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Marcos Bagno NADA NA LINGUA E POR ACASO pedagogia do TTSe quisermos nos situar no terreno das disputas científicas, será preciso escolher a perspectiva que nos pareça mais verdadei- ra, ou capaz de fornecer maiores e melho- res explicações dos fatos de linguagem que nos interessam. Assim, se o enunciado que dá título a este livro for entendido como retomada pura e simples de uma tese cien- tífica sobre a língua, teremos de assumir, também, o outro enunciado que, logicamen- te, ele implica: "Tudo na língua se explica por regularidades". Mas se não quisermos fechar os olhos para a perspectiva do uso e a seus muitos contra-exemplos à tese de que "nada na língua é por acaso", seremos ten- tados a defender a tese oposta: "Tudo na gua é por acaso". o que implicaria acreditar que "nada na língua se explica por regulari- dades", em voluntária cegueira para as de- monstrações da imanentista. Entretanto, o contexto em que este li- vro declaradamente se situa não é o das dis- putas científicas, mas o da educação tica e de sua pedagogia. Nesse âmbito, não se trata de apostar numa tese para levar ao seu limite uma determinada pers- pectiva teórica e, assim, fazer avançar as fronteiras do conhecimento. o compromis- do educador é, antes, com a formação do aluno, com o desenvolvimento de suas ca- pacidades tanto de reflexão sobre a lingua- gem quanto de uso crítico da língua. E na medida em que língua e linguagem são par- te de nossa forma de ser e de viver, da história individual e coletiva de to- dos nós, a educação não pode deixar de ocupar-se do maior númeroEDITOR: Marcos Marcionilo CAPA E PROJETO Custódio ILUSTRAÇÕES: Renata Junqueira/ Bamboo Studios CONSELHO EDITORIAL Ana Stahl Zilles [Unisinos] Carlos Alberto Faraco [UFPR] Egon de Oliveira Rangel [PUCSP] Gilvan Müller de Oliveira [UFSC, Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela] José Carlos Sebe Bom Meihy [NEHO/USP] Kanavillil Rajagopalan [Unicamp] Marcos Bagno [UnB] Maria Marta Pereira Scherre [UFRJ, UnB] Rachel Gazolla de Andrade [PUC-SP] Salma Tannus Muchail [PUC-SP] Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB] CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Bagno, Marcos, 1961- Nada na língua é por acaso : por uma pedagogia da variação / Marcos Bagno. São Parábola Editorial, 2007. (Educação 1) Inclui bibliografia ISBN978-85-88456-62-4 1. portuguesa Estudo e ensino. 2. portuguesa - Variação - Estudo e ensino. Série. 07-0261 CDD 469.798 Direitos reservados à PARÁBOLA EDITORIAL Rua Clemente Pereira, 327 Ipiranga 04216-060 São Paulo, SP Fone: [11] 6914-4932 Fax: [11] 6215-2636 home page: www.parabolaeditorial.com.br e-mail: parabola@parabolaeditorial.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou me- cânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão por escrito da Parábola Editorial Ltda. ISBN: 978-85-88456-62-4 do texto: Marcos Bagno, 2007 da edição: Parábola Editorial, São Paulo, fevereiro de 2007Dedico este livro a Luiz Antônio Marcuschi, que me ensinou muito do que vou aprenderSumário 9 Prefácio: Tudo na língua é por acaso Egon de Oliveira Rangel Primeiras palavras & ENSINO 27 Por que tratar da variação 35 Mas que é mesmo variação 59 Por uma reeducação sociolingüística - A variação e suas sociais 87 A construção histórica de um abismo Norma- padrão: um instrumento político, um produto cultural 99 português são três A realidade do português brasileiro 119 A variação lingüistica nos livros didáticos 141 Certo ou errado? Tanto faz! vernáculo brasileiro em grande síntese 163 Como uma onda Para entender a mudança COM A MÃO NA MASSA 193 Onde está dito cujo? Pesquisar para responder 207 Camões também falava tratamento das variedades estigmatizadas em sala de aula 225 Para ler e refletir 235 Indicações de leituraTudo na língua é por acaso Egon de Oliveira Rangel começar pelo título, que inverte propositadamente o do livro, este prefácio pode ser entendido como uma provocação. No entanto, quero deixar claro desde já: não estou questionando a verdade ou a validade das teses aqui defendidas, mas propondo um jogo de observação. Há, sem dúvida, uma posição que permite ao obser- vador dizer, diante dos fatos de linguagem, que "nada na língua é por acaso". Quem observa a língua nessa perspectiva "vê", e com muita nitidez, as leis, as regularidades, a lógica, enfim, que explica como e por que os fatos de língua são como são. Portanto, não há como tal como dizia Saussure, "é o ponto de vista que cria o objeto". Assim, o jogo que proponho é, antes de mais nada, um exercício do Ao fazer a afirmação que acabo de citar, o pai da queria explicitar algo de extrema importância, que com esquece- mos: aquilo que se "vê" e se toma como objeto de estudo, numa ciência qualquer, depende, em boa medida, do lugar de onde se olha a realidade que nos cerca e, em especial, a paisagem que nos interessa. Esse "lugar" de onde olhamos não é, evidentemente, um espaço físico, mas um ponto preciso de nossas crenças, determinado por coordenadas como: os objetivos de todo tipo com que nos lançamos à aventura do conheci- mento; os muitos e variados pressupostos que assumimos como ponto de partida; Tudo na é por acaso 9as estratégias que criamos para explorar os territórios que nos inte- ressam; os instrumentos que utilizamos nas mais diversas empreitadas. Há, portanto, um ponto de vista que nos permite enxergar, no funcionamento da língua, não o acaso, mas o seu oposto, os fatos que se explicam pela ação de diferentes leis ou regras. preço a pagar por essa perspectiva, chamada imanente, é o de uma abstração radical, que isola a forma de tudo aquilo que, na vida real, está associado a ela: os interlocutores, a situação imediata de comunicação, o contexto histórico-social em que se dá discur- SO, o próprio texto. É esse ponto de vista que nos permite entender e descrever a lógica subjacente tanto às constantes quanto às variações nas formas Nessa perspectiva, as diferenças observadas na pronúncia, na forma de no- as coisas do mundo, nos modos de dizer, e que muitas vezes deixam os usuários de uma língua entre perplexos e curiosos afinal, até que ponto uma língua pode variar e permanecer a mesma? realmente não são ca- suais. De certa forma, todas essas variantes são previsíveis, pois se definem com base em parâmetros estabelecidos pela estrutura da própria língua. E é exatamente a percepção e o estudo cuidadoso da variação que nos revelam esses padrões, evidenciando, assim, a gramática profunda da língua, em suas constantes e em suas variações possíveis. É nessa perspec- tiva, também, que a mudança se mostra, não como fruto do acaso ou mesmo dos movimentos, necessidades e percalços vividos pela comuni- dade em questão, mas como o desdobramento regular e previsível de uma potencialidade da própria língua. Esse ponto de vista está solidamente estabelecido nas ciências da lingua- gem, e goza de bastante prestígio intelectual. Afinal, foi com ele que Saussure fundou a contemporânea como ciência, delimitando claramente, no conjunto heterogêneo dos fatos de linguagem, um objeto ao mesmo tem- po passível de análise e capaz de explicar a natureza, o funcionamento, a variação e a mudança de uma língua. Como sabemos, esse objeto é o que Saussure chamou de língua, entendendo por isso o sistema de relações que, num idioma, se manifesta na organização de seus diferentes níveis, da fonologia à semântica. Esse sistema abstrato, mas compartilhado por toda uma comunidade se opõe à fala, ou seja, ao uso concreto e indivi- dual que dá vida ao idioma. Egon de Oliveira RangelAssim, o que o (e também o falante) "vê" diante de si é a fala, ou seja, o idioma em uso, envolvendo todo tipo de falante, nas mais diversas situações, com modos de dizer bastante distintos, em textos os mais varia- dos. Mas o que ele toma como seu objeto de estudo é, apenas e tão-somen- te, sistema de relações que subjaz a todos e a cada um dos atos de fala que observa. Mais ou menos como um antropólogo que, diante de fatos sociais como casamento ou o funeral, na cultura que está estudando, procura en- tender, pela observação direta desses rituais, não cada evento que ele teste- munha, mas as regularidades que definem todos e cada um desses atos sociais concretos como um mesmo tipo de ritual. Desde então, esse ponto de vista abstrato e formal tem sido o principal res- ponsável pela identidade pública da ainda que o campo das ciên- cias da linguagem também abrigue, hoje, pontos de vista diferentes e mesmo conflitantes entre si. Por outro lado, é esse ponto de vista que Marcos Bagno, já no título de seu livro, reivindica para o tratamento da variação lingüística: (...) a demonstra que todas as formas de expressão verbal têm organiza- ção gramatical, seguem regras e têm uma lógica perfeitamente Ou seja: nada na língua é por acaso. De fato, se encararmos cada dialeto de uma língua como um conjunto de formas de expressão verbal dotadas de uma lógica perfeitamente demonstrável ou seja, de uma gramática própria nenhum argumento poderá desqualificar, por supostamente não ter gramática (e, portanto, ser inferior e condenável), seja qual for o dialeto. Nesse passo, o ponto de vista imanente de fato nos fornece instrumentos adequados para denunciar o pre- conceito e a discriminação, uma vez que dá a qualquer dialeto o falar popular e o falar culto, por exemplo o mesmo estatuto. No entanto, podemos examinar a língua também nos situando em outros lugares. Um deles é o da história, o ponto de vista que nos permite enxergar os acontecimentos e a sua singularidade. No sentido em que emprego o ter- mo aqui, um acontecimento não é, nunca, a pura e simples realização de uma lei ou um caso entre outros de uma regularidade, mas um fato que interessa exatamente por ser particular, único, ainda que explicável a posteriori. A título de exemplo, a maçã que cai de uma árvore não é um acontecimento: explica-se totalmente por leis naturais, é previsível e se repete infinitamente, em qualquer lugar do mundo, sempre que as condições necessárias se reú- Tudo na é por acasonem. No entanto, a queda daquela que, de acordo com a lenda, caiu na cabeça de Newton e provocou a descoberta e a formulação da lei da gravida- de é, sim, um acontecimento: não se deu como um caso entre outros de uma regra (já que não há qualquer lei, natural ou humana, capaz de prever como e quando se dará esta ou aquela descoberta); se insere em um contexto cultural (no caso, o da física clássica) que lhe dá sentido e identidade; é singular e, como tal, jamais se repete; a ponto, neste caso, de poder constituir-se num marco da história da humanidade. Ora, como todo fato humano, e a despeito da abordagem imanente, a língua só existe em uso e, portanto, na história. Cada uso da língua, cada uma de suas variações e até mesmo cada ato individual de fala, é, nesse sentido, um acontecimento, exatamente como aqueles outros que, por sua importância cultural, viram notícia ou se tornam marcos históricos. Evidentemente, um acontecimento como o discurso do minis- tro Guido Mantega anunciando em janeiro de 2007 o Programa de Acelera- ção do Crescimento (PAC) não é indiferente à forma Se está formulado num idioma como o português brasileiro, se diz o que diz valendo- se dos recursos próprios dessa língua, certamente deve um tributo ao siste- ma correspondente; mas não se explica pelas leis da gramática do português, e sim pelas imprevisíveis demandas de comunicação e expressão que a vida em sociedade implica. Nesse sentido, todo discurso, todo uso que fazemos da língua vale-se de um sistema mas não é o sistema, nem se esgota nas formas que mobiliza. Assim, conhecer o siste- ma dos tempos verbais do português é fundamental para entender a oposi- ção que, em seu discurso, o ministro estabelece entre passado recente de estagnação econômica, o presente das iniciativas governamentais anuncia- das e o crescimento pretendido. Mas não explica a crítica aos governos ante- riores, a afirmação do atual governo e a promessa