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A ficção moderna e o modernismo literário Apresentação Entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o mundo passava por grandes e importantes transformações no campo social, cultural, político e econômico, responsáveis por uma verdadeira revolução nas formas de se perceber o mundo e a realidade. Essa mesma lógica transformadora fez surgir, na arte e na literatura, inúmeros movimentos de vanguarda, responsáveis por reconceituar a produção artístico-literária e, em certa medida, até mesmo refutar o passado. Noções como a velocidade, a industrialização, as inovações tecnológicas e a política capitalista, bem como a noção de tempo singular e o individualismo foram incorporadas no imaginário artístico, modificando de uma vez por todas a produção do período, que passou a ser chamado de modernista. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai interpretar os diferentes termos usados para se referir ao período modernista, bem como conhecer os principais autores e as obras mais famosas dessa fase. Além disso, também será apresentado às inovações e à estética de uma narrativa modernista. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar “moderno” e “modernidade” do que se constituiu como “modernismo literário”.• Definir autores modernistas de destaque e as principais características de suas obras.• Identificar as inovações de uma narrativa modernista.• Desafio Sabe-se que o Modernismo foi um período significativo e impactante para os rumos da literatura e da arte. Essa estética singular, que foi se disseminando por muitos cantos do mundo, adquiriu caráter individual e local, mesmo que tenha se baseado em princípios e vanguardas comuns e universais. Acompanhe o estudo de uma turma do Ensino Médio sobre o Modernismo no Brasil. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/7c103d6d-7a61-4e72-b688-ba2be1ed938e/f60741ff-bc39-4080-979f-0c67c4bbb457.png Como professor da turma, que tipo de atividade você poderia propor para mostrar que moderno, modernismo e modernidade não são sinônimos, fugindo de uma simples explicação expositiva e de modo que os alunos compreendam a diferença entre os termos? Infográfico Muitos foram os autores que se basearam nas vanguardas europeias para produzir suas obras. Na literatura estrangeira e também na brasileira, grandes nomes foram responsáveis por obras marcantes e ainda estudadas e lidas atualmente devido à sua complexidade e inovação para a época. É o caso de nomes famosos como os de James Joyce, Marcel Proust, Virginia Woolf, T. S. Eliot, Franz Kafka e Vladimir Maiakovski, fora do Brasil, e dos nativos Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que produziram tanto em prosa quanto em poesia e construíram textos memoráveis e esteticamente revolucionários. Confira, no Infográfico, algumas das principais correntes brasileiras criadas por meio dos Manifestos, que se inspiraram nas vanguardas europeias e reconfiguraram a literatura nacional, servindo de base estética para muitas produções nacionais na época. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/03304af3-2acf-47aa-9107-73065b512254/35e3aa2b-b934-4cb2-9708-e197fdc49c1a.png Conteúdo do livro Sem dúvida, o Modernismo transformou o cenário literário e artístico no mundo inteiro ao propor novas configurações para as estéticas existentes e a criação de outras que, até então, eram inimagináveis na sociedade conservadora anterior à virada do século. As vanguardas eurpoeias, movimentos transformadores que deram origem ao Modernismo e que, em seguida, se espalharam por todo o mundo, foram a semente que fez brotar a utopia de uma arte mais livre, mais popular e mais ideológica e individualizada. Foram essas mesmas vanguardas que promoveram o boom modernista, inspirando grandes nomes da literatura nas mais diversas formas (principalmente na prosa, na poesia e na prosa poética). No capítulo A ficção moderna e o modernismo literário, da obra Estudos de Literatura - Análise da narrativa em suas diversas manifestações, você vai conhecer a diferença entre modernidade, modernismo e moderno, bem como os principais escritores e poetas do Modernismo expoentes no século XX e analisar narrativas de caráter modernista para entender suas singularidades e propostas estéticas. Boa leitura. ESTUDOS DE LITERATURA - ANÁLISE DA NARRATIVA EM SUAS DIVERSAS MANIFESTAÇÕES Geisson Homrich A ficção moderna e o modernismo literário Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar “moderno” e “modernidade” do que se constituiu como “modernismo literário”. Definir autores modernistas de destaque e as principais características de suas obras. Identificar as inovações de uma narrativa modernista. Introdução As profundas e transformadoras mudanças ocorridas no mundo no início do século XX colocaram em questão uma infinidade de inovações — sociais, econômicas, políticas, culturais — que modificaram para sempre as formas de vida no mundo, com a produção industrial e tecnocientífica tomando cada vez mais força e centralidade. A arte e a literatura, sempre atentas a essas mudanças, também aca- baram passando por uma importante reconceituação. A era moderna imprimia na sociedade um ritmo acelerado, um tempo singular, uma cultura pautada no individualismo e no questionamento dos padrões sociais, e tudo isso acabou por influenciar e incorporar na produção artística e literária diversas inovações. Neste capítulo, você vai aprender a distinguir o moderno e a moder- nidade no campo da arte e da literatura, além de identificar quais foram os autores modernistas de maior destaque no início do século XX. Por fim, também aprenderá a identificar as inovações modernistas trazidas à literatura e, principalmente, ao texto narrativo da época. 