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• . , • e ismo r1nc1 IOS , . as1cos PANORAMA Estudos de Mendel sobre a hereditariedade Aplicações dos princípios de Mendel Teste das hipóteses genéticas Princípios mendelianos em genética humana O nascimento da genética 1 Uma revolução científica A ciência é um empreendimento complexo que requer ob- servação cuidadosa de fenômenos naturais, reflexão sobre esses fenômenos e formulação de ideias testáveis sobre suas causas e seus efeitos. Com frequência, o avanço da ciência depende do trabalho de um único indivíduo perspicaz. Pense, por exemplo, no impacto causado por Nicolau Copérnico na astronomia, Isaac Newton na física ou Charles Darwin na biologia. Todos eles mo- dificaram o curso de sua especialidade científica por meio da in- trodução de ideias radicalmente novas. Na verdade, eles iniciaram revoluções científicas. Em meados do século 19, o monge austríaco Gregor Mendel, contemporâ- neo de Darwin, criou o alicerce de outra revolução na biologia, que acabou por dar origem a uma ciência totalmente nova - a genética. As ideias de Mendel, publicadas em 1866, sob o título "Experi- mentos na hibridização de plantas", ten- tam explicar o mecanismo de herança das características dos organismos. Mui- tas pessoas tentaram explicar isso antes, mas sem grande sucesso. Na verdade, Mendel comentou esses fracassos nos parágrafos introdutórios de seu artigo: eran [Apesar disso,] Aqueles que avaliarem o trabalho nessa área terão a certeza de que, entre todos os muitos experimentos rea- lizados, nenhum foi implementado em tamanha extensão e de maneira a tornar possível identificar quantas diferentes formas a prole dos híbridos apresentou, ou a organizar acertadamente essas formas de acordo com suas diferentes gerações, ou a identi- ficar definida mente suas relações estatísticas.* Em seguida, descreveu os próprios esforços para esclarecer o mecanismo de hereditariedade: Na verdade, é necessário um tanto de coragem para realizar um trabalho de alcance tão extenso; esse parece, porém, ser o único método correto para que finalmente encontremos a so- lução de uma questão cuja importân- cia não deva ser subestimada quanto à conexão com a história da evolução de f armas orgânicas. O artigo ora apresentado registra os resultados desse experimento tão de- talhado. O experimento foi apropria- damente limitado a um pequeno grupo de plantas e agora, depois de 8 anos de atividade, está concluído em todos os aspectos essenciais. Deixo a cargo do generoso leitor decidir se o planejamen- to da organização e a realização dos ex- perimentos especificados foram os mais adequados para alcançar o resultado desejado.* Sobre este tema, muitos observado- res meticulosos, como Kolreuter, Gart- ner, Herbert, Lecoq, Wichura e outros dedicaram parte de suas vidas, com ines- gotável perseverança ... Pisum sativum, objeto dos experimentos de Gregor Mendel. *Peters,J. A., ed. 1959. Classic Paj1ers in Ge- netics. Pren tice-Hall, Engle,.vood Clifis, NJ. Capítulo 3 1 Mendelismo 1 Princípios Básicos da Herança 39 Estudos de Mendel sobre a hereditariedade Os experimentos de Gregor Mendel com ervilhas eluci- daram como as características são herdadas. A vida de Gregor Johann Mendel (1822-1884) atra,res- sou o século 19. Seus pais eram fazendeiros i1a Morávia, então parte do Império dos Habsburgo na Europa Cen- tral. A educação rural ensinou-lhe o culti''º de plantas e a criação de animais e i11spirou o interesse na natureza. Aos 21 anos, Mendel deixou a fazenda e ingressou em um mosteiro católico na cidade de Br110 (hoje cidade da República Tcheca). Em 1847, ordenou-se padre, adotan- do Gregor como nome religioso. Mais tarde, deu aulas na escola secundária local, licenciando-se entre 1851 e 1853 para estudar na Uni,rersidade de Viena. De volta a Br110, retomou a vida como monge professor e i11iciou os experimentos ge11éticos que acabaram por