de prosperidade que, res- pectivamente, os tempos do passado, do presente e do futuro assumem nes- se mesmo discurso. Como todo acontecimento, qualquer uso da língua se individualiza por idiossincrasias do locutor e/ou de seu interlocutor, da situação em que se encontram, da cultura de que participam, da época em que vivem. E assim, 12 Egon de Oliveira Rangelcada uso da língua envolve um conteúdo e uma forma próprios, produzindo efeitos de forma e de sentido (como os efeitos estilísticos, por exemplo) que, mesmo particulares, podem afetar a própria língua. Assim como uso do cachimbo deixa a boca torta, segundo o ditado popular, os usos da agem sobre ela: criam formas de expressão novas para novas situações; ativam possibilidades nunca dantes exploradas e até então consideradas agramaticais como o "imexível" do ex-ministro Magri ou as criações de Rosa e de outros escritores; dão a certas expressões o estatuto de modelos, criando fórmulas pron- tas, expressões idiomáticas, elegem, entre um certo número de realizações possíveis, uma que, mes- mo não sendo exclusiva, será preferencial (como dizer "João e Maria", evitando "Maria e João"); e assim por diante. Nesse sentido, a mudança por exemplo, não se explica apenas por- que estava prevista no sistema, mas também porque o uso fez suas escolhas entre as variantes existentes, estabeleceu valores, "forçou a barra" numa de- terminada direção, tornou gramaticais recursos que eram pura expressão indi- vidual, transformou em agramaticais usos até há pouco canônicos. Assim, é possível dizer que a história da língua, entendida como a trajetória dos usos da língua num determinado contexto cultural, se opõe à pura e simples diacronia, ou seja, à sucessão cronológica das formas que configuram o sistema em diferentes momentos. Mas é possível dizer ainda mais: cada sucessão diacrônica supõe mas, ao mesmo tempo, esconde uma história da língua. Isso por- que cada mudança se estabelece pelo uso e se dá em meio a inten- SOS e muitas vezes conflituosos movimentos sociais, que no entanto vêm apa- gados pela série diacrônica de formas que se sucedem. Da mesma forma, a variação sincrônica da língua se explica também pela vida da comunidade sua distribuição geográfica peculiar, os gru- pos, camadas ou classes sociais que a conformam, as atividades que geram demandas diversas de expressão e comunicação. Nesse sentido, a língua é servidora de muitos patrões, e certamente não presta os mesmos serviços para cada um deles, nem aparece como igual a si mesma para a comunida- de como um todo. No entanto, numa abordagem puramente for- mal da variação, a geografia, a sociologia e as atividades humanas que moti- Tudo na lingua é por acaso 13vam e sustentam as variantes de uma língua tendem a desaparecer, reduzi- das a "tipos" de variação. Convém, portanto, repetir: o que caracteriza o uso como aconteci- mento é o fato de ele não se reduzir à simples ocorrência de uma lei geral. Por isso mesmo, se fixamos a devida atenção no uso efetivo da língua por seus falantes, no interior da comunidade (sem a qual não há língua nem lin- guagem), o sistema abstrato de regras que torna possível cada ato de fala não desaparece. Mas certamente deixa o centro da cena. E o que então podemos ver com clareza é o discurso; e o discurso, em sua radical singula- ridade, constitui-se não como unidade particular de um sistema, mas como um documento irredutível: de um determinado estágio da língua; de condições de produção específicas, ou seja: da conjuntura situacional, histórica, social e mesmo psicológica em que esse discurso tem lugar; dos sujeitos direta e indiretamente envolvidos e manifestos no corpo do discurso pelas suas diferentes vozes; das estratégias e recursos mobilizados, tanto para a produção do discur- como texto quanto para a obtenção dos efeitos de forma e de sentido pretendidos; de um estilo, seja de época, seja individual. É nessa outra perspectiva que somos tentados a dizer: tudo na língua é por acaso. Não porque uso seja arbitrário e/ou inexplicável, mas porque o sentido, o modo e a razão de ser de cada discurso só se revelam se integrados em seu heterogêneo contexto cultural de origem. Os usos da língua integram esse contexto; são, de alguma forma, constitutivos dele. Atravessado por conflitos de toda ordem (econômicos, políticos, étnicos etc.) o que é próprio de toda e qualquer cultura esse contexto pode e deve ser estudado e entendido em sua dimensão na medida em que é exatamente esse contexto que dá ao discurso seu caráter documental. Mas jamais se reduzirá ao desenvolvi- mento regular do que já estava em germe na própria língua, e aparecerá, an- tes, como uma complexa rede de relações entre fatos heterogêneos que com- uma conjuntura discursiva impossível de prever. Duas perspectivas opostas de estudo da língua estão, portanto, em jogo. De um lado, a que privilegia a forma a gramática, em seus diferentes níveis, e o léxico, em seus muitos campos semânticos. De outro lado, a que 14 Egon de Oliveira Rangeltem o uso como mira: a interação as condições de produção do discurso, os objetivos e as estratégias dos usuários, os efeitos de sentido e de forma que incidem sobre a cultura e sobre a própria língua. Se quisermos nos situar no terreno das disputas científicas, será preciso esco- a perspectiva que nos pareça mais verdadeira, ou capaz de fornecer maio- res e melhores explicações dos fatos de linguagem que nos interessam. Assim, se o enunciado que dá título a este livro for entendido como retomada pura e simples de uma tese científica sobre a língua, teremos de assumir, também, o outro enunciado que, logicamente, ele implica: "Tudo na língua se explica por regularidades". Mas se não quisermos fechar os olhos para a perspectiva do uso e a seus muitos contra-exemplos à tese de que "nada na língua é por acaso", seremos tentados a defender a tese oposta: "Tudo na língua é por acaso". que implicaria acreditar que "nada na língua se explica por regularidades", em volun- tária cegueira para as demonstrações da imanentista. Entretanto, o contexto em que este livro declaradamente se situa não é o das disputas científicas, mas o da educação e de sua pedagogia. Nes- se âmbito, não se trata de apostar numa tese científica, para levar ao seu limite uma determinada perspectiva teórica e, assim, fazer avançar as fron- teiras do conhecimento. compromisso do educador é, antes, com a forma- ção do aluno, com desenvolvimento de suas capacidades tanto de reflexão sobre a linguagem quanto de uso crítico da língua. E na medida em que lín- gua e linguagem são parte de nossa forma de ser e de viver, da história individual e coletiva de todos nós, a educação lingüística não pode deixar de ocupar-se do maior número possível de suas facetas, em especial aquelas mais envolvidas na vida social. Mas se não precisa nem deve escolher uma única perspectiva teórica, no trabalho de formação do aluno, a educação não pode tratar as diferentes abordagens da língua e da linguagem fora de seus contextos teó- ricos. Trata-se, portanto, de não alhos com bugalhos nem comprar gato por lebre. Afinal, se é verdade que o ponto de vista cria o objeto, a melhor forma de levar alguém a ver e assimilar um determinado objeto de estudo talvez a única forma pedagogicamente legítima é conduzi-lo ao adequado posto de observação, ao próprio ponto de vista, portanto. 0 que significa que uma das principais tarefas da educação é exercitar o olhar do aluno e a sua capacidade de refletir a respeito, levando-o a perceber o quan- to o lugar em que ele se situa (muitas vezes sem saber) lhe permite descortinar Tudo na é por acaso 15uma determinada paisagem, mas o cega para outras. Como diria José Saramago, num depoimento ao filme Janelas da alma, se quisermos ter uma idéia mais complexa e global de um objeto, "há que se lhe dar a volta". Até, acrescento eu, para podermos escolher conscientemente que nos pareça o melhor ponto de vista. Nesse sentido, acredito que os dois enunciados que explorei neste prefácio podem e a meu ver devem ser entendidos não como teses, mas como palavras de ordem: dois lembretes para aspectos da língua que convém não esquecer, pela importância que assumem em nossos compromissos cotidianos com a própria língua e com a linguagem, pela con- tribuição única que podem dar ao nosso necessário exercício do olhar. Será, sim, preciso que o educando perceba as regularidades dos fatos de lingua- gem, seja para entender algo fundamental do modo de ser próprio da(s) língua(s), seja para afastar os julgamentos equivocados e discriminatórios da diversidade Mas será igualmente necessário estar atento a fenô- menos que, também pertencendo de fato e de direito à língua e à linguagem, extrapolam a regra e a forma abstrata, inscrevendo-se no âmbito da política, da cultura e da história. Tal como o "sempre alerta" dos escoteiros, essas palavras de ordem apontam para dimensões da língua que o educando pre- cisa não só perceber mas refletir a respeito, até para desenvolver-se melhor como usuário crítico. Entre o acaso dos usos e as regularidades da gramática, o espaço da lingua- gem revela-se, então, tanto um desdobramento previsível de formas da gua quanto a realização imprevisível da expressão e da comunicação que a vida em sociedade demanda. Talvez seja prudente, assim, que o educador, em nome de seus compromissos pedagógicos, aposte, sem prejuízo do rigor e do vigor das boas disputas científicas, que nem tudo na língua é por acaso. Ou que nem tudo na língua é regularidade. Egon de Oliveira RangelPrimeiras palavras "Se, como resultado da intervenção dos tema da varia- ção acabou incorporado pelo discurso pedagógico, podemos dizer que não conseguimos ainda construir uma pedagogia adequada a essa área. Talvez porque não tenhamos ainda, como sociedade, discutido suficientemente, no espaço público, nossa heterogênea realidade nem a violência simbólica que a atravessa." ALBERTO eu interesse pelos livros didáticos de português já existia na época da elaboração de minha dissertação de mestrado, em que eu analisava, na perspectiva da Socio- o tratamento dado aos fenômenos fonético- fonológicos em cinco coleções das quatro séries iniciais do ensino. Nesse trabalho tive a orientação precisa e exigente de Maria da Piedade Moreira de Sá, desde então uma queridíssima amiga, na Universida- de Federal de Pernambuco, onde me orgulho de ter estudado, já que se trata sem dúvida de um dos centros de pesquisa mais importantes hoje, no Brasil, no campo das ciências da linguagem. Esse período de minha formação (1991-1995) coincidiu com o início do Pro- grama Nacional do Livro Didático (PNLD), por meio do qual o Ministério da Educação passou a analisar e a avaliar os livros que seriam comprados e distribuídos para as escolas públicas de todo o Brasil. Assim, ao tomar os livros didáticos de português como objeto de pesquisa, eu estava participan- do, sem saber, de um grande movimento que teria forte impacto sobre as C.A. Faraco, "Por uma pedagogia da variação texto a ser publicado em 2007 pela Parábola Editorial no livro Linguagem, teoria & ensino: relevância social da e que, em grande medida, motivou a produção deste meu livro, cujo "por uma peda- gogia da variação ecoa propositadamente este brilhante artigo de Faraco. Primeiras palavraspolíticas educacionais brasileiras. De fato, desde sua primeira edição, o PNLD vem provocando uma transformação radical na cultura do livro didático em nosso país. Vencida a resistência inicial das grandes empresas editoriais, e também a de muitos autores que se recusavam a incorporar naquelas obras uma nova filosofia de ensino-aprendizagem que substituísse a velha prática da transmissão mecânica de conteúdos tradicionais, sem apelo à participação ativa-criativa do aprendiz (e do docente) é possível dizer que o material didático disponível hoje no mercado brasileiro apresenta inegáveis qualidades, sobretudo em comparação com o que se produzia antes. Mais recentemente, as circunstâncias da vida profissional me levaram