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CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: NOÇÕES GERAIS 1.1. NOÇÕES GERAIS Para desempenhar as suas funções, a Administração Pública celebra vários contratos, referidos como “contratos da Administração”, que é diferente de contratos administrativos. Assim, o gênero “contratos da Administração” tem duas espécies: contratos privados da AP e contratos administrativos. 1) Contratos privados da AP: Esses ajustes são regidos predominantemente pelo direito privado, leia-se Direito Civil ou Direito Comercial. Neles, a AP se situará no mesmo plano jurídico da outra parte, ela não atua, portanto, enquanto Administração, mas no seu ius gestionis, no seu direito gestão, como se particular fosse. Se a AP e a outra parte estão no mesmo plano jurídico, dizemos que nos contratos privados existe horizontalidade. Daí decorre a característica de que nesses contratos as cláusulas são imutáveis, sendo a eles aplicado o famoso brocardo pacta sunt servanda, ou seja, o contrato deve ser cumprido, a menos que haja uma situação de absoluta excepcionalidade. Mesmo regidos pelo direito privado, esses contratos sofrerão, em alguma medida, a influência do direito público. Destaca-se o teor do art. 62, § 3º, I da Lei 8.666. Esse dispositivo deve ser interpretado como uma extensão não das potencialidades, mas das restrições aplicáveis à AP a estes contratos. Dessa forma, ele estende do direito público para esses contratos privados as restrições aplicáveis à AP, e não as suas prerrogativas. Exemplo: Suponhamos que a AP tenha firmado um contrato de locação e nele figura como locatária, atuando como se particular fosse. Mesmo regido pelo direito privado e mesmo a AP atuando como se particular fosse, exige-se a realização de prévio procedimento licitatório. Nesse caso, temos a extensão de uma restrição aplicável à AP. 2) Contratos administrativos: A primeira característica deles é que são regidos pelo direito público, ainda que celebrados por pessoa administrativa de direito privado. Assim, se uma empresa pública ou uma sociedade de economia mista celebrarem contrato administrativo, ele será regido pelo direito público. Nesses contratos administrativos - e essa é a nota distintiva deles - a AP ocupará uma posição de superioridade contratual em relação a outra parte e, por isso, esses contratos são dotados de verticalidade. Lei 8.666. Art. 6º Para os fins desta Lei, considera-se: (…) XI - Administração Pública - a administração direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, abrangendo inclusive as entidades com personalidade jurídica de direito privado sob controle do poder público e das fundações por ele instituídas ou mantidas; Dessa forma, um contrato de obras formulado pela ECT é um contrato administrativo. Nesse caso temos uma pessoa administrativa de direito privado celebrando contrato administrativo que será regido pelo direito público. O próprio STJ reconheceu essa situação no julgamento do REsp 527.137. Os contratos administrativos são marcados pela presença das cláusulas exorbitantes, são elas que o caracterizam. Elas são decorrência daquela posição de superioridade contratual da AP em relação ao particular. Tais cláusulas irão conferir à AP prerrogativas especiais, que permitirão, por exemplo, que a AP promova uma modificação unilateral do contrato administrativo. Isso é diferente da situação dos contratos privados da AP, que, a princípio, são imutáveis, a menos que haja acordo das partes. Os contratos administrativos, segundo a nossa doutrina, se dividirão em dois tipos: os contratos tipicamente administrativos, que são aqueles que não têm paralelo no direito privado (por exemplo: contrato de concessão de serviço público, contrato de obra pública, contrato de uso de bem público); e os chamados contratos não tipicamente administrativos, que têm paralelo no direito privado, como por exemplo o contrato de empreitada. Se dissermos que os contratos privados da AP sofrem influxo do direito público para que a eles sejam aplicadas as restrições que incidem sobre a AP, os contratos administrativos, mesmo regidos pelo direito público, irão receber a influência supletiva das normas de direito privado, segundo o art. 54 da Lei 8.666. Art. 54. Os contratos administrativos de que trata esta Lei regulam-se pelas suas cláusulas e pelos preceitos de direito público, aplicando-se-lhes, supletivamente, os princípios da teoria geral dos contratos e as disposições de direito privado. Portanto, nem todo contrato que a AP celebra é contrato administrativo. 1.2. CONCEITO Maria Sylvia Di Pietro diz que contrato administrativo “é o ajuste que a Administração, nessa qualidade, celebra com pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas, para a consecução de fins públicos, segundo regime jurídico de direito público.” 1.3. NORMAS APLICÁVEIS No texto constitucional há basicamente dois dispositivos aplicáveis aos contratos administrativos: art. 22, XXVII e art. 37, XXI. Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: (…) XXVII – normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, obedecido o disposto no art. 37, XXI, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do art. 173, § 1°, III; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) (…) XXI - ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações. (Regulamento) No plano infraconstitucional, temos uma multiplicidade de normas: Lei 8.666/93 (especialmente os arts. 54 a 80); a Lei 8.987/95, que disciplina as concessões e permissões de serviço público; a Lei 9.637/98, que prevê a celebração de contrato de gestão entre o governo federal e organizações sociais - parte da doutrina coloca esses acordos como contratos administrativos, considerando também a Lei 9.790, que disciplina o termo de parceria, mas a professora não acha isso tão adequado; a Lei 11.079, que trata das parcerias público-privadas, uma modalidade específica de contrato de concessão; a Lei 11.107, que trata dos consórcios públicos; a Lei 12.232/10, que traz normas gerais de licitação e contratação de serviços de publicidade do governo; a Lei 12.462/2011, que trata do RDC; e a Lei 13.303, a nova lei das estatais, que rege os contratos administrativosadministrativo de concessão, na modalidade patrocinada ou administrativa. § 1º Concessão patrocinada é a concessão de serviços públicos ou de obras públicas de que trata a Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, quando envolver, adicionalmente à tarifa cobrada dos usuários contraprestação pecuniária do parceiro público ao parceiro privado. (…) § 4º É vedada a celebração de contrato de parceria público-privada: I - cujo valor do contrato seja inferior a R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais); (Redação dada pela Lei nº 13.529, de 2017) II – cujo período de prestação do serviço seja inferior a 5 (cinco) anos; ou III – que tenha como objeto único o fornecimento de mão-de-obra, o fornecimento e instalação de equipamentos ou a execução de obra pública. Há, ainda, outra vedação que dirá respeito ao objeto da PPP. Dessa forma, o objeto da concessão especial não pode ser um objeto/elemento único. Precisamos, para utilizar a ferramenta da PPP, que o objeto seja complexo. A concessão será concedida para o fim de execução de, no mínimo, dois tipos de objetos entre obra, serviço ou fornecimento. Dessa forma, pode-se ter: obra+serviço; obra+fornecimento de mão de obra ou serviço+fornecimento de mão de obra. O §2º tratará da concessão administrativa. § 2º Concessão administrativa é o contrato de prestação de serviços de que a Administração Pública seja a usuária direta ou indireta, ainda que envolva execução de obra ou fornecimento e instalação de bens. Em qualquer um dos casos, patrocinada ou administrativa, o art. 7º da Lei 11.079 dirá que a contraprestação da AP ao parceiro privado está sempre presente, conforme já visto, e que só pode ser paga depois que o serviço for disponibilizado ao usuário, salvo se houver previsão no edital licitatório de que serão feitos aportes para obra ou para compra de bens. Art. 7º A contraprestação da Administração Pública será obrigatoriamente precedida da disponibilização do serviço objeto do contrato de parceria público-privada. § 1º É facultado à administração pública, nos termos do contrato, efetuar o pagamento da contraprestação relativa a parcela fruível do serviço objeto do contrato de parceria público-privada. (Incluído pela Lei nº 12.766, de 2012) § 2º O aporte de recursos de que trata o § 2º do art. 6º, quando realizado durante a fase dos investimentos a cargo do parceiro privado, deverá guardar proporcionalidade com as etapas efetivamente executadas. (Incluído pela Lei nº 12.766, de 2012) O art. 8º trará as garantias que a AP pode fornecer em relação às suas obrigações (por exemplo, a vinculação de receitas, em alguma medida é possível). Art. 8º As obrigações pecuniárias contraídas pela Administração Pública em contrato de parceria público-privada poderão ser garantidas mediante: (Vide Lei nº 13.043, de 2014) Vigência I – vinculação de receitas, observado o disposto no inciso IV do art. 167 da Constituição Federal; II – instituição ou utilização de fundos especiais previstos em lei; III – contratação de seguro-garantia com as companhias seguradoras que não sejam controladas pelo Poder Público; IV – garantia prestada por organismos internacionais ou instituições financeiras que não sejam controladas pelo Poder Público; V – garantias prestadas por fundo garantidor ou empresa estatal criada para essa finalidade; VI – outros mecanismos admitidos em lei. Parágrafo único. (VETADO). (Incluído pela Lei nº 13.043, de 2014) Vigência Além disso, é bom dar uma olhada nos artigos que falam do FGP - Fundo Garantidor de Parcerias. 