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C A P A DE A. P E D R O
Reservados todos os direitos pela legislação em vigor
Lisboa — Janeiro de 2000
Edição feita por acordo com a
ROWOHLTS DEUTSCHE ENZYKLOPADIE
COLECÇÃO VIDA E CULTURA
••\-
RUTH BENEDICT
PADRÕES DE
CULTURA
TRADUÇÃO DE
ALBERTO CANDEIAS
EDIÇÃO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA
Rua dos Caetanot, it
l
A CIÊNCIA DO COSTUME
• j • Costumes e Comportamento
A antropologia ocupa-se dos seres humanos como pro-
dutos da vida em sociedade. Fixa a sua atenção nas
características físicas e nas técnicas iadustrjãlsT~iãas
convenções e valores que distinguem uma comunidade de todas
as outras que pertencem a^ttma tradição diferente.
Õ que distingue â antropologia"das autuas ciências sociais
é o eia.fijcluir río~seíír campo, .para/ as escudar eiudadosairseiite,
jociedades que não são a nossa sociedade. Paxá os seus fins
qualquer norma socM de caaamienita e de reprodução tem
tanto significado como aquelas que nos são próprias, mesmo
que "seja a dos Dyalcs do Mar, e^não. íem. jjualqiiiear,possível
relação histórica com â da nossa cjyjjlfzação., Paia o antropolo-
gisba," òs'injossos costumes e os de -uma tribo da Nova Guiné
são dois esquemas sociais possíveis. qaè .tratam do amesino pro-
blema, e cumpre ao aoiCropoIogisCa, enquanto antropologigta,
evitar ttxta e qualquer apreciação de voo, em favor do outro.
foter^sa-o a cocdtsta humattâ, tíSo comiõT moddaida por uma
certa tradição, a nossa tradição, mas como o foi por qualquer
tradição, seja ela qral for. Jntereasa-o a vasta gama de costu^
em culturas diferentes, e o seu objectivo é
compreender o modo como essas culturas se transformam e se
diferenciam, os faunas diferentes por que se exprimem, e a
maneira como os costumes de quaisquer povos funcionam nas
vidas dos indivíduos que os compõem.
Ora o costume não tem sido considerado assunto de
grande importância. O funcionamento íntimo do nosso cérebro,
eis o que nos parece constituir a única coisa digna de estudo;
o costume, temos tendênrfo {"ara pfnrcairi f "orriMlt? "»•* i"
forma mais vulgar. De facto, o oonitrámo é que é verdade.
O costnimeftrariioiônal, considerado peto mundo em geral, é
uma- massa de conduta pormenorizada mâás espantosa do que
o que qualquer pessoa pode jamais revelar nas acções indivi-
duais, por mais aberrantes. E no entanto isto é tzm aspecto um
i tanto trivial da questão. Q._que éygxia
é o papel •predomiiisainfie qu_e.jO~ oostumfe desempenha a
] experimentai na vida diária, e inO;,,qne_se-orê, e as ._
í mente grandes variedades sob qute _Bod^jmamfestí»iHse.
^^
A herança da criança
pensar.̂ Nem mesmo «as suas concepções filosóficas ele con-
segue su,btrair-se a esses estereótàpos; até: rajseiBjJMiceitos do
\ieidadeiH)..e^dp_.feto_s^ainda referidos aiosiseus..pp:tíiçu]lares
cQstuoxes .istadidonais. John Dewey disse perifeitaimenile a sério
que o papel desempenhado pelo costume mo moldar do com-
portamento do indivíduo, comparado com qualquer maneira
por que este possa afectar o costume tradicional, está na
mesma proporção que a totalidade do vocabulário da sua
língua materna compararia com os termos da sua linguagem
iníantil adoptados no vernáculo da família. Quando se estradam
a sério ordens sociais que se puderam desenvolver aiutonoma-
[H]
mente, aquela comparaição não é mau que uma exacta obser- , ,
(•vaçao de faoto. A-históriada..;vJda«iadividue
} encima, de. tudo, uma ,acom!pdaçãp_ajps..padrões..de
Y medida fa^jcipnlajlme
^ geração^ para geracãp,.... Desde que o indivíduo vem ao mundo
os__costumj65L;dQ_ambienite em que masceu moldaim a sua expe-
Mência dos factos e a sua condim. Quando começa a falar,
ele é o frutozMiò da sua cultura, e quando crescido e capaz
de 'tomar parte nas actividades desta, os hábitos dela são os
seus hábitos, as crenças dela, as suas crenças, as incapacidades
dela» as suas inoaipacidades. Todo aquele que nasça no seu
grupo delas partilhará com ele, e todo aquele que nasça num
grupo do lado oposto do globo adquirirá a milésima parte dessa
herança. Nenhum outoo pnoblenVa sócia] roas cabe anais forço-
samente conhecer do que este do papel quje o costume desem-
penha na formação do imdíviidup. Enquanto não pudermos
comipreendíeir es suias leãs e as suas variedades, os principais
factos que complicam a vida humana conítBiUiairão a ser para
nós ininteligíveis.
A nossa falsa perspectiva
j O estudo do oosaume-so-iips ..pode 'apro^tor depois de
deases postulados têm
encxwitradõ erguàda contra st "uima oposição vialenita. Bm pri-
meiro"luigaf "fiado bTegCudo científico exige a aiffiênciia de trata- ],
manto preferencial de um. ou ouitiro dos temmoB da sfeâe ||
para ser eatudaite'. Bm todos os campos meras sujei-
tos a controvérsia, como o estudo dos cactos, ou das térmites;
ou da natureza das nebulosas, o método de estudo a seguir
é o de Agrupar o materiai signfficaitívo e registar todas as
jiossfvek formas e condições variantes. Foi deste modo que
aprendemos tudo o que sabemos das leis da astronomia, ou
dos hábitos dos Insectos sociais, por exemplo. Só no estudo
do próprio homem é que as mais importantes ciências sociais
substituíram aquele' método peto estudo de uma- vadaçip
\ antropologia) foi, por definição, impossível enquanto
estas distinções, entre mós próprios e o primitivo, nós próprios
e o Bárbaro, nos próprios e o pagão, pôs .dominaram o esgoto.
Foi necessário começar por atingir aquele grau de afinamento
intelectual em que já não pomos a nossa crença em contraste
com a superstição do nosso vizinho; foi. _aieoessfcio_sabef re-
gremiKas, isto é: o sobrenatural, devem ser consideradas sob
o. mesmo ângulo, aquelas como a aossa própria, para que tal
impossibilidade desaparecesse.
i Na primeira metade do século xix este postulado demen-
tar não podia: ocorrer nem sequer ao espírito rnafc esctoejgdo^
dentre as pessoais da civilização Ocâdentail. O homem, aitravés
df toda, a «uahistoria. defendeu como um ponto de honra
a odeia da sua incompanabSldade, do seu carácter de ser excep-
cional. No .tempo deVgopjírnjco/esça ydvindioaçSo de supre-
ííãcíaT era de 'tal modo ambiciosa que 'incluía trèsmõ à Terra
em que ele vive, e oseçulq wv (recusousse.cpm paáxlo B admitir
a subordinação deste planeia a ocupar apenas ASTÍI lugar çn-Cre
oí outras no sistema isolar. No tempo de^amvinj; «eodo cedido
ao inimigo o sistema solar, o homem lutou com todas as
amuas de que dispunha pela exclusividade da aima, atributo
inconcebível dado por Deus ao homem, de maneira (tal que
negou -a descendência do homem de quaisquer membros do
reino amimai. Nem a falta de comtíríuidaide lógica da argumen-
tação, nem quaisquer duvidais sobre a natuireza dessa «alma»,
nem sequer & circunstância de o século xix não ter procurado
afirmar a sua fraternidade com quaisquer estranhos ao grupo
—nenhum destes factos contaram contra a magnífica exal-
tação que se manifestou rapidamente perante a indignâdiade
que a evolução propunha confira o conceito da excepcionaE-
dade do homem, ser lírnco entre os seres.
Ambas essas batalhas se podem considerar ganhas — se
ngo jáv pelo menos eon breve; mas a luta só mudou de frente.
