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RESUMO FILOSOFIA E EDUCAÇÃO
AULA 1
Aborda a crise da profissão docente num cenário de revolução tecnológica e globalização. O objetivo
é repensar o papel do professor para que ele atue de forma crítica e emancipatória.
• Docência e Novas Técnicas: A tecnologia não vem substituir o professor. Numa sociedade de
informação, a escola deixa de ser uma mera transmissora de dados e passa a ser um espaço
de análise crítica. As tecnologias (computadores, vídeos) são ferramentas valiosas que
libertam tempo para a reflexão e criação de novos saberes.
• Teoria e Prática: O exercício docente exige a união indissolúvel entre a teoria e a prática. O
texto critica dois fenómenos que desvalorizaram a profissão: a "feminilização do ensino" (a
ideia de que ensinar nos primeiros anos exigia apenas um "dom" maternal e abnegação,
dispensando formação teórica) e a redução do ensino a uma prática puramente pragmática e
repetitiva. Ensinar é um fazer que implica criar conhecimento.
• Papel Político-Social: A globalização e as políticas de mercado impõem exclusão e o
sucateamento das escolas. O educador precisa de ter consciência crítica deste panorama e
fomentar práticas democráticas, comprometendo-se com ideais emancipadores em vez de
apenas manter o estado atual das coisas.
• Ética e Práticas Inclusivas: Vivemos numa época de "pragmatismo moral" (só tem valor o que
traz lucro prático) e "relativismo ético" (os valores mudam conforme a conveniência). Contra
esta lógica individualista, o professor deve promover valores como a solidariedade, a justiça, e
garantir a inclusão de todos os alunos, respeitando as suas singularidades e diferenças.
Mapa Mental (Estrutura)
• Centro: O Educador Atual
o Novas Tecnologias: Auxílio essencial ➔ Escola como espaço de análise crítica ➔
Aluno aprende a dar significado à informação.
o Teoria + Prática: Unidade inseparável ➔ Crítica à feminilização do ensino ➔ Professor
como criador de conhecimento (não apenas reprodutor).
o Papel Sociopolítico: Consciência crítica ➔ Resistência ao sucateamento escolar ➔
Formação cidadã e emancipatória.
o Postura Ética: Combate ao pragmatismo moral e relativismo ético ➔ Promoção da
solidariedade ➔ Práticas ativas de inclusão e respeito à diversidade.
Prática Modelo CEDERJ (10 Questões e Gabarito)
1. (Múltipla Escolha) Segundo Libâneo, numa sociedade repleta de tecnologias de informação, qual
passa a ser o papel fundamental da escola?
a) Centrar-se na transmissão técnica de dados.
b) Transformar-se num lugar de análise crítica para que o aluno atribua significado à informação.
c) Substituir os professores por computadores para otimizar a aprendizagem.
d) Manter as práticas tradicionais rejeitando o uso de meios digitais.
2. (Múltipla Escolha) A "feminilização do ensino" referida no texto teve como principal
consequência:
a) A valorização teórica e científica da profissão docente.
b) O aumento salarial para as mulheres no magistério primário.
c) A desvalorização da profissão, associando-a a um "dom" maternal que dispensava sólida
formação teórica.
d) A garantia da indissociabilidade entre teoria e prática.
3. (Múltipla Escolha) O "pragmatismo moral" criticado na aula pode ser definido como:
a) A procura por valores éticos universais aplicáveis a todas as culturas.
b) A atitude de reconhecer como moral apenas aquilo que traz alguma utilidade ou lucro prático.
c) A prática de incluir todos os alunos, independentemente das suas limitações materiais.
d) A defesa incondicional dos direitos humanos e da solidariedade.
4. (Múltipla Escolha) Diante do cenário de globalização e políticas de mercado que precarizam a
educação, o professor deve:
a) Adotar uma postura neutra, focando-se apenas nos conteúdos da sua disciplina.
b) Conformar-se com as políticas internacionais, preparando os alunos para o mercado de forma
passiva.
c) Ter clara consciência do seu papel sociopolítico, comprometendo-se com ideais emancipadores.
d) Abandonar a escola pública e atuar apenas em centros de inovação.
5. (Discursiva) Explique a relação proposta pela Aula 1 entre o ensino tecnológico e a prática
docente. Há uma oposição entre eles?
6. (Discursiva) O que se entende por "relativismo ético" no contexto da Aula 1 e qual deve ser a
postura do educador perante ele?
7. (Discursiva) Porque é que a redução da atividade docente a uma simples prática sem elaboração
teórica é prejudicial ao processo educativo?
8. (Discursiva) Descreva a importância da prática da inclusão na escola atual, conforme a Aula 1.
9. (Discursiva) Como deve o educador articular a teoria e a prática no seu quotidiano?
10. (Discursiva) Qual é a responsabilidade do professor na formação da consciência política dos
seus alunos face à atual conjuntura socioeconómica?
Gabarito:
1. B | 2. C | 3. B | 4. C
2. Não há oposição. A tecnologia não substitui o professor, mas serve como instrumento para
enriquecer as aulas e facilitar a captação de saberes. O docente utiliza-a para fomentar a
análise crítica em vez de despender energia apenas na transmissão mecânica.
3. Relativismo ético é a ideia de que não existem valores universais e que a ética pode mudar
conforme as conveniências pontuais. O educador deve combater esta lógica (frequentemente
associada ao lucro e ao individualismo) recolocando em destaque valores fundamentais
como a justiça, a solidariedade e o respeito pela vida.
4. Porque ensinar é um "fazer" que implica conhecer de forma criativa. Quando reduzida a uma
mera prática pragmática, o professor torna-se apenas um divulgador de saberes já
cristalizados, perdendo a sua capacidade de investigar, inovar e adaptar a educação aos
desafios contemporâneos.
5. A escola é um espaço plural onde convivem as mais diversas realidades (sociais, físicas,
intelectuais). A inclusão exige do educador a adoção de práticas tolerantes e democráticas
que garantam o acolhimento e a integração de todos os alunos, respeitando as suas
diferenças.
6. O professor deve dominar as bases teórico-científicas da sua área, mas aplicá-las e adaptá-
las constantemente à realidade concreta da sala de aula. Ambas devem ser trabalhadas
simultaneamente, formando uma unidade em que a prática alimenta a teoria e vice-versa.
7. O professor deve ser um profissional crítico que analisa e debate o panorama económico e o
sucateamento da escola com os alunos, ajudando-os a desenvolver uma cidadania ativa e
comprometida com a emancipação, para que sejam capazes de transformar essa realidade
desfavorável.
AULA 2 - A ORIGEM DA PROFISSÃO DOCENTE
Esta aula viaja até à Grécia Antiga para nos mostrar como surgiu a figura do professor.
• A Educação Homérica: Na Grécia arcaica, os poetas (como Homero e Hesíodo) eram os
"educadores da Hélade". Eles não eram profissionais do ensino, mas transmitiam oralmente
os valores heroicos e a visão de mundo da época através das suas narrativas.