a participar diretamente do PNLD, a conhecer de perto seus enormes desa- fios e as diferentes etapas do processo árduo e trabalhoso, é verdade, mas também gratificante pelo contato estreito com a realidade educacional brasileira que ele permite aos profissionais nele engajados, bem como pela fonte inesgotável de pesquisa e reflexão em que ele se converte. Com isso, tenho podido verificar que, no campo específico da educação em língua materna, muitos avanços positivos têm sido feitos no esforço de incorporação adequada, ao material didático, de alguns conceitos fun- damentais como letramento, gênero textual, discurso, intertextualidade, coesão e coerência, oralidade, condições de produção da escrita, refle- xão etc. No entanto, quando o assunto é variação o tratamento oferecido pela maioria dos livros didáticos ainda deixa muito a desejar. Isso se deve, provavelmente, à inexistência, entre nós, de boas obras de divulgação dos conceitos básicos da Sociolingüística para não falar da inexistência de traduções das obras clássicas da área. o que encontramos são bons traba- lhos acadêmicos que aplicam, criticam, desenvolvem e reelaboram os con- ceitos e a metodologia da mas nenhum que tente oferecer a um público mais amplo, de não-iniciados, uma versão ao mesmo tempo aces- sível e abrangente dos postulados centrais da disciplina. Problemas também ocorrem quando muitos pesquisadores dos campos da linguagem e da educação, preocupados essencialmente com questões lin- se arriscam a tratar de fenômenos de ordem primordialmente ciológica, sem o aparato teórico e os instrumentos de análise das ciências sociais que esse empreendimento exige. Se a Sociolingüística ainda tem di- vulgação restrita no Brasil, a Sociologia da Linguagem a disciplina que de 18 Nada na é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoLD fato se ocupa das sociais, culturais e políticas da variação e em da mudança é praticamente uma desconhecida. Lingüistas e e educadores sem formação sociológica adequada acabam produzindo, ainda las que com a melhor das intenções, análises equivocadas que são incorpora- ha das de forma distorcida pelos não-especialistas e repetidas como argumen- à tos de autoridade científica, sobretudo por parte de autores de material didá- ue tico, agentes educacionais, formuladores de políticas públicas, jornalistas e eis comunicadores em geral. Alguns desses equívocos são, por exemplo: o emprego indiscriminado das expressões norma-padrão e norma culta, a como se fossem sinônimas, quando de fato não são; sa- o uso acrítico do adjetivo culto ("português culto", "língua culta", "falante de, culto" etc.), silenciando-se a forte conotação ideológica e o preconceito nal social que ele carrega; a idéia de que existe uma uma ou um quando o que de fato existe é uma norma-padrão no sentido mais jurídico do termo norma que não é língua, nem dialeto, nem variedade, já que não é falada (nem mesmo escrita) por ninguém, e não existe língua, dialeto nem variedade sem falantes reais; decorrente do anterior, a divisão da realidade brasileira em dois pólos ("norma VS. "norma popu- entre outros termos empregados), como se a do norma-padrão fizesse parte do espectro contínuo de variedades cas reais, empiricamente coletáveis, quando de fato ela não faz parte da língua, no sentido que a Sociolingüística dá ao termo língua (um feixe de de variedades): a norma-padrão é um construto sociocultural, portador- perpetuador de uma ideologia muito mais até do que um guia normativo para se falar e escrever "corretamente"; a ainda por conta do mesmo a atribuição de diversos usos não- es- normativos apenas à "língua popular", quando esses mesmos usos tam- bém comparecem fartamente na fala e na escrita dos "falantes cultos", inclusive na escrita mais monitorada; da a equiparação de "língua falada" a "informalidade", e de "língua escrita" a "formalidade", como se não existissem usos falados formais e usos escri- tos informais, como se não houvesse um amplo espectro de variação estilística pontuado pelos múltiplos gêneros textuais que circulam na ciedade, como se a heterogeneidade intrínseca da língua não se manifes- de tasse também na escrita; Primeiras palavras 19a atribuição de "variação" somente aos grupos sociais não-urbanos, po- bres e não-escolarizados, como se a língua falada nas grandes cidades pelos cidadãos de classe média e alta não apresentasse diferenças com relação ao padrão estabelecido pela tradição normativa; a perpetuação do mito do monolingüismo do Brasil (a surrada tese da "unidade na diversidade"), numa ocultação perniciosa do nosso e dos complexos problemas socioculturais que o envolvem; a resistência daquele mito) ao reconhecimento das ca- racterísticas próprias do português brasileiro como decorrentes do con- tato da língua portuguesa com outras línguas (americanas, africanas, eu- ropéias e asiáticas), e do uso do português por parte dos falantes dessas outras línguas; etc. Tais problemáticos em si mesmos, uma vez transpostos para ou- tros setores da sociedade, fora do mundo acadêmico como por exemplo, a mídia geram distorções ainda maiores e mais graves, transformando-se em rematadas inverdades, no entanto repetidas diariamente nos grandes meios de comunicação, com danosas repercussões no ambiente escolar: "os lingüistas são favoráveis ao vale-tudo na língua" mentira! "eles apregoam a inutilidade do conhecimento da tradição normativa" balela! "os lingüistas defendem o uso da 'linguagem popular' ou em to- das as instâncias de interação social falada ou escrita" calúnia! "eles negam a necessidade de aprendizado, por parte das classes desfavorecidas, das formas prestigiadas de falar e de escrever" lorota! "os lingüistas aplaudem o uso irrefreado de termos estrangeiros no coti- diano" piada de mau gosto! "os lingüistas recomendam jogar no lixo todas as gramáticas e dicioná- rios" conversa fiada! Uma breve revisão do que tem sido publicado na imprensa brasileira nos últimos quinze anos sobre língua e ensino de língua mostra o quanto de incompreensão e intolerância reina neste campo tão importante das rela- ções sociais e da conquista da cidadania. É uma lástima sermos obrigados a reconhecer que a mídia brasileira tem prestado um desastroso desserviço no que diz respeito ao esclarecimento da opinião pública acerca dos proble- mas da educação em nosso país. Textos de inacreditável obscu- 20 Nada na lingua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãorantismo (e de confesso conservadorismo ideológico) aparecem a todo mo- mento nos jornais, nas revistas, na internet muitas vezes assinados por intelectuais de renome, como escritores e gramáticos famosos para não mencionar os apresentadores de programas de televisão e de rádio que esbravejam contra os lingüistas "deslumbrados", "vagabundos", "ociosos", "esquerdistas de meia-pataca" e "defensores do vale-tudo" E mesmo quando algum jornal ou revista consulta um especialista em questões de linguagem, o texto que sai publicado distorce, deturpa, quando não ironiza e ridiculariza abertamente o depoimento do entrevistado. Como bem escreveu lingüista Sírio Possenti: "Ouvir o comentário de um inte- lectual ou de um jogador de futebol sobre a questão [da língua] é exatamente a mesma jogador de futebol, quase sempre de origem social humil- de e sem acesso às práticas de letramento mais prestigiadas, não podemos cobrar o conhecimento dos avanços da pesquisa acadêmica no campo da linguagem; mas ao intelectual (e rótulo se aplica perfeitamente ao jornalista), sobretudo àquele que se atribui o direito de criticar e combater as posições dos lingüistas, não podemos perdoar a leviandade com que discute assunto tão complexo como o das relações sem se dar ao trabalho mínimo de ler os textos básicos deste campo de investigação. Quase sempre fica difícil distinguir, nessas manifestações da os limites entre a ignorância e a má-fé... É curioso como jornalistas e intelectuais em geral, quando abordam outros campos de conhecimento física, astronomia, biologia, medicina, engenharia etc. não se atrevem a dar opiniões pessoais nem a contestar as declarações dos especialistas, por reconhecerem ali áreas de saber complexas, que exigem longos estudos teóricos e muita pesquisa científica de quem atua nelas. Mas quando o assunto é língua, julgam eles, basta abrir qualquer gramática normativa e reproduzir os conceitos ultrapas- sados e errôneos estampados ali como se fossem dogmas incontestáveis. Da junção de tantos equívocos involuntários e de deliberadas distorções nas- ceu o mito (ou melhor, a superstição) de que os lingüistas são partidários do relativismo, uma vez que criticam as noções de "certo" e de "errado" que se cristalizaram em nossa cultura A este respeito, são esclarecedoras as palavras de Carlos Alberto 2 S. Possenti, "Apresentação" ao primeiro dos três volumes da série Introdução à organizada por Fernanda Mussalim e Anna C. Bentes (São Paulo: Cortez, 2001, p. 12). 3 C.A. Faraco, ibidem. Primeiras palavras 21[...] não há em língua um padrão absoluto de correção (válido para todas as circuns- tâncias), mas apenas padrões relativos às diferentes circunstâncias (daí os lingüis- tas afirmarem que a "propriedade" é mais importante que a correção). Se esse é um postulado clássico entre os lingüistas, sua apreensão social (dentro e fora da escola) continua envolta em muita confusão. E o núcleo do problema parece estar num gesto que lê onde se deve ler 'relativo a'. Ou seja, os lingüistas são acusados de relativistas porque segundo os acusadores defendem que "tudo vale na língua", quando, de fato, jamais afirmam isso. o que suas descrições efeti- vamente mostram é que os falantes variam sistemática (e não aleatoriamente) sua expressão e tomam como baliza, não um padrão absoluto de correção, mas crité- rios de adequação às circunstâncias. Nesse sentido, os fenômenos não são relativos, mas relativos às circunstâncias. Este livro resulta de um projeto pessoal de combate a toda forma de discrimi- nação por meio da linguagem e, por extensão, a toda e qualquer forma de exclusão social. Como o acesso dos cientistas da linguagem aos meios de comunicação é mínimo, quase nulo tudo o que a nossa mídia faz, no que diz respeito à língua, é repetir incansavelmente idéias ultrapassadas, surgidas an- tes de Cristo e abandonadas pelas ciências da linguagem há no mínimo cem anos o principal foco de ação para uma transformação das concepções que vigoram na sociedade tem de ser a escola até porque, em grande medida, ela foi, ao longo dos séculos, a principal agência transmissora e reprodutora dessa ideologia arcaica e pré-científica. Se a Sociolingüística tem um papel a desempenhar na educação dos cidadãos brasileiros, esse papel é de reconhecimento da heterogeneidade intrínseca da sociedade brasileira e, portanto, da inescapável heterogeneidade da nossa realidade Um reconhecimento que não pode ficar na simples constatação, mas que tem de incorporar também uma instância de crítica e questionamento das crenças estabelecidas e, sobretu- do, de militância na reivindicação do direito que tem toda e qualquer pessoa com cidadania brasileira de falar e escrever a(s) sua(s) língua(s) materna(s), do jeito que ela(s) existe(m) hoje, no século XXI, e não como quer uma ideolo- gia autoritária e excludente, imposta séculos por uma potên- cia colonial escravagista... subtítulo deste livro "por uma pedagogia da variação as- sume, portanto, o desejo de contribuir para um conhecimento mais preciso, mais solidamente embasado dos postulados da Sociolingüística e para a sua incorporação serena e firme nos processos de educação Nesse sentido, um de meus objetivos é fornecer aos professores subsídios teóricos 22 Nada na lingua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoque os estimulem a participar criticamente de uma discussão que livro didático nem sempre considera e que, muitas vezes, trata de forma simplista. Como, no que diz respeito à educação, o aspecto mais importante da variação é, sem dúvida, a complexa rede