Esta é uma pré-visualização de arquivo. Entre para ver o arquivo original
AULA 1 Profª Karin Willms A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 2 CONVERSA INICIAL A legislação brasileira determina que o Brasil é um Estado laico, então qual a razão de manter no currículo uma disciplina que verse sobre religião? A raça humana, entre todos os demais animais do planeta Terra, é a única que busca respostas para os fenômenos naturais e para sua existência. Também é a única a buscar subsídios que lhe permitam compreender outras dimensões e questões como sentimentos. Dentre essas buscas por explicações, surgem as religiões e os deuses, que têm como objetivo não só sanar as questões relacionadas à origem das coisas e do homem, mas também ao destino da humanidade. Assim, cada pessoa busca por grupos que respondam as suas questões pessoais, e assim as organizações religiosas vão surgindo e se institucionalizando, definindo normas de conduta, de convivência, estabelecendo cultos, ritos etc. Esses grupos organizados passam a vivenciar os preceitos de sua religião, não só em suas reuniões, mas na sua vida cotidiana. Assim, as questões religiosas passam a permear a vida em sociedade e a cultura. TEMA 1 – QUESTÕES GERAIS Segundo Figueiredo, (1995, p.41-51), de atuação que tem como destinatário o sujeito, religioso ou não, que indaga sobre as razões de ser religioso dentro ou fora da religião, a partir de dentro ou de fora do grupo religioso, ou em não ter religião alguma (Figueiredo, 1995, p. 41-51) Ora, a humanidade sempre foi "guiada" por alguns questionamentos como: De onde viemos? Para onde vamos? Por qual razão existimos? Enfim, tais questionamentos deram origem à filosofia, às ciências, e também à religião. Esses questionamentos surgem naturalmente em algum momento da vida. Durante muito tempo, professores de Ensino Religioso acreditaram que era sua responsabilidade sanar essas dúvidas através das aulas de religião, ensinando às crianças as respostas cristãs para essas perguntas. É muito comum, não só nas aulas de Ensino Religioso, mas durante o período letivo em geral, que algumas crianças tragam esses questionamentos. Porém, o professor deve separar o que é sua crença religiosa do que é a sua prática pedagógica. A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 3 Mas, se eu não posso ensinar a religião, porque a disciplina se chama Ensino Religioso? Como vimos na citação de Figueiredo (1995) acima, religioso é um nome relativamente controverso. Religioso, segundo os dicionários de língua portuguesa, é tudo aquilo "que é relativo à religião". Bem, nesse caso podemos dizer que ao trabalharmos o "calendário oficial", abordamos o religioso, pois a sua origem, organização e feriados etc. são cristãs. Ou seja, o que é "religioso" permeia a cultura e a vivência cotidiana mesmo daqueles que não são religiosos ou não professam nenhum tipo de fé. Por que o Ensino Religioso é importante? Tendo em vista os acontecimentos contemporâneos no Brasil e no mundo, as inúmeras notícias de casos de violência por motivações religiosas, e a legislação brasileira, que torna crime a intolerância religiosa, é de extrema importância que as crianças, com base na formação para a cidadania, aprendam a respeitar a diversidade de crenças e de não crenças1. TEMA 2 – MODALIDADES DO ENSINO RELIGIOSO O Ensino Religioso, apesar de seguir as normativas delimitadas pela Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (1996) e, mais recentemente, a Base Nacional Comum Curricular (2018), se apresenta em diferentes modalidades, dependendo da filosofia educacional desenvolvida pela mantenedora. Dentre as modalidades de Ensino Religioso, podemos destacar: 1. Ensino Religioso Aconfessional: não expressa qualquer confissão religiosa, levando em consideração as questões culturais e sociais das religiões, bem como suas influências na história (Cristianismo + Judaísmo + Islamismo + Hinduísmo + Budismo + Zoroastrismo + Espiritismo + Umbanda etc.). 2. Ensino Religioso Interconfessional: expressa os princípios e ensinamentos comuns de organizações religiosas de mesma base ideológica (Cristianismo = Catolicismo, Ortodoxismo e Protestantismo em geral). 3. Ensino Religioso Pluriconfessional: distribui os alunos em salas de aula separadas de acordo com a crença que professam (Sala 1 – Católicos; Sala 2 – Evangélicos; Sala 3 – Espíritas etc.). 