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PROJETO INTEGRADOR -08 – AULA 01 - MOD 08 - TEMPO E HISTÓRIA Professor: DR. JOÃO MUNIZ JUNIOR SUMÁRIO 1. O fascínio do tempo 2. O tempo sob análise 3. Linhas do tempo interdisciplinares O fascínio do tempo “Compositor de destinos / Tambor de todos os ritmos / Tempo, tempo, tempo, tempo / Entro num acordo contigo / Tempo, tempo, tempo, tempo” – em linda poesia, Caetano Veloso faz essa homenagem na canção “Oração ao tempo”. Na música, para citar exemplos brasileiros, temos “O tempo não para”, de Cazuza, “Tempo perdido”, de autoria de Renato Russo, entre outros. Na literatura, os exemplos são vastos, mas podemos citar a monumental obra “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust. No cinema, os filmes e séries se superam em suas concepções sobre o tempo, tais como o filme “Interestelar”, o clássico “De volta para o futuro” ou mais recentemente, a série “Dark”. Na física temos o grande interesse e contribuição de Albert Einstein, outro fascinado pelo tempo e que nos legou a sua Teoria da Relatividade. Ora, o fascínio do tempo consome os seres humanos em várias áreas do conhecimento e da cultura. Os historiadores não estão imunes a esse fascínio, como diz a já célebre frase de Marc Bloch ao se referir à História como “ciência dos homens no tempo”. Assim, o tempo se constitui como uma das bases do conhecimento histórico e um dos fenômenos que mais proporcionam possibilidades de desenvolvimento de atividades práticas entre os alunos de Ensino Fundamental e Ensino Médio, justamente em virtude do apelo que a temática é capaz de despertar. O tempo sob análise Desde a revolução historiográfica imposta pelos Annales que se tornou praticamente um hábito a demonização de uma concepção de história baseada na cronologia. Evidentemente que o tempo da história não é o tempo da cronologia. Ou seja, o tempo histórico até pode ser vislumbrado a partir de uma cronologia, porém, se ela se mostra rígida, acaba por conferir uma ideia de sentido, de telos, que, decididamente, a história não possui. Para alunos de Ensino Básico é importante ressaltar a multiplicidade de tempos históricos e de concomitância temporal. Lembro-me de uma experiência de sala de aula com uma turma de primeiro ano do Ensino Médio em que, após estudarmos História Antiga Oriental (Egito Antigo, Mesopotâmica, Fenícios, Persas e Hebreus) e iniciarmos os estudos de Antiguidade Clássica (Grécia e Roma), um aluno perguntar: “professor, então quer dizer que Antiguidade Oriental e Antiguidade Clássica aconteceram ao mesmo tempo?”. Aparentemente, trata-se de uma pergunta singela, mas que carrega os desafios de utilizarmos uma linha cronológica a começar com Egito Antigo, depois Grécia e Roma, em seguida Feudalismo e assim por diante. Quando nos valemos de uma linha cronológica, vale a pena fazermos de maneira que os alunos percebam a concomitância temporal entre as sociedades humanas e não fiquem presos a uma concepção de história na qual o tempo transcorre de maneira linear e contínua. Uma abordagem prática Uma excelente atividade a ser desenvolvida em sala de aula seria o uso de uma linha do tempo elaborada pelos próprios alunos. É importante que, antes de tudo, o professor(a) destaque a relevância do tempo na análise das sociedades humanas e enfatizar a concomitância do tempo com exemplos claros. O caso citado acima serve como ilustração. Quando se deu tal experiência, a saída encontrada foi apresentar um mapa e apontar quais civilizações habitaram o mundo antigo e deixar evidentes os períodos que cada sociedade se desenvolveu, chamando a atenção dos alunos para os períodos em que estas civilizações compartilharam o Planeta ao mesmo tempo. Para tornar o exemplo ainda mais claro, vale a pena citar influências políticas, culturais, econômicas, religiosas, entre outras, que só foram possíveis na medida em que diferentes povos viveram ao mesmo tempo em diferentes espaços, mas mantiveram contatos entre si. Uma das grandes dificuldades dos estudantes, portanto, é entender a concomitância de temporalidades entre diferentes sociedades e também as relações entre o local e o universal. Outra vivência de sala de aula, interessante de ser compartilhada, foi quando um aluno do segundo ano do Ensino Médio ficou pasmo ao perceber como a bipolaridade entre extrema esquerda (Comunismo) e