de sociais, culturais e políticas que ela suscita, e pelas quais ela também é suscitada, os instru- mentos de análise da Sociologia da Linguagem serão privilegiados nas páginas a seguir, no esforço de preencher a falha sociológica tão visível nos estudos brasileiros em geral. Uma vez que não é meu desejo aqui entrar na discussão (a meu ver, bizantina e infrutífera) sobre o que é ou não é Sociolin- o que é ou não é Sociologia da Linguagem, usarei rótulo geral de Sociolingüística para designar toda e qualquer abordagem do fenômeno língua que leve em primeiríssima conta os falantes dessa língua, isto é, seres huma- nos de carne e participantes-construtores de uma sociedade dividida em classes, imersos em toda sorte de conflitos sociais, sujeitos-objetos de toda sorte de disputas de poder, portadores-recriadores de uma cultura (por sua vez subdividida em muitas subculturas), movendo-se num espaço-tempo social- mente hierarquizado, e herdeiros de uma história, que são muitas... Todos os projetos da minha vida profissional e principalmente os textos que escrevo se apóiam num conjunto de fundamentos éticos, políticos e epistemológicos que me foram transmitidos por algumas pessoas que, sem saber, mudaram os rumos do meu jeito de ser, pensar e agir. Entre outros nomes que poderia citar se destacam os de Magda Soares, Stella Maris Bortoni-Ricardo, Maria Marta P. Scherre, Irandé Antunes, Luiz Antônio Marcuschi, Carlos Alberto Faraco, Rodolfo Ataliba T. de Castilho e Manoel Luiz Gonçalves Corrêa alguns destes se inscrevem na minha gratidão pelo contato direto ocasionado pelo privilégio que tive de ser seu aluno; outros, por terem escrito (e ainda escreverem) textos que transformaram definitiva- mente meu modo de ver e analisar as questões e educacionais; os demais, por me presentearem também a pedra preciosa de sua amizade. Deixo aqui impresso o meu sincero reconhecimento. título deste livro me ocorreu quando, a convite de Maria Lúcia Castanheira ("Lalu"), uma das pessoas mais adoráveis que tem neste mundo, fui proferir, em maio de 2006, uma palestra no CEALE Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Faculdade de Educação da UFMG, decerto um dos pólos mais importantes de pesquisa e ação em educação hoje no Brasil. Aca- bei reapresentando e desenvolvendo as mesmas idéias numa dezena de outras Primeiras palavras 23atividades, naquele mesmo ano, em várias cidades de diferentes regiões. As- sim, o título Nada na língua é por acaso se impôs, junto com o desejo de divulgar para um público ainda mais amplo o que a Sociolingüística tem a oferecer para a pedagogia da língua materna. Faço aqui, portanto, meu agra- decimento à Lalu ter favorecido, com seu convite, a produção deste livro e desde já quero isentá-la, obviamente, de qualquer responsabilidade pe- los eventuais problemas e inevitáveis falhas que a obra apresenta. Meu reconhecimento, mais uma vez, vai para os meus editores, Andréia Cus- tódio e Marcos Marcionilo, que prontamente acolheram este projeto, nova etapa de uma luta pela conquista de uma plena democracia no Brasil. o livro ganhou muito com as ilustrações de Renata Junqueira, a quem fico devendo mais esta colaboração. Agradeço também a Egon de Oliveira Rangel por ter me convidado a entrar na excitante "operação de guerra" que é o PNLD e, antes de tudo, por ter me aberto as portas de seu coração generoso. Marcos www.marcosbagno.com.br 24 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoPARTE variação, mudança ensinoPor que tratar da variação A mudança na concepção de ensino m 1997, o Ministério da Educação publicou uma coleção de do- cumentos intitulados Parâmetros Curriculares Nacionais. Neles estavam reunidas propostas para a renovação do ensino nas es- colas brasileiras, e todas as disciplinas foram contempladas língua portuguesa, matemática, história, geografia, ciências etc. Abrindo os PCN (sigla com que ficaram conhecidos) de língua portuguesa dedicados às séries iniciais do ensino fundamental a a gente encon- tra, na p. 26, o seguinte trecho (realces nossos): A Língua Portuguesa, no Brasil, possui muitas variedades dialetais. Identifi- cam-se geográfica e socialmente as pessoas pela forma como falam. Mas há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar: é muito comum considerar as variedades ticas de menor prestígio como inferiores ou erradas. o problema do precon- ceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser en- frentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de edu- cação para o respeito à diferença. Para isso, e também para poder ensinar Língua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que exis- te uma única forma "certa" de falar a que se parece com a escrita e o de que a escrita é o espelho da fala e, sendo assim, seria preciso "conser- tar" a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas duas crenças produziram uma prática de mutilação cultural que, além de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos, por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico. Mas que é mesmo variação 27Esse parágrafo já é suficiente para que a gente identifique nesse documento oficial uma impor- tante mudança na concepção de ensino de gua nas escolas brasileiras. Embora trazen- do a data de 1997, esse texto na verdade revela o impacto produzido, na política edu- cacional, por uma ampla discussão que já vinha sendo empreendida nas universidades brasileiras desde pelo menos vinte anos an- tes da publicação dos PCN. Ao lado de outros aspectos igualmente impor- tantes para a renovação do ensino de língua no Brasil, os PCN introduziram alguns concei- tos até então pouco conhecidos na prática do- cente, conceitos provenientes de uma disciplina relativamente nova dentro dos estudos da lin- A Sociolingüística surgiu nos Esta- guagem, a Sociolingüística. Observe, por dos Unidos em meados da década de exemplo, que o trecho citado acima traz, logo 1960, quando muitos cientistas da linguagem decidiram que não era na primeira linha, a expressão variedades dia- mais possível estudar a língua sem letais. Esse é um conceito fundamental da So- levar em conta também a sociedade ciolingüística. Mas o que significa? É o que a em que ela é falada. estudo da variação e da mudança na perspecti- gente vai procurar ver neste livro. va sociolingüística foi impulsionado sobretudo por William Labov (nasci- impacto dessa nova concepção de ensino é, do em 1927), que se tornou nome sem dúvida, muito positivo. No entanto, como tudo mais conhecido da área. o que é novo, ela precisa vencer pelo menos dois grandes obstáculos: (1) a resistência das pessoas Estatísticas oficiais do Ministério da muito apegadas às concepções antigas e às prá- Educação revelam que mais de 85% ticas convencionais de ensino, e (2) a falta de for- dos docentes de língua portuguesa no Brasil são do sexo feminino. Por isso, mação adequada das professoras para lidar com neste livro, me referir preferen- todo um conjunto de teorias e práticas que até cialmente às professoras, esperando então jamais tinham aparecido como objetos e que os colegas do sexo masculino se objetivos do ensino de português. reconheçam incluídos nessa valente ca- tegoria. Para as estatísticas, consultar Nos documentos do Ministério da Educação, nas diretrizes curriculares dos estados e dos muni- nos materiais destinados à formação continuada de professoras e professores, e em muitos outros textos, começaram a surgir termos e ex- 28 Nada na lingua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãopressões que definiam essa mudança: letramento, tipo textual, gênero discursivo, condições de produção, coesão e coerência, epilinguagem, variação intertextualidade, pragmática, multimodalidade, intersemiose, atos de fala etc. Todos esses novos conceitos têm sido apresentados e discutidos em muitos trabalhos importantes publicados nos últimos anos. campo da variação também mereceu os esforços de pessoas especializadas nos estudos No entanto, numa comparação com a produção bibliográfica sobre textual, letramento, leitura, escrita, gêneros tex- tuais, análise do discurso etc., a gente logo percebe que são poucos os títu- los que abordam especificamente a variação lin- E menos ainda os que têm uma clara Uma exceção notável é o livro Edu- intenção de ser material didático expressamen- cação em língua materna: a Socio- te elaborado para a prática de sala de aula. na sala de aula, de Stella Maris Bortoni-Ricardo, que dialoga diretamente com as professoras das resultado disso é que a variação ou séries iniciais. Veja as referências fica em segundo plano na prática docente ou é completas nas Indicações de Leitu- abordada de maneira insuficiente, superficial, ra, ao final deste livro. quando não distorcida. Essas duas situações a gente pode encontrar, por exemplo, nos livros didáticos de língua portuguesa - muitos de- 6 les já avançaram de modo positivo no trata- mento de outros aspectos da renovação do ensino, mas quando chega a vez da varia- ção o resul- tado quase sempre 6 é É o que vamos ver no capítulo 6. que desejo fa- e zer neste livro é oferecer a todas as pessoas inte- ressadas nesse importantíssimo aspecto da vida social - a hetero- Mas o que é mesmo variação 29geneidade da língua - uma introdução o mais clara possível aos principais conceitos da Como não se trata de uma obra acadêmica, mas sim de um trabalho dedi- cado a um público muito mais estudantes de Letras; professoras e professores de português (e de outras disciplinas); autoras e autores de livros didáticos (de português e de outras disciplinas); agentes responsá- veis por elaboração de políticas educacionais etc. não se encontrará aqui uma teoria completa e detalhada. Vou me later aos pontos que considero mais relevantes para que as pessoas envolvidas na educação em língua materna se sintam um pouco mais seguras no mo- mento de abordar, em sala de aula ou fora dela, os aspectos mais importan- tes relacionados à variação Outro alunado, outro professorado Uma segunda razão muito importante para que a variação se torne objeto e objetivo do ensino de língua é a profunda transformação do perfil socioeconômico e cultural da população que frequenta as es- colas públicas brasileiras, seja para ensinar, seja para aprender. Até meados da década de 1960, as escolas brasileiras eram em número reduzido e se concentravam nas zonas urbanas, sendo muito raras as escolas não só nas zonas rurais, mas até mes- mo em cidades de menor porte. Nessas escolas da zona urbana, ensinavam e aprendiam pessoas das classes médias e médias-altas das cidades, ou seja, uma cela bastante restrita da população. A partir daquele período, começou o pro- cesso que foi chamado de zação" do ensino no Brasil. As aspas em "democratização", usadas por autores que tratam do tema, que a idéia de "democracia", neste caso, não corresponde muito bem ao Nada na é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoque aconteceu. Na verdade, que houve foi um grande aumento quanti- tativo do número de escolas, aumento provocado pelo acelerado ritmo de urbanização da população brasileira. Em 1960, somente 45% da po- pulação vivia em zona urbana quarenta anos depois, o Censo 2000 do IBGE revelou que 80% dos brasileiros moram em cidades. Foram muitas e graves as sociais desse processo rápido, crescente e desordenado de urbanização, como o surgimento das enor- mes periferias pobres nas grandes cidades, o desemprego, a violência ur- bana, sem falar na degradação física das cidades, na poluição de todos os tipos etc. Outra foi também a transformação do perfil social das alunas e dos alunos que as escolas públicas passaram a atender. Am- plas camadas sociais que até então tinham fi- cado excluídas do ensino formal, por estarem Vem daí mito de que, antigamente, fora das zonas urbanas, começaram a exigir a escola pública era "boa" e de que a qualidade da educação só fez piorar que seus filhos e filhas, já nascidos e criados nos últimos anos. A escola nas cidades, tivessem acesso à escolarização. pública