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ISSN 2176-1396 EDUCAR E CUIDAR NA CRECHE: MUDANÇAS E CONTINUIDADES Ana Luisa Nogueira de Amorim 1 - UFPB Grupo de Trabalho - Educação da Infância Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo Este texto aborda a temática do cuidar e educar na creche na inter-relação entre as concepções teóricas e os dados empíricos de uma pesquisa concluída e de dois relatórios de estágio supervisionado de estudantes do curso de Pedagogia. O texto está estruturado em quatro partes: a primeira discute as questões relativas ao cuidar e educar; a segunda discute os objetivos diferenciados da organização de creches e pré-escolas no Brasil; a terceira o binômio cuidar e educar e a especificidade da Educação Infantil; e a quarta discute a pesquisa realizada em tese de doutorado, concluída em 2011, e as observações registradas em dois relatórios de estágio supervisionado em Educação Infantil. O estágio supervisionado dos dois estudantes foi realizado no mesmo município da pesquisa de tese e as observações realizadas pelos estudantes traziam traços semelhantes aos observados no estudo. Por isso, surgiu o interesse em verificar as mudanças e permanências nas ações desenvolvidas nas creches. Por fim, o texto apresenta as considerações finais sobre as instituições de Educação Infantil que ainda apresentam uma perspectiva assistencialista e dicotomizam o cuidar e o educar nas creches. Tal dicotomia foi verificada nas concepções que orientam as práticas observadas nas instituições; na falta de clareza em relação à indissociabilidade entre o cuidar e o educar, percebida através das falas das professoras; bem como na divisão do trabalho entre professoras e auxiliares, uma vez que nas instituições as atividades pedagógicas eram de responsabilidade das professoras e as ações de higiene, alimentação e sono eram de responsabilidade das auxiliares de sala. Palavras-chave: Educar. Cuidar. Creche. Educação Infantil. Introdução Este artigo aborda a relação educar e cuidar a partir do trabalho pedagógico desenvolvido com crianças em creches públicas de um município paraibano. Trata-se de um trabalho que aborda a temática na interface entre as concepções teóricas, os dados empíricos 1 Doutora em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Professora Adjunta do Centro de Educação da UFPB. E-mail: analisaamorim@hotmail.com. 3822 de pesquisa de tese e os dados empíricos analisados em relatórios de estágio supervisionado de estudantes do curso de Pedagogia. No aporte teórico, tomamos por base as contribuições de Kramer (2003, 2006), Kuhlmann Jr (2000) e Oliveira (2005) para fazer um breve histórico do atendimento às crianças em creches e pré-escolas no Brasil. E no tocante às contribuições a respeito do cuidar e do educar, além dos autores citados, utilizamos os estudos de Tiriba (2005), Nascimento et al. (2005) e Oliveira (2012). Na análise dos dados empíricos, tomamos como referência os dados de nossa tese de doutorado e os relatórios de estágio supervisionado de Santos (2013) e Silva (2013). A escolha desses estudos se deu em razão de terem sido realizados em um mesmo município paraibano. O texto está estruturado em quatro partes. Na primeira parte, apresentamos questões relativas ao cuidar e educar. Na segunda, apresentamos a discussão a respeito dos objetivos diferenciados que foram determinando a criação e organização das creches e pré-escolas no Brasil. Na terceira parte, discutimos o binômio cuidar e educar que foi se constituindo como especificidade da Educação Infantil. E na quarta parte apresentamos e discutimos alguns achados da pesquisa de tese, relacionando-os com dois relatórios de estágio de estudantes do curso de Pedagogia. Por fim, apresentamos as considerações finais do texto. Educar e cuidar: questões primeiras Falar em Educação Infantil implica falar em criança e em infância. E comumente a criança foi compreendida em oposição ao adulto, ou melhor, naquilo que lhe faltava para “tornar-se” adulto. Assim, acreditava-se que lhe faltava idade, tamanho, maturidade, sociabilidade etc. Esta, entretanto, não é a única concepção corrente. Uma outra concepção compreendia a criança como adulto em miniatura, não fazendo distinção entre ambos. Tempos depois é que a criança seria reconhecida