1 Modernismo, moderno, modernidade: concepções e encontros na literatura Com as profundas transformações econômicas, sociais e políticas ocorridas na virada do século XX, a euforia tomou conta da Europa e instaurou-se uma ideia generalizada de que o advento tecnológico fosse reconfi gurar e transformar profundamente as relações sociais e de trabalho. Inovações como a luz elétrica, as fábricas e os automóveis começaram a se popularizar nas grandes cidades, resultando na criação de invenções cada vez mais curiosas e inovadoras, que marcaram a humanidade e inauguraram uma nova fase em sua história artístico-literária: o modernismo. Esse pensamento “moderno” se dava de forma universal, marcada pelo início da urbanização, pelo progresso industrial e pela estabilidade econômica que, juntos, serviram de cenário para uma nova estrutura sociocultural (primei- ramente europeia, mas que foi irradiando para todos os outros espaços). Essa nova geração de invenções passou a questionar substancialmente a persistência dos valores clássicos conservadores que pareciam não se encaixar nessa nova sociedade moderna, pois de certa forma limitavam as relações sociais. Nas artes, essa modernidade generalizada fez surgir contestações e manifestos (publicações) incitando o desprezo aos padrões estéticos da cultura tradicional e buscando uma estética cultural renovada e livre. Foi nesse contexto que surgiram inúmeros manifestos modernistas, ou seja, manifestações públicas (geralmente ligadas à imprensa e à arte) que incitavam movimentos de vanguarda, termo originado do francês avant- -garde — expressão originalmente militar, usada como nomenclatura para o pelotão de frente, uma metáfora da dimensão combativa e audaciosa dos artistas modernistas que buscavam romper com a estética realista e parnasiana dominante (que, então, passou a ser vista como conservadora e limitante). Essesmovimentos vanguardistas traziam à cena artística novos jeitos de se pensar, fazer e contemplar a arte e a literatura. Cabe analisar, então, que modernidade, moderno e modernismo são conceitos correlacionados, mas que possuem significados diferentes, que podem abranger, em maior ou menor grau, uma visão mais universal ou mais situada (Figura 1). A ficção moderna e o modernismo literário2 Figura 1. Diferenças de significado entre os termos modernidade, moderno e modernista. De forma geral, percebe-se que a modernidade engloba o moderno (pois este é transitório, representando as inovações momentâneas que são situadas em determinada época) e que este último, por sua vez, deu origem ao movimento modernista (que, dentro do que se considerava “moderno” no início do século XX, propôs uma nova concepção artística). As vanguardas europeias que surgiram nesse contexto eram difundidas principalmente por meio de manifestos, panfletos e exposições. Cada qual com suas particularidades, buscavam combater a tradição clássica realista e tentavam propor uma expressão mais livre e subjetiva para as artes, a música e a literatura. Geraram inúmeras polêmicas entre a crítica e, desse modo, captaram a atenção do público da época. Embora haja registros de mais de 20 diferentes vanguardas, as mais difundidas e conhecidas — que acabaram influenciando o pensamento literário além dos limites da Europa — foram o futurismo, o cubismo, o expressionismo, o dadaísmo e o surrealismo. Futurismo: primeiro movimento de vanguarda, liderado pelo italiano Filippo Tommaso Marinetti, com o objetivo de chocar o público e incitar outros artistas a romper com a tradição oitocentista. Enfatizava a radicalidade e a destruição do passado, a negação de todo o saber 3A ficção moderna e o modernismo literário constituído. O grupo de artistas futuristas entendia que a arte modernista deveria ser baseada pelo ferro e pelo aço, símbolos do futuro (clara alusão à industrialização acelerada), pela velocidade e pela invenção, pela coloquialidade e pelo verso livre. A poesia futurista destacou o uso de onomatopeias e frases soltas e fragmentadas. Por sua linguagem bélica e nacionalista, o futurismo foi incorporado, mais tarde, aos ideais fascistas e nazistas, e, por isso, perdeu força e representação. Cubismo: iniciado a partir do quadro Les Demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso, o cubismo fazia uso de formas geométricas e disformes nas suas obras e a quebra da linearidade. A fragmentação e a sobre- posição desconexa de temas era algo marcante, além de uma técnica de montagem e desmontagem que produzia diferentes perspectivas sobre um mesmo objeto. Destacava a instabilidade como característica intrínseca do tempo moderno. A poesia cubista trabalhava com sobre- posição de temas e frases que pareciam sem conexão, privilegiando o exercício mental de quebra da progressão linear do discurso linguístico e os neologismos. Expressionismo: com seu maior símbolo marcado pela obra O grito, do norueguês Edvard Munch, o expressionismo transmitia o sentimento de desencanto e perplexidade que marcou o mundo após a Grande Depressão. O desespero como técnica de representação artística foi recuperado pelos expressionistas, que tinham como proposta modernista a deformação da realidade moderna da época, salientando seus aspectos mais obscuros e chocantes. Na literatura, o expressionismo foi marcado por temas sombrios ou trágico-patéticos, com o emprego de adjetivação e metaforização em abundância, bem como representações do abstrato e do subjetivo na linguagem. Dadaísmo: sob a liderança do poeta romeno e radicado na França Tristan Tzara, os dadaístas propuseram o mais radical dos movimentos de vanguarda, negando de forma extremamente radical todos os valores artísticos e culturais, de forma extravagante e ilógica, com o intuito claro de chocar e causar a perplexidade do público. Para o movimento dadaísta, olhar para o passado ou para o futuro era irrelevante: essa vanguarda estava atrelada ao aqui e ao agora, um presente vazio sob o qual tentava emitir novos significados (que chamava de “antiarte”). Surrealismo: última vanguarda a surgir na Europa, já nos anos 1920, o surrealismo foi resultante de uma ruptura do poeta francês André