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DIMENSÕES BIOLÓGICAS E BIOQUÍMICAS DA ATIVIDADE MOTORA João Francisco Barbieri Metabolismo anaeróbico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer os princípios do metabolismo anaeróbico. Descrever o metabolismo bioenergético anaeróbico alático. Explicar o metabolismo bioenergético anaeróbico lático. Introdução É possível distinguir os seres vivos pela maneira que produzem sua energia, alguns deles fazem-na a partir da matéria inorgânica, como plantas e algumas quimiobactérias; já outros, por meio de reações das oxidações de compostos orgânicos, por exemplo, seres humanos. As vias de produção de energia no organismo podem ser divididas com relação aos processos bioquímicos que realizam, e aquelas que não dependem de oxigênio para fazer a oxidação dos compostos orgânicos são conhecidas como vias metabólicas anaeróbicas e formam dois tipos distintos, o metabolismo anaeróbico alático e o lático. Neste capítulo, você estudará como os seres humanos podem pro- duzir energia pela oxidação de compostos orgânicos na ausência de oxigênio, as etapas das vias metabólicas que serão responsáveis pela produção de energia no corpo (trifosfato de adenosina [ATP]), bem como sua relação com a prática de atividades físicas e esporte. Metabolismo energético O corpo humano precisa de uma produção constante de energia para manter suas funções vitais e, para isso, ele apresenta diferentes formas de produção e transformação da energia. A energia potencial contida nas diferentes ligações dos substratos energéticos, como carboidratos, gorduras e proteínas, é liberada em pequenas quantidades devido às diversas reações químicas que sofrem no organismo (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016). Durante o exercício físico, as reações químicas catabólicas que visam o fornecimento de energia serão influenciadas principalmente pela intensidade e duração da atividade. Nessa situação, as vias metabólicas de geração de energia estarão atuando em conjunto para que seja fornecida sua devida quantidade para a tarefa realizada ser cumprida. Existem dois principais mecanismos de transformação de energia — um envolve sua produção na ausência de oxigênio e o outro na presença dele — que são descritos, respectivamente, como metabolismo anaeróbico e aeróbico. O metabolismo aeróbico é caracterizado, sobretudo, pelo supri- mento de grandes demandas de energia por longos períodos de tempo, sendo um processo complexo e envolvendo a atuação de uma organela especial, chamada mitocôndria. Pode-se utilizar diversos exemplos de atividades físicas que exigem sua participação majoritária, mas para se encaixar nessa categoria, é necessário que a prática tenha uma duração longa, de vários minutos ou horas, como uma partida de futebol, uma corrida de rua de 5 km, uma prova de resistência na natação, etc (LÓPEZ CHICHARRO; LÓPEZ MOJARES, 2008). Já o metabolismo anaeróbico é caracterizado principalmente pela produção de energia de forma rápida, com processos menos numerosos e complexos (LÓPEZ CHICHARRO; LÓPEZ MOJARES, 2008). Por exemplo, para a prática de atividades que exigem a participação predominante desse tipo, destacam-se as modalidades de curta duração e alta intensidade, como uma corrida de 100 m, uma prova de velocidade na natação, um levantamento olímpico, entre outras. Os processos metabólicos de geração de energia são numerosos e inte- ressantes, a seguir, você pode ver uma explicação mais detalhada sobre essa produção na ausência de oxigênio. Metabolismo anaeróbico O metabolismo anaeróbico divide-se em dois tipos distintos: lático e alático. Eles apresentam diferenças marcantes entre si, como velocidade de produção de energia, quantidade de energia oferecida ao sistema e estoques presentes no organismo, o que infl uencia diretamente no tempo de atuação desse me- tabolismo durante diferentes atividades. Metabolismo anaeróbico2 Metabolismo anaeróbico alático No metabolismo anaeróbico alático, tem-se duas principais fontes de forne- cimento de energia, o ATP nos tecidos musculares e a fosfocreatina (CP). Por isso, ele também é conhecido como