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Causalidade As premissas da constituição da epidemiologia são 4 pilares fundamentais para a sua existência: 1. O nascimento da clínica. 2. O desenvolvimento da bioestatística. 3. A filosofia positivista. 4. A medicina social. Fisiopatologia: entende que a causa da doença é a presença do agente patogênico. Epidemiologia: entende que determinadas variáveis levam ao desenvolvimento da doença. Elas são a espinha dorsal da epidemiologia. EPIDEMIOLOGIA CLÍNICA É uma ciência positiva que tem na anatomia patológica o fundamento objetivo para a descrição das doenças. Antigamente, a doença era vista como parte inerente ao homem, o que perdeu significado com o advento da clínica. DESENVOLVIMENTO DA BIOESTATÍSTICA Bioestatística = quantificação de eventos relacionados à vida. Ela aparece para dar corpo à ciência da epidemiologia. A partir da teoria das probabilidades, há a identificação da associação, que pode ser causal ou não, entre diversas variáveis de exposição (não apenas o agente patogênico da clínica) com a variável de desfecho. POSITIVISMO A filosofia positivista influenciou bastante o campo da epidemiologia por conta da aplicação dos seus métodos científicos. Deixa-se de usar a perspectiva metafísica e traz a da racionalidade científica para a explicação dos fenômenos. A partir dos métodos científicos confirmados pela comunidade científica, é possível estabelecer formas de investigar esses eventos. MEDICINA SOCIAL Ela pauta a determinação do processo saúde-doença. Ela enfatiza a importância dos fatores sociais e econômicos na saúde das populações (abordagem ampla e interdisciplinar no estudo das doenças). RACIONALIDADE CIENTÍFICA O que move o desenvolvimento das ciências da saúde é a busca por compreender as causas das doenças, para que medidas interventivas possam ser mais efetivas no seu enfrentamento. Sempre buscando entender a relação entre causa e efeito. Exposição (variáveis independentes) >> desfecho (variável dependente). MÉTODO INDUTIVO Observação >> empirismo >> pressupostos (teóricos). A hipótese nasce de forma indutiva, ela nasce da observação e precisa de sustentação para ser firmada. Toda hipótese nasce de uma perspectiva indutiva. O caso observado é singular. MÉTODO DEDUTIVO Ele surge para que seja possível dar sustentação à hipótese. A regularidade observada na natureza é o que dá sustentação à hipótese, pois, se não houvesse essa regularidade, seria impossível basear qualquer certeza universal apenas na observação de casos singulares. A consistência reforça a lógica da causalidade. Para isso, é necessário o estudo das populações para verificar a repetição daquele evento. Hipótese Alternativa: aquela que o pesquisador tenta provar ao final da pesquisa (ex: que o tabagismo causa depressão em jovens). Hipótese Nula: aquela que diz que a relação não existe e que se foi encontrada na pesquisa, foi ao acaso. P Valor 0,05: aceita a hipótese nula e rejeita a hipótese alternativa. CRITÉRIOS DE HILL É o estudo mais famoso da epidemiologia moderna. Foram estabelecidos 9 critérios que definem causalidade. 1. Força da associação: ela é quantitativa. Quanto maior essa associação, mais forte é a evidência de causalidade entre exposição e desfecho (ex: forte associação entre o tabagismo e o câncer de pulmão). 2. Consistência: quando verifica-se que outros estudos mostraram a mesma relação entre exposição e desfecho que o observador encontrou. Isso mostra que a relação é, de fato, uma relação causal. 3. Especificidade: relação de exclusividade (ex: a infecção pelo HIV é especificamente associada ao desenvolvimento da AIDS, ex: a vacinação contra o papiloma vírus humano é específica para prevenir infecções pelo HPV). 4. Temporalidade: a exposição vem antes do desfecho. Para atribuir causalidade, é necessário que haja esse hiato temporal entre exposição e desfecho. 5. Gradiente biológico (ou fator dose- resposta): quanto aumenta a dose, aumenta a resposta (ex: quanto maior a exposição ao sol, maior o risco de câncer de pele). 6. Plausibilidade biológica: aquilo que é biologicamente explicado (ex: a relação entre o consumo de álcool e o risco de câncer de fígado é biologicamente plausível). 7. Coerência: quando os resultados do estudo epidemiológico confirmam aquilo que está biologicamente estabelecido. 8. Experimentação: quando a evidência é experimental, ela vem acompanhada de critérios éticos muito significativos. Eu não posso conduzir uma pesquisa que provoque o mal para as pessoas, por melhor que seja a evidência. 