como um ser diferente, embora a referência continuasse a ser o adulto e a criança continuasse a ser definida naquilo que lhe faltava. Tal concepção a compreendia como um ser incompleto e imperfeito. Outra concepção a respeito da criança é a que a considerava como um ser frágil, ingênuo, inocente e gracioso que precisava ser cuidado, protegido e “paparicado” (KRAMER, 2003; SARMENTO, 2004). Uma outra definição foi se dando pelo critério de idade, ou seja, ser criança significa estar na faixa etária compreendida entre zero e dez anos de idade, que caracteriza a infância, ou a primeira etapa de vida do ser humano após o nascimento. O critério de definição pela 3823 idade apresenta limites ao se considerar que a esse fator estão associados determinados papeis sociais e são requeridos alguns comportamentos e desempenhos específicos – quer reais, quer esperados – que se distinguem de acordo com o contexto familiar e a classe social nos quais as crianças estão inseridas (OLIVEIRA, 2005). Analisando as concepções de infância, percebe-se que as dificuldades em se estabelecer uma definição não são diferentes em relação à definição de criança e comumente adota-se uma concepção abstrata de infância, acreditando-se que existe uma “natureza infantil” homogênea e comum a todas as crianças. Partindo das concepções de criança, pode-se afirmar que as concepções de infância caminharam em duas perspectivas contraditórias, mas que acabaram por formar a concepção atual. De um lado, a infância foi concebida como o momento da vida em que é necessário cuidar e “paparicar” a criança para preservar a sua natureza infantil. De outro, a ideia de infância como o momento da vida em que é preciso “moralizar” e “moldar” a criança para desenvolver sua razão e seu caráter (KRAMER, 2003). Assim, a concepção moderna de infância é o resultado dessas duas concepções contraditórias. Ainda segundo a autora, essas concepções, na realidade, não se opõem, mas se caracterizam como [...] elementos básicos que fundamentam o conceito de criança como essência ou natureza, que persiste até hoje: considera-se a partir desse conceito, que todas as crianças são iguais (conceito único), correspondendo a um ideal de criança abstrato, mas que se concretiza na criança burguesa (KRAMER, 2003, p. 18). O que se pode depreender do exposto até aqui em relação aos conceitos de criança e de infância, é que nem sempre existiram, nem há uma única compreensão. As concepções existentes têm variado de acordo com a sociedade, a época e a classe social à qual pertencem as crianças. Um dos autores que contribuiu para essa compreensão da evolução histórica do conceito de infância foi Philippe Ariès que relatou a evolução histórica do sentimento de infância e o surgimento da consciência da particularidade infantil. A partir de seus estudos, o autor situa em torno do século XVI uma mudança fundamental no estatuto da infância no mundo ocidental e afirma que deste momento em diante a criança seria concebida em sua especificidade e não mais como um adulto em miniatura (ARIÈS, 1978). O autor situa, ainda, o surgimento da família nuclear burguesa como responsável por essa mudança de concepção. Nesse contexto, a criança passaria a ser concebida e tratada 3824 como um ser dotado de identidade própria, requerendo cuidados e atenção especiais. Entre esses cuidados, destacam-se a construção e a valorização dos espaços planejados para a ação escolar. Alguns autores, a exemplo de Lopes e Galvão (2001) e Soares (2001),apresentam críticas à obra de Ariès, principalmente com relação ao uso da iconografia e da dificuldade de se reconstituir historicamente a infância a partir das representações feitas por adultos. Apesar das críticas, não se pode negar a contribuição de sua obra para a compreensão da evolução histórica da concepção de infância. A partir dessa contribuição, uma concepção mais atual de infância compreende-a não apenas como uma fase biológica, mas como uma construção histórica e social. Creches e pré-escolas: entre a assistência e a educação Falar sobre as instituições de atendimento à criança pequena implica falar sobre os objetivos diferenciados que foram determinando a criação de creches e pré-escolas no Brasil. Historicamente, creches e pré-escolas foram se organizando de forma diferenciada