1.1.3. OUTRAS CONSIDERAÇÕES Outro ponto que também é central quando falamos em PPP é o seguinte: no contrato de PPP, qualquer que seja a modalidade, será pactuada a criação de uma sociedade de propósito específico (SPE). Ela nada mais é do que uma pessoa jurídica de direito privado, que será responsável por administrar a parceria público-privada. A lei irá permitir algumas coisas para SPE, inclusive que ela assuma a forma de companhia aberta, com valores mobiliários negociáveis em mercado. A lei trará, também, algumas restrições, como, por exemplo, que a AP detenha a maioria do capital votante da SPE. Se a maioria do capital votante da SPE fosse público, estaríamos diante de uma sociedade de economia mista. Foi essa incorporação da SPE à estrutura da administração indireta que a lei buscou evitar. Contudo, a lei também traz uma segurança para a AP em seu art. 9º, §1º: § 1º A transferência do controle da sociedade de propósito específico estará condicionada à autorização expressa da Administração Pública, nos termos do edital e do contrato, observado o disposto no parágrafo único do art. 27 da Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995. A lei trouxe uma restrição, mas também trouxe uma segurança. As Leis 8.666 e 8.987 serão aplicadas subsidiariamente às PPPs e, apesar de não estar escrito em nenhum ponto da lei, a nossa doutrina, com base na lei, admitirá a utilização do mecanismo da PPP apenas para projetos que demandarem algum tipo de subsídio governamental. Uma questão muito interessante cobrada em uma prova do MPF ou da magistratura trazia duas hipóteses: a 1ª era uma situação em que havia uma concessão e uma construção e cobrança de pedágio em uma determinada estrada ou ponte; a 2ª hipótese previa a construção e manutenção de um presídio. Perguntava-se se era possível utilizar PPP para qualquer uma dessas situações. A resposta é não. A nossa doutrina irá dizer que projetos financeiramente viáveis, como o do pedágio - que a questão dizia claramente que a tarifa cobrada pelos usuários conseguiria pagar aquela operação -, devem ser delegadas através de concessões comuns. Dessa forma, as PPPs só devem ser utilizadas para aqueles projetos que não são economicamente viáveis por si só e, portanto, demandam algum tipo de subsídio governamental, como é o caso dos presídios. CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: PROGRAMA DE PARCERIAS DE INVESTIMENTOS 1. CONTRATOS ADMINISTRATIVOS 1.1. PROGRAMA DE PARCERIA DE INVESTIMENTOS (PPI) Esse programa surge com a edição de uma medida provisória (MP 727/2016), que posteriormente foi convertida na Lei nº 13.334/16. Cria-se, então, o programa de parceria de investimentos, destinado a ampliação e fortalecimento da interação entre Estado e iniciativa privada por meio da celebração de contratos de parceria. Esses contratos são realizados para a execução de empreendimentos públicos de infraestrutura, além de outras medidas de desestatização. Desse modo, o programa de parceria de investimentos é mais uma tentativa, na linha das PPPs, de trazer esse dinheiro privado para a execução de obras e de atividades de interesse público. Na linha de um Estado que tem cada vez menos dinheiro para investir, tenta-se atrair a iniciativa privada para esse tipo de atividade. O programa de parceria de investimentos engloba três ideias fundamentais: i) a intensificação de parcerias entre os setores público e privado; ii) especialmente por meio de empreendimentos de infraestrutura; e iii) valendo-se de medidas desestatizantes(privatização). Esses meios jurídicos de parceria entre setor público e setor privado não estão limitados, por exemplo, à concessão de serviços públicos ou às PPPs, existem diversas outras formas e o PPI traz um formato que é mais amplo. Ele alcança diferentes tipos de negócios público-privados, que adotem estrutura jurídica semelhante em função de seu caráter estratégico, de sua complexidade, de sua especificidade, do volume de investimento que exige, do longo prazo para execução desses investimentos, dos riscos e das incertezas envolvidos. Sendo assim, o PPI é muito mais geral, não se limitando à concessão e à PPP. Lei 13.334. Art. 1º (…) § 2º Para os fins desta Lei, consideram-se contratos de parceria a concessão comum, a concessão patrocinada, a concessão administrativa, a concessão regida por legislação setorial, a permissão de serviço público, o arrendamento de bem público, a concessão de direito real e os outros negócios público-privados que, em função de seu caráter estratégico e de sua complexidade, especificidade, volume de investimentos, longo prazo, riscos ou incertezas envolvidos, adotem estrutura jurídica semelhante. Percebe-se, assim, que é uma definição bastante abrangente, ampla. O PPI representa uma virada clara de entendimento do governo federal, que se direciona a buscar estabilidade e segurança jurídica, sob uma diretriz da mínima intervenção regulatória possível e uma ideia, pelo menos em teoria, de fortalecimento de agências reguladoras de modo a atrair investimentos privados e viabilizar o desenvolvimento nacional, a criação de empregos, entre outras ideias. Dessa forma, aquilo que informa a criação desse programa, que foi, na medida provisória e depois na lei, desenhado pelo professor Carlos Ari Sundfeld - um dos grandes estudiosos do Direito Administrativo - é a ideia de recolocar o Brasil no rumo de crescimento. Sendo assim, com uma preocupação em termos de crescimento e desenvolvimento, iremos adotar uma guinada ideológica e, procurando garantir estabilidade, segurança jurídica, orientado pela diretriz da mínima intervenção regulatória possível e pela noção de fortalecimento de agência reguladora, buscamos, assim, atrair os investimentos privados para desempenhar as atividades que interessam ao poder público e buscar, dessa forma, o desenvolvimento nacional, a geração de empregos, entre outras supostas boas consequências da adoção dessas noções. Os princípios que informam a implantação do PPI (art. 3º): estabilidade das políticas públicas de infraestrutura - evitar que políticas públicas de infraestrutura que, para garantirem o desenvolvimento da infraestrutura têm que se manter estáveis por um tempo, mudem com frequência -; legalidade, qualidade, eficiência, transparência da atuação estatal, garantia de segurança jurídica aos agentes públicos, às entidades estatais e aos particulares envolvidos. A previsão de regulamentação do PPI por decretos específicos, desde que observados os limites da lei, pode conferir agilidade de resposta necessária para afastar a inércia hoje existente. Nesse sentido, o art. 4º dispõe: Art. 4º O PPI será regulamentado por meio de decretos que, nos termos e limites das leis setoriais e da legislação geral aplicável, definirão: I - as políticas federais de longo prazo para o investimento por meio de parcerias em empreendimentos públicos federais de infraestrutura e para a desestatização; II - os empreendimentos públicos federais de infraestrutura qualificados para a implantação por parceria; e (Redação dada pela Lei nº 13.502, de 2017) III - as políticas federais de fomento às parcerias em empreendimentos públicos de infraestrutura dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Logo, pode-se usar decretos específicos para definir esses termos. A ideia é que utilizando decretos e não leis consiga-se adotar essas medidas de forma mais rápida, ainda que sejam medidas que devem durar bastante tempo. Observe que por decreto se estabelecerá, nos limites da lei, naturalmente, as políticas de longo prazo para o investimento por meio de parcerias. Art. 5º Os empreendimentos do PPI serão tratados como prioridade nacional por todos os agentes públicos de execução ou de controle, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Art. 6º Os órgãos, entidades e autoridades da administração pública da União com competências relacionadas aos empreendimentos do PPI formularão programas próprios visando à adoção, na regulação administrativa, independentemente de exigência legal, das práticas avançadas recomendadas pelas melhores experiências nacionais e internacionais, inclusive: I - edição de planos, regulamentos e atos que formalizem e tornem estáveis as políticas de Estado fixadas pelo Poder Executivo para cada setor regulado, de forma a tornar segura sua execução no âmbito da regulação administrativa, observadas as competências da legislação específica, e mediante consulta pública prévia; II - eliminação de barreiras burocráticas à livre organização da atividade empresarial; III - articulação com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE, bem como com a Secretaria de Acompanhamento Econômico - SEAE do Ministério da Fazenda, para fins de compliance com a defesa da concorrência; e IV - articulação com os órgãos e autoridades de controle, para aumento da transparência das ações administrativas e para a eficiência no recebimento e consideração das contribuições e recomendações. É importante perceber que a lei cria um Conselho do PPI da Presidência da República (art. 7º) e uma Secretaria do PPI (art. 8º). Além disso, também foi criado um Fundo de Apoio à Estruturação de Parcerias (art. 14), constituído e integrado pelo BNDES, com a finalidade de prestar, de forma onerosa, por meio de contrato, serviços técnicos profissionais especializados para a estruturação de parcerias de investimentos e de medidas de desestatização. Esse fundo tem natureza privada e patrimônio próprio, separado do patrimônio dos cotistas. A lei estabelece que o FAEP será administrado, gerido e representado judicial e extrajudicialmente pelo BNDES. Destaca-se, ainda, que a disciplina do PPI irá dedicar uma atenção especial para estruturação de projetos, que é um ponto frágil do cenário atual da infraestrutura brasileira. Isso acaba fazendo com que muitas alterações de projeto já aconteçam na fase final da execução de uma determinada obra. Como não nos preocupamos em estruturar bem o projeto antes de executá-lo, vemos na prática muitos projetos sendo alterado durante a sua execução. Isso faz com que, muitas vezes, o valor que se tenha que pagar exploda, por conta de erros de execução que já poderiam ter sido detectados. Dessa forma, o PPI tem uma preocupação muito maior com o projeto, em fazer um projeto que seja exequível, em planejar bem o tempo de sua execução e evitar a necessidade de alterações que possam aumentar o tempo para executar aquilo e aumentar os custos. Diante da situação que vivemos hoje, intensificar aforma de manejar essas possibilidades que já existem legalmente para realizar procedimentos preliminares para subsidiar a celebração de uma parceria subsequente é uma medida providencial e é uma das preocupações do PPI. Destaca-se, na parte das disposições finais, o art. 21: Art. 21. Aplicam-se as disposições desta Lei, no que couber, aos empreendimentos empresariais privados que, em regime de autorização administrativa, concorram ou convivam, em setor de titularidade estatal ou de serviço público, com empreendimentos públicos a cargo de entidades estatais ou de terceiros contratados por meio das parcerias de que trata esta Lei. Esse dispositivo significa, basicamente, que a lei do PPI também será aplicada em setores que haja assimetria regulatória (multiplicidade de regimes jurídicos diferentes concorrentes àqueles que detenham títulos habilitantes diversos para atuar). Exemplo: terminal portuário privado, que é um empreendimento gerido por agentes privados mediante autorização, deve ser pautado e beneficiado pela mesma lógica da lei do PPI tanto quanto os chamados arrendamentos portuários, que são tidos como subconcessões de serviço público, porque na prática os dois fazem a mesma coisa, mas o título habilitante é diferente. Essa assimetria regulatória, em que um é muito regulado e o outro é pouco regulado, gera problemas, como no caso do táxi e do Uber, por exemplo, em que há assimetria regulatória, os dois estão exercendo mais ou menos a mesma função, mas o título habilitante é diferente e a regulamentação que incide sobre cada um também. Logo, o que a lei do PPI quer dizer nesse último dispositivo, é que tenta-se aplicar também essa lei em outras situações para gerar uma uniformidade um pouco maior. CONTRATO ADMINISTRATIVO - RESPONSABILIDADE PELA EXECUÇÃO DO CONTRATO E ENCARGOS 1. RESPONSABILIDADE PELA EXECUÇÃO DO CONTRATO ADMINISTRATIVO E ENCARGOS Nesta aula, será estudada a responsabilidade pela execução do contrato administrativo e encargos. Buscar-se-á a identificação do que é ou não responsabilidade do contratado, analisando todas as situações que podem surgir no curso da execução de um contrato