sistema ATP-CP. Trifosfato de adenosina O ATP é a única fonte de energia que consegue ser utilizada diretamente pelo tecido muscular, sendo que todas as vias metabólicas de produção de energia devem ressintetizar essa importante molécula. Ele tem níveis constantes no organismo, mas apenas em condições de atividade física extrema nota-se diminuição em seu conteúdo. Para manter-se, o ATP é constantemente ressin- tetizado por meio de diversas formas, entre elas, a CP (NELSON; COX, 2014). O sistema de ATP, juntamente ao CP, oferece uma fonte de energia rápida e imediata ao corpo humano e pode ser chamado de fosfagênio, atuando no início das atividades, sejam leves, moderadas ou intensas — o que mudará é o tempo de contribuição. Por exemplo, um indivíduo que possua 20 kg de músculo tem energia proveniente do fosfagênio o suficiente para acionar uma caminhada rápida por 1 minuto, ou uma corrida em ritmo moderado por 20 a 30 segundos, ou ainda uma corrida em velocidade máxima de 5 a 8 segundos (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016). A estrutura química do ATP é composta de uma base nitrogenada (ade- nina), um monossacárido de cinco átomos de carbono (ribose) e três grupos de fosfato, conforme apresentado na Figura 1. Figura 1. Estrutura do trifosfato de adenosina. Fonte: Rodwell et al. (2017, p. 115). 3Metabolismo anaeróbico Hidrólise de trifosfato de adenosina intramuscular A conversão imediata de energia química em mecânica é determinada, sobretudo, pela enzima ATPase, localizada na cabeça da miosina, uma das proteínas contráteis do músculo. Ela acopla uma molécula de água (H2O) à molécula de ATP, e esse processo de hidrólise gera como produto o difosfato de adenosina (ADP), o fosfato inorgânico (Pi) e um próton de hidrogênio (H+). Trata-se de um processo exergônico que libera energia após a reação química, aproximadamente 7,3 kcal de energia livre (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016). Diferentemente do que se acredita, a hidrólise de ATP é utilizada em diversos processos celulares, não se restringindo somente à contração mus- cular. Pode-se citar como processos que usam a energia do ATP proveniente da hidrólise: a digestão; o transporte de substâncias entre o meio interno e o externo da célula — processo chamado de transporte ativo, em que existe o gasto de ATP; bem como a transmissão neural (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016). A contração muscular é um fenômeno necessário para o movimento e somente acontece na presença de ATP, utilizado na proteína miosina pela enzima ATPase, que o hidrolisa, gerando como subproduto ADP + Pi e H+. Assim, a atividade física aumentará o gradiente de concentração de ADP, Pi e H+, de maneira proporcional à vigorosidade e frequência da hidrólise de ATP pela ATPase. Já o ADP gerado precisa ser ressintetizado e, para isso, passa por uma reação endergônica para transformar-se novamente em ATP. As reservas de ATP na célula são muito pequenas, sendo que sua utilização se esgota nos primeiros 4 segundos de atividade física intensa. Várias ações da vida cotidiana podem esgotar essas reservas de ATP muscular, como uma corrida rápida para pegar o ônibus, um levantamento de um objeto e em diferentes gestos esportivos, por exemplo, um lançamento de dardo, um ataque no vôlei e um arremesso no basquete (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016). A primeira fonte de ressíntese do ATP é a CP, que transferirá seu grupo fosfato (Pi) rico em energia para recompor uma molécula de ADP + Pi novamente em ATP. Metabolismo anaeróbico4 Vias de restauração do trifosfato de adenosina de forma anaeróbica alática Fosfocreatina Na célula muscular, o ATP é sintetizado pela energia liberada da molécula de CP, formada por um grupo Pi ligado à molécula de creatina. Trata-se de um processo de restauração simples e rápido, pois consiste em uma transferência dogrupo Pi para a molécula de ADP, devido à enzima creatina quinase (CK). Essa reincorporação do grupo Pi no ADP o transforma novamente em uma molécula de ATP que realizará um novo trabalho biológico. Na Figura 2, você pode ver um exemplo de ressíntese