tor11á-lo famoso. Mendel fez experimentos com várias espécies de plan- tas de jardim e até tentou alguns experime11tos com abelhas. Obte,,e maior sucesso, porém, com as ervilhas. Ele co11cluiu os experimentos com er,rilhas em 1864. Em 1865, Mendel apresentou os resultados à Sociedade de História Natural local e no ano seguinte publicou um relatório detalhado nos anais da sociedade. Infelizmen- te, esse artigo permaneceu na obscuridade até 1900, quando foi redescoberto por três botânicos - Hugo de Vries, na Hola11da, Carl Correns, i1a Alemanha, e Eric / von Tschermak-Seysenegg, na Austria. Ao pesquisarem na literatura científica dados que respaldassem suas pró- prias teorias de hereditariedade, todos eles constataram que Mendel realizara uma análise detalhada e meticulosa 35 anos a11tes. Rapidamente, as ideias de Mendel tiveram aceitação, sobretudo graças aos esforços de promoção de um biólogo britânico, William Bateson. Esse defensor das descobertas de Mendel cunhou um novo termo para des- crever o estudo da hereditariedade: genética, derivada da palavra grega que significa "gerar". ORGANISMO EXPERIMENTAL DE MENDEL, A ERVILHA Uma razão para o sucesso de Mendel foi a escolha pers- picaz do objeto experimental. A ervilha, Pisitm sativum, é facilmente cultivada em hortas experime11tais ou em''ª- sos i1a estufa. As flores têm órgãos masculi110 e femini110. As a11teras, os órgãos masculinos, produzem póle11 co11- tendo células espermáticas, e o ovário, o órgão feminino, produz oosferas. Uma peculiaridade da reprodução de ervilhas é que as pétalas da flor fecham-se com firmeza, impedindo a entrada ou a saída dos grãos de póle11. Isso impõe um sis- tema de autofertilização, no qual os gametas masculino e feminino da mesma flor se unem e produzem semen- tes. Assim, há elevada endogamia em cada linhagem de ervilha, com variação genética mínima ou nula de uma geração para a outra. Em vista da u11iformidade, dizemos que essas linhagens são geneticamente puras. No início, Mendel obte,re muitas difere11tes variedades ge11eticame11te puras de ervilhas, cada uma delas distin- guida por uma característica particular. As plantas de uma linhagem tinham 2 metros de altura, enquanto as de outra mediam apenas meio metro. Uma variedade produ- zia sementes verdes e outra, sementes amarelas. Mendel tirou vantagem dessas características contrastantes para identificar o mecanismo de hera11ça das características das ervilhas. A atenção a essas diferenças singulares entre linhagens de ervilha permitiu que estudasse a herança de uma característica de cada vez- por exemplo, a altura da pla11ta. Outros biólogos tentaram acompanhar a herança de muitas características simulta11eamente, mas como os resultados desses experimentos foram complexos, i1ão co11seguiram descobrir ne11hum princípio fundamental da hereditariedade. Me11del triunfou 011de esses biólogos falharam porque se concentrou em comparar diferenças e11tre plantas iguais nos demais aspectos - plantas altas versits baixas, sementes verdes versits amarelas e assim por dia11te. Além disso, fez um registro meticuloso dos expe- rimentos que ele realizou. CRUZAMENTOS MONO-HÍBRIDOS 1 OS PRINCÍPIOS DA DOMINÂNCIA -E DA SEGREGAÇAO Em um experimento, Me11del promoveu a fert ilização cru- zada - ou, simplesme11te, cruzamento - de ervilhas altas e anãs para investigar a herança da altura (Figura 3.1 ). Com cuidado, ele retirou as anteras de uma variedade antes que seu póle11 amadurecesse e depositou pólen da outra variedade sobre seu estigma, órgão de superfície ,,iscosa na parte superior do pistilo que conduz ao ovário. As se- mentes produzidas por essas fertilizações cruzadas foram cultivadas no a110 seguinte, produzindo híbridos unifor- meme11te altos. Mendel obte,re plantas altas com qual- quer modo de cruzamento (planta alta do sexo masculi- no com planta anã do sexo feminino ou planta anã do sexo masculino com planta alta do sexo