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FACULDADE ANCHIETA DE ENSINO SUPERIOR DO PARANÁ – FAESP CURSO PEDAGOGIA - LICENCIATURA ANTONIA SUELI MALTEMPI ARIANE VANESSA PAULIN O ATENDIMENTO PEDAGÓGICO NO ESPAÇO HOSPITALAR: O CASO DO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA CURITIBA DEZEMBRO/2010 ANTONIA SUELI MALTEMPI ARIANE VANESSA PAULIN O ATENDIMENTO PEDAGÓGICO NO ESPAÇO HOSPITALAR: O CASO DO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA Monografia apresentada como requisito parcial de conclusão de curso de Pedagogia, Licenciatura, da Faculdade Anchieta de Ensino Superior do Paraná – FAESP. Orientadora: Profª. Ms. Ivana Cristina Lima de Almeida CURITIBA DEZEMBRO/2010 TERMO DE APROVAÇÃO ANTONIA SUELI MALTEMPI ARIANE VANESSA PAULIN CURSO PEDAGOGIA LICENCIATURA BANCA EXAMINADORA Professora Ivana Cristina Lima de Almeida Faculdade Anchieta de Ensino Superior do Paraná – FAESP - Orientadora Professor Francisco Mauricio Bieniacheski Faculdade Anchieta de Ensino Superior do Paraná – FAESP - Examinador Professor Ademir Pinhelli Mendes Faculdade Anchieta de Ensino Superior do Paraná – FAESP – Examinador CURITIBA DEZEMBRO / 2010 Dedicamos este trabalho a todas as pessoas que nos ajudaram e nos incentivaram, sobretudo aos nossos familiares, amigos e professores que sempre estiveram ao nosso lado nos momentos em que precisamos. AGRADECIMENTOS Primeiramente, agradeço a “DEUS”, por ter me concedido a vida e poder fazer parte desse Seu Universo, e pela luz que ilumina os meus atos. A minha filha Michelli e ao meu neto Eduardo, pela compreensão de minhas ausências e pelo amor incondicional. Aos meus pais que, com toda sua simplicidade, sempre acreditaram na Educação, sempre incentivando com palavras, assim: “É só estudando que se consegue ser alguém na vida”. Aos meus familiares pela compreensão, incentivo e apoio. A minha querida amiga Ariane, a minha companheira de caminhada, pois, durante o desenvolvimento deste trabalho, nos apoiamos uma na outra, sempre nos encorajando para prosseguirmos em frente. Aos meus colegas de turma pelos momentos inesquecíveis e pelo aprendizado compartilhado. A todos os professores que fizeram parte da minha vida acadêmica desde os primeiros anos. Em especial agradeço a minha professora e orientadora Ivana Cristina Lima de Almeida, que nos orientou e abraçou conosco este sonho, encorajou-nos a prosseguir, acreditou em nosso potencial e fez com que nós acreditássemos também. Obrigada por fazer parte da nossa conquista! Antonia Sueli Maltempi AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a DEUS, que tem me abençoado neste caminho todos os dias, dando-me coragem para que possa vencer os desafios impostos e para buscar novos horizontes. Aos meus pais pela educação, pelo incentivo e por me lançarem neste anseio incessante de crescer, de querer ser mais gente. Aos meus familiares pela compreensão, incentivo e apoio. A minha querida amiga e companheira de trabalho Antonia, que durante todo o processo esteve comigo me apoiando e incentivando para que eu não desanimasse. Aos meus colegas de turma, pelos momentos inesquecíveis e pelo aprendizado compartilhado. A todos os professores, os quais, cada um ao seu modo, puderam contribuir de forma decisiva para a minha formação. Em especial, agradeço a minha orientadora e professora Ivana Cristina Lima de Almeida, por compartilhar seus conhecimentos, pelo empenho e dedicação que demonstrou durante a orientação deste trabalho, contribuindo para meu crescimento pessoal, acadêmico e profissional. Obrigada por fazer parte da nossa conquista! Ariane Vanessa Paulin De nada adianta toda ciência, toda tecnologia ou todo conhecimento se o ser humano não atinge o seu intento. A realização humana só se faz nessa busca incansável. O amor e a fraternidade entre pessoas têm levado cada vez mais a humanidade para o caminho vertical da evolução do ideal feliz. Matos & Mugiatti RESUMO A presente pesquisa tem como objetivo analisar o processo pedagógico em instituições hospitalares, em particular no Hospital do Trabalhador de Curitiba (HT). A intenção foi acompanhar como ocorre o processo de escolarização com os alunos que não podem se deslocar até uma sala de aula, mas que, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente Hospitalizado, necessitam receber atendimento educacional nas unidades de saúde. A Pedagogia Hospitalar vem se expandido no atendimento à criança hospitalizada dentro de uma visão humanística, em que vários hospitais do país têm procurado enfatizar na sua prática. Nesta perspectiva, além do estado clínico que deve ser olhado, também se torna necessário atender à criança e ao adolescente integralmente em suas necessidades físicas, psíquicas, afetivas e sociais. Por isso, esse estudo de caso baseou-se em pesquisa bibliográfica e de campo, abrangendo análise documental, observação e realização de entrevistas com a pedagoga e a professora responsáveis pelo trabalho pedagógico dentro do Hospital do Trabalhador – HT – de Curitiba. As análises apontam que, ao promover atividades de brincar, pensar, criar e trocar ideias, o pedagogo pode estar desenvolvendo uma relação de ensino- aprendizagem com novos significados para as crianças. Palavras-chave: Pedagogia Hospitalar. Escolarização Hospitalar. Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar. Hospital do Trabalhador. Curitiba. LISTA DE QUADROS QUADRO 1 - HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO DA PEDAGOGIA HOSPITALAR NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA ..............................9 QUADRO 2 - INSTITUIÇÕES CONVENIADAS AO SAREH NO PARANÁ .......27 QUADRO 3 - PROFISSIONAIS SELECIONADOS PARA ATUAR NAS INSTITUIÇÕES CONVENIADAS ......................................................28 QUADRO 4 - PLANILHA QUANTITATIVA GERAL SAREH 1º SEMESTRE 2008........................................................................................................30 QUADRO 5 - NÚMERO DE LEITOS ATIVOS .........................................................39 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - ATENDIMENTO ANUAL HT (1998 – 2008) .......................................40 FIGURA 2 - PALHACINHO PERALTA.....................................................................52 FIGURA 3 – DESAFIO................................................................................................53 FIGURA 4 - ATIVIDADE COM DESENHO..............................................................54 FIGURA 5 – AUTODITADO.......................................................................................55 FIGURA 6 - PREVENÇÃO DE ACIDENTES DA INFÂNCIA.................................56 FIGURA 7 - ONDE VIVE MINHA FAMÍLIA............................................................57 FIGURA 8 - EQUILIBRE A BALANÇA.....................................................................58 LISTA DE FOTOGRAFIAS FOTOGRAFIA 1 – SALA DO SAREH NO HT .........................................................43 FOTOGRAFIA 2 - ESPAÇO DE PLANEJAMENTO DAS PROFESSORAS...........45 FOTOGRAFIA 3 - BRINQUEDOTECA DO SETOR DE PEDIATRIA/HT.............51 FOTOGRAFIA 4 - CRIANÇAS EM ATIVIDADE NA BRINQUEDOTECA..........51 LISTA DE SIGLAS AACC - Associação dos Amigosfoi previsto na intenção da proposta o acompanhamento aos professores, por meio de reuniões periódicas, para discussão do exercício da prática docente em ambiente hospitalar, para que se instaurasse um processo de avaliação da implantação do SAREH. Além do planejamento de ações de formação continuada, a equipe de professores conta com a aquisição de materiais pedagógicos, acervo bibliográfico e equipamentos de informática para contribuir na melhoria de suas práticas pedagógicas. Assim, busca-se coletivamente valorizar a capacidade intelectual dos professores da Rede Pública de Educação Básica do Paraná na produção do conhecimento. No intuito de divulgar e socializar as informações relacionadas ao SAREH, a SEED/PR tem procurado lançar mão dos recursos das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e, por meio do Portal Educacional do Estado do Paraná, apresenta um grande número de informações relacionadas a esse serviço, tais como a legislação vigente que ampara/normatiza a educação Hospitalar no Brasil; professores responsáveis nos 32 Núcleos Regionais de Educação; documento norteador do 30 programa, apontando estratégias e cronograma das ações desencadeadas e previstas, além de diagnóstico nacional e levantamento das demandas pelo programa nos NRE; além dos projetos desenvolvidos pelas equipes de professores/pedagogos nos hospitais. Com o início das atividades do SAREH, em seu primeiro ano de funcionamento, dados da Secretaria de Estado da Educação do Paraná revelaram o número de crianças e adolescentes atendidos nas unidades conveniadas (conforme quadro 4). De acordo com esses registros, percebe-se que a abordagem feita pela equipe pedagógica do SAREH fez com que aproximadamente 2.066 crianças e adolescentes retornassem aos bancos escolares, embora os dados não apresentem informações sobre as especificidades desse atendimento. Além do atendimento hospitalar pelo SAREH, procurou-se providenciar aos escolares hospitalizados o acesso a salas especiais para participação em provas e exames promovidos em instituições governamentais, tais como o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, exames de equivalência, provas de concursos públicos e avaliações, Provões da Educação de Jovens e Adultos – EJA, entre outros. QUADRO 4 - PLANILHA QUANTITATIVA GERAL SAREH 1º SEMESTRE 2008 FONTE: MENEZES, 2008, p.19 31 Os relatos das equipes do SAREH indicaram que, durante os atendimentos pedagógicos com esses educandos internados, pais e/ou responsáveis solicitaram orientações de como proceder para dar prosseguimento aos seus estudos, que foram interrompidos, mobilizados pelos esforços de seus filhos ou parentes. Alguns, ainda se declararam analfabetos e demonstraram interesse em iniciar um processo de alfabetização. Essa constatação possibilitou, em agosto de 2007, formar 12 turmas do Programa de Alfabetização da Secretaria de Estado da Educação do Paraná denominado Paraná Alfabetizado, promovendo ações no sentido de reduzir a taxa de analfabetismo encontrada entre os familiares dos alunos internados e/ou em tratamento nas unidades conveniadas. Devido à demanda, reativou-se o Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos – CEEBJA – para atender funcionários do Hospital do Trabalhador, que se encontravam fora do sistema de ensino. Segundo Menezes (2009), o SAREH se configura como fruto do reconhecimento oficial de que, independentemente do período de hospitalização, os educandos em situação de internamento têm garantido o direito à educação. Esse serviço vem ao encontro dos princípios estabelecidos na política educacional para o Estado do Paraná, garantindo a estes que uma enfermidade eventual não seja considerada apenas como uma fase dolorosa em suas vidas, mas, também, como um período em que eles possam usufruir dos seus direitos como cidadãos. 3.1 O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO DO SAREH: AÇÕES E ESTRATÉGIAS O SAREH tem como objetivo implantar o atendimento educacional aos educandos que se encontram impossibilitados de frequentar a escola em virtude de situações de internamento hospitalar ou sob outras formas de tratamento de saúde, permitindo-lhes a continuidade do processo de escolarização, bem como a reinserção em seu ambiente escolar. 32 De acordo com o documento base do SAREH (s/d, p.6), dispor de atendimento educacional no hospital, mesmo que por um tempo mínimo, tem caráter fundamental para a criança hospitalizada, uma vez que este tipo de atendimento possibilita ao aluno sentir-se parte de um sistema estruturado com igualdade de condições para o acesso ao conhecimento, mantendo seu vínculo com sua realidade fora do hospital e assegurando o seu desenvolvimento intelectual. Por outro lado, este processo de escolarização auxilia na recuperação, diminuindo o estresse causado pela situação da doença, ocupando o tempo ocioso e possibilitando, inclusive, a redução do período de internação. Compreendendo que o cotidiano pedagógico na diversidade humana não se dá apenas no espaço escolar, mas também em diferentes espaços e tempos escolares, enfatiza-se a importância do atendimento educacional hospitalar que regulamenta, segundo Fonseca (1999, p. 3), uma política voltada para as necessidades pedagógico-educacionais e os direitos à educação e a saúde desta clientela que se encontra em particular estágio de vida, tanto em relação ao crescimento e desenvolvimento, quanto em relação à construção de estratégias sócio-interativas para o viver individual e em coletividade. A autora enfatiza, portanto, a importância do estabelecimento de políticas que garantam os direitos e as necessidades dos alunos. Quanto à organização do trabalho pedagógico, no ambiente hospitalar do SAREH esta tarefa é de responsabilidade do pedagogo. É ele quem coordena, acompanha e avalia todo o trabalho. Sua atuação nessa organização é muito ampla, envolvendo não só o trabalho com o aluno e o professor, mas também com a família, com a instituição conveniada, com a escola de origem, com o Núcleo Regional de Educação (NRE) e a Secretaria Estadual de Educação do Paraná (SEED/PR). O professor que trabalha no SAREH atua ministrando aulas das disciplinas pertinentes a uma determinada área de conhecimento: o de Ciências Humanas ministra aulas das disciplinas de História, Geografia, Sociologia, Filosofia e Ensino Religioso; o de Linguagens, aulas de Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna – Inglês, 33 Educação Física e Arte; e o de Ciências Exatas trabalha as disciplinas de Matemática, Ciências, Física, Química e Biologia. O documento norteador do SAREH é a Normativa nº 006/2008 – SUED/SEED (anexo 2), que estabelece os seguintes procedimentos para a implantação e atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar: 1. O Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar visa o atendimento educacional público, aos educandos matriculados ou não na Educação Básica, nos seus níveis e modalidades, impossibilitados de freqüentar a escola por motivos de enfermidade, em virtude de situação de internamento hospitalar ou de outras formas de tratamento de saúde, oportunizando a continuidade no processo de escolarização, a inserção ou a reinserção em seu ambiente escolar. 2. O Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar será ofertado nas instituições que mantiverem Termo de Cooperação Técnica com a Secretaria de Estado da Educação. 3. O Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar será desenvolvido por professores e pedagogos do Quadro Próprio do Magistério, previamente selecionados, conforme Edital publicado pela Secretaria de Estado da Educação. (SUED/SEED-PR, 2008, p. 1). Além disso, a Normativa estabelece as atribuições a cada Departamento envolvido, são eles: Secretaria do Estado da Educação, Núcleo Regional de Educação - NRE, Pedagogos e Professores, Estabelecimentosde ensino de origem e Instituições Conveniadas. O Programa segue as Diretrizes Curriculares Estaduais e, para atender e responder efetivamente às necessidades educacionais especiais dos alunos que participam desse serviço, faz-se necessário modificar os procedimentos de ensino, tanto introduzindo atividades alternativas às previstas como introduzindo atividades complementares de forma a favorecê-los durante o período necessário. Dessa forma, são realizadas Adaptações Curriculares de pequeno porte que podem ser implementadas em várias áreas e momentos da atuação do professor. Com relação ao conteúdo ensinado, a adaptação pode “ser a priorização de tipos de conteúdos, a priorização de áreas ou unidades de conteúdos, a reformulação da sequência de conteúdos, ou ainda, a eliminação de conteúdos secundários, acompanhando as adaptações propostas para os objetivos educacionais” (BRASIL, 34 2000, p. 24). O ajuste dessas ações pedagógicas deve estar atrelado ao processo de aprendizagem do aluno. Os alunos atendidos pelo SAREH podem estar matriculados ou não na Educação Básica, podem estar em escolas Públicas ou privadas, de 5ª à 8ª série do Ensino Fundamental, do 1º ao 3º ano do Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos, Educação Especial e de 1ª à 4ª série do Ensino Fundamental quando a Instituição não tem parceria com a Rede Municipal de Educação. Ao iniciar o trabalho com o aluno, o professor faz uma abordagem para verificar se naquele momento ele está em condições físicas e emocionais para receber atendimento, além de aplicar as noções de “técnicas de assepsia” que fazem parte da rotina do hospital. Em seguida, o professor realiza uma nova sondagem para verificar os conteúdos que poderão ser trabalhados, levando em consideração a série, a idade e a compreensão do mesmo sobre o conteúdo, a disciplina que o internado mais gosta, ou que menos gosta, o que quer aprender ou ainda o que tem dificuldade, esse levantamento é feito por meio de uma ficha de Diagnóstico Pedagógico (anexo 3). Partindo da identificação do interesse e dificuldades do aluno, o professor seleciona, de acordo com a série em que está matriculado cada aluno, uma atividade que contemple um dos conteúdos essenciais listados a partir do rol de conteúdos estruturantes apontados pelas Diretrizes Curriculares da Educação Básica do Paraná. Após isso, inicia-se o trabalho pedagógico de forma lúdica, levando em conta o bem estar do mesmo, sem deixar de “exercitar a premissa de que cada dia de trabalho na escola se constrói com atividades que têm começo, meio e fim quando desenvolvidas” (FONSECA, 2001, p. 40). A avaliação é um processo contínuo e cada aula pressupõe um “observar” se houve avanço/progresso em relação ao domínio do conteúdo e em que medida isso ocorreu. A vida escolar do educando hospitalizado está registrada pelas informações advindas da escola de origem, durante a hospitalização, e nos dados apontados na Ficha Individual de Atendimento Pedagógico Hospitalar (anexo 4). Também são feitos, pelos professores, pareceres das disciplinas que deverão ser anexados à Ficha Individual do internado, feita pelo pedagogo do SAREH (anexo 5). 