de ATP por meio da ação da CP. Figura 2. Exemplo de ressíntese de trifosfato de adenosina por meio da ação da fosfocreatina. Fonte: McArdle, Katch e Katch (2016, p. 271). Na célula muscular, as concentrações de CP são de 3 a 5 vezes maiores que as de ATP, portanto, seu tempo de sustentação da atividade física até o esgotamento também é maior. As reservas desse composto na célula, em sua forma fosforilada, dependem principalmente da intensidade da atividade executada, de modo que as mais intensas demandarão um aporte energético 5Metabolismo anaeróbico maior e, consequentemente, uma queda nos níveis de CP, considerando que essa molécula foi desfosforilada pela ação da CK para ressíntese de ATP. A quantidade de CP está diretamente ligada à taxa de reposição do ATP e é inversamente proporcional a de creatina. O acoplamento do sistema ATP-CP possibilita a diminuição das reservas de CP, mantendo os níveis de ATP constantes na célula muscular (LÓPEZ CHICHARRO; LÓPEZ MOJARES, 2008). Por exemplo, Sahlin et al. (1997) viram que uma única sessão de ciclismo até a exaustão foi capaz de depletar as reservas de CP em torno de 40%, quando avaliada a fibra muscular logo após o treino; porém, depois de cinco minutos de repouso, seus estoques já haviam voltado aos níveis normais. A literatura relata outros fatores que podem influenciar os níveis de CP no organismo, como o volume de massa muscular (sua maior quantidade implica em maior quantidade de CP), o tipo de fibra muscular (as fibras do tipo 2 apresentam até 12% mais CP que as do tipo I), o regime de treinamento (o de potência é mais efetivo para o aumento) e a suplementação com creatina (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016; SNOW; MURPHY, 2003). O sistema ATP-CP é um dos principais utilizados nos gestos ou nas ações motoras de curta duração e elevada intensidade. Por exemplo, no esporte, existem diferentes gestos técnicos ou provas que precisam ser rápidas e explosivas, como um sprint de 100 metros no atletismo ou uma prova de natação de 50 metros, ambos possuem tempo de duração inferior a 30 segundos. Os esportes apresentam diferentes demandas energéticas, entre elas, há a contribui- ção dos metabolismos quanto à sua participação, predominante ou determinante. A primeira oferece maior quantidade de energia para que a tarefa seja cumprida, já a segunda está atrelada ao metabolismo envolvido no gesto motor que será decisivo para a pontuação da modalidade. Nos esportes coletivos, a duração das partidas pode chegar a horas, o que torna o fornecimento de energia pelo metabolismo aeróbico predominante, por exemplo, as modalidades de lutas com vários rounds, nas quais, embora de longa duração, os golpes rápidos e explosivos decidem a disputa, sendo o metabolismo anaeróbico, nesse caso, determinante para o resultado. Metabolismo anaeróbico6 A suplementação de creatina, juntamente ao exercício, promove o aumento da concen- tração de CP no músculo, e sugere-se que ela aconteça localmente, somente os músculos envolvidos no exercício apresentam aumento, não se estendendo ao corpo todo. Para esse fenômeno, há mecanismos que vão além do fluxo sanguíneo aumentado para a musculatura em exercício. Postula-se que a creatina entra nas células por meio de proteínas carreadoras específicas nas membranas das células musculares, sendo que o treinamento propicia o aumento e transporte delas para dentro do músculo (SNOW; MURPHY, 2003). A oferta de energia por meio dos sistemas de fosfagênio é limitada, sendo que, para atividades de maior duração, outras fontes serão usadas. Já o me- tabolismo dos nutrientes oferece a maior parte da energia para o organismo para as mais diversas situações. Acompanhe, a seguir, como a glicose pode contribuir com essa oferta na ausência de oxigênio. Vias de restauração do trifosfato de adenosina de forma anaeróbica lática Glicólise anaeróbica Após a digestão de carboidratos, estes são absorvidos, sobretudo, como mo- nossacáridos e transformados em moléculas de glicose, levando-as à corrente sanguínea e armazenando-as em forma de glicogênio no fígado e nos músculos. A glicose é um dos principais substratos