blogs, links), senão que produzem criações que são, segundo as
expressões das autoras, “hibridismo de linguagens” ou “amálgamas
de linguagens”. O site substituiu o livro, a liberdade do leitor, que
pode escolher entre opções narrativas, ao absolutismo do texto, e,
muitas vezes, a gratuidade do acesso ao comércio editorial. A aposta
não é sem importância, pois pode levar tanto à introdução na
textualidade eletrônica de alguns dispositivos capazes de perpetuar
os critérios clássicos de identificação de obras, na sua identidade e
propriedade, quanto ao abandono dessas categorias para inventar
uma nova maneira de compor novas produções estéticas que
exploram uma “plurimidialidade” mais rica que a simples relação
entre texto e imagens e que localizam o leitor numa posição que
permite escolhas ou mesmo participação.
A segunda aposta discutida neste livro refere-se à relação entre o
mundo digital e o mercado editorial, já que a edição na sua forma
comercial clássica se apresenta como a forma dominante da
circulação das novas criações digitais.
Enfatizam Marisa Lajolo e Regina Zilberman dois elementos: por
um lado, “situação de precariedade de práticas leitoras” no Brasil, por
outro, a importância das políticas públicas de aquisições dos livros
para as escolas. Concordam, assim, com os dados levantados pela
pesquisa Retratos da leitura no Brasil e as políticas públicas e
publicados neste ano de 2016 por José Castilho Marques Neto, que
mostram os efeitos positivos das políticas nacionais da leitura e a
escrita.
Entre 2011 e 2015, a população dos leitores aumentou no Brasil de
6%, passando de 50% a 56%. Não parece muito, mas na escala do
Brasil significa que 16 milhões de pessoas iniciaram-se em prática de
leitura. Os instrumentos deste crescimento foram a renovação das
bibliotecas públicas, as feiras do livro, as manifestações literárias, os
apoios na edição. O desafio do presente é manter ou acrescentar
estas intervenções que associam a leitura e a cidadania. No
momento em que existe a forte tentação de desmantelar as políticas
e instituições públicas, e não só no Brasil, a primeira
responsabilidade dos governos e da sociedade é a defesa do direito
ao saber e à poesia dos mais vulneráveis dos cidadãos.
A terceira aposta contemplada pelo livro de Marisa Lajolo e Regina
Zilberman vincula-se à relação ou ausência de relação entre as
leituras propostas ou impostas pela escola e as novas produções da
literatura infantil e juvenil. Depois da análise dos tópicos originais
dessas criações, constatam as autoras: “ainda que não
ostensivamente voltadas para o circuito escolar, obras que
tematizam outras criações literárias, tratam das culturas indígenas ou
investem solidamente na dimensão visual do objeto livro, também
circulam entre carteiras e alunos.” A mesma conclusão se impõe
para o gênero da “fantasy fiction” inaugurado por Harry Potter.
Daí as questões finais do livro. Deve a literatura infantil e juvenil
tornar-se “aliada explícita da pedagogia” ou ficar fora da escola para
manter seu “caráter libertário”? Devemos atribuir à inventividade
dessa literatura, que se vale de “procedimentos metalinguísticos e
intertextuais”, um papel decisivo no incremento, não somente dos
tempos de leitura dos jovens, senão também na difusão de
competências de leitura capazes de favorecer o desfrute das
invenções literárias? E se é o caso, como articular aprendizagem
escolar e leituras livres tanto digitais como tradicionais?
Marisa Lajolo e Regina Zilberman obrigam seus leitores a dar
resposta às questões que assim formulam. É o grande mérito do seu
elegante livro.
Roger Chartier
Surgirá a História Nova do Brasil em suas verdadeiras dimensões.
Na medida em que ela surgir é que o país se transformará naquilo
que todos desejamos – em que o povo brasileiro bem merece.
Joel Rufino dos Santos [1]
abrindomaiores investimentos em educação, saúde e segurança, bem como
melhor aparelhamento urbano no âmbito do saneamento, transporte
público, meio ambiente e cultura. O comércio de bens de consumo
prospera, e fortalece-se uma nova classe média que, depois de um
longo período de arrocho, pode beneficiar-se das facilidades de
financiamento para aquisição de bens menos ou mais duráveis,
como eletrodomésticos e casa própria.
Um tal cenário se manifesta em todas as áreas sociais e afeta
profundamente a cultura em seus processos e produtos. Afeta de
maneira específica distintas modalidades artísticas, mas mexe com
todas. Da pintura à dança, da música ao teatro e ao cinema
multiplicam-se projetos públicos de apoio à produção estética, e
proliferam espaços e eventos que favorecem a circulação de
criações artísticas e seu consumo.
No que respeita à literatura, cresce consideravelmente o número
de livros impressos, em especial das obras – didáticas e literárias –
destinadas a crianças e jovens. Livros para crianças e jovens exibem
espetacular desenvolvimento quantitativo e qualitativo, propondo,
desdobrando e consolidando novas formas de produção e difusão.
Os quadros a seguir, organizados a partir de levantamentos da
Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional de Editores
de Livros (SNEL), registram o aumento do número de obras dirigidas
ao público infantil e juvenil. Embora tais dados sejam, desde 1992,
[61] levantados anualmente, nem sempre se mantêm constantes as
categorias em torno das quais eles se agrupam. Acresce a este
embaraço a pouca autoconfiança das autoras quando transpõem as
fronteiras do mundo das letras para o dos números. No entanto, a
decisão de arriscar algumas discussões fundadas em cifras foi
tomada em função da já mencionada indissociabilidade – a partir de
um certo ponto – entre quantidade e qualidade.
O primeiro quadro dá conta da população brasileira nas últimas
décadas. O segundo, da produção de livros no Brasil em diferentes
anos do século XXI. A oscilação dos números encontrados em
diferentes fontes, se não invalida as reflexões aqui propostas (e
acreditamos que não as invalida), relativiza a objetividade que os
desfamiliarizados com algarismo costumam atribuir a eles.
QUADRO I - POPULAÇÃO BRASILEIRA
Ano POPULAÇÃO
1980 118.5 (milhões) [62]
1990 143.3 (milhões) [63]
1991 146.825.475 [64]
2000 165.5 (milhões) [65]
2010 186.5 (milhões) [66]
2014 202.7 ( milhões)
2015 204.4 ( milhões)
QUADRO II [67] - PRODUÇÃO DO SETOR EDITORIAL BRASILEIRO (Primeira edição e
reedições)
PRODUÇÃO
Ano Títulos Exemplares
2002
39.800
338.700.000
2003
35.590
299.400.000
2010
54.754
492.579.094
2011 499.796.286
58.192
2012
57.473
485.261.331
2013
62.235
467.835.900
2014
60.829
501.371.513
2015
52.427
446.848.571
Fonte: SNEL – Sindicato Nacional de Editores de Livros [68]
QUADRO III - VENDAS
ANO TÍTULOS EXEMPLARES
1990
22.479
239.392.000
1995
40.503
330.834.320
2000
45.111
329.519.650
2005
41.528
306.463.687
2010
54.754
492.579.094
Fonte: SNEL – Sindicato Nacional de Editores de Livros [69]
O próximo quadro discrimina o número de títulos editados nas
áreas de didáticos, paradidáticos, infantis e obras destinadas ao
público adulto. Importa assinalar a falta de nitidez entre as fronteiras
que pretendem estabelecer a distinção entre uma e outra categoria.
QUADRO IV - TÍTULOS EDITADOS
 
1990 1995 2000 2005 2010
INFANTIL
- 5.791 3.776 2.768 -
JUVENIL
- 3.026 4.065 1.730 -
INF + JUV
4.890 8.817 7.841 4.498 3.539
ADULTA
3.356 2.089 2.628 5.399 -
DIDÁTICOS
2.163 13.104 9.640 15.965 -
 
2011 2012 2014 2015
INFANTIL
- 7.047 7.802 6.783
JUVENIL
- 3.964 6.783 3.952
INF + JUV
3.508 11.011 14.585 10.735
ADULTA
- 5.863 6.563 4.841
DIDÁTICOS
- 10.276 8.801
9712
Tabela construída com base nos dados constantes de relatórios O comportamento do setor
editorial brasileiro, de anos diversos (FIPE, CBL, SNEL)
O quadro V registra os exemplares editados em cada categoria.
QUADRO V - EXEMPLARES EDITADOS
 
1990 1995 2000 2005 2010
INFANTIL 31.941.520 39.916.745 26.125.767 14.205.773 26.500.755
JUVENIL
-
13.169.185 7.964.627 8.172.365 43.790.281
INF + JUV 31.941.520 53.085.930 34.090.394 22.378.138 70.291.036
ADULTA 28.896.440
-
8.568.078 24.906.597 39.652.617
DIDÁTICOS 104.308.640 193.736.323 196.223.729 171.531.776 230.208.962
 
2012 2013 2014 2015
INFANTIL 32.030.337 39.269.715 37.259.612 12.499.466
JUVENIL 15.383.065 20.315.473 20.085.348 11.277.437
INF + JUV 47.413.402 59.585.188 57.344.960 23.776.903
ADULTA 37.870.478 43.342.414 48.491.769 31.649.010
DIDÁTICOS 214.250.244 195.575.296 211.518.868 219.390.259
Tabela construída com base nos dados constantes de relatórios O comportamento do setor
editorial brasileiro, de anos diversos (FIPE, CBL, SNEL)
Como já apontado, nem sempre é muito nítida a identidade das
categorias em torno as quais se desenham as pesquisas a partir das
quais os quadros até aqui propostos foram montados. Contudo, elas
evidenciam que a produção de literatura infantil e juvenil quase
sempre supera a da literatura destinada ao público adulto.
Tais dados mostram que o processo de encorpamento da literatura
infantil e juvenil, iniciado a partir dos anos 1970, foi levado adiante e
fortalecido, fazendo com que livros para crianças e jovens
passassem a representar fatia cada vez maior do mercado. Observa-
se, no mesmo sentido, que é o livro didático – parente próximo do
livro de literatura infantil e juvenil, por circularem ambos, em grande
parte dos casos, entre o mesmo público – que lidera, com ampla
vantagem, esse mercado.
Que consequências acarreta essa configuração do mundo dos
livros?
2. A profissionalização dos agentes da cadeia do livro
Andam todos curiosos por ler as tais Memórias da Emília, que não
saem nunca. Como vão elas?
Emília, toda ganjenta com o elogio – respondeu – rebolando-se: -
Vão indo bem, muito obrigada. Mas devagar. Meu secretário (o
Visconde) briga muito comigo e faz greves. Eu ordeno: “Escreva
isto”. Ele, que é um “sabugo ensinado”, escandaliza-se. “Oh, isso
não! É impróprio”. E vem o “fecha” e o livro vai atrasando…
Monteiro Lobato [70]
O mundo editorial brasileiro do século XXI, expresso inicialmente
pelos dados numéricos até agora apresentados, é moderno e
globalizado.
Sua modernidade supõe distintas instâncias: editoras,
distribuidoras, livrarias convencionais e on-lineonde atuam e
interagem profissionais com funções diferenciadas, entre os quais se
contam escritores, capistas, ilustradores, editores de texto, revisores
etc.
Tudo, é claro, em função do leitor, consumidor da mercadoria por
eles fabricada.
Esse conjunto de profissionais compõe a chamada cadeia do livro.
A denominação é originária da economia, e seu emprego tende a
retirar a produção do livro – inclusive o literário – da esfera de um
único indivíduo. A percepção da importância da cadeia do
livroenfraquece a concepção de literatura, durante um bom tempo
subscrita e chancelada pelos estudos literários, centralizada
exclusivamente na figura do autor, nos recursos textuais por ele
agenciados e nos sentidos por ele (presumidamente) pretendidos.
Sabe-se hoje que o autor não está sozinho em cena, pois
presencia-se o que parece ser um irreversível movimento de
profissionalização por parte dos participantes da cadeia do livro. O
novo cenário afeta desde os artistas (escritores e ilustradores) até os
envolvidos com a circulação do produto final, como agentes literários,
divulgadores e gestores culturais responsáveis por políticas de
difusão da leitura (professores, bibliotecários, contadores de
histórias, críticos literários), cujo papel de mediadores é destacado
na maioria dos discursos e projetos voltados para livros e formação
de leitores.
Se essas personagens responsabilizam-se pela mediação entre
obras e públicos, na relação autor/obrafazem-se presentes
profissionais nem sempre evidentes em outras instâncias do sistema
literário. Entre esses podem-se incluir o leitor crítico ou parecerista, a
quem a editora encomenda umaprimeira avaliação da obra, o
coordenador de uma coleção ou série, podendo-se ainda somar um
supervisor pedagógico. O estabelecimento de metas de produção
complementa o quadro de uma ação planejada que precisa levar em
conta as características do mercado consumidor. [71]
Com a palavra, um premiado escritor brasileiro, Luís Antônio
Aguiar:
Escrevo sob encomenda. Agora mesmo criei um livro sobre violência no
Rio de Janeiro. Mas isso não é uma concessão ao mercado, não. Eu sou
um escritor profissional. Então um editor diz: “eu estou precisando de um
livro assim, sobre violência no Rio de Janeiro”, aí eu escrevo o livro. [72]
Ainda que se possa entender o mundo do consumo enquanto
unidade homogênea, o comércio do livro o subdivide em nichosque a
literatura – em especial, a infantil – precisa levar em conta, pois seu
mercado é segmentado em subgrupos para os quais os produtos
literários são direcionados. As tabelas anteriormente apresentadas
apontam para reflexos, na categorização dos livros, desta
segmentação progressiva do mercado consumidor. Às categorias
mencionadas nos quadros exibidos, podem somar-se os livros para
jovens adultos, bebês, ou a chicklit, denominação adotada para as
obras destinadas a jovens do sexo feminino.
Assim, os livros infantis e juvenis são oferecidos a seus possíveis
destinatários, considerando as variadas faixas etárias em que se
distribui o flutuante público de crianças e jovens. Tais leitores – nas
origens do gênero no Brasil indistintamente nomeados como
crianças – são agora sofisticadamente redistribuídos em
subcategorias como jovem adulto, leitor proficiente, leitor pré-
alfabético e mais outras tantas denominações pelas quais a
imaginação editorial, com uma mãozinha da Pedagogia, distribui sua
clientela virtual segundo sua competência leitora. Exemplar disso é a
categorização exibida por uma editora brasileira em seu site:
FILTRO POR NÍVEL DE LEITURA SOBRE OS NÍVEIS
Iniciação à leitura
Leitor Iniciante
Leitor em Processo
Leitor Fluente
Leitor Crítico [73]
Em tal contexto, um autor pode ser chamado a redigir muitos
títulos ao longo, por exemplo, de um ano. Manifesta-se, com isso, no
universo da literatura infantil e juvenil, um ritmo de produção
aparentemente diverso daquele tradicionalmente associado à criação
artística. A bibliografia de autores mais considerados inclui às vezes
mais de uma centena de títulos, distribuídos entre obras
assumidamente literárias e outras didáticas ou paradidáticas. Desse
modo, ao lado de obras elaboradas por iniciativa própria, por conta
da vontade, projeto literário ou (para quem acredita) inspiração do
artista, autores contemporâneos também podem escrever (e muitas
vezes escrevem, como depõe Luís Antônio Aguiar) outras,
encomendadas por editoras, para satisfazer expectativas específicas
do mercado. Parece bastante intensa a demanda editorial por obras
destinadas a certas faixas etárias, focalizando determinadas
temáticas ou ainda transcorrendo em ambientes ou espaços por
alguma razão tornados relevantes.
Mais ainda: o escritor hoje, talvez mais do que em outras épocas,
é também chamado a colaborar ativamente para o sucesso do
produto que oferece, muitas vezes desdobrando-se na tarefa,
corrente a partir dos anos 1970 do século XX, de visitar escolas ou
participar de feiras de livros e de eventos literários. Em tais
oportunidades, autores e leitores encontram-se sem a mediação da
página impressa, ainda que este encontro face a face tenha por
objetivo final o incentivo à leitura.
Visitas a escolas e participação em eventos como bienais, feiras e
festivais dedicados ao livro são ações multifacetadas, e algumas de
suas faces não são isentas de risco.
De uma parte, tais iniciativas parecem humanizar o objeto livro
muitas vezes visto com reserva, temor, desconforto. Neste caso, a
presença do escritor pode ser decisiva: ele representa o ângulo mais
visível e aureolado do processo de produção da literatura,
centralidade essa sublinhada por pelo menos cinco séculos de
estudos literários. De outra, a participação em eventos e visitas a
escolas representa riscos quando o componente didático e formador
do livro infantil torna-se privilegiado no contato com o público leitor.
Ou, sobretudo, quando autores e livros tornam-se meros objetos de
consumo, midiaticamente promovidos e espetacularizados, tendência
que alguns estudiosos do pós-modernismo consideram em ascensão
na produção cultural do mundo globalizado.
O fortalecimento e expansão do mercado editorial brasileiro
oferece a escritores e ilustradores atuantes no espaço da literatura
infantil e juvenil possibilidade de uma efetiva profissionalização, meta
distante e quase inalcançável antes de meados do século XX. E
ainda muito pouco comum na área da literatura para adultos,
sobretudo a considerada alta literatura.
A independência financeira pode constituir uma das vantagens do
atual estágio do mundo editorial brasileiro. Sua contrapartida é a
eventual subordinação do escritor a projetos editoriais, que
predeterminam temas, épocas históricas, características dos leitores
e outros quesitos a serem contemplados no texto. Soma-se a isso a
disponibilidade permanente para atuar junto ao público, buscando
atraí-lo e cativá-lo para a leitura, talvez – em especial – a de suas
próprias obras.
Esta contrapartida, bastante visível na área de livros para crianças
e jovens, parece sugerir que os profissionais desta área ocupam a
ponta do iceberg da cadeia do livro. E a ocupam de forma exemplar,
haja vista os prêmios internacionais recebidos por artistas brasileiros
nos últimos trinta anos.
QUADRO VI
ANO PRÊMIO AUTOR OBRA
1981 PRÊMIO CASA DE LAS
AMÉRICAS
ANA MARIA
MACHADO
DE OLHO NAS PENAS
1982 PRÊMIO HANS CHRISTIAN
ANDERSEN - AUTOR
LYGIA BOJUNGA
NUNES
LIVROS ATÉ ENTÃO
PUBLICADOS
LISTA DE HONRA DO IBBY ANA MARIA
MACHADO
O MENINO PEDRO E SEU
BOI VOADOR
1983 Bienal de Ilustração de Bratislava RICARDO
AZEVEDO
UM HOMEM NO SÓTÃO
1985 PREMIO MIRLOS BLANCO WERNER ZOTZ RIO LIBERDADE
1989 ENCOMENDA DA UNESCO RUTH ROCHA VERSÃO INFANTIL DA
DECLARAÇÃO DOS
DIREITOS HUMANOS
1989 ENCOMENDA DA UNESCO RUTH ROCHA DECLARAÇÃO SOBRE
ECOLOGIA PARA
CRIANÇAS
1991 PRÊMIO OCTOGONALES ANGELA LAGO O CASO DA BANANA
1993 ANO A PARTIR DO QUAL AUTORES BRASILEIROS 
SÃO PRESENÇA CONSTANTE NO CATÁLOGO WHITE RAVENS [74]
1994 PRÊMIO IBEROAMERICANO
DE ILUSTRACIÓN
ANGELA LAGO LIVROS ATÉ ENTÃO
PUBLICADOS
1996 PRÊMIO NORMA
FUNDALECTURA
MARINA
COLASANTI
LONGE COMO O MEU
QUERER
1998 LISTA DE HONRA DO IBBY SYLVIA ORTHOF LIVROS ATÉ ENTÃO
PUBLICADOS
2000 PRÊMIO HANS CHRISTIAN
ANDERSEN - AUTOR
ANA MARIA
MACHADO
LIVROS ATÉ ENTÃO
PUBLICADOS
2003 UNESCO PRIZE FOR
CHILDREN’S AND YOUNG
PEOPLE’S LITERATURE
ROGÉRIO
BORGES E DANIEL
MUNDURUKU
MEU AVÔ APOLINÁRIO
2004 ASTRID LINDGREN MEMORIAL
AWARD (ALMA) [75]
LYGIA BOJUNGA
NUNES
LIVROS ATÉ ENTÃO
PUBLICADOS
2006 PRÊMIO BIENAL
INTERNACIONAL DE
BRATISLAVA
ANGELA LAGO JOÃO FELIZARDO, REI DOS
NEGÓCIOS
Somam-se a essas premiações – aqui tomadas como chancela
internacional da qualidade da produção brasileira – as duas vezes
(2008 e 2010) em que Bartolomeu Campos Queirós (1944-2012) foi
escolhido finalista na categoria escritor do prêmio Hans Christian
Andersen, do IBBY.
Por quantos e quais circuitos se espraia o prestígio que prêmios
como os antes elencados conferem a livros e a escritores?
3. A interferência da escola e o papel do estado
O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde
de Ramos, do Norte, enchia o Império com o seu renome de
pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias,
conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à sustância,
atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros
elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido
concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais
caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas
públicas de toda parte com a sua invasão de capas azuis, róseas,
amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-seao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da
pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia
surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não
havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito.
E engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não
admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou
recepções da coroa, o largo peito do grande educador
desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a
nobreza de todos os honoríficos de berloques.
Raul Pompéia [76]
Muito embora se possa acreditar que os leitores escolhem os livros
que querem ler, em certas situações, nem todos desfrutam dessa
desejada autonomia. Sobretudo os leitores mais jovens. Para este
segmento do público, muitas vezes as instâncias que fazem a
mediação com a obra não levam em conta a vontade do leitor,
embora costumem falar em nome dele.
Entre tais instituições mediadoras, destaca-se a escola.
Livros destinados ao público escolar são muitas vezes escolhidos
a partir de pressupostos pedagógicos contemporâneos, mas ainda
assim tão pedagógicosquanto patriotismo e obediência, valores
difundidos, por exemplo, em Poesias infantis, de Olavo Bilac, [77] que
contavam com a aval e com a compra de autoridades educacionais
de seu tempo.
A carta a seguir, provavelmente de 1898/1899, dirigida pelo poeta
a Alberto Torres (1865-1917), na época governador do estado do Rio
de Janeiro, e relativa à adoção do livro Terra Fluminense, resultado
da parceria entre Bilac e Coelho Neto (1864-1934), é bastante
sugestiva da estreita e antiga relação entre literatura infantojuvenil,
livros didáticos e governo:
Rio de Janeiro 31 de julho
Exmo. e il. amigo sr. Dr. Alberto Torres. Particular.
Cumprimento etc.
Fui honrado com uma carta do exmo. dr. Martinho Campos dizendo-me
que o governo espera apenas, para definitivamente adotar o livro escolar
A T. F. [Terra fluminense], que os autores marquem o preço pelo qual
pretendem fornecê-lo ao Estado. Por ser mau o meu estado de saúde, e
não poder eu subir a Petrópolis, - escrevi logo a S. Exa.: o que os autores
da T. F. pedem é tão razoável e tão moderado, - que Coelho Neto e eu
ousamos pedir a V. Exa. que mais uma vez usando de benevolência dê à
sua pretensão o favor de seu exame...
Peço a V. Exa. que desculpe a minha importunação e creia etc etc etc.
Olavo Bilac [78]
 
A carta parece ter surtido efeito: a folha de rosto da obra (que teve
apenas uma edição, em 1898) informa que se trata de “livro
unanimemente aprovado pelo Conselho Superior de Instrução do
Estado do Rio de Janeiro”.
Aparentemente, no Brasil do século XXI, livros para crianças e
jovens continuam, salvo em fugidios momentos de invenção e
vanguarda, gerenciados pelo discurso didático e ideológico de
órgãos centrais da Educação e da Cultura, reforçando-se com isso,
ainda que sob nova roupagem, a tão antiga vocação
gramscianamente orgânica da literatura infantil e juvenil.
Se uma tal situação talvez não seja exclusividade brasileira – e
certamente não o é – sem dúvida também não é invenção
contemporânea, como sugere episódio mencionado em capítulo
anterior, protagonizado por Monteiro Lobato e Lourenço Filho em
1922, bem como a correspondência de Bilac antes transcrita.
Se a carta de Lourenço Filho a Monteiro Lobato tem quase um
século, vale a pena observar que procedimentos normativos
continuam – neste nosso século XXI – pautando a leitura escolar dos
mais jovens, como se pode observar em trecho de edital do
Ministério da Educação, de 2014, transcrito a seguir:
1.1. Este edital tem por objeto a convocação de editores para o processo
de inscrição e seleção de obras de literatura sobre a temática indígena
que, por meio das artes verbais, divulguem e valorizem a diversidade
sociocultural dos povos indígenas brasileiros, bem como suas diversas e
amplas contribuições no processo histórico de formação da sociedade
nacional, no âmbito do PNBE. [...]
1.1.1. Compreendem-se como artes verbais manifestações que
apresentam uma visão integrativa das tradições ou produções atuais e
que fazem uso da linguagem de uma forma especial, privilegiando suas
dimensões estética, social e cultural.
1.2. Serão aceitas para participar do processo de aquisição obras de
literatura de autores indígenas e não indígenas que apresentem produção
literária relacionada aos povos indígenas brasileiros, fomentando a ruptura
de estereótipos sobre as suas histórias, culturas e identidades, em uma
abordagem positiva da pluralidade cultural indígena e da afirmação de
direitos culturais diferenciados dos povos indígenas. [79]
A partir da constituição aprovada em 1988, sucederam-se
discussões relativas à inadequação da legislação educacional
brasileira, considerada em desacordo com a nova situação do país,
em esforço de redemocratização. Como resultado, em 1996/1997,
aprova-se e promulga-se a nova Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional. Vem, na sequência, uma série de medidas
legais para implementá-la, e aparecem iniciativas políticas de
distintos formatos e com diferentes horizontes ideológicos.
É neste contexto, atravessado por variadas correntes de
pensamento, que, em 1997, o Ministério da Educação divulga
documentos – intitulados, respectivamente, Parâmetros Curriculares
e Temas Transversais – que, a partir de então, pavimentam o
percurso da cultura escolar, afetando direta e profundamente a
literatura infantil.
Os temas transversais elencados pelos documentos são seis:
Ética, Pluralidade Cultural, Meio Ambiente, Saúde, Orientação
Sexual e Temas Locais. Desde então, eles passam a constar de
catálogos de editoras, como se vê na transcrição a seguir, extraída
do catálogo digital da Editora Ática, que, ao lado de especificar grau
de escolaridade e faixa etária de cada obra, assinala o(s) tema(s)
transversal(is) que nelas pode(m) ser identificado(s) e posteriormente
trabalhado(s) em classe:
A aldeia sagrada
Paradidáticos - Literatura Juvenil
Faixa etária/Ano: 11 anos/ 6º ano, 12 anos/ 7º ano
Temas: Crítica social/ Desigualdade/ História
Temas transversais: Pluralidade cultural
Categorias: Novelas [80]
A caixa de Fernão - Eduardo Garrafa
Paradidáticos - Literatura Juvenil
Faixa etária/Ano: 13 anos/ 8º ano, 14 anos/ 9º ano
Temas: Ambição/ Ganância/ Família/ História
Temas transversais: Ética, Saúde
Categorias: Novelas [81]
A atenção a temas que se fazem presentes em livros voltados para
crianças e jovens, ultrapassando o âmbito editorial, chega às
instâncias que os avaliam, sobretudo quando candidatos às compras
governamentais. É, ao menos, o que sugerem os pareceres
transcritos a seguir, [82] que ilustram alguns dos discursos que – ao
avaliarem – correm o risco de pautar, formatar e gerenciar a literatura
infantil e juvenil brasileira contemporânea, priorizando recortes
pedagógicos bastante próximos dos sugeridos pela carta de
Lourenço Filho a Monteiro Lobato:
Trata-se de obra bem intencionada, mas no entanto apresenta a figura do
índio tutelada pelo branco, na medida em que é apenas ao frequentar a
escola que o indiozinho aprende hábitos de higiene. Seria necessário
incluir na história a ideia dos valores autênticos das comunidades
indígenas.
Recomenda-se o livro (xxxxx) para (esta determinada clientela xxxxx) por
encontrar-se nele um excelente exemplo de trabalho cooperativo na sala
de aula, quando todos os alunos da classe se esforçam para serem
solidários nas festas de formatura com a coleguinha que é cadeirante.
O livro corresponde de forma total ao tema transversal diversidade cultural
permitindo que o professor, ao discutir com seus alunos questões de
imigração e de migração interna, habilite-os a serem cidadãos plenos e
responsáveis em um mundo globalizado que precisa aprender a respeitar
a alteridade.
Talvez seja desnecessário apontar que discursos deste teor podem
espartilhar a produção literária, patrulhando de forma impiedosa
enredos, peripécias, personagens, com risco grande de
pasteurização do produto. Tais gestos, se fortalecidos e
generalizados,denegam ao livro infantil o perfil de vanguarda se se
entender – como pré-requisito da vanguarda – ruptura, ao invés de
satisfação das expectativas do público.
Se e quando interiorizados pelos artistas, tais critérios e valores
transformam a literatura infantil em discurso pedagógico e
paradidático, ainda que etiquetado como literatura e justificado pela
alegada necessidade deestimular o gosto pela leitura e a
assiduidade aos livros. Este projeto se consolida a partir dos anos
1970, quando começou a frequentar a fala de educadores,
intelectuais e políticos o que passou a ser chamado “crise de leitura”,
diagnosticada sob vários ângulos, desde o econômico ao cultural.