administrativo. Começaremos o estudo a partir da leitura de alguns dispositivos da Lei 8.666/93 que regem a matéria. O art. 69, da referida lei, assim estabelece: Art. 69. O contratado é obrigado a reparar, corrigir, remover, reconstruir ou substituir, às suas expensas, no total ou em parte, o objeto do contrato em que se verificarem vícios, defeitos ou incorreções resultantes da execução ou de materiais empregados. Tanto a execução quanto a escolha de materiais costuma ser uma atribuição do contratado. Sendo assim, o art. 69 traz uma responsabilidade específica, referente ao objeto do contrato. O art. 70, por sua vez, estabelece uma hipótese de responsabilidade subjetiva do contratado pelos danos causados: Art. 70. O contratado é responsável pelos danos causados diretamente à Administração ou a terceiros, decorrentes de sua culpa ou dolo na execução do contrato, não excluindo ou reduzindo essa responsabilidade a fiscalização ou o acompanhamento pelo órgão interessado. Ao tratarmos sobre cláusulas exorbitantes, vimos que na execução do contrato administrativo há a fiscalização pela Administração. Importante perceber que essa fiscalização, esse acompanhamento da execução do contrato administrativo, não reduz e tampouco exclui a responsabilidade do contratado. Enquanto o art. 69 previa uma responsabilidade pelo objeto do contrato, o art. 70 estabelece uma responsabilidade pelos danos causados, seja à Administração ou a terceiros, decorrentes de culpa ou dolo na execução do contrato. Essa é, portanto, uma hipótese de responsabilidade subjetiva do contratado. Insta salientar que há situações em que se trata de dano causado pelo só fato da obra. Refere-se a um dano decorrente da própria natureza da obra, ou de um fato imprevisível ou inevitável, ocorrido na execução daquela obra. Perceba que, quando se abarca dano causado pelo só fato da obra, está-se diante de um dano na execução de uma determinada obra. Esse dano não decorre de nenhuma irregularidade na execução, mas sim da própria obra em si. Imagine, por exemplo, a hipótese de explosões necessárias para a construção de uma galeria de metrô que provoquem rachaduras em imóveis próximos. Nesse caso, a própria obra de construção do metrô exige que haja esse tipo de explosões, sendo que o contrato pode, somente, ser executado dessa forma. Não há que se falar em irregularidade na execução: o fato de se fazer determinados tipos de obra implica a adoção de procedimentos que podem gerar problemas. Nesse caso, de quem será a responsabilidade pelo dano causado pelo só fato da obra? A responsabilidade não pode ser do contratado, considerando que esse não escolheu realizar aquela obra. Na verdade, ele foi contratado pela Administração para realizar uma obra que a própria Administração decidiu realizar. Em suma, o contratado não errou na execução, já que ele apenas cumpriu aquilo que a Administração pediu. Dessa forma, quando diante de responsabilidade de um dano causado pelo só fato da obra, essa responsabilidade civil deverá ser atribuída à Administração Pública de forma objetiva, visto que a decisão de realizar a obra partiu justamente da Administração. Observa-se, nessa situação, o risco administrativo, devendo a Administração responder em tais hipóteses. Ainda tratando de responsabilidade, não se pode esquecer do disposto no art. 37, §6º da Constituição: estabelece que em caso de prestação de serviço público, a responsabilidade do contratado pela Administração será objetiva (dispensa-se comprovação do elemento culposo), em relação aos danos causados seja a terceiro usuário ou terceiro não usuário. § 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. O Supremo, dessarte, não faz distinção entre terceiro usuário ou não usuário: a responsabilidade é objetiva em ambos os casos, nos termos do art. 37, §6º. Dessa maneira, ignora-se, por exemplo, se a pessoa sofreu um dano porque estava dentro do ônibus ou porque estava atravessando uma rua e foi atropelada pelo ônibus. Não importa se é terceiro usuário ou terceiro usuário, já que a responsabilidade será objetiva em qualquer caso de prestação de serviço público, ainda que por pessoa jurídica de direito privado que não integre a Administração. Ainda em relação à responsabilidade civil, atente-se ao disposto no art. 71: Art. 71. O contratado é responsável pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais resultantes da execução do contrato. Cabe ao contratado, que terá a relação com as pessoas que executarão a obra ou serviço, a responsabilidade pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais. Os parágrafos do art. 71 estabelecem quais serão os efeitosda inadimplência: § 1º A inadimplência do contratado, com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e comerciais não transfere à Administração Pública a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto do contrato ou restringir a regularização e o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro de Imóveis. (Redação dada pela Lei nº 9.032, de 1995) Importante lembrar que os encargos aos quais o dispositivo refere-se são os encargos trabalhistas, fiscais e comerciais, sem que haja menção aos encargos previdenciários - detalhe bastante questionado em provas. Em relação ao tema, há várias observações a serem destacadas. O art. 71, §1º, é muito polêmico, considerando que muitos afirmavam a inconstitucionalidade desse dispositivo que tirava a responsabilidade da Administração pelas faltas do contratado. O TST, por exemplo, não aplicava o art. 71, §1º, tendo editado o Enunciado 331: defendia que, quando o contratado não pagasse essas verbas, a Administração Pública contratante por elas responderias. Pelo Enunciado 331, do TST, o mero inadimplemento das verbas referidas no art. 71, §1º, gerava responsabilidade subsidiaria da Administração (responsabilidade essa que era objetiva, já que o inadimplemento gerava responsabilidade independentemente da atuação da Administração naquele caso). O Supremo começa a analisar essa questão no julgamento da ADC nº 16. Nesse julgado, a Corte entendeu que o art. 71, §1º, é constitucional, afirmando que a mera inadimplência do contratado não transfere automaticamente à Administração Pública a responsabilidade pelo pagamento desses encargos. Dessa forma, segundo o STF, não se trata de hipótese de responsabilidade objetiva. Também no julgamento da ADC nº 16, o Supremo afirmou que entender que o art. 71, §1º é constitucional não significa que não possa haver a responsabilização da Administração Pública nesses casos. Pode, sim, haver tal responsabilização, desde que fique caracterizada, no mínimo, a conduta culposa por parte da Administração. Imagine, por exemplo, uma eventual omissão da Administração Pública, na obrigação de fiscalizar as obrigações do contratado. No primeiro semestre de 2018, no julgamento do RE 760931/DF, o Supremo retomou a referida questão. Ao examinar toda a situação que se formou quanto ao art. 71, §1º, a Corte decidiu, em síntese, que é vedada a responsabilização automática da Administração Pública pelo inadimplemento dos encargos trabalhistas pela empresa prestadora de serviços. Tal entendimento abrange, igualmente, os demais encargos previstos no art. 71, §1º. Veda-se a responsabilização automática da Administração Pública pelo inadimplemento dos encargos trabalhistas pela empresa prestadora de serviços. O antigo entendimento adotado pelo TST, dessa forma, é afastado. Quanto ao tema, o Supremo ainda estabeleceu que, apenas cabe a condenação da Administração Pública, se houver uma prova inequívoca da sua conduta omissiva - notadamente quando se tratar de culpa in vigilando (responsabilidade da Administração por não vigiar adequadamente quem deveria - no caso, o contratado) ou, ainda culpa in eligendo (culpa na escolha daquela pessoa prestar aquele serviço). Haverá responsabilidade se houver prova inequívoca da conduta omissiva (culpa in vigilando ou in eligendo) ou, ainda, da conduta comissiva da Administração na fiscalização dos contratos. Parece que o Supremo pretendeu ampliar, da maior forma possível, as hipóteses de responsabilização. O STF estabeleceu que, para responsabilizar a Administração Pública, não basta o mero não pagamento. Para que se impute culpa in vigilando ou in eligendo à Administração, por uma suposta deficiência na fiscalização da fiel observância de normas trabalhistas na execução do contrato, é necessário que haja uma efetiva comprovação da ausência de fiscalização. Observe que a situação referente aos encargos trabalhistas do art. 71, §1º, será diferente de uma outra situação, prevista no §2º, relativa aos encargos previdenciários. No caso dos encargos previdenciários, a Lei prevê uma solidariedade entre controlador e tomador no que se refere à dívida. § 2º A Administração Pública responde solidariamente com o contratado pelos encargos previdenciários resultantes da execução do contrato, nos termos do art. 31 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991. (Redação dada pela Lei nº 9.032, de 1995) Em relação a esse tema, o Supremo aprovou a seguinte Tese de Repercussão Geral. A professora ressalta que é imprescindível o conhecimento das Teses de Repercussão Geral, tão importante quanto o conhecimento das Súmulas Vinculantes. Tese da Repercussão Geral: O inadimplemento dos encargos trabalhistas dos empregados do contratado não transfere automaticamente ao Poder Público contratante a responsabilidade pelo seu pagamento, seja em caráter solidário ou subsidiário, nos termos do art. 71, § 1º, da Lei nº 8.666/93. O STF afastou, portanto, o entendimento do TST que estava consubstanciado no Enunciado 331. Posto isso, passemos à análise do art. 73 da Lei 8.666/93, que dispõe sobre o recebimento do objeto do contrato: Art. 73. Executado o contrato, o seu objeto será recebido: O que é o recebimento do objeto? Trata-se da situação em que a Administração Pública atestará que o objeto do contrato foi executado. Nesse contexto, pode-se falar em recebimento provisório e recebimento definitivo. O recebimento provisório é o primeiro recebimento, quando a Administração atesta que o objeto do contrato foi executado. O recebimento definitivo, por sua vez, é o recebimento que acorrerá após um prazo de observação daquele objeto do contrato. Suponha, por exemplo, o recebimento de um determinado bem, um serviço, ou uma estrutura. Faz-se necessário que se espere o decurso de um período de tempo, como forma de verificar se não ocorrerá nenhum problema com o bem recebido. Acerca do tema, o §2º do art. 73, assim prevê: § 2º O recebimento provisório ou definitivo não exclui a responsabilidade civil pela solidez e segurança da obra ou do serviço, nem ético-profissional pela perfeita execução do contrato, dentro dos limites estabelecidos pela lei ou pelo contrato Dessa forma, nem o recebimento provisório, tampouco o recebimento definitivo, excluem a responsabilidade civil pela solidez e segurança da obra ou do serviço, além da responsabilidade ético-profissional. Trata-se de uma responsabilidade do próprio contratado pela perfeita execução contratual. Importante, ainda, fazer menção ao art. 75, da Lei de Licitações: Art. 75. Salvo disposições em contrário constantes do edital, do convite ou de ato normativo, os ensaios, testes e demais provas exigidos por normas técnicas oficiais para a boa execução do objeto do contrato correm por conta do contratado. Apesar de não se relacionar, diretamente, ao tema da aula, trata-se de um dispositivo que também apresenta certa importância, visto que estabelece mais uma responsabilidade do contratado. Os ensaios, testes e demais provas exigidos por normas técnicas oficiais deverãoser por ele arcados. FIMfirmados por empresas públicas, sociedades de economia mista, suas subsidiárias e controladas. 