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ALTERAÇÕES DA SENSOPERCEPÇÃO E DA VIVÊNCIA DO TEMPO E DO ESPAÇO Tarcya Lima tarcy.lima@professores.unifavip.edu.br PSICOPATOLOGIA GERAL SENSAÇÃO Fenômeno elementar gerado por estímulos físicos, químicos ou biológicos variados, originados fora ou dentro do organismo, que produzem alterações nos órgãos receptores, estimulando-os. Os estímulos sensoriais fornecem a alimentação sensorial aos sistemas de informação do organismo. As diferentes formas de sensação são geradas por estímulos sensoriais específicos, como visuais, táteis, auditivos, olfativos, gustativos, proprioceptivos e cinestésicos. É um fenômeno passivo: estímulos físicos ou químicos atuam sobre sistemas de recepção do organismo. (Dalgalarrondo, 2019) É a tomada de consciência, pelo indivíduo, do estímulo sensorial; diz respeito à dimensão propriamente neuropsicológica e psicológica do processo, à transformação de estímulos puramente sensoriais em fenômenos perceptivos conscientes. É um fenômeno ativo: o sistema nervoso e a mente constroem um percepto por meio da síntese dos estímulos sensoriais confrontados com experiências passadas registradas na memória e com o contexto sociocultural em que vive o indivíduo e que atribui significado às experiências. PERCEPÇÃO (Dalgalarrondo, 2019) APERCEPÇÃO Termo introduzido pelo filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Significa a plena entrada de uma percepção na consciência e sua articulação com os demais elementos psíquicos. Aperceber é perceber algo integralmente, com clareza e plenitude, por meio de reconhecimento ou identificação do material percebido com o preexistente. Carl Gustav Jung (1875-1961) definia a apercepção como um processo psíquico em virtude do qual um novo conteúdo é articulado de tal modo a conteúdos semelhantes já dados que se pode considerar imediatamente claro e compreendido. Nesse caso, a apercepção seria propriamente uma gnosia, ou seja, o pleno reconhecimento de um objeto percebido. (Dalgalarrondo, 2019) Alterações QUANTITATIVAS da Sensopercepção No sentido psicopatológico, é a condição na qual as percepções encontram-se anormalmente aumentadas em sua intensidade ou duração. Os sons são ouvidos de forma muito amplificada; um ruído parece um estrondo; as imagens visuais e as cores tornam-se mais vivas e intensas. HIPERESTESIA INTOXICAÇÕES POR ALUCINÓGENOS EPILEPSIA ENXAQUECA HIPERTIREOIDISMO ESQUIZOFRENIA AGUDA CERTOS QUADROS MANÍACOS (Dalgalarrondo, 2019) No sentido neurológico, ocorre quando uma sensação desagradável (geralmente de queimação dolorosa) é produzida por um leve estímulo da pele. HIPERPATIA SÍNDROMES TALÂMICAS HIPOESTASIA No sentido psicopatológico, o mundo circundante é percebido como mais escuro; as cores tornam- se mais pálidas e sem brilho; os alimentos não têm mais sabor; e os odores perdem sua intensidade. DEPRESSÃO MAIOR (Dalgalarrondo, 2019) No sentido neurológico, são alterações localizadas em territórios cutâneos de inervação anatomicamente determinada, compondo as chamadas síndromes sensitivas, de interesse à neurologia clínica. HIPOESTASIAS TÁTEIS HIPOESTASIA EM FAIXA Decorrente de lesões da medula, das raízes medulares dos nervos HIPOESTASIA EM “BOTA/LUVA” Decorrente dos neurônios periféricos, várias polineuropatias (Dalgalarrondo, 2019) TRANSTORNOS HISTÉRICOS (CONVERSÃO HISTÉRICA) SUJEITOS COM ALTO GRAU DE SUGESTIONABILIDADE QUADROS DEPRESSIVOS E PSICÓTICOS GRAVES ANESTESIAS TÁTEIS Implicam a perda da sensação tátil em determinada área da pele. Usa-se, com frequência, o termo “anestesia” para indicar também analgesias (perda das sensações dolorosas) de áreas da pele e partes do corpo. Em áreas que não correspondem a territórios de nervos anatomicamente definidos em geral são de causa psicogenética, com fatores emocionais em sua base. ANESTESIAS, HIPOESTESIAS E ANALGESIAS (Dalgalarrondo, 2019) Pausa de 5 minutos! Alterações QUALITATIVAS da Sensopercepção MAIS IMPORTANTES PARA A PSICOPATOLOGIA ILUSÕES ALUCINAÇÕES ALUCINOSE PSEUDOALUCINAÇÃO É a percepção clara e definida de