Breton com o movimento dadaísta, e se baseava na ligação da arte com a psicanálise e o (in/sub)consciente. Negava com veemência a lógica A ficção moderna e o modernismo literário4 e a realidade, bem como a racionalidade. Baseados pelos preceitos de Freud, os surrealistas trabalhavam com temáticas da psique, como os desejos e as memórias, os sonhos e fantasias, explorando os limites do real e de como a mente humana projeta a realidade. Defendiam o desregramento, a naturalização da loucura e da sexualidade, a anulação das fronteiras entre o objetivo e o subjetivo. Exploraram a hipnose e o esoterismo, sistematizando aspectos ideológicos e estéticos do surreal. Você pode consultar algumas produções cinematográficas que abordam de forma direta a temática das vanguardas europeias, ou elementos que contribuíram para seu imaginário: Os amores de Picasso, filme norte-americano de 1996, dirigido por James Ivory. A história é contada do ponto de vista de Francoise Gilot, amante de Picasso por 10 anos e com quem o artista plástico teve dois filhos. Freud além da alma, produção norte-americana de 1962, dirigido por John Houston, relata fatos importantes da vida profissional do psicanalista, quando a maioria dos colegas de Freud recusava-se a curar pacientes histéricos, por acreditar que os sintomas eram apenas encenações. Quando Nietzsche chorou, filme norte-americano de 2007, dirigido por Pinchas Perry, conta a história de um encontro fictício entre o filósofo Friedrich Nietzsche e o médico Josef Breuer, professor de Sigmund Freud. Baseado no livro homônimo de Irvin Yalom, publicado em 1992. Como é possível perceber, o principal intuito dos movimentos artísticos de vanguarda era a ressignificação da arte e da literatura, em suas bases, refu- tando, transformando ou reconfigurando valores e estéticas. Essas vanguardas, dentre muitas outras, foram responsáveis por inúmeras influências na pintura, na escultura, na fotografia, em performances, na música, em instalações, na poesia e também na narrativa literária ao longo das três primeiras décadas do século XX. O modernismo foi responsável, de modo muito particular, por uma verdadeira renovação estética na literatura dessa época, com reflexos e desdobramentos não apenas no momento de sua produção, mas que perduraram por muitos anos e chegam até a literatura contemporânea. As vanguardas europeias foram essenciais para a disseminação do mo- dernismo pelo mundo todo. Além disso, num contexto mais local, pode-se atribuir a essas mesmas vanguardas a inspiração para a criação da Semana de 5A ficção moderna e o modernismo literário Arte Moderna de 1922, evento realizado entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, que marcou o início do modernismo literário no Brasil, organizado por grandes nomes da arte e da literatura brasileira, tais como Graça Aranha, Manuel Bandeira, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Heitor Villa-Lobos e Tarsila do Amaral. Além disso, várias revistas e correntes literárias foram inspiradas nas vanguardas, publicadas após a Semana de Arte Moderna, tais como Klaxon (São Paulo, 1922), Estética (Rio de Janeiro, 1924), A Revista (Minas Gerais, 1925), Terra Roxa e Outras Terras (São Paulo, 1926) e Verde (Minas Gerais, 1927). Essas revistas literárias foram responsáveis por reunir e disseminar os escritos e obras modernistas pelo país. Foram também construtos baseados nas vanguardas as correntes lite- rárias Pau-Brasil (que flertava com o anarquismo e com o comunismo), Verde-Amarelismo (que criticava a estética Pau-Brasil e defendia uma arte genuinamentenacional, ufanista e indigenista) e Antropofagia (que reafir- mava os valores do Pau-Brasil, propondo o uso de uma língua literária “não catequizada”), todas elas propostas por grandes nomes da literatura e das artes brasileiras. 2 Autores modernistas e a renovação da estética literária Muitos foram os escritores/poetas infl uenciados pelas vanguardas modernis- tas, de modo que o início do século XX assistiu a uma verdadeira torrente de novas estéticas e modos de se fazer literatura. Você vai conhecer agora alguns dos expoentes mais signifi cativos, tanto na literatura universal quanto na literatura brasileira. O primeiro nome de destaque é o do escritor irlandês James Joyce (1882–1941), um dos maiores nomes da literatura modernista europeia. Seu romance Ulisses (1922) é considerado um divisor de águas na literatura, pois utiliza preceitos vanguardistas em sua construção narrativa e explora o fluxo de consciência. Na narrativa, os personagens enfrentam situações correspondentes à Odisseia de Homero, um clássico da literatura tradicional que é parodiado por Joyce. A ação da narrativa se desenrola em um único dia, como nas tragédias clássicas, mas em uma Dublin moderna e cosmopolita. O livro foi banido no Reino Unido e nos Estados Unidos, considerando que apresentava expressões de comportamentos sexuais baseados nos preceitos A ficção moderna e o modernismo literário6 freudianos. Outras obras do escritor irlandês incluem a coletânea de contos Dublinenses (1914) e o romance Retrato do artista quando jovem (1916). Outro nome importante que caracteriza o modernismo literário é o de Mar- cel Proust (1871–1922), escritor francês que, com a publicação de Em busca do tempo perdido (1913–1927) explorou também características modernistas/ vanguardistas, sendo elevado a um dos maiores cânones da literatura moderna do século XX. Sua obra explora os efeitos da Primeira Guerra Mundial na cidade de Paris, refletindo o bombardeio e a destruição do território como uma metáfora para a expressão dos pesadelos, angústias e anseios da juventude moderna. A memória tem papel principal na obra, pois o personagem principal passa por situações em que essa característica humana é testada (com a morte de sua avó, por exemplo, o personagem entra em profunda agonia, enquanto as memórias que têm dela vão lentamente se desfazendo, até sumirem por completo). O