• Os Sofistas: No séc. V a.C., com o auge da democracia em Atenas, surgiu a necessidade de
saber argumentar em público. Aparecem os sofistas, considerados os primeiros professores
profissionais do Ocidente, pois cobravam para ensinar a retórica (a arte de bem falar e
persuadir) às elites. Eles defendiam o relativismo (não há verdade absoluta, cada um tem a
sua medida) e o ceticismo (é impossível conhecer a verdade).
• Sócrates: Foi o maior crítico dos sofistas. De origem humilde, não cobrava pelo ensino, pois
via a docência como uma vocação e uma missão. Em vez de retórica, usava a dialética
(diálogo) e a maiêutica (a arte de ser "parteiro" de ideias, ajudando o aluno a descobrir a
verdade por si mesmo através de perguntas). O seu foco era a ética e o autoconhecimento
("Conhece-te a ti mesmo").
Mapa Mental (Estrutura)
• Origem da Docência
o Poetas (Homero/Hesíodo): Educação não sistematizada ➔ Transmissão oral de
valores culturais e heroicos.
o Sofistas (1ºs Profissionais): Ensino pago ➔ Foco na Retóricae persuasão política ➔
Baseado no Relativismo e Ceticismo.
o Sócrates (Vocação): Ensino gratuito ➔ Busca conjunta pela Verdade e Ética ➔
Método: Dialética e Maiêutica (Diálogo e perguntas).
Prática Modelo CEDERJ (5 Questões Focadas)
(Preparei 5 questões estratégicas para esta etapa, de forma a mantermos o ritmo e a clareza!)
1. (Múltipla Escolha) Quem foram os primeiros professores profissionais da história da educação
ocidental e qual era o seu principal ensinamento? a) Os poetas, ensinando a cultura heroica. b)
Sócrates e Platão, ensinando a maiêutica. c) Os sofistas, ensinando a arte da retórica. d) Os aedos,
ensinando literatura e música.
2. (Múltipla Escolha) A frase "O homem é a medida de todas as coisas", de Protágoras, exemplifica a
postura filosófica conhecida como: a) Dogmatismo b) Relativismo c) Maiêutica d) Dialética
3. (Múltipla Escolha) O método de Sócrates que consistia em ajudar o interlocutor a "dar à luz" as
suas próprias ideias através de perguntas sucessivas é chamado de: a) Retórica b) Ceticismo c) Ironia
d) Maiêutica
4. (Discursiva) Diferencie a postura dos sofistas da postura de Sócrates em relação à busca pelo
conhecimento e à verdade. 5. (Discursiva) Por que razão Homero é considerado um educador na
Grécia antiga, mesmo não sendo um professor sistemático?
Gabarito:
1. C | 2. B | 3. D
2. Os sofistas eram relativistas e céticos; para eles, não existia uma verdade universal,
importando apenas ensinar a técnica de persuasão (retórica) para vencer debates. Sócrates,
pelo contrário, acreditava na busca conjunta pela verdade e pelos valores éticos universais
através do diálogo (dialética), rejeitando o relativismo e o foco no simples ganho financeiro ou
político.
3. Porque, através das suas narrativas e poemas épicos transmitidos oralmente, ele formou a
"paidéia" arcaica, passando de geração em geração os valores, as crenças, os modelos
heroicos e a visão de mundo fundamentais para a sociedade grega.
AULA 3
• A diferença entre Educação e Formação: O termo atual "educação" remete muitas vezes
para a adaptação do homem à sociedade. Para os gregos, o foco era a "formação", que
envolvia a ação integral do homem e a busca pela sua autêntica forma e essência.
• O Período Homérico e a Areté: Antes do séc. V a.C., o ideal educativo era a areté, que
significa "excelência" ou "superioridade". Transmitida pelos poetas (como Homero), esta
formação focava-se no indivíduo heroico (como Aquiles e Ulisses), valorizando a bravura, a
força e a inteligência. Mais tarde, esse ideal evoluiu para a kalokagathia (a harmonia entre ser
belo fisicamente e bom/valoroso moralmente).
• A Paidéia e a Pólis: A partir do séc. V a.C., o conceito alarga-se. A paidéia passa a designar o
processo de formação geral do homem como cidadão preparado para a vida racional na Pólis
(cidade-Estado).
• Os Sofistas: Como vimos na aula anterior, eram professores que ensinavam a techné
(arte/técnica) da oratória e retórica à elite. O objetivo da sua paidéia era preparar o cidadão
para persuadir o público nas assembleias e fazer prevalecer os seus interesses. Eram
criticados por relativizarem valores como a verdade e a justiça em nome do convencimento.
• A Paidéia de Sócrates: Ao contrário dos sofistas, Sócrates ensinava em praças públicas para
qualquer um, focando-se na razão e na alma. Através da maiêutica (diálogos críticos), ajudava
os alunos a conceberem as suas próprias ideias. A sua máxima "conhece-te a ti mesmo" não
era um apelo à introspeção isolada, mas sim à busca pela essência universal do que significa
"ser homem".
• O Modelo de Platão: Discípulo de Sócrates, Platão defendia, na obra A República, que a
educação devia ser coletiva e gerida pelo Estado (e não pela família). O Estado educaria todos
por igual inicialmente, separando-os depois conforme a "alma" (aptidão) revelada: alma de
bronze para a economia (artesãos/agricultores), alma de prata para a defesa (guerreiros) e
alma de ouro para a sabedoria (governantes/reis-filósofos). Para ele, apenas os sábios têm
capacidade para governar com verdadeira justiça.
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• A Educação na Grécia Antiga
o Grécia Arcaica (Homero):
▪ Conceito: Areté (Excelência individual).
▪ Foco: O herói guerreiro (força, coragem, moral).
▪ Educadores: Os poetas.
o Grécia Clássica (Séc. V a.C. em diante):
▪ Conceito: Paidéia (Formação do cidadão para a Pólis).
▪ Sofistas: Foco na techné da retórica; persuasão política; acusados de
relativismo.
▪ Sócrates: Foco na razão e na alma; reflexão crítica (maiêutica); "conhece-te a ti
mesmo".
▪ Platão: Educação gerida pelo Estado; separação por aptidões (almas de bronze,
prata e ouro); o rei-filósofo como governante ideal.
Prática Modelo CEDERJ (10 Questões e Gabarito)
1. (Múltipla Escolha) No período da Grécia homérica, o ideal de homem estava associado ao
conceito de areté. O que significa este conceito nesse contexto histórico? a) A capacidade de
persuasão nas assembleias políticas. b) A excelência ou superioridade, representada pelas
qualidades heroicas e de nobreza. c) A formação integral e democrática de todos os cidadãos da
Pólis. d) A busca pelo autoconhecimento racional proposta por Sócrates.
2. (Múltipla Escolha) A partir do século V a.C., o conceito de formação alarga-se e surge a paidéia.
