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DIREITO DO 
CONSUMIDOR
DIREITO DO 
CONSUMIDOR
Direito do Consum
idor
Mavili de Cassia da Silva Moura Mavili de Cassia da Silva Moura 
GRUPO SER EDUCACIONAL
gente criando o futuro
O Código de Defesa do Consumidor, sancionado pela Lei n° 8.078, coroa um traba-
lho legislativo iniciado antes da promulgação da Constituição de 1988. Juristas de re-
nome, como Ada Pellegrini Grinover, coordenadora geral, participaram da comissão 
criada para apresentar o anteprojeto de Código de Defesa do Consumidor previsto 
pelos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte.
Após a divulgação, seguida de debates, o anteprojeto foi publicado no Diário O� cial 
em 04 de janeiro de 1989. In� uenciado pelo Projet de Code de la Consommation, com 
os contributos de outros modelos legislativos estrangeiros vigentes, tem estrutura, 
conteúdo moderno e é um marco por suas inovações e resgate da cidadania.
Fruto dos avanços no processo de industrialização que revolucionou o consumo, hoje 
é algo banal em nossa sociedade, embora permeado de desa� os exacerbados pela 
evolução da tecnologia. A � exibilização do mercado de trabalho no século XXI é um 
dos fatores para a proliferação dos novos pobres, os excluídos do consumo.
O Código busca compatibilizar as necessidades dos consumidores e do respeito à dig-
nidade, saúde e segurança com o desenvolvimento econômico e tecnológico. O estu-
do constante das transformações do mercado de consumo e a adaptação das regras, 
frente ao espaço para evolução do texto pela interpretação, são fundamentais aos 
operadores do direito.
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© Ser Educacional 2020
Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro 
Recife-PE – CEP 50100-160
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Diretor-presidente
Diretoria Executiva de Ensino
Diretoria Executiva de Serviços Corporativos
Diretoria de Ensino a Distância
Autoria
Projeto Gráfico e Capa
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Jânyo Diniz 
Adriano Azevedo
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Mavili de Cassia da Silva Moura 
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DADOS DO FORNECEDOR
Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, 
Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão.
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ASSISTA
Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple-
mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado.
CITANDO
Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa 
relevante para o estudo do conteúdo abordado.
CONTEXTUALIZANDO
Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato;
demonstra-se a situação histórica do assunto.
CURIOSIDADE
Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto 
tratado.
DICA
Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma 
informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado.
EXEMPLIFICANDO
Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto.
EXPLICANDO
Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da 
área de conhecimento trabalhada.
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Unidade 1 - Teoria Geral do Direito do Consumidor
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 12
Pressupostos fundamentais ............................................................................................... 13
A relação jurídica de consumo ......................................................................................... 17
Os princípios da Lei nº 8078/90 e os direitos básicos do consumidor ........................ 23
Práticas abusivas ................................................................................................................. 31
Sintetizando ........................................................................................................................... 39
Referências bibliográficas ................................................................................................. 40
Sumário
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Sumário
Unidade 2 - Teoria Geral do Direito do Consumidor
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 43
Qualidade e segurança dos produtos e serviços .......................................................... 44
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – o recall ..................................... 47
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – comunicação do fato às 
autoridades competentes e introdução no mercado de divulgação publicitária ........49
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – indenização ............................ 50
Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor: vício e defeito .......... 51
A teoria do risco do negócio: a base da responsabilidade objetiva ....................... 52
Vício e defeito dos produtos: distinção ....................................................................... 54
Os vícios dos produtos ................................................................................................... 55
Os vícios dos serviços .................................................................................................... 58
O fato do produto: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade .. 59
O fato de serviço: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade ... 61
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – 
as excludentes de responsabilidade............................................................................ 62
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – 
a regra da responsabilidade solidária ......................................................................... 64
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito 
– a responsabilidade dos profissionais liberais: culpa ............................................. 65
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – 
decadência e prescrição e os prazos para reclamar e para propor ação judicial..........66
Sintetizando ........................................................................................................................... 69
Referências bibliográficas ................................................................................................. 70
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Sumário
Unidade 3 - A publicidade, os bancos de dados e cadastros e a proteção contratual
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 73
Da publicidade ...................................................................................................................... 74
Da publicidade/da oferta: princípio da vinculação contratual ................................ 75
A publicidade clandestina ............................................................................................. 78
A publicidade enganosa ................................................................................................. 79
A publicidade abusiva .................................................................................................... 81
Princípios da publicidade ............................................................................................... 82
A prova da verdade e correção do desvio publicitário ............................................. 84
Dos bancosem situação de emergência, após prévio aviso nos ca-
sos de razões de ordem técnica ou de segurança das instalações ou por inadim-
plência do usuário, considerado o interesse da coletividade. O capítulo III da Lei 
8987/95 orienta os direitos e deveres dos usuários, dentre os quais destaca-se 
o de receber serviço adequado. A eficiência na prestação do serviço não é um 
adicional, mas sim um dever.
DIREITO DO CONSUMIDOR 37
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Além de adequado aos fins que se destina, deve ser de fato eficiente e fun-
cionar a contento. A doutrina e a jurisprudência têm enfrentado o tema de 
corte de fornecimento de serviços essenciais em caso de inadimplência com 
alguma frequência. O Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 
1.270.339, entendeu ser legítima a interrupção do fornecimento de energia elé-
trica por questões de ordem técnica, de segurança das instalações ou por falta 
de pagamento por parte do usuário, desde que o devido aviso prévio tenha 
sido realizado. A jurisprudência do Tribunal prevê três cenários para o corte de 
energia por falta de pagamento:
• O consumo regular, a simples mora do consumidor;
• A recuperação de consumo por responsabilidade atribuível à concessionária;
• A recuperação de consumo por responsabilidade atribuível ao consumi-
dor, fraude no medidor de energia. 
Em relação à última hipótese, o Superior Tribunal de Justiça veda o corte no 
fornecimento de energia se a fraude for detectada unilateralmente pela con-
cessionária, mas se o débito anterior decorrente da fraude for apurado, com o 
respeito ao contraditório e à ampla defesa, é possível a suspensão.
Responsabilidade solidária
O § único do art. 7° da Lei nº 8078/90 estabeleceu o princípio da solidarieda-
de legal quanto à responsabilidade pelos danos causados ao consumidor, que 
é de todos os partícipes pelos danos causados. A consequência prática dessa 
previsão legal é que o consumidor que sofre dano moral ou material pode es-
colher a quem acionar, se a um ou a todos. A solidariedade impõe a qualquer 
um dos responsáveis o pagamento pelo todo do dano.
A regra da responsabilidade solidária é objeto de disciplina ex-
pressa do Código de Defesa do Consumidor no art. 18, 
no caput do art. 19, nos § 1° e § 2° do art. 25, no § 
3° do art. 28 e ainda no art. 34, o que denota que 
a responsabilidade solidária, seja por vício ou por 
defeitos, sempre se dá no sistema do Código de 
Defesa do Consumidor.
DIREITO DO CONSUMIDOR 38
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Sintetizando
Nesta unidade, foram delimitados os pressupostos do direito do consu-
midor, sua relação com os princípios constitucionais e sua técnica legislativa 
moderna. O Código de Defesa do Consumidor é fruto de determinação consti-
tucional que lembra que as modernas sociedades de consumo são marcadas 
pela vulnerabilidade do consumidor e pelo desequilíbrio nas relações jurídicas 
de consumo. 
Foi possível analisar os conceitos de consumidor e fornecedores, bem como 
os de relação jurídica de consumo e seus objetos, com destaque aos serviços 
públicos. O Código de Defesa do Consumidor determina a interdependência 
entre esses atores, no sentido de que não existe consumidor sem fornecedor, 
nem fornecedor sem consumidor.
O Código não traz impedimentos para que as pessoas jurídicas sejam con-
sideradas consumidores, desde que atendam ao requisito de serem destinatá-
rias finais do produto ou serviço. O Código trata também dos entes desperso-
nalizados e de figuras como os consumidores equiparados.
Com atenção aos direitos básicos do consumidor, em especial a vulnerabili-
dade, característica intrínseca dos consumidores, que foi distinguida da hipos-
suficiência. Quanto aos direitos básicos, foram analisadas a transparência, a 
boa-fé objetiva, tão essencial ao equilíbrio das relações de consumo, e o acesso 
à justiça, bem como o dever governamental na proteção ao consumidor.
Por fim, se observaram algumas das práticas abusivas, com destaque a 
proteção à publicidade enganosa ou abusiva, ao princípio da conservação dos 
contratos, que se refletem na possibilidade de revisão dos negócios jurídicos, e 
a modificação dos contratos com efetiva reparação dos danos.
DIREITO DO CONSUMIDOR 39
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Referências bibliográficas
ALEXY, R. Teoria dos direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2006.
APARICIO, J. M. Contratos: parte general. Buenos Aires: Hammurabi, 2016.
AZEVEDO, A. J. Negócio jurídico: existência, validade e eficácia. 3 ed. São Paulo: 
Saraiva, 2000.
BOBBIO, N. Igualdade e liberdade. 2 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
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fesa do Consumidor – SNDC. Brasília, 28 nov. 2014. Disponível em: . Acesso em: 
28 set. 2020.
CANOTILHO, J. J. G. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7 ed. Lis-
boa: Livraria Almedina, 2003.
CAVALIERI FILHO, S. Programa de direito do consumidor. São Paulo: Atlas, 2008.
DINIZ, M. H. Compêndio de introdução à ciência do Direito. 21 ed. São Paulo: 
Saraiva, 2010.
DWORKIN, R. Taking rights seriously. Cambridge: Harvard University Press, 1978. 
GIANCOLI, B. P.; ARAÚJO JÚNIOR, M. A. Difusos e coletivos: direito do consu-
midor. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012.
GRINOVER, A. et. al. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado 
pelos autores do anteprojeto. 12 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
MARQUES, C. L. Contratos no código de defesa do consumidor: o novo regime 
das relações contratuais. 8 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016.
MEIRELLES, H. L. Direito administrativo brasileiro. 20 ed. São Paulo: Malhei-
ros, 1995.
NUNES, R. Curso de direito do consumidor, 12 ed. São Paulo: Saraiva Edu-
cação, 2018.
REALE, M. Lições preliminares de direito. 22 ed. São Paulo: Saraiva, 1995.
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Revista Latino-americana de Estudos Constitucionais, Belo Horizonte, v. 
1, jan./jun. 2003, pp. 607-630. Disponível em: . Acesso em: 
28 set. 2020. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 40
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SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (STJ). Questões sobre o fornecimento de 
energia elétrica na pauta do STJ. Brasília, DF, 13 out. 2019. Disponível em: 
. Aces-
so em: 28 set. 2020.
TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito mate-
rial e processual. 5 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016.
UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT (UNCTAD). 
United Nations Guidelines on Consumer Protection. Disponível em: . Acesso em: 28 set. 2020.
DIREITO DO CONSUMIDOR 41
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Unidade 2 - Teoria Geral do Direito do Consumidor
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 43
Qualidade e segurança dos produtos e serviços .......................................................... 44
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – o recall ..................................... 47
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – comunicação do fato às 
autoridades competentes e introdução no mercado de divulgação publicitária ........49
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – indenização ............................ 50
Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor: vício e defeito .......... 51
A teoriado risco do negócio: a base da responsabilidade objetiva ....................... 52
Vício e defeito dos produtos: distinção ....................................................................... 54
Os vícios dos produtos ................................................................................................... 55
Os vícios dos serviços .................................................................................................... 58
O fato do produto: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade .. 59
O fato de serviço: os acidentes de consumo/defeitos e sua responsabilidade ... 61
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – 
as excludentes de responsabilidade............................................................................ 62
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – 
a regra da responsabilidade solidária ......................................................................... 64
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito 
– a responsabilidade dos profissionais liberais: culpa ............................................. 65
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: vício e defeito – 
decadência e prescrição e os prazos para reclamar e para propor ação judicial..........66
Sintetizando ........................................................................................................................... 69
Referências bibliográficas ................................................................................................. 70
Sumário
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QUALIDADE E 
SEGURANÇA 
DOS PRODUTOS 
E SERVIÇOS E A 
RESPONSABILIDADE 
CIVIL
2
UNIDADE
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Objetivos da unidade
Tópicos de estudo
 Apresentar aspectos da qualidade e segurança dos produtos e serviços, 
com destaque para recall, comunicação do fato às autoridades competentes e 
indenização;
 Discutir os conceitos de responsabilidade civil no Código de Defesa do 
Consumidor, abordando a teoria do risco, a distinção entre os vícios e os 
defeitos e também os fatos do produto e do serviço;
 Abordar as excludentes de responsabilidade civil no Código de Defesa do 
Consumidor, a regra da responsabilidade solidária, a responsabilidade dos 
profissionais liberais fundada na culpa e a distinção entre a decadência e a 
prescrição com seus respectivos prazos.
 Qualidade e segurança dos 
produtos e serviços 
 Qualidade e segurança dos pro-
dutos e serviços – o recall
 Qualidade e segurança dos pro-
dutos e serviços – comunicação do 
fato às autoridades competentes e 
introdução no mercado de divulga-
ção publicitária
 Qualidade e segurança dos pro-
dutos e serviços – indenização
 Responsabilidade civil no 
código de defesa do consumidor: 
vício e defeito
 A teoria do risco do negócio: a 
base da responsabilidade objetiva
 Vício e defeito dos produtos: 
distinção
 Os vícios dos produtos
 Os vícios dos serviços
 O fato do produto: os acidentes de 
consumo/defeitos e sua responsabili-
dade
 O fato de serviço: os acidentes de 
consumo/defeitos e sua responsabili-
dade
 Responsabilidade civil no Código de 
Defesa do Consumidor: vício e defeito 
– as excludentes de responsabilidade
 Responsabilidade civil no Código de 
Defesa do Consumidor: vício e defeito 
– a regra da responsabilidade solidária
 Responsabilidade civil no Código de 
Defesa do Consumidor: vício e defeito 
– a responsabilidade dos profissionais 
liberais: culpa
 Responsabilidade civil no Código de 
Defesa do Consumidor: vício e defeito 
– decadência e prescrição e os prazos 
para reclamar e para propor ação 
judicial
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Qualidade e segurança dos produtos e serviços
O Código de Defesa do Consumi-
dor impõe qualidade aos produtos e 
serviços colocados no mercado pe-
los fornecedores; assim estabelece 
a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 
1990, nos artigos 8º a 17, naquilo que 
nomeamos qualidade-segurança, 
e, nos artigos 18 a 25, a qualidade-
-adequação (MARQUES; BENJAMIN; 
MIRAGEM, 2010, p. 402).
A opção do legislador foi a que-
bra do paradigma em termos de 
responsabilidade do fornecedor. A 
preocupação é criar critérios para a 
tutela do “bem mais valioso a ser preservado nas relações de consumo: 
a vida do consumidor” (GRINOVER et al., 2019, p. 295). Com o advento da 
produção e do consumo em massa, os acidentes de consumo tornaram-se 
mais comuns – estes ocorrem em decorrência do fornecimento de produ-
tos ou serviços nocivos à saúde do consumidor. 
Os fornecedores estão, na sistemática do Código de Defesa do Consumi-
dor, sujeitos a sanções civis, que envolvem a responsabilidade destes pelos 
danos causados aos consumidores em consequência da nocividade ou pe-
riculosidade dos produtos e serviços; a sanções administrativas, que envol-
vem a responsabilidade dos fornecedores perante a Administração Pública 
nos três níveis de governo, em virtude do descumprimento de normas legais 
e regulamentos; e a sanções penais, pela prática de ilícitos penais.
Em verdade, o código disciplina os critérios que indicam a nocividade 
ou a periculosidade de produtos e serviços colocados no mercado, ao mes-
mo tempo em que cria os deveres de informação para os fornecedores nos 
casos concretos. 
Há no Código de Defesa do Consumidor, portanto, uma teoria da qua-
lidade que suporta a noção de que o fornecedor tem que cumprir o dever 
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anexo de qualidade, ou seja, dá-se ao consumidor uma garantia implícita 
de segurança e de adequação conforme a confiança despertada. A prote-
ção da confiança que o consumidor deposita nos produtos e serviços e em 
suas marcas é o traço das novas relações sociais.
Mas precisamos distinguir os riscos à saúde e à segurança de produtos 
e serviços daqueles riscos qualificados como normais e previsíveis, estes 
devem ser tolerados pelos consumidores, desde que as informações este-
jam claras e precisas a esse respeito. Aquilo que entendemos como pericu-
losidade inerente, ou seja, indissociável do produto ou serviço fornecido, 
não se confunde com a periculosidade adquirida, que acontece durante o 
processo de consumo. A chamada periculosidade inerente não se relacio-
na com os defeitos.
Podemos notar que, conforme disciplina o §1º do artigo 8º da Lei nº 
8.078/1990, o fornecedor e o fabricante têm o dever de informar, mediante 
linguagem escrita, o que pode ser cumprido – por meios impressos que de-
vem acompanhar o produto. Caso os produtos sejam recondicionados, tal 
obrigatoriedade recairá sobre os comerciantes e prestadores de serviço, 
que poderão utilizar-se de quaisquer meios para cumprir o dever de infor-
mação. Se pelo lado dos fornecedores a obrigatoriedade é de informação, 
por parte dos consumidores temos a expectativa de uma informação de 
qualidade. 
A higiene dos produtos é preocupação disciplinada no §2º do artigo 8º, 
especialmente quanto à manipulação desses produtos. 
O Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 9º, também disciplina 
os produtos e serviços que, apesar de potencialmente nocivos ou perigosos, 
podem ser colocados no mercado. Estão inseridos nesse artigo produtos 
como cigarros, bebidas alcoólicas, fogos de artifício, materiais radioativos, 
dedetização e demolição de prédios. Os fabricantes de cigarros, nesse sen-
tido, por exemplo, são obrigados a informar, de forma ostensiva e clara, 
sobre os riscos inerentes ao consumo, o que vem sendo feito regularmente.
Para além do dever de informar – sendo por meio de sinais ostensivos, 
cores, símbolos, alertas, manuais de instrução redigidos etc. –, de modo 
que o consumidor leigo consiga compreender, há o dever de retirar o produto 
ou serviço do mercado.
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Figura 1. Alguns dos sinais ostensivos de produtos perigosos reconhecidos no mundo. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 
29/10/2020. (Adaptado).
CURIOSIDADE
A chamada periculosidade inerente é comum em vários produtos e servi-
ços; dentre eles, estão os medicamentos. Essa é a razão pela qual as bu-
las devem acompanhar os medicamentos: elas carecem explicar os riscos 
inerentes ao seu uso de forma clara e precisa, assim, tal periculosidade é 
tolerada pelo consumidor.
Prejudicial
Radioativo
Perigo geral
Inflamável Tóxico Oxidante
Explosivo
Risco biológico
Explosivo
Corrosivo
 Veneno 
Inflamável 
Perigoso para o ambiente
Oxidante
Perigo elétrico
DIREITO DO CONSUMIDOR 46
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Qualidade e segurança dos produtos e serviços – o recall
Observamos que as leis do Código de Defesa do Consumidor protegem a 
confi ança depositada pelo consumidor nos produtos e serviços, na segurança 
durante o uso, nos riscos normais e inerentes esperados e nas informações 
claras e precisas. O artigo 10 da Lei nº 8.078/1990 avança e institui um dever na 
fase pós-contratual: o dever de vigilância. O dever de informar ao consumidor 
sobre a periculosidade de produto ou serviço que o fornecedor tenha colocado 
no mercado. 
A proibição de colocação no mercado de consumo de produto ou serviço 
que apresenta alto grau de periculosidade consta no caput do artigo 10. A cha-
ve para a compreensão do dispositivo é saber quando o produto carrega essa 
alta periculosidade, o que revela uma imprecisão na norma jurídica, in casu, 
uma zona de penumbra em que o intérprete precisa decidir sob sua respon-
sabilidade.
Sabemos que a fi scalização e controle dos produtos e serviços colocados 
no mercado de consumo fi cam a cargo da União, dos estados e municípios, de 
acordo com suas áreas de atuação territorial por determinação do §1º do artigo 
55 da Lei nº 8.078/1990. É permitido aos entes atuarem em conjunto e realiza-
rem desde a apreensão do produto, cassação do alvará de licença, interdição e 
suspensão da atividade do fornecedor sempre que o produto ou serviço pos-
suir um alto grau de periculosidade.
Nota-se que o §1º do artigo 10 regula a hipótese de colocação, no mercado 
de consumo, de produto ou serviço em que o real nível de nocividade ou peri-
culosidade é desconhecido do fornecedor até então. O dispositivo determina 
que o fornecedor o comunique aos consumidores por meio de anúncios publi-
citários, mas é necessário que as autoridades competentes também 
façam isso. Existem produtos ou serviços, nesse sentido, que não 
estão sujeitos à fi scalização governamental, visto que 
não há possibilidade de fi scalização preventiva, exce-
to por iniciativa própria da empresa com o recolhi-
mento do produto defeituoso – o recall.
Vetado pelo então presidente do Brasil, o arti-
go 11 da Lei nº 8.078/1990 previa que o produto ou 
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serviço, mesmo que adequadamente utilizado ou fruído, que apresentasse alto 
grau de nocividade ou periculosidade seria retirado do mercado pelo forne-
cedor e as suas expensas, sem prejuízo de eventuais reparações por danos 
causados – naquilo que podemos nomear como um “dever de retirada”. O fun-
damento ao veto era que a manutenção do artigo em questão impossibilitaria 
a produção e o comércio de bens indispensáveis à vida moderna. O veto em si 
não prejudicou o recall administrativo, posto que de maneira implícita a san-
ção administrativa de retirada dos produtos proibidos de serem introduzidos 
e mantidos no mercado consta nos artigos 9º e 10º da Lei nº 8.078/1990 (MAR-
QUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 421). 
Campanhas de recall por segmento e tipo de produto - geral
Secretaria da Justiça e Cidadania - Procon-SP
Data inicial: 01/01/2002 Data fi nal: 01/10/2020
Segmento: todos
Atenção: em alguns modelos, não há informação sobre a quantidade por modelo 
específi co. Isto ocorre por causa da empresa ter informado apenas o total geral de 
produtos afetados/atendidos da campanha.
Segmento Total Percentual Campanhas Percentual 
Veículos 19.921.834 11,50 1.291 81,35
Produtos para a 
saúde 71.261.766 41,15 68 4,28
Outros 8.791.616 5,08 59 3,72
Produtos infantis 5.201.088 3,00 39 2,46
Alimentos e bebidas 55.330.498 31,95 39 2,46
Informática 589.443 0,34 35 2,21
Peças e acessórios 
automotivos 222.763 0,13 25 1,58
Eletrodomésticos/
eletroeletrônicos 167.394 0,10 16 1,01
Higiene e beleza 11.704.660 6,76 15 0,95
Total: 173.191.062
19.921.83419.921.83419.921.834
71.261.766
19.921.834
71.261.76671.261.766
8.791.6168.791.616
5.201.088
11,50
8.791.616
5.201.088
11,50
5.201.088
55.330.498
41,15
55.330.498
41,15
55.330.498
589.443
5,08
589.443
222.763
5,08
3,00
222.763
1.291
3,00
222.763
167.394
1.291
31,95
167.394
68
31,95
0,34
167.394
11.704.660
0,34
11.704.660
59
0,13
11.704.660
81,35
39
0,13
81,35
0,10
4,28
39
0,10
3,72
35
6,76
3,72
6,76
2,46
25
2,46
2,462,46
16
2,212,21
15
1,58
1,01
0,95
TABELA 1. TABELA COM OS DADOS REFERENTES ÀS CAMPANHAS DE RECALL, 
ATUALIZADA EM 30 DE SETEMBRO DE 2020
Fonte: SÃO PAULO, s. d. Acesso em: 30/09/2020. (Adaptado).
DIREITO DO CONSUMIDOR 48
SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 48 15/12/2020 12:00:39
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – 
comunicação do fato às autoridades competentes e 
introdução no mercado de divulgação publicitária
A informação publicitária às expensas do fornecedor está determinada 
no §2º do artigo 10 da Lei nº 8.078/1990. É preciso ter em mente que o 
objetivo do recall é a proteção da coletividade de riscos à saúde e à segu-
rança resultantes de defeitos; para alcançar tal objetivo, faz-se necessário 
que uma ampla e correta divulgação na mídia seja capaz de garantir ao 
consumidor o direito à informação, de forma a evitar ou diminuir as con-
sequências de possíveis acidentes de consumo. Ainda entre os objetivos 
do recall, destacamos incluir a informação dos fatos à cadeia de forne-
cedores, clientes e consumidores, bem como aos órgãos competentes. É 
fundamental apresentar as ações para a redução dos danos; dentre elas, 
está a segregação do produto para prevenir a distribuição ou venda das 
unidades afetadas.
A portaria nº 487, de 15 de março de 2012, regula os procedimentos descri-
tos nos parágrafos 1º e 2º do artigo 10 da Lei nº 8.078/1990. Assim, cabe ao for-
necedor de produtos e serviços, após a introdução destes no mercado de con-
sumo, se tiver o conhecimento de determinada periculosidade ou nocividade, 
comunicar o fato imediatamente ao Departamento de Defesa do Consumidor, 
aos órgãos estaduais e do Distrito Federal e aos órgãos municipais de proteção 
ao consumidor, bem como ao órgão normativo ou regulador competente. Tudo 
isso é considerado um dever legal de todo fornecedor, independentemente do 
tipo de produto envolvido. Tal comunicado é feito por escrito conforme deter-
mina a portaria em comento.
Essa comunicação deve conter, ainda, a identifi cação do fornecedor do pro-
duto ou serviço, a razão social, o nome fantasia, as atividades econômicas prin-
cipal e secundárias, o número de inscrição do Cadastro Nacional de Pessoas 
Jurídicas (CNPJ) ou Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), endereço, telefone, nome 
dos administradores e sua qualifi cação. 
Quanto ao produto ou serviço, a comunicação precisa ter marca, modelo, 
lote, série, chassi, data inicial e fi nal da fabricação, foto, descrição pormenoriza-
da do defeito, a descrição dos riscos e suas implicações, distribuição geográfi ca 
DIREITO DO CONSUMIDOR 49
SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 49 15/12/2020 12:00:40
dos produtos e serviços, a indicação das medidas já adotadas pelo fornecedor, 
a descrição dos acidentes ocorridos, os planos de mídia e de atendimento ao 
consumidor.
O plano de mídia é aquele que determinará a data de inícioe fi m da veicu-
lação publicitária, bem como os meios de comunicação que serão utilizados e 
a frequência – sem esquecermos do modelo de aviso de risco e dos custos de 
veiculação, ainda que se respeite o sigilo dessas informações. 
Além disso, é por meio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), 
tendo sido criada pelo Decreto nº 7.738, de 28 de maio de 2012, que podemos 
buscar informações sobre cada recall em seu sistema on-line. A atuação dessa 
secretaria, portanto, concentra-se no:
planejamento, elaboração, coordenação e execução da Política 
Nacional das Relações de Consumo, com os objetivos de: (i) 
garantir a proteção e exercício dos direitos dos consumidores; 
(ii) promover a harmonização nas relações de consumo; (iii) 
incentivar a integração e a atuação conjunta dos membros do 
SNDC; e (iv) participar de organismos, fóruns, comissões ou 
comitês nacionais e internacionais que tratem da proteção 
e defesa do consumidor ou de assuntos de interesse dos 
consumidores, dentre outros (BRASIL, 2014).
Qualidade e segurança dos produtos e serviços – 
indenização
O caput do artigo 10 da Lei nº 8.078/1990 dispõe que “o fornecedor não po-
derá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria 
saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segu-
rança [do consumidor]” (BRASIL, 1990).
Em uma primeira análise, poderíamos considerar que o caput do artigo em 
comento estabelece a responsabilidade fundada na culpa, tendo em vista o 
uso de expressões como “sabe” ou “deveria saber”. Se coloca os produtos ou 
serviços no mercado de consumo e tem a noção de sua alta periculosidade ou 
nocividade é porque o faz com dolo. Se devia saber é porque o faz com negli-
gência, imprudência ou imperícia, ou seja, culpa.