35 Em seguida, o hospital entra em contato com a escola por meio de um Informe Pedagógico (anexo 6) e solicita ao aluno em processo de tratamento de saúde um acompanhamento pedagógico diferenciado no período em que permanecer ausente da escola, em virtude de atestado médico. Nesse informe, o hospital salienta que deve ser respeitado o ritmo de reinserção do aluno no ambiente da escola e de aprendizagem, para que não venha sofrer interrupções em seu processo de escolarização. A escola de origem é orientada para reintegrar o educando, percebendo suas limitações e cuidados exigidos, pois, muitas vezes, é necessário o acompanhamento domiciliar, já que o educando teve alta hospitalar e não médica. Nestes casos, é realizado um trabalho do responsável pelo SAREH no NRE, a escola e a família, registrando a informação em ata para amparar formalmente esse educando e elaborar relatório circunstanciado para o controle do acompanhamento domiciliar. A escola solicita, então, que um responsável busque semanalmente as atividades domiciliares para serem desenvolvidas no período de tratamento em sua residência. Esta solicitação é feita formalmente pela ficha de Tarefa Domiciliar (anexo 7). Por fim, a escola deve emitir uma Planilha Informativa e Situacional (anexo 8) que, após ser preenchida, é enviada ao NRE com anexos do atestado ou laudo médico e ata da escola. Uma cópia desta planilha deve ficar na pasta individual do aluno. De posse da Planilha Informativa e Situacional, o responsável pelo SAREH, no NRE, poderá entrar em contato com a equipe pedagógica da escola reforçando os seguintes procedimentos: solicitação, junto aos familiares, do atestado médico e de laudo (quando for o caso), cujo teor deverá estabelecer os limites da ação pedagógica; reunião entre pedagogo(a), professores do aluno e direção, com registro em ata, para elaborar um Plano de Ação ao Atendimento Pedagógico e/ou Domiciliar; agendamento de reunião com o responsável pelo aluno, com registro em ata, em que deverá ser definido quem da família será o responsável pela busca e entrega, na escola, das atividades do aluno; e elaboração das atividades propostas e dos resultados atribuídos a sua conclusão, no que diz respeito à promoção ou não deste aluno, são de autonomia da escola. Neste período em que o aluno permanece afastado da escola por motivo de tratamento de saúde, a escola precisa dar continuidade ao seu processo de 36 escolarização. Por isso, são dadas, a cada departamento dentro da escola, atribuições que assegurem ao escolar hospitalizado o direito a sua socialização e reintegração às atividades escolares. Nesse sentido, cabe à direção da Escola, segundo o documento do SAREH, 2000): assegurar as condições da execução da proposta; acompanhar todo o processo e se fazer representar em todas as reuniões, de preferência participar pessoalmente; assumir a responsabilidade compartilhada pela decisão final do processo de atendimento pedagógico; ser mediadora, dentro dos limites da sua autonomia e autoridade para os casos em que houver divergências nas ações e que possa causar algum prejuízo ou transtorno no processo de aprendizagem do aluno; responder, em última instância, pelas convocações do NRE para esclarecimentos sobre situações que envolvam alunos atendidos; e assegurar que todas as informações, sobre a situação de saúde e pedagógica do aluno, sejam utilizadas somente para nortear o processo ensino- aprendizagem, e jamais permitir que possibilite constrangimento e/ou humilhação ao educando, à sua família, bem como a todos os envolvidos no processo. O mesmo documento atribui à equipe pedagógica: coordenar e orientar os professores quanto à forma de elaboração do material didático a ser disponibilizado para o aluno; analisar a qualidade deste material no aspecto ensino e aprendizagem; acompanhar o processo e sua avaliação, assegurando ao aluno o respeito de seus direitos e ao professor sua autonomia quanto à decisão do resultado obtido; e disponibilizar ao professor todos os meios e recursos para que ele (professor) elabore o material didático para este aluno. À Secretaria de Educação cabe ser porta-voz da equipe pedagógica nos contatos com os familiares do aluno, com a equipe pedagógica dos hospitais conveniados (quando houver), ou com o coordenador responsável pelo SAREH no Núcleo Regional da Educação, do município da sua escola; manter responsável pelo SAREH, no Núcleo Regional da Educação de seu município, informado sobre as ações da equipe pedagógica e solicitar orientações em casos que extrapolam a autonomia da escola; orientar os professores quanto à forma de lançamento e registros das ações em seus livros de chamada;acompanhar, junto à secretaria da escola, toda a movimentação da pasta do aluno e seus anexos, auxiliando a secretaria na orientação 37 aos professores quanto a prazos e formas de lançamentos dos dados; acompanhar o retorno do aluno à escola e viabilizar a sua socialização e reintegração às atividades escolares; e manter um acompanhamento quanto a sua evolução na aprendizagem após o retorno, comunicando ao coordenador responsável pelo SAREH, no NRE, pelo Relatório Final o resultado da avaliação ao fim de cada período letivo (semestre). São atribuições dos professores: elaborar material didático diferenciado, respeitando as condições de saúde do aluno, de forma que este não perca a qualidade em conteúdo e que lhe permita melhor aproveitamento na aprendizagem; submeter-se ao acompanhamento da pedagoga da escola (o documento impede expressamente que o professor envie diretamente o material ao aluno); manter informados a equipe pedagógica e direção sobre sua proposta de ação; avaliar todas as atividades propostas e devidamente cumpridas pelo aluno, considerando sempre a condição diferenciada do processo, isto é, o aluno está ausente da sala de aula e enfermo; adequar a quantidade de envio do material didático ao aluno; e retornar todas as avaliações, devidamente corrigidas, e orientar sobre quais os procedimentos que deverão ser tomados nas questões em que o aluno não alcançou êxito. Sempre com o conhecimento da pedagoga responsável. Ressalta-se que as informações fornecidas pelas escolas e pela equipe do SAREH sobre os motivos do afastamento do educando permitem realizar um levantamento das principais causas de internamento, como neoplasia, traumas, queimaduras, transplantes e até mesmo a identificação de situações de enfrentamento aos desafios educacionais contemporâneos, tais como: violência doméstica e urbana (gangues, acidentes de trânsito), drogatização, gravidez precoce, trabalho infantil, entre outros. Diante das atribuições formalmente elencadas pelo documento, torna-se importante, agora, verificar como tais exigências e ações são colocadas em prática na realidade do atendimento dos hospitais. No caso particular desta pesquisa, no lócus do Hospital do Trabalhador de Curitiba, um dos maiores hospitais do município e referência estadual no atendimento de traumas. 38 3.2 CARACTERIZAÇÃO DO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA (HT) O Hospital do Trabalhador (HT) tem como missão, segundo o seu regimento interno (2008, p. 7), “contribuir para a qualidade de vida do cidadão e da comunidade, desenvolvendo, em nível de excelência, ações de saúde voltadas à prevenção, assistência e reabilitação, ensino e pesquisa, nas áreas de trauma e emergência, saúde do trabalhador, materno infantil e infectologia”. O Hospital do Trabalhador foi inaugurado no ano de 1947, como Sanatório Médico Cirúrgico do Portão, em um prédio inicialmente construído para abrigar uma escola agrícola. Na década de 1960, foi criado um plano para a criação do Instituto do Coração do Paraná que não foi concretizado. Vinte anos depois, foram retomadas as obras de implantação e reforma do Hospital Geral do Portão, que se tornou referência ao tratamento de HIV (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) e foi renomeado como Hospital Geral Mauro Senna Goulart, em homenagem ao Técnico de laboratório especializado no diagnóstico de Tuberculose que trabalhou no hospital. Na década de 1990, passa a trabalhar no Atendimento de Trauma, Saúde do Trabalhador, Infectologia e Materno-Infantil, realizando Convênios com a Secretaria Estadual de Saúde (SESA), Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Fundação da Universidade Federal do Paraná para o Desenvolvimento da Ciência, da Tecnologia e da Cultura (FUNPAR), organizações mantenedoras do Hospital, e passa a ter o nome fantasia de Hospital do Trabalhador. Em março de 2000 recebeu o título de “Hospital Amigo da Criança” e cinco anos depois foi reconhecido pelo Ministério da Saúde e Educação como “Hospital de Ensino” (Portaria Interministerial nº 862 de 07 de Junho de 2005). Em 2008, foi assinado um novo Convênio (010/2008) entre SESA/SMS/UFPR/FUNPAR com duração de 60 meses, com vigência até 2013. O HT possui, em 2010, um espaço físico de aproximadamente 14.543 m² de área construída e conta com 1.462 colaboradores, dentre eles, 297 médicos, 409 no setor de enfermagem, 189 no setor administrativo, 10 professores e 557 em outros 39 setores, incluindo os estagiários. Dentre suas especialidades estão as áreas de: Anestesiologia, Cardiologia, Cirurgia Geral, Cirurgia Pediátrica, Cirurgia Plástica, Cirurgia Torácica, Cirurgia Vascular, Clínica Médica, Ginecologia e Obstetrícia, Infectologia, Medicina Intensiva, Nefrologia, Neurologia, Odontologia, Ortopedia e Traumatologia, Otorrinolaringologia, Patologia, Patologia Clínica/Medicina Laboratorial, Pediatria, Radiologia e Diagnóstico por Imagem. O hospital possui um total de 190 leitos ativos entre as diversas especialidades, como mostra o quadro a seguir: Trauma 64 Maternidade 35 Pediatria 30 Infectologia 16 UCIN* 10 UTI Adulto** 10 UTI NEO** 08 UTI Pediátrica** 02 Hospital Dia 15 Total 190 *Unidade de Cuidados Intermediários Neonatais ** Unidade de Terapia Intensiva QUADRO 5 – NÚMERO DE LEITOS ATIVOS Fonte: Relatórios de Atividades do HT, 2008, p.14. 40 Como podemos observar no quadro anterior, o maior número de leitos ativos são de pacientes com Traumas, Maternidade e Pediatria. Destacamos, em especial, a Pediatria onde se atende a Pedagogia Hospitalar, lócus de estudo desta pesquisa. A Pediatria está localizada no primeiro andar, possuindo quatro divisões e dispondo de um total de 30 leitos e uma sala de isolamento. Os leitos encontram-se nas salas 401, 402, 403 e 404, onde são atendidas crianças/adolescentes na idade de 0 à 17 anos. Também na Pediatria está inserida a Brinquedoteca, local de realização das atividades lúdicas com as crianças internadas. Em relação ao número de atendimentos, o HT vem apresentando um grande crescimento desde o ano de 1998, como podemos ver na figura a seguir: Fonte: Relatórios de Atividades HT, 2008, p.14. FIGURA 1 - ATENDIMENTO ANUAL HT (1998 – 2008) 41 Analisando a figura anterior, pode-se perceber que o hospital apresentou um elevado crescimento entre os anos de 1998 a 2008, tendo apenas um declínio no ano de 2003, e retomando a expansão, embora de forma mais lenta, nos anos de 2005-2008. O HT, desde 2001, desenvolve uma Política Nacional de Humanização conforme preconiza o Ministério da Saúde. O Encontro de Humanização já alguns anos é desenvolvido em duas etapas: a primeira, mais temática, com palestras motivacionais, buscando trazer o colaborador a uma reflexão do seu cotidiano. Na segunda etapa, batizada de “Cuidado de quem Cuida”, as atividades são direcionadas para oficinas como: ginástica laboral, aplicação de reiki e estética, procurando despertar o valor de cada indivíduo. Ainda nessa etapa, existe o programa “Caça Talentos”, em que o colaborador pode expor trabalhos de artesanato (criatividade) para o público interno divulgando suas habilidades pessoais. Dentre os projetos realizados pelo HT está o Programa de Orientação de Gestantes (POG) que, desde 1996, recebe gestantes das Unidades de Saúde de Curitiba. Este projeto está vinculado ao Programa “Mãe Curitibana”, e procura realizar palestras explicativas para gestantes e seus acompanhantes sobre as normas de internação, parto e estadia na maternidade. Após a palestra, são desenvolvidas visitas às enfermarias do Alojamento Conjunto, onde as gestantes e seus acompanhantes se ambientam com as instalações e visitam os bebês recém-nascidos. Desde o início do programa, segundoo Relatório de Atividades do Hospital (2008), foram realizadas 832 visitas à Maternidade do HT, participaram 66 Unidades de Saúde, 421 profissionais de saúde acompanharam os grupos e totalizaram o atendimento de 8.003 gestantes até dezembro de 2008. Durante a internação das gestantes, são dadas instruções especiais sobre o aleitamento materno. Outro programa realizado no HT é o “Voluntariado Social”, que, desde 1999, conta com a participação dos voluntários da comunidade que dedicam parte do seu tempo para dar atenção e executar diversas tarefas que contribuem com a humanização de atendimento aos pacientes e familiares. No período de 2005 a 2008, foram contabilizadas 39.612 horas de trabalho voluntário (Relatório de Atividades HT, 2008). 42 Desde 2007, o HT conta com o Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar – SAREH, que dá suporte à Educação Básica (5ª à 8ª série do Ensino Fundamental e Médio). Como Política Pública de Inclusão Educacional, a Secretaria de Estado da Saúde e Secretaria de Estado da Educação em parceria disponibilizam pedagoga e professores, promovendo assistência educacional hospitalar aos internados e educação permanente aos colaboradores. Assim, de acordo com o documento, o “HT reafirma seu compromisso de Hospital Amigo da Criança, abrindo espaço para garantia da continuidade da escolarização formal minimizando os prejuízos das hospitalizações” (Relatório de Atividades do HT, 2008, p. 34). As crianças internadas possuem um local com microcomputadores ligados em rede à internet, junto à brinquedoteca da pediatria, onde utilizam jogos educativos e realizam atividades pedagógicas, dentro do programa de inclusão digital. Também são feitos chat’s com crianças internadas em outros hospitais do Estado. No caso de restrição de mobilidade, são disponibilizados notebooks nos próprios leitos, desde que permitidos por prescrição médica. Estas atividades são coordenadas por uma pedagoga hospitalar, que atua tanto nas atividades junto aos computadores como nas atividades ligadas a brinquedoteca. Desde o início da implantação desse laboratório da informática, em agosto de 2004, já foram atendidas 1.451 crianças (Relatório de Atividades, 2008). E como este atendimento pedagógico é realizado às crianças e adolescentes internados? No tópico seguinte, serão abordadas as questões que envolvem o atendimento escolar do Hospital, como o tempo e o espaço, as áreas destinadas, os tipos de atividades desenvolvidas, a partir da observação e da análise das entrevistas realizadas com as responsáveis pelo SAREH no Hospital do Trabalhador. 43 3.3 O ATENDIMENTO PEDAGÓGICO NO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA O Hospital do Trabalhador possui dois tipos de atendimento pedagógico ligados ao setor de Pediatria: a Escolarização Hospitalar, coordenada pelo SAREH; e a pedagogia hospitalar lúdica, sob a responsabilidade da pedagoga contratada pelo próprio hospital. A Escolarização é feita pelo Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar – SAREH – em sala própria, conforme FOTOGRAFIA 1, e o atendimento é feito a partir do momento em que a criança/adolescente entra no hospital. São atendidas pelo SAREH crianças/adolescentes de 7 a 17 anos, já que a Prefeitura não desenvolve nenhum trabalho de escolarização no HT. FOTOGRAFIA 1 – SALA DO SAREH NO HT FONTE: As autoras (2010) Ao dar entrada no hospital, depois do atendimento médico, a criança/adolescente recebe a visita da Pedagoga do SAREH, que faz uma Sondagem por meio de escuta pedagógica para verificar se, naquele momento, a criança/adolescente está em condições físicas e emocionais para receber atendimento. 