Qual era o seu principal objetivo? a) O desenvolvimento da força física para os jogos olímpicos. b) O
treino exclusivo para o trabalho manual e agricultura. c) A formação geral com o objetivo de
desenvolver o homem grego como cidadão para a vida na Pólis. d) A instrução religiosa baseada nos
mitos de Hesíodo.
3. (Múltipla Escolha) Qual era a principal crítica feita aos Sofistas pelos seus contemporâneos
(como Sócrates)? a) Ensinavam apenas as classes mais pobres e escravos. b) Focavam-se
demasiado no desenvolvimento físico e militar. c) Produziam o falso e iludiam os ouvintes,
relativizando valores como a verdade e a justiça em prol da persuasão. d) Recusavam-se a cobrar
pelo seu ensino.
4. (Múltipla Escolha) Para Sócrates, a frase "conhece-te a ti mesmo" significava: a) Uma
recomendação para analisar problemas psicológicos individuais. b) O reconhecimento de que o
conhecimento verdadeiro é inatingível. c) A busca pela essência universal do homem e daquilo que é
comum a todos pela via da razão. d) A necessidade de conhecer as táticas de retórica para vencer
debates públicos.
5. (Múltipla Escolha) Na obra A República, Platão propõe um modelo de Estado ideal. Nele, quem
deveria governar a cidade? a) Os guerreiros, por possuírem a virtude da coragem (alma de prata). b)
Os agricultores e comerciantes, por sustentarem a cidade (alma de bronze). c) O povo de forma
democrática e igualitária. d) Os sábios ou reis-filósofos, por possuírem a alma de ouro e o
conhecimento necessário para governar com justiça.
6. (Discursiva) De acordo com o texto da Aula 3, diferencie o sentido original da palavra "formação"
na Grécia Antiga do conceito moderno de "educação". 7. (Discursiva) O que representa a expressão
kalokagathia no final da Grécia arcaica e como se relaciona com a areté? 8. (Discursiva) Em que
sentido a paidéia dos sofistas se diferenciava da paidéia socrática quanto aos seus objetivos e
métodos? 9. (Discursiva) Explique a importância do método maiêutico na perspetiva educacional de
Sócrates. 10. (Discursiva) Descreva brevemente como funcionaria o processo de educação coletiva
no Estado ideal proposto por Platão, desde a infância até à escolha dos governantes.
Gabarito:
1. B | 2. C | 3. C | 4. C | 5. D
2. Historicamente, "formação" na Grécia Antiga referia-se à ação integral do homem e à busca
pela sua autêntica essência (física, moral e intelectual), guiada por valores e regras. O termo
moderno "educação" surgiu mais fortemente no séc. XVIII e foca-se no processo de
desenvolvimento físico, intelectual e moral com o objetivo primário de adaptar totalmenteo
indivíduo à sociedade em que vive.
3. Kalokagathia designa a união entre a beleza (kalós) e a bondade/valor (agathós). Representa
uma evolução da areté no final da Grécia arcaica, exigindo que o homem atingisse a
excelência não apenas no vigor físico e na destreza guerreira, mas também no plano moral, no
polimento e na conduta.
4. A paidéia dos sofistas focava-se no ensino da techné (arte) da retórica às elites, preparando-
os para o sucesso político prático e a persuasão, muitas vezes ignorando a verdade absoluta e
a ética. A paidéia socrática focava-se na reflexão racional, ensinando gratuitamente em praça
pública, e visava o autoconhecimento e a busca pela verdade universal e pelas virtudes éticas
genuínas.
5. A maiêutica era o método pelo qual Sócrates, através de sucessivas perguntas críticas
(diálogo), não dava as respostas prontas aos seus discípulos, mas ajudava-os a conceberem
as suas próprias ideias e a descobrirem a verdade pela sua própria razão.
6. Segundo Platão, a educação deveria ser coletiva e gerida pelo Estado. Todos teriam a mesma
formação até aos 20 anos, altura em que ocorreriam separações baseadas nas aptidões
naturais (tipos de "alma"). Os que revelassem "alma de bronze" iriam para os ofícios de
subsistência económica; a "alma de prata" para a defesa (guerreiros); e os mais notáveis, com
"alma de ouro", continuariam a estudar Filosofia para, finalmente, assumirem o governo do
Estado.
AULA 4
• O Significado da Palavra: Etimologicamente, Filosofia vem do grego philo (amor/amizade) e
sophia (sabedoria). Foi Pitágoras quem usou o termo para dizer que não era um "sábio" (dono
da verdade), mas sim um "amante do saber", alguém impulsionado pelo espanto e pela
vontade de procurar a verdade, e não por vaidade ou lucro.
• Uma Disciplina Sistemática: Ao contrário das opiniões do dia a dia, a Filosofia é um
pensamento sistemático. Isto significa que as suas indagações não são feitas ao acaso;
formam um conjunto coerente de ideias justificadas por argumentos válidos e lógicos.
• A Mudança Histórica: Na Grécia Antiga, a Filosofia englobava todo o conhecimento racional
(Matemática, Física, Biologia, etc.), não havendo divisão de disciplinas. Com o tempo, as
ciências foram-se especializando e separando.
• O Papel Atual da Filosofia: Face a tanta especialização científica (que pulveriza o saber), o
papel da Filosofia hoje é recuperar a unidade do conhecimento. Ela continua a fazer as
perguntas fundamentais (o quê, como, porquê) sobre a origem, sentido e valor da vida, sem
aceitar o mundo como óbvio.
• Método Conceitual (Não Empírico): Ao contrário das ciências (como a Biologia), a Filosofia
não leva os seus objetos (como a "justiça" ou a "liberdade") para um laboratório para fazer
experiências sensíveis. As questões filosóficas são respondidas exclusivamente através de
justificações teóricas, reflexão e argumentação.
• Campos de Investigação: A Filosofia divide-se em várias áreas: Ética (comportamento
moral); Filosofia Política (vida em sociedade e Estado); Estética (a arte e o belo); Lógica
(regras da argumentação); Epistemologia (teoria do conhecimento) ; e Ontologia (estudo do
"ser" e da realidade).
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• O que é a Filosofia?
o Origem/Conceito: Philo (Amor) + Sophia (Sabedoria) ➔ Busca constante pela verdade
(Pitágoras).
o Natureza: Saber Sistemático ➔ Baseado em argumentos lógicos e coerentes, não em
meras opiniões.
o Método: Teórico/Conceitual ➔ Diferente das Ciências Empíricas (não usa laboratórios
ou experiências físicas).
o Evolução Histórica: Antes abrangia todas as ciências ➔ Hoje questiona os
fundamentos, valores e o sentido geral do mundo face à especialização.
o Áreas de Estudo: Ética, Política, Estética, Lógica, Epistemologia, Ontologia.
Prática Modelo CEDERJ (10 Questões e Gabarito)
1. (Múltipla Escolha) Etimologicamente, a palavra Filosofia, cunhada na Grécia Antiga, significa: a) A
posse absoluta da verdade pelos sábios. b) O estudo empírico da natureza e do cosmos. c) O amor
ou amizade pela sabedoria. d) O conjunto de opiniões e filosofias de vida de um indivíduo.