1.4. CARACTERÍSTICAS Já vimos algumas características dos contratos administrativos enquanto estudávamos o seu conceito. Eles estão submetidos ao direito público, há a presença do Poder Público em pelo menos um dos polos, imposição de supremacia em relação ao outro contratante, existe desigualdade entre as partes. Contudo, além dessas características, existem outras que podemos destacar quando falamos em contratos administrativos. 1) Formalismo mitigado: o contrato administrativo não tem forma livre, sendo necessária a observância de certos requisitos intrínsecos e extrínsecos para a sua celebração. Como regra geral, os contratos administrativos devem observar a forma escrita, contudo, há uma exceção. Para pequenas compras de pronto pagamento, de até R$ 8.800,00, feitas em regime de adiantamento, o art. 60, parágrafo único, da Lei 8.666, irá admitir o contrato verbal. Parágrafo único. É nulo e de nenhum efeito o contrato verbal com a Administração, salvo o de pequenas compras de pronto pagamento, assim entendidas aquelas de valor não superior a 5% (cinco por cento) do limite estabelecido no art. 23, inciso II, alínea "a" desta Lei, feitas em regime de adiantamento. 2) Comutatividade: normalmente existe uma equivalência entre as obrigações das partes contratantes, que são pré-determinadas. Ou seja, contrato administrativo não é aleatório. 3) Natureza intuitu personae ou pessoalidade: significa, basicamente, que os contratos administrativos são personalíssimos. Isso não significa que não possa haver terceirização. Doutrina e jurisprudência rejeitam a ideia de terceirização dentro de um contexto de contrato administrativo, justamente por ele ser personalíssimo (leva em conta as qualidades do contratado) e, portanto, a subcontratação representaria uma forma de uma terceira empresa contratar com a AP sem licitação. Entretanto, o art. 72 da Lei 8.666 admitiu expressamente a subcontratação, a terceirização, parcial: Art. 72. O contratado, na execução do contrato, sem prejuízo das responsabilidades contratuais e legais, poderá subcontratar partes da obra, serviço ou fornecimento, até o limite admitido, em cada caso, pela Administração. Assim, mesmo sendo personalíssimo o contrato administrativo é possível que haja a subcontratação parcial, havendo concordância da AP. OBSERVAÇÃO: em caso de subcontratação, contratada e subcontratada são solidariamente responsáveis por aquilo que executou a subcontratada, perante o ente público ou o ente privado que firmou contrato administrativo. 4) Atipicidade: como não são unilaterais, os contratos administrativos não são atos jurídicos em sentido estrito. Por isso, não possuem a característica da tipicidade. É o que dispõe o parágrafo único do art. 2º da Lei 8.666/93: Parágrafo único. Para os fins desta Lei, considera-se contrato todo e qualquer ajuste entre órgãos ou entidades da Administração Pública e particulares, em que haja um acordo de vontades para a formação de vínculo e a estipulação de obrigações recíprocas, seja qual for a denominação utilizada. Esse dispositivo deixa clara a atipicidade característica dos contratos administrativos. Não é todo contrato firmado nessa situação que será contrato administrativo, somente aquele em que houver verticalidade, em que a AP assina o contrato nessa condição. 5) Contrato de adesão: as cláusulas do contrato administrativo não são livremente negociadas. Normalmente, o contratado irá aderir ao contrato padrão que foi formulado pela AP e ele não tem a possibilidade de alterar essas cláusulas do contrato padrão. Em uma situação normal, a sua manifestação de vontade se limitará à aceitação daquelas cláusulas. 2 CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: CLÁUSULAS NECESSÁRIAS 1.1. CLÁUSULAS NECESSÁRIAS Estão listadas no art. 55 da Lei 8.666 e duas merecem estudo mais aprofundado. Art. 55. São cláusulas necessárias em todo contrato as que estabeleçam: I - o objeto e seus elementos característicos; II - o regime de execução ou a forma de fornecimento; III - o preço e as condições de pagamento, os critérios, data-base e periodicidade do reajustamento de preços, os critérios de atualização monetária entre a data do adimplemento das obrigações e a do efetivo pagamento; IV - os prazos de início de etapas de execução, de conclusão, de entrega, de observação e de recebimento definitivo, conforme o caso; V - o crédito pelo qual correrá a despesa, com a indicação da classificação funcional programática e da categoria econômica; VI - as garantias oferecidas para assegurar sua plena execução, quando exigidas; VII - os direitos e as responsabilidades das partes, as penalidades cabíveis e os valores das multas; VIII - os casos de rescisão; IX - o reconhecimento dos direitos da Administração, em caso de rescisão administrativa prevista no art. 77 desta Lei; X - as condições de importação, a data e a taxa de câmbio para conversão, quando for o caso; XI - a vinculação ao edital de licitação ou ao termo que a dispensou ou a inexigiu, ao convite e à proposta do licitante vencedor; XII - a legislação aplicável à execução do contrato e especialmente aos casos omissos; XIII - a obrigação do contratado de manter, durante toda a execução do contrato, em compatibilidade com as obrigações por ele assumidas, todas as condições de habilitação e qualificação exigidas na licitação. § 1º (Vetado). (Redação dada pela Lei nº 8.883, de 1994) § 2o Nos contratos celebrados pela Administração Pública com pessoas físicas ou jurídicas, inclusive aquelas domiciliadas no estrangeiro, deverá constar necessariamente cláusula que declare competente o foro da sede da Administração para dirimir qualquer questão contratual, salvo o disposto no § 6o do art. 32 desta Lei. § 3o No ato da liquidação da despesa, os serviços de contabilidade comunicarão, aos órgãos incumbidos da arrecadação e fiscalização de tributos da União, Estado ou Município, as características e os valores pagos, segundo o disposto no art. 63 da Lei no 4.320, de 17 de março de 1964. 1.1.1. CLÁUSULA DE GARANTIA Aparece no art. 56 da Lei 8.666. Art. 56. A critério da autoridade competente, em cada caso, e desde que prevista no instrumento convocatório, poderá ser exigida prestação de garantia nas contratações de obras, serviços e compras. Apesar da lei dizer que a AP pode exigir garantia, a nossa doutrina entende que se trata de um poder-dever. Há um valor máximo dessa garantia que será prestada pelo contratado (art. 56, §§ 2º e 3º). Como regra geral, o valor máximo que pode ser exigida é até 5% do valor do contrato. Esses dispositivos trarão uma exceção: a garantia pode chegar a até 10% do valor quando se tratar de obras, serviços ou fornecimento de grande vulto, alta complexidade e riscos financeiros consideráveis para a Administração. § 2º A garantia a que se refere o caput deste artigo não excederá a cinco por cento do valor do contrato e terá seu valor atualizado nas mesmas condições daquele,ressalvado o previsto no parágrafo 3o deste artigo. (Redação dada pela Lei nº 8.883, de 1994) § 3º Para obras, serviços e fornecimentos de grande vulto envolvendo alta complexidade técnica e riscos financeiros consideráveis, demonstrados através de parecer tecnicamente aprovado pela autoridade competente, o limite de garantia previsto no parágrafo anterior poderá ser elevado para até dez por cento do valor do contrato. (Redação dada pela Lei nº 8.883, de 1994) A garantia é uma cláusula que vai, como o próprio nome diz, tentar garantir a boa execução do contrato. Assim, após a execução do contrato, aquela garantia que conferida no início será liberada ou restituída atualizada ao contratado. Nos contratos que envolvam a entrega de bens da AP ao particular para que ele possa executar ao contrato, sendo, portanto, depositário dos bens da AP, devemos somar o valores desses bens da AP que estão em depósito do particular na garantia que ele tem prestar (§5º). § 5º Nos casos de contratos que importem na entrega de bens pela Administração, dos quais o contratado ficará depositário, ao valor da garantia deverá ser acrescido o valor desses bens. 1.1.2. CLÁUSULA DA DURAÇÃO DO CONTRATO ADMINISTRATIVO Todo contrato administrativo, independentemente de sua natureza, deve ter prazo determinado. Como regra geral, o contrato administrativo deve durar o prazo do crédito orçamentário referente a ele (logo, no máximo de 12 meses, que é o prazo de vigência da LOA), conforme disposto no art. 57, caput, da Lei 8.666. Art. 57. A duração dos contratos regidos por esta Lei ficará adstrita à vigência dos respectivos créditos orçamentários, exceto quanto aos relativos: Existem diversas exceções, algumas previstas no supracitado art. 57, outras previstas em lei própria. Iniciaremos a exposição pelas exceções previstas no referido artigo. 1) Permite que a duração do contrato chegue a 120 meses nas hipóteses previstas nos incisos IX, XIX, XXVIII e XXXI do art. 24 da Lei 8.666 e tratam de situação relacionadas a alta tecnologia e segurança nacional. V - às hipóteses previstas nos incisos IX, XIX, XXVIII e XXXI do art. 24, cujos contratos poderão ter vigência por até 120 (cento e vinte) meses, caso haja interesse da administração. (Incluído pela Lei nº 12.349, de 2010) 2) Permite que dure até quatro anos o contrato administrativo que tenha o objeto previsto no Plano Plurianual (PPA). I - aos projetos cujos produtos estejam contemplados nas metas estabelecidas no Plano Plurianual, os quais poderão ser prorrogados se houver interesse da Administração e desde que isso tenha sido previsto no ato convocatório; 3) Possibilita que o contrato administrativo dure até sessenta meses quando se tratar de prestação de serviços a serem executados de forma contínua (ex. serviço de segurança, merenda escolar), desde que a extensão do prazo leve ao estabelecimento de preços e condições mais vantajosas. II - à prestação de serviços a serem executados de forma contínua, que poderão ter a sua duração prorrogada por iguais e sucessivos períodos com vistas à obtenção de preços e condições mais vantajosas para a administração, limitada a sessenta meses; (Redação dada pela Lei nº 9.648, de 1998) Ademais, o art. 57, §4º, permitirá que, em hipóteses excepcionais, esse prazo de sessenta meses seja prorrogado por mais doze meses, chegando, então, ao total de um prazo máximo de 72 meses para esses contratos. § 4º Em caráter excepcional, devidamente justificado e mediante autorização da autoridade superior, o prazo de que trata o inciso II do caput deste artigo poderá ser prorrogado por até doze meses. (Incluído pela Lei nº 9.648, de 1998) 4) O art. 57, IV, da Lei 8.666, prevê que podem ser firmados por até 48 meses contratos referentes ao aluguel de equipamentos e programas de informática. IV - ao aluguel de equipamentos e à utilização de programas de informática, podendo a duração estender-se pelo prazo de até 48 (quarenta e oito) meses após o início da vigência do contrato. OBSERVAÇÃO: O art. 57, III, foi vetado. Essas são as ressalvas previstas no art. 57 da Lei 8.666, mas existem outras que estão previstas em outras leis e estudaremos agora as mais importantes. 