Hoje estamos perfeitamen/6e dispostos a admitir qoue a revo-
lução da terra em torno do Sol, ou a descendência animal do
homem, quase wada >tém que ver com a excepcionalidade das
nossas realizações humanas. Se habitamos um qualquer pla-
neta dentre miríades de sistemas solares, tento maior glória
para nós, e se todas as heteróclitas .raças humanas estão liga/das,
por evolução, com o animal, tanto miais radicais são as
diferenças demonstráveis entre nós e qualquer BinâmaJ, e tanto
mãos notável é a unicidade das nossas instkuíçSes. Mas as^
nossas reali2aç5es,as nossa£_mstitulções são únacais, incampa-_
de iimãordem ̂ feerenit)e^ag_das^ raças inferiores
ffr ?**»$$?* rijado o custo. De sorte que, ou seja
Uma questão de imperialisiao, ou de preconceito de raça, ou
de comparação entre Cristianismo e paganismo, continuamos
envaidecidos com a •unicidade, ngo das imsíátuieões humanas
do mundo em gerai, com que, iadiás, nunca ning-uém se preo-
cupou, mas dasos velhos críticos de arte por vezes
têm feito, devemos antes investigar até que ponto arte e religião
mutuamente se interpenetram, e as consequências de tal inter-
penetração para a arte e a religião.
[50]
""SP Espíritos guardiões e visões
A interpenetração de diferentes campos da experiência,
e a consequente modificação que para eles daí resulta, pode
exemplificar-se por factos de todas as fases da existência:
economia, relações entre os sexos, folclore, cultura material
e religião. O processo pode ser ilustrado por uma das feições
religiosas largamente espalhadas dos Ameríndios do Norte. Por
todo o continente, em todas as áreas de cultura, excepto a dos
povos do Sudoeste, o poder sobrenatural obtinha-se através de
um sonho ou visão. O êxito na vida, segundo as suas crenças,
resultava de um contacto pessoal com o sobrenatural. A visão
de cada um conferia-lhe poder para durante toda a vida, e em
certas tribos renovava-se constantemente o contacto com os
espíritos buscando novas visões. Fosse o que fosse que ele visse,
um animal ou uma estrela, uma planta ou um ser sobrenatural,
fazia de quem o visse um protegido pessoal, e aquele que assim
ficava sob a sua protecção, podia a isso recorrer quando o ne-
cessitasse. Ele tinha deveres a cumprir para com o seu patrono
em visão, oferendas a dar-lhe e obrigações de toda a espécie.
Em troca, o espírito conferia-lhe os poderes específicos que lhe
prometera no momento da visão.
Em cada grande região da América do Norte este complexo
espírito guardião tomava formas diferentes segundo as outras
feições da cultura com que estava mais intimamente associado.
Nos planaltos da Colúmbia Britânica associava-se com as ceri-
mónias de adolescência a que nos referimos. Rapazes e rapa-
rigas, nessas tribos, iam, na adolescência, para as montanhas,
para realizarem um treino mágico. As cerimónias de puber-
dade estão largamente espalhadas ao longo de toda a Costa do
Pacífico, e na maior parte dessa região são completamente
distintas das práticas do espírito guardião. Mas na Colúmbia
Britânica confundiam-se. O clímax do treino de adolescência
para os rapazes era a aquisição de um espírito guardião que
pelos seus dons ditava a profissão do jovem para toda a vida.
Seria guerreiro, sacerdote, caçador, jogador, segundo o que
lhe ditasse a visão sobrenatural. As raparigas também recebiam
os seus espíritos guardiões, que representavam os seus labores
domésticos. A_ experiência do espfritn -gmmtim~*titrp estes
povos está/tão profundamente moldada pela sua associação
com o cerimonial de adolescência, que antropologistas que
conhecem essa região têm sugerido que todo o complexo da
visão dos Ameríndios tem a sua origem nos ritos de puberdade.
Mas não há correlação genética entre as duas coisas. Confun-
dem-se, localmente, e ao confundir-se ambos os aspectos assu-
miram formas especiais e características.
j Noutras partes do continente, a busca do espírito guardião
í não tem lugar na puberdade, nem é levada a cabo por todos
\s jovens da tribo. Logo, o complexo não tem nestas culturas
l qualquer espécie de parentesco com os ritos de puberdade
! mesmo quando estes existem. Nas planícies do Sul é o homem
adulto que busca as sanções místicas. O complexo da visão con-
funde-se com um aspecto muito diferente dos ritos de puber-
dade. Os Osage estão organizados em grupos de parentesco em
que a linhagem válida é a paterna, sendo a materna desprezada.
Estes grupos cll têm uma herança comum de bênção sobre-
natural. A lenda de cada clã diz como o seu antepassado buscou
uma visão e foi abençoado pelo animal cujo nome o clã herdou.
O antepassado do clã do mexilhão buscou sete vezes, com as
lágrimas correndo-lhe pelo rosto, uma bênção sobrenatural.
Por fim encontrou o mexilhão e dirigiu-se-lhe dizendo.
Oh meu-avô.
Os pequeninos não têm nada de que façam os seus corpos
Ao que o mexilhão respondeu:
Dizes que os pequeninos não têm nada de que façam os seus
corpos.
Que os façam, então, do meu corpo.
Quando o fizerem do meu corpo
Viverão sempre até à velhice.
[52]
Repara nas rugas da minha pele (concha)
Que eu fiz para por elas chegar à velhice.
Quando os pequeninos fizerem de mim os seus corpos.
Viverão sempre até verem sinais da velhice na sua pele.
As sete curvas do rio (da vida)
Passo-as a salvo.
E nas minhas viagens nem os próprios deuses podem ver o
rasto que deixo
Quando os pequeninos fizerem de mim os seus corpos
Ninguém, nem mesmo os deuses, poderão ver o rasto que eles
deixam.
Neste povo todos os elementos familiares da visão estão
presentes, mas esta foi conquistada por um primeiro antepas-
sado do clã, e as bênçãos que ele conferiu foram herdadas por
um grupo de parentesco.
Esta situação entre os Osage revela uma das mais com-
plexas representações que existem, do totemismo, esse misto
íntimo de organização social de veneração religiosa pelo ante-
passado. Em todas as partes do mundo existe totemismo, e
certos antropologistas têm defendido a ideia de que o totem
de clã tem a sua origem no «totem pessoal», ou espírito guar-
dião. Mas a situação é perfeitamente análoga à dos planaltos
da Colúmbia Britânica onde a busca da visão se fundiu nos ritos
de adolescência. Somente aqui fundiu-se nos privilégios heredi-
tários do clã. Esta nova associação tomo-u-se tão forte que já
não se pensa que uma visão dê automaticamente poder ao
homem. Só a herança confere as bênçãos da visão, e entre os
Osage surgiram cânticos novos que descrevem os encontros dos
antepassados e pormenorizam as bênçãos que os seus descen-
dentes podem, consequentemente, reivindicar.
Em ambos estes casos não é só o complexo_da .visão que
)táqj3jrej:afácter diferente em diferentes regiões, conforme se
confunde com os ritosrindo o aspecto de uma crise violenta que distinguia os ofician-
tes religiosos de todos os outros, mas também o carácter dos
xanrãs se itin-h» igualmente -modificado pela: natureza da
experiência de transe. Estes eram decididamente os membros
instáveis da comunidade. Nesta região as cerimónias de emu-
lação entre xamãs assumiam a forma de compitas para ver
qual deles vencia os outros a dançar, isto é, suportava a dança
por mais tempo antes de cair na crise de catalepsia que aca-
bava por dominá-los. Tanto a experiência de visitação como o
xamanismo tinham sido profundamente afectados pela íntima
interpenetração que entre eles se estabelecera. A associação dos
dois aspectos, à semelhança da associação da experiência de
visitação e dos ritos de puberdade ou da organização em clã,
tinha modificado radicalmente ambos os campos de com-
portamento.