energéticos do corpo, bem como o único que permite a produção de energia na presença e na ausência de oxigênio. A síntese de ATP por meio da utilização de carboidratos na ausência de oxigênio chama-se fermentação, um dos processos mais antigos de aquisição de energia. No ser humano, as vias anaeróbicas são muito importantes para a prática de atividades físicas, sendo a metabólica a que mais fornece energia em atividades de alta intensidade mantidas por aproximadamente 120 segundos (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016). A glicose é o monossacárido mais abundante na natureza, amplamente utilizado como fonte de energia por diversos seres vivos e feito, principalmente, por plantas durante a fotossíntese, processo em que gás carbono e H2O são transformados nesse composto. Veja a fórmula estrutural da glicose na Figura 3. 7Metabolismo anaeróbico Figura 3. Fórmula estrutural da glicose. Fonte: Atkins e Jones (2012, p. 781). Os níveis sanguíneos de glicose são controlados, principalmente, por fatores hormonais, e entre os hormônios que têm ação no seu controle, destacam-se os pancreáticos insulina e glucagon. A insulina é produzida pelas células beta-pancreáticas, sendo considerada um dos principais hormônios anabólicos do corpo. Sua principal função se trata de estimular a captação da glicose sanguínea por essas células para que seja estocada ou utilizada como fonte de energia (NELSON; COX, 2014). Já o glucagon é produzido pelas células alfa-pancreáticas e considerado um dos principais hormônios catabólicos do corpo. Ele atua no aumento de glicose na corrente sanguínea, diretamente sobre as reservas de glicogênio hepático, e promove a glicogenólise (quebra do glicogênio). O aumento das concentrações sanguíneas de glicose tem como finalidade fornecer substrato energético para o exercício ou as situações de jejum, em que seus níveis são mais baixos (NELSON; COX, 2014). Após a glicose passar pela membrana celular, ela pode ser utilizada como fonte de energia, sendo que os primeiros processos de degradação ocorrem no citoplasma (parte gelatinosa da célula), fora da mitocôndria. As reações que ela sofrer no citoplasma são comumente chamadas de glicólise anaeróbica. Metabolismo anaeróbico8 Fases da glicólise anaeróbica O metabolismo da glicose envolve 10 etapas, nas quais ela é reduzida em piruvato; este, por sua vez, em condições específi cas, também na ausência de oxigênio, sofre uma fase adicional, reduzindo-se ao lactato. Veja a seguir as duas fases do metabolismo da glicose no citoplasma: investimento e pagamento. Na fase de investimento de energia, durante suas primeiras cinco reações, é necessário investir energia (ATP) para que elas aconteçam, sendo que são investidas duas moléculas de ATP, deixando duas de ADP livres na célula. Nessas reações, há um acompanhamento de cinco enzimas, sendo utilizada uma enzima para cada reação. Primeira reação: a participação da primeira molécula de ATP e da enzima hexoquinase forma a molécula glicose 6-fosfato como produto dessa reação. Na maioria dos tecidos, ela aprisiona a glicose dentro da célula. Segunda reação: a enzima glicose-6-fosfato isomerase acelera a reação transformando esta em frutose-6-fosfato. Terceira reação: a molécula de glicose ganha um grupo de fosfato ao usar a segunda molécula de ATP da etapa de investimento. Nessa reação, há ainda a enzima fosfofrutoquinase (PFK), transformando a frutose-6-fosfato em frutose-1,6-difosfato, apresentando dois fosfatos, um no carbono 1 e outro no carbono 6. Regulação da glicólise pela PFK Os mecanismosque regulam a preferência do músculo por utilizar glicose ou ácidos graxos como fonte de energia não foram completamente estabelecidos, porém, os estudos já mostram que a demanda energética do músculo é um fator importante na escolha do substrato usado, sendo que maiores demandas energéticas exercem uma inibição na oxidação de ácidos graxos e aumentam a da glicose. Já em situações contrárias, as demandas menores de energia, como o repouso ou as atividades de menor intensidade, inibem a oxidação de glicose, aumentando a dos ácidos graxos — essa preferência ocorre pela regulação