de modo que a creche passou a ser sinônimo de assistência e a pré-escola passou a ser sinônimo de preparação para a escolaridade posterior. Tomando por base os estudos de Kramer (2003), Kuhlmann Jr (2000) e Oliveira (2005), podemos afirmar que foi no final dos anos de 1800 que o Brasil começou a despertar para a necessidade de proteção à infância. Nesse contexto, foram criados, entre o final dos anos de 1800 e início dos anos de 1900, as primeiras instituições de atendimento à criança. Primeiro vieram as instituições de tutela e guarda para as crianças abandonadas e depois as primeiras creches e jardins-de-infância destinados ao atendimento de crianças carentes. Essas primeiras instituições tinham um caráter privado e filantrópico e apresentavam uma preocupação médico-higienista em relação à saúde das crianças. Nesse contexto, as instituições se caracterizaram, inicialmente, como o próprio lar. Com o crescimento do operariado urbano a partir dos anos de 1920, as creches passaram a ser concebidas como lugar de guarda dos filhos de operários que viam nessa instituição o lugar onde deixá-los enquanto trabalhavam e, inclusive, passou a figurar nas legislações trabalhistas dos anos de 1940. No tocante às pré-escolas, Kramer (2003, 2006) e Kuhlmann Jr (2000) afirmam que um maior desenvolvimento da pré-escola começou a ocorrer em meados da década de 1970, 3825 período em que o Estado passou a demonstrar uma maior preocupação com o caráter educativo das instituições de atendimento à criança pequena. Nesse mesmo período, eram difundidas no Brasil as ideias da abordagem da “privação cultural” que afirmava que as crianças das classes menos favorecidas eram “carentes”, “deficientes” ou “inferiores” em relação às crianças das classes mais abastadas da sociedade. Objetivando suprir essas “carências” socioculturais, bem como as carências de saúde, alimentação, de apoio afetivo e psicológico, de higiene, entre outros, foram propostos os programas de cunho “compensatório”, visando “compensar” ou “remediar” as “carências” das crianças (KRAMER, 2003). Decorrente dessa abordagem da privação cultural defendia-se a educação pré-escolar como capaz de solucionar os problemas educacionais da, então, escola de 1º grau; pois através do acesso a ela, a criança carente poderia “suprir” suas deficiências e as demais crianças poderiam desenvolver ainda mais suas capacidades cognitivas. Em ambas as situações, acreditava-se que essa preparação anterior à escola de 1º grau diminuiria, ou até sanaria, os graves problemas de evasão e repetência presentes na escola brasileira. Nesse desenrolar histórico, se esboçou os dois modelos de atendimento às crianças no Brasil, dicotomizando creches e pré-escolas que foram se diferenciando quanto aos objetivos e à destinação social. Assim, a creche foi sendo compreendida como lugar de guarda, tutela, cuidado e assistência da criança pobre; enquanto a pré-escola como lugar da educação, como espaço de preparação para a escola, voltada para as crianças das classes mais favorecidas. Tal dicotomia, portanto, não foi consequência de características próprias dessas instituições, mas sim o resultado de uma construção histórica, política e social que foi caracterizando e dicotomizando o atendimento às crianças em favor de um recorte de classe social; fato comum a construção social, histórica, política, econômica e educacional brasileira (KRAMER, 2003, 2006; FARIA, 2005). A concepção atual entende que toda criança brasileira tem direito a um atendimento de qualidade em instituições de Educação Infantil, tenham elas que denominação for. Inclusive, a área propunha que os termos creches e pré-escolas não fossem utilizados na legislação, no sentido de buscar superar essas dicotomias que caracterizaram, historicamente, o atendimento nessas instituições. Entretanto, a legislação brasileira acabou por manter os termos, mas com uma conotação diferente. No atual contexto, creches e pré-escolas são concebidas como instituições de Educação Infantil destinadas ao atendimento de crianças menores de seis anos de idade, e 3826 ambas devem visar o desenvolvimento integral da criança através de ações indissociáveis de cuidado e educação; distinguindo-se, apenas, no que se refere a faixa etária a que oferecem o atendimento, como está