44 De acordo com Ceccin (1997, p.76), a escuta pedagógica traz para a criança uma nova forma de pensar em relação à sua saúde e à experiência com a hospitalização, pois continua a desenvolver o seu cognitivo, levando-a ao desejo de viver: O termo escuta provém da psicanálise e diferencia-se da audição, enquanto a audição se refere à apreensão/compreensão de vozes e sons audíveis, a escuta se refere à apreensão/compreensão de expectativas e gestos, as lacunas do que é dito e os silêncios, ouvindo expressões e gestos, consultas e postura. (CECCIN, 1997, p.31). Em seguida é feito um Diagnóstico Pedagógico (Anexo 3), que corresponde a um levantamento sobre a série em que o internado se encontra e quais disciplinas ele tem mais dificuldade para que possam ser escolhidas e aplicadas as atividades. Todas as informações colhidas sobre o escolar internado provêm da escola de origem e são registradas em uma Ficha Individual de Atendimento Pedagógico Hospitalar (Anexo 4). Depois de aplicadas as atividades, as professoras fazem pareceres das disciplinas, os quais deverão ser anexados à Ficha Individual do Internado, feita pela pedagoga (Anexo 5). Após o atendimento, a Pedagoga entra em contato com a escola por meio de um documento denominado Informe Pedagógico (Anexo 6), solicitando ao aluno em processo de tratamento de saúde um acompanhamento pedagógico diferenciado no período em que permanecer ausente da escola, em virtude de atestado médico. Quando a criança/adolescente tem alta, as atividades realizadas no hospital são enviadas a sua escola de origem. A partir daí, é de responsabilidade da escola e dos responsáveis darem andamento ao processo de aprendizagem deste aluno. O SAREH do HT possui uma equipe pedagógica formada por 01 Pedagoga da Rede Estadual de Ensino do Paraná, aqui identificada como R. (47 anos), que trabalha no horário das 8h às 18h. Esta pedagogia é responsável pela sondagem e escuta das crianças/adolescentes internados, pelo planejamento das atividades aplicadas e por entrar em contato com a escola de origem do escolar hospitalizado. A equipe pedagógica também é formada por 03 professoras, da mesma Rede de Ensino, que trabalham no horário das 13h às 17h, sendo que cada uma trabalha com 45 disciplinas diferenciadas. Sendo uma professora, aqui identificada por J. (30 anos), responsável pelas disciplinas de Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Educação Física e Arte; uma segunda professora identificada por C. (idade não revelada), responsável pelas disciplinas de Matemática, Ciências, Biologia, Química e Física; e uma terceira professora, identificada por A. (idade não revelada), responsável pelas disciplinas de História, Geografia, Ensino religioso, Sociologia e Filosofia. O atendimento do SAREH é feito durante o ano letivo, de segunda à sexta- feira, já que as professoras e pedagoga são funcionárias da Rede Estadual de Ensino. No período de férias, todas as crianças/adolescentes são atendidos pela Pedagoga da Pediatria contratada do Hospital. FOTOGRAFIA 2 - ESPAÇO DE PLANEJAMENTO DAS PROFESSORAS FONTE: As autoras (2010) Na sequência, apresentamos o relato das duas entrevistas realizadas buscando sistematizar as informações a respeito do trabalho realizado pelo SAREH no HT. 46 3.3.1 O SAREH e a escolarização hospitalar no HT: a visão da equipe pedagógica O atendimento pedagógico realizado pelo SAREH no Hospital do Trabalhador foi relatado pela pedagoga responsável e por uma das professoras da rede pública estadual que ali atua. A Pedagoga R. (47 anos) contou que trabalha no SAREH há dois anos e que é formada em Pedagogia. Passou a trabalhar com a Educação Hospitalar, por considerar o SAREH um projeto interessante e uma nova oportunidade para o seu crescimento profissional: “Sempre trabalhei em escola e nunca tive problemas com hospitais, então, quando abriu o concurso interno que acontece dentro da Rede Estadual com professores concursados do magistério, resolvi participar”. No processo de seleção desse concurso, foram analisados histórico e currículo, além da realização de entrevistas. A pedagoga relatou que,no começo, foi um pouco difícil a adaptação ao “cheiro diferente” do hospital e às situações dolorosas que ali existem. Mas, com o tempo, ela foi se acostumando e hoje já consegue agir com mais naturalidade. Questionada sobre a rotina pedagógica com a criança/adolescente hospitalizada, a pedagoga mencionou que, no período da manhã, faz um levantamento, entra em contato com a escola de origem da criança/adolescente e solicita o envio das atividades; e no período da tarde, os professores desenvolvem as atividades pedagógicas. Normalmente, nos primeiros dias, as atividades não foram ainda enviadas, o professor define as atividades de acordo com a faixa etária e também pelos questionamentos realizados com a criança/adolescente e com os responsáveis. Os professores se informam sobre o que a criança/adolescente está estudando naquele período e dá continuidade da proposta curricular. Desse modo, as escolas enviam o material, por meio dos pais ou responsáveis, via fax e outros meios. Ressaltou que, às vezes, a escola é resistente, sendo necessária a interferência do Núcleo Regional; e outras vezes as atividades são impróprias à criança/adolescente, pois, naquele momento, ela não possui condição de realizá-la, como trabalhos manuscritos muito extensos. 47 Os professores hospitalares fazem um parecer e o enviam juntamente com as atividades realizadas, sugerindo a nota, mas cabe à escola de origem aceitar essa nota ou não. Ela também relatou que o número de crianças/adolescentes atendidos por dia no HT varia muito, já que eles passam pouco tempo internados, pois é uma característica do hospital atender casos de traumas e estes casos não necessitam de muito tempo de internação. As crianças/adolescentes atendidas pelo SAREH são de 07 a 17 anos. Em seguida, questionamos quais os objetivos do atendimento pedagógico no HT e a pedagoga ressaltou que o projeto tem o objetivo de dar continuidade ao processo de escolarização da criança/adolescente internada para que esta não seja prejudicada em sua vida escolar, devido à internação. Em função das condições da criança/adolescente, o planejamento das atividades é flexível, levando-se em conta também a série, faixa etária e as Diretrizes Curriculares. A equipe privilegia as atividades enviadas pela escola de origem, desde que estejam apropriadas às condições do escolar internado. Em relação às famílias, a pedagoga comentou que, na maioria das vezes, elas participam entrando em contato com as escolas e enviando as atividades, mas existem aquelas que não aceitam o atendimento devido ao estado clínico da criança/adolescente internada e por acharem que não estão em condições de aprender. A pedagoga relatou que o nível de satisfação das crianças/adolescentes em relação ao atendimento prestado pelas professoras do hospital é muito grande, eles ficam muito felizes com a presença delas nos leitos, pois se distraem com as atividades desenvolvidas, o que minimiza sua situação de sofrimento no hospital. Em seguida, questionamos sobre as condições da criança/adolescente hospitalizada de reintegrar-se ao ensino regular após o período de internação. Ela acredita que a reintegração do escolar depende muito do seu estado psicológico, pois, mesmo ele tendo condições biológicas de voltar à escola, às vezes o seu estado psicológico não está preparado e ele leva um pouco mais de tempo para se reintegrar. Ao ser questionada sobre a diferença do trabalho realizado pelo SAREH e pela pediatria do hospital, ela nos explicou que, apesar do atendimento do SAREH ser realizado também na pediatria e na brinquedoteca, ambas realizam trabalhos 48 diferenciados, pois o SAREH trabalha com a escolarização vinculada com a escola regular, e a pediatria realiza apenas um trabalho lúdico sem vínculo nenhum com a escola. Mas, mesmo assim, considerado por ela, como “muito importante, por ajudar a recuperação das crianças/adolescentes, que se encontram hospitalizadas”. Por fim, perguntamos em que pontos a Pedagogia Hospitalar se aproxima e se distancia da Pedagogia Escolar e a pedagoga R. nos respondeu que elas se aproximam em relação aos conteúdos trabalhados, que são os mesmos da escola regular, mas que se distancia na questão de que, na escola, os profissionais não estão preparados para lidar com situações de crianças com algum tipo de limitação ou doença, e que no hospital os profissionais sabem lidar com isso, já que trabalham nessa situação todos os dias. A professora do SAREH no HT, que concedeu entrevista para esta pesquisa, é formada em Biologia e Educação Física há seis anos e trabalha no SAREH há um ano e meio. Perguntada sobre o que a levou a trabalhar com educação hospitalar, ela nos disse que já trabalhava na Rede Estadual e ficou sabendo das vagas na Rede Hospitalar. Como já conhecia o projeto, resolveu se inscrever no processo seletivo que inclui análise do currículo e entrevistas. Passou nos testes e passou a trabalhar no HT no período da tarde. Pela manhã, ainda trabalha em uma escola. A professora relatou como é a rotina da criança/adolescente hospitalizado. Pela manhã, a criança/adolescente hospitalizada passa pelo atendimento médico, exames e entrevista com a pedagoga do SAREH, a qual verifica seu estado clínico para saber se pode ou não fazer as atividades. À tarde, as crianças/adolescentes são atendidas pelas professoras, exceto quando são levadas para atendimento médico/exames. O número de crianças atendidas varia muito, às vezes tendo até 10 ou mais crianças e outras vezes nenhuma, já que ficam internadas pouco tempo. Os materiais utilizados são diferenciados pelo fato de as crianças serem atendidas, na maioria das vezes, no leito. Quando podem se locomover, são atendidas na brinquedoteca porque possui recursos como jogos, livros, tv e brinquedos. E, em algumas ocasiões, quando atendidas na sala de isolamento, os materiais são descartáveis. 49 As aulas são planejadas com base nas Diretrizes Curriculares, as atividades já estão previamente preparadas e divididas em pastas, de acordo com a série, bimestre e conteúdos. Quando o escolar dá entrada no hospital, a pedagoga faz uma sondagem e seleciona as atividades apropriadas para aquela criança/adolescente. Quando o SAREH não possui o que o escolar está estudando, as professoras planejam no dia as atividades que irão aplicar, pois possuem um grande acervo de livros e computadores para pesquisa. A professora acredita que os resultados obtidos com os alunos são muito válidos, pois, “na maioria das vezes eles estão apenas limitados para se locomover e não para aprender”. Em relação às famílias, a professora J. disse que é uma situação bem delicada, pois algumas participam e ajudam nesse processo e outras não permitem que o atendimento seja feito: “Existem casos em que as crianças ficam sozinhas no hospital durante a internação, pois as famílias deixam a desejar não comparecendo ao hospital” Questionada a respeito de as crianças gostarem ou não do atendimento prestado, ela respondeu que a maioria demonstra gostar já que fica apenas no leito, sendo uma distração, principalmente para aquelas que chegam a ficar 60 dias ou mais no hospital. A professora também relatou que não tem dificuldades no atendimento pedagógico, já que atende apenas às crianças/adolescentes que estão em condições de aprender. Ao ser questionada em relação às condições de reintegração do escolar doente ao ensino regular, ela diz que sempre há dificuldades, pois “todos nós funcionamos biologicamente, cognitivamente e emocionalmente, e, às vezes, quando um desses fatores não funciona corretamente acaba afetando o outro, assim algumas crianças podem ter dificuldades ou levar mais tempo para se reintegrar”. Por fim, perguntada sobre a relação entre o professor-aluno hospitalizado, ela respondeu que é bem profissional, pois procura não se envolver emocionalmentepara que o seu trabalho não afete sua vida pessoal. Ela relatou como é o seu dia-a-dia, e como faz para separar tudo o que vivencia no hospital da sua vida pessoal, por considerar importante para que possa dar continuidade ao seu trabalho, sem envolvimento emocional. 50 Mas, como o Hospital do Trabalhador também possui um serviço de atendimento pedagógico próprio, tornou-se necessário para os interesses desse estudo e, em particular, dos pressupostos teóricos apresentados, entrevistar também a pedagoga responsável por tal atendimento, no sentido de verificar como os dois atendimentos se aproximam e se distanciam. Ou seja, se há, como levantado anteriormente, a complementaridade entre ambos. 3.3.2 O atendimento da Pediatria do HT: a visão da pedagoga O Hospital do Trabalhador também possui uma Pedagoga contratada, aqui identificada como P. (24 anos), que trabalha no horário das 8h às 17h de segunda a sexta, sendo responsável por atender crianças de 0 a 6 anos no setor de Pediatria. Essa pedagoga desenvolve atividades lúdicas com as crianças, incluindo jogos, leitura, contação de histórias, teatros com fantoches, pinturas, desenhos, colagens e recortes. As atividades são realizadas no espaço da brinquedoteca (FOTOGRAFIA 3), que possui mesinhas com cadeiras, tv, computadores, cantinho do brinquedo, cantinho da leitura e jogos. O atendimento é feito na brinquedoteca quando há condições de a criança se locomover, caso contrário a pedagoga atende a criança no leito. Essas atividades também se estendem às crianças/adolescentes de 07 a 17 anos (FOTOGRAFIA 4). De acordo com Matos e Mugiatti (2007, p.150), a implantação de brinquedotecas em hospitais infantis é prevista na Lei Federal 11.104, de 21/03/05, que passou a vigorar 180 dias após sua publicação, o que torna obrigatória a instalação de brinquedotecas em hospitais que oferecem internação pediátrica. A lei prevê penas de advertência, interdição, cancelamento da licença ou multa para os hospitais que não se adaptarem à nova norma. 51 FOTOGRAFIA 3 - BRINQUEDOTECA DO SETOR DE PEDIATRIA/HT FONTE: As autoras (2010) FOTOGRAFIA 4 - CRIANÇAS EM ATIVIDADE NA BRINQUEDOTECA FONTE: As autoras (2010) A pedagoga P. também realiza atividades escolares de forma fragmentada, ou seja, atividades escolhidas de acordo com a idade da criança e o com que ela mais gosta de fazer. Apesar de serem atividades escolares, não possuem nenhum vínculo com a escola, têm apenas o objetivo de distrair e estimular a criança. 52 A seguir, apresentaremos alguns exemplos de atividades realizadas com diferentes crianças na Pediatria do HT: FIGURA 2 - PALHACINHO PERALTA FONTE: HT/ Pedagogia Hospitalar – outubro/2010 A atividade do “Palhacinho Peralta”, segundo a pedagoga do HT, tem como objetivo desenvolver a coordenação motora da criança por meio de pintura e recorte. 53 FIGURA 3 – DESAFIO FONTE: HT / Pedagogia Hospitalar – outubro/2010 De acordo com a pedagoga do Setor Pediátrico do HT, esse tipo de atividade tem como objetivo auxiliar a alfabetização, estimulando a formação de palavras. 54 FIGURA 4 - ATIVIDADE COM DESENHO FONTE: HT / Pedagogia Hospitalar – outubro /2010 Atividade com desenho tem sido utilizada pela pedagoga do HT com o objetivo de estimular a interpretação. 55 FIGURA 5 - AUTODITADO FONTE: HT/ Pedagogia Hospitalar – outubro/2010 A pedagoga ressalta que tal atividade tem como objetivo estimular a interpretação dos desenhos e a escrita. 56 FIGURA 6 - PREVENÇÃO DE ACIDENTES DA INFÂNCIA FONTE: HT/ Pedagogia Hospitalar – outubro/2010 Essa atividade tem como objetivo, segundo a pedagoga, conscientizar as crianças dos perigos existentes em suas próprias casas. 57 FIGURA 7 - ONDE VIVE MINHA FAMÍLIA FONTE: HT/ Pedagogia Hospitalar – outubro/2010 Atividade utilizada pela pedagoga para trabalhar a noção de espaço e lugar com crianças acima dos 08 anos de idade. 58 FIGURA 8 - EQUILIBRE A BALANÇA FONTE: HT/ Pedagogia Hospitalar – outubro/2010 Essa atividade, segundo a pedagoga, tem como objetivo estimular o raciocínio lógico-matemático de crianças com mais de 08 anos de idade. 