4. Ensino Religioso Confessional: visa fornecer aos alunos o ensino religioso de acordo com uma religião específica (Católica; ou Adventista; ou Batista; 1 Assista ao vídeo indicado na seção Saiba mais. A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 4 ou Espírita etc.). Assim, as escolas públicas e privadas podem apresentar diferenças bem grandes com relação ao desenvolvimento dessa disciplina. As diferenças encontradas nas escolas podem variar da seguinte forma. 2.1 Escolas públicas, disciplina de oferta obrigatória e matrícula facultativa Seguem a legislação educacional de forma mais rígida, por estarem diretamente vinculadas ao poder público. As escolas que compõem a rede pública de ensino (municipais, estaduais e federais) devem, obrigatoriamente, ofertar a disciplina Ensino Religioso na carga horária normal de aulas. Ou seja, de acordo com a lei, essa disciplina não pode acontecer no contra turno ou como extensão do período de aulas. Outra questão legal importante, nesse caso, é a proibição de “quaisquer formas de proselitismo”; assim, nas escolas públicas, o Ensino Religioso não deve ser apresentado na forma de “aula de religião”, ou no modelo “confessional”. A não participação dos alunos, uma vez que a disciplina é facultativa, deve ser registrada no ato da matrícula e/ou em ata junto à equipe administrativo-pedagógica da escola. Por se tratar de estudantes do Ensino Fundamental, portanto menores de idade, essa decisão deve ser registrada por seus responsáveis legais. 2.2 Escolas privadas, confessionais ou não Por se tratar de escolas da rede privada, as normativas se dão de forma um pouco diferente das escolas públicas. Assim, na rede privada, temos cinco modalidades de ensino referentes à religiosidade: 1. Escolas em que não há a oferta da disciplina Ensino Religioso; 2. Escolas que ofertam a disciplina como optativa (como acontece na rede pública); 3. Escolas que tem a disciplina grade curricular “obrigatória”; 4. Escolas que ofertam a disciplina em forma de “catequese” no contraturno; 5. Escolas que apresentam a educação religiosa como base filosófica e pedagógica da instituição. São escolas privadas e, portanto, matricular os filhos em uma dessas modalidades é “opção” das famílias; o entendimento é que nenhum princípio da legislação vigente é ferido com tais práticas. A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 5 TEMA 3 – TEOLOGIA A teologia foi, durante muito tempo, a base para o desenvolvimento dos conteúdos do Ensino Religioso. Teologia2 pode ser definida como o estudo, sob uma ótica humana, das “coisas divinas”, ou como o próprio nome traz “o estudo de deus”. Mas, ao pensarmos na acepção do termo, a teologia nos remete, normalmente, a estudos voltados a uma cultura judaico-cristã, por tratar a figura divina pelo título de “deus” ou “teo”. A teologia pode ser estudada sob diferentes óticas e/ou perspectivas; observamos ao longo da história que muitos se interessaram pelo estudo da teologia como base para o desenvolvimento de suas crenças religiosas (como é o caso de padres, pastores, missionários etc., que fazem o estudo da teologia a fim de aprofundar os seus conhecimentos acerca da religião que professam), ou aqueles que a estudam a fim de compreender mais profundamente as questões históricas e culturais da relação do homem com o transcendente. Dentro dos cursos de Teologia, os estudos acerca do transcendente se aprofundam de tal forma que, para leigos, podem parecer confusos. Como é o caso da teologia cristã, em que teremos a presença de disciplinas como escatologia, bibliologia, soterologia, angeologia etc. Há ainda o envolvimento de questões como arte, filosofia, direito etc. Por se tratar de curso “confessional” – ou seja, o curso de Teologia é direcionado a uma religião específica (mesmo que em certo ponto apresente a diversidade, a base filosófica é fixada em uma religião específica) –, não há cursos de teologia em Universidade Públicas no Brasil. Na década de 1960, houve certo movimento com a intenção de criar um Instituto Teológico ligado à Universidade de Brasília, porém com a instalação do governo militar e o incêndio na instituição o projeto acabou por não ser concretizado. Durante muitos anos, em parceria com a Diocese de Parnaíba, a Universidade Federal do Piauí manteve um curso de Teologia em seu programa, porém ele foi extinto. Os melhores cursos de Teologia do Brasil são (Saiba quais..., 2015: Unicesumar; Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); 2 Assista o vídeo indicado na seção Saiba mais. A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 6 Universidade Presbiteriana