um objeto (voz, ruído, imagem) sem a presença de objeto estimulante real, na grande maioria dos casos, são percebidas pelos dois ouvidos, dois olhos, duas narinas. É o fenômeno pelo qual o paciente percebe a experiência alucinatória como estranha a sua pessoa, são adequadas e imediatamente criticadas pelo sujeito, reconhecendo seu caráter patológico. É um fenômeno que, embora se pareça com a alucinação, dela se afasta por não apresentar os aspectos vivos e corpóreos de uma imagem perceptiva real, apresenta mais as características de uma imagem representativa, de uma representação. Se caracteriza pela percepção deformada e alterada, de um objeto real e presente; há sempre um objeto externo real, gerador do processo de sensopercepção, mas tal percepção é deformada, adulterada, por fatores patológicos diversos. ILUSÕES ESTADOS DE REBAIXAMENTO DO NÍVEL DE CONSCIÊNCIA Turvação da consciência, a percepção torna-se imprecisa, fazendo os estímulos sensoriais reais serem percebidos de modo deformado. 1 2 3 ESTADOS DE FADIGA GRAVE OU DE INATENÇÃO MARCANTE Podem ocorrer ilusões transitórias e sem muita importância clínica. ALGUNS ESTADOS AFETIVOS Por sua acentuada intensidade, o afeto pode deformar o processo de sensopercepção, gerando as chamadas ilusões catatímicas (medo/desejo). AS ILUSÕES OCORREM BASICAMENTE EM TRÊS CONDIÇÕES: (Dalgalarrondo, 2019) TIPOS DE ILUSÕES ILUSÕES VISUAIS O paciente geralmente vê pessoas, monstros, animais, entre outras coisas, a partir de estímulos visuais como móveis, roupas, objetos ou figuras penduradas nas paredes. (Dalgalarrondo, 2019) ILUSÕES AUDITIVAS A partir de estímulos sonoros inespecíficos, o paciente ouve seu nome, palavras significativas ou chamamentos. ALUCINAÇÕES Personagem: Tarso, da novela Caminho das Índias (2009) Filme: Cisne Negro (2010) ALUCINAÇÕES AUDITIVAS (Dalgalarrondo, 2019) SIMPLES COMPLEXAS TINNITUS Há a sensação subjetiva de ouvir ruídos, mais frequentemente zumbidos, mas também, eventualmente, burburinhos, cliques e estalidos. Podem ser contínuos, intermitentes ou pulsáteis (batimentos cardíacos). doenças do sistema auditivo, 40% a 50% ansiedade e/ou depressão O paciente escuta vozes sem qualquer estímulo real. São vozes que geralmente o ameaçam ou insultam. Muito frequentemente, a alucinação audioverbal é de conteúdo depreciativo e/ou de perseguição. ALUCINAÇÃO AUDIOVERBAL esquizofrenia, episódios de mania (místico-religioso), depressão (ruína/culpa), borderline, psicoses Alucinações Schneiderianas São alucinações audioverbais em que as vozes comandam a ação ou comentam a ação e as atividades corriqueiras do paciente. Indicam gravidade do quadro e associação frequente (mais de 95% das vezes) de tais alucinações com delírios. Pacientes que obedecem às vozes de comando (muitas vezes com implicações gravíssimas, com risco de suicídio e/ou homicídio), que isso ocorre quando: a voz tem a sonoridade de uma pessoa já conhecida pelo indivíduo; o paciente tem envolvimento emocional com a voz; o indivíduo percebe a alucinação como uma voz real que está ouvindo. a. b. c. (Dalgalarrondo, 2019) SONORIZAÇÃO DO PENSAMENTO É experimentada como a vivência sensorial de ouvir o pensamento, no momento mesmo em que ele está sendo pensado (sonorização), ou de forma repetida, logo após ter sido pensado (como eco do pensamento). (Dalgalarrondo, 2019) De vivência é semelhante a uma alucinação auditiva audioverbal, o paciente reconhece claramente que está ouvindo os próprios pensamentos, escutando-os no exato momento em que os pensa. SONORIZAÇÃO DO PRÓPRIO PENSAMENTO SONORIZAÇÃO DE PENSAMENTOS COMO VIVÊNCIA ALUCINATÓRIO- DELIRANTE É a experiência na qual o indivíduo ouve pensamentos que foram introduzidos em sua mente por alguém estranho, sendo agora ouvidos por ele. PUBLICAÇÃO DO PENSAMENTO ALUCINAÇÕES MUSICAIS São descritas como a audição de tons musicais, melodias, ritmose harmonias sem o correspondente estímulo auditivo externo. Dividem-se as alucinações musicais em dois grupos: quando ocorrem sem a presença de um transtorno neurológico ou psicopatológico, mas