feminino); as- sim, os dois cruzamentos recíprocos forneceram resul- tados iguais. Mais importante ai11dafoi que Mendel ob- servou o aparente desaparecimento da característica anã na prole do cruzamento, já que todas as plantas híbridas eram altas. A fim de analisar a constituição hereditária desses híbridos altos, Me11del permitiu a autofertilização - o curso natural em ervilhas. Ao examinar a prole, cons- tatou a presença de plantas altas e anãs. Na verdade, das 1.064 ervilhas da prole que Mendel cultivou, 787 eram al- tas e 277 eram anãs, uma proporção aproximada de 3: 1. Me11del foi surpreendido pelo reaparecimento da característica anã. Sem dúvida, as plantas híbridas pro- duzidas no cruzamento das variedades alta e anã eram capazes de produzir plantas anãs, ai11da que fossem altas. 40 Fundamentos de Genética Receptora de pólen (emasculada} Estigma --+-----",,.--;-. ' ' ' ' "\ÀP Fertilização cruzada das variedades alta e anã. ' ' :;,AP 'fj' Toda a prole híbrida é alta. :;,AP ' ' ' ' 0 -v A prole híbrida é autofertilizada. :;,AP 0 -v As altas e anas aparecem na prole das plantas híbridas -em proporçao aproximada de 3 altas: 1 anã. ' ' ' ' ' ' Pólen ---,,. --.. / ' ' 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 ' ' ' ' ' \ ' 1 1 ' ' 1 1 1 ' ' ' ' 1 ' ' ' ' Alta x Anã Alta Alta X Doadora de pólen J- --tr-/ -+-Antera f----J;'-/--Esta me ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' Alta 787 altas 277 anãs • FIGURA 3.1 Cruzamentos das variedades alta e anã de ervilha feitos por Mendel. Mendel deduziu que esses híbridos tinham um fator ge- nético latente para nanismo, mascarado pela expressão de outro fator para a altura elevada. Ele afirmou que o fator latente era recessivo e que o fator expresso era do- minante. Também inferiu que esses fatores recessivo e dominante separaram-se quando as plantas híbridas se reproduziram. Isso tornou possível que explicasse o re- aparecimento da característica anã na geração seguinte. Mendel fez experimentos semelhantes para estudar a herança de seis outras características: textura da semen- te, cor da semente, formato da vagem, cor da vagem, cor da flor e posição da flor (Tabela 3.1). Em cada experimen- to - denominado cruzamento mono-híbrido, porque estava sendo estudada uma única característica - Mendel obser- vou que apenas uma das duas características contrastan- tes aparecia nos híbridos e que a autofertilização desses híbridos produzia dois tipos de prole, cada um deles se- melhante a uma das plantas dos cruzamentos originais. Além disso, ele constatou que essa prole sempre apare- cia na proporção de 3: 1. Assim, cada característica estu- dada por Mendel parecia ser controlada por um fator hereditário existente em duas formas, uma dominante e outra recessiva. Esses fatores agora são denominados genes, termo cunhado pelo melhorista vegetal dinamar- quês Wilhelm] ohannsen em 1909; as formas dominante e recessiva são denominadas alelos, palavra derivada do grego que significa "um do outro". Os alelos são formas alternativas de um gene. As relações numéricas regulares observadas por Men- del nesses cruzamentos o levaram a outra conclusão im- portante: que os genes existem em pares. Mendel propôs que cada linhagem parental usada em seus experimentos tinha duas cópias idênticas de um gene - na terminolo- gia moderna, elas são diploides e homozigotas. No entan- to, durante a produção de gametas, Mendel propôs que essas duas cópias são reduzidas a uma; isto é, os gametas que emergem da meiose têm uma só cópia de um gene - na terminologia moderna, eles são haploides. Mendel reconheceu que o número diploide de genes seria restaurado quando da união da célula espermática com a oosfera para formar um zigoto. Além disso, com- preendeu que se a célula espermática e a oosfera viessem de plantas geneticamente diferentes - como nos cruza- mentos que fez- o zigoto híbrido herdaria dois alelos di- ferentes, um