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DOENÇAS EXANTEMÁTICAS Gustavo Penna Mecanismos de Agressão à Pele • Invasão e multiplicação direta na própria pele, por exemplo, na infecção pelo vírus da varicela zóster, do herpes simples. • Ação imunoalérgica com expressão na pele, mecanismo mais frequente nas viroses exantemáticas. • Dano vascular, podendo causar obstrução e necrose da pele, como no sarampo atípico, nas febres hemorrágicas. • Ação de toxinas, como na escarlatina e nas estafilococcias. Tipos de Exantema Mácula: é uma lesão plana, não palpável que apresenta alteração da cor, podendo apresentar diferentes colorações. Pápula: é uma lesão elevada que pode ser sentida ao tato ou à palpação, quando maiores são chamadas de nódulos. Vesículas: pequenas lesões que contêm líquido e que são chamadas de bolhas, quando maiores. Quando o líquido é purulento, tornam-se pústulas. Placas: são lesões planas, mas elevadas, perceptíveis ao tato e grandes. Coloração As lesões podem ainda ter cor eritematosa, que quando desaparece com a vitropressão são devidas a vasodilatação e, quando não, o extravasamento de sangue do vaso, quando são chamadas de purpúricas e que podem ser pequenas, petequiais ou maiores, equimóticas. Ainda podem ser divididas em morbiliformes quando existem áreas de pele sã entre as lesões e escarlatiniformes quando o acometimento é difuso. Doenças Exantemáticas Exantema Maculopapular Sarampo Etiologia: causado pelo vírus de RNA de única hélice da família Paramyxoviridae, do gênero Morbillivirus. Transmissão: via aérea, através de aerossol. Tempo de incubação: oito a doze dias. Tempo de contágio: desde dois dias antes do início do pródromo( sinal ou grupo de sintomas que pode indicar o início de uma doença) até quatro dias após o aparecimento do exantema. Isolamento: respiratório (uso de máscara) até quatro dias após o início do exantema. Quadro Clínico A doença começa com pródromo que dura de três a quatro dias, com febre, tosse, cefaleia, mal-estar, prostração intensa, incomum em doenças virais. A febre é elevada, atingindo o auge na época do aparecimento do exantema, o que difere também da maioria das viroses e cai em declínio no terceiro ou quarto dia do exantema. A tosse é seca, intensa (incomoda o paciente), está sempre presente acompanhada de coriza abundante, hialina no início, purulenta nos dias subsequentes. Os olhos ficam hiperemiados com lacrimejamento e fotofobia e, nos casos mais graves, ocorre edema bipalpebral. A prostração por vezes é intensa, denotando comprometimento sistêmico. O enantema é a primeira manifestação mucocutânea a aparecer, e é característico. A orofaringe fica hiperemiada e na região oposta aos dentes molares aparecem manchas branco-azuladas, pequenas, de cerca de 1 mm de diâmetro, chamadas de manchas de Koplik. Aparecem, um ou dois dias antes do exantema e desaparecem dois ou três dias após. O exantema se inicia atrás do pavilhão auricular, disseminando-se rapidamente para o pescoço, face, tronco e atinge a extremidade dos membros por volta do terceiro dia. O exantema é maculopapular eritematoso, morbiliforme como regra, mas em determinadas áreas pode confluir. Na fase do exantema a doença atinge o seu auge, ficando o paciente toxemiado, febril, com os olhos hiperemiados, queixando-se da claridade, com intensa rinorreia e tosse implacável. O exantema começa a esmaecer em torno do terceiro ou quarto dia, na mesma sequência que apareceu, deixando manchas acastanhadas. Devem ser considerados, além do sarampo clássico, mais duas formas de apresentação: o sarampo modificado e o sarampo atípico. Sarampo Modificado Acontece quando o vírus acomete pessoas que têm imunidade passiva, ou pela aquisição intrauterina de anticorpos (portanto ocorre apenas em crianças pequenas), ou por terem tomado gamaglobulina. Embora a imunidade passiva ao sarampo forneça alguma proteção inicial contra a doença, ela pode não ser suficiente para prevenir completamente a infecção pelo vírus em algumas situações, tornando as pessoas afetadas. Nesses casos o tempo de incubação é maior, de mais de três semanas, pródromos mais leves, raramente se observa mancha de Koplik e o exantema também é leve. Sarampo Atípico Ocorreu em crianças que previamente tinham tomado vacina de vírus morto, não mais disponível, apresenta-se como quadro mais grave, com febre alta, cefaleia, mialgia, pneumonite grave, derrame pleural, sendo o exantema bastante variável, macular, vesicular ou petequial Diagnóstico: para o sarampo, o diagnóstico laboratorial é padrão-ouro, por meio da dosagem de IgM, que surge um ou dois dias após o início da erupção e continua detectável por cerca de um mês. Também pode ser utilizado como forma de detecção o aumento de títulos de anticorpos IgG em amostras de sangue (soro), e a detecção viral por meio de RT-PCR, com a coleta de amostras de secreção nasofaríngea, orofaríngea e urina. 