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FRENTE 81Editora Bernoulli MÓDULOFÍSICA Estudamos o campo e o potencial elétrico criados em volta de uma carga elétrica (a fonte). Vimos que o campo está relacionado com a força elétrica, enquanto o potencial está relacionado com a energia que essa carga transmite para uma carga situada à sua volta (a carga de prova). Nos módulos anteriores, discorremos um pouco sobre os condutores de eletricidade. Aqui, os conceitos e as expressões matemáticas de campo e potencial elétrico que aprendemos serão úteis para estudarmos os condutores mais detalhadamente. Mesmo quando neutro, um condutor dispõe de cargas elétricas livres (ou pouco ligadas à rede metálica) capazes de fluir facilmente através do seu interior, quando um campo elétrico estiver agindo sobre elas. Iniciaremos o estudo sobre os condutores discutindo a condição de equilíbrio eletrostático de um condutor. A seguir, veremos que, para essa condição, o campo elétrico no interior de qualquer condutor eletrizado vale zero. Isso nos levará à discussão de um fenômeno elétrico muito importante, conhecido como blindagem eletrostática. Na segunda parte deste módulo, estudaremos o potencial elétrico de condutores em equilíbrio eletrostático. Ao longo do texto, expressões para calcular o campo e o potencial elétrico criados por condutores esféricos serão apresentadas. Essas expressões nos ajudarão a quantificar o fenômeno da ruptura da rigidez dielétrica nas proximidades desses condutores. O EQUILÍBRIO ELETROSTÁTICO Considere que uma esfera condutora tenha sido eletrizada negativamente pelo atrito com um tecido. A figura 1 mostra essa esfera. A carga negativa que ela adquiriu não flui através do bastão e do corpo da pessoa, porque o bastão é feito de um material isolante. Durante essa eletrização, os elétrons transferidos do tecido para a esfera sofrem repulsão elétrica entre si, e ocorre uma movimentação de elétrons na superfície do condutor. Nesse local, os elétrons em excesso ficam o mais distante possível uns dos outros. Como você sabe, esse deslocamento interno de cargas é possível porque a esfera é condutora. Se ela fosse feita de um material isolante, como o vidro, a carga negativa ficaria concentrada na região friccionada. – – – – – – – – – – – Figura 1: A carga elétrica de um condutor se distribui sobre a sua superfície externa. Durante o processo de eletrização da esfera, o movimento de elétrons em sua superfície ocorre muito rapidamente. Quase que imediatamente após a interrupção do atrito do tecido contra a esfera, os elétrons em excesso já ficam posicionados, uniformemente distribuídos na superfície da esfera, de modo que não há movimento ordenado de cargas. Nesse estado, dizemos que o condutor está em equilíbrio eletrostático. Se a esfera da figura 1 tivesse sido atritada contra outro material, de modo que a região friccionada ficasse com uma carga positiva, a redistribuição dessa carga pela superfície da esfera aconteceria da mesma forma. Nesse caso, a carga positiva presente no local da fricção atrairia elétrons das outras partes da esfera. O equilíbrio eletrostático seria atingido rapidamente, de forma bastante semelhante ao caso anterior. No caso de condutores não esféricos, a carga elétrica também se distribui em sua superfície externa, porém, não uniformemente. Nas partes com menor raio de curvatura, como as pontas, observamos uma maior concentração de carga elétrica. Por isso, o campo elétrico no meio que envolve o condutor é mais intenso nas vizinhanças de pontas. A figura 2 mostra um condutor anesférico eletrizado positivamente. As linhas mostradas na figura são as linhas de força do campo elétrico do condutor. Observe a maior densidade de cargas na ponta esquerda do condutor e a maior intensidade do campo elétrico (maior concentração de linhas) presente no ar próximo desse local. Condutores 05 D 82 Coleção Estudo ++ + + + + + + + + ++ + + + ++ ++++ +++ Figura 2: Distribuição não uniforme da carga elétrica sobre a superfície de um condutor anesférico. O comportamento dos condutores de concentrar cargas nas pontas é conhecido como o poder das pontas. O princípio de funcionamento de um para-raios baseia-se no poder das pontas. Um para-raios é uma haste metálica aterrada na base e com pontas na extremidade superior. Quando uma nuvem eletrizada passa perto do local onde o para-raios foi instalado, o campo elétrico entre a nuvem e