2. (Múltipla Escolha) Dizer que o pensamento filosófico é uma "disciplina sistemática" significa que:
a) É um corpo de doutrinas fechado que não admite novas formulações. b) As suas indagações
formam um conjunto coerente de ideias demonstradas por argumentos válidos, afastando-se de
opiniões ao acaso. c) Adota o mesmo método experimental e laboratorial das ciências modernas. d)
Serve apenas para ditar regras de conduta práticas para as empresas.
3. (Múltipla Escolha) Na Grécia Antiga, a Filosofia abrangia a totalidade do conhecimento racional
(Matemática, Astronomia, etc.). Com o passar do tempo, estes saberes tornaram-se disciplinas
autónomas. Neste contexto de especialização, qual passou a ser o papel da Filosofia? a) Deixou de
ter utilidade, uma vez que as ciências empíricas respondem a tudo. b) Focou-se apenas na análise
matemática e lógica. c) Passou a refletir sobre os conhecimentos alcançados, recuperando a
unidade do saber e questionando o sentido e o valor da vida. d) Transformou-se num conhecimento
estritamente religioso e teológico.
4. (Múltipla Escolha) A área da Filosofia que estuda problemas relacionados com o comportamento
moral dos homens em sociedade e o que é correto ou incorreto chama-se: a) Ontologia. b) Lógica. c)
Epistemologia. d) Ética.
5. (Múltipla Escolha) Os problemas filosóficos não podem ser resolvidos recorrendo aos métodos
das ciências empíricas porque: a) A Filosofia lida com conceitos e valores que não podem ser
observados num laboratório ou na experiência sensível, exigindo justificação teórica e argumentativa.
b) Os filósofos recusam-se a usar computadores e tecnologia. c) A experiência sensível já provou que
todas as teorias filosóficas são falsas. d) A Filosofia baseia-se apenas no mito e na revelação divina.
6. (Discursiva) De acordo com o texto da Aula 4, qual é a diferença entre o uso coloquial da palavra
"filosofia" (ex: "a filosofia da empresa") e a Filosofia como disciplina sistemática? 7. (Discursiva)
Relate a origem do termo "Filosofia" atribuída a Pitágoras e explique o que ele queria dizer ao afirmar
que não era um "sábio", mas sim um "filósofo". 8. (Discursiva) Se a Filosofia já não estuda as reações
químicas ou os astros físicos como na Antiguidade, que tipo de questões fundamentais continuam a
ser o seu foco hoje? Dê exemplos. 9. (Discursiva) O que estuda a Epistemologia (ou Teoria do
Conhecimento)? 10. (Discursiva) Explique porque é que o método da Filosofia é baseado em
argumentos de caráter conceitual e não empírico.
Gabarito:
1. C | 2. B | 3. C | 4. D | 5. A
2. No dia a dia, usamos "filosofia" para referir um modo geral de agir ou diretrizes/regras de vida.
Já como disciplina sistemática, a Filosofia é um conhecimento estruturado, cujas partes se
relacionam de forma coerente através de argumentos e justificações lógicas e rigorosas, não
se limitando a opiniões pessoais.
3. Pitágoras usou o termo (philo + sophia) para demonstrar que não possuía a sabedoria absoluta
(não era sophós), mas era um "amante do saber". Queria dizer que a Filosofia é uma busca
constante pela verdade, motivada pelo espanto e desejo de compreender, e não uma vaidade
de quem acha que já sabe tudo.
4. Continua a fazer indagações sobre a origem, estrutura e o significado do mundo e dos valores
humanos. Foca-se em perguntas estruturais como: "o que é a verdade?", "o que é a
liberdade?", "o que é a justiça?" ou "como devemos agir?".
5. A Epistemologia estuda os problemas relacionados com o próprio conhecimento. Questiona o
que é o conhecimento, quais são os seus limites, e como sabemos se as nossas crenças
sobre o mundo são verdadeiras.
6. Porque os objetos de estudo da Filosofia (como a justiça, a liberdade, o "ser") não são coisas
físicas ou materiais que possam ser colocadas num tubo de ensaio, observadasnum
laboratório ou medidas (experiência sensível/empírica). As questões filosóficas exigem
justificação através da reflexão, da coerência lógica e de argumentos conceituais.
AULA 5
• O que é o Mito (Mythos): O mito é uma narrativa fabulosa e simbólica usada pelos povos
antigos para explicar a origem do mundo, das coisas e dos valores. A sua principal
característica é ser incontestável: não se baseia em provas ou debates, mas na autoridade de
uma revelação divina e na crença partilhada por uma cultura.
• O que é a Filosofia (Logos): Em oposição ao mito, surge a Filosofia apoiada no logos (discurso
ou razão). A atitude filosófica não aceita revelações sagradas como resposta pronta. Ela exige
explicações baseadas em argumentos lógicos, coerentes e puramente racionais, estando
sempre aberta à crítica e ao debate.
• A Transição: A passagem do mito para a razão não aconteceu de um dia para o outro. Foi um
processo influenciado por fatores históricos, sociais e económicos (como as viagens
marítimas, a invenção da moeda e o surgimento das cidades e da escrita), que forçaram os
gregos a procurar explicações mais práticas e racionais para a realidade.
• As Noções Fundamentais (Os Primeiros Filósofos): Para explicar o mundo sem recorrer aos
deuses, os primeiros pensadores criaram conceitos inteiramente novos e naturais:
o Physis (Natureza): A ideia de que a natureza é a fonte originária de todas as coisas,
uma força viva que faz tudo nascer, crescer e transformar-se.
o Causalidade: A noção de que todo o fenómeno (efeito) tem uma causa natural que o
antecede. Em vez de dizer "chove porque Zeus quis", diz-se "chove devido a uma causa
natural X".
o Arché (Princípio): Se tudo tem uma causa, a explicação poderia recuar ao infinito. Para
evitar isso, os filósofos procuraram a arché: o princípio básico, natural e originário de
tudo (por exemplo, a água para Tales de Mileto, ou o fogo para Heráclito).
o Logos (Razão/Discurso): A palavra que exprime o pensamento racional, tornando o
mundo inteligível e permitindo que o conhecimento seja partilhado e debatido por
todos.
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• Do Mito à Filosofia
o Mito (Mythos):
▪ Natureza: Narrativa fabulosa e metafórica.
▪ Fundamento: Sobrenatural, deuses, mistério.
▪ Característica: Dogmático e incontestável (baseado na fé da comunidade).
o Filosofia (Logos):
▪ Natureza: Discurso racional e argumentativo.
▪ Fundamento: Razão humana, coerência lógica.
▪ Característica: Crítico e sujeito a debate (baseado na justificação).
o Novos Conceitos (Explicação Racional da Realidade):
▪ Physis: A Natureza como força criadora.