9. Analogia: hipóteses que podem ser estabelecidas por analogias, seja pela exposição, seja pelo efeito (ex: autoimagem depreciativa >> transtornos alimentares >> ideação suicida). Nem todos os estudos conseguem atender aos 9 critérios, mas quanto mais critérios atendidos, mais forte a evidência de causalidade. MODELO DE CAUSAS COMPONENTES Os eventos clínicos são multicausais, então as doenças se apresentam a partir de distinções culturais de cada população. É preciso entender os padrões de ocorrência das doenças. Causa necessária: evento/fator que necessariamente está presente em todo indivíduo doente (ex: na tuberculose, o agente patogênico). Causa suficiente: conjunto de fatores que levam ao desenvolvimento da doença (ex: condição nutricional de cada um). → Maria e João possuem o bacilo de Koch em seus organismos, mas apenas João desenvolveu a doença. O bacilo de Koch sozinho não consegue causar a doença, ele precisa de outros fatores para que João fique imunodeprimido o suficiente para a doença ocorrer. HISTÓRIA NATURAL DAS DOENÇAS A tríade epidemiológica é o modelo tradicional de causalidade das doenças transmissíveis. É o conhecimento da dinâmica do adoecimento de doenças infecciosas. A história natural das doenças é o curso natural da doença sem qualquer tipo de intervenção. PERÍODO PRÉ-PATOGÊNICO (antes da doença) Os níveis de intervenção feitos nessa tríade correspondem ao nível de prevenção primária (estratégias de promoção à saúde e proteção específica, como a vacinação). PERÍODO PATOGÊNICO (curso da doença no homem) Quando o indivíduo é exposto ao agente patogênico, chega-se ao nível de prevenção secundária. Para se ter o melhor horizonte clínico possível, a prevenção secundária é importante (diagnóstico precoce e tratamento imediato). Quando o indivíduo já apresenta sinais e sintomas, deve-se limitar os danos (ainda na prevenção secundária). Quando o indivíduo já apresenta um quadro fragilizado/permanente, chega-se à prevenção terciária (processo de reabilitação). DOENÇAS TRANSMISSÍVEIS Período de latência: período entre a exposição ao agente patogênico até o indivíduo se tornar infectado e infeccioso (replicação viral >> diagnóstico). Período de incubação: período entre a exposição ao agente patogênico até a manifestação dos sinais e sintomas (período sintomático). DOENÇAS NÃO TRANSMISSÍVEIS Período de latência: período entre o desenvolvimento da doença subclínica até a apresentação dos sintomas. MEDIDAS DE MORBIDADE E MORTALIDADE Os indicadores epidemiológicos são estimativas da realidade. Eles são importantes para: Conhecer a situação de saúde de uma população, em determinado local e tempo. Guiar e avaliar as ações tomadas. Ajudar na tomada de decisão racional através de avaliação estatística. Presumir o que é provável de acontecer no futuro (ex: sazonalidade de uma doença). Constatar as mudanças que realmente acontecem. MORBIDADE Eventomúltiplo. Definição imprecisa (ex: os casos de COVID que são contabilizados, e não as pessoas. Uma pessoa pode se infectar 2x). Múltiplas fontes de dados sem padrão (ex: SINAN, SIH). Exprime extensão/amplitude dos problemas de saúde (volume). MORTALIDADE Evento único (só se morre uma vez). Definição precisa. Fonte de dados única padronizada (SIM). Exprime gravidade dos problemas de saúde. INDICADORES DE MORBIDADE São medidas usadas para descrever e analisar uma situação existente,permitindo definir os riscos de adoecer a qual as pessoas estão sujeitas. Eles podem ser classificados em variáveis demográficas, socioeconômicas e de saúde, e são expressos em valores absolutos e valores relativos. Valores absolutos: número total de casos ou eventos observados. Valores relativos: ajustam os dados absolutos e permitem comparações entre diferentes grupos ou períodos (é relativo à população). A relativização dos dados é necessária para a interpretação deles. VA: nº total de casos VR: nº total de casos/população exposta Ex: para estimar qual cidade teve mais casos de tal doença, eu preciso da população exposta. Coeficiente ou taxa: relação entre a frequência absoluta de determinado evento e a população total exposta a esse mesmo evento em determinado local e tempo. Única medida que informa o “risco” de ocorrência de um evento. Índice ou proporção: relação entre a frequência absoluta de um evento e a frequência absoluta de um evento genérico que contém o evento estudado. Razão: relação