O baixo poder aquisitivo da grande maioria da população brasileira
e o pequeno interesse pela cultura letrada, sobretudo quando se
trata de suas manifestações mais sofisticadas, como a literatura,
foram (e são ainda?) seguidamente responsabilizados pela pouca
intensidade e baixa qualidade das práticas leitoras de boa fração da
população jovem (só a jovem?) brasileira.
Pesquisa recente promovida pelo Instituto Pró Livro apresenta
dados muito sugestivos.
O Instituto Pró-Livro, entidade fundada pela Câmara Brasileira do
Livro (CBL), pela Associação Brasileira de Editores de Livros
Escolares (ABRELIVROS) e pelo Sindicato Nacional de Editores de
Livros (SNEL), liderou a iniciativa de patrocinar, em 2011, a
realização da pesquisa Retratos da leitura no Brasil, cujos resultados
foram publicados no primeiro semestre de 2012. Suas edições
anteriores ocorreram em 2001 e 2008, e a comparação permite
auferir e avaliar como se comportam os leitores e consumidores de
livros no país.
Para a consecução da tarefa, foram entrevistadas 5012 pessoas,
de 315 municípios brasileiros, consideradas representativas da
população nacional com mais de cinco anos de idade. [83] Os
resultados da pesquisa fornecem os dados a seguir resumidos:
a)
a média de livros lidos nos últimos três meses
anteriores à entrevista, entre todos os sujeitos, foi
de 1,85 livros no total, sendo que 0,82 desses
foram lidos inteiros, e 1,03 apenas em parte;
b)
dentre os 1,85 livros lidos, 0,81 foram indicados
pela escola, e 1,05 livros foram escolhidos por
iniciativa própria;
c)
entre os entrevistados leitores, a média de livros
lidos nos últimos três meses anteriores à entrevista
alcançou 3,74 livros no total, sendo que 1,66
desses foram lidos inteiros, e 2,08 apenas em
parte;
d)
dentre os 3,74 livros lidos, 1,63 foram indicados
pela escola, e 2,11 livros foram escolhidos por
iniciativa própria;
e)
o número de livros lidos por ano, entre todos os
entrevistados em 2011, alcançou 4 livros por
habitante/ano, sendo que 2,1 foram lidos por inteiro
e 2,0 em parte;
f)
este número é inferior ao alcançado em 2007,
quando foi constatada a leitura de 4,7 livros por
habitante/ano.
Os resultados registrados não foram propriamente animadores. A
eles soma-se o dado mais recente, mencionado em 2013 pelo
secretário executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL),
José Castilho Marques Neto, por ocasião da 15ª Jornada Nacional
de Literatura, em Passo Fundo, de que apenas 26% dos
alfabetizados no Brasil “são leitores plenos, aqueles capazes de
compreender o conteúdo dos textos.” [84] Por outro lado, pesquisa
mais recente ainda que se debruça sobre o uso do Vale Cultura, do
Ministério da Cultura, aponta que significativa percentagem dos
recursos por ele disponibilizados a trabalhadores foi empregada na
compra de jornais, revistas e livros. [85]
Assim, às entidades – públicas, privadas e do terceiro setor – e
aos eventos voltados para o fomento à leitura, bem como aos
mediadores, como professores, escritores, contadores de histórias
restam ainda muitas tarefas pela frente e um longo caminho a
percorrer.
A situação de precariedade de práticas leitoras aqui delineada não
afeta apenas o segmento de livros para crianças e jovens; afeta a
produção literária em geral. É, no entanto, sobre o segmento de
crianças e jovens que mais se discute, talvez porque seja sobre ele
que se acredita poder atuar com expectativa de reversão do quadro.
São inúmeras, através ou não da escola, iniciativas que buscam
(com diferentes graus de sucesso) alterar hábitos de consumo e de
lazer da população jovem, na hipótese de que a leitura promovida
em sala de aula possa prolongar-se por toda a vida.
Em decorrência, a literatura infantil, enquanto gênero, vê-se
investida da missão de redimir a leitura e alterar o panorama de
práticas letradas ralas e precárias do país.
Esta precariedade, no entanto, vem de longe e articula-se bem à
História brasileira. [86]
O país só teve imprensa no século XIX, e seu primeiro sistema
educacional, implantado pelos jesuítas no século XVI, foi objeto de
desmanche no século XVIII. Reconstruído de modo bastante lento no
Segundo Reinado e nas primeiras décadas da República, apenas na
segunda metade do século XX tem sido objeto de medidas voltadas
para a universalidade da alfabetização e letramento, habilidades
essenciais para a leitura e, consequentemente, para o
consumo/desfrute de livros. Pesquisas em andamento atenuam em
parte a interpretação deste quadro, documentando e discutindo
formas, digamos, clandestinas de circulação de livros e de práticas
de leitura. [87]
É diante desse panorama que chamam a atenção os generosos
números ligados ao mercado de livros infantis e juvenis com que se
abriu este capítulo.
Políticas de Estado ligadas a livros e a leitura são antigas. Podem
ter como baliza inicial a fundação, em 1937, durante o Estado Novo,
do InstitutoNacional do Livro(INL), criado com função de expandir a
rede de bibliotecas públicas, elaborar enciclopédia e dicionário
brasileiros, e editar obras literárias consideradas relevantes.
Quase setenta anos depois da fundação do INL, em 2006, é
proposto um Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) que, ligado
aos ministérios da Educação e da Cultura, é contemporâneo e
muitas vezes agente de medidas importantes que dinamizam o
mercado com vultosas compras e distribuição de livros a escolas,
bibliotecas e mesmo jovens cidadãos.
Entre uma data e outra – 1937 e 2006 – muitas outras medidas
voltadas para o desenvolvimento e fortalecimento de práticas leitoras
foram propostas, com maior ou menor eficácia. Assinalam-se a
seguir alguns projetos de âmbito nacional formulados nas últimas
três décadas.
QUADRO VII
ANO PROGRAMA ENTIDADES ENVOLVIDAS
1982 CIRANDA DE LIVROS FNLIJ 
LABORATÓRIOS HOESCHT 
FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO
1984 SALAS DE LEITURA FUNDAÇÃO DE ASSISTÊNCIA AO ESTUDAN
TE/ FAE, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
1992 PROLER BIBLIOTECA NACIONAL, MINISTÉRIO DA 
CULTURA
1997 PROGRAMA NACIONAL DE 
BIBLIOTECA NA ESCOLA 
(PNBE)
FUNDO NACIONAL DO DESENVOLVIMENTO 
DA EDUCAÇÃO (FNDE) 
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA (SEB). 
MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO
2006 PLANO NACIONAL DO 
LIVRO E DA LEITURA (PNLL)
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO 
MINISTÉRIO DA CULTURA
Se a Ciranda de Livros foi programa pioneiro, o projeto Salas de
Leitura pode ser considerado a ‘versão zero’ do contemporâneo e
bem sucedido Programa Nacional de Biblioteca na Escola (PNBE).
Fazendo parte do PNLL, gerenciado pelo Fundo Nacional do
Desenvolvimento da Educação (FNDE) e pela Secretaria de
Educação Básica (SEB), do Ministério de Educação, o PNBE tem por
missão distribuir acervos de literatura para estruturar as bibliotecas
das escolas públicas.
Ao longo de suas várias reformatações, o PNBE previa em 2007
um orçamento de 54.000.000,00 (cinquenta e quatro milhões de
reais), [88] cifra que dialoga razoavelmente com os “mais de R$ 55
milhões” que a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial
Brasileiro 2008 registra como representando o “faturamento relativo
ao PNBE”.
Tentando chegar às entrelinhas de tantas siglas, cabe inicialmente
retornar aos Quadro I a V e analisá-los na contraluz de observação
da jornalista Maria Fernanda Rodrigues.
Em matéria publicada em O Estado de São Paulo e reproduzida
em Reporter News, Maria Fernanda Rodrigues aponta que o
mercado editorial brasileiroproduziu e imprimiu mais títulos na
passagem de 2010 para 2011. Contudo, segundo ela, “em termos de
faturamento (...) o crescimento de 2011 comparado ao de 2010 foi
mínimo, de apenas 0,81% - já descontada a inflação e somadas as
vendas das editoras para livrarias e leitor final e também para o
governo” [89]. Assim, se excluídas dessa conta as expressivas
compras do governo, sobretudo o Federal, que sustentam muitas
editoras, o que se registrou, no último ano, foi queda real de 3,27%.
As compras do governo federal decorrem de programas de
Estado, destacando-se, além do já citado Programa Nacional
Biblioteca na Escola (PBNE), o Programa Nacional do Livro Didático
(PNLD), o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio
(PNLEM) e o Programa Nacional do Livro Didático para Educação de
Jovens e Adultos (PNLD-EJA).
Além das aquisições governamentais, livros didáticos têm ainda
outros compradores: por intermédio das escolas públicas e privadas,
estudantes e professores do Ensino Básico também consomem
livros. Entende-se assim que não se deve ao acaso o fato de os
entrevistados pelos pesquisadores de Retratos da leitura no Brasil
indicarem que quase metade de suas leituras, completas ou
incompletas, resultam de indicações feitas em sala de aula.
Por essa razão, os livros didáticos representaram, em 2011, a
maior fatia do mercado editorial brasileiro, registrando, segundo a
matéria de Maria Fernanda Rodrigues, antes citada, “crescimento de
7,87% em relação a 2010, quando o faturamento foi de R$ 1,1
bilhão. O setor fechou 2011 com R$ 1,18 bilhão.”
Na reportagem de O Estado de São Paulo aqui referida, anota-se
que, “dos R$ 4,8 bilhões que o mercado editorial fatura, R$ 3,4
bilhões são de venda para livrarias e outros canais de distribuição e
R$ 1,3 bilhão para o Governo - e esse valor depende sempre dos
programas de compra vigentes naquele ano.” Em termos de
circulação de livros, “foram vendidos, em 2011, 469.468.841
exemplares – dos quais 283.984.382 para o mercado e 185.484.459
para o Governo.”
A presença maciça do estado foi confirmada ao final de 2012,
quando o Ministério de Educação divulgou a lista das 360 obras
literárias selecionadas para o Programa Nacional Biblioteca na
Escola (PNBE) de 2013. [90] O orçamento previsto para a aquisição
de 6,7 milhões de obras literárias, a serem distribuídas em 85,2 mil
escolas públicas do Ensino Básico de todo país, alcança a cifra de
75 milhões de reais, elevando em mais de 35% o valor dispendido
em 2007.
Desses 360 títulos, 180 destinam-se aos quatro últimos anos do
ensino fundamental, dirigindo-se, pois, a leitores de 10/11 a 14/15
anos; outros 180 títulos serão distribuídos entre alunos do ensino
médio, situados na faixa etária de 15/16 a 17/18 anos. No total, serão
atendidos 12,3 milhões de estudantes matriculados no ensino
fundamental e 7,4 milhões matriculados no ensino médio, em um
total de quase vinte milhões de jovens.
Tais dados tornam visível e bem-vinda a presença forte do Estado
por meio de projetos e políticas de criação e manutenção de
bibliotecas escolares ou mesmo da distribuição de livros a alunos.
Tais práticas talvez tornem invejáveis – para outras áreas da cultura
– a soma destinada pelo governo a fomentar a leitura através da
aquisição de livros para crianças e jovens, o que acarreta
crescimento quantitativo da produção, visível nas tabelas que
abriram este capítulo.
Sintoma também desse crescimento quantitativo e da atratividade
do segmento de livros infantis e juvenis é o notável aumento do
número de editoras e selos voltados quase que exclusivamente para
a produção de literatura para crianças e jovens. Como observa
Juliana Bernardes Tozzi, na década de 1990, instalaram-se 52 novas
editoras dedicadas àquele segmento, número a que se somaram
mais 49 marcas até 2008, em um total que ultrapassa a centena em
menos de vinte anos. [91]
Circulação escolar e chancela governamental, entretanto, não
precisam comprometer o gênero dirigido ao público infantil e juvenil.
Apenas evidenciam práticas que cercam a comercialização da
literatura e constituem o farol condutor de sua produção e circulação.
Asseguram, assim, o encorpamento e a atratividade do gênero que,
mais do que outros, consolidou alto padrão de qualidade
(reconhecida internacionalmente) e de profissionalismo, tornando-se
inclusive mercado interessante para o capital internacional.
Com efeito, assiste-se, nos últimos anos, a chegada contínua e
crescente de empresas estrangeiras, especialmente europeias, no
cenário editorial brasileiro.
Isto, por um lado, não é novidade: o panorama brasileiro de livros
e de leituras foi por longo tempo assinalado pelo papel de relevo aqui
desempenhado por filiais de Casas cuja matriz localizava-se em
outros países, tendo inclusive Portugal e França praticamente
monopolizado o campo editorial brasileiro ao longo do século XIX.
Este panorama editorial mais antigo, comandado por capital
estrangeiro, parece ter-se alterado na primeira metade do século XX,
que marca o surgimento e expansão de editoras brasileiras, de que
são exemplos as trajetórias da Livraria do Globo (fundada em 1883 e
consideravelmente ampliada em 1928), de Porto Alegre; a José
Olympio (1931), do Rio de Janeiro; e a Livraria Martins Editora de
São Paulo, estabelecida em 1937.
Desde a última década do século XX, no entanto, grandes editoras
brasileiras foram compradas por grupos internacionais, quando a
esses não convinha simplesmente instalar seus representantes no
país.
É, pois, nesse cenário globalizado e economicamente vicejante,
que escritores e ilustradores têm produzido muitos e belos livros, dos
quais o próximo capítulo apontará e discutirá algumas tendências.
novos territórios de criação para crianças e
jovens
Eu amo o Longe e a Miragem Amo os abismos, as torrentes, os
desertos…
José Régio [92]
1. Livros de histórias sobre histórias
Todo grande clássico da literatura é um plágio, ainda que não
intencional. E todo grande manifesto de vanguarda é um clássico,
ainda que não seja intencional. Os pequenos plágios são
intencionais, ainda que não.
Glauco Mattoso [93]
Os dois capítulos anteriores discutiram, como em uma grande
angular do cinema, impactos das novas tecnologias e alterações no
panorama da produção, circulação e consumo da literatura brasileira
mais contemporânea voltada para crianças e jovens. Vamos agora a
um zoom redutor, observando como se expressam, no interior de
algumas obras e ao longo de algumas tendências, essas novas
condições de existência dessa literatura.
Sem deixar de colaborar para a formação do leitor e, com isso,
responder de algum modo às expectativas nela depositadas, a
literatura infantil e juvenil do Brasil do século XXI tem buscado
investir em modos originais e instigantes de expressão. Resiste, por
esse meio, a meramente dobrar-se às exigências de seus
financiadores, públicos e privados, ao mesmo tempo em que requer
e forma um leitor inteligente, capaz de interagir com obras criativas e
inovadoras.
Dois são os traços mais evidentes do empenho em propor desafios
a seus destinatários: o recurso à intertextualidade e o apelo à
metalinguagem, traços que também se manifestam na melhor
literatura contemporânea não infantil.
Na literatura infantil brasileira, é Monteiro Lobato o primeiro autor a
se valer com competência da prática intertextual: em Reinações de
Narizinho, ele desconstrói contos de fadas convencionais, ao alojar
no sítio do Picapau Amarelo as princesas que abandonam o mundo
da fantasia em que viviam, e ao expulsar dona Carocha, quando esta
busca repatriar as fugitivas. E mais: desde Reinações de Narizinho
até O Sítio do Picapau Amarelo (1939), passando por Memórias de
Emília (1936), Lobato incorpora a suas obras elementos da
linguagem cinematográfica (o caubói Tom Mix e o marinheiro
Popeye) e reelabora clássicos e modernos da literatura ocidental,
como Dom Quixote (1605-1615) e Peter Pan, peça encenada em
1904, a que se seguiu a versão narrativa de 1906.
A obra de Lobato não apenas incorpora procedimentosde
intertextualidade, como também os inspira, do que são exemplos
duas obras protagonizadas pelos moradores do sítio do Picapau
Amarelo: Amigos secretos (1996), de Ana Maria Machado, e Minhas
memórias de Lobato (recorte biográfico) (1997), de Luciana
Sandroni. Nesta vertente intertextual, cabe destacar O fantástico
mistério de Feiurinha (1986), de Pedro Bandeira (1942), vencedor do
prêmio Jabuti no ano de sua publicação.
O enredo é simples e divertido: um escritor travestido de narrador,
em primeira pessoa, é procurado por um enviado das princesas das
histórias tradicionais para ajudá-las a encontrar Feiurinha, princesa
como elas, porém inexplicadamente desaparecida. Do elenco do livro
participam personagens como Branca de Neve e Chapeuzinho
Vermelho, entre outras migrantes dos contos de Charles Perrault e
das narrativas dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859)
Grimm.
Porém, ao se transferirem de um ambiente para outro, as
personagens incorporam traços caricatos, que recontam e
reescrevem suas histórias originais. Chapeuzinho, por exemplo,
lamenta Perrault não ter incluído um príncipe encantado em seu
conto, e Branca de Neve desenvolve intensa aversão a maçãs.
Embora as princesas sejam heroínas, não cabe a elas, figuras
tradicionais da literatura infantil, o protagonismo da narrativa.
Protagonista é, em um primeiro momento, o escritor, aliado delas
na busca por Feiurinha. Mais para frente, a liderança é dividida com
Jerusa, empregada doméstica que conhece, recorda e narra a
história da princesa desparecida. Nas entrelinhas, um recado: a
escrita é a ferramenta de que dispõe a humanidade para tornar
eternas algumas histórias. E, como o livro de Bandeira foi objeto de
versão cinematográfica, [94] pode-se dizer que a escrita ganhou a
parceria de outras linguagens na sua ancestral tarefa de constituir
um suporte material para a memória e para a voz humana.
Sintonizada com a modernidade, a história de Feiurinha ensina
que hoje não basta contar e ouvir histórias. É preciso escrevê-las, o
que começa envolvendo, por exemplo, problemas de autoria, tema
de ponta nos estudos literários. Quem será, no enredo, o autor da
história de Feiurinha: o escritor que a redige ou Jerusa que a narra?
Esse tópico, na trama do texto, traz para o livro um assunto que
cintila constantemente na melhor literatura contemporânea.
Ao retomar histórias antigas, é pela metalinguagem que o livro de
Pedro Bandeira celebra a aliança narrador-leitor, desde que o
destinatário esteja familiarizado com as histórias tradicionais e tenha
sido por elas seduzido. Sem que os leitores disponham de uma
‘biblioteca mental’ e consigam acessá-la, perdem a graça passagens
que carnavalizam as princesas, como a entrada em cena de uma
Chapeuzinho sempre comendo, de uma Cinderela que massageia os
pés doloridos ou de uma Bela Adormecida que boceja o tempo todo.
Na contramão da paródia, inscrevem-se outras narrativas de perfil
igualmente metalinguístico e intertextual, que buscam rever os mitos
consagrados. Em capítulo anterior, observou-se como a versão
digital que Angela Lago propõe para o conto de Chapeuzinho
Vermelho confere à personagem-título um posicionamento próativo:
ela não se deixa abater pela ameaça representada pelo lobo.
Também o livro de Ana Maria Machado, Procura-se lobo, revisita
com humor e sabedoria cenários de narrativas clássicas às quais
comparece um lobo. O protagonista da narrativa não é mais o
animal, mas um homem chamado Manuel Lobo, que, desempregado,
encontra o serviço de “respondedor de cartas”, [95] enviadas por
lobos que gostariam de obter um trabalho. Comparece à história o
conjunto de lobos do mundo imaginário – desde a loba romana, até o
antagonista de Chapeuzinho Vermelho, a que se soma toda uma
alcateia: o feroz animal que perseguiu os porquinhos, o que quis
engolir os sete cabritinhos, o que se esconde em pele de cordeiro, o
inimigo de outro cordeiro [na fábula de La Fontaine (1621-1695)], o
“lobo mau” da canção popular, a personagem das histórias em
quadrinhos (cuja indecifrável redação é corrigida pelo bem-
comportado Lobinho) de Walt Disney (1901-1966), o protetor de
Mowgly, o menino-lobo, de Rudyard Kipling (1865-1936), o lobo
acusado por Pedro, da lenda russa, e até mesmo o cantor Lobão se
apresenta na narrativa.
Ao final, o narrador sumaria o elenco de lobos com os quais o
escriba Manuel interage por meio de suas educadas cartas:
Tinha carta de um tal lobo que uivava para a lua, de um misterioso lobo
das estepes, de outro que corria com mulheres, de outro que perseguia
trenós, de outro que tinha virado bolo por causa de uma Chapeuzinho
Amarelo. Tinha outro que devia achar que era lindo, e servia de inspiração
para os poetas, porque dizia que era o Lobo Bobo, mas que agora vivia na
coleira e não jantava nunca mais e que já tinham até feito uma música
para ele. Até mesmo o Lobisomem escreveu. (p. 34)
Como se vê, o inventário dos lobos proposto pela narrativa
trabalha o papel que o animal desempenha no imaginário ocidental.
Mas a busca suscitada pelo livro é pelo animal real – o “lobo de
verdade” – que todos aparentemente desconhecem e está
ameaçado de desaparecimento. “Mostrar (...) como é o
comportamento deles, seus hábitos, como vivem, de que gostam,
qual é seu ambiente, que riscos correm” garante a defesa da
natureza e do “futuro desses animais, para que não corram o risco
de extinção.” (p. 37) O posicionamento preservacionista ganha
sentido original: não se trata apenas de evitar o extermínio de uma
espécie do mundo animal, mas também de assegurar sua presença
no patrimônio de fantasia da humanidade, sem a qual as histórias
ficam capengas ou pueris. Rejeitando o chamado ‘politicamente
correto’ que assola muitas narrativas e versos contemporâneos para
crianças, e apostando na importância de figuras representativas do
medo, da insegurança e, inclusive, do mal, Procura-se lobo tematiza
a relevância de expressá-las sem constrangimentos, nem que seja
para combatê-las com mais eficiência.
O apelo à metalinguagem – frequente não só na literatura infantil e
juvenil, nem tampouco apenas nas Letras nacionais – pode
apresentar distintos sentidos: por um lado, talvez se contraponha às
queixas sobre a perda da popularidade do livro e da leitura, mas, por
outro, não seria possível interpretá-la como réquiem inconsciente da
cultura letrada?
Desdobrando a questão, uma obra como o premiado O menino
que vendia palavras, de Ignácio Loyola Brandão, [96] traz para jovens
leitores reflexões sobre a natureza da criação literária, sobre a ética
da autoria e sobre a profissionalização do escritor.
Tema até pouco tempo de escassa presença na literatura infantil
nacional (não apenas na infantil brasileira e também recente nos
estudos literários), o livro de Loyola, como anuncia o título, conta a
história de um menino que ‘vendia’ palavras. Isto é, vendia o
conhecimento do significado de palavras.
Ainda que fosse o pai do menino quem sabia o que queriam dizer
as palavras vendidas, era o filho quem lucrava com este
conhecimento: desafiava os colegas a descobrir palavras
desconhecidas e ganhava todas as apostas, sendo pago com
miudezas de criança, como chicletes, balas, figurinhas.
Em uma interpretação voltada para o discurso contemporâneo da
crise da leitura, pode-se identificar, nesta história, a defesa
apaixonada do consumo / amor aos livros, prática da qual resulta a
superioridade do homem que conhecia todas as palavras. Também
aí se pode reconhecer a metáfora da profissão de escritor,
levantando a discussão do profissionalismo no mundo das letras.
Ainda na linha da produção metalinguística e intertextual, destaca-
se o trabalho do ilustrador e escritor Nelson Cruz. O caso do saci, de
2004, põe em cena um ente do folclore brasileiro, e da literatura
infantil em particular, destacando-se a posição que ele desfruta na
obra de Monteiro Lobato (e não apenas na infantil). A história de
Nelson Cruz transporta o saci para o meio urbano brasileiro, pobre e
desatendido de uma favela.
É com a famosa obra de LewisCarroll (1832-1898) que Nelson
Cruz dialoga em Alice no telhado, de 2011, vencedor, no ano de sua
publicação, do Prêmio Glória Pondé, concedido pela Biblioteca
Nacional ao melhor livro de literatura infantil e juvenil.
A trama é simples: em dia de pouca inspiração, um escritor traça
um círculo em uma página em branco, e é desse ‘não lugar’ que
emergem as personagens que protagonizam Alice no país das
maravilhas (1865): a menina do título, o coelho, o chapeleiro maluco,
a rainha de copas, o gato de Cheshire. Fora de seu habitat original, o
“país das maravilhas” do livro de Carroll, aquelas figuras sentem-se
perdidas e desejam retornar à origem. Só que o papel onde o artista
desenhara fora parar na cesta de lixo, de onde ele o resgata, para
receber de volta o desesperado grupo, reinstalando-se a paz e, na
mesma proporção, a criatividade do narrador.
O tema da ‘falta de inspiração’ aproxima Alice no telhado do já
comentado O fantástico mistério de Feiurinha, assim como essa
narrativa avizinha-se de Um homem no sótão (1982), de Ricardo
Azevedo. [97]
Esta premiada obra, abordando a história do escritor que entra em
crise ao inverter a representação tradicional de vilões e heróis da
literatura infantil, opera com altos níveis de intertextualidade.
Personagens como uma bruxa, anõezinhos, uma raposa e patinhos
ora exigem que o escritor os represente ‘como sempre foram’, ora
que o escritor altere os comportamentos com que a tradição literária
costuma exibi-los.
A situação se resolve, quando o escritor decide escrever a história
de seus impasses; ele é o “homem do sótão” que dá título ao livro.
Apesar do happy end, a narrativa não deixa de sugerir, também, o
eventual esgotamento do cânone, ainda que de um cânone reescrito.
No limite, o desenrolar do enredo pode expor – como já se aventou
anteriormente a propósito da metalinguagem – o réquiem de uma
certa cultura letrada. Relegada ao sótão, a cultura letrada (a
literatura? apenas a infantil?) precisa ‘abrir as janelas’,gesto que, no
livro de Azevedo, é decisivo para a resolução da crise do escritor.
Desse modo, a intertextualidade opera ora por fora – diálogo com
Lewis Carroll – e ora por dentro, conforme um percurso de que
participam Bandeira e Azevedo. Trata-se de buscar a superação do
bloqueio criativo com a ajuda de uma tradição, não necessariamente
brasileira (exceto em O caso do saci). Em Alice no telhado, trata-se
de incorporar ao patrimônio nacional a Alice de Lewis Carroll, obra
considerada um clássico do Modernismo.
Com efeito, Alice no país das maravilhas constitui um dos
primeiros investimentos da ficção inglesa nos processos de
modernização da linguagem literária. [98] Calcada no nonsense, na
paródia dos comportamentos da burguesia britânica e das atitudes
imperiais da Inglaterra, e na renovação da linguagem, a obra de
Carroll vale-se de procedimentos que, mais adiante, serão usuais em
propostas de vanguarda, dentro e fora da Europa. Um projeto de
pretensão tão ampla e tão radical ter se manifestado em obra dirigida
ao público infantojuvenil mostrou-se paradoxal, ao confiá-lo a um
gênero de grande sucesso público, mas já então ignorado pelo
cânone da poética vigente. E que assim aconteceu fica sugerido pelo
fato de muitos críticos e historiadores da literatura moderna
recusarem ao livro a classificação de literatura dirigida a crianças e
jovens.
O desprestígio do gênero voltado para crianças e jovens é
histórico e persiste até hoje, como manifesta Sebastião Uchoa Leite
(1935-2003), tradutor e adaptador de uma notável edição brasileira
de Alice no país das maravilhas:
Lewis Carroll carrega até hoje o fardo de ser considerado autor de
literatura infantil. A maioria só ouviu falar de Alice no país das maravilhas,
que vagamente leu na infância em adaptações. Alguns poucos leram
também Através do espelho e ficaram por aí. (...)
Que os dois livros mais celebrados de Carroll, Alice in the wonderland e
Through the lookingglass, sejam livros para crianças é verdade muito
relativa. Na época, talvez. Hoje, mais de um século depois que foram
publicados, são cada vez mais leitura para adultos. [99]
Com o tempo, Alice no país das maravilhas converteu-se em
clássico do ‘moderno’, tal como se deu com outras obras seminais do
começo do século XX, a exemplo do Ulisses (1922), de James Joyce
(1882-1941), ou Orlando (1928), de Virginia Woolf (1882-1941).
É com esse paradoxo que Nelson Cruz se depara, comportando-
se de modo simultaneamente reverente e transgressor: reverente,
porque as personagens do livro de Carroll saltam de sua imaginação
– o desenho – para a ‘vida’ da literatura, escapando de seu controle;
transgressor, porque os devolve para o lugar de onde saíram, após
ter jogado seu inconsciente – o papel com o círculo desenhado – na
lata do lixo. O paradoxo, por sua vez, não é menos sugestivo, pois
dele emerge uma obra inteiramente nova e original.
Rodrigo Lacerda, em O fazedor de velhos (2008), obra premiada
pela FNLIJ e contemplado com o Jabuti, igualmente se posiciona
diante do passado e da tradição, para torná-los tema de uma
narrativa dirigida aos jovens. O protagonista da história é Pedro,
jovem em vias de concluir o ensino médio que, nas primeiras páginas
do relato, tenta passar-se por maior de idade. Precisando embarcar
desacompanhado em um avião, mas não dispondo de documento
que o autorizaria a viajar, o rapaz finge-se de mais velho e acaba por
enganar a funcionária da companhia aérea. Mais adiante, porém,
outro episódio evidencia plenamente sua imaturidade: orador
encarregado de fazer o discurso em nome dos formandos de sua
turma, engasga-se e atrapalha-se, quando presencia a ex-namorada
aos beijos com um novo amor.