posto na Constituição Federal (BRASIL, 1988), na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009). Educar e cuidar: para além da rima na construção da especificidade da Educação Infantil Ao abordar as concepções de creches e pré-escolas que permearam, historicamente, o atendimento à criança pequena no Brasil afirmamos que estas instituições foram diferenciando seus objetivos de atendimento em razão de uma dimensão de classe social. Afirmamos, também, que a creche passou a ser sinônimo de atendimento à criança carente, assumindo uma perspectiva assistencial e que se preocupava mais com o cuidar. A pré-escola, por sua vez, passou a ser sinônimo de atendimento às crianças mais favorecidas, caracterizando-se como um espaço de preparação para a escola, preocupando-se mais com o educar. Nesse sentido, pergunta-se: o que significa cuidar em Educação Infantil? O que significa educar em Educação Infantil? É possível educar sem cuidar ou cuidar sem educar? Abordando a origem etimológica da palavra cuidar, Tiriba (2005) afirma que ela possui a mesma raiz latina da palavra pensar, pois ambas vêm de cogitare. Em português, cogitar seria a versão erudita e cuidar a versão popular do termo, que possui os significados de solicitude para com o outro e de pensamento, reflexão. Com o passar do tempo, o uso do termo no sentido de pensar foi sendo substituído pelo próprio termo pensar. Assim, cogitare passou a assumir apenas o sentido de cuidar, incluindo as dimensões de cuidar de si e de cuidar do outro. Os estudos da autora, ao abordar as questões etimológicas, de gênero, as relações entre razão e emoção, entre corpo e mente e entre ser humano e natureza; permitem compreender porque “o cuidar é o pólo do desprestígio porque está relacionado à emoção, e não à razão, e, ademais, às mulheres, que – de acordo com a tradição greco-romana e, depois, a tradição judaico-cristã – seriam inferiores aos homens” (TIRIBA, 2005, p. 71). O termo educar, por sua vez, é originário do termo latino educare que foi assumindo diversos significados ao longo dos tempos e em diferentes espaços geográficos e contextos sociais e históricos. Entretanto, pode-se afirmar, sucintamente, que o termo possui o 3827 significado de instruir, ensinar, promover a educação de um indivíduo ou conjunto de indivíduos, proporcionar o desenvolvimento humano, levar o indivíduo a construir conhecimentos, a desenvolver competências e habilidades, entre outros. Nessa perspectiva, o educar está mais relacionado aos processos cognitivos, ao conhecimento, a mente, a inteligência, a razão; enquanto o cuidar está mais relacionado ao corpo, a emoção e a sensibilidade(NASCIMENTO et al., 2005; TIRIBA, 2005). E como as palavras “[...] são prenhes de significados existenciais, porque construídos ao longo da história da humanidade” (TIRIBA, 2005, p. 69), é possível compreender que o binômio cuidar e educar foi se configurando como uma dicotomia no campo da Educação Infantil e foi conformando os objetivos das diferentes instituições (as creches ficaram responsáveis pelo cuidar e as pré-escolas pelo educar); bem como nas funções exercidas pelas profissionais que atuam na área (as professoras se encarregam de educar e as monitoras e auxiliares se encarregam de cuidar). De acordo com Nascimento et al. (2005, p. 65), a dicotomia entre educar e cuidar também é resultado da organização histórica e social brasileira, “[...] e não podia ser de outra forma, já que a desigualdade que marcou a história da sociedade brasileira está presente nas condições de vida das populações, nas distribuições dos bens econômicos e culturais, nas práticas sociais e nos fios tênues das palavras [...]”