da enzima PFK. Sabe-se que o aumento de citrato, um dos subprodutos do metabolismo do ciclo de ácido cítrico, juntamente aos elevados níveis de ATP, inibe a atividade da enzima PFK, 9Metabolismo anaeróbico Quarta reação: a frutose-1,6-difosfato é dividida em duas moléculas com três carbonos cada sob a ação da enzima aldolase, sendo esta a quarta enzima da reação. Seus subprodutos são as moléculas 3-fosfo- gliceraldeido e fosfato de di-hidroxiacetona. Quinta reação: a molécula de três carbonos di-hidroxiacetona sofre ação da quinta enzima da reação, a tiosefosfato-isomerase, e se converte na segunda molécula de 3-fosfogliceraldeido (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016; NELSON; COX, 2014). Devido à ação da aldolase, molécula inicial de glicose, que possui seis car- bonos e é clivada em duas moléculas de três carbonos, esta etapa do processo dá o nome a via glicólise, a qual significa quebra da glicose. Até a quinta reação da glicólise, tem-se a fase de investimento, em que dois ATP foram gastos, um na primeira reação e outro na terceira. Já as outras cinco reações se dedicam à produção de energia adicional. O glicogênio pode participar da produção de energia por meio da reação fosfolí- tica, catalisada pela enzima glicogênio-fosforilase, as quais catalisam um processo que agrega um fosfato na extremidade de uma molécula de glicose oriunda do glicogênio muscular, transformando-a em glicose-1-fosfato — essa molécula será transformada pela enzima fosfoglicomutase em glicose-6-fosfato. O processo de produção de glicose-6-fosfato, por meio da quebra de glicogênio, não gasta um ATP, como o processo de transformação de glicose a glicose-6-fosfato. Sendo assim, a glicólise pelo glicogênio terá um saldo final de três ATP, em vez de dois ATP, como ocorre na glicólise das moléculas de glicose (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016; NELSON; COX, 2014). Veja na Figura 4 a degradação do glicogênio pela enzima glicogênio-fosforilase. interrompendo a glicólise, pois esses metabólitos, em grande quantidade, indicam que a demanda de energia é menor que a quantidade produzida. A PFK tem sido bastante estudada por sua relação com o metabolismo da glicose, sendo que seu aumento está associado à maior atividade glicolítica, como acontece nas fibras do tipo 2, que apresentam maiores quantidades dessa enzima (McARDLE; KATCH; KATCH, 2016; SILVEIRA et al., 2011). Metabolismo anaeróbico10 Figura 4. Degradação do gligogênio intracelular pela glicogênio-fosforilase. Fonte: Nelson e Cox (2014, p. 561). Na fase de pagamento de produção de energia (ATP), durante as últimas cinco reações da glicólise, as duas moléculas remanescentes são oxidadas para essa produção. Nessas etapas, inicia-se a influência da coenzima nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD), que é a forma ativa da vitamina B3 e se apresenta em dois estados diferentes de oxidação: na forma oxidada de nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD+) e na forma reduzida de nicotinamida adenina dinucleotídeo (NADH). Obtém-se a NADH pela redução do NAD+ com dois elétrons e aceitação de um próton (H+). Sexta reação: duas moléculas de 3-fosfogliceraldeído se transformam em 1,3-bifosfoglicerato, e uma coenzima de NAD+ é oxidada para cada uma das moléculas de carbono, tendo como resultado duas coenzimas NADH. Essas enzimas reduzidas têm importante papel na ressíntese de ATP na cadeia de transporte de elétrons, dentro da mitocôndria. Todo esse processo ocorre na presença da sexta enzima envolvida gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase. 11Metabolismo anaeróbico Sétima reação: a primeira ressíntese direta de ATP ocorre, em que dois ADP são fosforilados dando origem a dois novos ATP. Nesse momento, a reação está em equilíbrio com relação à quantidade de energia investida e gerada, com dois ATP investidos e dois gerados. Já a fosfoglicerato-quinase é sua enzima catalizadora e dá origem ao elemento 3-fosfoglicerato. Oitava reação: a enzima participante é a fosfoglicerato-mutase, que transforma duas moléculas de 3-fosfoglicerado em duas moléculas de 2-fosfoglicerato. Nona