Mackenzie (MACKENZIE); Unviersidade Metodista de São Paulo (UMESP); Centro Universitário Filadélfia (UNIFIL); Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO); Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP); Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP); Faculdades EST (EST); Centro Universitário Internacional (UNINTER); Faculdade Adventista Paranaense (IAP); Faculdade de São Bento (FSB); Faculdade Palotina (FAPAS); Instituto Tecnológico Franciscano (ITF); Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA); Faculdade João Paulo II (FAJOPA); Faculdade Messiânica; Faculdade Adventista da Amazônia (FAAMA); Faculdade STBNB. Durante muitos anos, com resultado das bases confessionais do Ensino Religioso, a teologia forneceu os subsídios para a organização curricular da disciplina. Porém, com o processo de laiscização do Estado e, portanto, da Educação Pública, bem como com o crescimento da diversidade religiosa no país, aos poucos a teologia foi deixada de lado, dando espaço a conhecimentos voltados à cientificidade do conhecimento religioso numa perspectiva plural. TEMA 4 – CIÊNCIAS DA RELIGIÃO As ciências da religião podem ser definidas como um estudo interdisciplinar do que chamamos de “fenômeno religioso”; diferentemente da teologia, que tem suas bases filosóficas fixadas em uma determinada vertente religiosa, as ciências da religião buscam a pluralidade. As ciências da religião reúnem diferentes formas de compreender o fenômeno religioso, e vão buscar em diferentes pensamentos as explicações para seus questionamentos; assim, trazem conhecimentos referentes a sociologia, história, antropologia, filosofia, psicologia, estudos de religiões comparadas, entre outras abordagens que permitam vislumbrar a diversidade sob uma ótica científica. A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 7 Especificamente sobre o fenômeno religioso, Abreu (2018) aponta: O Fenômeno Religioso é explicitamente verificado em todas as épocas e lugares, as pessoas necessitam de um ser superior, para servir-lhes de consolo diante dos embates do mundo que muitas vezes deixam-nas aflitas e sem direção, naquele momento em que tudo parece não ter sentido, no exato momento em que a razão já não explica mais a nossa realidade, gemina a fé, a crença e a esperança num amanhã glorioso circundado pelo gosto da vitória. A religião solidifica nossa crença, amadurece nossa relação com o transcendente, nos leva a uma realidade metafísica para a posteriori compreendermos nossa realidade física e humanamente limitada. Somos limitados! Mas, nossas ações tornam-se ilimitadas quando deixamos frutos de nossa existência, quando as pessoas captam em nos valores, e, agregam esses valores dando novo sentido ao seu existir. Nossos valores serão sempre renovados com o contato religioso, quando se adere a uma religião não pode ser uma decisão precipitada, mas uma convicção a ser seguida, uma vez que as maiores de todas as religiões (Cristianismo) (Judaísmo) (Protestantismo) se solidificam baseados no valor da dignidade humana! Assim devemos conduzir nossa vida respeitando em primeiro lugar nossa vida e fazer dela um testemunho vivo da presença do sagrado. A fim de refletir e discutir sobre questões ligadas ao Ensino Religioso escolar, seu papel, função e modelo nas escolas públicas, algumas universidades têm desenvolvido cursos de licenciatura em Ciências da Religião; entre elas podemos destacar a Universidade Federal de Juiz de Fora e a Universidade Federal da Paraíba, cujos programas estão consolidados. Também vemos algumas universidades investindo em cursos de pós-graduação na área de Ciências da Religião e Ensino Religioso, com foco no trabalho em sala de aula. TEMA 5 – CONCEPÇÃO DE ENSINO RELIGIOSO Afinal, o que é Ensino Religioso? Se pensarmos apenas no significado “literal” das palavras, podemos ter uma ideia errada do que vêm a ser essa disciplina escolar. Afinal, segundo os dicionários de língua portuguesa, ensino é: “transferência de conhecimento”, enquanto que religioso “é tudo aquilo relativo ou próprio da religião”. Assim, utilizando apenas o dicionário, poderíamos ter a ideia errada de que Ensino Religioso é a transmissão dos conhecimentos acerca da religião, o que poderia ser compreendido como uma “catequese”. Por isso, para compreender a disciplina é preciso analisarmos não só o significado das palavras que compõem o seu rótulo, mas as concepções que envolvem o termo. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, que chamamos de PCNs, A religião passa a ser um dos principais aparelhos ideológicos do Es- tado, concorrendo para o fortalecimento da dependência ao poder político por parte da Igreja. Dessa forma, a instituição eclesial é o principal sustentáculo do poder estabelecido, e o que se faz na Escola é A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 8 o Ensino da Religião Católica Apostólica Romana. (Fonaper, 2004, p. 13) É preciso remontar aos primórdios da História da Educação no Brasil, que também trata da História do Ensino Religioso, das primeiras escolas eram mantidas pela Igreja Católica e, assim, consequentemente, do Ensino Religioso era confessional. Com o texto declarando que o ensino será laico, acontece uma grande discussão em torno do assunto, diante da possibilidade de se excluir o ensino religioso no texto da Constituição de 1891, regendo a laicidade. A Igreja católica romana ainda continuava com sua atuação voltada para a prática proselitista da catequização dentro das escolas públicas brasileiras, essa fase se prolonga em todo percurso da história da educação brasileira, precisamente até os 400 anos da história. Porém, com o passar dos anos, a necessidade de ampliação na oferta da educação básica e a democratização do Ensino, o Estado passa a assumir essa função, tornando a escola laica e, assim, readequando o Ensino Religioso às necessidades sociais. Posteriormente, uma nova redação é dada ao art. 33 da LDB, que definia a disciplina Ensino Religioso. O novo texto traz: Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. § 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores. § 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso. (Brasil, 1996) Demonstra assim essa “nova forma” de conceber o Ensino Religioso escolar. 5.1 A natureza do Ensino Religioso escolar Ora, para compreendermos a concepção de Ensino Religioso, precisamos partir da concepção de Educação. A partir do momento em que a Educação entende o estudante como sujeito complexo que, portanto, vê o processo educativo como uma experiência de desenvolvimento integral desse indivíduo, é necessário ter uma visão sobre todos os níveis de conhecimento, entre os quais se encontra o conhecimento “religioso”. A ideia da criança como “uma folha em A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 9 branco” já foi superada há bastante tempo, pois sabemos que os alunos chegam a escola repletos de uma gama de conhecimentos que devem ser sistematizados, desmitificados e valorizados de acordo com o desenvolvimento e a faixa etária de cada um. Cada grupo e/ou sociedade é organizado de uma maneira diferente; podemos dizer que essas diferentes formas de organização, religiosa, política etc., são definidas pelo seu ethos cultural. Compreender essas diferenças culturais contribui para o desenvolvimento dos conhecimentos e do respeito relativos às diferenças (econômicas, étnicas, físicas, culturais, religiosas etc.). A religiosidade ou a cultura religiosa fazem parte do cotidiano escolar, mesmo que indiretamente. Seja no nome da escola (uma herança das influências da Igreja Católica no Estado e na instituição das escolas no Brasil), seja na vestimenta de professores e alunos, estamos cercados por elementos religiosos. Pensando na sistematização dos conhecimentos acerca das diferenças, nesse caso, religiosas, e na compreensão da religiosidade como um fenômeno cultural e social, a disciplina escolar Ensino Religioso caracteriza-se pela compreensão dessas diferenças na constituição dos sujeitos e do grupo escolar, abordando conteúdos que promovam a reflexão e o diálogo entre essas diferentes “formas” de expressão religiosa. Podemos observar que, nessa compreensão, o Ensino Religioso escolar não tem como função promover experiências religiosas, nem apresentar diferentes possibilidades para a escolha de “uma nova religião”. O Ensino Religioso escolar tem por natureza o diálogo, o “conhecer para respeitar”. Trata- se de estimular o conhecimento acerca das diferenças e analisar suas influências na cultura e, por consequência, na sociedade. 