. Desse modo, em uma sociedade em que a maior parcela da população é pobre e com relações sociais ainda pautadas nas perspectivas de patriarcalismo e com resquícios de servidão, e em que a implementação de direitos acaba sendo entendida como doação ou favo;, é possível compreender porque o atendimento às crianças oriundas das camadas populares tenha se configurado como um atendimento de qualidade inferior, através de arranjos alternativos e pautados na perspectiva assistencialista, preocupando-se, apenas, com o cuidar no sentido do atendimento às necessidades básicas como saúde, alimentação e segurança. Para Nascimento et al. (2005, p. 64), a separação entre o cuidar e o educar e o desprestígio em relação ao primeiro aspecto encontra explicação no fato do Brasil ter sido um país escravagista, pois para a autora só uma sociedade que teve escravos poderia imaginar que as tarefas ligadas ao corpo e as atividades básicas para a conservação da vida seriam feitas por pessoas diferentes daquelas que lidam com a cognição! Só uma sociedade que teve essa expressão máxima da desigualdade, que teve seu espaço social dividido entre a casa- grande e a senzala, poderia separar essas duas instâncias da educação e entender que cuidar se refere à higiene – e não ao processo integrado envolvendo a saúde, os afetos e valores morais. 3828 Visando superar essa separação, o binômio educar e cuidar transformou-se no objetivo e na especificidade da Educação Infantil. No campo teórico, o consenso em torno do binômio se deu no final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990, quando se questionava a visão assistencial de guarda, tutela e proteção da creche; e a visão preparatória, relativa ao ensino e a dimensão escolar da pré-escola (AZEVEDO; SCHNETZELER, 2005; CORRÊA, 2003; CERISARA, 1999; FARIA, 2005). Nesse sentido, entendia-se que “[...] os dois polos eram arriscados um sem o outro, porque a educação infantil não pode ser compreendida como espaço onde se instrui, nem como lugar de guarda e proteção, de cuidar e assistir” e, assim, superava-se “[...] pelo menos no plano teórico, a visão da creche como espaço de guarda ou tutela e a da pré-escola como espaço da preparação para a escolaridade” (NASCIMENTO et al., 2005, p. 61). No campo legal, o binômio cuidar e educar está presente desde os debates em torno da Constituição Federal (BRASIL, 1988) e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996). E foi referenciado em um documento oficial, pela primeira vez, na Política Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1994), estabelecendo que a educação da criança pequena deveria incorporar as duas dimensões. Este último documento, deixou de ter validade em 2006, quando o Ministério da Educação lançou o documento Política nacional de educação infantil: pelo direito das crianças de zero a seis anos à educação no qual reafirma que “a Educação Infantil deve pautar-se pela indissociabilidade entre o cuidado e a educação” (BRASIL, 2005, p. 17). Diante da definição de que a Educação Infantil, oferecida em creches e pré-escolas, é a primeira etapa da educação básica e com a necessidade dessas instituições serem incorporadas aos sistemas de ensino, conforme expresso na LDB (BRASIL, 1996), “[...] era preciso integrar as atividades de cuidado, realizadas nas creches, com as atividades de cunho mais pedagógico desenvolvidas nas pré-escolas” (TIRIBA, 2005, p. 66). E a solução conceitual encontrada foi a adoção do binômio educar e cuidar. Assim, desde meados da década de 1990 o discurso oficial incorporou o binômio cuidar e educar como a especificidade da Educação Infantil, reconhecendo que as duas dimensões são indissociáveis. Nessa perspectiva, entende-se que não se pode educar sem cuidar e, portanto, o educar já engloba o cuidar. Entretanto, o que tem existido é uma separação histórica e social entre os termos e há uma dificuldade de reintegrá-los em decorrência da cisão entre corpo e mente, entre razão e emoção, entre ser humano e natureza, conforme explicita Tiriba (2005) em seu estudo. 3829 Em linhas gerais, o que se coloca como desafio para o campo da Educação Infantil é a necessidade de superação da dicotomia cuidar e educar no sentido de garantir que o binômio seja de fato assumido como objetivo e especificidade da Educação Infantil, compreendendo que a educação e o desenvolvimento integral da criança de 0 a 5 anos também exige ações específicas de cuidado em virtude da dependência que a criança tem em relação ao adulto nessa fase da vida. Educar e cuidar em creches públicas: do berçário à pré-escola O estudo de tese de Amorim (2011) e os relatórios de Santos (2013) e Silva (2013) não tinham como objetivo específico analisar a relação educar e cuidar na creche. Entretanto, acabaram abordando tal temática, pois as ações cotidianas praticadas com as crianças precisam se constituir como ações indissociáveis de educação e cuidado. Na tese