A trajetória de Pedro corresponde, assim, à passagem da
imaturidade juvenil para maturidade adulta, percurso que requer um
‘mentor’, como ocorre com Telêmaco, filho de Ulisses e que
protagoniza, em 1699, Les aventures de Télémaque, de François
Fenelon (1651-1715). No livro de Lacerda, esse papel é
desempenhado por Nabuco, um professor idoso, que ajuda Pedro a
fazer a travessia da juventude à maioridade.
Pode-se pensar que o fazedor de velhos é o sábio professor, mas
talvez não seja. Ou talvez não seja ele o único a desempenhar tal
papel, compartilhado pelas leituras indicadas e cobradas por
Nabuco. A primeira delas é a da tragédia de William Shakespeare
(1564-1616), Rei Lear (1605-6), escolha não ocasional. Quando
Pedro desejara passar-se por maior de idade, recorrera a um grosso
volume das peças de Shakespeare, acreditando na hipótese de que
apenas adultos levariam consigo um livro daquele porte. Nabuco faz
com que o fingimento se transforme em fato, induzindo Pedro a ler,
compreender e admirar a triste história do rei que não soube
envelhecer com sabedoria, preferindo a vaidade dos elogios das
filhas hipócritas ao amor verdadeiro, mas incondicional, de Cordélia,
sua herdeira mais moça.
Em Rei Lear, a idade das personagens é inversamente
proporcional à lealdade: a mais jovem é mais sincera e verdadeira
que as irmãs mais velhas, assim como mais madura que o pai. A
fábula que inspira Shakespeare provém da cultura popular e dos
contos de fadas, quando são os mais jovens, ainda que mais frágeis,
que se revelam mais aptos ao desempenho das tarefas mais
importantes. Ao tornar Shakespeare a principal referência intertextual
de sua história, Rodrigo Lacerda procede a uma nova inversão: em
sua narrativa, o mais idoso – Nabuco – é o mais sábio, e o mais
pueril é o mais jovem, Pedro, sobretudo quando esse quer se fazer
passar pelo que não é, a saber, maior de idade. Cabe a Pedro
ocupar a posição de Cordélia, sem que Nabuco tenha de se
identificar a Lear, conforme um processo de revisita de uma tradição
literária, que favorece uma representação mais complexa de um
tema de nosso tempo – o conflito de gerações.
Esse tema assume configuração particular em O fazedor de
velhos: ainda que não esteja em atrito com o pai, Pedro não mantém
uma relação propriamente harmoniosa com ele. Na figura de
Nabuco, acaba por encontrar umpai substituto, que o orienta. Ao
advogar a necessidade de aceitar conselhos e indicações dos mais
velhos, a obra parece ir na direção contrária à de seu leitor,
presumivelmente jovem. Essa interpretação encontra respaldo no
modo como, neste livro, parecem ocorrer as apropriações
intertextuais: obras clássicas são acatadas e valorizadas, o que se
passa não apenas com a tragédia de Shakespeare, intencionalmente
reconstituída pelo enredo de O fazedor de velhos, mas também com
autores canônicos da língua portuguesa, como Gonçalves Dias
(1823-1864) e Eça de Queirós (1845-1900), preferências do
protagonista a que o levam leituras sugeridas por sua mãe.
Ao final da narrativa, quando decide ser escritor, Pedro descobre
sua vocação. Considerando que essa se constrói a partir da leitura e
experiência da literatura a que o conduziram seus mentores – a mãe,
primeiramente, depois, Nabuco –, pode-se acreditar que o livro
acompanha uma exemplar formação de leitor: família e escola
representando os mediadores de leitura que, por meio de grandes
escritores do passado, inspiram os mais jovens a viver uma vida com
arte.
Tal retomada da tradição deixa no ar a interrogação de se e como
outras vertentes da literatura brasileira mais contemporânea voltada
a crianças e jovens trabalham com aquele patrimônio.
Trabalham? E se trabalham, como trabalham?
2. Um novo indianismo
Ó guerreiros da Taba sagrada, Ó guerreiros da tribo tupi Falam
Deuses nos cantos do Piaga, Ó guerreiros, meus cantos ouvi.
Gonçalves Dias [100]
Sou Pataxó
Sou Xavante e Cariri
Ianonami, sou Tupi
Guarani, sou Carajá
Sou Pancaruru
Carijó, Tupinajé
Potiguar, sou Caeté
Ful-ni-o, Tupinambá
Antonio Nóbrega [101]
Destaca-se um novo indianismo, no amplo leque de temas e
assuntos que, articulados a movimentos políticos e sociais, e
incentivados por distintos discursos institucionais, políticos e
estéticos marcam a produção brasileira contemporânea para
crianças e jovens.
Despido do exotismo que desde o século XVIII revestia a imagem
do indígena presente na prosa e na poesia brasileiras, o indígena
que protagoniza a literatura infantil contemporânea é diferente. Não é
um Peri, protagonista de O guarani (1857), de José de Alencar
(1829-1877), que, por amor à loira Cecília, rompe com sua tribo, por
extensão, com sua etnia. Tampouco é uma Iracema, do livro
homônimo (1865), que, por amor ao loiro Martim, colonizador
português, abandona seu povo.
Fazendo valer os espaços que conquistou na sociedade nacional,
sobretudo a partir de 1988, o protagonista deste novo indianismo
constitui-se sujeito e narrador de sua própria história. A conquista
dessa condição leva-o a assinar os livros com sua identidade
indígena, expressa em um sobrenome. Assim, muitas vezes, é no
que na cultura ocidental equivale à linhagem paterna que se
identifica a etnia do autor, como ocorre em Daniel Munduruku ou
Eliane Lima dos Santos Potiguara.
Tal procedimento não é exclusivo de indivíduos de etnia indígena:
nas redes sociais, a identidade de vários usuários ostenta
sobrenomes indígenas, talvez como forma de manifestar
solidariedade a causas indígenas. Nesse sentido, reedita-se, no
século XXI, um procedimento relatado como ter sido frequente nos
arredores da Independência, quando cartórios registravam muitas
Iracemas, enquanto expressão de nacionalismo.
No novo indianismo, abordam-se questões e representações a
partir de posições e pontos de vista indígenas. Ficam, assim, para
trás representações como as que, na literatura infantil, estiveram
presentes em As aventuras de Tibicuera (1937), de Erico Verissimo
(1905-1975), no Papa Capim (1960), de Maurício de Souza, ou nos
Contos dos meninos índios (1982), de Hernâni Donato (1922-2012),
obras essas ainda encontráveis nos catálogos de suas respectivas
editoras.
Não que a transformação tenha sido súbita e inesperada.
Apenas um curumim (1979), de Werner Zotz (1947), exemplifica o
empenho de escritores nacionais em propor uma representação não
estereotipada, nem submissa, do indígena. O livro narra como Tamãi,
um velho pajé, e Jari, o curumim do título, derradeiros sobreviventes
de seu grupo, lutam para conservar seu mundo original. Para tanto,
Tamãi precisa conduzir Jari a uma nova tribo, onde esse recuperará
sua identidade indígena, modo de o autor denunciar a destruição do
ambiente natural, em decorrência da cobiça e imprevidência dos
brancos, e a dizimação das coletividades nativas, com a
consequente perda da noção de pertença a um grupo ou povo com
características identitárias. Como expõe Tamãi a seu pupilo, o
menino “vai ter que aprender tudo de novo, porque o índio que havia
dentro de você está morto.” [102]
Zotz, contudo, fala ainda de um lugar distinto do indígena,
emprestando sua voz às personagens. A alteração do lugar de onde
procede essa voz que se expressa por meio da literatura é
possivelmente a alteração mais importante das últimas décadas,
correspondendo a profundas mudanças em processo na sociedade
brasileira.
Data dos anos 1970 a legislação que favorece o fortalecimento da
identidade indígena: através da lei 6.001 de 19 de dezembro de
1973, cria-se o Estatuto do Índio, cujo primeiro artigo expressa sua
finalidade: “regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das
comunidades indígenas com o propósito de preservar a sua cultura e
integrá-los, progressiva e harmonicamente à comunhão nacional”.
[103]
No ano seguinte, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
promove uma reunião de lideranças indígenas. No entanto, apenas
com a constituição de 1988, promulgada a partir da derrubada da
ditadura militar em 1985, o tema ganha contornos mais minuciosos.
O artigo 231 contempla especificamente a questão, estabelecendo
que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes,
línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras
que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las,
proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. [104]
Na década seguinte, a Lei de Diretrizes e Bases (9.394/1996),
traduzindo valores e princípios expostos na Constituição, assegura
oferta de ensino regular (bilíngue) para povos indígenas. Doze anos
depois, a lei 11.645/08 institui a “obrigatoriedade do ensino de
temática indígena em todos os níveis de ensino”, [105] disposição que
se operacionaliza, ao traduzir-se em um dos temas transversais
indicados nos Parâmetros Curriculares Nacionais: a pluralidade
cultural. [106]
Manifestando a abrangência mais do que nacional – continental –
de lutas pelos direitos indígenas, o tema reponta no âmbito da
literatura, a partir de 1994, quando o Prêmio Casa de las
Américasinclui a literatura indígena entre as categorias
contempladas. A iniciativa repete-se no Brasil dez anos depois,
quando a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil adota posição
semelhante, ao avaliar a produção anual dirigida a crianças e
adolescentes. A literatura indígena torna-se, assim, uma categoria,
digamos, oficializada na pauta da literatura infantil, o que transparece
em editais do governo federal voltados para a compra de livros para
escolas. Coroando esta sucessão de medidas, em 2011 funda-se o
Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual
(INBRAPI), com a missão de “promover a articulação dos povos
indígenas brasileiros para a discussão da temática da propriedade
intelectual, visando à proteção dos conhecimentos tradicionais.” [107]
Este último gesto é decisivo e simbólico: assinala a entrada de
produtos da cultura indígena – incluindo e talvez priorizando livros
sobre ela, nela e por ela produzidos – no reino da mercadoria,
estatuto de que goza a literatura, desde a ascensão da burguesia, no
século XVIII. E, talvez, da mesma forma que a literatura romântica,
particularmente o romance, significou a difusão de valores e
comportamentos burgueses, a literatura indígena voltada para
crianças e jovens constitui forma de resistência, afirmação da
identidade e instrumento para conferir visibilidade social a um grupo
de brasileiros tradicionalmente sub-representados.Dado o caráter tradicionalmente escrito das práticas literárias
ocidentais e o caráter ágrafo das culturas indígenas nacionais, o
desencontro entre ambas seria inevitável. Autores ainda no século
XIX – como, por exemplo, José de Alencar (Iracema) e Gonçalves
Dias (“Marabá”, de Últimos cantos, 1851) – confiavam à oralidade do
estilo narrativo e ao ritmo de seus textos, resgate e registro deste
traço das culturas nativas.
Só mais de um século e meio depois, e na área da literatura para
crianças e jovens, é que a autoria indígenase impõe e começa a
surtir resultados interessantes, traduzidos por livros elaborados por
grupos e indivíduos de distintas etnias e publicados por variadas
editoras.
O aparecimento da nova vertente literária não se processou, no
entanto, por fora de um sistema literário tão institucionalmente
articulado como o da literatura infantil brasileira contemporânea. Foi
na esteira de movimentos políticos de reivindicação de direitos
indígenas, de organizações e de legislação específica antes
mencionada, que se delineou o contexto em que surgem autores e
livros oriundos de comunidades indígenas ou que em nome delas se
apresentam.
Os textos e autores a seguir comentados conferem concretude a
esta tendência. A novidade que ela representa – o novo indianismo
conta com menos de duas décadas de existência –, se impede
sínteses mais abrangentes, instiga futuras interpretações que talvez,
por paradoxal que possa parecer, lancem luzes sobre tendências
mais antigas da literatura brasileira.
a) Daniel Munduruku
Daniel Monteiro Costa, como vários outros escritores indígenas
contemporâneos, recorreu ao nome de seu povo, Munduruku, para a
construção de sua identidade autoral. Sua estreia na literatura data
da segunda metade dos anos 1990, conta com mais de uma dezena
de livros publicados [108] e figura dentre as obras pioneiras mais
destacadas e premiadas da vertente do novo indianismo. Seu
primeiro livro, História de índio, desde o título, retoma, para inverter,
o caráter pejorativo que tinha (tem ainda?) na cultura brasileira a
expressão “de índio”, congelada em “programa de índio” para referir
uma atividade sem graça.
Em 2006, ano em que recebeu a Comanda de Mérito Cultural, do
Ministério da Cultura, seu livro Meu avô Apolinário foi objeto de
Menção Honrosa por parte da UNESCO; em 2007, foi a vez de O
olho bom do menino ser premiado pela Academia Brasileira de
Letras. Ancorada em um projeto de resgate da memória e da cultura
indígena, esta obra, que tematiza o extraordinário poder de “ver as
coisas por dentro”, deu origem à coleção Memórias Ancestrais
coordenada pelo escritor.
O tema da ancestralidade é constante em sua obra. Em um de
seus títulos mais recentes, a introdução reivindica a origem indígena
de histórias que percorrem o Brasil, reforçando a dimensão ancestral
do novo indianismo:
Fábulas fazem parte do repertório nacional, mas a origem delas é da
gente indígena, cujos nomes foram esquecidos ou apagados da memória
brasileira. Não faz mal. Essa tem sido a silenciosa contribuição que os
povos indígenas têm dado para tornar nossa terra mais bonita, sábia e
equilibrada. O importante é que o ensinamento que fica serve para
alimentar o nosso espírito e a nossa memória ancestral. [109]
Forma bastante original em livros para crianças e jovens de
expressar a ancestralidade da cultura indígena é o capricho e a
sofisticação do aspecto gráfico da maioria das obras. Imagens que
se espalham por mais de uma página, em Coisas de onça são
figurativas e delineiam, em cores fortes, tanto elementos das
narrativas que Munduruku recolhe (como o veado e a onça do conto
homônimo), quanto a sugestão da situação da narração: o céu
noturno e as redes armadas dão visualidade à informação de que
“quando o dia vai caindo, sendo engolido pela noite, todos já estão
se posicionando para mais uma rodada de engraçadas histórias
contadas pelos velhos da aldeia.” [110]
Reforça a ideia da ancestralidade da cultura indígena a menção
constante a situações de oralidade (não poucas vezes
protagonizadas por idosos na posição de narradores), nas quais,
entre os povos indígenas, se transmitem as narrativas que Daniel
Munduruku recolhe em seu livro.
b) Professores Maxacali – Myriam Martins Álvares
A autoria se coletiviza em certas obras da literatura indígena. O
livro que conta histórias de antigamente, de 1998, [111] é original e
abre trilha promissora nesta vertente da literatura infantil brasileira
indígena mais contemporânea: com texto bilíngue e de autoria
coletiva, assumida por “nós, professores Maxakali” (p. 8), [112] foi
incluída no Programa de Implantação das Escolas Indígenas.
Seu bilinguismo tem uma expressão gráfica muito interessante, ao
adotar procedimentos de que se valeram algumas vanguardas
literárias, e não apenas brasileiras, do século XX: o texto em
português aparece em letra de forma, e o texto em maxacali em
diferentes caligrafias, sempre em forma cursiva. No sumário da obra,
os títulos das histórias – os em maxacali e os em português –
aparecem em letra que simula manuscrito (infantil?).
Trata-se, sem dúvida, de transposição para a visualidade do livro,
do inevitável e tão rico hibridismo de culturas como a brasileira,
particularmente no que dela retoma traços da cultura pré-cabralina
(Figuras 14 e 15).
MEC/SEE-MG
Figura 14
MEC/SEE-MG
Figura 15
Fiéis ao prometido no título – “histórias de antigamente” – as
histórias voltam-se para a transmissão de valores culturais de uma
comunidade de povos da floresta, objetivando tanto resgatar
tradições indígenas, quanto ensinar as gerações mais novas a ler e a
escrever, como informa a introdução não assinada da obra:
Este é o primeiro livro feito por nós, professores Maxacali, para ser usado
em nossas escolas. Este livro é para ensinarmos as crianças que já
estudam, isto é, para nós ensinarmos a escrever e a ler. [113]
A esta introdução segue-se uma apresentação, assinada por
Myriam Martins Álvares, organizadora e revisora do livro, na qual a
vocação escolar da obra se reforça, manifestada por outro ângulo
que também amplia sua pretendida circulação, ao frisar a
possibilidade de sua circulação em escolas não indígenas, com o
que se renova o contumaz parentesco entre literatura infantil e
escola: “este livro possibilita, também para as crianças não índias,
um novo olhar para a diversidade dos povos de nosso país.” [114] (p.
9) Manifesta-se, assim, explicitamente, neste novo indianismo, e com
sinal trocado, a parceria literatura infantil / literatura escolar que
acompanha o gênero destinadas às crianças desde seu nascimento.
A natureza das histórias reunidas no livro é variada. Dentre os vários
textos, há algumas narrativas já recolhidaspor estudiosos, como, por
exemplo, A onça e o coelho, que integra os Contos populares do
Brasil (1885), de Sílvio Romero (1851-1914). Há textos pragmáticos,
registrando o conhecimento dos Maxacali de propriedades
terapêuticas da flora brasileira. Outros ainda registram narrativas da
tradição dos Maxacali, que tanto tematizam interdições culturais
(História da antepassada que ficou com vergonha, História dos
bichos da água), quanto o simbolismo de explicações filosóficas e
narrativas mitológicas, como a História do sol.
Traço interessante desta vertente da literatura infantil é a rica
mestiçagem cultural de que ela se tece para além da expressão
gráfica antes apontada. A ideia de resgate de tradições, que poderia
talvez criar expectativas de um indianismo monolítico, parece
matizar-se no caráter híbridoda cultura brasileira em todos seus
segmentos, hibridismo interiorizado inclusive pelas populações
indígenas.
Em uma outra interpretação, o hibridismo cultural, tão proclamado
e reivindicado, parece conflitar com as diferentes fontes tipográficas
presentes em O livro que conta histórias de antigamente, se, na
rígida distinção entre o cursivoda língua indígena e a letra de
formada versão em português, quisermos ler a imagem de uma
separação radical entre uma e outra cultura. Na versão do texto em
português,as reiterações em todos os níveis, a curta extensão das
frases, a mimese da situação de transmissão constituem recursos
estilísticos que reforçam traços da oralidade sempre presente em
narrativas de culturas ágrafas:
História da água
Para que contar a história da água?
A água serve para quê?
Tem água pra dar força pra todo mundo. Para todos os bichos: os de duas
e quatro pernas. Os pássaros também bebem água.
A água dá força pra todos. Tem água pra nós e para os bichos.
Também pra carro tem que ter gasolina. Se não tem gasolina o carro não
anda. Se nós não temos água nós não andamos também. E o peixe tem
água também.
A água é boa e muito forte.
A história da água é forte. [115]
Como se vê, em seus procedimentos estilísticos, o texto, a olhos e
ouvidos urbanos, manifesta a singeleza que se atribui,
tradicionalmente, a histórias que circulam em culturas ágrafas: a
presença de animais, as reiterações, o diálogo com o interlocutor
facilitado pela narração in preaesentia. No entanto, essa
representação de ancestralidade bem expressa nos níveis, digamos,
sintático e discursivo, não se prolonga no nível semântico, a partir da
menção a carros e gasolina.
É esta ruptura semântica que, aqui, marca o hibridismoda literatura
indígena. A comparação aponta para o irremediável – talvez
inevitável e positivo – cruzamento e miscigenação de culturas em
países como o Brasil. É o que se registra na expressão ‘pluralidade
cultural’, que a legislação de 2008 já comentada trouxe para o
cotidiano escolar e, consequentemente, para projetos editoriais.
c) Comunidade Tapirapé
Em Xanetawa parageta: histórias de nossas aldeias (Comunidade
Tapirapé), obra de 1996, anterior a O livro que conta histórias de
antigamente, ocorre similar recurso ao bilinguismo, sem, no entanto,
sublinhar a duplicidade de escritas com diferentes tipografias: aqui os
textos são unificados em letra de imprensa. Esta unificação cria
instigantes efeitos de sentido, quando observada a partir da
reprodução da fala do professor Tapirapé, Kamoriwa’i:
Os brancos não perdem sua língua nem as coisas de sua tradição porque
fazem muitos livros. É por isso que nós temos que fazer nossos próprios
livros, na nossa língua e não ficar usando o livro do branco. [116]
O traço metalinguístico do texto dos Tapirapé irmana-o a títulos
contemporâneos da literatura infantil brasileira já comentados.
Registra-se ainda, no texto transcrito, a certeira intuição de articular
escrita e livros à permanência de identidades culturais, como se
discutiu a propósito, por exemplo, da obra de Pedro Bandeira.
d) Professores Ticuna
Em outras obras, como O livro das árvores, também de
organização coletiva, línguas indígenas e a língua portuguesa
compõem, lado a lado, os textos, empregando-se, no entanto, o
itálico para marcar palavras não portuguesas que também se
identificam pela constante presença de Y e W:
No princípio, estava tudo escuro, sempre frio e sempre noite. Uma enorme
samaumeira, wochine, fechava o mundo, e por isso não entrava claridade
na terra. Yo ‘i e Ipi ficaram preocupados. Tinham que fazer alguma coisa.
[117]
O Eware é protegido por animais e gente encantada. De cada lado do
Igarapé ainda estão a casa de Yo’i e a de Ipi. [118]
Este hibridismo de grafias se entrelaça à ancestralidade, como já
assinalado, tema invocado e mencionado em muitos – praticamente
quase todos – os textos que fazem parte desta vertente da literatura
mais contemporânea. A sequência Kç, absolutamente estranha à
grafia portuguesa, já ocorre em obra de 2001, de Daniel Munduruku:
Em tempos que vão longe, as mulheres habitavam o ekça – a casa dos
homens – e os homens alojavam-se numa vasta casa coletiva. [119]
e) Olívio Jekupé [120]
Olívio Jekupé, além de escritor, participa institucionalmente da
defesa de direitos indígenas, sendo fundador da Associação Guarani
Nae’en Porã. Sua obra articula-se às tradições indígenas da
narrativa oral, dando – mais uma vez – particular ênfase à
ancestralidade, expressa, por exemplo, no adjunto adverbial de
tempo (“muitos e muitos anos”), como se vê no texto de “Verá o
contador de história”, obra de 2003 ilustrada por crianças guaranis:
Certa vez, há muitos e muitos anos, uma moça que estava grávida e com
muita vontade de comer pirá ficou esperando o marido voltar com a lenha
para acender uma tatypi. [121]
Para nós, da aldeia, um contador de histórias é como se fosse um livro
que nós não temos e por meio dele ficamos sabendo muitas coisas. [122]
Vale apontar, nessa transcrição, o interessante paralelo, de novo
sinalizando mestiçagens e hibridismos, entre a oralidade da cultura
indígena (expressa na menção ao “contador de histórias”) e o caráter
escritural de culturas de recorte ocidental.
f) Yaguarê Yamã [123], [124]
Yaguarê Yamã, que reúne em suas raízes duas etnias indígenas,
tem obra numerosa e reconhecida internacionalmente, destacando-
se Sehaypóri –O livro sagrado do povo Saterê Mawé, selecionado
para o Catálogo White Ravens 2008 e para o Catálogo de Bolonha –
categoria Reconto (2008). É também artista plástico especialista em
grafismo indígena, o que confere excepcional qualidade visual a seus
livros.
Militante de causas indígenas, é vice-coordenador da Associação
Geral do Povo Indígena Maraguá (Aspim), organização que luta pelo
reconhecimento das terras dos Maraguá. Seus livros enraízam-se
em elementos ancestrais das etnias indígenas das quais descende, e
o hibridismo, que tem marcado a produção literária indígena mais
recente, pode igualmente ser encontrado no duplo nome do escritor,
que também se assina Ozias Glória de Oliveira, identidade de origem
e fonética portuguesas.
Traduzindo-se na indicação de um tempo remoto enquanto
contexto da história a ser narrada, como se manifesta no texto a
seguir, a ancestralidade, valor maior das culturas indígenas, se faz
presente na obra de Yamã:
Há muito tempo havia um homem chamado Ykawy’poty, que vivia sozinho
na floresta. Ele não podia ir para longe porque não existiam caminhos, e
tinha medo de se perder. Por isso, um dia resolveu procurar a mãe dos
caminhos, a Jiboia-Grande. Por meio dela poderia achar os caminhos e
assim nunca mais teria medo de andar na floresta. [125]
Nota-se, no texto, a presença de grafia estranha à língua
portuguesa, manifestada no nome da personagem, ao lado da
sugestão de uma temporalidade arcaica, insinuada na indicação de
que “não existiam caminhos.” As narrativas de Yaguarê Yamã têm
um forte lastro mítico, tematizando ritos de passagem articulados a
diferentes imaginários amazônicos. Ao circularem no suporte livro e
na linguagem verbal escrita, as histórias que seus livros contam
contribuem decisivamente para o (urgente) fortalecimento da
vertente indígena do caráter mestiço e polifônico da identidade da
cultura brasileira.
g) Eliane Lima dos Santos Potiguara
Descendente dos potiguara, de onde vem seu sobrenome, a
autora participa intensamente de movimentos indígenas,
desempenhando várias responsabilidades na esfera institucional de
tais ações. Participa do Conselho do Instituto Indígena de
Propriedade Intelectual, coordena a Rede de Escritores Indígenas da
Internet e também faz parte da rede Grumin de Mulheres Indígenas.
Ao levar a redes sociais a cultura indígena, a escritora parece dar um
passo adiante no já tão mencionado hibridismo. Aqui a mestiçagem
não se limita à vizinhança de ortografias e caligrafias díspares, como
apontado antes, mas se expressa por diferentes suportes, da
oralidade à escrita e ao mundo digital.
Tanto sua história pessoal, quanto seu envolvimento com projetos
de valorização da cultura indígena, militância na defesa dos direitos
dos índios, ao lado de sua docência na Universidade Federal de
Pernambuco, reforçam o caráter híbrido e mestiço da cultura
brasileira, da qual a cultura indígena é parte muito importante.
Com obras traduzidas para outras línguas (A terra é mãe do índio,
1989) e também de apoio à alfabetização de jovens e adultos
(Akajutibiró, terra do índio Potiguara, 1994), Eliane é ainda a
organizadora do primeiroo livro
Que não parece razão
Nem seria cousa idônea
Por abrandar a paixão,
Que cantasse em Babilônia
As cantigas de Sião.
Luís de Camões [2]
Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história constitui uma
apresentação da literatura brasileira para crianças e jovens em
circulação no Brasil nos últimos trinta anos. Não obstante constituir
obra independente, autônoma e autorreferenciada, ela dialoga com
outros livros nossos, especialmente com Literatura infantil brasileira:
história e histórias (1984) e Um Brasil para crianças (1986).
Nas últimas décadas do século passado, a literatura infantil
ganhou status acadêmico, oferecendo-se enquanto campo de
investigação original e estimulante para os estudos literários. Na
esteira de trabalhos pioneiros como Problemas de literatura infantil
(1950), [3] de Cecília Meireles (1901-1964), e de Literatura infantil
brasileira: ensaio de preliminares para a sua história e suas fontes
(1968), [4] de Leonardo Arroyo (1918-1986), a década de 1980 abre-
se com a publicação de A literatura infantil: história, teoria e análise
(1981), [5] de Nelly Novaes Coelho, que, no ano seguinte, publica seu
Dicionário crítico de literatura infantil e juvenil brasileira. [6]
Os trabalhos de Nelly Novaes Coelho marcam, com a concretude
do livro impresso e com a chancela da Universidade de São Paulo, a
maturidade da área, que também passou a integrar currículos de
cursos de Letras. De lá para cá e particularmente no século XXI,
articulados com a expressiva produção do setor, multiplicam-se
livros, ensaios, dissertações de mestrado e teses de doutorado,
cursos e eventos voltados para a literatura infantil e juvenil. É neste
contexto que surge, desenvolve-se e amadurece este Literatura
infantil brasileira: uma nova / outra história.
Tratar livros para crianças e jovens enquanto literatura implica
conferir-lhes o mesmo statusda literatura não infantil e,
consequentemente, considerá-los aptos a receber o idêntico tipo de
reflexão voltado àquela. Implica, assim, considerar seu estudo
habilitado a desenvolver-se através de metodologias e
epistemologias formuladas a partir de e desenvolvidas a propósito da
literatura não infantil e vice-versa.
Com tais pressupostos, nossos livros anteriores Literatura infantil
brasileira: história e histórias e Um Brasil para crianças, seguindo a
lição de estudos clássicos da literatura brasileira, formatam em
épocas o panorama da literatura infantil brasileira que delineiam,
estabelecendo traços textuais e temáticos característicos de cada
período, elencando seus autores representativos e discutindo suas
criações. A portabilidade desejável para Literatura infantil brasileira:
história e histórias, que pretendia, como efetivamente conquistou,
largo trânsito na graduação universitária, aconselhou a migração
para outro título – Um Brasil para crianças – a extensa antologia de
textos representativos de cada época. De um título para o outro, um
movimento de condensação e ilustração.
Examinados em perspectiva, do livro de 1984 para o de 1986,
desfere-se um trajeto de afunilamento, representado pela busca e
discussão de elementos cada vez mais básicos e estruturantes de
textos voltados para crianças e jovens. Como contrapartida deste
afunilamento da visada que norteou as obras de 1982 e 1986, dez
anos depois, A formação da leitura no Brasil (1996) desferiu trajetória
oposta. Em um zoom significativo, discute práticas sociais através
das quais se forma e se desenvolve (ou não se forma, nem se
desenvolve...) o público brasileiro, do qual faz parte o leitorado de
livros infantis e juvenis.