-*• {/" Casamento e Igreja
Semelhantemente, na nossa própria civilização a indepen-
da igreja e do sacramento do matrimónio está histori-
camente averiguada, e no entanto o sacramento religioso do
matrimónio ditou, durante séculos, transformações tanto no
comportamento sexual como na igreja^O Carácter particular
do casamento durante esses séculos proveio da associação de
dois aspectos culturais essencialmente independentes um do
outro. Por outro lado o casamento foi muitas vezes o meio
Em culturas em que isto se dá a íntima associação do casamento
com. a transferência da riqueza pode obliterar completamente
o facto de o casamento ser fundamentalmente uma questão
[55]
de arranjo sexual e de reprodução. O casamento deve, em cada
caso, ser interpretado como em 'relação com outros aspeetes..
assimilação, e nSo devíamos cair no
_erro (fo pensar que ajãsãmêiitõirs&jiQde nÕMÕkcasos inter-
pretar pelo mesmo conjunto de ideias. Devemos contar com
os diferentes componentes combinados na mesma feição re-
sultante.
Estás associações são social,
não biologicamente inevitáveis
Precisamos urgentemente de ser capazes de analisar os
aspectos da nossa herança cultural destrinçando as diferentes
partes que os constituem. As nossas discussões da ordem sociat
ganhariam em clareza sê ajirelid&|semô¥^
modo a complexidade mesmo do mais simples aspecto àp
nosso comportamento. Diferenças raciais e prerrogativas de
prestígio de tal modo se fundiram entre os povos Anglo-Sáxões,
que não conseguimos separar questões raciais de natureza
biológica dos nossos mais socialmente condicionados precon-
ceitos. Mesmo em mações tão proximammte apareatadas com os
anglo-saxões como são os povos Latinos, tais preconceitos
assumem formas diferentes, de modo que em regiões de
colonização espanhola e nas colónias britânicas, diferenças
raciais não têm o mesmo significado social. O cristianismo e a
mulher na sociedade são, anàTogatrante^
cuítp-ais historiçamenteinteT-relacionãdos, e, em épocas dife-
T;éjãté7rinfTwhciaram^sé"redprôcàffl modo muito dife-
ren&. A actual elevada posição que a mulher ocupa nos países
cristãos não é mais uma «consequência» do cristianismo do
que o era a associação da mulher com tentações demoníacas,
de Orígenes. Estas interpenetrações de aspectos culturais surgem
e desaparecem, e a história da cultura é em elevado grau uma
história da sua natureza, destinos e associações. Mas
genáticaque com tanta facilidadedescobrimos numa fei-
cão complexa e o nosso horror por qualquer perturbação das
idade das possíveissuas inter-relacSes sitobero i
indiacriminadamente erigir-se
Cfi7lnossas próprias instituições e realizacõeis,_da-
nossa civilizaição.
COIlfllSãO de COStume local C.am Natnr/>7n knmnnn
A civilização Ooidenitel. devido a circunstâncias históricas
fortuitas, teve rancot esse, -tem tido uma experiência diferente. Nunca,
porventura, terá visto ura homem de outra civilização, a não
ser que o homem de outra civilização já esteja europeizado.
Se viajou, muito provavelmente fê-lo sem «uraca «r .ficado
fora de um hotel cosmopolita. Pouco gabe de quaásquerjna-
netras de viver quengo sejam as suas. A uniformidade de
costumes, de pontos de vista.., que vê em volta, de si parecem-
-Ihe suficientemente convincentes, e esconde das suas vistas o
facto de que se 'trata, afinal, de rum acidente histórico; Aceita
sem anais complicações a> equivalência' da natureza humana e
dos seus próprios padrões de cultura.
E no encanto, ia grande \expamisao da civilização branca,
não é uma circunstância histórica isolada. O grupo Polinésio,
em épocas relativamente recentes, espraiou-se desde Ontong,
Java, até à Ilha da Páscoa, de Havaí até à Nova Zelândia; e as
tribos de Língua Bantu espalharam-se desde o Sara à África
do Sul. Mais nós em nenhum caso consideramos esses povos
como mais do que •uma variação local hipertrofiada da espécie
humana. A civilização Ocidental teve todas as suas invenções
em meios de transporte e todas ais suas organizações comer-
ciais tíe largo âmbito, a apoiar a sua. vasta dispersão, e é fácil
compreender historicamente como isto se deu.
—j>A nossa cegueira perante outras culturas
As consequências psicológicas deste, expansão da ouJftuna
branca têm sidodesproporcionadais quaindo comparadas com
. Esta difusão cultural iam giau
[18]
mundial têm-nos- impedido, como- noraca o homem o foi até
aqui, de rtomar a sério as civilizações dos outros povos; tem
feito que a nossa cultura e e nossa •unSvensalidade maciça
tenham, desde há (muito tempo, deixado de tomar em consi-
deração o que é de essência histórica, e que asBeníáinos ser,
pelo contrário, necessário e inevitáivel. foterpretaimos a depen-
.
económica, jxinio prova de qjte ue$a é a pri
«imante cm^ quê "èlnat$»teâai 'pode conf ia . e_ regia^o nas clínicas;
évpsicologia infaíiítíl ou o modo por que o ainimal humano
jovem tem de se comportar. O mesmo se dá quer se trate
da nossa ética quer da organfização familiair. O que defen*
demos é a inevita/bHidade de cada motivação fenníliax, ti
sempre idendficair os nossos modos locafe de comportamento.
com Comportamento, ou os otossos próprios hábitos em sooie-
dade. com Natureza Humana, "noã -\, o homem modera» >fez desta tese tima das circuns-
tâncias vitais do seu pensar e da ema conduta prática, mas as
fontes de qoie ela provém 'recuam até ao qw, a avaliar pela
sua existência O&.JÍ^^^^G;^Í^^
sÊo fora das disposições do código moral que é
observado dentro d
q/uem Kumáriamenite ee nega .?m
nomes de
owra^ ̂
povos primitivos se irecoiAeJas quest .̂..reahnmte.yitete...̂ ...9{»!»LáYÍlJÉe9S9o
parece estarmos ainda longe de ter adquirido a atitude desin-
teressada que tão largamente alcançámos s no .campo da^reUgião.
Outra circunstância fez do estudo sério do costume uma
disciplina ainda em atraso e muitas vezes cultivada com hesi-
tação, e esta é uma circunstância mais difícil de vencer do que
aquelas a que vimos de nos referir. O costume não provocou
a atenção. _dos, -teorizadores- sociais porque ele .constituía a
própria.,substânda .da. seu. pj3nsar:_era,^ppr assim Jizcr, a lente
semj^qyaLnada_pMiajr^^
mental,_eidjtia_fora_da . sua_atencão . canscjentó^ Tal. cegueira
nada tem de enigmático. Depois de um investigador reunir
õs~vãstos~aa~do¥ necessários para o estudo de créditos inter-
nacionais, ou do processo de aprender, ou do narcisismo como
factor de psiconeuroses, é por intermédio e dentro deste corpo
[21]
de dados que Q OU O PSJCOlOf-ista. ou o psiquiatra
operam. Não toma em consideração o facto de outros com-
plexos sociais em que, porventura, todos os factores se dispõem
de uma maneira diferente. Isto é, não conta com o condicio-
namento cultural. Vê o aspecto que está a estudar como mani-
festando-se de modos conhecidos e inevitáveis, e apresenta
estes como se fossem absolutos, porque a eles se reduzem todos
ae-fee servem para trabalhar racionalmente. Iden-
Jifjcanvse_atitudes locais da década de trinta,_conL-natUfeza
humana^ e a sua caracterização, com Economia e Psicologia.
Na prática, isto. muitas vezes, não importa. Os nossos
filhos devem ser educados na nossa tradição pedagógica, e o
estudo do processo de aprendizagem nas nossas escolas é o
que realmente importa. Da mesma forma se justifica o en-
colher de ombros com que muitas vezes se acolhe uma dis-
cussão de outros sistemas económicos que não o nosso. Afinal,
temos de viver dentro do quadro do meu e do teu que a nossa
particular cultura estabelece.
