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DIREITO DO CONSUMIDOR DIREITO DO CONSUMIDOR Direito do Consum idor Mavili de Cassia da Silva Moura Mavili de Cassia da Silva Moura GRUPO SER EDUCACIONAL gente criando o futuro O Código de Defesa do Consumidor, sancionado pela Lei n° 8.078, coroa um traba- lho legislativo iniciado antes da promulgação da Constituição de 1988. Juristas de re- nome, como Ada Pellegrini Grinover, coordenadora geral, participaram da comissão criada para apresentar o anteprojeto de Código de Defesa do Consumidor previsto pelos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Após a divulgação, seguida de debates, o anteprojeto foi publicado no Diário O� cial em 04 de janeiro de 1989. In� uenciado pelo Projet de Code de la Consommation, com os contributos de outros modelos legislativos estrangeiros vigentes, tem estrutura, conteúdo moderno e é um marco por suas inovações e resgate da cidadania. Fruto dos avanços no processo de industrialização que revolucionou o consumo, hoje é algo banal em nossa sociedade, embora permeado de desa� os exacerbados pela evolução da tecnologia. A � exibilização do mercado de trabalho no século XXI é um dos fatores para a proliferação dos novos pobres, os excluídos do consumo. O Código busca compatibilizar as necessidades dos consumidores e do respeito à dig- nidade, saúde e segurança com o desenvolvimento econômico e tecnológico. O estu- do constante das transformações do mercado de consumo e a adaptação das regras, frente ao espaço para evolução do texto pela interpretação, são fundamentais aos operadores do direito. SER_DIR_DIRCONSU_CAPA.indd 1,3 15/12/2020 12:05:44 © Ser Educacional 2020 Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro Recife-PE – CEP 50100-160 *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Imagens de ícones/capa: © Shutterstock Presidente do Conselho de Administração Diretor-presidente Diretoria Executiva de Ensino Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Diretoria de Ensino a Distância Autoria Projeto Gráfico e Capa Janguiê Diniz Jânyo Diniz Adriano Azevedo Joaldo Diniz Enzo Moreira Mavili de Cassia da Silva Moura DP Content DADOS DO FORNECEDOR Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 2 15/12/2020 11:59:20 Boxes ASSISTA Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple- mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. CITANDO Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa relevante para o estudo do conteúdo abordado. CONTEXTUALIZANDO Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; demonstra-se a situação histórica do assunto. CURIOSIDADE Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto tratado. DICA Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. EXEMPLIFICANDO Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto. EXPLICANDO Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da área de conhecimento trabalhada. SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 3 15/12/2020 11:59:20 Unidade 1 - Teoria Geral do Direito do Consumidor Objetivos da unidade ........................................................................................................... 12 Pressupostos fundamentais ............................................................................................... 13 A relação jurídica de consumo ......................................................................................... 17 Os princípios da Lei nº 8078/90 e os direitos básicos do consumidor ........................ 23 Práticas abusivas ................................................................................................................. 31 Sintetizando ........................................................................................................................... 39 Referências bibliográficas ................................................................................................. 40 Sumário SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 4 15/12/2020 11:59:20 Sumário Unidade 2 - Teoria Geral do Direito do Consumidor Objetivos da unidade ........................................................................................................... 43 Qualidade e segurança dos produtos e serviços .......................................................... 44 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – o recall ..................................... 47 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – comunicação do fato às autoridades competentes e introdução no mercado de divulgação publicitária ........49 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – indenização ............................ 50 Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor: vício e defeito .......... 51 A teoria do risco do negócio: a base da responsabilidade objetiva ....................... 52 Vício e defeito dos produtos: distinção ....................................................................... 54 Os vícios dos produtos ................................................................................................... 55 Os vícios dos serviços .................................................................................................... 58 O fato do produto: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade .. 59 O fato de serviço: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade ... 61 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – as excludentes de responsabilidade............................................................................ 62 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a regra da responsabilidade solidária ......................................................................... 64 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a responsabilidade dos profissionais liberais: culpa ............................................. 65 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – decadência e prescrição e os prazos para reclamar e para propor ação judicial..........66 Sintetizando ........................................................................................................................... 69 Referências bibliográficas ................................................................................................. 70 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 5 15/12/2020 11:59:20 Sumário Unidade 3 - A publicidade, os bancos de dados e cadastros e a proteção contratual Objetivos da unidade ........................................................................................................... 73 Da publicidade ...................................................................................................................... 74 Da publicidade/da oferta: princípio da vinculação contratual ................................ 75 A publicidade clandestina ............................................................................................. 78 A publicidade enganosa ................................................................................................. 79 A publicidade abusiva .................................................................................................... 81 Princípios da publicidade ............................................................................................... 82 A prova da verdade e correção do desvio publicitário ............................................. 84 Dos bancosem situação de emergência, após prévio aviso nos ca- sos de razões de ordem técnica ou de segurança das instalações ou por inadim- plência do usuário, considerado o interesse da coletividade. O capítulo III da Lei 8987/95 orienta os direitos e deveres dos usuários, dentre os quais destaca-se o de receber serviço adequado. A eficiência na prestação do serviço não é um adicional, mas sim um dever. DIREITO DO CONSUMIDOR 37 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 37 15/12/2020 12:03:36 Além de adequado aos fins que se destina, deve ser de fato eficiente e fun- cionar a contento. A doutrina e a jurisprudência têm enfrentado o tema de corte de fornecimento de serviços essenciais em caso de inadimplência com alguma frequência. O Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 1.270.339, entendeu ser legítima a interrupção do fornecimento de energia elé- trica por questões de ordem técnica, de segurança das instalações ou por falta de pagamento por parte do usuário, desde que o devido aviso prévio tenha sido realizado. A jurisprudência do Tribunal prevê três cenários para o corte de energia por falta de pagamento: • O consumo regular, a simples mora do consumidor; • A recuperação de consumo por responsabilidade atribuível à concessionária; • A recuperação de consumo por responsabilidade atribuível ao consumi- dor, fraude no medidor de energia. Em relação à última hipótese, o Superior Tribunal de Justiça veda o corte no fornecimento de energia se a fraude for detectada unilateralmente pela con- cessionária, mas se o débito anterior decorrente da fraude for apurado, com o respeito ao contraditório e à ampla defesa, é possível a suspensão. Responsabilidade solidária O § único do art. 7° da Lei nº 8078/90 estabeleceu o princípio da solidarieda- de legal quanto à responsabilidade pelos danos causados ao consumidor, que é de todos os partícipes pelos danos causados. A consequência prática dessa previsão legal é que o consumidor que sofre dano moral ou material pode es- colher a quem acionar, se a um ou a todos. A solidariedade impõe a qualquer um dos responsáveis o pagamento pelo todo do dano. A regra da responsabilidade solidária é objeto de disciplina ex- pressa do Código de Defesa do Consumidor no art. 18, no caput do art. 19, nos § 1° e § 2° do art. 25, no § 3° do art. 28 e ainda no art. 34, o que denota que a responsabilidade solidária, seja por vício ou por defeitos, sempre se dá no sistema do Código de Defesa do Consumidor. DIREITO DO CONSUMIDOR 38 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 38 15/12/2020 12:03:36 Sintetizando Nesta unidade, foram delimitados os pressupostos do direito do consu- midor, sua relação com os princípios constitucionais e sua técnica legislativa moderna. O Código de Defesa do Consumidor é fruto de determinação consti- tucional que lembra que as modernas sociedades de consumo são marcadas pela vulnerabilidade do consumidor e pelo desequilíbrio nas relações jurídicas de consumo. Foi possível analisar os conceitos de consumidor e fornecedores, bem como os de relação jurídica de consumo e seus objetos, com destaque aos serviços públicos. O Código de Defesa do Consumidor determina a interdependência entre esses atores, no sentido de que não existe consumidor sem fornecedor, nem fornecedor sem consumidor. O Código não traz impedimentos para que as pessoas jurídicas sejam con- sideradas consumidores, desde que atendam ao requisito de serem destinatá- rias finais do produto ou serviço. O Código trata também dos entes desperso- nalizados e de figuras como os consumidores equiparados. Com atenção aos direitos básicos do consumidor, em especial a vulnerabili- dade, característica intrínseca dos consumidores, que foi distinguida da hipos- suficiência. Quanto aos direitos básicos, foram analisadas a transparência, a boa-fé objetiva, tão essencial ao equilíbrio das relações de consumo, e o acesso à justiça, bem como o dever governamental na proteção ao consumidor. Por fim, se observaram algumas das práticas abusivas, com destaque a proteção à publicidade enganosa ou abusiva, ao princípio da conservação dos contratos, que se refletem na possibilidade de revisão dos negócios jurídicos, e a modificação dos contratos com efetiva reparação dos danos. DIREITO DO CONSUMIDOR 39 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 39 15/12/2020 12:03:36 Referências bibliográficas ALEXY, R. Teoria dos direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2006. APARICIO, J. M. Contratos: parte general. Buenos Aires: Hammurabi, 2016. AZEVEDO, A. J. Negócio jurídico: existência, validade e eficácia. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2000. BOBBIO, N. Igualdade e liberdade. 2 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Sistema Nacional de De- fesa do Consumidor – SNDC. Brasília, 28 nov. 2014. Disponível em: . Acesso em: 28 set. 2020. CANOTILHO, J. J. G. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7 ed. Lis- boa: Livraria Almedina, 2003. CAVALIERI FILHO, S. Programa de direito do consumidor. São Paulo: Atlas, 2008. DINIZ, M. H. Compêndio de introdução à ciência do Direito. 21 ed. São Paulo: Saraiva, 2010. DWORKIN, R. Taking rights seriously. Cambridge: Harvard University Press, 1978. GIANCOLI, B. P.; ARAÚJO JÚNIOR, M. A. Difusos e coletivos: direito do consu- midor. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. GRINOVER, A. et. al. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 12 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. MARQUES, C. L. Contratos no código de defesa do consumidor: o novo regime das relações contratuais. 8 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016. MEIRELLES, H. L. Direito administrativo brasileiro. 20 ed. São Paulo: Malhei- ros, 1995. NUNES, R. Curso de direito do consumidor, 12 ed. São Paulo: Saraiva Edu- cação, 2018. REALE, M. Lições preliminares de direito. 22 ed. São Paulo: Saraiva, 1995. SILVA, V. A. Princípios e regras: mitos e equívocos acerca de uma distinção. Revista Latino-americana de Estudos Constitucionais, Belo Horizonte, v. 1, jan./jun. 2003, pp. 607-630. Disponível em: . Acesso em: 28 set. 2020. DIREITO DO CONSUMIDOR 40 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 40 15/12/2020 12:03:36 SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (STJ). Questões sobre o fornecimento de energia elétrica na pauta do STJ. Brasília, DF, 13 out. 2019. Disponível em: . Aces- so em: 28 set. 2020. TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito mate- rial e processual. 5 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT (UNCTAD). United Nations Guidelines on Consumer Protection. Disponível em: . Acesso em: 28 set. 2020. DIREITO DO CONSUMIDOR 41 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 41 15/12/2020 12:03:36 Unidade 2 - Teoria Geral do Direito do Consumidor Objetivos da unidade ........................................................................................................... 43 Qualidade e segurança dos produtos e serviços .......................................................... 44 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – o recall ..................................... 47 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – comunicação do fato às autoridades competentes e introdução no mercado de divulgação publicitária ........49 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – indenização ............................ 50 Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor: vício e defeito .......... 51 A teoriado risco do negócio: a base da responsabilidade objetiva ....................... 52 Vício e defeito dos produtos: distinção ....................................................................... 54 Os vícios dos produtos ................................................................................................... 55 Os vícios dos serviços .................................................................................................... 58 O fato do produto: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade .. 59 O fato de serviço: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade ... 61 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – as excludentes de responsabilidade............................................................................ 62 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a regra da responsabilidade solidária ......................................................................... 64 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a responsabilidade dos profissionais liberais: culpa ............................................. 65 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – decadência e prescrição e os prazos para reclamar e para propor ação judicial..........66 Sintetizando ........................................................................................................................... 69 Referências bibliográficas ................................................................................................. 70 Sumário SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 1 15/12/2020 11:59:11 QUALIDADE E SEGURANÇA DOS PRODUTOS E SERVIÇOS E A RESPONSABILIDADE CIVIL 2 UNIDADE SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 42 15/12/2020 11:59:54 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Apresentar aspectos da qualidade e segurança dos produtos e serviços, com destaque para recall, comunicação do fato às autoridades competentes e indenização; Discutir os conceitos de responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor, abordando a teoria do risco, a distinção entre os vícios e os defeitos e também os fatos do produto e do serviço; Abordar as excludentes de responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor, a regra da responsabilidade solidária, a responsabilidade dos profissionais liberais fundada na culpa e a distinção entre a decadência e a prescrição com seus respectivos prazos. Qualidade e segurança dos produtos e serviços Qualidade e segurança dos pro- dutos e serviços – o recall Qualidade e segurança dos pro- dutos e serviços – comunicação do fato às autoridades competentes e introdução no mercado de divulga- ção publicitária Qualidade e segurança dos pro- dutos e serviços – indenização Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor: vício e defeito A teoria do risco do negócio: a base da responsabilidade objetiva Vício e defeito dos produtos: distinção Os vícios dos produtos Os vícios dos serviços O fato do produto: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabili- dade O fato de serviço: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabili- dade Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – as excludentes de responsabilidade Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a regra da responsabilidade solidária Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a responsabilidade dos profissionais liberais: culpa Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – decadência e prescrição e os prazos para reclamar e para propor ação judicial DIREITO DO CONSUMIDOR 43 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 43 15/12/2020 11:59:54 Qualidade e segurança dos produtos e serviços O Código de Defesa do Consumi- dor impõe qualidade aos produtos e serviços colocados no mercado pe- los fornecedores; assim estabelece a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, nos artigos 8º a 17, naquilo que nomeamos qualidade-segurança, e, nos artigos 18 a 25, a qualidade- -adequação (MARQUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 402). A opção do legislador foi a que- bra do paradigma em termos de responsabilidade do fornecedor. A preocupação é criar critérios para a tutela do “bem mais valioso a ser preservado nas relações de consumo: a vida do consumidor” (GRINOVER et al., 2019, p. 295). Com o advento da produção e do consumo em massa, os acidentes de consumo tornaram-se mais comuns – estes ocorrem em decorrência do fornecimento de produ- tos ou serviços nocivos à saúde do consumidor. Os fornecedores estão, na sistemática do Código de Defesa do Consumi- dor, sujeitos a sanções civis, que envolvem a responsabilidade destes pelos danos causados aos consumidores em consequência da nocividade ou pe- riculosidade dos produtos e serviços; a sanções administrativas, que envol- vem a responsabilidade dos fornecedores perante a Administração Pública nos três níveis de governo, em virtude do descumprimento de normas legais e regulamentos; e a sanções penais, pela prática de ilícitos penais. Em verdade, o código disciplina os critérios que indicam a nocividade ou a periculosidade de produtos e serviços colocados no mercado, ao mes- mo tempo em que cria os deveres de informação para os fornecedores nos casos concretos. Há no Código de Defesa do Consumidor, portanto, uma teoria da qua- lidade que suporta a noção de que o fornecedor tem que cumprir o dever DIREITO DO CONSUMIDOR 44 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 44 15/12/2020 12:00:39 anexo de qualidade, ou seja, dá-se ao consumidor uma garantia implícita de segurança e de adequação conforme a confiança despertada. A prote- ção da confiança que o consumidor deposita nos produtos e serviços e em suas marcas é o traço das novas relações sociais. Mas precisamos distinguir os riscos à saúde e à segurança de produtos e serviços daqueles riscos qualificados como normais e previsíveis, estes devem ser tolerados pelos consumidores, desde que as informações este- jam claras e precisas a esse respeito. Aquilo que entendemos como pericu- losidade inerente, ou seja, indissociável do produto ou serviço fornecido, não se confunde com a periculosidade adquirida, que acontece durante o processo de consumo. A chamada periculosidade inerente não se relacio- na com os defeitos. Podemos notar que, conforme disciplina o §1º do artigo 8º da Lei nº 8.078/1990, o fornecedor e o fabricante têm o dever de informar, mediante linguagem escrita, o que pode ser cumprido – por meios impressos que de- vem acompanhar o produto. Caso os produtos sejam recondicionados, tal obrigatoriedade recairá sobre os comerciantes e prestadores de serviço, que poderão utilizar-se de quaisquer meios para cumprir o dever de infor- mação. Se pelo lado dos fornecedores a obrigatoriedade é de informação, por parte dos consumidores temos a expectativa de uma informação de qualidade. A higiene dos produtos é preocupação disciplinada no §2º do artigo 8º, especialmente quanto à manipulação desses produtos. O Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 9º, também disciplina os produtos e serviços que, apesar de potencialmente nocivos ou perigosos, podem ser colocados no mercado. Estão inseridos nesse artigo produtos como cigarros, bebidas alcoólicas, fogos de artifício, materiais radioativos, dedetização e demolição de prédios. Os fabricantes de cigarros, nesse sen- tido, por exemplo, são obrigados a informar, de forma ostensiva e clara, sobre os riscos inerentes ao consumo, o que vem sendo feito regularmente. Para além do dever de informar – sendo por meio de sinais ostensivos, cores, símbolos, alertas, manuais de instrução redigidos etc. –, de modo que o consumidor leigo consiga compreender, há o dever de retirar o produto ou serviço do mercado. DIREITO DO CONSUMIDOR 45 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd45 15/12/2020 12:00:39 Figura 1. Alguns dos sinais ostensivos de produtos perigosos reconhecidos no mundo. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 29/10/2020. (Adaptado). CURIOSIDADE A chamada periculosidade inerente é comum em vários produtos e servi- ços; dentre eles, estão os medicamentos. Essa é a razão pela qual as bu- las devem acompanhar os medicamentos: elas carecem explicar os riscos inerentes ao seu uso de forma clara e precisa, assim, tal periculosidade é tolerada pelo consumidor. Prejudicial Radioativo Perigo geral Inflamável Tóxico Oxidante Explosivo Risco biológico Explosivo Corrosivo Veneno Inflamável Perigoso para o ambiente Oxidante Perigo elétrico DIREITO DO CONSUMIDOR 46 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 46 15/12/2020 12:00:39 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – o recall Observamos que as leis do Código de Defesa do Consumidor protegem a confi ança depositada pelo consumidor nos produtos e serviços, na segurança durante o uso, nos riscos normais e inerentes esperados e nas informações claras e precisas. O artigo 10 da Lei nº 8.078/1990 avança e institui um dever na fase pós-contratual: o dever de vigilância. O dever de informar ao consumidor sobre a periculosidade de produto ou serviço que o fornecedor tenha colocado no mercado. A proibição de colocação no mercado de consumo de produto ou serviço que apresenta alto grau de periculosidade consta no caput do artigo 10. A cha- ve para a compreensão do dispositivo é saber quando o produto carrega essa alta periculosidade, o que revela uma imprecisão na norma jurídica, in casu, uma zona de penumbra em que o intérprete precisa decidir sob sua respon- sabilidade. Sabemos que a fi scalização e controle dos produtos e serviços colocados no mercado de consumo fi cam a cargo da União, dos estados e municípios, de acordo com suas áreas de atuação territorial por determinação do §1º do artigo 55 da Lei nº 8.078/1990. É permitido aos entes atuarem em conjunto e realiza- rem desde a apreensão do produto, cassação do alvará de licença, interdição e suspensão da atividade do fornecedor sempre que o produto ou serviço pos- suir um alto grau de periculosidade. Nota-se que o §1º do artigo 10 regula a hipótese de colocação, no mercado de consumo, de produto ou serviço em que o real nível de nocividade ou peri- culosidade é desconhecido do fornecedor até então. O dispositivo determina que o fornecedor o comunique aos consumidores por meio de anúncios publi- citários, mas é necessário que as autoridades competentes também façam isso. Existem produtos ou serviços, nesse sentido, que não estão sujeitos à fi scalização governamental, visto que não há possibilidade de fi scalização preventiva, exce- to por iniciativa própria da empresa com o recolhi- mento do produto defeituoso – o recall. Vetado pelo então presidente do Brasil, o arti- go 11 da Lei nº 8.078/1990 previa que o produto ou DIREITO DO CONSUMIDOR 47 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 47 15/12/2020 12:00:39 serviço, mesmo que adequadamente utilizado ou fruído, que apresentasse alto grau de nocividade ou periculosidade seria retirado do mercado pelo forne- cedor e as suas expensas, sem prejuízo de eventuais reparações por danos causados – naquilo que podemos nomear como um “dever de retirada”. O fun- damento ao veto era que a manutenção do artigo em questão impossibilitaria a produção e o comércio de bens indispensáveis à vida moderna. O veto em si não prejudicou o recall administrativo, posto que de maneira implícita a san- ção administrativa de retirada dos produtos proibidos de serem introduzidos e mantidos no mercado consta nos artigos 9º e 10º da Lei nº 8.078/1990 (MAR- QUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 421). Campanhas de recall por segmento e tipo de produto - geral Secretaria da Justiça e Cidadania - Procon-SP Data inicial: 01/01/2002 Data fi nal: 01/10/2020 Segmento: todos Atenção: em alguns modelos, não há informação sobre a quantidade por modelo específi co. Isto ocorre por causa da empresa ter informado apenas o total geral de produtos afetados/atendidos da campanha. Segmento Total Percentual Campanhas Percentual Veículos 19.921.834 11,50 1.291 81,35 Produtos para a saúde 71.261.766 41,15 68 4,28 Outros 8.791.616 5,08 59 3,72 Produtos infantis 5.201.088 3,00 39 2,46 Alimentos e bebidas 55.330.498 31,95 39 2,46 Informática 589.443 0,34 35 2,21 Peças e acessórios automotivos 222.763 0,13 25 1,58 Eletrodomésticos/ eletroeletrônicos 167.394 0,10 16 1,01 Higiene e beleza 11.704.660 6,76 15 0,95 Total: 173.191.062 19.921.83419.921.83419.921.834 71.261.766 19.921.834 71.261.76671.261.766 8.791.6168.791.616 5.201.088 11,50 8.791.616 5.201.088 11,50 5.201.088 55.330.498 41,15 55.330.498 41,15 55.330.498 589.443 5,08 589.443 222.763 5,08 3,00 222.763 1.291 3,00 222.763 167.394 1.291 31,95 167.394 68 31,95 0,34 167.394 11.704.660 0,34 11.704.660 59 0,13 11.704.660 81,35 39 0,13 81,35 0,10 4,28 39 0,10 3,72 35 6,76 3,72 6,76 2,46 25 2,46 2,462,46 16 2,212,21 15 1,58 1,01 0,95 TABELA 1. TABELA COM OS DADOS REFERENTES ÀS CAMPANHAS DE RECALL, ATUALIZADA EM 30 DE SETEMBRO DE 2020 Fonte: SÃO PAULO, s. d. Acesso em: 30/09/2020. (Adaptado). DIREITO DO CONSUMIDOR 48 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 48 15/12/2020 12:00:39 Qualidade e segurança dos produtos e serviços – comunicação do fato às autoridades competentes e introdução no mercado de divulgação publicitária A informação publicitária às expensas do fornecedor está determinada no §2º do artigo 10 da Lei nº 8.078/1990. É preciso ter em mente que o objetivo do recall é a proteção da coletividade de riscos à saúde e à segu- rança resultantes de defeitos; para alcançar tal objetivo, faz-se necessário que uma ampla e correta divulgação na mídia seja capaz de garantir ao consumidor o direito à informação, de forma a evitar ou diminuir as con- sequências de possíveis acidentes de consumo. Ainda entre os objetivos do recall, destacamos incluir a informação dos fatos à cadeia de forne- cedores, clientes e consumidores, bem como aos órgãos competentes. É fundamental apresentar as ações para a redução dos danos; dentre elas, está a segregação do produto para prevenir a distribuição ou venda das unidades afetadas. A portaria nº 487, de 15 de março de 2012, regula os procedimentos descri- tos nos parágrafos 1º e 2º do artigo 10 da Lei nº 8.078/1990. Assim, cabe ao for- necedor de produtos e serviços, após a introdução destes no mercado de con- sumo, se tiver o conhecimento de determinada periculosidade ou nocividade, comunicar o fato imediatamente ao Departamento de Defesa do Consumidor, aos órgãos estaduais e do Distrito Federal e aos órgãos municipais de proteção ao consumidor, bem como ao órgão normativo ou regulador competente. Tudo isso é considerado um dever legal de todo fornecedor, independentemente do tipo de produto envolvido. Tal comunicado é feito por escrito conforme deter- mina a portaria em comento. Essa comunicação deve conter, ainda, a identifi cação do fornecedor do pro- duto ou serviço, a razão social, o nome fantasia, as atividades econômicas prin- cipal e secundárias, o número de inscrição do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) ou Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), endereço, telefone, nome dos administradores e sua qualifi cação. Quanto ao produto ou serviço, a comunicação precisa ter marca, modelo, lote, série, chassi, data inicial e fi nal da fabricação, foto, descrição pormenoriza- da do defeito, a descrição dos riscos e suas implicações, distribuição geográfi ca DIREITO DO CONSUMIDOR 49 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 49 15/12/2020 12:00:40 dos produtos e serviços, a indicação das medidas já adotadas pelo fornecedor, a descrição dos acidentes ocorridos, os planos de mídia e de atendimento ao consumidor. O plano de mídia é aquele que determinará a data de inícioe fi m da veicu- lação publicitária, bem como os meios de comunicação que serão utilizados e a frequência – sem esquecermos do modelo de aviso de risco e dos custos de veiculação, ainda que se respeite o sigilo dessas informações. Além disso, é por meio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), tendo sido criada pelo Decreto nº 7.738, de 28 de maio de 2012, que podemos buscar informações sobre cada recall em seu sistema on-line. A atuação dessa secretaria, portanto, concentra-se no: planejamento, elaboração, coordenação e execução da Política Nacional das Relações de Consumo, com os objetivos de: (i) garantir a proteção e exercício dos direitos dos consumidores; (ii) promover a harmonização nas relações de consumo; (iii) incentivar a integração e a atuação conjunta dos membros do SNDC; e (iv) participar de organismos, fóruns, comissões ou comitês nacionais e internacionais que tratem da proteção e defesa do consumidor ou de assuntos de interesse dos consumidores, dentre outros (BRASIL, 2014). Qualidade e segurança dos produtos e serviços – indenização O caput do artigo 10 da Lei nº 8.078/1990 dispõe que “o fornecedor não po- derá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segu- rança [do consumidor]” (BRASIL, 1990). Em uma primeira análise, poderíamos considerar que o caput do artigo em comento estabelece a responsabilidade fundada na culpa, tendo em vista o uso de expressões como “sabe” ou “deveria saber”. Se coloca os produtos ou serviços no mercado de consumo e tem a noção de sua alta periculosidade ou nocividade é porque o faz com dolo. Se devia saber é porque o faz com negli- gência, imprudência ou imperícia, ou seja, culpa. DIREITO DO CONSUMIDOR 50 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 50 15/12/2020 12:00:40 Mas é preciso um olhar sistemático e, portanto, quaisquer problemas relati- vos à nocividade ou periculosidade à saúde ou à segurança do consumidor, no que tange aos vícios e defeitos, resolve-se tendo como base a responsabilidade objetiva. A culpa não interessa em sede de proteção ao consumidor, exceto quanto aos profi ssionais liberais. Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito A etimologia da palavra responsabilidade, decorrente do verbo latino respondere, de spondeo, que nasceu de uma obrigação primitiva e de natu- reza contratual, demonstra a divisão, quanto à origem da responsabilida- de, em contratual ou negocial e extracontratual ou aquiliana. Essa divisão, conhecida e consagrada de um modelo binário de responsabilidade, in- fluenciou as codificações modernas. O Código Civil de 1916 adotou o sistema dualista: em seus artigos 1.518 e 1.553, disciplinava-se a responsabilidade extracontratual – a obrigação por atos ilícitos; e, nos artigos 1.056 a 1.058, a consequência pelo não cum- primento das obrigações – a responsabilidade contratual. O Código Civil de 2002, mais bem organizado, trata a princípio da responsa- bilidade extracontratual, no Título IX do “Livro das Obrigações”, nos artigos 927 a 954. A responsabilidade contratual, aquela que decorre do inadimplemento das obrigações, é prevista nos artigos 389 a 420. A parte geral traz as categorias básicas da responsabilidade civil, como o ato ilícito – previsto no artigo 186 – e o abuso de direito – previsto no artigo 187. Assemelha-se a uma setorização, mas em verdade a divisão da responsabilidade civil em extracontratual e contratual faz parte de um tempo passado. Na sociedade de massas, a responsabilidade contratual e extracontratual têm a mesma fonte e obedecem aos mesmos prin- cípios, nascem de um mesmo fato, a violação de um dever jurídico preexistente (COSTA, 2003, p. 97). O Código de Defesa do Consumidor supera essa divisão e unifica a res- ponsabilidade de modo que não importa se a responsabilidade decorre de um contrato ou não. No entanto, diferencia do Diploma Consumerista apenas os produtos e serviços. DIREITO DO CONSUMIDOR 51 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 51 15/12/2020 12:00:40 EXPLICANDO Codifi cações privadas como o Código Civil francês preveem a responsa- bilidade civil delitual ou extracontratual; no caso francês, em seus artigos 1.382 e 1.386. A responsabilidade contratual, contudo, está prevista nos artigos 1.146 a 1.155. O Código Civil italiano, de 1942, também traz essa previsão e divisão quando regula as obrigações. A responsabilidade civil extracontratual está prevista nos artigos 2.043 e 2.059; a responsabilidade contratual, que decorre do inadimplemento obrigacional, está nos artigos 1.218 a 1.229. A teoria do risco do negócio: a base da responsabilidade objetiva A Constituição de 1988 garante a livre iniciativa para a exploração da ativi- dade econômica e, dentre as principais características da exploração da ativi- dade econômica, está o risco. A ação de empreender encerra tanto o sucesso quanto o fracasso (TARTUCE; NEVES, 2016, p. 146), no entanto, a avaliação des- sa ação cabe exclusivamente ao empresário e é parte essencial para o negócio. A avaliação desses riscos leva em conta múltiplos fatores que vão desde o mercado escolhido, passam pela avaliação dos custos dos insumos necessários à produção, até os aspectos do marketing do produto ou serviço a ser colocado no mercado de consumo. Um importante ponto se refere ao equilíbrio entre o risco e o custo, em que alguns autores acrescentam o custo e sua relação com o benefício – fundamental na análise da viabilidade dos negócios. É importante percebermos que na sistemática da norma de proteção ao con- sumidor a qualidade dos produtos e serviços colocados no mercado é essencial. Ressalta-se que a evolução originada na Revolução Industrial e o surgimento da- quilo que chamamos de sociedade do consumo acabaram por tornar a produção em massa, seriada, em que o custo de produção é menor, como a regra posta. Dessa produção em série, a possibilidade de assegurar que o produto ou serviço, ao fi nal de sua cadeia de produção, não será eivado por defeitos ou vícios tornou-se ilusória. Em decorrência da impossibilidade de ausência de de- feitos ou vícios, nasce a necessidade de um diploma que proteja aqueles que são os mais vulneráveis nessa relação de consumo, ou seja, os consumidores. As falhas ocorrem, produtos e serviços podem apresentar vícios e defeitos, e esse é um risco que corre o fornecedor. DIREITO DO CONSUMIDOR 52 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 52 15/12/2020 12:00:40 O Código de Defesa do Consumidor controla o resultado da produção e cuida de garantir que o ressarcimento dos danos pelos fornecedores aos con- sumidores seja realizado (NUNES, 2018, p.147-148). Tanto a receita quanto o patrimônio dos fornecedores respondem pelas indenizações devidas; o argu- mento para tanto é que a receita engloba todos os produtos e serviços, ou seja, engloba até mesmo aqueles que possuem defeitos ou vícios. Aliado a isso, temos que a regra do Código de Defesa do Consumidor consa- gra de forma clara a responsabilidade objetiva e solidária dos fornecedores de produtos e serviços perante os consumidores, com vistas à efetiva reparação integral dos danos. A responsabilidade objetiva prevista na norma de proteção ao consumidor não depende da existência ou não de uma atividade de risco. Adota-se, portanto, a teoria do risco-proveito, ou seja, a responsabilidade sem culpa por trazer benefícios (TARTUCE; NEVES, 2016, p. 119). A responsabilidade objetiva prevista no Código de Defesa do Consumidor é distinta da responsabilidade subjetiva, baseada na culpa e que engloba o dolo e a culpa stricto sensu, prevista no Código Civil de 2002. DIAGRAMA 1. ESQUEMA REPRESENTATIVO SOBRE RESPONSABILIDADE A regra da responsabilidade na norma de proteção ao consumidor é a res- ponsabilidade objetiva, mas a exceção existe e se destina aos profissionais libe- rais que prestam serviço,posto que respondem somente pela culpa, conforme prevê o artigo 14, §4º da Lei nº 8.078/1990. A responsabilidade – extracontratual ou contratual – é, portanto, concentra- da no produto ou no serviço e na existência de um defeito ou vício. Responsabilidade subjetiva - CC/02 Regra Responsabilidade objetiva - CDC Regra Responsabilidade DIREITO DO CONSUMIDOR 53 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 53 15/12/2020 12:00:40 Vício e defeito dos produtos: distinção Torna-se imprescindível distinguirmos vício e defeito para compreen- dermos a sistemática do Código de Defesa do Consumidor. No vício, seja do produto, seja do serviço, o problema se concentra nos limites do bem de consumo, ou seja, não há prejuízos intrínsecos. No fato ou defeito, outras decorrências estão presentes, como os danos morais, estéticos e materiais, os prejuízos extrínsecos. Figura 2. (a): a distinção entre vício e fato leva em consideração se este ocorre dentro dos limites do produto ou serviço ou se o extrapola. Se ocorre dentro dos limites, estamos diante de um vício do produto ou serviço; (b): nos casos em que se extrapolam os limites do produto ou serviço, estamos diante de um fato ou defeito do produto ou serviço. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 30/09/2020. (Adaptado). O vício carrega semelhanças ao vício redibitório quando na condição de vício oculto, disciplinado no Código Civil de 2002, mas com ele não pode ser confundido (NUNES, 2018, p. 156), e na norma de proteção ao consumidor estes podem ser aparentes ou ocultos. Podemos concluir que, quando o dano permanece nos limites, seja do pro- duto, seja do serviço, estamos na presença de um vício. Nesse vício, a desvan- tagem econômica para o consumidor não ultrapassa os limites de valor do produto ou serviço (GRINOVER et al., 2019, p. 310). Caso o problema ultrapas- se tais limites, teremos fato ou defeito, em que há a ocorrência de acidente de consumo. O defeito é para o consumidor mais devastador (NUNES, 2018, p. 157). Dentro dos limites do produto ou serviço – vício Extrapola os limites do produto ou serviço – fato DIREITO DO CONSUMIDOR 54 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 54 15/12/2020 12:03:22 DIAGRAMA 2. EXISTEM QUATRO HIPÓTESES DE RESPONSABILIDADE CIVIL Para ocorrer o defeito, é necessário primeiro o vício, portanto, não exis- tem defeitos sem vícios, ainda que existam vícios sem defeitos. A distinção entre essas categorias carrega algumas consequências: podemos destacar as pessoas legitimadas a responder pelas situações correspondentes. Sabemos que o Código de Defesa do Consumidor adotou a solidariedade presumida entre aqueles envolvidos no fornecimento de produtos ou serviços, confor- me dispõe o artigo 7º da Lei nº 8.078/1990, tanto pelos vícios quanto pelos defeitos na medida de suas participações. Na sistemática do Código de Defesa do Consumidor, quatro são as hipó- teses de responsabilidade civil: a responsabilidade pelo vício do produto; a responsabilidade pelo fato do produto ou defeito; a responsabilidade pelo vício do serviço; por fi m, a responsabilidade pelo fato do serviço ou defeito. O Código de Defesa do Consumidor disciplina a responsabilidade pelos ví- cios do produto ou serviço em seus artigos 18 a 25. Ao fato do produto ou ser- viço, o código destina os artigos 12 a 17. Os vícios dos produtos A responsabilidade pelos vícios dos produtos encontra-se prevista no artigo 18 da Lei nº 8.078/1990. O vício do produto ocorre quando um problema oculto ou aparente no bem o torna impróprio ao uso a que se destina ou diminua seu valor – assim chamado vício de inadequação. Nota-se que não há qualquer repercussão externa ao produto, o que caracterizaria a fi gura do fato do pro- duto, de modo que, se não há rompimento do produto, não há que se falar em indenizações além dos danos materiais pelo valor do bem de consumo. Pelo vício do produto Pelo fato do produto ou defeito Pelo vício do serviço Pelo fato do serviço ou defeito Responsabilidade DIREITO DO CONSUMIDOR 55 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 55 15/12/2020 12:03:22 Os vícios do produto possuem aspectos contratuais e extracontratuais que são regulados pelo Código de Defesa do Consumidor – e não pelo Código Civil de 2002. Dessa forma, o regime descrito no Código Civil de 2002 referen- te aos vícios redibitórios é subsidiário à norma de proteção ao consumidor, como da vigência do Código Civil de 1916. Salienta-se, contudo, que em ma- téria de prestação de serviços de transporte há uma prevalência das normas do Código Civil de 2002 naquilo que dispõe de maneira expressa (MARQUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 562). Três são os vícios de inadequação previstos no Código de Defesa do Con- sumidor. Os vícios de impropriedade, os vícios de diminuição do valor e os vícios de disparidade informativa, ou vícios de qualidade por falha na infor- mação, o que constitui dever do fornecedor e – muitas vezes – apenas por ele estes podem ser sanados. DIAGRAMA 3. VÍCIOS DE INADEQUAÇÃO PREVISTOS NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR Esses vícios de inadequação podem ser considerados uma melhora do sistema de vícios redibitórios, visto que o método escolhido pelo Código de Defesa do Consumidor se trata do dever de qualidade, cujo fim é o mesmo das demais previsões do código de proteção ao consumidor: uma melhora em sua qualidade de vida, maior harmonia e segurança. Por determinação do Código de Defesa do Consumidor, o fornecedor pode acionar o sistema de garantia do produto e realizar o reparo em 30 dias, de modo que é possível o saneamento dos vícios que sejam capazes de impactar Vícios de impropriedade Vícios de disparidade informativa Vícios de diminuição do valor DIREITO DO CONSUMIDOR 56 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 56 15/12/2020 12:03:22 a qualidade do produto. Ressalta-se que esse prazo se aplica aos chamados produtos industrializados dissociáveis, ou seja, produtos que permitam a dis- sociação de seus componentes, sendo o caso dos eletrodomésticos, computa- dores etc. Nos casos em que não seja possível essa dissociação, não há que se falar em oportunidade de saneamento; o caso aqui é de exigir as alternativas constan- tes do §1º do artigo 18 da Lei nº 8.078/1990. Mesmo nos produtos dissociáveis, se após os 30 dias o vício não for sanado, o consumidor terá direito às alterna- tivas constantes do §1º do artigo 18 dessa lei. DIAGRAMA 4. O CONSUMIDOR TERÁ DIREITO ÀS ALTERNATIVAS CONSTANTES DO §1º DO ARTIGO 18 DA LEI Nº 8.078/1990. Não há dúvidas de que, das sanções previstas no artigo 18, a substituição do produto é a mais satisfatória para os consumidores, e a melhor interpretação é aquela que permite a substituição por outro produto da mesma espécie, marca e modelo; da mesma forma que a restituição imediata da quantia paga deve ser sob certo aspecto relativizada (GRINOVER et al., 2019, p. 346). O §6º do artigo 18 da Lei nº 8.078/1990 elenca algumas hipóteses em que os vícios do produto estão presentes. Esse rol não é taxativo, visto que outras si- tuações podem ocorrer em que se vislumbre o vício do produto. Assim, os pro- dutos cujos prazos de validade estejam vencidos são considerados impróprios ao consumo, bem como: produtos deteriorados, avariados, alterados, adulte- rados, falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à saúde ou à vida, perigo- sos ou até mesmo aqueles que se encontram em desacordo com as normas de fabricação, distribuição ou apresentação. Por último, são inadequados para o Art. 18 Substituição do produto por outro de mesma espécie; Restituição imediata da quantia paga, sem prejuízo das perdas e danos; Abatimento proporcional do preço. §1º DIREITO DO CONSUMIDOR 57 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 57 15/12/2020 12:03:22 consumo os produtos que, por qualquer motivo, revelam-se inadequados ao fi m a que se destinam. Importante ressaltarmos que não podemos confundir vício do produto com deteriorações normais ao uso da coisa; demaneira que o fornecedor respon- de pelos vícios do produto, mas não pelo desgaste natural decorrente de uso ordinário. Não podemos exigir que o fornecedor seja um eterno responsável pelos produtos colocados no mercado de consumo. Isso não signifi ca, contudo, eximir o fornecedor da responsabilidade, desde que a reclamação seja feita dentro do prazo exigido pela lei após evidenciado o defeito. A responsabilidade pelos vícios de quantidade está prevista no artigo 19 do Código de Defesa do Consumidor e é a mesma que observamos no artigo 18 do mesmo diploma legal. Os vícios dos serviços Previstos no artigo 20 da Lei nº 8.078/1990, os vícios dos serviços não se concentram na maneira tradicional em que é vista a prestação de serviços, ou seja, na diligência normal em sua execução e cuidados ordinários. Ino- va-se o Código de Defesa do Consumidor, posto que se concentra no efeito do contrato. O efeito do contrato é a obrigação de fazer algo, seja de meio, seja de resultado. Nesse sentido, o serviço prestado deve ser adequado aos fi ns que (razoavelmente) são esperados. No entanto, há também vício de qualidade no serviço que não atenda às normas regulamentares de presta- bilidade, conforme preceitua o §2º do artigo 20. No Código de Defesa do Consumidor, existe uma espécie de presunção de que, quando o resultado não é adequado ou não “possui sua prestabi- lidade regular”, o serviço é viciado e, portanto, falho (MARQUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 614-615). Da mesma forma que nos vícios referentes aos produtos, nos vícios dos serviços temos os vícios de informação, que se caracterizam pela diferença entre as indicações constantes da oferta ou men- sagem publicitária e o serviço prestado. Nos ca- sos em que ocorre essa disparidade, o consumidor DIREITO DO CONSUMIDOR 58 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 58 15/12/2020 12:03:22 pode, de maneira idêntica ao previsto quanto aos vícios de produto, requerer a reexecução, o abatimento do preço ou ainda a rescisão do contrato. A reexecução dos serviços pode ser realizada por terceiros por conta e risco do fornecedor, sendo isso o que prevê o §1º do artigo 20 da Lei nº 8.078/1990. É fundamental recordarmos que obrigação de fazer não é sinônimo de obrigação de resultado. Nas obrigações chamadas de meio, o que se espe- ra razoavelmente é a única coisa a se exigir, diferentemente das obrigações de resultado, em que conseguimos exigir que se alcance determinado resul- tado. Nesta última modalidade, basta a demonstração do descumprimento do contrato para caracterizar o vício do serviço. Na sociedade de consumo em massa, a possibilidade de vícios nos serviços é ampla, porque estes possuem características multifárias, pois muitos são os tipos de prestação de serviços. Em qualquer uma das modalidades existentes, pode ha- ver a impropriedade prestacional, comprometendo a harmonia e o equilíbrio das relações de consumo (GRINOVER et al., 2019, p. 351). EXEMPLIFICANDO Muito recorrente na doutrina, a distinção entre obrigações de meio e resultado ganha bastante relevo na prestação de serviços médicos. Para a ministra Nancy Andrighi, da Terceira Turma do STJ, a obrigação de meio limita-se a um dever de desempenho, ou seja, o compromisso é de agir com zelo e empregar a melhor técnica – sem que exista qualquer obriga- ção quanto à efetivação de um resultado. Nas obrigações de resultado, entretanto, há uma obrigação quanto ao resultado. Para mais informações, leia o artigo “A responsabilidade civil por acto médico na jurisprudência das Secções Cíveis do Supremo Tribunal de Justiça”. O fato do produto: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade O fato do produto está descrito no artigo 12 da Lei nº 8.078/1990; trata- -se do acontecimento externo (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 241), que causa dano material ou moral – ou até mesmo ambos – ao consumidor. O fato ge- rador é um defeito que pode ser de concepção, de produção, de comerciali- zação etc.; para essas causas, a doutrina nomeia de acidentes de consumo DIREITO DO CONSUMIDOR 59 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 59 15/12/2020 12:03:22 quando materializados e atingem a incolumidade física ou ainda psíquica do consumidor e seu patrimônio. Produtos e serviços nocivos à saúde ou que comprometem a segurança dos consumidores são responsáveis pela maior parte dos danos causados aos clientes. Nesse sentido, basta o nexo causal entre o defeito do produto e o aci- dente de consumo para se configurar a responsabilidade conforme prevista no diploma protetivo ao consumidor. Na sistemática do código, a garantia de segurança tanto do produto quanto do serviço tem natureza de respon- sabilidade extracontratual. O artigo 12 da Lei nº 8.078/1990 impõe esse de- ver aos fabricantes, produtores, construtores e importadores e – de modo subsidiário – ao distribuidor ou fornecedor direto (MARQUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 433-434). É possível distinguirmos três espécies de fornecedor: o fornecedor real, que compreende o fabricante, o construtor e o produtor; o fornecedor presumido, que é o importador de produto in natura ou industrializado; e o fornecedor aparente, sendo aquele que coloca seu nome ou marca no produto final. O artigo 12 da Lei nº 8.078/1990 também menciona os defeitos de ma- neira a ampliar a aplicação da norma às possíveis técnicas de elaboração dos produtos. É dessa forma que os defeitos de concepção envolvem os vícios de projeto, formulação, aí incluídos o design dos produtos, os defeitos de produção que envolvem os vícios de fabricação, construção, montagem, manipulação e acondicionamento dos produtos; e os defeitos de informação que envolvem a apresentação de informação insuficiente ou inadequada, aí incluída a publicidade (GRINOVER et al., 2019 p. 318). Muitos defeitos de concepção acabam por determinação o recolhimento do produto: o recall. Uma importante característica desses defeitos é sua inevitabilidade. Escapam ao processo de controle e surgem como parte do ris- co do negócio. O §1º do artigo 12 afirma que defeituoso é o produto que não oferece a segurança esperada, por- tanto, não há que se falar em segurança absoluta, mas sim da proteção de segurança dentro dos padrões da expectativa legítima do consumidor (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 244). A colocação de DIREITO DO CONSUMIDOR 60 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 60 15/12/2020 12:03:22 produto de melhor qualidade no mercado de consumo não torna o produ- to anterior defeituoso. Quanto ao nexo causal, não há exigência para que o consumidor prove o defeito do produto, bastando a prova do acidente de consumo. A respon- sabilidade é objetiva, mas não é fundada no risco integral, de modo que é indispensável a ocorrência do acidente de consumo. O fato de serviço: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade O fato do serviço e sua responsabilidade estão disciplinadas no artigo 14 da Lei nº 8.079/1990. Nota-se a correspondência entre os artigos 12 e 14 do diploma de proteção aos consumidores. Tal responsabilidade, que também é objetiva como no fato do produto, aperfeiçoa-se com os pressupostos do defeito do serviço, o evento danoso e a relação de causalidade entre o de- feito no serviço e o dano. Os serviços aos quais se refere a norma de proteção ao consumidor são quaisquer atividades, bem como quaisquer atividades de natureza bancá- ria, fi nanceira, de crédito e securitária. É preciso, também, que esse serviço seja remunerado: a exceção são os serviços gratuitos, como a amostra grá- tis, conforme previsto no parágrafo único do artigo 39; e os bancos de dados e cadastros previstos no artigo 43, ambos da Lei nº 8.078/1990. Os critérios para aferição do vício de qualidade nos serviços estão pre- vistos no §1º do artigo 14 da Lei nº 8.078/1990; neste sentido, é importante assinalar que, para a segurança do usuário do serviço, deve-se considerar o modo de fornecimento do serviço,os riscos da fruição e a época em que foi prestado o serviço. Serviços defeituosos se referem àqueles que são mal apresentados para o consumidor, quando sua fruição é capaz de suscitar riscos acima do nível esperado, bem como, em razão do decurso do tempo, desde sua prestação, é de se supor que não apresentem sinais de envelhecimento. Mais uma vez, o chamado imperativo de qualidade se destaca; portan- to, a obrigação conjunta de qualidade-segurança, aquela em que não deve DIREITO DO CONSUMIDOR 61 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 61 15/12/2020 12:03:23 estar presente um defeito na prestação do serviço e um acidente de consu- mo que cause danos ao consumidor, é exigida (MARQUES; BENJAMIN; MIRA- GEM, 2010, p. 477). Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – as excludentes de responsabilidade A responsabilidade objetiva – regra no âmbito do Código de Defesa do Consumidor – não dispensa o nexo causal. Se não há essa relação de causa e efeito entre o dano e o fato do produto ou serviço, não há que se falar em responsabilidade. Em todas as hipóteses de exclusão de responsabilidade, ela está presente conforme corroboram os artigos 12, §3º, e 14, §3º, da Lei nº 8.078/1990. Destacamos a previsão de ausência de responsabilidade do fornece- dor do produto quando este comprovar que não o colocou no mercado. À primeira vista, aparenta-se desnecessário o inciso I do artigo 12 da Lei nº 8.078/1990, mas a razão de sua inserção no código decorre da presunção que, estando o produto no mercado, este foi introduzido pelo fornecedor (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 252). Não há no código qualquer regra que esti- pule quando o produto foi colocado no mercado, o que será objeto de con- sideração no caso concreto pela jurisprudência. A inexistência do defeito dependerá de prova do fornecedor e também é causa excludente de responsabilidade, bem como a culpa exclusiva do consu- midor – esta última nos casos em que a atuação do consumidor é causa direta e determinante do evento. Mas é de se notar que a modalidade de culpa con- corrente não se encontra disciplinada pelo Código de Defesa do Consumidor, em que pesam algumas decisões judiciais. A culpa exclusiva por fato de terceiro ainda fi gura entre uma das excludentes de responsabilidade. O termo mais adequado, fato exclusivo de terceiro, também é aplicável ao caso de culpa exclusiva do consumidor. Terceiro é a pessoa estranha à relação de consumo, nos casos em que há uma re- DIREITO DO CONSUMIDOR 62 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 62 15/12/2020 12:03:23 lação de confiança entre o terceiro e o fornecedor ou prestador será este últi- mo que responderá, visto que nesse caso participa da corrente de produção, mesmo que remotamente; é solidário (TARTUCE; NEVES, 2016, p. 169). O caso fortuito e a força maior não se encontram previstos no Código de Defesa do Consumidor como excludentes da responsabilidade. Em tal caso, a doutrina se divide. Uma parte entende que o rol descrito pela norma de proteção ao consumidor é taxativo, e, portanto, estariam excluídos tanto o caso fortuito quanto a força maior. E outra corrente na qual se filiam Flávio Tartuce e Sérgio Cavalieri Filho, visto que ambos constituem fatores que – de maneira geral – obstam a responsabilidade. Mas é importante destacar a opinião de Zelmo Denari, um dos autores do anteprojeto que deu origem ao Código de Defesa do Consumidor: para ele, o caso fortuito e a força maior são admitidos pelo Diploma Consumerista. Esses acontecimentos que são ditados por força da natureza ou que escapam do controle humano po- dem ocorrer tanto antes da colocação do produto no mercado de consumo quanto depois – nesse caso, ocorre a ruptura do nexo de causalidade, o que afasta a responsabilidade. O mesmo pode acontecer na responsabilidade na prestação dos serviços. DIAGRAMA 5. CARACTERÍSTICAS ENTRE FORTUITO INTERNO E FORTUITO EXTERNO FORTUITO INTERNO Liga-se a organização da empresa e se relaciona com os riscos da atividade FORTUITO EXTERNO Fato estranho à organização do negócio, não há nenhuma ligação com a atividade negocial Excludente de responsabilidade DIREITO DO CONSUMIDOR 63 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 63 15/12/2020 12:03:23 EXEMPLIFICANDO Apenas a título de exemplo, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal reconheceu a culpa concorrente do con- sumidor mesmo diante da demora em prover meios para o bloqueio do acesso à conta de WhatsApp, o que evi- dencia a culpa do requerido Facebook, mas reconhece que o usuário do serviço contribuiu de forma signifi cativa para a perpetração da fraude ao acessar o link, possibi- litando o acesso a sua conta de WhatsApp por terceiro. Em virtude do reconhecimento da culpa concorrente, o tribunal reduziu o valor da indenização por danos morais fi xados em sentença. Para mais informações, entre no portal do TJDFT. Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a regra da responsabilidade solidária Nos casos em que há mais de um causador do dano ao consumidor, o Código de Defesa do Consumidor prevê a solidariedade entre eles, conforme dispõe o artigo 7º, em seu parágrafo único e, ainda, os artigos 18 e 25, parágrafos 1º e 2º, da Lei nº 8.078/1990. Os produtos colocados no mercado de consumo em geral não possuem apenas um fabricante; é comum que a matéria-prima ou até mesmo alguns com- ponentes tenham origem entre fabricantes diferentes. Nessas situações, todos são responsáveis pelos defeitos apresentados e respondem pelas consequências. A possibilidade de ações de regresso contra aquele que causou o dano en- tre esses fornecedores não foi afastada pela norma, mas o fundamento dessa solidariedade entre eles decorre do dever de segurança imposto pelo Código de Defesa do Consumidor. Nos acidentes de consumo, a responsabilidade dos comerciantes é subsidiá- ria – e não solidária –, conforme preceitua o artigo 13 da Lei nº 8.078/1990. O comerciante pode ser acionado nos casos em que não é possível identifi car o produtor, o fabricante ou o importador ou, ainda, quando os comerciantes não conservam de forma adequada os produtos perecíveis. Está claro que neste últi- mo acontecimento concorre o comerciante com o dano por sua conduta (CAVA- LIERI FILHO, 2008, p. 248-249). Podemos verfi car a diferença entre o disposto no artigo 12 e o disposto no artigo 14 no que se refere aos agentes responsáveis. No primeiro caso – DIREITO DO CONSUMIDOR 64 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 64 15/12/2020 12:03:23 aquele que tratamos da responsabilidade pelo fato do produto –, o Código de Defesa do Consumidor especifi ca os responsáveis e exclui somente o comerciante em via principal, constando o fabricante, o produtor, o cons- trutor e o importador. Ao tratar da responsabilidade pelo fato do serviço, menciona-se apenas fornecedor, o que inclui todos aqueles que participam da cadeia produtiva. DIAGRAMA 6. ESQUEMA REPRESENTATIVO NO QUE TANGE ÀS RESPONSABILIDADES Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – a responsabilidade dos profissionais liberais: culpa A responsabilidade objetiva é a regra no sistema de proteção ao consumi- dor, e a única exceção a ela consta no §4º do artigo 14 da Lei nº 8.078/1990, que determina a responsabilidade em virtude da culpa aos profi ssionais libe- rais. Tal parágrafo se aplica aos casos de defeitos nos serviços. O artigo 20 do Diploma Consumerista disciplina as falhas de adequação dos serviços presta- dos por profi ssionais, bem como a solidariedade dela decorrente. Incluem-se na falha de adequação (e, portanto, na seara da responsabilidade objetiva) pessoas jurídicas formadas por profi ssionais médicos, bem como outros pro- fi ssionais – isto não é o que disciplina o artigo 14 em seu §4º, que disciplina somente os profi ssionais liberais. A questão que de alguma maneira suscitou controvérsia – e hoje ultrapassa-da – era saber quais as razões para essa espécie de benefício dado a esse tipo Responsabilidade pelo fato do produto – exclusão do comerciante Responsabilidade pelo fato do serviço – inclui todos os fornecedores DIREITO DO CONSUMIDOR 65 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 65 15/12/2020 12:03:23 de profi ssional ao excluí-lo da responsabilidade objetiva, que é a regra geral da norma de proteção ao consumidor. Primeiro devemos salientar que a atividade exercida pelos profi ssionais liberais é realizada em razão da pessoa e, portan- to, em relações negociais intuitu personae; nesse sentido, não são prestadas com a característica dos prestadores de serviços em massa. Sendo serviços negociados, não faria sentido a submissão desses profi ssio- nais a um sistema de responsabilidade pensado para os serviços em massa. Mais uma vez, a distinção entre obrigações de meio e resultado faz parte do debate. No entanto, o melhor entendimento é aquele que os profi ssionais liberais, na apuração de suas responsabilidades, estão inseridos na regra tra- dicional da apuração mediante a culpa. Nos casos das obrigações de meio, a culpa deverá ser provada, e, nas obrigações de resultado, a regra será a da res- ponsabilidade subjetiva com culpa presumida (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 262). Esses profi ssionais não estão dispensados dos deveres impostos pelo Có- digo de Defesa do Consumidor; dentre eles, está o dever de informação: tão somente a exceção que lhes foi atribuída é a da regra da responsabilidade. EXPLICANDO Profi ssionais liberais são aqueles que exercem uma profi ssão livremen- te, com autonomia e sem subordinação, de modo que tais profi ssionais prestam serviços por conta própria, sem nenhuma dependência com seu grau de escolaridade. Profi ssionais liberais, portanto, não são apenas os advogados, engenheiros, dentistas etc., mas também os carpinteiros, fotó- grafos, pintores, costureiras, eletricistas e diversas pessoas que prestam serviços com autonomia e sem subordinação. Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – decadência e prescrição e os prazos para reclamar e para propor ação judicial É importante lembrar que o estudo que aqui se pretende se refere às nor- mas de defesa do consumidor. Dito isso, os institutos da decadência e da prescrição serão vistos em conformidade com o disposto na Lei nº 8.078/1990. Essa introdução se faz necessária, porque o Código de Defesa do Consumidor inovou e trouxe um modelo diferente para essas questões. DIREITO DO CONSUMIDOR 66 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 66 15/12/2020 12:03:23 Tradicionalmente, até 1991, a decadência não podia ser obstada, ou seja, não podia ser interrompida ou suspensa, o que muda com a norma de prote- ção aos consumidores. O caput do artigo 26 traz dois conjuntos de palavras essenciais para o es- tudo da decadência em sede de consumidor; vício aparente e vício de fácil constatação. Essas expressões são mais bem compreendidas quando se foca na segunda, ou seja, nos vícios em que sua constatação é fácil mediante o uso e consumo regular do produto ou do serviço. Para compreender a decadência, precisamos retornar ao artigo 24 da Lei nº 8.078/1990, quando da disciplina da garantia legal de adequação. A garan- tia legal impede a estipulação de cláusulas contratuais que exonerem, impos- sibilitem e atenuem as obrigações decorrentes dos vícios de adequação. É ônus para toda a cadeia produtiva e é mais do que a mera garantia dos vícios redibitórios. Veda-se, portanto, o afastamento, o que a difere dos vícios redi- bitórios previstos tanto no código de 1916 quanto no vigente. Sabemos, outrossim, que a caducidade do direito do consumidor no que se refere aos vícios dos produtos não duráveis ocorre em 30 dias e dos duráveis, em 90 dias (NUNES, 2018, p. 121). A distinção entre produtos du- ráveis e não duráveis deriva da extinção em seu uso ou prestação; de modo que um produto durável é aquele que não se extingue com o uso, ao passo que o serviço durável é aquele que apresenta uma continuidade no tempo e deixa um resultado. De forma contrária, o produto não durável é aquele que se extingue com o uso e serviço não durável é aquele que se extingue uma vez prestado. A contagem do prazo para a caducidade quanto aos vícios dos produtos e serviços inicia-se com a entrega do produto ou a prestação do serviço, conforme prevê o artigo 26, em seu §1°. É certo que o consumidor deve co- meçar a fruir do produto ou serviço para se falar em andamento do prazo de garan- tia. Diferentemente dos vícios de fácil constatação, o prazo nos vícios ocultos apenas poderá ser contado a partir do surgimento do vício. DIREITO DO CONSUMIDOR 67 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 67 15/12/2020 12:03:23 Os vícios ocultos são aqueles que não estão acessíveis, ao mesmo tempo em que não impedem o uso e o consumo de maneira regular pelo consumidor (NUNES, 2018, p. 289). Até mesmo os produtos usados possuem a garantia legal. Aos fornecedo- res que oferecerem garantia a seus produtos, a garantia legal de adequação prevista no Código de Defesa do Consumidor deverá ser contada após o tér- mino da chamada garantia contratual. Prevê o Código de Defesa do Consumidor que a decadência é obstada pela reclamação comprovadamente realizada pelo consumidor perante o fornece- dor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente ou com a instauração de inquérito civil (até seu encerramento). A primeira causa, prevista no inciso I do §2º do artigo 26 da Lei nº 8.078/1990, diz respeito aos prazos de 30 e 90 dias previstos em parágrafo anterior: se a reclamação for realizada dentro desses prazos previstos, estará obstada a decadência; nos casos de resposta negativa do fornecedor ou não resposta, o consumidor terá constituído novo direito (NUNES, 2018, p. 300). Constituído esse direito, cabe analisar a prescrição para a propositura da ação com vistas à reparação dos danos causados. A prescrição é a extinção da pretensão. O artigo 189 do Código Civil de 2002 dispõe que, violado o direito, nasce para seu titular a pretensão que se extingue com a prescrição. O artigo 27 da Lei nº 8.078/1990 prevê um prazo prescricional de cinco anos. Vimos que o direito ao ressarcimento pelos danos está previsto nos ar- tigos 12 a 17, o que justifica a pretensão de ressarcimento de todos os consu- midores/vítimas. O prazo de cinco anos será contado a partir do conhecimen- to do dano e da autoria, visto que não basta ao consumidor ter conhecimento do dano. Essa contagem do prazo dentro do sistema de proteção ao consu- midor é flexível em alguma medida; nos casos em que há garantia contratual, ele apenas corre após seu término. O prazo de cinco anos não é o chamado prazo geral, portanto, em temas de consumo não previstos no Código de Defesa do Consumidor, o prazo con- siderado será o do Código Civil. DIREITO DO CONSUMIDOR 68 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 68 15/12/2020 12:03:23 Sintetizando Nesta unidade, estabelecemos os pressupostos quanto à qualidade e segurança dos produtos e serviços colocados no mercado de consumo. Estudamos que na sis- temática do Código de Defesa do Consumidor a qualidade é algo esperado pelo con- sumidor e um dever do fornecedor de produtos e serviços. Analisamos o instituto do recall, tão utilizado na sociedade de produção em massa, bem como os requisi- tos para sua realização, e ainda vimos a necessidade de comunicá-lo às autoridades competentes e ao mercado publicitário. Discutimos os conceitos de responsabilidade civil em sede de Código de Defesa do Consumidor. Iniciamos os estudos pela teoria do risco do negócio, indissociável dos modos de produção atuais, bem como com a regra da responsabilidade obje- tiva aplicada pela norma de defesa do consumidor. Para o avanço no sistema de responsabilidade, aprendemos a distinção entre vício e fato do produto e serviço. Estudamos de modomais detalhado os vícios dos produtos e serviços e o fato do produto e serviço. Neste ponto, percebemos como essa distinção se reflete na regra da responsabilidade civil pelos danos causados, além da necessidade de existência de nexo causal entre o dano e o vício ou defeito do produto ou serviço. No entanto, não estudamos apenas as regras da responsabilidade; também vimos a exceção à regra geral no que tange aos profissionais liberais, que, na sis- temática do Código de Defesa do Consumidor, respondem por culpa. Estudamos tais profissionais para compreender a razão da exceção posta. E vimos também a responsabilidade solidária na sistemática do Código de Defesa do Consumidor. Seguimos os estudos com as excludentes da responsabilidade civil e analisa- mos a ausência de nexo de causalidade, assim como outras excludentes – mes- mo que não previstas no Código de Defesa do Consumidor, como o caso fortuito e a força maior. Por fim, discutimos a decadência sob o olhar do Código de Defesa do Consumi- dor, a garantia legal de adequação e os prazos conferidos aos consumidores para in- formar aos fornecedores os vícios decorrentes dos produtos e serviços, bem como a distinção entre bens e serviços duráveis e não duráveis. A prescrição foi nosso último tópico e, nele, estudamos a prescrição constante do Código de Defesa do Consumidor e a regra geral que consta do Código Civil vigente para os casos não previstos na norma de proteção ao consumidor. DIREITO DO CONSUMIDOR 69 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 69 15/12/2020 12:03:23 Referências bibliográficas ALMEIDA, F. B. Direito do consumidor esquematizado. 8. ed. São Paulo: Sa- raiva, 2020. ALMEIDA, J. B. Manual de direito do consumidor. São Paulo: Saraiva, 2003. BAUMAN, Z. Trabajo, consumismo y nuevos pobres. Barcelona: Gedisa, 2000. BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasí- lia, DF, Poder Executivo, 12 set. 1990. Disponível em: . Acesso em: 29 out. 2020. BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. O que é Senacon. Brasília, DF, 2014. Disponível em: . Acesso em: 29 out. 2020. CAVALIERI FILHO, S. Programa de Direito do Consumidor. São Paulo: Atlas, 2008. COSTA, J. M. Do inadimplemento das obrigações. In: TEIXEIRA, S. F. (Coord.). Comentários ao Novo Código Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2003. GABINETE DOS JUÍZES ASSESSORES – ASSESSORIA CÍVEL. A responsabilidade civil por acto médico na jurisprudência das Secções Cíveis do Supremo Tri- bunal de Justiça. Brasília, DF: STJ, 2010. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2020. GIANCOLI, B. P.; ARAÚJO JÚNIOR, M. A. Difusos e coletivos: direito do consumi- dor. 3. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012. GRINOVER, A. P. et al. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comenta- do pelos autores do anteprojeto. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. MARQUES, C. L.; BENJAMIN, A. H. V.; MIRAGEM, B. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010. MARQUES, C. L. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo re- gime das relações contratuais. 8. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016. NUNES, R. Curso de direito do consumidor. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2018. SÃO PAULO. Secretaria da Justiça e Cidadania. Fundação de Proteção e Defe- sa do Consumidor – Procon-SP. Campanhas de recall por segmento e tipo DIREITO DO CONSUMIDOR 70 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 70 15/12/2020 12:03:23 de produto - geral, [s. d.]. Disponível em: . Acesso em: 30 set. 2020. TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito mate- rial e processual. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS. 3ª Turma Recursal. Brasília (DF). Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2020. DIREITO DO CONSUMIDOR 71 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 71 15/12/2020 12:03:23 Unidade 3 - A publicidade, os bancos de dados e cadastros e a proteção contratual Objetivos da unidade ........................................................................................................... 73 Da publicidade ...................................................................................................................... 74 Da publicidade/da oferta: princípio da vinculação contratual ................................ 75 A publicidade clandestina ............................................................................................. 78 A publicidade enganosa ................................................................................................. 79 A publicidade abusiva .................................................................................................... 81 Princípios da publicidade ............................................................................................... 82 A prova da verdade e correção do desvio publicitário ............................................. 84 Dos bancos de dados e cadastros .................................................................................... 84 Dos bancos de dados e cadastros: a cobrança de dívidas ..................................... 87 Dos bancos de dados e cadastros: dos órgãos de proteção ao crédito .................. 89 A proteção contratual .......................................................................................................... 90 A proteção contratual: as formas de contratação .................................................... 90 A proteção contratual: os contratos de adesão ........................................................ 91 A proteção contratual/contratos: transparência e interpretação .......................... 94 Princípio da equivalência contratual ........................................................................... 94 Sintetizando ........................................................................................................................... 96 Referências bibliográficas ................................................................................................. 97 Sumário SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 1 15/12/2020 11:59:44 A PUBLICIDADE, OS BANCOS DE DADOS E CADASTROS E A PROTEÇÃO CONTRATUAL 3 UNIDADE SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 72 15/12/2020 12:00:37 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Apresentar aspectos da publicidade, tais como a oferta e seu princípio da vinculação contratual e a publicidade enganosa, clandestina e abusiva, bem como seus princípios; Abordar os conceitos de bancos de dados e cadastros, a cobrança das dívidas e os órgãos de proteção ao crédito; Compreender a proteção contratual, as formas de contratação e o contrato de adesão, bem como seus princípios. Da publicidade Da publicidade/da oferta: princípio da vinculação contratual A publicidade clandestina A publicidade enganosa A publicidade abusiva Princípios da publicidade A prova da verdade e correção do desvio publicitário Dos bancos de dados e cadastros Dos bancos de dados e cadastros: a cobrança de dívidas Dos bancos de dados e cadas- tros: dos órgãos de proteção ao crédito A proteção contratual A proteção contratual: as formas de contratação A proteção contratual: os contra- tos de adesão A proteção contratual/contratos: transparência e interpretação Princípio da equivalência con- tratual DIREITO DO CONSUMIDOR 73 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 73 15/12/2020 12:00:38 Da publicidade Primeiramente, deve-se ressaltar que o Código deDefesa do Consumidor apresenta forte infl uência do direito francês no capítulo destinado à oferta e à publicidade (GRINOVER et al., 2019). Assim, vivemos em uma sociedade de con- sumo e somos constantemente expostos a uma ampla gama de publicidade. Para cumprir o mandamento constitucional de proteção ao consumidor, foram concebidas regras tanto para a oferta de produtos e serviços quanto para sua publicidade. As práticas comerciais se referem a um momento após a produção, uma vez que dizem respeito à comercialização. Isso posto, não há dúvida de que as práticas comerciais têm o intuito de fomentar o consumo, mesmo porque, sem o marketing, não existiria a sociedade de consumo (MARQUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 2010). Precisamos ainda ter em mente que as práticas comerciais acompanham as transformações pelas quais a sociedade passa, podendo se modifi car ao longo do tempo ou mesmo deixar de existir. Ainda assim, há elementos que são chaves para o fomento do consumo, em especial o marketing. As práticas comerciais e o marketing não se confundem, mas são complementares entre si (GRINOVER et al., 2019). No entanto, o que nos interessa de modo particular é a publicidade e a promoção de vendas, sendo esta última regulada no Código de Defesa do Consumidor através de ofertas e práticas abusivas. A publicidade apresenta consequências jurídicas em três situações. A pri- meira delas como veículo de uma oferta de consumo e, nesse caso, produz o efeito da vinculação do fornecedor, como verdadeiro negócio jurídico unilateral que é. A segunda, quando viola o Código de Defesa do Consumidor, nos casos em que podemos caracterizar a publicidade enganosa ou abusiva. Por fi m, quando mesmo ao não apresentar todos os requisitos ne- cessários para confi gurar a oferta, divulga informações que geram no consumidor alguma expectativa legí- tima, o que, em virtude do princípio da boa-fé que permeia todo o diploma consumerista, pode acar- retar na efi cácia vinculativa daquilo que foi promo- vido pelo fornecedor (MIRAGEM, 2016). DIREITO DO CONSUMIDOR 74 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 74 15/12/2020 12:00:38 O Código protege mais de um tipo de consumidor, a começar por aqueles descritos no caput do artigo 2° da Lei 8.078/90, bem como os consumidores por equiparação contidos no parágrafo único do artigo 2°, no artigo 17 e no artigo 29, todos da Lei 8.078/90. Esse último é de nosso interesse, posto que disciplina um conceito de consumidor especifi camente relacionado às práticas comer- ciais. Assim, o Código prevê que consumidor é aquele que adquire os produtos ou serviços, e também são consideradas consumidoras as pessoas expostas às práticas comerciais e contratuais previstas. Afi rma-se, portanto, que a simples exposição à prática é sufi ciente para a caracterização do consumidor. Da publicidade/da oferta: princípio da vinculação contratual A relação contratual de consumo foi construída com extrema diligência pelo le- gislador, o qual buscou valorizar o momento de formação dos contratos de consu- mo. Nesse sentido, o exame da vontade da parte mais vulnerável, o consumidor, é crucial. Essa vontade deve ser manifestada de maneira realmente autônoma e informada para legitimar a formação do contrato. Por fi m, essa formação tem como princípio basilar o disposto no artigo 4°, caput, da Lei 8.078/90. Em um estudo sistemático do Código, observamos que a transparência é essen- cial aos contratos de consumo em seus múltiplos signifi cados. Assim, ela se con- substancia na informação clara e precisa sobre o produto e serviço oferecidos e na lealdade entre as partes contratantes, ainda que na fase negocial, ou seja, na fase pré-contratual. Como consequência lógica, a regulação da oferta de produtos e ser- viços tem o claro intuito de assegurar seriedade e veracidade às manifestações dos fornecedores, o que denota uma nova noção de oferta contratual (MARQUES; BEN- JAMIN; MIRAGEM, 2010). O dever de informar não se apresenta apenas quanto ao produto ou serviço, mas também quanto ao conteúdo do contrato, a fi m de evitar possíveis lesões a direitos do consumidor. Portanto, esse dever também se encontra presente na fase pré-contratual, e essa informação integra o contrato conforme depreendido da lei- tura dos artigos 30 e seguintes da Lei 8.079/90. A oferta é parte integrante desse de- ver descrito e, nesse sentido, deve ser clara e correta acerca do produto, do serviço e do contrato a ser realizado, sob pena de o fornecedor responder por quaisquer eventuais falhas na informação, conforme preceitua o artigo 20 da Lei 8.079/90. DIREITO DO CONSUMIDOR 75 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 75 15/12/2020 12:00:38 Figura 1. A imagem apresenta algumas das informações que devem ser disponibilizadas, neste caso em relação à validade do produto, o que visa assegurar a segurança do consumidor. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 27/10/2020. A oferta pode ser conceituada como a declaração inicial de vontade dire- cionada à realização de um contrato. No entanto, há distinções entre a visão da oferta disciplinada no Código Civil e a oferta em consonância ao Código de Defesa do Consumidor. No regime do Código Civil, tanto o vigente como o de 1916, a oferta é tratada como proposta, embora as destinadas ao público em geral tenham a mesma designação da lei protetiva ao consumidor. Mas é na oferta disciplinada pelo diploma consumerista que encontramos a ampliação de seu conceito. O Código de Defesa do Consumidor disciplina a oferta como um negócio jurídico unilateral. Todavia, a ampliação do conceito é notada quando obser- vamos que as informações dadas integram o contrato, de modo que qualquer informação ou publicidade veiculada em que o con- sumidor seja capaz de identificar o objeto e o pre- ço torna-se oferta vinculante, e a qual aguarda somente a aceitação deste último. A vinculação da oferta requer que a informação seja suficien- temente clara e precisa, bem como possua dado conhecimento público e seja veiculada por qualquer meio ou forma de comunicação. DIREITO DO CONSUMIDOR 76 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 76 15/12/2020 12:01:31 DIAGRAMA 1. REQUISITOS DA OFERTA A Informação deve ser clara e precisa Conhecimento público A oferta deve ser veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação Requisitos da oferta É preciso lembrar que vivemos em uma sociedade de consumo, na qual não apenas a produção é em massa como a oferta também o é, o que é alcança- do através de veículos de comunicação em massa. O legislador, ao proteger a parte mais vulnerável, entendeu ser necessário o princípio da vinculação da oferta, de modo que o consumidor pode exigir o cumprimento daquilo que lhe foi oferecido. Não há, por certo, impedimentos a relações marcadas pela gratuidade. Estas, ao se enquadrarem no regime da oferta, devem, portanto, observar princípios como o da boa-fé, transparência e lealdade. DIREITO DO CONSUMIDOR 77 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 77 15/12/2020 12:01:31 CURIOSIDADE A gratuidade de serviços deve ser vista com atenção. Como exemplos, podemos citar os programas de milhagem das companhias aéreas. Em verdade, esses programas não passam de uma estratégia de captação, o que acaba por infl uenciar as escolhas do consumidor. Nesse sentido, os tribunais brasileiros têm entendido que as empresas de transporte aéreo e o responsável pelo programa de pontuação são solidariamente responsá- veis pelas falhas ocorridas na prestação do serviço, conforme preceitua o artigo 7°, 14 e 25 do Código de Defesa do Consumidor. A oferta é ainda irrevogável de forma unilateral; portanto, uma vez cria- da, o efeito vinculatório estará presente. Assim, aquele que promete e não cumpre, que oferece algo ao público para depois voltar atrás, será compelido a cumprir os termos da oferta. Mas a irrevogabilidade não é absoluta, ainda que seja obrigatória. Assim, admite-se a revogação desde que realizadade dados e cadastros .................................................................................... 84 Dos bancos de dados e cadastros: a cobrança de dívidas ..................................... 87 Dos bancos de dados e cadastros: dos órgãos de proteção ao crédito .................. 89 A proteção contratual .......................................................................................................... 90 A proteção contratual: as formas de contratação .................................................... 90 A proteção contratual: os contratos de adesão ........................................................ 91 A proteção contratual/contratos: transparência e interpretação .......................... 94 Princípio da equivalência contratual ........................................................................... 94 Sintetizando ........................................................................................................................... 96 Referências bibliográficas ................................................................................................. 97 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 6 15/12/2020 11:59:20 Sumário Unidade 4 - As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e arrependimento e a defesa do consumidor em juízo Objetivos da unidade .........................................................................................................100 As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e arrependimento...................................................................................................................101 As cláusulas abusivas ..................................................................................................101 Empréstimos e financiamento .....................................................................................103 Compra e venda com pagamento do preço mediante prestações ...................................105 Da defesa do consumidor em juízo: aspectos processuais das ações coletivas e individuais ...........................................................................................................................106 Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos .......................................108 A legitimidade ativa para propositura de ações coletivas .....................................110 Das ações judiciais .......................................................................................................112 Custas, despesas e honorários nas ações coletivas ..............................................114 A inversão do ônus da prova .......................................................................................115 A competência ...............................................................................................................117 Da coisa julgada nas ações coletivas .................................................................................. 118 Aspectos da litispendência e continência da ação coletiva com a ação individual ....................119 Liquidação ......................................................................................................................121 Sintetizando .........................................................................................................................123 Referências bibliográficas ...............................................................................................124 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 7 15/12/2020 11:59:20 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 8 15/12/2020 11:59:20 O Código de Defesa do Consumidor, sancionado pela Lei nº 8078/90, coroa um trabalho legislativo iniciado antes da promulgação da Constituição de 1988. Juristas de renome, como Ada Pellegrini Grinover, coordenadora geral, partici- param da comissão criada para apresentar o anteprojeto de Código de Defesa do Consumidor previsto pelos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Após a divulgação, seguida de debates, o anteprojeto foi publicado no Diário Ofi - cial em 04 de janeiro de 1989. Infl uenciado pelo Projet de Code de la Consommation, com os contributos de outros modelos legislativos estrangeiros vigentes, tem estru- tura, conteúdo moderno e é um marco por suas inovações e resgate da cidadania. Fruto dos avanços no processo de industrialização que revolucionou o consumo, hoje é algo banal em nossa sociedade, embora permeado de desafi os exacerbados pela evolução da tecnologia. A fl exibilização do mercado de trabalho no século XXI é um dos fatores para a proliferação dos novos pobres, os excluídos do consumo. O Código busca compatibilizar as necessidades dos consumidores e do res- peito à dignidade, saúde e segurança com o desenvolvimento econômico e tec- nológico. O estudo constante das transformações do mercado de consumo e a adaptação das regras, frente ao espaço para evolução do texto pela interpreta- ção, são fundamentais aos operadores do direito. DIREITO DO CONSUMIDOR 9 Apresentação SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 9 15/12/2020 11:59:20 Dedico este trabalho aos meus fi lhos, ao meu marido, aos meus pais, que sempre me incentivaram com seus carinhos e afagos e compreenderam as ausências, assim como aos meus alunos, que sempre foram motivadores diante novos desafi os. A professora Mavili de Cassia da Sil- va Moura é mestre em Direito pela Universidade Candido Mendes (2018), especialista em Direito Internacional pela Universidade Estácio de Sá (2016), graduada em Direito pela Universidade Candido Mendes (1998) e ministra aula de Direito Civil e Direito do Consumidor. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2287863961384388 DIREITO DO CONSUMIDOR 10 A autora SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 10 15/12/2020 11:59:55 TEORIA GERAL DO DIREITO DO CONSUMIDOR 1 UNIDADE SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 11 15/12/2020 12:01:23 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Expor os pressupostos fundamentais do direito do consumidor; Abordar a relação jurídica de consumo; Apresentar os direitos básicos dos consumidores e as práticas abusivas. Pressupostos fundamentais A relação jurídica de consumo Os princípios da Lei nº 8078/90 e os direitos básicos do consumidor Práticas abusivas DIREITO DO CONSUMIDOR 12 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 12 15/12/2020 12:01:23 Pressupostos Fundamentais A Revolução Industrial mudou os modos de produção e os padrões de con- sumo. O ato de consumir, mesmo que natural, possui particularidades. A mas- sifi cação instalou um acentuado desequilíbrio entre produtores e distribuido- res de um lado, e consumidores do outro. Nesse contexto, o Código de Defesa do Consumidor é a concretização de uma evolução. Na década de 1980, a necessidade de uma lei específi ca de defesa do consu- midor era reconhecida ante a incapacidade do Código Civil de 1916 e as demais normas do regime privatista em lidar com as novas situações em massa, algo ressaltado nas páginas 10 e 11 do livro Programa de direito do consumidor, de Cavalieri Filho, lançado em 2008. CONTEXTUALIZANDO Tal desequilíbrio é objeto de preocupação pelas Nações Unidas, que possuem diretrizes para a proteção do consumidor. Adotadas pela primei- ra vez pela Assembleia Geral na resolução 39/248, de 16 de abril de 1985, foram ampliadas pelo Conselho Econômico e Social na resolução E/1999/ INF/2/Add, de 02 de julho de 1999, e revisadas pela Assembleia Geral na resolução 70/186, de 22 de dezembro de 2015. Princípios e normas constitucionais (proposta de supressão em razão da superposição com direito constitucional) O direito privado passou a sofrer infl uência direta da Constituição, fenô- meno conhecido como publicização do direito privado, hoje direito civil cons- titucional. A defesa do consumidor, a partir da Constituição de 1988, se inclui na ordem econômica, o que legitima uma intervenção do Estado na atividade econômica privada. Os direitos fundamentais de 1ª, 2ª epelos mesmos meios da oferta originária. Não poderíamos deixar de mencionar que a publicidade é o meio pelo qual o fornecedor apresenta seu produto ou serviço ao consumidor e, de acordo com a legislação, a publicidade se iguala de forma sufi cientemente precisa à oferta. Assim, criam-se expectativas que, quando frustradas, devem ser cumpridas. A publicidade clandestina A publicidade pode ser defi nida como toda atividade destinada a estimular o consumo de bens e serviços, bem como promover instituições, conceitos ou ideias, de acordo com o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. No entanto, exclui-se da égide do Código de Defesa do Consumidor a propa- ganda política, posto que esta possui regulamento próprio, e a publicidade go- vernamental que não tenha como fi m a promoção de atos de consumo. Assim, torna-se possível distinguir a propaganda da publicidade. A publicidade clandestina, muitas vezes, é referida como um merchan- dising realizado de maneira imprópria, e caracteriza-se por sua aparição em meio a situações normais de consumo nas quais se faz uso ou referência a determinado produto ou serviço. No entanto, não é todo merchandising que se caracteriza pela publicidade clandestina, posto que basta a possibilidade de DIREITO DO CONSUMIDOR 78 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 78 15/12/2020 12:01:31 identifi cação da mensagem publicitária de modo distinto do conteúdo regular da programação, novela ou fi lme, por exemplo. Já a publicidade subliminar é aquela em que a persuasão do consumidor, com relação à qualidade do produ- to ou serviço, é seu objetivo. ASSISTA A preocupação com a publicidade clandestina não ocorre apenas no Brasil. A União Europeia, em sua Diretiva 89/552/ CE, veda a publicidade desse tipo e consagra o princípio da identifi cação. Assista ao vídeo Merchandising Natal Avon como um exemplo de publicidade clandestina muito comum em programas de TV, novelas e fi lmes, desde que ausentes os créditos posteriores. O legislador do Código buscou em toda a sua extensão a proteção ao consu- midor; assim, a mensagem publicitária não deve ser subliminar. O consumidor precisa ter a consciência de que ele é o destinatário da mensagem publicitá- ria que tem como intuito lhe oferecer algum produto ou serviço, conforme se depreende da leitura do artigo 36 da Lei 8.078/90. No entanto, é preciso ter cuidado para que o merchandising não seja proibido, visto que não é isto que pretende o legislador. Assim, de acordo com o Código, a informação deve ser adequada, por exemplo, ao início do espetáculo ou mesmo aos créditos de no- velas, fi lmes ou séries. A publicidade enganosa Esta é uma modalidade de publicidade ilícita, tendo em vista que viola os deveres jurídicos previstos no Código de Defesa do Consumidor. A publici- dade enganosa é aquela que viola o dever de veracidade e clareza, confor- me prevê o parágrafo 1° do artigo 37, da Lei 8.078/90. Trata-se de qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário que seja inteira ou parcialmente falsa, ainda que por omissão. Ou, ainda, considera-se publicidade enganosa aquela em que o fornecedor negligencia algum dado essencial com o poder de fazer o consumidor não realizar o negócio sobre o produto ou serviço ou que o conduza ao erro em relação a qualquer dado do produto ou serviço. DIREITO DO CONSUMIDOR 79 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 79 15/12/2020 12:01:31 O núcleo da definição de propaganda enganosa é a indução do consumidor ao erro. A propaganda ilícita é considerada um ilícito civil mas há, no caso, pre- sunção de culpa por parte do fornecedor. A exoneração da responsabilidade apenas decorrerá da prova da existência de caso fortuito, mas tal entendimen- to não é uníssono na doutrina. Ainda, alguns ponderam que a publicidade en- ganosa não dispensa a prova de dolo por parte do fornecedor. Um possível problema é determinar aquilo que deve ser considerado como verdadeiro ou falso na mensagem publicitária, posto que é possível uma má interpretação por parte do público consumidor. Assim, é preciso ter em mente que um dado essencial é aquele que influi ou pode influir na escolha do consu- midor; aquele dado que, se estivesse na mensagem publicitária, poderia levar o consumidor a um comportamento diferente. Portanto, o que importa para caracterizar uma publicidade como enganosa é a percepção do consumidor leigo e, também, vulnerável. Desta maneira, a previsão da indução do consumi- dor ao erro visa proteger sua confiança frente à promoção da atividade publici- tária do fornecedor (MIRAGEM, 2016). Conforme dita o artigo 38 da Lei 8.078/90, o ônus da prova da veracidade e correção da informação veiculada cabe a quem a patrocina. Se observa- do em conjunto ao artigo 60 do mes- mo diploma legal, que impõe a sanção da contrapropaganda sempre às ex- pensas do infrator e, ainda, ao artigo 67, relativo às sanções penais, isto nos leva a indagar a extensão da responsa- bilidade pela propaganda enganosa. A questão gira em torno da responsabili- dade não apenas do fornecedor, mas também dos demais sujeitos que partici- param da criação, produção e divulgação da mensagem publicitária. Sabemos que cabe ao fornecedor a responsabilidade pela guarda dos da- dos técnicos relativos ao produto ou serviço por ele oferecidos no mercado de consumo, assim como é ônus que incumbe ao fornecedor a prova da vera- cidade das informações. O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento no sentido de não afastar os demais integrantes da cadeia de consumo, conforme preceitua o artigo 7° da Lei 8.078/90. DIREITO DO CONSUMIDOR 80 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 80 15/12/2020 12:02:21 Mas parte da doutrina, em especial Bruno Miragem, entende que o trata- mento dispensado às agências de publicidade e aos veículos de comunicação deve ser diverso. Os argumentos giram em torno da inadequação da cadeia de fornecimento a esses entes, posto que a introdução de um produto ou servi- ço no mercado não depende de publicidade nem de sua promoção nos veícu- los de comunicação (MIRAGEM, 2016) e, portanto, tais entes não se qualifi cam como fornecedores e estariam excluídos da responsabilidade objetiva, que é a regra no Código de Defesa do Consumidor. Essa exclusão não signifi ca a ausência de responsabilidade, mas apenas que sua responsabilidade fi gura entre os regimes comuns, consoante o que dispõe o artigo 186, na modalidade subjetiva, ou no artigo 187, na modalidade objetiva por abuso de direito, ambos do Código Civil em vigor. A publicidade abusiva A publicidade abusiva, modalidade de publicidade ilícita, é aquela que se apresenta como discriminatória, que incita a violência, explora o medo ou a superstição, se aproveita da defi ciência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou ainda, que seja capaz de induzir o consumidor de forma perigosa ou prejudicial à sua saúde ou segurança, conforme preceitua o artigo 37, parágrafo 2° da Lei 8.078/90. Notamos que tanto a publicidade contrária à boa-fé e aos bons costumes e que incita com- portamentos prejudiciais quanto aquela que viola os artigos 3°, IV e 5°, caput da Constituição Federal se enquadram nesse conceito. A publicidade abusiva é conceito indeterminado e, portanto, será deter- minado apenas na análise do caso concreto, e quando os juízes ou demais autoridades que atuam na defesa do consumidor identifi carem a abusividade das mensagens publicitárias. É importante frisar que a publicidade abusiva atinge toda a co- munidade, e não apenas os consumidores que tenham sido diretamente ofendidos. Há nela um caráter difuso, que decorre mesmo dessa espécie, e acaba por induzir ao recurso das tutelas coletivas. Assim, os artigos 56, XII, e 60 da Lei 8.078/90 se revelam importantes. DIREITO DO CONSUMIDOR 81 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 81 15/12/2020 12:02:21 Princípios da publicidadeOs princípios fundamentais da publicidade são o princípio da identifi cação, o princípio da veracidade e o princípio da vinculação. O princípio da identifi cação tem assento no artigo 36 da Lei 8.078/90, que estabelece que toda a publicidade deve ser veiculada de forma que o consumidor, de maneira fácil e imediata, a consiga identifi car como tal. Em virtude do exposto no artigo, o fornecedor tem o dever de caracterizar a publicidade, que deve ser apresentada de modo que o público possa identifi cá-la. Assim, em consonância ao princípio da boa-fé e seus deveres anexos de leal- dade e transparência, do qual decorre o princípio da identifi cação, é que há a ne- cessidade de ser possível a distinção, em determinado veículo de comunicação, da publicidade das demais informações. Tal necessidade é corroborada pelo artigo 28 do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. Sabemos que as técnicas de marketing se desenvolveram e que cada vez mais inovam nas maneiras de divulgação da mensagem publicitária, o que pode acarretar em violações ao princípio da identifi cação. Essa é a razão para reforçarmos que a facilidade e reco- nhecimento imediato da mensagem publicitária não devem exigir um alto nível de conhecimento ou intelectual do consumidor. Esse é o sentido da lei. Isso posto, as técnicas que violam o princípio da identifi cação são as publicidades dis- simulada, clandestina e subliminar. Já o princípio da veracidade atesta que a mensagem publicitária contenha somente informações corretas e verdadeiras sobre o produto ou serviço, e está diretamente ligado ao direito à informação do consumidor. Não se deve confun- dir a veracidade com a neutralidade ou a isenção da publicidade, posto que esta tem um objetivo econômico bem defi nido. Ademais, ainda que se admita um certo caráter tendencioso da publicidade, o limite é o dever de informação (MIRAGEM, 2016); portanto, não podem haver omissões quanto às informações essenciais. DIREITO DO CONSUMIDOR 82 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 82 15/12/2020 12:03:31 Urge ainda ressaltar que alguns consumidores gozam de situação especial, como é o caso de idosos e crianças. Não é incomum que mensagens publicitárias destinadas a crianças contenham motivos fantasiosos, como carros que voam e super-heróis. O que o Código busca não é limitar a criatividade da mensagem, mas sim a utilização de artifícios que se baseiam na falta de discernimento das crian- ças. A violação a esse princípio se caracteriza como publicidade enganosa, que está disciplinada no artigo 37, parágrafo 1° da Lei 8.078/90. O reconhecimento da publicidade enganosa independe de culpa e, portanto, basta a demonstração da violação do dever imposto. Por fim, o princípio da vinculação determina a obrigatoriedade de cumpri- mento, pelo fornecedor, da oferta publicitária veiculada. As consequências dessa vinculação estão descritas no artigo 35 da Lei 8.078/90 e significam a livre escolha do consumidor, seja ao exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade ao aceitar outro produto ou serviço equi- valente; ao rescindir o contrato com a restituição das quantias pagas antecipada- mente; ou, ainda, as perdas e danos decorrentes. Princípio da identificação Princípio da boa-fé, lealdade e transparência Violação - publicidade enganosa Obrigatoriedade no cumprimento da oferta Princípio da vinculação Princípio da veracidade Figura 2. Princípios da publicidade e suas características. DIREITO DO CONSUMIDOR 83 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 83 15/12/2020 12:03:31 A prova da verdade e correção do desvio publicitário A alegação de que a publicidade é enganosa ou abusiva tem como efeito a imposição ao anunciante de provar o inverso, ou seja, de provar que a publicidade não se enquadra em nenhuma dessas situações previstas pela norma consume- rista. O artigo 38 da Lei 8.078/90 estabelece que o ônus da prova da veracidade e correção da informação publicitária cabe a quem as patrocina. Por certo, a jurisprudência brasileira consolidou o entendimento de que há, em virtude do disposto no artigo 38 da Lei 8.078/90, uma inversão ope legis do ônus da prova. Desse modo, o fornecedor não se benefi cia ao não provar a excludente de caso fortuito, de modo que não cabe ao fornecedor o benefício da omissão. Todavia, há alguma divergência quando se trata da responsabilidade do veícu- lo de comunicação e o ônus da prova. Nesse caso, é preciso uma leitura em con- junto ao artigo 36 da Lei 8.078/90, de modo que o ônus de provar a veracidade e a correção, ou seja, a ausência da abusividade, é do fornecedor anunciante, daquele que detém em seu poder os dados fáticos, técnicos e científi cos que sustentam a informação publicitária. Já o princípio da correção do desvio publicitário impõe a contra- propaganda nos casos em que essa é considerada abu- siva ou enganosa, e deve ser divulgada nos mesmos moldes que a anterior, ou seja, deve ser divulgada pelo responsável da mesma forma, frequência, dimensão, preferencialmente no mesmo veículo, local, espaço e horário, conforme estipula o artigo 60 da Lei 8.078/90. Dos bancos de dados e cadastros Frente à sociedade do consumo em massa, a organização por parte dos fornecedores das informações pessoais e econômicas dos consumidores é ne- cessária, assim como também o é a proteção ao consumidor para evitar o uso abusivo dessas informações. O Código de Defesa do Consumidor reconhece os bancos de dados e cadastros, e, em virtude desse reconhecimento e da prote- ção ao consumidor como fundamento, disciplina-os. DIREITO DO CONSUMIDOR 84 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 84 15/12/2020 12:03:31 É importante ressaltar ainda que o Código de Defesa do Consumidor esta- belece os critérios e limites para esses bancos de dados e cadastros, sempre em consonância com a prática internacional e com a Constituição Federal na- quilo que diz respeito à proteção à intimidade e privacidade. A expressão de arquivos de consumo é gênero do qual são exemplos os ban- cos de dados e cadastros. Esses arquivos têm em comum o armazenamento de informações sobre terceiros para uso em operações de consumo. Assim, o legis- lador preferiu os disciplinar de maneira genérica no artigo 43 da Lei 8.078/90, mas previu o acesso do consumidor às informações pessoais sobre si próprio nesses arquivos. Ele estabeleceu ainda o dever de veracidade das informações armazenadas, permitindo a correção de eventuais inexatidões, e condicionou a inscrição nos arquivos à comunicação por escrito ao consumidor. • Coleta de informações aleatória, organização das informações, transmissibilidade externa das informações, ausência de autorização ou conhecimento por parte do consumidor • Coleta de informações não aleatória, acessoriedade das informações, transmissibilidade interna das informações, autorização ou conhecimento por parte do consumidor BANCO DE DADOS DE CONSUMIDORES CADASTRO DE CONSUMIDORES Figura 3. O banco de dados de consumidores e o cadastro destes. Os bancos de dados e cadastros, assim como as entidades de proteção ao crédito, são equiparadas a entidades de caráter público, conforme prevê o artigo 43, em seu parágrafo 4° da Lei 8.078/90. Assim, é possível ao consumidor a utili- zação do remédio constitucional do habeas data para garantir o acesso aos seus dados pessoais. O respeito aos direitos fundamentais dos consumidores, em especial o di- reito à privacidade e honra, é o cerne quando se trata de arquivos de consumo. Desta maneira, a inscrição indevida em bancos de dados tem potencial ofensivo à honra do consumidor. Infelizmente, ainda é comum o registro de consumido- res mesmo que estes tenham cumprido suas obrigações como inadimplentes. DIREITO DO CONSUMIDOR 85 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 85 15/12/2020 12:03:31 Outras potenciais violações podem ocorrer, mas algumas são mais difíceis de seidentificar, como, por exemplo, a comercialização dos cadastros dos consumidores. Esses cadastros são utilizados para a criação de perfis de consumidores e de consu- mo e a ideia é, a partir desses dados, criar estratégias personalizadas para fomen- tar o consumo. Sabemos que os direitos da personalidade devem ser indisponíveis, conforme preceitua o artigo 11 do Código Civil. É importante ter em mente que as informações coletadas não são de mesma categoria. Nesse espectro de coleta, os bancos de cadastro e dados têm acesso a informações de caráter público, pessoais de interesse público e os chamados dados sensíveis. Nesse sentido, as informações públicas são aquelas de interesse de toda a sociedade e, portanto, cobertas pelo direito à informação. As informações pessoais de interesse público são relativas ao consumidor e servem para sua identificação, tais como nome e domicílio. Já as informações sensíveis indicam situações da es- fera íntima do consumidor, como sua situação econômica e orientação sexual, por exemplo. Os bancos de dados existem em duas espécies. Há os bancos de dados que ar- quivam e mantêm informações do comportamento de consumo, também conhe- cidos como bancos de cadastros restritivos. Essas informações, em geral, condicio- nam o acesso dos consumidores ao crédito ou mesmo o impedem. Mas há também os bancos de dados de informações positivas. Esses bancos atestam, por exemplo, que o consumidor é um bom pagador. O acesso a essas informações reduz os riscos de inadimplemento, embora estes não possam ser utilizados como condição à con- tratação, sob pena de violação do diploma consumerista por enquadramento nas práticas abusivas. O Brasil possui alguns bancos de cadastros principais, tais como o Serviço de Proteção ao Crédito, mantido pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), o SERASA e o Cadastro de Cheques sem Fundo, mantido pelo Banco Central do Brasil (BCB). Especialmente na sociedade da informação, as questões referentes à privaci- dade dos consumidores não são simples. Sabemos da necessidade de autorização dos consumidores para o uso de seus dados gerais, mas importa relembrarmos que hoje é usual que essas autorizações sejam realizadas por opção de preenchimento automático. É necessário informar adequadademente os consumidores, esclare- cendo a extensão dessa utilização de dados para que a autorização seja consciente. DIREITO DO CONSUMIDOR 86 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 86 15/12/2020 12:03:31 CURIOSIDADE No Brasil, entrou em vigor no dia 18 de setembro de 2020 a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A promulgação da lei foi muito comemorada, embora muitas postergações à sua entrada em vigor tenham ocorrido. Inspirada no Regula- mento Geral de Proteção da Dados na União Europeia (GDPR), o Brasil se junta ao rol de países que contam com a proteção aos dados pessoais em seu orde- namento. Ainda repleta de dúvidas, sua aplicação será um desafi o em um país com excesso de judicialização. Qualquer inclusão do consumidor em cadastros, ainda que não dependa de seu consentimento prévio e quando não for por ele solicitada, deve ser comunica- da por escrito ao consumidor, conforme prevê o Código de Defesa do Consumidor na forma do parágrafo 2° do artigo 43 da Lei 8.078/90. Dos bancos de dados e cadastros: a cobrança de dívidas Cobrar dívidas é algo comum e esperado em uma sociedade de consumo. Assim, é preciso saber que essa cobrança decorre de um direito do fornece- dor, o crédito, frente a um consumidor que esteja inadimplente. Muitos são os instrumentos de cobrança judiciais e extrajudiciais, mas cabe ao artigo 42 da Lei 8.078/90 disciplinar essa cobrança para que ela seja realizada dentro dos limites legais e sem apresentar contornos abusivos. A cobrança judicial, o protesto cambial ou mesmo a utilização de mecanis- mos alternativos de solução de con- fl itos não são vedados pelo Código de Defesa do Consumidor, e o artigo 42 disciplina limites e barreiras a fi m de evitar o abuso. Isso posto, o abuso pode ser conceituado como um exces- so, a apresentação desmedida de uma pretensão, ou seja, quando o titular excede os limites impostos pelo fi m econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes, de acordo com o artigo 187 do Código Civil (GIANCOLI; ARAUJO JUNIOR, 2012). DIREITO DO CONSUMIDOR 87 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 87 15/12/2020 12:03:35 Ao consumidor, mesmo na cobrança de suas dívidas, é assegurado o respeito à sua dignidade, à inviolabilidade da vida privada e à preservação da honra e imagem. A abusividade na cobrança pode ocorrer em decorrência de uma ação do próprio fornecedor ou de terceiro, seja pessoa física ou jurídica, que realize a atividade de cobrança para o fornecedor. É importante ressaltar que, também quanto à cobrança de dívidas, aqueles que estão expostos às suas práticas, ain- da que não sejam consumidores diretos, são considerados consumidores equi- parados, conforme disciplina o artigo 29 da Lei 8.078/90. Em virtude de sua técnica legislativa, o Código de Defesa do Consumidor não especifica todas as práticas abusivas possíveis na cobrança de dívidas, nem tam- pouco suas formas e instrumentos, o que lhe confere uma plasticidade de inter- pretação. No entanto, é possível em uma leitura conjunta ao artigo 71 do Código de Defesa do Consumidor delinear algumas de suas práticas. Dessarte, o abuso poderá se configurar em razão de um ato ou fato com conteúdos incorretos ou enganosos capaz de expor ao ridículo o consumidor ou sujeitá-lo a constrangi- mento, ameaça ou coação que interfiram em seu trabalho, descanso ou lazer. DIAGRAMA 2. PRÁTICAS ABUSIVAS NA COBRANÇA DE DÍVIDAS Cobrança ridicularizante Consumidor alvo de escárnio, zombaria, deboche - imagem e honra Cobrança constrangedora Violência que expõe o consumidor a algo indesejado - ato físico ou moral Cobrança com interferência na atividade laboral, descanso e lazer - capaz de causar coação Cobrança ameaçadora Qualquer ameaça fora do exercício regular do direito Cobrança coativa Temor de dano - resulta da pressão física ou psicológica A cobrança de dívidas que extrapola os limites previstos em lei tem como conse- quência a possibilidade de indenização, ao consumidor, pelos danos decorrentes da ilicitude. Para além da sanção civil, o Código de Defesa do Consumidor prevê tam- bém a sanção administrativa e penal, mas não apenas: outra consequência dessa ilicitude é a repetição do indébito, ou seja, se cobrado indevidamente o consumidor tem o direito de requerer a devolução da parcela de seu patrimônio, acrescido de DIREITO DO CONSUMIDOR 88 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 88 15/12/2020 12:03:35 juros e correção monetária. Mas a repetição do indébito apenas ocorre caso o con- sumidor tenha realizado o pagamento para a repetição em dobro, disciplinada no parágrafo único do artigo 42 da Lei 8.078/90. Assim, a sanção é aplicada nos casos em que a cobrança indevida foi realizada acrescida de pagamento em excesso. Em 2009, a Lei 12.039 acrescentou o artigo 42-A ao Código de Defesa do Con- sumidor. Tal dispositivo exige a identifi cação do fornecedor nos documentos de cobrança. Este artigo, sem dúvidas, age em benefício da ampla informação ao con- sumidor. Dos bancos de dados e cadastros: dos órgãos de proteção ao crédito Muitos consumidores conhecem apenas um dos órgãos de proteção ao crédito – o SPC. No entanto, existem diversos outros órgãos de proteção ao crédito que prestam serviços aos credores. O SPC, ou Serviço de Proteção ao Crédito, é um banco de dados privado de informação de crédito alimentado, bem como gerido, pelas associações comerciais e câmaras de dirigentes lojistas fi liadas à Confederação Nacional de Diri- gentes Lojistas. As informações entre esses bancos de dados são realizadas pela Rede Nacional de Informações Comerciais, a RENIC. Por serem muito completos os dados existentes no SPC,a maior parte dos credores ou empresas o consultam. Já a Serasa Experian analisa as informações e dá apoio a negócios. Constituída como empresa privada, possui um dos maiores bancos de dados do mundo e, assim como o SPC, é reconhecida como entidade de caráter público, conforme dispõe o pa- rágrafo 4°, do artigo 43 da Lei 8.078/90. Em seus bancos de dados estão armazenadas informações sobre empresas e consumidores, dívidas vencidas e não pagas, protes- tos de títulos, ações judiciais e cheques sem provisão de fundos. Essas informações são fornecidas a bancos, comércios e pequenas, médias e grandes empresas. Por sua vez, o Cadastro de Emitentes de Cheque sem Fundo do Banco Central, ou CCF, mantém os cadastros dos consumidores que emitem cheques sem provisão de fundos. Por fi m, o SCPC, ou Ser- viço Central de Proteção ao Crédito, da Associação Co- mercial de São Paulo, fornece informações a todo o país, não apenas ao Estado de São Paulo, e é muito utilizado para análise e concessão de crédito aos consumidores. DIREITO DO CONSUMIDOR 89 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 89 15/12/2020 12:03:35 A proteção contratual A sociedade do consumo em massa trouxe impactos, mesmo na disciplina dos contratos. Assim, essas relações passaram a se dar também em massa, com modelos contratuais impessoais e padronizados. Essa nova modalidade contratual, hoje, é regra nas relações de consumo e altera de modo substancial o clássico princípio da autonomia da vontade. Com a necessidade de proteção aos mais vulneráveis, nessas relações uma nova concepção contratual surge com o intuito de trazer maior equilíbrio. É a partir disto que notamos uma maior intervenção estatal nas relações privadas, o que sugere ao menos um maior dirigismo contratual. Passamos a vislumbrar a realização da equidade contratual, a função social do contrato, e este deixa de ser visto apenas como um instrumento de autor- regulamentação da vontade. A proteção contratual: as formas de contratação Dentre as técnicas de contratação em massa, a que hoje se destaca é o contrato realizado a distância no comércio eletrônico. Embora o Marco Civil da Internet regule esse espaço, ele não o faz com relação aos contratos de consumo, o que fi cou a cargo do Código de Defesa do Consumidor. Dentre os fundamentos da Lei 12.965/14, a defesa do consumidor está presente, assim como aquilo que concerne à transparência e à informação. Não há, dentre os princípios que regulam a internet no Brasil, nenhuma específi ca proteção ao consumidor; mas o Marco Civil da Internet assegura o diálogo das fontes com o Código de Defesa do Consumidor. Nessa modalidade de contratação, que ocorre a distância, dois novos fenô- menos são acrescidos aos contratos de massa: o espaço, porque torna ainda mais vulnerável o consumidor ante uma maior despersonalização do contrato, e a própria virtualização, uma vez que o contrato em si se torna virtual. A contratação no comércio eletrônico também se vale dos contratos de ade- são. Mas esta se constitui, no geral, em obrigações de dar, confi gurando-se como contratos de prestação imediata, diferente daqueles cativos de longa duração. O que há de novo é o meio utilizado, o meio eletrônico. DIREITO DO CONSUMIDOR 90 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 90 15/12/2020 12:03:35 Contratos eletrônicos 1 - De acesso técnico às redes eletrônicas 2 - De venda on-line 3 - De bens informacionais 4 - De prestação de serviço on-line Figura 4. Os contratos eletrônicos. EXPLICANDO A teoria dos contratos cativos de longa duração tem como objetivo a proteção do consumidor nas situações em que este fi ca vinculado ao fornecedor em um contrato de longa duração. O consumidor se torna cativo ao celebrar um contrato de trato sucessivo, no qual se nota uma dependência deste ao objeto do contrato, de maneira que o rompimento da relação contratual traga prejuízos ao consumidor. Esses contratos não podem ser alterados unilateralmente e nem de maneira abrupta, de modo que é necessário conceder muitas vezes um prazo para o consumidor se adequar a novos custos, por exemplo. A proteção contratual: os contratos de adesão Os contratos de adesão são aqueles que têm como característica cláusu- las preestabelecidas de forma unilateral pelo parceiro contratual em posição econômica superior, ou seja, o fornecedor, no caso dos contratos de consumo, sem que o outro parceiro, o consumidor, possa modifi car substancialmente ou mesmo discutir o conteúdo do contrato escrito. DIREITO DO CONSUMIDOR 91 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 91 15/12/2020 12:03:35 A apresentação desses contratos se dá de maneira escrita, sendo este em geral estandardizado e impresso, e ao consumidor resta apenas o preenchi- mento de lacunas com algumas informações pessoais, como nome completo, endereço e cadastro