59 Além de atividades escolares, a Pedagoga P. desenvolve projetos lúdicos e de leitura para distrair e animar as crianças, “isso faz com que o tempo de espera seja amenizado”. Um dos projetos realizados no HT com as crianças da pediatria é o “Projeto Fique Esperto”, que tem como objetivo orientar a criança com relação ao atendimento prestado pelo médico, por meio de informações e atividades lúdicas (Anexo 9). Para desenvolver esses projetos, a pedagoga do Hospital do Trabalhador conta com a ajuda de instituições conveniadas que disponibilizam estagiários para a realização de trabalhos lúdicos e diferenciados dentro do hospital. Além dos estagiários, o hospital conta com o auxílio de voluntários que disponibilizam seu tempo para ajudar no trabalho com as crianças/adolescentes hospitalizadas. Diferentemente do trabalho do SAREH, que acontece durante o período letivo de aula, o trabalho realizado pela pediatria acontece durante todo o ano. Quando as professoras e pedagoga do SAREH entram em férias, é a pedagoga P. que assume o trabalho com todas as crianças e adolescentes de 0 a17 anos, desenvolvendo apenas trabalhos lúdicos, atividades fragmentadas e projetos que ajudam a amenizar o sofrimento daqueles que se encontram hospitalizados. Pelo que foi exposto, pode-se perceber que o trabalho pedagógico realizado dentro do HT agrega as duas linhas de pensamento da Pedagogia Hospitalar: a escolarização hospitalar realizada pelo SAREH, em que é desenvolvido um trabalho vinculado à escola de origem da criança/adolescente internado para que o mesmo não perca seu ano letivo, conforme prega a própria legislação que regula o atendimento pedagógico hospitalar no país e no Estado do Paraná; mas desenvolve, de forma concomitante, o trabalho pedagógico lúdico no setor pediátrico, onde são realizados projetos e atividades com estimulações visuais, brinquedos e jogos, para criar um ambiente alegre e aconchegante para a criança/adolescente hospitalizada. Tais linhas de pensamento, apesar de distintas, se complementam em um único objetivo: a recuperação da saúde das crianças/adolescentes hospitalizadas. Esse trabalho desenvolvido no Hospital do Trabalhador de Curitiba concretiza o pensamento de complementariedade entre as duas modalidades da pedagogia 60 hospitalar, defendido pela autora Regina Taam (2000) e exposto no primeiro capítulo deste trabalho. A autora acredita que tais correntes de pensamento, embora com especificidades próprias, tendem a se integrar na prática pedagógica hospitalar, o que foi evidenciado no trabalho realizado pedagogicamente pela equipe do SAREH/PR e pela pedagoga da pediatria no Hospital do Trabalhador de Curitiba. 61 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nessa pesquisa, procurou-se analisar o processo pedagógico para a criança e o adolescente hospitalizado. A questão principal era saber se as crianças que estavam hospitalizadas recebiam algum atendimento pedagógico, enquanto permaneciam em tratamento, de que natureza e sob a responsabilidade de quais agentes. Com o intuito de estudar estes procedimentos, a intenção foi apresentar no primeiro capítulo a trajetória histórica e legislativa da Pedagogia Hospitalar, destacando as duas linhas de pensamento da pedagogia hospitalar: a escolarizaçãohospitalar e a pedagogia lúdica, enfatizando a importância do trabalho pedagógico que cada uma realiza dentro do contexto hospitalar. Em seguida, o segundo capítulo buscou conhecer e analisar o trabalho pedagógico dentro do Hospital do Trabalhador de Curitiba, um dos maiores do Estado e que possui um atendimento materno-infantil de grande abrangência no município de Curitiba. Nesse sentido, foram realizadas observações e entrevistas com os profissionais envolvidos neste trabalho. A educação é um direito de toda a criança, estando ela hospitalizada ou não. Portanto, é de responsabilidade dos hospitais desenvolver um trabalho pedagógico para que os alunos internados não sejam prejudicados em sua vida escolar. Os resultados mostram que as crianças atendidas no Hospital do Trabalhador de Curitiba têm acompanhamento pedagógico realizado pelo Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar, em convênio com a Secretaria de Estadual de Educação do Paraná (SAREH), de acordo com os conteúdos recomendados pelas Diretrizes Curriculares. Embora a Pedagogia Hospitalar seja ainda uma visão recente acerca da escolarização aos alunos hospitalizados, que não podem se deslocar à escola, a oferta de atividades lúdicas/recreativas no ambiente hospitalar, como desenvolve o HT em seu Setor Pediátrico, é também uma fonte potencial para que as crianças possam amenizar o medo e a dor que estejam passando naquele momento. 62 Mas também é preciso enfatizar que as atividades lúdicas e recreativas não substituem a necessidade de atenção pedagógico-educacional, pois a escolarização tem um potencial de intervenção mais específico, para que as crianças e adolescentes internados não percam seu ano letivo. Os Direitos da Criança e do Adolescente hospitalizado, em seu item número nove, assim como a legislação brasileira, reconhece o direito de crianças e adolescentes hospitalizados ao atendimento pedagógico-educacional. Direito a desfrutar de alguma forma de recreação, programa de educação para a saúde e acompanhamento do currículo escolar, durante sua permanência hospitalar. Sendo assim, a partir do que foi observado e analisado no atendimento pedagógico hospitalar do HT, confirmou-se o pressuposto teórico da pesquisa, ou seja, de que, neste espaço estudado, a Pedagogia Hospitalar desenvolve um trabalho complementar entre a escolarização hospitalar e a pedagogia lúdica, envolvendo pedagogos, professores, voluntários, equipe médica e família, permitindo a criança/adolescente internada integrar-se por meio de ações lúdicas, recreativas e pedagógicas, dando continuidade a sua vida escolar mesmo estando em um hospital. O trabalho de escolarização hospitalar, realizado pelo SAREH, desenvolve um trabalho pedagógico dentro do hospital vinculado à escola de origem da criança/adolescente internada para que o mesmo não perca seu ano letivo. Este trabalho é realizado no Hospital do Trabalhador de Curitiba desde o ano de 2007 e conta com o apoio de uma equipe pedagógica formada por três professoras e uma pedagoga, ambas docentes da Rede Estadual de Ensino do Paraná. Além da escolarização hospitalar, o Hospital do Trabalhador desenvolve um trabalho específico e próprio conduzido por uma pedagoga de forma lúdica e recreativa com as crianças internadas. Neste caso, incluindo as duas linhas de pensamento da Pedagogia Hospitalar, ou seja, escolarização e ludicidade. Dessa maneira, o trabalho realizado no HT concretiza a ideia de complementaridade entre as duas modalidades da Pedagogia Hospitalar, visão defendida pela autora Regina Taam (1997, p. 4): “[...] tais correntes de pensamento, embora com especificidades próprias, tendem a se integrar na prática pedagógica hospitalar. A educação em hospitais 63 oferece um amplo leque de possibilidades e de um acontecer múltiplo e diversificado que não deve ficar aprisionado a classificações ou enquadramentos”. Sendo assim, o trabalho pedagógico realizado no Hospital do Trabalhador recupera a socialização da criança por um processo de inclusão, oferecendo continuidade à sua escolarização e valorizando sua nova aprendizagem. A inclusão social será o resultado do processo educativo e reeducativo, em que a escola é, pois, um fator externo na patologia. Logo, a inserção da escola no hospital é um vínculo que a criança mantém com o seu mundo exterior. Da mesma maneira que a educação hospitalar é um processo de inclusão, ela também está inserida no contexto da educação especial. Portanto, as escolas inclusivas são escolas para todos, implicando um sistema educacional que reconheça e atenda às diferenças individuais, respeitando as necessidades de qualquer aluno. O aluno da educação especial é aquele educando que, durante o processo educacional, demonstra dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares, podendo ser aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica e aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências. O professor especial designado para a pedagogia hospitalar, além de atender às crianças que estão permanentemente internadas, trabalha também com as que se encontram hospitalizadas por pouco tempo. Para evitar que a escolaridade dessas crianças seja sistematicamente interrompida e prejudicada em seus estudos, por estarem internadas, é que o Ministério da Educação - por intermédio da Secretaria Nacional de Educação Especial - previu, através da Política Nacional de Educação Especial (1994), o atendimento educacional em classes hospitalares incluindo a escolarização: “Classes Hospitalares são ambientes próprios que possibilitam o acompanhamento educacional de crianças e jovens que necessitam de atendimento escolar diferenciado por se encontrarem em tratamento hospitalar” (BRASIL, PNEE, 1994, p. 20). Portanto, se a escola deve ser promotora da saúde, o hospital pode ser o mantenedor da escolarização ao indicar à criança e ao adolescente hospitalizado, dentro de condições apropriadas a sua enfermidade, hábitos e respeito à rotina 64 educacional como fatores que estimulam a auto-estima e o seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 65 REFERÊNCIAS AMARAL, Daniela P. do; SILVA, Maria Teresinha Pereira e. Formação e prática pedagógica em classes hospitalares: Respeitando a cidadania de crianças e jovens enfermos . Disponível em www.malhatlantica.pt/. Acesso em Agosto de 2010. CECCIM, Ricardo B.; FONSECA, Eneida. A Criança Hospitalizada: Atenção Integral como escuta à vida, Porto Alegre: Editora da Universidade, UFRGS,1999. Disponível em: http://www.scielo.br/pd. Acesso em Agosto de 2010. _______. A Classe Hospitalar e a inclusão da criança enferma na sala de aula regular. Relato de pesquisa. Revista Brasileira de Educação Especial, V.8,n.1, 2002, p.45 - 54. Disponível em: www.abpee.net . Acesso em Agosto de 2010. Classe Hospitalar realiza hoje evento no hospital regional. Disponível em: www.portalms.com.br. Acesso em Outubro de 2010. CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS DA CRIANCA E DO ADOLESCENTE. Resolução nº 41, de 13 de outubro de 1995. Direitos da criança e do adolescente hospitalizados. Brasília: Imprensa Oficial, 1995. In: www.unioeste.br/huop/. Acesso em Julho de 2010. Encontro discute atendimento escolar em hospitais catarinenses. Disponível em: www. sed.sc.gov.br. Acesso em Outubro de 2010. FONSECA, Eneida S. Atendimento escolar no ambiente hospitalar. São Paulo: Memnon, 2003. INSTRUÇÃO Nº 006/2008. Secretaria de Estado da Educação. Governo do Paraná. Disponível em: www.diaadiaeducacao.com.br. Acesso em Outubro de 2010. LEI ESTADUAL N. 13.843/2006. Ministério Público de Santa Catarina. Disponível em www.mp.sc.gov.br. Acesso em Setembro de 2010. MATOS, Elizete L. M.; MUGIATTI,Margarida M. T. F. Pedagogia Hospitalar: A humanização integrando educação e saúde. Rio de Janeiro: Vozes, 2007. MATOS, Elizete L. M. Escolarização Hospitalar: Educação e saúde de mãos dadas para humanizar. Rio de Janeiro: Vozes, 2009. http://www.malhatlantica.pt/ http://www.scielo.br/pd http://www.portalms.com.br/ http://www.unioeste.br/huop/ http://www.diaadiaeducacao.com.br/ http://www.mp.sc.gov.br/ 66 MENEZES, Cynthya V. A. SAREH - Serviço a Rede de Escolarização Hospitalar: a construção de uma política pública para a promoção da educação de qualidade no Estado do Paraná. Curitiba, 2008. Disponível em: www.fiepr.com.br. Acesso em Setembro de 2010. Na hora difícil do hospital a escolinha faz esquecer a dor. Disponível em: www.educação.sp.gov.br/boa-noticia/2005. Acesso em Outubro de 2010. NOWISKI, Evely de Moraes et al. IX Congresso Nacional de Educação – EDUCERE III Encontro Sul Brasileiro de Psicopedagogia. 26 a 29 de outubro de 2009 – PUCPR. Disponível em: www.pucpr.com.br. Acesso em Agosto de 2010. OLIVEIRA, Linda de M. de; SOUZA FILHO, Vanessa C. de; GONÇALVES, Adriana G. Classe Hospitalar e a prática da Pedagogia. Revista científica eletrônica de pedagogia – ISSN: 1678 – 300x. Ano VI – número 11 – janeiro de 2008 – semestral. Disponível em www. smec.salvador..ba.gov.br. Acesso em Outubro de 2010. PARANÁ. Conselho Estadual de Educação. Deliberação n. 02/03 de 02 de junho de 2003. Disponível em: www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/. Acesso em Junho de 2010. Relatório de Atividades do Hospital do Trabalhador de Curitiba, 2008. RESOLUÇÃO Nº 2527/2007. Secretaria de Estado da Educação. Governo do Paraná. Disponível em www.diaadiaeducacao.com.br. Acesso em Setembro de 2010. TAAM, Regina. Assistência pedagógica à criança hospitalizada. (Tese de Doutoramento). Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000. 216.p. Disponível em : www.scielo.br/pdf. Acesso em Agosto de 2010. http://www.fiepr.com.br/ http://www.educação.sp.gov.br/boa-noticia/2005 http://www.pucpr.com.br/ http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/ http://www.diaadiaeducacao.com.br/ http://www.scielo.br/pdf 67 ANEXO 1 Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizados Brasil Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente Resolução 41/95 1. Direito a proteção, a vida e a saúde com absoluta prioridade e sem qualquer forma de discriminação. 2. Direito a ser hospitalizado quando for necessário ao seu tratamento, sem distinção de classe social, condição econômica, raça ou crença religiosa. 3. Direito de não ser ou permanecer hospitalizado desnecessariamente por qualquer razão alheia ao melhor tratamento da sua enfermidade. 4. Direito a ser acompanhado por sua mãe, pai ou responsável, durante todo o período de sua hospitalização, bem como receber visitas. 5. Direito de não ser separada de sua mãe ao nascer. 6. Direito de receber aleitamento materno sem restrições. 7. Direito de não sentir dor, quando existam meios para evitá-la. 8. Direito de ter conhecimento adequado de sua enfermidade, dos cuidados terapêuticos e diagnósticos, respeitando sua fase cognitiva, além de receber amparo psicológico quando se fizer necessário. 9. Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento do curriculum escolar durante sua permanência hospitalar. 10. Direito a que seus pais ou responsáveis participem ativamente do seu diagnóstico, tratamento e prognóstico, recebendo informações sobre os procedimentos a que será submetida. 11. Direito a receber apoio espiritual/religioso, conforme a prática de sua família. 12. Direito de não ser objeto de ensaio clínico, provas diagnósticas e terapêuticas, sem o consentimento informado de seus pais ou responsáveis e o seu próprio, quando tiver discernimento para tal. 13. Direito a receber todos os recursos terapêuticos disponíveis para a sua cura, reabilitação e/ou prevenção secundária e terciária. 14. Direito a proteção contra qualquer forma de discriminação, negligência ou maus tratos. 15. Direito ao respeito à sua integridade física, psíquica e moral. 16. Direito a preservação de sua imagem, identidade, autonomia de valores, dos espaços e objetos pessoais. 17. Direito a não ser utilizado pelos meios de comunicação de massa, sem a expressa vontade de seus pais ou responsáveis ou a sua própria vontade, resguardando-se a ética. 18. Direito a confidência dos seus dados clínicos, bem como direito de tomar conhecimento dos mesmos, arquivados na instituição pelo prazo estipulado em lei. 19. Direito a ter seus direitos constitucionais e os contidos no Estatuto da Criança e do Adolescente respeitados pelos hospitais integralmente. 20. Direito a ter uma morte digna, junto a seus familiares, quando esgotados todos os recursos terapêuticos disponíveis. Brasil. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Resolução n° 41 de Outubro de 1995 (DOU 17/19/95). 68 ANEXO 2 INSTRUÇÃO NORMATIVA 69 70 71 72 73 74 ANEXO3 75 ANEXO 4 76 ANEXO 5 77 ANEXO 6 78 ANEXO 7 SUGESTÃO DE COMUNICADO / REGISTRO / SOLICITAÇÃO DE TAREFA DOMICILIAR Escola Estadual ___________ COMUNICADO AOS PROFESSORES TAREFA DOMICILIAR Comunicamos que o aluno____________________________, nº ____, matriculado na (o) ____ série/ano do Ensino____________ desta Instituição, encontra-se impossibilitado de freqüentar a escola devido ao seu estado de saúde, conforme laudo/atestado médico, devendo permanecer em sua residência durante_____________. Para tanto, solicitamos a todos os professores que providenciem atividades equivalentes em número e conteúdo da semana de cada disciplina até o dia _________, para que sejam encaminhadas ao aluno através de um familiar que virá busca-las todas as ___________ para que estas sejam desenvolvidas em sua residência, evitando assim, que seu processo escolar seja prejudicado. Lembramos ainda, que tais atividades deverão ser validadas para efeito de desempenho e notas desse aluno (a). _________________ _______________ _______________ ______________ ___________ Equipe Pedagógica Professores Curitiba, ____/____/___. Escola Estadual ___________ COMUNICADO AOS PROFESSORES TAREFA DOMICILIAR Comunicamos que o aluno____________________________, nº ____, matriculado na (o) ____ série/ano do Ensino____________ desta Instituição, encontra-se impossibilitado de freqüentar a escola devido ao seu estado de saúde, conforme laudo/atestado médico, devendo permanecer em sua residência durante_____________. Para tanto, solicitamos a todos os professores que providenciem atividades equivalentes em número e conteúdo da semana de cada disciplina até o dia _________, para que sejam encaminhadas ao aluno através de um familiar que virá busca-las todas as ___________ para que estas sejam desenvolvidas em sua residência, evitando assim, que seu processo escolar seja prejudicado. Lembramos ainda, que tais atividades deverão ser validadas para efeito de desempenho e notas desse aluno (a). _________________ _______________ _______________ ______________ ___________ Equipe Pedagógica Professores Curitiba, ____/____/___. 