romance faz uso, inclusive, do recurso da analepse (o recuo no tempo de suas memórias), explorando não apenas isso, como também os sentidos (principalmente o olfato, a audição e até mesmo o tato) como constituintes de sua narrativa. Mais um nome de destaque é o de Virginia Woolf (1882–1941), britânica, uma das maiores figuras proeminentes da estética do modernismo. Seus trabalhos mais famosos são Mrs. Dalloway (1925), Ao farol (1927) e Orlando: uma biografia (1928), marcados por sua singular aproximação com as tramas emocionais e a psicologia íntima. Explorou também o fluxo de consciência e as temáticas voltadas ao feminismo. Suas narrativas são trabalhadas ou até mesmo dissolvidas em uma trama que mostra a consciência receptiva dos personagens, um intenso lirismo e abundantes expressões emocionalmente sensíveis. Em Ao farol, por exemplo, há destaque para uma personagem que é pintora, e tenta resgatar seu processo criativo em meio a dramas familiares e pressões alheias que acabam assombrando-a e impactando sua obra. A narrativa ainda marca a fragilidade das relações familiares em um contexto de guerra, explorando também a passagem do tempo e a destruição das relações sociais. T. S. Eliot (1888–1965), outro escritor marcante do período modernista, foi um grande poeta norte-americano, responsável pela criação de muitos textos poéticos que o levaram a receber o prêmio Nobel de Literatura em 1948. Dentre suas obras, as que mais se destacam são os poemas “A terra desolada” (1922) e “Os homens ocos” (1925), ambos marcados por uma subjetividade singular e obscura, com conteúdo metafórico e de difícil interpretação. Seus poemas são uma alegoria à desilusão da geração marcada pelo pós-guerra, com sátiras e profecias em sua composição, mudanças repentinas de espaço e tempo, que se configuravam como renovações estéticas modernistas, levando sua obra 7A ficção moderna e o modernismo literário a alcançar grande reconhecimento, inclusive comparando-o a James Joyce e seu Ulisses em termos estéticos. Nascido no então Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca, Franz Kafka (1883–1924) também figura como um importante nome do período modernista na literatura universal. Considerado pela crítica como um dos mais influentes escritores do século XX, Kafka foi o criador de obras muito conhecidas até hoje, como A metamorfose (1915) e O processo (1925). Este último traz ao leitor uma atmosfera claustrofóbica e densa, na qual seu per- sonagem principal está inserido. A ambiguidade onírica recorrente nas obras de Kafka e o absurdo existencial de suas narrativas são muito explorados, visto que o personagem encontra-se em uma sequência quase infindável de situações surreais que se mostram em sua vida (sonhos e pesadelos, que se misturam a sua vida cotidiana e o fazem angustiar aos poucos), bem como o fato de nunca ficar sabendo o motivo pelo qual está sofrendo “o processo” e sua condenação. Em A metamorfose, por sua vez, essa mesma sensação está presente, quando Kafka nos apresenta Gregor Samsa, personagem que um dia acorda transformado em um inseto “monstruoso”. Na obra, o escritor explora metáforas profundas à depressão e aos transtornos psicológicos, bem como a exploração capitalista (pois o fato de não poder produzir torna o personagem sem-valia perante sua família), além de referentes como a alienação, as brutali- dades física e psicológica, elementos que tornam sua narrativa uma experiência de imersão e contemplação das condições humanas mais perturbadoras. Por fim, figurando também como um dos importantes nomes da poesia modernista estrangeira, a obra de Vladimir Maiakovski (1893–1930), expo- ente da literatura russa, merece reconhecimento. Citado como o maior poeta do futurismo, ao lado de T. S. Eliot, Maiakovski teve sua obra fortemente influenciada pelo movimento revolucionário russo e seus textos eram car- regados pela ideologia socialista, entrando em conflito frequentemente com os burocratas da poesia e com aqueles que queriam reduzi-la a estruturas simplistas. Maiakovski escreveu textos em estilo cubista e futurista, sempre exaltando em sua produção a imagística urbana e o progresso social. Sua poesia recorria a rimas não convencionais, ao uso da fala cotidiana e também a um tom crítico-satírico e hiperbólico. Seu poema “E então, que quereis...?” é um dos mais conhecidos e mais reproduzidos de toda sua obra, dada a dimensão política que possui, e é frequentemente citado no Brasil por artistas da MPB e também resgatado no discurso de despedida da presidente Dilma Rousseff, em 2016, momentos antes de deixar o cargo do qual foi deposta. A ficção moderna e o modernismo literário8 Um dos grandes apreciadores da obra de Vladimir Maiakovski, o cantor brasileiro de MPB João Bosco, tornou o poema “E então, que quereis...?” o prelúdio de uma de suas canções. Com relação à produção literária modernista no Brasil, cabe lembrar que após a Semana de Arte Moderna de 1922, ocorreu uma verdadeira revolução nas artes brasileiras, revelando novas linguagens e abordagens que provoca- vam reações contrárias pelo ineditismo e ousadia. Esse período vivido pela chamada geração de 1922 foi caracterizado por intenso experimentalismo estético e temático. Outra marca foi uma intenção de mão dupla: incorporar os pressupostos vanguardistas e, ao mesmo tempo, criar uma literatura de “identidade nacional”, ou seja, com características próprias — tendência que se tornou um marco na literatura brasileira por propor um “modernismo à brasileira”, destacado do resto do mundo. Nesse primeiro momento modernista,que vai até 1930, desenvolveram- -se no país a prosa, a poesia e a prosa poética, com inovações radicais e uma nova maneira de conceber o texto literário presente em todas essas frentes. Nesse cenário, podemos destacar alguns nomes muito significativos pela contribuição e complexidade de suas produções, alinhadas aos preceitos modernistas/vanguardistas. O primeiro nome de