1) Contrato de concessão e permissão de serviços públicos: nesse caso, o prazo será estabelecido em lei específica do serviço. 2) Contrato sem desembolso (ex.: contrato de concessão de uso de bem público): nestes casos, em que a AP não precisa pagar nada, não é necessário respeitar o prazo máximo de 12 meses do crédito orçamentário, exatamente porque a AP não tem nenhum dispêndio de verba. Contudo, mesmo assim, esses contratos também devem ter prazo determinado devido àquela disposição do art. 57, § 3º, da Lei 8.666. § 3º É vedado o contrato com prazo de vigência indeterminado. 3) Contrato de parceria público-privada: deve ter duração de no mínimo 5 e no máximo 35 anos. Pode haver prorrogação do contrato administrativo? Sim, nas hipóteses previstas no art. 57, §1º e desde que observados os requisitos para tanto. 1) Deve haver previsão no edital ou no contrato. 2) Deve-se observar a extensão temporal máxima fixada pela lei para aquele contrato. Ex.: se o prazo máximo é de 4 anos e a Administração contratou por 2 anos, só pode prorrogar por, no máximo, mais 2 anos. 3) Deve ser justificada por escrito e previamente autorizada pela autoridade competente, de acordo com uma das hipóteses previstas no art. 57, §1º, da Lei 8.666. § 1o Os prazos de início de etapas de execução, de conclusão e de entrega admitem prorrogação, mantidas as demais cláusulas do contrato e assegurada a manutenção de seu equilíbrio econômico-financeiro, desde que ocorra algum dos seguintes motivos, devidamente autuados em processo: I - alteração do projeto ou especificações, pela Administração; II - superveniência de fato excepcional ou imprevisível, estranho à vontade das partes, que altere fundamentalmente as condições de execução do contrato; III - interrupção da execução do contrato ou diminuição do ritmo de trabalho por ordem e no interesse da Administração; IV - aumento das quantidades inicialmente previstas no contrato, nos limites permitidos por esta Lei; V - impedimento de execução do contrato por fato ou ato de terceiro reconhecido pela Administração em documento contemporâneo à sua ocorrência; VI - omissão ou atraso de providências a cargo da Administração, inclusive quanto aos pagamentos previstos de que resulte, diretamente, impedimento ou retardamento na execução do contrato, sem prejuízo das sanções legais aplicáveis aos responsáveis. CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: EQUILÍBRIO ECONÔMICO-FINANCEIRO 1. EQUILÍBRIO ECONÔMICO-FINANCEIRO DO CONTRATO ADMINISTRATIVO A sede constitucional dessa ideia aparece no art. 37, XXI, da CF/88. Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº19, de 1998) (…) XXI - ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações. Essa referência do art. 37, XXI, às condições efetivas da proposta tornou obrigatória a criação de um sistema legal de preservação das condições originárias do contrato dentro de certos parâmetros. Disso decorre a ideia de se defender que o contrato administrativo deve obedecer a noção de equilíbrio econômico-financeiro. Esse equilíbrio ou equação econômico-financeiro é simplesmente a relação estabelecida entre o encargo assumido pelo contratado - objeto do contrato - e a remuneração pactuada para ele no momento em que firmou-se o ajuste. Ou seja, é essa relação entre aquilo que o Poder Público recebe do particular e aquilo que aquele entrega em contrapartida para o particular. A manutenção desse equilíbrio constitucionalmente tutelado é uma garantia para o contratante - a AP -, mas, principalmente, para o contratado, o particular, que está em uma posição de inferioridade em relação à AP nos contratos administrativos. Como existem vários fatos que podem culminar no rompimento desse equilíbrio econômico-financeiro, várias são as formas de se reequilibrar o contrato administrativo. Cabe, inicialmente, estabelecer a diferença entre os institutos do reajuste e da revisão (ou recomposição) de preços. 1) Reajuste: é uma fórmula preventiva, já prevista no contrato com o objetivo de preservá-lo das perdas inflacionárias, que são questões previsíveis. O art. 55, III, da Lei 8.666 estabelece como cláusula necessária do contrato administrativo o preço e as condições de pagamento e, quando for o caso, os critérios de reajustamento. Como a lei fala em quando for o caso de reajustamento, entendemos que quando não houver previsão no contrato sobre o reajuste, o valor daquele contrato é fixo e irreajustável. 2) Revisão (recomposição de preços): da mesma forma que o reajuste, também irá reequilibrar o contrato, mas ela tem contorno diverso. Enquanto o reajuste é pré-fixado pelas partes para neutralizar um fato certo - a inflação - , a revisão decorre do surgimento de um fato superveniente, que até pode ser suposto pelas partes, mas não é conhecido dos contratantes no momento em que eles firmam o ajuste. Além disso, enquanto no reajuste se promove uma simples atualização monetária da remuneração, na revisão iremos alterar o valor efetivo da tarifa. Ademais, diferentemente do reajuste, a revisão não decorre de previsão contratual, mas sim de previsão legal. A doutrina destaca alguns situações como geradoras de revisão contratual: i) alteração unilateral do contrato pela AP: nesse caso, temos uma circunstância interna ao contrato. Art. 65, Lei 8.666 § 6º Em havendo alteração unilateral do contrato que aumente os encargos do contratado, a Administração deverá restabelecer, por aditamento, o equilíbrio econômico-financeiro inicial. Logo, se o contratado tem mais encargos, ele deve receber um valor maior pela atividade que desempenha naquele contexto do contrato administrativo que seja correspondente ao aumento dos encargos que ele sofreu. ii) Fato do príncipe: acontecimento externo ao contrato. Corresponde a uma atuação geral - porque atinge diversas situações, não apenas aquele contrato administrativo - e abstrata do Poder Público, que ocasiona onerosidade excessiva, embora não impeça o objeto principal. Atinge o contrato de forma indireta e reflexa. Exemplo: alteração da alíquota tributária. Se há uma alteração da alíquota tributária do serviço da coleta de lixo, por exemplo, e há um contrato administrativo em que esse serviço é necessário, haverá um aumento dos encargos do contratado e essa situação merecerá uma atuação no sentido de reequilibrar o contrato administrativo. ATENÇÃO! Parte da doutrina exige que o fato do príncipe seja provocado pela entidade contratante - por exemplo, se estamos falando de um contrato firmado pela União, só poderia ser caracterizado como fato do príncipe o aumento de tributos federais. Para esses autores, se o acontecimento decorre da atuação de ente de esfera federativa diversa do contratante, não se aplicaria fato do príncipe, mas assim a teoria da imprevisão. iii) Fato da Administração: se assemelha a fato do príncipe, mas não é uma situação idêntica. Hely Lopes Meirelles e Maria Sylvia Zanela di Pietro destacam que o chamado fato da Administração corresponde à ação ou omissão da Administração contratante que retarda ou impede a execução do contrato. Assim, enquanto fato do príncipe é um acontecimento externo ao contrato e corresponde a uma atuação geral e abstrata do Poder Público, o fato da Administração corresponde, seja a uma ação ou a uma omissão daquela Administração contratante - sendo, portanto, uma circunstância interna ao contrato administrativo - que irá retardar ou impedir a execução daquele contrato. Temos, portanto, uma atuação específica do Poder Público que atinge o contrato de forma direta e essa é a principal diferença entre fato do príncipe - príncipe remonta a essa ideia de uma atuação mais global, de soberania - e fato da Administração - remonta a uma ideia de uma atuação muito mais específica -. Exemplo de fato da Administração: digamos que a AP não providencie uma desapropriação que precisa ocorrer para a execução de um contrato de duplicação de rodovias. Temos uma omissão da AP que atinge de forma específica aquele contrato administrativo, retardando a sua execução. Nesse caso, o particular tendo perdas, porque, por exemplo, teve que manter as máquinas para poder fazer aquele serviço, será ressarcido, reequilibrando o contrato administrativo que foi desequilibrado por conta dessa omissão específica da AP, gerando gastos para o particular. iv) Interferências ou sujeições imprevistas: são dificuldades imprevisíveis de ordem material. Correspondem a uma situação que já existe desde a celebração do contrato, mas que só é descoberta no momento da sua execução. Exemplo: contrato de construção de um túnel. O contrato é firmado, as condições são estabelecidas, e na hora de furar o túnel, descobre-se que existe um lençol freático naquele local. Ele não impedirá a execução daquele contrato, mas a dificultará, exigindo muito mais daquele particular contratado e, por isso, é natural que ele deva receber mais, devido ao seu maior empenho para a execução do contrato. v) Álea econômica extraordinária (Teoria da Imprevisão): a adoção da teoria da imprevisão decorre da cláusula rebus sic stantibus - dispõe uma determinada obrigação deve ser cumprida enquanto as condições em que ela foi firmada permanecerem as mesmas -, implícita nos contratos de prestações sucessivas. Paraesses contratos, como em quaisquer outros, vigora o princípio da imutabilidade dos contratos - princípio da pacta sunt servanda -. O que acontece é nos contratos de trato sucessivo com essas prestações recíprocas que se protraem no tempo, ao lado da cláusula pacto sunt servanda está a cláusula rebus sic stantibus. Assim, os pactos devem ser cumpridos enquanto as condições da contratação permanecerem substancialmente as mesmas. Em outras palavras, a convenção não se mantém em vigor se houver uma alteração profunda, significativa das condições existentes no tempo em que firmado aquele acordo. OBSERVAÇÃO: A cláusula rebus sic stantibus nos remete à Idade Média e ela foi reavivada na época da II Guerra Mundial por conta das violentas flutuações econômicas decorrentes da guerra que afetaram diversos contratos. Dessa forma, a álea econômica extraordinária corresponde, assim, ao acontecimento externo ao contrato administrativo, de natureza econômica, estranho à vontade das partes, imprevisível e inevitável, que cause desequilíbrio contratual significativo. Para que haja a revisão tarifária, o fato que a enseja deve ser: a) superveniente, novo; b) imprevisto e imprevisível (as partes, mesmo que diligentes, não poderiam imaginá-lo); c) estranho à vontade das partes; d) inevitável; e) causador de significativo desequilíbrio econômico. O desequilíbrio econômico deve ser significativo, por isso falamos em álea econômica extraordinária. A álea econômica ordinária, que corresponde aos riscos normais de