1 Manchas de Koplik 2 Exantema Maculopapular Diagnóstico Diferencial Rubéola; Escarlatina; Varicela; Dengue; Exantema súbito; Rubéola Etiologia: é causada pelo vírus de RNA , da família Togaviridae do gênero Rubivirus (vírus da rubéola) Togavírus . Transmissão: via aérea, através de perdigotos. Tempo de incubação:14 a 21 dias. Tempo de contágio: desde poucos dias antes até cinco a sete dias depois da erupção. Cuidados com os contactantes: observação. Isolamento: isolamento respiratório e de contato para os casos adquiridos pós-parto, até sete dias após o exantema. As crianças com infecção congênita são consideradas infectantes até um ano de idade ou até que a pesquisa de vírus na nasofaringe e na urina se negative. Quadro Clínico Principalmente em crianças não se observa pródromo, mas em adolescentes e em adultos podem aparecer sintomas gerais brandos (febre baixa) antecedendo um a dois dias o exantema que se inicia na face, espalhando- se rapidamente para o pescoço, tronco e atinge os membros já em 24 horas. Em geral, também há dor de garganta, conjuntivite leve, cefaleia, mal-estar e anorexia. O exantema é maculopapular róseo, eventualmente pode coalescer no tronco, e tem curta duração, de três ou menos dias. Em alguns casos observa-se, no palato mole, lesões petequiais, conhecidas como sinal de Forscheimer, achado característico porém não patognomônico desta doença. Achado marcante, entretanto, é a adenomegalia que pode anteceder em até sete dias o exantema. São acometidos, principalmente, os gânglios da cadeia cervical e retroauricular. Metade dos casos apresenta esplenomegalia discreta. As complicações na criança são raras, citando-se a púrpura trombocitopênica, encefalite e em mulheres, artralgia. Diagnóstico: isolamento do vírus do material de nasofaringe ou da urina é método padrão ouro, contudo são mais utilizados atualmente métodos automatizados como a pesquisa de anticorpos da classe IgM e de IgG. E a detecção do RNA viral em amostra de orofaringe por PCR, o qual dará o diagnóstico já no primeiro dia dos sintomas, sendo útil até o sétimo dia, no caso de rubéola aguda. Diagnóstico Diferencial Sarampo; Escarlatina; Dengue e outras arboviroses; e Infecção por enterovírus; Eritema Infeccioso (Megaloeritema) Etiologia: é causada pelo Parvovírus humano B19 (Parvoviridae Erythrovirus). Transmissão: via aérea, por perdigotos. Tempo de incubação: 4 a 14 dias. Tempo de contágio: a viremia ocorre cinco a dez dias após a exposição, dura cerca de cinco dias, sendo que no 3 Sinal de Forscheimer período exantemático a pessoa já não costuma ser transmissor. Cuidados com os contactantes: observação, principalmente com as pessoas que tenham hemoglobinopatia. Isolamento:desnecessário. Quadro Clínico Em geral, não há pródromos e o primeiro sinal costuma ser o exantema que se inicia na face como maculopápulas que confluem tornando-se uma placa vermelho rubra, com concentração, principalmente, na região das bochechas, poupando a região perioral, a testa e o nariz, conferindo um aspecto de “asa de borboleta”, semelhante ao observado no lúpus eritematoso, dando às crianças aspecto de “cara esbofeteada”. Um a quatro dias após, o exantema evolui, acometendo os membros superiores e inferiores, inicialmente em sua face extensora e mais tarde, na flexora. A lesão da pele inicia-se como uma mácula que vai aumentando de tamanho, deixando a região central mais pálida, conferindo um aspecto tipicamente rendilhado. 