Transposto o ano 2000, o novo século – com a sedução dos
números redondos – aguçava a curiosidade e propunha desafios:
que sistematização poderia trazer, dialogando com os livros
anteriores – Literatura infantil brasileira: história e histórias e Um
Brasil para crianças –, a reflexão para mais perto dos dias atuais?
Afinal, o que dizer no século XXI, quando a discussão de eventuais
danos e vantagens representados pelos quadrinhos se substitui pela
discussão de eventuais vantagens e desvantagens representadas
pelo e-book e pelos games (capítulo I)? Se os livros anteriores
propunham uma determinada forma de olhar e discutir a produção de
literatura infantil brasileira em circulação até a década de setenta do
século XX, que debates e olhares suscitava a extensa produção
posterior a 1980 (capítulo II)?
O primeiro aprendizado que a questão patrocinou foi que o
espantoso volume da produção de livros infantis e juvenis (capítulo
II) proscrevia de forma radical a retomada do modelo cronológico dos
livros anteriores. Ao longo das várias decisões que precisaram ser
tomadas durante a longa ruminação e elaboração deste livro,
também se confirmou a velha lição de que quantidade afeta
qualidade, entendida essa última, aqui, não no sentido de avaliação
positiva, mas no sentido de natureza, de modo de ser dos seres do
mundo, inclusive delivros. O gigantismo da produção da área
permitiria ainda a discriminação autor por autor ou a delimitação de
épocas? Salvo em algumas passagens, a tradicional apresentação
autor a autor ou obra a obra pareceu desaconselhável.
A grande produção contemporânea de livros que hoje circulam
entre crianças e jovens – quer por sugestão escolar, quer por leitura
espontânea, quer por compra governamental, quer por aquisição
individual – parece proscrever qualquer categorização ortodoxa de
títulos.
O panorama cultural das últimas décadas sofreu alterações
profundas. Inclusive – e talvez sobretudo – na área de livros infantis
e juvenis.
A literatura para crianças e jovens, mais do que a literatura não
infantil, mostra-se sensível a esse panorama, marcado pela intensa
movimentação política de segmentos sociais pouco expressivos até
as décadas finais do século XX. Recortada por legislação que, de
forma crescente a partir da aprovação e promulgação da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996/1997), pauta a
leitura escolar, transforma-se a cadeia que vai da produção ao
consumo de livro destinados à infância e juventude.
Concebendo a literatura enquanto um sistemapor meio do
qualobras, autores e públicos interagem a partir de condições sociais
que diferentes momentos históricos proporcionam, [7] o novo contexto
cultural do país afeta a literatura infantil e juvenil (apenas ela?) desde
seu modo de produção até sua forma de circulação, multiplicando as
(outras) linguagens com as quais precisa dialogar.
À medida que esta percepção se foi impondo, pareceu-nos pouco
produtiva qualquer ordenação cronológica de épocas, tendências,
autores ou obras. Foram então abandonadas propostas de
abordagem individual de autores e de obras, exceto quando obras e
autores davam concretude à discussão de uma ou outra tendência.
Assim, este Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história,
ao longo dos capítulos que o constituem, propõe um conjunto de
reflexões sobre o gênero literatura infantil e juvenil,focalizando-o da
perspectiva que nos pareceu enriquecer o conhecimento, discussão
e fruição da literatura infantil e juvenil brasileira dos últimos trinta
anos.
Se a decisão foi ou não acertada, fica para os leitores decidirem.
Pois a prerrogativa maior dos leitores é discordarem dos autores
que leem, o que – claro! – constitui também uma forma de diálogo.
Literatura infantil e 
juvenil para além do 
livro
Nós estamos em um momento de muita nostalgia da possibilidade da
perda de um objeto que nós amamos, o livro. Isso provoca, em
qualquer um de nós, um apaixonamento pelos últimos livros que
estamos construindo. Se é que de fato – eu tenho as minhas dúvidas
– o livro de papel vai desaparecer completamente. Eles podem
substituir o papel por algum outro material que não seja tão caro à
natureza. Mas o livro digital, quer dizer, a possibilidade do livro
digital, da compra imediata, da diminuição de custo, da ausência da
necessidade de lugar para guardá-los, tudo isso faz com que o livro
digital seja um caminho sem volta mesmo.
Angela Lagoe-book indígena (Sol do pensamento,
Grumin / Rede de Comunicação Indígena / Núcleo de Escritores
indígenas no INBRAPI).
h) Elias Yaguakãg
Extremamente sugestivos são os efeitos de sentido da instância
visual de As aventuras do menino (2010), de Elias Yaguakãg, que
assina texto e ilustração. A partir da capa, que se derrama pelas
orelhas do livro (em um efeito de quase origami), o desenho foge ao
figurativismo e ocupa os diferentes espaços do livro que, ao branco e
preto das páginas destinadas ao texto verbal, alterna páginas
coloridas que ostentam belíssimas formas e cores, cujo diálogo com
o texto é, digamos, metonímico.
O livro se encerra por um glossário que, a partir de seu título, põe
lado a lado palavras e grafismos: “palavras e grafismos maraguás” e
regionalismos amazônicos. As seis folhas do glossário têm margens
caprichosamente decoradas em seu corte externo. Palavras e
imagens dividem-se em colunas que pedem ao leitor um constante
movimento de olhos que, ao longo da obra, transitam entre o
grafismo e os algarismos que, no canto inferior esquerdo, numeram
as páginas.
Os livros do novo indianismo caracterizam-se, quase sempre, por
ilustrações inspiradas no grafismo indígena, [126] o que levanta uma
questão interessante: como ela dialoga com a visualidade tão
presente, como veremos a seguir, na literatura brasileira
contemporânea para crianças e jovens?
3. Presença do não verbal
Se um pinguinho de tinta
Cai num pedacinho
Azul do papel
Num instante imagino
Uma linda gaivota
A voar no céu
Toquinho e Vinícius [127]
Marcos da ilustração na literatura infantojuvenil brasileira são
obras como Flicts (1969), de Ziraldo, ou O rei de quase tudo (1972),
de Eliardo França. Entre autores paradigmáticos incluem-se Gian
Calvi, Regina Yolanda Werneck, Rui de Oliveira, que renovaram os
padrões gráficos e visuais dos livros dirigidos às crianças,
modernizando o processo de produção das obras, sem deixar de
conferir-lhes qualidade artística e experimental.
Também foi fundamental para a transformação dos livros
nacionais, do ponto de vista da ilustração, a incorporação de técnicas
provenientes de outros meios de comunicação. Alcy Linares e Walter
Ono, por exemplo, ilustradores de vários livros de Ruth Rocha no
final dos anos 1970, exploraram as virtualidades do traço peculiar ao
cartoon, enquanto Ricardo Azevedo valeu-se de elementos próprios
à xilogravura. Muito frequente na literatura de cordel, Azevedo lança
mão dela para compor obras que tratam da cultura popular e do
folclore, como seus Contos de enganar a morte (2003) ou Histórias
de bobos, bocós, burraldos e paspalhões (2009). Eva Furnari, por
sua vez, em Bruxinha atrapalhada (1982), primeira de uma série de
livros protagonizados pela personagem-título, retoma elementos da
história em quadrinhos, estabelecendo uma ponte criativa entre dois
gêneros associados às práticas de leitura da infância.
Para além das técnicas sugeridas pelos meios de comunicação do
mundo do impresso, a tecnologia digital suscitou novas
possibilidades de expressão que repercutem positivamente na
produção de livros para crianças. Conforme destaca Kimberley
Reynold, os meios de comunicação que se difundem por meio da
tela ou do monitor oferecem alternativas originais por não se
organizarem segundo “a lógica do impresso, mas conforme a lógica
de ícones e princípios de visualização.” [128] Assim, a informação
pode ser organizada espacialmente, e não em cadeia, substituindo a
linearidade pelo processo de vaivém, a que o jovem leitor pode estar
habituado desde seu convívio com objetos digitais, mas que não
costuma encontrar em livros.
Em produtos impressos, a criatividade é então desafiada: de uma
parte, é estimulada a importar técnicas e processos inusuais no
mundo do livro, porque provêm de outros suportes. De outra, induz o
artista a continuar inovando, além de colocá-lo em posição autoral, já
que o desenho, o traço, a cor, passam a desempenhar as funções da
escrita e da expressão verbal. É em Eva Furnari que se encontram
bons exemplos dessas possibilidades artísticas.
Cacoete (2005), livro impresso, narra a história da cidade que lhe
dá título, caracterizada por uma organização impecável: as ruas
alinhavam-se em ordem alfabética, assim como seus moradores; as
roupas das mulheres tinham estampas semelhantes, o que também
ocorria com as vestimentas masculinas. A arrumação dos armários,
as comemorações, as lições ensinadas nas escolas – tudo seguia
uma ordem prévia e imutável. É nesse contexto que Frido, o garoto
que protagoniza a história, decide presentear sua professora com
uma maçã: “Presente de Dia dos Professores, na cidade de Cacoete,
tinha que ser maçã, não podia ser outra coisa.” [129]
Frido passa por vários percalços até atingir seu objetivo: compra
uma maçã com muita antecedência, e a fruta apodrece; procura
adquirir outra, mas a vendedora, que descobre ser uma bruxa, o
persegue; experimenta mutações físicas. Mas o resultado de sua
aventura é mais abrangente, pois alcança transformar
completamente a cidade e o comportamento de seus habitantes. Até
o tempo se altera: “O tempo, às vezes, corria tanto que quando
alguma coisa ia começar, já estava acabando. Outras vezes ele
andava para trás e então as coisas começavam pelo fim.” [130]
Enfim, o livro tematiza a divergência e a possibilidade de
expressão diferenciada em uma sociedade até então marcada pela
homogeneidade.
O motivo central é suscitado pela maçã, propriedade de uma bruxa
pouco sociável, habitante da floresta, em oposição ao mundo urbano,
regulado e domesticado em que vive Frido, sua professora e os
demais cidadãos de Cacoete. A bruxa, sinal da desordem e do caos
até então evitados pelos cacoetecas, é provocadora das mutações
radicais que a envolvem também, pois, ao final, “ela nunca mais foi a
mesma”. [131] Da sua parte, o motivo da maçã também passa por
deslocamentos, pois, oriundo, de um lado, da mitologia judaico-
cristã, de outro, do conto de fadas, nesta obra de Eva Furnari deixa
de sinalizar a desobediência e a culpa (de Eva, a figura da Bíblia,
não a autora) ou a sedução e a perdição (Branca de Neve), para
indicar as possibilidades de ruptura em uma sociedade fortemente
hierarquizada, como a de Cacoete.
É a linguagem visual que traduz a ordem, o caos e a nova
configuração do mundo cacoeteca. As primeiras páginas do livro
(páginas 3 a 11) caracterizam-se pelas linhas retas e por certa
uniformidade cromática. É o primeiro encontro de Frido com a bruxa
(página 12), que começa a romper a unidade e a monotonia até
então reinante. A ruptura manifesta-se, por exemplo, nas árvores,
que fazem o pano de fundo, agora retorcidas, e no casarão, cujo
telhado que ostenta “chaminé preta e torta” aparece em cor entre
rosa e magenta. A partir daí, as tonalidades em vermelho se
impõem, e os traços retos desaparecem, a não ser na página 16,
quando Frido procura conferir uma ordem à desarrumação da casa
da bruxa.
Editora Moderna, 2016./FURNARI, Eva
Figura 16
O momento mais expressivo da ilustração (Figura 16) [132] aparece
na página 28 (a partir da página 20, são empregados distintos meios
gráficos para indicar a numeração das páginas, sendo que a 28
aparece em dígitos romanos), quando a unidade se desarticula
inteiramente: ainda que haja um núcleo central de conteúdo – a
professora dando aula, e os alunos assistindo – as informações
adicionais se disseminam pelo espaço gráfico, obrigando o olho do
leitor a identificá-las e decodificá-las. Assim, o miolo da ilustração da
página corrobora o texto, mas, por suas bordas, apresentam-se
situações adicionais a serem percebidas por quem não se preocupa
com a continuidade da narrativa, e sim com a simultaneidade de
enfoques variados.
Cacoete não chega a romper com a linearidade do livro impresso,
mas exige do leitor idas e vindas através das páginas do livro, o que
configura sua originalidade.
Maçãs argentinas (2013), [133] texto de Paulo Venturelli e ilustração
de Odilon Moraes, retoma não apenas a questão simbólica do ‘fruto
proibido’, mas tambémsua tradução gráfica. A história narrada em
primeira pessoa, por um adulto que relembra a infância pobre,
quando maçãs argentinas eram caras e inalcançáveis, encontra sua
transcrição na ilustração, que se faz, sobretudo, pela apropriação de
imagens sugeridas pela pintura do belga René Magritte (1898-1967).
A figura da página 24 do livro, em que o rosto do menino é
substituído por uma maçã (Figura 17), bem como a da página 59, em
que a fruta, na mesma posição, está mordida (Figura 18), indicam a
combinação entre dois quadros de Magritte, “Isto não é uma maçã”
(Figura 19) e “O filho do homem” (Figura 20). O primeiro deles é
constituído pela reprodução realista da fruta que lhe dá título,
encimada pela frase “Ceci n’est pas une pomme”; o segundo pela
apresentação de um homem, de terno e chapéu coco, sendo seu
rosto encoberto por uma maçã.
Editora Positivo Ltda, 2013/ VENTURELLI, Paulo; LOPES, Odilon
Figura 17
Editora Positivo Ltda, 2013/ VENTURELLI, Paulo; LOPES, Odilon
Figura 18
MAGRITTE, René.
Ceci n’est pas une pomme. 1964.
Óleo sobre tela, 60 cm x 40 cm.
© Photothèque R. Magritte, Magritte, René/ AUTVIS, Brasil, 2016.
Figura 19
MAGRITTE, René.
Le fils de l’homme. 1964.
Óleo sobre tela, 116 cm x 89 cm.
© Photothèque R. Magritte, Magritte, René/ AUTVIS, Brasil, 2016.
Figura 20
A incorporação da pintura de Magritte à literatura para crianças e
jovens é matéria também de Caulos, em O segredo de Magritte, [134]
que, como o pintor belga na obra que inspirou o livro antes
comentado, escolhe temas e procedimentos insólitos. Tal prática
sugere que o diálogo intertextual dos livros brasileiros não se faz
apenas com a literatura, mas com as Artes Plásticas, representada
por renomados pintores.
Bichos do lixo (2013), de Ferreira Gullar, é igualmente sugestivo
dos rumos que toma o não-verbal na literatura brasileira
contemporânea para crianças e jovens. Escreve o poeta na
apresentação dirigida “Ao leitor”:
A palavra lixo nos faz pensar em sujeira, mas não é este o caso aqui. Este
é um lixo limpo, colorido, que, não obstante, iria certamente para a lixeira,
não fosse essa minha mania de brincar com restos de envelopes,
convites, propagandas, revistas, calendários, catálogos e muitos outros
materiais em papel que recebo pelos correios.
Na verdade, brinco com as possibilidades do acaso, isto é, com a
probabilidade de que, lançados a esmo, os recortes coloridos façam
nascer alguma coisa: um bicho, por exemplo.
Um bicho que eu identifico aleatoriamente como uma ave e você talvez o
identificasse com outro animal qualquer. Animal que, aliás, não precisa
existir. É em suma uma brincadeira. Divirta-se. [135]
A apresentação do livro de que Ferreira Gullar é simultaneamente
autor e ilustrador pode ser colocada em paralelo com o começo de
Alice no telhado, de Nelson Cruz. Neste, como se apontou antes, a
personagem escritor traça uma linha circular na página em branco e
joga-a na lixeira, de onde precisa depois recuperá-la, para que as
personagens do clássico de Lewis Carroll possam retornar a seu
país das maravilhas. No livro de Gullar, o lixo, presente desde o
título, tem outra função, pois o autor não joga fora papéis
aparentemente descartáveis, e deles emergem, por meio de
colagens, as figuras, menos ou mais fantásticas, que inspiram seus
versos, a maioria deles epigramáticos.
“Seres azuis” é exemplar: o poema é constituído por um único
verso – “Aqui, diferentemente da natureza, a essência dos seres é a
cor.” [136] – ilustrado por imagens não figurativas, na maioria azuis
(Figura 21, página par; Figura 22, página ímpar). Os recortes podem
impulsionar a imaginação, que atribuirá àqueles objetos alguma
identidade, o que fica a critério do leitor, pois, para o autor, a cor é
sentido suficiente (e talvez não ocasionalmente, no interior da
palavra ‘recorte’ está o substantivo ‘cor’), dando prosseguimento à
poética de Flicts, de Ziraldo, igualmente um livro sobre os matizes.
Ferreira Gullar
Figura 21
Ferreira Gullar
Figura 22
A colagem é o processo técnico utilizado originalmente por Gullar,
prática que foi guindada à condição de arte pelas vanguardas do
século XX, de que o poeta participou em seu tempo de Concretismo
e Neoconcretismo. Mas a colagem é igualmente um dos modos de
ser da bricolagem, a saber, o reaproveitamento de resíduos,
conforme um procedimento heteróclito, ainda que utilitário. A
bricolagem aproxima-se do brechó, espaço da quinquilharia e do à
primeira vista descartável, porque superado e desnecessário. A
reabilitação desse material, como faz Gullar, une, assim, o moderno
e o antigo, a vanguarda e o anacrônico, inovando por não se
desfazer do rejeitado, e sim por colocá-lo em outro patamar. No
contexto da sociedade pós-capitalista, caracterizada pelo consumo
inveterado e pela rapidez com que os modismos são superados e
jogados fora, Gullar, tal como Rodrigo Lacerda, em O fazedor de
velhos, encontra um novo e original espaço para os objetos do
cotidiano.
É de certo modo na mesma direção que trabalha Angela Leite de
Souza em Entre linhas (2013), quando ilustra os poemas de seu
livro, cujo título explora dois universos – o da costura, tema
perseguido na obra, e o da escrita, própria à matéria impressa. Seus
versos lidam com costura, bordados e os seres, humanos e não
humanos, que pertencem a esse mundo. Costurar, bordar, fazer
croché ou tricô são atividades originalmente manuais e associadas,
de preferência, ao mundo feminino.
A expansão da indústria do vestuário e a mecanização reduziram
sensivelmente o espaço de execução dessas práticas, tornadas
quase anacrônicas, a ponto de os objetos que as constituem –
botões, agulhas, linhas, fitas métricas, giz – terem quase
desaparecido. É o que o livro de Angela Leite de Souza busca
resgatar, de uma parte, por meio de seus versos, de outro, através
das ilustrações. Assim, em vez das figuras abstratas, são
empregadas fotografias ou desenhos bastante realistas, para que se
identifiquem com facilidade os termos a que se referem. A
preocupação referencial, reduzindo o simbolismo da imagem ao
mínimo, completa-se ao final do livro, quando se apresentam as
“Palavras do mundo da agulha e da linha”, [137] glossário que dá
conta do vocabulário vinculado à costura e seus produtos (tecidos,
cortes, enfeites, ações específicas), bem como um “Passo a passo”
dos “Trabalhos Manuais” (p. 43), contendo instruções sobre as
maneiras de alinhavar, chulear, fazer uma bainha ou pregar um
botão, entre outras.
De certo modo, livros como os de Ferreira Gullar e Angela Leite de
Souza facultam idas e vindas, aplicadas não à linearidade do espaço
do livro, mas à linearidade do tempo, ao propiciar avanços e recuos
entre práticas às vezes obscurecidas ou apagadas em nome de uma
modernidade consumista ou mecanicista.
De 2010, Telefone sem fio, [138] de Ilan Brenman e Renato
Moriconi, é um livro sem texto. Em cada uma de suas grandes
páginas, uma figura (na página da esquerda) cochicha para outra, da
mesma dimensão, na página da direita. Esta, por sua vez, na
próxima página da esquerda, cochicha para outra figura à direita, e
assim sucessivamente, até que, na última, fecha-se o círculo,
figurando como ouvinte quem cochichava no começo.
Como indicado em seu título, o livro retoma a antiga brincadeira do
telefone sem fio, o que configura uma eficiente transposição do oral
para o visual. As imagens, algumas, conforme o ilustrador,
retomando figuras de pintores como Paolo Ucello (1397-1475), Piero
della Francesca (1415-1492) e Hans Holbein (1497-1543), alternam,
no virar das páginas, perfil e frente, e provêm de diferentes
imaginários: rei, índio, pirata, uma menina de chapéu vermelho são
exemplares da variedade de matrizes a que recorre o livro que
incentiva, sem palavras, eventual dupla interação com o leitor. Este
tanto pode brincar de telefone sem fio, quanto inventar o conteúdo do
cochicho que sofre alterações, quase sempre divertidas, na
passagem de página a página.
É ao virar da página, elemento por excelência da materialidade do
livro, que as personagensmudam de função, passando de emissor a
ouvinte e vice-versa, e mimetizando, por meios gráficos, o papel do
leitor quer de imagens quer de letras.
Nos livros de Roger Mello, vencedor do Prêmio Hans Christian
Andersen de 2014, na categoria Ilustrador, que, como muitos dos
artistas mencionados, escreve e ilustra seus livros, os processos
aqui destacados aparecem com grande criatividade. Em livros como
Nau catarineta, [139] o autor apropria-se da tradição popular,
explorando as estrofes de conhecido poema de circulação oral e
origem portuguesa. A ilustração investe nos elementos marinhos,
mágicos e religiosos dos versos, incorporando-os à cultura brasileira,
ao utilizar cores fortes, usualmente associadas à geografia tropical, e
introduzir instrumentos musicais como tamborins, ao lado das
guitarras lusitanas (Figura 23).
Roger Mello
Figura 23
A composição da página impressa é igualmente inovadora, já que
supõe uma leitura que, se é contínua no que diz respeito à sequência
das estrofes do poema, é não-linear no que se refere às figuras. A
primeira página em que os versos são reproduzidos mostra o espaço
de uma cidade, suas ruas sendo ocupadas por pessoas que dançam
e festejam, e a cercadura do espaço assinalada por residências e
casas comerciais onde provavelmente vivem aqueles indivíduos.
A apresentação obriga não apenas o leitor a acompanhar, de baixo
para cima, o desenho dos imóveis, como a movimentar os olhos da
direita para a esquerda, em contraposição ao posicionamento a que
está acostumado quando interage com uma obra impressa. Por sua
vez, esse procedimento, que se multiplica nas páginas
subsequentes, não ignora o texto escrito, que se oferece ao leitor
sob várias formas gráficas, sendo também a tipologia um modo de
mobilizar a atenção permanente do destinatário.
Do mesmo autor, Zubair e os labirintos, [140] identificado no
catálogo de sua editora como livro-brinquedo, igualmente inova, ao
se mostrar um livro desdobrável, que se abre para o leitor, mas que
se oferece enquanto um labirinto, sendo esse o tema principal da
obra. Por sua vez, o uso da cor se faz mais presente em outras duas
obras, Carvoeirinhos (2009) e Contradança (2011), em que Roger
Mello investe nas potencialidades do preto & branco. No primeiro, à
cor negra, que reproduz o mundo do protagonista, opõe-se o
vermelho do fogo, que, parecendo saltar da página, o ameaça. Em
Contradança, as páginas de texto carregam uma tonalidade,
enquanto as figuras apresentam variações entre o preto e o cinza. O
procedimento como que inverte modos habituais com que os livros
se valem das cores: tradicionalmente, os tipos, em preto, opõem-se à
folha em branco, enquanto que as figuras aparecem em cores
brilhantes.
Resultado, de uma parte, do investimento financeiro das editoras
nacionais nos processos de produção gráfica da literatura para
crianças e jovens, e, de outra, da criatividade de escritores e
ilustradores brasileiros, os livros impressos tornam-se
internacionalmente competitivos, de que são provas os vários
prêmios e menções que os acompanham nas últimas décadas.
Ainda que não ostensivamente voltadas para o circuito escolar,
obras que tematizam outras criações literárias, tratam das culturas
indígenas ou investem solidamente na dimensão visual do objeto
livro, também circulam entre carteiras e alunos. Mas, a este percurso
mais tradicional, soma-se um fenômeno curioso. Tem altíssimo
trânsito entre o mesmo público jovem, em nome de quem se tecem
queixas e se organizam campanhas relativas a livros e leitura, outro
tipo de produto que talvez a escola desqualifique e que os setores
mais acadêmicos ligados à literatura com certeza não chancelam.
O que seria a fantasy fiction e a chicklit, cuja tradução para o
vernáculo ainda não encontrou unanimidade?
 
pode haver livro e leitura para além da
escola?
O leitor jovem adulto hoje já é adulto, né? Os moleques de 12 anos
estão lendo Guerra dos Tronos, como se o livro fosse infantojuvenil.
Essa classificação acaba caindo mais em relação aos personagens e
para as livrarias separarem nas estantes. Nesse sentido, Cemitérios
é adulto. Espero que o cenário agrade tanto ao público de literatura
fantástica, quanto o público acostumado com a cultura pop japonesa,
dos animes aos tokusatsus, que nem sempre é fanático pela
literatura fantástica necessariamente, mas também não deixa de ser
apaixonado por histórias fantásticas.
Raphael Draccon [141]
Em setembro de 2013, quando se encerrou a 16ª Bienal do Livro
do Rio de Janeiro, a Folha de São Paulo noticiou o êxito de vendas
representado pelos livros destinados ao público jovem:
“A literatura juvenil virou um nicho forte, basta olhar as listas de mais
vendidos”, disse Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional de
Editores de Livros, citando fenômenos nacionais como Eduardo Spohr,
Paula Pimenta e Carina Rissi, que deram longas sessões de autógrafos.
[142]
Entre os autores bem sucedidos, a Folha de São Paulo destacou a
estreante Renata Ventura, cujo livro A arma escarlate (2013) “nem
chegou a ‘esquentar’ a prateleira do estande da editora Novo Século.
Em menos de um dia, ou melhor, em poucas horas, todos os
exemplares já estavam vendidos. Sobraram apenas os marcadores
de livros.” [143]
Outra postagem na internet informa o alcance de vendas e o
faturamento obtido, além de caracterizar os visitantes do evento
livreiro: durante os quinze dias da Bienal realizada no Rio de Janeiro,
foram comercializados “3,5 milhões de volumes”, tendo o
faturamento alcançado “71 milhões de reais”. Embora o público
tenha diminuído, se comparado com o da feira de 2011, acorreram
ao Riocentro 660 mil pessoas (em vez das 670 mil, de 2011), sendo
que se verificou a “presença maciça de um público com idades entre
15 e 29 anos, consumidor de séries nacionais e internacionais, que
vêm dominando as listas de mais vendidos.”
A matéria complementa: “essa faixa etária correspondia a 46% dos
frequentadores da Bienal em 2011 e passou a representar mais da
metade do público nesta edição, chegando a 51%.” [144]
Nem todos os mais de trezentos mil moças e rapazes adquiriram
obras de autores brasileiros, mas, entre os escolhidos, constaram
certamente os já mencionados Eduardo Spohr, Paula Pimenta,
Carina Rissi e Renata Ventura, que exemplificam bem algumas das
preferências de leitura do público jovem, dividido entre a fantasy
fiction, em que predomina a magia e a hiper-realidade, e a
representação do cotidiano de adolescentes e jovens adultos, em
geral do sexo feminino, envolvidos frequentemente em tramas
amorosas.
Cada uma dessas duas vertentes tem suas peculiaridades, que,
embora às vezes se mesclem, podem também ser examinadas em
separado, porque, em qualquer circunstância, nunca chegam a se
confundir.
1. Uma ficção para lá de fantástica
Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da
magia.
Arthur C. Clarcke [145]
A fantasy fiction não é um gênero de fácil definição.
Expressão pleonástica, redundância evitada no termo ‘fantasia’
que, às vezes, é escolhido para traduzir o vocábulo em inglês
‘fantasy’, ela não se restringe ao campo literário, nem mesmo
artístico, aparecendo não apenas em livros, filmes e novelas
gráficas, mas também em jogos e performances. Qualquer das
denominações, seja em inglês ou em português, nomeia produções
povoadas por seres sobrenaturais, deuses e heróis imortais,
detentores de poderes mágicos, capazes de fundar universos e de
transitar com relativa facilidade entre o mundo dos vivos e dos
mortos.
Há séculos, personagens com esse recorte frequentam a cultura:
mitos, lendas, relatos religiosos, epopeias, contos de fadas – eis todo
um contingente de criações com a palavra que não se constrange
em transpor fronteiras inacessíveis aos simples mortais, que apenas
podem cruzá-las em sonhos, o espaço que a tradição ensina ser, por
excelência, o território da fantasia e da imaginação. De todo modo,
fantasy fiction ou fantasia tornou-se recentemente o termo
empregado para indicar produções – literárias e não literárias,verbais e não verbais – que apareceram nas últimas décadas do
século XX e primeiras do XXI.
No campo da produção infantojuvenil, talvez a publicação, entre
1997 e 2007, na Inglaterra, e entre 2000 e 2007, no Brasil, da saga
de Harry Potter, de autoria de J. K. Rowling, possa ser considerada o
acontecimento fundador do gênero, ainda que, dois anos antes, em
1995, Philip Pullmann tenha inaugurado o primeiro volume da trilogia
His dark materials (Fronteiras do universo na tradução nacional). [146]
A obra de Pullman parece ter impulsionado a criação de universos
ficcionais que se espraiam para além do conhecido e do vivido, por
meio da imaginação, de uma parte, e, de outra, da reapropriação da
tradição de mitos e narrativas populares produzidas no Ocidente.