DIREITO DO CONSUMIDOR 50
SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 50 15/12/2020 12:00:40
Mas é preciso um olhar sistemático e, portanto, quaisquer problemas relati-
vos à nocividade ou periculosidade à saúde ou à segurança do consumidor, no 
que tange aos vícios e defeitos, resolve-se tendo como base a responsabilidade 
objetiva. A culpa não interessa em sede de proteção ao consumidor, exceto 
quanto aos profi ssionais liberais. 
Responsabilidade civil no Código de Defesa do 
Consumidor: vício e defeito
A etimologia da palavra responsabilidade, decorrente do verbo latino 
respondere, de spondeo, que nasceu de uma obrigação primitiva e de natu-
reza contratual, demonstra a divisão, quanto à origem da responsabilida-
de, em contratual ou negocial e extracontratual ou aquiliana. Essa divisão, 
conhecida e consagrada de um modelo binário de responsabilidade, in-
fluenciou as codificações modernas. 
O Código Civil de 1916 adotou o sistema dualista: em seus artigos 1.518 
e 1.553, disciplinava-se a responsabilidade extracontratual – a obrigação 
por atos ilícitos; e, nos artigos 1.056 a 1.058, a consequência pelo não cum-
primento das obrigações – a responsabilidade contratual. 
O Código Civil de 2002, mais bem organizado, trata a princípio da responsa-
bilidade extracontratual, no Título IX do “Livro das Obrigações”, nos artigos 927 
a 954. A responsabilidade contratual, aquela que decorre do inadimplemento 
das obrigações, é prevista nos artigos 389 a 420. A parte geral traz as categorias 
básicas da responsabilidade civil, como o ato ilícito – previsto no artigo 186 – e o 
abuso de direito – previsto no artigo 187. Assemelha-se a uma setorização, mas 
em verdade a divisão da responsabilidade civil em extracontratual e contratual 
faz parte de um tempo passado. Na sociedade de massas, a responsabilidade 
contratual e extracontratual têm a mesma fonte e obedecem aos mesmos prin-
cípios, nascem de um mesmo fato, a violação de um dever jurídico preexistente 
(COSTA, 2003, p. 97).
O Código de Defesa do Consumidor supera essa divisão e unifica a res-
ponsabilidade de modo que não importa se a responsabilidade decorre 
de um contrato ou não. No entanto, diferencia do Diploma Consumerista 
apenas os produtos e serviços.
DIREITO DO CONSUMIDOR 51
SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 51 15/12/2020 12:00:40
EXPLICANDO
Codifi cações privadas como o Código Civil francês preveem a responsa-
bilidade civil delitual ou extracontratual; no caso francês, em seus artigos 
1.382 e 1.386. A responsabilidade contratual, contudo, está prevista nos 
artigos 1.146 a 1.155. O Código Civil italiano, de 1942, também traz essa 
previsão e divisão quando regula as obrigações. A responsabilidade civil 
extracontratual está prevista nos artigos 2.043 e 2.059; a responsabilidade 
contratual, que decorre do inadimplemento obrigacional, está nos artigos 
1.218 a 1.229. 
A teoria do risco do negócio: a base da responsabilidade 
objetiva
A Constituição de 1988 garante a livre iniciativa para a exploração da ativi-
dade econômica e, dentre as principais características da exploração da ativi-
dade econômica, está o risco. A ação de empreender encerra tanto o sucesso 
quanto o fracasso (TARTUCE; NEVES, 2016, p. 146), no entanto, a avaliação des-
sa ação cabe exclusivamente ao empresário e é parte essencial para o negócio.
A avaliação desses riscos leva em conta múltiplos fatores que vão desde o 
mercado escolhido, passam pela avaliação dos custos dos insumos necessários 
à produção, até os aspectos do marketing do produto ou serviço a ser colocado 
no mercado de consumo. Um importante ponto se refere ao equilíbrio entre o 
risco e o custo, em que alguns autores acrescentam o custo e sua relação com 
o benefício – fundamental na análise da viabilidade dos negócios.
É importante percebermos que na sistemática da norma de proteção ao con-
sumidor a qualidade dos produtos e serviços colocados no mercado é essencial. 
Ressalta-se que a evolução originada na Revolução Industrial e o surgimento da-
quilo que chamamos de sociedade do consumo acabaram por tornar a produção 
em massa, seriada, em que o custo de produção é menor, como a regra posta.
Dessa produção em série, a possibilidade de assegurar que o produto ou 
serviço, ao fi nal de sua cadeia de produção, não será eivado por defeitos ou 
vícios tornou-se ilusória. Em decorrência da impossibilidade de ausência de de-
feitos ou vícios, nasce a necessidade de um diploma que proteja aqueles que 
são os mais vulneráveis nessa relação de consumo, ou seja, os consumidores. 
As falhas ocorrem, produtos e serviços podem apresentar vícios e defeitos, e 
esse é um risco que corre o fornecedor.
DIREITO DO CONSUMIDOR 52
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O Código de Defesa do Consumidor controla o resultado da produção e 
cuida de garantir que o ressarcimento dos danos pelos fornecedores aos con-
sumidores seja realizado (NUNES, 2018, p.147-148). Tanto a receita quanto o 
patrimônio dos fornecedores respondem pelas indenizações devidas; o argu-
mento para tanto é que a receita engloba todos os produtos e serviços, ou seja, 
engloba até mesmo aqueles que possuem defeitos ou vícios.
Aliado a isso, temos que a regra do Código de Defesa do Consumidor consa-
gra de forma clara a responsabilidade objetiva e solidária dos fornecedores de 
produtos e serviços perante os consumidores, com vistas à efetiva reparação 
integral dos danos. A responsabilidade objetiva prevista na norma de proteção 
ao consumidor não depende da existência ou não de uma atividade de risco. 
Adota-se, portanto, a teoria do risco-proveito, ou seja, a responsabilidade sem 
culpa por trazer benefícios (TARTUCE; NEVES, 2016, p. 119).
A responsabilidade objetiva prevista no Código de Defesa do Consumidor é 
distinta da responsabilidade subjetiva, baseada na culpa e que engloba o dolo 
e a culpa stricto sensu, prevista no Código Civil de 2002.
DIAGRAMA 1. ESQUEMA REPRESENTATIVO SOBRE RESPONSABILIDADE
A regra da responsabilidade na norma de proteção ao consumidor é a res-
ponsabilidade objetiva, mas a exceção existe e se destina aos profissionais libe-
rais que prestam serviço,posto que respondem somente pela culpa, conforme 
prevê o artigo 14, §4º da Lei nº 8.078/1990. 
A responsabilidade – extracontratual ou contratual – é, portanto, concentra-
da no produto ou no serviço e na existência de um defeito ou vício. 
Responsabilidade 
subjetiva - CC/02
Regra
Responsabilidade 
objetiva - CDC
Regra
Responsabilidade
DIREITO DO CONSUMIDOR 53
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Vício e defeito dos produtos: distinção
Torna-se imprescindível distinguirmos vício e defeito para compreen-
dermos a sistemática do Código de Defesa do Consumidor. No vício, seja do 
produto, seja do serviço, o problema se concentra nos limites do bem de 
consumo, ou seja, não há prejuízos intrínsecos. No fato ou defeito, outras 
decorrências estão presentes, como os danos morais, estéticos e materiais, 
os prejuízos extrínsecos.
Figura 2. (a): a distinção entre vício e fato leva em consideração se este ocorre dentro dos limites do produto ou serviço 
ou se o extrapola. Se ocorre dentro dos limites, estamos diante de um vício do produto ou serviço; (b): nos casos em 
que se extrapolam os limites do produto ou serviço, estamos diante de um fato ou defeito do produto ou serviço. 
Fonte: Shutterstock. Acesso em: 30/09/2020. (Adaptado).
O vício carrega semelhanças ao vício redibitório quando na condição de 
vício oculto, disciplinado no Código Civil de 2002, mas com ele não pode ser 
confundido (NUNES, 2018, p. 156), e na norma de proteção ao consumidor 
estes podem ser aparentes ou ocultos.
Podemos concluir que, quando o dano permanece nos limites, seja do pro-
duto, seja do serviço, estamos na presença de um vício. Nesse vício, a desvan-
tagem econômica para o consumidor não ultrapassa os limites de valor do 
produto ou serviço (GRINOVER et al., 2019, p. 310). Caso o problema ultrapas-
se tais limites, teremos fato ou defeito, em que há a ocorrência de acidente 
de consumo. O defeito é para o consumidor mais devastador (NUNES, 2018, 
p. 157). 
Dentro dos limites do produto ou serviço – vício Extrapola os limites do produto ou serviço – fato
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DIAGRAMA 2. EXISTEM QUATRO HIPÓTESES DE RESPONSABILIDADE CIVIL
Para ocorrer o defeito, é necessário primeiro o vício, portanto, não exis-
tem defeitos sem vícios, ainda que existam vícios sem defeitos. A distinção 
entre essas categorias carrega algumas consequências: podemos destacar as 
pessoas legitimadas a responder pelas situações correspondentes. Sabemos 
que o Código de Defesa do Consumidor adotou a solidariedade presumida 
entre aqueles envolvidos no fornecimento de produtos ou serviços, confor-
me dispõe o artigo 7º da Lei nº 8.078/1990, tanto pelos vícios quanto pelos 
defeitos na medida de suas participações.
Na sistemática do Código de Defesa do Consumidor, quatro são as hipó-
teses de responsabilidade civil: a responsabilidade pelo vício do produto; a 
responsabilidade pelo fato do produto ou defeito; a responsabilidade pelo 
vício do serviço; por fi m, a responsabilidade pelo fato do serviço ou defeito.
O Código de Defesa do Consumidor disciplina a responsabilidade pelos ví-
cios do produto ou serviço em seus artigos 18 a 25. Ao fato do produto ou ser-
viço, o código destina os artigos 12 a 17.
Os vícios dos produtos
A responsabilidade pelos vícios dos produtos encontra-se prevista no artigo 
18 da Lei nº 8.078/1990. O vício do produto ocorre quando um problema oculto 
ou aparente no bem o torna impróprio ao uso a que se destina ou diminua 
seu valor – assim chamado vício de inadequação. Nota-se que não há qualquer 
repercussão externa ao produto, o que caracterizaria a fi gura do fato do pro-
duto, de modo que, se não há rompimento do produto, não há que se falar em 
indenizações além dos danos materiais pelo valor do bem de consumo.
Pelo vício do produto
Pelo fato do produto ou defeito
Pelo vício do serviço
Pelo fato do serviço ou defeito
Responsabilidade
DIREITO DO CONSUMIDOR 55
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Os vícios do produto possuem aspectos contratuais e extracontratuais 
que são regulados pelo Código de Defesa do Consumidor – e não pelo Código 
Civil de 2002. Dessa forma, o regime descrito no Código Civil de 2002 referen-
te aos vícios redibitórios é subsidiário à norma de proteção ao consumidor, 
como da vigência do Código Civil de 1916. Salienta-se, contudo, que em ma-
téria de prestação de serviços de transporte há uma prevalência das normas 
do Código Civil de 2002 naquilo que dispõe de maneira expressa (MARQUES; 
BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 562).
Três são os vícios de inadequação previstos no Código de Defesa do Con-
sumidor. Os vícios de impropriedade, os vícios de diminuição do valor e os 
vícios de disparidade informativa, ou vícios de qualidade por falha na infor-
mação, o que constitui dever do fornecedor e – muitas vezes – apenas por ele 
estes podem ser sanados.
DIAGRAMA 3. VÍCIOS DE INADEQUAÇÃO PREVISTOS NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
Esses vícios de inadequação podem ser considerados uma melhora do 
sistema de vícios redibitórios, visto que o método escolhido pelo Código de 
Defesa do Consumidor se trata do dever de qualidade, cujo fim é o mesmo 
das demais previsões do código de proteção ao consumidor: uma melhora 
em sua qualidade de vida, maior harmonia e segurança.
Por determinação do Código de Defesa do Consumidor, o fornecedor pode 
acionar o sistema de garantia do produto e realizar o reparo em 30 dias, de 
modo que é possível o saneamento dos vícios que sejam capazes de impactar 
Vícios de impropriedade
Vícios de disparidade informativa
Vícios de diminuição do valor
DIREITO DO CONSUMIDOR 56
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a qualidade do produto. Ressalta-se que esse prazo se aplica aos chamados 
produtos industrializados dissociáveis, ou seja, produtos que permitam a dis-
sociação de seus componentes, sendo o caso dos eletrodomésticos, computa-
dores etc.
Nos casos em que não seja possível essa dissociação, não há que se falar em 
oportunidade de saneamento; o caso aqui é de exigir as alternativas constan-
tes do §1º do artigo 18 da Lei nº 8.078/1990. Mesmo nos produtos dissociáveis, 
se após os 30 dias o vício não for sanado, o consumidor terá direito às alterna-
tivas constantes do §1º do artigo 18 dessa lei.
DIAGRAMA 4. O CONSUMIDOR TERÁ DIREITO ÀS ALTERNATIVAS CONSTANTES DO §1º 
DO ARTIGO 18 DA LEI Nº 8.078/1990. 
Não há dúvidas de que, das sanções previstas no artigo 18, a substituição do 
produto é a mais satisfatória para os consumidores, e a melhor interpretação é 
aquela que permite a substituição por outro produto da mesma espécie, marca 
e modelo; da mesma forma que a restituição imediata da quantia paga deve ser 
sob certo aspecto relativizada (GRINOVER et al., 2019, p. 346). 
O §6º do artigo 18 da Lei nº 8.078/1990 elenca algumas hipóteses em que os 
vícios do produto estão presentes. Esse rol não é taxativo, visto que outras si-
tuações podem ocorrer em que se vislumbre o vício do produto. Assim, os pro-
dutos cujos prazos de validade estejam vencidos são considerados impróprios 
ao consumo, bem como: produtos deteriorados, avariados, alterados, adulte-
rados, falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à saúde ou à vida, perigo-
sos ou até mesmo aqueles que se encontram em desacordo com as normas de 
fabricação, distribuição ou apresentação. Por último, são inadequados para o 
Art. 18
Substituição do produto por outro de mesma espécie;
Restituição imediata da quantia paga, 
sem prejuízo das perdas e danos;
Abatimento proporcional do preço.
§1º
DIREITO DO CONSUMIDOR 57
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consumo os produtos que, por qualquer motivo, revelam-se inadequados ao 
fi m a que se destinam.
Importante ressaltarmos que não podemos confundir vício do produto com 
deteriorações normais ao uso da coisa; demaneira que o fornecedor respon-
de pelos vícios do produto, mas não pelo desgaste natural decorrente de uso 
ordinário. Não podemos exigir que o fornecedor seja um eterno responsável 
pelos produtos colocados no mercado de consumo. Isso não signifi ca, contudo, 
eximir o fornecedor da responsabilidade, desde que a reclamação seja feita 
dentro do prazo exigido pela lei após evidenciado o defeito.
A responsabilidade pelos vícios de quantidade está prevista no artigo 19 do 
Código de Defesa do Consumidor e é a mesma que observamos no artigo 18 do 
mesmo diploma legal.
Os vícios dos serviços
Previstos no artigo 20 da Lei nº 8.078/1990, os vícios dos serviços não se 
concentram na maneira tradicional em que é vista a prestação de serviços, 
ou seja, na diligência normal em sua execução e cuidados ordinários. Ino-
va-se o Código de Defesa do Consumidor, posto que se concentra no efeito 
do contrato. O efeito do contrato é a obrigação de fazer algo, seja de meio, 
seja de resultado. Nesse sentido, o serviço prestado deve ser adequado aos 
fi ns que (razoavelmente) são esperados. No entanto, há também vício de 
qualidade no serviço que não atenda às normas regulamentares de presta-
bilidade, conforme preceitua o §2º do artigo 20.
No Código de Defesa do Consumidor, existe uma espécie de presunção 
de que, quando o resultado não é adequado ou não “possui sua prestabi-
lidade regular”, o serviço é viciado e, portanto, falho (MARQUES; 
BENJAMIN; MIRAGEM, 2010, p. 614-615).
Da mesma forma que nos vícios referentes aos 
produtos, nos vícios dos serviços temos os vícios de 
informação, que se caracterizam pela diferença 
entre as indicações constantes da oferta ou men-
sagem publicitária e o serviço prestado. Nos ca-
sos em que ocorre essa disparidade, o consumidor 
DIREITO DO CONSUMIDOR 58
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pode, de maneira idêntica ao previsto quanto aos vícios de produto, requerer 
a reexecução, o abatimento do preço ou ainda a rescisão do contrato.
A reexecução dos serviços pode ser realizada por terceiros por conta e risco 
do fornecedor, sendo isso o que prevê o §1º do artigo 20 da Lei nº 8.078/1990. 
É fundamental recordarmos que obrigação de fazer não é sinônimo de 
obrigação de resultado. Nas obrigações chamadas de meio, o que se espe-
ra razoavelmente é a única coisa a se exigir, diferentemente das obrigações 
de resultado, em que conseguimos exigir que se alcance determinado resul-
tado. Nesta última modalidade, basta a demonstração do descumprimento 
do contrato para caracterizar o vício do serviço.
Na sociedade de consumo em massa, a possibilidade de vícios nos serviços é 
ampla, porque estes possuem características multifárias, pois muitos são os tipos 
de prestação de serviços. Em qualquer uma das modalidades existentes, pode ha-
ver a impropriedade prestacional, comprometendo a harmonia e o equilíbrio das 
relações de consumo (GRINOVER et al., 2019, p. 351).
EXEMPLIFICANDO
Muito recorrente na doutrina, a distinção entre obrigações 
de meio e resultado ganha bastante relevo na prestação de 
serviços médicos. Para a ministra Nancy Andrighi, da Terceira 
Turma do STJ, a obrigação de meio limita-se a um dever de 
desempenho, ou seja, o compromisso é de agir com zelo e 
empregar a melhor técnica – sem que exista qualquer obriga-
ção quanto à efetivação de um resultado. Nas obrigações de 
resultado, entretanto, há uma obrigação quanto ao resultado. 
Para mais informações, leia o artigo “A responsabilidade civil 
por acto médico na jurisprudência das Secções Cíveis do 
Supremo Tribunal de Justiça”.
O fato do produto: os acidentes de consumo/defeitos e 
sua responsabilidade
O fato do produto está descrito no artigo 12 da Lei nº 8.078/1990; trata-
-se do acontecimento externo (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 241), que causa 
dano material ou moral – ou até mesmo ambos – ao consumidor. O fato ge-
rador é um defeito que pode ser de concepção, de produção, de comerciali-
zação etc.; para essas causas, a doutrina nomeia de acidentes de consumo 
DIREITO DO CONSUMIDOR 59
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quando materializados e atingem a incolumidade física ou ainda psíquica do 
consumidor e seu patrimônio. 
Produtos e serviços nocivos à saúde ou que comprometem a segurança 
dos consumidores são responsáveis pela maior parte dos danos causados 
aos clientes.
Nesse sentido, basta o nexo causal entre o defeito do produto e o aci-
dente de consumo para se configurar a responsabilidade conforme prevista 
no diploma protetivo ao consumidor. Na sistemática do código, a garantia 
de segurança tanto do produto quanto do serviço tem natureza de respon-
sabilidade extracontratual. O artigo 12 da Lei nº 8.078/1990 impõe esse de-
ver aos fabricantes, produtores, construtores e importadores e – de modo 
subsidiário – ao distribuidor ou fornecedor direto (MARQUES; BENJAMIN; 
MIRAGEM, 2010, p. 433-434).
É possível distinguirmos três espécies de fornecedor: o fornecedor real, que 
compreende o fabricante, o construtor e o produtor; o fornecedor presumido, que 
é o importador de produto in natura ou industrializado; e o fornecedor aparente, 
sendo aquele que coloca seu nome ou marca no produto final. 
O artigo 12 da Lei nº 8.078/1990 também menciona os defeitos de ma-
neira a ampliar a aplicação da norma às possíveis técnicas de elaboração 
dos produtos. É dessa forma que os defeitos de concepção envolvem os 
vícios de projeto, formulação, aí incluídos o design dos produtos, os defeitos 
de produção que envolvem os vícios de fabricação, construção, montagem, 
manipulação e acondicionamento dos produtos; e os defeitos de informação 
que envolvem a apresentação de informação insuficiente ou inadequada, aí 
incluída a publicidade (GRINOVER et al., 2019 p. 318). Muitos defeitos de 
concepção acabam por determinação o recolhimento do produto: o recall. 
Uma importante característica desses defeitos é sua inevitabilidade. 
Escapam ao processo de controle e surgem como parte do ris-
co do negócio. O §1º do artigo 12 afirma que defeituoso é o 
produto que não oferece a segurança esperada, por-
tanto, não há que se falar em segurança absoluta, 
mas sim da proteção de segurança dentro dos 
padrões da expectativa legítima do consumidor 
(CAVALIERI FILHO, 2008, p. 244). A colocação de 
DIREITO DO CONSUMIDOR 60
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produto de melhor qualidade no mercado de consumo não torna o produ-
to anterior defeituoso.
Quanto ao nexo causal, não há exigência para que o consumidor prove 
o defeito do produto, bastando a prova do acidente de consumo. A respon-
sabilidade é objetiva, mas não é fundada no risco integral, de modo que é 
indispensável a ocorrência do acidente de consumo.
O fato de serviço: os acidentes de consumo/defeitos e 
sua responsabilidade
O fato do serviço e sua responsabilidade estão disciplinadas no artigo 14 
da Lei nº 8.079/1990. Nota-se a correspondência entre os artigos 12 e 14 do 
diploma de proteção aos consumidores. Tal responsabilidade, que também 
é objetiva como no fato do produto, aperfeiçoa-se com os pressupostos do 
defeito do serviço, o evento danoso e a relação de causalidade entre o de-
feito no serviço e o dano. 
Os serviços aos quais se refere a norma de proteção ao consumidor são 
quaisquer atividades, bem como quaisquer atividades de natureza bancá-
ria, fi nanceira, de crédito e securitária. É preciso, também, que esse serviço 
seja remunerado: a exceção são os serviços gratuitos, como a amostra grá-
tis, conforme previsto no parágrafo único do artigo 39; e os bancos de dados 
e cadastros previstos no artigo 43, ambos da Lei nº 8.078/1990. 
Os critérios para aferição do vício de qualidade nos serviços estão pre-
vistos no §1º do artigo 14 da Lei nº 8.078/1990; neste sentido, é importante 
assinalar que, para a segurança do usuário do serviço, deve-se considerar o 
modo de fornecimento do serviço,os riscos da fruição e a época em que foi 
prestado o serviço. 
Serviços defeituosos se referem àqueles que são mal apresentados para 
o consumidor, quando sua fruição é capaz de suscitar riscos acima do nível 
esperado, bem como, em razão do decurso do tempo, desde sua prestação, 
é de se supor que não apresentem sinais de envelhecimento. 
Mais uma vez, o chamado imperativo de qualidade se destaca; portan-
to, a obrigação conjunta de qualidade-segurança, aquela em que não deve 
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estar presente um defeito na prestação do serviço e um acidente de consu-
mo que cause danos ao consumidor, é exigida (MARQUES; BENJAMIN; MIRA-
GEM, 2010, p. 477). 
Responsabilidade civil no Código de Defesa do 
Consumidor: vício e defeito – as excludentes de 
responsabilidade
A responsabilidade objetiva – regra no âmbito do Código de Defesa do 
Consumidor – não dispensa o nexo causal. Se não há essa relação de causa 
e efeito entre o dano e o fato do produto ou serviço, não há que se falar em 
responsabilidade. Em todas as hipóteses de exclusão de responsabilidade, 
ela está presente conforme corroboram os artigos 12, §3º, e 14, §3º, da Lei 
nº 8.078/1990. 
Destacamos a previsão de ausência de responsabilidade do fornece-
dor do produto quando este comprovar que não o colocou no mercado. À 
primeira vista, aparenta-se desnecessário o inciso I do artigo 12 da Lei nº 
8.078/1990, mas a razão de sua inserção no código decorre da presunção 
que, estando o produto no mercado, este foi introduzido pelo fornecedor 
(CAVALIERI FILHO, 2008, p. 252). Não há no código qualquer regra que esti-
pule quando o produto foi colocado no mercado, o que será objeto de con-
sideração no caso concreto pela jurisprudência.
A inexistência do defeito dependerá de prova do fornecedor e também é 
causa excludente de responsabilidade, bem como a culpa exclusiva do consu-
midor – esta última nos casos em que a atuação do consumidor é causa direta 
e determinante do evento. Mas é de se notar que a modalidade de culpa con-
corrente não se encontra disciplinada pelo Código de Defesa do 
Consumidor, em que pesam algumas decisões judiciais. 
A culpa exclusiva por fato de terceiro ainda fi gura 
entre uma das excludentes de responsabilidade. O 
termo mais adequado, fato exclusivo de terceiro, 
também é aplicável ao caso de culpa exclusiva 
do consumidor. Terceiro é a pessoa estranha à 
relação de consumo, nos casos em que há uma re-
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lação de confiança entre o terceiro e o fornecedor ou prestador será este últi-
mo que responderá, visto que nesse caso participa da corrente de produção, 
mesmo que remotamente; é solidário (TARTUCE; NEVES, 2016, p. 169).
O caso fortuito e a força maior não se encontram previstos no Código de 
Defesa do Consumidor como excludentes da responsabilidade. Em tal caso, 
a doutrina se divide. Uma parte entende que o rol descrito pela norma de 
proteção ao consumidor é taxativo, e, portanto, estariam excluídos tanto o 
caso fortuito quanto a força maior. E outra corrente na qual se filiam Flávio 
Tartuce e Sérgio Cavalieri Filho, visto que ambos constituem fatores que – 
de maneira geral – obstam a responsabilidade. Mas é importante destacar a 
opinião de Zelmo Denari, um dos autores do anteprojeto que deu origem ao 
Código de Defesa do Consumidor: para ele, o caso fortuito e a força maior 
são admitidos pelo Diploma Consumerista. Esses acontecimentos que são 
ditados por força da natureza ou que escapam do controle humano po-
dem ocorrer tanto antes da colocação do produto no mercado de consumo 
quanto depois – nesse caso, ocorre a ruptura do nexo de causalidade, o que 
afasta a responsabilidade. O mesmo pode acontecer na responsabilidade 
na prestação dos serviços.
DIAGRAMA 5. CARACTERÍSTICAS ENTRE FORTUITO INTERNO E FORTUITO EXTERNO
FORTUITO INTERNO
Liga-se a organização da
empresa e se relaciona com
os riscos da atividade 
FORTUITO EXTERNO
Fato estranho à organização 
do negócio, não há
nenhuma ligação com
a atividade negocial
Excludente de
responsabilidade
DIREITO DO CONSUMIDOR 63
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EXEMPLIFICANDO
Apenas a título de exemplo, o Tribunal de Justiça do 
Distrito Federal reconheceu a culpa concorrente do con-
sumidor mesmo diante da demora em prover meios para 
o bloqueio do acesso à conta de WhatsApp, o que evi-
dencia a culpa do requerido Facebook, mas reconhece 
que o usuário do serviço contribuiu de forma signifi cativa 
para a perpetração da fraude ao acessar o link, possibi-
litando o acesso a sua conta de WhatsApp por terceiro. 
Em virtude do reconhecimento da culpa concorrente, o 
tribunal reduziu o valor da indenização por danos morais 
fi xados em sentença. Para mais informações, entre no 
portal do TJDFT.
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: 
vício e defeito – a regra da responsabilidade solidária
Nos casos em que há mais de um causador do dano ao consumidor, o Código de 
Defesa do Consumidor prevê a solidariedade entre eles, conforme dispõe o artigo 
7º, em seu parágrafo único e, ainda, os artigos 18 e 25, parágrafos 1º e 2º, da Lei nº 
8.078/1990. Os produtos colocados no mercado de consumo em geral não possuem 
apenas um fabricante; é comum que a matéria-prima ou até mesmo alguns com-
ponentes tenham origem entre fabricantes diferentes. Nessas situações, todos são 
responsáveis pelos defeitos apresentados e respondem pelas consequências.
A possibilidade de ações de regresso contra aquele que causou o dano en-
tre esses fornecedores não foi afastada pela norma, mas o fundamento dessa 
solidariedade entre eles decorre do dever de segurança imposto pelo Código 
de Defesa do Consumidor. 