da mãe e outro do pai. Diz-se que essa prole é heterozigota. Mendel percebeu que os diferentes alelos presentes em um heterozigoto devem coexistir, ainda que um seja dominante e o outro recessivo, e que cada um desses alelos tem chances iguais de entrar em um ga- meta quando o heterozigoto se reproduz. Ele constatou ainda que fertilizações aleatórias com uma população mista de gametas- metade com o alelo dominante e me- tade com o alelo recessivo - produziriam alguns zigotos com ambos os alelos recessivos. Assim, ele pôde explicar o reaparecimento da característica recessiva na prole das plantas híbridas. Mendel usou símbolos para representar os fatores hereditários que propôs - uma inovação metodológica. Capítulo 3 1 Mendelismo 1 Princípios Básicos da Herança 41 Tabela 3.1 Resultados dos cruzamentos mono-híbridos de Mendel. Linhagens parentais Prole F2 Proporção Plantas altas X plantas anãs 787 altas, 277 anãs 2,84:1 Sementes lisas X sementes rugosas 5.474 lisas, 1.850 rugosas 2,96:1 Sementes amarelas X sementes verdes 6.022 amarelas, 2.001 verdes 3,01 :1 Flores roxas X flores brancas 705 roxas, 224 brancas 3, 15:1 Vagens infladas X vagens achatadas 882 infladas, 299 achatadas 2,95:1 Vagens verdes X vagens amarelas 428 verdes, 152 amarelas 2,82:1 Flores axiais X flores terminais 651 axiais, 207 terminais 3,14:1 Com símbolos, podia descrever com clareza e concisa- mente os fenômenos hereditários e analisar matematica- mente os resultados dos cruzamentos. Ele podia até pre- ver o resultado de cruzamentos futuros. Embora a prática de usar símbolos para analisar problemas genéticos te- nha sido muito aperfeiçoada desde a época de Mendel, os princípios básicos são os mesmos. Os símbolos desig- nam os genes (ou, mais exatamente, seus alelos) e são manipulados de acordo com as regras da herança des- cobertas por Mendel. Essas manipulações são a essência da análise genética formal. Como introdução ao tema, vamos examinar a representação simbólica do cruzamen- to entre ervilhas altas e anãs (Figura 3.2). As duas variedades geneticamente puras, alta e anã, são homozigotas para diferentes alelos de um gene que «,,"\A-o G> Cada homozigoto parental produz um tipo de gameta. «,,"\A-o G> Os heterozigotos da F1 produzem dois tipos de gametas em iguais proporções. «,,"\A-o A autofertilização dos heterozigotos da F 1 produz prole alta e anã em proporção 3: 1 . F2 Fenótipos Genótipos 1 Alta DO Dd 1 Anã dd p Alta OD V Gametas@ X Anã dd V @ V Gametas@ Alta Dd Autoferti lização @ @ Alta DO Alta Od Proporção genotípica 1 2 1 Alta Dd Anã dd Proporção fenotípica 3 1 • FIGURA 3.2 Representação simbólica do cruzamento ent re ervilhas altas e anãs. controla a altura da planta. O alelo para o nanismo, sen- do recessivo, é simbolizado por uma letra minúscula d; o alelo para a altura elevada, sendo dominante, é simboli- zado pela letra maiúscula correspondente D. Em genéti- ca, a letra escolhida para designar os alelos de um gene geralmente é tirada da palavra que descreve a caracterís- tica recessiva (d, de dwarfness [nanismo] ) . Assim, as linha- gens de ervilhas alta e anã são simbolizadas por DD e dd, respectivamente. A constituição alélica de cada linhagem é seu genótipo. Por outro lado, a aparência física de cada linhagem - a característica alta ou anã - é seu fenótipo. Como as linhagens parentais, as ervilhas alta e anã cons- tituem a geração P do experimento. A prole híbrida é denominada primeira geração filial, ou F,, derivada da pa- lavra latina que significa "filho" ou "filha". Como cada ge- nitor contribui igualmente para a prole, o genótipo das plantas da F1 tem de ser Dd; isto é, elas são heterozigotas para os alelos do gene que controla a altura. O fenótipo, porém, é igual ao da linhagem parental DD porque D é dominante em relação a d. Durante a meiose, essas plan- tas da F1 produzem dois tipos de gametas, D e d, em iguais proporções. Nenhum alelo é modificado