Nas narrativas de Pullman e Rowling, verifica-se um conjunto de
marcas que, ainda que não o esgotem, podem ser tomados como
característicos do gênero fantasy fiction.
1)
Quando dirigidos ao público jovem, livros de fantasia
são, na maioria das vezes, protagonizados por
crianças, adolescentes ou jovens adultos.
Esses dispõem, ou não, de poderes mágicos [a exemplo de Harry
Potter e, mais recentemente, Percy Jackson (2005-2009)], de
inteligência excepcional dirigida sobretudo a engenhos tecnológicos,
como Artemis Fowles (2001-2012), da série criada pelo irlandês Eoin
Colfer, ou de alguma virtude de que nem sempre estão conscientes
quando se inicia a história de que participam. É o caso de Lyra
Belacqua, de A bússola de ouro, que abre a trilogia de Fronteiras do
universo, e também de seu parceiro, Will Parry, introduzido a partir
do segundo volume da saga, A faca sutil.
Quase todos os heróis evidenciam qualidades positivas e virtudes
(exceção feita, em algumas circunstâncias, a Artemis Fowles), e a
eles se opõem as figuras do mal, que podem ser humanas, como a
Sra. Coulter, de Fronteiras do universo, ou um bruxo à maneira de
Lord Voldemort, o arqui-inimigo de Potter. Importante é que os
adversários são, se não adultos, ao menos mais velhos que o(a)
protagonista, podendo ou não ter com ele/ela uma relação familiar. O
confronto entre eles pode ser interpretado como mimetizando o
conflito de gerações, o atrito entre pais e filhos, e, em sentido mais
amplo, o antagonismo entre o Bem e o Mal.
A vitória do Bem sobre o Mal pode apontar, simultaneamente, para
a resolução de diferentes conflitos: a supremacia do jovem sobre o
velho, do novo sobre o antigo, do futuro sobre o passado. Mesmo em
narrativas distópicas, que têm configuração particular, de que é
exemplo a saga Jogos vorazes (2008-2010), de Suzanne Collins, o
futuro recebe algum tipo de crédito, pois está corporificado pelo herói
vencedor.
O tema, de conotação mítica, pode valer-se da cosmogonia
difundida por distintos credos religiosos para expressar sua temática
básica. Fronteiras do universo é um bom exemplo: narrando a luta
permanente entre os anjos rebeldes e a autoridade religiosa,
apropria-se do assunto do poema épico O paraíso perdido (1667-
1674), de John Milton (1608-1674) desde o título original, His dark
materials, extraído de um verso daquela obra, integrando-o à
trajetória das personagens, que, assim, conseguem resgatar a
validade do projeto dos insurgentes seres alados.
Não há, pois, solução de continuidade entre a realidade das
personagens e a magia do universo que habitam, povoado por
sujeitos, objetos e animais fantásticos. A fantasy fiction, fazendo jus
a seu nome, tudo absorve, desde que se estabeleça o pacto de
ficção que conferirá verossimilhança às situações apresentadas.
2)
É também frequente na fantasy fiction a inter-relação
de mundos diversos.
Não se trata apenas de apresentar a existência em outros planetas
ou em outras épocas, como fazem a ficção científica ou o romance
histórico. Universos paralelos, com suas vidas independentes,
podem coexistir, podendo suas personagens (Lord Asriel, por
exemplo, na saga de Pullman), transitar entre eles. Em A faca sutil,
Lyra e Will pertencem a dois universos distintos, e é graças à faca,
instrumento nomeado no título, que podem cruzá-los. Por sua vez, a
médica Mary Malone, de A luneta âmbar, vem para o mundo de
Mulefa, com a qual aprende a operar a luneta âmbar, no último
volume da série.
A descontinuidade do tempo não decorre da hipótese de retornar
ao passado, ainda que essa opção esteja à disposição dos autores
engajados com a fantasy fiction, mas, principalmente, da
simultaneidade existente entre épocas e períodos distintos. Muitas
vezes as narrativas parecem anacrônicas, porque inventos científicos
muito avançados compartilham o espaço ficcional com situações
arcaicas ou primitivas. Outro caminho da fantasia diz respeito às
possibilidades de ultrapassar o limite da morte, alternativa bastante
frequente em obras que tematizam mortos-vivos, como vampiros e
fantasmas, tópico explorado por Stephenie Meyer (1973), criadora da
saga Twilight (2005), ou Crepúsculo (2008) na tradução brasileira.
3)
Na fantasy fiction, ciência e feitiçaria, como registra a
epígrafe, tomada de Arthur C. Clarcke, compartilham o
espaço ficcional.
Esse constitui outro traço que distingue o gênero, de uma parte, da
ficção científica, em que a ciência e a tecnologia ocupam lugar de
destaque, e, de outro, do conto de fadas, do mito, da fábula e da
legenda, em que se encontra tão somente a magia.
De certo modo, a fantasy fiction aponta o tanto de mágico que
costuma ser creditado à ciência, quando as descobertas e
formulações desta ainda não são de domínio comum. Tecnologias
inovadoras soam diabólicas para usuários pouco afeitos a elas; de
outro lado, a feitiçaria corresponde igualmente à posse de alguns
saberes específicos, que a aproximam da ciência. É nesse, digamos,
‘entre-lugar’ que opera o gênero.
São obras com esse perfil, aqui genericamente descrito e
exemplificado sobretudo por séries, que exercem, de certo modo, o
papel de fundadores, ao tomarem de assalto a cultura jovem.
Espraiaram-se não apenas pelo mundo dos livros, mas igualmente
pela internet (haja vista a expansão da fanfiction digital associada a
Harry Potter), pelo cinema, pelo universo de games eletrônicos, pela
celebração em cosplays. Elas são objeto de encontros de fãs e
seguidores, imitadores e parodistas, multiplicando seus efeitos, ao
atingir exércitos de consumidores.
Um desses efeitos é o percurso retroativo, em busca de escritores
e obras que, em décadas anteriores às da efervescência da fantasy
fiction, continham muitos dos elementos aqui indicados. O mais
popular dos autores é J. R. R. Tolkien (1892-1973), cujas primeiras
narrativas datam dos anos 1930 – O hobbit foi publicado em 1937; a
trilogia O senhor dos anéis, entre 1954 e 1955 – mas que só em
meados dos anos 1990 tornou-se um fenômeno mundial de
consumo, valendo o mesmo para seu conterrâneo C. S. Lewis (1898-
1963), cujas As crônicas de Nárnia, hoje bastante populares em
distintos continentes, foram lançadas entre 1949 e 1954.
Outro desses efeitos, no Brasil, foi a emergência, difusão e
sucesso da produção de escritores nacionais vocacionados para a
fantasy ficction. Como mostram as notícias sobre a Bienal do Livro
do Rio de Janeiro, antes reproduzidas, Eduardo Spohr esteve entre
os autores brasileiros mais vendidos, posição compartilhada com
Raphael Draccon, André Vianco e Leonel Caldela, graças aos quais
se consolida uma vertente de fantasy ficction em nossa literatura.
Dragões de éter, de Raphael Draccon, constitui uma saga em três
volumes, datando o primeiro – Caçadores de bruxas – de 2007. Sua
integração ao gênero da fantasy fiction deve-se inicialmente ao
universo representado, o de Nova Ether, espaço sem existência
material, mas, como sugere a denominação, etérea, onde o moderno
e avançado compartilham a ação narrada com o arcaico e primitivo,
gerando o anacronismo peculiar ao gênero. E participam da história
figuras mágicas e sobrenaturais – bruxas, fadas e animais
fantásticos, como o cavalo Bóris, troll cinzento e sua montaria, o
Mamute de Guerra –, ao lado de um contexto enigmático, derivadodas mensagens em caracteres sagrados, a serem decifrados por
sábios dotados de poderes especiais.
A ação transcorre sobretudo em Arzallum, em particular em
Andreanne, a capital do reino. Quem governa é Primo Branford, que,
ao lado dos irmãos, Segundo e Tércio, suplantou as bruxas, o que
lhe permitiu, apesar da origem plebeia, alçar-se à condição de rei.
Seu filho mais velho, Anísio, noivo de Branca Coração-de-Neve,
deverá sucedê-lo, mas o herói popular é o jovem Axel, que frequenta
as tabernas da cidade em lutas de boxe, conquistando muitos
admiradores.
Quando começa a narrativa, o reino experimenta um período de
grande tranquilidade, garantida pela celebração anual da vitória do
rei sobre as bruxas, cerimônia realizada no Teatro Majestade em que
se encenam os episódios mais importantes desse período do
passado de Arzallum. A chegada do pirata Jamil Coração-de-
Crocodilo, filho bastardo de James Gancho, perturba a paz, pois ele
ataca a cidade, rapidamente vence suas resistências e domina a
família real, exceto Axel, que se encontra fora.
Paralelamente, uma segunda intriga se desenvolve: a da
adolescente Ariane Narin, quase devorada, na infância, por um
terrível lobo, que, todavia, engolira a avó da garota. A salvação de
última hora não impediu a morte da senhora, nem o trauma de
Ariane. Enlaça-se à trajetória da menina a de dois irmãos, João e
Maria, que, aprisionados por uma temível bruxa, igualmente
estiveram a perigo em crianças.
Reconhece-se, no enredo, mescla de fantástico e de realismo.
O primeiro resulta da apropriação do universo do conto de fadas e
da literatura juvenil, por meio da retomada de passagens e eventos
característicos de histórias tradicionais, bem como da presença de
personagens com poderes sobre a natureza e de espaços estranhos,
às vezes até surrealistas. Por sua vez, o realismo expressa-se na
representação de cenas do cotidiano, especialmente da rotina de
adolescentes, que vão à escola, namoram, experimentam rivalidades
amorosas.
Esse realismo se manifesta igualmente na linguagem do narrador
e das figuras ficcionais, muito próxima do idioleto jovem, como
explica o primeiro a seu presuntivo leitor:
Você deve estar estranhando o palavreado de Ariane, pois não deve
lembrar um palavreado comum a mundos etéricos de fantasia heroica.
Mas garanto a você e a qualquer outro que, se isso acontece, é porque
anda conversando com contadores de histórias elitizados, ou que apenas
contam história da elite nobre. Pois, se passear em algumas das salas de
aula dos pré-adolescentes, e digo mesmo dos adolescentes, de
Andreanne, encontrará com certeza esse mesmo palavreado aqui
demonstrado de forma comum. [147]
Constata-se, no enredo, a apropriação do universo do conto de
fadas e da literatura juvenil. O primeiro capítulo abre-se com a frase
“E um lobo lhe devorou a avó”, [148] encaminhando de imediato para
a história de Chapeuzinho Vermelho, cognome de Ariane. Os irmãos
João e Maria remetem igualmente ao conto dos Grimm, enquanto os
piratas e vilões, James Gancho e Jamil Coração-de-Crocodilo,
migram diretamente de Peter Pan. Outra personagem, segundo o
narrador, viveu “a história mais interessante e famosa” do trio de
irmãos, pois “se tornou marquês com a ajuda de um bichano
humanoide linguarudo e exibido, que vestia roupas e botas de couro
e as vestimentas oficiais dos soldados do Reino de Mosquete”, [149]
alusão que associa sua trajetória à do Gato de Botas, criação de
Charles Perrault.
Essas apropriações não são propriedades exclusivas de Draccon e
de seu livro.
Já se apontou como a intertextualidade é parte significativa da
literatura infantil e juvenil brasileira das últimas décadas. A cultura de
massa vem reciclando as histórias dos Grimm e de Perrault em
filmes e animações, além de fundi-las a narrativas similares. Draccon
acompanha esse processo que fertiliza a arte, posicionando-se de
modo original entre a cultura erudita e a cultura pop. Produz, assim,
uma obra em que o hibridismo é marca de distinção, compondo um
conjunto heteróclito que mimetiza, de certo modo, o mundo que
representa.
A batalha do apocalipse (2010), de Eduardo Spohr, apresenta uma
estruturação complexa, propriedade sinalizada pela necessidade, ao
final da narrativa, de incluir um glossário, indicando a identidade das
personagens e locais onde transcorrem as ações, e uma linha de
tempo, que se estende desde o protouniverso, como é denominado,
até o século XXI da era cristã.
A extensão do arco temporal da história, por sua vez, sugere a
abrangência do projeto: o romance narraria desde a criação do
mundo até sua destruição, reprisando, de uma parte, o tema de livros
bíblicos, como o Gênesis, no Pentateuco, e o Apocalipse. Spohr,
porém, não se contenta com a mitologia judaico-cristã,
enriquecendo-a com contribuições das mitologias greco-romana,
persa e egípcia.
A batalha do apocalipse inclui, pois, grande contingente de
referências da cultura elevada e tradicionais, a que se somam
elementos do mundo pop, difundidos por intermédio dos meios de
comunicação de massa. De uma parte, ressoam informações
importadas de epopeias clássicas, como A divina comédia, de Dante
Alighieri, e de O paraíso perdido, de John Milton; de outro
identificam-se processos de representação utilizados em filmes como
a saga de George Lucas, Guerra nas estrelas, exibida entre os anos
1977 e 1985, e depois entre 1999 e 2005.
O enredo gira em torno da eminência da batalha que levará o
arcanjo Miguel a substituir Yahweh, Criador que deu origem aos
arcanjos, ao mundo e ao homem, e depois descansou, no sétimo dia.
No âmbito dessa moldura, ressoam narrativas míticas que
alimentaram a cultura ocidental. Mas Spohr introduz uma
personagem fundamental, o renegado Ablon, que, com Miguel,
combatera o arcanjo rebelde, Lúcifer, e seus seguidores, mas,
depois, decepcionara-se com o novo senhor dos céus. Por isso, é
expulso do convívio dos arcanjos e querubins, sendo jogado à Terra
– ou Haled, como referida no texto –, quando perde sua condição
etérea e materializa-se.
É a Ablon que compete evitar que os dois arcanjos – Miguel, por
um lado, Lúcifer, por outro – concretizem suas respectivas e sinistras
metas. É, pois, o protagonista do romance, mas não age sozinho,
contando com a eficaz e nunca dispensável ajuda de Shamira, a
feiticeira que, como ele, atravessa os séculos sem mudar de
aparência, nem de idade. Para seus inimigos, que governam de
modo absoluto seus reinos – o dos Céus e o subterrâneo – Ablon é
um renegado e um pária; mas, para o narrador e o leitor, trata-se de
um ser pleno de virtudes e de princípios éticos, e que, mesmo nas
situações mais perigosas, nunca esmorece. Corresponde, assim, a
um autêntico herói, e suas fragilidades – o amor, a insegurança que
o leva a duvidar de suas potencialidades, a sociedade com outras
personagens igualmente carentes de força física e poder – não o
impedem de levar sua tarefa ao final.
Por seu enredo, personagens, tema e presença de deuses,
feiticeiras e objetos mágicos, A batalha do apocalipse aproxima-se
da narrativa épica: a de tradição clássica, de uma parte, e, de outra,
a que a cultura de massas estimulou e que mantém vivo aquele
gênero. Sua integração à fantasy fiction decorre não apenas desses
fatores, mas também da apropriação de procedimentos
característicos. Entre esses, verificam-se a simultaneidade de
tempos, facultando a fusão entre o passado e o presente, o trânsito
entre espaços míticos (Babel, Atlântida, a Jerusalém sagrada das
Escrituras cristãs, o inferno) e realistas (o Rio de Janeiro, com suas
praias e metrôs), a passagem da morte à ressurreição e a ocorrência
de metamorfoses fantásticas.
Essas características confirmam a marca talvez mais saliente da
fantasy fiction produzida no Brasil – seu hibridismo radical, pois se
constrói a partir da soma e integração entre contribuições diversas,
oriundas da cultura elevada e popular, do erudito e do folclórico, do
clássico e do pop. Por consequência, talvez a fantasy fiction realize,
melhor do que qualquer outro tipo de produçãoliterária, a
ambicionada antropofagia dos modernistas, alargando, como sugere
Raphael Draccon no trecho transcrito antes, suas fronteiras para
além da elite intelectual em que primeiramente foi concebida.
2. Herança e transformação da liberação
feminina
Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora
somos nós que vamos dizer o que somos – declarou a personagem
de meu romance As meninas.
Lygia Fagundes Telles [150]
Ao lado da fantasy fiction, outro gênero que supera a tradicional
circulação escolar de livros para jovens é representado por obras
assinadas por mulheres e que contam histórias que envolvem
ambientes femininos. Este gênero, como se apontou a propósito da
fantasy fiction, tem reconhecida tradição.
Em 1868, Louise May Alcott (1832-1888), escritora norte-
americana e militante feminista, publicou seu livro de maior sucesso:
Little Women, Mulherzinhas, na tradução brasileira, protagonizado
por Jo Marsch, a garota que, junto com sua família (a mãe e as
irmãs), precisa sobreviver economicamente em um período em que
os Estados Unidos, sua pátria, estão divididos pela guerra civil. Três
anos antes dessa novela, em 1865, o britânico Lewis Carroll lançara
Alice no país das maravilhas, narrativa igualmente liderada por uma
menina, mas de natureza bastante diversa: o universo de Alice,
como anuncia o título do livro, é predominantemente imaginário, e
até onírico, conforme sugere o fechamento da história, enquanto que
o de Jo Marsch é realista.
As duas obras, publicadas quase simultaneamente, representam,
desde seu lançamento, tendências que tomarão a literatura para
jovens. Alice no país das maravilhas sinaliza a preferência pela
fantasia, estendendo ao máximo os limites da imaginação e
promovendo experiências na linguagem e na sintaxe narrativa.
Pertence ao âmbito da literatura infantil, ainda que, como já se
observou, o vanguardismo de sua apresentação motive muitos
historiadores da literatura a excluí-la daquele cânone, por julgá-lo
menor, inscrevendo-o na categoria mais geral de arte literária.
Contudo, a obra de Carroll teve seus sucessores entre escritores
dedicados às crianças, de que são exemplos o norte-americano L.
Frank Baum (1856-1919), de O fantástico mágico de Oz (1900),
narrativa comandada não pela personagem do título, mas pela
garota Dorothy, e o inglês James M. Barrie (1860-1937), de Peter
Pan, em que se destaca, ao lado do protagonista que dá nome à
narrativa, a menina Wendy. No Brasil, seu seguidor mais próximo
parece ter sido Monteiro Lobato, na primeira metade do século XX,
criador do igualmente fantástico Sítio do Picapau Amarelo.
Mulherzinhas, voltada provavelmente para adolescentes e jovens
adultas, nem sempre foi considerada literatura juvenil, categoria aliás
inexistente ao tempo tanto de sua publicação original quanto de sua
tradução no Brasil (1934). Seu grande sucesso deu margem à
literatura feminina, que se expandiu de modo notável ao final do
século XIX e começo do século XX. O sucesso dos romances
assinados por M. Delly (pseudônimo dos irmãos Frédéric Henri
Petitjean de la Rosiére (1870-1949) e Jeanne Marie Henriette
Petitjean de la Rosiére (1875-1947), e no Brasil conhecido
inadvertidamente como Madame Delly), é indício da robustez do
gênero, em nosso país, impresso pela Companhia Editora Nacional,
por meio da Biblioteca das Moças, em circulação a partir da década
de 1920. Compõe ainda esse conjunto a bem sucedida história de
Poliana (1913), criação da também norte-americana Eleanor
Hodman Porter (1868-1920).
Esse filão de livros, em cujo centro transitam figuras femininas,
gozou sempre de sucesso de público, de que são exemplos a obra
da prolífica Barbara Cartland (1901-2000) e, mais recentemente, as
novelas açucaradas de Danielle Steel. Consumidas sobretudo por
mulheres, essas autoras circulam igualmente entre o público jovem.
O novo leitorado feminino fortaleceu e remoçou o gênero de que faz
parte Mulherzinhas, que retomou seu impulso a partir dos anos 1990,
representado por autoras de grande vendagem em todo o mundo.
Exemplares são a irlandesa Marian Keyes, cujos livros Melancia
(2003), Férias (2004) e Sushi (2004), já alcançaram mais de 22
milhões de exemplares impressos, a norte-americana Meg Cabot,
autora da série Diário da princesa (2002) e de O livro da princesa
(2013), este elaborado em parceria com a brasileira Paula Pimenta, e
a britânica Sophie Kinsella, criadora da consumista Becky Bloom.
Os traços em comum entre essas três escritoras não se resumem
à circunstância de terem nascido durante a década de 1960, isto é, à
época dos movimentos emancipacionistas femininos. A tendência
dessa chicklit, a um tanto pejorativa denominação norte-americana
do gênero, aparentemente sem equivalente vernáculo, parece ainda
ter usufruído dos resultados do movimento liderado pela militante
Betty Friedan (1921-2006): liberação sexual, igualdade de gênero e
oportunidades de trabalho equivalentes no campo profissional
masculino. Talvez seja este o pano de fundo que viabiliza a criação
de narrativas protagonizadas por garotas e jovens que, ainda quando
têm pela frente apenas dilemas amorosos, precisam valorizar sua
identidade feminina, a capacidade de solucionar problemas e a
possibilidade de não perderem a independência, mesmo quando o
enredo as coloca perante o casamento e a constituição de uma
família no contexto da sociedade moderna.
Traduções dessas autoras aparecem, com bastante sucesso, nos
catálogos das editoras brasileiras. Concorrem com produção
nacional de teor equivalente, evidenciando uma resposta local a uma
vertente de ampla aceitação mundial, o que pode marcar a
maturidade desse segmento em nosso país.
Esse segmento pode ter começado com as histórias de Glorinha,
publicadas por Isa Silveira Leal a partir de 1959 (Glorinha, 1959;
Glorinha bandeirante, 1964; Glorinha e a quermesse, 1965),
anunciando o protagonismo feminino na literatura brasileira para
jovens. Expandiu-se com Thalita Rebouças, que soma mais de um
milhão e meio de volumes impressos. Esta cifra, que pode parecer
pequena no contexto internacional de vendas de obras adolescentes,
é notável para padrões brasileiros, o que aparentemente confere à
autora a liderança em termos cronológicos e financeiros. Seus livros
mais conhecidos pertencem à coleção “Fala sério”, cujos títulos
foram lançados entre 2003 e 2012, protagonizados pela adolescente
Malu. Cada um dos volumes tematiza um tópico do mundo jovem – a
relação com os pais, com o professor, com os amigos – apresentado
sob a forma de crônicas, que, colocadas temporalmente em
sequência, formam a biografia da personagem, pelo menos no que
diz respeito ao tema escolhido: conflito de gerações,
relacionamentos na escola, namoros divididos entre o ‘pegar’ e o
‘ficar’.
Malu sintetiza um certo modelo de jovem brasileira: residindo na
Tijuca, bairro do Rio de Janeiro situado entre a sofisticada Zona Sul e
a mais proletária Zona Norte, tipifica a classe média urbana nacional;
é filha de pais separados, cujo rompimento não impede um
relacionamento amistoso, e que trabalham com relativa tranquilidade
em suas respectivas profissões. Malu frequenta escola particular,
como em Fala sério, professor!, de 2008, e os problemas com que se
depara podem incluir a amizade ou rivalidade com moças de sua
idade, paixões de curta duração por professores homens, a
aceitação das fragilidades emocionais das professoras mulheres. A
crônica, digamos, mais contestadora naquele volume é a que narra o
movimento, liderado por Malu, contra o aumento do preço dos
lanches na cantina do colégio. De resto, estão ausentes questões
mais amplas, como as de ordem política, reivindicações salariais,
contrastes sociais entre mais ricos e não tão ricos (grupo a que
pertence a protagonista) ou entre a burguesia ascendente (de novo:
grupo a que pertence Malu) e as classes despossuídas.
A violência urbana, a infância abandonada, a degradação do
transporte e da saúde pública, a poluição das cidades – enfim, os
temas frequentes de uma agenda, digamos de novo, maisprogressista – estão ausentes dos livros. A narrativa é ágil,
desenrola-se em uma sucessão quase ininterrupta de episódios, já
que a narradora se limita a discretas intervenções ou comentários
em um registro linguístico similar ao usualmente empregado pelos
leitores. Destaca-se ainda a presença do humor a cada passo do
relato, de que é exemplar, em Fala sério, professor!, a crônica
“Comida é pasto”, em que Malu faz cômica incursão ao universo
vegano da alimentação alternativa.
Em Fala sério, professor!, as histórias são apresentadas em
primeira pessoa, em flashback, manifestando pendor memorialístico,
já que a narradora faz questão de destacar que recorda episódios de
sua vida escolar. Seus comentários enfatizam que ela hoje não é
mais a pessoa que foi antes, mas encara esse passado com
otimismo, simpatia e bom humor. Por outro lado, os hábitos e
atitudes pretéritas aparentemente não estão muito distantes, pois, a
cada passo, leitores contemporâneos podem reconhecer-se em
comportamentos, linguagem e aspirações.
Esse competente jogo entre os tempos importa muito para a
aceitação do livro junto a seu leitor. A narradora assume não ter a
mesma idade, nem a mesma maturidade de sua personagem, já que
rememora, analisa e julga o ocorrido; esse, porém, equivale ao hoje
do leitor, que, assim, iguala-se à personagem pela faixa etária,
embora possa simultaneamente projetar-se na narradora em termos
de maturidade. A juventude do leitor contamina a narradora, caso
contrário não haveria comunicação entre eles, perenizando ao
mesmo tempo o presente de ambos. É como se nada mudasse, e
essa garantia de continuidade afiança a zona de conforto em que os
livros se situam.
A opção pela primeira pessoa é comum na literatura
contemporânea, e não apenas no âmbito da literatura juvenil. A
hipertrofia do eu, frequente na ficção tanto adulta quanto juvenil,
parece abonar a verossimilhança e o realismo das obras: os temas e
as ações expostas parecem verdadeiras, pois são narradas por
quem delas participou. Correspondem, assim, ao que Paula Sibília
chamou de “o show do eu”, em que a intimidade transforma-se em
espetáculo. [151]
Outra característica importante do livro é o modelo literário em que
os relatos se inscrevem: a crônica, gênero com o qual a escola,
desde o ensino fundamental, vem familiarizando as gerações mais
jovens. A crônica parece o gênero sob medida para o leitorado que
frequenta livros como os de Thalita Rebouças. Trata-se de textos não
muito extensos e encerrados em si mesmos. Compete ao leitor a
decisão de lê-los sequencialmente ou de modo randômico, ou até de
abandonar o livro. Qualquer que seja a opção do leitor, fica excluída
a noção de leitura interrompida e inconclusa. Assim, o leitor,
sobretudo adolescente, depara-se com uma obra que se refere a seu
mundo, reproduzido de um modo que oscila entre o realismo – da
expressão linguística e dos hábitos expostos – e a idealização, já
que desse universo estão excluídos conflitos radicais e insolúveis.
Constitui-se, assim, uma modalidade de leitura sem culpa, sendo
essa talvez outra das causas de seu sucesso entre jovens divididos
entre tantos apelos de consumo cultural.
O recurso ao texto breve justifica-se ainda por outra razão:
assemelha-se àquele que vem sendo veiculado em blogs desde o
começo do século XXI e que encontrou sucessores nas postagens
do Facebook, Tumbrl, Twitter e Instagram. O usuário dessas mídias
está habituado a redigir e acompanhar essa modalidade de texto e,
digamos, gênero de discurso, o que o anima quando o reencontra
em uma obra literária.
Não surpreende, pois, quando textos originalmente difundidos em
blogs migram para livros bem sucedidos, como faz Bruna Vieira
(1994), em Depois dos quinze: quando tudo começou a mudar, de
2012.
Seus textos não se assemelham aos de Thalita Rebouças: a
narração, ágil e bem humorada desta é substituída, na obra de Bruna
Vieira, pelo pendor intimista e reflexivo, com pretensões intelectuais
e passagens retrospectivas, como na crônica de abertura, em que a
narradora recorda o reencontro com um ex-namorado. Predomina,
porém, o tom ponderado de quem tem experiência e parece querer
compartilhá-la com o leitor, ainda quando esse não é invocado de
modo ostensivo. Em “Se ele não mudar”, a narradora comenta seus
namoros passados: “Se tem uma coisa que meus dois últimos
namoros me ensinaram, é que o amor não deve nunca se
transformar em obrigação.” [152]
O discurso segue em formato de prescrição – “ninguém pode
carregar o outro no colo e deixar todo o resto de lado” [153] –, frase
que pode ser enunciada porque quem o faz já passou pelo problema,
facultando a retomada da primeira pessoa: “Vai por mim, cobrança
exagerada é, na verdade, falta de autoestima camuflada. Experiência
própria.” [154]
Observada de perto, por quem divide problemas desse tipo com o
sujeito da enunciação, a frase aproxima-se da autoajuda, que se
mostra tanto mais confiável porque provém da vivência de quem a
expressa. A narradora ocupa a posição da amiga um pouco – mas
não muito – mais velha, que pode dar conselhos e oferecer receitas
com garantia de êxito, procedimento aceitável, aliás, porque
conselheiro e aconselhado pertencem à mesma geração. Observado
à distância, por outro lado, o estilo não difere do que se encontra em
revistas femininas, onde, aliás, muitas autoras de livros para garotas
começaram suas respectivas carreiras literárias.