Isto é, realmente, assim, e o facto de as variedades de
culturas se poderem discutir melhor tais como existem em
espaço, é pretexto para a nossa aonchalance. Mas é apenas
a limitação de material histórico o que impede que se tirem
exemplos da sucessão das culturas em tempo. Essa sucessão
é coisa a que não podemos furtar-nos, mesmo que o queiramos,
e quando olhamos mesmo só uma geração para trás que seja,
então compreendemos até que ponto foi longe a revisão, por
vezes no nosso mais íntimo comportamento. Até aqui tais
revisões têm sido não deliberadas, mas o resultado das cir-
cunstâncias que só retrospectivamente podemos figurar. .E se
não fosse a nossa relutância em enfrentar mudanças culturais
em questões essenciais, enquanto elas se nos não impõem, não
seria impossível assumir uma atitude mais inteligente e autori-
zada. Aquela relutância é em grande partg n-n\a
nossa incompreensãojtas convençfipjculturais. e especiajmejxte
.umãjjuMimacjp daguelas^que pertencem à nossa nacj?"^ ^
[22]
nossa década. Um conhecimento mesmo escasso de outras
convenções e de como elas podem ser diferentes das nossas,
contribuiria muito para promover uma ordem social racional.
O estudo de culturas diferentes tem ainda outro alcance
muito importante sobre o pensamento e o comportamento de
hoje em dia. A vida moderna pôs muitas civilizações em con-
tacto íntimo, e no momento presente a reacção dominante a
esta situação é o nacionalismo e o snobismo racial. Nunca,
mais do que hoje, a civilização teve necessidade de indivíduos
bem conscientes do sentido de cultura, capazes de verem objec-
tivamente o comportamento socialmente condicionado de
outros povos sem temor e sem recriminação.
Desdém pelo estrangeiro não é a única solução possível do
nosso actual contacto de raças e nacionalidades; esta nem
sequer é uma solução cientificamente alicerçada, A tradicio-
nal intolerância anglo-saxónica é uma feição cultural, local e
temporal como qualquer outra. Mesmo um povo tão aproxima-
damente do mesmo sangue e da mesma cultura como o espa-
nhol dela não sofreu, e o preconceito de raça nos países de
colonização espanhola é uma coisa completamente diferente
do dos países dominados pela Inglaterra e pelos Estados
Unidos. Nestes não se trata evidentemente de uma intolerân-
cia dirigida contra a mistura de sangue de raças biologica-
mente muito distantes, porque ocasionalmente a exaltação é
tão grande contra o católico irlandês em Boston, ou o italiano
na Nova Inglaterra, como contra o Oriental na Califórnia.
É a velha distinção entre o grupo de dentro e o grupo de fora,
e se neste aspecto continuamos a tradição primitiva, temos
muito menos desculpa do que as tribos selvagens. Nós viajá-
mos, orgulhamo-nos das nossas vistas desempoekadas. Mas
não conseguimos compreender a relatividadejfos hábito? cul-
túrais,^jcontjjauáfnos_privadòs~aè^muito proveito e dejgàto
prazer nas nossas relações humanas com povos de diferentes
tipos de cultura, e a não ser dignos de confiança nas nossas
relações com eles.
[23]
O reconhecimento da base cultural do preconceito de
raça é hoje uma necessidade desesperada na civilização Oci-
dental. Chegámos a ura ponto em que alimentamos precon-
ceitos de raça contra os nossos irmãos-de sangue, os Irlande-
ses, e em que a Noruega e a Suécia falam da sua inimizade
como se também eles representassem sangues diferentes. A cha-
mada linha racial, durante uma guerra em que a França e a
Alemanha se batem em campos opostos, mantém-se para di-
vidir o povo de Baden do da Alsácia, ainda que somaticamente
ambos pertençam à sub-raça alpina. Numa época de movi-
mentos sem embaraços e de casamentos mistos, na ascendência
dos elementos mais desejáveis da comunidade, pregamos, sem
corar de vergonha, o evangelho da raça pura.
O homem moldado pelo costume não pelo instinto
A isto a antropologia dá duas respostas. A_pj±neir;a res-
peita à natureza da cultura,.e a segunda à natureza da herança.
A resposta respeitante à natureza da cultura íeva-nos atií às
sociedades pré-humanas. flá sociedadesem que. a .Natureza
perpetua o mais ténue .modo de_cQmpprtamento por meio de
mecanismos biológicos, mas tais,sflcjedades não s3o.de homens,
são de insectos. A formiga rainha, transportada para um ninho
solitário, reproduzirá todas as feiçSes do comportamento
sexual, todos os pormenores do ninho. Os insectos sociais re-
presentam a Natureza não disposta a correr quaisquer riscos.
O padrlo de toda a estrutura social, confia-o ao comporta-
mento instintivo da formiga. Não há maior número de proba-
bilidades de as classes sociais de uma sociedade de formigas
ou de os seus padrões de agricultura se perderem pela sepa-
ração de uma formiga do seu grupo, do que de a formiga não
vir a reproduzir a forma das suas antenas ou a estrutura do
seu abdómen.
Fejjz_ou infelizmente, a solução do homem ocupa o pólo
[24]
oposto. Nada da sua organização social tribal, da sua lingua-
gem, da sua religião local é itrãnsportãdcVriã ^
nal. Na Europa.^m séculos passados, quando se encontravam
crianças que tinham sido abandonadas e se tinham conservado
em florestas, separadas de outros seres humanos, eram de tal
moda parecidas entre si que Lineu as classificou como uma
espécie à partej Homo ferus, e supôs que eram uma espécie
de anões raros. Não podia conceber que tivessem nascido de
homens, esses brutos idiotas, esses seres sem interesse no que
se passava à sua volta, oscilando ritmicamente para trás e para
diante como qualquer animal de jardim zoológico, com órgãos
da fala e da audição que mal podiam educar-se, que resistiam
ao frio apenas com uns farrapos e tiravam batatas de água a
ferver sem o menor incómodo. Ê claro que n3o havia qualquer
dúvida que se tratava de crianças abandonadas na infância,.
e o que a todas faltara fora a associação com os seus seme-
lhantes, só através da qual as faculdades do homem se afinam
e ganham forma.
Hoje, na nossa civilização, mais humanitária, já não se
encontram crianças selvagens. Mas o facto ressalta com igual
clareza de qualquer caso de adopção de uma criança em outra
raça ou cultura.
famflia ..a^^^
adoptivos as atitudes, correntes, entre^as^ crianças _com qnem
brinca, e encarreira-se para as , mesnias. profissões_ que _elas
escolhem. Aprende todo o conjunto de feições culturais. _.§£
sociedade que adoptou, e o grupo dos seus verdadeiros proge-
nitores não desempenha em. tudo isto qualquer papel,. O mesmo
se passa em grande escala quando populações inteiras se
desembaraçam da sua cultura tradicional em duas ou três
gerações e adoptara os costumes de um grupo estrangeiro.
A cultura do Negro americano nas cidades do norte veio a
aproximar-se em todos os pormenores da dos brancos nas
mesmas cidades. Há alguns anos,quando se fez um recensea-
mento cultural era Harlém, um dos traços peculiares aos
Negros era a moda que seguiam de apostar nos três últimos
algarismos dos investimentos da bolsa no dia seguinte. Pelo
menos saía mais barato do que a correspondente predilecção
dos brancos por jogarem na própria bolsa, e tinha a mesma
incerteza e era igualmente excitante. Era uma variante do
padrão branco, mas nem por isso se afastava muito dele.
E a maioria das feições de Harlém conservam-se ainda mais
próximas das formas correntes em grupos 'brancos.
Por toda a parte, e desde o princípio da história do
homem, se demonstra que certos povos puderam adoptar a
cultura de povos de outro sangue. Não há na estrutura bioló-
gica do homem nada que torne isto sequer difícil, muito menos
impossível. O homem nãn énhngado. pela sua constituição
a "tHanr Jormenor a qualquer variedade par-
MJeater-4e_cornj)ortamento. A grande diversidade de soluções
\s por ele em diferentes culturas relativamente à união
i dos sexos, por exemplo, ou ao comércio, são todas igualmente
\s na base dos seus dotes originais. /A cultura não é ujjt
que seja transmitido blõlogicamente.
em _
rez3jé.cQropejisaclo pelas vantagens dejuma major pjastíddade.
No animal h\umno~i^'sr^èi^\c,_oixda.-cm-jflleyp _ps seus méritos
e reconhecendo os diferentesvãlõres' quTse podem desenvolver
numa cultura ̂ olfercnitèrs"ub^HtuIiia uma ̂ esp^cie.de simbolismp
perigoso, por .ser. enganador, por um pensar realista.