entre a frequência absoluta de um evento ocorrido em uma população específica e a frequência absoluta do mesmo evento ocorrido em outra população. Para facilitar e permitir a comparação entre os coeficientes calculados para diferentes locais ou para o mesmo local em diferentes períodos de tempo, utiliza-se sempre uma base comum (100, 1.000, 10.000...). N epidemiologia, a morbidade é a soma de agravos que acometem uma população ou um grupo de indivíduos. Ela pode ser referida (viés de informação >> ex: o indivíduo pode omitir a informação de doenças estigmatizantes, o que subestima os dados) ou diagnosticada. INCIDÊNCIA Diz respeito aos casos novos de agravos à saúde. Traduz a intensidade com que acontece a doença em uma população, está associada a surtos (Coorte). É a melhor forma que tem-se de medir o risco, e é ótimo para determinar causa. Incidência Acumulada: nº de casos novos de uma determinada doença/população fixa exposta ao risco. Densidade de Incidência: nº de casos novos de uma determinada doença/população variável exposta ao risco. Taxa de ataque: incidência pontual ou momentânea para doenças infecciosas agudas. Evento específico em local bem delimitado. É utilizada quando se investiga um surto de determinada doença em um local onde a população é bem definida. SURTO: aumento localizado da incidência de uma doença em um curto período. EPIDEMIA: aumento do número de casos de uma doença em diversas regiões, porém sem atingir níveis globais. ENDEMIA: quando a doença é recorrente na região, mas não há aumento significativo do número de casos. PANDEMIA: disseminação mundial de uma nova doença, ocorre quando uma epidemia se espalha por diferentes continentes. PREVALÊNCIA Diz respeito aos casos existentes de agravos à saúde. Traduz o “volume” com que ocorrem as doenças (Transversal). Consegue dar o diagnóstico situacional de um território, sendo bom para planejamento em saúde. Não serve para determinar causa. É importante diferenciar casos prevalentes de casos incidentes. Prevalência Pontual/Instantânea: refere-se à frequência da doença em um ponto definido no tempo (dia, mês, ano). Prevalência Periódica: considera-se todos os casos prevalentes durante determinado período de tempo, inclusive os que tiveram cura, morreram ou emigraram. INFECÇÃO INAPARENTE O indivíduo ainda não apresenta sinais e sintomas, a doença é subclínica. INFECÇÃO APARENTE O indivíduo já apresenta sinais e sintomas, e essa fase pode ser classificada em moderada, grave ou fatal. CASOS INAPARENTES E APARENTES Patogenicidade: capacidade do agente infeccioso de causar a doença em pessoas infectadas (total de infectados). CASOS APARENTES Virulência: capacidade do agente infeccioso de produzir casos graves e fatais. Letalidade: capacidade do agente infeccioso de produzir casos fatais. INDICADORES DE MORTALIDADE Conjunto de indivíduos em uma população exposta que evoluíram para óbito. Eles indicam quem, onde, como e quando o óbito ocorreu e descrevem a situação de saúde da população. Coeficiente de Mortalidade: mede o risco ou probabilidade de um indivíduo morrer em decorrência de uma doença/agravo à saúde. Servem para determinar a causa mortis e avaliar e acompanhar as intervenções de saúde (eficácia de medicamentos, distribuição de alimentos, programa de controle de doenças...). Coeficiente de Mortalidade Geral (CMG): representa o risco de óbito na população, utilizado para a avaliação do estado sanitário de um determinado lugar. COEFICIENTE DE MORTALIDADE INFANTIL Os óbitos fetais não entram nos índices de mortalidade infantil. A mortalidade infantil vai até antes de completar 1 ano (364 dias). Mortalidade Neonatal Precoce: até o 6º dia. Mortalidade Neonatal Tardia: de 7 a 27 dias. Mortalidade Pós Neonatal: a partir do 28º dia. ÍNDICE DE SWAROOP E UEMURA Indica a porcentagem de pessoas que morreram com 50 anos ou mais em relação ao total de óbitos ocorridos em determinado lugar. Quanto maior o ISU, melhores as condições de saúde. 1º nível: países onde 75% da população morrem com 50 anos ou mais. 2º nível: 50 a 74%. 3º nível: 25 a 49%. 4º nível:menos que 25%. CURVA DE NELSON MORAES Estuda a mortalidade em grupos etários distintos. Tipo I: N invertido, nível de saúde muito baixo. Tipo II: nível de saúde baixo. Tipo III: em formato de V, nível de saúde regular. Tipo IV: em formato de J, nível de saúde elevado, melhor lugar para se viver (redução da mortalidade infantil e de pessoas em idade ativa, aumento da mortalidade em idosos).