▪ Causalidade: Relação estritamente natural entre causa e efeito.
▪ Arché: O elemento ou princípio primordial de tudo.
▪ Logos: A capacidade racional de compreender e discursar sobre o mundo.
Prática Modelo CEDERJ (10 Questões e Gabarito)
1. (Múltipla Escolha) O pensamento mítico, comum na Grécia arcaica, pode ser caracterizado
principalmente como:
a) Um conjunto de teorias científicas testadas em laboratório.
b) Uma explicação puramente lógica baseada na relação de causa e efeito natural.
c) Uma narrativa fundamentada na crença e na autoridade de uma revelação divina ou sobrenatural.
d) Um discurso argumentativo aberto à crítica e à refutação em praça pública.
2. (Múltipla Escolha) A transição do pensamento mítico para o pensamento filosófico na Grécia
Antiga:
a) Ocorreu de forma abrupta, com a imediata proibição e eliminação de todos os mitos.
b) Foi um processo gradual influenciado por mudanças históricas, sociológicas e económicas, que
favoreceu o surgimento de um discurso racional.
c) Consistiu na simples substituição dos deuses gregos por deuses de outras culturas.
d) Significou o abandono total da reflexão em favor de conhecimentos revelados.
3. (Múltipla Escolha) Na Filosofia, o conceito de Logos contrapõe-se ao de Mythos porque:
a) O Logos é um discurso racional, argumentativo e sujeito à crítica, enquanto o Mythos é uma
narrativa inquestionável.
b) O Logos recorre sistematicamente aos deuses do Olimpo para justificar os fenómenos.
c) O Logos defende que a verdade é um mistério impenetrável à mente humana.
d) O Logos baseia-se exclusivamente em profecias e intuições.
4. (Múltipla Escolha) Os primeiros filósofos, ao investigarem a natureza (physis), procuraram
identificar a arché. Este conceito refere-se:
a) Aos heróis e deuses primordiais que governavam o caos inicial.
b) À arte da retórica política ensinada pelos sofistas em Atenas.
c) Ao princípio básico, natural e originário que unifica e serve de base a toda a realidade.
d) À técnica de elaborar mitos cada vez mais complexos.
5. (Múltipla Escolha) A ideia de "causalidade" formulada na origem da Filosofia difere das
explicações míticas porque:
a) A causalidade filosófica relaciona um efeito a uma causa natural que o antecede, sem recorrer ao
sobrenatural.
b) A causalidade filosófica afirma que tudo acontece por puro acaso e sem motivo.
c) A causalidade filosófica atribui todos os efeitos do mundo à vontade caprichosa de Zeus.
d) O mito exige provas matemáticas, enquanto a causalidade exige apenas fé.
6. (Discursiva) De acordo com a Aula 5, explique o que é o mito e por que razão a sua linguagem era
considerada incontestável na antiguidade.
7. (Discursiva) Qual é a diferença essencial entre a linguagem mítica (mythos) e a linguagem
filosófica (logos)?
8. (Discursiva) Defina o conceito pré-socrático de Physis e explique a sua importância para o
nascimento da ciência/filosofia.
9. (Discursiva) Como é que a noção filosófica de "causalidade" resolve o problema de explicar os
fenómenos do mundo de forma racional?
10. (Discursiva) Explique a utilidade do conceito de Arché na filosofia dos primeiros pensadores para
contornar o problema da regressão infinita (quando uma causa exige outra causa anterior,
sucessivamente).
Gabarito:
1. C | 2. B | 3. A | 4. C | 5. A
2. O mito é um relato fabuloso e simbólico sobre a origem do mundo, baseando-se no mistério e
em entidades divinas. Era considerado incontestável porque se apoiava na autoridade de uma
revelação sagrada (a crença) e constituía a visão de mundo partilhada e vivida
consensualmente por aquela sociedade, não havendo espaço para o debate crítico em torno
da sua veracidade.
3. A diferença reside na forma de justificação. O mythos é uma narrativa metafórica e dogmática
imposta pela autoridade divina ou tradição (não se questiona). O logos, pelo contrário, é o
discurso racional e argumentativo que se baseia na lógica e em provas do pensamento
humano, estando, por natureza, sempre sujeito à crítica e à revisão.
4. Physis significa "natureza" e expressa a fonte originária de todas as coisas, a força natural que
faz tudo surgir, crescer e renovar-se. Foi vital para a Filosofia porque os primeiros pensadores
passaram a focar-se no estudo destas forças naturais concretas (tornando-se physiólogos) em
vez de recorrerem a seres mitológicos para explicar o mundo.
5. A causalidade explica que todo o fenómeno (efeito) resulta de uma causa natural e
identificável que aconteceu antes dele. Este raciocínio lógico reconstrói a ligação puramente
mecânica e natural entre as coisas, prescindindo de milagres ou intervenções de deuses para
justificar a ocorrência dos factos.
6. Se todo o efeito tem uma causa natural anterior, a procura pelas causas poderia recuar ao
infinito, caindo no inexplicável. Para travar essa regressão contínua, os primeiros filósofos
formularam a Arché, que é o princípio único, básico e original (por exemplo, a água ou o ar)
que não foi gerado por nada anterior a si, servindo de ponto de partida absoluto para todas as
coisas e relações causais do universo.
AULA 6
• Platão e o Inatismo (Aprender é Recordar): Platão dividia a realidade em dois mundos: o
mundo sensível (das ilusões e das coisas materiais) e o mundo inteligível (o mundodas Ideias
perfeitas e eternas). Para ele, a nossa alma já viveu no mundo das Ideias antes de encarnar no
corpo (Mito de Er). Por isso, não aprendemos nada de novo com os sentidos; aprender é, na
verdade, relembrar (reminiscência) as verdades que a nossa alma já conhecia.
• Aristóteles e a Abstração: Aristóteles criticou o seu mestre Platão. Para ele, não existem dois
mundos separados. O conhecimento começa obrigatoriamente na experiência sensível (nos
sentidos). Através de um processo chamado indução e da nossa capacidade de abstração, a
mente recolhe os dados particulares dos objetos e extrai deles os conceitos gerais e
universais.
• A Idade Moderna (Racionalismo vs. Empirismo):
o Descartes (Racionalismo): Num cenário de crise e dúvida no séc. XVII, Descartes
procurou uma base segura para a ciência. Usando a "dúvida metódica", chegou à sua
primeira certeza inabalável: "Penso, logo existo". Defendia que a razão é a única fonte
segura de conhecimento e que possuímos ideias inatas (nascem connosco, como a
ideia de perfeição), rejeitando a validade dos sentidos por serem enganadores.
o Locke (Empirismo): Em oposição, John Locke comparou a mente humana a um "papel
em branco" (tabula rasa). Para ele, não existem ideias inatas. Absolutamente todas as
nossas ideias derivam da experiência sensível (da sensação das coisas externas e da
reflexão interna da mente).
• Kant e a Síntese: Immanuel Kant tentou resolver o impasse entre racionalistas e empiristas.