por ter coexis- tido com o outro em um genótipo heterozigoto; em vez disso,separam-se, ou segregam-se, durante a formação dos gametas. Esse processo de segregação de alelos talvez seja a descoberta mais importante de Mendel. Depois da autofertilização, os dois tipos de gametas produzidos por heterozigotos podem se unir de todas as maneiras possíveis. Assim, eles produzem quatro tipos de zigotos (escrevemos primeiro a contribuição da oosfera): DD, Dd, dD e dd. No entanto, por causa da dominância, três desses genótipos têm o mesmo fenótipo. Assim, na geração seguinte, denominada f 2, as plantas são altas ou anãs, em uma proporção de 3: 1. Mendel avançou mais um passo nessa análise. As plan- tas da F 2 foram autofertilizadas para produzir uma F 3• To- das as plantas anãs da F 2 produziram apenas prole anã, mostrando que eram homozigotas para o alelo d, mas as plantas altas da F 2 constituem duas categorias. Aproxima- damente um terço delas produziu apenas prole alta, en- quanto os outros dois terços produziram uma mistura de prole alta e anã. Mendel concluiu que o terço genetica- 42 Fundamentos de Genética mente puro era constituído de homozigotos DD e que os dois terços em que houve segregação eram heterozigotos Dd. Essas proporções, 1/3 e 2/3, eram exatamente o que sua análise previa porque, entre as plantas altas da F2, os genótipos DD e Dd ocorrem em uma proporção de 1 :2. Nós resumimos a análise feita por Mendel desse e de outros cruzamentos mono-híbridos apresentando dois princípios essenciais que ele descobriu: 1. O princípio da dominância: em um heterozigoto, um alelo pode ocultar a presença de outro. Esse princípio é uma afirma- ção sobre a função genética. Alguns alelos controlam claramente o fenótipo mesmo quando estão presentes em uma única cópia. Apresentamos a explicação fisio- lógica desse fenômeno nos capítulos posteriores. 2. O princípio da segregação: em um heterozigoto, dois alews di- ferentes segregam-se um do outro durante a formaçiio dos gametas. Esse princípio é uma afirmação sobre a trans- missão genética. Um alelo é transmitido fielmente à ,, . - . prox1ma geraçao, mesmo que esteja presente com um alelo diferente em um heterozigoto. A base biológica desse fenômeno é o pareamento e a subsequente sepa- ração de cromossomos homólogos durante a meiose, um processo que discutimos no Capítulo 2. Aborda- remos os experimentos que levaram a essa teoria cro- mossômica da hereditariedade no Capítulo 5. CRUZAMENTOS OI-HÍBRIDOS 1 O PRINCÍPIO DA DISTRIBUIÇÃO INDEPENDENTE Mendel também fez experimentos com plantas que dife- riam em duas características (Figura 3.3). Ele cruzou plan- tas que produziam sementes amarelas e lisas com plantas que produziam sementes verdes e rugosas. O objetivo desses experimentos era verificar se a herança das duas características da semente, cor e textura, era indepen- dente. Como as sementes da F 1 eram todas amarelas e lisas, os alelos para essas duas características eram domi- nantes. Mendel cultivou plantas a partir dessas sementes Amarela, lisa Verde, rugosa p X V Amarela, lisa Autofertilização Amarela, lisa Verde, lisa Amarela, rugosa Verde, rugosa 315 108 101 32 Proporção aproximada de 9:3:3: 1 • FIGURA 3.3 Cruzamentos entre ervilhas de sementes amarelas e lisas e ervilhas de sementes verdes e rugosas realizados por Mendel. e permitiu a autofertilização. Em seguida, classificou as sementes da F2 e contou-as segundo o fenótipo. As quatro classes fenotípicas na F2 representavam to- das as combinações possíveis das características de cor e textura. Duas classes - sementes amarelas e lisas e se- mentes verdes e rugosas - assemelhavam-se às linhagens parentais. As outras duas - sementes verdes e lisas e se- mentes amarelas e rugosas - apresentam novas combi- nações de características. As quatro classes têm uma pro- porção aproximada de 9 amarelas e lisas: 3 verdes e lisas: 3 amarelas e rugosas: 1 verde e