Bem sucedida entre o público juvenil é também Paula Pimenta,
cuja série “Fazendo meu filme” vendeu, até 2012, mais de 100 mil
exemplares. O primeiro volume, A estreia de Fani, foi lançado em
2008, e a ele seguiram-se outros cinco títulos protagonizados pela
jovem Estefânia Castelino Belluz, a Fani do título, aluna do ensino
médio, fã de cinema e autora do diário que o leitor acompanha por
um ano.
Essas características pautam o projeto da série assinada por
Paula Pimenta: a identidade escolar de Fani estabelece de imediato
o pacto de leitura com seu público, pertencente à faixa etária dos
jovens adultos que, frequentando os últimos anos do ensino médio,
precisam decidir que rumo(s) darão à sua vida futura. Fani, sob esse
aspecto, não difere da Malu de Thalita Rebouças: divide-se entre
amizades com garotas, namoros com rapazes, programas de final de
semana e problemas – ou não – em sala de aula com professores e
colegas. A indecisão amorosa é a primeira encruzilhada com que a
jovem se depara, já que demora a reconhecer quem ocupará a
posição de “verdadeiro amor”.
Seu grande interesse, porém, é o cinema, e é a partir dele que sua
própria existência parece entendida como um longa-metragem. Não
por acaso cada entrada de seu diário é encimada pela citação de um
diálogo extraído de um filme. Por sua vez, o repertório
cinematográfico de Fani é próprio da juventude brasileira: predomina
o gosto por fitas norte-americanas de enredos sentimentais ou de
aventura, lideradas por atores e atrizes jovens e atraentes.
Do ponto de vista gráfico, porém, não são as conquistas da Sétima
Arte que predominam. Essas aparecem quase que exclusivamente
nas vinhetas que ocupam o canto superior esquerdo da página, a
propósito das entradas do diário. De resto, sobressai o emprego de
recursos visuais ligados a suportes da escrita: o diário, a epígrafe, o
uso de fontes gráficas variadas, a introdução de tabelas.
Eventualmente Fani transcreve mensagens enviadas por correio
eletrônico ou postagens, mas, ainda nesse caso, são alternativas da
escrita que ocupam o desenvolvimento da narrativa.
Ainda que a obra se denomine Fazendo meu filme, o resultado é
um livro – e, no interior desse, a transcrição de um diário.
Diários são outra modalidade de escritas do eu bastante frequente
entre adolescentes, especialmente do sexo feminino. [155] O gênero
tem um ilustre precursor no Brasil em Minha vida de menina (1942),
de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant (1880-
1970). À diferença de que, conforme declarado pelos editores, essa
obra mais antiga não teria sido redigida originalmente para ser
publicada,excluindo-se assim o caráter ficcional do narrado.
Fazendo meu filme, pelo contrário, supõe o compartilhamento do
leitor e lida com acontecimentos fictícios. Mas sua inscrição em um
gênero, o do diário, cuja tradição se supõe composta por narrações
verídicas e confessionais, como o clássico Diário de Anne Frank
(1947), assegura a verossimilhança e, ao afiançar a sinceridade da
narradora, a jovem Fani, também garante a confiabilidade do
discurso. O fato de que a personagem, tal como nas obras antes
examinadas, constrói-se a partir do conhecimento dos
comportamentos habituais e das aspirações da jovem da faixa etária
pretendida como público, complementam a sintonia entre o livro e o
leitor.
A concretização dessa sintonia funda-se na reiteração das marcas
já indicadas: pertença à classe média urbana brasileira, atritos entre
pais e filhos que não são levados às últimas consequências,
ausência da representação das zonas de conflito da vida
contemporânea nacional. Mais uma vez ficam de fora a violência, a
miséria, as drogas, as trangressões de modo geral. E entra em cena
uma aspiração até aqui não manifestada: o desejo de emigração ou,
pelo menos, de experimentar uma existência fora das fronteiras
brasileiras. Assim, Fani candidata-se a um intercâmbio nos Estados
Unidos, sendo bem sucedida em seus intentos. O término da
narrativa não coincide tão somente com a descoberta do “verdadeiro
amor”, mas também de um futuro – longe, porém, da pátria e da
família.
Concluir com um novo começo é igualmente oportunizar a
continuidade da série e, com isso, fidelizar as leitoras, sócias
prováveis dos sonhos internacionais da garota Fani.
Fechando o livro
“Esses fragmentos têm alguma ligação entre si?” perguntou-me um
leitor. Respondo que são fragmentos do real e do imaginário
aparentemente independentes, mas há um sentimento comum
costurando uns aos outros no tecido das raízes. Eu sou essa linha.
Lygia Fagundes Telles [156]
É no leque de rumos sugerido nos quatro capítulos precedentes
que este livro foi estruturando as perspectivas que, a nosso ver,
direcionam o olhar por sobre os livros brasileiros para crianças e
jovens em circulação nos últimos trinta anos.
As tiragens gigantescas, os mercados diferenciados, a complexa
convergência e divergência de projetos em curso, a pluralidade e
intersecções de linguagens, marcam a literatura infantil e juvenil
brasileira mais contemporânea que se oferece aos cinquenta milhões
de brasileiros entre – digamos – sete e dezoito anos, exemplarmente
catalogados em distintas (às vezes duvidosas e sempre flutuantes)
faixas etárias e competências leitoras.
Se comparada à relação existente entre oferta de exemplares e o
número de seus presuntivos leitores em outros momentos de nossa
história, os números que pesquisas contemporâneas registram são
alvissareiros: medem indiscutível avanço na difusão da leitura no
país, muito embora nem sempre esta leitura possa ser considerada
competente.
Corre na mesma clave o risco de retrocesso que vem à tona na
esteira de determinações pedagógicas que, ao fazerem da literatura
infantil aliada explícita da pedagogia, podem comprometer o caráter
libertário que, a partir de Monteiro Lobato nos anos trinta do século
XX e, depois dele, com os melhores de nossos escritores, vem
assumindo a literatura brasileira para crianças e jovens.
Dialeticamente, no entanto, o risco representado por esta
tendência talvez se compense pelo surgimento de outras linhas de
ação, como o apontado novo indianismo e, ao lado dele, a temática
da cultura afrodescendente. Como ocorre com o que aqui se chama
de novo indianismo, esta vertente também se fortalece tanto da
grande força de movimentos sociais, como da priorização do tema
em alguns editais de compras governamentais.
Este avanço de condições de leitura do público –
quantitativamente registrado – também se manifesta quando a
atenção se volta para outros perfis da literatura infantil brasileira mais
contemporânea. Se são corretas as observações aqui desenvolvidas
a propósito da notável presença de procedimentos metalinguísticos e
intertextuais na produção dos últimos anos, é razoável postular o
domínio, no polo dos leitores, das competências necessárias para a
interação com e fruição de tais recursos. Como, entre tais
competências, se destaca a frequência aos livros, podemos esticar
as conclusões possíveis para a eficiência da rede de instituições,
eventos e publicações voltadas para o incremento da leitura,
sobretudo entre a população escolar mais jovem.
Outro aspecto também articulado aos números com que a área
opera é o favorecimento da profissionalização de seus produtores.
Com efeito, parece ser mais comum a profissionalização de
escritores voltados para o público infantil e juvenil do que dos autores
voltados para outros públicos. Esta profissionalização, forma
moderna de o escritor inscrever-se no sistema literário, é, por sua
vez, também responsável pela alta qualidade do gênero, que, como
se apontou anteriormente, é reconhecida pela contínua premiação
internacional de autores brasileiros.
No mesmo sentido, é de registrar-se a força que, neste cenário
positivo, pode ter o desenvolvimento da literatura infantil e juvenil
enquanto área acadêmica de grande demanda, objeto de cursos e
pesquisas. Este novo estatuto desfrutado pelos livros para crianças e
jovens é bastante distinto do existente até as décadas de
setenta/oitenta do século XX. Abandonando a simples transposição
de procedimentos e epistemologias desenvolvido/as a propósito da
literatura não infantil, o trabalho em andamento com livros para
crianças e jovens vem encontrando suas próprias categorias de
análise. Particularmente a visibilidade e importância da materialidade
do livro voltado para leitores não adultos pode, inclusive, invertendo
a tendência até hoje manifestada pelos estudos literários, patrocinar
bem-vindos avanços nos estudos literários tout court, o que é marca
decisiva da definitiva maturidade da literatura brasileira para crianças
e jovens.
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VELOSO, Caetano. Livros. Disponível em: .[8]
1. Pode haver “livro depois do livro”? [9]
Todas as principais formas de representação dos primeiros 5 mil
anos da história humana já foram traduzidas para o formato digital.
Não há nada criado pelo homem que não possa ser representado
nesse ambiente multiforme: das pinturas no interior das cavernas de
Lascaux às fotografias de Júpiter feitas em tempo real; dos
pergaminhos do Mar Morto ao primeiro exemplar de Shakespeare;
das maquetes de templos gregos pelas quais se pode passar aos
primeiros filmes de Edison. E o reino digital assimila, o tempo todo,
mais capacidades de representação, à medida que pesquisadores
tentam construir dentro dele uma realidade virtual tão densa e tão
rica quando a própria realidade.
Janet H. Murray [10]
Em 2007, a Editora Globo, a partir de então detentora dos direitos
autorais de Monteiro Lobato (1882-1948), lançou versão eletrônica
de A menina do narizinho arrebitado. [11] O e-book contém 56 telas,
permitindo aos leitores acessar as primeiras aventuras da neta de
Dona Benta no reino das Águas Claras por meio de texto verbal e
visual, e de sons e figuras em movimento. Com ilustrações de
Rogério Borges (Figura 1), o enredo retoma o capítulo inicial do livro
que, originalmente de 1920, foi reescrito para a edição de 1931 de
Reinações de Narizinho, obra que reúne várias das histórias
publicadas isoladamente ao longo da década anterior.
É muito sugestivo que uma das primeiras obras brasileiras – se
não a primeira – efetivamente interativa, digital, multi e hipermidiática
relance o livro de estreia do escritor mais importante – e para muitos
o fundador – da literatura infantil nacional. Como sublinha Vladimir
Sacchetta na apresentação, esta versão em suporte digital patrocina
“um mergulho na fantasia”.
Ambientada em cenários predominantemente aquáticos, a história
se desenrola em telas que alternam a imagem de páginas
convencionais e as que representam água (Figura 2). Ao toque de
dedos (e, às vezes, prescindindo deste gesto do leitor), algumas
telas são cruzadas por figuras que se movem (peixes, folhas, uma
carruagem, apresentação de vestidos a Narizinho) sendo
acompanhadas de músicas (cenas de bailes) e de sons relativos aos
episódios narrados (o espirro de Narizinho, gotas que caem, zumbido
de abelhas e de motores).
Globo Livros/ © Monteiro Lobato, 2007
Figura 1
Globo Livros/ © Monteiro Lobato, 2007
Figura 2
Na cena final da história – o despertar de Narizinho –, um belo
recurso de dissolução de telas: a cena subaquática desmancha-se e,
em seu lugar, emerge a tela inicial de Narizinho sentada à beira do
ribeirão no fundo do qual se passa(ra)m as aventuras. O texto,
conforme a editora, “teve como base a edição de 1920”, incluindo,
pois, passagens descartadas em versões posteriores, como, por
exemplo, a irreverente cena em que um Fr. Louva a Deus dá a
extrema unção a uma barata moribunda. [12]
A omissão desta passagem em edições posteriores à primeira
deveu-se provavelmente à carta, a seguir reproduzida, que o escritor
recebeu do amigo, então Diretor da Instrução Pública do Ceará e
professor da Escola Normal de Fortaleza, Lourenço Filho (1897-
1970), alertando-o para o desagrado de autoridades educacionais
com a irreverência religiosa e os consequentes riscos de um possível
encalhe do livro:
Lobato,
V. não tem razão. A esta hora já terá recebido o jornal com a nota oficial
da aprovação e adoção dos seus livros, bem como do Dr. Doria.
E veja como V. é ingrato: o único embaraço na minha ação, aqui, foi
exatamente o resultado da aprovação de Narizinho arrebitado. O clero me
moveu tremenda guerra, sob o pretexto de que a adoção do livro visava
ridicularizar a sagrada religião católica. Foi preciso, para manter a
aprovação, que eu inventasse haver uma 2ª edição, sem os
inconvenientes da primeira.
Lembra-se V. de que lhe falei sobre aquele tópico do frei com os
sacramentos etc. Esse tópico, aí mesmo, ofendeu a muitos professores. V.
só terá vantagens em suprimi-lo, quando reeditar o livro.
(...) Abraços. Saudade aos camaradas.
Lourenço Filho. [13]
Sensível a questões tanto literárias quanto financeiras, o escritor
seguiu o conselho e, a partir de então, omitiu a cena nas outras
edições do livro. Foi esse, talvez, seu primeiro – e posteriormente
constante – gesto de reescrita de sua própria obra ao longo de suas
inúmeras reedições. [14]
A questão da reescrita, tão rica e importante na trajetória da obra
lobatiana, parece excelente entrada para propor uma reflexão sobre
a literatura infantil brasileira mais contemporânea. O recente
aparecimento de e-books e de e-readers, e as consequências disto
para o livro de papel, para a leitura e a literatura, são temas que têm
(pre)ocupado quase todos os que se movem pela cidade das letras.
É instigante a escolha da primeira obra do escritor pioneiro na
modernização da literatura infantil brasileira enquanto título
comercialmente inaugural na utilização plena e recorrente de
recursos digitais no âmbito de livros e de leituras. Sugere as nuances
da dialética entre continuidade e ruptura que, como grande
interrogação, pontua debates recentes sobre alterações que a cultura
digital imprimirá – ou já está imprimindo – à cultura do impresso. E,
quando se diz cultura do impresso,talvez já se esteja,
metonimicamente, dizendo cultura ocidental.
Sintomático do encaminhamento polêmico da questão livro
impresso versus digital é a obra É um livro, [15] do escritor e ilustrador
norte-americano Lane Smith, publicada originalmente em 2010,
traduzida no Brasil no mesmo ano e premiada, na categoria
Tradução/Adaptação, pela Fundação Nacional de Literatura Infantil e
Juvenil (FNLIJ). À sua maneira, ela traz para primeiro plano o
desconforto que o aparecimento de e-readers acarreta às vezes para
alguns nativos e cidadãos plenos do mundo do impresso.
De forte cunho metalinguístico, a história é um diálogo seco,
apresentado em balões como os que pontuam histórias em
quadrinhos, entre duas figuras de feições animais: um macaco e um
burro.
Uma delas, o macaco, é grande; a outra, o burro, é pequena. Esta,
ao ver que a primeira segura um livro, manifesta, através de
perguntas, sua completa falta de familiaridade com tal objeto. O
macaco (um adulto?), representante de indivíduo habituado ao
mundo do impresso e talvez figura insatisfeita com o mundo digital,
responde, de modo impaciente e nem sempre bem humorado, às
perguntas da figura menor (uma criança?).
A obra inscreve-se no discurso contemporâneo de valorização do
livro impresso, e o faz de forma categórica e incisiva, que parece
desqualificar outros suportes de leitura. Tal estratégia, no entanto,
talvez produza efeito oposto ao pretendido. Ao desqualificar o
interlocutor menor, destinatário presuntivo da obra e por hipótese
familiarizado com o mundo digital, é bem possível que É um livro
hostilize boa parte do segmento de mercado ao qual se dirige.
A versão original norte-americana dessa obra inclui postagem no
YouTube, [16] dinâmica e divertida. A duplicidade de linguagens, a
impressa e a digital, parece sinalizar evidente contradição, pois a
superioridade do impresso parece ser comprovada por uma
demonstração via formato digital, em tese superior àquele, mas não
na prática.
Se o atual surgimento e difusão de e-books e e-readers é o
contexto ao qual se articula a obra de Lane Smith, não deixa de ser
singular a argumentação monolítica pela qual nela se faz a defesa do
antigo suporte da escrita. Bastante distinta é a forma de antecipar a
questão nos versos de alguns poetas brasileiros, que se ocuparam
do livro quando a cultura digital ainda não fazia parte do horizonte.
De que livro falavam eles?
2. “Que coisa é o livro?”
Nada é novo sobre a terra
nem permanece hodierno
Logo fica obsoleto
o que agora é moderno
Se hoje vai sendo ontem
só o futuro é eterno.
Manoel Monteiro [17]
Talvez se possa afirmar que a literatura nasceu quando começou a
era do livro. Antes dele, havia a poesia, o gesto, a imagem, o som,
que se produziam e eram transmitidos por meio da voz,Acesso em: 14 de jul. de 2014.
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[1] SANTOS, Joel Rufino et al. História Nova do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1965. V. I, p.
XI.
[2] CAMÕES, Luis de. “Sôbolos rios que vão”. In: ___. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 2005. p. 501.
[3] Cf. MEIRELES, Cecília. Problemas de literatura infantil. 2. ed. São Paulo, Summus,
1979.
[4] Cf. ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. Ensaio de preliminares para sua
história e suas fontes. São Paulo, Melhoramentos, 1968.
[5] Cf. COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil. História, Teoria, Análise. São Paulo,
Quíron, Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1981.
[6] Cf. COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira.
1882-1892. São Paulo, Quíron, 1983.
[7] Cf. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Momentos decisivos. 2. ed.
revista. São Paulo: Martins, 1964. 2v.
[8] Traço e prosa: entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes,
Rosa Hanning e Maurício Paraguassu. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 238.
[9] Cf. BEIGUELMAN, Giselle. O livro depois do livro. São Paulo: Peirópolis, 2003.
[10] MURRAY, Janet H. Hamlet no Holodeck. O futuro da narrativa no ciberespaço. Trad.
Elisa Khoury Daher e Marcelo Fernandes Cuzziol. São Paulo: Editora UNESP; Itaú Cultural,
2003. p. 41.
[11] LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado. São Paulo: Globo, 2007. Cf.
Disponível em: . Acesso em: 28 de jan. de 2013.
[12] Cf. LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado. Ed. facsimilada. São Paulo:
Metal Leve, 1982. p. 16.
[13] BR UNICAMP CEDAE FML Mlb 3.2.00284 cx 6.
[14] Cf. Lajolo, Marisa; Ceccantini, João Luís (Org). Monteiro Lobato livro a livro. São Paulo:
UNESP; Imprensa Oficial, 2008. E Lajolo, Marisa (Org). Monteiro Lobato livro a livro (obra
adulta). São Paulo: UNESP, 2014.
[15] SMITH, Lane. É um livro. Trad. Julia Moritz. São Paulo: Companhia das Letrinhas,
2010. Sobre a natureza e, digamos, superioridade do livro impresso, v. também McCAIN,
Murray; ALCORN, John. Livros! Trad. Rodrigo Lacerda e Mauro Gaspar. Rio de Janeiro:
Pequena Zahar, 2014.
[16] Cf. Disponível em: . Acesso em: 2
de ago. de 2012
[17] MONTEIRO, Manoel. Conheça o enigma das inscrições rupestres do Lajedo Pai
Mateus. Campina Grande: Fundação de Cultura e Esportes, 2002.
[18] Cf. CHARTIER, Roger. As revoluções da leitura no Ocidente. In: ABREU, Márcia (Org.).
Leitura, história e história da leitura. São Paulo: FAPESP; Campinas: ALB; Mercado das
Letras, 2000.
http://www.youtube.com/watch?v=XwoW9hnB4vY
[19] José Olympio Pereira Filho (1902-1990 ) fundou, em 1931, a Casa José Olympio
Editora, uma das mais importantes editoras brasileiras do século XX, tendo publicado boa
parte da obra de Carlos Drummond de Andrade. Atualmente faz parte da Grupo Editorial
Record.
[20] ANDRADE, Carlos Drummond de. A José Olympio. In: ___. Viola de bolso novamente
encordoada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955. p. 59. Reproduzido em ANDRADE, Carlos
Drummond de. A José Olympio. In: ___. Viola de bolso I. Poesia completa. Rio de Janeiro:
Aguilar, 2002. p. 330-331. © Grana Drummond. www.carlosdrummond.com.br
[21] MELO NETO, João Cabral. O poema. In: ___. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1995. p. 76-77. © by herdeiros de João Cabral de Mello Neto.
[22] MELO NETO, João Cabral. Para a feira do livro. In: ___. Op. cit. p. 367. © by herdeiros
de João Cabral de Mello Neto.
[23] MELO NETO, João Cabral. Psicologia da composição. In: ___. Op. cit. p. 93. © by
herdeiros de João Cabral de Mello Neto.
[24] Almeida, Presciliana Duarte. Páginas infantis. São Paulo: Typografia Brazil de
Rothschild & Co., 1910. p. 11-12.
[25] Cf. ABREU, Tâmara Maria Costa e Silva Nogueira de. O livro para crianças em tempos
de Escola Nova: Monteiro Lobato & Paul Faucher. Campinas: Universidade Estadual de
Campinas, 2009. V. também MINISTERIO DE EDUCACIÓN. Ver par leer. Acercándonos al
libro album. Santiago de Chile: Unidad de Curriculum y Evalución, [2009].
[26] Bandeira, Manuel. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Jornal de Letras, 1954. p.
11.
[27] IVO, Ledo. Antologia poética. .Belo Horizonte: Leitura, 1965. p. 112.
[28] GIL, Gilberto. Pela internet. Disponível em: . Acesso em: 20 de set. de 2014. © Gege Edições / Preta Music (EUA e
Canadá)
[29] Cf. KRISTEVA, Julia. Le mot, le dialogue et le roman. In: ___. Semeiotiquè. Recherches
pour une sémanalyse. Paris: Seuil, 1969.
[30] Foi Ted Nelson (Theodor Holm Nelson, 1937) quem, entre 1963 e 1965, cunhou os
termos hipertexto e hipermídia. Cf. MURRAY, Janet H. Op. cit. p. 94. V. também
CHADWYCK-HEALEY, Charles. The New Textual Technologies. In: ELIOT, Simon; ROSE,
Jonathan. A Companion to the History of the Book. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009 [2007].
[31] Cf. VARGAS, Maria Lucia Bandeira. O fenômeno fanfiction. Novas leituras e escrituras
em meio eletrônico. Passo Fundo: UPF Editora, 2005.
[32] Cf. BRADBURY, Ray. Farenheit 451. São Paulo: Globo, 2009.
[33] Cf. NUNBERG, Geoffrey (Org.). El futuro del libro. Barcelona e Buenos Aires: Paidós,
1998. CARRIÈRE, Jean-Claude; ECO, Umberto. Não contem com o fim do livro. Rio de
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[34] Relativa à produção literária em meio digital, cf. TAVARES, Otávio Guimarães.
Elementos (do Amor): breve leitura de alguns elementos da obra digital Amor de Clarice. In:
RIBEIRO, Ana Elisa; VILLELA, Ana Maria Nápoles; COURA SOBRINHO, Jerônimo; SILVA,
Rogério Barbosa da. Leitura e escrita em movimento. São Paulo: Peirópolis, 2010.
[35] ASSIS, Machado de. 29 de julho de 1888. In: ___. Bons dias! Crônicas (1888-1889).
Edição, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Hucitec; Editora da Unicamp, 1990.
p. 101-102.
[36] Cf. Disponível em: . Acesso em: 30 de jul. de 2012.
[37] Movimento e som ausentes da reprodução aqui exibida, já que a página de papel
imobiliza em figuras estáticas o que, na tela, altera-se a todo momento. Outras questões
ligadas à leitura em meio digital podem ser conferidas em ALMEIDA, Gustavo Martins de.
Lendo o leitor ou quem está lendo quem? Disponível em:
. Acesso em: 14 de
julho de 2014. E em PINSKY, Luciana. Do papel ao digital. Como as novas tecnologias
desafiam a função do editor de livros de história. São Paulo: Universidade de São Paulo,
2013 (dissertação de mestrado).
[38] Cf. resultados da pesquisa promovida pelos Instituto Pró-Livro, Retratos da leitura no
Brasil. Disponível em: .Acesso em: 24 de abr. de 2012. E MORAES, André Carlos. Entre livros e e-books: a
apropriação de textos eletrônicos por estudantes ingressados na Universidade Federal do
Rio Grande do Sul em 2011. Porto Alegre: Programa de Pós-Graduação em Comunicação e
Informação, 2012.
[39] Observa Gustavo Mello: “a expectativa é de que os livros digitais ainda vão demorar a
configurar uma parcela significativa do mercado brasileiro.” (MELLO, Gustavo. Desafios
para o setor editorial brasileiro de livros na era digital. Economia da Cultura. BNDES Setorial
36, p. 450. Disponível em: . Acesso em: 21 de mai. de 2014.
[40] Cf. Disponível em: . Acesso em: 2
de ago. de 2012.
[41] Cf. Disponível em:
.
Acesso em: 2 de ago. de 2012.
[42] Cf. Disponível em:
.
Acesso em: 2 de ago. de 2012.
[43] Cf. Disponível em:
. Acesso
em: 2 de ago. de 2012.
[44] Cf. Disponível em:
. Acesso
em: 02 de ago. de 2012.
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http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados/versao+do+poema+piscar+
[45] Cf. o refrão, bastante conhecido: “Quand il me prend dans ses bras Il me parle tout bas,
Je vois la vie en rose. Il me dit des mots d'amour, Des mots de tous les jours, / Et ça me fait
quelque chose.” [“Quando ele me toma em seus braços / Ele me fala em tom baixo, Vejo a
vida em rosa. Ele me diz palavras de amor, Palavras de todos os dias, E isso me provoca
alguma coisa.”]
[46] Cf. BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1978.
[47] Relativamente à narrativa de Angela Lago. Disponível em . Acesso em: 2 de ago. de 2012, v. NASCIMENTO, José
Augusto. Literatura infantil e cultura hipermidiática. Relações sócio-históricas entre suportes
textuais, leitura e literatura. São Paulo: Programa de Estudos Comparados de Literaturas de
Língua Portuguesa, 2009 (dissertação de mestrado).
[48] Relativamente ao transletramento (transliteracy), a saber, “a habilidade de ler, escrever
e interagir através várias plataformas, ferramentas e mídias desde a língua de sinais e da
oralidade por meio de manuscritos, impressos, TV, rádio e filme, até redes sociais digitais”,
cf. THOMAS, Sue; JOSEPH, Chris; LACCETTI, Jess; MASON, Bruce; MILLS, Simon;
PERRIL, Simon; PULLINGER, Kate. Tranliteracy: Crossing divides. In: First Monday. V. 12,
n. 12. 3 Dezembro de 2007. Disponível em:
. Acesso em: 03 de jan. de
2014.
[49] VELOSO, Caetano. Livros. Disponível em:
. Acesso em: 14 de jul. de 2014.
Warner Chappell Edições Musicais Ltda. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.
[50] Cf. CAPPARELLI, Sérgio; GRUSZYNSKI, Ana Cláudia. Poesia visual. 3. ed. São Paulo:
Global, 2002.
[51] CAPPARELLI, Sérgio. 33 ciberpoemas e uma fábula virtual. Ilustr. Marilda Castanha.
Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 18.
[52] Id. p. 25.
[53] Id. p. 48.
[54] Id. p. 8.
[55] Id. p. 9.
[56] Id. p. 13.
[57] Cf. Disponível em:
. Acesso em: 28 de
ago. de 2012.
[58] ANTUNES, Arnaldo. Uma coisa de cada vez. Disponível em:
. Acesso em: 7 de jun. de 2015. Warner Chappell Edições
Musicais Ltda. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.
[59] MENDES, Murilo. Convergência. São Paulo: Duas Cidades, 1970. Disponível em:
. Acesso
em: 03 de jan. de 2014. © by herdeiros de Murilo Mendes.
[60] RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 17. ed. São Paulo: Martins, 1972. p. 61.
http://www.angela-lago.com.br/Chapeuzinho.html
http://www.letrasdemusicas.com.br/caetano-veloso/livros/
http://www.leocunha.jex.com.br/livro+a+livro/perdido+no+ciberespaco
[61] Em suas primeiras edições, a pesquisa intitulava-se Diagnóstico do setor editorial
brasileiro.
[62] Disponível em: .
Acesso em: 23 de jun. de 2014.
[63] Disponível em: .
Acesso em: 23 de jun. de 2014.
[64] Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. de 2014.
[65] Disponível em: .
Acesso em: 23 de jun. de 2014
[66] Disponível em: .
Acesso em: 23 de jun. de 2014.
[67]67 Os quadros II, III, IV e V foram organizados a partir de dados recollhidos na pesquisa
O comportamento do setor editorial brasileiro, de anos diversos (FIPE, CBL, SNEL).
Reultados para os vários anos, disponíveis em: . Acesso em: 30 de
ago. de 2016.
[68] Disponível em: . Acesso
em: 30 de nov. de 2012.
[69] Disponível em: Acesso em: 23 de jun. de 2014.
[70] LOBATO, Monteiro. Histórias das invenções. In: ___. Serões de dona Benta e História
das invenções. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1956. p. 287.
[71] Cf. THOMPSON, John B. Mercadores de cultura. O mercado editorial do século XXI.
Trad. Alzira Allegro, São Paulo: Editora UNESP, 2013.
[72] GARCIA, Pedro Benjamim; DAUSTER, Tania (Org.). Teia de autores. Belo Horizonte,
Autêntica. 2000. p. 84.
[73] Cf. Disponível em: . Acesso em: 03
de jan. de 2014.
[74] Lista anual de livros considerados notáveis por especialistas reunidos pela International
Youth Library de Munique, Alemanha.
[75] Prêmio Internacional conferido pelo governo sueco.
[76] Pompéia, Raul. O Ateneu. In: ___. Obras. Organização e notas de Afrânio Coutinho. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira; Oficina Literária Afrânio Coutinho; Brasília: FENAME,
1981. V. 2, p. 32-33.
[77] Cf. LAJOLO, Marisa. Usos e abusos da literatura na escola. Porto Alegre: Globo, 1982.