destaque é o de Oswald de Andrade (1890–1945), responsável por obras como Os condenados (1922), Memórias sentimentais de João Miramar (1924), pelo Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) e Manifesto Antropófago (1928), estes dois últimos responsáveis por grandes inspirações e críticas, ao proporem uma reconfiguração da arte brasileira como um todo. Oswald estreou como romancista em 1922, com o primeiro volume da trilogia Os condenados. Essa obra focava em temas como a prostituição, a paixão e o suicídio, trazendo inovações em sua linguagem, que era muito mais dinâmica e sintética do que as obras de seu tempo. Outra característica de sua narrativa é a descontinuidade do espaço e do tempo, além da simultaneidade de ideias. Seu segundo romance, Memórias sentimentais de João Miramar, mostrou seu amadurecimento técnico e propôs uma divisão em flashes cinematográficos (163 flashes, no total), mesclando a prosa com a poesia, com piadas, cartas, 9A ficção moderna e o modernismo literário diários, trechos de crônicas jornalísticas e discursos numa plasticidade única. A obra é provavelmente de tom autobiográfico, embora fosse uma mescla de realidade e ficção. Miramar era um pseudônimo antigo usado por Oswald para assinar seus diários. Outro importante escritor do período foi Mário de Andrade (1893–1945) que, na prosa, produziu os livros de contos Primeiro andar (1926) e Contos de Belazarte (1934), o romance Amar, verbo intransitivo (1927) e a rapsódia Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928), dentre outras obras. Seus escritos em prosa apresentavam forte influência das correntes freudiana e marxista, provocando inclusive conflitos com a formação cristã do próprio autor. Macunaíma mostrou ao público uma escrita modernista recheada de expressividade tipicamente brasileira e definida pelo próprio autor como uma “rapsódia”, termo que, na música, indica uma obra composta pela improvisação, pelos cantos populares e tradicionais, uma reunião de lendas histórias e mitos transmitidos pela expressão oral. Seu protagonista é um herói-cômico, um mito de libertação do inconsciente coletivo, que se metamorfoseia de acordo com as necessidades e circunstâncias, sem apresentar um caráter definido. Simboliza, na essência, a visão de Mário de Andrade sobre a cultura e menta- lidade brasileiras, que são uma mescla de influências plurais. Mitos e lendas indígenas são elevados na narrativa, bem como expressões e rituais típicos do interior do Brasil. É considerado, atualmente, a principal obra literária do modernismo brasileiro. Manuel Bandeira (1886–1968) destaca-se nesse cenário como o principal poeta modernista brasileiro. Dentre suas principais publicações encontram-se A cinza das horas (1917), Carnaval (1919), Poesias (1924), Libertinagem (1930) e Estrela da manhã (1936), ainda sob os traços modernistas. Marcadas pelo uso dos versos livres e brancos, essa característica tornou-se constante na sua produção poética. O vocabulário coloquial e formas populares também se fazem marcantes. O poeta evoca constantemente temas como a infância, o amor e a morte em suas poesias. Além disso, Bandeira também publicou materiais em prosa, como Crônicas da província do Brasil (1937), livro que revelou um cronista singular e cujos textos compõem um retrato da modernização da sociedade brasileira da primeira metade do século XX. A ficção moderna e o modernismo literário10 Você também pode consultar algumas produções cinematográficas que retratam diferentes produções modernistas brasileiras, tais como: Tabu, de 1982, dirigido por Júlio Bressane. Em um passeio pela música brasileira, o filme apresenta um hipotético encontro entre o compositor brasileiro Lamartine Babo e o escritor modernista Oswald de Andrade. Macunaíma, produção de 1969, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, que narra a história do “herói sem nenhum caráter”, baseada no livro homônimo de Mário de Andrade. Lição de amor, filme de 1975, dirigido por Eduardo Escorel, é uma adaptação do romance Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade. 3 A narrativa modernista: inovações e estilos As narrativas modernistas foram marcadas por uma grande diversidade de estilos e estéticas, causando de uma vez por todas a ruptura com os padrões literários da época. Em maior ou menor grau, algumas técnicas foram incor- poradas pelos autores no modernismo brasileiro, como o caráter transgressor, a refutação ao academicismo e ao cientifi cismo (que era exaltado pelo realismo, movimento que o modernismo buscava superar) e, principalmente, a exalta- ção de características nacionalistas. O experimentalismo, a fragmentação e a liberdade formal, bem como temáticas ligadas à esfera sócio-política, são importantes características da narrativa do período. Observe, no exemplo retirado da obra Os condenados, de Oswald de An- drade, algumas características desse estilo narrativo: Saíra pelas ruas, obedecendo o anátema da véspera. A manhã era toda cinza no ar, no céu, na gente. Chegou à estação da Luz. Teve uma vaga repulsa em pensar que podia encontrar a figura importuna do telegrafista. Queria estar só, com a sua tragédia estalada. No Jardim Público aberto, a natureza, despenteada e matinal, arfava ao vento. Atravessou-o em reta; saiu. Encaminhou-se por esquinas populosas e pobres. Estava no Bom Retiro. Desceria até lá embaixo, até as várzeas finais da cida- de. Levava, no seu bojo crescido, o filhinho que vivia, que seria seu amigo. Bondes passavam pejados de populares, garotos brincavam em bandos mal- trapilhos, carroças iam lentamente. 