[28]
-*— *̂-*
\Qazao para se fazer o estudode_j>ovosprimitivosj
No pensar social é necessário um conhecimento de diferen-
tes formas de cultura, e este livro ocupa-se deste problema da
cultura. Como acabámos de ver, forma do corpo, ou raça, é
separável de cultura, e, para o fim que temos em vista, tal
conceito pode ser posto de parte, excepto em certos pontos em
que por qualquer razão especial passe a ser relevante. Uma
discussão de cultura exige em jprimeiro lugar que se baseie njirna
larga selecção âe formas culturais gossíveis. Só assim poderemos
distinguir, entre aqueles^ajustamentos humlmos^ãuIXíiSMênte
condjaonados_eos_que_.são comuns e, tanto quanto "podemos
saber, inevitáY^.jia.,h_umanidade. Não poHèrSôs, "pòTlntrbs-
pecção ou por observação de qualquer sociedade, descobrir que
comportamento é «instintivo», isto é, organicamente determi-
nado. Para classificarmos de instintivo qualquer comporta-
mento, não basta provar que ele é automático. O reflexo con-
dicionado é tão automático como o determinado organica-
mente, e reacções culturalmente condicionadas constituem a
maioria do nosso vasto equipamento de comportamento auto-
mático.
ç EQj^pnsequência_ojnaterial mais significativg_gara o caso
d£_uma (jiicussão de^ormaTèprocêssõTcilltúrãíFiéo das socie-
^_____ .„, ^-r— ^—^^___ n- -^ i ^ -—f
dades tanto_quintõ~gosavel historicamõite^poiicp relacionadas
com a nossa e entre si. Com a vasta rede de contactos liistóricos
que asgrãndes civilizações espalharam sobre enormes áreas,
as culturas primitivas são hoje a única fonte a que devemos
recorrer. Elas são um laboratório em que podemos estudar a
jiversidkde ̂ ê^stitulcjesjíumanas. Com o seu relativo isola-
mento, muitas regiões primitivas tiveram ao seu dispor vários
séculos em que puderam elaborar os temas culturais de que se
apropriaram. Fornecem-nos, prontas para serem estudadas,
informações relativas a possíveis grandes variações em ajusta-
mentos humanos, e para qualquer compreensão dos processos
culturais é essencial um exame crítico desses ajustamentos.
É este o único laboratório de formas sociais de que dispomos
ou disporemos.
Este laboratório tem outra vantagem. Os problemas põem-se
aqui em termos mais simples do que nas grandes civilizações
Ocidentais. Com as invenções que tomam fáceis os transportes,
com cabos internacionais,telefones, rádiotransmissão, aquelas
invenções que asseguram permanência e vasta distribuição da
imprensa, o desenvolvimento de grupos profissionais, cultos e
classes em concorrência e a sua uniformização por todo o
mundo, axúãUzaçâajnodOTiia^t^mou-^^demasiadamente com-
para -isso,.&e._frAcâane.jeiR,pjquenassecções arjtffíciais.J^estas
análises. paisiâis^^oJnadequadas^íorque-muitQs.iacíojes exter-
nos que_se.apresentam nãoApodem ser controlados. Uma revista
de qualquer grupo envolve indivíduos provenientes de grupos
heterogéneos opostos, com padrões diferentes, diferentes objec-
tivos sociais, relações familiares e moralidade. A inter-relação
destes grupos é demasiadamente complicada para a avaliarmos
com o necessário pormenor. Na sociedade primitiva, a tradição
cultural é suficientemente simples para que_o_saberjde cada
adulto a abranja, e os modos" oféjbrocejder-e a-moral JÍÍLgrupo
ajustam-se a. u^mpjdrão^ge^KUan definido. B possível neste
ambiente simples, avaliar a inter-relação de aspectos de uma
forma impossível nas correntes que se chocam na nossa com-
plexa civilização.
Nenhuma destas razões para insistir nos factos de cultura
primitiva tem nada que ver com o uso que classicamente
se tem feito deste material. -EsxçLUSQjeisaya à
origens.. Os, antrqpjDlogista^,anteriores tentavam jdisporjtodos os
aspectos jie_culturas^^ dtffirenles^numa, sç!qH.ência..eyj!>lutiyaljâesde
asjprimeiras formas até ao seu desenvolvimento últinia.riajç;ivi-
Nlizacãp Ocidental. Mas nlo se deve supor que ao discutir a reli-
gião Australiana, e não a nossa, nós, estamos a revelar a religião
primitiva, ou que ao discutir a organização social Iraquiana
-v
-5-V-.
revertemos aos hábitos de acasalamento dos primeiros ante-
passados do homem.
Uma vez que somos forçados a aceitar que o homem cons-
titui uma espécie, conclui-se daí que por toda a parte o homem
tem atrás de si uma história igualmente longa. Jijpossíyeljiue
celtas tribos primitivas; sejtenham conservado mais; próximas j
de formas primitivas de comportamento do que o homem civi-
lizado, mas pode suceder que isto seja apenas relativo, e as
nossas^ suposições t̂anto poderá ser verdadeiras como erróneas.
Não se justifica que identifiquemos qualquer primitivo costume
actual com o tipo original de comportamento humano. No
ponto de vista de método _só,háL uma maneira de atingirjSnS
conhecimento aproximado desses estádios primitivos da huma-
nidade; pelo estuãoT^^Hî ^C.̂ ^*!̂ 11611'1 n!*n?ie?t) ÍS
feTçoes"uníversais ou quase universais da sociedade humana.
Muitas são Ibera^conTbecidas. Dentre'""elas todos concordam em
conterão animismo j1) e as restrições exógamas sobre o_casa-%.
mento. Mais questionáveis são as concepções, que afinal mos- '
tram ser muito diferentes, sobre a alma humana e sobre uma j
vida futura. Crenças quase universais como estas últimas, podem f
justjficadamente considerar-se como invenções humanas extraor-
dinariamente antigas. O que não quer dizer que as consideremos
determinadas biologicamente, pois que podem ter sido invenções
muito primitivas do homem, feições «de berço» que se tor-
naram fundamentais em todo o pensar humano. Em líltima
análise podem ser tão socialmente condicionadas como qualquer
costume local. Mas tornaram-se desde há muito automáticas
no comportamento humano. São antigas e universais. Mas não
podemos concluir daí que as formas que hoje se podem obser-
var sejam as formas originais surgidas nos tempos primitivos,
j Nem há qualquer processo de reconstituir essas origens a partir
do estudo das suas variedades. Podemos isolar o núcleo uni-
P) Crença na existência do espírito -em 'toda a • Natureza.
(N. ào T. alemão)
[303 [31]
versai da crença e derivar dele as suas formas locais, mas apesar
disso é ainda possível que a feição particular tenha surgido de
uma forma local pronunciada e não de qualquer mínimo deno-
minador comum de todas as formas observadas.
Por isto, a utilização de costumes primitivos no estabele-
cimento de origens 6 de natureza especulativa. É possível for-
mular um argumento em apoio de quaisquer origens que se
desejem, origens que se excluam mutuamente ou que sejam
complementares. De todas as utilizações de material antropo-
lógico, é este aquele em que especulação seguiu especulação
mais rapidamente, e em que, pela própria natureza da questão,
não é possível fazer prova.
Tão-pquço a razão de utilizar sociedades primitivas na dis-
cussão de formas sociais está necessariamente^reiácionada com
um romântico regresso ao primitivo... Ele não se filia em qual-
quer espírito de poetização dos povos menos evoluídos. Sob
muitos aspectos a cultura de um ou outro povo seduz-nos forte-
mente nesta era de padrões heterogéneos e de confusa agitação
mecânica. Mas n3o é num regresso a ideais conservados por
povos primitivos para nosso proveito, que a nossa sociedade
curará os seus males.- O romântico Utopianismojgue anseia pelo
primitivo mais simples,, por atraente .que por,vezes, possa ser,
constitui nos estudos de antropologia tanto um. empecilho, como
um auxílio.
S O estudo cuidadQsgjas sociedades primitivas éhoje. comoL
x dissemos, importante, maspor fornecer matgnafpãira o estudo
V 3èTfõE«ãs^pVeèêssos«culturaisJ.̂ Aiuda-nos a distinguiFãsTés-
j _pos!tas espedfieas id£^"típos_culçuira& Ioõàis7 idãslçue sljò^gerais na
^ Humanidade. Além disto ajudãln3ros~aravalíaFVc~ómpreender-
! o papel imensamente importante de comportamento cultural-
i smente condicionado. A cultura, com os seus processos e funções,
^-é-tim assunto sobre que necessitamos todo o esclarecimento
possível, e em nada como nos factos das sociedades pré-letradas
nós podemos buscar colheita mais compensadora.