Nos acidentes de consumo, a responsabilidade dos comerciantes é subsidiá-
ria – e não solidária –, conforme preceitua o artigo 13 da Lei nº 8.078/1990. O 
comerciante pode ser acionado nos casos em que não é possível identifi car o 
produtor, o fabricante ou o importador ou, ainda, quando os comerciantes não 
conservam de forma adequada os produtos perecíveis. Está claro que neste últi-
mo acontecimento concorre o comerciante com o dano por sua conduta (CAVA-
LIERI FILHO, 2008, p. 248-249).
Podemos verfi car a diferença entre o disposto no artigo 12 e o disposto 
no artigo 14 no que se refere aos agentes responsáveis. No primeiro caso – 
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aquele que tratamos da responsabilidade pelo fato do produto –, o Código 
de Defesa do Consumidor especifi ca os responsáveis e exclui somente o 
comerciante em via principal, constando o fabricante, o produtor, o cons-
trutor e o importador. Ao tratar da responsabilidade pelo fato do serviço, 
menciona-se apenas fornecedor, o que inclui todos aqueles que participam 
da cadeia produtiva.
DIAGRAMA 6. ESQUEMA REPRESENTATIVO NO QUE TANGE ÀS RESPONSABILIDADES
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: 
vício e defeito – a responsabilidade dos profissionais 
liberais: culpa
A responsabilidade objetiva é a regra no sistema de proteção ao consumi-
dor, e a única exceção a ela consta no §4º do artigo 14 da Lei nº 8.078/1990, 
que determina a responsabilidade em virtude da culpa aos profi ssionais libe-
rais. Tal parágrafo se aplica aos casos de defeitos nos serviços. O artigo 20 do 
Diploma Consumerista disciplina as falhas de adequação dos serviços presta-
dos por profi ssionais, bem como a solidariedade dela decorrente. Incluem-se 
na falha de adequação (e, portanto, na seara da responsabilidade objetiva) 
pessoas jurídicas formadas por profi ssionais médicos, bem como outros pro-
fi ssionais – isto não é o que disciplina o artigo 14 em seu §4º, que disciplina 
somente os profi ssionais liberais.
A questão que de alguma maneira suscitou controvérsia – e hoje ultrapassa-da – era saber quais as razões para essa espécie de benefício dado a esse tipo 
Responsabilidade pelo 
fato do produto – 
exclusão do comerciante 
Responsabilidade pelo 
fato do serviço – inclui 
todos os fornecedores 
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de profi ssional ao excluí-lo da responsabilidade objetiva, que é a regra geral da 
norma de proteção ao consumidor. Primeiro devemos salientar que a atividade 
exercida pelos profi ssionais liberais é realizada em razão da pessoa e, portan-
to, em relações negociais intuitu personae; nesse sentido, não são prestadas 
com a característica dos prestadores de serviços em massa. 
Sendo serviços negociados, não faria sentido a submissão desses profi ssio-
nais a um sistema de responsabilidade pensado para os serviços em massa. 
Mais uma vez, a distinção entre obrigações de meio e resultado faz parte 
do debate. No entanto, o melhor entendimento é aquele que os profi ssionais 
liberais, na apuração de suas responsabilidades, estão inseridos na regra tra-
dicional da apuração mediante a culpa. Nos casos das obrigações de meio, a 
culpa deverá ser provada, e, nas obrigações de resultado, a regra será a da res-
ponsabilidade subjetiva com culpa presumida (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 262). 
Esses profi ssionais não estão dispensados dos deveres impostos pelo Có-
digo de Defesa do Consumidor; dentre eles, está o dever de informação: tão 
somente a exceção que lhes foi atribuída é a da regra da responsabilidade.
EXPLICANDO
Profi ssionais liberais são aqueles que exercem uma profi ssão livremen-
te, com autonomia e sem subordinação, de modo que tais profi ssionais 
prestam serviços por conta própria, sem nenhuma dependência com seu 
grau de escolaridade. Profi ssionais liberais, portanto, não são apenas os 
advogados, engenheiros, dentistas etc., mas também os carpinteiros, fotó-
grafos, pintores, costureiras, eletricistas e diversas pessoas que prestam 
serviços com autonomia e sem subordinação.
Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: 
vício e defeito – decadência e prescrição e os prazos para 
reclamar e para propor ação judicial
É importante lembrar que o estudo que aqui se pretende se refere às nor-
mas de defesa do consumidor. Dito isso, os institutos da decadência e da 
prescrição serão vistos em conformidade com o disposto na Lei nº 8.078/1990. 
Essa introdução se faz necessária, porque o Código de Defesa do Consumidor 
inovou e trouxe um modelo diferente para essas questões.
DIREITO DO CONSUMIDOR 66
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Tradicionalmente, até 1991, a decadência não podia ser obstada, ou seja, 
não podia ser interrompida ou suspensa, o que muda com a norma de prote-
ção aos consumidores. 
O caput do artigo 26 traz dois conjuntos de palavras essenciais para o es-
tudo da decadência em sede de consumidor; vício aparente e vício de fácil 
constatação. Essas expressões são mais bem compreendidas quando se foca 
na segunda, ou seja, nos vícios em que sua constatação é fácil mediante o uso 
e consumo regular do produto ou do serviço.
Para compreender a decadência, precisamos retornar ao artigo 24 da Lei 
nº 8.078/1990, quando da disciplina da garantia legal de adequação. A garan-
tia legal impede a estipulação de cláusulas contratuais que exonerem, impos-
sibilitem e atenuem as obrigações decorrentes dos vícios de adequação. É 
ônus para toda a cadeia produtiva e é mais do que a mera garantia dos vícios 
redibitórios. Veda-se, portanto, o afastamento, o que a difere dos vícios redi-
bitórios previstos tanto no código de 1916 quanto no vigente.
Sabemos, outrossim, que a caducidade do direito do consumidor no que 
se refere aos vícios dos produtos não duráveis ocorre em 30 dias e dos 
duráveis, em 90 dias (NUNES, 2018, p. 121). A distinção entre produtos du-
ráveis e não duráveis deriva da extinção em seu uso ou prestação; de modo 
que um produto durável é aquele que não se extingue com o uso, ao passo 
que o serviço durável é aquele que apresenta uma continuidade no tempo 
e deixa um resultado. De forma contrária, o produto não durável é aquele 
que se extingue com o uso e serviço não durável é aquele que se extingue 
uma vez prestado.
A contagem do prazo para a caducidade quanto aos vícios 
dos produtos e serviços inicia-se com a entrega do produto 
ou a prestação do serviço, conforme prevê o artigo 26, em 
seu §1°. É certo que o consumidor deve co-
meçar a fruir do produto ou serviço para se 
falar em andamento do prazo de garan-
tia. Diferentemente dos vícios de fácil 
constatação, o prazo nos vícios ocultos 
apenas poderá ser contado a partir do 
surgimento do vício.
DIREITO DO CONSUMIDOR 67
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Os vícios ocultos são aqueles que não estão acessíveis, ao mesmo tempo 
em que não impedem o uso e o consumo de maneira regular pelo consumidor 
(NUNES, 2018, p. 289).
Até mesmo os produtos usados possuem a garantia legal. Aos fornecedo-
res que oferecerem garantia a seus produtos, a garantia legal de adequação 
prevista no Código de Defesa do Consumidor deverá ser contada após o tér-
mino da chamada garantia contratual.
Prevê o Código de Defesa do Consumidor que a decadência é obstada pela 
reclamação comprovadamente realizada pelo consumidor perante o fornece-
dor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente ou com a 
instauração de inquérito civil (até seu encerramento). 
A primeira causa, prevista no inciso I do §2º do artigo 26 da Lei nº 
8.078/1990, diz respeito aos prazos de 30 e 90 dias previstos em parágrafo 
anterior: se a reclamação for realizada dentro desses prazos previstos, estará 
obstada a decadência; nos casos de resposta negativa do fornecedor ou não 
resposta, o consumidor terá constituído novo direito (NUNES, 2018, p. 300).
Constituído esse direito, cabe analisar a prescrição para a propositura da 
ação com vistas à reparação dos danos causados. A prescrição é a extinção da 
pretensão. O artigo 189 do Código Civil de 2002 dispõe que, violado o direito, 
nasce para seu titular a pretensão que se extingue com a prescrição.
O artigo 27 da Lei nº 8.078/1990 prevê um prazo prescricional de cinco 
anos. Vimos que o direito ao ressarcimento pelos danos está previsto nos ar-
tigos 12 a 17, o que justifica a pretensão de ressarcimento de todos os consu-
midores/vítimas. O prazo de cinco anos será contado a partir do conhecimen-
to do dano e da autoria, visto que não basta ao consumidor ter conhecimento 
do dano. Essa contagem do prazo dentro do sistema de proteção ao consu-
midor é flexível em alguma medida; nos casos em que há garantia contratual, 
ele apenas corre após seu término.
O prazo de cinco anos não é o chamado prazo geral, portanto, em temas 
de consumo não previstos no Código de Defesa do Consumidor, o prazo con-
siderado será o do Código Civil. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 68
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Sintetizando
Nesta unidade, estabelecemos os pressupostos quanto à qualidade e segurança 
dos produtos e serviços colocados no mercado de consumo. Estudamos que na sis-
temática do Código de Defesa do Consumidor a qualidade é algo esperado pelo con-
sumidor e um dever do fornecedor de produtos e serviços. Analisamos o instituto 
do recall, tão utilizado na sociedade de produção em massa, bem como os requisi-
tos para sua realização, e ainda vimos a necessidade de comunicá-lo às autoridades 
competentes e ao mercado publicitário.
Discutimos os conceitos de responsabilidade civil em sede de Código de Defesa 
do Consumidor. Iniciamos os estudos pela teoria do risco do negócio, indissociável 
dos modos de produção atuais, bem como com a regra da responsabilidade obje-
tiva aplicada pela norma de defesa do consumidor. Para o avanço no sistema de 
responsabilidade, aprendemos a distinção entre vício e fato do produto e serviço. 
Estudamos de modomais detalhado os vícios dos produtos e serviços e o fato do 
produto e serviço. Neste ponto, percebemos como essa distinção se reflete na regra 
da responsabilidade civil pelos danos causados, além da necessidade de existência 
de nexo causal entre o dano e o vício ou defeito do produto ou serviço.
No entanto, não estudamos apenas as regras da responsabilidade; também 
vimos a exceção à regra geral no que tange aos profissionais liberais, que, na sis-
temática do Código de Defesa do Consumidor, respondem por culpa. Estudamos 
tais profissionais para compreender a razão da exceção posta. E vimos também a 
responsabilidade solidária na sistemática do Código de Defesa do Consumidor.
Seguimos os estudos com as excludentes da responsabilidade civil e analisa-
mos a ausência de nexo de causalidade, assim como outras excludentes – mes-
mo que não previstas no Código de Defesa do Consumidor, como o caso fortuito 
e a força maior. 
Por fim, discutimos a decadência sob o olhar do Código de Defesa do Consumi-
dor, a garantia legal de adequação e os prazos conferidos aos consumidores para in-
formar aos fornecedores os vícios decorrentes dos produtos e serviços, bem como 
a distinção entre bens e serviços duráveis e não duráveis. A prescrição foi nosso 
último tópico e, nele, estudamos a prescrição constante do Código de Defesa do 
Consumidor e a regra geral que consta do Código Civil vigente para os casos não 
previstos na norma de proteção ao consumidor.
DIREITO DO CONSUMIDOR 69
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SER_DIR_DIRCONSU_UNID2.indd 70 15/12/2020 12:03:23
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS. 3ª Turma 
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out. 2020.
DIREITO DO CONSUMIDOR 71
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Unidade 3 - A publicidade, os bancos de dados e cadastros e a proteção contratual
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 73
Da publicidade ...................................................................................................................... 74
Da publicidade/da oferta: princípio da vinculação contratual ................................ 75
A publicidade clandestina ............................................................................................. 78
A publicidade enganosa ................................................................................................. 79
A publicidade abusiva .................................................................................................... 81
Princípios da publicidade ............................................................................................... 82
A prova da verdade e correção do desvio publicitário ............................................. 84
Dos bancos de dados e cadastros .................................................................................... 84
Dos bancos de dados e cadastros: a cobrança de dívidas ..................................... 87
Dos bancos de dados e cadastros: dos órgãos de proteção ao crédito .................. 89
A proteção contratual .......................................................................................................... 90
A proteção contratual: as formas de contratação .................................................... 90
A proteção contratual: os contratos de adesão ........................................................ 91
A proteção contratual/contratos: transparência e interpretação .......................... 94
Princípio da equivalência contratual ........................................................................... 94
Sintetizando ........................................................................................................................... 96
Referências bibliográficas ................................................................................................. 97
Sumário
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A PUBLICIDADE, OS 
BANCOS DE DADOS 
E CADASTROS 
E A PROTEÇÃO 
CONTRATUAL
3
UNIDADE
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Objetivos da unidade
Tópicos de estudo
 Apresentar aspectos da publicidade, tais como a oferta e seu princípio da 
vinculação contratual e a publicidade enganosa, clandestina e abusiva, bem 
como seus princípios;
 Abordar os conceitos de bancos de dados e cadastros, a cobrança das dívidas 
e os órgãos de proteção ao crédito;
 Compreender a proteção contratual, as formas de contratação e o contrato 
de adesão, bem como seus princípios.
 Da publicidade 
 Da publicidade/da oferta: princípio 
da vinculação contratual
 A publicidade clandestina
 A publicidade enganosa
 A publicidade abusiva
 Princípios da publicidade
 A prova da verdade e correção 
do desvio publicitário
 Dos bancos de dados e cadastros
 Dos bancos de dados e cadastros: 
a cobrança de dívidas
 Dos bancos de dados e cadas-
tros: dos órgãos de proteção ao 
crédito
 A proteção contratual 
 A proteção contratual: as formas 
de contratação
 A proteção contratual: os contra-
tos de adesão
 A proteção contratual/contratos: 
transparência e interpretação
 Princípio da equivalência con-
tratual
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Da publicidade
Primeiramente, deve-se ressaltar que o Código deDefesa do Consumidor 
apresenta forte infl uência do direito francês no capítulo destinado à oferta e à 
publicidade (GRINOVER et al., 2019). Assim, vivemos em uma sociedade de con-
sumo e somos constantemente expostos a uma ampla gama de publicidade. 
Para cumprir o mandamento constitucional de proteção ao consumidor, foram 
concebidas regras tanto para a oferta de produtos e serviços quanto para sua 
publicidade. 
As práticas comerciais se referem a um momento após a produção, uma 
vez que dizem respeito à comercialização. Isso posto, não há dúvida de que 
as práticas comerciais têm o intuito de fomentar o consumo, mesmo porque, 
sem o marketing, não existiria a sociedade de consumo (MARQUES; BENJAMIN; 
MIRAGEM, 2010).
Precisamos ainda ter em mente que as práticas comerciais acompanham 
as transformações pelas quais a sociedade passa, podendo se modifi car ao 
longo do tempo ou mesmo deixar de existir. Ainda assim, há elementos que 
são chaves para o fomento do consumo, em especial o marketing. As práticas 
comerciais e o marketing não se confundem, mas são complementares entre si 
(GRINOVER et al., 2019). No entanto, o que nos interessa de modo particular é a 
publicidade e a promoção de vendas, sendo esta última regulada no Código de 
Defesa do Consumidor através de ofertas e práticas abusivas.
A publicidade apresenta consequências jurídicas em três situações. A pri-
meira delas como veículo de uma oferta de consumo e, nesse caso, produz o 
efeito da vinculação do fornecedor, como verdadeiro negócio jurídico unilateral 
que é. A segunda, quando viola o Código de Defesa do Consumidor, nos casos 
em que podemos caracterizar a publicidade enganosa ou abusiva. 
Por fi m, quando mesmo ao não apresentar todos os requisitos ne-
cessários para confi gurar a oferta, divulga informações 
que geram no consumidor alguma expectativa legí-
tima, o que, em virtude do princípio da boa-fé que 
permeia todo o diploma consumerista, pode acar-
retar na efi cácia vinculativa daquilo que foi promo-
vido pelo fornecedor (MIRAGEM, 2016).
DIREITO DO CONSUMIDOR 74
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O Código protege mais de um tipo de consumidor, a começar por aqueles 
descritos no caput do artigo 2° da Lei 8.078/90, bem como os consumidores por 
equiparação contidos no parágrafo único do artigo 2°, no artigo 17 e no artigo 
29, todos da Lei 8.078/90. Esse último é de nosso interesse, posto que disciplina 
um conceito de consumidor especifi camente relacionado às práticas comer-
ciais. Assim, o Código prevê que consumidor é aquele que adquire os produtos 
ou serviços, e também são consideradas consumidoras as pessoas expostas às 
práticas comerciais e contratuais previstas. Afi rma-se, portanto, que a simples 
exposição à prática é sufi ciente para a caracterização do consumidor.
Da publicidade/da oferta: princípio da vinculação contratual
A relação contratual de consumo foi construída com extrema diligência pelo le-
gislador, o qual buscou valorizar o momento de formação dos contratos de consu-
mo. Nesse sentido, o exame da vontade da parte mais vulnerável, o consumidor, 
é crucial. Essa vontade deve ser manifestada de maneira realmente autônoma e 
informada para legitimar a formação do contrato. Por fi m, essa formação tem como 
princípio basilar o disposto no artigo 4°, caput, da Lei 8.078/90.
Em um estudo sistemático do Código, observamos que a transparência é essen-
cial aos contratos de consumo em seus múltiplos signifi cados. Assim, ela se con-
substancia na informação clara e precisa sobre o produto e serviço oferecidos e na 
lealdade entre as partes contratantes, ainda que na fase negocial, ou seja, na fase 
pré-contratual. Como consequência lógica, a regulação da oferta de produtos e ser-
viços tem o claro intuito de assegurar seriedade e veracidade às manifestações dos 
fornecedores, o que denota uma nova noção de oferta contratual (MARQUES; BEN-
JAMIN; MIRAGEM, 2010).
O dever de informar não se apresenta apenas quanto ao produto ou serviço, 
mas também quanto ao conteúdo do contrato, a fi m de evitar possíveis lesões a 
direitos do consumidor. Portanto, esse dever também se encontra presente na fase 
pré-contratual, e essa informação integra o contrato conforme depreendido da lei-
tura dos artigos 30 e seguintes da Lei 8.079/90. A oferta é parte integrante desse de-
ver descrito e, nesse sentido, deve ser clara e correta acerca do produto, do serviço 
e do contrato a ser realizado, sob pena de o fornecedor responder por quaisquer 
eventuais falhas na informação, conforme preceitua o artigo 20 da Lei 8.079/90.
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Figura 1. A imagem apresenta algumas das informações que devem ser disponibilizadas, neste caso em relação à 
validade do produto, o que visa assegurar a segurança do consumidor. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 27/10/2020. 
A oferta pode ser conceituada como a declaração inicial de vontade dire-
cionada à realização de um contrato. No entanto, há distinções entre a visão 
da oferta disciplinada no Código Civil e a oferta em consonância ao Código de 
Defesa do Consumidor. No regime do Código Civil, tanto o vigente como o de 
1916, a oferta é tratada como proposta, embora as destinadas ao público em 
geral tenham a mesma designação da lei protetiva ao consumidor. Mas é na 
oferta disciplinada pelo diploma consumerista que encontramos a ampliação 
de seu conceito. 
O Código de Defesa do Consumidor disciplina a oferta como um negócio 
jurídico unilateral. Todavia, a ampliação do conceito é notada quando obser-
vamos que as informações dadas integram o contrato, de modo que qualquer 
informação ou publicidade veiculada em que o con-
sumidor seja capaz de identificar o objeto e o pre-
ço torna-se oferta vinculante, e a qual aguarda 
somente a aceitação deste último. A vinculação 
da oferta requer que a informação seja suficien-
temente clara e precisa, bem como possua dado 
conhecimento público e seja veiculada por qualquer 
meio ou forma de comunicação.
DIREITO DO CONSUMIDOR 76
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DIAGRAMA 1. REQUISITOS DA OFERTA
A Informação deve ser clara 
e precisa
Conhecimento
público
A oferta deve ser 
veiculada por 
qualquer forma ou 
meio de 
comunicação
Requisitos da 
oferta
É preciso lembrar que vivemos em uma sociedade de consumo, na qual não 
apenas a produção é em massa como a oferta também o é, o que é alcança-
do através de veículos de comunicação em massa. O legislador, ao proteger a 
parte mais vulnerável, entendeu ser necessário o princípio da vinculação da 
oferta, de modo que o consumidor pode exigir o cumprimento daquilo que 
lhe foi oferecido. Não há, por certo, impedimentos a relações marcadas pela 
gratuidade. Estas, ao se enquadrarem no regime da oferta, devem, portanto, 
observar princípios como o da boa-fé, transparência e lealdade.
DIREITO DO CONSUMIDOR 77
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CURIOSIDADE
A gratuidade de serviços deve ser vista com atenção. Como exemplos, 
podemos citar os programas de milhagem das companhias aéreas. Em 
verdade, esses programas não passam de uma estratégia de captação, o 
que acaba por infl uenciar as escolhas do consumidor. Nesse sentido, os 
tribunais brasileiros têm entendido que as empresas de transporte aéreo e 
o responsável pelo programa de pontuação são solidariamente responsá-
veis pelas falhas ocorridas na prestação do serviço, conforme preceitua o 
artigo 7°, 14 e 25 do Código de Defesa do Consumidor. 
A oferta é ainda irrevogável de forma unilateral; portanto, uma vez cria-
da, o efeito vinculatório estará presente. Assim, aquele que promete e não 
cumpre, que oferece algo ao público para depois voltar atrás, será compelido 
a cumprir os termos da oferta. Mas a irrevogabilidade não é absoluta, ainda 
que seja obrigatória. Assim, admite-se a revogação desde que realizadade dados e cadastros .................................................................................... 84
Dos bancos de dados e cadastros: a cobrança de dívidas ..................................... 87
Dos bancos de dados e cadastros: dos órgãos de proteção ao crédito .................. 89
A proteção contratual .......................................................................................................... 90
A proteção contratual: as formas de contratação .................................................... 90
A proteção contratual: os contratos de adesão ........................................................ 91
A proteção contratual/contratos: transparência e interpretação .......................... 94
Princípio da equivalência contratual ........................................................................... 94
Sintetizando ........................................................................................................................... 96
Referências bibliográficas ................................................................................................. 97
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Sumário
Unidade 4 - As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de 
reflexão e arrependimento e a defesa do consumidor em juízo
Objetivos da unidade .........................................................................................................100
As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e 
arrependimento...................................................................................................................101
As cláusulas abusivas ..................................................................................................101
Empréstimos e financiamento .....................................................................................103
Compra e venda com pagamento do preço mediante prestações ...................................105
Da defesa do consumidor em juízo: aspectos processuais das ações coletivas e 
individuais ...........................................................................................................................106
Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos .......................................108
A legitimidade ativa para propositura de ações coletivas .....................................110
Das ações judiciais .......................................................................................................112
Custas, despesas e honorários nas ações coletivas ..............................................114
A inversão do ônus da prova .......................................................................................115
A competência ...............................................................................................................117
Da coisa julgada nas ações coletivas .................................................................................. 118
Aspectos da litispendência e continência da ação coletiva com a ação individual ....................119
Liquidação ......................................................................................................................121
Sintetizando .........................................................................................................................123
Referências bibliográficas ...............................................................................................124
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O Código de Defesa do Consumidor, sancionado pela Lei nº 8078/90, coroa 
um trabalho legislativo iniciado antes da promulgação da Constituição de 1988. 
Juristas de renome, como Ada Pellegrini Grinover, coordenadora geral, partici-
param da comissão criada para apresentar o anteprojeto de Código de Defesa 
do Consumidor previsto pelos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte.
Após a divulgação, seguida de debates, o anteprojeto foi publicado no Diário Ofi -
cial em 04 de janeiro de 1989. Infl uenciado pelo Projet de Code de la Consommation, 
com os contributos de outros modelos legislativos estrangeiros vigentes, tem estru-
tura, conteúdo moderno e é um marco por suas inovações e resgate da cidadania.
Fruto dos avanços no processo de industrialização que revolucionou o consumo, 
hoje é algo banal em nossa sociedade, embora permeado de desafi os exacerbados 
pela evolução da tecnologia. A fl exibilização do mercado de trabalho no século XXI 
é um dos fatores para a proliferação dos novos pobres, os excluídos do consumo.
O Código busca compatibilizar as necessidades dos consumidores e do res-
peito à dignidade, saúde e segurança com o desenvolvimento econômico e tec-
nológico. O estudo constante das transformações do mercado de consumo e a 
adaptação das regras, frente ao espaço para evolução do texto pela interpreta-
ção, são fundamentais aos operadores do direito.
DIREITO DO CONSUMIDOR 9
Apresentação
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Dedico este trabalho aos meus fi lhos, ao meu marido, aos meus pais, que 
sempre me incentivaram com seus carinhos e afagos e compreenderam as 
ausências, assim como aos meus alunos, que sempre foram motivadores 
diante novos desafi os.
A professora Mavili de Cassia da Sil-
va Moura é mestre em Direito pela 
Universidade Candido Mendes (2018), 
especialista em Direito Internacional 
pela Universidade Estácio de Sá (2016), 
graduada em Direito pela Universidade 
Candido Mendes (1998) e ministra aula 
de Direito Civil e Direito do Consumidor.
Currículo Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2287863961384388
DIREITO DO CONSUMIDOR 10
A autora
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TEORIA GERAL 
DO DIREITO DO 
CONSUMIDOR
1
UNIDADE
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Objetivos da unidade
Tópicos de estudo
 Expor os pressupostos fundamentais do direito do consumidor;
 Abordar a relação jurídica de consumo;
 Apresentar os direitos básicos dos consumidores e as práticas abusivas.
 Pressupostos fundamentais 
 A relação jurídica de consumo
 Os princípios da Lei nº 8078/90 e 
os direitos básicos do consumidor 
 Práticas abusivas
DIREITO DO CONSUMIDOR 12
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Pressupostos Fundamentais
A Revolução Industrial mudou os modos de produção e os padrões de con-
sumo. O ato de consumir, mesmo que natural, possui particularidades. A mas-
sifi cação instalou um acentuado desequilíbrio entre produtores e distribuido-
res de um lado, e consumidores do outro. Nesse contexto, o Código de Defesa 
do Consumidor é a concretização de uma evolução.
Na década de 1980, a necessidade de uma lei específi ca de defesa do consu-
midor era reconhecida ante a incapacidade do Código Civil de 1916 e as demais 
normas do regime privatista em lidar com as novas situações em massa, algo 
ressaltado nas páginas 10 e 11 do livro Programa de direito do consumidor, de 
Cavalieri Filho, lançado em 2008.
CONTEXTUALIZANDO
Tal desequilíbrio é objeto de preocupação pelas Nações Unidas, que 
possuem diretrizes para a proteção do consumidor. Adotadas pela primei-
ra vez pela Assembleia Geral na resolução 39/248, de 16 de abril de 1985, 
foram ampliadas pelo Conselho Econômico e Social na resolução E/1999/
INF/2/Add, de 02 de julho de 1999, e revisadas pela Assembleia Geral na 
resolução 70/186, de 22 de dezembro de 2015. 
Princípios e normas constitucionais (proposta de supressão em razão 
da superposição com direito constitucional)
O direito privado passou a sofrer infl uência direta da Constituição, fenô-
meno conhecido como publicização do direito privado, hoje direito civil cons-
titucional. A defesa do consumidor, a partir da Constituição de 1988, se inclui 
na ordem econômica, o que legitima uma intervenção do Estado na atividade 
econômica privada. Os direitos fundamentais de 1ª, 2ª epelos 
mesmos meios da oferta originária. 
Não poderíamos deixar de mencionar que a publicidade é o meio pelo 
qual o fornecedor apresenta seu produto ou serviço ao consumidor e, de 
acordo com a legislação, a publicidade se iguala de forma sufi cientemente 
precisa à oferta. Assim, criam-se expectativas que, quando frustradas, devem 
ser cumpridas. 
A publicidade clandestina
A publicidade pode ser defi nida como toda atividade destinada a estimular 
o consumo de bens e serviços, bem como promover instituições, conceitos ou 
ideias, de acordo com o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. 