11A ficção moderna e o modernismo literário Chegara a uma rua sem calçamento que se perdia no campo. Penetrou numa estrada terrosa aberta na relva pisada. Em sua frente, desenhou-se a sinuosi- dade do terreno onde corria o Tietê. Num porto quieto, carroças recolhiam areia. E o rio apareceu de vidro, à flor das margens calvas. Vacas paravam, na distância. Um cãozinho ladrou. A cidade mudara de silhueta. Um vento ríspido agrediu-a. O grande Jesus da torre tutelar do Sagrado Coração dava-lhe as costas. Pensou vagamente em se matar, por vingança, em aparecer boiando nas águas glaciais, como uma Ofélia de gravura. As carroças enchiam-se lentamente de areia peneirada. O quadro simples de rude trabalho atraiu-a. Teve uma vontade de viver assim, entre animais soltos e gente descalça. Um cheiro malsão, vindo da embocadura dos esgotos citadinos, persistia. Voltou. Refez o caminho andado. Não iria mais para casa. Uma mão persua- siva afastava-a do refúgio antigo, como uma condenação, pelos ombros. Não tornaria mais. Alcançou as ruas populosas. Estava perto do Jardim. E, de repente, sobre um imenso muro vermelho, desenhou-se, na palidez do dia, uma silhueta lépida de soldado. Trazia uma carabina a tiracolo e andava para cá e para lá. Logo, além, na continuidade intérmina do muro, outro soldado apareceu como o primeiro, caminhando também, vigilante e sólido. Eram os fundos da cadeia da Luz. Aqueles dois soldados renovavam-se ali, dia e noite, para atirar, implaca- velmente, sobre os condenados que quisessem fugir (ANDRADE, 1972, p. 48–49). No excerto, percebe-se que o narrador se materializa em terceira pessoa, descrevendo o que vê a personagem Alma, protagonista que se desloca pela cidade em transformação. Dá ao leitor, em primeira perspectiva, um panorama da cidade que se transforma e que está, como se pode perceber, em constante movimento. Essa associação com o movimento e a transformação é uma aproximação com o futurismo, base vanguardista na qual Oswald de Andrade buscou inspiração. Na passagemdo romance trazida para análise, contudo, também se percebe que o cenário urbano, apesar de moderno, apresenta elementos ligados ao passado rural. A presença de animais (“Vacas paravam, na distância. Um cão- zinho ladrou.”) permite o reconhecimento desses traços de um passado rural, uma cidade ainda em transição entre o pacato e o moderno, pois demonstra elementos típicos de paisagens agrícolas em meio ao desenvolvimento urbano. Além disso, o narrador parece querer fazer questão de nomear cada lugar por onde passa a personagem em sua caminhada pela cidade. A preocupação em destacar esses lugares demonstra uma opção estética do narrador, que busca mostrar que a transformação da paisagem urbana é um elemento tão importante na narrativa quanto a história em si. A ficção moderna e o modernismo literário12 Um dos pontos mais significativos de Os condenados é o fato de ter sido escrito com uma linguagem considerada, para a época, inovadora, influenciada amplamente pelas vanguardas europeias. Essa inovação pode ser percebida no texto por meio de uma narrativa fragmentada, que busca mostrar o tempo todo a passagem do tempo de modo claro e objetivo. Esse romance foi a primeira tentativa de Oswald de Andrade de trazer ao cenário literário brasileiro ares de modernidade, o que pode ser visto em momentos como a citação a uma estação ferroviária (“Chegou à Estação da Luz.”), a menção a um profissional que desempenhava um papel moderno para sua época (“Podia encontrar a figura inoportuna do telegrafista.”), a menção aos bondes (“Bondes passavam pejados de populares.”) e a grande quantidade de pessoas nas ruas (“Alcançou as ruas populosas.”), características da urbanização. A linguagem do romance incorpora traços modernos, como a fragmentação e a sobreposição de planos, características pouco comuns na literatura bra- sileira da época. O uso de frases curtas acentua a fragmentação da narrativa (“Voltou. Refez o caminho andado. Não iria mais para casa. [...] Não tornaria mais. Alcançou as ruas populosas. Estava perto do Jardim.”). Outro importante exemplo das características modernistas na literatura nacional é Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade: Uma feita em que deitara numa sombra enquanto esperava os manos pes- cando, o Negrinho do Pastoreio pra quem Macunaíma rezava diariamente, se apiedou do panema e resolveu ajudá-lo. Mandou o passarinho uirapuru. Quando sinão quando o herói escutou um tatalar inquieto e o passarinho uirapuru pousou no joelho dele. Macunaíma fez um gesto de caceteação e enxotou o passarinho uirapuru. Nem bem minuto passado escutou de novo a bulha e o passarinho pousou na barriga dele. Macunaíma nem se amolou mais. Então o passarinho uirapuru agarrou cantando com doçura e o herói entendeu tudo o que ele cantava. E era que Macunaíma estava desinfeliz porque perdera a muiraquitã na praia do rio quando subia no bacupari. Porém agora, cantava o lamento do uirapuru, nunca mais que Macunaíma havia de ser marupiara não, porque uma tracajá engolira a muiraquitã e o mariscador que apanhara a tartaruga tinha vendido a pedra verde pra um regatão peruano se chamando Venceslau Pietro Pietra. O dono do talismã enriquecera e parava fazendeiro e baludo lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê (ANDRADE, 2017, p. 31). Esse romance é peculiar e extrapola os (quase inexistentes) limites do modernismo pelas características da linguagem, que incorpora expressões da fala popular e neologismos. Além disso, mobiliza também um léxico de origem indígena, pelo ambiente sugerido e pela presença do uirapuru. O texto 13A ficção moderna e o modernismo literário de Macunaíma, embora não tenha sido associado assim por seu autor, aproxima a obra da linha estética do Pau-Brasil e, também, da linha Antropofágica. Outra importante obra de Mário de Andrade é o romance Amar, verbo intransitivo. Observe um trecho da obra, que revela outra importante carac- terística modernista: Culpa de um, culpa de outro, tornaram a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava difícil lá, Fräulein se adaptou. Veio pro Brasil, Rio de Janeiro. Depois Curitiba onde não teve o que fazer. Rio de Janeiro. São Paulo. Agora tinha que viver com os Sousa Costas. Se adaptou. — ...der Vater... die Mutter... Wie geht es ihnen?... A pátria em