4 Aspecto Rendilhado Nessa fase, o tronco pode ficar acometido. O exantema pode persistir por um período longo, até mais de dez dias e se exacerbar ou reaparecer quando a criança é exposta ao sol, após exercício e nas alterações de temperatura. Recorrência das lesões mesmo após uma a duas semanas do desaparecimento é descrita. A evolução é em geral afebril, podendo se acompanhar de artralgias e artrites. O hemograma é normal ou com discreta leucocitose e eosinofilia. Apesar de ter evolução benigna, na maioria dos casos, nos adolescentes e adultos os sintomas são mais proeminentes, principalmente o comprometimento articular. O parvovírus humano B19 é um vírus emergente em importância. Anteriormente responsável apenas pelo eritema infeccioso, hoje tem várias apresentações clínicas a ele creditadas. Este vírus tem como célula-alvo o eritroblasto do hospedeiro, os pacientes em geral apresentam anemia que pode ser profunda em pessoas com hemoglobinopatias. A síndrome das luvas e meias é também atribuída ao parvovírus. Essa apresentação incomum ocorre em crianças e adultos jovens e é caracterizada por lesões purpúricas simétricas e eritematosas indolores nas mãos e nos pés, e, eventualmente, na bochecha, cotovelo, joelho e nádega. Diagnóstico: sorologia, IgG e IgM para parvovírus humano B19; detecção de DNA viral por PCR. Exantema Súbito Etiologia: Herpes vírus humano 6 (HVH6) e 7 (HVH7) Transmissão: provavelmente por perdigotos. Tempo de incubação: 5 a 15 dias. Tempo de contágio: durante a fase de viremia, sobretudo no período febril. Cuidados com os contactantes: observação. Isolamento: desnecessário. Quadro Clínico Acomete, virtualmente, apenas as crianças entre os 6 meses e os 6 anos de idade, predominando nas menores de dois anos, sugerindo que exista uma certa proteção (a proteção não é 100% eficiente) pelos anticorpos maternos e que o vírus seja altamente predominante na comunidade já que na idade pré-escolar quase todas já estão imunes. O início da doença é súbito, com febre alta, contínua (a criança fica extremamente irritada, anorética) e é considerada como uma das causas mais comuns de convulsão febril. Não há toxemia apesar da magnitude da febre. A linfonodomegalia cervical é achado muito frequente, assim como a hiperemia de cavum (nasofaringe). Após três a quatro dias de febre, quando esta cessa bruscamente, aparece o exantema, de modo súbito, constituído por lesões maculopapulares rosadas que se iniciam no tronco e se disseminam para a cabeça e extremidades. A erupção é de curta duração, de algumas horas a dois ou três dias, desaparecendo sem deixar descamação ou hiperpigmentação. O exantema pode passar despercebido. Além disso, pode se observar as manchas de nagayama na transição do palato para úvula Diagnóstico: o diagnóstico pode ser estabelecido primariamente com base na idade, na história e nos achados clínicos. Porém, é possível realizar exames específicos como: testes para detecção de anticorpos e PCR para detecção de HVH6 e HVH7 no sangue. Diagnóstico Diferencial Rubéola; Sarampo; Eritema infeccioso; Escarlatina; Escarlatina Etiologia: é causada por uma reação cutânea e mucosa tardia decorrente da exposição às toxinas eritrogênicas produzidas pelas bactéria Gram-Positiva S. pyogenes (principalmente A, B e C). Transmissão: transmissão da infecção do trato respiratório parece ocorrer através de gotículas de saliva e de secreções nasais eliminadas pelo doente. As bactérias se fixam à mucosa da oro e da nasofaringe, iniciando a colonização e infecção. Tempo de incubação: é de cerca de 2-5 dias. Tempo de contágio: o indivíduo infectado deixa de transmitir a infecção 24 horas após o início de tratamento com antibiótico adequado. Quadro Clínico A doença tem início agudo com febre alta (39 a 40°C), calafrios, vômitos, cefaleia, prostração, amigdalite e dor abdominal. A escarlatina se inicia como uma infecção de vias aéreas superiores, com a instauração do exantema entre 24-48h após o início dos sintomas. Essa lesão tem aspecto eritematoso e micropapular, dando à pele uma textura áspera semelhante à “lixa”. O exantema se inicia em volta do pescoço e se espalha para o tronco e as extremidades. Na face, as bochechas ficam hiperemiadas enquanto a região perioral se torna pálida (sinal de Filatov). 5 Sinal de Filatov Nas regiões flexurais, o exantema é mais intenso, levando à formação de linhas transversais (sinal de Pastia). 