79 ANEXO 8 GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO SUPERINTENDÊNCIA DA EDUCAÇÃO SERVIÇO DE ATENDIMENTO À REDE DE ESCOLARIZAÇÃO HOSPITALAR - SAREH 1 PLANILHA INFORMATIVA E SITUACIONAL Estabelecimento de Ensino: _____________________________________________Fone: ____________________________ Setor :________________________ Data : ____/____/_____ Município: ______________________________________________________________________NOME DO ALUNO(A) FONE IDADE SÉRIE Hospital (se não houve inter. escrever “em domicílio”) SITUAÇÃO* PERÍODO (dia/mês/ ano) Responsável pela informação : Retorno do NRE: * internado (local e data); em domicilio (desde); ação da escola (tipo de acompanhamento); data alta hospitalar(dd/mm/aa). Anexar cópia do atestado ou laudo médico e da ata da escola. 80 ANEXO 9 PROPOSTA DE TRABALHO LÚDICO PEDAGÓGICO NO AMBULATÓRIO DO HOSPITAL DO TRABALHADOR PROJETO FIQUE ESPERTO JUSTIFICATIVA Tendo em vista que um trabalho educativo pode se fazer presente em qualquer espaço e com qualquer público, como também, considerando que no setor ambulatorial existem os dias que são exclusivamente destinados ao atendimento pediátrico. A equipe pedagógica do Hospital do Trabalhador percebeu a importância de se fazer presente também no setor referido acima. Como nestes dias de ambulatório pediátrico o volume de crianças é bastante grande, e, considerando que o tempo de espera dessas crianças para serem atendidas é também bastante grande, portanto, diante do referido anteriormente e preocupando-se com a saúde psicológica e emocional da criança, a pedagogia hospitalar sugere uma proposta de trabalho no setor ambulatorial, com o objetivo de distrair e entreter essa criança, como também, com uma finalidade de orientar e informar essas crianças com relação ao que irá ocorrer a partir do momento que ela entrar no consultório para ser atendida. OBJETIVO GERAL Oferecer um melhor atendimento ambulatorial pediátrico com vistas para a humanização. OBJETIVOS ESPECÍFICOS - Orientar de uma melhor maneira a criança com relação ao atendimento prestado pelo médico; - Informar à criança sobre o que irá ocorrer em sua consulta; - Distrair a criança com atividades lúdicas, dessa forma, fazendo com que o tempo de espera seja amenizado. 81 APÊNDICE 1 ROTEIRO PARA ENTREVISTA COM A PEDAGOGA DO HT DE CURITIBA Dia:......./........./.......... Horário: Início..................... Término............... I – DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: 1)Nome: 2) Idade: 3) Formação superior: 4) Tempo de formação: 5) Cargo que ocupa na instituição: 6) Tempo de trabalho na instituição: II – QUESTÕES SOBRE AÇÕES PEDAGÓGICAS NO HT: 7) O que a levou a trabalhar com a Educação Hospitalar? 8) Como foi a sua adaptação no Hospital? 9) Como é a rotina pedagógica com a criança/adolescente hospitalizado? 10) Com quantas crianças você trabalha em média e qual a faixa etária? 11) Quais os objetivos do atendimento pedagógico no HT? 12) Como se realiza o planejamento das atividades pedagógicas no hospital? 13) Que tipos de atividades são privilegiadas pela equipe? Por quê? 14) Como é o processo de comunicação com a escola de origem? Quem entra em contato com a escola? 15) Como é realizada a avaliação? 16) Qual a interferência da família neste processo do hospital? 82 17) As famílias se sentem satisfeitas com o atendimento? 18) Como a escola acompanha o processo de atendimento escolar no hospital? 19) Qual o nível de satisfação das crianças com as atividades pedagógicas desenvolvidas no Hospital? 20) Você considera que a criança/adolescente hospitalizado possui condições de reintegrar-se ao ensino regular após o período de internação? 21) Em que pontos você considera que a Pedagogia Hospitalar se aproxima e se distancia da Pedagogia Escolar? 22) O trabalho do SAREH é vinculado ao da Pediatria? 83 APÊNDICE 2 ROTEIRO PARA ENTREVISTA COM A PROFESSORA DO SAREH DO HT DE CURITIBA Dia:......./........./.......... Horário: Início..................... Término............... I – DADOS DE IDENTIFICAÇÃO DO ENTREVISTADO: 1)Nome: 2) Idade: 3) Formação superior: 4) Tempo de formação: 5) Cargo que ocupa na instituição: 6) Tempo de trabalho na instituição: II – QUESTÕES SOBRE AÇÕES PEDAGÓGICAS NO HT: 7) O que a levou a trabalhar com a Educação Hospitalar? 8) Como é a rotina pedagógica com a criança hospitalizada? 9) Com quantas crianças você trabalha em média e qual a faixa etária? 10) Os materiais utilizados na escolarização hospitalar são diferenciados da escola regular? Como? 11) Que estratégias de ensino-aprendizagem são utilizadas com os alunos hospitalizados? 12) Quais as dificuldades encontradas no atendimento pedagógico? 13) Como você planeja suas aulas? 14) Como as famílias participam deste processo? 84 15) Como é a relação professor-aluno hospitalizado? 16) Como você avalia os resultados obtidos com o aluno hospitalizado? 17) As famílias se sentem satisfeitas com o atendimento? Como se manifestam? 18) E as crianças? Qual o nível de satisfação delas com as atividades pedagógicas desenvolvidas no Hospital? 19) Você acredita que o escolar hospitalizado possui condições de integrar-se ao ensino regular sem dificuldades?das Crianças com Câncer CAIS - Centro de Atenção Integral à Saúde CAPE - Centro de Apoio Pedagógico Especializado CBE - Coordenação de Educação Básica CEEBJA - Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos CEE - Conselho Estadual de Educação CNE - Conselho Nacional de Educação CNEFEI - Centro Nacional de Estados e de Formação para Infância Inadaptada CONANDA - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente EE - Educação Especial EJA - Educação de Jovens e Adultos ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio HIV - Síndrome de Imunodeficiência Adquirida HT - Hospital do Trabalhador LDB - Lei de Diretrizes e Bases MEC - Ministério da Educação NRE - Núcleo Regional da Educação PNHAH - Projeto Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar POG - Programa de Orientação de Gestantes PUCPR - Pontifícia Universidade Católica do Paraná SAREH - Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar SBP - Sociedade Brasileira de Pediatria SEED - Secretaria de Estado da Educação do Paraná SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 1 2 A PEDAGOGIA HOSPITALAR NO CONTEXTO BRASILEIRO: ASPECTOS HISTÓRICOS, LEGAIS E TEÓRICOS ................................................................... 4 2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS E LEGISLATIVOS .................................................... 4 2.2 PEDAGOGIA HOSPITALAR: DUAS LINHAS DE PENSAMENTO DISTINTAS E COMPLEMENTARES ...................................................................... 11 2.2.1 Projetos de Pedagogia Hospitalar ........................................................................20 3 O SERVIÇO DE ATENDIMENTO À REDE DE ESCOLARIZAÇÃO HOSPITALAR (SAREH) NO PARANÁ: O CASO DO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA............................................................................25 3.1 O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO DO SAREH: AÇÕES E ESTRATÉGIAS .......................................................................................................... 31 3.2 CARACTERIZAÇÃO DO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA – HT ................................................................................................... ............................. 38 3.3 O ATENDIMENTO PEDAGÓGICO NO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA....................................................................................................................43 3.3.1 O SAREH e a escolarização hospitalar no HT: a visão da equipe pedagógica....46 3.3.2 O atendimento da Pediatria do HT: a visão da pedagoga.....................................50 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................61 REFERÊNCIAS .........................................................................................................65 ANEXOS .....................................................................................................................67 APÊNDICES ...............................................................................................................80 1 INTRODUÇÃO A presente pesquisa tem como objetivo geral analisar o processo pedagógico realizado com crianças e adolescentes hospitalizados no contexto do Hospital do Trabalhador (HT) de Curitiba, um dos maiores hospitais da rede pública do Estado e referência no atendimento de traumas e materno-infantil. A criança ou adolescente internado passa por uma situação de privação de saúde e liberdade, que causa um desequilíbrio emocional e a sensação de abandono no ambiente hospitalar. O afastamento do internado de sua família, da escola e dos amigos acaba alterando sua auto-estima, criando ansiedade, medo, desânimo, depressão e tornando lenta a sua recuperação. A hospitalização da criança/adolescente faz com que o mesmo deixe de frequentar a escola. Daí, surgem os grandes desafios para a Educação Hospitalar, em geral, que precisa dar continuidade à vida escolar da criança internada e reduzir os impactos causados pela internação. Diante de tal situação, como, por exemplo, o Hospital do Trabalhador do município de Curitiba – uma das maiores unidades de atendimento do Estado do Paraná – passa a desenvolver um trabalho pedagógico para que os alunos internados não sejam prejudicados em sua vida escolar. De acordo com os Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizado, expressos na Lei 8.069/90 e na Resolução 41/95, de 13 de outubro de 1999, o paciente internando tem o direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde e acompanhamento de currículo escolar durante a sua permanência hospitalar. Sendo assim, faz-se necessária a criação de classes escolares em hospitais para garantir o atendimento das necessidades educacionais e os direitos de cidadania, entre os quais se inclui a escolarização. Segundo a política do Ministério da Educação (MEC), a classe hospitalar é um ambiente que possibilita o atendimento educacional de crianças e jovens internados que necessitam de educação especial e que estejam em tratamento hospitalar. 2 No Estado do Paraná, a Pedagogia Hospitalar desenvolve duas linhas de pensamento acerca da educação hospitalar, uma delas é a de Classes Hospitalares e a outra de Escolarização Hospitalar. A Classe Hospitalar caracteriza-se pela diversificação de atividades lúdicas e recreativas, trabalha com crianças e adolescentes internados em enfermarias pediátricas ou em ambulatórios de especialidades. Já a Escolarização Hospitalar consiste em um atendimento personalizado ao escolar doente, trabalha de acordo com as Diretrizes Curriculares e tem como objetivo dar continuidade ao processo educacional do aluno internado para que o mesmo não perca seu ano letivo. Apesar da existência dessas modalidades de atendimento parte-se, aqui, do pressuposto de que na prática pedagógica hospitalar, a distinção entre as duas abordagens teóricas se dilui e ambas se complementam, desenvolvendo um trabalho multidisciplinar entre educadores, equipe médica e família, que permite à criança internada – em função das diferentes situações apresentadas – integrar-se por meio de ações lúdicas, recreativas e pedagógicas, dando continuidade a sua vida escolar mesmo estando em um hospital. No sentido de verificar este pressuposto nas ações pedagógicas realizadas pelo Hospital do Trabalhador de Curitiba (HT), optou-se metodologicamente por caracterizar esta pesquisa como um estudo de caso, ou seja, uma investigação da história, do estado atual e das interações ambientais desta instituição com a finalidade de descrever o que a instituição, conveniada ao SAREH, tem feito no âmbito da pedagogia hospitalar. Para isso, partiu-se de uma pesquisa de cunho bibliográfico no tema, por meio de leitura das obras de Elizete Matos (2006; 2009), Margarida Mugiatti (2007), Regina Taam (2000), Eneida Fonseca (1999; 2001), Ricardo Ceccim (1999), Daniela Amaral e Maria Teresinha Pereira e Silva (2010), entre outros autores. Também foi realizada uma análise documental baseada nos Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizado, em documentos que norteiam o Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar – SAREH -; na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n. 9.394/96; instruções normativas, resoluções e 3 relatórios relativos às ações e estratégias pedagógicas adotadas pelo Hospital do Trabalhador do município de Curitiba, no Estado do Paraná. O desenvolvimento da pesquisa decampo no Hospital do Trabalhador de Curitiba ocorreu entre os meses de setembro, outubro e novembro de 2010, adotando- se como instrumentos de coleta de dados a observação sistemática e realização de entrevistas com pedagoga e professora responsáveis pelo Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar (SAREH) no HT, e com a pedagoga do próprio hospital pesquisado, totalizando 40 horas dentro do hospital. Nesse sentido, o trabalho foi estruturado em dois capítulos. No primeiro, foram apresentados os principais aspectos históricos e legislativos da Pedagogia Hospitalar, os quais asseguram os direitos da criança/adolescente hospitalizado, destacando-se a trajetória da Pedagogia Hospitalar no mundo, no Brasil e, em especial no Estado do Paraná, foco principal desta pesquisa. Já no segundo capítulo apresentamos o trabalho pedagógico realizado pelo Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar – SAREH – no Hospital do Trabalhador de Curitiba, bem como as ações desenvolvidas pela pedagoga do próprio HT, a partir dos relatos dos profissionais, entrevistas e observações, procurando analisar o trabalho pedagógico dentro do contexto do hospital. Propomos, portanto, realizar uma pesquisa que possa trazer contribuições para a atuação de professores e pedagogos dentro dos hospitais. E foi em busca desse objetivo que encaminhamos este trabalho de conclusão de curso. 4 2 A PEDAGOGIA HOSPITALAR NO CONTEXTO BRASILEIRO: ASPECTOS HISTÓRICOS, LEGAIS E TEÓRICOS A Pedagogia Hospitalar é uma nova área do conhecimento dentro da Pedagogia que necessita de novos estudos e que, recentemente, vem crescendo a partir de produções que evidenciam esta necessidade de aprofundamento com relação ao tema. Esta área volta-se para o atendimento das necessidades educacionais das crianças internadas em hospitais e que não podem frequentar a escola regular. Nesse sentido, o intuito é que a criança continue seu desenvolvimento integral que a hospitalização acaba por minimizar. Esta concepção educacional também precisa contribuir para que a criança, ao ser reinserida no contexto escolar, tenha condições de dar continuidade ao seu processo educacional dentro dos muros escolares. Mas, como surgiu histórica e legalmente esta preocupação educacional com as crianças e jovens hospitalizados? 