ale- mão é neutro: das Vaterland. Será! Vejo Serajevo apenas como bandeira. Nas pregas dela brisam... etc. (Aqui o leitor recomeça a ler este fim de capítulo do lugar em que a frase do etc. principia. E assim continuará repetindo o cânone infinito até que se convença do que afirmo. Se não se convencer, ao menos convenha comigo que todos esses europeus foram uns grandissíssimos canalhões.) (ANDRADE, 2008, p. 35). No excerto, é possível perceber um recurso inovador para a literatura da época, que se configura pelo uso de duas formas de narração que se alternam. Enquanto uma delas se atém à descrição dos eventos, das falas e emoções das personagens que integram a narrativa, a outra revela opiniões, pré-concepções e julgamentos, bem como comentários emitidos pelo narrador, marcados discursivamente pelo uso dos parênteses no texto. A mesma inovação se mostra quando o uso de superlativos é recorrente para construir o mau juízo que o narrador faz do caráter dos europeus. Até o modernismo surgir, cabe lembrar, havia na literatura brasileira uma hiper- valorização eurocêntrica, principalmente no romantismo e no realismo: era possível perceber um ideal eurocêntrico de herói romântico (mesmo que, por vezes, esse herói estivesse retratado como um personagem indígena nas obras), bem como a tentativa realista de mostrar uma realidade “brasileira” de forma objetiva, mas que não citava, muitas vezes, o folclore, a linguagem popular ou informal, a cultura brasileira e suas nuances. O modernismo veio buscar essa mudança como reflexo da tentativa nacionalista de exaltar o brasileiro (de todas as regiões) e seu caráter, cultura, modo de vida e linguagem. A consciência modernista de uma sociedade brasileira plural, multiétnica e diversa foi um dos grandes pontos tematizados pelos escritores do período. Na verdade, essa diversidade havia sido tratada em outros períodos literários, mas foi somente no modernismo que isso se aprofundou e as questões relativas a uma efetiva formação da identidade nacional vieram à tona. A ficção moderna e o modernismo literário14 As propostas radicais no campo artístico marcaram uma ruptura com as fórmulas acabadas e importadas da Europa, a exemplo do antropofagismo e sua proposta. No modernismo, o Brasil mostra suas diversas raízes, resultantes de uma colonização agressiva, que vão marcar profundamente sua identidade nacional. A arte modernista, tanto na prosa quanto na poesia, foi responsável por transformar significativamente a visão artístico-literária que se tinha sobre o Brasil, rompendo com a imposição de uma falsa imagem da nação brasileira, que até então buscava promover um branqueamento estético e social. ANDRADE, M. de. Amar, verbo intransitivo. Rio de Janeiro: Agir, 2008. ANDRADE, M. de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Brasília, DF: Câmara dos Deputados — Edições Câmara, 2017. ANDRADE, O. de. Obras completas de Oswald de Andrade: Os condenados. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. Leituras recomendadas ARRUDA, M. A. do N. Modernismo e regionalismo no Brasil: entre inovação e tradição. Tempo Social, v. 23, n. 2, p. 191–212, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ts/ v23n2/v23n2a08.pdf. Acesso em: 11 jul. 2020. DURÃO, F. A. Sobre a literatura da destruição e o Ulisses, de James Joyce. Aletria: Re- vista de Estudos de Literatura, v. 23, n. 3, p. 211–222, 2013. Disponível em: http://www. periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/4952. Acesso em: 11 jul. 2020. JOBIM, J. L. O movimento modernista como memórias de Mário de Andrade. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 55, p.13–26, 2012. Disponível em: https://www.scielo. br/pdf/rieb/n55/a02n55.pdf. Acesso em: 11 jul. 2020. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 15A ficção moderna e o modernismo literário Dica do professor O Modernismo no Brasil teve seu pontapé inicial na Semana de Arte Moderna de 1922, evento em que inúmeros artistas chamavam a atenção do público para as inovações artísticas e a quebra dos paradigmas literários que estavam acontecendo na Europa. Dentre os principais nomes do cenário modernista brasileiro, um ganhava destaque pela genialidade e audácia de sua obra: Mário de Andrade, autor de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, publicado pela primeira vez em 1928. Nesta narrativa, concebida pelo autor como uma "rapsódia", Mário de Andrade ia além da inovação literária para adentrar um território ainda desconhecido: desmistificar a identidade do brasileiro. Nesta Dica do Professor, você vai conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra do autor de Macunaíma e sobre a tentativa de traçar um perfil moderno da nossa cultura e origens. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/9057c257cd3b48add8846a4a50b57215 Exercícios 1) Em muitos contextos, os termos moderno, modernista e modernidade podem ser confundidos, tendo em vista que seu radical é o mesmo. Contudo, sabe-se que existem acepções e propostas diferentes ao uso de cada um deles. Com base nisso, analise as afirmações a seguir e assinale a alternativa correta: I. O termo modernidade diz respeito a um período específico da História, sendo usado, portanto, com mais frequência no contexto da historiografia e das ciências humanas. II. Para ser considerado “moderno”, algo deve estar à frente de seu tempo, baseando-se na razão e no cientificismo. O termo moderno, portanto, está ligado a uma condição de inovação tecnológica. III. O “Modernismo” caracterizou-se como um momento histórico, no qual a produção artístico-literária buscava desestabilizar os sistemas estéticos da arte tradicional. A) I e II estão corretas. B) I e III estão corretas. C) II e III estão corretas. D) I, II e III estão corretas. E) III está correta. As vanguardas europeias surgiram no contexto da virada do século e foram difundidas por meio de manifestos, panfletos e exposições. Cada uma, com suas particularidades, buscou