rugosa (Figura 3.3). Para a mente perspicaz de Mendel, essas relações numéricas sugeriam uma explicação simples: cada característica era controlada por um gene diferente com dois alelos, e os dois genes tinham herança independente. Vamos analisar os resultados desse cruzamento di-híbrido, ou de dois fatores, usando os métodos de Mendel. Desig- namos cada gene por uma letra, minúscula para o alelo recessivo e maiúscula para o dominante (Figura 3.4). Os dois alelos do gene da cor da semente são g (g, de green [verde]) e G (amarela), e os alelos do gene da textura da semente são w ( w, de wrinkled [rugosa]) e W (lisa). As li- nhagens parentais, que são geneticamente puras, devem ser duplamente homozigotas; as plantas com sementes amarelas e lisas eram GG WW e as plantas com sementes verdes e rugosas eram gg ww. Geralmente representam-se esses genótipos com dois genes separando-se os pares de alelos com um espaço. Os gametas haploides produzidos por uma planta diploide contêm uma cópia de cada gene. Portanto, os gametas de plantas GG WW contêm uma cópia do gene da cor da semente (o alelo G) e uma cópia do gene da textura da semente (o alelo lV). Esses gametas são sim- bolizados por G W. Da mesma maneira, os gametas de plantas gg ww são escritos g w. A fertilização cruzada des- ses dois tipos de gametas produz híbridos F 1 duplamente heterozigotos, simbolizados por Gg Ww, e o fenótipo de sementes amarelas e lisas indica que os alelos G e W são dominantes. O princípio da segregação prevê que os híbridos da F1 irão produzir quatro genótipos gaméticos diferentes: (1) G W, (2) G w, ( 3) g W e ( 4) g w. Se a segregação dos alelos de cada gene for independente, esses quatro tipos terão frequências iguais; isto é, cada um corresponderá a 25% do total. Partindo desse pressuposto, a autofertilização na F1 produz um conjunto de 16 genótipos zigóticos com frequências iguais. Nós obtemos a série zigótica por com- binação sistemática dos gametas, como mostra a Figu- ra 3.4. Então, verificamos os fenótipos desses genótipos F2 observando que G e W são os alelos dominantes. Ao todo, há quatro fenótipos distinguíveis, com frequências relativas indicadas pelo número de posições ocupadas na série. Para calcular as frequências absolutas, dividimos cada número pelo total, 16: sementes amarelas e lisas sementes amarelas e rugosas sementes verdes e lisas sementes verdes e rugosas 9/16 3/16 3/16 1/16 Capítulo 3 1 Mendelismo 1 Princípios Básicos da Herança 43 total de sementes examinadas da F2• Nos dois métodos há, obviamente, boa concordância entre as observações e as previsões. Assim, as premissas sobre as quais construí- mos nossa análise - segregação independente dos genes da cor da semente e da textura da semente - são compa- tíveis com os dados observados. Mendel fez experimentos semelhantes com outras combinações de características e em cada caso observou a segregação independente dos genes. Os resultados des- ses experimentos levaram-no a um terceiro princípio es- sencial: Observado Esperado Fenótipos da F 2 Número Proporção Número Proporção 1 Amarela e lisa 315 0,567 313 0,563 1 Verde e lisa 108 0,194 104 0,187 1 Amarela e rugosa 101 0,182 104 0,187 1 Verde e rugosa 32 0,057 35 0,063 Total 556 1,000 556 1,000 • FIGURA 3.5 Comparação entre os resultados observados e espera- dos do cruzamento di-híbrido de Mendel. 