pesquisei sobre o currículo em ação desenvolvido no berçário de 04 (quatro) creches públicas de um município paraibano. A análise dos dados empíricos da pesquisa nos informa que havia um currículo em ação no berçário das creches, embora as educadoras não tivessem consciência de sua existência, nem de como as ações praticadas por elas nas/com as crianças de 0 a 3 anos o estivessem constituindo cotidianamente. Assim, compreendemos que o currículo em ação foi se concretizando por meio da rotina da instituição, das ações de cuidado (alimentação, higiene e repouso/sono), das brincadeiras livres das crianças, das interações crianças-crianças e das poucas interações entre educadoras e crianças. Sobre a constituição desse currículo, a triangulação dos dados permite-nos a compreensão de que se deu de forma espontânea e improvisada. Dentre as possíveis explicações para isso, as análises nos informam que ainda persiste a falsa dicotomia entre cuidar e educar. Ao analisarmos os relatórios de estágio de alunos da graduação em Pedagogia que cursaram a disciplina Estágio Supervisionado II – Educação Infantil no período 2013.2, nos deparamos com dois relatórios desenvolvidos no município onde realizei a pesquisa. Daí surgiu o interesse em verificar as mudanças e permanências nas ações desenvolvidas nas creches. Analisando os relatórios, percebemos que um deles foi realizado em uma das creches que havíamos visitado em nossa pesquisa e outro em uma que não foi visitada pela pesquisadora. Também é preciso destacar que ambos os relatórios foram desenvolvidos em turmas de pré-escola e a pesquisa dela foi realizada no berçário. Entretanto, o que estamos 3830 explorando neste texto é a organização geral da instituição e suas práticas educativas, sem um maior detalhamento das questões pedagógicas nas atividades realizadas com as crianças. Primeiro o que nos chama a atenção é que no ano den2010quando a pesquisa de campo foi realizada a equipe pedagógica da Divisão de Educação Infantil (DEI) da Secretaria Municipal de Educação estava preocupada com as instituições que funcionavam em casas alugadas. Mas percebemos que esta realidade permanece, pois a creche onde Silva (2013, p. 01) realizou o estágio funciona em uma “uma casa que foi adaptada para receber a creche”. Já a creche onde Santos (2013) realizou o estágio, funciona em prédio próprio e possui instalações para funcionar como creche. Outro ponto comum é o fato de ambas não possuírem um Projeto Político Pedagógico (PPP) formalizado em um documento, fato que também chama atenção, pois em 2010 esta era uma preocupação da DEI que, inclusive, havia orientado a organização do PPP das creches nas reuniões mensais em 2009 (AMORIM, 2011). Assim, verificamos que tempos depois este documento ainda não foi elaborado pelas instituições. Sobre a rotina do trabalho nas instituições, também percebemos muitas permanências. Analisando os relatos de Silva (2013) e Santos (2013), percebemos que as duas creches seguiam praticamente a mesma rotina, que por sua vez era muito semelhante a observada em 2011. Em linhas gerais, nos momentos de alimentação a rotina era: as crianças maiores se alimentavam sozinhas e as menores eram alimentadas pelas educadoras. Como essas duas creches possuem refeitório, as crianças da pré-escola se deslocavam para se alimentarem neste local e as do berçário eram alimentadas na sala de atividades. Ainda sobre a alimentação, mais uma permanência pôde ser observada: o fato de não ser servido verdura às crianças. Silva (2013) relata isso, mas sem fazer nenhuma observação. Entretanto, Santos (2013, p. 06) relata e se posiciona a esse respeito quando afirma que [...] a hora do almoço, observamos que as crianças só comiam (e isto aconteceu todos os sete dias que estivemos ali), feijão arroz, macarrão e um tipo de carne. Um só pedaço de verdura não era oferecido às crianças. Ainda nos atrevemos a perguntar: As crianças não comem verdura? ‘Ah, eles não gostam de verdura’. Pusemo-nos a pensar: Será? Eles não comem em casa porque não gostam? Por que não foram educados para tal? Por que não tem? Será que o espaço de educação não seria o espaço ideal para reeducá-las a comer bem? [...] apenas uma resposta tínhamos segura: não seria por falta de verdura porque a geladeira estava simplesmente cheia