[3*]
A DIVERSIDADE. DE ÇULTHBAS
O vaso da vida
UM chefe dos índios Digger ('), como os habitantes da
Califórnia lhes chamam, falou muito -comigo a rés- •
peito dos hábitos do seu povo em tempos idos. Era
cristão e pioneiro entre os seus na cultura de pêssegos e alperces
de regadio, inas ao falar dos xataãs que. vira ele com os seus
olhos, se tinham transformado em ursos durante a dançswfos-
-ursos, as mãos tremiam-lhe e a voz vibrava de emoção. Era uma
coisa extraordinária a energia do seu povo nos tempos antigos.
Mais do que tudo gostava de falar do que o deserto lhes dava
como alimentos. Tratava cada planta que arrancava, com amor
e com uma segurança absoluta da sua importância. Nesses
tempos o seu povo tinha comido «da saúde do deserto», dizia
ele, e ignorava tudo a respeito de latas de conserva e do que
se vendia nos talhos. Tinham sido estas inovações que tinham
acabado por fazê-Ios degenerar.
Um dia, sem transição, Ramon começou a descrever como
) «índios Dígger», os autóctones da Grande Eccia. (N, do T.
alemão)
3 - P. BE CULTURA. [331
se esmagava o mendobi e se preparava sopa de bolota. «No prin-
cípio», diria, «Deus deu um vaso a cada povo, um vaso de
barro, e por este vaso bebiam a sua vida.» Não sei se o símbolo
aparecia em qualquer rito tradicional do seu povo que nunca
descobri qual fosse, ou se era inventado por ele. É difícil admitir
que o tivesse recebido dos brancos que conhecera em Banning;
estes não eram gente que discutisse o etos de diferentes povos.
Seja como for, no espírito deste índio humilde a figura de retó-
rica era clara e rica de significado. «Todos enchiam o seu vaso
mergulhando-o na água», conthíuava, «mas os vasos eram dife-
rentes. O nosso quebrou-se; desapareceu.»
O nosso vaso quebrou-se. Aquilo que tinha atribuído sgni-
! ficado à vida do seu povo, os rituais domésticos de tomarem
-os alimentos, as obrigações do sistema económico, a sucessão
idos cerimoniais nas aldeias, o estado de possessos na dança do
jurso, os padrões do bem e do mal—'tudo desaparecera, e com
jisso a forma e o significado da sua vida. O velho conservava-se
! ainda vigoroso e continuava a ser quem orientava as relações
(dos seus com os brancos. Não queria ele dizer, com aquele
j modo de se exprimir, que se tratava de qualquer coisa como a
extinção do seu povo. Mas no seu espírito havia como que a
consciência da perdade qualquer coisa que tinha um valor
igual ao da própria vida, uberdade
biológica as chamadas; instítuiçSes-de_pubecdade .ĵ o,jama.j3iá
designação. Çvj>uberdaje_jjue elas consideram é de naturezãj
ciai, e as cej^6iuãs~õõrTespõndenfe_são uni* reconhecimento,
variável na forma, da.nova condição do estado de adulto da
criança. Esta investidura em novas ocupações e obrigações é
consequentemente tão variada e culturalmente tão condicionada
como ò são aquelas mesmas ocupações e obrigações. Se o único
dever considerado honroso do homem adulto são os feitos
guerreiros, a investidura do guerreiro faz-se mais tarde e é de
natureza diferente da de uma sociedade em que o estado de
adulto confere o privilégio de dançar numa representação de
deuses mascarados. Para compreendermos as instituições de
puberdade não é da análise da necessária natureza dos rituais
de^transição que nós precisamos; do que precisámos é, antes,
[37]
de^saber o quedem jifergnjes culturas..seJdentifiça .conxQJnfcio
« î.?a?e de ainterpretados socialmente, mesmo onde eles são
postos em relevo. Mas uma revista das instituições de puber-
dade torna evidente uma coisa: a puberdade é, no ponto de vista
fisiológico, uma coisa diferente no ciclo vital do macho e da
fêmea. Se o aspecto cultural acompanhasse o aspecto fisiológico,
as cerimónias no caso das raparigas seriara mais fortemente
caracterizadas do que no dos rapazes; isso, porém, não é o
que se dá. As cerimónias celebram um facto social: as prerro-
gativas do homem têm mais largo alcance do que as das
mulheres, seja qual for a cultura, e por consequência, como
[38]
, \s casos acima citados, é mais comum nas sociedades darem
i ^atenção a este período nos rapazes do que nas raparigas.
A puberdade de rapazes e de raparigas pode, porém, ser
celebrada na tribo da mesma maneira. Onde, como no interior
da Colúmbia Britânica, os ritos de adolescência são um treino
mágico para todas as ocupações, os rapazes e as raparigas são
sujeitos aos mesmos tipos de procedimento. Os rapazes fazem
rolar pedras pelas montanhas empurrando-as encosta abaixo
para serem rápidos na corrida, ou arremessam varas-de-arre-
messo para serem bem sucedidos nos jogos; as raparigas trans-
portam água de fontes distantes ou deixam cair pedras entre
as roupas e o corpo, para que os seus filhos nasçam com tanta
facilidade como as pedras caem.
Numa tribo como a Nandi, da região dos lagos da África
Oriental, rapazes e raparigas partilham em comum num rito de
puberdade uniforme, ainda que, atendendo ao papel dominante
do homem na cultura, o seu período de treino juvenil seja mais
intenso do que o das mulheres. Neste caso os ritos são uma
provocação infligida pelos já admitidos à situação de adultos,
aos que eles agora são forçados a admitir no seu seio; Exigem
deles o mais complexo estoicismo perante engenhosas torturas
relacionadas com a circuncisão. Os ritos para os dois sexos
são separados mas seguem o mesmo padrão. Em ambos, os
noviços envergam para a cerimónia os vestuários dos seus
namorados. Durante a operação espiam-se-lhes os mais ligeiros
sinais de sofrimento, e a retribuição da coragem é conferida
com grande regozijo pelo namorado, que se adianta para receber
qualquer dos seus adornos. Para ambos, rapariga e rapaz, os
ritos marcam a sua entrée numa nova situação de sexo: o rapaz
é agora um guerreiro e pode ter uma namorada, a rapariga
pode casar-se. Os testes de adolescência são para. ambos os sexos
S uma provação pré-marital, em que a palma é conferida pelos
l respectivos namorados.
l—' Os ritos de puberdade podem também assentar nos factos
da puberdade da rapariga, sem admitir extensão aos rapazes.
[39]
Um dos mais ingénuos deste género é a instituição da casa-de-
íengorda para raparigas, na África Central. Na região em que a
beleza quase se identifica com a obesidade, a rapariga na puber-
dade é segregada, às vezes durante anos, alimentada com gor-
duras e substâncias doces, e não desenvolve qualquer actividade,
e fricciona-se-lhe o corpo repetidamente com óleos. Durante
esse período ensinam-se-lhe os seus futuros deveres, e a reclusão
termina com uma exibição da sua corpulência a que se segue o
casamento com o noivo, orgulhoso. Quanto ao homem não se
considera necessário que ele atinja semelhante forma de apa-
. rente beleza.
As ideias usuais em torno das quais as instituições de pu-
berdade gravitam, e que não se alargam naturalmente aos
| rapazes, são as relacionadas com a menstruação. A impureza
5 da mulher menstruada é uma ideia muito espalhada, e em certas
\s a primeira menstruação tomou-se o foco em que con-
Í
vergem todas as atitudes com ela relacionadas. Os ritos de pu-
berdade nestes casos têm um carácter completamente diferente
dos daqueles de que já: falámos. Entre os índios Carríer da
' Colúmbia Britânica, o temor e o horror da puberdade de uma
rapariga atingiu o grau máximo. Os seus três ou quatro anos
de isolamento designavam-se pela expressão .«enterramento em
vida», e durante todo esse tempo ela vivia sozinha na selva,
numa cabana de ramos afastada de todas as veredas frequen-
tadas. Constituía uma ameaça para todo aquele que sequer
a visse, mesmo só de fugida, e as suas meras pegadas poluíam
um carreiro ou um rio. Andava coberta com uma grande capa
de pele curtida que lhe escondia a cara e os peitos e por trás
lhe caía até aos pés. Os braços e pernas estavam carregados
com tiras de tecido tendinosb, para a proteger do espírito mau
de que estava possessa. Em perigo, ela mesma, constituía para
os outros uma fonte de ameaças.