reação: as duas moléculas de 2-fosfoglicerato sofrem ação da enzima enolase, que resulta da desidratação da 2-fosfoglicerato e criação da fosfoenolpiruvato. Décima reação: a enzima piruvato-quinase participa dessa fase, na qual ocorre a ressíntese de mais duas moléculas de ADP, gerando mais dois ATP. O subproduto da ação da piruvato-quinase sobre as duas moléculas de fosfoenolpiruvato se trata de duas moléculas de piruvato, o produto final da glicólise (NELSON; COX, 2014). Quando se pensa no saldo final energético da via glicolítica anaeróbica, considera-se as quantidades de ATP investido e gerado. Sendo assim, tem-se dois ATP investidos e quatro ATP gerados, com um saldo final de dois ATP (NELSON; COX, 2014). O piruvato pode seguir dois caminhos diferentes, participando do me- tabolismo energético na presença de oxigênio, dentro da mitocôndria, ou sendo reduzido em situações de grande demanda energética e utilizado para regenerar o NAD+. No processo de redução das coenzimas NADH em NAD+, o piruvato torna-se lactato por meio da atuação de mais um processo, mediado pela enzima lactato desidrogenase, no qual a NADH, em seu estado reduzido, não poderia voltar a atuar na via glicolítica, o que a interromperia, assim, a produção de lactato permite que essa via continue a produzir energia. Ao pensar na participação da via glicolítica anaeróbica em atividades físicas, deve-se ter em mente que se trata de uma atividade de alta intensi- dade e curta duração (até 120 s) que tem como consequência a produção de lactato. O lactato produzido no interior da fibra muscular a deixa por meio de proteínas de (acoplamento) membranas específicas, os transportadores de monocarboxilato do tipo 4 (MCT4), os quais funcionam na presença de lactato e íons de (H+), sendo importante para o controle do pH intramuscular, uma vez que retira os íons de H+ e o lactato da célula e os liberam na corrente sanguínea (FROLLINI et al., 2008). Metabolismo anaeróbico12 Por meio do lactato, nota-se importantes informações sobre a utiliza- ção de carboidratos na produção de energia. O produto metabólico é muito utilizado por essa propriedade como marcador da intensidade do exercício, porque a redução de uma molécula de glicose ao lactato acontece em situações de necessidade de suprimento energético. Como transporta-se o lactato de dentro da célula para a corrente sanguínea, ele é facilmente mensurável por meio das coletas de sangue. Hoje em dia, há equipamentos que podem fazer uma leitura precisa desse metabólito com pequenas quantidades de sangue, chamados lactímetros. A concentração de lactato sanguíneo é um importante marcador de estresse da atividade que foi realizada, sendo associada às situações de fadiga e queda de desem- penho. As estratégias que visam a melhora da remoção do lactato são empregadas para aprimorar o desempenho em tarefas repetidas, como uma partida de futebol, em que é necessária a recuperação para o melhor desempenho no segundo tempo. Monedero e Donne (2000) se dedicaram a investigar a melhor estratégia para acelerar a remoção de lactato da corrente sanguínea após uma prova de 5 km e avaliaram quatro estratégias: pausa passiva, em que o ciclista não executa nenhum movimento após o final da prova; pausa ativa, na qual o indivíduo permanece pedalandoa uma intensidade leve após o final da prova; massagem, nos membros inferiores ao final da prova; e método misto, composto de massagem e pausa ativa. Como conclusão, eles encontraram que o método misto foi o melhor para promover a remoção de lactato, e sua justificativa para isso foram algumas hipóteses como a melhora no sistema de tamponamento, maior fluxo do lactato do músculo para o sangue e maior remoção do lactato por tecidos alvo (como fígado, músculo esquelético e coração). Já a pausa ativa se trata do método mais efetivo para aumentar o fluxo sanguíneo para o músculo trabalhado, o que se evidencia pelo maior batimento cardíaco; a massagem, por sua vez, demonstrou aumento no fluxo sanguíneo local, o que potencialmente aumenta a remoção do lactato da musculatura trabalhada para os tecidos-alvos. Os conhecimentos sobre os processos metabólicos