2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS E LEGISLATIVOS O campo da Pedagogia Hospitalar surgiu da necessidade que as pessoas, por motivos ligados a enfermidades, afastam-se do momento de escolarização e com isso tornam- se excluídos de instituições de ensino e da própria comunidade a que pertencem. (MATOS, 2006, p.16). A partir da segunda metade do século XX, observou-se em países como Inglaterra, Estados Unidos e Canadá que orfanatos, asilos e instituições que prestavam assistência a crianças violavam aspectos básicos do desenvolvimento emocional das mesmas. Por falta de atendimento integral, concluiu-se que apresentavam risco de sequelas as quais, na vida adulta, poderiam evoluir para sérias condições psiquiátricas (FONSECA, CECCIM, 1999, p.15). Diante dessa situação, decorreu a iniciativa de implementar experiências educativas para crianças e adolescentes internados em instituições hospitalares. Mas, 5 antes de tais iniciativas, em 1935, o francês Henri Selleir inaugurou nos arredores de Paris a primeira escola para crianças consideradas inadaptadas, dando início à Classe Hospitalar. Seu exemplo foi seguido na Alemanha, em toda a França, na Europa e em outros países como os Estados Unidos, com a finalidade de suprir as dificuldades escolares de crianças tuberculosas. Pode-se considerar, portanto, como marco decisório das escolas em hospital a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o grande número de crianças e adolescentes atingidos, mutilados e impossibilitados de irem à escola, fez criar um engajamento, sobretudo dos médicos, que se tornaram desde então defensores da escola em seu serviço. Em 1939, foi criado o Centro Nacional de Estudos e de Formação para Infância Inadaptada – CNEFEI –, tendo como objetivo a formação de professores para o trabalho em institutos especiais e em hospitais. Também no mesmo hospital foi criado o Cargo de Professor Hospitalar, junto ao Ministério da Educação na França. O CNEFEI tem como missão até hoje mostrar que a escola não é um espaço fechado, promovendo estágios em regime de internato dirigidos a professores e diretores de escolas, aos médicos de saúde escolar e a assistentes sociais. No Brasil, foi no ano de 1950, no Hospital Municipal Bom Jesus, no município do Rio de Janeiro, que surgiu a primeira Classe Hospitalar, visando o atendimento a crianças internadas, para que em seus retornos para as escolas regulares pudessem continuar os estudos normalmente. Até então, os alunos que passassem por enfermidades que os obrigassem ao afastamento escolar eram submetidos à solução de continuidade do aprendizado, culminando muitas vezes a reprovação, desistência do ano escolar ou, na melhor das hipóteses, a uma promoção de nível sem o necessário conhecimento que seria exigido na série seguinte. Esta iniciativa é considerada em âmbito nacional como o marco inicial da Pedagogia Hospitalar no Brasil. A avaliação do trabalho escolar em ambiente hospitalar apresentou resultados satisfatórios, sendo que, em 1960, o segundo hospital iniciou o mesmo serviço, o Hospital Barata Ribeiro no Rio de Janeiro. Ainda assim, demonstrada a validade da 6 iniciativa, não havia vínculo com o Estado, contando somente com o apoio das direções dos hospitais. Foi necessário, no entanto, muitos anos para que as autoridades constituídas para o exercício da educação fossem compelidas a aceitar e normatizar a pedagogia hospitalar, tendo como fator determinante a Constituição Federal Brasileira de 1988, que, textualmente, diz em seu artigo 6º.: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção, à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. Desta maneira, induzidas pela determinação constitucional, as autoridades administrativas da educação procuraram estabelecer que o atendimento educacional hospitalar fosse legal e obrigatoriamente instituído, o que aconteceu em 1990 na Lei Federal n. 8.089, de 1990, conhecida também como o Estatuto da Criança e do Adolescente: A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que tratam esta lei, assegurando-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. (ECA, 1990, p.23). No mesmo padrão, outras instituições públicas firmaram seus propósitos, como foi o caso do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA –, órgão ligado ao Ministério da Justiça que, em proposta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), listou na resolução n. 41, de outubro de 1995 (anexo 1): “Os Direitos das Crianças e Adolescentes Hospitalizados, pretendendo assegurar, entre outros direitos, o de a criança “desfrutar de alguma forma de recreação, de programas de educação para a saúde e de acompanhamento do currículo escolar durante sua permanência hospitalar”. O Ministério da Educação também não foi omisso, prevendo na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394 de 1996, que: “Esta lei orienta para que cada hospital do país ofereça o serviço de classe hospitalar”. 7 A Classe Hospitalar foi criada, então, para assegurar às crianças e aos adolescentes hospitalizados, a continuidade dos conteúdos regulares, possibilitando um retorno após a alta sem prejuízos a sua formaçãoescolar. Ela deve se estender às famílias, sobretudo àquelas que não acham pertinente falar sobre doenças com seus filhos, buscando recuperar a socialização da criança por um processo de inclusão, dando continuidade a sua aprendizagem. Esta inclusão social deve ser o resultado do processo educativo e reeducativo. A socialização é, entendido nesta perspectiva, como um processo essencialmente ativo que se desenrola durante toda a infância e adolescência por meio das práticas e das experiências vividas, não se limitando a um simples treinamento realizado pela família, escola e outras instituições especializadas. Este processo, extremamente complexo e dinâmico, integra a influência de todos os elementos presentes no meio ambiente e exige a participação ativa da criança (FONSECA; CECCIM, 1999). Os processos de socialização podem ser compreendidos como um resumo de interações entre seres humanos, das quais estes participam ativamente e assim tornam- se membros de determinada sociedade e cultura. Por sua vez, a inclusão social é um termo amplo, utilizado em contextos diferentes, em referência a questões sociais variadas. De modo geral, o termo é visto como a inserção de pessoas com algum tipo de deficiência às escolas de ensino regular e ao mercado de trabalho, ou ainda a pessoas consideradas excluídas, que não têm as mesmas oportunidades dentro da sociedade. Assim, a inclusão do atendimento pedagógico na atenção hospitalar, inclusive no que se refere à escolarização, vem interferir nessa dimensão vivencial porque, segundo Fonseca e Ceccim (1999), resgata os aspectos de saúde mantidos, mesmo em face da doença, enquanto respeita e valoriza os processos afetivos e cognitivos de construção de uma inteligência de si, de uma inteligência do mundo, de uma inteligência do estar no mundo e inventar seus problemas e soluções. A Secretaria de Educação Especial define Classe Hospitalar como o atendimento pedagógico-educacional que ocorre em ambientes de tratamento de saúde, seja na circunstância de internação, como tradicionalmente conhecida, seja na 8 circunstância do atendimento em hospital-dia e hospital-semana ou em serviços de atenção integral à saúde mental. O hospital-dia representa uma alternativa intermediária entre ambulatório e internação, indicado para pacientes que não necessitam de pernoite. Já o hospital semana é indicado aos pacientes que necessitam de uma internação integral. Mais proximamente, o Estado do Paraná, por seu Conselho Estadual de Educação, vinculado à Secretaria de Estado da Educação, em sua Deliberação n. 02/2003, previu, em seu art. 14, que: “Os serviços especializados serão assegurados pelo Estado, que também firmará parcerias ou convênios com suas áreas de educação, saúde, assistência social, trabalho, transporte, esporte, lazer e outros, incluindo apoio e orientação á família, à comunidade e à escola” (SEED, 2003; apud Matos, 2009, p.112). Particularizando o tema abordado, o Município de Curitiba também regulamentou o exercício da atividade educacional em espaço hospitalar, o que, na denominada “Reunião para Convênios Hospitalares”, tratou da escolarização hospitalar, que vem sendo executada com a alocação de recursos humanos e materiais no espaço hospitalar do município, adequando-se à previsão legal e proporcionando a continuidade dos estudos por parte dos alunos afastados da escola por necessidade de tratamento de saúde. A seguir, um quadro contendo as legislações vigentes que amparam e legitimam o direito à educação aos educandos hospitalizados e impossibilitados de frequentar a escola. Destacam-se, no quadro 1, as duas últimas legislações citadas, pois norteiam especificamente um tipo de atendimento educacional no Estado do Paraná com o diferencial de uma documentação apropriada, que regulamenta a equivalência de frequência e aproveitamento escolar nas instituições de saúde. 9 ANO LEI DEFINIÇÃO 1969 Nº 1.044 Art. 1º, dispõe sobre tratamento excepcional para alunos portadores de afecções. 1975 Nº 6.202 Atribui à estudante em estado de gestação o regime de exercícios domiciliares. 1990 Nº 8.069 ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente. É um conjunto de normas do ordenamento jurídico brasileiro que tem como objetivo a proteção integral da criança e do adolescente. 1995 Resolução nº 41 Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizado – CONANDA – é um órgão deliberativo e controlador das políticas de promoção, defesa e garantia dos direitos da criança e do adolescente. 1996 Nº 9.394 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB - define e regulariza o sistema de educação brasileiro com base nos princípios presentes na Constituição 2001 Resolução nº 02 CNE – Conselho Nacional de Educação / CEB – Coordenação de Educação Básica / (Diretrizes Nacionais para Educação Especial na Educação Básica). 2002 Documento editado pelo MEC Classe Hospitalar e atendimento pedagógico domiciliar: estratégias e orientações. 2003 Deliberação nº 02 CEE – Conselho Estadual de Educação (Normas para a Educação Especial). 2007 Resolução nº 2527 SAREH - Institui o Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar 2008 Instrução Normativa nº 006 Estabelece procedimentos para a implantação e funcionamento do SAREH QUADRO 1 - HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO DA PEDAGOGIA HOSPITALAR NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA FONTE: As autoras (2010) http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordenamento_jurídico http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordenamento_jurídico http://pt.wikipedia.org/wiki/Criança http://pt.wikipedia.org/wiki/Adolescente http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil http://pt.wikipedia.org/wiki/Constituição 10 Apesar de a Pedagogia Hospitalar ser um assunto aparentemente pouco conhecido, o levantamento realizado indicou sua existência em várias localidades do Brasil, a partir da década de 1950. No Estado do Rio de Janeiro, lugar onde surgiu a primeira classe hospitalar, dados do I Encontro Nacional sobre Atendimento Pedagógico-Hospitalar revelam que no ano de 2000 já existiam 11 classes hospitalares em atividade, com 17 professores atuando. Destacando-se, entre essas, a classe hospitalar mais antiga e ainda em funcionamento no Hospital Municipal Bom Jesus (hospital público infantil), que iniciou oficialmente suas atividades em 14 de agosto de 1950. O Estado de São Paulo mantém 33 classes hospitalares, sendo 20 na Capital e 13 em cidades do Interior, e a Secretaria de Estado da Educação assegura o atendimento em sete hospitais da rede pública da capital e em mais sete no interior, com base na Lei Estadual n. 10.685, de 30 de novembro de 2000. Embora a lei seja do ano 2000, as classes hospitalares funcionam há mais tempo em São Paulo, desde a década de 1930, segundo dados do CAPE – Centro de Apoio Pedagógico Especializado, que oferece suporte ao processo de inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais na rede estadual de ensino. As classes hospitalares funcionam nos seguintes hospitais: Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Hospital Darcy Vargas, Hospital do Servidor Público Estadual, Hospital de Clínicas de São Paulo, Hospital AC Camargo, Hospital Cândido Fontoura. E nas cidades do Interior: Hospital de Clínicas de Ribeirão Preto, Hospital Amaral Carvalho, Centro de Atenção Integral à Saúde (CAIS) Clemente Ferreira, Hospital de Clínicas – UNESP de Botucatu, Fundação Pio XII – Hospital do Câncer de Barretos, Hospital Materno Infantil de Marília. As crianças internadas têm atividades pedagógicas de acordo com o que elas já vinham aprendendo, e entre os projetos colocados em prática estão o da Biblioteca Móvel, o de Humanização e o de Datas Comemorativas. Em Mato Grosso do Sul, cerca de mil crianças passam pelo atendimento epelos professores das classes hospitalares. Além de receberem o conteúdo pedagógico e as avaliações dos professores, as crianças que estão em tratamento de câncer, de 11 fraturas, viroses, renais e outras patologias recebem atenção e afetividade das professoras e enfermeiras. As classes hospitalares contam com professores cedidos de diversas disciplinas: Arte, Biologia, Ciência, Português e Exatas. Atualmente, seis hospitais possuem classes hospitalares: Santa Casa, Hospital Regional, Hospital Universitário, Hospital do Câncer, Associação dos Amigos das Crianças com Câncer (AACC) e Hospital São Julião. Por fim, no Estado de Santa Catarina as classes hospitalares foram criadas em 1999, atendendo alunos que estão internados em hospitais para que não percam o conteúdo curricular enquanto estão fora da escola. Atualmente, existem doze Classes Hospitalares, com 19 professores da rede pública estadual. Além de Florianópolis, as classes hospitalares funcionam em hospitais de Lages, Tubarão, Chapecó, Rio do Sul, Xanxerê, Curitibanos, Concórdia, Joaçaba, Ituporanga, Ibirama e Videira. Além disso, o Estado dispõe da Lei Estadual nº 13.843/2006 que garante o direito da criança e do adolescente ao atendimento pedagógico e escolar na internação hospitalar em Santa Catarina. De um modo geral, percebemos que, historicamente, a pedagogia hospitalar tendeu a privilegiar a concepção de classe hospitalar, embora exista também uma segunda linha de pensamento que defenda a escolarização hospitalar. No sentido de conhecermos melhor essas duas correntes teóricas, o tópico a seguir apresenta os fundamentos e os princípios que cada uma defende. 2.2 PEDAGOGIA HOSPITALAR: DUAS LINHAS DE PENSAMENTO DISTINTAS E COMPLEMENTARES Com o surgimento da Pedagogia Hospitalar, manifestam-se duas linhas de pensamento aparentemente opostas, mas que podem ser vistas como complementares. A primeira delas é a Hospitalização Escolarizada, foco principal deste estudo, e a segunda é a Classe Hospitalar, respaldada legalmente na Política Nacional de Educação Especial (BRASIL, 1994) e nas Diretrizes Nacionais para Educação 12 Especial na Educação Básica (BRASIL, 2001) e aplicada ao atendimento do escolar hospitalizado. A Hospitalização Escolarizada consiste no atendimento personalizado ao escolar doente, respeitando o seu momento de doença e considerando a situação de escolaridade como, também, a sua procedência. A partir de então, desenvolve-se uma proposta pedagógica específica para cada aluno, conforme as suas necessidades, entrando-se em contato com a realidade da escola de cada educando e desenvolvendo uma proposta didática e pedagógica de acordo com os padrões a que sua escola de origem atua. Para tanto, envolve-se a professora deste aluno por meio do serviço social do hospital e como ponte de apoio à família, para o recebimento e entrega de atividades enviadas por ela. Existe também uma atuação complementar, feita pela professora do hospital que atende este educando, de forma criativa, indo além dos conteúdos propostos, criando estratégias que favoreçam o processo de ensino e aprendizagem, contextualizando-o com o desenvolvimento e experiências vivenciadas pelas crianças/adolescentes internados e respeitando-se a situação especial e individual de cada aluno da escola hospitalar. Um fator importante é que todo escolar hospitalizado deve estar matriculado em uma escola, caso contrário, a família ou assistente social do hospital deverá matricular a criança/adolescente, para que ela possa participar do projeto de hospitalização escolarizada. Na hospitalização escolarizada acontecem momentos integrados entre os escolares, mas de forma lúdica e recreativa, como também nisto insere-se sempre o processo pedagógico. São representantes dessa visão autores como Elizete Lúcia Moreira Matos e Margarida Maria Teixeira de Freitas Mugiatti (2001; 2006; 2009). De acordo com as autoras Matos e Mugiatti (2006, p. 37), a “Pedagogia Hospitalar é um processo alternativo de educação continuada que ultrapassa o contexto formal da escola, pois levanta parâmetros para atendimento de necessidades especiais transitórias do educando, em ambiente hospitalar e/ou domiciliar”. O atendimento das necessidades especiais do escolar hospitalizado é garantido pela Educação Especial (EE), uma modalidade de educação escolar entendida como 13 um processo educacional definido em uma proposta pedagógica, que assegura um conjunto de recursos e serviços educacionais especiais, organizados para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação e promover sua inserção na sociedade. A legislação brasileira (LDB n o . 