extrema direita (Nazifascismo) no Período Entreguerras no contexto externo ao Brasil, influenciou a dinâmica interna da política brasileira, sendo que, aqui, tal bipolaridade se refletiu com partidos como AIB – Ação Integralista Brasileira, de cunho fascista em oposição à ANL – Aliança Nacional Libertadora, de vertente comunista. Assim, o uso de uma linha cronológica deve ter dois objetivos principais: 1) Facilitar o aprendizado da história com base em uma linha temporal que evidencie o desenvolvimento das sociedades humanas ao longo do tempo; 2) Exemplificar que as civilizações ocuparam determinadas áreas do mundo de forma sucessiva sim, mas também concomitante. 1 Facilitar o aprendizado da história com base em uma linha temporal que evidencie o desenvolvimento das sociedades humanas ao longo do tempo; 2Exemplificar que as civilizações ocuparam determinadas áreas do mundo de forma sucessiva sim, mas também concomitante. Portanto, o principal cuidado a ser tomado com o uso de linhas do tempo é que o aluno não seja levado a assumir uma concepção de tempo linear e sucessório da história. Pelo contrário, a linha do tempo deve deixar evidente a concomitância temporal e as intercambialidades entre diferentes civilizações. Abaixo, são reproduzidas duas linhas temporais. A primeira trata daquilo que se convencionou chamar de História Geral, com foco na Idade Média. A segunda se refere ao período pré-colonial na América e que funciona como um espelho temporal da primeira, apesar de se referir a outro contexto espacial, mas cuja civilização também se desenvolve ao mesmo tempo em que a europeia ou asiática. É somente um dentre vários exemplos de como é possível, e até mesmo desejável, a elaboração de linhas temporais de maneira a expor aos alunos a concomitância temporal de desenvolvimento de diferentes civilizações ao redor do mundo. Observa-se que as linhas temporais estão dispostas uma sob a outra, de maneira a deixar claro aos alunos que o que se está fazendo é uma comparação em que duas linhas temporais transcorrem de maneira concomitante. Pode-se chamar a atenção dos discentes que enquanto o Império Bizantino está se desenvolvendo na Ásia, aqui na América Pré-Colonial a civilização Maia está em franco desenvolvimento também. Pode-se chamar a atenção ainda para a maneira como as linhas temporais vão se cruzar após a invasão da América pelos europeus em 1492 e também com a conquista do povo Maia em 1540. Como dito acima, esse é apenas um exemplo dentre uma infinidade de outros em que se torna rica a abordagem da história a partir de uma linha temporal em que evidencie as concomitâncias temporais de existência de diversas culturas humanas no tempo e no espaço e ainda, as maneiras pelas quais eventualmente tais culturas entram em contato umas com as outras. Como organizar a elaboração da linha temporal O uso de linhas do tempo é uma possibilidade de desenvolver um projeto que se desenrole ao longo do ano letivo, conforme o andamento das aulas e o avanço dos conteúdos estudados. Sendo assim, seria de grande valor dispor de um painel ou algo semelhante dentro da sala de aula de maneira que, na medida em que os conteúdos são trabalhados, os alunos podem alimentar a linha do tempo aos poucos. Ficaria a critério do(a) docente a maneira pela qual a linha do tempo seria criada: de maneira individual ou em grupos. Todavia, uma sugestão seria levar em consideração a faixa etária da turma, a fim de melhor orientar os trabalhos a serem desenvolvidos. Portanto, tendo em vista o caráter construtivo do projeto, poderíamos citar algumas sugestões quanto às possibilidades de se confeccionar a referida linha do tempo: · Uso de cartolinas. É um material acessível que poderia ser utilizado conformeo ano letivo decorre e a linha do tempo avança. · Uso de papel Craft. Um material também de baixo custo e que permitiria a elaboração de um painel com uma linha do tempo traçada de forma prévia a partir de cuidadoso planejamento entre professor(a) e alunos. · Painel de cortiça. Custo um pouco mais elevado quando comparado aos materiais citados anteriormente, porém pode oferecer maior resistência à manipulação por parte dos alunos. Trata-se tão somente de dicas e sugestões. Assim, o profissional docente tem toda liberdade didática e de cátedra para pensar as melhores possibilidades de execução desse tipo de