antes podia ser "boa" porque Foi essa pressão social que ocasionou a "de- era para poucos: suas portas só se mocratização" do ensino, quer dizer, o vertigi- abriam para discentes e docentes vin- dos das camadas privilegiadas das noso aumento do número de salas de aula em zonas urbanas. Esse mito expressa todo Brasil, mas sobretudo nas grandes aglo- preconceito contra todo movimento merações urbanas. mais amplo de democratização e popularização dos bens sociais. mesmo tempo em que a escola passava a acolher crianças vindas de famílias pobres ou miseráveis, de mães e pais analfabetos ou semi-analfabetos, também come- çava a se modificar o perfil socioeconômico e cultural das professoras e pro- fessores. acesso à escola de tantas crianças de classes sociais e desprestigiadas fez com que a profissão docente perdesse prestígio no âm- bito das classes médias e médias-altas. aumento da população escolar provocou a deterioração das condições de trabalho, com classes superlotadas, prédios mal construídos e mal conservados, com equipamento velho e mate- rial insuficiente, tudo isso acompanhado do achatamento progressivo e ininterrupto dos salários, o que tornou a profissão docente pouco atrativa para as camadas privilegiadas da população urbana. Por isso, não cabe cha- mar de "democratização" um processo que resultou num aumento quantita- tivo da população escolar e num paralelo descréscimo qualitativo da educa- ao ção oferecida em tais condições. Abandonado, então, pelas classes médias e Mas o que é mesmo variação 31médias-altas, o magistério passou a ser procu- "O professor formado pelas univer- sidades brasileiras é filho de pais rado e exercido por pessoas de outros estratos que nunca foram à escola ou nem sociais, médios-baixos e baixos. sequer completaram os quatro pri- meiros anos do ensino fundamental. que têm a ver a urbanização, o acesso das Vive em famílias com renda inferior camadas sociais pobres à escola e a origem a R$1.800/mês e estudou sempre em escola pública. [...] o questionário social das professoras com a variação socioeconômico do provão de 2001 ca, tema deste livro? do Ministério da Educação mostra que os formandos de cursos como É que as pessoas que a escola Pedagogia, Letras, Matemática, Bio- antes da "democratização" eram, na sua maio- logia, Física e Química (os mais procurados pelos que pretendem ser ria, falantes das variedades urbanas, professores) têm perfil distinto dos muito influenciadas pela cultura da escrita e pelo que saem de cursos mais concorri- policiamento praticado pela escola e dos, como Medicina, ou de oferta mais comum nas faculdades, como por outras instituições sociais. A atividade do- Direito e cente, nesse período, era exercida por pessoas Em Pedagogia, por exemplo, 9,8% originárias da pequena minoria que tinha o há- dos pais dos formandos nunca fre- bito de comprar e ler livros em geral e, sobretu- qüentaram a escola, enquanto outros 54,7% não completaram a série do, de ler as obras dos escritores consagrados. do ensino fundamental. [...] Muito eram pessoas que ti- A renda mensal das famílias em cur- nham estudado línguas estrangeiras, sobretudo SOS de formação de professores tam- bém destoa da média. Em Letras e o francês, muito prestigiado naquela época, e por exemplo, 23,1% e que tinham acesso, desse modo, à produção 24,4%, respectivamente, dos for- cultural e intelectual de outros países. Também mandos vivem em famílias com ren- era comum que professoras e professores cul- da inferior a R$ 540. A média de todos os cursos é de 10,9% dos alu- tivassem a escrita com finalidades intelectuais, nos nessa situação. [...] Em Letras, estéticas ou moralizantes, produzindo contos, Matemática, Pedagogia, Química e poesias, textos de inspiração religiosa e cívica, Física, mais de 50% dos estudantes vêm de famílias cuja renda variava ensaios sobre literatura etc. de R$ 540 a R$ 1.800 mensais. Entre todos os cursos avaliados no provão, A partir dos anos 1960, tudo isso se modifi- essa porcentagem é de 38,1%." cou. A grande massa de alunas e alunos das Folha de S.Paulo, 31/12/2001, p. C-1. novas escolas públicas falava (e fala) varieda- des muito diferentes das variedades urbanas usadas pelas camadas sociais prestigia- Aqui já se anuncia a realidade socio- das, e mais diferentes ainda da norma-padrão da nossa língua: "o por- tradicional, modelo de língua "correta" que o tuguês [brasileiro] são três". Vamos ensino tentava (e em boa parte ainda tenta) ver isso mais de perto no capítulo 5. transmitir e preservar. 32 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoOs materiais didáticos que eram usados tratos até então não estavam preparados para atender as necessidades educacionais dessa nova população, muito maior e das muito mais diversificada do ponto de vis- ta sociocultural e so- cioeconômico. A formação que as pro- fessoras recebiam para exercer sua ativi- scola dade docente também não preparava elas maio- para lidar com essa nova e desafiadora anas, realidade. Em resumo, a variação pelo ca não entrava nos planos de ensino ola e NORMA ela era invisível e inaudível, relegada ao do- PADRÃO submundo do "erro". De um momento soas para o outro, no entanto, ela passou a se há- apresentar de forma muito concreta e muito elo- retu- qüente. dos. Além do alunado, também o corpo docente, a partir daquele período, come- e ti- çou a se modificar, como já vimos. Duas ou três gerações depois da "demo- tudo cratização" do ensino, muitas pessoas de origem social humilde, que faziam e parte daquela massa de população recém-urbanizada, falante de variedades desprestigiadas, começaram a se engajar na carreira docente. Com isso, mui- bém tas pronúncias, muitas palavras, muitas construções gramaticais considera- cul- das "erradas" pela tradição escolar começaram a intensamente ais, as salas de aula, usadas não somente por alunas e alunos, mas também por tos, professoras e professores. Essa transformação do perfil do corpo docente não é um problema, por mais que algumas pessoas fiquem alarmadas com isso. Não difi- existe problema algum no fato da escola passar a ser ocupada por falantes das do genuíno vernáculo brasileiro e não mais por defensores de um padrão da- obsoleto inspirado na norma de Portugal, apegados a um modelo rançoso de des língua literária que nossos melhores escritores e escritoras têm abandonado gia- nos últimos cem anos. e o problema verdadeiro é não oferecer para as professoras uma formação ta) que permita que elas lidem adequadamente com uma série de questões que, inevitavelmente, surgem no dia-a-dia da sala de aula: Mas o que é mesmo variação 33Se a norma-padrão é obsoleta e antiquada, ainda faz sentido ensiná-la? Como fazer para ensinar um padrão que eu mesma, pro- fessora, não conheço integralmente ou do qual só tenho uma idéia pouco consistente? Como lidar com as relações complicadas entre a norma-padrão, as variedades prestigiadas e as variedades estigmatizadas? respeito pela variação não é incompatível com o objeti- de "ensinar gramática", já que a gramática que se ensina só leva em conta os usos considerados "corretos" pela tradição normativa? Mas, afinal, é ou não é para ensinar gramática? Devo ou não devo corrigir os meus alunos? E se é para corrigir, que devo corrigir? Se eu digo ao meu aluno que NÓS VAI não é "erro", ele não corre o risco de ser discriminado pelo resto da vida por falar "errado"? Deixar de ensinar as formas "certas" não significa negar ao aluno um instrumento de ascensão social? etc. objetivo deste livro é ajudar você a encontrar respostas para essas pergun- tas, respostas que se apóiam na reflexão intelectual e na militância política de um número enorme de pessoas que, no Brasil e no resto do mundo, vêm dedicando sua vida a esses temas. PARANÃOESQUECER Por causa da mudança na concepção de ensino de língua, a variação como objeto e objetivo de ensino, veio para ficar. Daí a necessidade de se conhecer o fenômeno da varia- ção com base em conceitos bem definidos e sistematizados. As mudanças ocorridas no perfil do alunado e do professora- do nos últimos anos exigem um tratamento ade- quado, bem fundamentado, das questões da variação tica e de suas relações com o ensino de língua na escola e com a vida social mais ampla. 34 Nada na é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoMas que é mesmo variação A ilusão da língua homogênea S pessoas que vivem em sociedades com uma longa tradição escrita, com uma história literária de muitos séculos e um sis- tema educacional organizado se acostumaram a ter uma idéia de língua muito influenciada por todas essas instituições. Para elas, só merece o nome de língua um conjunto muito particular de pronúncias, de palavras e de regras gramaticais que foram cuidadosamente selecionadas para compor o que vamos chamar nesse livro aqui de norma-padrão, isto é, o mo- A gente vai estudar mais demorada- delo de língua "certa", de "bem falar" que, nes- mente no capítulo 3 o processo his- tórico de constituição da norma- sas sociedades, constitui uma espécie de tesou- padrão do ro nacional, de patrimônio cultural que, assim como as florestas, os rios, a flora, a fauna e os monumentos arquitetônicos, precisaria ser preservado da ruína e da extinção... Ora, a escrita, a literatura e a escola são instituições eminentemente sociais, são invenções culturais, criações artificiais e muito recentes na história da humanidade as formas mais antigas de escrita têm menos de 6.000 anos, ou seja, durante 99% da história da nossa espécie ninguém escreveu nem leu nada, e até hoje uma grande parcela dos seres humanos permanece assim, excluída da escrita e da leitura! Portanto, o que se convencionou chamar de "língua" nas sociedades letradas é, na verdade, um produto social, artificial, que não corresponde que a língua realmente é. Mas será que a gente pode mesmo pensar nesse modelo de língua Mas o que é mesmo variação 35como um produto, semelhante ao iogurte, ao vinho, à borracha, ao papel, ao azeite e a tantas outras invenções humanas? Pode, mas com uma diferença: essa "língua" é um produto de um tipo diferente, um produto sociocultural, elabo- rado ao de muito tempo, pelo esforço de muita gente por isso ela é uma grande abstração ou, como se diz hoje em dia, um patrimônio imaterial. Bem, então, se o que nós chamamos de "língua" é só uma aparência, uma ilusão nascida dos nossos hábitos culturais e das nossas relações sociais, como é a língua, de fato? A realidade heterogênea das línguas Ao contrário da norma-padrão, que é tradicionalmente concebida como um produto homogêneo, como um jogo de armar em que todas as peças se encaixam perfeitamente umas nas outras, sem faltar nenhuma, a língua, na concepção dos sociolingüistas, é intrinsecamente heterogênea, múltipla, variável, instável e está sempre em desconstrução e em reconstrução. Ao contrário de um produto pronto e acabado, de um monumento histórico feito de pedra e cimento, a língua é um processo, um fazer-se permanente e nun- ca concluído. A língua é uma atividade social, um trabalho coletivo, empre- endido por todos os seus falantes, cada vez que eles se a interagir por meio da fala ou da escrita. Justamente pelo caráter heterogêneo, instável e mutante das línguas huma- nas, a grande maioria das pessoas acha muito mais confortável e tranqüilizador pensar na língua como algo que já terminou de se construir, como uma ponte firme e sólida, por onde a gente pode caminhar sem medo de e de se afogar na correnteza vertiginosa que corre lá embaixo. Mas essa ponte não é feita de concreto, é feita de abstrato... real estado da língua é o das águas de um rio, que nunca param de correr e de se agitar, que sobem e descem conforme o regime das chuvas, sujeitas a se precipitar por cachoeiras, a se estreitar entre as montanhas e a se alargar pelas planícies.. Também ao contrário do que muita gente acredita, a língua não está regis- trada por inteiro nos dicionários, nem suas regras de funcionamento são exa- tamente (nem somente) aquelas que aparecem nos livros chamados ticas. É mais uma ilusão social acreditar que é possível encerrar num único livro a verdade definitiva e eterna sobre uma língua. 