No entanto, exclui-se da égide do Código de Defesa do Consumidor a propa-
ganda política, posto que esta possui regulamento próprio, e a publicidade go-
vernamental que não tenha como fi m a promoção de atos de consumo. Assim, 
torna-se possível distinguir a propaganda da publicidade.
A publicidade clandestina, muitas vezes, é referida como um merchan-
dising realizado de maneira imprópria, e caracteriza-se por sua aparição em 
meio a situações normais de consumo nas quais se faz uso ou referência a 
determinado produto ou serviço. No entanto, não é todo merchandising que 
se caracteriza pela publicidade clandestina, posto que basta a possibilidade de 
DIREITO DO CONSUMIDOR 78
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identifi cação da mensagem publicitária de modo distinto do conteúdo regular 
da programação, novela ou fi lme, por exemplo. Já a publicidade subliminar é 
aquela em que a persuasão do consumidor, com relação à qualidade do produ-
to ou serviço, é seu objetivo. 
ASSISTA
A preocupação com a publicidade clandestina não ocorre 
apenas no Brasil. A União Europeia, em sua Diretiva 89/552/
CE, veda a publicidade desse tipo e consagra o princípio da 
identifi cação. Assista ao vídeo Merchandising Natal Avon 
como um exemplo de publicidade clandestina muito comum 
em programas de TV, novelas e fi lmes, desde que ausentes 
os créditos posteriores. 
O legislador do Código buscou em toda a sua extensão a proteção ao consu-
midor; assim, a mensagem publicitária não deve ser subliminar. O consumidor 
precisa ter a consciência de que ele é o destinatário da mensagem publicitá-
ria que tem como intuito lhe oferecer algum produto ou serviço, conforme se 
depreende da leitura do artigo 36 da Lei 8.078/90. No entanto, é preciso ter 
cuidado para que o merchandising não seja proibido, visto que não é isto que 
pretende o legislador. Assim, de acordo com o Código, a informação deve ser 
adequada, por exemplo, ao início do espetáculo ou mesmo aos créditos de no-
velas, fi lmes ou séries.
A publicidade enganosa
Esta é uma modalidade de publicidade ilícita, tendo em vista que viola os 
deveres jurídicos previstos no Código de Defesa do Consumidor. A publici-
dade enganosa é aquela que viola o dever de veracidade e clareza, confor-
me prevê o parágrafo 1° do artigo 37, da Lei 8.078/90. Trata-se de qualquer 
modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário que seja 
inteira ou parcialmente falsa, ainda que por omissão. Ou, ainda, considera-se 
publicidade enganosa aquela em que o fornecedor negligencia algum dado 
essencial com o poder de fazer o consumidor não realizar o negócio sobre o 
produto ou serviço ou que o conduza ao erro em relação a qualquer dado do 
produto ou serviço. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 79
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O núcleo da definição de propaganda enganosa é a indução do consumidor 
ao erro. A propaganda ilícita é considerada um ilícito civil mas há, no caso, pre-
sunção de culpa por parte do fornecedor. A exoneração da responsabilidade 
apenas decorrerá da prova da existência de caso fortuito, mas tal entendimen-
to não é uníssono na doutrina. Ainda, alguns ponderam que a publicidade en-
ganosa não dispensa a prova de dolo por parte do fornecedor.
Um possível problema é determinar aquilo que deve ser considerado como 
verdadeiro ou falso na mensagem publicitária, posto que é possível uma má 
interpretação por parte do público consumidor. Assim, é preciso ter em mente 
que um dado essencial é aquele que influi ou pode influir na escolha do consu-
midor; aquele dado que, se estivesse na mensagem publicitária, poderia levar 
o consumidor a um comportamento diferente. Portanto, o que importa para 
caracterizar uma publicidade como enganosa é a percepção do consumidor 
leigo e, também, vulnerável. Desta maneira, a previsão da indução do consumi-
dor ao erro visa proteger sua confiança frente à promoção da atividade publici-
tária do fornecedor (MIRAGEM, 2016).
Conforme dita o artigo 38 da Lei 8.078/90, o ônus da prova da veracidade 
e correção da informação veiculada 
cabe a quem a patrocina. Se observa-
do em conjunto ao artigo 60 do mes-
mo diploma legal, que impõe a sanção 
da contrapropaganda sempre às ex-
pensas do infrator e, ainda, ao artigo 
67, relativo às sanções penais, isto nos 
leva a indagar a extensão da responsa-
bilidade pela propaganda enganosa. A questão gira em torno da responsabili-
dade não apenas do fornecedor, mas também dos demais sujeitos que partici-
param da criação, produção e divulgação da mensagem publicitária. 
Sabemos que cabe ao fornecedor a responsabilidade pela guarda dos da-
dos técnicos relativos ao produto ou serviço por ele oferecidos no mercado 
de consumo, assim como é ônus que incumbe ao fornecedor a prova da vera-
cidade das informações. O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento no 
sentido de não afastar os demais integrantes da cadeia de consumo, conforme 
preceitua o artigo 7° da Lei 8.078/90.
DIREITO DO CONSUMIDOR 80
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Mas parte da doutrina, em especial Bruno Miragem, entende que o trata-
mento dispensado às agências de publicidade e aos veículos de comunicação 
deve ser diverso. Os argumentos giram em torno da inadequação da cadeia de 
fornecimento a esses entes, posto que a introdução de um produto ou servi-
ço no mercado não depende de publicidade nem de sua promoção nos veícu-
los de comunicação (MIRAGEM, 2016) e, portanto, tais entes não se qualifi cam 
como fornecedores e estariam excluídos da responsabilidade objetiva, que é a 
regra no Código de Defesa do Consumidor. 
Essa exclusão não signifi ca a ausência de responsabilidade, mas apenas que 
sua responsabilidade fi gura entre os regimes comuns, consoante o que dispõe 
o artigo 186, na modalidade subjetiva, ou no artigo 187, na modalidade objetiva 
por abuso de direito, ambos do Código Civil em vigor.
A publicidade abusiva
A publicidade abusiva, modalidade de publicidade ilícita, é aquela que 
se apresenta como discriminatória, que incita a violência, explora o medo 
ou a superstição, se aproveita da defi ciência de julgamento e experiência da 
criança, desrespeita valores ambientais, ou ainda, que seja capaz de induzir 
o consumidor de forma perigosa ou prejudicial à sua saúde ou segurança, 
conforme preceitua o artigo 37, parágrafo 2° da Lei 8.078/90. Notamos que 
tanto a publicidade contrária à boa-fé e aos bons costumes e que incita com-
portamentos prejudiciais quanto aquela que viola os artigos 3°, IV e 5°, caput 
da Constituição Federal se enquadram nesse conceito.
A publicidade abusiva é conceito indeterminado e, portanto, será deter-
minado apenas na análise do caso concreto, e quando os juízes ou demais 
autoridades que atuam na defesa do consumidor identifi carem a abusividade 
das mensagens publicitárias. 
É importante frisar que a publicidade abusiva atinge toda a co-
munidade, e não apenas os consumidores que tenham 
sido diretamente ofendidos. Há nela um caráter difuso, 
que decorre mesmo dessa espécie, e acaba por induzir 
ao recurso das tutelas coletivas. Assim, os artigos 56, 
XII, e 60 da Lei 8.078/90 se revelam importantes.
DIREITO DO CONSUMIDOR 81
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Princípios da publicidadeOs princípios fundamentais da publicidade são o princípio da identifi cação, o 
princípio da veracidade e o princípio da vinculação. 
O princípio da identifi cação tem assento no artigo 36 da Lei 8.078/90, que 
estabelece que toda a publicidade deve ser veiculada de forma que o consumidor, 
de maneira fácil e imediata, a consiga identifi car como tal. Em virtude do exposto 
no artigo, o fornecedor tem o dever de caracterizar a publicidade, que deve ser 
apresentada de modo que o público possa identifi cá-la.
Assim, em consonância ao princípio da boa-fé e seus deveres anexos de leal-
dade e transparência, do qual decorre o princípio da identifi cação, é que há a ne-
cessidade de ser possível a distinção, em determinado veículo de comunicação, da 
publicidade das demais informações. Tal necessidade é corroborada pelo artigo 28 
do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. 
Sabemos que as técnicas de marketing se desenvolveram e que cada vez mais 
inovam nas maneiras de divulgação 
da mensagem publicitária, o que pode 
acarretar em violações ao princípio 
da identifi cação. Essa é a razão para 
reforçarmos que a facilidade e reco-
nhecimento imediato da mensagem 
publicitária não devem exigir um alto 
nível de conhecimento ou intelectual do 
consumidor. Esse é o sentido da lei. Isso 
posto, as técnicas que violam o princípio 
da identifi cação são as publicidades dis-
simulada, clandestina e subliminar. 
Já o princípio da veracidade atesta que a mensagem publicitária contenha 
somente informações corretas e verdadeiras sobre o produto ou serviço, e está 
diretamente ligado ao direito à informação do consumidor. Não se deve confun-
dir a veracidade com a neutralidade ou a isenção da publicidade, posto que esta 
tem um objetivo econômico bem defi nido. Ademais, ainda que se admita um certo 
caráter tendencioso da publicidade, o limite é o dever de informação (MIRAGEM, 
2016); portanto, não podem haver omissões quanto às informações essenciais. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 82
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Urge ainda ressaltar que alguns consumidores gozam de situação especial, 
como é o caso de idosos e crianças. Não é incomum que mensagens publicitárias 
destinadas a crianças contenham motivos fantasiosos, como carros que voam e 
super-heróis. O que o Código busca não é limitar a criatividade da mensagem, mas 
sim a utilização de artifícios que se baseiam na falta de discernimento das crian-
ças. A violação a esse princípio se caracteriza como publicidade enganosa, que 
está disciplinada no artigo 37, parágrafo 1° da Lei 8.078/90. O reconhecimento da 
publicidade enganosa independe de culpa e, portanto, basta a demonstração da 
violação do dever imposto. 
Por fim, o princípio da vinculação determina a obrigatoriedade de cumpri-
mento, pelo fornecedor, da oferta publicitária veiculada. As consequências dessa 
vinculação estão descritas no artigo 35 da Lei 8.078/90 e significam a livre escolha 
do consumidor, seja ao exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos 
da oferta, apresentação ou publicidade ao aceitar outro produto ou serviço equi-
valente; ao rescindir o contrato com a restituição das quantias pagas antecipada-
mente; ou, ainda, as perdas e danos decorrentes.
Princípio da
identificação
Princípio da
boa-fé, lealdade
e transparência
Violação - publicidade
enganosa
Obrigatoriedade
no cumprimento da
oferta
Princípio da
vinculação
Princípio da
veracidade
Figura 2. Princípios da publicidade e suas características.
DIREITO DO CONSUMIDOR 83
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A prova da verdade e correção do desvio publicitário
A alegação de que a publicidade é enganosa ou abusiva tem como efeito a 
imposição ao anunciante de provar o inverso, ou seja, de provar que a publicidade 
não se enquadra em nenhuma dessas situações previstas pela norma consume-
rista. O artigo 38 da Lei 8.078/90 estabelece que o ônus da prova da veracidade e 
correção da informação publicitária cabe a quem as patrocina.
Por certo, a jurisprudência brasileira consolidou o entendimento de que há, em 
virtude do disposto no artigo 38 da Lei 8.078/90, uma inversão ope legis do ônus 
da prova. Desse modo, o fornecedor não se benefi cia ao não provar a excludente 
de caso fortuito, de modo que não cabe ao fornecedor o benefício da omissão.
Todavia, há alguma divergência quando se trata da responsabilidade do veícu-
lo de comunicação e o ônus da prova. Nesse caso, é preciso uma leitura em con-
junto ao artigo 36 da Lei 8.078/90, de modo que o ônus de provar a veracidade e a 
correção, ou seja, a ausência da abusividade, é do fornecedor anunciante, daquele 
que detém em seu poder os dados fáticos, técnicos e científi cos que sustentam a 
informação publicitária. 
Já o princípio da correção do desvio publicitário impõe a contra-
propaganda nos casos em que essa é considerada abu-
siva ou enganosa, e deve ser divulgada nos mesmos 
moldes que a anterior, ou seja, deve ser divulgada 
pelo responsável da mesma forma, frequência, 
dimensão, preferencialmente no mesmo veículo, 
local, espaço e horário, conforme estipula o artigo 60 
da Lei 8.078/90.
Dos bancos de dados e cadastros
Frente à sociedade do consumo em massa, a organização por parte dos 
fornecedores das informações pessoais e econômicas dos consumidores é ne-
cessária, assim como também o é a proteção ao consumidor para evitar o uso 
abusivo dessas informações. O Código de Defesa do Consumidor reconhece os 
bancos de dados e cadastros, e, em virtude desse reconhecimento e da prote-
ção ao consumidor como fundamento, disciplina-os. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 84
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É importante ressaltar ainda que o Código de Defesa do Consumidor esta-
belece os critérios e limites para esses bancos de dados e cadastros, sempre 
em consonância com a prática internacional e com a Constituição Federal na-
quilo que diz respeito à proteção à intimidade e privacidade.
A expressão de arquivos de consumo é gênero do qual são exemplos os ban-
cos de dados e cadastros. Esses arquivos têm em comum o armazenamento de 
informações sobre terceiros para uso em operações de consumo. Assim, o legis-
lador preferiu os disciplinar de maneira genérica no artigo 43 da Lei 8.078/90, 
mas previu o acesso do consumidor às informações pessoais sobre si próprio 
nesses arquivos. Ele estabeleceu ainda o dever de veracidade das informações 
armazenadas, permitindo a correção de eventuais inexatidões, e condicionou a 
inscrição nos arquivos à comunicação por escrito ao consumidor.
• Coleta de informações aleatória, organização das informações, transmissibilidade externa 
das informações, ausência de autorização ou conhecimento por parte do consumidor
• Coleta de informações não aleatória, acessoriedade das informações, transmissibilidade 
interna das informações, autorização ou conhecimento por parte do consumidor
BANCO DE DADOS DE CONSUMIDORES
CADASTRO DE CONSUMIDORES
Figura 3. O banco de dados de consumidores e o cadastro destes.
Os bancos de dados e cadastros, assim como as entidades de proteção ao 
crédito, são equiparadas a entidades de caráter público, conforme prevê o artigo 
43, em seu parágrafo 4° da Lei 8.078/90. Assim, é possível ao consumidor a utili-
zação do remédio constitucional do habeas data para garantir o acesso aos seus 
dados pessoais.
O respeito aos direitos fundamentais dos consumidores, em especial o di-
reito à privacidade e honra, é o cerne quando se trata de arquivos de consumo. 
Desta maneira, a inscrição indevida em bancos de dados tem potencial ofensivo 
à honra do consumidor. Infelizmente, ainda é comum o registro de consumido-
res mesmo que estes tenham cumprido suas obrigações como inadimplentes. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 85
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Outras potenciais violações podem ocorrer, mas algumas são mais difíceis de seidentificar, como, por exemplo, a comercialização dos cadastros dos consumidores. 
Esses cadastros são utilizados para a criação de perfis de consumidores e de consu-
mo e a ideia é, a partir desses dados, criar estratégias personalizadas para fomen-
tar o consumo. Sabemos que os direitos da personalidade devem ser indisponíveis, 
conforme preceitua o artigo 11 do Código Civil.
É importante ter em mente que as informações coletadas não são de mesma 
categoria. Nesse espectro de coleta, os bancos de cadastro e dados têm acesso a 
informações de caráter público, pessoais de interesse público e os chamados dados 
sensíveis. Nesse sentido, as informações públicas são aquelas de interesse de toda a 
sociedade e, portanto, cobertas pelo direito à informação. As informações pessoais 
de interesse público são relativas ao consumidor e servem para sua identificação, 
tais como nome e domicílio. Já as informações sensíveis indicam situações da es-
fera íntima do consumidor, como sua situação econômica e orientação sexual, por 
exemplo.
Os bancos de dados existem em duas espécies. Há os bancos de dados que ar-
quivam e mantêm informações do comportamento de consumo, também conhe-
cidos como bancos de cadastros restritivos. Essas informações, em geral, condicio-
nam o acesso dos consumidores ao crédito ou mesmo o impedem. Mas há também 
os bancos de dados de informações positivas. Esses bancos atestam, por exemplo, 
que o consumidor é um bom pagador. O acesso a essas informações reduz os riscos 
de inadimplemento, embora estes não possam ser utilizados como condição à con-
tratação, sob pena de violação do diploma consumerista por enquadramento nas 
práticas abusivas.
O Brasil possui alguns bancos de cadastros principais, tais como o Serviço de 
Proteção ao Crédito, mantido pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas 
(CNDL), o SERASA e o Cadastro de Cheques sem Fundo, mantido pelo Banco Central 
do Brasil (BCB).
Especialmente na sociedade da informação, as questões referentes à privaci-
dade dos consumidores não são simples. Sabemos da necessidade de autorização 
dos consumidores para o uso de seus dados gerais, mas importa relembrarmos que 
hoje é usual que essas autorizações sejam realizadas por opção de preenchimento 
automático. É necessário informar adequadademente os consumidores, esclare-
cendo a extensão dessa utilização de dados para que a autorização seja consciente. 
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CURIOSIDADE
No Brasil, entrou em vigor no dia 18 de setembro de 2020 a Lei Geral de Proteção 
de Dados (LGPD). A promulgação da lei foi muito comemorada, embora muitas 
postergações à sua entrada em vigor tenham ocorrido. Inspirada no Regula-
mento Geral de Proteção da Dados na União Europeia (GDPR), o Brasil se junta 
ao rol de países que contam com a proteção aos dados pessoais em seu orde-
namento. Ainda repleta de dúvidas, sua aplicação será um desafi o em um país 
com excesso de judicialização. 
Qualquer inclusão do consumidor em cadastros, ainda que não dependa de 
seu consentimento prévio e quando não for por ele solicitada, deve ser comunica-
da por escrito ao consumidor, conforme prevê o Código de Defesa do Consumidor 
na forma do parágrafo 2° do artigo 43 da Lei 8.078/90.
Dos bancos de dados e cadastros: a cobrança de dívidas
Cobrar dívidas é algo comum e esperado em uma sociedade de consumo. 
Assim, é preciso saber que essa cobrança decorre de um direito do fornece-
dor, o crédito, frente a um consumidor que esteja inadimplente. Muitos são os 
instrumentos de cobrança judiciais e extrajudiciais, mas cabe ao artigo 42 da 
Lei 8.078/90 disciplinar essa cobrança para que ela seja realizada dentro dos 
limites legais e sem apresentar contornos abusivos.
A cobrança judicial, o protesto cambial ou mesmo a utilização de mecanis-
mos alternativos de solução de con-
fl itos não são vedados pelo Código 
de Defesa do Consumidor, e o artigo 
42 disciplina limites e barreiras a fi m 
de evitar o abuso. Isso posto, o abuso 
pode ser conceituado como um exces-
so, a apresentação desmedida de uma 
pretensão, ou seja, quando o titular 
excede os limites impostos pelo fi m 
econômico ou social, pela boa-fé ou 
pelos bons costumes, de acordo com 
o artigo 187 do Código Civil (GIANCOLI; 
ARAUJO JUNIOR, 2012). 
DIREITO DO CONSUMIDOR 87
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Ao consumidor, mesmo na cobrança de suas dívidas, é assegurado o respeito 
à sua dignidade, à inviolabilidade da vida privada e à preservação da honra e 
imagem. A abusividade na cobrança pode ocorrer em decorrência de uma ação 
do próprio fornecedor ou de terceiro, seja pessoa física ou jurídica, que realize 
a atividade de cobrança para o fornecedor. É importante ressaltar que, também 
quanto à cobrança de dívidas, aqueles que estão expostos às suas práticas, ain-
da que não sejam consumidores diretos, são considerados consumidores equi-
parados, conforme disciplina o artigo 29 da Lei 8.078/90. 
Em virtude de sua técnica legislativa, o Código de Defesa do Consumidor não 
especifica todas as práticas abusivas possíveis na cobrança de dívidas, nem tam-
pouco suas formas e instrumentos, o que lhe confere uma plasticidade de inter-
pretação. No entanto, é possível em uma leitura conjunta ao artigo 71 do Código 
de Defesa do Consumidor delinear algumas de suas práticas. Dessarte, o abuso 
poderá se configurar em razão de um ato ou fato com conteúdos incorretos ou 
enganosos capaz de expor ao ridículo o consumidor ou sujeitá-lo a constrangi-
mento, ameaça ou coação que interfiram em seu trabalho, descanso ou lazer.
DIAGRAMA 2. PRÁTICAS ABUSIVAS NA COBRANÇA DE DÍVIDAS
Cobrança ridicularizante 
Consumidor alvo de escárnio,
zombaria, deboche
- imagem e honra
Cobrança constrangedora
Violência que expõe o
consumidor a algo indesejado
- ato físico ou moral
Cobrança com interferência
na atividade laboral, descanso
e lazer - capaz de causar coação
Cobrança ameaçadora
Qualquer ameaça fora do
exercício regular do direito
Cobrança coativa
Temor de dano - resulta
da pressão física ou psicológica
A cobrança de dívidas que extrapola os limites previstos em lei tem como conse-
quência a possibilidade de indenização, ao consumidor, pelos danos decorrentes da 
ilicitude. Para além da sanção civil, o Código de Defesa do Consumidor prevê tam-
bém a sanção administrativa e penal, mas não apenas: outra consequência dessa 
ilicitude é a repetição do indébito, ou seja, se cobrado indevidamente o consumidor 
tem o direito de requerer a devolução da parcela de seu patrimônio, acrescido de 
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juros e correção monetária. Mas a repetição do indébito apenas ocorre caso o con-
sumidor tenha realizado o pagamento para a repetição em dobro, disciplinada no 
parágrafo único do artigo 42 da Lei 8.078/90. Assim, a sanção é aplicada nos casos 
em que a cobrança indevida foi realizada acrescida de pagamento em excesso.
Em 2009, a Lei 12.039 acrescentou o artigo 42-A ao Código de Defesa do Con-
sumidor. Tal dispositivo exige a identifi cação do fornecedor nos documentos de 
cobrança. Este artigo, sem dúvidas, age em benefício da ampla informação ao con-
sumidor.
Dos bancos de dados e cadastros: dos órgãos de 
proteção ao crédito
Muitos consumidores conhecem apenas um dos órgãos de proteção ao crédito – o 
SPC. No entanto, existem diversos outros órgãos de proteção ao crédito que prestam 
serviços aos credores. O SPC, ou Serviço de Proteção ao Crédito, é um banco de dados 
privado de informação de crédito alimentado, bem como gerido, pelas associações 
comerciais e câmaras de dirigentes lojistas fi liadas à Confederação Nacional de Diri-
gentes Lojistas. As informações entre esses bancos de dados são realizadas pela Rede 
Nacional de Informações Comerciais, a RENIC. Por serem muito completos os dados 
existentes no SPC,a maior parte dos credores ou empresas o consultam.
Já a Serasa Experian analisa as informações e dá apoio a negócios. Constituída 
como empresa privada, possui um dos maiores bancos de dados do mundo e, assim 
como o SPC, é reconhecida como entidade de caráter público, conforme dispõe o pa-
rágrafo 4°, do artigo 43 da Lei 8.078/90. Em seus bancos de dados estão armazenadas 
informações sobre empresas e consumidores, dívidas vencidas e não pagas, protes-
tos de títulos, ações judiciais e cheques sem provisão de fundos. Essas informações 
são fornecidas a bancos, comércios e pequenas, médias e grandes empresas.
Por sua vez, o Cadastro de Emitentes de Cheque sem Fundo do Banco Central, 
ou CCF, mantém os cadastros dos consumidores que emitem 
cheques sem provisão de fundos. Por fi m, o SCPC, ou Ser-
viço Central de Proteção ao Crédito, da Associação Co-
mercial de São Paulo, fornece informações a todo o país, 
não apenas ao Estado de São Paulo, e é muito utilizado 
para análise e concessão de crédito aos consumidores.
DIREITO DO CONSUMIDOR 89
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A proteção contratual
A sociedade do consumo em massa trouxe impactos, mesmo na disciplina 
dos contratos. Assim, essas relações passaram a se dar também em massa, 
com modelos contratuais impessoais e padronizados. Essa nova modalidade 
contratual, hoje, é regra nas relações de consumo e altera de modo substancial 
o clássico princípio da autonomia da vontade. 
Com a necessidade de proteção aos mais vulneráveis, nessas relações uma 
nova concepção contratual surge com o intuito de trazer maior equilíbrio. É a 
partir disto que notamos uma maior intervenção estatal nas relações privadas, 
o que sugere ao menos um maior dirigismo contratual.
Passamos a vislumbrar a realização da equidade contratual, a função social 
do contrato, e este deixa de ser visto apenas como um instrumento de autor-
regulamentação da vontade. 
A proteção contratual: as formas de contratação
Dentre as técnicas de contratação em massa, a que hoje se destaca é o 
contrato realizado a distância no comércio eletrônico. Embora o Marco Civil 
da Internet regule esse espaço, ele não o faz com relação aos contratos de 
consumo, o que fi cou a cargo do Código de Defesa do Consumidor. Dentre os 
fundamentos da Lei 12.965/14, a defesa do consumidor está presente, assim 
como aquilo que concerne à transparência e à informação. Não há, dentre os 
princípios que regulam a internet no Brasil, nenhuma específi ca proteção ao 
consumidor; mas o Marco Civil da Internet assegura o diálogo das fontes com o 
Código de Defesa do Consumidor. 
Nessa modalidade de contratação, que ocorre a distância, dois novos fenô-
menos são acrescidos aos contratos de massa: o espaço, porque torna ainda 
mais vulnerável o consumidor ante uma maior despersonalização do contrato, 
e a própria virtualização, uma vez que o contrato em si se torna virtual.
A contratação no comércio eletrônico também se vale dos contratos de ade-
são. Mas esta se constitui, no geral, em obrigações de dar, confi gurando-se 
como contratos de prestação imediata, diferente daqueles cativos de longa 
duração. O que há de novo é o meio utilizado, o meio eletrônico.
DIREITO DO CONSUMIDOR 90
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Contratos eletrônicos
1 - De acesso técnico às redes eletrônicas
2 - De venda on-line
3 - De bens informacionais
4 - De prestação de serviço on-line
Figura 4. Os contratos eletrônicos.
EXPLICANDO
A teoria dos contratos cativos de longa duração tem como objetivo a 
proteção do consumidor nas situações em que este fi ca vinculado ao 
fornecedor em um contrato de longa duração. O consumidor se torna 
cativo ao celebrar um contrato de trato sucessivo, no qual se nota uma 
dependência deste ao objeto do contrato, de maneira que o rompimento 
da relação contratual traga prejuízos ao consumidor. Esses contratos não 
podem ser alterados unilateralmente e nem de maneira abrupta, de modo 
que é necessário conceder muitas vezes um prazo para o consumidor se 
adequar a novos custos, por exemplo.
A proteção contratual: os contratos de adesão
Os contratos de adesão são aqueles que têm como característica cláusu-
las preestabelecidas de forma unilateral pelo parceiro contratual em posição 
econômica superior, ou seja, o fornecedor, no caso dos contratos de consumo, 
sem que o outro parceiro, o consumidor, possa modifi car substancialmente ou 
mesmo discutir o conteúdo do contrato escrito.
DIREITO DO CONSUMIDOR 91
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A apresentação desses contratos se dá de maneira escrita, sendo este em 
geral estandardizado e impresso, e ao consumidor resta apenas o preenchi-
mento de lacunas com algumas informações pessoais, como nome completo, 
endereço e cadastro de pessoa física, bem como dados sobre o produto ou 
serviço adquirido, como preço e condições de pagamento.
Diante dessas características e da forma de apresentação, diz-se que ao 
consumidor não resta outra opção que não seja a de aceitar o contrato em 
bloco. Notamos, portanto, a ausência de negociação nesses contratos, em que 
o consentimento do consumidor é expresso apenas pela aceitação daquilo que 
já está posto.
Contratos de adesão
Sua elaboração é prévia e unilateral
Contratos de adesão
Sua oferta é uniforme e de caráter geral,
dirigida a uma quantidade indeterminada
de consumidores
Contratos de adesão
Seu consentimento se dá por simples 
adesão à vontade do fornecedor
manifestada
Figura 5. Características dos contratos de adesão.