qualquer empreendimento, deve ser suportada pelo concessionário. OBSERVAÇÃO: A doutrina destaca, ainda, as hipóteses de caso fortuito e força maior, que correspondem a situações de fato, imprevisíveis e inevitáveis que geram a impossibilidade de cumprimento do contrato. Como nessas hipóteses não é possível restaurar o equilíbrio rompido, tem como consequência a rescisão do contrato (arts. 78, XVII e 79, §2º, da Lei 8.666/93), e, por isso, não foram tratadas entre as causas de revisão. É interessante perceber que a doutrina define de forma diferente caso fortuito e força maior. José dos Santos Carvalho Filho define o caso fortuito como aquele que decorre de eventos da natureza (catástrofes, ciclones, tempestades anormais). Já a força maior serio o resultado de um fato causado, de alguma forma, pela vontade humana (ex.: greve). Ocorre que outra parte da doutrina define caso fortuito e força maior exatamente da forma oposto. Assim, não existe um acordo doutrinário para que usemos caso fortuito seja para ação humana, seja para ação não humana, nem força maior. Dessa forma, esses assuntos são tratados, pelo menos em provas objetivas, em bloco, pela dificuldade de defini-los em razão da divergência doutrinária. CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: ESPÉCIES 1. PRINCIPAIS ESPÉCIES DE CONTRATOS ADMINISTRATIVOS 1.1. CONTRATO DE OBRA PÚBLICA É o contrato cujo objeto consiste na construção, reforma, fabricação, recuperação ou ampliação, realizado por execução direta (feita por órgãos ou entidades da AP) ou indireta (feita por terceiros, por pessoa jurídica que não integra a AP). Lei 8.666. Art. 6º Para os fins desta Lei, considera-se: I - Obra - toda construção, reforma, fabricação, recuperação ou ampliação, realizada por execução direta ou indireta; A definição de obra é taxativa e não abrange outras atividades, ainda que semelhantes. Dessa forma, se não se enquadra na definição do art. 6º, I, não é obra. Por isso, um contrato de demolição, por exemplo, que não está na relação do referido dispositivo não será considerado obra, mas sim serviço. Trazemos algumas informações sobre os regimes de execução indireta (art. 10, II, Lei 8.666), aquela que é feita por terceiros. Tais regimes não são somente para contratação de obra pública, mas também para contratos que envolvam serviços. 1.1.1. REGIMES DE EXECUÇÃO INDIRETA 1) Empreitada por preço global: há uma contratação da execução da obra ou do serviço por um preço certo e total, por isso falamos em preço global. O que interessa aqui é a obra ou o serviço como um todo. Exemplo: se temos um galpão, pagaremos pela execução dele e não pela sua fundação e pela alvenaria necessária para construir o galpão. Pagamos pelo global, pela execução daquela obra de maneira global. O fato de estarmos falando em uma empreitada por preço global, de uma definição do valor que será pago pela AP em razão da execução do todo, não impede que haja o pagamento por etapas da obra. Isso pode ocorrer, desde que o que se considere na hora de definir o valor seja o preço global. 2) Empreitada por preço unitário: nesta, a contratação da execução da obra ou do serviço se dará por preço certo de unidades determinadas. Temos uma empreitada por preço unitário, por exemplo, quando firmamos um contrato para pavimentação de rua que seja pago por metro quadrado de asfalto. 3) Empreitada integral: é a contratação do empreendimento em sua integralidade, compreendendo todas as etapas das obras, dos serviços e das instalações necessárias, sob responsabilidade da contratada até a entrega ao contratante em condições de entrada em operação. A empreitada integral é o regime indicado para obras e serviços de maior complexidade. Exemplo: a construção de uma plataforma de exploração de petróleo é um exemplo de situação em que se contrata com a utilização desse regime de execução indireta. 4) Tarefa: é uma situação em que se ajusta mão de obra para pequenos trabalhos por prazo certo, com ou sem fornecimento de materiais. Exemplo: pintura de sala. 5) Contratação integrada (Lei 12.462/11 - RDC): as obras e serviços são contratados sem projeto básico aprovado pela autoridade competente. Normalmente, na Lei 8.666, quando se faz um contrato para a execução de uma obra, os projetos básico e executivo são feitos pelo Poder Público e o particular somente irá executá-los. Na contratação integrada, contrata-se o particular e ele criará o projeto básico. Assim, o contratado irá executar a obra e colocá-la em operação com base em seu próprio projeto básico. 1.2. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS A prestação de serviços é definida por lei como toda atividade destinada a obter determinada utilidade de interesse para a Administração Pública (demolição, conserto, instalação, montagem, reparação, adaptação, locação de bens, publicidade, seguro, trabalhos técnicos profissionais, entre outros). O art. 6º, II, Lei 8.666, traz um rol exemplificativo, diferentemente da noção de obra pública, em que o rol é taxativo. Quando falamos de contrato de prestação de serviços, tratamos de uma situação em que um particular presta serviços à AP, diferente da hipótese de delegação de serviço público, que são serviços prestados a particulares, o que acontecerá por meio dos chamados contratos administrativos de concessão ou permissão de serviço público. 1.3. CONTRATOS DE FORNECIMENTO OU CONTRATO DE COMPRAS Por meio dele, a AP adquire bens móveis ou semoventes. Para José dos Santos Carvalho Filho, é o equivalente administrativo ao contrato de compra e venda nodireito privado. Para Maria Sylvia Zanella di Pietro, o contrato de fornecimento só terá características de contrato administrativo quando se tratar de fornecimento contínuo, parcelado, ou quando o fornecimento integral disser respeito a entrega futura. Assim, para ela, quando o contrato for referente a compras para uma entrega imediata e pagamento à vista, nada diferiria esse contrato que a AP está firmando de uma compra e venda normal, embora precedida de licitação. Dessa forma, temos essa divergência. Alguns autores dirão que contrato de fornecimento sempre pode ser contrato administrativo, como Carvalho Filho, e Di Pietro dirá que somente pode ser contrato administrativo quando tiver fornecimento contínuo, parcelado, ou quando esse fornecimento contratado for para uma entrega futura. Se for compra para entrega imediata e pagamento à vista, ainda que haja licitação, não é contrato administrativo, é contrato privado. 1.4. CONTRATO DE CONCESSÃO Genericamente falando, contrato de concessão é o contrato administrativo através do qual a AP confere ao particular a execução remunerada de serviço público ou de obra pública ou lhe cede o uso de bem público para que esse particular o explore nas condições previstas contratualmente. A nossa doutrina majoritária subdivide o contrato de concessão em três tipos: 1) concessão de serviço público; 2) concessão de obra pública e 3) concessão de uso. 1) Concessão de serviço público: abordaremos mais profundamente quando tratarmos do tema serviços públicos. Por ora, destacamos que existem 3 tipos de concessão de serviço público: concessão comum - aquela remunerada exclusivamente a partir da exploração do serviço, aquela situação em que apenas o usuário pagará para utilizar o serviço, disciplinada pela Lei 8.987; concessão patrocinada e concessão administrativa, que trataremos de forma mais específica quando estivermos estudando as parcerias público-privadas (PPPs), que podem acontecer por meio dessas duas modalidades de concessão - patrocinada e administrativa -. Dessa forma, podemos dizer que, no total, temos três modalidades de concessão de serviço público: 1ª) a concessão comum, regida pela Lei 8.987, 2ª e 3ª) concessão patrocinada e concessão administrativa, regidas pela Lei das PPPs. 2) Concessão de obra pública: é o contrato administrativo através do qual o Poder Público transfere a particular a execução de uma obra pública, para que a execute por sua conta e risco, sendo remunerado pelos futuros usuários, por meio de tarifas fixadas no contrato. A concessão de obra pública também está disciplinada pela Lei 8.987. 3) Concessão de uso: é o contrato administrativo pelo qual a AP faculta ao particular a utilização privativa de um bem público. 1.5. CONTRATO DE PERMISSÃO DE SERVIÇO PÚBLICO A permissão de serviço público era definida até pouco tempo como um ato unilateral, discricionário e precário, através do qual o Poder Público transferia a outrem a execução do serviço público. Entretanto, o art. 40 da Lei 8.987 acabou contratualizando a permissão, estabelecendo que a permissão de serviço público deve ser formalizada por meio de um contrato de adesão. Para a doutrina, aquilo que era até então ato unilateral passou a ter natureza jurídica contratual, uma vez que assim exige. OBSERVAÇÃO: Quando estivermos na aula sobre serviços públicos em si, perceberemos que existe mais uma figura, chamada autorização de serviço público. Não tratamos dela nessa aula porque ela não tem natureza contratual, mas sim natureza jurídica de ato unilateral. CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: CONVÊNIOS 1. CONVÊNIOS ADMINISTRATIVOS Convênio administrativo não é uma espécie de contrato administrativo, são coisas completamente diferentes. Os convênios são tratados quando falamos de contratos administrativos exatamente para mostrar as diferenças entre esses dois institutos. Convênios administrativos são ajustes firmados por pessoas administrativas entre si, ou entre estas e entidades particulares, com vistas a alcançar determinado objetivo de interesse público. É importante perceber que nos convênios impera o princípio do informalismo. Já tratamos que o formalismo é uma das características dos contratos administrativos. Nos convênios é diferente, vigorando o princípio do informalismo. Isso explica porque algumas operações que estranhamos à primeira vista podem ser firmadas e organizadas por meio de convênios. Como vigora o princípio do informalismo, iremos admitir, por exemplo, que um órgão público firme um convênio. Um órgão público não pode firmar um contrato, porque este demanda a existência de personalidade jurídica, mas um órgão público pode firmar um convênio. Um convênio administrativo independe de licitação prévia, porque no verdadeiro convênio não está presente nenhuma vontade de lucrar. Os recursos financeiros a disposição do convênio servem apenas para cobrir os custos daquela operação que tem o objetivo de alcançar determinada finalidade de interesse público. Como não há uma finalidade lucrativa, como ninguém está ganhando com o convênio, não exigiremos para ele procedimento licitatório. É importante perceber que exatamente por conta dessas menores limitações que o convênio exige, muitas vezes o administrador utiliza essa figura para fugir das exigências que são impostas ao contrato administrativo. Dessa forma, é preciso, quando estivermos diante de um convênio, verificar se ele é verdadeiro ou se mascarar aquela situação chamando-a de convênio não foi uma forma do administrador fugir de exigências que a lei coloca para outro tipo de situação. O STF, no INq 1.957/PR, destacou que é desnecessária a autorização legislativa