36 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoCom tudo isso, a gente está querendo dizer que, na contramão das crenças mais difundidas, a variação e a mudança é que são o "estado natural" das línguas, o seu jeito próprio de ser. Se a língua é falada por seres a humanos que vivem em sociedades, se esses seres humanos e essas socie- dades são sempre, em qualquer lugar e em qualquer época, heterogêneos, diversificados, instáveis, sujeitos a conflitos e a transformações, o estranho, a paradoxal, o impensável seria justamente que as línguas permanecessem estáveis e homogêneas! Por isso, não tem sentido falar da variação como um "problema". Vira e mexe recebo mensagens de pessoas que perguntam como tratar em sala de aula "problema da variação". Podemos começar respondendo que problema está em achar que a variação é um "problema" que pode ser "solucionado". verdadeiro problema é considerar que existe uma língua perfeita, correta, bem-acabada e fixada em bases sólidas, e que todas as inúmeras manifestações orais e escritas que se distanciem dessa língua ideal são como ervas daninhas que precisam ser arrancadas do jardim para que as flores continuem lindas e coloridas! Ao contrário do que declaram algu- Assim, não são as variedades que mas pessoas desavisadas, os lingüis- constituem "desvios" ou "distorções" de uma tas não consideram o processo de língua homogênea e estável. Ao contrário: a constituição de uma norma-padrão como uma coisa intrinsecamente construção de uma norma-padrão, de um negativa. Eles sabem que a vida modelo idealizado de língua, é que represen- social é regulada por normas, entre ta um controle dos processos inerentes de as quais estão as normas de compor- variação e mudança, um refreamento artifi- tamento Os lingüistas simplesmente chamam a atenção cial das forças que levam a língua a variar e para fato da normatização da a mudar exatamente como a construção gua não ser um processo "natural", de uma barragem, de uma represa, impede mas sim resultado de ações huma- que as águas de um rio prossigam no cami- nas conscientes, ditadas por necessi- dades políticas e culturais, e nas nho que vinham seguindo naturalmente nos quais impera uma últimos milhões de anos. ideologia obscurantista, e autoritária. Alguns (mas Vamos pensar no caso do Brasil. Sem dúvida, a nem todos!) acreditam que uma nossa sociedade é, sob os mais diversos pontos norma-padrão poderia até ser um elemento cultural desejável, desde de vista, uma das mais heterogêneas do mun- que constituída com auxílio da do. Em qualquer rua movimentada de uma cida- pesquisa científica e com base em de brasileira passam a pé, de carro, de ôni- projetos sociais democráticos e não- excludentes. bus, de bicicleta, de motocicleta, de cadeira Mas o que é mesmo variação 37de rodas, às vezes até a - pessoas de ambos os sexos, das mais diferentes faixas etárias, de múltiplas origens étnicas, de todas as classes sociais, de todos os graus de escolaridade, das mais diferentes profissões, das mais diferentes religiões, de diversas orientações sexuais, de diferentes opiniões políticas, vestidas de todos os modos possíveis etc. Como seria possível imaginar que toda essa gente, tão diversificada em tudo o mais, tivesse que falar a sua língua sempre da mesma maneira? Heterogeneidade e social objetivo central da como disciplina científica, é precisamen- te relacionar a heterogeneidade lingüística com a heterogeneidade social. gua e sociedade estão indissoluvelmente entrelaçadas, entremeadas, uma in- fluenciando a outra, uma constituindo a outra. Para 0 sociolingüista, é impossi- vel estudar a língua sem estudar, ao mesmo tempo, a sociedade em que essa língua é falada, assim como também outros estudiosos - sociólogos, logos, psicólogos sociais etc. - já se convenceram que não dá para estudar a sociedade sem levar em conta as relações que os indivíduos e os gru- pos estabelecem entre si por meio da linguagem. Assim, o que temos nas sociedades com- plexas e letradas uma realidade tica composta de dois grandes pólos: (1) a riação isto é, a língua em seu es- tado permanente de transformação, de flui- dez, de instabilidade e (2) a norma-padrão, produ- to cultural, modelo artificial de língua criado justamente para tentar "neutralizar" os efei- 38 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoda variação, para servir de padrão para os comportamentos considerados adequados, corretos e convenientes. NORMA- PADRÃO Entre esses dois pólos, existe uma grande zona intermediária, em que a nor- ma-padrão influencia a variação e a variação lingüística influencia a norma-padrão. Por isso, mesmo reconhecendo que a norma-padrão é um produto cultural, uma "língua" artificial, por assim dizer, a gente não pode deixar de reconhecer que ela existe ainda que somente no nível do discur- da ideologia faz parte da vida social, e tem que ser levada em conta sempre em toda investigação sobre língua e sociedade. a conceito de variação lingüística é a espinha dorsal da Para ajudar a gente a compreender esse fenômeno complexo e fascinante, os sociolingüistas formularam alguns conceitos e definições, todos derivados do verbo variar. É importante ter clareza dessa terminologia para evitar empregá- la de forma equivocada como, infelizmente, acontece com muita Variação é primeiro desses conceitos, como já vimos, é o de variação. Dizer que a língua apresenta variação significa dizer, mais uma vez, que ela é heterogê- nea. A grande mudança introduzida pela Sociolingüística foi a concepção de língua como um "substantivo coletivo": debaixo do guarda-chuva chamado LÍNGUA, no singular, "Quase me apetece dizer que não há se abrigam diversos conjuntos de realizações uma língua portuguesa, há línguas em possíveis dos recursos expressivos que estão à escritor em disposição dos falantes. depoimento registrado no filme Língua: vidas em dirigido por Victor Lopes e exibido no Brasil em 2004). A variação ocorre em todos os níveis da língua: variação fonético-fonológica pense em quantas pronúncias você conhece para o R da palavra PORTA no português brasileiro; Mas o que é mesmo variação 39variação morfológica as formas PEGAJOSO e PEGUENTO exibem sufixos diferentes para expressar a mesma idéia; variação sintática nas frases UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM PREVÊ o FINAL / UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM o FINAL DELA / UMA HISTÓRIA CUJO FINAL NIN- GUÉM PREVÊ, o sentido geral é o mesmo, mas os elementos estão organiza- dos de maneiras diferentes; variação semântica a palavra VEXAME pode significar "vergonha" ou "pressa", dependendo da origem regional do falante; variação lexical as palavras MIJO, XIXI e URINA se referem todas à mes- ma coisa; variação estilístico-pragmática os enunciados QUEIRAM SE SENTAR, POR FAVOR e VAMO SENTANO GALERA correspondem a situações diferentes de interação social, marcadas pelo grau maior ou menor de formalidade do ambiente e de intimidade entre os interlocutores, e podem inclusive ser pronunciados pelo mesmo indivíduo em situações de interação diferentes. Heterogeneidade, sim, mas ordenada Um dos postulados básicos da Sociolingüística é o de que a variação não é aleatória, fortuita, caótica muito pelo contrário, ela é estruturada, organi- zada, condicionada por diferentes fatores. Daí o título do nosso livro ser: Nada na língua é por acaso. A trabalha com o conceito de heterogeneidade ordenada. Vamos ver o que é isso. Pronuncie com cuidado as duas palavras abaixo: RASPA RASGA Observe que na primeira palavra aparece um som [s], enquanto na segunda aparece um som embora as duas se escrevam com a mesma letra S. Por quê? Muito simples: o S de RASPA vem antes de um /p/, que é uma consoante surda, isto é, produzida sem a participação das pregas (ou cordas) vocais, e por isso o S se pronuncia como [s], que também é um som surdo. Já no caso de RASGA, o S está diante de uma consoante sonora, o /g/ (produ- zida com a participação das pregas vocais), e por isso ele se realiza como um [z], que também é uma consoante sonora. É o contexto fonético, ou seja, a influência de uma consoante sobre a outra, que vai explicar, neste caso, a 40 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãovariação [s] ~ [z]. A sonoridade (ou vozeamento) de um fonema vai provocar a sonorização do outro; a não-sonoridade (ou não-vozeamento) de um fonema vai provocar a não-sonoridade do outro. Aqui estamos diante de um fenômeno de variação que está condiciona- do apenas todo e qualquer falante de português, in- dependentemente de sua origem social ou regional, sexo, grau de esco- laridade etc., vai apresentar, na sua fala, essa alternância [z] em pares como RASPA/RASGA, FISCO/FISGO, DESTINO/DESMAIO etc. É um fenômeno tão impregnado na língua que ninguém se dá conta dele, ele não chama a atenção, não desperta nenhum tipo de reação negativa ou positiva da parte dos falantes, que nem sequer têm consciência de que ele acontece. A coisa já muda de figura quando, com o mesmo par de palavras RASPA/ RASGA, acontece a seguinte variação: RASPA RASGA [S] [3] N. B.: o símbolo [S] representa o som do X em XIXI, e o [3] representa o som do em Quando um falante que pronuncia RA[S]PA ouve uma pessoa pronunciar com chiado", essa variação de pronúncia logo chama a atenção, provo- ca alguma reação da parte do primeiro falante, que tem consciência da diferença é muito Aliás, se você é falante do "s chia- provável que procure identificar seu interlocutor do", percebeu a alternância [3] logo no primeiro caso. Se começa- como proveniente de um estado ou de uma re- mos pelo outro par é porque eu gião diferente da sua. autor do livro, não sou fa- lante do "s chiado"... Aqui estamos diante de um tipo de variação que não é condicionada apenas lingüisticamente, mas também extralingüistica- mente, isto é, condicionada por algum fator de ordem social neste caso, a origem geográfica do falante. No português brasileiro, diversas áreas geográ- ficas apresentam o chiado", como o Rio de Janeiro, o Pará, Nordeste em geral, zonas do Mato Grosso, algumas comunidades da ilha de Santa Catarina (onde fica Florianópolis), entre outras. Mas o que é mesmo variação 41Outro exemplo da heterogeneidade ordenada, des- pe ra ta vez no plano morfossintático, está nos casos re variáveis de concordância nominal. Observe as FISCO/FISGO... três frases abaixo: dá (a) aquelas casinha amarelinha tif (b) *aquela casinhas amarelinha ta te [Z] (c) *aquela casinha amarelinhas Somente a frase (a) ocorre no português bra- fe sileiro, enquanto (b) e (c) não ocorrem (por isso, a estão assinaladas com um asterisco, símbolo "n usado pelos lingüistas para identificar uma ta construção improvável ou impossível). A fra- gu se (a) é usada por praticamente todos os bra- da sileiros, inclusive os altamente escolarizados em situações de fala espontâneas, distensas. se deduz claramente que existe uma regra por trás dessa construção, uma regra que diz: , regra que é per- tic feitamente obedecida por todos os que se servem dela. se Atenção! A palavra REGRA está sendo usada aqui com um sentido muito diferente daquele que aparece nas gramáticas normativas. Ali, regra é uma espécie de "lei" que dita e impõe o que é "certo" e condena que é "errado". Na perspectiva científica, regra é tudo aquilo que revela uma regularidade (as palavras regra e regular têm a mesma origem). Quando conseguimos detectar e descrever alguma coisa que acontece na língua com regularidade, com previsibilidade, segundo uma lógica coe- rente, fazemos essa descrição na forma de uma regra (como a que enun- ciei acima: Quando, no discurso do senso comum, se diz que determinado uso vai "contra as regras da língua" ou "desobedece as regras do que se está querendo dizer é que tal uso desrespeita as regras exclusivas e excludentes, padronizadas e escolhidas artificialmente como as tas" pela tradição normativa. Usos