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gente criando o futuro ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO Organizadora Iria Helena Duarte ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO Organizadora Iria Helena Duarte Alfabetização e Letram ento GRUPO SER EDUCACIONAL C M Y CM MY CY CMY K Alfabetização e Letramento eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 1 20/11/2019 16:40:59 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Bibliotecário responsável: Nelson Oliveira da Silva – CRB 10/854) D812a Duarte, Iria Helena. Alfabetização e letramento [recurso eletrônico]/ Iria Helena Duarte. – Recife: Telesapiens, 2019. 148 p. : pdf ISBN: 978-85-54921-06-4 1.Educação 2. Alfabetização II. Título. CDU 372.4 © by Editora Telesapiens Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora Telesapiens. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 2 20/11/2019 16:40:59 Presidente do Conselho de Administração: Janguiê Diniz Diretor-presidente: Jânio Diniz Diretoria Executiva de Ensino: Adriano Azevedo Diretoria Executiva de Serviços Corporativos: Joaldo Diniz Diretoria de Ensino a Distância: Enzo Moreira Créditos Institucionais Todos os direitos reservados 2019 by Telesapiens Alfabetização e Letramento eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 3 20/11/2019 16:40:59 Olá, meu nome é Iria Helena Duarte. Sou formada em Pedagogia, Especialista em Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Estrangeira, com uma experiência técnico- profissional na área de ensino híbrido há mais de 10 anos. Concluinte em Psicopedagogia com especialização em Língua Espanhola. Iniciei minha carreira como docente atuando em diversas escolas do Estado de São Paulo, Estado do Paraná e de Santa Catarina na área da Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Em 2008, fui convidada por uma empresa em expansão em EAD para participar do departamento Pedagógico como Coordenadora Pedagógica em Ensino a Distância, depois, como professora conteudista na área da Pedagogia e ensino de Línguas. Também trabalhei para algumas faculdades, atuando na elaboração de trabalhos e materiais didáticos e preparatórios, como o ENADE. Atualmente, sou sócia de uma escola EAD de ensino de cursos técnicos, profissionalizantes e idiomas, também atuo como mediadora do curso de Pedagogia e tutora virtual da Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Amo a minha profissão e sou apaixonada pelo meu trabalho. Estou sempre em busca de novos conhecimentos porque acredito no poder da educação e da reciclagem. Adoro poder transmitir minha experiência para todos que estão iniciando em suas profissões. Por isso, fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte sempre comigo! A AUTORA IRIA HELENA DUARTE eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 4 20/11/2019 16:40:59 ICONOGRÁFICOS Esses ícones que irão aparecer em sua trilha de aprendizagem significam: RESUMINDO Breve descrição do objetivo de aprendizagem; Uma nota explicativa sobre o que acaba de ser dito; Uma síntese das últimas abordagens; Parte retirada de um texto; Sugestão de práticas ou exercícios para fixação do conteúdo; O conteúdo em destaque precisa ser priorizado; Um atalho para resolver algo que foi introduzido no conteúdo; Um jeito diferente e mais simples de explicar o que acaba de ser explicado; Explicação do conteúdo ou conceito partindo de um caso prático; Uma opinião pessoal e particular do autor da obra; Indicação de curiosidades e fatos para reflexão sobre o tema em estudo; O texto destacado deve ser alvo de reflexão. Informações adicionais sobre o conteúdo e temas afins; Resolução passo a passo de um problema ou exercício; Links úteis para fixação do conteúdo; Definição de um conceito; CITAÇÃO TESTANDO IMPORTANTE DICA EXPLICANDO DIFERENTE EXEMPLO PALAVRA DO AUTOR CURIOSIDADE REFLITA SAIBA MAIS SOLUÇÃO ACESSE DEFINIÇÃO + OBJETIVO OBSERVAÇÃO +++ eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 5 20/11/2019 16:40:59 SUMÁRIO UNIDADE 01 Conceitos e definições sobre Alfabetização e Letramento . 15 A Alfabetização ................................................................. 15 A Língua Falada e a Língua Escrita ........................... 18 O Letramento .................................................................... 21 Definição de Letramento ........................................... 23 Alfabetizado Letrado ................................................. 25 Analfabetismo Funcional .......................................... 25 Histórico e evolução das práticas de alfabetização ........ 26 A Cartilha de Comenius ................................................... 27 Emília Ferreiro .................................................................. 29 A sala de aula como ambiente de alfabetização ......... 31 O papel do professor ................................................. 32 Ana Teberosky .................................................................. 34 A Psicogênese da Língua escrita................................ 34 O analfabetismo .................................................. 35 A prática alfabetizadora e os processos de apropriação da língua escrita ................................................................... 37 A prática pedagógica do ensino da língua escrita .............. 38 Lev Semyonovich Vygotsky ...................................... 39 O papel do professor e do ambiente familiar na aquisição da língua escrita ..................................................................... 41 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 6 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento 7 O letramento na aquisição da escrita ................................. 42 Práticas para o letramento da língua escrita............... 44 Estratégias da leitura- Parte I ........................................ 45 A leitura como instrumentação cultural ............................. 46 Aprendizagem cooperativa ........................................ 47 Monitorar a compreensão .......................................... 48 Estrutura do enredo ................................................... 48 Organizadores semânticos e gráfi cos ......................... 48 Responder Perguntas ................................................. 49 Resumo ..................................................................... 49 UNIDADE 02 A aquisição da língua escrita .......................................... 54 Língua, fala e cultura ........................................................ 54 A infl uência cultural para a língua escrita .................. 58 Processos de apropriação da língua escrita ................... 63 As diferentes perspectivas ......................................... 63 A Psicogenética de Ferreiro e Teberosky ................... 66 Métodos de Alfabetização: Global e fonético ................. 68 Os métodos de alfabetização ............................................. 72 O método Fonético ou método sintético ............................ 73 Método Global ou método analítico .................................. 74 Os métodos e os desafi os ................................................... 75 Estratégias da Leitura- Parte II ..................................... 77 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao16:41:09 Alfabetização e Letramento56 Nesse pressuposto, é correto afi rmar que o ambiente em que a criança vive é facilitador desse processo. Voltamos, novamente, até as crianças 1 e 2 do nosso exemplo. Perceba que, muitas vezes, não depende da capacidade cognitiva das crianças na construção do conhecimento, mas sim, diversos fatores que infl uenciam a aquisição. Quando falamos em classe social, isso pode ter um impacto muito grande, ou seja, uma criança menos favorecida fi nanceiramente não tem acesso as mesmas informações que uma criança mais favorecida. Isso não signifi ca que a criança menos favorecida fi nanceiramente não irá aprender, porém, ambas estão inseridas em realidades muito diferentes. Na mesma década, Kenneth Goodman propôs uma teoria bem parecida com a de Frank Smith. Ele ainda enfatiza os “porquês” da fi nalidade da linguagem escrita e afi rma que o indivíduo faz a apropriação porque precisa dela em seu meio social. Segue a explicação de (GOODMAN, 1986, p.24): Figura 1: Alfabetização em contexto social. Fonte: Pixabay eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 56 20/11/2019 16:41:09 ARS80 Realce CONCLUSÃO Alfabetização e Letramento 57 Concluem, então, que o ato de ler e escrever é um processo natural pois a criança aprende, bem como ocorre na aquisição da fala. São compreendidos como dois processos diferentes, mas que ocorrem naturalmente. O que deve ser feito é proporcionar um ambiente que seja favorável para a criança. Outra proposta pedagógica muito signifi cativa foi a do Whole language, especifi camente em países que falam a língua inglesa, uma visão muito parecida com isso, no Brasil, seria o método construtivista. Embora existam distinções entre as duas visões, ambas acreditam que a aprendizagem se dá por um processo natural. Segundo SOARES, 2014, p.41: “...em um contexto em inserção da criança em situações em que haja razão e objetivo para compreender e ser compreendido por meio da escrita”. Para Emilia Ferreiro, com base em sua obra, diz que língua oral e língua escrita são “atividades sociais frente às duas aprendizagens” (1992, p.29). Ferreiro ainda reitera que “não se aprende um fonema nem uma sílaba e nem uma Por que as pessoas criam e aprendem a língua escrita? Porque precisam dela! Como aprendem a língua escrita? Da mesma forma que aprendem a língua oral, usando-a em eventos de letramento autênticos que respondem a suas necessidades. Frequentemente as crianças enfrentam difi culdades na aprendizagem da língua escrita na escola. Isso acontece não é porque é mais difícil aprender a escrita que aprender a língua oral, ou porque são aprendizagens diferentes. Acontece porque nós tornamos a aprendizagem da língua escrita difícil, tentando torná-la fácil. CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 57 20/11/2019 16:41:09 Alfabetização e Letramento58 palavra por vez, também a aprendizagem da língua escrita não é um processo cumulativo simples, unidade por unidade, mas organização, desestruturação e reestruturação contínua” (1992, p.31). O processo ocorre naturalmente dentro de um contexto cultural em que o indivíduo está envolvido, porém, é certo lembrar que cada um tem a sua especifi cidade porque nasceu em um ambiente diferente. Então, duas crianças de classes sociais e culturas diferentes podem, sim, aprender de maneiras diferentes. A infl uência cultural para a língua escrita Vimos que nossa cultura faz parte de quem somos e vice e versa. É através dela que nos espelhamos como cidadãos, pois cada povo tem a sua maneira de expressar seus sentimentos. Quando falamos de “povo” não estamos falando apenas de diferenças entre países, mas de comunidades, de famílias. Cada um tem a sua cultura, o seu modo de expressão e de interpretação. Devemos à cultura todo conhecimento com o social, é o meio pelo qual você está inserido. Seus gostos, suas crenças, tudo vem do que você aprendeu, do que seus pais te ensinaram e assim por diante. Pense no Brasil e em todo o seu povo. Perceba que cada região tem a sua característica diferente. REFLITA Pense sobre nossa língua materna. Todos os 200 mil habitantes da nossa nação falam a língua portuguesa porque fomos colonizados pelos portugueses e acabamos por herdar essa língua tão rica. Porém, todos falam da mesma maneira? eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 58 20/11/2019 16:41:09 Alfabetização e Letramento 59 Figura 2: Nossa língua materna com suas diferenças culturais. Fonte: Unsplash É claro que existem diferenças na nossa língua. O Paulista não fala como o Carioca, assim como o Nordestino não fala como o Paranaense. Cada povo fala de uma maneira diferente e não é só de estado para estado, de cidade para cidade também podem ocorrer muitas modifi cações na língua. Essas mudanças chamamos de regionalismo. Além disso, existem os dialetos e sotaques brasileiros, pois, em cada região se fala de maneira diferente, tanto os sons das palavras quanto a entonação mudam. Outra característica da língua oral são as expressões. Pense na seguinte situação: REFLITA (CONTINUAÇÃO) eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 59 20/11/2019 16:41:11 Alfabetização e Letramento60 Uma criança Paulista, recém-chegada à Bahia, diz que está muito “bolado” com a professora. Para os Paulistas, “bolado” quer dizer preocupado. É claro que a criança baiana não irá entender, considerando que essa é uma expressão tipicamente paulistana. Podemos citar inúmeros exemplos de expressões e regionalismos de nossa língua, porém a intenção é que você se atente à importância desses processos no desenvolvimento do indivíduo. No processo de alfabetização o caso não é diferente. Muitos pesquisadores acreditam que um dos fatores do fracasso da alfabetização é justamente não conhecer essas facetas, pois alfabetização não se restringe apenas ao nível cognitivo, mas também psicológico e sociológico. Outro fator importante é o nível socioeconômico. Como dito anteriormente, crianças de diferentes níveis socioeconômicos não aprendem da mesma maneira porque também não vivenciam a mesma experiência. Podemos refl etir melhor com a posição de SOARES, 2017: Assim, tanto no Brasil quanto em outros países, os estudos linguísticos sobre a alfabetização, partindo do pressuposto de que há relação entre língua e estratifi cação social, vêm tentando descrever os dialetos de comunidade de fala, correlacionando-os com variáveis sociais, particularmente com a variável nível socioeconômico, e contrastando-os com a língua escrita, para encontrar, nesse contraste, explicações das difi culdades que falantes pertencentes a determinados grupos sociais enfrentam, no processo de aquisição de língua escrita. ((SOARES, 2017, p. 92) CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 60 20/11/2019 16:41:11 ARS80 Realce CONCLUSÃO Alfabetização e Letramento 61 A mesma pesquisadora afi rma, ainda, que há uma grande importância entre os aspectos funcionais e que esses têm a mesma relevância que os aspectos estruturais, além disso, fala sobre a designação da “função social da língua escrita” em sua estrutura social e o desempenho que essa função tem em sua sociedade. Portanto, não podemos apenas olhar a aquisição da escrita por meios mecânicos e estruturais, mas também através do seu processo social. Magda Soares reitera que deva existir uma certa urgência para essa perspectiva social da língua escrita: “(...) é necessário conhecer o valor e a função atribuídos à língua escrita pelas camadas populares, para que se possa compreender o signifi cado que tem, para as crianças pertencentes as essas camadas, a aquisição da língua escrita- esse signifi cado interfere, certamente, em sua alfabetização” (SOARES, 2017, p.4). Infelizmente, ainda nos dias de hoje, são poucas as pesquisassobre as funções da língua escrita em sua diferenciação social por todo o país. A atribuição do uso da língua é diferente entre as classes sociais diferentes. A pesquisadora Magda Soares, em sua obra “Alfabetização e Letramento”, apontou alguns exemplos de produção de textos de crianças de classes econômicas diferentes. São textos de um mesmo grupo de alunos destinados a mesma turma, tendo a mesma professora, Comecemos pela hipótese de que essas classes sociais diferentes atribuem funções diferentes ao uso da língua. (...) Ou seja, há uma diferença de classe na relação entre uso da língua e as expectativas prévias do falante, a respeito do interlocutor e do contexto. (SOARES, 2017, p.96) CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 61 20/11/2019 16:41:11 ARS80 Realce CONCLUSÃO Alfabetização e Letramento62 EXEMPLO EXEMPLO Referente a uma menina de nível socioeconômico médio-alto do 3º ano do ensino fundamental I. “Se eu fosse professora iria dar aula de matemática, comunicação, integração, ciências, treino e muitos outras coisas. Se precisar chamar atenção do aluno é só chamar. Eu iria contar estórias para os alunos e fazer jogos de matemática e, também, dar matérias novas para eles. Eu gostaria muito de ser professora, ensinar os meninos as matérias e isto é para o próprio bem deles”. Referente a uma menina de nível socioeconômico baixo do 3º ano do ensino fundamental I. “Se eu fosse professora eu mandaria os alunos calarem a boca, fazerem os exercícios completos, não olhar um do outro porque se não eles não aprenderiam nada. Eu não quer ser uma professora brava, eu quer ser uma professora que não gritasse com os alunos, mas queria que os alunos coperasem comigo, porque se os alunos não coperasem comigo eu também não podia coperar com eles. Vocês entenderam que professora eu queria ser?” porém suas produções são diferentes. Seguem dois exemplos (SOARES, 2017, p.99): eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 62 20/11/2019 16:41:11 Alfabetização e Letramento 63 Processos de apropriação da língua escrita Vimos que a aquisição da língua escrita, para acontecer, dependerá de muitos fatores, tanto internos como externos. Neste capítulo, estudaremos os processos de apropriação da língua e como esse método se desencadeia. Pensamos, então, no desenvolvimento e aprendizagem como parte intrínseca, pois pode ser originado em fases tanto por causas internas como externas. Por exemplo, quando citamos as causas externas, podemos relatar os processos linguísticos do indivíduo, nas causas internas podemos citar o contexto sociocultural. Toda fundamentação teórica tem os seus prós e contras, mais uma vez reiteramos que a intenção não é propor as melhores perspectivas, e sim relacionar as fundamentações que mais evidenciam nesse processo. Várias são as teorias que identifi cam a fase de desenvolvimento da criança. Citaremos, então, as teorias mais vivenciadas nesse desencadeamento. As diferentes perspectivas Curiosamente, Vygotksky considerou como pré-história da linguagem escrita os desenhos, os rabiscos, os jogos de faz de conta, no qual seriam momentos iniciais da aquisição da escrita. Para ele, a criança constrói sistemas de representação. É o que podemos notar em VYGOTSY: O brinquedo de faz de conta, o desenho e a escrita devem ser vistos como momentos diferentes de um processo Perceba a distinção entre os dois textos. Ambas as meninas falam de um mesmo assunto, só que com perspectivas diferentes. Não estamos nos atendo somente aos erros de concordância, gramaticais e de ortografi a. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 63 20/11/2019 16:41:11 Alfabetização e Letramento64 essencialmente unifi cado de desenvolvimento da linguagem escrita. (VYGOTSY,1984, p .131) A perspectiva para Vygotsky, fundamentalmente semiótica, continuou presente após 6 décadas. Para essa perspectiva, é proposto que estágios de desenvolvimento que antecedem formas de representação da fala e da forma gráfi ca também. (...) Essa analise busca a pré-história da aprendizagem da escrita, para usar a expressão de Vygotsky, identifi cando os princípios que regem a construção de signifi cados pelas crianças, quando lançam mão de uma multiplicidade de formas de representação, por meio de diferentes tipos de interação com o mundo – não só por meio da visão, como na fala, mas também por meio do tato, do olfato, do paladar, dos sentimentos. (SOARES,2014, p. 58) Figura 3: Crianças no processo criativo. Fonte: Pixabay CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 64 20/11/2019 16:41:11 Alfabetização e Letramento 65 Uma segunda perspectiva acontece com Alexander Luria, psicólogo e especialista em psicologia do desenvolvimento. Luria fundamentou sua teoria bem próxima a de Vygotsky, segundo Luria, quando uma criança entra na escola, ela já tem bagagens sufi cientes para possuir habilidades que a auxiliará a escrever em um tempo particularmente curso. Iniciou uma experimentação com crianças de 3 a 5 anos que não haviam aprendido a escrever. As crianças deveriam relembrar alguns números de palavras ou frases que lhes eram passadas. Dentro dessas observações pôde notar: (...) em que extensão o pedaço de papel, o lápis e os rabiscos que (a criança) fazia no papel deixavam de ser simples objetos que a interessavam, brinquedos, por assim dizer, e tornavam- se um instrumento, um meio para atingir algum fi m: recordar um certo número de ideias que lhe foram apresentadas. (LURIA, 1998, p.147-48) Luria apresentou nessa pesquisa, três estágios: 1) No primeiro estágio, identifi cou-se que as crianças “anotavam” as frases por meio de rabiscos. Esse estágio é denominado pré-escrita. 2) No segundo estágio foram inscritos marcos não direcionados nas páginas, nesse caso, as crianças lembravam uma ou outra frase, pois esse era exatamente o propósito. 3) No terceiro estágio, refere-se à diferenciação dos signos primários. As crianças utilizavam os rabiscos curtos para o registro de palavras e os longos para o registro de frases. O desenho era utilizado somente para que elas recordassem de algo e não como uma forma de reprodução. CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 65 20/11/2019 16:41:12 Alfabetização e Letramento66 A Psicogenética de Ferreiro e Teberosky Vamos relembrar sobre essas teorias fantásticas e que nos trouxeram fundamentos riquíssimos para nosso desenvolvimento como docentes? Como já vimos, a obra de Emília Ferreiro e Ana Teberosky teve um impacto muito grande em nossa história. Elas não somente contribuíram, bem como revolucionaram os processos de alfabetização que, até então, estavam esquecidos no sistema tradicional da Cartilha. Houve uma diferenciação entre as pesquisas de Luria e de Ferreiro. O primeiro teve o foco na pesquisa entre crianças de 3 a 5 anos, já Ferreiro e Teberosky fi zeram experimentação com crianças de 4 a 6 anos. Eles diferenciam entre si o objeto do conhecimento: (...) diferenciam-se em relação ao objeto do conhecimento privilegiado: na pesquisa de Luria o foco é posto nos grafi smos utilizados pela criança para apoio à memória, ou seja, o objeto de conhecimento é o uso da escrita pela criança como instrumento; na pesquisa de Ferreiro e Teberosky, o foco é posto nos processos cognitivos da criança em sua progressiva aproximação ao princípio alfabético da escrita, ou seja, o objeto de conhecimento é a escrita como um sistema de representação, que as pesquisadoras analisam sob a perspectiva da psicogênese no quadro da teoria piagetiana (SOARES, 2014, p. 62). CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 66 20/11/2019 16:41:12 Alfabetização e Letramento 67 As fases iniciais da psicogênese da língua escrita dão- se: pelo desenvolvimentoda leitura pela evolução da escrita. Nessa perspectiva construtivista, a evolução da escrita é considerada um ato complexo e rico em oportunidades. Os níveis de evolução da leitura são reconhecidos mais facilmente do que os níveis da leitura. Para Ferreiro e Teberosky, destacam-se alguns níveis: 1) Nível pré-silábico: Nessa fase a criança produz alguns desenhos. 2) Nível pré-silábico II: A criança já reconhece algumas letras do alfabeto e tem capacidade de diferenciar gravuras de letras e números. 3) Nível silábico: Pode ser dividido entre silábico sonoro, silábico sem valor sonoro e alfabético. 4) Nível silábico sem valor sonoro: Nesse estágio, a criança não leva em conta aos sons das letras e faz a assimilação do alfabeto para escrever, mas não a forma padrão da grafi a tradicional. 5) Nível silábico com valor sonoro: São utilizado alguns símbolos gráfi cos de maneira aleatória, utilizando muitas vezes consoantes ou somente vogais. 6) Nível silábico alfabético: Possui uma oscilação tanto silabicamente como alfabeticamente. 7) Nível alfabético: A criança agora compreende que a escrita implica a necessidade da analise fonética das palavras. Vale lembrar que essas ideias são de cunho construtivista, outros teóricos fundamentaram suas teorias baseados em outras experiências. Muitas são as perspectivas e, com certeza, teríamos um e-book totalmente dedicado para a análise dessas perspectivas, por isso sugerimos que você faça algumas pesquisas sobre as perspectivas de Gentry, Frith e Erhi. Este último, tem uma semelhança muito grande com a de Emília Ferreiro. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 67 20/11/2019 16:41:12 Alfabetização e Letramento68 REFLITA Baseado em toda argumentação teórica, você acredita que a fundamentação da escrita pode ser iniciada com desenhos e gravuras? Como você, professor, trabalharia com o seu aluno essa perspectiva de Vygotsky? Métodos de Alfabetização: Global e fonético Entende-se por métodos de alfabetização um conjunto de valores, procedimentos que são baseados em teorias e princípios com a intenção de orientar a aprendizagem que é iniciada pela leitura e escrita. Procuramos entender que não existe um único método no processo de alfabetização, pois se tratando de um assunto tão complexo, seria enganoso dizer que exista apenas um único método realmente efi caz. (...) à questão dos métodos mencionada neste livro não é qual método ou quais são os melhores ou os mais adequados; a resposta que se pode inferir reverte os termos da expressão métodos de alfabetização para alfabetizar com método: orientar a criança por meio de procedimento que, fundamentados em teorias e princípios, estimulem e orientem as operações cognitivas e linguísticas que progressivamente a conduzam a uma aprendizagem bem sucedida da leitura e uma ortografi a alfabética. (SOARES,2014, p.331) CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 68 20/11/2019 16:41:12 Alfabetização e Letramento 69 Sabemos que a aprendizagem da língua possui muitas etapas, Magda Soares chama essas etapas de “facetas”. Segundo SOARES,2014, a reunião dessas “facetas” difi cilmente pode constituir um método: Em outras palavras, o que propõe é que uma alfabetização bem- sucedida não depende de um método, ou, genericamente, de métodos ou processos cognitivos e linguísticos do processo de alfabetização, e com base neles desenvolvem atividades que estimulem e orientem a aprendizagem da criança, identifi cam e interpretam difi culdades em que terão condições de intervir de forma adequada- aqueles/aquelas que alfabetizam com um método. (p.333), Em meados do século XX, pode-se notar que a linguagem escrita tornou-se objeto de pesquisa no campo das ciências linguísticas e muito tem se observado novos debates sobres os métodos no processo de alfabetização vindo da necessidade sob o fracasso do sistema de alfabetização no Brasil. Muitos estudiosos acreditam que os métodos tradicionais não são mais efi cientes, isso porque acabam minando o desenvolvimento da criança, muito embora essa prática ainda seja predominante nos dias atuais. CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 69 20/11/2019 16:41:12 Alfabetização e Letramento70 REFLITA Você pode imaginar por quê os métodos tradicionais ainda prevalecem no ambiente escolar? Qual foi o método de alfabetização que a sua professora usou como você? É muito provável que para os que tenham nascido a partir dos anos de 1980 até os dias atuais, o método era o mesmo, o da Cartilha de Comenius. Um conceito bastante relevante é o pressuposto que os métodos tradicionais acabam por não priorizar uma refl exão de leitura e escrita, dando ênfase à memorização. No método tradicional é utilizado um sistema de codifi cação e decodifi cação, sem mencionar em suas atividades em fragmentos e de modo artifi cial, além da aplicação de ditados. É o que propõe BRITO; ALBUQUERQUE; CABRAL, TAVARES,2007: (as) práticas de alfabetização e os livros didáticos a elas vinculados, passaram a ser amplamente criticados, uma vez que continham textos forjados (os pseudotextos) e atividades que, de certa forma, destruíram a língua, reduzindo, equivocadamente, a iniciação da criança no mundo da escrita às tarefas de codifi car e decodifi car palavras tolas ou estranhas, sem qualquer propósito comunicativo (p.01). Perceba que os autores citam que esse método tradicional destrói a língua, porque não inserem a criança CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 70 20/11/2019 16:41:12 ARS80 Realce ARS80 Realce ARS80 Nota Crítica ao Modelo Tradicional Alfabetização e Letramento 71 no processo real educativo e como anteriormente já vimos, o processo é complexo e exige do educador muito mais do que simplesmente ser o transmissor desse conhecimento. Figura 4: Cartilha Fonte: Wikipédia Na tentativa de trazer novos horizontes para nossa realidade, Emilia Ferreiro entra em cena com a sua obra Psicogênese da língua escrita e coloca em dúvida todo o trabalho realizado até o momento. Calcada em ideais construtivistas, propõe uma codifi cação para representação da linguagem, assim como mostra que existe uma grande complexidade na linguagem escrita. Ferreiro vai contra o método tradicional, especialmente contra a prática de cópias, ditados e leitura de textos, para ela esses artefatos não permitem o professor identifi car o nível de alfabetização em que as crianças se encontram. Mediante ao desencadeamento dessas vertentes, surge a ideia de Letramento. A alfabetização divide-se na ideologia que o indivíduo deve não somente saber ler e escrever, mas fazer uso real dessa prática, através de interpretação e domínio de sua linguagem. A pesquisadora Magda Soares eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 71 20/11/2019 16:41:12 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento72 acentuou ainda mais essa visão em suas obras e nos deu um direcionamento sobre os inúmeros questionamentos da defi nição de Letramento. Outro teórico bastante signifi cativo foi Arthur Gomes Morais, que fundamentou o papel da consciência fonológica de alfabetização e enfatiza que os métodos tradicionais não seriam totalmente efi cientes pois promovem o aprendizado da língua de uma maneira bastante artifi cial e muitas vezes, sem nenhum sentido para as crianças. Segundo Arthur, muitos educadores ainda recorrem aos métodos tradicionais porque tem difi culdade em transpor os métodos atuais em sala de aula. Os métodos de alfabetização Até o fi nal do Império o sistema de alfabetização não era sistematizado, somente com a proclamação da República o ensino passou, de fato, a ser institucionalizado. É o que diz MORTATTI, 2006: A leitura e a escrita – que até então eram práticas culturais cuja aprendizagem se encontrava restrita a poucos eocorria por meio de transmissão assistemática de seus rudimentos no âmbito privado do lar, ou de maneira menos informal, mas ainda precária, nas poucas ‘escolas’ do Império (‘aulas régias’) – tornaram-se fundamentos da escola obrigatória, leiga e gratuita e objeto de ensino e aprendizagem escolarizados (p.2). Através de contextos históricos, é possível notar a grande mudanças e avanços nos conceitos econômicos, social e cultura da nossa nação. Ao longo desse tempo, os métodos foram divididos em dois grupos: CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 72 20/11/2019 16:41:12 Alfabetização e Letramento 73 1) Método sintético ou método Fonético Os métodos sintéticos subdividem-se em: a. Método alfabético ou método de soletração b. Método fônico c. Método silábico 2) Método analítico ou método Global Os métodos analíticos subdividem-se em: a. Método da palavração b. Método da sentenciação O método Fonético ou método sintético Esse método foi proposto pelo linguista americano Bloomfi elfd, no qual reforça que a criança é estimulada a repetir os sons que absorve do seu meio, como se fosse um processo mecânico. Vale dizer que todas as funções da linguagem são totalmente descartadas nesse método. Para a linguagem escrita, a criança deve internalizar padrões regulares de correspondência no que se diz respeito de som e soletração através de leitura das palavras, ou seja, a escrita serviria apenas para representar em formas de gráfi cos a fala. Outro fator muito importante, neste método, é a postura do professor, pois eles podem decidir como e quando as crianças devem aprender através de padrões regulares (mais fáceis) e padrões irregulares (mais difíceis). Por essa razão, o método fonético é subdividido em três partes: método alfabético ou de soletração, que tem como função principal a letra; o método fônico, que conduz aos fonemas; e o método silábico, que tem como unidade principal as sílabas. Você lembra da Cartilha? É exatamente isso o que acontece nela. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 73 20/11/2019 16:41:12 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento74 Figura 5: Cartilha de alfabetização Fonte: Pixabay Que tal nos aprofundar um pouco mais? Faça a leitura de duas reportagens que separamos para você para que você tenha um pouquinho mais de compreensão sobre esse método. Um deles é referente a uma entrevista com Magda Soares e sua percepção sobre o assunto. ACESSE https://bit.ly/2UrACnn https://bit.ly/2GQjO4f Método Global ou método analítico Esse método tem por seu precursor Nicolas Adam no qual incita uma metáfora sobre a aprendizagem da criança. Ele afi rma que o aprendizado da linguagem escrita é a mesma coisa quando se apresenta um casaco para a criança, ou seja, o casaco é apresentado como um todo e não é subdividido em gola, bolsos, botões etc. Assim, deve ser a mesma maneira com eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 74 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento 75 Por quê o uso da Cartilha ainda se faz presente nas escolas, mesmo sabendo que hoje existem outros métodos mais completos e efi cazes? Os métodos e os desafi os o desenvolvimento da aquisição da língua escrita. Segundo ele, é exatamente isso que se faz com o método sintético, a aprendizagem é desmembrada. Outro fator bastante importante que Nicolas enfatiza é a importância da leitura, ele afi rma que quando a criança faz a leitura, muitas vezes não faz a compreensão exata, pois para que exista essa decifragem, a criança deve ter contato com o signifi cado afetivo das palavras. O método Global é composto por: 1) Método de palavração: referente aos estudos das palavras sem que exista nenhuma decomposição das mesmas, é por esse motivo que são propostos pequenos textos para as crianças para que, assim, elas possam ter o conhecimento das palavras. 2) Método de Sentenciação: nesse método a proposta é formar orações de acordo com os interesses comuns. Depois que essa oração for exposta, ela será desmembrada em palavras e depois em sílabas. Outra proposta é o conto, pois a ideia é fazer que a criança que realizando a leitura, ela pode descobrir o que está escrito. Portanto, para o método global, o educador apresenta a forma global das palavras e depois fazer a decomposição das palavras e em seguida as sílabas. REFLITA eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 75 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento76 Já vimos que a cartilha ainda é usada por muitos professores e em muitas instituições. Ainda há uma grande necessidade de fazer uma autoavaliação sobre os questionamentos das necessidades de nossas crianças de hoje. Sabemos que não existe nenhum método perfeito, milagroso e que tenha a sua perfeita função para todas as pessoas, porém existem sim métodos que propõem um melhor desenvolvimento cognitivo, sem esquecer que o processo de educação é complexo e demanda também a necessidade do desenvolvimento por completo, respeitando sempre o meio em que a criança está inserida. A principal questão é o descobrimento de novas estratégias e metodologias do ensino que possa possibilitar um avanço signifi cativo nas práticas docentes sempre em consideração no conhecimento prévio do indivíduo. Apesar da evolução dos métodos e também da descoberta da Psicogênese da língua escrita, de Ferreiro e Teberosky, ainda há uma grande preocupação porque os professores ainda enfrentam desafi os dentro de sala de aula, sem mencionar que muitos ainda deparam com difi culdades em alcançar os objetivos na difícil tarefa de ensinar a criança a ler e escrever. O ponto de partida é compreender que não é somente ler e escrever, e sim fazer uma leitura do mundo e infelizmente as cartilhas não proporcionam essa ideologia, pois limitam o aluno na sua aquisição por um todo. O que as crianças necessitam, na verdade, é que elas possam fazer a interação com textos de seus cotidianos e ser inseridas dentro do seu ambiente educacional. O ensino não pode ser desmembrado, o professor deve ter autonomia sufi ciente na construção das atividades em sala de aula pois só ele tem o conhecimento das necessidades de seus alunos, da particularidade de cada um. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 76 20/11/2019 16:41:13 ARS80 Realce ARS80 Realce Alfabetização e Letramento 77 É notório que muitos professores têm muita difi culdade em colocar em prática a abordagem construtivista por falta de formação e informação, por esse motivo ainda muitos utilizam os métodos tradicionais e, consequentemente, o uso da cartilha. Esses métodos, infelizmente, não consideram o processo de aquisição da língua escrita na perspectiva da criança, pois ela não é o sujeito ativo nesse processo, muito pelo contrário. Estratégias da Leitura- Parte II No capítulo anterior, estudamos as estratégias que são mais utilizadas na sala de aula. Neste momento abordaremos algumas estratégias que você pode utilizar como docente com seus alunos e até mesmo com você. O hábito da leitura pode se fazer muitas vezes monótono, porém essa percepção somente desaparece com a prática da leitura por si só e também da utilização de algumas estratégias na hora da leitura. Faça uma experimentação consigo mesma(a)! Antes da leitura Primeiramente, deve ser defi nido um objetivo sobre a leitura para que possamos antecipar alguns pontos. Faça alguns questionamentos como: POR QUE LER? O QUE VAI LER? ● Pense, discuta e compartilhe ideias que estão relacionadas com o texto que vai ler. ● Faça uma previsão sobre o conteúdo que irá ler baseados em seus próprios conhecimentos ● Por exemplo: suponha que seu texto seja sobre “Abordagem sociointeracionista”. Pergunte para si mesmo: “O que é essa abordagem?”, “Quais suas principais características?” eBook Completo para Impressao - Alfabetizacaoe Letramento - Aberto.indd 77 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento78 Figura 6: Leitura Fonte: Pixabay Durante a leitura Novamente iniciaremos a sua análise prévia sobre o texto. Visualize as imagens, fotos, mapas, legendas, ou títulos e procure formar uma ideia central do tópico e intenção de um texto escrito. Faça uma leitura do texto rapidamente para que possa captar sua ideia geral. Uma maneira ótima para se fazer isso, é ler a primeira e a última frase do parágrafo. Devemos sempre ter em mente: 1) Qual a ideia principal do texto? 2) Após a leitura rápida do artigo, decida qual título se adequa. Vamos praticar? Faça a leitura rápida do texto abaixo, leia a primeira e a última frase: “Shannon Grimm é uma professora de uma escola primária do Texas, nos Estados Unidos, que adora o seus alunos. Recentemente, ela até fez uma mudança no visual para ajudar uma de suas alunas que estava sendo importunada eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 78 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento 79 pelos colegas de classe por causa do cabelo. A boa ação da professora rendeu até um prêmio da Meador Elementary School, em Willis, cidade do Texas. A americana já havia notado que Priscilla Perez, de 5 anos, estava um pouco mais fechada depois de ter cortado o cabelo, e depois das férias de dezembro, Shannon fez uma surpresa a seus alunos: apareceu com um visual igual ao de Priscilla. Os alunos fi caram encantados com o cabelo da professora e ela aproveitou o momento para dar uma lição de vida nas crianças. “Eu tinha que mostrar que garotos têm cabelo comprido como garotas e garotas têm cabelo curto como garotos”, comentou Shannon em conversa ao TODAY Style. Ela ainda revelou que a decisão de cortar o cabelo não foi fácil, mas que ela viu na ocasião a oportunidade perfeita para fazer uma afi rmação. “Eu sabia em meu coração que era o que eu tinha que fazer”, contou.” Fonte: https://bit.ly/2GRaUDQ Responda: 1) Após fazer a leitura rápida do texto, qual a principal ideia do texto que vem em mente? 2) Depois de fazer a leitura por completo, você acredita que baseado em seus conhecimentos prévios ajudou na compreensão? Por quê? Outra estratégia bastante signifi cativa é encontrar palavras, sons e exemplos, ou seja, tudo que possa ajudar o leitor na compreensão do texto. Perceba que no texto acima mencionado, não conseguimos ter uma visão ampla fazendo a leitura da primeira e ultima frase, porém já podemos deduzir que se trata da história de uma professora que é apaixonada pelo seu trabalho. Não fi zemos a compreensão de todo o texto, mas a prática dessa técnica nos ajuda a ter noções sobre eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 79 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento80 o que se trata o texto e se de fato, queremos prosseguir com a leitura. Para fazer uma compreensão no que se refere à organização e coerência do texto, você deve identifi car o número de seções ou das partes do texto e verifi car como as ideias se relacionam com a ideia principal. Exemplo: 1) Dividir o texto em três partes lógicas. 2) Ler alguns excertos e sublinhas. Para a compreensão da coesão do texto, devemos compreender as relações entre as diferentes partes, através de referência e seus conectores. 1) Para que possamos fazer a identifi cação de palavras chaves ou pistas contextuais, podemos propor que você destaque as palavras chaves desconhecidas para determinar o signifi cado através de algumas pistas no texto. A leitura das entrelinhas é um fator muito importante na leitura de um texto. São palavras que subentendem um outro signifi cado, ou seja, o signifi cado de palavras que não estão explícitas no texto. Muitas piadas ou até mesmo fábulas podem conter muito esse tipo de recurso textual. Veja alguns exemplos de entrelinhas: EXEMPLO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 80 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento 81 [...] Frequentemente surgiam brigas, e seus estremecimentos repercutiam longe, derrubavam paredes distantes e causavam novas brigas, até que os empurrões, chifradas, ancadas forçassem uma arrumação temporária. O boi que perdesse o equilíbrio e ajoelhasse nesses embates não conseguia mais se levantar, os outros o pisavam até matar, um de menos que fosse já folgava um pouco o aperto – mas só enquanto os empurrões vindos de longe não restabelecessem a angústia. [...] (Trecho extraído do livro “A hora dos ruminantes”, de José J. Veiga) A obra de de J.J.Veiga é um marco em nossa literatura, pois, nesse livro ele implica que os animais são os seres humanos, época em que as pessoas sofriam de uma pressão da ditadura. Perceba que ele não se refere aos animais e sim às pessoas. A censura punia todas as pessoas que fossem contra toda a ideologia política daquela época e muita gente foi exilada, punida e até mesmo morta por conta disso. O bicho Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, EXEMPLO (continuação) EXEMPLO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 81 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento82 Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. ( MANUEL BANDEIRA) Mais uma vez uma oposição à política em que o poeta fez a seu desabafo. Somente no fi nal do texto é que percebemos que se trata da raça humana e não de animais. EXEMPLO (continuação) Depois da Leitura A primeira etapa é fazer uma avaliação geral do texto. Podemos: 1) Fazer juízos após a leitura e avaliar de forma crítica ou imparcial. 2) Procurar distinguir se existe compatibilidade entre as suas ideias e a do autor do texto. Por exemplo: “As pessoas que possuem mais de uma língua não estão somente aptas à uma nova demanda de profi ssões no mercado como também estão preparadas para novas conquistas. Pessoas bilíngues ganham mais de 50% comparado as que possuem somente uma língua” Você concorda com esse texto? eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 82 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento 83 Considerações fi nais Entendemos que a aquisição da língua envolve uma gama de possibilidades, questionamentos e também habilidades tanto do corpo docente como do discente. A língua é por si só um emaranhado de saberes dentro de uma determinada cultura e desmembrar todo um conteúdo demanda muito esforço e tempo. Dá-se, então, a importância entre a distinção entre língua oral e língua escrita. Enquanto que a língua falada é dinâmica e vive em constantes modifi cações, a língua escrita é mais regrada, porém tem sim infl uências da língua oral. Somos o que falamos, com quem nos relacionamos e somente conseguimos fazer um registro da nossa identidade quando nossa sociedade compreender que ambas são completamente diferentes uma da outra, mas que se “comunicam” entre si. Nesse pressuposto, quando falamos na aquisição da língua escrita, temos que nos ater a muitos fatores internos e externos. Nunca se esqueça que o seu aluno é um ser em formação, porém ele já vem com a sua própria bagagem cultural. Não estamos mencionando aqui que devemos incentivar alguns problemas relacionados entre língua oral e escrita, como por exemplo: vícios de linguagem, uso do pleonasmo etc. Nosso intuito é que você, futuro professor, possa compreender a dimensão desse processo e também o seu aluno, pois ele é um ser único e cada um aprende da sua forma, de acordo com as experiências que possuem. Um outro exemplo é o uso do resumo. Através dele, você pode organizar as ideias principais e ignorar as partes que não requerem tanta atenção assim. Por exemplo: Leia o texto e faça um resumo de, exatamente, 50 palavras. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao eLetramento - Aberto.indd 83 20/11/2019 16:41:13 Alfabetização e Letramento84 Como vimos anteriormente, uma criança que vive em um ambiente menos favorecido não conseguirá ter a mesma aquisição da língua escrita do que àquela que se encontra em um lar mais favorecido. Não estamos citando apenas a condição fi nanceira da criança, mas também a sua experiência cultural. Muitas vezes, uma criança da periferia fala de modo diferente do que uma criança da burguesia. Ambas possuem expressões distintas uma da outra e isso interfere no processo de desenvolvimento da aquisição da língua escrita. Cabe, então, ao professor conhecer seus alunos para que, baseado em suas experiências culturais, possa encontrar alguns caminhos alternativos para alfabetizar essas crianças. Muitos pesquisadores verifi caram que a aquisição da língua escrita se dá por um processo tão natural quanto ao ato de falar, por exemplo. O professor deve estimular esse conhecimento e proporcionar um ambiente educacional motivador. O tradicional X O construtivista Você já deve ter percebido que muito falamos sobre essas abordagens e que elas estão o tempo todo em confl ito. Depois da Psicogênese da língua escrita de Ferreiro e Teberosky, o país praticamente se dividiu. Enquanto uns ainda continuam nos métodos tradicionais, outros são categóricos em dizer que o método construtivista é o mais adequado para nossas crianças. E você? O que pensa sobre isso? Há muito para se discutir e ser planejado, porém não podemos ignorar alguns fatos que acontecem em nossas escolas. Apesar de muitas crianças serem alfabetizadas pela cartilha (talvez eu e você), ainda sim é um método muito aquém para o desenvolvimento cognitivo da criança. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 84 20/11/2019 16:41:13 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento 85 A Cartilha possui, é claro, de algumas características interessantes, mas infelizmente não permite que a criança seja o sujeito ativo no processo do seu conhecimento. Já a abordagem construtivista, apenas de ser bastante utilizada em muitas instituições, ainda é o “bicho papão” de muitos professores, coordenadores e escolas. Existe uma grande necessidade de formação para os docentes sobre esse assunto, pois muitos profi ssionais não tendo o domínio total da abordagem, acabam por optando a utilizar os métodos tradicionais por acreditarem ser mais fáceis. Nessa reconstrução de valores, nossas crianças ainda sofrem as consequências. O fracasso da alfabetização no Brasil aumenta a cada ano, para que vocês tenham uma ideia, há mais de 40 anos o país vem sofrendo com a diminuição de crianças alfabetizadas. Perceba que não estamos falando de crianças letradas, e sim alfabetizadas. Até os anos 80 a 1ª série do ensino fundamental I era utilizada para o processo de alfabetização e somente conquistaria a 2ª série se fosse aprovada. Hoje em dia com a formação continuada, não existe a obrigatoriedade de reprovação e por isso, muitas crianças seguem para o 2º ano sem saber ler e escrever. Magda Soares afi rma que nós somos um país que reincide no fracasso de alfabetização. REFLITA Você acredita que exista um método revolucionário, capaz de ser assertivo com todas as crianças, sejam elas da mesma classe social ou diferente? Qual o melhor método para você? eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 85 20/11/2019 16:41:13 ARS80 Realce ARS80 Realce Alfabetização e Letramento86 Vimos, que não existem métodos perfeitos e que possam ter o pleno funcionamento com todas as pessoas. Cada método de alfabetização tem a sua particularidade. Embora as técnicas sejam muito importantes, não podemos deixar de levar em conta outros fatores que também fazem parte integrante no processo de alfabetização. Podemos sim, trabalhar com um método específi co, mas fazer pequenas adequações quando se achar necessário, pois no processo de alfabetização, nada é estático. Esperamos que você tenha usufruído desse material e que ele te sirva para que novos horizontes de conhecimentos possam expandir. Como você pode notar, o caminho a percorrer é longo, mas muito prazeroso. Como educador, fi que atento em seus alunos, faça parte do mundo deles. Eles te darão muitas vezes, a resposta como lidar com eles. Olhe nos olhos, saiba o nome de cada aluno seu, perceba quando ele está bem ou não está. Tenha a percepção de encarar seus alunos como pessoas como você e que são diferentes. Estude! Faça reciclagem dos seus conhecimentos! O mundo da leitura pode ser tão importante na vida de uma criança quanto na sua! Viva a sua profi ssão e procure entender que você é essencial em todo esse processo! E que a jornada continue! eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 86 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento 87 AS PRINCIPAIS CONCEPÇÕES DAS ABORDAGENS PEDAGÓGICAS E AS NOVAS PERSPECTIVAS DE LETRAMENTO UNIDADE 03 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 87 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento88 Olá, alunos(as)! Iniciamos agora mais uma unidade! Nela faremos uma análise da importância da defi nição de letramento na sociedade e o impacto dela no âmbito educacional. Nesse capítulo, faremos muitas refl exões acerca disso, porque todo educador precisa se apropriar desse mundo chamado “letramento” de maneira que não se tenha nenhuma dúvida tanto a respeito da defi nição, quanto da prática dele. Entenderemos que esse tema tão complexo deveria ser praticado em todas as escolas, mas infelizmente não é isso que acontece atualmente. Precisamos então, fazer uma análise da situação real e entender como o letramento pode ajudar no processo de ensino-aprendizagem. Sabemos que o letramento não é uma tarefa fácil, pois além de demandar muitas habilidades, ainda existem questionamentos inerentes à defi nição dele que não podemos descartar. Já vimos como ocorre o processo de aquisição de leitura e de escrita, agora estudaremos como tais processos podem fazer toda a diferença para as crianças. Nas unidades anteriores, estudamos acerca de algumas abordagens, porém nesta, dissertaremos a respeito das concepções empiristas e das sociointeracionistas sempre baseadas em fundamentos teóricos que continuam fazendo parte do cotidiano educacional das escolas. E por fi m, estudaremos a terceira parte das estratégias de leitura. Neste capítulo, você aprenderá algumas dessas estratégias de leitura com crianças que estão no processo de alfabetização. Há muito ainda para ser estudado, pensado e discutido! Seja parte integrante desse processo! Bons estudos! INTRODUÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 88 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento 89 1 2 3 4 Olá. Seja muito bem-vindo(a) à Unidade 3. O objetivo dela é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profi ssionais durante esta etapa de estudos: OBJETIVOS Conhecer tópicos importantes acerca das intenções de alfabetizar o indivíduo na sua totalidade; Compreender os novos pontos de vista no processo de ensino-aprendizagem e na aquisição de leitura e de escrita; Interpretar as concepções empiristas e as sociointeracionistas e compreender os impactos delas no ambiente educacional; Reconhecer as principais estratégias de leitura com as crianças no processo de alfabetização. Preparado(a) para uma viagem rumo ao conhecimento? Ao trabalho! eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 89 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento90 Perspectivas de alfabetizar letrando Qual é a defi nição de letramento para você? Não quero que você olhe no dicionário ou no material que estudou até agora, mas que você refl ita acerca do que é letramento. Qual a importância desse tema para as crianças e o que a falta de letramento pode ocasionar? O que deve permanecerno processo de ensino- aprendizagem e o que precisa ser modifi cado? Quero que você responda a essas perguntas em seu caderno de estudos antes que iniciemos esse primeiro tópico. Compartilhe as suas ideias com os seus colegas, deixe-os compartilhar as deles com você. Faça essa interação! Sua defi nição pode conter muitas ou poucas palavras, não importa. O que vale é que você se aproprie desse universo tão rico e desafi ador. Então, mãos à obra! Letramento e os seus processos Podemos dizer que o processo de alfabetização passou por quatro impactantes momentos, que são: 1. Método de soletração ou método alfabético: teve início na antiguidade e durou até a idade média; 2. Os métodos sintéticos e analíticos: iniciou no século XVI e durou até a década de 1960; 3. A psicogênese da língua escrita, defendida por Emília Ferreiro e por Ana Teberosky: iniciou na década de 1960 e durou até meados da década de 1980; 4. Conceito de alfabetização e letramento: dede 1980 até atualmente. Segundo Soares (2008, p. 20): eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 90 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento 91 Só recentemente passamos a enfrentar a essa nova realidade social em que não basta sabe ler e escrever, é preciso também fazer o uso do ler e do escrever, saber responder às exigências da leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente – daí o surgimento do termo letramento. O termo letramento surgiu do inglês literacy, que signifi ca alfabetização. No entanto, a defi nição dele é um pouco mais ampla e não nos remete apenas à defi nição de alfabetização mas também a outros conceitos específi cos que habilitam o usuário da língua a se apropriar inteiramente desse conhecimento. E qual a história do letramento? Você tem ideia? O letramento tem uma história, podemos dizer que é breve, de problemas crônicos da educação em detrimento ao fracasso escolar e à exclusão social. Na década de 1980, muitos fatores contribuíram para infl uenciar o desenvolvimento das práticas de alfabetização relacionadas ao emprego da escrita e das situações complexas delas. O que mais marcou essa época, foram as práticas naturais com grande infl uência de Paulo Freire, no sentido da escrita como forma de expressão. Depois disso, a ideia de que a prática da leitura ocorria depois da alfabetização acabou mudando porque acreditava- se que ela poderia também ocorrer antes da alfabetização. Nesse pressuposto, muitos alunos poderiam ser capazes de fazer o reconhecimento do sentido da escrita antes mesmo de estarem na escola, pela própria experiência pessoal. Outros poderiam não ter a experiência da escrita no seu cotidiano. Então, houve a necessidade de se pensar que a alfabetização precisava passar por uma evolução; que ela deveria se tornar um processo de descoberta, de uma cultura em que a escrita de fato faria sentido. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 91 20/11/2019 16:41:14 ARS80 Realce ARS80 Nota CONCEITO ETIMOLÓGICO DE LETRAMENTO ARS80 Realce Alfabetização e Letramento92 Desse questionamento, tomado pela conscientização escolar quanto à necessidade de uma combinação entre as práticas da escrita e os processos de integração com a cultura escrita, surge a defi nição de letramento. SAIBA MAIS Sabemos que os métodos naturais, também denominados de “estudos culturais”, ainda ocupam um espaço importante nas práticas de alfabetização. Sugerimos que você faça a leitura do texto “Histórias infantis e aquisição da escrita”, de Vera Simões, disponível no endereço eletrônico: https://bit.ly/2HJRoJF. A psicogênese – Parte I Desde o início deste curso você tem se deparado com o assunto da psicogênese e com os teóricos da área. Essa teoria foi o marco de um processo mental da língua escrita porque antes disso, o processo de aquisição da linguagem era mais mecânico e metódico. Acredita-se que essa teoria foi um divisor de águas porque ela consiste em fazer formulações para explicar o processo mental por meio do qual a criança faz a construção da própria escrita. Mas, o que seria a construção da escrita, afi nal? Segundo Godoy e Senna (2013, p. 211): Construir a escrita signifi ca desenvolver certo conhecimento que proporcione ao indivíduo: a. Discriminar os grafemas; b. Empregá-los na produção e na leitura de textos escritos que atendam aos princípios de uso variáveis conforme cada um dos tipos de gêneros empregados em dada sociedade. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 92 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento 93 A noção de gênero textual implica uma gama de fatores que em muito transcendem os limites da alfabetização em seu sentido tradicional, relacionado à construção do código escrito. (...) Assim, a noção de alfabetizar passa a ser compreendida como promover a integração do indivíduo às diversas práticas sociais de escrita. (...) Então, não bastava mais a um trabalhador saber assinar o nome, simplesmente. Não bastava mais uma educação que resumisse a adestrar pessoas para trabalharem em linhas de produção. Os autores ainda afi rmam que devemos atentar também para o uso dos gêneros textuais, que é o uso de um sistema gramatical, como poesia, narrativa, drama etc. Isto é, o indivíduo deve ter domínio de todos os conceitos de gêneros textuais para que ele possa ser considerado como um indivíduo letrado. Não podemos deixar de citar também, que na atualidade existem outras formas de comunicação escrita, como os blogs, os e-mails etc. Os gêneros textuais também se encontram nos quadrinhos, nos jornais, nos diários, nos bilhetes e nos contos. É o que podemos identifi car na concepção de Godoy e Senna (2013, p. 212-213): CITAÇÃO A Psicogênese ganhou então, olhares de pesquisadores de diversos países visando que a educação seja algo comum a todos e que ela não se limite aos conhecimentos prévios do indivíduo, mas que o indivíduo seja capaz de deter uma gama de conhecimentos e que ele possa desenvolvê-los de forma prática e adequada. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 93 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento94 SAIBA MAIS Na obra de Emília Ferreiro e de Ana Teberosky foram apresentadas críticas severas quanto ao caráter mecanicista do emprego da cartilha no processo de alfabetização. Além disso, argumentou- se que o uso dela implicava em uma intenção ideológica que é apresentado no texto “Aprender a ler entre cartilhas: civilidade, civilização e civismo pelas lentes do livro didático”, de Cartola Boto, disponível em: https://bit.ly/2VHkpL5. Na sua opinião, quais foram as contribuições dos métodos naturais nas práticas de alfabetização? Posteriormente, faremos um aprofundamento acerca das etapas da construção da língua escrita sob o foco da psicogênese . Inicialmente queremos que você compreenda os “porquês” e os acontecimentos que culminaram nessa mudança tão signifi cativa no processo de alfabetização. A psicogênese - Parte II Vamos agora estudar a segunda parte da psicogênese da língua escrita. Podemos dizer que essa teoria de cunho construtivista, é dividida em quatro etapas: 1. Etapa Pré-Silábica: é empregado o uso de grafi smos que não estão associados aos grafemas do sistema alfabético. Ela é dividida em duas fases. A primeira fase são os traços REFLITA eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 94 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento 95 Figura 1: Grafi smo Infantil. Fonte: Pixabay metonímicos (quando há um desenho com similaridade com o que é representado); e a segunda fase, a relação entre a forma gráfi ca e o que ela representa; 2. Etapa Silábica: ocorre com o descobrimento da forma dos sinais do sistema alfabético, porém utilizados por grafemas em que uma letra representa um conjunto de grafemas: Exemplo: A letra “p” por pé. 3. Etapa Silábico-Alfabética: nesseponto, a escrita tem uma signifi cativa evolução, porém podem ocorrer algumas presenças das marcas da fala na escrita: Exemplo: “tanbein” por também; “prasco” como plástico. 4. Etapa Alfabética: a escrita passa a ser a representação da fala e a forma dela passa a ser regrada pela ortografi a. A construção do trabalho da psicogênese, considerando as etapas citadas, foi de grande importância para os estudos da área e mudou o modo de pensar a alfabetização com o ingresso da criança na escola. A partir desse trabalho, variadas práticas de cunho construtivistas foram desenvolvidas e auxiliam até atualmente o trabalho docente. Agora que as conhecemos, fi ca fácil entender que “a verdadeira escrita (...) seria a escrita espontânea: aquela que eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 95 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento96 proporcionaria à criança pensar sobre as regras que constituem o sistema de escrita” (PICOLLI; CAMINI, 2013, p. 18), não é verdade? Novas perspectivas no processo de aquisição da língua escrita Um dos motivos que impulsionou uma nova concepção de alfabetização foi a evidência do fracasso escolar que vem sendo revelado por avaliações estaduais, nacionais e internacionais no nível da linguagem escrita pelos alunos brasileiros do ensino básico. Outro fator importante foi decorrente das mudanças teóricas e de conceitos sob um novo olhar das ciências psicológicas e linguísticas. A pesquisadora Magda Soares defende que essas divergências nos remetem a alguns questionamentos, com por exemplo, o que funciona na alfabetização. Sugere ainda que, em torno dessa crise educacional, também existem algumas discordâncias que deveriam ser estudadas. Em primeiro lugar, a ideia de o que se ensina; e a segunda referente ao método que é utilizado, porque devemos além de saber o que ensinar, também saber como ensinar. Existe uma separação distinta no que se refere à plena inserção da língua escrita que pode ser dividida em algumas dimensões, que sugere Soares (2003, p. 133): A plena inserção no mundo da escrita, pelo exercício competente da leitura e da escrita, envolve pelo menos três complexas dimensões que se articulam e se complementam: uma dimensão linguística,- a conversão da oralidade em escrita; uma dimensão cognitiva-, as atividades da mente em interação tanto com o CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 96 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento 97 CITAÇÃO sistema de escrita, no processo de aquisição do código, quanto com o texto em sua integridade, no processo de produção de signifi cado e sentido; e uma dimensão sociocultural- a adequação das atividades de leitura e escrita aos diferentes eventos e práticas em que essas atividades são exercidas. (CONTINUAÇÃO) Compreendemos então, que esse processo é subdividido em três partes, as dimensões: 1. Linguística; 2. Cognitiva; 3. Sociocultural. Na complexidade de cada dimensão, é importante entender que cada uma complementa a outra e que não se pode ter uma totalidade de resultados sem que as três estejam inteiramente desenvolvidas. O que e como se ensina? (Para que se ensina?) Faremos uma nova refl exão acerca da sua própria experiência no processo de alfabetização. Você se lembra quais foram os métodos utilizados pela sua professora para te alfabetizar? O que funciona na alfabetização? Por um lado, podemos dizer que o que ocorre é o ensino sistemático da língua escrita; por outro lado, o que funciona na alfabetização é o desenvolvimento da compreensão de textos que a criança adquire progressivamente. Existe ainda a terceira questão que é a junção desses processos. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 97 20/11/2019 16:41:14 Alfabetização e Letramento98 Soares (2003, p. 133-134) assim explica: [...], sustentam que a aprendizagem da língua escrita deve envolver, de forma simultânea e integrada, a apropriação da tecnologia da escrita- essencialmente, do sistema de relações fonema-grafema -, a leitura compreensiva e a produção de textos de diferentes gêneros, e os usos da escrita em experiências reais de leitura e de escrita. [...] Nessa perspectiva, o que funciona na alfabetização seria o ensino integrado das múltiplas dimensões da aprendizagem da língua escrita. CITAÇÃO Figura 2: Aprendizagem da escrita. Fonte: Pixabay Portanto, o questionamento acerca do que funciona na alfabetização deve ser repensado baseado nas seguintes indagações: O que funciona? = para quê? 1. Para que o indivíduo seja capaz de fazer a codifi cação e a decodifi cação da linguagem escrita. 2. Para que a escrita tenha sentido para a criança e que as habilidades dela nesse processo possam se desenvolver. 3. Para que a criança possa estar inserida no mundo da escrita em todos os aspectos culturais dele. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 98 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento 99 Dito isso, vamos falar a respeito do alfabetismo. O alfabetismo O conceito de alfabetismo pode até causar estranheza, pois é muito comum ouvirmos o contrário dessa palavra, que é o “analfabetismo”. Então, qual o signifi cado dessa palavra? Em seu conceito literal, no dicionário a defi nição de alfabetismo é o ”Estado ou condição das pessoas que foram alfabetizadas, que receberam instrução formal ou sabem ler e escrever” (DICIO, 2019). Seguindo essa defi nição, o analfabeto então, é aquele que não sabe ler nem escrever e o alfabetizado é aquele que aprendeu a ler e a escrever. Vivemos em uma época em que não basta apenas saber ler e escrever, mas é preciso ter o domínio da língua e saber fazer o uso adequado de tais habilidades. Segundo Soares (2003), podemos agrupar o desenvolvimento do alfabetismo em dois grandes grupos que ela chamou de dimensões: Dimensão Individual: o alfabetismo é visto como uma atribuição individual e pessoal; Dimensão Social: o alfabetismo é visto como algo cultural que se refere a um “conjunto de atividades sociais” que pode envolver a linguagem escrita. A ideia é que a leitura e a escrita são habilidades totalmente distintas, embora elas façam parte de um mesmo processo. É o que podemos ver na refl exão de Soares (2003, p. 152): eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 99 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento100 [...] a leitura e as habilidades e os conhecimentos que constituem a escrita são radicalmente diferentes, como também são consideravelmente diferentes os processos de aprendizagem da leitura e os processos de aprendizagem da escrita. [...] – pode saber ler sem saber escrever. Pode ser um leitor fl uente e um mau escritor. A necessidade de habilidade de alfabetismo na vida cotidiana é óbvia; no trabalho, dirigindo na cidade, comprando em supermercados, todos nós encontramos situações que demandam leitura ou produção de símbolos escritos. Não é preciso justifi car a insistência na obrigação que têm as escolas de desenvolver nas crianças habilidades de alfabetismo que as tornem capazes de responder a essas demandas em situações da vida cotidiana. CITAÇÃO CITAÇÃO A autora afi rma que as habilidades de leitura e de escrita ocorrem de formas diferentes e devem ser utilizadas de maneiras diferentes. Portanto, o alfabetismo em sua dimensão individual deve ser visto como um conjunto de práticas sociais com associação à leitura e à escrita e que devem ser exercidas efetivamente em um contexto social. Scribner (1984, p. 9) defi ne o alfabetismo funcional como algo de muita importância para a sobrevivência humana: eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 100 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento 101 CITAÇÃO (CONTINUAÇÃO) Programas de educação básica têm a mesma obrigação de desenvolver em adultos as habilidades que precisamter para obter trabalho progredir nele, para receber o treinamento e os benefícios a que têm direito e assumir suas responsabilidades cívicas e políticas. O alfabetismo e as suas perspectivas Há grandes perspectivas metodológicas e teóricas no que se diz respeito a esse fenômeno e, por se tratar de um assunto multifacetado, Soares (2003) subdividiu-as, sem se esquecer da dimensão individual e social: 1. Histórica: faz investigação da história do sistema da escrita, entre outros temas; 2. Antropológica: estudo dos processos de aquisição da escrita em diferentes culturas e tradições; 3. Sociológica: tem a leitura e a escrita como uma prática social; 4. Psicológica e Psicolinguística: investiga as diferentes estruturações do pensamento, os processos cognitivos e a neuropsicologia da leitura e da escrita; 5. Sociolinguística: as relações entre a leitura e a escrita nos seus diversos contextos culturais e linguísticos; 6. Linguística: envolve o sistema fonológico da língua e o seu sistema ortográfi co, as diferenças morfossintáticas e lexicais da língua; 7. Discursiva: tem como objetivo a teoria do discurso; 8. Textual: estuda as diferenças entre o texto escrito e o texto oral, a coesão e a coerência; eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 101 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento102 1. Literária: características orais em diversos tipos de textos das literaturas; 2. Educacional ou Pedagógica: implica na construção e na investigação de condições institucionais dos processos metodológicos e didáticos; 3. Política: faz uma análise a respeito dos programas que visam a promoção do alfabetismo em sua totalidade. Baseados nas palavras de Gnerre (1985, p. 28) podemos concluir os estudos do alfabetismo sob diferentes perspectivas teóricas e metodológicas: Podemos dizer que o campo de estudos da escrita, como foi constituído nas últimas décadas, é um cruzamento estimulante das principais áreas de categorização das atividades intelectuais tradicionais do pensamento ocidental, tais como a História, a Linguística, a Sociologia, a Educação, a Antropologia e a Psicologia. Por essa razão, alcançar uma boa compreensão da série de fatos e de ideias que são relevantes para o campo de estudos da escrita é uma façanha complexa. Há um texto da British Broadcasting Corporation (BBC) que remete à problematização a respeito do analfabetismo funcional e como é a infl uência dele em relação às redes sociais em nosso país. Vale a pena você fazer essa leitura: https://bbc.in/2RQgOJ8. CITAÇÃO SAIBA MAIS eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 102 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento 103 Concepções empiristas e socioconstrutivistas Trataremos agora de duas abordagens signifi cativas que ainda infl uenciam o ambiente educacional. É certo que existem outras abordagens que foram também impactantes no desenvolvimento educativo, porém as concepções que citaremos tiveram um impacto maior. O empirismo O termo foi introduzido pelo fi lósofo britânico John Locke (1632-1704) e signifi ca “experiência” em português. A teoria empirista afi rma que todo o conhecimento se origina de uma experiência. Embora todas as pessoas nasçam com capacidades para o aprendizado, elas precisam das experiências de vida para que possam se desenvolver. Para os empiristas, o indivíduo percebe as informações do ponto de vista das próprias experiências e a aprendizagem ocorre quando esse novo conhecimento passa a ser um hábito na vida da pessoa. Figura 3: Acumulação de Informações. Fonte: Pixabay A ideia empirista é como se todo o conhecimento fosse absorvido como uma esponja que retém líquido no qual as informações são fi xadas e acumuladas. Pela primeira vez, a mente humana passa a ser descrita como uma “tábula rasa” que pode ser dirigida de acordo com as experiências vividas e “absorvidas”. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 103 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento104 Outros fi lósofos em meados dos séculos XVI e XVII também foram adeptos do Empirismo, entre eles Francis Bacon (1561- 1626) e Thomas Hobbes (1588-1679). Do ponto de vista empirista, a escola era responsável por formar o indivíduo para que ele fosse capaz de julgar, conhecer e agir entre o certo e o errado. Ainda hoje existem muitas concepções empiristas nas escolas, com a ideia que o aluno deve simplesmente receber as informações sem fazer interação com o objeto de estudo. O conhecimento é um recurso somente do professor, como forma de produto, ou seja, só o professor possui esse conhecimento e o aluno deve apenas recebê-lo. Os empiristas sustentam que o conhecimento é um fator exteriorizado e o professor o detém. O principal método empirista é por meio da cópia e da memorização. Sob essa abordagem, procure lembrar os métodos empiristas que muitos professores utilizaram (e ainda utilizam) em sala de aula. Você nunca teve um professor que te fez copiar muitos textos durante a aula? Esse professor fez alguma interação com você? SAIBA MAIS É muito provável, que você já tenha passado por situações empiristas. Lembre-se de que não estamos julgando qualquer método utilizado, apenas fi zemos uma comparação entre a teoria e a realidade. Quando o professor passa um texto e pede para que o aluno faça uma cópia dele, a intenção não é que o aluno seja um sujeito ativo nesse processo, ao invés disso, ele se torna um sujeito passivo porque apenas faz a cópia e as atividades propostas pelo docente. É um método mecanizado. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 104 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento 105 O fi lósofo Aristóteles (384-322 a.C) também já tinha preconizado essa teoria e fez críticas severas contra o inatismo, porque acreditava que o ser humano adquiria os seus conhecimentos na prática, e que isso poderia se tornar um hábito. Causou sem dúvida, uma revolução na ciência, pois foi a partir dele que surgiu a metodologia científi ca. O Socio Construtivismo A teoria socioconstrutivista foi calcada por Lev Semionovitch Vygotsky, também conhecida como psicologia de aprendizagem. Essa teoria defi ne que o conhecimento é fruto de uma construção social entre a interação entre os indivíduos, ou seja, para que exista um conhecimento, também deve existir uma interação com o meio em que eles estão inseridos. A teoria de Vygotsky afi rma que o desenvolvimento da criança, desde o nascimento é acompanhado por hábitos, gestos, linguagens e tradições. Para os socioconstrutivistas, a linguagem é fundamental e é considerada como um poderoso artefato cultural, capaz de modifi car todo o desenvolvimento. O indivíduo então, aprende pela interação com o meio, ouvindo e observando o que as pessoas fazem e não somente pela exploração do ambiente. Vygotsky sugere que existem algumas linguagens simbólicas, como a linguagem matemática, que é signifi cativa nessa teoria. Ele enfoca a importância da cultura no desenvolvimento da criança e na aquisição da linguagem, porque é por meio dela que o indivíduo faz a apropriação da informação e ele só faz isso por meio da interação. O modelo socioconstrutivista é mais amplo do que o modelo construtivista no qual o seu precursor é Jean Piaget. Porém, tanto os construtivistas quanto os sociointeracionistas, afi rmam que a criança deve ter o papel ativo, e falam da importância de os alunos trabalharem e discutirem juntos eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 105 20/11/2019 16:41:15 Alfabetização e Letramento106 por meio de debates e de discussões em grupo em que cada participante possa expressar as próprias ideias e opiniões. Essa prática ajuda os alunos a refl etirem acerca das opiniões alheias e a compreender as atividades que lhe são propostas. Nessa teoria, a criança é coautora do processodo seu conhecimento. Figura 4: Interação Social. Fonte: Pixabay JEAN PIAGET LEV VYGOTSKY Período 1896-1980 1896-1934 Palavras- chave Construção do conhecimento Interação social Principais conceitos Aprendizagem por assimilação/ acomodação/esquema/ equilibração e estágios do desenvolvimento Aprendizagem pela interação social. Mediação simbólica por meio de instrumentos, de signos e da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) Relação da criança com o mundo É feito por conhecimentos prévios / por adaptação É feito como um processo de socialização na relação dela com o mundo eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 106 20/11/2019 16:41:16 Alfabetização e Letramento 107 Papel do professor e da escola O papel de ambos é fazer com que os conhecimentos prévios sejam desequilibrados pelo professor Fazer a intervenção na ZPD, ajuda o aluno na distância entre o que ele sabe e o que tem conhecimento O aluno e o perfi l dele O aluno é participativo, coautor dos próprios conhecimentos e se torna também questionador. É importante ressaltar que tanto Piaget quanto Vygotsky concebem a criança como um ser ativo, curioso e pronto a aprender. Ainda assim, como pudemos observar no quadro, há diferenças na forma como cada um deles concebe o processo de desenvolvimento infantil. Estratégias de leitura – Parte III Aprendemos anteriormente que a leitura deve ser um hábito diário para a criança e que ela deve estar familiarizada com essa prática antes de ingressar no ambiente escolar. A leitura é, portanto, uma prática cultural que deveria passar de pais para fi lhos. Quanto maior o contato com os objetos de leitura, sejam livros ou periódicos, maior será também o processo motivador. Como você pôde notar, não se pode esperar que aconteçam milagres em sala de aula com crianças que não têm (ou nunca tiveram) acesso à leitura. O professor pode estimular e aguçar a curiosidade para a prática da leitura, porém ele deve ter em mente que nem sempre a criança se sentirá estimulada logo nas primeiras tentativas. Como podemos então, promover um ambiente favorável em que as crianças se sintam motivadas a iniciar a prática da leitura? O que você utilizaria para promover essa interação entre o seu aluno e o livro? eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 107 20/11/2019 16:41:16 Alfabetização e Letramento108 Vamos então, pensar em algumas estratégias que podem estimular o gosto pela leitura em seus alunos. Seguem algumas estratégias que foram pensadas e desenvolvidas justamente em situações como essa, porque encontrar crianças que são estimuladas antes da alfabetização para a leitura, infelizmente em nosso país não é muito comum. Ofereça um ambiente motivador Você se lembra que vários teóricos disseram que a criança deve estar exposta a um ambiente educacional que seja estimulante para o desenvolvimento cognitivo dela? É exatamente essa a ideia, fazer com que a criança adentre em um mundo diferente daquele que ela está acostumada. Podemos estimular a leitura antes de iniciarmos o processo de alfabetização da criança por meio de diversos recursos: a. Decoração da sala de aula: faça uma decoração simples na sala de aula com os personagens que você quer apresentar para as crianças. Seja criativo(a), tenha em mente que a criança nessa fase é muito curiosa e as fi guras e as cores promoverão uma interação maior. b. Conte pequenos contos: uma forma muito rica de estimular a prática da leitura é a contação de histórias. Procure escolher histórias curtas porque nessa idade, as crianças se dispersam com muita facilidade. O objetivo é que elas prestem atenção à história para que depois, você possa trabalhar o assunto tratado. Você pode utilizar marionetes ou se vestir apropriadamente para a contação da história, porque é uma forma de chamar a atenção dos pequenos. c. Não deixe que o conto fi que esquecido: utilize a história para realizar atividades com as crianças. Quanto maior for o contato com a história, maior será o estímulo. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 108 20/11/2019 16:41:16 Alfabetização e Letramento 109 d. Utilize contos novos: uma dica importante é a ideia de contar novas histórias para os pequenos, algo que eles ainda não conheçam. É claro que você pode utilizar contos conhecidos, porém a ideia é que você também apresente uma diversidade de temas. e. Faça da leitura uma aula de educação: existem muitas histórias que promovem o exercício da cidadania, do respeito ao próximo e à diversidade. Lembre-se que as crianças estão em uma fase de descobertas e quanto mais elas aprenderem o exercício do respeito, dos bons costumes e do amor, maiores serão as chances de que elas se tornem crianças mais sociáveis e com senso de cidadania. Figura 5: Contação de Histórias. Fonte: Pixabay A leitura em grupo Lembre-se que o processo de leitura deve se iniciar antes da alfabetização e que a leitura em grupo é uma ferramenta riquíssima para o professor, seja com turmas não alfabetizadas, no processo de alfabetização ou com alunos totalmente alfabetizados. O objetivo é que a história seja apresentada e que as crianças possam interagir com ela, indagando, fazendo questionamentos. Mas como fazer uma leitura em grupo com crianças que ainda não são alfabetizadas? Caro(a) professor(a), o céu é o limite. Você pode utilizar diversos recursos nesse processo, sem se esquecer que o objetivo é que todas as crianças tenham acesso à história e se eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 109 20/11/2019 16:41:16 Alfabetização e Letramento110 apropriem dela. Vou te contar uma experiência pessoal. Participei de uma contação de história muito interessante. Fui convidada para assistir a aula de uma professora no 1º ano do ensino fundamental. Muitas crianças ainda não eram alfabetizadas, porém a professora utilizou algumas práticas que fi zeram toda a diferença. A mestra tinha dois exemplares do livro que estava sendo trabalhado, assim um exemplar fi cava com ela e o outro com as crianças. Ela colocou os alunos em círculo, todos sentados no chão. Enquanto ela contava a história, o livro de leitura passava de aluno para aluno e de vez em quando ela parava a leitura para socializar com os pequenos. Eles interagiam com a história e contavam à professora experiências semelhantes que viviam no cotidiano delas. Ao fi nal, todos estavam motivados e fi zeram diversas atividades. A história durou 10 minutos. Já com crianças no processo de alfabetização, o processo pode ser um pouco mais simples, pois cada aluno pode ler uma frase do texto proposto. Sabemos que existem muitas maneiras de fazer leitura em grupo com os alunos, nesse processo é muito importante que eles possam fazer a interação com a história. Gêneros para a leitura Os gêneros devem estabelecer uma relação com a leitura de acordo com a idade e a formação de cada criança. Destacaremos os principais que você pode utilizar em sala de aula: a. Abecedários: logo no início do processo de alfabetização, a criança é estimulada a reconhecer as letras e os sons. Os abecedários são muito signifi cativos nesse processo porque além de explorar a sonoridade das letras, também facilitam o reconhecimento das palavras, podendo tornar a leitura prazerosa; eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 110 20/11/2019 16:41:16 Alfabetização e Letramento 111 b. Conto de Fadas: essas histórias tão antigas acabam fazendo parte da cultura ocidental e passam de pais para fi lhos. Qual a criança que não conhece a história da “Branca de Neve e os sete anões”, por exemplo? Elas podem estimular o gosto pela leitura além de estimular o mundo simbólico nas crianças; c. Contos de Acumulação: muito usadas em leitura em voz alta, nesse tipo de história o enredo sempre se repetee Letramento - Aberto.indd 7 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento8 Antes da leitura ................................................................. 77 Durante a leitura ............................................................... 78 Depois da Leitura .............................................................. 82 Considerações fi nais ........................................................ 83 O tradicional X O construtivista ........................................ 84 UNIDADE 03 Perspectivas de alfabetizar letrando .............................. 90 Letramento e os seus processos ........................................ 90 A psicogênese – Parte I ..................................................... 92 A psicogênese - Parte II .................................................... 94 Novas perspectivas no processo de aquisição da língua escrita............................................................................... 96 O que e como se ensina? (Para que se ensina?) ................. 97 O alfabetismo .................................................................... 99 O alfabetismo e as suas perspectivas ....................... 101 Concepções empiristas e socioconstrutivistas .............. 103 O empirismo ................................................................... 103 O Socio Construtivismo .................................................. 105 Estratégias de leitura – Parte III .................................. 107 Ofereça um ambiente motivador ..................................... 108 A leitura em grupo .......................................................... 109 Gêneros para a leitura ..................................................... 110 Considerações fi nais ...................................................... 114 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 8 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento 9 UNIDADE 04 A linguagem lúdica da criança em relação a seu contexto social .............................................................................. 121 O lúdico em seu contexto político e social ...................... 123 O auxílio da tecnologia no processo de alfabetização e letramento...................................................................... 127 As TIC no processo educativo ......................................... 128 Tendências das técnicas de alfabetização e letramento ... 132 Tendências de técnicas de alfabetização nos dias atuais .. 133 Estratégias de Leitura - Parte IV ................................. 136 A literatura infantil .......................................................... 137 As estratégias de leitura .................................................. 138 A alfabetização e letramento ........................................... 142 A importância do Letramento ................................. 143 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 9 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento10 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 10 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento 11 UNIDADE 01 INTRODUÇÃO A ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 11 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento12 Ainda nos dias de hoje, quando falamos em Alfabetização, muitos tem a ideia de um processo repleto de regras e práticas, o conceito real é muito mais amplo e deve ser discutido com muito cuidado. Procure lembrar da sua professora na primeira série do Ensino Fundamental. Você lembra das práticas que ela utilizou para alfabetizá-lo (a)? Quais foram os recursos que utilizou? Talvez ela tenha utilizado a famosa “Cartilha” na qual você sempre associava uma imagem com uma letra, até a formação das palavras? Ou usufruiu de outros recursos no seu processo de alfabetização? Eu me recordo na minha formação, que a minha professora sempre utilizava o lúdico dentro da sala de aula e era sempre muito divertido quando estávamos aprendendo a formar as palavras porque ela utilizava muitos recursos visuais. No processo de alfabetização é tudo muito mágico para a criança, porque elas percebem que as letras se tornam palavras, cada palavra é um encontro, um encantamento e, quando conseguem ir além, o descobrimento se torna real e, também, uma parte integrante do mesmo. Porém, cabe ao professor alfabetizador instigar a criança ao novo, ser o facilitador, o mediador de uma etapa única na vida de cada um. Sempre fui muito grata aos teóricos e estudiosos da área porque se não fossem por eles e suas experiências de vida, não teríamos todo o conhecimento que temos hoje. O que é ser alfabetizado para você? O que é ser letrado para você? Esses questionamentos, gostaria que você os fi zesse antes de iniciarmos essa nova jornada. Anote em um papel o que você entende por Alfabetização e Letramento e depois no término deste e-book, te convido a fazer uma releitura do que escreveu e refl etir sobre tudo o que aprendeu. INTRODUÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 12 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento 13 Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo de conhecimentos. Abordaremos a defi nição sobre o que é de fato Alfabetização e Letramento. Te convido a retornar ao passado um pouquinho para que possa compreender todos os processos e os “porquês” de todos os questionamentos atuais. Você estudará a importância das práticas da Alfabetização e também a introdução de estratégias de leitura. Bons estudos! eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 13 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento14 1 2 3 4 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profi ssionais até o término desta etapa de estudos: OBJETIVOS Apresentar a defi nição da infância no curso do desenvolvimento; Estudar a história da criança e seus principais marcos; Conhecer as concepções da infância ao longo da história; Estudar as infl uências da história da educação para crianças de 0 a 5 anos. Então? Está preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 14 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento 15 Conceitos e defi nições sobre Alfabetização e Letramento Qual a defi nição de fato sobre Alfabetização e Letramento? Existe alguma diferença entre os dois? Qual a importância nos dias de hoje quando falamos em alfabetização e letramento? Ao longo desta aula iremos discorrer sobre todos esses questionamentos, as defi nições baseadas nas teorias dos maiores teóricos do assunto. Caso tenha dúvidas, não se preocupe. Recorra ao fórum de dúvidas e discussões para socializar o seu conhecimento e esclarecer todas as suas dúvidas. Depois, desenvolva as atividades e questões sugeridas. Nós estamos a sua disposição em caso de difi culdades! A Alfabetização A alfabetização em sua principal defi nição é o processo de aquisição da leitura e escrita através do sistema alfabético e ortográfi co. Entendemos que esse processo não é simples, pois inclui muitos fatores internos e externos. Felizmente, podemos afi rmar que nos dias atuais, esse processo vem sendo altamente discutido por profi ssionais da educação, pois há muito tempo professores enfrentam diariamente problemas relacionados à alfabetização como as difi culdades de aprendizagem, alto índice de reprovação nas séries iniciais e também a evasão escolar. O termo é amplo e não pode ser visto unicamente como um único processo, estamos falando de etapas multifacetadas, de uma grande diversidade de fatores e não podemos nos limitar somente em uma única defi nição. É o que sugere Soares, 2003, p.16: eBook Completo para Impressao - Alfabetizacaocom novos personagens e que tem sempre uma disposição de resolver problemas. Essa é uma prática muito útil para a memorização e por ser de fácil assimilação, as crianças percebem os elementos que se repetem e acabam por fazer uma antecipação a respeito o que vai acontecer, interagindo com a história. Exemplo: A casa sonolenta, de Audrey Wood; d. Contos de Repetição: o tipo de história em que predomina a repetição das palavras e algumas expressões, além de serem fáceis de memorizar. Exemplo: Tanto, tanto, de Trish Cooke; e. Cantigas e Parlendas: esses textos têm muita sonoridade e ritmos e chamam a atenção das crianças para a musicalidade das palavras. As cantigas e as parlendas fazem parte da cultura brasileira e pode aproximar pais e fi lhos; ajuda a relembrar e a compartilhar ideias e brincadeiras que se realizaram no passado. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 111 20/11/2019 16:41:16 Alfabetização e Letramento112 EXEMPLO Exemplo de uma cantiga: Atirei o pau no gato, tô Mas o gato, tô Não morreu, reu , reu Dona Chica, cá, cá Admirou-se, se Do berro, do berro, que o gato deu: Miau! Figura 6: Parlenda. Figura 7: Cantiga. Fonte: Pixabay Fonte: Pixabay EXEMPLO Exemplo de uma parlenda: Hoje é domingo, pede cachimbo. O cachimbo é de ouro, bate no touro. O touro é valente, bate na gente. A gente é fraco, cai no buraco. O buraco é fundo, acabou-se o mundo! f. Poemas: quando as crianças descobrem o jogo de palavras e começam a pensar a respeito dos sons e dos signifi cados, descobrem um mundo novo e nada é mais instigante do que os poemas em que elas podem ler e recitar. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 112 20/11/2019 16:41:17 Alfabetização e Letramento 113 Figura 6: Parlenda. Figura 8: Poema. Figura 7: Cantiga. Fonte: Pixabay Fonte: Unsplash Fonte: Pixabay EXEMPLO “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fi ca no chão, quem fi ca no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares! Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . . e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fi co tranquilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 113 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento114 Considerações fi nais Finalizamos mais uma etapa do nosso curso! Fizemos grandes refl exões a respeito do cotidiano em sala de aula e as perspectivas que nos trazem acerca da questão do letramento na atualidade. É fato que essa necessidade de fazer com que o indivíduo seja não somente capaz de ler e escrever, mas de dominar todos os aspectos de leitura e da escrita no seu meio social veio de diversos questionamentos e do fracasso educacional. Em nossa realidade ainda persistem esses problemas, pois é muito comum as crianças avançarem para o próximo ano escolar sem ter adquirido as habilidades de leitura e de escrita. E por que esse fracasso ainda persiste? O que precisa ser mudado? Há muito o que ser repensado acerca do sistema educacional atual, disso não há contestação! Os métodos existem para nos guiar para um caminho, porém não se podem fazer milagres. Acreditamos que existam muitos métodos que são signifi cativos e outros nem tanto. Os tempos mudaram, estamos na era da globalização e do acesso rápido à comunicação. Precisamos sempre nos reciclar e nos atualizar! A psicogênese da língua escrita foi introduzida em nosso ambiente educativo para mudar os parâmetros tradicionais e proporcionar uma oportunidade nova para o indivíduo na fase de conhecimento dele (seja externo ou interno). Embora existam ainda muitos questionamentos a respeito dessa prática que precisam continuar a ser estudada, analisada e adaptada às escolas. Já vimos que muitos docentes acabam por optar pelos métodos tradicionais porque desconhecem e não possuem domínio de outras práticas! É hora de mudar e temos urgência nisso! O conceito de letramento nos trouxe uma ideia muito mais ampla a respeito das etapas de alfabetização, ele faz eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 114 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 115 parte desse processo e é tão importante quanto o ato de saber ler e escrever. Sob as novas perspectivas no processo de aquisição da leitura e da escrita, devemos ter em mente que é importante entender a respeito de o que ensinar e para que ensinar. Essa aquisição não ocorre por causa de um único fator, mas pelos fatores linguístico, cognitivo e sociocultural. Não podemos dissociá-los, porque eles fazem parte de um mesmo processo. E o alfabetismo? Qual a importância desse conceito? Como vimos, o alfabetismo é quando as pessoas foram alfabetizadas, ou seja, elas aprenderam a ler e a escrever. Isso é o primeiro passo para o letramento, certo? Estudamos as ideias empiristas acerca de como o conhecimento é adquirido pela experiência e que a criança nasce desprovida de conhecimento prévio, ela é uma “tábula rasa” que, com ao passar dos anos, vai absorvendo todo o conhecimento que é imposto a ela. Diferentemente disso é o que pensava Vygotsky em sua abordagem socioconstrutivista, na qual ele admite que as crianças fazem a aquisição da linguagem pela interação com o meio social na qual se inserem. E por fi m, concluímos que as estratégias de leitura fazem muita diferença na prática dos educadores, as quais podem ser aplicadas dentro e fora da sala de aula, seja com os próprios fi lhos ou com os alunos. Em meio a tanta riqueza de informações, te convido a aprofundar mais acerca desse tema. Faça pesquisas a respeito do assunto, leia livros e artigos científi cos! Faça interações com os seus colegas, crie grupos de estudos. Precisamos de profi ssionais que estejam dispostos em ser e a fazer a diferença! E então, aceita o desafi o? eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 115 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento116 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 116 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 117 UNIDADE 04 O LÚDICO, A TECNOLOGIA E AS TÉCNICAS NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 117 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento118 Prezados(as) alunos(as)! Chegamos à etapa fi nal do nosso curso! Nesta unidade, precisamos compreender a importância do lúdico no processo de alfabetização e letramento e quais as diferenças entre a criança em seu contexto social. Falaremos um pouco mais sobre a inserção da criança em sua cultura e as infl uências diretas na aquisição da leitura e escrita. Vale lembrar que cada criança é única e possui bagagens culturais diferentes, portanto, é importante conhecer nossas crianças para que possamos trabalhar com elas até mesmo de maneiras