Para ele, o conhecimento precisa de duas coisas: a matéria (os dados que vêm da experiência)
e a forma (as estruturas inatas da nossa razão/entendimento que organizam esses dados).
Sem a experiência, a razão é vazia; mas sem a razão, a experiência é cega.
• Heidegger e a Crítica à Subjetividade: Na época contemporânea, Heidegger criticou a ideia
moderna de que existe um "sujeito" isolado que olha de fora para um "objeto" (o mundo). Para
ele, a nossa relação primária não é de conhecimento isolado, mas de "Ser-no-mundo". O
mundo não está fora de nós; nós existimos e lidamos com as coisas de forma familiar e prática
antes sequer de teorizarmos sobre elas.
Mapa Mental (Estrutura)
• As Fontes do Conhecimento
o Antiguidade Clássica:
▪ Platão: Inatismo ➔ Mundo Inteligível vs. Sensível ➔ Conhecer é recordar.
▪ Aristóteles: Realismo ➔ Rejeita ideias inatas ➔ Conhecimento começa nos
sentidos (Indução/Abstração).
o Modernidade:
▪ Descartes (Racionalismo): Dúvida metódica ➔ "Penso, logo existo" ➔ Ideias
inatas e Razão pura.
▪ Locke (Empirismo): Tabula rasa (Mente em branco) ➔ Toda a ideia vem da
Experiência.
▪ Kant (Idealismo Transcendental): Síntese ➔ Experiência fornece os dados +
Razão fornece a estrutura.
o Contemporaneidade:
▪ Heidegger: Crítica à subjetividade isolada ➔ "Ser-no-mundo" ➔ Relação
prática e originária com o mundo.
Prática Modelo CEDERJ (10 Questões e Gabarito)
1. (Múltipla Escolha) Segundo Platão, o conhecimento verdadeiro é alcançado quando:
a) A nossa mente atua como um papel em branco e absorve os dados dos sentidos.
b) A alma recorda as Ideias perfeitas que contemplou no mundo inteligível antes de encarnar
(reminiscência).
c) Realizamos experiências laboratoriais para comprovar o mundo sensível.
d) Aceitamos as crenças e as opiniões da sociedade sem as questionar.
2. (Múltipla Escolha) A principal crítica de Aristóteles à teoria do conhecimento de Platão consistia
em:
a) Afirmar que a razão não tem qualquer papel no conhecimento humano.
b) Concordar que existem dois mundos, mas dar primazia ao mundo sensível.
c) Rejeitar a existência de Ideias separadas do mundo físico, defendendo que o conhecimento se
inicia na experiência sensível através da abstração.
d) Defender que o conhecimento é puramente inato e dado pelos deuses.
3. (Múltipla Escolha) René Descartes, ao formular o seu método racional, utilizou a dúvida metódica
para chegar a uma primeira certeza indubitável. Qual foi essa certeza?
a) O testemunho infalível dos nossos cinco sentidos.
b) A existência do mundo material exatamente como o vemos.
c) A experiência como única fonte de conhecimento.
d) A evidência do próprio pensamento: "Penso, logo existo".
4. (Múltipla Escolha) A afirmação de que a mente humana é, à nascença, semelhante a um "papel
em branco" desprovido de ideias, pertence a que filósofo e a que corrente de pensamento?
a) Descartes / Racionalismo.
b) Platão / Inatismo.
c) Locke / Empirismo.
d) Kant / Idealismo.
5. (Múltipla Escolha) Para Immanuel Kant, a produção do conhecimento humano depende de:
a) Exclusivamente da intuição intelectual e da razão pura.
b) Apenas dos dados fornecidos passivamente pela experiência empírica.
c) Uma conjugação entre a sensibilidade (que fornece os dados da experiência) e o entendimento
(que organiza esses dados com as suas próprias formas).
d) Uma revelação mítica que antecede o uso da razão.
6. (Discursiva) Explique a diferença fundamental entre o Racionalismo de Descartes e o Empirismo
de Locke quanto à origem das ideias.
7. (Discursiva) Como é que o Mito de Er (ou da reminiscência) ajuda a explicar a teoria do
conhecimento de Platão?
8. (Discursiva) De acordo com Aristóteles, como ocorre o processo de indução no conhecimento
humano?
9. (Discursiva) Qual foi a solução proposta por Kant para o debate histórico entre racionalistas e
empiristas?
10. (Discursiva) Segundo Heidegger, qual é o erro das teorias modernas do conhecimento (como as
de Descartes) e o que propõe com o conceito de "Ser-no-mundo"?
Gabarito:
1. B | 2. C | 3. D | 4. C | 5. C
2. O Racionalismo de Descartes defende que a razão, por si só e com as suas ideias inatas (que
nascem connosco), é a fonte segura do conhecimento, desconfiando dos sentidos. O
Empirismo de Locke, pelo contrário, rejeita as ideias inatas, defendendo que a mente é um
"papel em branco" e que todo o nosso conhecimento provém exclusivamente da experiência
sensível e da observação.
3. O Mito de Er ilustra que as almas, antes de nascerem, contemplaram a Verdade no mundo das
Ideias, mas esqueceram-na ao beberem do rio do esquecimento (Lete) na encarnação. Assim,
para Platão, o desejo de saber e o ato de aprender são, na verdade, um processo da alma a
recordar e a despertar o que já conhecia, libertando-se das ilusões do mundo sensível.
4. Para Aristóteles, o processo vai do particular para o geral. Começamos por usar os sentidos (a
sensação de objetos particulares materiais). Depois, através de uma operação mental
cumulativa (perceção, imaginação, memória), a nossa inteligência realiza uma "abstração",
separando as características específicas do objeto e extraindo o conceito geral e universal
(por exemplo, a ideia geral de "árvore" a partir da observação de várias árvores físicas).
5. Kant concluiu que o conhecimento não vem apenas da experiência, nem apenas da razão
inata. Ele propôs uma síntese: a sensibilidade (experiência) fornece a matéria ou os "dados"
do conhecimento, e o entendimento (razão) fornece a forma ou as "estruturas" que organizam
e dão sentido a esses dados. Ambos são indispensáveis para conhecermos o mundo real.
6. Heidegger criticou a visão moderna que separa o "sujeito" (uma mente isolada e teórica) do
"objeto" (o mundo lá fora que tenta ser conhecido). Com o conceito de "Ser-no-mundo",
propôs que o mundo não é algo que se junta a nós do exterior; nós já estamos imersos e
entrelaçados nele. A nossa relação primária com as coisas não é tentar compreendê-las
teoricamente de forma distante, mas sim lidar e interagir com elas de forma prática no dia a
dia.
AULA 7
• A Natureza Política do Homem: Tanto Platão como Aristóteles concordam num ponto
fundamental: o ser humano é, por natureza, um ser social. O Estado (a pólis) e as leis não são
invenções artificiais ou impostas aos homens, mas sim uma manifestação natural da essência
humana.