de pessoa física, bem como dados sobre o produto ou serviço adquirido, como preço e condições de pagamento. Diante dessas características e da forma de apresentação, diz-se que ao consumidor não resta outra opção que não seja a de aceitar o contrato em bloco. Notamos, portanto, a ausência de negociação nesses contratos, em que o consentimento do consumidor é expresso apenas pela aceitação daquilo que já está posto. Contratos de adesão Sua elaboração é prévia e unilateral Contratos de adesão Sua oferta é uniforme e de caráter geral, dirigida a uma quantidade indeterminada de consumidores Contratos de adesão Seu consentimento se dá por simples adesão à vontade do fornecedor manifestada Figura 5. Características dos contratos de adesão. Há uma verdadeira assimetria de forças nos contratos de adesão. Se não conseguimos imaginar uma sociedade de consumo em que os contratos se- jam negociados previamente um a um entre as partes da relação de consumo, nasce a necessidade de maior proteção daquele especialmente vulnerável. DIREITO DO CONSUMIDOR 92 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 92 15/12/2020 12:03:35 CURIOSIDADE Mesmo as concessionárias de serviços públicos utilizam os contratos em massa, e o próprio poder público acaba por predispor as cláusulas que serão oferecidas pelos concessionários aos consumidores. A lei, ou mesmo um regulamento administrativo, também pode determinar o con- teúdo de alguns contratos naquilo que chamamos de contratos dirigidos ou contratos ditados. FORNECEDOR CONSUMIDOR Figura 6. A balança representa a assimetria nos contratos de adesão, em que a posição do fornecedor é de superio- ridade econômica, e, portanto, consegue estipular as cláusulas contratuais que deverão ser aceitas em bloco pelo consumidor. A formação dos contratos de adesão se dá somente com o consentimento do consumidor. Como são escritos, o consentimento do consumidor deve ocor- rer do mesmo modo, mas é importante frisarmos que o contrato de adesão não é uma nova modalidade contratual, apenas um método de contratação recorrente na sociedade atual. DIREITO DO CONSUMIDOR 93 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 93 15/12/2020 12:03:35 A proteção contratual/contratos: transparência e interpretação O princípio que irá reger a formação do contrato nas relações de consumo é aquele descrito no artigo 4° caput da Lei 8.078/90, o princípio da transparência. É por meio desse princípio que podemos esperar uma relação menos danosa ao consumidor. A transparência pode ser defi nida como clareza e informação sobre importantes situações no contrato entre as partes, as quais não recaem apenas sobre as qualidades e características dos produtos e serviços ofereci- dos, mas também sobre o conteúdo das cláusulas contratuais. O consumidor tem o direito à informação, previsto pelo Código de Defe- sa do Consumidor, de modo que podemos notar uma inversão no tocante à vantagem. Se de fato o fornecedor tem a posição econômica mais forte em relação ao consumidor, este, por sua vez, tem o direito de exigir a informação adequada e clara sobre os produtos e serviços e sobre as obrigações quepo- derá assumir. É preciso destacar que o princípio da transpa- rência não deve ser sentido apenas no momen- to pré-contratual, mas deve também estar presente mesmo na conclusão do contrato, posto que é mais que mero requisito formal. Ele afeta o contrato e integra o conteúdo do mesmo (MARQUES, 2016). Portanto, são seus claros refl exos o dever de informar, seja pela oferta, clara e precisa, seja pelas condições do contrato. Princípio da equivalência contratual O artigo 4°, inciso III, da Lei 8.078/90, deixa claro que o contrato realizado entre o consumidor e o fornecedor deve observar o equilíbrio de direitos e deveres entre as partes para que se alcance a justiça contratual, o chamado princípio da equivalência contratual. Deste modo, se veda a utilização de cláu- sulas abusivas que assegurem vantagens exageradas e desproporcionais aos fornecedores de produtos e serviços em detrimento do consumidor. DIREITO DO CONSUMIDOR 94 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 94 15/12/2020 12:03:35 Essas vantagens, além de incompatíveis com o princípio da equivalência contratual, também o são com o princípio da boa-fé e a equidade, conforme se depreende da leitura do artigo 51, IV, da Lei 8.078/90. Mesmo que a vontade do consumidor seja manifestada de forma livre, esse não é mais o fator decisivo ao direito ante os valores insculpidos na norma, como o equilíbrio e a boa-fé nas relações de consumo (MIRAGEM, 2016). O princípio aqui descrito é cogente, de modo que o Código de Defesa do Consumidor afasta e sanciona o resultado, ou seja, o desequilíbrio, e não exige qualquer ato reprovável por parte do fornecedor. Nesse sentido, ainda que a cláusula tenha sido aceita pelo consumidor, a mesma será considerada abusiva nos casos em que fere o princípio da equivalência contratual. O papel da lei é predominante em relação à vontade manifestada. A prote- ção da liberdade de contratar daquele que é parte mais vulnerável na relação de consumo impõe novos riscos profissionais aos fornecedores, mas que não podem ser transferidos ao consumidor (MIRAGEM, 2016). DIREITO DO CONSUMIDOR 95 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 95 15/12/2020 12:03:35 Sintetizando Nessa unidade, pudemos analisar a publicidade sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor em uma sociedade de consumo. Nesse ponto, estuda- mos que a oferta na sistemática do Código de Defesa do Consumidor é vincu- lante e cria para o consumidor o direito de exigir que ela seja cumprida nos moldes vinculados, sob pena de responsabilidade objetiva do anunciante. Ana- lisamos ainda o instituto da publicidade ilícita em suas variantes: a publicidade enganosa, clandestina e abusiva, assim como suas consequências. Exploramos os princípios da publicidade: o princípio da identificação e sua ligação com a lealdade e a boa-fé, o princípio da veracidade, que nos casos em que não é observado gera a publicidade enganosa, e ainda o princípio da vincu- lação da oferta. Ainda analisamos a prova da verdade e a correção do desvio e a inversão ope legis do ônus da prova. Também compreendemos os conceitos dos diversos bancos de dados e ca- dastros de consumidores. Iniciamos com os limites impostos pelo Código de Defesa do Consumidor à cobrança das dívidas, que são legítimas desde que dentro dos limites legais. Nesse ponto, vimos ainda os diferentes órgãos de cadastros e suas funções. Por fim, vimos como a sociedade de consumo acabou por modificar a forma de contratação. Analisamos os contratos de adesão e a intervenção do Estado na autonomia privada, bem como suas características. Analisamos os princí- pios da transparência e interpretação e sua estreita relação com o direito à in- formação e os deveres anexos de boa-fé, bem como o princípio da equivalência contratual e a forma como a lei é predominante à vontade manifestada. DIREITO DO CONSUMIDOR 96 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 96 15/12/2020 12:03:35 Referências bibliográficas ALMEIDA, F. B. de. Direito do consumidor esquematizado. 8. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. ALMEIDA, J. B. de. Manual de direito do consumidor. São Paulo: Saraiva, 2003. BRASIL. Lei n. 8.078/90, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Poder Executivo, 12 set. 1990. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2020. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Poder Executivo, 11 jan. 2002. Disponível em: . Aces- so em: 22 nov. 2020. BRASIL. Lei n. 12.039, de 01 de outubro de 2009. Diário Oficial da União, Bra- sília, DF, Poder Executivo, 02 out. 2009. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2020. BRASIL. Lei n. 12.965, de 23 de abril de 2014. Estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Poder Executivo, 24 abr. 2014. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2020. BRASIL. Lei n. 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Poder Executivo, 15 ago. 2018. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2020. CONAR. Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. 1980. Dis- ponível em: . Acesso em: 22 nov. 2020. Diretiva 89/552/CE. 03 de outubro de 1989. Jornal Oficial das Comunidades Europeias. 17 out 1989. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2020. FILHO, S. C. Programa de direito do consumidor. São Paulo: Atlas, 2008. GIANCOLI, B. P.; ARAUJO JUNIOR, M. A. Direito do consumidor: difusos e cole- tivos. 3. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012. DIREITO DO CONSUMIDOR 97 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 97 15/12/2020 12:03:35 GRINOVER, A. P. et al. Código brasileiro de defesa do consumidor. Comenta- do pelos autores do anteprojeto. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. MARQUES, C. L.; BENJAMIN, A. H. V.; MIRAGEM, B. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010. MARQUES, C. L. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo re- gime das relações contratuais. 8. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016. MERCHANDISING Natal Avon. Postado pelo canal À vontade/Blog. (3min. 46s.). son. color. port. Disponível em: . Acesso em: 27 out. 2020. MIRAGEM, B. Curso de direito do consumidor. 6. ed. São Paulo: Editora Revis- ta dos Tribunais, 2016. NUNES, R. Curso de direito do consumidor. 12. ed. São Paulo: Saraiva Educa- ção, 2018. TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito mate- rial e processual. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. TJDFT – Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. SISTJWEB. Pesquisa Documentos Jurídicos. 2020. Disponível em: . Acesso em: 20 nov. 2020. DIREITO DO CONSUMIDOR 98 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 98 15/12/2020 12:03:35 Sumário Unidade 4 - As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e arrependimento e a defesa do consumidor em juízo Objetivos da unidade .........................................................................................................100 As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e arrependimento...................................................................................................................101 As cláusulas abusivas ..................................................................................................101Empréstimos e financiamento .....................................................................................103 Compra e venda com pagamento do preço mediante prestações ................................... 105 Da defesa do consumidor em juízo: aspectos processuais das ações coletivas e individuais ...........................................................................................................................106 Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos .......................................108 A legitimidade ativa para propositura de ações coletivas .....................................110 Das ações judiciais .......................................................................................................112 Custas, despesas e honorários nas ações coletivas ..............................................114 A inversão do ônus da prova .......................................................................................115 A competência ...............................................................................................................117 Da coisa julgada nas ações coletivas .................................................................................. 118 Aspectos da litispendência e continência da ação coletiva com a ação individual ....................119 Liquidação ......................................................................................................................121 Sintetizando .........................................................................................................................123 Referências bibliográficas ...............................................................................................124 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 1 15/12/2020 12:00:10 AS COMPRAS FEITAS FORA DO ESTABELECIMENTO COMERCIAL: O PRAZO DE REFLEXÃO E ARREPENDIMENTO E A DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO 4 UNIDADE SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 99 15/12/2020 12:02:12 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Apresentar aspectos das compras feitas fora do estabelecimento comercial, em especial, tratar dos prazos de reflexão e arrependimento; Abordar aspectos da defesa do consumidor em juízo, principalmente as ações coletivas; Abordar as ações coletivas e sua legitimidade ativa, a questão da coisa julgada, as custas e despesas, bem como a inversão do ônus da prova. As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e arrependimento As cláusulas abusivas Empréstimos e financiamento Compra e venda com pagamento do preço mediante prestações Da defesa do consumidor em juízo: aspectos processuais das ações coletivas e individuais Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos A legitimidade ativa para propositura de ações coletivas Das ações judiciais Custas, despesas e honorários nas ações coletivas A inversão do ônus da prova A competência Da coisa julgada nas ações coletivas Aspectos da litispendência e continência da ação coletiva com a ação individual Liquidação DIREITO DO CONSUMIDOR 100 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 100 15/12/2020 12:02:12 As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e arrependimento O direito de arrependimento é disciplinado no artigo 49 da Lei nº 8.078/1990; a análise literal do caput do artigo em comento nos informa que o consumidor terá sete dias, contados a partir da assinatura do contrato ou do recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação ocorrer fora do estabeleci- mento comercial – compras por telefone ou em domicílio. Quaisquer valores pagos, a qualquer título, durante o período de refl exão, deverão ser devolvidos ao consumidor e atualizados monetariamente para afastar a possibilidade de enriquecimento indevido pelo fornecedor. Note-se que essa refl exão por parte do consumidor constitui-se aquilo que conhecemos como direito potestativo. Por tratar-se de exercício de direito re- gular do consumidor, não há necessidade de justifi cação e, portanto, dessa atuação nenhum dano é causado ao fornecedor. Esse prazo de refl exão tem a clara conotação de proteção ao consumidor frente às agressivas situações de venda em domicílio e, hoje, on-line. É possível afi rmar que o Código de Defesa do Consumidor ao mencionar as vendas por telefone fez isso de modo exemplifi cativo, sem nenhuma pretensão de esgotar o tema, dessa forma, sendo possível a aplicação do direito de arrependimento nos casos de compras feitas no comércio eletrônico. EXPLICANDO Os tribunais brasileiros entendem ser possível a aplicação de multa pelo Procon a fornecedores que repassam ao consumidor o ônus de arcar com despesas postais em decorrência do exercício do direito de arrependi- mento previsto no artigo 49 da Lei nº 8.078/1990. As cláusulas abusivas Em consonância com o princípio da boa-fé e a função social do contrato, o Código de Defesa do Consumidor em seu artigo 51 traz um rol exemplifi cativo de cláusulas abusivas, consideradas pelo direito como nulas nos contratos de consumo. Instrumento de alta relevância em matéria de proteção contratual e que possibilita o controle do conteúdo dos contratos. A natureza exempli- DIREITO DO CONSUMIDOR 101 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 101 15/12/2020 12:02:13 ficativa das cláusulas abusivas está explícita no caput do artigo 51 da Lei nº 8.078/1990, e as situações descritas nos incisos seguintes ao caput do artigo exprimem a contrariedade à boa-fé, mas caberá ao juiz a análise meticulosa dos casos a ele submetidos para identificar outras cláusulas com essa caracte- rística de abuso de direito contratual. A caracterização do abuso de direito no Direito do Consumidor está vincula- da a dois critérios essenciais: o status constitucional do consumidor como sujeito de direitos fundamentais e a presunção de sua vulnerabilidade (MIRAGEM, 2016, p. 377). No Direito Civil, o abuso de direito encontra assento no artigo 187, nos casos em que há violações de limites estipulados ou contrariedade à boa-fé. Há um evidente vínculo entre a vulnerabilidade do consumidor e o abuso de direito, o que tem como consequência algumas condutas adotadas pelos for- necedores com feições abusivas. O artigo 51 revela a mitigação da força obri- gatória dos contratos, demonstrando a intervenção na autonomia da vontade. É assim que as cláusulas que impossibilitem, exonerem ou atenuem a res- ponsabilidade dos fornecedores por vícios dos produtos ou serviços são consi- deradas nulas. Portanto, não apenas a exclusão total de responsabilidade dos fornecedores é nula, como também não tem validade a cláusula que atenue essa responsabilidade. O reembolso de quantias já pagas pelo consumidor também não pode ser objeto de subtração; do mesmo modo que cláusulas que transfiram a respon- sabilidade a terceiros são inadmitidas. Destacamos o inciso IV, do artigo 51 da Lei nº 8.078/1990, pela menção ao princípio da boa-fé e à equidade, de maneira que esse inciso é festejado pela doutrina brasileira por sua técnica de redação aberta e consagra uma cláusula geral sobre as cláusulas abusivas do Código de Defesa do Consumidor. Há na doutrina quem considere que o inciso em questão consagrou no direito brasileiro a cláusula geral da lesão enorme. O Código Civil de 2002 disciplinou a lesão no capítulo destinado aos vícios de consentimento, mas tem feição subjetiva. Ressaltemos que no Direito do Consumidor, face ao reconhecido direito de manutenção do contrato, a nulidade das cláusulas, conforme previsto no artigo 51 da Lei nº 8.078/1990, significa seu afastamento, mas não atinge a integrida- de do contrato. Ou seja, a nulidade da cláusula não invalida o negócio jurídico DIREITO DO CONSUMIDOR 102 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 102 15/12/2020 12:02:13 de consumo realizado. O juiz ao afastar a aplicação de cláusula abusiva deve buscar a integração do contrato e, portanto, colmatar a lacunadeixada. Temos nesse caso a conservação do contrato em consonância com o direito básico do consumidor de manutenção do contrato. Principais espécies de cláusulas abusivas • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula mandato. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula mandato. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula mandato. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula mandato. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusula exoneração de responsabilidade civil. • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula mandato. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos. • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula mandato. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula mandato. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas que violem o equilíbrio contratual. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusulas potestativas. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusulas que imponham arbitragem compulsória. • Cláusulasurpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. • Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor. • Cláusula surpresa.las de limitação ou • Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento. QUADRO 1. LISTA DAS PRINCIPAIS ESPÉCIES DE CLÁUSULAS ABUSIVAS Empréstimos e financiamento Os contratos que envolvem crédito, sejam eles de mútuo, sejam eles de abertura de crédito rotativo, popularmente conhecidos como cheque espe- cial, cartão de crédito, fi nanciamento para a aquisição de bem durável por alienação fi duciária ou reserva de domínio, empréstimo para a aquisição de imóveis ou quaisquer contratos de caráter fi nanceiro em que se possa identifi car uma relação de consumo, submetem-se ao artigo 52 da Lei nº 8.078/1990. O crédito para o consumo e sua massifi cação foram um avanço para os consumidores que passaram a ter acesso a uma gama de produtos e serviços que, de outra forma, isso não seria possível, no entanto, constituindo-se um desafi o ao Direito do Consumidor. E não é inexistente o esforço para conquistar os consumidores e atraí-los aos empréstimos e fi nanciamentos. DIREITO DO CONSUMIDOR 103 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 103 15/12/2020 12:02:13 Esse aumento nas oportunidades de obten- ção de crédito, contudo, agravou a situação de vulnerabilidade do consumidor e ainda nos trouxe a figura do superendividamento. O su- perendividamento é a incapacidade do consu- midor devedor de pagar as dívidas exigíveis em virtude do descontrole financeiro graças ao abuso do crédito ou situações de cunho familiar e pessoal imprevistas. O artigo 52 da Lei nº 8.078/1990 deve ser lido em conjunto com o artigo 46 do mesmo diploma; nesse sentido, antes da celebração do contrato, o consumidor deve ter acesso às informações do conteúdo do contrato, com o claro objetivo de dar ao consumidor a oportunidade de escolha entre o crédito e a contratação à vista. Não basta o fornecimento de informações, portanto, é preciso ainda que estas sejam adequadas de acordo com as condições do consumidor, como o nível social, econômico etc. Para os consumidores, devem ser informados, por exemplo, o preço em reais, vedada a contratação em moeda estrangeira, o montante e a taxa efetiva de juros. Sabemos que o valor total dos juros não deve ultrapassar os 12% ao ano, conforme preveem os artigos 406 e 591, ambos do Código Civil; a ideia da taxa efetiva de juros. DIAGRAMA 1. O CRÉDITO FOI UM AVANÇO PARA OS CONSUMIDORES OFERTAS DE CRÉDITO CONVENCIONAIS - financiamento de bens de valor significativo OFERTAS DE CRÉDITO VINCULADAS - aquisição de produtos duráveis OFERTA DE CRÉDITO DE UTILIZAÇÃO IMEDIATA - satisfação de necessidades urgentes do tomador DIREITO DO CONSUMIDOR 104 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 104 15/12/2020 12:02:13 A taxa efetiva de juros tem estreita relação com a ideia de juros reais, e é importante diferenciá-la, por exemplo, da taxa nominal. Em um con- trato de empréstimo pessoal, essas taxas são distintas, posto que a taxa efetiva dos juros engloba todos os ganhos financeiros da instituição com o empréstimo. Para cumprir o disposto no artigo 46 da Lei nº 8.078/1990, os consumidores devem ser informados das diferenças existentes entre esses dois conceitos. A instituição financeira também deve informar ao consumidor acerca dos montantes legais a serem acrescidos, como impostos ou outros en- cargos determinados por lei. Além desses encargos, as informações sobre o número e a periodicidade das prestações são essenciais e devem ser realizadas de maneira prévia. Ressalte-se que, nos contratos em que a obrigação não se extingue com a execução do contrato em seu termo – como no financiamento de imóvel pelo sistema financeiro de habitação –, o consumidor necessita ser informado sob pena de impossibilidade de exigir a obrigação. Dos esclarecimentos obrigatórios ao consumidor, podemos ainda des- tacar o total a pagar, com e sem o financiamento, a cláusula penal morató- ria, que não impede a existência de multa penal compensatória e que será de no máximo 2% do valor da prestação. A liquidação antecipada do débito pode ser realizada pelo consumidor com a devolução ou redução proporcional dos juros e demais encargos cobrados, como Direito do Consumidor, qualquer cláusula que preveja a renúncia do consumidor a essa redução, ainda que proporcional, é consi- derada cláusula abusiva e, portanto, nula, sendo afastada sua aplicação. Compra e venda com pagamento do preço mediante prestações O artigo 53 da Lei nº 8.078/1990 disciplina a compra de móveis ou imó- veis mediante o pagamento de prestações e proíbe o pacto comissório que faculte o fornecedor a fi car com o bem no caso de inadimplemento do deve- dor consumidor, por certo, a compra a prestações não é a celebração com pagamento à vista. DIREITO DO CONSUMIDOR 105 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 105 15/12/2020 12:02:13 Nas vendas realizadas a prestações em que a propriedade do consumidor é re- solúvel, é vedada a estipulação de cláusula que determine a perda total das parce- las pagas ao fornecedor, ainda que não seja mencionada a devolução das parcelas pagas, conforme estabelece o Decreto-lei nº 911/69. O que se veda é a perda total das parcelas pagas, o que – sem dúvidas – traria uma vantagem exagerada ao fornecedor, mesmo que a pena pelo não cumpri- mento da obrigação por parte do devedor consumidor seja possível. A restituição das parcelas pagas e o eventual desconto em razão das vantagens auferidas com o uso do bem aparecem disciplinados no parágrafo 3º, do artigo 53 da Lei nº 8.078/1990, e se referem aos bens adquiridos em sistema de consórcio. Ademais, o artigo em comento veda que os contratos de consumo sejam ex- pressos em moeda diferente da moeda nacional corrente – o real. Destacamos que o Banco Central do Brasil havia autorizado o contrato de leasing com pessoas físicas, o que não signifi ca a autorização para que este seja feito em dólar ou outra moeda estrangeira, posto que a proibição decorre de norma e não pode ser auto- rizada por portaria ou norma infralegal a essa equivalente. EXPLICANDO O Decreto-lei nº 911/1969 permite, em seu artigo 2º, a venda do bem alie- nado fi duciariamente pelo credor para o pagamento do débito do devedor consumidor. Em caso de saldo positivo, este deverá ser revertido ao con- sumidor, portanto, a retenção de valores pagos por parte do credor, nes- ses casos, confi gura enriquecimento indevido, posto que, além das presta- ções retidas, o credor pode alienar o bem para saldar o débito existente. Da defesa do consumidor em juízo: aspectos processuais das ações coletivas e individuais A defesa do consumidor necessita não apenas dos novos direitos subjetivos estabelecidos, mas de um arcabouço que assegure a efetividade do que se en- contra disciplinado no Código de Defesa do Consumidor. Além da defesa de seu direito como autor, o Código previu outros instrumentos e regras que ampliam a legitimação para agir e a efi cácia da coisa julgada (MIRAGEM, 2016, p. 695). As garantias processuais são as possibilidades de tornarem concretos e palpáveis os direitos materiais previstos na norma de defesa do consumidor. DIREITO DO CONSUMIDOR 106 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 106 15/12/2020 12:02:14 A preocupação do legislador, por certo, é a efetividade do processo de proteção ao consumidor, não apenas a defesa processual em que o con- sumidor é o autor da demanda, mas também qualquer atividade que este exerça em juízo, seja como autor, seja como réu, de maneira individual ou de maneira coletiva. Se não contassem com acesso efetivo à justiça, os direi- tos materiais tornariam a norma de defesa do consumidor inoperante. É preciso lembrar que a desigualdade existente entre os forne- cedores e consumidores se reproduz no tocanteao acesso à jus- tiça. Em geral, os fornecedores possuem uma orga- nização, são litigantes habituais e juridicamente bem informados; em contrapartida, o consumi- dor é um litigante ocasional e sem qualquer preparo jurídico prévio. Em um país com pro- fundas desigualdades sociais há ainda outras vítimas dessa disparidade de maneira mais clara. Essa é a razão para todo um capítulo dedicado às garantias processuais para conferir efetividade à defesa do consumidor. O Código de Defesa do Con- sumidor, portanto, disciplina tanto as ações individuais quanto as ações coleti- vas e ainda prevê um papel ativo do juiz no processo, posto que tem o dever de proteção sem deixar de observar a imparcialidade exigida. Nesse sentido, tem-se o fortalecimento da posição do consumidor em juízo perante o fornecedor de produtos e serviços, o que exigiu a criação de técni- cas, em especial, a ampliação das ações coletivas, com vistas a facilitar o acesso à justiça e minimizar as condições do consumidor em juízo. Aplicam-se a essas demandas as regras processuais do Código de Processo Civil, porém com situações específicas, tais como a impossibilidade de denun- ciação da lide – cujos objetivos claros são a celeridade processual, o regime especial do ônus da prova e os Juizados Especiais Cíveis. DIREITO DO CONSUMIDOR 107 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 107 15/12/2020 12:02:51 Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos Os direitos de primeira geração são os direitos civis e políticos, aqueles que compreendem as liberdades clássicas – do Estado Liberal – e correspondem a um dever de abstenção por parte do Esta- do, ou seja, ressaltam o direito à liberdade. Os di- reitos de segunda geração são os direitos sociais, econômicos e culturais, correspondem a um dever por parte do Estado e são compostos por liberdades positivas. Acentuam, portanto, o direito de igualdade. Os direitos de terceira geração são aqueles fundados no princípio da solidariedade universal. A tutela coletiva em Direito do Consumidor tem dois grupos: o primeiro refere-se àquele em que se encontram os direitos transindividuais – os direitos difusos e coletivos – e o segundo são os chamados direitos indi- viduais homogêneos. Para estudarmos a defesa do consumidor em juízo, é preciso diferenciá-los. Nos direitos transindividuais, que sejam titulares pessoas indeterminadas ou mesmo todas as pessoas, o bem da vida que os compõem não pode ser repartido entre todos como acontece com o direito ao meio ambiente sadio; de modo que são passíveis de proteção coletiva, mas a tutela pretendida não pode se dar em caráter individual. Quanto aos direitos individuais homogêneos, a titularidade do direito é individual – a cada um dos seus titulares, mas estes possuem uma origem comum. Em razão dessa origem comum e, por conta da economia proces- sual, pode ser vantajosa a tutela coletiva. O Brasil foi o primeiro país de civil law a disciplinar as ações coletivas (GRINOVER e colaboradores, 2019, p. 1144). QUADRO 2. ONDAS RENOVATÓRIAS DO DIREITO PROCESSUAL Ondas renovatórias do direito processual Assistência Judiciária Tutela de direitos difusos Modo de ser do processoAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência Judiciária Tutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusos Modo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processo DIREITO DO CONSUMIDOR 108 