diferentes. Estudaremos também o uso das tecnologias no processo de ensino aprendizagem e como essas tecnologias podem auxiliar o nosso caminho. Temos que ter em mente que hoje vivemos em um mundo totalmente informatizado e podemos, sim, utilizar algumas ferramentas tecnológicas, para que elas possam nos auxiliar e até mesmo motivar nossos alunos em seus estudos. Há muito, os alunos de hoje, perderam os costumes educacionais do passado, como, por exemplo, a utilização da biblioteca para estudos e pesquisas. Hoje, as pessoas têm a informação de uma forma absurdamente acelerada e uma simples pesquisa escolar é uma tarefa tão corriqueira quanto o acesso às redes sociais. Veremos também as principaistendências no que se refere às técnicas de alfabetização no contexto escolar - das quais serão abordadas as que mais são utilizadas no contexto educacional. e Por fi m, a última parte sobre as estratégias de leitura, dando ênfase neste capítulo sobre a motivação da leitura para a educação infantil. INTRODUÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 118 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 119 Participe ativamente do seu curso! Não se esqueça de participar dos fóruns, fazer leituras extracurriculares e debater sua opinião com seus colegas! Faça acontecer! Bons estudos! eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 119 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento120 1 2 3 4 Olá! Seja muito bem-vindo a nossa Unidade 4, nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profi ssionais até o término desta etapa de estudos: OBJETIVOS Identifi car o funcionamento da linguagem lúdica da criança dentro do seu contexto social; Compreender como o uso das tecnologias podem benefi ciar o processo de alfabetização e letramento; Conhecer as principais tendências referentes ao tecnicismo na alfabetização e letramento; Apresentar estratégias de leitura para a educação infantil. Então? Está preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 120 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 121 A linguagem lúdica da criança em relação a seu contexto social A atividade lúdica tem sido inserida no contexto há muito tempo. Idealizada pelos fi lósofos gregos que acreditavam que o indivíduo tinha maior motivação quando estava exposto a um ambiente facilitador de aprendizagem, então, nada melhor do que o lúdico para fazer isso, não é mesmo? Entendemos por lúdico tudo aquilo que é relativo a jogos e brinquedos, mas engana-se quem pensa que o lúdico não serve para educação, muito pelo contrário, as atividades lúdicas devem fazer parte desse processo e são ferramentas que são utilizadas dentro e fora da sala de aula, pois sabemos que a criança aprende brincando. Uma clara defi nição disso, podemos encontrar na Wikipédia: Atividade lúdica é todo e qualquer movimento que tem como objetivo produzir prazer quanto a sua execução, ou seja, divertir o praticante. As atividades lúdicas abrangem os jogos infantis, a recreação, as competições, as representações litúrgicas e teatrais, e os jogos de azar. Sumariamente teríamos as seguintes características sobre elas: São brinquedos ou brincadeiras menos consistentes e mais livres de regras ou normas; São atividades que não visam a competição como objetivo principal, mas a realização de uma tarefa de forma prazerosa; Existe sempre a presença de motivação para atingir os objetivos; Pressupõe desafi o e surpresa. (https://bit.ly/2Zqi0Xj. Acesso: 11/03/2019) eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 121 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento122 Podemos ponderar que o lúdico não é somente o manuseio de jogos ou aplicações de atividades, mas a forma mais prazerosa de aprendizagem. A criança nem percebe que está aprendendo porque, além de estar focada com a atividade, ela faz a interação com o método e isso facilita e muito a sua aprendizagem. Segundo a Lei Federal nº11.274 (altera alguns artigos da Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996 no que se refere às Diretrizes e bases da educação nacional), a atividade lúdica é bastante ressaltada como podemos verifi car nos trechos a seguir: [...] o brincar como o modo de ser e estar no mundo; o brincar como uma das prioridades de estudo nos espaços de debates pedagógicos, nos programas de formação continuada, nos tempos de planejamento; o brincar como uma expressão legitima e única da infância; o lúdico como um dos princípios para a prática pedagógica; a brincadeira nos tempos e espaços da escola e das salas de aula; a brincadeira como possibilidade para conhecer mais as crianças e as infâncias que constituem os anos/séries iniciais do ensino fundamental de nove anos (BRASIL, 2006, p.11-12) Além disso, com relação ainda ao lúdico: Com base em pesquisas e experiências práticas, constitui-se uma representação envolvendo algumas das características das crianças de seis anos que as distinguem de outras faixas etárias, sobretudo pela imaginação, a curiosidade, o movimento e o desejo de aprender aliados à sua forma privilegiada de conhecer o mundo por meio de brincar (BRASIL, 2004, p.19). Não podemos esquecer que um ambiente favorável a alternativas curriculares também auxilia no desenvolvimento afetivo, motor, cognitivo, sócio e cultural da criança. A brincadeira tem o objetivo de direcionar a aprendizagem de uma maneira mais descontraída, dentre outros aspectos. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 122 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 123 O lúdico em seu contexto político e social A construção histórica do lúdico em sala de aula deu se por muitos movimentos e legislações que aconteceram através dos anos. A ideia de “escola” é consideravelmente nova em nossa sociedade em vista de todo um panorama histórico. Lembramos que na Idade Média as crianças eram vistas como um adulto em miniatura e frequentavam os mesmos ambientes que os adultos sem problema algum. As meninas eram educadas para serem donas de casa e os meninos aprendiam a ler e escrever em uma formação rígida e de regime integral. Somente no fi nal do século XV e início do século XVI que a sociedade passou a enxergar a criança com um outro olhar, passando a ter mais cuidados para os pequenos porque, até então, muitas morriam por conta de falta de higiene e até mesmo maus tratos. Em meados do século seguinte, a criança passa a ter um valor mais reconhecido e uma afetividade maior por conta da sociedade. Como você pode perceber, não foi de um dia para o outro que o conceito de criança - que temos hoje - foi construído, porque, até então, elas não eram vistas como indivíduos que precisavam de cuidados, atenção e afetividades. Conceitos como respeito e educação eram completamente descartados. No Brasil, a educação passou a ser vista com prioridades a partir de alguns movimentos e legislações. Grandes contribuições aconteceram, porém, na Constituição de 1988, a educação teve o seu papel fundamentado na legislação e passou a ser vista como um direito do Estado. Em 1996, com a implementação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, foi reconhecida a importância da qualifi cação dos profi ssionais da área de educação e que priorizam a formação em seus aspectos físico, psicológico e social. Nesse mesmo ano, temos também o ECA e o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (RCNEI) que dá prioridades eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 123 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento124 às propostas pedagógicas lúdicas. Como você pode perceber, existiram diversas vertentes que culminaram no cenário que temos hoje sobre o lúdico na sala de aula. As atividades de alfabetização e letramento podem ser de diversas formas, como: Jogos para alfabetização; Produção de textos; Atividades de cópia; Atividades de leitura; Contação de histórias; Os ditados; Atividades de artes e música; Visitas à biblioteca. Infelizmente, ainda em algumas escolas, não são gerados esses processos motivadores e as crianças passam muitas horas sentadas nas carteiras sem nenhuma recreação, devendo realizar atividades de cópia descontextualizadas com acesso somente ao lápis, caderno e giz. O termo “ludicidade” é algo muito mais amplo do que podemos imaginar, é o que sugere Azevedo: “Ludicidade” [...] signifi ca o processo dinâmico e a propriedade comum às situações onde o “lúdico” está presente. [...]Portanto, o termo “lúdico” é muito mais do que uma atividade em si, mas uma experiência signifi cativa que se dá através da articulação de diversos conteúdos culturais. [...] o “lúdico” é também um “clima” e uma atitude dos sujeitos envolvidos, que podem estar presentes na aula de matemática ou leitura, embora mais facilmente percebido nos jogos e brincadeiras, na medida em que a ludicidade é característica marcante da cultura infantil. (AZEVEDO, 2012, p.198) eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 124 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 125 Perceba que o termo “lúdico” é tudo aquilo que gera satisfação e alegria no processo educativo. Podemos até mesmo dizer que essas atividades lúdicas na aquisição da leitura e escrita podem favorecer um ambiente escolar muito mais interessante e leve. Um exemplo disso é a afi rmação que Vygotsky faz para o sentido das brincadeiras: Sabemos que a defi nição de brincadeira, levando-se em conta como critério a satisfação que ela propicia à criança, não é correta por dois motivos. Primeiramente, porque há uma série de atividades que podem proporcionar à criança vivências de satisfação bem mais intensas do que a brincadeira. [...] Por outro lado, conhecemos brincadeiras em que o próprio processo de atividade também não proporciona satisfação. São aquelas que prevalecem no fi nal da idade pré- escolar e no início da idade escolar e que trazem satisfação somente quando seu resultado revela-se interessante para a criança; é o caso, por exemplo, dos jogos esportivos [...]. Muito frequentemente, eles são tingidos de um sentimento agudo de insatisfação quando o seu término é desfavorável para a criança. Dessa forma, a defi nição da brincadeira pelo princípio de satisfação, é claro, não pode ser considerada correta. (VYGOTSKY, 2008, p.23) Lembramos que o lúdico pode ser utilizado como uma metodologia alternativa através de jogos, atividades e brincadeiras que visem aguçar a motivação, a curiosidade e o comprometimento da criança em sua realização. Podemos compreender que a criança tenha oportunidades iguais para o aprendizado, conforme sugere Kishimoto: Ao brincar, a criança experimenta o poder de explorar o mundo dos objetos, das pessoas, da natureza e da cultura, para compreendê-lo e expressá-lo por meio de variadas linguagens. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 125 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento126 Mas é no plano da imaginação que o brincar se destaca pela mobilização dos signifi cados. Enfi m, sua importância se relaciona com a cultura da infância, que coloca a brincadeira como ferramenta para a criança se expressar, aprender e se desenvolver. (KISHIMOTO, 2010, p.01) Diante desse pressuposto, o lúdico na sala de aula - como processo educativo - não somente instiga a curiosidade como também insere a criança dentro desse mundo de descobertas. É claro que existem muitas outras ferramentas que podemos (e devemos) utilizar na formação de alfabetização e letramento, porém a ênfase no lúdico possibilita novos descobrimentos e também novas aprendizagens. REFLITA Vamos imaginar o seguinte cenário: Em uma sala de aula do primeiro ano do ensino fundamental I, a professora tem uma rotina bastante regular. Das 7 às 9 horas, as crianças fi cam sentadas em suas carteiras realizando atividades de escrita, seja em uma apostila ou caderno de caligrafi a. Depois vão para o intervalo, onde podem brincar normalmente e retornam à sala de aula para a realização de mais atividades até o fi nal da aula. Na mesma escola, uma outra professora também tem uma rotina com seus alunos, porém, todas as quartas e quintas, ela utiliza alguns jogos de alfabetização e, às sextas, uma contação de histórias. Os jogos que a professora mais utiliza são Top Letras e Cilada, entãoa educadora agrupa as carteiras de seus alunos - muitas vezes aleatoriamente - para a realização da atividade lúdica. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 126 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 127 Qual das práticas utilizadas pelas professoras, na sua opinião, se apresenta como uma maneira mais prazerosa em seu desenvolvimento? A primeira professora não utiliza nenhum recurso lúdico dentro de sala de aula, as crianças somente têm contato com as brincadeiras na hora do intervalo. Já a segunda professora também tem uma rotina, porém além disso, usa outras metodologias a favor do desenvolvimento dos seus alunos. Você acredita que isso seja válido? Por quê? Faça pesquisas na internet sobre alguns jogos ou brincadeiras no processo de alfabetização. Tenho certeza que você fi cará maravilhado(a) com tantas variedades de recursos. Você mesmo pode adaptar alguns jogos e brincadeiras, basta conhecer seus alunos. O auxílio da tecnologia no processo de alfabetização e letramento Todos sabemos que falar sobre tecnologia nos dias atuais é um assunto completamente corriqueiro, porque a tecnologia está enraizada em nossa sociedade. As tecnologias sempre existiram e marcaram cada época em suas especifi cidades. As novas tecnologias estão em todo o lugar, em diversos segmentos e, é claro, infl uenciam diretamente no processo de ensino-aprendizagem. Essas ferramentas podem auxiliar no trabalho pedagógico, porém é válido dizer também que nem todos os profi ssionais aceitam as novas tecnologias e que muitas crianças ainda desconhecem as ferramentas tecnológicas, que para muitos pode ser algo tão simples. Conforme nos aponta Daniel (2003, APUD ZANELA,2007, p01), “Tecnologia é a aplicação do conhecimento científi co, e de outras formas de conhecimento organizado, a tarefa prática por organizações compostas de pessoal e máquinas”. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 127 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento128 Quando falamos em recursos tecnológicos, logo pensamos em recursos simples como a televisão, o telefone celular ou o computador, pois esses são os mais usuais. Porém, se tratando de educação, podemos dizer que esses recursos tecnológicos são quaisquer meios de comunicação que o professor utilize em sala de aula. O quadro negro e o giz são umas das ferramentas tecnológicas mais antigas utilizadas em sala de aula! Outra tecnologia muito utilizada é a internet. Através dela podemos “conhecer e conquistar” o mundo. Foi- se a época em que os alunos iam para a biblioteca fazer suas pesquisas, hoje eles podem fazer dentro de suas casas num espaço curto de tempo. Além das pesquisas, podemos ter acesso a diversos conteúdos de livros, revistas e nos comunicar com pessoas em toda a parte do mundo em tempo real. Entendemos que o homem é um ser totalmente comunicativo e utilizamos vários meios para manter nossa comunicação ou até melhorá-la. Por consequência disso, a evolução da linguagem sofre alterações nos signos linguísticos no que se refere a comunicação oral e também na escrita. Essa nova comunicação nos trouxe uma quantidade de informação que até então não existia, as pessoas recebem as informações em curtíssimo tempo de uma forma muito acelerada. As TIC no processo educativo A informática dominou o mundo de tal maneira que passou a dominar também as novas tecnologias, como por exemplo, a tecnologia educacional denominada por TIC: Tecnologias da Informação e da Comunicação. É o que diz Zanela:: É o conjunto de tecnologias microeletrônicas, informáticas e de telecomunicações, que produzem, processam, armazenam e transmitem dados em forma de eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 128 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 129 imagens, vídeos ou áudios. ZANELA (2007, p.25) Afi nal, para que servem as TIC? Seu principal objetivo é ser facilitador da pesquisa e a troca rápida da informação. Podemos utiliza-las em empresas, escolas ou até mesmo em trabalhosindividuais. São bastante úteis no desempenho de diferentes atividades em nosso cotidiano. Seguem alguns exemplos de TIC: Rádio; Máquina fotográfi ca; Telefone celular; Telemóvel; Televisão; Câmera de fi lmar; Computador; GPS; Correio eletrônico (e-mail); Internet; Podcasts; Tecnologias de acesso remoto: WI-FI, Bluetooth, RFID e EPVC. Essas tecnologias têm nos dado uma visão diferenciada do mundo e acabam promovendo uma revolução cultural. Essas ferramentas tecnológicas acabam mudando os hábitos das pessoas e, com isso, há a alteração da forma com que as pessoas pensam, se relacionam e aprendem. É importante lembrar que nem todos os brasileiros possuem acesso a essas tecnologias. Segundo o IBGE, em 2018 (Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística), o Brasil teve 116 milhões de pessoas conectadas à internet, o que seria eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 129 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento130 o equivalente a 64,5% da população. Perceba que 35,5% da população brasileira ainda não tem acesso à internet e, por consequência, a algumas tecnologias também. Outro dado bastante importante é o do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que avaliam as competências dos jovens em 30 países em provas de leitura, matemática e ciências, ou seja, avaliam o aproveitamento dos alunos em seu letramento. Em 2018, 61% dos estudantes brasileiros não conseguiram terminar a avaliação, isso se dá não somente por conta das questões, mas pela piora no desempenho até o término da prova. Vemos, então, que mesmo com as novas tecnologias e o uso das TIC ainda existem muitos problemas que parecem persistir no cenário das escolas brasileiras. O uso das tecnologias é de grande valia quando conseguimos atender a um maior número de alunos. Muitas crianças não tem a oportunidade de estudar com recursos tão sofi sticados, muitos docentes ainda não são preparados para o uso dessas tecnologias, o que pode acarretar alguns desconfortos. Imagine você entrar na sala de aula e um aluno em específi co não sabe usar o aparelho celular. O que para você pode ser um procedimento que faz parte do seu cotidiano, para o outro pode ser um bicho de sete cabeças. Por isso a importância de conhecer seus alunos e o meio em que cada um vive, pois o que parece ser simples para uns, para outros pode ser algo inovador. Prensky (2001) denomina como “nativo digital” os jovens que nasceram em um mundo rodeado das tecnologias e que faz uso delas de forma natural. Já os “imigrantes digitais” são aqueles que são inseridos nessa tecnologia, mas não possuem domínio sobre ela. Como todo imigrante, ele possui uma bagagem cultural que pode interferir no processo de aprendizagem. Um bom exemplo dessas duas vertentes são as crianças de hoje e os idosos. É muito comum vivenciarmos eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 130 20/11/2019 16:41:18 ARS80 Realce CRÍTICA AO USO DE TICS Alfabetização e Letramento 131 crianças em idade tenra já dominando o uso do celular, ao contrário de nossos avós, que não possuem total domínio porque estão acostumados a se comunicar de uma maneira diferente. Portanto, podemos concluir que o uso das tecnologias no processo de alfabetização e letramento pode ser muito rico e proveitoso pelo docente, não esquecendo que também existem outras ferramentas educativas que podem ser utilizadas em sala de aula. A ideia é que ocorra uma mescla de tecnologias e metodologias no processo ensino aprendizagem, mas devemos saber “dosar” na medida certa o uso dessas tecnologias. ACESSE Faça a leitura do artigo sobre os estudantes brasileiros e o PISA em 2018, que você pode encontrar no link: https://bit. ly/2O1fbXS. Faça uma lista de “nativos digitais” e “imigrantes digitais” com nomes de pessoas do seu círculo social. REFLITA eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 131 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento132 Tendências das técnicas de alfabetização e letramento Já estudamos que muitos foram os percursos históricos no cenário brasileiro, cada um deles fez com que houvesse uma mudança até chegarmos nos dias de hoje. Em um mundo totalmente globalizado como o nosso, as tendências acabam indo e vindo e é preciso que os professores refl itam sobre sua pratica dentro da sala de aula para que todo o processo educativo tenha signifi cado. Sobre o ensinar, Gadotti expõe que: “(...) para ensinar é preciso gostar de aprender, de ensinar e de amar o aprendente (a criança, o adolescente, o adulto, o idoso). Tornar a profi ssão um encantamento e, ao mesmo tempo, ser um encantador dela.” GADOTTI (2003, p.58) O que é técnica para você? Quais as técnicas de alfabetização que você utilizaria dentro da sala de aula? Segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a defi nição de técnica é: Conjunto de métodos e processos próprios de uma arte, ciência ou profi ssão; Maneira de agir, método particular de fazer alguma coisa; Habilidade, destreza na feitura ou realização de algo. A sua técnica é o seu “método particular” de realizar o seu trabalho em sala de aula. Lembre-se que todas técnicas também têm que ter o seu embasamento teórico, ou seja, colocaremos em pratica tudo aquilo que aprendemos, porém, não esquecendo que a pratica também deve ser colocada em questão. Teoria, prática e técnica estão intrinsicamente conectas no processo ensino aprendizagem. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 132 20/11/2019 16:41:18 Alfabetização e Letramento 133 Tendências de técnicas de alfabetização nos dias atuais Lembra das TIC? Pois bem, vamos usar essas ferramentas a nosso favor no processo de alfabetização e letramento. Com o avanço dos tablets e smartphones, inclusive nas séries básicas, os números de jogos, softwares e aplicativos vêm crescendo muito. Muitos programas e aplicativos, que propõem a interação e a aproximação da criança com as letras e palavras, tem aberto espaço para o uso de outras tecnologias. Nos jogos, os pequenos interagem de uma forma mais rápida e podem até promover o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita. Uma revista norte-americana especializada em educação, denominada Edweek, reuniu quatro tendências que tem sido utilizada nos dias de hoje dentro da sala de aula. Apresentamos mais detalhadamente essas tendências a seguir: 1. Interação com materiais digitais: No Brasil, sabemos que essa tendência ainda está iniciando dentro de nossas escolas, muitas delas não possuem ainda esse tipo de recurso, porém o mercado vem crescendo a cada ano e há uma estimativa positiva sobre o manuseio dos materiais digitais dentro da sala de aula. A partir de jogos e opções de multimídias digitais, como por exemplo o e-book, essas ferramentas propiciam a interação da criança com a leitura. Alguns livros digitais possuem áudio de narração, o que facilita no processo de assimilação. Foi feita uma pesquisa em diversos países e constatou que as editoras têm feito grandes avanços na incorporação desses recursos. Além dos recursos de leitura, esses e-books ou mídias digitais tem jogos e diversas atividades interativas. 2. Ambientes virtuais: Não estamos nos referindo ao ambiente dentro da escola eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 133 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento134 e sim ao virtual. Jogos, aplicativos e softwares que examinam as habilidades dos alunos estão se tornando cada vez mais utilizados. Infelizmente, esse recurso ainda não é utilizado em nossas salas de aula por diversos motivos, porém acreditamos que em um futuro muito próximo nossas crianças possam usufruir das novas tecnologias. A Secretaria Municipal do Rio de Janeiro desenvolveu um projeto específi co para a alfabetização, uma plataforma chamada Pé de Vento. Nesse ambiente deaprendizagem, os pequenos iniciam o processo de letramento em um tipo de jogo de aventura. Cada fase do jogo é composta de uma tarefa, no qual o aluno deve fazer para avançar para a próxima fase. Outro jogo bastante utilizado pelas crianças é o jogo Ludo Primeiros Passos, que é baseado na interação para estimular o desenvolvimento cognitivo das crianças. O jogo é on-line e totalmente gratuito, ele ensina as crianças a associar os sons e as imagens, assim, eles precisam reconhecer sílabas e palavras para que possam avançar o jogo que vai difi cultando a cada etapa. 