44 Fundamentos de Genética 3. O princípio da distribuição independente: os al,el,os de diferentes genes são segregados, ou corrw dizerrws às vez.es, distribuídos, de maneira independente uns dos outros. Esse princípio é outra regra da transmissão genética, com base, como veremos no Capítulo 5, no comportamento de dife- rentes pares de cromossomos durante a meiose. No entanto, nem todos os genes obedecem ao princípio da distribuição independente. No Capítulo 7, aborda- mos algumas exceções importantes. PONTOS ESSENCIAIS • Mendel estudou a herança de sete características diferentes em ervilhas, cada característica controlada por um gene diferente • A pesquisa de Mendel o levou a formular três princípios de herança: ( 1) os al,elos de um gene são dominantes ou recessivos, (2) al,elos diferentes de um gene segregam-se durante a formação dos gametas e ( 3) os al,ews de diferentes genes são distribuídos de modo independente. Os princípios de Mendel podem ser usados para prever os resultados de cruzamentos entre diferentes linhagens de organismos. Caso se conheça a base genética de uma característica, pode-se usar os princípios de Mendel para prever os re- sultados dos cruzamentos. Há três procedimentos gerais, dois deles com base na enumeração sistemática de todos os genótipos zigóticos ou fenótipos e um com base no conhecimento matemático. MÉTODO DO QUADRADO DE PUNNETT Nas situações em que há participação de um ou dois ge- nes, é possível anotar todos os gametas e combiná-los sistematicamente para gerar arranjos de genótipos zigó- ticos. Feito isso, pode-se usar o Princípio da Dominância para determinar os fenótipos associados. Esse procedi- mento, chamado de método do quadrado de Punnett, em homenagem ao geneticista britânico R. C. Punnett, é um método direto de prever o resultado dos cruzamen- tos. Nós o usamos para analisar o resultado zigótico do cruzamento com híbridos da F1 de sementes amarelas e lisas de Mendel, um tipo de cruzamento geralmente denominado intercruzamento (Figura 3.4). No entanto, em situações mais complicadas, como as que contam com a participação de mais de dois genes, torna-se difícil usar o método do quadrado de Punnett. Veremos na Figura 3.8 a relação entre o método do quadrado de Punnett e uma técnica de solução de problemas genéticos que usa o con- ceito de probabilidade. MÉTODO DA LINHA BIFURCADA Outra técnica para prever o resultado de um cruzamen- to com participação de dois ou mais genes é o método da linha bifurcada. No entanto, em vez de enumerar a prole em um quadrado por combinação sistemática dos game- tas, calculamos em um diagrama de linhas ramificadas. A título de exemplo, vamos considerar um intercruzamen- to de ervilhas heterozigotas para três genes de distribui- ção independente, um que controla a altura da planta, outro que controla a cor da semente e um terceiro que controla a textura da semente. Esse é um cruzamento tri-híbrido - Dd Gg Ww X Dd Gg Ww - que pode ser di- vidido em três cruzamentos mono-híbridos - Dd X Dd, Gg X Gg e Ww X Ww - porque todos os genes têm dis- tribuição independente. Para cada gene, esperamos que os fenótipos apareçam na proporção de 3: 1. Assim, por exemplo, Dd X Dd produzirá uma proporção de 3 plan- tas altas: 1 planta anã. Usando o método da linha bifurca- da (Figura 3.6), conseguimos combinar essas proporções separadas em uma proporção fenotí pica geral para a pro- le do cruzamento. Também podemos usar esse método para analisar os resultados de um cruzamento entre indivíduos heterozi- gotos para várias características e indivíduos homozigo- tos para várias características. Esse tipo de cruzamento é denominado cruzamento-teste. Por exemplo, ao cruzarmos ervilhas Dd Gg Ww com ervilhas dd gg ww, podemos pre- ver os fenótipos da prole observando que os alelos domi- nantes e recessivos em cada um dos três genes do genitor heterozigoto são separados em proporção de 1: 1, e que o genitor homozigoto só transmite alelos recessivos desses genes. Assim, os genótipos e, em última análise, os fe- nótipos da prole desse cruzamento dependem dos alelos transmitidos pelo genitor heterozigoto (Figura 3.7). MÉTODO DA PROBABILIDADE Um método alternativo e mais rápido que os métodos do quadrado de Punnett e da linha bifurcada tem como base o princípio da probabilidade. A segregação de Mendel é como um jogo de cara ou coroa; quando um heterozi- goto produz gametas, metade contém um alelo e meta- de, o outro. Portanto, a probabilidade de que determi- nado