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 108 15/12/2020 12:02:52 A tutela prevista no artigo 82 da Lei nº 8.078/1990 é aplicável tanto aos consumidores quanto às vítimas de danos, bem como a seus sucessores, posto que são amparados pelo artigo 91 do mesmo diploma legal. Nas ações coletivas em defesa de direitos difusos ou coletivos, é possível a formulação de pedido de danos morais coletivos, mas estes são incompatíveis com os direitos individuais homo- gêneos. Assim como nos direitos subjetivos individuais, nos direitos indi- viduais homogêneos o dano material ou moral deve ser apurado individual- mente. Contudo, é preciso compreender que dano moral é, por natureza, uma reparação a danos individuais sofridos, o que se indeniza no dano moral coletivo é a coletividade que teve sua moral atingida. Não podemos, portanto, confundir um possível dano moral coletivo – vinculado aos direi- tos difusos ou coletivos – e um dano moral sofrido individualmente. Se interesses difusos são aqueles em que há a indeterminação dos titu- lares e a ausência de relação jurídica entre eles, e também em que o bem jurídico é indivisível, podemos dar como exemplos desses direitos a pro- paganda enganosa ou abusiva, posto que afeta um número incalculável de pessoas sem qualquer relação jurídica base entre elas, a colocação no mer- cado de produtos nocivos ou com alta periculosidade à saúde e segurança dos consumidores, atuação vedada pelo artigo 10 da Lei nº 8.078/1990. A demanda deve ser em benefício de todos os consumidores. Os direitos coletivos, ou interesses coletivos, se encontram disciplinados no parágrafo único, II, do artigo 81 da Lei nº 8.078/1990, mas é necessário destacar que a relação jurídica base preexistente, conforme descrita no arti- go em comento, não é a mesma que a relação jurídica decorrente da lesão. Se nos direitos difusos, a inexistência de relação base impossibilita a determinação dos titulares, nos di- reitos coletivos ela se encontra presente. Nos direitos individuais homogêneos também não se verifica nenhuma relação jurídica de base, mas tais interesses ou direitos devem ser decorrentes de uma ori- gem comum. DIREITO DO CONSUMIDOR 109 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 109 15/12/2020 12:02:52 Requisitos para o tratamento coletivo dos direitos individuais • Homogeneidade • Origem comum • Homogeneidade• Homogeneidade• Homogeneidade • Origem comum • Homogeneidade • Origem comum • Homogeneidade • Origem comum • Homogeneidade • Origem comum• Origem comum QUADRO 3. OS REQUISITOS PARA O TRATAMENTO COLETIVO DOS DIREITOS INDIVIDUAIS CURIOSIDADE Em 1977, com a reforma da ação popular, os direitos difusos com ligações ao patrimônio ambiental lato sensu receberam a tutela jurisdicional. Já em 1981, com a Lei nº 6.938, o Ministério Público passou a ter a titularidade das ações ambientais de responsabilidade civil e penal. Com a Lei nº 7.347/1985 – Lei da Ação Civil Pública –, os interesses transindividuais, ligados ao meio ambiente e aos consumidores, passaram a receber tutela diferenciada, mudando a estrutura individualista do Código de Processo Civil. A legitimidade ativa para propositura de ações coletivas Na tutela individual, a legitimidade está disciplinada no artigo 18 do Novo Código de Processo Civil, nesse caso, a regra é a da legitimação ordinária, com o sujeito em nome próprio a de- fender direito próprio. A litigância em defesa de direito de terceiro é permi- tida ainda que de maneira ocasional, por isso denominada legitimação ex- traordinária. Embora a legitimação extraordinária tenha nascido para os direitos individuais, é possível permitir sua adaptação aos direitos transin- dividuais. Um dado importante para ser destacado é de que os legitimados coletivos não são titulares dos direitos que defendem. A legitimidade ativa está prevista no artigo 82 da Lei nº 8.078/1990. Quanto à legitimidade do cidadão, esta é limitada à ação popular, prevista na Lei nº 4.717/1965, conforme as hipóteses previstas na Constituição Federal, em seu artigo 5º. DIREITO DO CONSUMIDOR 110 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 110 15/12/2020 12:03:33 Conforme prevê o artigo 82 da Lei nº8.078/1990, cabe, concorrentemente, ao Ministério Público, a União, os estados, os municípios e o Distrito Federal e ainda as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, destinadas à defesa dos interesses e direitos protegidos pela norma consumerista, por fim, as associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam nos seus fins institucionais a defesa dos interesses e direitos do Código de Defesa do Consumidor. A legitimidade do Ministério Público nas ações coletivas é extremamente re- levante, visto que figura como o mais atuante dos legitimados. Uma das funções institucionais do Ministério Público é a promoção do inquérito civil e a ação civil pública, com o objetivo de proteção ao patrimônio público e social, ao meio am- biente e a outros direitos difusos e coletivos. Se há alguma polêmica quanto à legitimidade do Ministério Público é em torno da defesa dos direitos individuais homogêneos, tendo em vista que o artigo 129 da Constituição Federal não menciona essa possibilidade. O melhor entendimento é aquele em que o rol do artigo 129 é meramente exemplificativo e que a defesa dos direitos individuais homogêneos, por meio da ação coletiva, só foi prevista a partir de 1990, com a entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor. DIAGRAMA 2. AÇÃO POPULAR – HIPÓTESES Aç ão p op ul ar - hi pó te se s Anulação de ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe Anulação de ato lesivo à moralidade administrativa Anulação de ato lesivo ao meio ambiente, ao patrimônio histórico e cultural DIREITO DO CONSUMIDOR 111 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 111 15/12/2020 12:03:33 A alteração na Lei nº 7.347/1985, realizada pela Lei nº 11.448/2007, incluiu a Defen- soria Pública no rol dos legitimados à propositura da ação coletiva. Mesmo que algu- ma divergência exista, entendemos pela possibilidade de ampliação na previsão do artigo 82 da Lei nº 8.078/1990, com fi m de possibilitar a Defensoria Pública ingressar na defesa de direitos coletivos em situações que envolvam o Direito do Consumidor. DIAGRAMA 3. LEGITIMIDADE DO PARQUET PARA A DEFESA DE DIREITO INDIVIDUAL HOMOGÊNEO Das ações judiciais Quanto às ações judiciais individuais, é preciso destacar a regra da compe- tência descrita no artigo 101 da Lei nº 8.078/1990. Sem dúvidas, o artigo 101, inciso I, coaduna-se com o mandamento de facilitação da defesa do consumi- dor em juízo. Essa é a razão para que o ajuizamento das ações individuais seja possível no foro do domicílio do autor. Imaginar outra solução distinta da apre- sentada pelo Código de Defesa do Consumidor seria forçar, por exemplo, que um consumidor, domiciliado em São Paulo, pudesse ser obrigado a mover ação em face do fornecedor de serviços em Manaus. Dessa forma, aqueles contratos que prevejam foro de eleição e que difi cul- tem o acesso à justiça do consumidor são inadmitidos. As cláusulas de foro de eleição são comuns em várias modalidades contratuais, mas é preciso lembrar que, no caso dos consumidores, a contratação não é realizada em paridade de posição, de modo que, em geral, os contratos de consumo se revelam sob a forma de contratos de adesão. Essa regra de competência relativa pode ser extremamente prejudicial ao consumidor. Legitimidade do parquet para a defesa de direito individual homogêneo Direito indisponível Direito disponível que por sua importância e ou extensão tenha repercussão social DIREITO DO CONSUMIDOR 112 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 112 15/12/2020 12:03:33 Ainda na defesa individual do consumidor, temos a ação de responsabilidade civil, prevista no artigo 101 da Lei nº 8.078/1990. Notamos a chamada vedação à denunciação da lide na ação de indenização movida pelo consumidor contra o fornecedor, expressa no artigo 88 da norma de defesa do consumidor, essa regra é motivo de exceção no artigo 101, inciso II, da Lei nº 8.078/1990, nos casos em que o réu possua seguro de responsabilidade poderá chamar o segurador, em que seja vedada a integração do Instituto de Resseguros do Brasil na demanda. Há inovação por parte do Código de Defesa do Consumidor nessa matéria porque cria entre segurado e segurador uma solidariedade prevista em lei em benefício do consumidor. A sentença que condena ambos e, portanto, julga procedente o pedido constitui título executivo em favor do consumidor contra o segurado e o segurador. A denunciação à lide é, na sistemática do Código de Processo Civil, uma ação regressiva no mesmo processo e, dessa forma, decidida na mesma sentença. Contudo, conforme previsto no Código de Defesa do Consumidor, a execução é direta, fundada na sentença, nos casos em que ele foi chamado ao processo e até o limite do contrato. Por fim, se o réu for declarado em estado de falência, deverá ser intimado e informar a existência do seguro de responsabilidade. A efetivação da tutela jurisdicional em defesa do consumidor conta ainda com o disposto no artigo 84 da Lei nº 8.078/1990. O Código de Defesa do Con- sumidor admite que o juiz adote tutelas específicas para garantir o cumprimen- to da obrigação ou até mesmo impedir o perecimento de direitos. O artigo 84 ainda prevê a possibilidade de fixação de astreintes, multas diárias, ou até mesmo de outras medidas executórias, busca e apreensão, remoção de coi- sas e pessoas, desfazimento de obra, impedimento de atividade nociva etc., que forcem aquele que está inadimplente a cumprir a obrigação pactuada. A imposição da multa diária pelo juiz, seja de forma liminar, seja em sen- tença, independentemente de requerimento por parte do autor da demanda, é medida coercitiva que não tem caráter reparatório (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 289). A multa não tem o condão de impedir o credor para a realização da obrigação específica, nem o recebimento do equivalente monetário ou even- tuais perdas e danos. O poder conferido ao juiz de estipulação dessa multa sem necessidade de requerimento não revela qualquer ofensa ao princípio da congruência – entre pedido e sentença. DIREITO DO CONSUMIDOR 113 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 113 15/12/2020 12:03:33 Como dito, essas tutelas independem de requerimento do consumidor e, além de poderem ser concedidas tutelas liminarmente, existe a possibilidade de conversão da obrigação em perdas e danos. Os poderes do juiz foram, de fato, ampliados, e a concessão da antecipação de tutela deve estar baseada no relevante fundamento da demanda – verossimilhança e plausibilidade – e justifi cado receio de inefi cácia do provimento fi nal. Conversão da obrigação em perdas e danos Conversão da obrigação em perdas e danos Conversão da obrigação em perdas e danos Frustada a tutela específi ca Impossível a obtenção do resultado prático equivalente ao adimplemento Se o consumidor preferirFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi ca Impossível a obtenção do resultado prático equivalente Impossível a obtenção do resultado prático equivalente Impossível a obtenção do resultado prático equivalente ao adimplemento Impossível a obtenção do resultado prático equivalente ao adimplemento Impossível a obtenção do resultado prático equivalente ao adimplemento Impossível a obtenção do resultado prático equivalente ao adimplemento Impossível a obtenção do resultado prático equivalente ao adimplemento Impossível a obtenção do resultado prático equivalente ao adimplemento resultado prático equivalente Se o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferir QUADRO 4. ESSAS TUTELAS INDEPENDEM DE REQUERIMENTO DO CONSUMIDOR3ª gerações têm efi - cácia positiva, de modo que obrigam o Estado a efetivar medidas para prote- ção aos consumidores. A promulgação do Código de Defesa do Consumidor se deve a mandamento constitucional expresso. Os direitos fundamentais são aqueles que encontram reconhecimento nas constituições, portanto, quando não há Constituição, não há direitos fundamentais. O artigo 5º da Constituição “impõe ao Estado o dever de promover, na forma da lei, o direito do consumidor”. DIREITO DO CONSUMIDOR 13 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 13 15/12/2020 12:01:23 Como direito fundamental, ele se revela uma conquista em direção ao desenvolvimento econômico, à livre iniciativa com o objetivo de assegurar a todos uma existência digna, conforme preceitua o art. 170 c/c 218 CF/88. Em nível constitucional, a preocupação com os interesses e direitos do consumidor transparecem ainda no art. 150 que, em seu § 5°, diz que “a lei determinará me- didas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços”, bem como no art. 175 que dispõe sobre os direitos dos usuários na prestação de serviços públicos. DIAGRAMA 1. DIREITOS FUNDAMENTAIS ATÉ A QUINTA GERAÇÃO Os princípios constitucionais de proteção ao consumidor Os sistemas constitucionais contemporâneos, assim como o sistema jurídico brasileiro, são interpretáveis a partir de uma ideia de sistema hierarquicamente or- ganizado. Desse modo, a intepretação de um texto infraconstitucional como o CDC é realizada a partir da Constituição, a fim de que o intérprete verifique a adequação e constitucionalidade das normas que analisa. É preciso ter a noção do sistema ju- rídico no qual, dentre os elementos, estão as normas jurídicas, com uma estrutura formada pela hierarquia, pela coesão e pela unidade, bem como salientado por Nu- nes, nas páginas 37 e 38 do livro Curso de direito do consumidor, editado em 2018. O princípio republicano, positivado no art. 1° da Constituição, é o farol aos demais princípios constitucionais. A forma republicana de governo pressupõe 1ª Geração - Direitos Civis e Políticos - Liberdade 5ª Geração - Proteção de Direitos no Mundo Digital 2ª Geração - Direitos Sociais, Econômicos e Culturais - Igualdade 3ª Geração - Direitos Metaindividuais - Fraternidade/Solidariedade 4ª Geração - Proteção do Patrimônio GenéticoDi re ito s f un da m en ta is DIREITO DO CONSUMIDOR 14 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 14 15/12/2020 12:01:23 um catálogo de liberdades em que se articulam as liberdades dos antigos – os direitos de participação política – e as liberdades modernas – os direitos de defesa individuais, apontados por Canotilho na página 227 de seu livro, Direito constitucional e teoria da Constituição, editado em 2003. A defesa ao consumidor enquadra-se na defesa da liberdade dos modernos, com a indispensável pre- sença do Estado na tutela dos consumidores, os mais vulneráveis na relação. A cidadania também é fundamento da República e está relacionada ao direito do consumidor quando se assenta na ideia de que as pessoas e a coletividade têm valores morais, costumes e direitos específicos, considerados direitos de cidadania aplicáveis a todos os indivíduos que, em outra vertente, se ligam aos consumidores quando exigem a ideia de igualdade em seu sentido formal, de acesso aos tribu- nais, legislaturas e burocracia. O próprio Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 5°, prevê a assistência jurídica integral e gratuita aos consumidores carentes. A dignidade humana é o reconhecimento de que o ser humano é o limite e o fundamento do domínio político não pode ser objeto de desconsideração em momento algum, posto que é atributo intrínseco de todo ser humano, como exal- tado por Norberto Bobbio na página 24 do livro Igualdade e liberdade, de 1997. A proteção ao consumidor relaciona-se à dignidade humana com embasamento na redução das desigualdades entre o consumidor e o fornecedor, protegendo sua integridade física e constando como um dos objetivos da Política Nacional de Defe- sa do Consumidor, conforme se depreende da leitura do art. 4° da Lei nº 8078/90. A construção de uma sociedade justa, livre e solidária é um dos objetivos da Repú- blica e a proteção ao consumidor decorre dos valores democráticos. A necessidade de uma legislação protetiva propicia maior liberdade e igualdade diante de uma rela- ção que nasce sem equilíbrio de forças. A liberdade é compreendida como a liberda- de de escolha e de ação do consumidor e a liberdade de empreender do fornecedor. A justiça identifica-se com a legalidade e um de seus clássicos significados também se liga à igualdade, condições para a instituição e conservação da or- dem ou da harmonia como um todo. Como escrito na página 14 do livro de Bobbio, legalidade e igualdade são necessárias para realizar a justiça, contudo só são suficientes se pensadas em conjunto. Logo, as normas de proteção ao consumidor e os princípios de justiça estão conectados. A solidariedade, que pode ser vista como um vínculo recíproco num grupo, significa que há uma consciência de pertencer ao mesmo fim, à mesma causa, DIREITO DO CONSUMIDOR 15 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 15 15/12/2020 12:01:23 ao mesmo interesse, ao mesmo grupo, a despeito das diferenças existentes. Nas relações de consumo, a solidariedade é fundamental para atingir a igualdade real ou reduzir o abismo existente entre os fornecedores e consumidores, em especial quando as relações envolvem grupos mais fragilizados, como crianças e idosos. O Código de Defesa do Consumidor: uma lei principiológica O Código de Defesa do Consumidor trouxe inovações que influenciaram o sistema jurídico brasileiro. Seus efeitos positivos, como o desempenho educa- tivo e transformador, estão associados à técnica legislativa adotada, baseada em princípios gerais, o que permite considerá-lo uma lei principiológica, como relatado na página 24 do livro de Cavalieri Filho. Todavia, para uma melhor compreensão, vale relembrar os conceitos de princípios e regras. As normas jurídicas são divididas em duas categorias: regras e princípios. A sistematização de Ronald Dworkin, exposta das páginas 22 a 25 do livro Ta- king rights seriously, de 1978, prevê que as regras são aplicadas num sistema de tudo ou nada porque ainda que uma regra possua exceções que podem ser enumeradas, são mais completas e estariam no enunciado da regra. Por sua vez, os princípios são aplicados de maneira diversa, em primeiro lugar porque as consequências legais não ocorrem de maneira automática e podem ter que ceder mediante a força ou o peso que apresentem. Robert Alexy, no livro Teoria dos direitos fundamentais, de 2006, apresen- ta uma teoria distinta, na qual os princípios se comportam como verdadeiros mandamentos de otimização, pois podem ser satisfeitos em graus variados e, no sentido de sua satisfação, dependem não apenas de condições fáticas, mas, também, de condições jurídicas. A doutrina brasileira tradicionalmente trata os princípios como “mandamentos nucleares” ou “disposições fundamentais de um sistema “, segundo relatado por Silva na página 611 de artigo publicado em 2003 na Revista Latino-americana de Estudos Constitucionais. Mesmo que a nomenclatura apresente algumas variações, os princípios continuam a ser entendidos como as normas fundamentais do sistema. No or- denamento jurídico, as regras e os princípios possuem funções distintas. As primeiras têm a finalidade de estabelecer uma conduta adequada para hipóte- ses específicas, sob a forma de subsunção – tudo ou nada. Quanto aos princípios, eles desempenham múltiplas funções, com desta- que à função estruturante. No aspecto conceitual, os princípios são “verdades DIREITO DO CONSUMIDOR 16 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 16 15/12/2020 12:01:23 fundantes” de um sistema, segundo Miguel Reale na página 299 do livro Lições preliminares de direito, publicadoE, ALÉM DE PODEREM SER CONCEDIDAS TUTELAS LIMINARMENTE, EXISTE A POSSIBILIDADE DE CONVERSÃO DA OBRIGAÇÃO EM PERDAS E DANOS Custas, despesas e honorários nas ações coletivas As regras referentes às custas, despesas e honorários nas ações cole- tivas são as mesmas existentes para as liquidações e execuções em geral. Conforme previsão legal, é dispensado ao autor da ação civil pública o adiantamento de custas processuais e há isenção da condenação das verbas de sucumbência, exceto nos casos de litigância de má-fé, em que existem a condenação em honorários e o décuplo das custas – artigo 17 da Lei da Ação Civil Pública. A especialidade decorre da presença da Fazenda Pública nas execuções não embargadas. Diante de uma sentença coletiva e nos casos em que a liquidação e a execução forem coletivas, se não embargadas, não será pos- sível condenar a Fazenda Pública ao pagamento de honorários advocatícios, se individual inaplicável pelas singularidades da execução. De acordo com a Súmula 345/STJ: “são devidos honorários advocatícios pela Fazenda Pública nas execuções individuais de sentença proferida em ações coletivas, ainda que não embargadas” (Consultor Jurídico, 2019). DIREITO DO CONSUMIDOR 114 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 114 15/12/2020 12:03:33 A inversão do ônus da prova O ônus da prova é regra de julgamento, sua fi nalidade é defi nir a qual das partes cabe provar determinado fato e no momento da decisão faz com que o juiz penda a um lado ou ao outro, devido ao sucesso ou fracasso na prova do que interessa a cada uma das partes do processo. As regras de distribuição do ônus da prova constam do artigo 373 do Novo Código de Processo Civil. O artigo determina que cabe ao autor o ônus de pro- var os fatos constitutivos de seu direito; ao réu, cabe demonstrar as inverdades das alegações autorais por meio de prova. Caso não faça isso, estará em des- vantagem se o autor comprovar suas alegações. Há inovação no Novo Código de Processo Civil naquilo que nomeamos como distribuição dinâmica do ônus probatório. A inversão do ônus da prova existe em três espécies: a primeira chamada de convencional, porque é decorrente de um acordo de vontade entre as partes, desde que observadas as restrições constantes do Novo Código de Processo Civil, assim, não é possível realizar essa inversão nos casos de direitos indispo- níveis ou tornar o exercício do direito muito difícil à parte. A segunda espécie é a inversão judicial do ônus probatório. A terceira é a inversão do ônus da prova legal, ou seja, decorrente da lei. Para sua aplicação, não há necessidade de preenchimento de nenhum requisito, nem mesmo do caso concreto em si. Decorre ope legis. Essa é a modalidade de inversão do ônus da prova presente no Código de Defesa do Consumidor, sendo possível observar em três passagens distintas do Diploma Consumerista. DIAGRAMA 4. A MODALIDADE DE INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA ESTÁ PRESENTE NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR, SENDO POSSÍVEL OBSERVAR EM TRÊS PASSAGENS DISTINTAS DO DIPLOMA CONSUMERISTA ART. 12, PARÁGRAFO 3°, DO CDC ART. 14, PARÁGRAFO 3°, DO CDC ART. 38 DO CDC DIREITO DO CONSUMIDOR 115 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 115 15/12/2020 12:03:33 A inversão judicial é aquela que encontramos no artigo 6º, inciso VIII, da Lei nº 8.078/1990, nesse caso, a lei prevê que o juiz poderá inverter o ônus da prova em fa- vor do consumidor se observar a hipossuficiência desse e a verossimilhança das ale- gações por ele realizadas. Nessa situação, não há inversão ope legis, e sim ope iudicis. Para o consumidor, um dos momentos mais complexos de sua jornada pro- cessual é o momento da prova. A inversão do ônus da prova é o que possibilita o consumidor romper as barreiras do caso concreto. É sempre importante distinguir ônus de obrigação. A obrigação é um dever jurídico previsto na norma em favor de alguém. Nos casos de incumprimento, estaremos diante de um ato ilícito. Já o ônus é uma conduta prevista pela norma em interesse próprio que tem a possibilidade de adotá-la ou não. O não exercício não configura ato ilícito. Dessa forma, a principal distinção entre ônus e obriga- ção é a existência de sanção para o caso de descumprimento da obrigação e sua ausência no ônus. O ônus da prova não é diferente desse conceito geral. Não há sanções no caso da parte permanecer inerte em relação às provas dos fatos que sustentem suas alegações. No caso do consumidor, a vulnerabilidade é o fundamento para a inver- são do ônus da prova. A inversão é a forma de “retirar dos ombros a carga da prova referente aos fatos de seu interesse” (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 291). A inversão do ônus da prova ope judicis tem como seus pressupostos a veros- similhança das alegações e a hipossuficiência do consumidor. Por algum tempo, debateu-se acerca da cumulatividade ou não desses pressupostos. Hoje, é enten- dimento da doutrina que esses pressupostos são alternativos, ou seja, não pre- cisam estar presentes em ambas as hipóteses para que o juiz possa fazer valer a inversão do ônus da prova. Antes de deferir a inversão, o juiz deve analisar o caso concreto, porque não há por parte do Código de Defesa do Consumidor a dispensa na produção de provas por parte do consumidor. É possível notar, nesse caso, dois requisitos para inversão: o primeiro é a hi- possuficiência do consumidor, que não pode ser entendida apenas em sua mo- dalidade econômica, posto que é colocada em seu aspecto mais amplo. No en- tanto, é conceito jurídico indeterminado, ou seja, seu conteúdo é fixado pelo juiz, segundo as regras ordinárias de experiência. E o segundo é a verossimilhança das alegações. A verossimilhança é, em linhas gerais, a aparência da veracidade, mas é conceito jurídico indeterminado como a hipossuficiência. DIREITO DO CONSUMIDOR 116 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 116 15/12/2020 12:03:34 Outro ponto de debate é com relação ao momento em que deve ocorrer a inversão do ônus da prova. Há os que entendem que a inversão deve ser deferida ou não no momento do despacho liminar de conteúdo positivo. Outros são os que advogam pelo momento do saneamento do processo e outros na sentença. É preciso lembrar que no momento do despacho liminar de conteúdo positivo não há ainda pontos controvertidos em que se funda a demanda e sobre os quais recairá na instrução probatória. A inversão no saneamento do processo carrega em si difi culdades em alguns procedimentos como no caso dos Juizados Especiais, posto que é ausente essa fase processual. Essa é a razão para que alguns autores defendam que o momento em que se deve dar a inversão do ônus da prova é na sentença. O Superior Tribunal de Justiça entende que a inversão carece ocorrer no saneamento do processo, antes do início da instrução probatória. EXPLICANDO A distribuição dinâmica do ônus probatório revela em verdade um sistema misto. Não se trata apenas de inverter o ônus da prova, a inversão altera os polos estáticos de produção da prova, a distribuição tem a medida de dinamizar o ônus da prova. A lei prevê algo em abstrato, mas para o juiz, em decorrência do caso concreto, é permitida a modifi cação do previsto. Desse modo, no silêncio do juiz, mantém-se a aplicação da regra prevista no artigo 373 do Novo Código de Processo Civil. A competência A competência das tutelas coletivas está disciplinada no artigo 2º da Lei da Ação Civil Pública. O artigo em questão estabelece que a competência do foro para as demandas coletivas é funcional. No entanto, o melhor entendimento na doutrina é de que a competência ali descrita deve ser compreendida como competência absoluta. A competência, portanto, da ação civil pública é o foro do local do dano e é absoluta. Em comarcas em que existam Varas da Justiça Federal e Estadual não enseja qualquer difi culdade no caso de participação de entes federais – previstos no artigo 109, I, da Constituição de 1988 – porque em mesmo foro. Noscasos em que não há no foro Varas da Justiça Federal, o artigo 109, I, da Constituição Federal, exige a competência da Justiça Federal ainda que em foro distinto do local do dano. DIREITO DO CONSUMIDOR 117 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 117 15/12/2020 12:03:34 O Código de Defesa do Consumidor em seu artigo 93 determina que, ressalvada a hipótese de competência da Justiça Federal, competirá à jus- tiça local o julgamento dessas ações no foro do local onde o dano ocorreu ou onde deva ocorrer e ainda do foro da capital do estado ou do Distrito Federal nos casos de âmbito regional ou nacional, aplicando-se as regras do Código de Processo Civil. Esse dispositivo é criticado porque despreza a segurança jurídica e a qua- lidade da prestação jurisdicional, ao não determinar o que precisa ser enten- dido como dano de âmbito local, regional ou nacional, sendo as duas últimas distinções desnecessárias entre si quanto à compe- tência. Para a maioria da doutrina, mesmo nos casos de dano nacional, haverá concorrência dos foros. Ademais, o inciso II do artigo 93 permite que o julgamento se dê em local distante de onde ocor- reu o dano, o que pode refl etir na qualidade da prestação jurisdicional. Da coisa julgada nas ações coletivas O artigo 103 da Lei nº 8.078/1990 disciplina a coisa julgada em todas as ações coletivas e seu regime geral é o da extensão erga omnes ou ultra par- tes. O inciso I do artigo em comento trata da coisa julgada nas ações coleti- vas de direitos difusos em que a regra geral deve ser aplicada, acresce ainda como regra geral que a sentença que tenha como fundamento a ausência ou insufi ciência de provas não impede a propositura de nova ação coletiva re- ferente aos direitos difusos e coletivos. O mesmo não se aplica aos direitos individuais homogêneos, conforme se depreende da leitura do artigo 103 da Lei nº 8.078/1990. A doutrina majoritária entende pela constitucionalidade da coisa julgada se- cundum eventum probationis, bem como a secundum eventum litis, porque os su- jeitos que são os titulares dos direitos não participam efetivamente do processo. É preciso destacar que os efeitos da coisa julgada não prejudicarão os inte- resses individuais dos integrantes da coletividade, que podem ingressar com ações de natureza individual depois da rejeição da demanda coletiva. DIREITO DO CONSUMIDOR 118 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 118 15/12/2020 12:03:34 Coisa julgada interesses difusos Coisa julgada Direitos coletivos Coisa julgada Direitos individuais homogêneos • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito – efeito erga omnes exceto nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito – efeito erga omnes exceto nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito – efeito erga omnes exceto nas ações individuais. • Pedido acolhido – sentença • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito – efeito • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito – efeito nas ações individuais; • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito erga omnes exceto nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença • Pedido rejeitado no mérito exceto nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada • Pedido rejeitado no mérito exceto nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito – efeito possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito – efeito • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito – efeito nas ações individuais; • Pedido rejeitado por • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito exceto nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido rejeitado no mérito exceto nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença nas ações individuais; • Pedido rejeitado por insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões insufi ciência de provas – possibilidade de nova ação. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões possibilidade de nova ação. • Pedido rejeitado no mérito • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; possibilidade de nova ação. • Pedido rejeitado no mérito – efeito • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais;• Pedido rejeitado no mérito – efeito nas ações individuais. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões individuais; • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais. • Pedido acolhido – sentença prevalece e pode ser usada em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito erga omnes nas ações individuais. em benefício das pretensões • Pedido rejeitado no mérito erga omnes exceto nas ações individuais. • Pedido rejeitado no mérito exceto nas ações individuais. • Pedido rejeitado no mérito exceto nas ações individuais. QUADRO 5. OS EFEITOS DA COISA JULGADA NÃO PREJUDICARÃO OS INTERESSES INDIVIDUAIS DOS INTEGRANTES DA COLETIVIDADE Aspectos da litispendência e continência da ação coletiva com a ação individual A pendência de uma ação coletiva não im- pede a propositura de uma ação individual. A questão que se impõe é a existência de ações individuais em trâmite quando da propositura da ação coletiva. O artigo 104 do Código de Defesa do Consumidor disciplina que as ações coletivas não induzem litispendência para as ações indi- viduais. A litispendência pode signifi car tanto a pendência da causa – que se inicia com sua propositura e se encerra com sua extinção – quanto o pressuposto processual negativo – que ocorre na conco- mitância de processos idênticos. Por certo, o artigo 104 disciplina o segundo sentido do termo. Nas hipóteses de direitos difusos e coletivos e ações individuais, é simples vislumbrar a inexistência de qualquer litispendência em razão da diferença en- tre as ações. A parte material nas ações de direitos difusos e coletivos será a coletividade no primeiro caso e será a comunidade no outro. As ações indivi- duais têm sempre o indivíduo como parte material. DIREITO DO CONSUMIDOR 119 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 119 15/12/2020 12:03:34 No caso dos direitos individuais homogê- neos, também haverá distinção de parte. Os direitos individuais homogêneos terão como titular cada um dos indivíduos titula- res dos direitos individuais e que, somados, geram um direito processualmente coletivo. No caso de ação individual, o autor é titular de direito individual homogêneo parcialmente (TARTUCE; NEVES, 2016, p. 531-532). Já na conexão, disciplinada no artigo 55 do Novo Código Civil, e na con- tinência, disciplinada no artigo 56 do mesmo diploma, devemos analisar as partes, as causas de pedir e o pedido das ações para sabermos se esses são ou não idênticos. A integralidade tem como consequência a litispendência; é preciso, portanto, observar se são idênticas as causas de pedir e os pedidos das ações. Existe a possibilidade de conexão entre as ações coletivas e as ações individuais, sendo certo que o artigo 104 da Lei nº 8.078/1990 prevê a pos- sibilidade de reunião das demandas conexas, com o intuito de evitar a re- petição de atos processuais e, portanto, respeitar a economia processual, bem como evitar a prolação de decisões judiciais contraditórias. No caso de reunião entre ações individuais e coletivas, a prevenção do juízo deve ocorrer em relação ao juízo da ação coletiva. Isso justifi ca o maior alcance jurisdicional nas demandas coletivas. Ainda de acordo com o artigo 104 da Lei nº 8.078/1990, o autor da de- manda individual tem 30 dias para requerer sua suspensão para poder aproveitar o resultado da demanda coletiva. Suspensão da ação individual Não suspensão da ação individual Ação coletiva procedente a ação individual perde o objeto Exclui os efeitos da ação coletiva E o autor da ação tem direito a um título executivo judicial Não pode se valer de futuro título executivo judicial Ação coletiva procedente a ação individual Ação coletiva procedente a ação individual Ação coletiva procedente a ação individual Ação coletiva procedente a ação individual E o autor da ação tem direito a um título Ação coletiva procedente a ação individual E o autor da ação tem direito a um título Ação coletiva procedente a ação individual perde o objeto E o autor da ação tem direito a um título Ação coletiva procedente a ação individual perde o objeto E o autor da ação tem direito a um título Ação coletiva procedente a ação individual perde o objeto E o autor da ação tem direito a um título executivo judicial Ação coletiva procedente a ação individual perde o objeto E o autor da ação tem direito a um título executivo judicial Ação coletiva procedente a ação individual perde o objeto E o autor da ação tem direito a um título executivo judicial Ação coletiva procedente a ação individual E o autor da ação tem direito a um título executivo judicial Ação coletiva procedente a ação individual E o autor da ação tem direito a um título executivo judicial Ação coletiva procedente a ação individual E o autor da ação tem direito a um título E o autor da ação tem direito a um título E o autor da ação tem direito a um título Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo judicial Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo judicial Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo judicial Exclui os efeitos da ação coletiva Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo QUADRO 6. SUSPENSÃO DA AÇÃO INDIVIDUAL E NÃO SUSPENSÃO DA AÇÃO INDIVIDUAL DIREITO DO CONSUMIDOR 120 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 120 15/12/2020 12:03:35 Liquidação Para executar uma sentença, é necessário que esta seja líquida. No entanto, nem todas as sentenças terão um resultado líquido de maneira imediata e, por essa razão, o legislador previu a liquidação da sentença. A liquidação nada mais é, em termos gerais, do que o nome que damos ao método de cálculo do valor líquido de uma sentença e, assim, possibilitar sua execução. Isso porque o Códi- go de Processo Civil estipula que a execução deverá recair sobre uma obrigação certa, líquida e exigível, mesmo aquelas consubstanciadas em título executivo. Nos processos individuais, basta a apuração da liquidez, posto que os de- mais requisitos já se encontram demonstrados na sentença, a exemplo da le- gitimidade ativa para propor a demanda ou o nexo causal. Contudo, o mesmo não ocorre nas ações coletivas que, de maneira geral, não se preocupam com o valor do dano, nem mesmo com a identifi cação dos lesados, o bem jurídico tutelado se aplica à coletividade na sentença e de maneira uniforme. A sentença condenatória coletiva é genérica quando fi xa a responsabilidade do réu pelos danos causados, ou seja, torna certo o dever de indenizar, porque reconhece a existência do dano genérico. Nesse sentido, a sentença condena- tória é certa, porém ilíquida, sendo necessária a liquidação. A liquidação da sentença cabe a cada benefi ciário, em que devem ser pro- vados os danos, o nexo causal com o dano reconhecido genericamente na sen- tença e o montante da indenização. Na fase da liquidação, ocorrerá a habili- tação, expressão escolhida pelo artigo 100 da Lei nº 8.078/1990, das vítimas e seus sucessores,com o claro objetivo de transformar a condenação pelos prejuízos considerados de forma global em indenizações individuais. Não há prazo preclusivo para o ajuizamento da liquidação. O direito mate- rial fi xa o prazo prescricional para o exercício do direito de reparação individual que ocorrerá pela habilitação da liquidação. As pretensões individuais relativas aos direitos individuais homogêneos devem respeitar o prazo de dez anos, prescricional, previsto no artigo 205 do Código Civil. Importante destacar que o prazo previsto no artigo 21 da Lei de Ação Po- pular se refere ao direito de utilizar a ação especial, portanto, não se refere à habilitação para a liquidação. DIREITO DO CONSUMIDOR 121 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 121 15/12/2020 12:03:35 Como visto, os legitimados para procederem à liquidação são as vítimas do dano e seus sucessores, mas é preciso sempre lembrar que a liquidação e a execução são sempre personalizadas e indivisíveis (GRINOVER e colabo- radores, 2019, p. 1310). A fase de liquidação é um processo de conhecimento, portanto, preparatório para a execução, nesse sentido, é possível aplicar a re- gra do artigo 98, parágrafo 2º, I, da Lei nº 8.078/1990, que determina o foro do domicílio do autor como adequado à propositura dessas ações. Duas são as modalidades de execução decorrentes da liquidação. A coleti- va e a individual. A execução coletiva é individualizada, porém inclui o grupo de vítimas cujas indenizações já foram fixadas em sentença de liquidação; é aquela realizada tanto como mera fase do processo coletivo quanto por meio de processo individual. A liquidação individual da sentença coletiva é conhecida como liquidação imprópria, porque, aqui, há necessidade de demonstrar a legitimidade ad causam para requerê-la. O Superior Tribunal de Justiça considera a liquidação imprópria da sentença coletiva ilíquida obrigatória. Na liquidação, o juiz deve- rá avaliar e quantificar os danos causados, mas admite-se a compensação de eventuais indenizações pessoais apuradas. DIREITO DO CONSUMIDOR 122 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 122 15/12/2020 12:03:35 Sintetizando Nesta unidade, pudemos analisar o direito de arrependimento quanto às compras feitas fora do estabelecimento comercial. Nesse ponto, estudamos a oferta sistemática de crédito aos consumidores, o que vem gerando o cha- mado superendividamento do consumidor. Verificamos ainda as cláusulas abusivas, suas consequências e espécies. Aproveitamos e analisamos com maior detalhe os contratos de compra e venda a prazo e suas consequências. Vimos os contratos de empréstimo e financiamento, tão importantes para a sociedade de consumo em que vivemos. Aprendemos que o superendividamento é um dos males da faci- lidade de crédito e que muitas vezes ocorre sem que o consumidor tenha consciência de suas consequências. Também conseguimos analisar a defesa do consumidor em juízo. Para isso, tratamos das ações individuais, das chamadas ações coletivas e sua legitimidade ativa. Discutimos as tutelas específicas que objetivam conferir maior efetividade para a defesa do consumidor em juízo. Consideramos a inversão do ônus da prova em suas espécies, bem como suas características e pressupostos atrelados à importância do instituto para a possibilidade de defesa do consumidor em juízo, além dos debates acerca do momento em que ela se dá. Este estudo também tratou das distinções entre os chamados direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos e a importância das ações cole- tivas para a promoção da defesa do consumidor. DIREITO DO CONSUMIDOR 123 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 123 15/12/2020 12:03:35 Referências bibliográficas ALMEIDA, F. B.; LENZA, P. Direito do Consumidor esquematizado. 8. ed. São Pau- lo: Saraiva, 2020. ALMEIDA, J. B. Manual de Direito do Consumidor. São Paulo: Saraiva, 2003. BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do con- sumidor e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF. Disponí- vel: . Acesso em: 10 dez. 2020. CAVALIERI FILHO, S. Programa de Direito do Consumidor. São Paulo: Atlas, 2008. CONSULTOR JURÍDICO. STJ divulga 11 entendimentos sobre honorários advo- catícios. 2019. Disponível em: . Acesso em: 10 dez. 2020. GIANCOLI, B. P.; ARAÚJO JUNIOR, M. A. Direito do Consumidor – Difusos e Coleti- vos. 3. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012. GRINOVER, A. P.; BENJAMIN, A. H. V. E.; et al. Código Brasileiro de Defesa do Consu- midor: comentado pelos autores do anteprojeto. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. MARQUES, C. L.; BENJAMIN, A. H. V.; MIRAGEM, B. Comentários ao Código de De- fesa do Consumidor. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010. MARQUES, C. L. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o Novo Regime das Relações Contratuais. 8. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016. MIRAGEM, B. Curso de Direito do Consumidor. 6. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016. NUNES, R. Curso de Direito do Consumidor. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2018. TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de Direito do Consumidor: Direito Material e Processual. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. DIREITO DO CONSUMIDOR 124 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 124 15/12/2020 12:03:35 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1 SER_DIR_DIRCONSU_UNID2 SER_DIR_DIRCONSU_UNID3 SER_DIR_DIRCONSU_UNID4em 1995. Assim, os princípios da vulnerabili- dade, da boa-fé, da transparência, da informação, da segurança e outros são colunas de sustentação de todo o sistema do Código de Defesa do Consumidor, dando unidade, estabilidade e harmonia. A relação jurídica de consumo A relação jurídica, em sentido amplo, consiste em um vínculo entre pessoas, em razão da qual uma pode pretender um bem que a outra parte é obrigada. Só há relação jurídica se o vínculo entre as pessoas estiver regulado por nor- ma jurídica com o objetivo de proteção. Quando adaptados esses conceitos à relação jurídica de consumo, se verifi ca a existência de uma relação entre um sujeito ativo, titular do direito, e um sujeito passivo, que tem um dever jurídico e se coaduna com os elementos que concebem o fornecedor de produtos e/ou prestador de serviços de um lado e o consumidor do outro. Na maioria das vezes, entre os elementos estão direitos e deveres recípro- cos, posto que as hipóteses em que há proporcionalidade das prestações pre- valecem nas relações de consumo. Quanto aos elementos objetivos que for- mam a prestação na relação de consumo, nos termos do art. 3° do Código de Defesa do Consumidor, eles são defi nidos como o produto e o serviço. O fato capaz de gerar consequências para o plano jurídico, ou seja, aquele ao qual a norma jurídica dá a função de criar, modifi car ou extinguir direitos, tem o condão de vincular os sujeitos e de submeter o objeto ao poder da pessoa con- cretizando a relação, com o negócio jurídico guiado pela autonomia privada, consoante com o dito nas páginas 515 a 517 do Compêndio de introdução à ciên- cia do Direito, escrito por Diniz e cuja 21ª edição foi lançada em 2010. O conceito de consumidor: a abrangência das normas de defesa do con- sumidor frente ao consumidor por equiparação O caput do art. 2° da Lei nº 8078/90 estabelece que “consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como des- tinatário fi nal”. A noção subjetiva de consumidor é aquela em que a proteção ao consumidor é pensada na proteção do não profi ssional que se relaciona com um profi ssional, comerciante, industrial ou profi ssional liberal. Sob essa DIREITO DO CONSUMIDOR 17 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 17 15/12/2020 12:01:23 noção estariam excluídos da proteção normativa os contratos concluídos en- tre dois profissionais. No entanto, o Código de Defesa do Consumidor preferiu a adoção da de- finição objetiva em que a expressão “destinatário final” deve ser compreen- dida como aquele que retira o bem do mercado ao adquirir ou simplesmente utilizá-lo, isto é, aquele que encerra a cadeia de produção ou não adquire o produto ou serviço para revenda, mas para uso pessoal, “porque o bem seria novamente um instrumento de produção cujo preço será incluído no preço fi- nal do profissional que o adquiriu”, de acordo com o relatado no livro Contratos no código de defesa do consumidor: o novo regime das relações contratuais, escrito por Marques e cuja 8ª edição foi lançada em 2016. Nesse contexto, o destinatário final é aquele destinatário fático e econômico do bem ou serviço, seja uma pessoa física ou jurídica. Para os finalistas, o consu- midor adquire ou utiliza um produto ou serviço para uso próprio e de sua família. A restrição à aplicação das normas de defesa do consumidor é justificada, da mesma forma, pela maior necessidade de proteção à parte mais fraca da relação de consumo. A essa inicial interpretação, mais restritiva, os finalistas acabaram por evoluir a uma posição mais branda reconhecendo a aplicação das normas do Código de Defesa do Consumidor às pequenas empresas e profissionais que adquirem produtos e serviços fora de seu campo de especialidade. Diferente da teoria finalista, a teoria maximalista amplia o conceito de consu- midor e a própria construção da relação de consumo. Para os maximalistas, as normas do Código de Defesa do Consumidor devem ser aplicadas a um número cada vez maior de relações de consumo. Portanto, o destinatário final seria o des- tinatário fático, que retira o produto ou serviço do mercado e o consome. Esses embates tornaram necessária a construção de uma nova linha de interpretação. A teoria finalista aprofundada se concentra na figura do destinatário final ime- diato e da vulnerabilidade, descrita no art. 4°, I, da Lei nº 8078/90. Trata-se de uma “teoria finalista mais aprofundada e madura”, segundo Marques. Com a entrada em vigor do Código Civil de 2002, a visão maximalista perde força e a tendência acentuada na jurisprudência é de reconhecimento do finalismo aprofundado. Na sistemática do Código de Defesa do Consumidor, a definição de consumidor se inicia no individual mais concreto – art. 2°, caput – e termina no art. 29, que indica o consumidor do tipo ideal, um ente abstrato e indeterminado. Entre as previsões, DIREITO DO CONSUMIDOR 18 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 18 15/12/2020 12:01:23 encontra-se o consumidor equiparado, que é, em verdade, uma “extensão do cam- po de aplicação”, de acordo com Marques, do Código de Defesa do Consumidor. Pes- soas que mesmo não sendo consumidores stricto sensu podem “ser atingidas pelas atividades dos fornecedores no mercado”. Ausentes as características do consumidor, a posição preponderante do fornecedor e a existência de vulnerabi- lidade sensibilizaram o legislador. São equiparados ao consumidor a coletividade de pessoas que, mesmo que não sejam identificadas, tenham participado de al- guma maneira da relação de consumo e sejam por ela afetadas. A esses potenciais consumidores, o legislador conferiu os instrumentos ju- rídicos necessários, inclusive processuais, para reparação dos danos pelos res- ponsáveis. O parágrafo único do art. 2° da Lei nº 8078/90 não trata daqueles que sofreram danos, previsão contida no art. 17, que equipara a consumidores todas as vítimas do evento danoso. Nesta seção, é regulada a responsabilidade do fornecedor por fato do produto ou serviço e ainda por danos à saúde, à inte- gridade ou ao patrimônio do consumidor, os chamados acidentes de consumo. O conceito de fornecedor O conceito de fornecedor está descrito no art. 3° da Lei nº 8078/90. O Códi- go de Defesa do Consumidor não exclui nenhum tipo de pessoa jurídica, pois “busca todo e qualquer modelo”, de acordo com o exposto das páginas 93 a 95 do livro de Nunes, convencionando como fornecedores as pessoas jurídicas públicas ou privadas, nacionais e estrangeiras, com sede no País ou não, as so- ciedades anônimas, as por quota de responsabilidade limitada, as sociedades civis com ou sem fins lucrativos, as autarquias, as empresas públicas etc. O legislador optou por considerar todos que atuam nas diversas etapas do processo produtivo, mesmo os desprovidos de personalidade jurídica, como fornecedores, de maneira que é reconhecido como fornecedor qualquer um que ofereça produtos ou serviços no mercado de consumo e atenda às neces- sidades dos consumidores, sem se indagar a que título. EXPLICANDO Entes despersonalizados são aqueles que não são dotados de perso- nalidade jurídica. Um dos exemplos é a Itaipu Binacional, um consórcio entre o Brasil e o Paraguai para a produção de energia elétrica e que tem regime jurídico sui generis. Outro exemplo é a massa falida, autorizada a continuar com as atividades de uma empresa sob o regime de falência. DIREITO DO CONSUMIDOR 19 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 19 15/12/2020 12:01:23 O Código de Defesa do Consumidor não exige de maneira expressa que o for- necedor seja um profissional, mas a possibilidade de vincular o conceito descrito no art. 3° a uma certa habitualidade está presente. No entanto, ser fornecedor de determinado produto ou serviço com habitualidade tem conotação profissio- nal, levando a concluir que a ausência desse conceito não significa sua dispensa. Ser profissional está vinculado a uma especialidade, um conhecimentoes- pecial que abrange a atividade que se exerce ao mesmo tempo que denota a natureza econômica da atividade. Por ser atividade profissional, também é eco- nômica, visto que o fornecedor a desenvolve com objetivo de obter vantagem econômica que não se confunde com lucro. É possível, mesmo a entidades sem fins lucrativos, apresentarem o requi- sito da contraprestação de remuneração. Outro elemento descrito na norma é o mercado de consumo, em consonância com § 2° do art. 3°. O conceito de mercado de consumo é fluido e pode ser descrito como o ato de colocar em circulação produto ou serviço mediante o oferecimento a outrem. Na verdade, mercado é o lugar de desenvolvimento das atividades de trocas de produtos ou serviços mediante a oferta aos interessados, com objetivo de obtenção de vantagem econômica, bem como a satisfação de necessidades pela aquisição e utilização dos produtos e serviços pelos consumidores. O conceito de serviço Aos prestadores de serviços, a definição do Código de Defesa do Consumidor é aberta para uma maior interpretação. O critério é o desenvolvimento de atividades de prestação de serviços, o próprio § 2°, do art. 3°, que determina que serviço é “qual- quer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração”, sem qualquer menção à habitualidade ou à necessidade de se tratar de um profissional. A possibilidade de enquadrar algumas universalidades, como associações desportivas e condomínios em edificações, desperta algumas indagações nos fornecedores de serviço, em especial se tais entes despersonalizados são en- quadrados como fornecedores de serviços aos associados e condôminos. A questão se coloca frente ao disposto no § 1° do art. 52 da Lei nº 8078/90, que declara que a multa nos casos de mora passa a ser de 2%. Em relação às entidades associativas e aos condomínios em edificações, é preciso relembrar que seu fim e objetivo social é deliberado pelos próprios in- teressados, ou seja, sejam representados ou não por conselhos deliberativos, DIREITO DO CONSUMIDOR 20 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 20 15/12/2020 12:01:23 são órgãos deliberativos soberanos nas “sociedades contingentes”, relatadas por Grinover, de maneira que quem determina os destinos dessas sociedades são os próprios interessados, excluindo essas entidades da designação de for- necedor de serviços. Se as despesas ou contribuições sociais são decididas pelos órgãos delibe- rativos das sociedades em geral, ou pelos condôminos, não se caracteriza a prestação de serviços por terceiros no caso de inadimplência, uma vez que é a própria entidade que os presta. O mesmo não se pode considerar nos casos de entidade associativa que tem como fim a prestação de serviços de assistência médica, e, por isso, cobra mensalidades ou contribuições. Nesse caso, trata-se de fornecedor de serviços porque suas atividades não são de gestão da coisa comum, se revestem da mesma natureza das relações de consumo. Portanto, de um lado está a universalidade dos consumidores, cujo objeto é a prestação de serviço determinado por si ou por outrem e, do outro lado, aparece o fornecedor de serviços. Os serviços públicos O Código de Defesa de Consumidor faz menção expressa aos serviços pú- blicos como objeto de relação jurídica de consumo, e, portanto, sob a égide da lei consumerista. No entanto, é preciso identificar, entre os serviços públicos, os que se encontram sob as normas de proteção ao consumidor. Qual recorda- do por Hely Lopes Meirelles, na página 294 de Direito administrativo brasileiro, editado em 1995, embora tal conceito não seja unânime na doutrina nacional, serviço público pode ser conceituado como: todo aquele prestado pela Administração Pública ou por seus delegados, sob normas e controles estatais, para satisfazer ne- cessidade essenciais ou secundárias da coletividade ou simples conveniências do Estado (MEIRELLES, 1995). Serviço público é a atividade de oferecimento de utilidade ou comodidade material destinada à satisfação da coletividade em geral, mas usufruído sin- gularmente pelos administrados. O Estado as assume como pertinente a seus deveres e presta por si mesmo ou por quem lhe faça as vezes. O Brasil, a partir de 1990, passou por uma reforma com programas de desestatização e a de- legação de serviços públicos a pessoas jurídicas privadas, o que modificou a relação existente entre os usuários dos serviços e os prestadores. DIREITO DO CONSUMIDOR 21 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 21 15/12/2020 12:01:23 Alguns foram objeto de delegação em regime de monopólio, como a energia elétrica. Outros, do regime da concorrência, como a telefonia. De certo, não são todos os serviços públicos que se subor- dinam às regras do Código de Defesa do Consumidor, sendo ele aplicado aos serviços públicos em que haja a presença do consumidor e do agente de uma rela- ção de aquisição remunerada do serviço, individual- mente e de modo mensurável – uti singuli. EXPLICANDO Segundo Hely Lopes Meirelles, serviços públicos uti universi são aqueles que a administração presta sem ter usuários determinados, para atender à coletividade no seu todo, como os de polícia, iluminação pública, calçamen- to e outros dessa espécie. Serviços públicos uti singuli são os que têm usuá- rios determinados e utilização particular e mensurável para cada destinatá- rio, como ocorre com o telefone, a água e a energia elétrica domiciliares. DIAGRAMA 2. RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO A relação jurídica de consumo No Código de Defesa do Consumidor, não há qualquer definição de relação jurídica de consumo. Apesar da opção do legislador pelo conceito de consumi- dor e fornecedor como partes da relação jurídica, é preciso salientar que não há consumidor sem fornecedor, assim como não há fornecedor sem consumidor. Consumidor Relação jurídica de consumo Fornecedor DIREITO DO CONSUMIDOR 22 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 22 15/12/2020 12:01:23 Defi nidas as fi guras do consumidor e fornecedor, para caracterizar a rela- ção jurídica de consumo falta analisar o objeto da relação, em especial o produ- to. É comum que algumas empresas afastem a incidência do Código de Defesa do Consumidor sob a alegação de que sua atividade econômica não se adequa nem ao conceito de serviço, nem ao conceito de produto. Esse é o caso das instituições bancárias que, mesmo com previsão expressa de aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor às suas relações, propuseram ação direta de inconstitucionalidade, com vistas a declarar inconstitucional o art. 3°, § 2°. Produto é defi nido pela Lei nº 8078/90 como bem móvel ou imóvel, material ou imaterial, de modo que é aplicável o Código de Defesa do Consumidor a contratos imobiliários e a eles conexos – fi nanciamento ou empréstimos para a aquisição de imóveis. Nesses contratos, aplicam-se as normas do Código Civil quanto às soleni- dades, às regras de transmissão da propriedade e as concernentes ao direito das coisas ligado ao conjunto normativo do Código de Defesa do Consumidor. Os princípios da Lei nº 8078/90 e os direitos básicos do consumidor O direito do consumidor é a realização de um direito fundamental de prote- ção do Estado, conforme art. 5°, XXXII da CF/88. Os sete primeiros artigos da Lei nº 8078/90 refl etem os princípios constitucionais de proteção ao consumidor, razão pela sua compreensão pelos intérpretes é crucial. DIAGRAMA 3. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO CDC Dignidade, proteção à vida, saúde e segurança Liberdade Dever governamental Vulnerabilidade Transparência e informação Boa-fé Acesso à justiça Dignidade A dignidade humana é valor supremo da ordem jurídica, preenchido des- de o início da vida porque todos os seres humanos têm direito à dignidade. Seu conceito é difícil, mas não resiste ao confronto com as violações, momento DIREITO DO CONSUMIDOR 23 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 23 15/12/2020 12:01:24 em que se torna clara sua ausência. Adignidade revela ainda que os seres hu- manos não podem ser coisificados, estando acima da mera precificação das coisas. É possível a substituição de uma coisa por outra, mas a dignidade não admite equivalentes. O art. 4° é considerado norma-objetivo e é a norma guia de interpretação de todo o sistema de defesa do consumidor, de maneira que a tutela dos inte- resses dos consumidores é uma das faces da defesa da dignidade humana. A dignidade interage com os direitos da personalidade e sua violação configura os chamados danos extrapatrimoniais. Proteção à vida, saúde e segurança Atrelados ao princípio da dignidade, os consumidores têm o direito de não se- rem expostos a perigos representados por práticas condenáveis no fornecimen- to de serviços e produtos que ameacem sua incolumidade física. Decorre desse direito a obrigatoriedade dos fornecedores de retirarem do mercado quaisquer produtos ou serviços que coloquem os consumidores e terceiros sob algum ris- co, independente do direito à reparação por eventuais danos causados. O sistema do Código de Defesa do Consumidor tem como base a respon- sabilidade dos fornecedores, contratual e extracontratual, na teoria da quali- dade. Isto significa que a lei impõe aos fornecedores um dever de qualidade dos produtos e serviços que prestam. No caso de descumprimento do dever, surgem os efeitos contratuais do inadimplemento ou do ônus de suportar os efeitos da garantia por vício e os efeitos extracontratuais da obrigação de subs- tituição do bem viciado e a reparação dos danos causados pelos produtos ou serviços defeituosos. O sistema do Código de Defesa do Consumidor exige a qualidade-segurança e a qualidade-adequação, previstos nos artigos 12 a 17 no primeiro caso, e nos artigos 18 e seguintes no segundo. Vulnerabilidade A vulnerabilidade é descrita como o lado fraco, que pode ser atacado ou pre- judicado, tanto que o Código de Defesa do Consumidor reconhece o desequilí- brio nas relações entre o consumidor e o fornecedor. Nas sociedades de consu- mo, é difícil afastar a posição desfavorável do consumidor, ainda mais quando se consideram as revoluções nas relações jurídicas e comerciais nos últimos anos. É uma qualidade intrínseca, ingênita, peculiar, imanente e indissolúvel de to- dos aqueles que se colocam na posição de consumidor, como rememorado na DIREITO DO CONSUMIDOR 24 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 24 15/12/2020 12:01:24 página 49 do livro Difusos e coletivos: direito do consumidor, de autoria de Giancoli e Araújo Júnior e publicado em 2012. As desigualdades não acham respostas efi- cientes nos sistemas jurídicos de origem liberal porque os códigos se estrutura- ram baseados em uma noção de paridade inexistente no mundo atual. A sociedade de consumo não reconhece o poder de barganha entre as partes negociais, cada vez mais escasso e raro, mesmo nas relações obrigacionais e que a doutrina identifique diferentes tipos de vulnerabilidade. A vulnerabilidade técni- ca tem lugar quando o consumidor não possui conhecimentos específicos sobre o produto e serviço que adquire, seja no tocante às características ou à utilização. O termo “técnico” está relacionado aos conhecimentos aprofundados sobre um determinado assunto, objeto ou relação, que estão sob o poder do fornece- dor, que detém o monopólio dos conhecimentos e dos processos de produção. Basta refletir sobre o nível de conhecimento exigido nos casos de defeitos de produtos ou serviços que se percebe o consumidor médio não tem como avaliar o que adquire nem ter o mesmo conhecimento do fabricante, nos casos de vícios. A vulnerabilidade jurídica, em contrapartida, resulta da falta de informação do consumidor a respeito de seus direitos, da falta de assistência jurídica, da dificul- dade de acesso à Justiça, da impossibilidade de aguardar o desfecho judicial de uma demanda, ou mesmo da deturpação de princípios processuais legítimos. Ela ocorre não apenas na fase processual, mas também nas pré e pós-processuais. É possível observar a vulnerabilidade política ou legislativa decorrente da fraqueza política do consumidor no cenário brasileiro. A essas, ainda, se acrescentam a vulnerabilidade fática ou socioeconômica, consequência do jul- gamento de que o consumidor é “o elo mais fraco da corrente”, posto que o fornecedor está em posição de supremacia e é o detentor do poder econômico. DIAGRAMA 4. DIFERENCIAÇÃO ENTRE VULNERABILIDADE E HIPOSSUFICIÊNCIA Vulnerabilidade Hipossuficiência DIREITO DO CONSUMIDOR 25 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 25 15/12/2020 12:01:24 Não se confundem os conceitos de vulnerabilidade e hipossuficiência. A ex- pressão consumidor vulnerável é pleonasmo, isso porque, como condição intrín- seca, não se pode imaginar consumidor desprovido de vulnerabilidade ao passo que a hipossuficiência é conceito fático e não jurídico fundado em disparidade ou discrepância atrelada ao caso concreto. Pode ser técnica pelo desconhecimento do produto ou serviço, mas fática à luz da situação socioeconômica do consumidor frente ao fornecedor. É preciso ter cuidado para não conceituar a hipossuficiência como pobreza ou ausência de recursos, como é de esperar na hipossuficiência processual. No campo consumerista, é mais ampla e reconhecida caso a caso. Transparência e informação A velocidade e o volume da informação característicos da mass consumption so- ciety são sem precedentes na história. A tecnologia a serviço da sedução de consu- midores atrai a um ciclo de consumo de produtos e serviços, por vezes, desneces- sários e fruto de ilusões. A informação, a despeito de sua abundância, não alcança de maneira uniforme as pessoas porque em poder de uma parcela de indivíduos, no âmbito jurídico é composta pelo dever de informar e o direito de ser informado. O dever de informar está relacionado com os fornecedores de produtos e serviços, da mesma forma que o direito do consumidor é ser informado. Para cumprir o dever imposto, a informação precisa ser adequada e compatível com os riscos do produto ou serviço e o seu destinatário: suficiente, completa, inte- gral, verdadeira e real. O consumidor precisa ter o conhecimento necessário para o uso satisfatório dos produtos e serviços que adquire. Se há perigos, o consumidor deve receber as instruções adequadas para evitá-los e ser informado a fim de que o dever de informação repercuta sobre todo o percurso contratual, com transparência e protagonismo no momento de conclusão do contrato, como destrinchado por Aparicio a partir da página 50 de seu livro Contratos: parte general, de 2016. Apenas a manifestação de “vontade qualificada”, segundo descrito na pá- gina 84, por Cavalieri Filho, é capaz de operar os efeitos vinculantes ao consu- midor. A informação adequada e clara sobre os produtos e serviços constitui um direito básico do consumidor, incluindo, por força da Lei 12.741/12, o deta- lhamento dos impostos pagos pelos consumidores. Em respeito ao Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), as informações prestadas aos consumi- dores devem ser acessíveis às pessoas com deficiência. DIREITO DO CONSUMIDOR 26 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 26 15/12/2020 12:01:24 O comportamento proativo do fornecedor também é exigível e a informação deve atentar aos graus previstos, que vão desde o dever de esclarecer, passa pelo de aconselhar e pode chegar ao de advertir. É o que se depreende da leitura do texto legal, conforme previsto no inciso III, do art. 6°, e dos arts. 8° e 9° da Lei nº 8078/90. O dever de informar está presente tanto nas relações individualizadas, em qualquer uma das fases, seja durante as tratativas, na oferta e no contrato, quanto nas rela- ções com pessoas indeterminadas, em que a publicidade é conceito chave. A transparência está ligada ao princípio da boa-fé e não importa apenas ao dever negativo, mas a uma série de deveres procedimentais a serem cum- pridos pelos fornecedoresde produtos e serviços. Nessa dimensão, a trans- parência se coliga à informação a ser prestada ao consumidor. Com vistas à valorização da transparência, o Código de Defesa do Consumidor tem regime próprio quanto aos meios de propagação da informação. O objetivo é assegurar que “a comunicação do fornecedor e a do produto ou serviço se façam de acordo com regras preestabelecidas, adequadas a ditames éticos e jurídicos”, como apontado na página 47 do livro Manual de direito do con- sumidor: direito material e processual, publicado em 2016 e escrito por Tartuce e Neves. Muitas relações contratuais têm como base uma publicidade, que se tor- na assim parte importante para a concretização desse princípio, dela derivando a proteção contra a publicidade enganosa ou abusiva, razão pela qual o art. 30 da Lei nº 8078/90 determina que o meio da oferta vincula o conteúdo do contrato. Liberdade de contratar e liberdade contratual A liberdade de contratar e a liberdade contratual são manifestações da au- tonomia privada. A liberdade de contratar é a possibilidade de um indivíduo realizar ou não determinado contrato, e a liberdade de escolha da parte contrá- ria integra esse conceito. A liberdade contratual está na fixação ou modelação do conteúdo contratual e as situações descritas nessas dimensões são sucessivas. Em primeiro lugar, figura a liberdade de contratar e da escolha da parte contrária, para passar à escolha do conteúdo contratual desejado. Os contratos são essenciais para a manutenção da ordem e da vida na sociedade contemporânea. A liberdade de contratar é garantida aos cidadãos, mas, apesar da garantia, a legislação impõe algumas DIREITO DO CONSUMIDOR 27 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 27 15/12/2020 12:01:24 restrições ao seu exercício. Em geral, os contratos modernos, em especial os contratos de consumo, são classificados como de adesão. Eles devem, portan- to, ser analisados com maior moderação tendo em vista que suas cláusulas são estabelecidas unilateralmente, podendo conter inúmeras previsões considera- das como cláusulas abusivas pelo Código de Defesa do Consumidor. O conceito de contrato de adesão está disposto no art. 54 da Lei nº 8078/90. A autonomia da vontade ditava as regras dos pactos realizados e seus dis- positivos tinham força de lei entre as partes. Com os contratos de adesão, ou contratos de massa, não há mais discussões acerca do conteúdo das cláusu- las contratuais. A relativização do pacta sunt servanda decorre da consideração de que outros requisitos para a formação do contrato estejam presentes, tais como a livre manifestação de vontade, a boa-fé objetiva, a justiça e outros. Os contratos, quando apresentam cláusulas abusivas, não se enquadram nos preceitos do pacta sunt servanda. A preocupação do legislador em manter o equilíbrio nas relações de consumo justifica a repressão aberta às cláusulas abusivas como forma de intervenção do Estado, com o objetivo de controlar o poder econômico e evitar o desequilíbrio contratual. Do dever governamental Transcorre da necessidade de atuação do Estado na proteção ao consumi- dor. Como visto, a Constituição de 1988 consagrou o direito do consumidor como fundamental, fruto de uma nova concepção de Estado, afastada da con- cepção liberal em que o papel do Estado se limitava a árbitro de conflitos in- dividuais. Dentre os princípios da ordem econômica, estão a defesa do consu- midor, princípio constitucional impositivo com dupla função: a de instrumento como objetivo de assegurar a todos uma existência digna e a de diretriz, ou norma-objetivo, com caráter constitucional conformador. A defesa do consumidor tem aspectos da modernidade, a ideologia do con- sumo, imposta pela regra ”acumulai”, que impõe o “consumo” sob a proteção jurídica. É importante refletir que todos, inclusive o próprio Estado, são, a rigor, consumidores, o que torna a dialética produtor versus consumidor mais com- plexa do que a dialética capital versus trabalho. Muitos consumidores se inserem nos mecanismos de produção, direta ou indiretamente, razão pela qual, em um conflito, a distinção entre “fracos” e “po- derosos” como que em campos opostos não é nítida. Os mercados têm forma DIREITO DO CONSUMIDOR 28 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 28 15/12/2020 12:01:24 assimétrica, e o consumidor se vê numa posição de debilidade e subordinação estrutural em relação ao produtor do bem ou fornecedor do serviço. É forçoso apontar que as medidas voltadas à defesa do consumidor não po- dem ser taxadas como meras expressões da ordem pública. Em verdade, elas são impetradas com base na implementação de normatividade e medidas in- terventivas. O art. 4° da Lei nº 8078/90 descreve como a ação governamental na defesa do consumidor é feita. O Estado pode atuar por iniciativa direta, por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas, pela pre- sença no mercado de consumo, ou pela garantia de produtos e serviços com adequados padrões de qualidade, segurança, durabilidade e desempenho. O art. 5° menciona que a atuação do Estado é pela manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita do consumidor carente, pela instituição de promotorias de defesa do consumidor no âmbito do Ministério Público, pela criação de delega- cias de polícia especializadas no atendimento de consumidores vítimas de infra- ções penais de consumo, pela criação de juizados especiais de pequenas causas ou varas especializadas para a solução de litígios de consumo e pela concessão de estímulos à criação e desenvolvimento de associações de defesa do consumidor. Figura 1. Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. Fonte: BRASIL, 2014. (Adaptado). CURIOSIDADE O Sistema Nacional de Defesa do Consumidor – SNDC é regulamentado pelo Decreto Presidencial nº 2181, de 20 de março de 1997, e congrega PROCONs, Ministério Público, Defensoria Pública, Delegacias, Juizados Especiais Cíveis e organizações civis de defesa do consumidor, que atuam de forma articulada e integrada com a Secretaria Nacio- nal do Consumidor (Senacon) em reuniões trimestrais. DIREITO DO CONSUMIDOR 29 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 29 15/12/2020 12:03:35 A intervenção do Estado é sentida quando da limitação da eficácia jurídica da declaração de vontade do consumidor, nos casos em que, considerando sua vulnerabilidade, busca evitar o seu comprometimento com normas contratuais prejudiciais, ou que não foram devidamente informadas. A atuação de insti- tuições como o Ministério Público e de órgãos administrativos de defesa dos interesses dos consumidores para sua proteção é também dever fundamental previsto no texto constitucional. A boa-fé objetiva O termo boa-fé não é recente na ordem jurídica e aparece já em 1850 no Có- digo Comercial, como cânone hermenêutico nos contratos com feições de letra morta e em outros dispositivos do Código Civil de 1916. O desenvolvimento dog- mático da boa-fé se deve a autores como Couto e Silva, para quem a obrigação é um processo que se desenvolve no tempo e, em sucessivas fases, sendo ima- nente nessas relações de deveres secundários ou anexos à obrigação principal. A boa-fé objetiva assume o papel de fonte autônoma de direitos e obri- gações, transformando a relação obrigacional e apresentando os elementos cooperativos necessários ao cumprimento da obrigação. Sua moderna signi- ficação passa a ser conhecida com o Código de Defesa do Consumidor, assu- mindo a feição de valores éticos que “estão a base da sociedade organizada e desempenham função de sistematização da ordem jurídica”, conforme escrito por Giancoli e Araújo Júnior. As intenções subjetivas do sujeito são desvinculadas e indicam um compor- tamento a ser seguido, adequado a padrões de lealdade, ética, honestidade e colaboração exigidos em quaisquer relações de consumo. Ela otimiza o compor- tamento contratual ao impor os deveres de cooperação e de proteção dos recí- procos interesses– os deveres instrumentais de conduta – e ao atuar como câ- none de interpretação e integração dos contratos. O dever de lealdade é o mais imediato dos deveres criados pela boa-fé objetiva. O art. 4° da Lei nº 8078/90 adota, de maneira implícita, a cláusula geral da boa-fé em suas três funções. Em razão de sua função criadora ou integrativa, ela é fonte de novos deve- res anexos ou acessórios. O dever de cooperar, de cuidado, de lealdade e de informar, conforme se depreende da leitura do art. 422 do Código Civil, deve estar presente em todas as relações contratuais. A boa-fé tem ainda função interpretativa, em que funciona como critério hermenêutico ou interpretativo DIREITO DO CONSUMIDOR 30 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 30 15/12/2020 12:03:35 destinado ao juiz. Por fi m, a função de controle, que limita o exercício dos direi- tos subjetivos ao reduzir a liberdade dos parceiros contratuais, defi nir algumas condutas como abusivas ou controlar a transferência dos riscos dos profi ssio- nais e liberar o consumidor ante a falta de razoabilidade de outra conduta, em conformidade com o disposto no art. 51, Inciso IV da Lei nº 8078/90. DIAGRAMA 5. FLUXOGRAMA SOBRE A BOA-FÉ OBJETIVA Boa-fé objetiva Função integrativa Função de controle Função interpretativa Acesso à Justiça Não basta reconhecer os direitos subjetivos aos consumidores. É importante assegurar a efetividade da proteção. Esta é a necessidade de possibili- tar uma real defesa dos direitos previstos no Código consubstanciada no art. 6°, VII da Lei nº 8078/90. O Estado deve assegurar o acesso à justiça por uma estrutura de órgãos estatais destinados a esse fi m e observar os demais deveres a ele impostos pela norma. Nas relações jurídicas de consumo, a Constituição consagra o direito funda- mental de acesso à justiça em seu art. 5°, Inciso XXXV. Práticas abusivas As práticas abusivas são interpretadas de maneira genérica para que nada escape, englobando as condutas que afrontem a principiologia e a fi nalidade do sistema protetivo do Código de Defesa do Consumidor, bem como aquelas DIREITO DO CONSUMIDOR 31 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 31 15/12/2020 12:03:35 que se enquadrem na figura do abuso de direito disposto no art. 187 do Código Civil de 2002, o que é lembrado na página 88 do livro de Cavalieri Filho. É pre- ciso ressaltar que os comportamentos, pela sua simples existência no mundo das coisas, são considerados como atos ilícitos. Portanto, é dispensada a ne- cessidade de lesão ao consumidor para sua caracterização. As práticas abusivas são uma desconformidade com os padrões de boa con- duta em relação ao consumidor. A concorrência desleal, mesmo que tenha re- flexos indiretos na proteção ao consumidor, não é considerada prática abusiva pelo Código de Defesa do Consumidor, que apenas considera aquelas que, de modo direto, afetam o bem-estar do consumidor, segundo exposto nas pági- nas 515 e 516 do livro de Grinover. O Código de Defesa do Consumidor de forma ilustrativa descreve, nos ar- tigos 39, 40 e 41, algumas dessas práticas abusivas que podem ter natureza contratual ou extracontratual, antes, durante o processo de formação, na exe- cução do contrato ou mesmo após o seu término. Contudo, Cavalieri Filho sa- lienta que tal entendimento está pacificado após alteração no art. 39 da Lei nº 8078/90 pela Lei 8.884/98, que incluiu na redação do artigo em comento a expressão “dentre outras”. As práticas abusivas são objetos de sanções administrativas, de acordo com o disposto no Decreto 2181/97, que organiza o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor e estabelece as normas gerais para aplicação dessas sanções de natureza administrativa. A publicidade é a forma para chamar o consumidor a participar do mercado de consumo e acompanhar a evolução da tecnologia. Figura 2. Ilustração do processo de compra, com a publicidade no início do processo. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 28/09/2020. (Adaptado). Atenção Interesse Desejo Ação DIREITO DO CONSUMIDOR 32 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 32 15/12/2020 12:03:36 O Código de Defesa do Consumidor disciplina a publicidade com princípios norteadores que visam evitar a exposição do consumidor a lesões. O princípio da identificação da publicidade está previsto no art. 36, caput, da Lei nº 8078/90, e seu objetivo é garantir que o consumidor saiba ser alvo de um evento publici- tário. Toda publicidade deve ser notória e, dentre os princípios da publicidade, estão os princípios da vinculação contratual da publicidade, da transparência da fundamentação, da correção do desvio publicitário e da boa-fé objetiva que, mesmo não sendo específico da publicidade, norteia todo o sistema de defesa do consumidor. Proteção contra publicidade enganosa ou abusiva O princípio da veracidade da publicidade é consagrado pela proibição da veiculação de informações não verdadeiras ou que levem o consumidor a erro, conforme disposto no art. 37, § 1º, da Lei nº 8078/90. Ligado ao princípio da ve- racidade, está o princípio da não abusividade da publicidade, já que, enquanto a propaganda enganosa não é verdadeira e induz o consumidor a erro, a pro- paganda abusiva viola os valores da sociedade, como a moral e os costumes, conforme o art. 37, §2°. Proibição de cláusulas abusivas Nos termos do art. 51, as cláusulas abusivas são nulas de pleno direito. A equidade presente no art. 4° impõe o equilíbrio nas relações entre consumido- res e fornecedores, com uma função integradora e corretiva. Em sua primeira função, ela é usada para que o juiz use a equidade para solucionar o caso, na presença de lacuna na lei. Nesse caso, a solução do caso corresponde a uma ideia de justiça na consciência média. Já a função corretiva permite uma rela- ção de igualdade e equilíbrio entre as partes Princípio da conservação Não se nega a importância da relação contratual. Em alguns casos, é pos- sível conservá-lo mesmo com vícios, defeitos, ineficácia, descumprimento ou alteração econômica que prejudique o contrato estabelecido. Parte da dou- trina identifica o princípio da conservação como uma maneira de concretizar a função social do contrato, enquanto outros o correlacionam ao princípio da boa-fé e seus deveres correlatos. A eficácia atribuída a certos contratos, apesar das irregularidades, demons- tra que o direito procura evitar a declaração de nulidade quando possível. Não DIREITO DO CONSUMIDOR 33 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 33 15/12/2020 12:03:36 se ignora o respeito aos limites impostos à autonomia privada, porém, se apro- veita o negócio jurídico celebrado e se atenta à intenção negocial manifestada pelas partes. Assim, o princípio da conservação é a consequência necessária do fato do ordenamento jurídico, pois, ao admitir a categoria de negócio jurí- dico, está implicitamente reconhecendo a utilidade de cada negócio concreto, segundo Azevedo escreveu na página 65 do livro Negócio jurídico: existência, validade e eficácia, de 2000. A intenção manifestada pelas partes é elemento central, todavia, deve estar aliada à ideia de que a manutenção do vínculo contratual é socialmente útil e atende aos critérios de função social do contrato, bem como aos princípios e garantias constitucionais correlatos. A aplicação prática desse princípio per- passa por tornar mais difícil a anulação do negócio ou até a própria adaptação e revisão do contrato. A intepretação clássica do princípio da conservação é como uma constru- ção interpretativa, vista como alternativa à anulação do negócio, como quando os contratantes confirmam um negócio jurídico expressa ou tacitamente anu- lável, a chamada ratificação. Outra hipótese é a redução, em que a nulidade ou anulabilidade de parte do negócio jurídico não desvirtua as demais. A garantia, descrita no art. 6°, inciso V, da Lei nº 8078/90, inclui o princípio da conservação do contrato, ainda que implícito. É o que se depreende de uma interpretaçãosistemática do Código, posto que há permissão, no art. 51, §2°, para a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações des- proporcionais e do direito de revisão de cláusulas em virtude de fatos superve- nientes que as tornem onerosas. Ambas as previsões corroboram o intuito na conservação do negócio jurídico firmado entre as partes. Outro ponto importante é a reflexão sobre os termos escolhidos pelo legis- lador. A opção pela palavra “modificar”, no inciso V, art. 6°, parece adequada à ideia de “salvar”, “sanar”, reconstruir o que pode ser sanado. A desproporção do contrato não é presumida de maneira absoluta como abusiva. É, porém, de acordo com registrado na página 1052 do livro de Marques: imperativamente e presumidamente controlável pelo magistra- do, que a pedido do consumidor ou de um de seus legitimados, e a critério do magistrado, se houver exagero ou vantagem exa- gerada, a controlará (MARQUES, 2016). DIREITO DO CONSUMIDOR 34 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 34 15/12/2020 12:03:36 A declaração de nulidade guarda conexão ao direito básico da efetiva e inte- gral reparação dos danos na sociedade de consumo. Modificação das cláusulas com prestações desproporcionais A modificação das cláusulas previstas no art. 6°, Inciso V, é uma exceção ao sistema de nulidade absoluta de cláusulas e permite ao juiz a modificação ou revisão das cláusulas que estabeleçam prestações desproporcionais ou que sejam excessivamente onerosas em razão de fatos supervenientes nos negó- cios jurídicos a pedido do consumidor. Ao Poder Judiciário é facultada a modificação de cláusulas, inclusive as alu- sivas aos preços ou qualquer outra que se caracterize pela desproporcionali- dade, isto é, que acarretem algum desequilíbrio de direitos e obrigações entre as partes do negócio jurídico. Essa modificação significa uma interferência na vontade das partes pelo Estado com o objetivo de impor um equilíbrio contra- tual, de acordo com a página 1053 do livro de Marques. Modificar uma cláusula contratual por considerá-la abusiva ou substituir o seu conteúdo pelo previsto no texto legal é integrá-lo aos princípios da boa- -fé e equilíbrio contratual. É interessante ressaltar que o Código de Defesa do Consumidor permite a alteração mesmo nas cláusulas relacionadas ao preço. A sanção da nulidade absoluta em relação ao preço torna necessário que o juiz atue de maneira excepcional, porque não há nenhuma regra supletiva apta a preencher essa lacuna. A revisão do preço se dá em razão de fato superveniente, quando uma cláu- sula que era equitativa se torna onerosa. A revisão é unilateral porque é admi- tida somente para o consumidor, tendo em vista que está disposta em artigo que disciplina os direitos básicos do consumidor. O art. 6°, inciso V, da Lei nº 8078/90, não exige que o fato superveniente seja imprevisível ou irresistível, exigindo somente a quebra da base objetiva do negócio jurídico. Ou seja, conforme relatado por Marques, “a quebra de seu equilíbrio intrínseco, a destruição da relação de equi- valência, o desparecimento do fim social do contra- to”. Não se trata da cláusula rebus sic stantibus, cujo pressuposto consiste no fato de que as partes não tinham condições de prever, no momento da assi- natura do negócio jurídico, os acontecimentos que DIREITO DO CONSUMIDOR 35 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 35 15/12/2020 12:03:36 causaram o desequilíbrio. A alteração do contrato no futuro tem como base a impossibilidade de, no passado, prever tais acontecimentos. As características da relação de consumo e de contratos demandam a ine- xigibilidade de que o fato superveniente é imprevisível ou irresistível. O for- necedor assume o risco de seu negócio e detém o conhecimento técnico para ofertá-lo ao mercado. Nas páginas 131 e 132 de seu livro, Nunes acrescenta que os contratos nas relações de consumo são de adesão. A aplicação da teoria da quebra da base objetiva do negócio foi e é objeto de muitas demandas judiciais. Em 1999, com a liberação do câmbio, muitos contratos antes corrigidos por moeda estrangeira sofreram acréscimos que tornaram as prestações onerosas aos consumidores, acarretando na necessi- dade de revisão. Os contratos bancários são outro exemplo em que a revisão das cláusulas contratuais passa pelo crivo judicial. Prevenção e reparação de danos materiais e morais O Código de Defesa do Consumidor prevê como regra fundamental a repa- ração integral dos danos, assegurando aos consumidores a efetiva prevenção e reparação dos danos suportados, sejam materiais, morais, individuais ou co- letivos. A efetividade do Código de Defesa do Consumidor consubstanciada no art. 6°, inciso VI, encontra em primeiro lugar a prevenção. A prevenção aos danos é realizada por políticas de conscientização e me- didas para evitar propagação de lesões e prejuízos aos consumidores, se ini- ciando com atitudes próprias dos fornecedores, como o recall. O poder público exerce papel fundamental na prevenção aos danos, conforme demonstra o art. 55 da Lei nº 8078/90. A prevenção depende também de educação, orientação e informação aos consumidores e fornecedores. Também podem ter esse papel a criação de de- veres aos fornecedores, a restrição à autonomia da vontade ou a intervenção, sempre que necessária, para restabelecer o equilíbrio da relação jurídica, sem esquecer da reponsabilidade dos fornecedores pelo descumprimento dos pre- ceitos legais. A prevenção é mais eficaz se realizada através de tutela adminis- trativa, mas as medidas judiciais não estão de todo excluídas. A garantia da plena reparação dos danos perpassa pela impossibilidade de indenização tarifada. A rigor, o enunciado n. 550 do CJF/STJ, aprovado na IV Jornada de Direito Civil em 2013, prevê que “a quantificação da reparação dos DIREITO DO CONSUMIDOR 36 SER_DIR_DIRCONSU_UNID1.indd 36 15/12/2020 12:03:36 danos extrapatrimoniais não deve estar sujeita a tabelamento ou a valores fi- xos”. Cláusulas contratuais que estabeleçam limites para as indenizações por danos morais ou materiais são consideradas nulas, como determina o art. 6°, VI, bem como o art. 51, I, da Lei nº 8078/90. A reparação pelos danos materiais é tarefa relativamente fácil, de acordo com a página 92 do livro de Cavalieri Filho. Basta a comprovação da ocorrência e extensão, o que não se pode afirmar quanto à reparação pelos danos morais. Porém, o Código de Defesa do Consumidor, no intuito de tornar seus precei- tos eficazes, dota os consumidores, sobretudo os organizados, com os instru- mentos processuais modernos para que se dê a prevenção e a reparação dos danos, segundo Grinover. A existência das tutelas dos chamados “interesses difusos” dos consumidores, dos “interesses coletivos” propriamente ditos e dos “individuais homogêneos de origem comum” são um exemplo dessa moderni- dade e preocupação com a eficácia. Adequada e eficaz prestação de serviços públicos O poder público, quando produtor de bens ou prestador de serviços remu- nerados – não mediante atividade tributária – por tarifas ou preços públicos, está sob o âmbito de incidência do Código de Defesa do Consumidor, conforme determina o art. 22 da Lei nº 8078/90. O regime de concessão ou permissão, previstos no art. 175 da Constituição, é disciplinado pela Lei 8987/95, que em seu capítulo II trata dos “serviços adequados”. O art. 6° da Lei 8987/95 estabelece que toda a concessão ou permissão pres- supõe o atendimento adequado do usuário e caracteriza o serviço adequado como aquele que satisfaça as condições de regularidade, continuidade, eficiên- cia, segurança, atualidade, generalidade, cortesia na sua prestação e modicida- de das tarifas. A atualidade é a modernidade das técnicas, do equipamento e das instalações, sua conservação, bem como a melhoria e expansão do serviço. A lei traz ainda a previsão de que não se caracteriza como descontinuidade do serviço a interrupção