como AQUELAS CASINHA AMARELINHA ou VOCÊ SABE QUE EU TE AMO ou o TIME QUE EU TORÇO etc. são perfeitamente regrados, e a prova maior disso é justamente a regularidade com que eles ocorrem na língua! Com isso, fica claro que é simplesmente impossível 42 Nada na é por acaso: por uma pedagogia da variaçãorespeitar as regras da língua, simplesmente porque é impossível fa- sem obedecer regras meterogeneidade ordenada tem a ver, então, com essa característica fas- da língua: o fato dela ser altamente estruturada, de ser um sistema e, sobretudo, um sistema que possibilita a expressão de um mes- conteúdo informacional através de regras diferentes, todas igualmente e com coerência funcional. E mais fascinante ainda: um sistema que nunca está pronto, que o tempo todo se renova, se recompõe, se meestrutura, sem todavia nunca deixar de proporcionar aos falantes todos elementos necessários para sua plena interação social e cultural. É la- mentável que uma coisa tão maravilhosa, complexa e apaixonante tenha a sido reduzida, na tradição escolar, a uma divisão estúpida entre "certo" e "errado", ainda mais estúpida porque se baseia em preconceitos sociais e culturais que já devíamos ter abandonado há muito tempo... Fatores Para fazer um trabalho de investigação minucioso sobre a variação ca, os sociolingüistas selecionam um conjunto de fatores sociais que podem auxiliar na identificação dos fenômenos de variação Que fatores sociais são Dentre os muitos possíveis, os que têm se revelado mais interessantes para a pesquisa são os seguintes: diatopica ORIGEM GEOGRÁFICA: a língua varia de um lugar para o outro; assim, podemos investigar, por exemplo, a fala característica das diferentes re- giões brasileiras, dos diferentes estados, de diferentes áreas geográficas dentro de um mesmo estado etc.; outro fator importante também é a origem rural ou urbana da pessoa; STATUS SOCIOECONÔMICO: as pessoas que têm um nível de renda muito baixo não falam do mesmo modo das que têm um nível de renda médio ou muito alto, e vice-versa; GRAU DE ESCOLARIZAÇÃO: o acesso maior ou menor à educação for- mal e, com ele, à cultura letrada, à prática da leitura e aos usos da escrita, é um fator muito importante na configuração dos usos dos diferentes indivíduos; IDADE: os adolescentes não falam do mesmo modo como seus pais, nem estes pais falam do mesmo modo como as pessoas das anteriores; Mas o que é mesmo variação 43di SEXO: homens e mulheres fazem usos diferenciados dos recursos que a língua oferece; ra re MERCADO DE TRABALHO: o vínculo da pessoa com determinadas pro- fissões e ofícios incide na sua atividade uma advogada não da usa os mesmos recursos de um encanador, nem este os mes- re mos de um cortador de cana; REDES SOCIAIS: cada pessoa adota comportamentos semelhantes aos ta das pessoas com quem convive em sua rede social; entre esses te tamentos está também o comportamento fe As pesquisas empreendidas no Brasil têm mostrado que o fator a social de maior impacto sobre a variação é o grau de escolarização ta que, em nosso país, está muito ligado ao status socioeconômico: a escola gu de qualidade e a possibilidade de permanência mais prolongada no sistema qu educacional são bens sociais limitados às pessoas de renda econômica mais da elevada. Estudos sociológicos apontam que existe uma relação muito estreita m entre escolaridade e ascensão social: os melhores empregos e os postos de comando da sociedade estão reservados predominantemente aos cidadãos mais escolarizados. tic Com esse conjunto de fatores podemos a língua falada por grupos se sociais específicos: como falam os jovens do sexo masculino, entre 18 e 25 le anos, com escolaridade inferior a 4 anos, que vivem na periferia da cidade de pe São Paulo? Como falam as mulheres agricultoras do sertão da Paraíba fro mais de 60 anos, analfabetas? Como falam os homens com mais de 40 com curso superior completo, com renda superior a dez salários mínimos pa moradores da zona sul do Rio de Janeiro? Selecionando fatores sociais e ge fenômenos relevantes para o estudo, a pesquisa permite que a gente faça um retrato bastante fiel de como é a realidade dos te usos da língua no Brasil. de Variação estilística 4 Mas a variação lingüística não ocorre somente no modo de falar das tes comunidades, dos grupos sociais, quando a gente compara uns com outros. Ela também se mostra no comportamento de cada duo, de cada falante da língua. variamos nosso modo de falar, individual 44 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãode maneira mais consciente ou menos consciente, conforme a situa- de interação em que nos encontramos. Essa situação pode ser de maior ou menor formalidade, de maior ou menor psicológica, de maior ou menor pressão da parte do(s) interlocutor(es) e do ambiente, de maior ou menor insegurança ou autoconfiança, de maior menor intimidade com a tarefa comunicativa que temos a desempenhar Cada um desses tipos de situação vai exigir do falante um controle, uma atenção e um planejamento maior ou menor do seu comportamento em geral, das suas atitudes e, evidentemente, do seu comportamento verbal. isso pode ser sintetizado no conceito de monitoramento estilístico. monitoramento estilístico é uma escala contínua, que vai do grau mínimo grau máximo, a depender de todos os fatores que acabamos de elencar: monitoramento opera não só na língua fala- Empregamos na os da, mas também na língua escrita. Não escre- termos estilo ou registro para desig- vemos um bilhete para o namo- nar a variação presente na fala de rado da mesma maneira como um indivíduo segundo a situa- ção em que ele se encon- escrevemos uma carta de apre- tra. Para classificar os es- sentação a uma empresa onde tilos ou registros, é mais estamos tentando obter uma adequado usar as grada- ções de monitoramento waga para trabalhar. (mais monitorado, menos monitorado etc.) do que Os sociolingüistas certos termos vagos e im- enfatizam sempre precisos como "estilo co- que não existe fa- "registro culto", "estilo cuidado" etc. lante de estilo único: todo e qual- quer indivíduo varia a sua maneira de falar, monitora mais ou menos o seu comportamento verbal, independente- mente de seu grau de instrução, classe Mas o que é mesmo variação 45social, faixa etária etc. Trata-se de um comportamento que é adquirido muito rapidamente no convívio social, como é fácil verificar observando a variação dos modos de falar das crianças quando se dirigem a outras crianças da mesma idade, a crianças maiores, a adultos familiares, a adultos desconhecidos etc. monitoramento da fala, sobretudo quando se trata de exibir respeito e conside- ração pelos outros, faz parte do aprendizado das normas sociais que prevale- cem em cada cultura, normas que são apreendidas por observação e mas também ensinadas explicitamente às crianças pelos pais e outros adultos. No caso do monitoramento da escrita, ele vai depender, é claro, do grau de fe letramento do indivíduo, isto é, o grau de sua inserção na cultura da leitura e da escrita. Uma pessoa que foi alfabetizada, mas não ultrapassou os primeiros anos da escola formal nem criou o hábito de ler e de escrever com certamente não vai dispor dos mesmos recursos de monitoramento estilístico de alguém que cursou a universidade, tem bom desempenho no domínio da escrita, conhece as convenções dos diferentes gêneros textuais, maneja um vocabulário mais amplo e diversificado etc. grau de letramento elevado tam- bém favorece, é claro, a produção de textos falados mais monitorados, em que a pessoa tenta reproduzir na oralidade mais formal traços característicos dos gêneros textuais escritos mais monitorados. Classificação da variação sociolingüística A variação costuma vir acompanhada, nos textos especializados, de alguns adjetivos que vale a pena conhecer: variação diatópica é aquela que se verifica na comparação entre modos de falar de lugares diferentes, como as grandes regiões, os es tados, as zonas rural e urbana, as áreas socialmente demarcadas grandes cidades etc. adjetivo DIATÓPICO provém do grego que sign fica "através de", e de TÓPOS, "lugar". variação diastrática é a que se verifica na comparação entre modos de falar das diferentes classes sociais. adjetivo provém de e do latim STRATUM, "camada, estrato". variação diamésica é a que se verifica na comparação entre a gua falada e a língua escrita. Na análise dessa variação é fundame conceito de gênero textual. adjetivo provém de e do MÉSOS, "meio", no sentido de "meio de comunicação". 46 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãovariação diafásica é a variação estilística que vimos mais acima, isto é, o uso diferenciado que cada indivíduo faz da língua de acordo com o grau de monitoramento que ele confere ao seu comportamento verbal. adjetivo provém de e do grego "expressão, modo de falar". variação diacrônica é a que se verifica na comparação entre diferen- tes etapas da história de uma língua. As línguas mudam com o tempo (vamos ver isso mais de perto no capítulo 8) e o estudo das diferentes etapas da mudança é de grande interesse para os lingüistas. adjetivo provém de e do grego KHRÓNOS, "tempo". Variedade Outro conceito muito importante na Sociolingüística é o de variedade ca. Uma variedade é um dos muitos "modos de falar" uma língua. Como já vimos, esses diferentes modos de falar se correlacionam com fatores sociais como lugar de origem, idade, sexo, classe social, grau de instrução etc. Podemos delimitar e descrever quantas variedades quisermos, de acordo com os fatores sociais que incluirmos na nossa investigação, como nos exemplos que dei mais acima: o modo de falar dos jovens do sexo mas- culino, entre 18 e 25 anos, com escolaridade inferior a 4 anos, que vivem na periferia da cidade de São Paulo é uma variedade uso que fa- zem da língua as mulheres agricultoras do sertão da Paraíba com mais de 60 anos, analfabetas, é outra variedade. Os traços característicos dos homens com mais de 40 anos, com curso superior completo, com renda superior a dez salários mínimos, moradores da zona sul do Rio de Janeiro também constitui uma variedade específica e assim por diante... Partindo da noção de heterogeneidade, a Sociolingüística afirma que toda é um feixe de variedades. Cada variedade tem suas ca- próprias, que servem para diferenciá-la das outras variedades. Por exemplo, nem todas as variedades do português brasileiro apresentam o chiado" em final de sílaba ou final de palavra algumas variedades usam TU como pronome de pessoa, enquanto outras usam VOCÊ; a maioria das variedades que apresentam o TU eliminaram a ter- minação -S na conjugação verbal (TU FALA, TU COME), enquanto outras (poucas) conservam (TU FALAS, TU COMES), e por aí vai... Mas o que é mesmo variação 47Outro postulado fundamental da Sociolingüística é esse aqui: toda e qual- quer variedade é plenamente funcional, oferece todos os recursos necessários para que seus falantes interajam socialmente, é um meio eficiente de manutenção da coesão social da comunidade em que é empregada. A idéia de que existem variedades mais "feias" ou mais "bonitas", mais "certas" ou mais "erradas", mais "ricas" e mais "po- bres" é fruto de avaliações e julgamentos exclusivamente socioculturais e decorrem das relações de poder e de discriminação que existem em toda sociedade vamos tratar disso melhor no capítulo 3. Para o estudioso da linguagem, todas as variedades se equivalem, todas têm sua lógica de funcionamento, todas obedecem regras gramaticais que podem ser descritas e explicadas. Classificando as variedades Assim como a variação é classificada em tipos, também as varie- dades costumam ser designadas por nomes particulares: o estudo dos dialetos fez surgir, no dialeto um termo usado há muitos século XIX, uma disciplina séculos, desde a Grécia antiga, para de- da Dialetologia, considerada a pre- signar o modo característico de uso da cursora da moder- na. A diferença entre as duas disci- língua num determinado lugar, região, plinas é que a Dialetologia se inte- província etc. Muitos lingüistas