9394/96) define que a EE faz parte integrante da educação geral, devendo proporcionar aos alunos condições que possibilitem sua integração na sociedade, utilizando, para isso, metodologia especial, atendimento individualizado, bem como recursos humanos especializados. Diante dessa situação, surgem os grandes desafios enfrentados pelos educadores que trabalham com a Educação Hospitalar que, além de darem continuidade à vida escolar da criança internada, buscam reduzir os impactos causados com a internação. Sendo assim, faz-se necessário desenvolver um trabalho multidisciplinar entre educadores, equipe médica e família, permitindo à criança internada integrar-se por meio de ações lúdicas, recreativas e pedagógicas, dando continuidade a sua vida escolar mesmo estando em um hospital. Partindo dessa perspectiva, a Pedagogia Hospitalar, por suas peculiaridades e características, situa-se numa interrelação entre os profissionais da equipe de saúde e a educação, tanto pelos conteúdos da educação formal, da saúde e da vida, como pelo modo de trazer continuidade do processo a que estava inserido, mas, de forma diferenciada e transitória a cada enfermo (MATOS; MUGIATTI, 2006, p. 46). O contato com o professor e com uma "escola no hospital" funciona, de modo importante, como uma oportunidade de relação com os padrões da vida cotidiana comum das crianças, com a vida em casa e na escola. A educação no hospital integraliza o atendimento pediátrico pelo reconhecimento e pelo respeito às necessidades intelectuais e sócio-interativas que tornam peculiar o desenvolvimento da criança. Para Matos e Mugiatti (2006), o trabalho do professor/pedagogo é muito importante, pois requer formação continuada e o desenvolvimento de novas habilidades, integrando os profissionais da saúde e educadores no mesmo espaço, visando atender as necessidades psicológicas sociais e pedagógicas das crianças e adolescentes. As autoras defendem a importância da dedicação dos profissionais de 14 educação, saúde e os demais para desenvolver um trabalho significativo com as crianças hospitalizadas: O educador, o assistente social, o psicólogo e os demais profissionais afins, devem buscar em si próprios o verdadeiro sentido de “educar”, devem ser o exemplo vivo dos seus ensinamentos e converter suas profissões numa atividade cooperadora do engrandecimento da vida. Para isso deverão pesquisar, inovar e incrementar seus conhecimentos e expandir sua cultura geral e procurar conhecer e desenvolver novos espaços socioeducacionais que possam, de certa forma, evidenciar uma sociedade mais harmônica em suas diversidades. (MATOS; MUGIATTI, 2006, p. 26). Dispor do atendimento de escolarização hospitalar, mesmo que por um tempo mínimo e que talvez pareça não significar muito para uma criança que frequente a escola regular, tem caráter de atendimento educacional e de saúde para a criança hospitalizada, uma vez que esta pode atualizar suas necessidades, desvincular-se, mesmo que momentaneamente, das restrições que um tratamento hospitalar impõe e adquirir conceitos importantes tanto à sua vida escolar quanto pessoal,acolhendo um outro tipo de referendamento social à subjetividade e podendo sentir que continua aprendendo e indo à escola, portanto, renovando seu ser criança e renovando potências afirmativas de invenção da vida. Procurando favorecer toda a estratégia que auxilie o desenvolvimento dessa modalidade educacional e que sensibilize os agentes da educação e da saúde sobre a importância do atendimento educacional à criança hospitalizada, faz-se necessário construir um espaço para profissionais dedicados à atenção às crianças e adolescentes que devem permanecer hospitalizados, com o objetivo de sensibilizar para a questão, trocar experiências e refletir sobre pedagogia hospitalar oferecendo ferramentas para o desenvolvimento desta modalidade educacional e explorando sua relação com o sistema educacional formal. Na visão de Matos (2004, p.46), a Pedagogia Hospitalar é “uma nova realidade interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar, porque envolve saberes em prol da vida”. O aspecto biológico da doença/hospitalização não ocorre de forma isolada, ele faz parte de um complexo sistema dentre os quais os de natureza 15 psicológica e social se associam a ele num íntimo e intenso entrelaçamento. Essa complexidade remete ao entendimento de um “processo multidisciplinar”. A multidisciplinaridade corresponde, de acordo com as autoras, aos diversos saberes conferidos em ambiente hospitalar, como sensível resposta à promoção da vida com saúde, para onde convergem as diversas ciências em prol da vida com mais qualidade. Já a interdisciplinaridade, assenta-se na integração e na interrelação de profissionais inseridos em contexto hospitalar. E a transdisciplinaridade, por sua vez, transcende a própria ciência, busca o vislumbre além-corpo, não se concentrando tão somente em aspectos físicos e biológicos, mas em outros tantos olhares que vêm revestidos, em essência, de valores e humanização, com afeto, envolvimento, doação, magia, entre outros atributos essenciais a tantos que permeiam este espaço vital. A concepção num enfoque multi/inter/transdisciplinar envolve, neste sentido, uma série de atividades específicas e integradas desenvolvidas junto à criança/adolescente hospitalizado, com realce, neste momento, à assistência psicopedagógica em contexto hospitalar. Sendo assim, a assistência pedagógica na hospitalização sugere uma ação educativa que se adapta às manifestações de cada criança/adolescente, em diferentes circunstâncias, nos enfoques didáticos, metodológicos, lúdicos e pessoais. Tendo em vista o embasamento legal, contido na legislação vigente que ampara e legitima o direito à educação, os hospitais devem dispor às crianças e adolescentes um atendimento educacional de qualidade e igualdade de condições de desenvolvimento intelectual e pedagógico. Já as Classes Hospitalares desenvolvem projetos, integrando diferentes realidades das quais as crianças advêm. Conforme a sua nomenclatura, oferece atendimento conjunto de forma heterogênea, isto é, atende a diversos escolares em uma classe ou sala de aula no hospital, de forma integrada, não atendendo cada escolar especificamente. Segundo a política do Ministério da Educação: “A Classe Hospitalar é um ambiente hospitalar que possibilita o atendimento educacional de crianças e jovens internados que necessitam de educação especial e que estejam em tratamento hospitalar” (MEC, 1994, p. 20). São representantes dessa visão autoras como Eneida 16 Simões da Fonseca (1999; 2001; 2002), Ricardo Burg Ceccim (1997; 1999) que têm publicações nessa área de conhecimento. De acordo com Fonseca (1999, p. 28), a classe hospitalar tem a finalidade de recuperar a socialização da criança por um processo de inclusão, dando continuidade a sua aprendizagem. A inclusão social será o resultado do processo educativo e reeducativo. A escola é um fator externo à patologia, logo, é um vínculo que a criança mantém com seu mundo exterior. Se a escola deve ser promotora da saúde, o hospital pode ser mantenedor da escolarização. E escolarização indica criação de hábitos, respeito à rotina; fatores que estimulam a auto-estima e o desenvolvimento da criança e do adolescente. Dentro desta linha de pensamento, a Pedagogia Hospitalar é uma modalidade que visa a atender pedagógica e educacionalmente crianças e jovens que, dadas as suas condições de saúde, estejam hospitalizadas para tratamento médico e, consequentemente, impossibilitados de participar das rotinas de sua família, sua escola e de sua comunidade (CECCIM; FONSECA, 1999). A criança ou adolescente internado passa por uma situação de privação de saúde e liberdade, o que causa desequilíbrio emocional e a sensação de abandono no ambiente hospitalar. O afastamento do internado de sua família, da escola e dos amigos acaba alterando sua auto-estima, criando ansiedade, medo, desânimo, depressão e tornando lenta a sua recuperação. A inserção do ambiente escolar no período de internação é importante para a recuperação da saúde da criança, já que reduz a ansiedade e o medo advindos do processo da doença. Com relação à pessoa hospitalizada, o tratamento de saúde não envolve apenas os aspectos biológicos da tradicional assistência médica à enfermidade. A experiência de adoecimento e hospitalização implica mudar rotinas; separar-se de familiares, amigos e objetos significativos; sujeitar-se a procedimentos invasivos e dolorosos e, ainda, sofrer com a solidão e o medo da morte - uma realidade constante nos hospitais. (MEC, 2002, p.10). O ambiente da classe hospitalar necessita ser diferenciado, tem que ser acolhedor, com estimulações visuais, brinquedos, jogos, sendo assim um ambiente alegre e aconchegante. É por meio do brincar que as crianças e adolescentes internados encontram maneiras de viver a situação de doença, de forma criativa e positiva. 17 Portanto, o trabalho em classe hospitalar faz com que haja diminuição do risco de comprometimento mental, emocional e físico dos enfermos. No entanto, as atividades são coordenadas de forma a dar um suporte e continuidade ao trabalho escolar das crianças/adolescentes atendidos na classe hospitalar. Assim, o planejamento de tais atividades torna-se imprescindível com o objetivo de reintegrar as crianças/adolescentes à sua escola de origem, assim que obtenham alta do hospital. O professor, para atuar em ambiente hospitalar, deve apresentar ampla experiência pedagógica, flexibilidade de trabalho, que irão completar seu perfil para o ambiente hospitalar, deparando-se com mudanças diárias nas enfermarias em que crianças internadas saem de alta ou entram em óbito. Diariamente, ao chegar às unidades de internação pediátricas, cirúrgicas, oncológicas, transplantes, emergências, doenças infecto-contagiosas, deverá estar preparado para avaliar em curto prazo e ofertar conteúdos dirigidos, de acordo com a idade, ambiente, condições físicas e psicológicas, contaminação e, sobretudo, o tempo de aprendizagem de cada indivíduo: “[...] não é a criança que é paciente, ela é impertinente ao hospital, nós é que temos de ser pacientes, nós é que pertencemos ao hospital, para torná-lo lugar de tratamento e cuidados (CECCIM; FONSECA, 1999, p. 24). No atendimento pedagógico, o Pedagogo Hospitalar deve ter seus olhos voltados para o todo, objetivando o aperfeiçoamento humano, construindo uma nova consciência em que a sensação, o sentimento, a integração e a razão cultural valorizem o indivíduo. Ele precisa ter sensibilidade, compreensão, força de vontade, criatividade, persistência e muita paciência, se quiser atingir seus objetivos: O professor da escola hospitalar é, antes de tudo, um mediador das interações da criança e do ambiente hospitalar. Por isso não lhe deve faltar noções sobre as técnicas e terapêuticas... sobre as doenças que acometem seus alunos e os problemas até mesmoemocionais delas decorrentes para as crianças e também para seus familiares e para as perspectivas fora do hospital. (FONSECA, 2003, p. 25). 18 É preciso que o professor conheça a realidade com o qual o aluno está apto a lidar, qual o desempenho que o aluno é capaz de apresentar ao realizar as atividades que o professor venha a propor: “[...] abre-se, com este estudo, a necessidade de formular propostas e aprofundar conhecimentos teóricos e metodológicos, visando atingir o objetivo de dar continuidade aos processos de desenvolvimento psíquico e cognitivo das crianças e jovens hospitalizados” (CECCIM; FONSECA, 1999, p.117). As Classes Hospitalares são, portanto, um tipo de educação formal, visto que já existem professores concursados pelo Estado e pela prefeitura trabalhando nos hospitais brasileiros que realizam acompanhamento da escolarização com relatórios e provas para os alunos. Todavia, a forma de construção dos currículos, os objetivos e as metodologias de ensino são específicas para o contexto hospitalar, como define a Deliberação 02/03, do Estado do Paraná: Classes Hospitalares - Serviço destinado a prover a educação escolar a alunos com necessidades educacionais especiais impossibilitados de freqüentar as aulas, em razão de tratamento de saúde que implique internação hospitalar, mediante atendimento especializado realizado por professor habilitado ou especializado em educação especial vinculado a um serviço especializado. (PARANÁ, 2003, apud EDUCERE, 2009, p. 2043). De acordo com a autora Regina Taam (1997), tais correntes de pensamento, embora com especificidades próprias, tendem a se integrar na prática pedagógica hospitalar. A educação em hospitais oferece um amplo leque de possibilidades e de um acontecer múltiplo e diversificado, que não deve ficar aprisionado a classificações ou enquadramentos. A autora defende a ideia de que o conhecimento pode contribuir para o bem- estar físico, psíquico e emocional da criança enferma, mas não necessariamente o conhecimento curricular ensinado no espaço escolar. Segundo Taam, o conhecimento escolar é o “efeito colateral” de uma ação que visa, primordialmente, à recuperação da saúde. Neste sentido, o trabalho do professor é ensinar, mas isso será feito tendo-se em vista o objetivo maior: a recuperação da saúde, pela qual trabalham todos os profissionais de um hospital. 19 Sendo assim, tais linhas de pensamento, apesar de distintas, se complementam em um único objetivo: oferecer ao escolar hospitalizado um ambiente diferenciado, que proporcione motivação para a continuidade de sua vida escolar. É possível pensar, também, que a educação não formal ocorre nos hospitais por meio de voluntários que, em parceria com instituições – como as universidades – desenvolvem projetos de extensão para atuação na área. De acordo com Taam (1997), a contribuição das atividades pedagógicas para o bem-estar da criança enferma passa por duas vertentes de análise. A primeira, aciona o lúdico como canal de comunicação com a criança hospitalizada, procurando fazê-la esquecer, durante alguns instantes, o ambiente agressivo no qual se encontra, resgatando sensações da infância vivida anteriormente à entrada no hospital. Essa vertente procura distrair a criança e, muitas vezes, o que consegue é irritá-la, e certamente não contribui para que ela reflita sobre a própria experiência e aprenda com ela. A segunda trabalha, ainda que de forma lúdica, a hospitalização como um campo de conhecimento a ser explorado. Ao conhecer e desmitificar o ambiente hospitalar, ressignificando suas práticas e rotinas como uma das propostas de atendimento pedagógico em um hospital, o medo da criança, que paralisa as ações e cria resistência, tende a desaparecer, surgindo em seu lugar, a intimidade com o espaço e a confiança naqueles que ali atuam. Essa definição, no entanto, não exclui o conceito de classe hospitalar. Pelo contrário, a pedagogia hospitalar parece ser mais abrangente, pois não exclui a escolarização de crianças que se encontram internadas por várias semanas ou meses, mas o incorpora dentro de uma nova dinâmica educativa. Apesar de a Hospitalização Escolarizada e as Classes Hospitalares serem duas linhas de pensamento distintas, pode-se perceber, na perspectiva teórica de Regina Taam (1997), como elas podem se complementar por meio de projetos da Pedagogia Hospitalar desenvolvidos em hospitais. E é exatamente isto que se pretende verificar com a pesquisa no Hospital do Trabalhador de Curitiba, analisada no capítulo seguinte. Mas, antes, serão apresentados os projetos desenvolvidos pelas autoras Elizete Matos e Margarida Mugiatti, desde 1989. 20 2.2.1 Projetos de pedagogia hospitalar Criados a partir de 1989 com o objetivo de transformar o ambiente hospitalar em um ambiente mais agradável para as crianças/adolescentes hospitalizados, os Projetos de Pedagogia Hospitalar de Elizete Matos e Margarida Mugiatti possuem características das duas modalidades da Pedagogia Hospitalar, justificando a complementaridade entre elas. O primeiro foi denominado Projeto Mirim de Hospitalização Escolarizada, iniciado em 1989, e motivado pela equipe técnica, a partir da necessidade de solucionar questões como: o que fazer com a criança e o adolescente que está há muito tempo internada? O procedimento inicial foi verificar o interesse da criança e do adolescente e da família em participar do projeto, explicando suas razões e justificativas, seu objetivo e como seria realizado. Com o auxílio do serviço social, a pedagoga entrava em contato com a escola de origem, diretamente com a professora da criança ou do adolescente. Estabelecido este contato começa o processo de manutenção e acompanhamento dos conteúdos escolares. O processo de escolarização ocorria por meio do contato da pedagoga hospitalar, juntamente com a professora da criança ou do adolescente, com a assistente social do hospital e os pais. Os pais, segunda as autoras, foram as “pontes” entre o hospital e a escola, ficando responsáveis pelo encaminhamento das atividades e propostas didático-pedagógicas. Na concepção deste projeto, cada criança ou adolescente é um caso diferente, tendo suas limitações diversificadas; e cada dia é diferente do outro, às vezes uma atividade deu certo em dia pode não dar no outro. Nessa condição, é necessário que o pedagogo seja flexível, atento e criativo. As atividades aconteciam dependendo do contexto e da condição da criança, de forma individualizada ou na classe hospitalar. As autoras ressaltam que é importante lembrar: “[...] é de bom senso o entendimento de que o hospital não é uma escola. Trata-se do atendimento a uma eventualidade que representa prejuízo à criança ou adolescente, em estado de doença/internação prolongada” (MATOS; MUGIATTI, 2006, p. 129). Como a prioridade é a saúde, o processo pedagógico, no seu todo, deve ser flexível. 