gameta contenha o alelo dominante é de 1/2, e a probabilidade de que contenha o alelo recessivo também é de 1/2. Essas probabilidades são as frequências dos dois tipos de gametas produzidos pelo heterozigoto. Nós po- demos usar essas frequências para prever o resultado do Cruzamento: Od Gg Ww X Segregação de gene para altura da planta 3 altas 1 anã Segregação de gene para cor da semente - 3 amarelas ,_ 1 verde - 3 amarelas - 1 verde Capítulo 3 1 Mendelismo 1 Princípios Básicos da Herança 45 Od Gg Ww Segregação de gene para textura da semente 3 lisas 1 rugosa 3 lisas 1 rugosa 3 lisas 1 rugosa Í 3 lisas = 1 rugosa - ' -. , .. 1• .. ' • - Fenótipos combinados dos três genes 27 altas, amarelas e lisas 9 altas, amarelas e rugosas 9 altas, verdes e lisas 3 altas, verdes e rugosas 9 anãs, amarelas e lisas 3 anãs, amarelas e rugosas 3 anãs, verdes e lisas 1 anã, verde e rugosa • FIGURA 3.6 O método da linha bifurcada para prever o resultado de um intercruzamento com três genes de distribuição independente em ervilhas. cruzamento de dois heterozigotos? Nesse cruzamento, os gametas serão combinados aleatoriamente para produ- zir a geração seguinte. Suponhamos que o cruzamento seja Aa X Aa (Figura 3.8). A chance de que o zigoto seja AA é simplesmente a probabilidade de que cada um dos gametas que se unem contenha A, ou (1/2) X (1/2) = (1/ 4) ,já que a produção dos dois gametas é independen- te. A chance de um homozigoto aa também é de 1/ 4. No entanto, a chance de um heterozigoto Aa é de 1/2 por- que existem dois modos de produzir um heterozigoto - A pode vir do gameta feminino e a, do gameta masculi- no, ou vice-versa. Como a chance de ocorrência cada um desses eventos é de um quarto, a probabilidade total de que um filho seja heterozigoto é (1/ 4) X (1/ 4) = (1/2). Assim, obtemos a seguinte distribuiçiio de probabilidade dos genótipos obtidos por cruzamento de Aa X Aa: Em uma situação tão simples, o uso do método da pro- babilidade para prever o resultado de um cruzamento pode parecer desnecessário. No entanto, em situações mais complexas, é claramente o método mais prático. Suponha, por exemplo, um cruzamento entre plantas heterozigotas para quatro genes diferentes, todos com distribuição independente. Que fração da prole será homozigota para os quatro alelos recessivos? Para res- ponder essa pergunta, tomamos um gene por vez. Para o primeiro gene, a fração da prole de homozigotos re- cessivos é de 1/ 4, assim como para o segundo, o terceiro e o quarto genes.Portanto, pelo princípio de distribui- ção independente, a fração de homozigotos recessivos quádruplos será de (1/4) X (1/4) X (1/4) X (1/4) = (1/256). Sem dúvida, é melhor usar o método da pro- babilidade que fazer um quadrado de Punnett com 256 entradas! AA Aa ªª 1/4 1/2 1/4 Aplicando o Princípio da Dominância, concluímos que (1/4) + (1/2) = (3/4) da prole terão o fenótipo domi- nante e 1/ 4 terá o fenótipo recessivo. Agora vamos a uma questão ainda mais dificil. Que fração da prole será homozigota para os quatro genes? Antes de calcular as probabilidades, precisamos decidir que genótipos satisfazem a questão. Há dois tipos de ho- mozigotos para cada gene, o dominante e o recessivo, e juntos eles constituem metade da prole. Portanto, a fra- Cruzamento: Od Gg Ww X Segregação de gene para altura da planta 1 alta 1 anã .... Segregação de gene para cor da semente "" 1 amarela ,_ 1 verde .. 1 amarela 1 verde dd gg ww Segregação de gene para textura da semente 1 lisa i .. 1 rugosa 1 • 1 lisa 1: 1 rugosa 1 lisa .. 1 rugosa i • 1 lisa l .. 1 rugosa .. Fenótipos combinados dos três genes 1 alta, amarela e lisa 1 alta, amarela e rugosa 1 alta, verde e lisa 1 alta, verde e rugosa 1 anã, amarela e lisa 1 anã, amarela e rugosa 1 anã, verde e lisa 1 anã, verde e rugosa • FIGURA 3.7 O método da linha bifurcada para prever o resultado de um cruzamento-teste com três genes de distribuição independente em ervilhas.