são muito úteis para profissionais de educação física envolvidos com exercício ou esporte. Por meio deles, por exemplo, como os metabolismos se comportam em diferen- tes atividades, cria-se treinos melhores e incrementa-se o desempenho ou respostas adaptativas. Neste capítulo, você viu que o processo de metabolismo anaeróbico inclui duas principais vertentes: lático e alático. O metabolismo alático é composto do 13Metabolismo anaeróbico sistema ATP-CP, tendo sua principal contribuição em gestos motores intensos e de curta duração, limitado na sua capacidade de ressíntese de ATP pela CP e com tempo de ação considerado curto, sendo suas fontes depletadas em até 30 segundos. Já o processo de produção de energia de forma anaeróbica lática considera a quebra da glicose para a ressíntese de ATP, com 10 reações distintas responsáveis por transformar a glicose em piruvato, sendo que em condições de grande demanda energética, um processo a mais reduz o piruvato ao lactato, um importante marcador de intensidade para profissionais de educação física. Essa via de metabolismo energético é pronunciada em atividades com duração superior a 30 segundos e inferior a 2 minutos, por exemplo, uma prova de 400 metros de atletismo, ou uma de 100 metros na natação. No canal do Youtube do prof. Leonardo De Lucca, você pode estudar os processos da glicólise anaeróbica e da geração de ATP, bem como os processos bioquímicos envolvidos na oxidação das moléculas de glicose, na ausência do oxigênio, disponível no link a seguir (GLICÓLISE…, 2017): https://goo.gl/ESH7u1 1. O corpo humano é especializado em executar diferentes tarefas, seja as que requerem pouca quantidade de energia ou que exigem esforços máximos. Por exemplo, considere uma pessoa que chegou atrasada no ponto de ônibus e precisa correr 50 metros na maior intensidade que conseguir, essa corrida durará cerca de 10 segundos. Quais reações serão mais utilizadas para gerar energia nessa situação? a) ADP e ATP. b) NAD e NADH. c) ATP e CP. d) Pcr e glicólise. e) Cr e Pi. 2. As reservas de ATP são consideravel- mente baixas, tendo duração apro- ximada de 4 segundos de atividade, por isso, ele deve ser ressintetizado o tempo todo. Além disso, o ATP é, no músculo, hidrolisado pela enzima ATPase, localizada na cabeça da miosina. Quais os subprodutos da hidrólise de ATP? a) ATP + Pi + hidrogênio (H+). b) ADP + Cr. Metabolismo anaeróbico14 c) ADP + 2 Pi + 2 H+. d) ADP + Pi + H+. e) ADP + Pi + Cr. 3. A glicólise anaeróbica é um processo que ocorre na ausência de oxigênio, caracterizado pelo fornecimento rápido de energia, sendo sua via predominante em atividades intensas com duração de até 120 segundos. Assinale o produto final orgânico deri- vado dessa via sob exercício intenso. a) NAD+. b) NADH. c) Lactato. d) Glicogênio. e) Glicose. 4. O processo de glicólise é compre- endido como a quebra da molécula de glicose em moléculas menores, como o piruvato e o lactato. Existe uma passagem durante as 10 reações em que a glicose é clivada, gerando dois substratos de três car- bonos cada, a 3-fosfogliceraldeido e a fosfato de di-hidroxiacetona. Qual o nome da enzima que participa desse processo? a) Aldolase. b) Glicose-6-fosfato isomerase. c) Hexoquinase. d) Fosfofrutoquinase. e) Tiosefosfato-isomerase. 5. A glicólise possui duas fases distintas, uma de investimento, na qual o ATP é investido doando seu grupamento de fosfato, e outra de pagamento, em que se ressintetiza moléculas de ATP. Qual o saldo de moléculas de ATP no final da glicólise de uma molécula de glicose? a) 38 ATP. b) 4 ATP. c) 3 ATP. d) 1 ATP. e) 2 ATP. ATKINS, P. Princípios de química: questionando a vida moderna e o meio ambiente. Porto Alegre: Bookman, 2012. FROLLINI, A. B. et al. Exercício físico e regulação do lactato: papel dos transportadores de monocarboxilato (proteínas MCT). Revista da educação física/UEM, Maringá, v. 19, n. 3, p. 453-463, 3. trim. 2008. Disponível em: . Acesso em: 19 nov. 2018. GLICÓLISE anaeróbia: geração de ATP. Videoaula ministrada por prof. Leonardo De Lucca. [S. l.], 2017. 1 vídeo (17min). Disponível em: . 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