Há uma verdadeira assimetria de forças nos contratos de adesão. Se não 
conseguimos imaginar uma sociedade de consumo em que os contratos se-
jam negociados previamente um a um entre as partes da relação de consumo, 
nasce a necessidade de maior proteção daquele especialmente vulnerável.
DIREITO DO CONSUMIDOR 92
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CURIOSIDADE
Mesmo as concessionárias de serviços públicos utilizam os contratos 
em massa, e o próprio poder público acaba por predispor as cláusulas 
que serão oferecidas pelos concessionários aos consumidores. A lei, ou 
mesmo um regulamento administrativo, também pode determinar o con-
teúdo de alguns contratos naquilo que chamamos de contratos dirigidos 
ou contratos ditados.
FORNECEDOR
CONSUMIDOR
Figura 6. A balança representa a assimetria nos contratos de adesão, em que a posição do fornecedor é de superio-
ridade econômica, e, portanto, consegue estipular as cláusulas contratuais que deverão ser aceitas em bloco pelo 
consumidor. 
A formação dos contratos de adesão se dá somente com o consentimento 
do consumidor. Como são escritos, o consentimento do consumidor deve ocor-
rer do mesmo modo, mas é importante frisarmos que o contrato de adesão 
não é uma nova modalidade contratual, apenas um método de contratação 
recorrente na sociedade atual. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 93
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A proteção contratual/contratos: transparência e 
interpretação
O princípio que irá reger a formação do contrato nas relações de consumo é 
aquele descrito no artigo 4° caput da Lei 8.078/90, o princípio da transparência. 
É por meio desse princípio que podemos esperar uma relação menos danosa 
ao consumidor. A transparência pode ser defi nida como clareza e informação 
sobre importantes situações no contrato entre as partes, as quais não recaem 
apenas sobre as qualidades e características dos produtos e serviços ofereci-
dos, mas também sobre o conteúdo das cláusulas contratuais.
O consumidor tem o direito à informação, previsto pelo Código de Defe-
sa do Consumidor, de modo que podemos notar uma inversão no tocante à 
vantagem. Se de fato o fornecedor tem a posição econômica mais forte em 
relação ao consumidor, este, por sua vez, tem o direito de exigir a informação 
adequada e clara sobre os produtos e serviços e sobre as obrigações quepo-
derá assumir.
É preciso destacar que o princípio da transpa-
rência não deve ser sentido apenas no momen-
to pré-contratual, mas deve também estar 
presente mesmo na conclusão do contrato, 
posto que é mais que mero requisito formal. Ele 
afeta o contrato e integra o conteúdo do mesmo 
(MARQUES, 2016). Portanto, são seus claros refl exos 
o dever de informar, seja pela oferta, clara e precisa, seja pelas 
condições do contrato.
Princípio da equivalência contratual
O artigo 4°, inciso III, da Lei 8.078/90, deixa claro que o contrato realizado 
entre o consumidor e o fornecedor deve observar o equilíbrio de direitos e 
deveres entre as partes para que se alcance a justiça contratual, o chamado 
princípio da equivalência contratual. Deste modo, se veda a utilização de cláu-
sulas abusivas que assegurem vantagens exageradas e desproporcionais aos 
fornecedores de produtos e serviços em detrimento do consumidor.
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Essas vantagens, além de incompatíveis com o princípio da equivalência 
contratual, também o são com o princípio da boa-fé e a equidade, conforme se 
depreende da leitura do artigo 51, IV, da Lei 8.078/90. Mesmo que a vontade do 
consumidor seja manifestada de forma livre, esse não é mais o fator decisivo 
ao direito ante os valores insculpidos na norma, como o equilíbrio e a boa-fé 
nas relações de consumo (MIRAGEM, 2016).
O princípio aqui descrito é cogente, de modo que o Código de Defesa do 
Consumidor afasta e sanciona o resultado, ou seja, o desequilíbrio, e não exige 
qualquer ato reprovável por parte do fornecedor. Nesse sentido, ainda que a 
cláusula tenha sido aceita pelo consumidor, a mesma será considerada abusiva 
nos casos em que fere o princípio da equivalência contratual. 
O papel da lei é predominante em relação à vontade manifestada. A prote-
ção da liberdade de contratar daquele que é parte mais vulnerável na relação 
de consumo impõe novos riscos profissionais aos fornecedores, mas que não 
podem ser transferidos ao consumidor (MIRAGEM, 2016).
DIREITO DO CONSUMIDOR 95
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Sintetizando
Nessa unidade, pudemos analisar a publicidade sob a ótica do Código de 
Defesa do Consumidor em uma sociedade de consumo. Nesse ponto, estuda-
mos que a oferta na sistemática do Código de Defesa do Consumidor é vincu-
lante e cria para o consumidor o direito de exigir que ela seja cumprida nos 
moldes vinculados, sob pena de responsabilidade objetiva do anunciante. Ana-
lisamos ainda o instituto da publicidade ilícita em suas variantes: a publicidade 
enganosa, clandestina e abusiva, assim como suas consequências. 
Exploramos os princípios da publicidade: o princípio da identificação e sua 
ligação com a lealdade e a boa-fé, o princípio da veracidade, que nos casos em 
que não é observado gera a publicidade enganosa, e ainda o princípio da vincu-
lação da oferta. Ainda analisamos a prova da verdade e a correção do desvio e 
a inversão ope legis do ônus da prova.
Também compreendemos os conceitos dos diversos bancos de dados e ca-
dastros de consumidores. Iniciamos com os limites impostos pelo Código de 
Defesa do Consumidor à cobrança das dívidas, que são legítimas desde que 
dentro dos limites legais. Nesse ponto, vimos ainda os diferentes órgãos de 
cadastros e suas funções.
Por fim, vimos como a sociedade de consumo acabou por modificar a forma 
de contratação. Analisamos os contratos de adesão e a intervenção do Estado 
na autonomia privada, bem como suas características. Analisamos os princí-
pios da transparência e interpretação e sua estreita relação com o direito à in-
formação e os deveres anexos de boa-fé, bem como o princípio da equivalência 
contratual e a forma como a lei é predominante à vontade manifestada. 
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DIREITO DO CONSUMIDOR 97
SER_DIR_DIRCONSU_UNID3.indd 97 15/12/2020 12:03:35
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TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito mate-
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TJDFT – Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. SISTJWEB. 
Pesquisa Documentos Jurídicos. 2020. Disponível em: . Acesso em: 20 nov. 2020.
DIREITO DO CONSUMIDOR 98
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Sumário
Unidade 4 - As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de 
reflexão e arrependimento e a defesa do consumidor em juízo
Objetivos da unidade .........................................................................................................100
As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o prazo de reflexão e 
arrependimento...................................................................................................................101
As cláusulas abusivas ..................................................................................................101Empréstimos e financiamento .....................................................................................103
Compra e venda com pagamento do preço mediante prestações ................................... 105
Da defesa do consumidor em juízo: aspectos processuais das ações coletivas e 
individuais ...........................................................................................................................106
Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos .......................................108
A legitimidade ativa para propositura de ações coletivas .....................................110
Das ações judiciais .......................................................................................................112
Custas, despesas e honorários nas ações coletivas ..............................................114
A inversão do ônus da prova .......................................................................................115
A competência ...............................................................................................................117
Da coisa julgada nas ações coletivas .................................................................................. 118
Aspectos da litispendência e continência da ação coletiva com a ação individual ....................119
Liquidação ......................................................................................................................121
Sintetizando .........................................................................................................................123
Referências bibliográficas ...............................................................................................124
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AS COMPRAS 
FEITAS FORA DO 
ESTABELECIMENTO 
COMERCIAL: O PRAZO 
DE REFLEXÃO E 
ARREPENDIMENTO 
E A DEFESA DO 
CONSUMIDOR 
EM JUÍZO
4
UNIDADE
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Objetivos da unidade
Tópicos de estudo
 Apresentar aspectos das compras feitas fora do estabelecimento comercial, 
em especial, tratar dos prazos de reflexão e arrependimento;
 Abordar aspectos da defesa do consumidor em juízo, principalmente as 
ações coletivas;
 Abordar as ações coletivas e sua legitimidade ativa, a questão da coisa 
julgada, as custas e despesas, bem como a inversão do ônus da prova.
 As compras feitas fora do 
estabelecimento comercial: o prazo 
de reflexão e arrependimento 
 As cláusulas abusivas
 Empréstimos e financiamento
 Compra e venda com pagamento 
do preço mediante prestações
 Da defesa do consumidor em 
juízo: aspectos processuais das 
ações coletivas e individuais
 Os direitos difusos, coletivos e 
individuais homogêneos
 A legitimidade ativa para 
propositura de ações coletivas
 Das ações judiciais
 Custas, despesas e honorários 
nas ações coletivas
 A inversão do ônus da prova
 A competência
 Da coisa julgada nas ações 
coletivas
 Aspectos da litispendência e 
continência da ação coletiva com a 
ação individual
 Liquidação
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As compras feitas fora do estabelecimento comercial: o 
prazo de reflexão e arrependimento
O direito de arrependimento é disciplinado no artigo 49 da Lei nº 8.078/1990; 
a análise literal do caput do artigo em comento nos informa que o consumidor 
terá sete dias, contados a partir da assinatura do contrato ou do recebimento 
do produto ou serviço, sempre que a contratação ocorrer fora do estabeleci-
mento comercial – compras por telefone ou em domicílio. Quaisquer valores 
pagos, a qualquer título, durante o período de refl exão, deverão ser devolvidos 
ao consumidor e atualizados monetariamente para afastar a possibilidade de 
enriquecimento indevido pelo fornecedor.
Note-se que essa refl exão por parte do consumidor constitui-se aquilo que 
conhecemos como direito potestativo. Por tratar-se de exercício de direito re-
gular do consumidor, não há necessidade de justifi cação e, portanto, dessa 
atuação nenhum dano é causado ao fornecedor. 
Esse prazo de refl exão tem a clara conotação de proteção ao consumidor 
frente às agressivas situações de venda em domicílio e, hoje, on-line. É possível 
afi rmar que o Código de Defesa do Consumidor ao mencionar as vendas por 
telefone fez isso de modo exemplifi cativo, sem nenhuma pretensão de esgotar 
o tema, dessa forma, sendo possível a aplicação do direito de arrependimento 
nos casos de compras feitas no comércio eletrônico. 
EXPLICANDO
Os tribunais brasileiros entendem ser possível a aplicação de multa pelo 
Procon a fornecedores que repassam ao consumidor o ônus de arcar com 
despesas postais em decorrência do exercício do direito de arrependi-
mento previsto no artigo 49 da Lei nº 8.078/1990.
As cláusulas abusivas
Em consonância com o princípio da boa-fé e a função social do contrato, o 
Código de Defesa do Consumidor em seu artigo 51 traz um rol exemplifi cativo 
de cláusulas abusivas, consideradas pelo direito como nulas nos contratos de 
consumo. Instrumento de alta relevância em matéria de proteção contratual 
e que possibilita o controle do conteúdo dos contratos. A natureza exempli-
DIREITO DO CONSUMIDOR 101
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ficativa das cláusulas abusivas está explícita no caput do artigo 51 da Lei nº 
8.078/1990, e as situações descritas nos incisos seguintes ao caput do artigo 
exprimem a contrariedade à boa-fé, mas caberá ao juiz a análise meticulosa 
dos casos a ele submetidos para identificar outras cláusulas com essa caracte-
rística de abuso de direito contratual.
A caracterização do abuso de direito no Direito do Consumidor está vincula-
da a dois critérios essenciais: o status constitucional do consumidor como sujeito 
de direitos fundamentais e a presunção de sua vulnerabilidade (MIRAGEM, 2016, 
p. 377). No Direito Civil, o abuso de direito encontra assento no artigo 187, nos 
casos em que há violações de limites estipulados ou contrariedade à boa-fé. 
Há um evidente vínculo entre a vulnerabilidade do consumidor e o abuso de 
direito, o que tem como consequência algumas condutas adotadas pelos for-
necedores com feições abusivas. O artigo 51 revela a mitigação da força obri-
gatória dos contratos, demonstrando a intervenção na autonomia da vontade. 
É assim que as cláusulas que impossibilitem, exonerem ou atenuem a res-
ponsabilidade dos fornecedores por vícios dos produtos ou serviços são consi-
deradas nulas. Portanto, não apenas a exclusão total de responsabilidade dos 
fornecedores é nula, como também não tem validade a cláusula que atenue 
essa responsabilidade.
O reembolso de quantias já pagas pelo consumidor também não pode ser 
objeto de subtração; do mesmo modo que cláusulas que transfiram a respon-
sabilidade a terceiros são inadmitidas. 
Destacamos o inciso IV, do artigo 51 da Lei nº 8.078/1990, pela menção ao 
princípio da boa-fé e à equidade, de maneira que esse inciso é festejado pela 
doutrina brasileira por sua técnica de redação aberta e consagra uma cláusula 
geral sobre as cláusulas abusivas do Código de Defesa do Consumidor. 
Há na doutrina quem considere que o inciso em questão consagrou no 
direito brasileiro a cláusula geral da lesão enorme. O Código Civil de 2002 
disciplinou a lesão no capítulo destinado aos vícios de consentimento, mas 
tem feição subjetiva. 
Ressaltemos que no Direito do Consumidor, face ao reconhecido direito de 
manutenção do contrato, a nulidade das cláusulas, conforme previsto no artigo 
51 da Lei nº 8.078/1990, significa seu afastamento, mas não atinge a integrida-
de do contrato. Ou seja, a nulidade da cláusula não invalida o negócio jurídico 
DIREITO DO CONSUMIDOR 102
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de consumo realizado. O juiz ao afastar a aplicação de cláusula abusiva deve 
buscar a integração do contrato e, portanto, colmatar a lacunadeixada. Temos 
nesse caso a conservação do contrato em consonância com o direito básico do 
consumidor de manutenção do contrato.
Principais espécies de cláusulas abusivas
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula mandato.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula mandato.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula mandato.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula mandato.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusula exoneração de responsabilidade civil.
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula mandato.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de renúncia ou disposição de direitos.
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula mandato.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula mandato.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas que violem o equilíbrio contratual.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusulas potestativas.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusulas que imponham arbitragem compulsória.
• Cláusulasurpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
• Cláusulas de inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.
• Cláusula surpresa.las de limitação ou
• Cláusulas de decaimento, controle de cláusula penal e outros efeitos do inadimplemento.
QUADRO 1. LISTA DAS PRINCIPAIS ESPÉCIES DE CLÁUSULAS ABUSIVAS
Empréstimos e financiamento
Os contratos que envolvem crédito, sejam eles de mútuo, sejam eles de 
abertura de crédito rotativo, popularmente conhecidos como cheque espe-
cial, cartão de crédito, fi nanciamento para a aquisição de bem durável por 
alienação fi duciária ou reserva de domínio, empréstimo para a aquisição 
de imóveis ou quaisquer contratos de caráter fi nanceiro em que se possa 
identifi car uma relação de consumo, submetem-se ao artigo 52 da Lei nº 
8.078/1990.
O crédito para o consumo e sua massifi cação foram um 
avanço para os consumidores que passaram a 
ter acesso a uma gama de produtos e serviços 
que, de outra forma, isso não seria possível, 
no entanto, constituindo-se um desafi o ao 
Direito do Consumidor. E não é inexistente 
o esforço para conquistar os consumidores 
e atraí-los aos empréstimos e fi nanciamentos.
DIREITO DO CONSUMIDOR 103
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Esse aumento nas oportunidades de obten-
ção de crédito, contudo, agravou a situação de 
vulnerabilidade do consumidor e ainda nos 
trouxe a figura do superendividamento. O su-
perendividamento é a incapacidade do consu-
midor devedor de pagar as dívidas exigíveis em 
virtude do descontrole financeiro graças ao abuso 
do crédito ou situações de cunho familiar e pessoal imprevistas.
O artigo 52 da Lei nº 8.078/1990 deve ser lido em conjunto com 
o artigo 46 do mesmo diploma; nesse sentido, antes da celebração do contrato, 
o consumidor deve ter acesso às informações do conteúdo do contrato, com o 
claro objetivo de dar ao consumidor a oportunidade de escolha entre o crédito 
e a contratação à vista. Não basta o fornecimento de informações, portanto, 
é preciso ainda que estas sejam adequadas de acordo com as condições do 
consumidor, como o nível social, econômico etc.
Para os consumidores, devem ser informados, por exemplo, o preço em 
reais, vedada a contratação em moeda estrangeira, o montante e a taxa efetiva 
de juros. Sabemos que o valor total dos juros não deve ultrapassar os 12% ao 
ano, conforme preveem os artigos 406 e 591, ambos do Código Civil; a ideia da 
taxa efetiva de juros.
DIAGRAMA 1. O CRÉDITO FOI UM AVANÇO PARA OS CONSUMIDORES
OFERTAS DE CRÉDITO CONVENCIONAIS 
 - financiamento de bens de valor significativo
OFERTAS DE CRÉDITO VINCULADAS 
- aquisição de produtos duráveis
OFERTA DE CRÉDITO DE UTILIZAÇÃO IMEDIATA
- satisfação de necessidades urgentes do tomador
DIREITO DO CONSUMIDOR 104
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A taxa efetiva de juros tem estreita relação com a ideia de juros reais, 
e é importante diferenciá-la, por exemplo, da taxa nominal. Em um con-
trato de empréstimo pessoal, essas taxas são distintas, posto que a taxa 
efetiva dos juros engloba todos os ganhos financeiros da instituição com 
o empréstimo. Para cumprir o disposto no artigo 46 da Lei nº 8.078/1990, 
os consumidores devem ser informados das diferenças existentes entre 
esses dois conceitos.
A instituição financeira também deve informar ao consumidor acerca 
dos montantes legais a serem acrescidos, como impostos ou outros en-
cargos determinados por lei. Além desses encargos, as informações sobre 
o número e a periodicidade das prestações são essenciais e devem ser 
realizadas de maneira prévia. Ressalte-se que, nos contratos em que a 
obrigação não se extingue com a execução do contrato em seu termo – 
como no financiamento de imóvel pelo sistema financeiro de habitação 
–, o consumidor necessita ser informado sob pena de impossibilidade de 
exigir a obrigação.
Dos esclarecimentos obrigatórios ao consumidor, podemos ainda des-
tacar o total a pagar, com e sem o financiamento, a cláusula penal morató-
ria, que não impede a existência de multa penal compensatória e que será 
de no máximo 2% do valor da prestação.
A liquidação antecipada do débito pode ser realizada pelo consumidor 
com a devolução ou redução proporcional dos juros e demais encargos 
cobrados, como Direito do Consumidor, qualquer cláusula que preveja a 
renúncia do consumidor a essa redução, ainda que proporcional, é consi-
derada cláusula abusiva e, portanto, nula, sendo afastada sua aplicação.
Compra e venda com pagamento do preço mediante 
prestações
O artigo 53 da Lei nº 8.078/1990 disciplina a compra de móveis ou imó-
veis mediante o pagamento de prestações e proíbe o pacto comissório que 
faculte o fornecedor a fi car com o bem no caso de inadimplemento do deve-
dor consumidor, por certo, a compra a prestações não é a celebração com 
pagamento à vista. 
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Nas vendas realizadas a prestações em que a propriedade do consumidor é re-
solúvel, é vedada a estipulação de cláusula que determine a perda total das parce-
las pagas ao fornecedor, ainda que não seja mencionada a devolução das parcelas 
pagas, conforme estabelece o Decreto-lei nº 911/69.
O que se veda é a perda total das parcelas pagas, o que – sem dúvidas – traria 
uma vantagem exagerada ao fornecedor, mesmo que a pena pelo não cumpri-
mento da obrigação por parte do devedor consumidor seja possível. 
A restituição das parcelas pagas e o eventual desconto em razão das vantagens 
auferidas com o uso do bem aparecem disciplinados no parágrafo 3º, do artigo 53 
da Lei nº 8.078/1990, e se referem aos bens adquiridos em sistema de consórcio.
Ademais, o artigo em comento veda que os contratos de consumo sejam ex-
pressos em moeda diferente da moeda nacional corrente – o real. Destacamos 
que o Banco Central do Brasil havia autorizado o contrato de leasing com pessoas 
físicas, o que não signifi ca a autorização para que este seja feito em dólar ou outra 
moeda estrangeira, posto que a proibição decorre de norma e não pode ser auto-
rizada por portaria ou norma infralegal a essa equivalente.
EXPLICANDO
O Decreto-lei nº 911/1969 permite, em seu artigo 2º, a venda do bem alie-
nado fi duciariamente pelo credor para o pagamento do débito do devedor 
consumidor. Em caso de saldo positivo, este deverá ser revertido ao con-
sumidor, portanto, a retenção de valores pagos por parte do credor, nes-
ses casos, confi gura enriquecimento indevido, posto que, além das presta-
ções retidas, o credor pode alienar o bem para saldar o débito existente. 
Da defesa do consumidor em juízo: aspectos processuais 
das ações coletivas e individuais
A defesa do consumidor necessita não apenas dos novos direitos subjetivos 
estabelecidos, mas de um arcabouço que assegure a efetividade do que se en-
contra disciplinado no Código de Defesa do Consumidor. Além da defesa de seu 
direito como autor, o Código previu outros instrumentos e regras que ampliam 
a legitimação para agir e a efi cácia da coisa julgada (MIRAGEM, 2016, p. 695). As 
garantias processuais são as possibilidades de tornarem concretos e palpáveis 
os direitos materiais previstos na norma de defesa do consumidor.
DIREITO DO CONSUMIDOR 106
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A preocupação do legislador, por 
certo, é a efetividade do processo de 
proteção ao consumidor, não apenas 
a defesa processual em que o con-
sumidor é o autor da demanda, mas 
também qualquer atividade que este 
exerça em juízo, seja como autor, seja 
como réu, de maneira individual ou de 
maneira coletiva. Se não contassem 
com acesso efetivo à justiça, os direi-
tos materiais tornariam a norma de 
defesa do consumidor inoperante.
É preciso lembrar que a desigualdade existente entre os forne-
cedores e consumidores se reproduz no tocanteao acesso à jus-
tiça. Em geral, os fornecedores possuem uma orga-
nização, são litigantes habituais e juridicamente 
bem informados; em contrapartida, o consumi-
dor é um litigante ocasional e sem qualquer 
preparo jurídico prévio. Em um país com pro-
fundas desigualdades sociais há ainda outras 
vítimas dessa disparidade de maneira mais clara.
Essa é a razão para todo um capítulo dedicado às garantias processuais 
para conferir efetividade à defesa do consumidor. O Código de Defesa do Con-
sumidor, portanto, disciplina tanto as ações individuais quanto as ações coleti-
vas e ainda prevê um papel ativo do juiz no processo, posto que tem o dever de 
proteção sem deixar de observar a imparcialidade exigida.
Nesse sentido, tem-se o fortalecimento da posição do consumidor em juízo 
perante o fornecedor de produtos e serviços, o que exigiu a criação de técni-
cas, em especial, a ampliação das ações coletivas, com vistas a facilitar o acesso 
à justiça e minimizar as condições do consumidor em juízo.
Aplicam-se a essas demandas as regras processuais do Código de Processo 
Civil, porém com situações específicas, tais como a impossibilidade de denun-
ciação da lide – cujos objetivos claros são a celeridade processual, o regime 
especial do ônus da prova e os Juizados Especiais Cíveis.
DIREITO DO CONSUMIDOR 107
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Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos
Os direitos de primeira geração são os direitos civis e políticos, aqueles 
que compreendem as liberdades clássicas – do Estado Liberal 
– e correspondem a um dever de abstenção por parte do Esta-
do, ou seja, ressaltam o direito à liberdade. Os di-
reitos de segunda geração são os direitos sociais, 
econômicos e culturais, correspondem a um 
dever por parte do Estado e são compostos 
por liberdades positivas. Acentuam, portanto, 
o direito de igualdade.
Os direitos de terceira geração são aqueles fundados no princípio da 
solidariedade universal. 
A tutela coletiva em Direito do Consumidor tem dois grupos: o primeiro 
refere-se àquele em que se encontram os direitos transindividuais – os 
direitos difusos e coletivos – e o segundo são os chamados direitos indi-
viduais homogêneos. Para estudarmos a defesa do consumidor em juízo, 
é preciso diferenciá-los. Nos direitos transindividuais, que sejam titulares 
pessoas indeterminadas ou mesmo todas as pessoas, o bem da vida que 
os compõem não pode ser repartido entre todos como acontece com o 
direito ao meio ambiente sadio; de modo que são passíveis de proteção 
coletiva, mas a tutela pretendida não pode se dar em caráter individual. 
Quanto aos direitos individuais homogêneos, a titularidade do direito é 
individual – a cada um dos seus titulares, mas estes possuem uma origem 
comum. Em razão dessa origem comum e, por conta da economia proces-
sual, pode ser vantajosa a tutela coletiva.
O Brasil foi o primeiro país de civil law a disciplinar as ações coletivas 
(GRINOVER e colaboradores, 2019, p. 1144). 
QUADRO 2. ONDAS RENOVATÓRIAS DO DIREITO PROCESSUAL
Ondas renovatórias do direito processual
Assistência Judiciária Tutela de direitos difusos Modo de ser do processoAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência JudiciáriaAssistência Judiciária Tutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusosTutela de direitos difusos Modo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processoModo de ser do processo
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A tutela prevista no artigo 82 da Lei nº 8.078/1990 é 
aplicável tanto aos consumidores quanto às vítimas de 
danos, bem como a seus sucessores, posto que são 
amparados pelo artigo 91 do mesmo diploma legal.
Nas ações coletivas em defesa de direitos difusos ou 
coletivos, é possível a formulação de pedido de danos morais 
coletivos, mas estes são incompatíveis com os direitos individuais homo-
gêneos. Assim como nos direitos subjetivos individuais, nos direitos indi-
viduais homogêneos o dano material ou moral deve ser apurado individual-
mente. Contudo, é preciso compreender que dano moral é, por natureza, 
uma reparação a danos individuais sofridos, o que se indeniza no dano 
moral coletivo é a coletividade que teve sua moral atingida. Não podemos, 
portanto, confundir um possível dano moral coletivo – vinculado aos direi-
tos difusos ou coletivos – e um dano moral sofrido individualmente.
Se interesses difusos são aqueles em que há a indeterminação dos titu-
lares e a ausência de relação jurídica entre eles, e também em que o bem 
jurídico é indivisível, podemos dar como exemplos desses direitos a pro-
paganda enganosa ou abusiva, posto que afeta um número incalculável de 
pessoas sem qualquer relação jurídica base entre elas, a colocação no mer-
cado de produtos nocivos ou com alta periculosidade à saúde e segurança 
dos consumidores, atuação vedada pelo artigo 10 da Lei nº 8.078/1990. A 
demanda deve ser em benefício de todos os consumidores.
Os direitos coletivos, ou interesses coletivos, se encontram disciplinados 
no parágrafo único, II, do artigo 81 da Lei nº 8.078/1990, mas é necessário 
destacar que a relação jurídica base preexistente, conforme descrita no arti-
go em comento, não é a mesma que a relação jurídica decorrente 
da lesão. Se nos direitos difusos, a inexistência de relação base 
impossibilita a determinação dos titulares, nos di-
reitos coletivos ela se encontra presente.
Nos direitos individuais homogêneos 
também não se verifica nenhuma relação 
jurídica de base, mas tais interesses ou 
direitos devem ser decorrentes de uma ori-
gem comum. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 109
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Requisitos para o tratamento coletivo dos direitos individuais
• Homogeneidade
• Origem comum
• Homogeneidade• Homogeneidade• Homogeneidade
• Origem comum
• Homogeneidade
• Origem comum
• Homogeneidade
• Origem comum
• Homogeneidade
• Origem comum• Origem comum
QUADRO 3. OS REQUISITOS PARA O TRATAMENTO COLETIVO DOS DIREITOS INDIVIDUAIS
CURIOSIDADE
Em 1977, com a reforma da ação popular, os direitos difusos com ligações 
ao patrimônio ambiental lato sensu receberam a tutela jurisdicional. Já em 
1981, com a Lei nº 6.938, o Ministério Público passou a ter a titularidade das 
ações ambientais de responsabilidade civil e penal. Com a Lei nº 7.347/1985 
– Lei da Ação Civil Pública –, os interesses transindividuais, ligados ao meio 
ambiente e aos consumidores, passaram a receber tutela diferenciada, 
mudando a estrutura individualista do Código de Processo Civil.