[78] Reg. n. 172, 1974. Cópia manuscrito. Divisão de manuscritos, Biblioteca Nacional. A
ortografia foi atualizada.
[79] Edital 01/2014 CGPLI. Disponível em: . Acesso em: 24 de jun. de 2014.
[80] Disponível em: . Acesso
em 02 de jan. de 2014.
http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco
http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco
http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco
http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi2004/Brasilemfoco
http://www.snel.org.br/
http://www.snel.org.br/dados-do-setor/producao-e-vendas-do-setor-editorial-brasileiro/
http://www.editorabiruta.com.br/catalogo-completo
http://www.atica.com.br/SitePages/Obra.aspx?cdObra=2707
[81] Disponível em: . Acesso
em: 02 de jan. de 2014.
[82] Esses pareceres estão parcialmente reescritoscom a finalidade de não se identificarem
autores e obras a que se referem.
[83] Cf. INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da leitura no Brasil. Disponível em:
. Acesso em: 23 de abr.
de 2012.
[84] Disponível em: . Acesso em: 09 de set. de 2014.
[85] Disponível em: . Acesso em: 01 jul. de 2014.
[86] Cf. LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitura rarefeita. Livro e literatura no
Brasil.São Paulo: Ática, 2002. LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura
no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
[87] Cf. ABREU, Marcia. Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado de Letras; ALB; São
Paulo: FAPESP, 2003. ABREU, Marcia (Org.). Trajetórias do romance: circulação, leitura e
escrita nos séculos XVIII e XIX. Campinas: Mercado de Letras, 2008. ABREU, Marcia;
BRAGANÇA, Aníbal (Org.). O impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros. São
Paulo: Editora da UNESP, 2010.
[88] Disponível em: . Acesso
em: 16 jun. 2010
[89] Disponível em: . Acesso em:
4 de dez. de 2012.
[90] Cf. Disponível em: . Acesso em: 25 de nov. de 2012.
[91] Cf. TOZZI, Juliana Bernardes. Livro infantil no Brasil (2007-2008): marcas em
circulação, catálogos de divulgação e infâncias anunciadas. Campinas: Faculdade de
Educação, UNICAMP, 2011 (dissertação de mestrado). V. também TOZZI, Juliana
Bernardes. Uma aproximação às ideias de infância que acompanham catálogos editoriais de
livros para leitores em formação. In: LINS, Heloísa Andreia de Matos. Leitores na
contramão. Campinas: Leitura Crítica, 2012.
[92] RÉGIO, José. Cântigo negro. Disponível em:
 Acesso em: 10 de set. de 2016.
[93] MATTOSO, Glauco. Jornal dobrabil. São Paulo: s. e., 1981.
[94] Cf. Xuxa em o mistério de Feiurinha, de 2009, dirigido por Tizuka Yamazaki.
[95] MACHADO, Ana Maria. Procura-se lobo. São Paulo: Ática, 2005. p. 7.
[96] BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O menino que vendia palavras. 2. ed. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2007.
[97] Cf. AZEVEDO, Ricardo. Um homem no sótão. São Paulo: Melhoramentos, 1982.
[98] Cf. REYNOLDS, Kimberley. Radical Children’s Literature. Future Visions and Aesthetic
Transformations in Juvenile Fiction. New York: Palgrave Macmillan, 2010 [2007].
http://www.atica.com.br/Sitepages/Obra.aspx?cdObra=2842
http://www.atribunanews.com.br/artigos/quem-disse-que-brasileiro-nao-le-karine-pansa
http://www.reporternews.com.br/noticia.php?cod=368586
http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp
[99] LEITE, Sebastião Uchoa. O que a tartaruga disse a Lewis Carroll. In: CARROLL, Lewis.
Aventuras de Alice. Trad. e organização de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Summus;
Rio de Janeiro: Fontana, 1977. p. 7.
[100] DIAS, Gonçalves. Canto do piaga. In: Poesia completa e prosa escolhida. Rio de
Janeiro: José Aguilar, 1959. p. 106.
[101] NÓBREGA, Antonio. Chegança. Disponível em: . Acesso em: 02 jul. de 2014.
[102] ZOTZ, Werner. Apenas um curumim. 6. ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982. p. 26.
[103] Disponível em: . Acesso em: 03 de
jan. de 2014.
[104] Disponível em: . Acesso
em: 03 de jan. de 2014.
[105] Disponível em: . Acesso em: 03 de jan. de 2014.
[106] Disponível em: . Acesso em: 03
de jan. de 2014.
[107] Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual. Nossa missão. In: Pequeno
catálogo literário de obras de autores indígenas. S. l: NEFRAN (Núcleo de Escritores e
Artistas Indígenas do INBRAPI), s. d. p. 4.
[108] São algumas de suas obras: História de índio (1996); As serpentes que roubavam a
noite e outros mitos (2001); O segredo da chuva (2003); O sinal do pajé (2003); Contos
indígenas brasileiros (2004); Caçadores de aventuras (2006); Catando piolhos (2006); O
homem que roubava horas (2007); O olho do bom menino (2007); Uma aventura na
Amazônia (2007); Karú Tarú: o pequeno pajé (2009).
[109] MUNDURUKU, Daniel. Coisas de onça. São Paulo: Mercuryo Novo Tempo, 2011. p. 5.
[110] Id. p. 23.
[111] MAXACALI. O livro que conta histórias de antigamente. Belo Horizonte: MEC/SEE-MG;
Projeto Nordeste / PNUD, 1998.
[112] Gilberto Maxacali, Gilmar Maxacali, Ismail Maxacali, João Bidê Maxacali, José
Maxacali, Joviel Maxacali, Pinheiro Maxacali e Rafael Maxacali são os autores. João Bidê
Maxacali, José Maxacali e Rafael Maxacali são os tradutores.
[113] MAXACALI. Op. cit. p. 10.
[114] Id. p. 11.
[115] História da água. In: O livro que conta histórias de antigamente. Trad. Rafael Maxacali.
Brasília: MEC/SEE-MG; Projeto Nordeste / PNUD, 1998. p. 79.
[116] TORAL, André Amaral; PAULA, Eunice Dias de; PAULA, Luiz Gouvêa (Coord.).
Xanetawa parageta. Histórias das nossas aldeias. Comunidade Tapirape. São Paulo: MARI;
Brasília: MEC/SEF, 1996. p. 35.
[117] Gruber, Jussara Gomes (Org). O livro das árvores. Benjamin Constant: Organização
Geral dos Professores Ticuna; São Paulo: Global, 1999. p. 14.
[118] Id. p. 23.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm
[119] Munduruku, Daniel. As serpentes que roubaram a noite e outros mitos. Il. das crianças
Munduruku da aldeia Katô. São Paulo: Peirópolis, 2001. p. 19
[120] São suas obras: Arandu Ymanguare – Sabedoria antiga (2003); Iarandu – O cão
falante (2003); Verá – O contador de histórias (1997); O saci verdadeiro (2003); Xerekó
Arandu – A morte de Kretã (2003); A ajuda do saci (2007).
[121] Jekupé, Olívio. Verá o contador de histórias. Il. das crianças guarani. São Paulo:
Peirópolis, 2003. p. 28
[122] Id. p. 8.
[123] São obras suas: Yaguarê Puratig, o remo sagrado (2001); O caçador de histórias
(2004); Murugawa (2007); Sehaypóri – O livro sagrado do povo Satere Mawe (2007);
Curumi Guaré no coração da Amazônia (2007).
[124] O texto relativo a Yaguarê Yamã retoma passagens da apresentação que Marisa
Lajolo faz do escritor no Gran diccionario de autores latinoamericanos de literatura infantil e
juvenil. Cf. PADRINO, Jaime Garcia (Org.). Gran diccionario de autores latinoamericanos de
literatura infantil e juvenil. Madri: Fundacción SM, 2010. p. 929.
[125] Yamã, Yaguarê. Sehaypóri: o livro sagrado do povo Saterê-Mawé Yaguarê Yamã. São
Paulo: Peirópolis, 2007. p. 92.
[126] Cf. VIDAL, Lux (Org.). Grafismo indígena. Ensaios de Antropologia Estética. São
Paulo: Studio Nobel; EDUSP; FAPESP, 1992.
[127] Toquinho; MORAES, Vinícius de. Aquarela. Disponível em:
. Acesso em: 03 de out. de 2014. ©
Universal Music Publishing Group.
[128] REYNOLDS, Kimberley. Op. cit. p. 39.
[129] FURNARI, Eva. Cacoete. São Paulo: Ática, 2005. p. 6.
[130] Id. p. 31.
[131] Id. p. 32.
[132] FURNARI, Eva. Cacoete/ Eva Furnari; ilustrações da autora. 2. ed. São Paulo:
Moderna, 2016. (Série Pimpolhos). p. 28.
[133] VENTURELLI, Paulo; LOPES, Odilon. Maçãs argentinas. Curitiba: Positivo, 2013.
[134] CAULOS. O segredo de Magritte. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
[135] GULLAR, Ferreira. Bichos do lixo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. p. 3.
[136] Id. p. 24.
[137] SOUZA, Angela Leite de. Entre linhas. Belo Horizonte: Lê, 2013. p. 33.
[138] Cf. BRENMAN, Ilan; MORICONI, Renato. Telefone sem fio. São Paulo: Companhia
das Letrinhas, 2010.
[139] Cf. MELLO, Roger. Nau catarineta. Rio de Janeiro: Manati, 2004.
[140] Cf. MELLO, Roger. Zubair e os labirintos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2007.
[141] Raphael Draccon fala sobre seu novo livro e projetos futuros.Disponível em:
. Acesso em: 11 de jun. de 2015.
[142] Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013. V. também
. Acesso em: 26 de dez. de 2013.
[143] Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de
2013.
[144] Disponível em: . Acesso em: 26 de dez. de 2013.
[145] CLARCKE, Arthur C. Profiles of the future. Apud Eisenstein, Elizabeth. Divine art,
infernal machine. The reception of printing in the West from first impressions to the sense of
an ending. Filadélfia: Oxford: University of Pennsylvania Press, 2011. p. 248.
[146] Formam a trilogia: Northern lights (The golden compass, na versão norte-americana),
1995; The subtle knife, 1997; The amber spyglass, 2000. Na tradução brasileira os títulos
que compõem a trilogia, todos de 2010, são: A bússola de ouro, A faca sutil e A luneta
âmbar.
[147] DRACCON, Raphael. Dragões de éter. 5. reimpressão. São Paulo: Leya, 2010. p. 81.
[148] Id. p. 23.
[149] Id. p. 28.
[150] TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor. São Paulo: Companhia das Letras,
2010. p. 192.
[151] Cf. SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2008.
[152] VIEIRA, Bruna. Depois dos quinze: quanto tudo começou a mudar. 3. ed. Belo
Horizonte, Gutenberg, 2013. p. 32.
[153] Id. p. 32.
[154] Id. ibid.
[155] Cf. LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
[156] TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor. São Paulo: Companhia das Letras,
2010. p. 156.
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	Capa
	Folha de rosto
	Créditos
	Prefácio
	Citação
	Abrindo o livro
	Literatura infantil e juvenil para além do livro
	1. Pode haver “livro depois do livro”?
	2. “Que coisa é o livro?”
	3. E a literatura?
	4. Novas fronteiras
	5. Autores de leitores on-line
	5.1 Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski
	5.2 Leo Cunha
	5.3 Angela Lago
	6. Entre as antigas fronteiras
	7. “Tudo ao mesmo tempo agora”
	O peso dos números e das instituições
	1. O mercado editorial
	2. A profissionalização dos agentes da cadeia do livro
	3. A interferência da escola e o papel do estado
	Novos territórios de criação para crianças e jovens
	1. Livros de histórias sobre histórias
	2. Um novo indianismo
	3. Presença do não verbal
	Pode haver livro e leitura para além da escola?
	1. Uma ficção para lá de fantástica
	2. Herança e transformação da liberação feminina
	Fechando o livro
	Referênciasdo corpo, do
olhar e da audição. A visão foi desviada para as letras, quando se
disseminou o emprego da escrita. A criação do códice, abrigando e
reunindo em volumes de feitio retangular um conjunto de
manuscritos registrados em pergaminho, reduziu as tarefas da voz e
obscureceu as funções do corpo.
No agora longínquo século I d. C. aparecia o livro no formato que
conhecemos até hoje. Sua ampla difusão, no entanto, só se
viabilizou a partir da invenção da prensa mecânica, ocorrida em
meados do século XV. Com Johannes Gutenberg (c. 1398-1468),
estabilizaram-se várias práticas que percorriam caminhos paralelos:
a leitura silenciosa, [18] a cópia artesanal de manuscritos, a
organização dos estudos laicos, em então recentemente fundadas
universidades europeias.
Do códice romano ao livro moderno, poucas mudanças se
registraram.
Pelo menos até poucos anos.
Talvez tenham sido poetas os mais sensíveis na percepção de
sinais de mudanças no horizonte do mundo letrado. E, pressentindo
os sinais, tematizaram a instabilidade do suporte da escrita e da
leitura.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), nos versos dedicados
“A José Olympio”, [19] já em 1955 pergunta-se:
Que coisa é o livro? Que contém na sua frágil arquitetura
transparente?
São palavras, apenas, ou é a nua exposição de uma alma
confidente?
De que lenho brotou? Que nobre instinto da prensa fez surgir esta
obra de arte.
Que vive junto a nós, sente o que sinto e vai clareando o mundo em
toda a parte? [20]
Para o poeta, o livro “brotou” de um “lenho”, metonímia que o
relaciona ao mundo vegetal, fornecedor de uma das matérias-primas
responsáveis pela produção do papel, configurando-o enquanto um
organismo vivo para além de sua aparente objetualidade. Mais
adiante, o poema menciona o processo industrial da fabricação do
livro, em paralelo com sua dimensão emocional e intelectual: a
“prensa fez surgir essa obra de arte que vive junto a nós, sente o que
eu sinto e vai clareando o mundo em toda a parte”.
Enquanto suporte privilegiado da escrita, o papel é também tema
de versos de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), em “O poema”,
de O engenheiro, de 1945:
O papel nem sempre
é branco como
a primeira manhã.
É muitas vezes
o pardo e pobre
papel de embrulho;
É de outras vezes
de carta aérea,
leve de nuvem.
Mas é no papel,
no branco asséptico,
que o verso rebenta.
Como um ser vivo
pode brotar
de um chão mineral? [21]
A menção a distintas espécies de papel – de embrulho e de carta –
abre espaço para a celebração de sua vocação maior: constituir
suporte da poesia. Com isso, o poeta substitui a assertividade das
quatro primeiras estrofes pela interrogação com a qual entrelaça a
metáfora da poesia enquanto elemento orgânico ao mundo
inorgânico do chão mineral, assinatura maior do poeta de A
educação pela pedra.
Em “Para a Feira do Livro” (Educação pela pedra, 1966), João
Cabral retoma a relação entre o livro, a folha, sua origem vegetal e o
registro da escrita, cujo enlace é celebrado por meio da sonoridade
dos versos em que sons fricativos se sucedem:
Folheada, a folha de um livro retoma o lânguido vegetal de folha
folha, e um livro se folheia ou se desfolha como sob o vento a árvore
que o doa; folheada, a folha de um livro repete fricativas e labiais de
ventos antigos, e nada finge vento em folha de árvore melhor do que
o vento em folha de livro. [22]
Com tudo isso, no entanto, permanece a pergunta do primeiro
verso do poema de Drummond, que em 1955 indagava a si e a seus
leitores: “Que coisa é o livro?”
De lá para cá, no mais de meio século de distância dos versos
com que o poeta mineiro celebrava o editor José Olympio, os
atributos até então identificados como característicos do livro
parecem já não bastar para defini-lo. Não é mais possível falar do
livro com segurança, já que novas tecnologias impuseram outros
formatos e materiais, novos modos de produção e de circulação,
distintas maneiras de leitura, restaurando em muitos casos as
relações entre comunicação, corpo, voz, olhar e gesto.
Uma questão se apresenta: que consequências a pluralidade de
suportes pode trazer para a literatura?
 
3. E a literatura?
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.
João Cabral de Melo Neto [23]
Como se disse antes, a era do livro fomentou a literatura.
A expressão literatura [originária do latim (littera = letra)],
encampou o que, até então, era denominado poesia, favorecendo a
prática da leitura silenciosa em detrimento do som e da voz.
Assim como a poesia que, conforme ensina a Poética, de
Aristóteles (384-322 a. C.), desde o século IV a. C. subdividiu-se em
gêneros diferentes, também a noção de literatura passou a recobrir
grande variedade de gêneros. A – digamos – natureza literáriade
certos textos é postulada reconhecida avaliada por um grupo
específico – críticos e acadêmicos – a quem se avocou a missão de
estabelecer, alterar e legislar a respeito da identidade e do valor dos
escritos que almeja(va)m o status de arte.
A emergência da modernidade, processo que se estende do
século XVI ao XVIII, deu origem a novos gêneros, ampliando o
número de formas narrativas (o conto, a novela, o romance
constituindo os tipos básicos), e definindo-os por distintos critérios:
ora por seus consumidores (literatura infantil e juvenil, literatura de
massa), ora por seus temas (literatura policial, literatura fantástica),
ora pelas formas de relatar (memórias, autobiografia), ora por sua
aplicação (literatura escolar, didática, paradidática), e outras vezes
por seu emprego (dicionários, enciclopédias, receitas
culinárias).Mas, não obstante a permanência da chamada literatura
oral, um fator unificava os gêneros mais tradicionais: o formato livro,
que garantia certa uniformidade ao universo do impresso, embora se
tratasse de uma unidade precária, precariedade bem visível na
materialidade do objeto (dimensões, capas, matérias-primas etc.).
No âmbito da literatura infantil e juvenil, amplia-se e expressa-se
de distintas maneiras essa parceria antiga entre a escrita, o impresso
e o livro, ao mesmo tempo em que nela também se manifesta
hibridismo de linguagens. Com efeito, desde suas manifestações
iniciais, ainda no século XVIII, obras destinadas a crianças eram
acompanhadas de ilustrações, ultrapassando assim o âmbito do
escrito, de que a literatura é a principal fiadora.
Essa parceria foi enunciada, há mais de um século, pelos versos
de uma autora paulista, que, desde o título de seu poema, registra,
em presuntivo diálogo com seus leitores, a pluralidade de linguagens
que, cada vez mais, se fazem presentes em livros para crianças e
jovens:
LIVRO BONITO
- P’ra mim, livro bonito
É aquele que tem figuras,
P’ra você não é, Carlito?
- P’ra mim é o que tem doçuras, E nossas almas retrata
E da terra as formosuras!
Mas a mim também é grata
Uma gravura risonha,
Com vermelho, azul e prata...
Perto d’água uma cegonha,
E nos verdores da mata,
Um passarinho que sonha... [24]
Com a emergência e expansão das histórias em quadrinhos, ao
final do século XIX, e, depois, com sua plena difusão no Brasil a
partir da segunda metade do século XX, a imagem passou a ser tão
ou mais relevante que o texto, impondo sua presença nos gêneros
com os quais compartilhava o público. E como o maior número de
seus consumidores situava-se na faixa etária definida como infantil e
juvenil (e, mais contemporaneamente, jovens adultos), a literatura
dirigida a esse segmento de mercado incorporou a linguagem visual,
cedendo espaço crescente à matéria figurativa.
A nova parceria de linguagens – a verbal, escrita e a visual – não
se fez, nem se faz, sem custos. Implicou aumento das despesas de
produção, exigindo a remuneração de vários criadores e técnicos,
assalariados e empresários. E também implicou a eventual
necessidade de uma nova concepção de autoria, bem como de sua
legitimação e valoração no campo intelectual e estético.
Historicamente, parece ter sido a ilustração o primeiro elemento a
desafiar o privilégio da escrita, rompendo a soberaniada linguagem
verbal, ao incluir em cenários de leitura elementos de natureza
gráfica e pictórica.
Com efeito, desde muito cedo, na Europa e também no Brasil, o
gênero infantil circulou em livros que acoplavam visuale verbal. Vem
desta aliança a denominação álbum, que nomeava a produção de
Père Castor, coleção fundada por Paul Faucher (1898-1967) na
França da década de 1930, [25] e os “livros de figuras”, mencionados
por Manuel Bandeira (1886-1968), ao relembrar suas memórias de
leitura:
Procuro me lembrar de outras impressões poéticas da primeira infância e
eis que me acodem os primeiros livros de imagens: João Felpudo,
Simplício olha para o ar, Viagem à roda do mundo numa casquinha de
noz. Sobretudo este último teve influência muito forte em mim; por ele
adquiri a noção de haver uma realidade mais bela, diferente da realidade
quotidiana, e a página do macaco tirando cocos para os meninos
despertou o meu primeiro desejo de evasão. No fundo, já era Pasárgada
que se prenunciava. [26]
Sintoma do reconhecimento progressivo e contemporâneo da
importância desta parceria verbo-visual são as transformações
ocorridas nas categorias de distribuição de prêmios literários a livros
para crianças e jovens.
O principal deles, a medalha Hans Christian Andersen, desde 1956
concedida a cada dois anos pelo International Board on Books for
Young People (IBBY), destinava-se, originalmente, apenas a
escritores. A partir de 1966, o prêmio passou a ser atribuído também
a ilustradores. Processo similar ocorreu no Brasil: a Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) criou, em 1974, o prêmio
“O Melhor para Criança”, outorgado a um escritor; a partir de 1981,
incluiu, entre os prêmios que distribui anualmente, a categoria
“Imagem”, destinada a ilustradores. Da sua parte, o prêmio Jabuti,
conferido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), inclui atualmente os
quesitos capa, projeto gráfico e ilustração, distinguindo dos demais,
neste último ponto, livros voltados para crianças e jovens.
Mesmo sem mencionar livros mais contemporâneos, dirigidos a
crianças muito pequenas, que exploram texturas e cheiros, constata-
se que a plurimidialidade se faz presente há muito tempo na
literatura para crianças e jovens, não constituindo, pois, uma
novidade de nosso tempo, ainda que contemporaneamente ela se
manifeste em grau mais intenso.
Livros para crianças podem, inclusive, prescindir do texto escrito,
como evidenciam Ida e volta (1976), de Juarez Machado, ou Cena
de rua (1994), de Angela Lago. Podem igualmente abrir mão do
papel, apresentando-se como livros de pano ou de plástico, ou ainda
como livro brinquedo, conceito limítrofe, pois talvez já não pertença à
esfera do literário, mas à do lúdico.
Ao lado da plurimidialidade, o livro de literatura infantil e juvenil,
mais do que outros gêneros, constitui, muitas vezes, resultado de
produção coletiva, somando no mínimo um escritor, um ilustrador e
um editor, o que traz para seu âmbito a intersubjetividade, pois a
qualidade do produto final decorre da integração, adequada e
eficiente, entre os vários sujeitos que participam de sua realização.
Neste contexto de livros compostos por amálgamas de linguagens,
até onde chegam as novas fronteiras que delimitam livros e literatura
de seus outros?
4. Novas fronteiras
Andam no dia cibernético
As tar
ta
ru
gas eletrônicas.
Eu robô?
Ledo Ivo [27]
Eu quero entrar na rede pra contactar Os lares do Nepal, os bares do
Gabão Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular Que lá na
praça Onze tem um videopôquer para se jogar Gilberto Gil [28]
O dado novo, na cena contemporânea é a literatura infantil (mas
talvez não apenas ela...) prescindir do livro.
Experiências pioneiras de uma literatura sem livro foram, por
exemplo, os discos gravados por Braguinha (1907-2006), compositor
e carnavalesco que, entre 1965 e 1980, musicou vários contos de
fadas tradicionais. Os pequenos discos de vinil colorido, no entanto,
não sobreviveram isolados, e seu sucessor, o CD, passou a
acompanhar os livros para crianças, via de regra encartado neles.
Tratava-se de complemento do livro, não de seu substituto.
Foram a expansão e a popularização da internet que fizeram
diferença, possibilitando ruptura radical entre literatura e livro.
Constituída por um conglomerado de redes de comunicação, a
internet opera de modo interligado no que se denomina ciberespaço,
ambiente de existência virtual disponibilizado pela tecnologia. Por
meio de aplicativos baixados em equipamento eletrônico, torna-se
possível o intercâmbio de mensagens representadas por texto
escrito, gráficos, vídeos, imagens, animações, sons e música. Sites e
blogs, em número infinito, ao lado das redes sociais – Facebook,
Linkedin, Twitter, Instagram, entre as (hoje, 2015) mais populares –
colocam em relevo não apenas novos formatos de comunicação,
mas a possibilidade de interação entre sujeitos, grupos,
comunidades e projetos.
Incluem-se, entre as interações viabilizadas, intercâmbios
inovadores entre autores e leitores...
O processo de comunicação digital, operando com múltiplas
plataformas, impõe novas sensibilidades e formas de percepção,
facilitando a associação entre texto e imagem. Inclui também a
possibilidade de articulação entre texto, movimento, som e a terceira
dimensão. Neste cenário digital, emergem, assim, alternativas de
criação, sendo que, no âmbito da produção literária, uma notável
contribuição, até agora experimentada com sucesso, é representada
pelo hipertexto, que materializa de forma radical os procedimentos
de construção do intertexto.
Intertexto, noção presente nos estudos literários a partir de 1966,
quando Julia Kristeva difundiu a expressão intertextualidade, [29] é a
possibilidade de as manifestações da escrita se apropriarem de
textos anteriores, em processo permanente de citação e
reelaboração. Bastante presente no mundo da literatura impressa, o
intertexto, para fazer sentido, supõe a memória, por parte dos
leitores, da matéria verbal que cita. Já o hipertexto – de formato
digital – prescinde da memória, já que, por meio de links, remete de
imediato de um produto escrito a outro. [30] Linkstambém podem
ampliar e completar o texto em que ocorrem.
O hipertexto favorece ainda leitura não sequencial e não linear.
Mais do que o texto impresso em papel, o hipertexto permite ao
leitor-internauta percorrer caminhos próprios de leitura, na medida
em que cabe a ele, através dos links que escolhe, eleger os atalhos
e interagir. Como interatividade e simultaneidade pertencem de
antemão à natureza da comunicação digital, compete ao hipertexto
acentuá-las e aprofundá-las, levando seu usuário a mergulhar no
universo virtual do ciberespaço.
Quando ao hipertextoassociam-se imagem, animação e som,
entramos no universo da hipermídia. Com tais possibilidades, o
hipertexto abre campos até então inexplorados de criação,
favorecendo o aparecimento de novos gêneros literários, como, por
exemplo, a fanfiction que consiste na apropriação (in)devida de obras
alheias, redigindo novos relatos a partir dos originais.
Concebida como reescrita continuação retomada de obras alheias,
a fanfiction não é propriamente invenção dos tempos da internet.
Talvez se possa alinhar, entre seus precursores remotos, Alonso
Fernández de Avellaneda (pseudônimo não identificado), o autor do
falso Dom Quixote, publicado em 1614, que dava continuidade às
aventuras do fidalgo espanhol narradas por Miguel de Cervantes
(1547-1616) em publicação de 1605.
Foi, no entanto, com a explosão da cultura de massa que o gênero
tomou corpo, sendo que sua propagação deveu-se efetivamente às
possibilidades oferecidas pela internet. Graças à interatividade,
histórias protagonizadas por personagens de grande popularidade,
oriundas da literatura, de histórias em quadrinhos ou de seriados da
televisão, podem envolver-se em novas aventuras, propostas e
disponibilizadas no ciberespaço por fãs dos originais. [31]
No universo do ciberespaço, a produção e a circulação de textos –
os hipertextos – são extremamentefacilitadas. Espaços como blogs,
sites e redes sociais acolhem hipertextos ao lado de textos à moda
antiga, como notícias, receitas de cozinha, autoajuda, narrativas e
confissões, e ainda gêneros canônicos, como poemas e crônicas. No
ciberespaço, o livro pode aparecer sob um formato específico – o do
e-book –, mas não fica restrito a esse, já que incorpora obras
tradicionais digitalizadas por meio de softwares adequados.
Provavelmente, o ciberespaço veio para ficar. E o que ele
representa de novo é às vezes assustador. A dimensão distópica da
tecnologia foi tema de inúmeras obras.
Projeções relativas ao futuro da sociedade humana imaginadas
antes da emergência e expansão do universo digital incluem os
efeitos deste na humanidade. Distopias como Admirável mundo novo
(1932), de Aldous Huxley (1894-1963), 1984 (1949), de George
Orwell (1903-1950), e Farenheit 451 (1953), de Ray Bradbury (1920-
2012), obras vizinhas do final da Segunda Guerra (1939-1945),
quando se evidenciou que a vitória pendeu para as nações que
melhor lidaram com o mundo da informação, antecipam a
importância de máquinas na vida cotidiana.
A expansão da cultura cibernética e das ferramentas eletrônicas
determinou, por sua vez, discussões sobre modos e riscos de
controle social por mecanismos como computadores.
Filmes como 2001 – Uma odisseia no espaço, de 1968, do
cineasta Stanley Kubrick (1928-1999), sugerem a hipótese de as
máquinas tornarem-se autossuficientes, passando a gerenciar a vida
dos seres humanos. Por sua vez, o totalitarismo exercido pela
tecnologia mostra-se vinculado ao enfraquecimento e mesmo
desaparecimento da cultura considerada elevada: em Farenheit 451,
o grupo social, dominado por um estado centralizador e despótico,
abre mão da fantasia, de que a literatura é expressão, e do livro, seu
suporte convencional. A posse de obras impressas é crime, punível
com a destruição delas, por uma brigada de bombeiros, que queima
livros, objetos tidos por subversivos. [32]
O título Farenheit 451 alude à temperatura necessária para a
queima do papel. A data de sua publicação, próxima dos poemas
brasileiros antes comentados, antecipa a questão tão
contemporânea: a criação e difusão de textos em meio digital
encerrará a era do livro? Acabará igualmente com a literatura, uma
vez que, como se observou, sua existência coincide com a era do
livro?