empre- ressava sobretudo em descrever os gam o termo dialeto para designar o que falares rurais, isolados, considerados a Sociolingüística prefere chamar de va- na época como mais "puros" e "au- não influenciados pelas modas e corrupções da vida urbana socioleto -> designa a variedade moderna. A abando- ca própria de um grupo de falantes que com- nou essa visão romântica e passou a se interessar também pelos modos partilham as mesmas características de falar das aglomerações urbanas, socioculturais (classe socioeconômica, ni- socialmente complexas, do mundo vel cultural, profissão etc.). contemporâneo. cronoleto designa a variedade própria de determinada faixa etária, de uma gera- ção de falantes. idioleto designa o modo de falar característico de um indivíduo, suas preferências vocabulares, seu modo próprio de pronunciar as palavras, de construir as sentenças etc. 48 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoEm todas essas palavras está presente o elemento -LETO (também escrito às vezes -LECTO), derivado do grego LÉKSIS, "palavra, ação de de onde tam- provém a palavra Essa terminologia, no entanto, não é muito empregada nos trabalhos onde a gente encontra mais as expressões variedade regional, variedade social, variedade generacional (ou de geração) etc. e Nem tudo na língua varia Ao falar da variação, dissemos que ela pode se verificar em todos os níveis da lingua: morfológico, sintático, semântico, lexical, estilístico- pragmático. A essa altura, pode surgir uma dúvida: tudo que existe numa língua pode estar em variação? A resposta é Muita coisa da língua não apresenta varia- ção. Por exemplo: Como já vimos, O asterisco (*) é usado na para in- a pronúncia da consoante /f/ não apre- dicar uma forma que não per- senta (pelo menos que se saiba até tence à gramática da língua e, portanto, não é aceita pelos fa- agora) diferenças nas múltiplas varie- lantes. dades regionais, sociais etc. do portu- guês brasileiro. mesmo já não vale para a consoante que, como vimos, pode ser pronunciada como um som sibilan- te surdo [s] ou sonoro ou como um som chiante surdo [S] ou sonoro [3], dependen- do de contextos fonéticos e das va- riedades regionais; o artigo definido vem sempre locado antes do nome (A CASA) e nunca depois dele (*CASA A). Os pronomes oblíquos não ad- mitem outros elementos entre eles e o verbo: ANA ME SUSTENTOU DU- RANTE MUITO TEMPO, mas nunca *ANA ME DURANTE MUITO TEMPO Mas que é mesmo variação 49os verbos regulares têm sempre uma terminação na pessoa do singu- lar do presente do indicativo (EU AMO, EU BEBO, EU PARTO), e nunca um -A, um -F ou um -MOS (*EU AMA, *EU BEBE, *EU PARTIMOS). mesmo não acontece com a pessoa do plural, que apresenta, segundo as variedades, uma terminação -MOS ou -MO para todas as conjugações, ou uma terminação -A para a conjugação e -E para a e a conjugações (NÓS AMAMO/NOS AMA, NÓS BEBE, NÓS PARTE); o verbo GOSTAR é sempre seguido da preposição DE, em qualquer varieda- de de modo que ninguém no Brasil vai dizer *EU NÃO GOSTO mesmo não acontece com verbo RESPONDER, que pode ser transitivo direto (RESPONDA o QUESTIONÁRIO) ou indireto (RESPONDA AO QUESTIONÁRIO). Os exemplos poderiam encher centenas de páginas. importante é ressaltar que as regras da língua que não apresentam variação são chamadas de re- gras categóricas, pertencem ao repertório de todos os falantes, de todas as regiões, classes sociais, graus de instrução etc. Já as regras que apresentam variação, como as que vimos nos exemplos acima, são chama- das de regras variáveis ou simplesmente variáveis. Variável & variante Uma variável portanto, é algum elemento da língua, algu- ma regra, que se realiza de maneiras diferentes, conforme a variedade lin- güística analisada. Cada uma das realizações possíveis de uma variável é chamada de variante. A definição mais simples de variante é a de "cada uma das formas diferentes de se dizer a mesma Por exemplo, a variável (r), no português brasileiro, em final de palavra (como em CANH TAR, FAZER, AMOR), pode apresentar as seguintes variantes: (1) [r] simples; (2) [R] vibrante múltipla; (3) retroflexa ("R caipira"); (4) [h] aspirada; (5) [0] zero ("cantá", "amô"), entre outras... a variável (pronome-objeto direto de pessoa) pode apresentar as seguintes variantes: (1) pronome oblíquo (COMPRE o LIVRO MAS o EM CASA); (2) pronome reto o LIVRO MAS ESQUECI ELE EM CASA); (3) pro- nome nulo (COMPRE o LIVRO MAS ESQUECI 0 EM CASA); a variável (transitividade do verbo ASSISTIR) apresenta duas variantes: transitividade direta: ASSISTI FILME, e (2) transitividade indireta: ASSISTI AO 50 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãodas regras variáveis é a principal tarefa da Ele per- que a gente conheça o estado atual, real da língua, como ela é de fato pelos falantes, por meio da de uso da variante X e da Y. Descobrir quais elementos da língua se encontram em variação grande importância também para o entendimento dos fenômenos da que vamos ver no capítulo 8. procurar a palavra vernáculo num bom dicionário, como o Houaiss, vai encontrar o seguinte: adjetivo próprio de um país, nação, região Ex.:sugere, como estratégia para fazer o estilo menos monitorado, que o pesquisador pergunte a seu informante: "Você já esteve numa situação em que se viu próximo de morrer?" As narrativas resultantes dessa pergunta trazem as marcas mais características do vernáculo, uma vez que o falante, tomado pela excitação da narrativa, presta menos atenção à forma como está falando e muito mais atenção ao conteúdo do que está contando. Por meio do estudo do vernáculo podemos identificar, por exemplo, quais são as regras gramaticais que realmente pertencem ao português brasileiro con- aquelas que são as mais usualmente empregadas pelas pessoas em suas interações cotidianas. Ao mesmo tempo, podemos identificar quais são as regras que estão deixando de ser usadas, caindo em obsolescência, com probabilidade de desaparecer da língua num futuro próximo. Estudando o vernáculo brasileiro mais geral, por exemplo, as pesquisas têm revelado que os pronomes oblíquos de pessoa o/A/os/ AS estão praticamente extintos da nossa língua. Só empregam esses prono- mes as pessoas que tiveram acesso à escolarização formal plena, e mesmo assim somente em situações de alto monitoramento estilístico de sua fala, mas sobretudo na escrita de gêneros textuais mais monitorados. Com isso podemos dizer, com boa margem de segurança, que os pronomes oblíquos não pertencem ao vernáculo brasileiro. No lugar deles, nós, estamos usando os pronomes retos ELE/ELA/ELES/ELAS ou simplesmente xando vazio o lugar sintático que deveria ser ocupado por um objeto como nos exemplos que demos mais acima: o LIVRO MAS ESQUECI ELE EM CASA ou LIVRO MAS ESQUECI 0 EM CASA. As pesquisas têm mostrado que essa última estratégia, a do chamado "pronome nulo", é a mais empregada por todos os brasileiros, falantes de todas as variedades o vernáculo e o ensino conceito de vernáculo, tal como definido na pode ser contribuição muito importante para a elaboração de estratégias de Se já sabemos que determinadas regras gramaticais desapareceram do normal, cotidiano, como fazer para que elas sejam aprendidas e apreend por nossos alunos e alunas? Vale a pena insistir em ensinar coisas que ninguém mais usa no dia-a-dia da língua? 52 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variaçãoComo a gente vai ver no capítulo 8 sobre a mudança os gêneros que escritos mais monitorados são o último refúgio dos usos mais con- as servadores. É nos textos monitorados que esses usos sobrevivem por mais pela tempo, antes de desaparecerem por completo. Ora, uma das funções mais importantes do ensino é precisamente dotar os alunos e alunas de recursos que lhes permitam produzir textos (orais e escritos) mais monitorados estilisticamente, textos que ocupam os níveis mais altos na escala do prestígio são social. Daí a importância de reconhecer as formas já desapareci- con- das da fala espontânea, mas ainda exigidas socialmente na fala/escrita formal, para ensiná-las, no sentido mais literal do verbo ensinar, isto é, transmitir a uma pessoa um conhecimento que ela de fato não possui nem tem outro modo de adquirir a não ser pela educação formal, sistemática, programada. caso dos pronomes oblíquos é exemplar. Nenhuma criança bra- seja de qualquer região ou de qualquer classe social, tem contato com esses pronomes antes de se iniciar na leitura e na escrita, antes de começar seu processo de letramento. Essa falta de contato revela que os adultos, mesmo os mais letrados, não empregam esses pronomes na vida familiar, nas situações mais íntimas e descontraídas de uso da língua. A coisa é diferente com outros pronomes como EU, TU, VOCÊ, NÓS, A GENTE, ELE, ELA, ELES, ELAS, ME, MIM, TE, SE, por exemplo, que estão vivos e atuantes no verná- culo brasileiro e que qualquer criancinha que começa a falar utiliza sem proble- Daí a importância de delimitar com precisão o que é necessário ensinar e que não é necessário ensinar. Muito tempo de sala de aula é desperdiçado EM com práticas irrelevantes de ensino de coisas que a criança já sabe e domina, como boa falante da língua, enquanto outras coisas, mais importantes e inte- são deixadas de lado. Vamos voltar a isso mais adiante. Como analisar um evento de interação verbal? primeira vista, a Sociolingüística parece trabalhar com uma quantidade muito grande de conceitos, e pode ser difícil para o não-especialista colo- car todos eles em prática num exercício de análise da língua real. Tradicio- nalmente, a realidade brasileira tem sido analisada em termos de pares dicotômicos, de polarizações radicais do tipo gua não-padrão, língua popular, língua falada, lingua formal/língua coloquial etc., num procedimento que esconde o cará- Mas o que é mesmo variação 53ter dinâmico e mutante das situações de interação verbal. Diante de uma amostra de língua em uso, os analistas costumavam (e ainda costumam) atribuir a ela um rótulo único e fechado: "Esse é um exemplar de língua coloquial" ou de "língua culta" etc. Todos esses adjetivos são problemáti- COS, e vamos tratar deles nos próximos capítulos. Será então que existe um modo diferente de analisar as situações de uso da língua, sem cair nessas oposições extremadas? Existe, sim. Uma das soluções para superar esse problema é a adoção do conceito de continuum (uma palavra latina que podemos para os nossos obje- tivos, como "linha que não se interrompe", e cujo plural é continua, com sílaba tônica no TI). Em vez de imaginar a realidade dividida em duas ou mais variedades estanques, que não interagem umas com as outras, alguns sociolingüistas que trabalham na vertente chamada interacional preferem investigar a situação de uso, momento em que ocorre a interação: quem está dizendo quê, a quem, onde, quando, dentro de que relações da hierarquia social, com que inten- ção etc.? Esses investigadores se concentram então muito menos nas ques- tões propriamente estruturais (fonético-fonológicas, morfossin- táticas etc.) e muito mais no modo como os atores sociais em cena se valem desses recursos da língua para levar adiante sua tarefa comunicati va. E onde é que entra a noção de continuum aqui? A lingüista e educadora Stella Maris Bortoni-Ricardo foi uma das primeiras soas no Brasil a aplicar os postulados teóricos e metodológicos da (variacionista e interacional) às questões da educação em língua terna. Depois de muitos anos de reflexão e intensa prática como professor universitária, orientadora de pesquisas e formadora de docentes, construiu um modelo extremamente simples e ao mesmo tempo muito para estudo da variação lingüística nas interações verbais, com ênfase interações em sala de aula. Neste modelo, a autora rejeita a análise polari e argumenta que toda situação de interação verbal pode ser analisada base em três continua: +rural +urbano +oral +letrado -monitorado +monitorado 54 Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação

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