• Platão e a Aristocracia do Espírito: Em A República,Platão defende que a cidade ideal deve
ser governada pelos mais sábios (os filósofos), pois só quem conhece a verdadeira justiça a
pode aplicar. Isto é uma "aristocracia do espírito" (poder dos melhores em inteligência, não
em riqueza).
• A Estrutura da Alma e do Estado (Platão): Platão divide a alma humana em três partes, que
correspondem às três classes do Estado:
o Alma Desejante (baixo-ventre): Procura os prazeres sensíveis ➔ Corresponde aos
Trabalhadores/Artesãos (que sustentam a cidade).
o Alma Irascível (peito): Focada na coragem e na vontade ➔ Corresponde aos Guerreiros
(que defendem a cidade).
o Alma Racional (cabeça): Focada no conhecimento e na sabedoria ➔ Corresponde aos
Governantes (que dirigem a cidade).
A justiça ocorre quando a razão governa os desejos e a coragem.
• Aristóteles e o Animal Político: Aristóteles afirma a célebre frase: "O homem é um animal
político" (zoon politikon). Diferente das abelhas, o homem tem a palavra e a razão para
distinguir o justo do injusto. Para ele, o objetivo do Estado e da vida humana é alcançar a
felicidade (eudaimonia).
• A Justiça Distributiva (Aristóteles): Aristóteles rejeita o modelo de Platão. Para ele, uma
cidade justa depende das boas instituições e de uma correta distribuição dos bens. A justiça
distributiva consiste em "tratar de forma desigual os desiguais para os tornar iguais" (por
exemplo, cobrar mais impostos aos ricos e menos aos pobres para equilibrar a sociedade,
tendo em conta o mérito e a necessidade de cada um).
Mapa Mental (Estrutura)
• A Origem do Estado (Grécia Clássica)
o Ponto Comum: Sociabilidade natural ➔ O Estado nasce da própria natureza humana.
o Platão: * Governo: Aristocracia do Espírito (Sábios/Filósofos no poder).
▪ Estrutura: Alma Desejante (Trabalhadores) + Alma Irascível (Guerreiros) + Alma
Racional (Governantes).
▪ Foco: A virtude do dirigente traz justiça.
o Aristóteles:
▪ Natureza: O Homem é um Animal Político (Zoon Politikon).
▪ Fim Último: A Felicidade coletiva e individual (Eudaimonia).
▪ Justiça: Distributiva (dar de forma desigual aos desiguais).
▪ Foco: A virtude das instituições traz justiça.
Prática Modelo CEDERJ (10 Questões e Gabarito)
1. (Múltipla Escolha) Segundo Platão, na sua obra A República, quem deve assumir o governo da
cidade ideal e porquê?
a) Os guerreiros, pois a força militar garante a paz civil.
b) Os agricultores, porque sustentam a economia da pólis.
c) O povo através do voto, garantindo a democracia direta.
d) Os sábios ou reis-filósofos, pois possuem a alma racional e conhecem a verdadeira justiça.
2. (Múltipla Escolha) Para Aristóteles, o que diferencia o homem de outros animais gregários (que
vivem em grupo, como as abelhas) e o torna um "animal político"?
a) Apenas a capacidade de construir casas e ferramentas.
b) A capacidade de usar a razão e a palavra para perceber o bem e o mal, o justo e o injusto.
c) A força física superior para dominar a natureza.
d) A necessidade de acumular propriedades e bens materiais.
3. (Múltipla Escolha) A "justiça distributiva", tal como formulada por Aristóteles, defende que:
a) Todos devem receber exatamente a mesma quantidade de bens, independentemente da sua
condição.
b) O Estado não deve intervir na distribuição de bens, deixando o mercado atuar livremente.
c) Deve-se dar desigualmente aos desiguais, tendo em conta o mérito e as necessidades de cada um,
para os igualar.
d) Os bens devem ser distribuídos apenas pela classe dos guerreiros.
4. (Múltipla Escolha) Na teoria política de Platão, a "alma irascível ou colérica", localizada no peito e
associada à virtude da coragem, corresponde a que classe social da pólis?
a) Aos magistrados e filósofos.
b) Aos artesãos e agricultores.
c) Aos estrangeiros e escravos.
d) Aos guardiões ou guerreiros do Estado.
5. (Múltipla Escolha) Qual é o ponto fundamental de concordância entre as teorias políticas de
Platão e de Aristóteles?
a) Ambos defendem que o Estado é uma criação artificial e contratual imposta aos homens.
b) Ambos concordam que a família deve ser dissolvida para que o Estado eduque as crianças.
c) Ambos defendem a sociabilidade natural humana, ou seja, que a política e o Estado decorrem da
própria natureza do homem.
d) Ambos acreditam que a justiça se alcança exclusivamente através do mercado livre.
6. (Discursiva) O que quer dizer Platão quando defende uma "aristocracia do espírito" para o governo
da pólis?
7. (Discursiva) Explique a relação que Platão estabelece entre a estrutura da alma humana e a
organização das classes sociais no Estado.
8. (Discursiva) Qual é, segundo Aristóteles, a finalidade última do Estado e da vida humana?
9. (Discursiva) Como é que Aristóteles e Platão divergem quanto à origem da justiça na cidade?
(Dica: pense na virtude das instituições vs. virtude do dirigente).
10. (Discursiva) Dê um exemplo prático (citado no texto ou da atualidade) que ilustre a aplicação da
"justiça distributiva" de Aristóteles.
Gabarito:
1. D | 2. B | 3. C | 4. D | 5. C
2. Refere-se a um modelo de governo em que o poder não pertence aos mais ricos (aristocracia
económica) nem aos mais fortes, mas sim aos "melhores" em termos de sabedoria e
inteligência. Apenas os filósofos, com a sua rigorosa formação, teriam capacidade para
governar com verdadeira justiça.
3. Platão afirma que a pólis funciona como um corpo humano em ponto grande. O homem justo
é aquele em que a alma racional (razão) domina a alma irascível (coragem) e a desejante
(apetites). Da mesma forma, no Estado justo, a classe dos Governantes (razão) deve dirigir os
Guerreiros (coragem) e os Trabalhadores (apetites materiais), garantindo a harmonia e a
justiça social.
4. Para Aristóteles, a finalidade última (telos) tanto da vida humana como da constituição do
Estado é alcançar a felicidade coletiva e individual, designada pelo termo grego eudaimonia,
através do exercício das virtudes.
5. Para Platão, um Estado justo depende essencialmente das virtudes e da sabedoria do seu líder
(o rei-filósofo); o indivíduo sábio garante a justiça. Para Aristóteles, a justiça da cidade não
depende apenas de um líder virtuoso, mas sim das virtudes das próprias instituições (os
tribunais, as leis, o sistema de impostos, etc.).
6. Um exemplo clássico é o sistema de impostos ou o acesso à saúde: se existe uma epidemia e
o Estado consegue medicamentos, a justiça distributiva dita que o Estado deve fornecer os
medicamentos gratuitamente ou a preços simbólicos aos mais pobres, e cobrar um valor aos
mais ricos, para que ambos tenham igualdade no acesso à cura (dar desigualmente aos
desiguais).