As cerimónias de puberdade das raparigas, fundamentadas
nas ideias que se associam ao menstruo, são facilmente conver-
tíeis no que, do ponto de vista do indivíduo em questão, é o
[40]
comportamento exactamente oposto. Há sempre dois aspectos
possíveis do sagrado; ele pode ser uma fonte de perigos ou uma
jonte de bênçãos. Em certas tribos a primeira menstruação
da rapariga é umíT grande bênção sobrenatural. Assim, entre
os apaches, vi os próprios padres passarem, de joelhos, diante da
fileira de solenes rapariguúihas, para delas receberem a bênção
de os tocarem. Todas as criancinhas e os velhos acorrem tam-
bém até elas, para que os aliviem dos seus" males. As adoles-
centes não são segregadas como fontes de perigos, mas rende-se-
-Ihes preito como a fontes de bênçãos sobrenaturais. Pois que as
ideias em que assentam os ritos de puberdade das raparigas,
se fundamentam em crenças relativas à menstruação, tanto
entre os Carrier como entre os Apaches, aqueles não são exten-
síveis aos rapazes» e a puberdade destes é celebrada em vez
disso, e superficialmente, com simples testes e provas de vi-
rilidade. '
De modo que o comportamento de adolescência, mesmo
nas raparigas não era ditado por qualquer carácter fisiológico
do próprio .período, rnas sim por requisitos maritais ou mágicos
com ele socialmente relacionados. Estas crenças faziam que a
adolescência fosse numa tribo serenamente religiosa e bené-
fica, e noutra, tão perigosamente impura -que a adolescente
tinha de advertir os outros em altos gritos, para que evitassem
na selva a sua proximidade. A adolescência das raparigas pode
também, como vimos, ser um tema quç a cultura não institu-
cionaliza. Mesmo onde, como na maior parte da Austrália, a
adolescência dos rapazes recebe um tratamento complicado,
pode suceder que os ritos sejam uma entrada na situação do
estado de adulto e na participação do macho em questSes de
tribo, e que a adolescência da fêmea passe sem qualquer espé-
cie de reconhecimento formal.
Estes factos, porém, deixam ainda sem resposta a questão
fundamental. N&)rjtojráj]is_as^ult^^. _ ^
\urbacoesjiarurais deste período, mesino que se. lhes .não-dê
expre^io_ÍMtitúcibnàÍ? À Dr> Mèad estudou esta.questão em
Samoa. Aí a vida da rapariga passa por períodos bem caracte-
rizados. Os seus primeiros anos depois da infância, passa-os em
pequenos grupos vizinhos de companheiras da mesma idade,
de que os rapazes são estritamente excluídos. O cantinho da
aldeia a que ela pertence é o que realmente importa, e os rapa-
zitos são seus inimigos tradicionais. O seu dever é tratar da
criança de idade infantil, mas em vez de ficar em casa a cuidar
dela, leva-a consigo, e assim os seus divertimentos não são
seriamente prejudicados. Alguns anos antes da puberdade,
quando já ganhou forcas suficientes para se lhe poderem exigir
tarefas mais pesadas e se tomou suficientemente sensata para
aprender técnicas que exigem mais habilidade, o seu grupo,
em que cresceu e brincou, dispersa-se. Passa a usar trajes de
mulher e cabe-lhe cooperar na lida da casa; Para ela este pe-
ríodo é bem pouco interessante, e não passa de calma rotina.
A puberdade não altera nada.
Passados anos, depois de ser mulher feita, começam os
tempos agradáveis de namoricos casuais e irresponsáveis qtie ela
prolongará tanto quanto possa até ao momento em que é con-
siderada já capaz de casar. Nenhuma manifestação social re-
conhece expressamente a sua puberdade, nem mudança de
atitude nem expectativa. Tudo se passa como se a suatimidez
de pré-adolescente continuasse durante alguns anos. A vida de
rapariga, em Samoa, é absorvida por outras considerações que
não a de maturação fisiológica do sexo, e a puberdade passa
como um período particularmente apagado e calmo durante
o qual não se manifestam quaisquer conflitos de adolescente.
A adolescência, por consequência, não só não é celebrada prar
qualquer cerimoniai, comõ~nÍõjEi»--. i -
i tância na vida_ernoeional da rapariga
para com ela.
na atitudf tla_ aldeia
[42]
Povos que nunca ouviram falar de guerra
A guerra é outro tema social que pode ser ou não consi-
derado em cada cultura. Onde se lhe liga grande importância,
pode ter objectivos diferentes, diferente organização relativa-
mente ao Estãâo, e arrastar consigo sanções diferentes. Pode ser
um meio de obter cativos para sacrifícios religiosos, como
sucede entre os Astecas. Como os espanhóis combatiam, segundo
o modo de ver Asteca, para matar, faltavam às regras do jogo.
Os astecas perderam a coragem, e Cortês entrou vitorioso na
capital.
Há, até, em diferentes partes do mundo, noções a respeito
da guerra que são, do nosso ponto de vista, ainda mais singu-
lares. Para o fim que nos propomos basta notar o que se passa
naquelas regiões em ,que não se encontram meios organizados de
matança mútua entre grupos sociais. Só a nossa familiaridade
com a guerra torna inteligível que um estado de guerra alterne
com um estado de paz nas relações de uma tribo com outra.
Esta ideia, é, naturalmente, perfeitamente vulgar em várias
partes do mundo. Mas, por um lado, para certos povnp- & inrnn-
cebível um estado de paz, o que para a sua maneira de ver,
sena equivalente a admitir- tribos.mirrúgasjDaJSil£goria_de seres
humanos que, por definição,-eles não sãorrnesmo-que_a_ttibp
excluída possa ser da mesma raça e ter a.meán^jcjriturajque
as outras.
Por outro lado, pode ser igualmente impossível a um povo,
conceber um estado de guerra. Rasmussen fala-nos da perplexi-
dade com que o Esquimó reagiu à sua exposição do nosso
costume. Os esquimós compreendem perfeitamente que se mate
ura homem. Se ele se lhe atravessa no caminho, deita contas
à sua própria força e, se se sente capaz de o fazer, mata-o.
Se o que matou é forte, não há intervenção social. Mas a ideia
de uma aldeia esquimó atacar outra aldeia esquimó em ar de
guerra, ou de uma tribo atacar outra tribo, ou, até, de outra
aldeia poder ser legitima mente atacada de emboscada, é para
[431
eles completamente estranha. Matar é sempre matar, e não se
distinguem, no acto, categorias, como nós fazemos: ser o matar,
num caso coisa meritória e noutro ofensa capital.
Eu próprio tentei falar de guerra aos índios da Missão, da
Califórnia, mas era coisa impossível. A sua incompreensão de
um estado de guerra era irredutível. Não havia na sua cultura
base em que assentasse tal ideia, e as suas tentativas de pro-
curar interpretá-la racionalmente reduziam as grandes guerras,
a que nós estamos prontos a entregar-nos com fervor moral,
a meras desordens de vielas. Não tinham na sua cultura padrão
nada que lhes permitisse •distinguir uma coisa da outra.
A guerra é, vemo-nos forçados a admitir, mesmo perante o
lugar enorme que ocupa na nossa civilização, um aspecto
associai. No caos que se seguiu à Segunda Grande Guerra Mun-
•dial, todos os argumentos que lio decorrer dela se apresentavam
para explicar o alto preço da coragem, do altruísmo, dos va-
lores espirituais, soavam desagradavelmente a falso. Guerra, na
nossa civilização, é o melhor exemplo dos excessos de destrui-
ção até que pode conduzir o desenvolvimento de uma feição
culturalmente escolhida. Se justificamos a giiêrra é porque
todos os povos justificam os aspectos de que se sentem possui-
dores, não porque a guerra resista a um exame objectivo dos
próprios méritos.