a terra torna-se mais intenso em torno das pontas do para-raios. Por isso, a probabilidade de a rigidez dielétrica do ar ser rompida perto dessas pontas e de a descarga elétrica ocorrer entre a nuvem e o para-raios é maior do que em outros locais. A seguir, vamos aprender a calcular o campo e o potencial elétrico em um condutor em equilíbrio eletrostático. Antes, destacamos o seguinte resumo desta seção: Um condutor está em equilíbrio eletrostático quando nele não ocorre mais o movimento ordenado de suas cargas livres. Nessa condição, a repulsão elétrica leva a uma distribuição de cargas na superfície externa do condutor, com uma maior concentração de cargas nas regiões de menor raio de curvatura, como as pontas. O CAMPO ELÉTRICO DE UM CONDUTOR EM EQUILÍBRIO ELETROSTÁTICO Nesta seção, vamos analisar o campo elétrico gerado por um condutor eletrizado. Primeiro, vamos analisar o campo elétrico no interior do condutor. Estando em equilíbrio eletrostático, as cargas livres do condutor não se deslocam ordenadamente em uma direção. Por isso, concluímos que o campo elétrico, no interior do condutor, é nulo. Se houvesse campo elétrico interno, as cargas livres sofreriam a ação de forças elétricas e se movimentariam ordenadamente numa certa direção. Para a condição de equilíbrio eletrostático, o campo elétrico na superfície externa do condutor existe, mas a sua direção é perpendicular à superfície. Isso pode ser observado ao longo de toda a superfície do condutor mostrado na figura 2. Como as cargas da superfície não se movimentam ordenadamente, o campo elétrico não pode apresentar uma componente tangencial. Se esta existisse, ela causaria o aparecimento de uma força elétrica tangencial sobre as cargas, que se moveriam sobre a superfície do condutor, contrariando a situação de equilíbrio eletrostático. A figura 3 mostra a tendência de movimento de um elétron livre na superfície externa de um condutor, que acaba de ser eletrizado, durante o rearranjo de suas cargas. Nesse caso, a direção do campo elétrico é inclinada em relação à superfície. A componente tangencial do campo existe apenas durante o curto intervalo de tempo que precede o equilíbrio eletrostático. Observe que o lado esquerdo do condutor possui uma carga positiva maior que o lado direito. Como as curvaturas dos dois lados são parecidas, existe um desequilíbrio. Por isso, os elétrons se movimentam para a esquerda. + + + + +++ ++ + + + + + + + Força sobre um elétron livre Campo elétrico Figura 3: Movimento de cargas na superfície de um condutor que não se acha em equilíbrio eletrostático. É óbvio que, em volta de um condutor eletrizado, mesmo para a condição de equilíbrio eletrostático, existe campo elétrico, pois qualquer carga de prova ali colocada experimentará a ação de uma força elétrica exercida pelo condutor. Isso pode ser constatado por meio de experiências simples, como ilustra a figura 4. As setas em vermelho indicam os sentidos do campo elétrico da esfera maior. Como a carga desta é positiva, o campo elétrico criado por ela diverge a partir da sua superfície. As duas pequenas esferas, também eletrizadas positivamente, sofrem forças no mesmo sentido do campo elétrico. + + + + + + + ++ + + + + + + + + + + + + + + + + Figura 4: Experiência para confirmar que existe campo elétrico em volta de um condutor eletrizado. Frente D Módulo 05 FÍ SI C A 83Editora Bernoulli CAMPO ELÉTRICO DE UMA ESFERA ELETRIZADAAgora, vamos aprender a calcular o campo elétrico no exterior de uma esfera condutora. Já vimos que o campo interno em qualquer condutor em equilíbrio eletrostático vale zero. No caso de uma esfera, pouco importa se ela é maciça, oca ou se é simplesmente uma casca esférica; o campo interno vale zero. Para todas essas geometrias, a carga acha-se uniformemente distribuída na superfície. O campo externo de uma esfera condutora, com carga superficial Q, apresenta uma simetria idêntica àquela do campo de uma carga pontual Q, localizada no centro da esfera. Por isso, o campo externo de uma esfera eletrizada pode ser calculado como se toda a sua carga estivesse concentrada em seu centro. Matematicamente, temos: E KQ r = 2 Nessa expressão, Q é a carga da esfera, K é a constante eletrostática do meio dielétrico onde a esfera se acha, e r é a distância do centro da esfera até o ponto onde desejamos calcular o campo elétrico. Em hipótese alguma essa expressão pode ser usada para rda casca) e para b