A legitimidade ativa para propositura de ações coletivas
Na tutela individual, a legitimidade está disciplinada no artigo 18 do Novo 
Código de Processo Civil, nesse caso, 
a regra é a da legitimação ordinária, 
com o sujeito em nome próprio a de-
fender direito próprio. A litigância em 
defesa de direito de terceiro é permi-
tida ainda que de maneira ocasional, 
por isso denominada legitimação ex-
traordinária. Embora a legitimação 
extraordinária tenha nascido para os 
direitos individuais, é possível permitir sua adaptação aos direitos transin-
dividuais. Um dado importante para ser destacado é de que os legitimados 
coletivos não são titulares dos direitos que defendem.
A legitimidade ativa está prevista no artigo 82 da Lei nº 8.078/1990. Quanto 
à legitimidade do cidadão, esta é limitada à ação popular, prevista na Lei nº 
4.717/1965, conforme as hipóteses previstas na Constituição Federal, em seu 
artigo 5º.
DIREITO DO CONSUMIDOR 110
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Conforme prevê o artigo 82 da Lei nº8.078/1990, cabe, concorrentemente, ao 
Ministério Público, a União, os estados, os municípios e o Distrito Federal e ainda 
as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem 
personalidade jurídica, destinadas à defesa dos interesses e direitos protegidos 
pela norma consumerista, por fim, as associações legalmente constituídas há pelo 
menos um ano e que incluam nos seus fins institucionais a defesa dos interesses e 
direitos do Código de Defesa do Consumidor. 
A legitimidade do Ministério Público nas ações coletivas é extremamente re-
levante, visto que figura como o mais atuante dos legitimados. Uma das funções 
institucionais do Ministério Público é a promoção do inquérito civil e a ação civil 
pública, com o objetivo de proteção ao patrimônio público e social, ao meio am-
biente e a outros direitos difusos e coletivos.
Se há alguma polêmica quanto à legitimidade do Ministério Público é em torno 
da defesa dos direitos individuais homogêneos, tendo em vista que o artigo 129 da 
Constituição Federal não menciona essa possibilidade. O melhor entendimento é 
aquele em que o rol do artigo 129 é meramente exemplificativo e que a defesa dos 
direitos individuais homogêneos, por meio da ação coletiva, só foi prevista a partir 
de 1990, com a entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor.
DIAGRAMA 2. AÇÃO POPULAR – HIPÓTESES
Aç
ão
 p
op
ul
ar
 - 
hi
pó
te
se
s Anulação de ato lesivo ao patrimônio 
público ou de entidade de que o 
Estado participe
Anulação de ato lesivo à moralidade 
administrativa
Anulação de ato lesivo ao meio 
ambiente, ao patrimônio histórico e 
cultural
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A alteração na Lei nº 7.347/1985, realizada pela Lei nº 11.448/2007, incluiu a Defen-
soria Pública no rol dos legitimados à propositura da ação coletiva. Mesmo que algu-
ma divergência exista, entendemos pela possibilidade de ampliação na previsão do 
artigo 82 da Lei nº 8.078/1990, com fi m de possibilitar a Defensoria Pública ingressar 
na defesa de direitos coletivos em situações que envolvam o Direito do Consumidor.
DIAGRAMA 3. LEGITIMIDADE DO PARQUET PARA A DEFESA DE DIREITO INDIVIDUAL HOMOGÊNEO
Das ações judiciais
Quanto às ações judiciais individuais, é preciso destacar a regra da compe-
tência descrita no artigo 101 da Lei nº 8.078/1990. Sem dúvidas, o artigo 101, 
inciso I, coaduna-se com o mandamento de facilitação da defesa do consumi-
dor em juízo. Essa é a razão para que o ajuizamento das ações individuais seja 
possível no foro do domicílio do autor. Imaginar outra solução distinta da apre-
sentada pelo Código de Defesa do Consumidor seria forçar, por exemplo, que 
um consumidor, domiciliado em São Paulo, pudesse ser obrigado a mover ação 
em face do fornecedor de serviços em Manaus.
Dessa forma, aqueles contratos que prevejam foro de eleição e que difi cul-
tem o acesso à justiça do consumidor são inadmitidos. As cláusulas de foro de 
eleição são comuns em várias modalidades contratuais, mas é preciso lembrar 
que, no caso dos consumidores, a contratação não é realizada em paridade 
de posição, de modo que, em geral, os contratos de consumo se revelam sob 
a forma de contratos de adesão. Essa regra de competência relativa pode ser 
extremamente prejudicial ao consumidor.
Legitimidade do parquet para a defesa de direito individual homogêneo
Direito indisponível
Direito disponível que por sua importância e ou
extensão tenha repercussão social
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Ainda na defesa individual do consumidor, temos a ação de responsabilidade 
civil, prevista no artigo 101 da Lei nº 8.078/1990. Notamos a chamada vedação 
à denunciação da lide na ação de indenização movida pelo consumidor contra o 
fornecedor, expressa no artigo 88 da norma de defesa do consumidor, essa regra 
é motivo de exceção no artigo 101, inciso II, da Lei nº 8.078/1990, nos casos em 
que o réu possua seguro de responsabilidade poderá chamar o segurador, em 
que seja vedada a integração do Instituto de Resseguros do Brasil na demanda.
Há inovação por parte do Código de Defesa do Consumidor nessa matéria 
porque cria entre segurado e segurador uma solidariedade prevista em lei em 
benefício do consumidor. A sentença que condena ambos e, portanto, julga 
procedente o pedido constitui título executivo em favor do consumidor contra 
o segurado e o segurador. 
A denunciação à lide é, na sistemática do Código de Processo Civil, uma ação 
regressiva no mesmo processo e, dessa forma, decidida na mesma sentença. 
Contudo, conforme previsto no Código de Defesa do Consumidor, a execução é 
direta, fundada na sentença, nos casos em que ele foi chamado ao processo e 
até o limite do contrato. Por fim, se o réu for declarado em estado de falência, 
deverá ser intimado e informar a existência do seguro de responsabilidade.
A efetivação da tutela jurisdicional em defesa do consumidor conta ainda 
com o disposto no artigo 84 da Lei nº 8.078/1990. O Código de Defesa do Con-
sumidor admite que o juiz adote tutelas específicas para garantir o cumprimen-
to da obrigação ou até mesmo impedir o perecimento de direitos.
O artigo 84 ainda prevê a possibilidade de fixação de astreintes, multas diárias, 
ou até mesmo de outras medidas executórias, busca e apreensão, remoção de coi-
sas e pessoas, desfazimento de obra, impedimento de atividade nociva etc., que 
forcem aquele que está inadimplente a cumprir a obrigação pactuada.
A imposição da multa diária pelo juiz, seja de forma liminar, seja em sen-
tença, independentemente de requerimento por parte do autor da demanda, 
é medida coercitiva que não tem caráter reparatório (CAVALIERI FILHO, 2008, 
p. 289). A multa não tem o condão de impedir o credor para a realização da 
obrigação específica, nem o recebimento do equivalente monetário ou even-
tuais perdas e danos. O poder conferido ao juiz de estipulação dessa multa 
sem necessidade de requerimento não revela qualquer ofensa ao princípio da 
congruência – entre pedido e sentença. 
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Como dito, essas tutelas independem de requerimento do consumidor e, 
além de poderem ser concedidas tutelas liminarmente, existe a possibilidade 
de conversão da obrigação em perdas e danos. Os poderes do juiz foram, de 
fato, ampliados, e a concessão da antecipação de tutela deve estar baseada 
no relevante fundamento da demanda – verossimilhança e plausibilidade – e 
justifi cado receio de inefi cácia do provimento fi nal. 
Conversão da obrigação em 
perdas e danos
Conversão da obrigação em 
perdas e danos
Conversão da obrigação em 
perdas e danos
Frustada a tutela específi ca
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
ao adimplemento
Se o consumidor preferirFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi caFrustada a tutela específi ca
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
ao adimplemento
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
ao adimplemento
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
ao adimplemento
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
ao adimplemento
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
ao adimplemento
Impossível a obtenção do 
resultado prático equivalente 
ao adimplemento
resultado prático equivalente Se o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferirSe o consumidor preferir
QUADRO 4. ESSAS TUTELAS INDEPENDEM DE REQUERIMENTO DO CONSUMIDOR3ª gerações têm efi -
cácia positiva, de modo que obrigam o Estado a efetivar medidas para prote-
ção aos consumidores.
A promulgação do Código de Defesa do Consumidor se deve a mandamento 
constitucional expresso. Os direitos fundamentais são aqueles que encontram 
reconhecimento nas constituições, portanto, quando não há Constituição, não 
há direitos fundamentais. O artigo 5º da Constituição “impõe ao Estado o dever 
de promover, na forma da lei, o direito do consumidor”.
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Como direito fundamental, ele se revela uma conquista em direção ao 
desenvolvimento econômico, à livre iniciativa com o objetivo de assegurar a 
todos uma existência digna, conforme preceitua o art. 170 c/c 218 CF/88. Em 
nível constitucional, a preocupação com os interesses e direitos do consumidor 
transparecem ainda no art. 150 que, em seu § 5°, diz que “a lei determinará me-
didas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que 
incidam sobre mercadorias e serviços”, bem como no art. 175 que dispõe sobre 
os direitos dos usuários na prestação de serviços públicos.
DIAGRAMA 1. DIREITOS FUNDAMENTAIS ATÉ A QUINTA GERAÇÃO
Os princípios constitucionais de proteção ao consumidor
Os sistemas constitucionais contemporâneos, assim como o sistema jurídico 
brasileiro, são interpretáveis a partir de uma ideia de sistema hierarquicamente or-
ganizado. Desse modo, a intepretação de um texto infraconstitucional como o CDC 
é realizada a partir da Constituição, a fim de que o intérprete verifique a adequação 
e constitucionalidade das normas que analisa. É preciso ter a noção do sistema ju-
rídico no qual, dentre os elementos, estão as normas jurídicas, com uma estrutura 
formada pela hierarquia, pela coesão e pela unidade, bem como salientado por Nu-
nes, nas páginas 37 e 38 do livro Curso de direito do consumidor, editado em 2018.
O princípio republicano, positivado no art. 1° da Constituição, é o farol aos 
demais princípios constitucionais. A forma republicana de governo pressupõe 
1ª Geração - Direitos Civis e Políticos - Liberdade
5ª Geração - Proteção de Direitos no Mundo Digital
2ª Geração - Direitos Sociais, Econômicos
e Culturais - Igualdade
3ª Geração - Direitos Metaindividuais -
Fraternidade/Solidariedade
4ª Geração - Proteção do Patrimônio GenéticoDi
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um catálogo de liberdades em que se articulam as liberdades dos antigos – os 
direitos de participação política – e as liberdades modernas – os direitos de 
defesa individuais, apontados por Canotilho na página 227 de seu livro, Direito 
constitucional e teoria da Constituição, editado em 2003. A defesa ao consumidor 
enquadra-se na defesa da liberdade dos modernos, com a indispensável pre-
sença do Estado na tutela dos consumidores, os mais vulneráveis na relação.
A cidadania também é fundamento da República e está relacionada ao direito 
do consumidor quando se assenta na ideia de que as pessoas e a coletividade têm 
valores morais, costumes e direitos específicos, considerados direitos de cidadania 
aplicáveis a todos os indivíduos que, em outra vertente, se ligam aos consumidores 
quando exigem a ideia de igualdade em seu sentido formal, de acesso aos tribu-
nais, legislaturas e burocracia. O próprio Código de Defesa do Consumidor, em seu 
art. 5°, prevê a assistência jurídica integral e gratuita aos consumidores carentes.
A dignidade humana é o reconhecimento de que o ser humano é o limite e 
o fundamento do domínio político não pode ser objeto de desconsideração em 
momento algum, posto que é atributo intrínseco de todo ser humano, como exal-
tado por Norberto Bobbio na página 24 do livro Igualdade e liberdade, de 1997. A 
proteção ao consumidor relaciona-se à dignidade humana com embasamento na 
redução das desigualdades entre o consumidor e o fornecedor, protegendo sua 
integridade física e constando como um dos objetivos da Política Nacional de Defe-
sa do Consumidor, conforme se depreende da leitura do art. 4° da Lei nº 8078/90.
A construção de uma sociedade justa, livre e solidária é um dos objetivos da Repú-
blica e a proteção ao consumidor decorre dos valores democráticos. A necessidade 
de uma legislação protetiva propicia maior liberdade e igualdade diante de uma rela-
ção que nasce sem equilíbrio de forças. A liberdade é compreendida como a liberda-
de de escolha e de ação do consumidor e a liberdade de empreender do fornecedor.
A justiça identifica-se com a legalidade e um de seus clássicos significados 
também se liga à igualdade, condições para a instituição e conservação da or-
dem ou da harmonia como um todo. Como escrito na página 14 do livro de 
Bobbio, legalidade e igualdade são necessárias para realizar a justiça, contudo 
só são suficientes se pensadas em conjunto. Logo, as normas de proteção ao 
consumidor e os princípios de justiça estão conectados.
A solidariedade, que pode ser vista como um vínculo recíproco num grupo, 
significa que há uma consciência de pertencer ao mesmo fim, à mesma causa, 
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ao mesmo interesse, ao mesmo grupo, a despeito das diferenças existentes. Nas 
relações de consumo, a solidariedade é fundamental para atingir a igualdade real 
ou reduzir o abismo existente entre os fornecedores e consumidores, em especial 
quando as relações envolvem grupos mais fragilizados, como crianças e idosos.
O Código de Defesa do Consumidor: uma lei principiológica
O Código de Defesa do Consumidor trouxe inovações que influenciaram o 
sistema jurídico brasileiro. Seus efeitos positivos, como o desempenho educa-
tivo e transformador, estão associados à técnica legislativa adotada, baseada 
em princípios gerais, o que permite considerá-lo uma lei principiológica, como 
relatado na página 24 do livro de Cavalieri Filho. Todavia, para uma melhor 
compreensão, vale relembrar os conceitos de princípios e regras.
As normas jurídicas são divididas em duas categorias: regras e princípios. 
A sistematização de Ronald Dworkin, exposta das páginas 22 a 25 do livro Ta-
king rights seriously, de 1978, prevê que as regras são aplicadas num sistema de 
tudo ou nada porque ainda que uma regra possua exceções que podem ser 
enumeradas, são mais completas e estariam no enunciado da regra. Por sua 
vez, os princípios são aplicados de maneira diversa, em primeiro lugar porque 
as consequências legais não ocorrem de maneira automática e podem ter que 
ceder mediante a força ou o peso que apresentem.
Robert Alexy, no livro Teoria dos direitos fundamentais, de 2006, apresen-
ta uma teoria distinta, na qual os princípios se comportam como verdadeiros 
mandamentos de otimização, pois podem ser satisfeitos em graus variados e, 
no sentido de sua satisfação, dependem não apenas de condições fáticas, mas, 
também, de condições jurídicas. A doutrina brasileira tradicionalmente trata os 
princípios como “mandamentos nucleares” ou “disposições fundamentais de 
um sistema “, segundo relatado por Silva na página 611 de artigo publicado em 
2003 na Revista Latino-americana de Estudos Constitucionais.
Mesmo que a nomenclatura apresente algumas variações, os princípios 
continuam a ser entendidos como as normas fundamentais do sistema. No or-
denamento jurídico, as regras e os princípios possuem funções distintas. As 
primeiras têm a finalidade de estabelecer uma conduta adequada para hipóte-
ses específicas, sob a forma de subsunção – tudo ou nada.
Quanto aos princípios, eles desempenham múltiplas funções, com desta-
que à função estruturante. No aspecto conceitual, os princípios são “verdades 
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fundantes” de um sistema, segundo Miguel Reale na página 299 do livro Lições 
preliminares de direito, publicadoE, ALÉM DE PODEREM SER CONCEDIDAS TUTELAS LIMINARMENTE, EXISTE A 
POSSIBILIDADE DE CONVERSÃO DA OBRIGAÇÃO EM PERDAS E DANOS
Custas, despesas e honorários nas ações coletivas
As regras referentes às custas, despesas e honorários nas ações cole-
tivas são as mesmas existentes para as liquidações e execuções em geral. 
Conforme previsão legal, é dispensado ao autor da ação civil pública o 
adiantamento de custas processuais e há isenção da condenação das verbas 
de sucumbência, exceto nos casos de litigância de má-fé, em que existem a 
condenação em honorários e o décuplo das custas – artigo 17 da Lei da Ação 
Civil Pública.
A especialidade decorre da presença da Fazenda Pública nas execuções 
não embargadas. Diante de uma sentença coletiva e nos casos em que a 
liquidação e a execução forem coletivas, se não embargadas, não será pos-
sível condenar a Fazenda Pública ao pagamento de honorários advocatícios, 
se individual inaplicável pelas singularidades da execução.
De acordo com a Súmula 345/STJ: “são devidos honorários advocatícios 
pela Fazenda Pública nas execuções individuais de sentença proferida em 
ações coletivas, ainda que não embargadas” (Consultor Jurídico, 2019). 
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A inversão do ônus da prova
O ônus da prova é regra de julgamento, sua fi nalidade é defi nir a qual das 
partes cabe provar determinado fato e no momento da decisão faz com que o 
juiz penda a um lado ou ao outro, devido ao sucesso ou fracasso na prova do 
que interessa a cada uma das partes do processo.
As regras de distribuição do ônus da prova constam do artigo 373 do Novo 
Código de Processo Civil. O artigo determina que cabe ao autor o ônus de pro-
var os fatos constitutivos de seu direito; ao réu, cabe demonstrar as inverdades 
das alegações autorais por meio de prova. Caso não faça isso, estará em des-
vantagem se o autor comprovar suas alegações.
Há inovação no Novo Código de Processo Civil naquilo que nomeamos como 
distribuição dinâmica do ônus probatório. 
A inversão do ônus da prova existe em três espécies: a primeira chamada de 
convencional, porque é decorrente de um acordo de vontade entre as partes, 
desde que observadas as restrições constantes do Novo Código de Processo 
Civil, assim, não é possível realizar essa inversão nos casos de direitos indispo-
níveis ou tornar o exercício do direito muito difícil à parte. 
A segunda espécie é a inversão judicial do ônus probatório. A terceira é a 
inversão do ônus da prova legal, ou seja, decorrente da lei. Para sua aplicação, 
não há necessidade de preenchimento de nenhum requisito, nem mesmo do 
caso concreto em si. Decorre ope legis. Essa é a modalidade de inversão do 
ônus da prova presente no Código de Defesa do Consumidor, sendo possível 
observar em três passagens distintas do Diploma Consumerista.
DIAGRAMA 4. A MODALIDADE DE INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA ESTÁ 
PRESENTE NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR, SENDO POSSÍVEL 
OBSERVAR EM TRÊS PASSAGENS DISTINTAS DO DIPLOMA CONSUMERISTA
ART. 12, PARÁGRAFO 3°, DO CDC
ART. 14, PARÁGRAFO 3°, DO CDC
ART. 38 DO CDC
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A inversão judicial é aquela que encontramos no artigo 6º, inciso VIII, da Lei nº 
8.078/1990, nesse caso, a lei prevê que o juiz poderá inverter o ônus da prova em fa-
vor do consumidor se observar a hipossuficiência desse e a verossimilhança das ale-
gações por ele realizadas. Nessa situação, não há inversão ope legis, e sim ope iudicis.
Para o consumidor, um dos momentos mais complexos de sua jornada pro-
cessual é o momento da prova. A inversão do ônus da prova é o que possibilita o 
consumidor romper as barreiras do caso concreto. 
É sempre importante distinguir ônus de obrigação. A obrigação é um dever 
jurídico previsto na norma em favor de alguém. Nos casos de incumprimento, 
estaremos diante de um ato ilícito. Já o ônus é uma conduta prevista pela norma 
em interesse próprio que tem a possibilidade de adotá-la ou não. O não exercício 
não configura ato ilícito. Dessa forma, a principal distinção entre ônus e obriga-
ção é a existência de sanção para o caso de descumprimento da obrigação e sua 
ausência no ônus.
O ônus da prova não é diferente desse conceito geral. Não há sanções no caso 
da parte permanecer inerte em relação às provas dos fatos que sustentem suas 
alegações. No caso do consumidor, a vulnerabilidade é o fundamento para a inver-
são do ônus da prova. A inversão é a forma de “retirar dos ombros a carga da prova 
referente aos fatos de seu interesse” (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 291). 
A inversão do ônus da prova ope judicis tem como seus pressupostos a veros-
similhança das alegações e a hipossuficiência do consumidor. Por algum tempo, 
debateu-se acerca da cumulatividade ou não desses pressupostos. Hoje, é enten-
dimento da doutrina que esses pressupostos são alternativos, ou seja, não pre-
cisam estar presentes em ambas as hipóteses para que o juiz possa fazer valer a 
inversão do ônus da prova. Antes de deferir a inversão, o juiz deve analisar o caso 
concreto, porque não há por parte do Código de Defesa do Consumidor a dispensa 
na produção de provas por parte do consumidor.
 É possível notar, nesse caso, dois requisitos para inversão: o primeiro é a hi-
possuficiência do consumidor, que não pode ser entendida apenas em sua mo-
dalidade econômica, posto que é colocada em seu aspecto mais amplo. No en-
tanto, é conceito jurídico indeterminado, ou seja, seu conteúdo é fixado pelo juiz, 
segundo as regras ordinárias de experiência. E o segundo é a verossimilhança das 
alegações. A verossimilhança é, em linhas gerais, a aparência da veracidade, mas é 
conceito jurídico indeterminado como a hipossuficiência.
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Outro ponto de debate é com relação ao momento em que deve ocorrer a 
inversão do ônus da prova. Há os que entendem que a inversão deve ser deferida 
ou não no momento do despacho liminar de conteúdo positivo. Outros são os que 
advogam pelo momento do saneamento do processo e outros na sentença.
É preciso lembrar que no momento do despacho liminar de conteúdo positivo 
não há ainda pontos controvertidos em que se funda a demanda e sobre os quais 
recairá na instrução probatória. A inversão no saneamento do processo carrega 
em si difi culdades em alguns procedimentos como no caso dos Juizados Especiais, 
posto que é ausente essa fase processual. Essa é a razão para que alguns autores 
defendam que o momento em que se deve dar a inversão do ônus da prova é na 
sentença. O Superior Tribunal de Justiça entende que a inversão carece ocorrer no 
saneamento do processo, antes do início da instrução probatória.
EXPLICANDO
A distribuição dinâmica do ônus probatório revela em verdade um sistema 
misto. Não se trata apenas de inverter o ônus da prova, a inversão altera 
os polos estáticos de produção da prova, a distribuição tem a medida de 
dinamizar o ônus da prova. A lei prevê algo em abstrato, mas para o juiz, 
em decorrência do caso concreto, é permitida a modifi cação do previsto. 
Desse modo, no silêncio do juiz, mantém-se a aplicação da regra prevista 
no artigo 373 do Novo Código de Processo Civil.
A competência
A competência das tutelas coletivas está disciplinada no artigo 2º da Lei da 
Ação Civil Pública. O artigo em questão estabelece que a competência do foro 
para as demandas coletivas é funcional. No entanto, o melhor entendimento 
na doutrina é de que a competência ali descrita deve ser compreendida como 
competência absoluta.
A competência, portanto, da ação civil pública é o foro do local do dano e é 
absoluta. Em comarcas em que existam Varas da Justiça Federal e Estadual não 
enseja qualquer difi culdade no caso de participação de entes federais – previstos 
no artigo 109, I, da Constituição de 1988 – porque em mesmo foro. Noscasos em 
que não há no foro Varas da Justiça Federal, o artigo 109, I, da Constituição Federal, 
exige a competência da Justiça Federal ainda que em foro distinto do local do dano.
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O Código de Defesa do Consumidor em seu artigo 93 determina que, 
ressalvada a hipótese de competência da Justiça Federal, competirá à jus-
tiça local o julgamento dessas ações no foro do local onde o dano ocorreu 
ou onde deva ocorrer e ainda do foro da capital do estado ou do Distrito 
Federal nos casos de âmbito regional ou nacional, aplicando-se as regras do 
Código de Processo Civil.
Esse dispositivo é criticado porque despreza a segurança jurídica e a qua-
lidade da prestação jurisdicional, ao não determinar o que precisa ser enten-
dido como dano de âmbito local, regional ou nacional, sendo as 
duas últimas distinções desnecessárias entre si quanto à compe-
tência. Para a maioria da doutrina, mesmo nos casos 
de dano nacional, haverá concorrência dos foros. 
Ademais, o inciso II do artigo 93 permite que o 
julgamento se dê em local distante de onde ocor-
reu o dano, o que pode refl etir na qualidade da 
prestação jurisdicional.
Da coisa julgada nas ações coletivas
O artigo 103 da Lei nº 8.078/1990 disciplina a coisa julgada em todas as 
ações coletivas e seu regime geral é o da extensão erga omnes ou ultra par-
tes. O inciso I do artigo em comento trata da coisa julgada nas ações coleti-
vas de direitos difusos em que a regra geral deve ser aplicada, acresce ainda 
como regra geral que a sentença que tenha como fundamento a ausência ou 
insufi ciência de provas não impede a propositura de nova ação coletiva re-
ferente aos direitos difusos e coletivos. O mesmo não se aplica aos direitos 
individuais homogêneos, conforme se depreende da leitura do artigo 103 da 
Lei nº 8.078/1990.
A doutrina majoritária entende pela constitucionalidade da coisa julgada se-
cundum eventum probationis, bem como a secundum eventum litis, porque os su-
jeitos que são os titulares dos direitos não participam efetivamente do processo. 
É preciso destacar que os efeitos da coisa julgada não prejudicarão os inte-
resses individuais dos integrantes da coletividade, que podem ingressar com 
ações de natureza individual depois da rejeição da demanda coletiva.
DIREITO DO CONSUMIDOR 118
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Coisa julgada 
interesses difusos
Coisa julgada
Direitos coletivos
Coisa julgada
Direitos individuais 
homogêneos
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito erga omnes exceto 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito erga omnes exceto 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito erga omnes exceto 
nas ações individuais.
 • Pedido acolhido – sentença • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito 
nas ações individuais;
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes exceto 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
 • Pedido rejeitado no mérito 
 exceto 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
 • Pedido rejeitado no mérito 
 exceto 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
 exceto 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido rejeitado no mérito 
 exceto 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
nas ações individuais;
 • Pedido rejeitado por 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
insufi ciência de provas – 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
possibilidade de nova ação.
 • Pedido rejeitado no mérito 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
possibilidade de nova ação.
 • Pedido rejeitado no mérito 
– efeito 
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;• Pedido rejeitado no mérito 
– efeito 
nas ações individuais.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
individuais;
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais.
 • Pedido acolhido – sentença 
prevalece e pode ser usada 
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes
nas ações individuais.
em benefício das pretensões 
 • Pedido rejeitado no mérito 
erga omnes exceto 
nas ações individuais.
 • Pedido rejeitado no mérito 
 exceto 
nas ações individuais.
 • Pedido rejeitado no mérito 
 exceto 
nas ações individuais.
QUADRO 5. OS EFEITOS DA COISA JULGADA NÃO PREJUDICARÃO OS 
INTERESSES INDIVIDUAIS DOS INTEGRANTES DA COLETIVIDADE
Aspectos da litispendência e continência da ação 
coletiva com a ação individual
A pendência de uma ação coletiva não im-
pede a propositura de uma ação individual. 
A questão que se impõe é a existência de 
ações individuais em trâmite quando da 
propositura da ação coletiva.
O artigo 104 do Código de Defesa do 
Consumidor disciplina que as ações coletivas 
não induzem litispendência para as ações indi-
viduais. A litispendência pode signifi car tanto a pendência da 
causa – que se inicia com sua propositura e se encerra com sua 
extinção – quanto o pressuposto processual negativo – que ocorre na conco-
mitância de processos idênticos. Por certo, o artigo 104 disciplina o segundo 
sentido do termo. 