Costumes relacionados com o casamento
A guerra não é um caso isolado. Em todas as partes do
mundo e em todos os níveis de complexidade cultural é possível
encontrar exemplos da elaboração presunçosa e, afinal de
contas, associai de uma feição da cultura. Esses casos slo da
máxima clareza onde, como por exemplo, em normas de regime
alimentar jou de acasalamento, a tradição vai contra osjmjmísos
bioló|icos^À organização social, em antropologia, tem um sig-
nificado inteiramente especializado, devido à unanii
t44l
tente em todas as sociedades, em acentuar os grupos-de.-paren>.
júe o Casamento é proibido.. Não. há. nenhum povo
em que toda a mulher seja considerada,.como uma,,esposa
possível. Isto não é um meio de, como muitas vezes se supõe,
evitar uniões consanguíneas, no sentido. em que isto nos é
familiar, porque em muitas partes do mundo a esposa prevista
é uma prima» muitas vezes a filha de um tio materno. Osj?a-
rentes a que aprojbicão se. refere,cariam, radkalmente^ê-povo^
_gara povo,, mas todas as sociedades humanas se^assemelharn.
no respeitante a fazer restrições desíe-tiper-O incesto, mais do
que qualquer ideia humana, tem tido, em cultura, constantes e
complicadas elaborações. Os grupos de.incesto são muitas vezes
as unidades funcionais mais importantes da tribo, e os deveres
de cada indivíduo em relação a qualquer outro definem-se pelas
suas relativas posições nesses grupos. Tais grupos funcionam
como unidades em cerimoniais religiosos e em ciclos de trocas
económicas, e é enorme o papel que têm. desempenhado na
história social. "~
Algumas religiões consideram moderadamente tabu o
incesto. A despeito das restrições feitas, pode haver um número
considerável de mulheres com que um homem pode casar.
Noutras o grupo que é tabu, alarga-se, em virtude de uma
ficção social, de modo a incluir grande número de indivíduos
que não tenham quaisquer antepassados comuns discerníveis,
e a escolha de uma consorte é consequentemente excessiva-
mente limitada. Esta ficção social tem expressão inequívoca
nos termos de relação de parentesco usados. Em vez de dis-
tinguir parentesco linear de parentesco colateral, como nós
fazemos na distinção entre pai e tio, irmão e primo, um dos
termos usados significa, literalmente, «homem do grupo de meu
pai (parentesco, localidade, etc.) da sua geração» sem distinguir
entre linhas directa e colateral, mas fazendo outras distinções
que nós nlo fazemos. Certas tribos da Austrália oriental usam
uma forma extrema deste chamado sistema de classificação
de parentesco. Aqueles a quem chamam irmãos e irmãs são os
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da sua geração com quem reconhecem ter qualquer parentesco.
A categoria primo ou qualquer coisa que lhe corresponda n5o
existe; todos os parentes da geração de um indivíduo são seus
irmãos e irmãs.
Este modo de avaliar o parentesco é mais comum do que
pode julgar-se, mas na Austrália há, além disso, um horror sem
igual pelo casamento com uma irmã, e um desenvolvimento
sem paralelo de restrições exógamas. Assim os Kurnai, com o
seu sistema de classificação de parentesco levado ao extremo,
sentem o horror característico do australiano peias relações
sexuais com todas as suas irmãs, isto é, com as mulheres da
sua geração que de qualquer modo com eles são aparentados.
Além disto, os Kurnai têm regras locais estritas que presidem
à escolha de uma companheira. Por vezes duas localidades das
quinze ou dezasseis que pertencem à mesma tribo, são obrigadas
a trocar as mulheres, e não escolher esposas em qualquer outro
grupo. Mais ainda, como sucede em toda a Austrália, os velhos
são um grupo privilegiado, e os seus privilégios vão até poderem
casar com as raparigas jovens e atraentes. Resulta destas regras
que, é claro, em todo o grupo local que deve por prescrição
absoluta fornecer a um mancebo uma esposa, não há rapariga
que não caia dentro do campo destes tabus. Ou é uma das que
por parentesco com a mãe daquele é sua irmã, ou foi já nego-
ciada por um velho, ou por qualquer razão menos importante é
vedada ao pretendente.
Isto não leva os Kumai a reformular as suas regras de
exogamia. Insistem em que elas sejam respeitadas, por todas
as formas de violência. Por consequência, o único meio por que
conseguem casar-se é" levantando-sefrancamente contra as re-
gulações, recorrendo ao rapto. Logo que a aldeia tem conheci-,
mento do que se passou, lança-se em perseguição dos fugitivos,
e se o par é apanhado, matam os dois. Não importa que, como
pode suceder, os perseguidores se tenham casado também por
rapto. A indignação moral é enorme. Há, porém, uma ilha que
é considerada refúgio seguro, e se os fugitivos conseguem chegar
lá e aí se conservarem até que lhes nasça um filho, quando de
volta são ainda recebidos com pancadas, é certo, mas podem
defender-se. Depois de aceitarem o repto e de passarem entre
filas de. homens, e de serem por eles açoitados e espancados,
assumem então o estado de pessoas casadas na tribo.
Esta maneira de os Kurnai resolverem o seu dilema cultural
é bem típica. Alargaram e complicaram um aspecto particular
de conduta até ao ponto de o tomar um impedimento. Ou têm
de o modificar, ou o rodeiam por subterfúgio.. Ao recorreQo
subterfúgio_evitam a extinção, e mantêm ajma^ ética sem alte-
ração jpatente. Este modo de tratar o mores nada perdeu com
o progresso da civilização. A geração antecedente da nossa
civilização defendeu a prostituição, e nunca os louvores da
monogamia foram tão fervorosos como nos grandes tempos dos
bairros da lanterna vermelha às portas. As sociedades justificam
sempre as fórmulas tradicionais favoritas. Quando estas são
excedidas e se recorre a alguma nova forma de comportamento
suplementar, presta-se preito à fórmula tradicional como se este
não existisse.
Entzetecimento de feições culturais
-Esta rápida Hf, nuUuraiff põe a
claro vários falsos conceitos coirtuns. ¥rm primeiro,!iicar as instfr
tuições que as culturas humanas erigem sobre as indicações ?
dadas pelo ambiente ou era virtude das necessidades físicas do .̂
homem, não-S&jnantêmsem sedegvia rem do impulso' original^
tão mtegràlmentê comÕTãcilménte se julga. Àquelas indicações
são, na realidade, meros esboços grosseiros, uma lista de factos
crus. São potencialidades ínfimas, e a elaboração que em volta
delas se borda é ditada por muitas considerações estranhas à
questão, ̂ jjuerpi nãn £_a "ypiwMn rln inflimi H^-fíf^^sidad"
A belicosidade do homem è uma característica tão ínfima no
carácter humano que pode nem ter qualquer, expressão nls
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relações entre as tribos. Quando é institucionalizada, a fórmula
que assume segue outras linhas de pensamento diferentes das
implícitas nojmpulso jMJ|inal>Belicosidade não passa de um
; leve ponto de contacto na bola do" costume, e unr ponto, além
disso, que pode não ser tocado.
Estemodo de ver os processos cukuraisjxjge uma rectifi-
cacãõ~~d as formas de arte da olaria e dos tecidos provocam
grande respeito nos artistas de qualquer cultura, mas os seus
vasos sagrados usados pelos padres ou próprios dos altares são
inferiores, e as decorações, rudes e não estilizadas. Nalguns
museus têm-se posto de parte objectos religiosos do Sudoeste
por estarem muito abaixo do nível tradicional de habilidade.
Os índios Zunis dizem, querendo significar que as exigências
religiosas eliminam toda a exigência de perfeição artística:
«Temos de, representar aqui uma rã.» Esta distinção entre arte
e religião não é um carácter exclusivo dos Pueblos. Certas tribos
da América do Sul e da Sibéria fazem a mesma distinção, ainda
que a manifestem de maneiras diferentes. Não utilizam a habi-
lidade artística para servir a religião. Em vez, pois, de buscar-
mos fontes da expressão artística em um assunto localmente
importante, a religião, como