21 O texto não apresenta relato a respeito do tempo de duração das atividades pedagógicas e nem sobre os dias da semana em que ocorrem, indica somente que as atividades, dependendo do contexto, podem ser conduzidas por estagiários. O segundo projeto, denominado Projeto Sala de Espera foi criado em 1993, com o objetivo de amenizar a ansiedade e o mal estar das crianças e adolescentes que ficavam na sala de espera, aguardando o atendimento de uma consulta médica. A sala de espera tradicional foi substituída por um ambiente lúdico, com mesinhas, cadeirinhas e um mural interativo. São realizadas atividades com fantoches, jogos, livros, revistas, desafios, músicas, fantasias e outras atividades envolvendo a criança e o adolescente enfermo, ou até mesmo a criança e o adolescente que estão a espera de uma consulta de rotina. Esse ambiente proporciona conforto, alegria e descontração. Segundo as autoras, após a instalação desse projeto foimais frequente as crianças e adolescentes entrarem no consultório médico mais descontraídas, alegres, facilitando o atendimento médico, como indicaram os depoimentos de pais e médicos. O projeto trouxe resultados positivos, na avaliação de Matos e Mugiatti (2006), tanto aos pais e responsáveis, que eram os integrantes ativos desse projeto, quanto para os profissionais da área da saúde que se integraram inteiramente a essa ideia. O projeto estava sendo desenvolvido por meio de parcerias entre hospitais e universidades, com orientação de docentes do curso de Pedagogia e dos cursos de Extensão. As autoras relatam que, naquele momento em que a pesquisa estava sendo realizada, estavam em processo de concretização uma Especialização em Pedagogia Hospitalar e acontecia um trabalho em conjunto com alunos, estagiários e voluntários, os quais participavam com outros profissionais da educação e de outras áreas que trabalham no hospital, de uma parceria que proporcionou resultados satisfatórios. O terceiro projeto, batizado de Projeto Literatura Infantil foi criado em 1994, com o intuito de diminuir os efeitos nocivos que o ambiente hospitalar causava (ansiedade, angústia, sofrimento), estimulando a criança e o adolescente a desenvolver a imaginação e a criatividade e incentivá-la ao gosto e ao hábito da leitura. Os livros eram levados até as crianças e adolescentes em seus leitos, em pequenas gôndolas, oferecidos de acordo com a faixa etária. Solicitados de acordo com o interesse da criança e do adolescente, a leitura não era imposta, mas era 22 conduzida pela professora. Era desenvolvida a leitura em voz alta, realizada pelas estagiárias, voluntárias ou demais profissionais, de forma que atraíssem a atenção especialmente dos menores. O projeto também estava envolvendo os familiares e responsáveis. O quarto projeto, chamado de Enquanto o Sono não Vem, criado pelas autoras em 2000, teve origem na observação da rotina hospitalar. Depois do jantar, a TV era ligada e iniciava-se um processo de silêncio, momento que motivou a pergunta: “O que fazer enquanto o sono não vem?” Nesta condição, surgiu à proposta de desenvolver uma contação de história, despertando o imaginário e a fantasia. Segundo as autoras relatam, o projeto foi bem sucedido, porque trouxe resultou em um sono tranquilo e recuperador que contribuía no processo de cura. O projeto era desenvolvido durante a semana das 18h30min até as 20h30min, nas enfermarias, propiciando um ambiente acolhedor e de encantamento às crianças e adolescentes, como também a seus familiares e à equipe de saúde ali presente. Outro projeto desenvolvido por elas, o de Inclusão Digital, aborda a importância da inclusão digital no processo de escolarização das crianças e adolescentes hospitalizados. Matos e Mugiatti (2006) relatam que a implantação em alguns hospitais do acesso a Internet já era realidade desde 1992, por meio de parcerias e doações de computadores, impressoras, softwares, Internet, notebooks, para as crianças e adolescentes enfermos. A inclusão digital no ambiente hospitalar possibilitava novos olhares e ações, criava espaços para troca, interação, informação e acréscimo de novos saberes, era um contato que a criança e o adolescente tinham com o mundo externo. Também descrevem sobre o Projeto Mural Interativo, criado em 2002, localizado na Sala de Espera. Este era um espaço onde as crianças e adolescentes podiam interagir, descontraindo-se, enquanto aguardavam a consulta médica. As autoras relatam que, do mural, as crianças e os adolescentes podiam tirar surpresas, como máscaras, narizes de palhaço, cata-ventos e outros brinquedos que podiam ser levados para casa. O mural era organizado de acordo com as datas comemorativas. 23 O projeto do Mural Interativo ensejou o próximo passo: um mural virtual. Espaço em que as crianças, adolescentes e responsáveis podiam se comunicar e se informar em diversos assuntos. As autoras ainda criaram um Projeto de prevenção chamado Criança Segura – Safe Kids Brasil, que faz parte de uma rede internacional sediada nos Estados Unidos e que, em 1987, possuía 300 coligações em 16 países. É uma organização sem fins lucrativos, atuante no Brasil desde 2001, com sedes nas cidades de Curitiba, Londrina, São Paulo e Recife. Este projeto foi criado com o objetivo de prevenir, alertar e mobilizar a sociedade perante muitos acidentes ocorridos com crianças, decorrentes da falta de informação e de cuidados no dia-a-dia. Acidentes como: de trânsito, afogamento, sufocações, quedas, queimaduras, intoxicações, entre outros, os quais poderiam ser evitados com a prevenção e informação. Um outro Projeto, o Eurek@Kids, procura desenvolver um espaço virtual de aprendizagem para crianças e adolescentes hospitalizados. Foi criado pela autora Elizete Matos e iniciado em junho de 2005, embora com implantação definitiva para junho de 2007. Surgiu de duas experiências universitárias: o de desenvolvimento de um ambiente virtual de aprendizagem colaborativa, o Eureka; e a outra experiência foi a Pedagogia Hospitalar inserida na proposta de graduação do curso de Pedagogia. Com esse projeto, ficou evidente que se poderia mesclar o conhecimento adquirido e o aproveitamento dos recursos humanos disponíveis, numa conciliação que beneficiasse não só o dia-a-dia da criança e do adolescente hospitalizados, como também o seu vínculo com a escola. As autoras também desenvolveram o Projeto Campanhas Sociais e Datas Comemorativas, surgido em 2004, com o propósito de promover campanhas para arrecadar utensílios como: escovas de dente, materiais de higiene e outras ajudas para promover também a organização de momentos recreativos, lúdicos e festivos, e montagem de cenários para datas comemorativas. Segundo Matos e Mugiatti (2006, p. 148), o projeto fazia “[...] todo um trabalho social muito bonito com enfoque cidadão”. E finalmente, o Projeto da Brinquedoteca Hospitalar, unidade que, de acordo com a Lei Federal 11.104, de 21/03/2005, tornou-se obrigatório nos hospitais que oferecem internação pediátrica. A lei prevê penas de advertência, interdição, 24 cancelamento da licença ou multas aos hospitais que não se adequarem à lei. Tornado lei, devido pesquisas realizadas sobre sua eficácia, a brinquedoteca promove nas crianças e adolescentes processos de socialização, criatividade, decisões e descoberta do mundo, sendo um estímulo para os alunos enfermos que se recuperam mais rápido. Analisando-se os projetos realizados pelas autoras, percebe-se que eles representam uma efetivação do pensamento de Regina Taam (2000), unindo a escolarização ao lúdico em um único objetivo, de proporcionar à criança/adolescente hospitalizado a recuperação de sua socialização por um processo de inclusão, dando continuidade ao seu processo de aprendizagem e minimizando o sofrimento causado pela internação hospitalar. Pretende-se, portanto, com essa pesquisa conhecer o processo de escolarização hospitalar, por ser uma experiência diferente da proposta legislativa nacional, a partir da implantação do Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar do Paraná (SAREH), ou seja, observando como ocorre na prática o que a pesquisadora Regina Taam afirma: a complementaridade entre os dois processos. 25 3 O SERVIÇO DE ATENDIMENTO À REDE DE ESCOLARIZAÇÃO HOSPITALAR (SAREH) NO PARANÁ: O CASO DO HOSPITAL DO TRABALHADOR DE CURITIBA O Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar – SAREH – é uma proposta da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED/PR) com o objetivo de implantar o atendimento educacional aos educandos, que se encontram impossibilitados de frequentar a escola, em virtude de situação de internamento hospitalar ou sob outras formas de tratamento de saúde, permitindo-lhes a continuidade do processo de escolarização,bem como sua inserção ou reinserção em seu ambiente escolar. A trajetória do SAREH é marcada formalmente pelo início dos seus estudos para atender à demanda dos educandos hospitalizados no Estado do Paraná, em julho de 2005, por meio de uma comissão regulamentada pela Resolução Secretarial nº 2.090/05. Esta comissão foi presidida pela Assessoria da Superintendência da Educação e contou com representantes dos departamentos de ensino e das demais unidades da SEED. No decorrer dos trabalhos da comissão, houve a incorporação de representantes de outros setores da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, o que levou à publicação da Resolução Secretarial nº 3.302/05. A comissão teve como atribuição discutir seis assuntos básicos para a elaboração de uma proposta fundamentada e viável: levantamento do amparo legal; forma adequada de seleção dos profissionais para atuar em ambiente hospitalar; currículo flexibilizado da educação básica; estrutura física necessária ao exercício docente no espaço hospitalar; materiais pedagógicos utilizados na prática pedagógica; proposta de formação continuada para as equipes do SAREH. Segundo Menezes (2008), a SEED encaminhou correspondências às Secretarias de Educação dos 27 estados e do Distrito Federal, solicitando informações sobre a condução das ações referentes ao atendimento educacional hospitalar. Apenas 13 das Secretarias da Educação enviaram respostas e, destas, somente sete apresentaram alguma proposta de atendimento. 26 Além deste levantamento, foi realizada uma pesquisa nos Núcleos Regionais de Educação do Paraná para verificação dos encaminhamentos adotados em situações relacionadas ao atendimento de educandos de Educação Básica, em situação de afastamento por motivo de internação hospitalar. Em 2006, nos registros do Núcleo de Curitiba, houve indicação do acompanhamento de 133 alunos da Educação Básica das escolas estaduais sob a sua jurisdição, além de 29 casos de alunos advindos de outras cidades e estados. São dados que demonstram a necessidade de se delinear uma identidade para essa forma diferenciada de promover o processo de ensino e aprendizagem (MATOS, 2009, p. 26). Após os levantamentos de dados e discussões, estabeleceram-se critérios de participação para celebrar convênios e outros instrumentos de cooperação técnica com instituições públicas, universidades e organizações não governamentais para promover a humanização, escolarização e atenção integral a crianças, adolescentes, jovens e adultos internados ou sob outras formas de tratamento de saúde. O critério inicial era que fossem unidades próprias do Estado, hospitais-escola das universidades estaduais e instituições com demanda significativa de alunos em idade escolar. A Humanização é uma prioridade do Ministério da Saúde criada, em 2001, como Projeto Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar – PNHAH, que propõe um conjunto de ações integradas que visam mudar substancialmente o padrão de assistência ao usuário nos hospitais públicos do Brasil, melhorando a qualidade e a eficácia dos serviços hoje prestados por estas instituições: “Tomamos a humanização como estratégia de interferência no processo de produção de saúde, levando-se em conta que sujeitos sociais, quando mobilizados, são capazes de transformar realidades, transformando a si próprios nesse mesmo processo” (Ministério da Saúde, 2004, p. 08). Segundo Calegari (2003, p. 35), a humanização “é entendida como valor, na medida em que resgata o respeito à vida humana. Abrange circunstâncias sociais, éticas, educacionais e psíquicas presentes em todo o relacionamento humano”. 27 Assim, oito instituições conveniadas, localizadas em três regiões do Estado do Paraná, foram indicadas para as atividades que se iniciaram em maio de 2007, conforme mostra o quadro a seguir: HOSPITAL CIDADE Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia- APACN. Curitiba Hospital Universitário Evangélico. Curitiba Hospital de Clínicas da Universidade do Paraná. Curitiba Hospital do Trabalhador Curitiba Hospital Erasto Gaertner Curitiba Associação Hospitalar de Proteção à Infância Doutor Raul Carneiro / Hospital Pequeno Príncipe Curitiba Hospital Universitário Regional Maringá Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná Londrina QUADRO 2 - INSTITUIÇÕES CONVENIADAS AO SAREH NO PARANÁ FONTE: As autoras (2010) Tendo em vista as localidades onde não existiam instituições conveniadas, surgiu a preocupação em constituir uma rede regional de responsáveis pelo SAREH nos Núcleos Regionais de Educação – NRE. Essa ideia possibilitou a contribuição dos 32 NRE do Estado na implantação do Serviço, pois as Unidades conveniadas recebem alunos de diferentes cidades paranaenses, pois cada NRE faz parte da estrutura da SEED e tem como atribuições acompanhar, mediar, orientar e fiscalizar as ações pedagógicas implementadas dentro de uma política educacional estabelecida junto às escolas da Rede Estadual de Ensino. 28 Após todo o processo de discussão sobre a implantação do SAREH, a SEED/PR realizou, no período de dezembro de 2006 a março de 2007, o processo de seleção dos professores, do Quadro Próprio do Magistério, para prestarem serviço nas instituições conveniadas, segundo os seguintes critérios: Graduação em Pedagogia e nas áreas do conhecimento; Especialização na área da educação; Experiência prioritária como docente em ambiente hospitalar; Análise de curriculum vitae e de memorial pedagógico; Abriram-se 32 vagas para suprir o quadro de profissionais nas oito instituições conveniadas (QUADRO 3). A constituição dessa equipe de trabalho contempla todas as disciplinas da Base Nacional comum, por meio de currículo flexibilizado, garantindo aos alunos da Educação Básica a continuidade do processo educacional de sua escola de origem. PROFISSIONAL QUANTIDADE HORAS PERÍODO ATUAÇÃO/DISCIPLINAS Pedagogo 01 40 Matutino e Vespertino Organização do trabalho Pedagógico da Instituição Professor 01 20 Vespertino Língua Portuguesa, Artes/Arte, Língua Estrangeira e Ed. Física. Professor 01 20 Vespertino Matemática, Ciências, Física, Química e Biologia Professor 01 20 Vespertino História, Geografia, Sociologia, Filosofia e Ensino Religioso. QUADRO 3 - PROFISSIONAIS SELECIONADOS PARA ATUAR NAS INSTITUIÇÕES CONVENIADAS FONTE: As autoras (2010) O currículo flexibilizado é, na concepção desenvolvida pela SEED/PR, o currículo adaptado às necessidades educativas de um aluno. Ele não pode ser entendido como uma mera modificação ou acréscimo de atividades complementares na 29 estrutura curricular, pois exige que as mudanças na estrutura do currículo e na prática pedagógica estejam em consonância com os princípios e com as diretrizes do Projeto Político Pedagógico, na perspectiva de um ensino de qualidade para todos os alunos. É importante ressaltar que flexibilizar/adaptar o currículo não significa simplificá-lo ou reduzi-lo, mas torná-lo acessível, o que é muito diferente de empobrecê-lo: O atendimento pedagógico deverá ser orientado pelo processo de desenvolvimento e construção do conhecimento correspondente da educação básica, exercido numa ação integrada com os serviços de saúde. A oferta curricular ou didático-pedagógica deve ser flexibilizada, de forma que contribua com a promoção de saúde e ao melhor retorno e/ou continuidade dos estudos pelos educandos envolvidos. (MEC, 2002, p.17). A partir da formação da equipe de profissionais que iriam atuar nas instituições conveniadas, duas ações foram indicadas como prioridades na implantação do SAREH: o processo de formação continuada e a produção de material pedagógico para apoio à prática docente. No desenvolvimento das atividades de capacitação