Nas hipóteses de direitos difusos e coletivos e ações individuais, é simples 
vislumbrar a inexistência de qualquer litispendência em razão da diferença en-
tre as ações. A parte material nas ações de direitos difusos e coletivos será a 
coletividade no primeiro caso e será a comunidade no outro. As ações indivi-
duais têm sempre o indivíduo como parte material.
DIREITO DO CONSUMIDOR 119
SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 119 15/12/2020 12:03:34
No caso dos direitos individuais homogê-
neos, também haverá distinção de parte. 
Os direitos individuais homogêneos terão 
como titular cada um dos indivíduos titula-
res dos direitos individuais e que, somados, 
geram um direito processualmente coletivo. 
No caso de ação individual, o autor é titular de 
direito individual homogêneo parcialmente (TARTUCE; NEVES, 
2016, p. 531-532).
Já na conexão, disciplinada no artigo 55 do Novo Código Civil, e na con-
tinência, disciplinada no artigo 56 do mesmo diploma, devemos analisar as 
partes, as causas de pedir e o pedido das ações para sabermos se esses são 
ou não idênticos. A integralidade tem como consequência a litispendência; é 
preciso, portanto, observar se são idênticas as causas de pedir e os pedidos 
das ações.
Existe a possibilidade de conexão entre as ações coletivas e as ações 
individuais, sendo certo que o artigo 104 da Lei nº 8.078/1990 prevê a pos-
sibilidade de reunião das demandas conexas, com o intuito de evitar a re-
petição de atos processuais e, portanto, respeitar a economia processual, 
bem como evitar a prolação de decisões judiciais contraditórias. No caso 
de reunião entre ações individuais e coletivas, a prevenção do juízo deve 
ocorrer em relação ao juízo da ação coletiva. Isso justifi ca o maior alcance 
jurisdicional nas demandas coletivas. 
Ainda de acordo com o artigo 104 da Lei nº 8.078/1990, o autor da de-
manda individual tem 30 dias para requerer sua suspensão para poder 
aproveitar o resultado da demanda coletiva. 
Suspensão da ação individual Não suspensão da ação individual
Ação coletiva procedente a ação individual 
perde o objeto Exclui os efeitos da ação coletiva
E o autor da ação tem direito a um título 
executivo judicial
Não pode se valer de futuro título executivo 
judicial
Ação coletiva procedente a ação individual Ação coletiva procedente a ação individual Ação coletiva procedente a ação individual Ação coletiva procedente a ação individual 
E o autor da ação tem direito a um título 
Ação coletiva procedente a ação individual 
E o autor da ação tem direito a um título 
Ação coletiva procedente a ação individual 
perde o objeto
E o autor da ação tem direito a um título 
Ação coletiva procedente a ação individual 
perde o objeto
E o autor da ação tem direito a um título 
Ação coletiva procedente a ação individual 
perde o objeto
E o autor da ação tem direito a um título 
executivo judicial
Ação coletiva procedente a ação individual 
perde o objeto
E o autor da ação tem direito a um título 
executivo judicial
Ação coletiva procedente a ação individual 
perde o objeto
E o autor da ação tem direito a um título 
executivo judicial
Ação coletiva procedente a ação individual 
E o autor da ação tem direito a um título 
executivo judicial
Ação coletiva procedente a ação individual 
E o autor da ação tem direito a um título 
executivo judicial
Ação coletiva procedente a ação individual 
E o autor da ação tem direito a um título E o autor da ação tem direito a um título E o autor da ação tem direito a um título 
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
judicial
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
judicial
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo 
judicial
Exclui os efeitos da ação coletiva
Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo Não pode se valer de futuro título executivo 
QUADRO 6. SUSPENSÃO DA AÇÃO INDIVIDUAL E NÃO SUSPENSÃO DA AÇÃO INDIVIDUAL
DIREITO DO CONSUMIDOR 120
SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 120 15/12/2020 12:03:35
Liquidação
Para executar uma sentença, é necessário que esta seja líquida. No entanto, 
nem todas as sentenças terão um resultado líquido de maneira imediata e, por 
essa razão, o legislador previu a liquidação da sentença. A liquidação nada mais 
é, em termos gerais, do que o nome que damos ao método de cálculo do valor 
líquido de uma sentença e, assim, possibilitar sua execução. Isso porque o Códi-
go de Processo Civil estipula que a execução deverá recair sobre uma obrigação 
certa, líquida e exigível, mesmo aquelas consubstanciadas em título executivo.
Nos processos individuais, basta a apuração da liquidez, posto que os de-
mais requisitos já se encontram demonstrados na sentença, a exemplo da le-
gitimidade ativa para propor a demanda ou o nexo causal. Contudo, o mesmo 
não ocorre nas ações coletivas que, de maneira geral, não se preocupam com 
o valor do dano, nem mesmo com a identifi cação dos lesados, o bem jurídico 
tutelado se aplica à coletividade na sentença e de maneira uniforme.
A sentença condenatória coletiva é genérica quando fi xa a responsabilidade 
do réu pelos danos causados, ou seja, torna certo o dever de indenizar, porque 
reconhece a existência do dano genérico. Nesse sentido, a sentença condena-
tória é certa, porém ilíquida, sendo necessária a liquidação. 
A liquidação da sentença cabe a cada benefi ciário, em que devem ser pro-
vados os danos, o nexo causal com o dano reconhecido genericamente na sen-
tença e o montante da indenização. Na fase da liquidação, ocorrerá a habili-
tação, expressão escolhida pelo artigo 100 da Lei nº 8.078/1990, das vítimas 
e seus sucessores,com o claro objetivo de transformar a condenação pelos 
prejuízos considerados de forma global em indenizações individuais.
Não há prazo preclusivo para o ajuizamento da liquidação. O direito mate-
rial fi xa o prazo prescricional para o exercício do direito de reparação individual 
que ocorrerá pela habilitação da liquidação.
As pretensões individuais relativas aos direitos individuais homogêneos 
devem respeitar o prazo de dez anos, prescricional, previsto no artigo 205 do 
Código Civil.
Importante destacar que o prazo previsto no artigo 21 da Lei de Ação Po-
pular se refere ao direito de utilizar a ação especial, portanto, não se refere à 
habilitação para a liquidação.
DIREITO DO CONSUMIDOR 121
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Como visto, os legitimados para procederem à liquidação são as vítimas 
do dano e seus sucessores, mas é preciso sempre lembrar que a liquidação 
e a execução são sempre personalizadas e indivisíveis (GRINOVER e colabo-
radores, 2019, p. 1310). A fase de liquidação é um processo de conhecimento, 
portanto, preparatório para a execução, nesse sentido, é possível aplicar a re-
gra do artigo 98, parágrafo 2º, I, da Lei nº 8.078/1990, que determina o foro do 
domicílio do autor como adequado à propositura dessas ações. 
Duas são as modalidades de execução decorrentes da liquidação. A coleti-
va e a individual. A execução coletiva é individualizada, porém inclui o grupo 
de vítimas cujas indenizações já foram fixadas em sentença de liquidação; é 
aquela realizada tanto como mera fase do processo coletivo quanto por meio 
de processo individual. 
A liquidação individual da sentença coletiva é conhecida como liquidação 
imprópria, porque, aqui, há necessidade de demonstrar a legitimidade ad 
causam para requerê-la. O Superior Tribunal de Justiça considera a liquidação 
imprópria da sentença coletiva ilíquida obrigatória. Na liquidação, o juiz deve-
rá avaliar e quantificar os danos causados, mas admite-se a compensação de 
eventuais indenizações pessoais apuradas.
DIREITO DO CONSUMIDOR 122
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Sintetizando
Nesta unidade, pudemos analisar o direito de arrependimento quanto às 
compras feitas fora do estabelecimento comercial. Nesse ponto, estudamos 
a oferta sistemática de crédito aos consumidores, o que vem gerando o cha-
mado superendividamento do consumidor. Verificamos ainda as cláusulas 
abusivas, suas consequências e espécies. 
Aproveitamos e analisamos com maior detalhe os contratos de compra 
e venda a prazo e suas consequências. Vimos os contratos de empréstimo 
e financiamento, tão importantes para a sociedade de consumo em que 
vivemos. Aprendemos que o superendividamento é um dos males da faci-
lidade de crédito e que muitas vezes ocorre sem que o consumidor tenha 
consciência de suas consequências.
Também conseguimos analisar a defesa do consumidor em juízo. Para 
isso, tratamos das ações individuais, das chamadas ações coletivas e sua 
legitimidade ativa. Discutimos as tutelas específicas que objetivam conferir 
maior efetividade para a defesa do consumidor em juízo. 
Consideramos a inversão do ônus da prova em suas espécies, bem como 
suas características e pressupostos atrelados à importância do instituto 
para a possibilidade de defesa do consumidor em juízo, além dos debates 
acerca do momento em que ela se dá.
Este estudo também tratou das distinções entre os chamados direitos 
difusos, coletivos e individuais homogêneos e a importância das ações cole-
tivas para a promoção da defesa do consumidor. 
DIREITO DO CONSUMIDOR 123
SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 123 15/12/2020 12:03:35
Referências bibliográficas
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ALMEIDA, J. B. Manual de Direito do Consumidor. São Paulo: Saraiva, 2003.
BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do con-
sumidor e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF. Disponí-
vel: . Acesso em: 
10 dez. 2020.
CAVALIERI FILHO, S. Programa de Direito do Consumidor. São Paulo: Atlas, 2008.
CONSULTOR JURÍDICO. STJ divulga 11 entendimentos sobre honorários advo-
catícios. 2019. Disponível em: . Acesso em: 10 dez. 2020. 
GIANCOLI, B. P.; ARAÚJO JUNIOR, M. A. Direito do Consumidor – Difusos e Coleti-
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GRINOVER, A. P.; BENJAMIN, A. H. V. E.; et al. Código Brasileiro de Defesa do Consu-
midor: comentado pelos autores do anteprojeto. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
MARQUES, C. L.; BENJAMIN, A. H. V.; MIRAGEM, B. Comentários ao Código de De-
fesa do Consumidor. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010.
MARQUES, C. L. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o Novo Regime 
das Relações Contratuais. 8. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016.
MIRAGEM, B. Curso de Direito do Consumidor. 6. ed. São Paulo: Editora Revista 
dos Tribunais, 2016. 
NUNES, R. Curso de Direito do Consumidor. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2018.
TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de Direito do Consumidor: Direito Material 
e Processual. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016.
DIREITO DO CONSUMIDOR 124
SER_DIR_DIRCONSU_UNID4.indd 124 15/12/2020 12:03:35
	SER_DIR_DIRCONSU_UNID1
	SER_DIR_DIRCONSU_UNID2
	SER_DIR_DIRCONSU_UNID3
	SER_DIR_DIRCONSU_UNID4em 1995. Assim, os princípios da vulnerabili-
dade, da boa-fé, da transparência, da informação, da segurança e outros são 
colunas de sustentação de todo o sistema do Código de Defesa do Consumidor, 
dando unidade, estabilidade e harmonia.
A relação jurídica de consumo
A relação jurídica, em sentido amplo, consiste em um vínculo entre pessoas, 
em razão da qual uma pode pretender um bem que a outra parte é obrigada. 
Só há relação jurídica se o vínculo entre as pessoas estiver regulado por nor-
ma jurídica com o objetivo de proteção. Quando adaptados esses conceitos à 
relação jurídica de consumo, se verifi ca a existência de uma relação entre um 
sujeito ativo, titular do direito, e um sujeito passivo, que tem um dever jurídico 
e se coaduna com os elementos que concebem o fornecedor de produtos e/ou 
prestador de serviços de um lado e o consumidor do outro.
Na maioria das vezes, entre os elementos estão direitos e deveres recípro-
cos, posto que as hipóteses em que há proporcionalidade das prestações pre-
valecem nas relações de consumo. Quanto aos elementos objetivos que for-
mam a prestação na relação de consumo, nos termos do art. 3° do Código de 
Defesa do Consumidor, eles são defi nidos como o produto e o serviço. O fato 
capaz de gerar consequências para o plano jurídico, ou seja, aquele ao qual 
a norma jurídica dá a função de criar, modifi car ou extinguir direitos, tem o 
condão de vincular os sujeitos e de submeter o objeto ao poder da pessoa con-
cretizando a relação, com o negócio jurídico guiado pela autonomia privada, 
consoante com o dito nas páginas 515 a 517 do Compêndio de introdução à ciên-
cia do Direito, escrito por Diniz e cuja 21ª edição foi lançada em 2010.
O conceito de consumidor: a abrangência das normas de defesa do con-
sumidor frente ao consumidor por equiparação
O caput do art. 2° da Lei nº 8078/90 estabelece que “consumidor é toda 
pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como des-
tinatário fi nal”. A noção subjetiva de consumidor é aquela em que a proteção 
ao consumidor é pensada na proteção do não profi ssional que se relaciona 
com um profi ssional, comerciante, industrial ou profi ssional liberal. Sob essa 
DIREITO DO CONSUMIDOR 17
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noção estariam excluídos da proteção normativa os contratos concluídos en-
tre dois profissionais.
No entanto, o Código de Defesa do Consumidor preferiu a adoção da de-
finição objetiva em que a expressão “destinatário final” deve ser compreen-
dida como aquele que retira o bem do mercado ao adquirir ou simplesmente 
utilizá-lo, isto é, aquele que encerra a cadeia de produção ou não adquire o 
produto ou serviço para revenda, mas para uso pessoal, “porque o bem seria 
novamente um instrumento de produção cujo preço será incluído no preço fi-
nal do profissional que o adquiriu”, de acordo com o relatado no livro Contratos 
no código de defesa do consumidor: o novo regime das relações contratuais, escrito 
por Marques e cuja 8ª edição foi lançada em 2016.
Nesse contexto, o destinatário final é aquele destinatário fático e econômico 
do bem ou serviço, seja uma pessoa física ou jurídica. Para os finalistas, o consu-
midor adquire ou utiliza um produto ou serviço para uso próprio e de sua família. 
A restrição à aplicação das normas de defesa do consumidor é justificada, da 
mesma forma, pela maior necessidade de proteção à parte mais fraca da relação 
de consumo. A essa inicial interpretação, mais restritiva, os finalistas acabaram 
por evoluir a uma posição mais branda reconhecendo a aplicação das normas 
do Código de Defesa do Consumidor às pequenas empresas e profissionais que 
adquirem produtos e serviços fora de seu campo de especialidade.
Diferente da teoria finalista, a teoria maximalista amplia o conceito de consu-
midor e a própria construção da relação de consumo. Para os maximalistas, as 
normas do Código de Defesa do Consumidor devem ser aplicadas a um número 
cada vez maior de relações de consumo. Portanto, o destinatário final seria o des-
tinatário fático, que retira o produto ou serviço do mercado e o consome. Esses 
embates tornaram necessária a construção de uma nova linha de interpretação.
A teoria finalista aprofundada se concentra na figura do destinatário final ime-
diato e da vulnerabilidade, descrita no art. 4°, I, da Lei nº 8078/90. Trata-se de uma 
“teoria finalista mais aprofundada e madura”, segundo Marques. Com a entrada 
em vigor do Código Civil de 2002, a visão maximalista perde força e a tendência 
acentuada na jurisprudência é de reconhecimento do finalismo aprofundado. 
Na sistemática do Código de Defesa do Consumidor, a definição de consumidor 
se inicia no individual mais concreto – art. 2°, caput – e termina no art. 29, que indica 
o consumidor do tipo ideal, um ente abstrato e indeterminado. Entre as previsões, 
DIREITO DO CONSUMIDOR 18
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encontra-se o consumidor equiparado, que é, em verdade, uma “extensão do cam-
po de aplicação”, de acordo com Marques, do Código de Defesa do Consumidor. Pes-
soas que mesmo não sendo consumidores stricto sensu podem “ser atingidas 
pelas atividades dos fornecedores no mercado”. Ausentes as características do 
consumidor, a posição preponderante do fornecedor e a existência de vulnerabi-
lidade sensibilizaram o legislador. São equiparados ao consumidor a coletividade 
de pessoas que, mesmo que não sejam identificadas, tenham participado de al-
guma maneira da relação de consumo e sejam por ela afetadas.
A esses potenciais consumidores, o legislador conferiu os instrumentos ju-
rídicos necessários, inclusive processuais, para reparação dos danos pelos res-
ponsáveis. O parágrafo único do art. 2° da Lei nº 8078/90 não trata daqueles 
que sofreram danos, previsão contida no art. 17, que equipara a consumidores 
todas as vítimas do evento danoso. Nesta seção, é regulada a responsabilidade 
do fornecedor por fato do produto ou serviço e ainda por danos à saúde, à inte-
gridade ou ao patrimônio do consumidor, os chamados acidentes de consumo. 
O conceito de fornecedor
O conceito de fornecedor está descrito no art. 3° da Lei nº 8078/90. O Códi-
go de Defesa do Consumidor não exclui nenhum tipo de pessoa jurídica, pois 
“busca todo e qualquer modelo”, de acordo com o exposto das páginas 93 a 95 
do livro de Nunes, convencionando como fornecedores as pessoas jurídicas 
públicas ou privadas, nacionais e estrangeiras, com sede no País ou não, as so-
ciedades anônimas, as por quota de responsabilidade limitada, as sociedades 
civis com ou sem fins lucrativos, as autarquias, as empresas públicas etc.
O legislador optou por considerar todos que atuam nas diversas etapas do 
processo produtivo, mesmo os desprovidos de personalidade jurídica, como 
fornecedores, de maneira que é reconhecido como fornecedor qualquer um 
que ofereça produtos ou serviços no mercado de consumo e atenda às neces-
sidades dos consumidores, sem se indagar a que título.
EXPLICANDO
Entes despersonalizados são aqueles que não são dotados de perso-
nalidade jurídica. Um dos exemplos é a Itaipu Binacional, um consórcio 
entre o Brasil e o Paraguai para a produção de energia elétrica e que tem 
regime jurídico sui generis. Outro exemplo é a massa falida, autorizada a 
continuar com as atividades de uma empresa sob o regime de falência.
DIREITO DO CONSUMIDOR 19
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O Código de Defesa do Consumidor não exige de maneira expressa que o for-
necedor seja um profissional, mas a possibilidade de vincular o conceito descrito 
no art. 3° a uma certa habitualidade está presente. No entanto, ser fornecedor 
de determinado produto ou serviço com habitualidade tem conotação profissio-
nal, levando a concluir que a ausência desse conceito não significa sua dispensa.
Ser profissional está vinculado a uma especialidade, um conhecimentoes-
pecial que abrange a atividade que se exerce ao mesmo tempo que denota a 
natureza econômica da atividade. Por ser atividade profissional, também é eco-
nômica, visto que o fornecedor a desenvolve com objetivo de obter vantagem 
econômica que não se confunde com lucro.
É possível, mesmo a entidades sem fins lucrativos, apresentarem o requi-
sito da contraprestação de remuneração. Outro elemento descrito na norma 
é o mercado de consumo, em consonância com § 2° do art. 3°. O conceito de 
mercado de consumo é fluido e pode ser descrito como o ato de colocar em 
circulação produto ou serviço mediante o oferecimento a outrem. Na verdade, 
mercado é o lugar de desenvolvimento das atividades de trocas de produtos 
ou serviços mediante a oferta aos interessados, com objetivo de obtenção de 
vantagem econômica, bem como a satisfação de necessidades pela aquisição e 
utilização dos produtos e serviços pelos consumidores.
O conceito de serviço
Aos prestadores de serviços, a definição do Código de Defesa do Consumidor é 
aberta para uma maior interpretação. O critério é o desenvolvimento de atividades 
de prestação de serviços, o próprio § 2°, do art. 3°, que determina que serviço é “qual-
quer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração”, sem 
qualquer menção à habitualidade ou à necessidade de se tratar de um profissional.
A possibilidade de enquadrar algumas universalidades, como associações 
desportivas e condomínios em edificações, desperta algumas indagações nos 
fornecedores de serviço, em especial se tais entes despersonalizados são en-
quadrados como fornecedores de serviços aos associados e condôminos. A 
questão se coloca frente ao disposto no § 1° do art. 52 da Lei nº 8078/90, que 
declara que a multa nos casos de mora passa a ser de 2%.
Em relação às entidades associativas e aos condomínios em edificações, é 
preciso relembrar que seu fim e objetivo social é deliberado pelos próprios in-
teressados, ou seja, sejam representados ou não por conselhos deliberativos, 
DIREITO DO CONSUMIDOR 20
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são órgãos deliberativos soberanos nas “sociedades contingentes”, relatadas 
por Grinover, de maneira que quem determina os destinos dessas sociedades 
são os próprios interessados, excluindo essas entidades da designação de for-
necedor de serviços.
Se as despesas ou contribuições sociais são decididas pelos órgãos delibe-
rativos das sociedades em geral, ou pelos condôminos, não se caracteriza a 
prestação de serviços por terceiros no caso de inadimplência, uma vez que é a 
própria entidade que os presta. O mesmo não se pode considerar nos casos de 
entidade associativa que tem como fim a prestação de serviços de assistência 
médica, e, por isso, cobra mensalidades ou contribuições.
Nesse caso, trata-se de fornecedor de serviços porque suas atividades não 
são de gestão da coisa comum, se revestem da mesma natureza das relações 
de consumo. Portanto, de um lado está a universalidade dos consumidores, 
cujo objeto é a prestação de serviço determinado por si ou por outrem e, do 
outro lado, aparece o fornecedor de serviços.
Os serviços públicos
O Código de Defesa de Consumidor faz menção expressa aos serviços pú-
blicos como objeto de relação jurídica de consumo, e, portanto, sob a égide da 
lei consumerista. No entanto, é preciso identificar, entre os serviços públicos, 
os que se encontram sob as normas de proteção ao consumidor. Qual recorda-
do por Hely Lopes Meirelles, na página 294 de Direito administrativo brasileiro, 
editado em 1995, embora tal conceito não seja unânime na doutrina nacional, 
serviço público pode ser conceituado como:
todo aquele prestado pela Administração Pública ou por seus 
delegados, sob normas e controles estatais, para satisfazer ne-
cessidade essenciais ou secundárias da coletividade ou simples 
conveniências do Estado (MEIRELLES, 1995). 
Serviço público é a atividade de oferecimento de utilidade ou comodidade 
material destinada à satisfação da coletividade em geral, mas usufruído sin-
gularmente pelos administrados. O Estado as assume como pertinente a seus 
deveres e presta por si mesmo ou por quem lhe faça as vezes. O Brasil, a partir 
de 1990, passou por uma reforma com programas de desestatização e a de-
legação de serviços públicos a pessoas jurídicas privadas, o que modificou a 
relação existente entre os usuários dos serviços e os prestadores.
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Alguns foram objeto de delegação em regime de monopólio, como a 
energia elétrica. Outros, do regime da concorrência, como a telefonia. 
De certo, não são todos os serviços públicos que se subor-
dinam às regras do Código de Defesa do Consumidor, 
sendo ele aplicado aos serviços públicos em que haja 
a presença do consumidor e do agente de uma rela-
ção de aquisição remunerada do serviço, individual-
mente e de modo mensurável – uti singuli. 
EXPLICANDO
Segundo Hely Lopes Meirelles, serviços públicos uti universi são aqueles 
que a administração presta sem ter usuários determinados, para atender à 
coletividade no seu todo, como os de polícia, iluminação pública, calçamen-
to e outros dessa espécie. Serviços públicos uti singuli são os que têm usuá-
rios determinados e utilização particular e mensurável para cada destinatá-
rio, como ocorre com o telefone, a água e a energia elétrica domiciliares.
DIAGRAMA 2. RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO
A relação jurídica de consumo
No Código de Defesa do Consumidor, não há qualquer definição de relação 
jurídica de consumo. Apesar da opção do legislador pelo conceito de consumi-
dor e fornecedor como partes da relação jurídica, é preciso salientar que não há 
consumidor sem fornecedor, assim como não há fornecedor sem consumidor.
Consumidor
Relação jurídica 
de consumo
Fornecedor
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Defi nidas as fi guras do consumidor e fornecedor, para caracterizar a rela-
ção jurídica de consumo falta analisar o objeto da relação, em especial o produ-
to. É comum que algumas empresas afastem a incidência do Código de Defesa 
do Consumidor sob a alegação de que sua atividade econômica não se adequa 
nem ao conceito de serviço, nem ao conceito de produto. Esse é o caso das 
instituições bancárias que, mesmo com previsão expressa de aplicabilidade do 
Código de Defesa do Consumidor às suas relações, propuseram ação direta de 
inconstitucionalidade, com vistas a declarar inconstitucional o art. 3°, § 2°.
Produto é defi nido pela Lei nº 8078/90 como bem móvel ou imóvel, material ou 
imaterial, de modo que é aplicável o Código de Defesa do Consumidor a contratos 
imobiliários e a eles conexos – fi nanciamento ou empréstimos para a aquisição de 
imóveis. Nesses contratos, aplicam-se as normas do Código Civil quanto às soleni-
dades, às regras de transmissão da propriedade e as concernentes ao direito das 
coisas ligado ao conjunto normativo do Código de Defesa do Consumidor.
Os princípios da Lei nº 8078/90 e os direitos básicos
do consumidor
O direito do consumidor é a realização de um direito fundamental de prote-
ção do Estado, conforme art. 5°, XXXII da CF/88. Os sete primeiros artigos da Lei 
nº 8078/90 refl etem os princípios constitucionais de proteção ao consumidor, 
razão pela sua compreensão pelos intérpretes é crucial.
DIAGRAMA 3. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO CDC
Dignidade,
proteção à vida, saúde e segurança
Liberdade
Dever governamental
Vulnerabilidade 
Transparência e informação
Boa-fé
Acesso à justiça
Dignidade
A dignidade humana é valor supremo da ordem jurídica, preenchido des-
de o início da vida porque todos os seres humanos têm direito à dignidade. 
Seu conceito é difícil, mas não resiste ao confronto com as violações, momento 
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em que se torna clara sua ausência. Adignidade revela ainda que os seres hu-
manos não podem ser coisificados, estando acima da mera precificação das 
coisas. É possível a substituição de uma coisa por outra, mas a dignidade não 
admite equivalentes.
O art. 4° é considerado norma-objetivo e é a norma guia de interpretação 
de todo o sistema de defesa do consumidor, de maneira que a tutela dos inte-
resses dos consumidores é uma das faces da defesa da dignidade humana. A 
dignidade interage com os direitos da personalidade e sua violação configura 
os chamados danos extrapatrimoniais. 
Proteção à vida, saúde e segurança
Atrelados ao princípio da dignidade, os consumidores têm o direito de não se-
rem expostos a perigos representados por práticas condenáveis no fornecimen-
to de serviços e produtos que ameacem sua incolumidade física. Decorre desse 
direito a obrigatoriedade dos fornecedores de retirarem do mercado quaisquer 
produtos ou serviços que coloquem os consumidores e terceiros sob algum ris-
co, independente do direito à reparação por eventuais danos causados.
O sistema do Código de Defesa do Consumidor tem como base a respon-
sabilidade dos fornecedores, contratual e extracontratual, na teoria da quali-
dade. Isto significa que a lei impõe aos fornecedores um dever de qualidade 
dos produtos e serviços que prestam. No caso de descumprimento do dever, 
surgem os efeitos contratuais do inadimplemento ou do ônus de suportar os 
efeitos da garantia por vício e os efeitos extracontratuais da obrigação de subs-
tituição do bem viciado e a reparação dos danos causados pelos produtos ou 
serviços defeituosos. O sistema do Código de Defesa do Consumidor exige a 
qualidade-segurança e a qualidade-adequação, previstos nos artigos 12 a 17 no 
primeiro caso, e nos artigos 18 e seguintes no segundo. 
Vulnerabilidade
A vulnerabilidade é descrita como o lado fraco, que pode ser atacado ou pre-
judicado, tanto que o Código de Defesa do Consumidor reconhece o desequilí-
brio nas relações entre o consumidor e o fornecedor. Nas sociedades de consu-
mo, é difícil afastar a posição desfavorável do consumidor, ainda mais quando se 
consideram as revoluções nas relações jurídicas e comerciais nos últimos anos.