com frequência com déficit auditivo (hipoacusia), são classificadas como alucinações musicais idiopáticas; quando associadas a transtorno neurológico ou psicopatológico, são classificadas como alucinações musicais sintomáticas. a. b. (Dalgalarrondo, 2019) ALUCINAÇÕES VISUAIS (Dalgalarrondo, 2019) SIMPLES COMPLEXAS FOTOPSIAS O indivíduo vê cores, bolas e pontos brilhantes. São comuns em pacientes com doenças oculares, com déficit ou privação visual; na esquizofrenia, no uso de álcool, na enxaqueca e na epilepsia. Incluem: figuras e imagens de pessoas (vivas ou mortas, familiares ou desconhecidas), de partes do corpo (órgãos genitais, caveiras, olhos assustadores, cabeças disformes, etc.), de entidades (o demônio, uma santa, um fantasma), de objetos inanimados, animais ou crianças Alucinações Cenográficas: cenas completas. Alucinação Liliputiana, na qual o indivíduo vê cenas com personagens diminutos, minúsculos, entre os objetos e pessoas reais de sua casa. O paciente sente espetadas, choques ou insetos ou pequenos animais correndo sobre sua pele. As alucinações táteis com pequenos animais ou insetos geralmente ocorrem associadas ao delírio de infestação. Quando sentidas nos genitais descrevem-se forças estranhas tocando, cutucando ou penetrando seus genitais. ALUCINAÇÕES TÁTEIS ESQUIZOFRENIA DELIRIUM TREMENS PSICOSES TÓXICAS (Dalgalarrondo, 2019) As alucinações olfativas, em geral, manifestam-se como o “sentir” o odor de coisas podres, de cadáver, de fezes, de pano queimado, gás, gasolina, etc. Lembranças ou sensações olfativas normalmente vêm acompanhadas de forte impacto emocional. As alucinações olfativas costumam ter impacto pessoal especial, podendo estar relacionadas a interpretações delirantes (“sinto o cheiro de veneno de rato na comida, pois estão tentando me envenenar”). Nelas os pacientes sentem, na boca, o sabor de ácido, de sangue, de urina, etc., sem qualquer estímulo gustativo presente. ALUCINAÇÕES OLFATIVAS E GUSTATIVAS ESQUIZOFRENIA, EPILEPSIA LOBO TEMPORAL (Dalgalarrondo, 2019) FANTOSMIAS FANTAGEUSIAS Hiperosmia Hiposmia Anosmia Parosmia? OUTROS TIPOS DE ALUCINAÇÃO Alucinações cenestésicas: ou somáticas, ocorrem como sensações incomuns e claramente anormais em diferentes partes ou órgãos do corpo, como sentir o cérebro encolhendo, o fígado despedaçando, ou as mãos se esfarelando. Alucinações cinestésicas: são vivenciadas pelo paciente como sensações alteradas de movimentos do corpo, como sentir o corpo afundando, as pernas encolhendo ou um braço se elevando. Alucinação somática oral: em geral ocorre em pacientes adultos ou idosos, frequentemente com depressão ansiosa; tais indivíduos referem sensação marcante e desagradável na boca, na língua e na garganta, queixando-se de queimação ou de como se houvesse moedas ou arames na boca. (Dalgalarrondo, 2019) OUTROS TIPOS DE ALUCINAÇÃO Alucinações funcionais: quando verdadeiras alucinações (e não ilusões perceptivas) são desencadeadas por estímulos sensoriais; por exemplo, que, quando abrem o chuveiro ou a torneira da pia, começam a ouvir vozes. Alucinações combinadas, multimodais ou polimodais: são experiências alucinatórias nas quais ocorrem alucinações de várias modalidades sensoriais (auditivas, visuais, táteis, etc.) ao mesmo tempo ou sucessivamente. Alucinações extracampinas: são alucinações experimentadas fora do campo sensoperceptivo habitual, como quando o indivíduo vê nitidamente uma imagem às suas costas ou atrás de uma parede, sente a presença de uma pessoa, bem como seus movimentos fugazes, atrás ou ao lado de si mesmo. (Dalgalarrondo, 2019) OUTROS TIPOS DE ALUCINAÇÃO Alucinação autoscópica: é uma alucinação visual (que também pode apresentar componentes táteis e cenestésicos) na qual o indivíduo enxerga a si mesmo, ou seja, vê seu corpo, como se estivesse fora dele, contemplando-o. As alucinações hipnopômpicas ocorrem na fase em que o indivíduo está despertando e as alucinações hipnagógicas se manifestam no momento em que ele está adormecendo; estão relacionadas à transição sono�-vigília; são episódios alucinatórios