Têm, assim, longa e respeitável genealogia os debates que opõem
livro impresso e livro digital. [33] Também se discute amiúde a
permanência da literatura, destacando-se sobretudo a observação de
que a natureza do texto literário não sofreu alterações – sejam
ganhos ou perdas – ao migrar (ou deixar de migrar) para o formato
digital. Tal ponto pode ser controverso no âmbito da literatura não
infantil, [34] porém, no caso dos livros para crianças e adolescentes,
esses se beneficiam da familiaridade maior de gerações mais jovens
com o mundo da cibercultura, o que faz com que talvez o gênero
infantil possa oferecer algumas lições à sua irmã mais velha, a
literatura que não se dirige especificamente a crianças e jovens.
Será? E se for? Quais e como são algumas das primeiras obras
brasileiras a desafiar as fronteiras do livro e da literatura?
5. Autores de leitores on-line
Os leitores pensam com razão que são apenas filhos de Deus,
pessoas, indivíduos, meus irmãos (nas prédicas), almas (nas
estatísticas), membros (nas sociedades), praças (no exército), e
nada mais. Pois são ainda uma certa coisa, – uma coisa nova,
metafórica, original.
Machado de Assis [35]
5.1 Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski
Exemplos de produção brasileira recente sugerem eficiente
ocupação das novas fronteiras, provindo um deles do endereço
www.ciberpoesia.com.br, de autoria de Sérgio Capparelli e Ana
Cláudia Gruszynski. [36]
Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski
Figura 3
A tela de abertura (Figura 3), como a página de rosto de um livro,
identifica o conteúdo (ciber & poemas,no canto superior esquerdo) e
a autoria (Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski, no canto
superior direito). Na sequência, informa os procedimentos (“cliques
nos ícones”) necessários à interação do leitor, aqui tratado como
http://www.ciberpoesia.com.br/
internautaexperiente. Ao longo da navegação, o leitor-internauta não
apenas lêpoemas, mas é convidado a compor seus próprios versos.
O primeiro ícone tem a forma de um computador de mesa, e o
segundo – que leva às poesias visuais – representa um olho,
sublinhando as características imagéticas dos textos exibidos.
Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski
Figura 4
A figura 4 reproduz um dos poemas visuais: os versos de Sérgio
Capparelli inscrevem-se sobre pintura de Vincent Van Gogh (1853-
1890), copiada em variações de cinza. Os versos distribuem-se por
linhas assimétricas e descontínuas, simulando visualmente os
caminhos que os sapatos, tema do quadro, podem ter percorrido. Por
sua vez, naquilo que corresponderia a uma segunda estrofe, há um
diálogo do sujeito poético com o autor da pintura, sugerindo agora
uma interação entre o escritor e o pintor, de que participa o leitor, na
medida em que ele pode conferir movimento às figuras
disponibilizadas na tela.
Um terceiro ícone, na tela de abertura (Figura 3), propõe outro
percurso de navegação: ao lado da imagem de lombadas de livros, o
usuário é convidado a visitar “outros sites e ideias de ciberpoesia”, o
que favorece a familiaridade de seus internautas com produções
literárias pioneiras na utilização de recursos digitais para a criação
artística. Ao convidar a conhecer “a poesia como um jogo dentro e
fora da sala de aula”, o siteextrapola o âmbito estritamente escolar.
Como ocorre a grande parte das home pages, as possibilidades de
navegação neste site são inúmeras. De uma parte, elas
acompanham a proposta criativa dos autores dos ciberpoemas, de
outra, colocam seu trabalho em perspectiva, ao se integrar a
produtos resultantes de outros projetos on-line. O
www.ciberpoesia.com.br (disponível em setembro de 2014) assume
a dimensão própria de ambientes digitais multimídia, ao lidar
simultaneamente com texto, imagem, animação e som, [37] além de
proceder a apropriações intertextuais e figurativas, como a pintura de
Van Gogh.
Enquanto proposta, o produto digital de 2000, que é hiper /
intermidiático, mostra-se mais arrojado do que a obra impressa a que
remete, lançada naquele mesmo ano. Por outro lado, o produto
impresso pode ser comercializado e remunerado, retorno financeiro
que não ocorre (ainda) à maioria dos sites brasileiros dedicados à
literatura, cujo acesso é livre e gratuito, embora sua realização incida
em custos com os quais precisam arcar seus proponentes. Não
tendo rentabilidade, não inspira investimentos altos, o que talvez
reduza as possibilidades de sua produção.
Vale a pena debruçar-se sobre algumas questões: a
disponibilização gratuita de sites remete a livros e autores enquanto
marketing do produto impresso? O problema se resolveria com o
lançamento de e-books, produto tão comercializável quanto o livro de
papel? Pesquisas recentes, porém, têm revelado que ainda é
incipiente o acesso às obras literárias via internet [38] e rarefeita a
http://www.ciberpoesia.com.br/
difusão, e consequente aquisição, de versões digitais de livros de
autores brasileiros. [39]
A resposta a essas questões certamente levará em conta ganhos
e perdas: ganhos são literalmente os lucros a auferir pelos
empresários e a remuneração a ser alcançada por autores,
ilustradores, programadores, editores, revisores, enfim, os
profissionais envolvidos no processo de produção de sites e e-book.
As perdas relacionam-se à redução das oportunidades de
improvisação colocadas ao alcance do leitor-internauta. De todo
modo, alargam-se as possibilidades de criação, circulação e acesso
aos bens literários, sendo essas provavelmente as maiores
vantagens, ao alcance de todos os usuários.
5.2 Leo Cunha
Também exemplar em relação ao emprego de recursos digitais na
produção de literatura infantil é a home page de Leo Cunha.O autor disponibiliza em
http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados [40] quatro
poemas, datados de 20 de agosto de 2011, que se apresentam em
permanente movimento.
Jesus Clips dispensa a linguagem verbal, utilizada apenas no título
do poema, acessível na página do poeta. O texto vale-se da imagem
de clipes, pequenos objetos de arame ou plástico, utilizados,
usualmente, para prender folhas de papel.
Na tela, vários clipes unidos formam a cruz em que Jesus Cristo foi
sacrificado. O substantivo comum clips substitui o nome próprio
Cristo, facultando o trocadilho, que também remete a significados
mais contemporâneos do vocábulo, no universo da comunicação e
da informação: os clips de notícias e os videoclipes. [41] Por outro
lado, uma interpretação metalinguística pode ser igualmente
acrescentada: no mundo em que o papel vem sendo substituído pela
tela, o clipe não deixa de, da sua parte, também ser sacrificado,
como o Cristo na cruz.
Gol de letra é outra produção de Leo Cunha extremamente
inventiva.
Nela predominam as cores verde e amarelo, alusão explícita ao
apego nacional ao futebol. A composição vale-se da visualidade dos
grafemas, ao transformar o “G”, que aparece deitado na imagem
proposta, em uma baliza, com suas traves, por onde passa a bola,
chutada pelo craque. [42]
Em outro poema, Água, Leo Cunha vai um pouco mais longe.
O título remete ao conteúdo do poema, que se constitui de uma
sequência de palavras relacionadas a água: torneira, cascata,
cachoeira e catarata, dispostas em diagonal na tela. As palavras
mimetizam quedas d’água, avançando da mais simples à mais
volumosa, efeito construído pelo diferente tamanho das fontes
http://www.leocunha.jex.com.br/poemas+animados
gráficas, que aumentam à medida que os vocábulos remetem a
volumes de água cada vez maiores, de “torneira” a “catarata”.
Preserva-se ainda o recurso a rimas (torneira/cachoeira;
cascata/catarata), tradicional em poemas impressos, embora sua
realização maior ocorra na oralidade [43]. No mesmo sentido de
sonorização, trabalha a repetição alternada de oclusivas, sibilantes e
vibrantes.
A figura 5 mostra o momento final do processo:
Leo Cunha
Figura 5
Um último poema do sitede Leo Cunha compõe-se aparentemente
de uma única frase: “A poesia se faz num piscar/pescar de olhos”. A
alternância entre as palavras “piscar/pescar” fragmenta o período em
duas orações que se substituem uma à outra pelo revezamento das
vogais, que se dá por intermédio de movimento que simula a ação de
piscar que o poema menciona. [44]
Na alternância dos verbos que compõem o verso de onze sílabas,
a rima entre as palavras que comutam pode ainda sugerir ações que
remetem respectivamente ao poeta e ao leitor-internauta. Qualquer
das duas interpretações sugere tanto o trabalho de seleção que
preside à produção literária (“pescar”), quanto a volatilidade da tela e
o caráter visual do poema em meio eletrônico (“piscar”).
5.3 Angela Lago
O site www.angela-lago.com.br/Chapeuzinho.html hospeda
proposta bastante criativa inspirada na clássica personagem de
Chapeuzinho Vermelho, conhecida pelo público infantil desde a
publicação das Histórias do tempo passado com moralidades, ou
Contos da mamãe gansa (1697), de Charles Perrault (1628-1703).
Em razão da extrema popularidade da personagem e de sua
trajetória, a narrativa digital pode prescindir da reprodução do texto,
invocando já na tela de abertura elementos principais do enredo. A
história inaugura-se com a protagonista cantarolando La vie en rose
(1946), de Edith Piaf (1915-1963) e Louis Gugliemi (1916-1991).
A escolha da canção pode produzir interessantes efeitos de
sentido.
Trata-se, em primeiro lugar, de uma canção de temática adulta e
de letra em francês, o que talvez limite o público capaz de lera
inter/hipertextualidade da proposta. Estabelece-se ainda a
associação entre a cor vermelha da indumentária da personagem e o
título da melodia. Mas o fato de a letra da canção manifestar
evidente conteúdo erótico [45] ratifica interpretações dadas ao conto
de Perrault, entendido como um ritual de iniciação à vida amorosa.
[46]
É, pois, de modo figurativo que, nas telas do sitede Angela Lago,
se desdobra a trama. Esta se desenvolve desde o momento em que
a menina deixa sua casa, para visitar a avó, e a mãe a adverte dos
perigos que poderá encontrar no caminho, até o final, quando o lobo
é punido. A transcrição visual poderia não se mostrar original, se a
narrativa se restringisse à repetição do enredo de antemão
conhecido através de diferentes mídias como livros, cinema, teatro,
televisão, quadrinhos e mesmo outros sites.
Contudo, no trabalho de Angela Lago, o enredo sofre alterações
profundas.
A narrativa digital não confere ao caçador papel de herói. Pelo
contrário: embora multiplicado em várias figuras masculinas
http://www.angela-lago.com.br/Chapeuzinho.html
absolutamente iguais e portando todas uma espingarda ao ombro,
nenhuma delas ajuda Chapeuzinho. Temerosos face ao lobo,
seguem direção contrária à da protagonista, como se vê na figura 6.
Angela Lago
Figura 6
Tal reversão de expectativas acrescenta um perfil feminista à
intriga, reiterando o protagonismo da menina.
A essa mudança radical de foco, somam-se procedimentos que
multiplicam o andamento da trama. Recursos digitais permitem que,
a cada trecho da narrativa, o usuário faça opções que conduzem a
ação a distintos desdobramentos.
Na figura 7, Chapeuzinho está diante de uma encruzilhada: a seta
reta, de cor verde, aponta uma direção positiva, pois, se escolhida, a
garota se depara com o lobo, a quem põe a correr, atacando-o com a
cesta de comidas; a seta em ziguezague, cuja sinuosidade a
assemelha uma serpente (podendo evocar, para alguns leitores, a
figura da serpente que tentou Eva no Jardim do Éden), conduz a
personagem ao trajeto do perigo, distraindo-a e permitindo ao lobo
chegar antes dela à casa da avó.
Angela Lago
Figura 7
Esse procedimento repete-se ao longo da narrativa, facultando a
eleição de percursos próprios, a partir de múltiplos roteiros, que
reproduzem, no plano figurativo, as virtualidades do hipertexto no
âmbito verbal.
Outro elemento bastante inventivo presente no enredo proposto
por Angela Lago é o livro impresso, a que recorrem as personagens
quando não sabem como se conduzir ou a que levarão suas
escolhas. A figura 8 ilustra a passagem.
Angela Lago
Figura 8
A presença do livro, no corpo de uma obra da qual a linguagem
verbal está excluída, é significativa: parece sugerir e encenar o
diálogo de dois modos contemporâneos de existência da literatura.
Atesta, além disso, a anterioridade da expressão verbal sobre a
digital, explicitando um percurso histórico de que esta versão on-line
de Chapeuzinho Vermelho é herdeira e tributária. Trata-se de uma
inserção metalinguística – inter/hipertextual e dialógica – que
enriquece o produto final e aponta para a importância do permanente
trânsito entre os suportes de que a literatura se vale. [47]
O desenvolvimento e difusão da informática parece ter encontrado
na literatura infantil e juvenil – particularmente na fatia infantil do
gênero –campo extremamente favorável à expansão da
inventividade de seus criadores. Como a iniciação dos internautas à
navegação hipertextual dá-se desde cedo, porque absorveram o
“transletramento”, [48] supõe-se que a informática continuará, nos
próximos anos, oferecendo à literatura sugestões originais para a
produção artística, com resultados a serem observados inclusive no
âmbito da cultura mais tradicional do livro.
E como se faz presente, no universo do papel e tinta, a cultura de
telas, teclados e links?
6. Entre as antigas fronteiras
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa E a cidade não tinha livraria Mas
os livros que em nossa vida entraram São como a radiação de um
corpo negro Apontando pra a expansão do Universo Porque a frase,
o conceito, o enredo, o verso (E, sem dúvida, sobretudo o verso) É o
que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada Sem saberque a ventura e a
desventura Dessa estrada que vai do nada ao nada São livros e o
luar contra a cultura.
Caetano Veloso [49]
Como se vem observando, a introdução das novas tecnologias
eletrônicas afeta a produção e a circulação da literatura. Não é,
entretanto, apenas nesses novos suportes que a cultura digital se faz
presente. Ela também invade o universo do livro, ao propor temas,
ideias e procedimentos artísticos singulares.
Um exemplo pode ser encontrado em Poesia visual, livro a que
remete o endereço www.ciberpoesia.com.br, já mencionado. A obra
impressa constitui-se de poemas em que se mesclam elementos
textuais e figurativos, como o reproduzido na figura 9, que tanto
aparece no site, como também faz parte do volume assinado por
Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski.
Observe-se que, se o salto é constituído por um desenho, a
gáspea é formada por versos dirigidos à menina Carolina, em um
cenário poético em que uma adolescente, cruzando uma praça
florida, atrai o olhar do sujeito lírico, que confessa a ela seu
sentimento amoroso. Os versos, embora mantendo o recurso à
linguagem verbal, dispõem o escrito de maneira a conferir a ele
também uma dimensão visual, de desenho. O mesmo poema
mostra-se espelhado na página impressa (Figura 10), de modo que
se apresenta um par de sapatos, mas as palavras, agora invertidas e
http://www.ciberpoesia.com.br/
expostas em fonte menor, tornam-se menos visíveis e, pela mesma
razão, mais intimistas. [50]
Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski
Figura 9
Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski
Figura 10
Na página 11 do livro, outro poema, mesclando texto, imagem e
cor, evidencia como recursos distintos podem compor uma obra
literária e intensificar seus significados (Figura 11).
Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski
Figura 11
Em livro, contudo, essas obras perdem o movimento e a
interatividade, efeitos que a linguagem digital propicia. Impressos, os
poemas contam com a materialidade do papel, o que acarreta a
presença física mais concreta e imobilizada, não ultrapassando,
porém, a bidimensionalidade e linearidade.
Também resulta da interação entre produção literária e criação
digital o livro de Sérgio Capparelli 33 ciberpoemas e uma fábula
virtual que, embora circule em volume impresso, evoca, desde seu
título, o mundo digital.
No livro, elementos do mundo digital tornam-se matéria literária,
oferecendo-se sob a forma de metáforas, temas e ideias. Ações
como clicar, conectar, digitar ou imprimir aparecem nos versos de
Quando, que também se vale do vocabulário da programação
eletrônica e da formatação de textos para expressar o tema
amoroso: Quando você me clica,
quando você me conecta, me liga, quando entra nos meus
programas, nas minhas janelas, quando você me acende, me printa,
me encompassa, me sublinha, me funde e me tria: Meus caracteres
esvoaçam,
meus parágrafos se acendem,
meus capítulos se reagrupam, meus títulos se põem maiúsculos, e
meu coração troveja! [51]
É também o mundo eletrônico que comparece ao poema
Compatível:
O CD-Rom
formata o fim do dia
entoando a Ave Maria
de Schubert. [52]
Por sua vez, um dos poemas inova a representação da figura
familiar da avóque, desde as coleções dirigidas às crianças,
lançadas pela Livraria Quaresma, até a Biblioteca Infantil, da editora
Melhoramentos, passando pela Poesias infantis (1904), de Olavo
Bilac (1865-1918), protagoniza poemas e narrativas para leitores
mirins:
Se alguém seguir a luz, bem sei, vai logo descobrir vovó
(tarde na noite,
cedo na cidade)
com os pássaros dos dedos pousando nas teclas, a tricotar um xale
luminoso
de 200MB de memória RAM. [53]
Unidades de informação armazenáveis ou transmitidas na
computação e de quantificação da memória virtual aparecem na
condição de metáfora da energia existencial em Bits: Vem, amor,
mata essa minha fome de
chips,
de vips, de bits
e de bytes.
Mata essa minha fome
de ais. [54]
São as instâncias de comunicação, como a mais popular delas, o
e-mail ou correio eletrônico, que frequentam com assiduidade os
textos literários que extraem sugestões do universo cibernético. Em
Mensagem, Sérgio Capparelli não apenas menciona o recurso, como
se vale dele para o trocadilho provocado pela semelhança fônica
entre ‘e-mail’ e ‘meio’:
Envio mensagens
pelo e-mail
e me respondes inteira:
interativa
super ativa
superativa [55]
Mensagens perdidas, por sua vez, reflete sobre os limites da
comunicação:
Tenho pena dessas mensagens que se perdem pelo caminho
e nunca chegam ao destino.
Por causa de um engano
por causa de um comando
malsucedido. [56]
Também Leo Cunha, cuja obra, como vimos, transita com
desenvoltura no ciberespaço, aproveita, em Perdido no ciberespaço
(2007), sugestões conceituais do mundo digital para expressar
sentimento de perda e separação, tema clássico da poesia que, no
caso de suas estrofes, e por meio da invocação de São Longuinho,
articula-se com a menção a práticas e crenças populares:
Veja o meu drama, amigo, ou amiga, estou perdido na Internet,
fui fisgado pela rede,
não encontro a saída.
Maldita hora em que inventei de navegar por esses lados.
Qualquer coisa deu errado,
de uma hora pra outra tudo ficou escuro, tudo ficou estranho,
já não sei meu paradeiro!
Abre-te, página! Abre-te, Sésamo!
Valha-me, São Longuinho!
Eu já dei meus três pulinhos, mas não consigo me achar! [57]
Da mesma forma que o e-mail, também blogsinspiram a
formatação de obras literárias que aparecem no suporte livro.
Novamente, nesse caso, a literatura se apropria de um procedimento
da cultura virtual, incorporando-a no universo do impresso, como faz
Luís Dill, em Todos contra D@nte, de 2008.
O assunto da narrativa é o bullying praticado contra o Dante do
título, aluno de uma escola de elite que não é aceito pelos colegas,
por pertencer a uma classe média emergente e residir em zona
suburbana da cidade, provavelmente Porto Alegre, a se julgar pelas
indicações do texto e as expressões linguísticas empregadas pelas
personagens. O assédio, brutal, acaba resultando na morte do
garoto, e o enredo se concentra nos eventos posteriores à ação dos
quatro adolescentes agressores que buscam escapar à punição,
escondendo-se por trás do anonimato e da falta de testemunhas.
A exposição da trama faz-se por meio de três tipos de discurso
que ocupam as páginas ímpares do livro.
Os diálogos, transcritos em 21 passagens, reproduzem as trocas
de informações, por telefone (geralmente celular) ou pessoalmente,
entre os agressores (a menina Manu e os garotos Cauã, Davi e
James) e colegas de turma. Os diálogos são introduzidos por uma
curta oração do narrador, que identifica os falantes; seguem-se
conversas nas quais os agressores planejam como se proteger
mutuamente.
O segundo tipo de discurso reproduz as manifestações ofensivas e
corrosivas dos membros da Comunidade Eu sacaneio o Dante
(criada à época em que o Orkut era a rede social em evidência),
composta por vários alunos, que rechaçam jovens provenientes de
segmentos sociais mais humildes por meio do aviltamento de sua
figura física, família e caráter.
O terceiro discurso, em primeira pessoa, é emitido pelo
protagonista, que cria um blog em que dialoga imaginariamente com
seu xará, o poeta florentino Dante Alighieri (1265-1321), autor de A
divina comédia, obra clássica do Renascimento italiano, escrita no
século XIV e impressa no século XV. O blog tem teor eminentemente
confessional, permitindo ao garoto falar dos problemas na escola, a
paixão por Geovana, que considera a sua Beatriz, e da situação
familiar. Esta caracteriza-se pela ausência do pai, o trabalho da mãe,
que almeja ver o filho bem sucedido nos estudos, e pelo apoio
emocional e material manifestado por Ulisses, o irmão mais maduro
e experiente.
A esses três discursos soma-se uma quarta voz, exibida nas
páginas pares, e anunciada por um vínculo, um link disponibilizado
em algum dos outros três discursos. Ele permite o retrospecto dos
acontecimentos, quer este retrospecto se faça pela voz de um
narrador onisciente,por uma citação (como as dos versos de
Alighieri relembrados pelo Dante brasileiro), ou uma explicação, que
esclarece os eventos mencionados nas páginas ímpares.
Como se vê, a estrutura da obra aproveita sugestões do mundo da
comunicação virtual. Comunidades, blogs, links são elementos do
mundo digital, facultando a navegação entre páginas distintas. O
ousado projeto gráfico da obra transforma-os em procedimentos
narrativos e seus consequentes efeitos de sentido. A esses
elementos o autor acrescenta recursos da linguagem literária, como
o intertexto, ao introduzir o poema épico de Dante Alighieri.
Concebendo o poeta de A divina comédia enquanto um dos
fundadores da modernidade, o livro de Luis Dill une as pontas:
valendo-se de recursos da linguagem digital, evoca a imagem do
Inferno, ao modo como a Teologia cristã o concebe, inferno esse que
o protagonista do livro, o menino Dante, vive diuturnamente.
A oposição entre o conteúdo das páginas ímpares e das pares
permite superar, ainda que não inteiramente, a bidimensionalidade
de um livro impresso, uma vez que tenta esboçar a profundidade de
campo que a linguagem digital propicia. Além disso, ao obrigar o
leitor a voltar o olhar da página ímpar para a página par que a
antecede, e não para a que a sucede, a técnica narrativa de Dill
produz relevante modificação nos modos de percepção do texto
impresso, cuja apreensão dá-se, no sistema da escrita ocidental, da
esquerda para a direita. A página 27 reproduz o que conversam – e
na ortografia em que escrevem, ainda que sem os sublinhados em
azul que na tela indicam links – os participantes da Comunidade Eu
Sacaneio o Dante. O leitor do livro é pilotado para retroceder à
página anterior (p. 26). As duas próximas figuras reproduzem ambas
as páginas:
DILL, Luís. Todos contra Dante. Seguinte, 1ª edição, 2008
Figura 12
DILL, Luís. Todos contra Dante. Seguinte, 1ª edição, 2008
Figura 13
E que perspectivas abre essa superposição de fronteiras?
7. “Tudo ao mesmo tempo agora”
Uma coisa de cada vez
Tudo ao mesmo tempo agora
Arnaldo Antunes [58]
As novas ferramentas e linguagens da cultura digital abrem
perspectivas inusitadas para o mundo do livro e da leitura.
Inclusive para a literatura, o que evoca o polêmico disco dos Titãs
de 1991, que repete ininterruptamente a contradição dos versos
“uma coisa de cada vez / tudo ao mesmo tempo agora”.
Ao longo deste capítulo, apontaram-se algumas das parcerias
celebradas entre a cultura do impresso e a cultura digital, no que
respeita às linguagens de que se podem valer a poesia e a prosa
que se pretendem voltadas para leitura literária.
Não é, no entanto, apenas na esfera da criação que os meios
eletrônicos fazem parte do cenário literário contemporâneo. Eles
parecem imprimir alterações profundas e amplas também nos modos
de divulgação de obras e de autores. Os meios digitais podem ser
uma porta que se abre sobretudo no caso de autores ainda não
suficientemente conhecidos ou de gêneros literários (como a poesia),
cuja publicação em livro encontra resistência por parte de editoras de
grande porte.
Escritores notáveis, por sua vez, começam a manter blogs ativos
como forma de se comunicar mais diretamente com seu destinatário
(de que é exemplo o endereço http://paulocoelhoblog.com/), e
inovam de forma instigante a relação com os leitores, quer
adiantando o lançamento de obras, quer testando a reação do
público diante de eventuais mudanças de rumo em suas criações
artísticas.
Nesta nova era que se inaugura para a literatura e para o livro, o
mundo digital ocupa um lugar muito expressivo, metamorfoseando-
se em formas distintas de apresentação, seja amalgamando-se ao
impresso, seja substituindo-o.
Vivemos, efetivamente, um cenário de transição e de
superposição, em um horizonte de muitas questões e poucas
certezas, materializado, de uma parte, em sites, e-readers e e-books,
que reproduzem formas de livros; e, de outra, em livros formatados
com a sintaxe de sites. Com tais traços, a literatura infantil parece
desfrutar de invejável pioneirismo. Do relançamento de Lobato ao
livro de Dill, os resultados que a literatura infantil brasileira vem
atingindo hoje, por um lado, lhe são próprios, mas, por outro, podem
bem servir de exemplo para suas coirmãs do campo criativo com a
palavra e a imagem, a literatura tout court.
O volume da produção de literatura infantil e não infantil reforça ou
enfraquece esta hipótese?
O peso dos números e das instituições
O texto quando escreve
Escreve
Ou foi escrito
Reescrito?
O texto será reescrito
Pelo tipógrafo o leitor o crítico; Pela roda do tempo?
Sofre o operador:
O tipógrafo trunca o texto.
Melhor mandar à oficina
O texto já truncado.
Murilo Mendes [59]
Debruçar-se sobre a produção e a circulação de literatura infantil e
juvenil brasileira das últimas décadas do século XX e das primeiras
do século XXI não se limita à discussão sobre o impacto de novas
linguagens e novas mídiasna cultura literária do livro impresso.
O universo tradicional do livro impresso, particularmente o que se
destina a crianças e jovens, agregou, de forma lenta, porém
irreversível, outros novos e importantes traços. Alguns destes, talvez,
decorrentes de uma marca das últimas décadas: forte tendência à
institucionalização e, a ela relacionada, a marcante presença do
Estado através de políticas de incentivo à produção, circulação e
consumo de obras literárias.
Além de medidas governamentais em âmbito federal, estadual e
municipal, inúmeras instituições de ensino superior, organizações
não governamentais e similares aparelhos da sociedade civil são
agentes bastante ativos no cenário da literatura infantil e juvenil
brasileira de nossa época.
Qual é o Brasil em que tais processos, resultados, efeitos e
perspectivas ocorrem?
1. O mercado editorial
Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do
trabalho.
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa
vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais.
Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João
Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao
Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária
convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do
“Cruzeiro”. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de
agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na
capa.
Paulo Honório [60]
As décadas finais do século XX e as primeiras do século XXI
constituem um tempo particularmente eufórico para o Brasil.
Na esteira de movimentos populares, ação armada, articulações
políticas, em 1985 uma eleição para presidente, ainda que indireta,
põe fim a uma ditadura militar de mais de vinte anos, iniciada com a
deposição, em 1964, do presidente João Goulart (1919-1976). A
posse de um presidente civil, José Sarney, dá-se em 1985.
Uma nova constituição é votada em 1988 e, com ela, o país
prepara-se, mais uma vez, para prosseguir sua lenta, inconclusa
porém sempre teimosamente retomada, caminhada em direção a
uma sociedade mais justa, a uma modernidade mais humana.
A redemocratização, oficializada em 1985, vem acompanhada de
alterações de ordem econômica. A inflação, constante e crescente
nos anos 1980, é controlada a partir de 1994 com o Plano Real, que
rebatiza e estabiliza a moeda nacional.
O Estado brasileiro, por sua vez, passa a guiar-se pela cartilha
neoliberal. A globalização impõe igualmente suas regras, e o Brasil
entra na rota dos mercados capazes de atrair investimentos
estrangeiros. Amplia-se o parque industrial do país, ao mesmo tempo
em que se desenvolve a agroindústria.
Os efeitos sociais desta política fazem-se sentir na primeira
década do século XXI, aumentando a oferta de empregos e
estendendo-a a segmentos sociais até então marginalizados do
mercado de trabalho. Nesse cenário, tem lugar nova explosão
urbana, e a oferta de escolarização alcança faixas mais amplas da
infância e da juventude.
Uma população politicamente mais amadurecida reivindica

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