6 Sinal de Pastia O exantema começa a desaparecer após a 1ª semana, iniciando-se pela face e pescoço, deixando uma descamação fina. Os pés e as mãos são os últimos a descamar e o fazem de modo mais intenso. O processo se completa ao final de três semanas, em média. Na avaliação da orofaringe, nós conseguimos ver basicamente as mesmas características do que a faringite estreptocócica. As amígdalas frequentemente estão edemaciadas, hiperemiadas e recobertas por um exsudato. A úvula também pode estar hiperemiada, com petéquias, e edemaciada com aspecto gelatinoso. A língua, no primeiro dia da infecção, apresenta-se com aspecto de “morango branco” em função das papilas hipertrofiadas e saburra branca recobrindo sua superfície. No terceiro dia, a língua adquire um aspecto de “morango vermelho” ou “framboesa”, pois a saburra desaparece e as papilas linguais avermelhadas se tornam evidentes. Diagnóstico: diagnóstico primariamente vai ser clínico, por meio da história e dos achados principais. Porém, uma forma de detectar a bactéria é por meio da cultura do swab de orofaringe. A questão é que a cultura demora alguns dias para positivar. Assim, um dos exames que pode ser utilizado é o teste rápido que detecta o antígeno do estreptococo do grupo A. Diagnóstico Diferencial Sarampo; Rubéola; Eritema infeccioso; Exantema Vesicular Doença Mão-Pé-Boca Etiologia: é causada principalmente pelo Vírus Coxsackie (Coxsackie A16), mas também por outros enterovírus(enterovírus 71). É um vírus não envelopado, de fita simples de RNA. Transmissão Apresenta alta contagiosidade, e a transmissão pode ser por via fecal-oral, respiratória e, também, pelo contato com o líquido das vesículas. Tempo de incubação: varia de 3-6 dias. Tempo de contágio: a 1ª semana após o início dos sintomas é o período de maior transmissibilidade da infecção. Quadro Clínico A doença tem predileção por crianças menores de 5 anos de idade, e a evolução é benigna na maioria dos pacientes. Caracteriza-se por febre baixa, vesículas em lábios, língua, mucosa jugal(tecido que reveste a parte interna da bochecha), gengivas (as lesões da cavidade oral são aftosas), faringe posterior e amígdalas , que podem ulcerar. Inicia-se, então, dor de garganta e recusa alimentar, e a presença de um exantema maculopapular ou vesicular nas mãos, pés e nádegas; a superfície dorsal das extremidades é mais acometida. As lesões encontradas nasmãos e pés costumam evoluir com formação de vesículas, enquanto as lesões nas nádegas costumam ser somente maculopapulares. Essas lesões desaparecem em uma semana. Diagnóstico: normalmente é clínico visto que temos um quadro bem-marcado (lesões vesiculopapulares em mãos, pés, nádegas e boca). Laboratorialmente, confirma-se a da detecção do RNA do vírus por reação de cadeia de polimerase (PCR) ou sorologias. Diagnóstico Diferencial Varicela; Varicela Etiologia: causada pelo vírus da varicela zóster – vírus de DNA da família Herpesviridae. Transmissão: por aerossol, contágio direto e raramente transmissão vertical. Tempo de incubação: de 10 a 21 dias. Tempo de contágio: do décimo dia após o contato até a formação de crostas de todas as lesões. Isolamento: respiratório e de contato. Cuidados com os contactantes: a imunoglobulina humana antivírus varicela zóster (VZIG) deve ser indicada nas seguintes situações: crianças imunocomprometidas, sem história prévia de varicela; gestantes suscetíveis; recém-nascidos cuja mãe tenha tido catapora dentro de cinco dias antes ou 48 horas após o parto; prematuros (gestação com 28 semanas), cuja mãe não tenha tido varicela; e prematuros (gestação com menos de 28 semanas) independente da história materna. Quadro Clínico O exantema é o primeiro sinal da doença, mas eventualmente pode se notar febre baixa e mal-estar, mais proeminentes em adolescentes e em adultos. A erupção inicia-se na face(disseminando-se para o tronco e extremidades), como máculas eritematosas que rapidamente se tornam pápulas, vesículas, pústulas e finalmente crostas , Essas lesões aparecem em surtos, em geral por três a cinco dias, antecedidas por febre , promovendo um aspecto polimórfico do exantema. O envolvimento do couro cabeludo, das mucosas orais e genitais é frequente. As crostas permanecem por cinco a sete dias e depois caem, deixando uma mácula branca, que não é permanente. Quando a pele foi anteriormente traumatizada ou sofreu abrasão, como cirurgias, radioterapia, queimadura, presença de eczema, dermatite de fraldas etc., as lesões costumam ser mais numerosas nesta região. Diagnóstico: na fase de vesícula, o exame do líquido da lesão pela microscopia eletrônica ou por PCR fornece o diagnóstico imediato. Anticorpos podem ser detectados pelo método de IFI(imunofluorescência indireta). Diagnóstico Diferencial: Coxsackioses; Infecções cutâneas; OBS: os diagnósticos diferenciais contidos nesse resumo estão relacionado à somente algumas doenças exantemáticas, portanto não estão completos.