1. Criação de histórias: A criação de história origina-se muito antes do que possamos imaginar e está presente em praticamente todas as etapas da vida da criança. Antigamente, era muito comum as professoras contarem histórias aos seus alunos e depois realizavam juntos uma atividade pedagógica. Até mesmo na aquisição da leitura e escrita, podemos encontrar muitas criações de histórias que envolvam as crianças por completo. Existem algumas escolas aqui no Brasil que já realizam as atividades através das mídias e suas tecnologias. Um exemplo disso são alguns aplicativos que permitem que as crianças contem as suas próprias histórias através de formatos digitais utilizando gravações de voz, animações e galerias de fotos e desenhos. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 134 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento 135 O aplicativo chamado Play time theather permite que as crianças criem um show de marionetes virtuais e utilizam suas vozes para a narração do diálogo. O aplicativo grava o show para que ele possa ser reproduzido depois. 2. Envolvimento dos pais: Já havíamos dito que o ambiente familiar pode se tornar tão importante quanto o envolvimento da criança com a escola. Algumas pesquisas têm mostrado que a interação dos pais com a criança na pratica da leitura é essencial, pois além de promover a motivação, ela também pode aumentar a quantidade de informação que os pequenos absorvem quando fazem a leitura de um livro. Muitas ferramentas têm aumentado essa conexão entre pais e fi lhos através de aplicativos como o Pocket Literacy Coach, que envia aos pais ideias de atividades de leitura. Alguns aplicativos têm sido criados até mesmo para pais e fi lhos que estão distantes, é o caso do Story Before Bed, em que os pais gravam suas vozes enquanto leem um livro digital, ideal também para professores. Depois que eles gravam essas histórias, enviam o áudio para a criança, seja por tablet ou qualquer dispositivo móvel. Como podemos notar, a era da tecnologia está dominando o espaço educacional. De fato, essa realidade de “mundo tecnológico” está bem distante para a vida de muitas crianças brasileiras, porém, isso não impede o docente em trabalhar com atividades criativas que estimulem o desenvolvimento cognitivo de nossas crianças. O uso das tecnologias pode ser uma ferramenta poderosa dentro da sala de aula na aquisição da leitura e escrita, mas não implica que seja a única ferramenta que possa aguçar a criança. Um bom planejamento pedagógico, que vise estratégias de leitura e escrita, pode envolver tanto o uso das tecnologias como uma simples atividade eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 135 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento136 Estratégias de Leitura - Parte IV A leitura sempre foi questionada e suscita algumas inquietações por ser um assunto muito complexo. Deveria ser um processo natural e cultural, porém sabemos que nossa sociedade muitas vezes não promove a pratica da leitura de maneira que todos (ou a maioria) tenham vontade de ler. Não podemos simplesmente ensinar que ler é bom sem antes conscientizar nossas crianças que essa pratica pode ser mais prazerosa do que um jogo de videogame. Em muitas escolas, os problemas tendem a persistir, pois impõem aos alunos práticas de interpretação de textos, fi chas de leituras e a intenção de contar o texto lido na expectativa de que os alunos treinem a sua leitura e gostem de ler. Infelizmente não existe tal conscientização de que a prática da leitura não esteja baseada em interpretações de textos ou qualquer atividade parecida, mas sim que exista um mundo de descobrimentos quando a realizamos. Devemos ler não somente porque alguém nos impõe, mas porque é um ato saudável, que estimula o raciocínio e a criatividade. Muitos educadores também tem uma visão equivocada. Quando se trata de leitura, as escolas acabam por burocratizar essa pratica tornando-a um ritual que muitas vezes se torna uma prática penosa e insuportável. É o que aponta Chiappini: [...] a cópia, o ditado, a redação como atividade isolada ou, quando muito, produto fi nal de um processo deslanchado da leitura, a própria leitura como simples verbalização oral de textos cuja compreensão deixa muito a desejar. (CHIAPPINI, 1997, p.10) Neste sentido, Cossom (2007, p.23) denomina de “falência do ensino da leitura”, pois essa leitura não é caracterizada para humanizar o indivíduo e sim para passar uma informação momentânea. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 136 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento 137 Nos Estados Unidos, existe um embasamento para a literatura infantil no programa educacional chamado Based Reading, no qual os professores podem organizar e estruturar o ensino da leitura na utilização de livros infantis. No Brasil, existe um programa chamado PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) no qual é feita a distribuição de livros literários, porém muitos educadores não sabem sequer o que fazer com esses livros. A literatura infantil A literatura infantil ganhou destaque no Brasil somente a partir de 1980 por consequência da infl uência de Emília Ferreiro e Ana Teberosky na conscientização da importância de alfabetização e letramento. As cartilhas foram substituídas por contos infantis e a literatura infantil passou a ganhar espaço nas editoras e livrarias de todo o país. Curioso é que mesmo que a literatura infantil tente ganhar espaço, ela é vista como a mesma funcionalidade da literatura. É o que nos mostra Coelho: Desde as origens, a literatura parece ligada a essa função essencial: atuar sobre as mentes, nas quais se decidem as vontades ou as ações; e sobre os espíritos , nos quais se expandem as emoções, paixões, desejos, sentimentos de toda ordem... No encontro com a literatura (ou com a arte em geral) os homens tem a oportunidade de ampliar , transformar ou enriquecer sua própria experiencia de vida, em um grau de intensidade não igualada por nenhuma outra atividade. (COELHO, 2000, p.29) Nesta mesma direção, a respeito da literatura infantil Zilberman disse: Quando a literatura infantil provoca emoções, dá prazer ou diverte, ela é vista como arte, porém ao assumir seu caráter transformador e direcionador, ela torna-se necessariamente eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 137 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento138 formadora. (ZILBERMAN, 1984, p.134) Perceba que Zilberman descreveu a prática de leitura como algo que transforma e direciona, só assim ela poderá ser considerada formadora. A técnica mecanicista da leitura não faz com que as crianças tenham gosto pela leitura, muito pelo contrário, quando a leitura é sistematizada ela não gera especulações. Por esse motivo que a escolha do livro infantil é fundamental. Um cuidado que temos de ter é nos deslumbres da capa e das ilustrações. Existe alguns critérios que devemos seguir antes de escolhermos o livro ideal: 1. Toda obra literária deve ter uma mensagem implícita; 2. A literatura não precisa estar em constante atualização, pois faz uso da arte. Não precisa ter uma sequência linear; 3. Existe diferenças entre literatura e os livros paradidáticos, devemos saber diferenciar um do outro; 4. Utilizar, sempre que possível,as obras brasileiras, pois elas tem contribuições importantes para a nossa literatura. Autores como Monteiro Lobato, Ana Maria Machado entre tantos outros não podem ser esquecidos jamais! As estratégias de leitura Estudamos nos outros capítulos algumas estratégias de leitura que podem ser utilizadas fora e dentro da sala de aula. Nesse capítulo, falaremos mais sobre o embasamento teórico e suas implicações. Colocamos por estratégia todo o processo durante a leitura, seja no início, no meio e no fi m. Dessa maneira o docente pode auxiliar seus alunos no passo a passo. Essas estratégias são denominadas por uma metodologia norte americana em que podemos destacar algumas etapas: eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 138 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento 139 Conhecimento prévio; Conexões; Inferência; Visualização; Sumarização; Síntese. Podemos dizer que é o procedimento sobre o “processo de pensar”. É o que refl ete Solé: O processo de leitura deve garantir que o leitor compreenda o texto e que pode ir construindo uma ideia sobre seu conteúdo, extraindo dele o que lhe interessa, em função dos seus objetivos. Isso só pode ser feito mediante uma leitura individual, precisa, que permita o avanço e o retrocesso, que permita parar, pensar, recapitular, relacionar a informação com o conhecimento prévio, formular perguntas, decidir o que é importante e o que é secundário. (SOLÉ, 1998, p.32) Faremos uma breve explicação sobre as estratégias citadas: a. O conhecimento prévio: Na verdade, essa primeira estratégia agrega as demais estratégias. Os norte-americanos denominam como “estratégia-mãe”. Permite que a criança consiga ter uma dimensão do texto antes mesmo de se conectar inteiramente com a leitura. b. Conexões: Com o conhecimento prévio, essa estratégia ajuda com que a criança tenha um elo entre o conhecimento e as descobertas de novos conhecimentos. c. Inferência: É fundamental para que possamos compreender as eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 139 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento140 entrelinhas, a criança precisa compreender o que não está escrito explicitamente. a. Visualização: Fazemos a leitura do texto não somente visualizando as palavras, mas tendo alguns sentimentos e emoções no processo da leitura. São aquelas sensações e imagens que criamos quando estamos lendo. b. Sumarização: Nesse processo, devemos sintetizar todos os detalhes do texto, tudo aquilo que é muito importante garantindo as ideias principais. Essa estratégia está direcionada às fi nalidades e os objetivos da leitura. Quanto mais claro estiver o nosso conhecimento, mais perto dos objetivos chegaremos. c. Síntese: É muito mais do que resumir, na síntese, podemos expressar com nitidez todas as características do texto sem perder o que realmente é essencial. Quando sintetizamos um texto não apenas absorvemos os pontos principais, mas podemos adicionar mais informações ao nosso conhecimento prévio para o alcance de uma melhor compreensão do texto. Conclusões Entendemos que a ludicidade no ambiente educacional é tão importante quanto todo o processo de aquisição de leitura e escrita. As crianças precisam brincar e saber porque estão brincando. Cada brincadeira deve ter um propósito e um objetivo fi nal. Brincando, elas aprendem mais fácil, prestam atenção no que está sendo estudado, são sociabilizadas e podem interagir com outras crianças. A ludicidade em sala de aula pode abrir um mundo de conhecimentos e oportunidade. É através da imaginação e da criatividade que a criança exprime o seu mundo no mundo real. Faremos então muitos jogos, muita interatividade com eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 140 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento 141 esses pequenos que estão sempre dispostos a esse tipo de interação. A tecnologia nos deu uma nova percepção sobre o mundo e trouxe oportunidades que nunca pensávamos que tivéssemos. Não conseguimos mais viver sem ela e podemos usufruir de todos os seus recursos no processo de ensino aprendizagem. Vimos que as TIC fazem parte do nosso cotidiano e não podemos de modo algum descartar nos dias atuais o uso dessas ferramentas, porém elas devem sempre nos favorecer e não as usar apenas para situações que não nos trazem nenhum benefício. Como você poderia utilizar as TIC dentro de sala de aula de modo que os alunos pudessem desenvolver habilidades de leitura e escrita? Como podemos trabalhar com essas ferramentas sem que os alunos percam o foco no objeto de estudo? Um bom planejamento pedagógico pode ajudá-lo a responder essas ou outras perguntas, porém é importante que tenhamos sempre em mente que o processo educativo se dá sempre com a interação, não nos esqueçamos que as crianças precisam estar sempre em contato com essa realidade e os métodos que iremos utilizar serão sempre norteadores desse processo. As técnicas utilizadas dentro de sala de aula podem ser diversas, devemos ter sempre em mente que mais uma vez o planejamento pedagógico se faz necessário porque sem ele não teremos um direcionamento de como fazer, para quem fazer e para que fazer. Lembramos também a importância da leitura na vida da criança e todas as oportunidades que ela tem quando lê um livro. Ela não somente descobre o mundo como “se descobre” enquanto faz a sua leitura. Nossas percepções como eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 141 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento142 educadores deve favorecer para que nossos pequenos tenham vontade de ler, que a leitura faça parte do dia-a-dia de nossas crianças, que elas cresçam e sabedoria e conhecimento. A alfabetização e letramento Voltemos agora lá no início do nosso curso. Gostaria que você pudesse responder as seguintes perguntas: 1. Qual a importância real de alfabetizar nossos alunos de modo que eles também sejam letrados? 2. Baseado em todo conteúdo que você estudou, quais os critérios que você adotaria caso seus alunos fossem alfabetizados, mas não letrados? Paulo Freire já dizia que o processo de alfabetização vai muito além de um método. Podemos constatar essa afi rmação em Soares (2003, p.182): Paulo Freire criou não um método, mas ume teoria da educação, uma pedagogia, e o que se denomina como seu “método de alfabetização” é, na verdade, apenas uma das instâncias em que essa teoria, essa pedagogia se traduzem em uma prática. Aliás, talvez se possa dizer que essa pedagogia, reconhecida internacionalmente como a Pedagogia de Paulo Freire ( e aqui a palavra reconhecida é usada em seu duplo sentido: reconhecida signifi cando identifi cada e reconhecida identifi cando valorizada), se constituiu pela e para a pratica da alfabetização que Paulo Freire experimentou, nos primeiros momentos de sua vida de educador, ao mesmo tempo em que essa pedagogia já então em gestação permitiu construir essa prática da alfabetização. Nessa afi rmação, podemos constatar que o método é apenas uma maneira que utilizamos para que todos possam se adequar, porém mais importante do que qualquer método, é a prática. Dentro de sala de aula acontecem situações muitas vezes contrárias a que vimos em livros e artigos, a sala de aula eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 142 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento 143 é como a língua oral, ou seja, ela é dinâmica, está sempre se modifi cando e temos que nos adaptar a novos recursos, novas situações. Sabemos que não existe uma sala de aula perfeita, em que os alunos chegam e todos enfi leirados, sentam em suas carteiras e realizam todas as atividades propostas pela professora com maestria. Ainda bem que isso não existe, porque senão não haveria a diversidade, as modifi cações e as indagações que são necessárias. Conviver em um ambienteescolar é estar sempre atento as novas mudanças, aos nossos alunos e o que esse ambiente pode proporcionar para todos, seja para os alunos, para nós e para sociedade. A importância do Letramento Emília Ferreiro e Ana Teberosky nos trouxeram uma visão educacional que até então não existia. A alfabetização dava-se por meios mecânicos em que a criança não podia ser exposta no processo educativo, muito pelo contrário, ela era o sujeito que apenas recebe as informações. A ideia de Letramento nos fez compreender que não basta apenas saber ler e escrever, o indivíduo deve ter domínio não somente da língua, mas de todas as suas habilidades funcionais. Muitas vezes aquele que lê não sabe interpretar e não tem habilidades sufi cientes para montar uma redação desejável. Um bom exemplo disso são as provas de redação do ENEM, dados da última redação apontam que mais de 32% dos participantes tiveram a nota abaixo de 400 nessas provas e as porcentagens de redações em branco também cresceu. Veja a tabela abaixo a qual demonstra as porcentagens entres os anos de 2017 e 2018: eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 143 20/11/2019 16:41:19 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento144 Tabela 1: Crescimento do resultado do ENEM Fonte: Dados extraídos do link https://bit.ly/2VXnbvS. Acesso dia 16/03/19 Motivos para nota zero 2017 2018 Fuga ao tema 5,01% 0,77% Cópia do texto motivador 0,09% 0,36% Texto insufi ciente 0,33% 0,18% Não atendimento ao tipo textual 0,11% 0,12% Parte desconectada 0,17% 0,12% Redações em branco 0,80% 1,12% Outros motivos 0,03% 0,12% Total de redações com nota zero 6,54% 2,73% Perceba como é importante que todos nós possamos ter domínio de todas as funcionalidades da língua, não somente em alguns aspectos, mas em todos. Muitos alunos não conseguiram nem ao menos iniciar uma redação. E por que isso acontece? Os problemas estão na escola e sua gestão ou na forma como o docente dirige a sua aula? Inúmeros são os problemas que rodeiam o ambiente escolar, infelizmente nossa realidade não é das melhores. Todos os anos, muitos alunos simplesmente migram para novas séries sem ao menos estarem capacitados para tal e vira uma bola de neve. Esperamos que um dia exista uma conscientização maior, um valor no qual a educação espera por muito tempo, escolas bem estruturadas, professores capacitados e bem pagos e alunos que estejam aptos a todas as demandas que a vida pessoal e profi ssional pode oferecer. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 144 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento 145 A escola deveria ser o local no qual a criança se forme como indivíduo em sua subjetividade. Gostaríamos que ela pudesse compreender e conhecer seus alunos em toda diversidade e que pudesse ser o segundo lar de nossos pequenos. Cabe a você, futuro professor, e a todos nós, contribuir para um ambiente melhor para nossas crianças. Não permita que a mesmice faça parte do seu cotidiano como docente. Globalize-se, faça sua própria atualização como profi ssional e também como pessoa. Permita aprender com seus alunos, não seja altivo o sufi ciente de achar que já possui todos os conhecimentos e domínios, por mais anos de experiencia que tenha. Entenda que é no processo educativo que você também aprende, estamos sempre aprendendo e isso não muda nunca. Permita-se a vivência de uma experiência única que é a sala de aula. Comemore cada progresso com seus alunos, por menor que seja. Lembre-se: o que pode funcionar para alguns pode não funcionar para outros. Cada criança aprende da sua maneira porque cada um de nós tem uma bagagem cultural e experiencias únicas, então como poderíamos querer que o processo se dê sempre da mesma maneira? O nosso papel é essencial! Cabe a nós a tarefa de mediador, sustentador nesse processo tão rico na vida de cada um. Sabemos que não é fácil, existem “muitas pedras no meio do caminho” e cada uma é muito importante, pois elas fazem parte. Ainda bem que existem as pedras de Drummond, sem elas não poderíamos questionar melhorias para que possamos ser melhores a cada aula. Invente-se, crie-se, tenha sempre em mente que você é essencial! Brinque, estude, aprenda com os erros... É como Guimarães Rosa disse: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende” eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 145 20/11/2019 16:41:19 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento146 REFERÊNCIAS CAGLIARI, L.C. Alfabetização e Linguística. São Paulo: Scipione, 1994om.br/site/techoje/categoria/detalhe_ artigo/1004 COMENIUS, J. A. Didática Magna: tratado da arte universal de ensinar tudo a todos. 3.ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1985. DICIO, Dicionário Online de português. Alfabetismo. 2019. Disponível em: https://www.dicio.com.br/alfabetismo/. Acesso em: 20 maio 2019. FERREIRO, E. Refl exões sobre Alfabetização. São Paulo: Cortez, 1984. CAGLIARI, L. C. Alfabetização e Linguística. São Paulo: Scipione, 1994. PICOLLI, L.; CAMINI, P. Práticas pedagógicas em alfabetização: espaço, tempo e corporeidade. Porto Alegre: Edelbra, 2013. SOARES, M. Alfabetização e Letramento. São Paulo: Contexto, 2003. VIGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 146 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento 147 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 147 20/11/2019 16:41:19 Alfabetização e Letramento148 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 148 20/11/2019 16:41:19 Capa E-Book_Alfabetização e Letramento_TELESAPIENS E-Book Completo_Alfabetização e Letramento_TELESAPIENSe Letramento - Aberto.indd 15 20/11/2019 16:40:59 Alfabetização e Letramento16 Figura 1: Alfabetização infantil Fonte: Andros1234/Pixabay Vivemos na era da globalização. Há comunicação o tempo todo e de diversas maneiras diferentes. As pessoas têm acesso a informação de uma forma muito rápida. Em contrapartida, ainda é muito comum vivenciarmos escolas com métodos de alfabetização antigos que não se adequam aos dias de hoje e também não são compatíveis com as necessidades reais do dia a dia. CITAÇÃO Não parece apropriado nem etimológica nem pedagogicamente que o termo alfabetização designe tanto o processo de aquisição da língua quanto em seu desenvolvimento: etimologicamente o termo alfabetização não ultrapassa o signifi cado de “levar a aquisição do alfabeto” , ou seja, ensinar o código da língua escrita, ensinar as habilidades de ler e escrever; pedagogicamente, atribuir um signifi cado muito amplo ao processo de alfabetização seria negar- lhe a especifi cidade, com refl exos indesejáveis na caracterização da sua natureza, na confi guração das habilidades básicas de leitura e escrita, na defi nição da competência em alfabetizar. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 16 20/11/2019 16:41:01 Alfabetização e Letramento 17 Sabemos que não existe uma metodologia perfeita, cada qual tem a sua característica principal, porém também é certo afi rmar que existem sim, muitos métodos de alfabetização que hoje funcionam e outros nem tanto. Infelizmente algumas escolas ainda tratam essa questão de uma forma não muito articulada, com recursos empobrecidos e arcaicos. Essa defasagem conclui a incompetência da instituição quando ela empobrece as múltiplas possibilidades de acesso na aquisição da fala, leitura e escrita. Segundo Cagliari, 1994, p.9: CITAÇÃO Por fim, a falta de visão de muitos, associada à ausência de conhecimentos linguísticos, tem atribuído o fracasso escolar ora ao aluno visto como um ser incapaz, carente cheio de deficiências, ora ao professor”. Para ampliarmos essa reflexão recorremos às reflexões de Soares (2003, p.15), que assim explica: Sem dúvida não há como fugir, em se tratando de um processo complexo, como a alfabetização, de uma multiplicidade de perspectivas, resultante da colaboração de diferentes áreas de conhecimento, e de uma pluralidade de enfoques, exigida pela natureza do fenômeno, que envolve atores (professores e alunos) e seus contextos culturais, métodos, material e meios. Entretanto, essa multiplicidade de perspectivas e essa pluralidade de enfoques não trarão colaboração realmente efetiva enquanto não se articularem em uma teoria coerente de alfabetização que concilie resultados apenas aparentemente incompatíveis, que articule análises provenientes de diferentes áreas do conhecimento, que integre estruturadamente estudos sobre cada um dos componentes do processo. Nesse sentido, é correto afirmar que o acesso ao processo de aquisição de leitura e escrita modificou- se e não mais atende às necessidades do passado. A leitura do mundo é outra. O que precisamos compreender é que o processo de alfabetização, na sua complexidade, interfere significativamente na vida educacional do indivíduo. “A alfabetização é, sem dúvida, o momento mais importante da formação escolar de uma pessoa...” (CAGLIARI, 1994, p.10). eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 17 20/11/2019 16:41:01 Alfabetização e Letramento18 A Língua Falada e a Língua Escrita Pense na sua língua mãe. Você acredita que a língua escrita tem as mesmas características da língua falada? Ou seja, você escreve exatamente como você fala? É óbvio que não! É fato dizer que uma das principais etapas do processo de alfabetização é a representação de fonemas em grafemas e grafemas em fonemas, porém não podemos descartar a importância do código da escrita através da compreensão. Essa expressão de signifi cados nos dá uma ideia mais ampla e diretiva, pois o processo não se destina exclusivamente no desenvolvimento dos códigos e fonemas da leitura e escrita, ele rege outras etapas que não podem ser descartadas. Segundo Magda Soares, uma das maiores pesquisadoras do país sobre o tema, as etapas não são tão simples como podemos imaginar e requerem muito cuidado. Nesse processo de aquisição de leitura e escrita, o indivíduo deve participar ativamente e não somente como um indivíduo que recebe as informações. DEFINIÇÃO O conceito de língua falada chega a ser até abstrato, pois existem tantas diversidades que a compõem e a cada dia, ela vem modifi cando. Podemos dizer que é uma língua viva, que modifi ca e se adequa de acordo com a sua necessidade. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 18 20/11/2019 16:41:01 Alfabetização e Letramento 19 Figura 2: Lingua Falada Fonte: RyanMcGuire A língua falada é viva e está em constante adaptação com o seu meio social. É o que explica com mais ênfase Bagno, (2001, p.09): CITAÇÃO Nesse pressuposto, é correto afi rmar que a língua falada não se enquadra nas regras da língua escrita, pois o processo de aquisição dessa língua, também é outro. Nossa intenção é que você possa compreender a complexidade de todo o processo, portanto quando falamos em língua escrita, não estamos falando apenas em regras gramaticais pois ela não deve ser vista apenas como um registro de fonemas da língua oral, há também a sua importância sintática, semântica e morfológica. É o que explica Soares, “não se escreve como se fala, mesmo quando se escreve em conceitos informais.” (SOARES, 2003, p. 18) Temos de fazer um grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 19 20/11/2019 16:41:01 Alfabetização e Letramento20 Figura 3: Lingua Escrita Fonte: StartUpStockPhotos/Pixabay Embora muitos ainda acreditam que o processo de alfabetização é individual, não podemos esquecer que ele também é social. Pensamos em duas escolas em regiões completamente diferentes uma da outra. Supondo que uma escola está situada em uma região rural e outra central, você acredita que os processos de alfabetização das duas escolas se dão da mesma maneira? Mesmo que ambas utilizem do mesmo método alfabetizador o desenvolvimento seria igual? A sociedade tem um peso muito grande quando falamos sobre a alfabetização pois em algumas sociedades esse tema pode até parecer algo não muito constante. Em algumas regiões é muito comum as crianças serem alfabetizadas a partir dos 4 anos de idade, em outras a partir dos 7 anos, difere muito para cada região e sua cultura. Como você pode notar, alfabetizar uma criança vai muito além do que transmitir a informação à criança na aquisição de leitura e escrita. Depende de muitos fatores como por exemplo, culturais, econômicos e tecnológicos. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 20 20/11/2019 16:41:03 ARS80 Comentário do texto CONCLUSÃO ARS80 Realce Alfabetização e Letramento 21 O Letramento Você aprendeu que a alfabetização é a aquisição da língua (seja ela oral e escrita) através de um sistema alfabético, ortográfi co e também cultural. Também vimos que o processo de alfabetização é complexo e depende de muitos fatores. Não é somente ensinar a criança a formar as palavras e depois partir para a leitura. O processo é lento, prático e exige habilidades tanto da parte do professor quanto do aluno. Você também aprendeu a importância da comunicação de forma rápida e prática nos dias de hoje. O uso das tecnologias nos proporciona acesso rápido às informações e consequentemente nossa comunicação caminha no mesmo sentido. Aquele que hoje não acompanha toda essa evolução tecnológica infelizmente não consegue ter o mesmo domíniode comunicação. Figura 4: Leitura Infantil Fonte: Victoria_Borodinova eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 21 20/11/2019 16:41:03 Alfabetização e Letramento22 Você, professor dentro da sala de aula, se depara com um aluno do 3º ano do Ensino Fundamental I com algumas difi culdades na atividade de compreensão de texto. Na atividade, você pede para o aluno responder as perguntas simples sobre o texto que ele acabou de ler. O aluno faz a leitura diversas vezes e mesmo assim, não compreende nenhuma das perguntas. Ele somente consegue responder aquelas óbvias como: Qual o nome do personagem principal? ou “Aonde se passa nossa história? Perguntas mais complexas ele simplesmente não consegue responder. O que você acha sobre isso? Pense agora em uma outra situação: Na sala de aula do 5º ano do Ensino Fundamental I a professora pede para os alunos fazerem uma redação sobre o descobrimento do Brasil. No fi nal da atividade, ela percebe em um aluno a difi culdade em fazer a atividade escrita. Ela então vai até esse aluno e nota que sua redação é empobrecida, que o aluno não segue uma lógica textual e que existem erros gramaticais e ortográfi cos gritantes. Por que isso acontece? Essas duas situações são muito comuns nos dias de hoje. Infelizmente, conforme anteriormente dito, ainda existem muitos problemas no processo de aquisição da leitura e escrita e aqueles que não atendem à demanda da rapidez tecnológica e da comunicação na era da Globalização, acabam sendo altamente prejudicados. Segundo Soares, 2003, p.20, CITAÇÃO “só recentemente passamos a enfrentar essa nova realidade social em que não basta apenas ler e escrever, é preciso também fazer o uso do ler e escrever, saber responder às exigências de leitura e escrita que a sociedade faz continuamente”. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 22 20/11/2019 16:41:03 Alfabetização e Letramento 23 O interlocutor deve ter o domínio não somente dos códigos como também uma visão ampliada, que seja capaz de compreender todo o discurso, na interpretação de elementos históricos, ideológicos e científi cos. Ele deve dominar todos os elementos da textualidade que constituem o uso discursivo oral e escrito como os elementos de codifi cação (letras e sons). Figura 5: Professora Fonte: Jerrykimbrell/Pixabay Defi nição de Letramento Em meados do ano de 1980, a invenção de letramento se deu no Brasil assim como simultaneamente em outros países. A ideia era compreender os problemas enfrentados na aquisição da língua escrita e a sua defi ciência. Porque algumas crianças simplesmente não conseguiam fazer uma simples interpretação de um texto ou até mesmo escrever um texto comum? Nos países desenvolvidos foi constatada essa defi ciência de sua população, que embora alfabetizadas, não eram competentes o sufi ciente para fazer uma simples redação ou leitura. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 23 20/11/2019 16:41:04 Alfabetização e Letramento24 Segundo Soares(2000, p. 18): “Letramento é, pois, o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita”. DEFINIÇÃO Para ampliar ainda mais essas ideias, citamos as refl exões de Klein (2000, p.11), que assim relata: Não há dúvida que o letramento é, hoje, uma das condições para a formação do cidadão: ela o insere num círculo extremamente rico de informações, sem as quais, ele, inclusive nem poderia exercer livre e conscientemente sua vontade (...) o homem contemporâneo é afetado por outros homens, fatos e processos por vezes tão distantes de seu cotidiano que somente uma rede muito complexa de informações pode dar conta de situá-lo, minimamente, na teia de relações em que se encontra inserido. Neste universo, tá mais vasto e complexo, a escrita assume relevante função, registrando e colocando ao alcance das informações que podem esclarecê-lo melhor” CITAÇÃO Nesse sentido, a defi nição de letramento é vasta e está intrinsecamente interligada à alfabetização, apesar de ocorrer distinções entre os dois temas. Quando falamos de letramento, nos referimos às competências que o indivíduo deve possuir para construção do entendimento de leitura e escrita. É uma visão mais ampla, mais minuciosa que exige do interlocutor um direcionamento mais preciso. Além de possuir competências linguísticas, ele deve também adquirir conhecimentos sufi cientes para a formação de novos conhecimentos, sejam eles culturais, históricos, ideológicos e científi cos. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 24 20/11/2019 16:41:04 ARS80 Realce LETRAMENTO EM STRICTO SENSU Alfabetização e Letramento 25 Alfabetizado Letrado Analfabetismo Funcional IMPORTANTE Alfabetizado letrado é aquele que conhece o sistema e as regras ortográfi cas e gramaticais e, ainda, se coloca como um efetivo usuário da língua em seu contexto social.De nada adianta saber apenas ler e escrever e não ter domínio sobre a leitura e escrita. Não saber como escrever, como fazer uma interpretação. É o domínio do uso da língua no seu sentido amplo, geral. Analfabeto funcional é aquele que não consegue fazer o bom uso da leitura e escrita nas atividades cotidianas. Ou seja, embora ele saiba ler e escrever, não consegue fazer uma interpretação de um texto porque não compreende toda a estrutura textual e também tem muitas difi culdades em escrever. DEFINIÇÃO DEFINIÇÃO Figura 6: Dúvida de leitura Fonte: Victoria_Borodinova/Pixabay De nada adianta saber apenas ler e escrever e não ter domínio sobre a leitura e escrita. Não saber como escrever, como fazer uma interpretação. É o domínio do uso da língua no seu sentido amplo, geral. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 25 20/11/2019 16:41:04 Alfabetização e Letramento26 Faça uma refl exão prática sobre alfabetização e letramento. Como você, como professor, lidaria com alunos iletrados? Qual seria o maior desafi o para você para lidar com uma situação dessas? Estudamos que as defi nições tanto de alfabetização como letramento são muito mais amplas, complexas e trabalhosa. Em síntese, podemos concluir que: Alfabetização é o processo de aquisição da língua (oral e escrita) por meio do sistema alfabético, ortográfi co e cultural; Letramento é o processo de desenvolvimento da língua (oral e escrita). O desenvolvimento de habilidades para uso da língua em diferentes contextos, como por exemplo no contexto atual que é digital (tecnológico). Histórico e evolução das práticas de alfabetização Vamos iniciar, neste capítulo, uma refl exão profunda sobre o desenvolvimento histórico e sua infl uência nos dias atuais. Faremos uma análise sobre Comenius e a sistematização da aprendizagem por meio da cartilha e os pensamentos de autores que infl uenciaram diretamente para essa evolução. Lembramos do nosso aluno do 3º ano do Ensino Fundamental citado no início do tema. Ele não consegue fazer a interpretação do texto que apresenta complexidade. Ele lê, mas não compreende. No segundo exemplo, o outro aluno não consegue fazer a redação sobre o descobrimento do Brasil porque não tem domínio sobre as palavras, simplesmente não consegue fazer o bom uso da língua escrita. TESTANDO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 26 20/11/2019 16:41:04 ARS80 Realce ALFABETIZAÇÃO EM LATO SENSU ARS80 Realce LETRAMENTO EM LATO SENSU Alfabetização e Letramento 27 A Cartilha de Comenius Tudo se iniciou por um pastor protestante, chamado por João Amós Comênio, mais conhecido por Comenius, no qual foi considerado o pai da pedagogia moderna. Em meados do século XVII, Comenius fundamentou a escola que conhecemos até hoje, foi o precursor da organização do trabalho pedagógico baseadoem elementos manufatureiros, presentes na sociedade da sua época. Com a ideia de “ensinar tudo a todos”, Comenius deu ao professor a sua primeira defi nição e aderiu à ele, o material didático pedagógico como instrumento de trabalho. O livro didático por sua vez, difere dos livros científi cos. A ideia era que o livro didático não fosse tão aprofundado de fontes originais, mas que fosse um direcionador de conhecimentos. Surge então um livro exclusivamente pedagógico que propõe o ensinamento de ler e escrever através de fi guras ou ilustrações ao lado das palavras, das sílabas e do alfabeto. É o que conhecemos de Cartilha, que ainda hoje é utilizada em muitas instituições de ensino. O objetivo era que as crianças pudessem fazer associação tanto visual quanto motora das palavras. Note que a cartilha que conhecemos a criança se depara com fi guras referente às iniciais da letra que está sendo estudada. Por exemplo: Na letra I, existe a fi gura de um Ipê. Há essa associação da palavra com a letra e depois a intenção que a criança possa internalizar através de expressões motoras, como contorno da letra, fazer colagem sobre a letra, etc. Outro fato bastante interessante é a classe heterogênea, ou mais conhecida como instrução simultânea. Os alunos aprendiam ao mesmo tempo em graus e atividades diferenciadas. Isso facilitaria a aquisição do conhecimento e pouparia esforços. Colocaria em prática então, a ideia de ensinar “tudo a todos”. Segundo A,2001,p.11: “Comenius está na origem da escola moderna. A ele, mais do que nenhum outro, coube o mérito de concebê-la. Nessa empreitada, foi impregnado pela clareza de eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 27 20/11/2019 16:41:04 ARS80 Realce ARS80 Realce ARS80 Realce Alfabetização e Letramento28 Figura 7: Alfabetização Fonte: Steveriot1/Pixabay que o estabelecimento escolar deveria ser pensado como uma ofi cina de homens; foi tomado pela convicção de que a escola deveria fundar sua organização tendo como parâmetro as artes.” Para Comenius a didática deveria ser foco principal de experimento porque acreditava que o processo estava na prática e o ensinamento deveria fazer parte desse pensamento. Apesar da sua fervorosa religiosidade ter interferido consideravelmente suas teorias, ele enfatizava o ensino como algo que deveria ser atingido por todos e que as pessoas deviam se capacitar para um novo conhecimento. Foi um dos primeiros a defender a ideia da educação para crianças pequenas, colocá-las em um ambiente em que elas fossem expostas a todo o tipo de conhecimento, podemos dizer que surge a ideia do maternal. Ele acreditava que através do conhecimento, o ser humano poderia alcançar sabedorias divinas. Por esse motivo ele queria que todos tivessem uma educação, porque além dos conhecimentos terrenos, eles também podiam adquirir uma ascensão nos céus. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 28 20/11/2019 16:41:05 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento 29 Emília Ferreiro Nenhum nome teve mais influência no que se diz respeito de alfabetização do que Emília Ferreiro, uma psicolinguista argentina, aluna e companheira de trabalho de Jean Piaget, revolucionou a história da alfabetização. Em meados de 1980 seus livros começaram a ser divulgados no Brasil e causou um grande impacto na concepção de alfabetização. Famosa pela obra: “Psicogênese da Língua escrita”, o livro não apresenta nenhuma metodologia pedagógica, apenas processos de aprendizados nas crianças, colocando em questão até então, os métodos utilizados. Suas pesquisas revelam mecanismos relacionados à leitura e escrita e passa a curtir toda a sua teoria baseada em métodos construtivistas. Para Emília, a criança tem um papel totalmente ativo no processo de alfabetização, pois ela constrói o próprio conhecimento. Calcada em teorias e práticas construtivistas, avalia o conhecimento através de experiências na prática. O aluno que é ativo no seu processo de formação é mais exigente e também precisa ter o seu espaço único para que ocorra o desenvolvimento. Por esse motivo, há uma grande preocupação pela escola, pois ela deixa de ser somente fonte de informações e passa ser cenário de um processo prático de formação. Quando falamos em alfabetização, para Emília a criança deve apropriar-se de todo o ambiente educacional, deve fazer parte de um todo e o professor é o facilitador deste processo. Antes de sua chegada, havia apenas uma grande preocupação com a aprendizagem quando a criança não conseguia aprender, porém Emília nos trouxe uma visão contrária. A preocupação deveria acontecer desde o início, de quais fatores levaram aquela criança aprender e como era esse processo. O importante era a trajetória e não o resultado que se esperava. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 29 20/11/2019 16:41:05 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento30 Piaget outrora já tinha citado que os princípios do processo de conhecimento deveriam ser graduais, pois cada conquista cognitiva depende de uma assimilação e acomodação desses processos e que levaria um tempo. As crianças não apenas repetem o que ouvem, mas internalizam o aprendizado baseado nas experiências sejam elas boas ou ruins. Para a alfabetização isso foi processo, pois até então os erros eram vistos como algo a ser punido ou até mesmo escondido. Não havia nenhum benefício no ato de fazer algo de errado. Para o construtivismo, nada mais desafiador para a mente do que os erros, pois eles tornam em evidência a releitura do indivíduo com o mundo. O erro faz parte no processo de conhecimento e é ponte para os futuros acertos. Nesse pressuposto, Emília sempre criticou a posição tradicional da alfabetização, porque não dá condições para a real aquisição da leitura e escrita. Na prática tradicional a criança é exposta a escrita por meio de avaliação de percepção e de motricidade. Nesse sentido, a criança acaba por desenhar a letra, ao invés de apropriar-se da palavra. Os métodos tradicionais propõem aos alunos leituras com palavras simples e sonoras, como por exemplo: bebê, papa etc. O contato da criança com a organização da escrita é colocado após esse processo. Segundo Ferreiro, a alfabetização é também uma maneira de se apropriar das funções sociais da escrita. De acordo com suas reflexões, o acesso a textos lidos e escritos desde os primeiros anos de vida influenciam muito mais do que simples processos pedagógicos repetitivos. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 30 20/11/2019 16:41:05 Alfabetização e Letramento 31 Figura 8: Sala de aula rica em recursos visuais Fonte: Katrina_S / Pixabay A sala de aula como ambiente de alfabetização Um dos marcos de Emília Ferreiro em nossas salas de aula foi o extermínio do uso das cartilhas. Segundo ela, a compreensão social da escrita deve ser instigada com o uso de livros e periódicos da atualidade e o uso da cartilha além de não desafi ar a criança para o conhecimento do novo, também oferecem uma instrução desinteressante e artifi cial. O ambiente se torna alfabetizador quando ele concede à criança todas as ferramentas que ela precisa para usufruir daquele espaço. Com o uso de livros e periódicos, a sala de aula passa ser ambiente real de alfabetização e estimula os alunos a conquistar novos conhecimentos. O processo deve ser utilizado por vários recursos e não somente um único recurso, como por exemplo, o uso da cartilha. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 31 20/11/2019 16:41:05 Alfabetização e Letramento32 O papel do professor Para Emília Ferreiro o papel do professor é fundamental, pois ele é o guia para que o aluno possa atingir seus conhecimentos. Ele deixa de ser ativo no processo e passa a ser o mediador, aquele que irá auxiliar a criança sem que a mesma perca a sua individualidade.Ela também enfatiza em muitas entrevistas que o docente deve estar sempre em processo de construção de conhecimentos através da reciclagem. O novo se torna parte do desenvolvimento do docente. Imagine que você tenha um professor que não está adaptado com os conhecimentos de hoje e ensinaria as crianças nos métodos antigos. Nos dias de hoje seria muito difícil lidar com docentes que não estão atualizados, mesmo que tenha muitos conhecimentos e não consiga transmiti-los de maneira que todos consigam compreender, nada vale tais conhecimentos. Pense em algumas situações e baseado em todo material estudado até o momento faça uma análise da situação. Sabemos que muitos são os fatores que desencadeiam os problemas da alfabetização e letramento, peço que você imagine dois cenários completamente distintos um do outro: 1- Uma sala de aula com 32 alunos da 4ª série do Ensino Fundamental apresenta muitos problemas, porém o que mais preocupa a professora é que mais da metade dos seus alunos são incapazes de fazer uma leitura de um texto de maneira que consigam compreendê-lo. Essa professora, com mais de 40 anos de magistério utiliza métodos antigos para instruí-los e os alunos para ela, devem ser receptores passivos. As atividades que ela TESTANDO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 32 20/11/2019 16:41:05 Alfabetização e Letramento 33 realiza geralmente não mudam, toda a semana é sempre a mesma atividade. A atividade de escrita ela realiza o ditado e também percebe que muitos alunos não desenvolvem adequadamente. A gestão da sua sala de aula é caótica, não existe um padrão a ser seguido e utiliza do autoritarismo quando sempre acha que é necessário. 2- Na mesma escola, uma outra professora com a mesma experiência do que a primeira citada também tem problemas parecidos com os seus alunos, porém ela analisa caso a caso para que possa tentar diminuir tantos analfabetos funcionais. Ela tem conhecimento que os alunos possuem essa defi ciência e quando está realizando alguma atividade, sempre foca nos alunos que mais precisam de atenção. Utiliza a tecnologia em sala de aula sempre que pode e permite que seus alunos sejam ativos no seu processo de conhecimento através de debates, exercícios que estimulam outras habilidades. Você, como aluno, gostaria de ter a professora da primeira história ou a professora da segunda história? Por que? O docente deve ser parte integrante na sala de aula, porém como papel de coadjuvante, pois o protagonista é o seu aluno. Não pense nele como alguém que recebe as informações apenas, e sim aquele que deve aprender a fazer questionamentos, que pode errar e encontrar no seu erro uma resposta, porque através do erro o aluno é direcionado ao oculto, ou seja, errar também faz parte do processo. Quando ele erra, ele aprende outras habilidades e procura todos os recursos para encontrar um acerto. Ao contrário do aluno passivo, para ele, o erro é algo muito ruim e ele pode ser punido por isso. TESTANDO (CONTINUAÇÃO) eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 33 20/11/2019 16:41:05 Alfabetização e Letramento34 Ana Teberosky Além de Emília Ferreiro, Ana Teberosky é uma das pesquisadoras mais conceituadas quando falamos em alfabetização. Segundo Ana, a responsabilidade do fracasso escolar no que diz respeito à alfabetização é o próprio sistema e não apenas do professor. Quando a escola acredita que o processo de alfabetização se dá em etapas, ou seja, primeiro a junção das letras e palavras para depois a concepção de escrita, ela mina o poder do conhecimento. Se há a separação entre ler e escrever, fi ca complicado fazer a ligação desses termos. A Psicogênese da Língua escrita Na década de 70, Emília Ferreiro e Ana Teberosky desenvolveram através de experiência o livro “A Psicogênese da Língua Escrita”. O livro traz novos elementos para explicar o processo vivenciado pelo aluno que está aprendendo a ler e escrever. Passa a compreender a alfabetização não como um simples método, mas um processo complexo e multifacetado que ocorre quando a criança tem a apropriação do sistema da escrita alfabética. Não prescreve uma metodologia milagrosa. A criança internaliza e se apropria do seu próprio conhecimento, pois até então, o método tradicional impõe a criança técnicas e ritmos de aprendizagem. A ideia é que a criança internalize e tenha a sua escrita espontaneamente. Para ambas teóricas, a criança passa por várias hipóteses em relação ao sistema da língua escrita antes mesmo de compreender de fato o sistema alfabético. Todo o processo tem um início, um caminho a ser seguido e que a criança passa a ser leitura antes mesmo de ter o domínio da leitura. Em seu aspecto construtivista, o indivíduo passa a ser sujeito da história e não objeto em sua própria aprendizagem. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 34 20/11/2019 16:41:05 Alfabetização e Letramento 35 Outra característica muito importante é a ideia que a aprendizagem da escrita não tem vínculos com a fala e mesmo que a criança já tenha uma relação entre escrita e fala, não condiz a nenhuma ligação. Figura 9: Leitura Fonte: Sasint/Pixabay O analfabetismo Tanto o analfabetismo como o fracasso escolar não são problemas individuais e sim sociais. Enfatiza que a desigualdade social tem infl uência direta nesses problemas e que podem provocar ainda mais desigualdades educacionais. Portanto, para as pesquisadoras, esses problemas podem ser melhorados através de outros métodos de ensino. A reprovação escolar é um exemplo desse fracasso e não deve ser analisada apenas em um contexto, mas em muitos. Existem soluções para o fracasso escolar e até mesmo a evasão, propõe uma nova refl exão e estudo sobre o assunto e mudanças de comportamentos. Todos os indivíduos, independente de classe ou meio social possuem capacidades sufi cientes para aprender, é o que explica em Ferreiro, 1986, p.22: eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 35 20/11/2019 16:41:06 ARS80 Realce CONCLUSÃO ARS80 Realce Alfabetização e Letramento36 Os fi lhos do analfabetismo são alfabetizáveis; não constituem uma população com uma patologia específi ca, que deve ser atendida por sistemas especializados de educação; eles têm o direito a serem respeitados, enquanto sujeitos capazes de aprender. Figura 10: Alfabetização Infantil Fonte: Lourdesnique/Pixabay Muitos outros fatores aconteceram durante todo o processo educativo e é claro, as contribuições de estudiosos são inúmeras, porém a ideia é que você tenha em mente que o processo evolutivo da alfabetização se deu ao longo dos anos, através de muitas teorias e também de experiências vividas. Não estamos julgando aqui o certo ou o errado, apenas relatando marcos da história da alfabetização que nos infl uenciam até hoje. CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 36 20/11/2019 16:41:06 ARS80 Realce Alfabetização e Letramento 37 Figura 11: Processo de escrita Fonte: Freepik Cada profi ssional se adequa com um método, nisso não há nenhuma discussão, o que você, como futuro professor não pode esquecer é que, segundo palavras de Magda Soares, a alfabetização é “multifacetada”, isto é, não existem apenas um conceito e sim diversos dentro desse universo de conhecimentos tão rico e vasto. A prática alfabetizadora e os processos de apropriação da língua escrita Agora abordaremos práticas alfabetizadoras e os processos que norteiam a aquisição da língua escrita. Iniciaremos com o pressuposto da importância e complexidade da alfabetização, fatores e circunstâncias que permeiam todo o desenvolvimento de linguagem escrita. Já vimos que a aquisição da língua escrita se dá por diversos conhecimentos, sejam eles internos ou externos. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 37 20/11/201916:41:07 Alfabetização e Letramento38 A prática pedagógica do ensino da língua escrita No tema anterior estudamos sobre alguns teóricos da área e também algumas ressalvas que fi zeram ao longo de anos de estudos e de experiência. Quando falamos em prática, nos referimos a toda instrumentação utilizada para se obter um resultado fi nal. Vimos que a primeira prática pedagógica no processo de alfabetização foi o uso da cartilha. O uso da cartilha por sua vez foi considerado por muitos um processo limitador, pois exclui o ensino da língua escrita e as produções textuais, ou seja, existe uma separação entre a metodologia utilizada pela cartilha do ensino da língua escrita e consequentemente a sua produção. Segundo estudos de Emília Ferreiro, a criança aprende de fato com a interação com o real e não com o subjetivo. É um processo de ação com a língua escrita na construção da fala e escrita. Em SOARES, 1999.p.52, a autora nos traz a seguinte refl exão: Consideremos a interferência desses dois fatores – a infl uência da psicolinguística e a concepção psicogenética da aprendizagem da escrita- em duas faces do processo ensino e aprendizagem da língua escrita, aqui destacada para fi ns de melhor clareza da exposição, já que não representam momentos sucessivos , mas contemporâneos, não são processos independentes, mas inseparáveis: uma face é a aquisição do sistema da escrita (...); a outra face é a utilização do sistema de escrita para a interação social, isto é, o desenvolvimento de habilidades de produzir textos. CITAÇÃO Nesse sentido, a alfabetização é um processo estritamente histórico social e multidisciplinar. Não podemos menosprezar as ciências linguísticas da aquisição, pois também faz parte. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 38 20/11/2019 16:41:07 Alfabetização e Letramento 39 CITAÇÃO A aquisição de leitura e escrita é ampla e esse processo deve caminhar com ambas as especifi cidades. Lev Semyonovich Vygotsky Vygotsky foi um psicólogo russo, protagonista do conceito de que o desenvolvimento intelectual das crianças se dá pelo seu meio social, através das interações sociais e condições de vida. Segundo seus estudos, as funções patológicas são bastantes complexas, por exemplo: a ato de respirar passa por muitos mecanismos e adequações dependendo de sua situação real, quem dirá quando falamos sobre o desenvolvimento psicológico, no qual seria muito mais complexo ainda em pensarmos no homem em seu meio sociocultural. Quando se trata no processo da aquisição da língua escrita, Vygotsky afi rma que é um fator social, de caráter histórico e que deve envolver muita interatividade. A aprendizagem da escrita dá-se por um conjunto de signos que são utilizados como instrumentos das necessidades socioculturais. A escrita então, deve ser considerada um produto cultural e não somente um instrumento de aprendizagem escolar. Sabemos que em alguns casos não é bem isso que acontece. Algumas escolas ainda estão muito distantes dessa realidade, simplesmente não existe a funcionalidade da escrita. Vygotsky cita que: Até agora a escrita ocupou um lugar muito estreito na prática escolar, em relação ao papel fundamental que ela desempenha no desenvolvimento cultural na criança. Ensina-se as crianças a desenhar letras e a construir palavras com elas, mas não se ensina a linguagem escrita. Enfatiza-se de tal forma a mecânica de ler o que está escrito que acaba-se obscurecendo a linguagem como tal. (1998, p139) eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 39 20/11/2019 16:41:07 Alfabetização e Letramento40 A escola, no entanto, precisa pensar o processo de alfabetização como um processo dinâmico. Pode-se perceber que o desenvolvimento da escrita na criança está relacionado as suas práticas do dia a dia. Oliveira nos dá uma melhor posição sobre o assunto: Por isso, é de fundamental importância que, desde o início, a alfabetização se dê num contexto de interação pela escrita. Por razões idênticas, deveria ser banido da prática alfabetizadora todo e qualquer discurso (texto, frase, palavra, “exercício”) que não esteja relacionado com a vida real ou o imaginário das crianças, ou em outras palavras, que não esteja por elas carregado de sentido. (OLIVEIRA, 1998. pp.70-71) Segundo Vygotsky, algumas escolas não ensinam de fato a criança a “ linguagem escrita”, o que elas fazem é simplesmente ensinar as crianças a desenhar as letras e na construção das palavras, mas, não ensinam a sua real funcionalidade. Você teve alguma experiência parecida ou conheceu alguma instituição que promovesse essa prática? eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 40 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento 41 O papel do professor e do ambiente familiar na aquisição da língua escrita Você já estudou a importância do papel do docente em todo o processo educacional, porém não falamos ainda sobre outro fator muito importante, que é a participação do ambiente familiar. Há alguns anos, quando falávamos de fracasso escolar, o problema estava praticamente todo relacionado ao professor, ou seja, ela era o grande responsável pelo bom ou mau andamento dos seus alunos. Com o passar do tempo, vimos que são inúmeros os problemas que norteiam essa situação e não somente o despreparo ou incompetência de um professor. Sabemos que o docente pode ser um forte infl uenciador no desenvolvimento da criança, mas não é o único norteador. O professor é a peça principal nesse processo, cabe a ele ser o norteador do ambiente de alfabetização, porém não podemos esquecer do ambiente familiar, que é tão importante quanto o ambiente educacional. Já foi a época em que se acreditava que a criança adquire conhecimentos somente através da escola. O ambiente familiar também tem caráter social e se dá também pela interação, por isso a família também é responsável para o melhor desenvolvimento educacional da criança. Dentro do contexto social e na família da criança podem ocorrer práticas da língua escrita de forma natural e espontânea. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 41 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento42 Figura 12: Leitura na infância Fonte: 2081671/Pixabay Quando fazemos uma simples leitura de uma história para nossos fi lhos antes de dormir, não somente estamos estimulando o desenvolvimento como direcionando a criança ao seu aprendizado natural. Lembra quando Emília Ferreiro disse que a criança se torna leitora antes mesmo de ser? Isso mesmo, a leitura dentro do ambiente familiar impulsiona a criança a ser um leitor antes de ser alfabetizado. Outro fator importante no ambiente familiar é o estímulo aos desenhos e suas representações ou até mesmo ensinar as crianças a escreverem seus próprios nomes, e também o conceito de numerais. Todo esse conhecimento adquirido dentro de casa pode ser o refl exo do que a criança irá aprender no ambiente escolar. O letramento na aquisição da escrita Se a prática da língua escrita é infl uenciada por diversos fatores, é fato que o letramento decorre dessa participação, eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 42 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento 43 das práticas cotidianas, das vivências e situações reais de leitura e escrita. Atos costumeiros como ler revistas ou jornais, escrever um bilhete, ler um livro, contribuem para que as crianças possam aprender as diferentes formas do texto escrito. Kleiman afi rma que: CITAÇÃO Assim, nesse contexto, o letramento é desenvolvido mediante a participação da criança em eventos que pressupõem o conhecimento da escrita e o valor do livro como fonte fi dedigna de informação e transmissão de valores, aspectos esses que subjazem ao processo de escolarização com vistas ao letramento acadêmico. Note-se que para a criança cujo letramento seinicia no lar, no processo de socialização primária, não procede a preocupação sobre se ela aprenderá ou não, muito presente, entretanto, nos pais de grupos marginalizados. (KLEIMAN, 1998.p 183) Quando fazemos uma refl exão sobre o letramento na língua escrita, podemos mencionar alguns fatores muito importantes que possam contribuir para que a criança tenha o domínio do conteúdo e da informação. Muitos pesquisadores sobre o assunto são unânimes em dizer que quando se trata da linguagem escrita, há ainda mais um empobrecimento nos dias atuais. Isso devido também ao uso abusivo da tecnologia, muitos jovens são incapazes de redigir um texto porque não possuem mais bases gramaticais sufi cientes para tal. A linguagem escrita entre eles é escassa e muitas crianças não conseguem nem ao menos fazer uma simples redação. O problema é tão grande que muitas crianças não conseguem fazer a leitura de um livro, mas conseguem ler um texto pequeno de uma revista de fofocas. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 43 20/11/2019 16:41:08 ARS80 Realce ARS80 Realce CONCLUSÃO Alfabetização e Letramento44 Práticas para o letramento da língua escrita É claro que existem muitas práticas que favorecem a boa utilização da língua escrita. Segundos alguns pesquisadores, as práticas mais estimulantes são: 1- Leitura de um livro: embora essa prática infelizmente não esteja enraizada em nossa cultura, essa é, sem dúvida a melhor maneira de aquisição de escrita, ou seja, quando lemos um livro, apropriamos de novas palavras, novos vocabulários e até mesmo de regras ortográfi cas e gramaticais; 2- Leitura de periódicos: os jornais e revistas também são fontes de muito conhecimento; 3- Escrever um e-mail: antigamente as pessoas passavam horas escrevendo cartas umas para as outras. Todo o processo era muito prazeroso, pois criava-se uma expectativa desde o início. Era muito comum as pessoas escreverem várias páginas. Hoje em dia, sabemos que não é bem isso que acontece e a comunicação para quem está distante é por e-mail. Escrever um e-mail pode sim, estimular o desenvolvimento da língua escrita; 4- Escrever um bilhete: muitos professores ainda praticam com seus alunos o uso do bilhete na sala de aula, porque além da interação que ele propõe entre os alunos, as crianças podem treinar técnicas e vivenciar sua língua. Os bilhetes geralmente são mais objetivos e por isso facilita o desenvolvimento da escrita eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 44 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento 45 CURIOSIDADE Em Nova York é muito comum as crianças passarem suas férias dentro de uma biblioteca. A leitura é muito estimulada em países desenvolvidos, por isso é muito comum espaços destinados a públicos diferentes. No Reino Unido e em alguns países da Europa mais da metade da população fazem o uso da leitura e leem mais de um livro por mês. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: “Prática pedagógica alfabetizadora: aquisição da língua escrita como processo sociocultural” (BRITO, A.E). Acessível pelo link: https://bit.ly/2RD0xZg.(Acesso 21/01/19) SAIBA MAIS++ Estratégias da leitura- Parte I Vamos dar início a algumas técnicas ou regras que podem ser usadas no uso da leitura dentro e fora da sala de aula ou até mesmo atividades sugeridas que facilitarão no processo de formação. Vimos que a leitura é tão importante para a formação do indivíduo e estimula também outros conhecimentos. O bom leitor dispõe de muitos recursos e tem domínio sobre algumas regras e normas que só a leitura pode proporcionar. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 45 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento46 Mesmo que nossa cultura não estimule o uso da leitura, todos sabem quão importante é para nosso crescimento. Nesse pressuposto, você se considera um leitor assíduo? Refl ita sobre isso. A leitura como instrumentação cultural Sabemos que o ato de ler é um ato extremamente cultural. Quanto mais somos motivados a leitura, maiores são as chances de nos tornarmos leitores fervorosos. Infelizmente, a grande maioria dos brasileiros não possuem o hábito da leitura e os que possuem, muitas vezes não tem acesso aos materiais, sejam livros ou periódicos. A leitura é um processo ativo e dinâmico, quem faz o bom uso da leitura está sujeito a muitas possibilidades e tem a maior capacidade de criação. Quanto menos o indivíduo lê, menos ele é integrado no mundo letrado. A compreensão da leitura é um processo que se inicia desde o nascimento, como as leituras de histórias que nossos pais nos contam antes de dormir. Esse processo não é automático e precisa ser ensinado e praticado desde cedo. Ao longo de muitos anos, diversos pesquisadores da área persistiram em dizer que a leitura era um processo individual, porém quando fazemos o uso da leitura em conjunto, o desenvolvimento pode ser ainda maior. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 46 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento 47 Figura 13: Prazer de ler Fonte: Pezibear, Pixabay, 2019. Existem estratégias que podem facilitar a compreensão de textos nas crianças e também em alunos mais velhos. É válido pensar que todas as abordagens de leitura são utilizáveis e que podemos, como professores, fazer uma adaptação a cada uma delas de acordo com a nossa turma. Baseadas no texto da Universidade de Londres, e Roger Beard, faremos uma análise de algumas estratégias a seguir: Aprendizagem cooperativa Todos os alunos fazem uma leitura coletiva e depois discutem sobre a compreensão do texto. Nessa abordagem, os alunos participam desde o início da leitura no seu modo coletivo. Trabalhei em uma escola construtivista em que era muito comum essa abordagem. Sentávamos todos no chão em círculo e cada aluna fazia a leitura de uma parte do texto. Após o término do capítulo, discutimos sobre a compreensão da história e dávamos inicio novamente a leitura. Desta maneira, os alunos participavam ativamente da história e eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 47 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento48 não havia tempo nenhum tipo de distração. A aprendizagem coletiva pode ser feita . Monitorar a compreensão O leitor deve fazer uma compreensão do texto enquanto realiza a leitura, ele pode fazer uma releitura para melhorar a compreensão do texto. No processo de monitoramento, o leitor faz uma analise central do texto para depois usufruir de fato desse processo. Estrutura do enredo Nessa estratégia o leitor é colocado em alguns posicionamentos nos quais deve responder ou perguntar: a quem; o quê; onde; quando; por quê. Após o leitor fazer a leitura do texto, ele usufrui desse processo de forma mais regrada, ou seja, para a sua compreensão, ele deve de fato responder as perguntas que ele mesmo indagou. Não é muito comum essa abordagem nos dias de hoje porque demanda muito tempo de compreensão. Organizadores semânticos e gráfi cos O professor pede ao aluno a representar o texto em forma de fi guras, sejam gráfi cos ou desenhos. Todas as formas de expressão são consideradas texto, até mesmo fi guras ou desenhos. Nessa abordagem, o aluno deve criar dentro do contexto proposto o texto através da imagem que tiver em mente, ou seja, ele irá fazer uma representação do texto através de fi guras. É um texto em outra forma. eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 48 20/11/2019 16:41:08 Alfabetização e Letramento 49 Responder Perguntas Essa é a prática mais comum utilizada nas escolas. O aluno deve responder as perguntas baseadas na compreensão do texto. Muitas escolas ainda adotam esse único método de leitura. Geralmente as perguntas são de fácil compreensão dentro do texto ou muito óbvias.Caso você queira também utilizar esse método com seus alunos, faça perguntas que instiguem uma refl exão e que o aluno tenha que fazer uma releitura do texto. Muitas universidades utilizam essa forma de interpretação, porém a resposta está intrínseca no texto e não exposta. Resumo Muito usual também nas escolas. Após a leitura o leitor deve colocar no papel as principais ideias contidas no texto. O resumo serve para que o aluno faça uma releitura e aponte os pontos principais do texto. Pode ser muito útil em muitos casos, porém não podemos esquecer que muitos alunos se sentem desmotivados com essa prática. Deve haver uma proposta diferente, uma inovação, só assim haverá estímulo. Dentre as abordagens de leitura, qual você aplicaria mais vezes em sala de aula? TESTANDO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 49 20/11/2019 16:41:09 Alfabetização e Letramento50 O uso da metodologia se dá pela forma como o docente passa a informação ou atividade, portanto vale ressaltar que o que pode dar certo em uma sala, pode não dar certo em outra. Você, como professor, deverá conhecer seus alunos e só assim poderá fazer uma separação de abordagem. Algumas abordagens podem estimular alguns alunos enquanto outras podem simplesmente criar um pânico de leitura para eles. Faça uma analise da turma, converse com eles, conte quais são seus objetivos para tal posicionamento. Procure entendê-los e fazer com que eles falem a “mesma língua” que você. Não adianta você escolher uma abordagem muito criativa, se os alunos não entenderem qual o verdadeiro objetivo dessa abordagem. Lembre-se que você é aquela pessoa que irá dar o leme para eles remarem, você não pode remar por eles, deixe os fazer isso sozinhos, cada um a seu tempo e sua individualidade. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: “Como estimular a leitura na alfabetização” (MANSANI,MARA). Acessível pelo link: https://bit. ly/2RqWKh5. (Acesso em 21/01/19) SAIBA MAIS++ eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 50 20/11/2019 16:41:09 Alfabetização e Letramento 51 PROCESSOS E MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO UNIDADE 02 eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 51 20/11/2019 16:41:09 Alfabetização e Letramento52 Prezado(a) aluno(a), Nossa jornada ainda nem começou! Temos muito pela frente para que você possa compreender todos os meios que permeiam essa disciplina tão importante na sua formação. Na verdade, nossa intenção é que você não somente se aproprie de toda estrutura teórica, mas que possa fazer experimentação de todo conteúdo quando estiver vivenciando na sua prática pedagógica. Nesta unidade, serão abordados temas pertinentes à linguagem escrita e suas implicações, faremos uma análise sobre a aquisição da língua escrita, a importância que essa prática tem em nosso meio social e para a criança, assim como todos os processos que são envolvidos nesta etapa. Falaremos, também, sobre como a criança faz a apropriação dessa linguagem e quais os meios que ela percorre para chegar no que defi ne-se como satisfatório. Além disso, precisamos ter o conhecimento sobre os métodos de alfabetização no seu sentido global e fonético, não somente baseados em teorias, mas em vivências dentro de sala de aula. Por fi m, falaremos um pouco mais sobre as estratégias de leitura, agora mais focadas em ambientes específi cos. Esperamos que você faça um bom uso desse material e que seus conhecimentos possam ser expandidos. Sugerimos que faça as atividades propostas, participe dos fóruns, realize leituras extraclasse, enfi m, seja parte integrante nesse processo! Bons estudos! INTRODUÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 52 20/11/2019 16:41:09 Alfabetização e Letramento 53 1 2 3 4 Olá, seja muito bem-vindo a nossa Unidade 2! Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profi ssionais até o término desta etapa de estudos: Entender o conceito sobre a aquisição da linguagem escrita por meios fi losófi cos e teóricos. Adquirir conhecimentos específicos através dos processos que permeiam a apropriação da língua escrita. Compreender como são utilizados os métodos de alfabetização e quais suas principais características. Reconhecer as estratégias da leitura como parte integrante no processo de formação do indivíduo. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! OBJETIVOS eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 53 20/11/2019 16:41:09 Alfabetização e Letramento54 A aquisição da língua escrita Antes de iniciarmos, gostaria que você fi zesse uma refl exão sobre esse conceito, com base em suas vivências pessoais. Tente recordar qual foi o processo que sua professora utilizou com você para que chegasse a escrever? Houve alguma difi culdade ou algo que tenha te marcado? Você verá que a aquisição da língua escrita não é tão simples como podemos imaginar, temos que levar em conta muitos fatores que envolvem a realidade da criança. Um dos fatores culminantes está no que diz respeito ao meio cultural em que a criança está inserida. Infelizmente, ainda nos atuais muitos profi ssionais não estão preocupados sobre esse tema, isso porque simplesmente acreditam que os métodos de alfabetização podem auxiliar nessa aquisição. Muito pelo contrário, quanto mais informações tivermos sobre a criança, maior será o processo de aquisição. Língua, fala e cultura Na unidade anterior você estudou as diferenças entre língua falada e língua escrita. Enquanto a língua falada é dinâmica e sofre sempre modifi cações, a língua escrita é mais regrada e não tem tantos dinamismos quanto a outra. Mas qual seria a relevância disso no processo da aquisição da escrita? Vamos imaginar duas situações: 1) Uma criança de classe média alta, sendo alfabetizada em uma escola particular onde ela está inserida em um projeto pedagógico fundamentado na visão construtivista; 2) Uma criança de classe média baixa, num processo de alfabetização em uma escola pública em que seu método pedagógico é fundamentado em meios tradicionais. A escola ainda utiliza a Cartilha para alfabetizar a criança. Imaginou essas duas situações? eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 54 20/11/2019 16:41:09 ARS80 Realce CONCLUSÃO ARS80 Realce Alfabetização e Letramento 55 Ótimo! Então procure responder, baseado em todo o material que estudou até o momento: Você acredita que ambas as crianças, inseridas em um meio social e cultural completamente diferentes, terão as mesmas condições no que diz respeito aos métodos de alfabetização e aquisição da língua? Em 1970, Frank Smith propôs que a criança tem capacidade de aprender de forma tão natural quanto ao ato de falar. Esse processo depende também do meio social em que ela vive, pois isso seria muito signifi cativo e determinante. Ele defi ne um ambiente signifi cativo”, destinado ao seu meio social em que a criança está inserida, esse ambiente pode – até mesmo – ser motivador para que ocorra o processo naturalmente. É o que ele mesmo diz em (SMITH,1989, p 237): Tudo que as crianças precisam para dominar a linguagem falada, tanto para produzi-la por si mesmas quanto, mais fundamentalmente, para compreenderem sua utilização pelos outros, é ter a experiência de usar a linguagem em um ambiente signifi cativo. As crianças aprendem facilmente sobre a língua falada, quando estão envolvidas em sua utilização, quanto esta lhe faz sentido. E, da mesma forma, tentarão compreender a linguagem escrita se estiverem envolvidas em sua utilização, em situações onde esta lhes faz sentido e onde podem gerar e testar hipóteses. CITAÇÃO eBook Completo para Impressao - Alfabetizacao e Letramento - Aberto.indd 55 20/11/2019