A ideia da justiça distributiva de Aristóteles (tratar os desiguais de forma desigual para promover a
igualdade) é algo que ainda hoje está muito presente em debates sobre políticas públicas, como as
cotas sociais ou os impostos progressivos.
AULA 8
• O Contratualismo: É a teoria que defende que o Estado não surge de uma vontade divina nem
de uma inclinação natural. O Estado é um artifício criado pelos homens através de um pacto
ou contrato social, em que estes decidem abdicar da sua liberdade natural em troca de
segurança e ordem.
• Thomas Hobbes (O Estado Absoluto):
o Estado de Natureza: Para Hobbes, sem leis, os homens viveriam numa constante
"guerra de todos contra todos". A natureza humana é dominada pelo egoísmo e pelo
medo da morte violenta.
o O Contrato: Para fugir a esse caos, os indivíduos fazem um pacto: transferem todos os
seus direitos naturais e a sua liberdade para um soberano absoluto (o Estado, que ele
chama de Leviatã). O papel do Estado é usar a força para garantir a paz, a ordem e a
propriedade privada.
• Jean-Jacques Rousseau (A Vontade Geral):
o Estado de Natureza (O Bom Selvagem): Rousseau é mais otimista. Para ele, no estado
natural, o homem era o "bom selvagem" — vivia isolado, feliz, inocente e em paz com a
natureza.
o A PropriedadePrivada: O problema surge quando alguém cerca um pedaço de terra e
diz: "Isto é meu!". A propriedade privada cria a desigualdade, a inveja e a guerra (um
estado de sociedade caótico).
o O Contrato: Para resolver os conflitos criados pela propriedade privada, os homens
fazem um contrato social. No entanto, para Rousseau, o soberano não é um rei
absoluto, mas sim o próprio povo (a vontade geral). O Estado civil serve para garantir a
liberdade e a igualdade civil.
Mapa Mental (Estrutura)
• A Origem do Estado (Contratualismo)
o Ideia Central: O Estado é artificial ➔ Nasce de um Contrato Social (acordo racional
entre os homens).
o Thomas Hobbes:
▪ Estado de Natureza: Guerra de todos contra todos ➔ Medo e violência.
▪ O Pacto: Abdicação total da liberdade por segurança.
▪ O Estado: Absoluto (Leviatã).
o Jean-Jacques Rousseau:
▪ Estado de Natureza: O "Bom Selvagem" ➔ Paz e inocência.
▪ O Problema: A propriedade privada gera desigualdade e guerra.
▪ O Pacto: Submissão à Vontade Geral.
▪ O Estado: Democrático (o povo é o soberano).
Prática Modelo CEDERJ (10 Questões e Gabarito)
1. (Múltipla Escolha) A teoria contratualista opõe-se à visão de Aristóteles porque defende que:
a) O Estado surge de uma vontade divina inquestionável.
b) O homem é um animal político por natureza.
c) O Estado e a sociedade são criações artificiais fundadas num acordo ou pacto entre os indivíduos.
d) A sociedade civil apenas pode existir se for governada por filósofos.
2. (Múltipla Escolha) Para Thomas Hobbes, o "estado de natureza" humano caracteriza-se por:
a) Uma vida de harmonia, partilha e inocência.
b) Uma guerra constante de todos contra todos, motivada pelo medo e pela sobrevivência.
c) Uma organização política democrática e justa.
d) Um respeito profundo pelas propriedades dos outros.
3. (Múltipla Escolha) Segundo Jean-Jacques Rousseau, o que marcou o fim do estado pacífico do
"bom selvagem" e deu origem às desigualdades e conflitos?
a) A invenção da escrita.
b) A eleição de um monarca absoluto.
c) A instituição da propriedade privada (quando alguém cercou um terreno e disse "isto é meu").
d) A criação da Filosofia na Grécia Antiga.
4. (Múltipla Escolha) No contrato social de Rousseau, a soberania e o poder de ditar as leis
pertencem:
a) A um rei com poder absoluto.
b) À classe dos guerreiros.
c) Ao clero e à nobreza.
d) Ao povo, guiado pela "vontade geral".
5. (Múltipla Escolha) Qual é o principal motivo que leva os homens a celebrarem o pacto social na
visão de Hobbes?
a) A vontade de proteger a natureza e os animais.
b) O desejo de criar universidades e escolas públicas.
c) O medo da morte violenta e a necessidade de garantir a paz e a segurança.
d) A vontade de partilhar todos os bens de forma igualitária.
6. (Discursiva) Explique a diferença entre a origem do Estado na visão dos gregos clássicos (Platão e
Aristóteles) e na visão dos contratualistas (Hobbes e Rousseau).
7. (Discursiva) Descreva o conceito de "bom selvagem" na teoria de Rousseau.
8. (Discursiva) Porque é que Hobbes considera que, sem um Estado forte, o homem viveria numa
"guerra de todos contra todos"?
9. (Discursiva) Qual é a relação entre a propriedade privada e o surgimento do contrato social em
Rousseau?
10. (Discursiva) Contraste a ideia de "soberano" em Hobbes com a ideia de "soberano" em
Rousseau.
Gabarito:
1. C | 2. B | 3. C | 4. D | 5. C
2. Para Platão e Aristóteles, a formação do Estado e da vida em sociedade é um fenómeno
natural; o homem nasce com essa inclinação sociável. Para os contratualistas, o Estado é
artificial; o homem no seu estado natural é livre e não vive em sociedade política, sendo o
Estado criado apenas através de um contrato racional para resolver conflitos e proteger
direitos.
3. O "bom selvagem" é a ideia de Rousseau de que, no seu estado de natureza original, o homem
vivia isolado, livre, feliz, puro e inocente. Não existiam leis, nem vícios, nem desigualdades,
pois a natureza fornecia tudo o que era necessário para a sua sobrevivência pacífica.
4. Porque, para Hobbes, a natureza humana é egoísta. Num estado sem leis e sem um poder
superior que imponha respeito, todos têm direito a tudo. Como os recursos são escassos, os
homens usam a força e a astúcia para conseguirem o que querem, vivendo num estado de
desconfiança e violência constante.
5. Para Rousseau, a propriedade privada acabou com a paz do "bom selvagem", dividindo os
homens entre ricos e pobres e gerando inveja, roubos e violência (o chamado "estado de
sociedade"). O contrato social surge então como uma solução para travar este caos,
estabelecendo leis civis que garantam a ordem e a igualdade civil através da vontade geral.
6. Em Hobbes, o contrato exige que os homens transfiram todos os seus direitos para um
Soberano Absoluto (um rei ou assembleia poderosa) que está acima da lei e governa pela
força para manter a ordem. Em Rousseau, os indivíduos submetem-se à "vontade geral",
sendo o próprio Povo o soberano coletivo que cria as leis de forma democrática.