projeto. Algo que seria válido para todas as sugestões acima seria o uso de post-its, o que tornaria possível eventuais correções ou acréscimos. Além disso, seria interessante o uso de fios do tipo barbante ou algo semelhante para a elaboração da linha temporal. Recomenda-se também a variação do uso de cores para destacar as diferentes temporalidades. Linhas do tempo interdisciplinares Outra possibilidade de enorme riqueza didático-pedagógica seria aplicar os mesmos princípios que seriam utilizados para a elaboração de uma linha do tempo tradicional para a construção de uma linha do tempo interdisciplinar. Nesse tipo de projeto, haveria uma linha do tempo tradicional que serviria como guia e abaixo dela, e totalmente alinhada em termos temporais, outras linhas do tempo separadas por disciplina. Por exemplo, vamos pensar uma parceria entre as disciplinas de História e Filosofia. Imagine-se um painel com uma primeira linha temporal tradicional com as marcações “Pré-História”, “Idade Antiga”, “Idade Média” e assim por diante. Na faixa temporal dedicada à “Idade Média” teríamos os dados referentes a esse período, tais como Império Bizantino, Expansão Islâmica, etc. Numa eventual parceria com a disciplina de Filosofia, logo abaixo da linha temporal tradicional e diretamente vinculada ao período da Idade Média, teríamos os filósofos que viveram nessa faixa de tempo, como no exemplo abaixo: Se nos valermos do exemplo acima, os alunos envolvidos num projeto de linha temporal interdisciplinar precisariam realizar pesquisas para tornar possível alimentar as linhas temporais com as devidas informações. No momento em que estivessem comparando os acontecimentos da Linha do Tempo da História com a Linha do Tempo da Filosofia, poderiam perceber que Guilherme de Ockham viveu na Baixa Idade Média e teria falecido em Munique no ano de 1347, ano de grande epidemia de peste negra, o que provavelmente o teria levado à morte. Outros consórcios com outras disciplinas também poderiam ser estabelecidos e, assim, teríamos não apenas uma ou duas, mas várias disciplinas com suas linhas temporais sendo trabalhadas e os alunos poderiam acompanhar, ao longo do ano letivo a evolução do seu aprendizado de maneira a visualizar, literalmente, a relação entre as matérias estudadas e as localizações no tempo das escolas filosóficas na linha do tempo da disciplina de filosofia. As diversas escolas literárias poderiam ser inseridas na linha do tempo da disciplina de Língua Portuguesa ou Literatura; os diversos pensadores, na linha do tempo da disciplina de Sociologia; as principais descobertas, pensadores, cientistas, avanços tecnológicos, entre outros, em outras linhas temporais de outras disciplinas, tais como Física, Matemática, Química, Biologia, etc. A parceria com a disciplina de Geografia seria de grande valor também, pois permitiria ao professor de história trabalhar a ideia de “tempo curto”, “tempo médio” e “tempo longo”, conforme as propostas de Fernand Braudel. Assim, seria possível estabelecer em que medida a linha temporal da geografia antecede, inclusive, a presença do homem na terra e as maneiras pelas quais as relações entre o meio ambiente e as civilizações humanas ocorreram ao longo tempo. Percebe-se que há uma enorme riqueza na exploração de atividades, trabalhos e projetos que se debrucem sobre a noção do tempo a partir do ponto de vista histórico. Além dos ganhos em termos de evolução dos alunos na capacidade de apreenderem sobre a concomitância temporal de desenvolvimento das civilizações humanas ao longo da história, caso o projeto seja desenvolvido de maneira interdisciplinar, os resultados podem ser amplificados, uma vez que, além da percepção de que a história não é somente uma cronologia rígida, tais alunos poderiam ampliar o repertório analítico e comparativo ao estabelecerem as relações entre os diversos campos do saber. Por último, mas de forma alguma o menos importante, pelo contrário, os alunos ao se envolverem com um projeto dessa dimensão se tornam sujeitos ativos na produção do próprio conhecimento, o que seria, por si só, o maior e melhor motivador para se propor esse tipo de atividade. 2 image4.jpeg image5.jpeg image6.jpeg image7.jpeg image8.jpeg image9.jpeg image10.jpeg image11.jpeg image12.jpeg image13.jpeg image14.jpeg image15.PNG image16.PNG image1.png image2.jpeg image3.jpeg