5.2 A dimensão pedagógica do Ensino Religioso escolar Nesse sentido, o Ensino Religioso escolar deve promover uma abordagem “antropológica” e “filosófica” da religião, ou seja, buscar a compreensão do fenômeno religioso como ação humana, dentro de uma perspectiva pedagógica. Ou seja, dentro de uma análise educacional, o “religioso” abordado no Ensino Religioso escolar tem como função auxiliar o estudante na elaboração de conhecimentos e atitudes com vistas à construção de relações sadias com o “diferente”. Podemos afirmar que o Ensino Religioso trata de reflexões acerca do que é relativo à vida humana; assim, o desenvolvimento dessa disciplina pode A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 10 impactar diretamente no comportamento dos alunos, principalmente no que se relaciona a ética, respeito e tolerância. Segundo Catão (1995, p. 44), Na medida em que as religiões tenderam a se institucionalizar e a se tornarem organizações públicas, mantidas e presididas pelo rei ou sustentadas oficialmente como um bem do Estado, pela comunidade política, introduziu-se uma distinção, mais ou menos perversa, entre ética, regulada pela fidelidade dos cidadãos aos costumes e bens da comunidade política, e a religião, cujas práticas eram ditadas pela fidelidade aos ritos e celebrações, independentemente da qualidade ética, tanto dos cidadãos como dos sacerdotes que os presidiam. Assim, nas comunidades ocidentais, havia uma distinção entre a “vida religiosa” e a “vida pública”, o que impactava diretamente na construção do ethos cultural. Essa separação dos conhecimentos e comportamentos acarreta uma “certa dificuldade” ao abordarmos a diversidade religiosa, pois mesmo o professor foi educado no sentido de que a vida pública e a religiosa são coisas distintas e, portanto, não têm conhecimentos acerca do fenômeno religioso em outros grupos, que não sejam o seu núcleo de convivência. Por isso, ao professor de Ensino Religioso, para além das funções docentes cotidianas, atribui-se um caráter pesquisador muito forte. Assim, para além da constante busca por informações e conhecimento, o professor de Ensino Religioso encara mais um obstáculo: O que e como fazer? Bem, tendo em vista que a sala de aula não é o espaço para práticas religiosas e que o Estado é laico, e, portanto, a escola pública também é, o professor deve encarar as aulas de Ensino Religioso como um espaço de reflexão acerca da diversidade e da superação dos preconceitos. Ou seja, deve promover o diálogo e a constante busca pelo conhecimento, e também as relações entre teoria e prática, trazendo elementos da sociedade e da cultura, e analisando-os sob a ótica do fenômeno religioso e suas implicações sociais. 5.3 Ética Não é incomum ouvirmos, inclusive de colegas na sala dos professores, questionamentos como: “Pra que aula de Ensino Religioso?”, “Não seria mais útil ensinarmos valores?”, “Os estudantes precisam aprender ética, não religião”, “Melhor ética que religião” etc. Em primeiro lugar, é importante ressaltar que todos os professores deveriam conhecer o Currículo Escolar, os PCNs, BNCC, LDB etc. na íntegra, e não somente os relacionados à área do conhecimento que lhes A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 11 compete. Ao tomar conhecimento desses documentos, boa parte desses questionamentos perde o sentido. Outro ponto importante para pensarmos é que, ao desconhecer tais documentos, boa parte dos professores traz na sua memória a concepção de Ensino Religioso do período em que era aluno, pois muitos tiveram acesso apenas ao Ensino Religioso Confessional. Mais um ponto para pensarmos é: de qual ética os professores falam quando a colocam como fundamental para o desenvolvimento dos educandos? Ora, segundo Catão (1995, p. 63) “Toda religião comporta uma ética e toda ética desemboca numa religião, na mesma medida em que a ética se orienta pelo sentido transcendente da vida humana”. A ética deve seguir os princípios da consciência e da liberdade, do respeito e do diálogo, da diversidade e da tolerância, aspectos contemplados pela disciplina Ensino Religioso escolar. A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com 12 REFERÊNCIAS ABREU, E. S. de. O fenômeno religioso. Brasil Escola, 2018. Disponível em: . Acesso em: 3 dez. 2018. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 dez. 1996. CATÃO, F. O Fenômeno Religioso, São Paulo: Letras & Letras, 1995. FIGUEIREDO, A. de P. O Ensino Religioso: perspectivas pedagógicas. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1995. _____. O Ensino Religioso no Brasil: tendências, conquistas, perspectivas. Petrópolis: Vozes, 1996. FONAPER. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso. São Paulo: Ave Maria, 2004. VIESSER, L. C. Um paradigma didático para o ensino religioso. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. A luno: M A R IN A C E S A R JU N Q U E IR A D E F R E IT A S E m ail: m arinajunqueira@ gm ail.com