nem sempre fáceis de se distinguir de pesadelos e sonhos desprazerosos. (Dalgalarrondo, 2019) (Dalgalarrondo, 2019) (Dalgalarrondo, 2019) (Dalgalarrondo, 2019) Mais uma pausa para organizar as ideias! ALTERAÇÕES DA VIVÊNCIA DO TEMPO E DO ESPAÇO TEMPO As vivências do tempo e do espaço constituem-se como dimensões fundamentais de todas as experiências humanas. O ser, de modo geral, só é possível nas dimensões reais e objetivas do espaço e do tempo. Portanto, o tempo e o espaço são, ambos, condicionantes fundamentais do universo humano e estruturantes básicos da nossa experiência. Outros compreensões: Duração; Um dos elementos constituintes do ser; Ritmos biológicos. (Dalgalarrondo, 2019) É inquestionável que a vida psíquica, além de ocorrer e se configurar no tempo, tem ela mesma um aspecto especificamente temporal, e, por isso, é legítima a distinção do tempo em: TEMPO SUBJETIVO TEMPO OBJETIVO exterior, cronológico e mensurávelinterior e pessoal CLASSIFICAÇÃO (Dalgalarrondo, 2019) SAGRADO TEMPOESPAÇO ANORMALIDADES DA VIVÊNCIA DO TEMPO E RITMO PSÍQUICO SÍNDROMES DEPRESSIVAS além disso, a passagem do tempo é percebida como lenta e vagarosa. Bradipsiquismo, com lentificação de todas as atividades mentais; (Dalgalarrondo, 2019) SÍNDROMES MANÍACAS Taquipsiquismo, com aceleração de todas as funções psíquicas (pensamento, psicomotricidade, linguagem, etc.); aqui, a passagem do tempo é percebida como rápida e acelerada. (Dalgalarrondo, 2019) ILUSÃO SOBRE A DURAÇÃO DO TEMPO Deformação acentuada da percepção da duração temporal: alucinógenos/psicoestimulantes, fases agudas e iniciais das psicoses e em situações emocionais especiais e intensas. ATOMIZAÇÃO DO TEMPO O indivíduo não consegue inserir-se naturalmente na continuidade do devir; adere a momentos quase descontínuos: estados de exaltação e agitação maníaca, fuga de ideias e distraibilidade. INIBIÇÃO DA SENSAÇÃO DE FLUIR DO TEMPO Corresponde à falta da sensação do avançar subjetivo do tempo, na qual o sujeito perde o sincronismo entre o passar do tempo objetivo, cronológico, e o fluir de seu tempo interno. (Dalgalarrondo, 2019) DEPRESSÃO MAIOR/TOC Alterações da vivência do tempo na esquizofrenia A experiência temporal em pessoas com esquizofrenia, sobretudo nos períodos de agudização, é marcada pela fragmentação, que se verifica pela alteração da percepção do fluir do tempo, bem como por vivências anormais, como déjà vu e déjà vecu e estranhamento do tempo passado e futuro, relacionados a delírios e alucinações. Alguns pacientes com esquizofrenia experimentam certa passividade em relação ao fluir do tempo; sentem que sua percepção temporal é controlada por uma instância exterior ao seu Eu. Outros, geralmente mais graves, sofrem verdadeira desintegração da sensação do tempo e do espaço. As alterações das vivências do tempo, de modo geral, estão associadas a alterações da experiência do self. (Dalgalarrondo, 2019) ANORMALIDADES DA VIVÊNCIA DO ESPAÇO ESTADO DE ÊXTASE ESTADO MANÍACO QUADROS DEPRESSIVOS QUADRO PARANOIDE Extremamente dilatado e amplo, que invade o das outras pessoas; o paciente desconhece as fronteiras espaciais e vive como se todo o espaço exterior fosse seu. O espaço exterior pode ser vivenciado como muito encolhido, contraído, escuro e pouco penetrável pelo indivíduo e pelos outros. Seu espaço interior é sentido como invadido por aspectos ameaçadores, perigosos e hostis do mundo. O espaço exterior é, em princípio, invasivo, fonte de perigos e ameaças. Há perda das fronteiras entre o eu e o mundo exterior, o sujeito sente como se estivesse fundido ao mundo exterior. AGORAFOBIA O espaço exterior é percebido como sufocante, pesado,perigoso e potencialmente aniquilador. (Dalgalarrondo, 2019) DALGALARRONDO, PAULO. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, 3ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2019. REFERÊNCIAS: Obrigada! LEITURA PARA PRÓXIMA AULA: Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais Capítulo 20: O pensamento e suas alterações; Capítulo 21: O juízo de realidade e suas alterações (o delírio).