para firmar convênio. Os convênios diferenciam-se dos contratos administrativos, pois, enquanto nos contratos os interesses que informam a avença são opostos, conforme doutrina tradicional. A doutrina mais moderna, inspirada nos civilistas, dirá que existe uma colaboração, questionando um pouco essa ideia de oposição entre partes no contrato de forma mais geral e também no administrativo. No contrato o elemento fundamental é o lucro; existem dois polos demarcados - contratante e contratado -; os contratantes estão ligados por um vínculo rígido - a AP tem algumas prerrogativas que permitem em alguma medida a alteração unilateral de contratos administrativos, mas a princípio o vínculo que liga os contratantes é rígido -. Nos convênio temos uma situação completamente diferente. Enquanto no contrato os interesses que informam a avença são opostos, no convênio os interesses são paralelos, comuns. Todos os agentes que participam do convênio têm o mesmo objetivo de concretizar o interesse público. Enquanto nos contratos o elemento fundamental é o lucro, nos convênios ele é a cooperação. No contrato as partes estão organizadas em polos opostos. No convênio as partes não estão organizadas em polos, mas sim de forma a objetivar a consecução de uma finalidade comum. No contrato estamos diante de um vínculo rígido, no convênio o vínculo jurídico não tem arigidez própria das relações contratuais. É justamente por isso que no convênio, como regra, o pactuante pode denunciar o convênio a qualquer momento, se livrando do pacto pela sua vontade. Como vimos, o convênio administrativo tem uma conformação bem diferente do contrato administrativo e isso dá a essa avença muito mais flexibilidade, muito menos limitações. No entanto, só temos que ter certeza que estamos realmente diante de um convênio administrativo quando encontramos um deles na prática, porque como os convênios trazem menos exigências para os convenentes, não deixa de ser uma forma de um agente público não tão bem intencionado tentar fugir de algumas limitações. Ademais, os convênios administrativos podem ser firmados por órgãos públicos entre si - União, Estados, Municípios - ou pode ser firmado entre um órgão ou ente público e particulares. CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: CONSÓRCIOS PÚBLICOS 1. CONSÓRCIOS PÚBLICOS CF/88. Art. 241. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por meio de lei os consórcios públicos e os convênios de cooperação entre os entes federados, autorizando a gestão associada de serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens essenciais à continuidade dos serviços transferidos. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) A doutrina tradicional definiu consórcio público como a avença firmada entre entes federativos do mesmo tipo - Município/Município e Estado/Estado - para a realização de objetivos de interesse comum. Era esse o ponto que diferenciava os consórcios públicos dos convênios, porque se entedia que se os primeiros reuniam entes de mesmo tipo, os segundos reuniam entes federativos de natureza diferente - União + Estado; União + Município; Estado + Município. Esse era o cenário até a publicação da Lei 11.107, que regerá os consórcios públicos. Com a sua promulgação, passou-se a falar em consórcio público também para fazer referência ao contrato administrativo firmado entre entes de natureza diversa para a chamada gestão associada de serviços públicos. Art. 1º Esta Lei dispõe sobre normas gerais para a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios contratarem consórcios públicos para a realização de objetivos de interesse comum e dá outras providências. § 1º O consórcio público constituirá associação pública ou pessoa jurídica de direito privado. Assim, consórcio público poderá ter duas naturezas: ou de associação pública ou de pessoa jurídica de direito privado. Esse contrato administrativo de consórcio público criará uma pessoa jurídica. Esta ou terá natureza jurídica de direito privado ou natureza jurídica de direito público. No último caso, essa PJ receberá uma denominação especial: associação pública. Dessa forma, associação pública é a pessoa jurídica de direito público criada em razão da existência de um consórcio público. Mais do que isso, se criamos uma associação pública, a lei determina que ela integrará a administração indireta de todos os entes da federação consorciados. Com isso, se temos um consórcio entre União e Estado que cria uma associação pública, ela integra a administração indireta da União e também integrará, ao mesmo tempo, a administração indireta do Estado membro. O STF tinha um entendimento de que não se poderia criar uma autarquia interfederativa, que pertencesse a mais de uma administração indireta e a lei dos consórcios públicos vem trazendo um dispositivo que diz exatamente o contrário dessa jurisprudência antiquíssima do Supremo. Ainda nesse sentido, a Lei 11.107, que é uma lei de direito administrativo, altera o nosso CC em seu art. 41, IV, para incluir expressamente entre as pessoas jurídicas de direito público interno as associações públicas, acrescentando que elas têm natureza de autarquias, por isso que elas vão de encontro com a supracitada jurisprudência do Supremo. ATENÇÃO! O consórcio público, esse que é criado com a Lei 11.107 e tem sua sede no art. 241, CF, não se confunde com aquele consórcio clássico mencionado no início da aula, porque este, que unia entes federativos de uma mesma natureza, é destituído de personalidade jurídica. Podemos falar, portanto, em um consórcio clássico e em consórcio público, duas figuras que têm, assim, contornos jurídicos diversos. Estamos tratando consórcio público como uma espécie de contrato administrativo porque é assim que boa parte da doutrina determina. Contudo, há doutrinadores que dizem que o consórcio público seria uma espécie de convênio, como o professor José dos Santos Carvalho Filho. A Lei 11.107 determina que a União só pode participar de consórcio público do qual façam parte todos os Estados em cujos territórios estejam situados os Municípios consorciados. Dessa forma, não pode haver um consórcio público entre União e, por exemplo, o município do Rio de Janeiro, a menos que o estado do Rio de Janeiro também esteja presente nesse consórcio. Na mesma linha, não pode ser acrescentado a esse consórcio o município de São Paulo, porque o estado de São Paulo também deve estar presente para que a União possa participar. 1.1. COMPETÊNCIAS Dentre outras competências, o consórcio poderá: a) Firmar convênios, contratos, acordos de qualquer natureza, receber auxílios, contribuições e subvenções sociais ou econômicas de outras entidades e órgãos do governo; b) Nos termos do contrato, promover desapropriações e instituir servidões nos termos de declaração de utilidade ou de necessidade pública, ou interesse social, realizada pelo Poder Público; c) Ser contratado pela Administração direta ou indireta dos entes da Federação consorciados, dispensada a licitação. d) Outorgar concessão, permissão ou autorização de obras ou serviços mediante autorização prevista no contrato de consórcio, que deverá indicar de forma específica o objeto da concessão, permissão ou autorização e as condições. Assim, o consórcio fará essa gestão associada de um determinado serviço público. Os objetivos comuns que informam o consórcio público são aqueles definidos pelos consorciados. Nesse sentido, temos dois conceitos importantes que nos ajudam a entender como que na prática acontece essa figura do consórcio, o que ele faz e como ele se mantém. São as figuras do contrato de rateio e do contrato de programa. 1.2. CONCEITOS IMPORTANTES No âmbito do consórcio público os estes firmarão um contrato de rateio, que, como o próprio nome já indica, é o contrato através do qual os entes se comprometerão a fornecer recursos financeiros para a realização das despesas do consórcio público. Assim, é aquele contrato que regerá a organização dos aportes financeiros que serão necessários para a consecução das atividades relativas ao consórcio público, a gestão associada de serviços. O contrato de rateio, como envolve recursos financeiros, será formalizado em cada exercício financeiro, com observância da legislação orçamentária e financeira do ente consorciado contratante, dependendoda previsão de recursos orçamentários que suportem o pagamento das obrigações contratadas. O contrato de programa, por sua vez, como o próprio nome diz, fará uma programação. Ele é um instrumento pelo qual devem ser constituídas e reguladas as obrigações que um ente da federação, inclusive a sua administração indireta, tenha para com um outro ente da federação que está participando naquele consórcio. Assim, é um instrumento pelo qual regulase a relação para com outro ente da federação ou para com o próprio consórcio público no âmbito dessa prestação de serviços públicos por meio de cooperação federativa. Dessa forma, se achar que determinado serviço, como o fornecimento de água em uma grande bacia hidrográfica, é demais para apenas um município ou apenas um estado cuidar, podese fazer um consórcio para gerir de forma associada a prestação desse serviço. O contrato de rateio irá dizer quem vai aportar o que e o contrato de programa irá programar as obrigações de cada um dos entes partícipes do consórcio tem para com os outros entes partícipes ou para com o próprio consórcio. Para complementar os estudos de consórcios públicos, a professora recomenda a leitura do Decreto nº 6.017/2017, que regulamentará a Lei 11.107. CONTRATOS ADMINISTRATIVOS: PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS 1. PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS (PPPS) Além do contrato de concessão de serviço público comum, aquele regido pela Lei 8.987, temos também o contrato de parceria público-privada, que nada mais é do que uma modalidade especial de concessão de serviço público regida por lei própria, qual seja a Lei 11.079/2004. As PPPs são um instrumento contratual criado, portanto, pela Lei 11.079/2004, com um objetivo específico: incentivar o investimento privado no setor público através de uma repartição objetiva de riscos entre Estado, o chamado parceiro público, e o investidor particular, chamado parceiro privado. Basicamente, entendeu-se que a Lei 8.987 trazia e alocava riscos demais no parceiro privado e, por isso, para que houvesse um investimento maciço em infraestrutura, precisaria-se redesenhar um sistema de risco em que o Poder Público assumisse um pouco mais o risco do que no da Lei 8.987. Essa é a ideia da PPP, para algumas obras de grande vulto e centrais para o desenvolvimento do país iremos criar um regime mais benéfico para o particular para que ele, assim, se anime a investir em pontos que são fundamentais. O art. 1º e seu parágrafo único, da Lei 11.079/2004 vão nos informar quem pode contratar utilizando o instrumento da PPP. Art. 1º Esta Lei institui normas gerais para licitação e contratação de parceria público-privada no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Dessa forma, a primeira coisa que precisamos saber é que a Lei 11.079 é uma lei nacional, que não terá a sua aplicação restrita a esfera federal. Parágrafo