É uma qualidade intrínseca, ingênita, peculiar, imanente e indissolúvel de to-
dos aqueles que se colocam na posição de consumidor, como rememorado na 
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página 49 do livro Difusos e coletivos: direito do consumidor, de autoria de Giancoli 
e Araújo Júnior e publicado em 2012. As desigualdades não acham respostas efi-
cientes nos sistemas jurídicos de origem liberal porque os códigos se estrutura-
ram baseados em uma noção de paridade inexistente no mundo atual.
A sociedade de consumo não reconhece o poder de barganha entre as partes 
negociais, cada vez mais escasso e raro, mesmo nas relações obrigacionais e que 
a doutrina identifique diferentes tipos de vulnerabilidade. A vulnerabilidade técni-
ca tem lugar quando o consumidor não possui conhecimentos específicos sobre 
o produto e serviço que adquire, seja no tocante às características ou à utilização.
O termo “técnico” está relacionado aos conhecimentos aprofundados sobre 
um determinado assunto, objeto ou relação, que estão sob o poder do fornece-
dor, que detém o monopólio dos conhecimentos e dos processos de produção. 
Basta refletir sobre o nível de conhecimento exigido nos casos de defeitos de 
produtos ou serviços que se percebe o consumidor médio não tem como avaliar 
o que adquire nem ter o mesmo conhecimento do fabricante, nos casos de vícios.
A vulnerabilidade jurídica, em contrapartida, resulta da falta de informação do 
consumidor a respeito de seus direitos, da falta de assistência jurídica, da dificul-
dade de acesso à Justiça, da impossibilidade de aguardar o desfecho judicial de 
uma demanda, ou mesmo da deturpação de princípios processuais legítimos. Ela 
ocorre não apenas na fase processual, mas também nas pré e pós-processuais.
É possível observar a vulnerabilidade política ou legislativa decorrente 
da fraqueza política do consumidor no cenário brasileiro. A essas, ainda, se 
acrescentam a vulnerabilidade fática ou socioeconômica, consequência do jul-
gamento de que o consumidor é “o elo mais fraco da corrente”, posto que o 
fornecedor está em posição de supremacia e é o detentor do poder econômico.
DIAGRAMA 4. DIFERENCIAÇÃO ENTRE
VULNERABILIDADE E HIPOSSUFICIÊNCIA
Vulnerabilidade
Hipossuficiência
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Não se confundem os conceitos de vulnerabilidade e hipossuficiência. A ex-
pressão consumidor vulnerável é pleonasmo, isso porque, como condição intrín-
seca, não se pode imaginar consumidor desprovido de vulnerabilidade ao passo 
que a hipossuficiência é conceito fático e não jurídico fundado em disparidade ou 
discrepância atrelada ao caso concreto. Pode ser técnica pelo desconhecimento 
do produto ou serviço, mas fática à luz da situação socioeconômica do consumidor 
frente ao fornecedor. É preciso ter cuidado para não conceituar a hipossuficiência 
como pobreza ou ausência de recursos, como é de esperar na hipossuficiência 
processual. No campo consumerista, é mais ampla e reconhecida caso a caso.
Transparência e informação
A velocidade e o volume da informação característicos da mass consumption so-
ciety são sem precedentes na história. A tecnologia a serviço da sedução de consu-
midores atrai a um ciclo de consumo de produtos e serviços, por vezes, desneces-
sários e fruto de ilusões. A informação, a despeito de sua abundância, não alcança 
de maneira uniforme as pessoas porque em poder de uma parcela de indivíduos, 
no âmbito jurídico é composta pelo dever de informar e o direito de ser informado.
O dever de informar está relacionado com os fornecedores de produtos e 
serviços, da mesma forma que o direito do consumidor é ser informado. Para 
cumprir o dever imposto, a informação precisa ser adequada e compatível com 
os riscos do produto ou serviço e o seu destinatário: suficiente, completa, inte-
gral, verdadeira e real.
O consumidor precisa ter o conhecimento necessário para o uso satisfatório 
dos produtos e serviços que adquire. Se há perigos, o consumidor deve receber 
as instruções adequadas para evitá-los e ser informado a fim de que o dever 
de informação repercuta sobre todo o percurso contratual, com transparência 
e protagonismo no momento de conclusão do contrato, como destrinchado 
por Aparicio a partir da página 50 de seu livro Contratos: parte general, de 2016.
Apenas a manifestação de “vontade qualificada”, segundo descrito na pá-
gina 84, por Cavalieri Filho, é capaz de operar os efeitos vinculantes ao consu-
midor. A informação adequada e clara sobre os produtos e serviços constitui 
um direito básico do consumidor, incluindo, por força da Lei 12.741/12, o deta-
lhamento dos impostos pagos pelos consumidores. Em respeito ao Estatuto da 
Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), as informações prestadas aos consumi-
dores devem ser acessíveis às pessoas com deficiência.
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O comportamento proativo do fornecedor também é exigível e a informação 
deve atentar aos graus previstos, que vão desde o dever de esclarecer, passa pelo 
de aconselhar e pode chegar ao de advertir. É o que se depreende da leitura do texto 
legal, conforme previsto no inciso III, do art. 6°, e dos arts. 8° e 9° da Lei nº 8078/90. 
O dever de informar está presente tanto nas relações individualizadas, em qualquer 
uma das fases, seja durante as tratativas, na oferta e no contrato, quanto nas rela-
ções com pessoas indeterminadas, em que a publicidade é conceito chave.
A transparência está ligada ao princípio da boa-fé e não importa apenas 
ao dever negativo, mas a uma série de deveres procedimentais a serem cum-
pridos pelos fornecedoresde produtos e serviços. Nessa dimensão, a trans-
parência se coliga à informação a ser prestada ao consumidor. Com vistas à 
valorização da transparência, o Código de Defesa do Consumidor tem regime 
próprio quanto aos meios de propagação da informação.
O objetivo é assegurar que “a comunicação do fornecedor e a do produto ou 
serviço se façam de acordo com regras preestabelecidas, adequadas a ditames 
éticos e jurídicos”, como apontado na página 47 do livro Manual de direito do con-
sumidor: direito material e processual, publicado em 2016 e escrito por Tartuce e 
Neves. Muitas relações contratuais têm como base uma publicidade, que se tor-
na assim parte importante para a concretização desse princípio, dela derivando a 
proteção contra a publicidade enganosa ou abusiva, razão pela qual o art. 30 da 
Lei nº 8078/90 determina que o meio da oferta vincula o conteúdo do contrato. 
Liberdade de contratar e liberdade contratual
A liberdade de contratar e a liberdade contratual são manifestações da au-
tonomia privada. A liberdade de contratar é a possibilidade de um indivíduo 
realizar ou não determinado contrato, e a liberdade de escolha da parte contrá-
ria integra esse conceito. A liberdade contratual está na fixação ou modelação 
do conteúdo contratual e as situações descritas nessas dimensões 
são sucessivas. Em primeiro lugar, figura a liberdade de contratar 
e da escolha da parte contrária, para passar à escolha 
do conteúdo contratual desejado.
Os contratos são essenciais para a manutenção 
da ordem e da vida na sociedade contemporânea. 
A liberdade de contratar é garantida aos cidadãos, 
mas, apesar da garantia, a legislação impõe algumas 
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restrições ao seu exercício. Em geral, os contratos modernos, em especial os 
contratos de consumo, são classificados como de adesão. Eles devem, portan-
to, ser analisados com maior moderação tendo em vista que suas cláusulas são 
estabelecidas unilateralmente, podendo conter inúmeras previsões considera-
das como cláusulas abusivas pelo Código de Defesa do Consumidor. O conceito 
de contrato de adesão está disposto no art. 54 da Lei nº 8078/90.
A autonomia da vontade ditava as regras dos pactos realizados e seus dis-
positivos tinham força de lei entre as partes. Com os contratos de adesão, ou 
contratos de massa, não há mais discussões acerca do conteúdo das cláusu-
las contratuais. A relativização do pacta sunt servanda decorre da consideração 
de que outros requisitos para a formação do contrato estejam presentes, tais 
como a livre manifestação de vontade, a boa-fé objetiva, a justiça e outros.
Os contratos, quando apresentam cláusulas abusivas, não se enquadram 
nos preceitos do pacta sunt servanda. A preocupação do legislador em manter 
o equilíbrio nas relações de consumo justifica a repressão aberta às cláusulas 
abusivas como forma de intervenção do Estado, com o objetivo de controlar o 
poder econômico e evitar o desequilíbrio contratual.
Do dever governamental
Transcorre da necessidade de atuação do Estado na proteção ao consumi-
dor. Como visto, a Constituição de 1988 consagrou o direito do consumidor 
como fundamental, fruto de uma nova concepção de Estado, afastada da con-
cepção liberal em que o papel do Estado se limitava a árbitro de conflitos in-
dividuais. Dentre os princípios da ordem econômica, estão a defesa do consu-
midor, princípio constitucional impositivo com dupla função: a de instrumento 
como objetivo de assegurar a todos uma existência digna e a de diretriz, ou 
norma-objetivo, com caráter constitucional conformador.
A defesa do consumidor tem aspectos da modernidade, a ideologia do con-
sumo, imposta pela regra ”acumulai”, que impõe o “consumo” sob a proteção 
jurídica. É importante refletir que todos, inclusive o próprio Estado, são, a rigor, 
consumidores, o que torna a dialética produtor versus consumidor mais com-
plexa do que a dialética capital versus trabalho.
Muitos consumidores se inserem nos mecanismos de produção, direta ou 
indiretamente, razão pela qual, em um conflito, a distinção entre “fracos” e “po-
derosos” como que em campos opostos não é nítida. Os mercados têm forma 
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assimétrica, e o consumidor se vê numa posição de debilidade e subordinação 
estrutural em relação ao produtor do bem ou fornecedor do serviço.
É forçoso apontar que as medidas voltadas à defesa do consumidor não po-
dem ser taxadas como meras expressões da ordem pública. Em verdade, elas 
são impetradas com base na implementação de normatividade e medidas in-
terventivas. O art. 4° da Lei nº 8078/90 descreve como a ação governamental 
na defesa do consumidor é feita. O Estado pode atuar por iniciativa direta, por 
incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas, pela pre-
sença no mercado de consumo, ou pela garantia de produtos e serviços com 
adequados padrões de qualidade, segurança, durabilidade e desempenho.
O art. 5° menciona que a atuação do Estado é pela manutenção de assistência 
jurídica, integral e gratuita do consumidor carente, pela instituição de promotorias 
de defesa do consumidor no âmbito do Ministério Público, pela criação de delega-
cias de polícia especializadas no atendimento de consumidores vítimas de infra-
ções penais de consumo, pela criação de juizados especiais de pequenas causas 
ou varas especializadas para a solução de litígios de consumo e pela concessão de 
estímulos à criação e desenvolvimento de associações de defesa do consumidor.
Figura 1. Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. Fonte: BRASIL, 2014. (Adaptado).
CURIOSIDADE
O Sistema Nacional de Defesa do Consumidor – SNDC é 
regulamentado pelo Decreto Presidencial nº 2181, de 20 de 
março de 1997, e congrega PROCONs, Ministério Público, 
Defensoria Pública, Delegacias, Juizados Especiais Cíveis 
e organizações civis de defesa do consumidor, que atuam 
de forma articulada e integrada com a Secretaria Nacio-
nal do Consumidor (Senacon) em reuniões trimestrais.
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A intervenção do Estado é sentida quando da limitação da eficácia jurídica 
da declaração de vontade do consumidor, nos casos em que, considerando sua 
vulnerabilidade, busca evitar o seu comprometimento com normas contratuais 
prejudiciais, ou que não foram devidamente informadas. A atuação de insti-
tuições como o Ministério Público e de órgãos administrativos de defesa dos 
interesses dos consumidores para sua proteção é também dever fundamental 
previsto no texto constitucional.
A boa-fé objetiva
O termo boa-fé não é recente na ordem jurídica e aparece já em 1850 no Có-
digo Comercial, como cânone hermenêutico nos contratos com feições de letra 
morta e em outros dispositivos do Código Civil de 1916. O desenvolvimento dog-
mático da boa-fé se deve a autores como Couto e Silva, para quem a obrigação 
é um processo que se desenvolve no tempo e, em sucessivas fases, sendo ima-
nente nessas relações de deveres secundários ou anexos à obrigação principal.
A boa-fé objetiva assume o papel de fonte autônoma de direitos e obri-
gações, transformando a relação obrigacional e apresentando os elementos 
cooperativos necessários ao cumprimento da obrigação. Sua moderna signi-
ficação passa a ser conhecida com o Código de Defesa do Consumidor, assu-
mindo a feição de valores éticos que “estão a base da sociedade organizada e 
desempenham função de sistematização da ordem jurídica”, conforme escrito 
por Giancoli e Araújo Júnior.
As intenções subjetivas do sujeito são desvinculadas e indicam um compor-
tamento a ser seguido, adequado a padrões de lealdade, ética, honestidade e 
colaboração exigidos em quaisquer relações de consumo. Ela otimiza o compor-
tamento contratual ao impor os deveres de cooperação e de proteção dos recí-
procos interesses– os deveres instrumentais de conduta – e ao atuar como câ-
none de interpretação e integração dos contratos. O dever de lealdade é o mais 
imediato dos deveres criados pela boa-fé objetiva. O art. 4° da Lei nº 8078/90 
adota, de maneira implícita, a cláusula geral da boa-fé em suas três funções.
Em razão de sua função criadora ou integrativa, ela é fonte de novos deve-
res anexos ou acessórios. O dever de cooperar, de cuidado, de lealdade e de 
informar, conforme se depreende da leitura do art. 422 do Código Civil, deve 
estar presente em todas as relações contratuais. A boa-fé tem ainda função 
interpretativa, em que funciona como critério hermenêutico ou interpretativo 
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destinado ao juiz. Por fi m, a função de controle, que limita o exercício dos direi-
tos subjetivos ao reduzir a liberdade dos parceiros contratuais, defi nir algumas 
condutas como abusivas ou controlar a transferência dos riscos dos profi ssio-
nais e liberar o consumidor ante a falta de razoabilidade de outra conduta, em 
conformidade com o disposto no art. 51, Inciso IV da Lei nº 8078/90.
DIAGRAMA 5. FLUXOGRAMA SOBRE A BOA-FÉ OBJETIVA
Boa-fé
objetiva
Função
integrativa
Função de 
controle
Função
interpretativa
Acesso à Justiça
Não basta reconhecer os direitos subjetivos aos consumidores. É importante 
assegurar a efetividade da proteção. Esta é a necessidade de possibili-
tar uma real defesa dos direitos previstos no Código consubstanciada 
no art. 6°, VII da Lei nº 8078/90. O Estado deve assegurar 
o acesso à justiça por uma estrutura de órgãos estatais 
destinados a esse fi m e observar os demais deveres 
a ele impostos pela norma. Nas relações jurídicas de 
consumo, a Constituição consagra o direito funda-
mental de acesso à justiça em seu art. 5°, Inciso XXXV.
Práticas abusivas
As práticas abusivas são interpretadas de maneira genérica para que nada 
escape, englobando as condutas que afrontem a principiologia e a fi nalidade 
do sistema protetivo do Código de Defesa do Consumidor, bem como aquelas 
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que se enquadrem na figura do abuso de direito disposto no art. 187 do Código 
Civil de 2002, o que é lembrado na página 88 do livro de Cavalieri Filho. É pre-
ciso ressaltar que os comportamentos, pela sua simples existência no mundo 
das coisas, são considerados como atos ilícitos. Portanto, é dispensada a ne-
cessidade de lesão ao consumidor para sua caracterização.
As práticas abusivas são uma desconformidade com os padrões de boa con-
duta em relação ao consumidor. A concorrência desleal, mesmo que tenha re-
flexos indiretos na proteção ao consumidor, não é considerada prática abusiva 
pelo Código de Defesa do Consumidor, que apenas considera aquelas que, de 
modo direto, afetam o bem-estar do consumidor, segundo exposto nas pági-
nas 515 e 516 do livro de Grinover.
O Código de Defesa do Consumidor de forma ilustrativa descreve, nos ar-
tigos 39, 40 e 41, algumas dessas práticas abusivas que podem ter natureza 
contratual ou extracontratual, antes, durante o processo de formação, na exe-
cução do contrato ou mesmo após o seu término. Contudo, Cavalieri Filho sa-
lienta que tal entendimento está pacificado após alteração no art. 39 da Lei 
nº 8078/90 pela Lei 8.884/98, que incluiu na redação do artigo em comento a 
expressão “dentre outras”.
As práticas abusivas são objetos de sanções administrativas, de acordo com 
o disposto no Decreto 2181/97, que organiza o Sistema Nacional de Defesa do 
Consumidor e estabelece as normas gerais para aplicação dessas sanções de 
natureza administrativa. A publicidade é a forma para chamar o consumidor 
a participar do mercado de consumo e acompanhar a evolução da tecnologia.
Figura 2. Ilustração do processo de compra, com a publicidade no início do processo. Fonte: Shutterstock. Acesso 
em: 28/09/2020. (Adaptado).
Atenção Interesse Desejo Ação
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O Código de Defesa do Consumidor disciplina a publicidade com princípios 
norteadores que visam evitar a exposição do consumidor a lesões. O princípio 
da identificação da publicidade está previsto no art. 36, caput, da Lei nº 8078/90, 
e seu objetivo é garantir que o consumidor saiba ser alvo de um evento publici-
tário. Toda publicidade deve ser notória e, dentre os princípios da publicidade, 
estão os princípios da vinculação contratual da publicidade, da transparência 
da fundamentação, da correção do desvio publicitário e da boa-fé objetiva que, 
mesmo não sendo específico da publicidade, norteia todo o sistema de defesa 
do consumidor.
Proteção contra publicidade enganosa ou abusiva
O princípio da veracidade da publicidade é consagrado pela proibição da 
veiculação de informações não verdadeiras ou que levem o consumidor a erro, 
conforme disposto no art. 37, § 1º, da Lei nº 8078/90. Ligado ao princípio da ve-
racidade, está o princípio da não abusividade da publicidade, já que, enquanto 
a propaganda enganosa não é verdadeira e induz o consumidor a erro, a pro-
paganda abusiva viola os valores da sociedade, como a moral e os costumes, 
conforme o art. 37, §2°.
Proibição de cláusulas abusivas
Nos termos do art. 51, as cláusulas abusivas são nulas de pleno direito. A 
equidade presente no art. 4° impõe o equilíbrio nas relações entre consumido-
res e fornecedores, com uma função integradora e corretiva. Em sua primeira 
função, ela é usada para que o juiz use a equidade para solucionar o caso, na 
presença de lacuna na lei. Nesse caso, a solução do caso corresponde a uma 
ideia de justiça na consciência média. Já a função corretiva permite uma rela-
ção de igualdade e equilíbrio entre as partes
Princípio da conservação
Não se nega a importância da relação contratual. Em alguns casos, é pos-
sível conservá-lo mesmo com vícios, defeitos, ineficácia, descumprimento ou 
alteração econômica que prejudique o contrato estabelecido. Parte da dou-
trina identifica o princípio da conservação como uma maneira de concretizar 
a função social do contrato, enquanto outros o correlacionam ao princípio da 
boa-fé e seus deveres correlatos.
A eficácia atribuída a certos contratos, apesar das irregularidades, demons-
tra que o direito procura evitar a declaração de nulidade quando possível. Não 
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se ignora o respeito aos limites impostos à autonomia privada, porém, se apro-
veita o negócio jurídico celebrado e se atenta à intenção negocial manifestada 
pelas partes. Assim, o princípio da conservação é a consequência necessária 
do fato do ordenamento jurídico, pois, ao admitir a categoria de negócio jurí-
dico, está implicitamente reconhecendo a utilidade de cada negócio concreto, 
segundo Azevedo escreveu na página 65 do livro Negócio jurídico: existência, 
validade e eficácia, de 2000.
A intenção manifestada pelas partes é elemento central, todavia, deve estar 
aliada à ideia de que a manutenção do vínculo contratual é socialmente útil e 
atende aos critérios de função social do contrato, bem como aos princípios e 
garantias constitucionais correlatos. A aplicação prática desse princípio per-
passa por tornar mais difícil a anulação do negócio ou até a própria adaptação 
e revisão do contrato.
A intepretação clássica do princípio da conservação é como uma constru-
ção interpretativa, vista como alternativa à anulação do negócio, como quando 
os contratantes confirmam um negócio jurídico expressa ou tacitamente anu-
lável, a chamada ratificação. Outra hipótese é a redução, em que a nulidade ou 
anulabilidade de parte do negócio jurídico não desvirtua as demais.
A garantia, descrita no art. 6°, inciso V, da Lei nº 8078/90, inclui o princípio 
da conservação do contrato, ainda que implícito. É o que se depreende de uma 
interpretaçãosistemática do Código, posto que há permissão, no art. 51, §2°, 
para a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações des-
proporcionais e do direito de revisão de cláusulas em virtude de fatos superve-
nientes que as tornem onerosas. Ambas as previsões corroboram o intuito na 
conservação do negócio jurídico firmado entre as partes.
Outro ponto importante é a reflexão sobre os termos escolhidos pelo legis-
lador. A opção pela palavra “modificar”, no inciso V, art. 6°, parece adequada à 
ideia de “salvar”, “sanar”, reconstruir o que pode ser sanado. A desproporção 
do contrato não é presumida de maneira absoluta como abusiva. É, porém, de 
acordo com registrado na página 1052 do livro de Marques:
imperativamente e presumidamente controlável pelo magistra-
do, que a pedido do consumidor ou de um de seus legitimados, 
e a critério do magistrado, se houver exagero ou vantagem exa-
gerada, a controlará (MARQUES, 2016).
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A declaração de nulidade guarda conexão ao direito básico da efetiva e inte-
gral reparação dos danos na sociedade de consumo.
Modificação das cláusulas com prestações desproporcionais
A modificação das cláusulas previstas no art. 6°, Inciso V, é uma exceção ao 
sistema de nulidade absoluta de cláusulas e permite ao juiz a modificação ou 
revisão das cláusulas que estabeleçam prestações desproporcionais ou que 
sejam excessivamente onerosas em razão de fatos supervenientes nos negó-
cios jurídicos a pedido do consumidor.
Ao Poder Judiciário é facultada a modificação de cláusulas, inclusive as alu-
sivas aos preços ou qualquer outra que se caracterize pela desproporcionali-
dade, isto é, que acarretem algum desequilíbrio de direitos e obrigações entre 
as partes do negócio jurídico. Essa modificação significa uma interferência na 
vontade das partes pelo Estado com o objetivo de impor um equilíbrio contra-
tual, de acordo com a página 1053 do livro de Marques.
Modificar uma cláusula contratual por considerá-la abusiva ou substituir o 
seu conteúdo pelo previsto no texto legal é integrá-lo aos princípios da boa-
-fé e equilíbrio contratual. É interessante ressaltar que o Código de Defesa do 
Consumidor permite a alteração mesmo nas cláusulas relacionadas ao preço. 
A sanção da nulidade absoluta em relação ao preço torna necessário que o juiz 
atue de maneira excepcional, porque não há nenhuma regra supletiva apta a 
preencher essa lacuna.
A revisão do preço se dá em razão de fato superveniente, quando uma cláu-
sula que era equitativa se torna onerosa. A revisão é unilateral porque é admi-
tida somente para o consumidor, tendo em vista que está disposta em artigo 
que disciplina os direitos básicos do consumidor. O art. 6°, inciso V, da Lei nº 
8078/90, não exige que o fato superveniente seja imprevisível ou irresistível, 
exigindo somente a quebra da base objetiva do negócio jurídico.
Ou seja, conforme relatado por Marques, “a quebra de seu 
equilíbrio intrínseco, a destruição da relação de equi-
valência, o desparecimento do fim social do contra-
to”. Não se trata da cláusula rebus sic stantibus, cujo 
pressuposto consiste no fato de que as partes não 
tinham condições de prever, no momento da assi-
natura do negócio jurídico, os acontecimentos que 
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causaram o desequilíbrio. A alteração do contrato no futuro tem como base a 
impossibilidade de, no passado, prever tais acontecimentos.
As características da relação de consumo e de contratos demandam a ine-
xigibilidade de que o fato superveniente é imprevisível ou irresistível. O for-
necedor assume o risco de seu negócio e detém o conhecimento técnico para 
ofertá-lo ao mercado. Nas páginas 131 e 132 de seu livro, Nunes acrescenta que 
os contratos nas relações de consumo são de adesão. 
A aplicação da teoria da quebra da base objetiva do negócio foi e é objeto 
de muitas demandas judiciais. Em 1999, com a liberação do câmbio, muitos 
contratos antes corrigidos por moeda estrangeira sofreram acréscimos que 
tornaram as prestações onerosas aos consumidores, acarretando na necessi-
dade de revisão. Os contratos bancários são outro exemplo em que a revisão 
das cláusulas contratuais passa pelo crivo judicial.
Prevenção e reparação de danos materiais e morais
O Código de Defesa do Consumidor prevê como regra fundamental a repa-
ração integral dos danos, assegurando aos consumidores a efetiva prevenção 
e reparação dos danos suportados, sejam materiais, morais, individuais ou co-
letivos. A efetividade do Código de Defesa do Consumidor consubstanciada no 
art. 6°, inciso VI, encontra em primeiro lugar a prevenção.
A prevenção aos danos é realizada por políticas de conscientização e me-
didas para evitar propagação de lesões e prejuízos aos consumidores, se ini-
ciando com atitudes próprias dos fornecedores, como o recall. O poder público 
exerce papel fundamental na prevenção aos danos, conforme demonstra o art. 
55 da Lei nº 8078/90. 
A prevenção depende também de educação, orientação e informação aos 
consumidores e fornecedores. Também podem ter esse papel a criação de de-
veres aos fornecedores, a restrição à autonomia da vontade ou a intervenção, 
sempre que necessária, para restabelecer o equilíbrio da relação jurídica, sem 
esquecer da reponsabilidade dos fornecedores pelo descumprimento dos pre-
ceitos legais. A prevenção é mais eficaz se realizada através de tutela adminis-
trativa, mas as medidas judiciais não estão de todo excluídas.
A garantia da plena reparação dos danos perpassa pela impossibilidade de 
indenização tarifada. A rigor, o enunciado n. 550 do CJF/STJ, aprovado na IV 
Jornada de Direito Civil em 2013, prevê que “a quantificação da reparação dos 
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danos extrapatrimoniais não deve estar sujeita a tabelamento ou a valores fi-
xos”. Cláusulas contratuais que estabeleçam limites para as indenizações por 
danos morais ou materiais são consideradas nulas, como determina o art. 6°, 
VI, bem como o art. 51, I, da Lei nº 8078/90.
A reparação pelos danos materiais é tarefa relativamente fácil, de acordo 
com a página 92 do livro de Cavalieri Filho. Basta a comprovação da ocorrência 
e extensão, o que não se pode afirmar quanto à reparação pelos danos morais. 
Porém, o Código de Defesa do Consumidor, no intuito de tornar seus precei-
tos eficazes, dota os consumidores, sobretudo os organizados, com os instru-
mentos processuais modernos para que se dê a prevenção e a reparação dos 
danos, segundo Grinover. A existência das tutelas dos chamados “interesses 
difusos” dos consumidores, dos “interesses coletivos” propriamente ditos e dos 
“individuais homogêneos de origem comum” são um exemplo dessa moderni-
dade e preocupação com a eficácia.
Adequada e eficaz prestação de serviços públicos
O poder público, quando produtor de bens ou prestador de serviços remu-
nerados – não mediante atividade tributária – por tarifas ou preços públicos, 
está sob o âmbito de incidência do Código de Defesa do Consumidor, conforme 
determina o art. 22 da Lei nº 8078/90. O regime de concessão ou permissão, 
previstos no art. 175 da Constituição, é disciplinado pela Lei 8987/95, que em 
seu capítulo II trata dos “serviços adequados”.
O art. 6° da Lei 8987/95 estabelece que toda a concessão ou permissão pres-
supõe o atendimento adequado do usuário e caracteriza o serviço adequado 
como aquele que satisfaça as condições de regularidade, continuidade, eficiên-
cia, segurança, atualidade, generalidade, cortesia na sua prestação e modicida-
de das tarifas. A atualidade é a modernidade das técnicas, do equipamento e 
das instalações, sua conservação, bem como a melhoria e expansão do serviço.
A lei traz ainda a previsão de que não se caracteriza como descontinuidade 
do serviço a interrupção

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