de [...] todos os tipos de verdura, inclusive alfaces fresquinhas. Sobre este assunto, também havia chamado a atenção para o fato quando afirmamos que: 3831 Embora não seja objetivo deste trabalho analisar as refeições das crianças, gostaríamos de expor nosso estranhamento em relação ao cardápio servido nas creches, uma vez que pudemos observar que não foram servidos sucos, frutas, verduras ou legumes (cru ou cozido) nas refeições das crianças. Em nenhuma das visitas realizadas, vimos esses alimentos como parte do cardápio da creche, ao menos no horário da manhã (AMORIM, 2011, p. 251). Sobre isso, é importante salientar que os adultos são os responsáveis pela formação dos hábitos saudáveis de alimentação, uma vez que são eles quem escolhem, preparam, oferecem e alimentam as crianças. Importante, também, que se perceba que o próprio paladar das crianças vai se formando pelo contato com os alimentos que lhes são oferecidos pelos adultos. Assim, acreditamos que as instituições precisariam rever a oferta de alimentação para as crianças, caso contrários estas poderão crescer sem gostar de verduras e legumes. Outro ponto que nos chamou atenção foi que na pré-escola Santos (2013) observou algo que também havia observado no berçário: o fato das professoras permanecerem algum tempo sem realizar ações educativas com as crianças e estas permanecerem muito tempo ociosas em sala. As professoras afirmavam que estavam no momento de atividades ou brincadeiras livres, mas o que se observava eram crianças em situações de conflitos que eram intermediadas por reclamações e gritos das educadoras. Isso pode ser observado nos trechos abaixo: Como pudemos perceber, em todas as creches que visitamos, as educadoras colocavam cadeiras infantis perto da porta nas quais elas ficavam sentadas e observavam as crianças. Entendemos que essa escolha se dava por ser esse um lugar estratégico, do qual é possível visualizar/vigiar a sala como um todo e, além do mais, impede a saída de qualquer criança da sala (AMORIM, 2011, p. 296). Observamos também em todos os encontros que havia tido naquela creche que professores se limitavam em ficar toda manhã sentados na porta das salas a conversar [...] enquanto as crianças ficavam dentro das salas sob gritos, ordens e carões (SANTOS, 2013, p. 09). Sobre a infraestrutura das instituições, Santos (2013, p. 13) enfatiza que embora os documentos nacionais orientem as instituições no seu funcionamento, o que se observou foram problemas no que diz respeito a essas questões e afirma: Observamos na creche salas quentes, sem um ventilador, salas sujas, berçários insuficientes para o número de crianças, crianças dormindo no chão, banheiros quebrados, falta de material didático-pedagógico, falta de brinquedos, alimentação inadequada como foi dito no relato das visitas, crianças desrespeitadas em suas idiossincrasias etc. Esse relato de Santos (2013) confirma mais uma permanência, pois problemas de infraestrutura foram observados por nós, não apenas nas creches pesquisadas, mas em outras 3832 creches que foram visitadas no início da pesquisa, quando ainda nos aproximávamos e fazíamos a caracterização do campo de pesquisa. E o que se verificou é que estes permaneciam em 2013. Sobre o cuidar e o educar, Santos (2013, p. 07) traz duas falas de professoras de uma mesma creche que são emblemáticas: “educar e cuidar são inseparáveis, são duas faces da mesma moeda. Educamos quando cuidamos e cuidamos ao educar” (PROFESSORA 1); “aqui eu sou responsável pela parte da educação. Eu fico com a parte da educação” (PROFESSORA 2). Ou seja, em uma mesma instituição, duas professoras apresentam concepções opostas em reação ao cuidar e educar. Isso indica-nos que ainda não há clareza sobre o que de fato significa cuidar e educar de forma indissociável. Tal constatação também é discutida em alguns estudos, a exemplo dos de Oliveira (2012) e Azevedo e Schnetzeler (2005). Outro aspecto observado nos relatórios de Santos (2013) e Silva (2013) se refere à divisão do trabalho entre professoras e auxiliares de sala. Nas instituições onde o estágio supervisionado ocorreu, o que se verificou foi que as atividades pedagógicas eram realizadas pelas professoras e as ações de higiene e alimentação, bem como a preparação e o acompanhamento dos momentos