único. Esta Lei aplica-se aos órgãos da administração pública direta dos Poderes Executivo e Legislativo, aos fundos especiais, às autarquias, às fundações públicas, às empresas públicas, às sociedades de economia mista e às demais entidades controladas direta ou indiretamente pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios. (Redação dada pela Lei nº 13.137, de 2015) Esse parágrafo único sofreu alteração em 2015 e o que a justificou foi a vontade de deixar claro que, no mesmo sentido que já havia decidido o CNJ, as PPPs não são aplicáveis ao Poder Judiciário. As PPPs correspondem a um contrato administrativo de concessão de serviço público, que pode incluir, eventualmente, a execução de obras públicas. Esse contrato se caracteriza por alguns pontos e o primeiro deles é que ele terá uma duração especificada em lei, que será de no mínimo 5 e no máximo 35 anos, uma duração longa para um contrato administrativo. A segunda característica das PPPs é que a lei disporá que esse contrato não pode ter objeto de valor inferior a dez milhões de reais. Até pouco tempo atrás esse valor mínimo era de vinte milhões, mas em 2017 houve uma alteração no art. 4º, I, da Lei 11.079 para reduzir de vinte para dez milhões de reais. Por mais que se tenha reduzido pela metade o valor mínimo do contrato, percebam que esse valor ainda é significativo. O que fica muito claro é que não podemos usar o instrumento da PPP para qualquer contrato. Essa divisão objetiva de riscos entre particular e Poder Público ficou restrita a contratos significativos, porque têm uma duração maior e um valor robusto. Dessa forma, a possibilidade de utilização da PPP está restrita a contratos de grande monta. Observe, nesse ponto, com relação à duração e ao valor os arts. 2 º a 5º da Lei das PPPs, que são os principais artigos desse diploma normativo. Art. 2º Parceria público-privada é o contrato administrativo de concessão, na modalidade patrocinada ou administrativa. § 1º Concessão patrocinada é a concessão de serviços públicos ou de obras públicas de que trata a Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, quando envolver, adicionalmente à tarifa cobrada dos usuários contraprestação pecuniária do parceiro público ao parceiro privado. § 2º Concessão administrativa é o contrato de prestação de serviços de que a Administração Pública seja a usuária direta ou indireta, ainda que envolva execução de obra ou fornecimento e instalação de bens. § 3º Não constitui parceria público-privada a concessão comum, assim entendida a concessão de serviços públicos ou de obras públicas de que trata a Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, quando não envolver contraprestação pecuniária do parceiro público ao parceiro privado. § 4º É vedada a celebração de contrato de parceria público-privada: I - cujo valor do contrato seja inferior a R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais); (Redação dada pela Lei nº 13.529, de 2017) II – cujo período de prestação do serviço seja inferior a 5 (cinco) anos; ou III – que tenha como objeto único o fornecimento de mão-de-obra, o fornecimento e instalação de equipamentos ou a execução de obra pública. Art. 3º As concessões administrativas regem-se por esta Lei, aplicando-se-lhes adicionalmente o disposto nos arts. 21, 23, 25 e 27 a 39 da Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, e no art. 31 da Lei no 9.074, de 7 de julho de 1995. (Regulamento) § 1º As concessões patrocinadas regem-se por esta Lei, aplicando-se-lhes subsidiariamente o disposto na Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, e nas leis que lhe são correlatas. (Regulamento) § 2º As concessões comuns continuam regidas pela Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, e pelas leis que lhe são correlatas, não se lhes aplicando o disposto nesta Lei. § 3º Continuam regidos exclusivamente pela Lei no 8.666, de 21 de junho de 1993, e pelas leis que lhe são correlatas os contratos administrativos que não caracterizem concessão comum, patrocinada ou administrativa. Art. 4º Na contratação de parceria público-privada serão observadas as seguintes diretrizes: I – eficiência no cumprimento das missões de Estadoe no emprego dos recursos da sociedade; II – respeito aos interesses e direitos dos destinatários dos serviços e dos entes privados incumbidos da sua execução; III – indelegabilidade das funções de regulação, jurisdicional, do exercício do poder de polícia e de outras atividades exclusivas do Estado; IV – responsabilidade fiscal na celebração e execução das parcerias; V – transparência dos procedimentos e das decisões; VI – repartição objetiva de riscos entre as partes; VII – sustentabilidade financeira e vantagens socioeconômicas dos projetos de parceria. Capítulo II DOS CONTRATOS DE PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA Art. 5º As cláusulas dos contratos de parceria público-privada atenderão ao disposto no art. 23 da Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, no que couber, devendo também prever: I – o prazo de vigência do contrato, compatível com a amortização dos investimentos realizados, não inferior a 5 (cinco), nem superior a 35 (trinta e cinco) anos, incluindo eventual prorrogação; II – as penalidades aplicáveis à Administração Pública e ao parceiro privado em caso de inadimplemento contratual, fixadas sempre de forma proporcional à gravidade da falta cometida, e às obrigações assumidas; III – a repartição de riscos entre as partes, inclusive os referentes a caso fortuito, força maior, fato do príncipe e álea econômica extraordinária; IV – as formas de remuneração e de atualização dos valores contratuais; V – os mecanismos para a preservação da atualidade da prestação dos serviços; VI – os fatos que caracterizem a inadimplência pecuniária do parceiro público, os modos e o prazo de regularização e, quando houver, a forma de acionamento da garantia; VII – os critérios objetivos de avaliação do desempenho do parceiro privado; VIII – a prestação, pelo parceiro privado, de garantias de execução suficientes e compatíveis com os ônus e riscos envolvidos, observados os limites dos §§ 3o e 5o do art. 56 da Lei no 8.666, de 21 de junho de 1993, e, no que se refere às concessões patrocinadas, o disposto no inciso XV do art. 18 da Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995; IX – o compartilhamento com a Administração Pública de ganhos econômicos efetivos do parceiro privado decorrentes da redução do risco de crédito dos financiamentos utilizados pelo parceiro privado; X – a realização de vistoria dos bens reversíveis, podendo o parceiro público reter os pagamentos ao parceiro privado, no valor necessário para reparar as irregularidades eventualmente detectadas. XI - o cronograma e os marcos para o repasse ao parceiro privado das parcelas do aporte de recursos, na fase de investimentos do projeto e/ou após a disponibilização dos serviços, sempre que verificada a hipótese do § 2º do art. 6º desta Lei. (Incluído pela Lei nº 12.766, de 2012) § 1º As cláusulas contratuais de atualização automática de valores baseadas em índices e fórmulas matemáticas, quando houver, serão aplicadas sem necessidade de homologação pela Administração Pública, exceto se esta publicar, na imprensa oficial, onde houver, até o prazo de 15 (quinze) dias após apresentação da fatura, razões fundamentadas nesta Lei ou no contrato para a rejeição da atualização. § 2º Os contratos poderão prever adicionalmente: I - os requisitos e condições em que o parceiro público autorizará a transferência do controle ou a administração temporária da sociedade de propósito específico aos seus financiadores e garantidores com quem não mantenha vínculo societário direto, com o objetivo de promover a sua reestruturação financeira e assegurar a continuidade da prestação dos serviços, não se aplicando para este efeito o previsto no inciso I do parágrafo único do art. 27 da Lei no 8.987, de 13 de fevereiro de 1995; (Redação dada pela Lei nº 13.097, de 2015) II – a possibilidade de emissão de empenho em nome dos financiadores do projeto em relação às obrigações pecuniárias da Administração Pública; III – a legitimidade dos financiadores do projeto para receber indenizações por extinção antecipada do contrato, bem como pagamentos efetuados pelos fundos e empresas estatais garantidores de parcerias público-privadas. As PPPs, como determina a lei em seu art. 10, serão precedidas de licitação na modalidade de concorrência. A lei nem precisava ter falado que a licitação é na modalidade de concorrência porque o próprio valor mínimo de uma PPP é um valor significativo, o que faz com que realmente tenha-se que adotar a concorrência como modalidade licitatória. Art. 10. A contratação de parceria público-privada será precedida de licitação na modalidade de concorrência, estando a abertura do processo licitatório condicionada a: (…) É importante dizer que o contrato de PPP pode adotar duas modalidades diferentes: as chamadas concessão administrativa e concessão patrocinada. 1.1. MODALIDADES 1.1.1. CONCESSÃO ADMINISTRATIVA Nessa modalidade, apenas a AP irá remunerar o parceiro privado; o usuário daquele serviço não remunera. A concessão administrativa será normalmente utilizada na hipótese de concessão de serviço público de fruição geral - uti universi -, aquele que não é utilizado de forma individualizada, mas sim pela coletividade. Como ele é utilizado pela coletividade e não se consegue precisar quanto daquele serviço cada um utiliza, não é possível cobrar uma tarifa do particular. Por exemplo: coleta de lixo urbana dos espaços públicos. A concessão administrativa é utilizada, ainda, quando a AP é usuária direta ou indireta do serviço, naquelas situações em que não existe interesse do particular. Exemplo: o estado de Minas Gerais utilizava as concessões administrativas para delegar a algumas empresas privadas a construção de presídios. O sujeito que ficará preso não tem nenhum interesse em pagar por aquele serviço. Dessa forma, como não há interesse do usuário em pagar pelo serviço, quem remunera é apenas a AP. Sendo assim, são essas duas situações que se costuma utilizar a concessão administrativa, preenchidos os requisitos da PPP. 1.1.2. CONCESSÃO PATROCINADA Na concessão patrocinada, assim como na concessão administrativa, há um pagamento da AP ao parceiro privado, porque nas PPPs - e essa é uma outra característica própria delas - a AP sempre paga ao parceiro privado. Dessa forma, o concessionário, aquele que desenvolve o serviço, sempre receberá uma remuneração da AP, e esse é um ponto que também diferencia as PPPs da concessão comum. Na concessão comum, muitas vezes, só o usuário paga pelo serviço. Nas PPPs não; nelas a AP sempre paga. Na concessão administrativa, apenas o parceiro público paga. Já na concessão patrocinada, além dele pagar, também há o pagamento de tarifa pelo usuário do serviço. A concessão patrocinada normalmente é utilizada na hipótese de concessão de serviço público individual - uti singuli -, justamente porque se consegue avaliar quanto cada usuário está utilizando daquele serviço. 1.2. OBJETO O objeto desses contratos aparecerá no art. 2º da Lei 11.079. Art. 2º Parceria público-privada é o contrato