de repouso e sono, eram realizadas pelas auxiliares; tal como constatamos na tese. Sobre a formação e o vínculo empregatício das profissionais que atuavam nas creches municipais, também não houve mudanças em relação ao que havia analisado na tese. Tanto Santos (2013), quanto Silva (2013) constataram que as professoras possuíam formação docente e as auxiliares de sala, em sua maioria, não possuíam a formação mínima exigida para o exercício da docência, que é o Ensino Médio, modalidade normal. Sobre o vínculo empregatício, constataram que a maioria das professoras das instituições eram concursadas e as auxiliares de sala eram contratadas. Tal fato demonstra a precarização do trabalho docente, bem como reafirma a dicotomia cuidar e educar, ainda presente nas creches municipais. Outra questão verificada e que se constitui como permanência é o fato de que para atuar nos berçários (com crianças de 0 a 3 anos) eram destinadas, apenas, auxiliares de sala. E para as turmas de pré-escola (com crianças de 4 e 5 anos), no turno da manhã havia professoras e no turno da tarde as crianças ficavam sob a responsabilidade das auxiliaresde sala. Outras permanências identificadas nessas instituições se referem a realização das atividades pedagógicas desenvolvidas com as crianças. Enquanto no berçário as “atividades 3833 livres” ocupavam a maior parte do tempo; na pré-escola havia uma maior preocupação com as atividades pedagógicas, realizadas pelas professoras no turno da manhã, à tarde as crianças, após o sono, realizavam as atividades livres. Mesmo com essa preocupação pedagógica, o que pudemos perceber foi que muitas das atividades foram realizadas, apenas, para preencher o tempo, sem um planejamento prévio. Essa falta de planejamento acabou por proporcionar muitos momentos em que as crianças brincavam livremente e interagiam entre si, sem uma mediação mais próxima das educadoras. Tal fato acabou, muitas vezes, causando disputas e brigas entre as crianças. Nesses momentos, o que se observou foi que as educadoras mediavam os conflitos com reclamações e frases imperativas, e não a partir do diálogo necessário ao desenvolvimento integral das crianças. Considerações finais Relacionando o que afirma o campo teórico na inter-relação com nossa tese e os relatórios de estágio de Santos (2013) e Silva (2013), podemos afirmar que as instituições de Educação Infantil deste município ainda apresentam uma perspectiva assistencialista, que dicotomiza o cuidar e o educar. Tal dicotomia pôde ser verificada nas concepções que orientam as práticas observadas nas instituições; na falta de clareza em relação à indissociabilidade entre o cuidar e o educar, apresentada nas falas das professoras; bem como na divisão do trabalho verificado, uma vez que nas instituições as “atividades pedagógicas” eram de responsabilidade das professoras e as “ações de cuidado” eram tarefas das auxiliares de sala. Outras questões que foram observadas e que se caracterizam como permanências nessas instituições, foi a observação de atividades educativas que eram desenvolvidas, apenas, para preencher o tempo, sem um planejamento prévio; o caráter disciplinador das ações e as frases imperativas que as educadoras falavam para as crianças; bem como o fato de que a maioria das ações eram feitas para as crianças e não com elas. Diante do exposto, o que ainda se coloca como desafio é a necessidade e reorientação nos modos de olhar o cuidado e a educação, revendo as concepções de cuidar para além da higienização e da assistência, e as concepções de educar para além da preparação para a escolarização futura. Fazendo-se necessário repensar a intencionalidade educativa que, muitas vezes, é confundida com escolarização precoce. 3834 Por fim, destacamos a necessidade de se enxergar a criança em sua totalidade e reconhecer suas especificidades infantis, o que requer a discussão de questões referentes à docência na Educação Infantil e a importância da formação. REFERÊNCIAS AMORIM, A. L. N. Sobre educar na creche: é possível pensar em currículo para crianças de 0 a 3 anos? 2011. 333 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2011. ARIÈS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1978. AZEVEDO, H. H. O.; SCHNETZELER, R. P. 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