combater a tradição clássica e tradicional e tentou propor uma expressão mais livre e subjetiva para as obras artísticas. Com base nisso, analise as afirmações a seguir e assinale a alternativa correta: I. Existiram, na Europa, cinco vanguardas, que foram amplamente divulgadas e levadas a todo o mundo, de modo que influenciaram o movimento modernista muito além de suas propostas locais. II. O principal intuito dos movimentos artísticos de vanguarda era a ressignificação das artes (incluindo a literatura) em suas bases, refutando, transformando ou reconfigurando valores e 2) estéticas tradicionalmente conservadoras. III. As vanguardas do Futurismo e do Cubismo foram as duas grandes referências para a concepção da Semana de Arte Moderna de 1922, na qual muitos quadros e obras foram expostos já considerando as propostas estéticas vanguardistas. A) I e II estão corretas. B) I e III estão corretas. C) II e III estão corretas. D) I está correta. E) II está correta. 3) Foram inúmeros os escritores modernistas que adotaram um ou mais recursos propostos pelas vanguardas europeias, de modo que o início do século XX assistiu a uma verdadeira torrente de novas estéticas e “modos” de se fazer literatura. Com base nisso, analise as afirmativas a seguir, julgando V para as verdadeiras e F para as falsas: ( ) A característica mais marcante da obra dos modernistas James Joyce e Virginia Woolf era o uso do fluxo de consciência, experimentação literária posteriormente usada por muitos outros escritores e ainda muito valorizada até hoje na literatura contemporânea. ( ) A complexidade e a inovação da poesia de T. S. Eliot foram tão bem recebidas que levaram seu autor a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1948, ratificando a importância e a dimensão que as inovações modernistas geraram para a literatura universal. ( ) Oswald de Andrade foi responsável por grandes obras de caráter modernista no Brasil, como o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e seu mais célebre romance Macunaíma, uma exaltação à cultura plural brasileira. Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas: A) F – F – F. B) F – F – V. C) V – F – V. D) V – V – F. E) V – V – V. 4) As narrativas modernistas foram marcadas por uma grande diversidade de estilos e estéticas, sendo que algumas técnicas foram incorporadas pelos autores no Modernismo brasileiro, como o caráter transgressor, a refutação ao academicismo e ao cientificismo e a exaltação de características nacionalistas. Com isso, analise as proposições a seguir, sinalizando-as como verdadeiras ou falsas: ( ) Oswald de Andrade aplicava em suas narrativas recursos como a representação dos contrastes urbano X rural, a representação da transição entre o pacato e o moderno e a fragmentação e a sobreposição de planos como recurso para marcar a brevidade do tempo na narrativa. ( ) A presença de elementos modernos (para a época) nas narrativas modernistas brasileiras era recorrente, de modo que as obras tentavam imprimir ares de modernidade, representando as primeiras metrópoles do País. ( ) A obra de Mário de Andrade buscava exaltar a cultura nacional, bem como a sua multiplicidade e diversidade natural, muitas vezes contrastando-a com o modo de vida europeu ou até mesmo apresentando e criticando os vícios incorporados pela colonização. Assinale a alternativa que preenche as lacunas de forma correta: A) V - V - V . B) V - V - F. C) V - F - F. D) F - F - F. E) F - F - V. 5) O Modernismo, no Brasil, foi iniciado por meio de dois importantes instrumentos: a Semana de Arte Moderna de 1922 e a publicação dos Manifestos e das Revistas Literárias no mesmo período. Grandes nomes da nossa literatura e arte foram responsáveis por esses dois marcos, que ressignificaram a arte e a cultura nacional a partir do início do século XX. Com base nisso, é correto afirmar que: A) a Semana de Arte Moderna foi duramente criticada pelos artistas e escritores mais conservadores e não surtiu o efeito que buscava promover. B) na Semana de Arte Moderna de 1922, muitas estéticas baseadas nas vanguardas europeias foram apresentadas, levando nossa arte e literatura cada vez mais para uma identidade eurocêntrica e internacionalizada. C) o uso da linguagem cotidiana, a proposição de uma arte/literatura livre de padrões estéticos e a refutação do formalismo foram as principais conquistas do Movimento Modernista e de seus manifestos. D) os Manifestos eram documentos oficiais publicados em jornais que buscavam instruir jovens artistas sobre como produzir suas obras, bem como mostrar a eles novos padrões estéticos e formais. E) muitos Manifestos foram publicados, todos exaltando as vanguardas europeias e buscando incorporar, na arte e na literatura nacional, as propostas modernistas mais disseminadas no mundo. Na prática O que torna uma narrativa "modernista"? Que características um texto precisava apresentar para ser considerado inovador e/ou revolucionário no início do século XX? O que tornou alguns autores tão singulares a ponto de serem alçados ao roll dos grandes nomes da literatura universal? Certamente, as obras literárias escritas sob os preceitos modernistas tinhamsingularidades e especificidades que variavam de autor para autor e de contexto para contexto, mas algumas características eram comuns ou acabaram atraindo mais adeptos e dominando obras diferentes. Neste Na Prática, você vai conhecer um professor que construiu um esquema informativo para apresentar o Modernismo Brasileiro e suas principais obras aos alunos como um recurso visual para o estudo desse período literário. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/393406d0-e977-46c8-9aa8-91e27e0c24aa/2e62911f-f0e0-4f1f-9eb5-862a723f58d2.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Modernismo e regionalismo no Brasil: entre inovação e tradição Neste artigo, a autora trata da difusão do Modernismo literário, ocorrida a partir da década de 1930, em três regiões periféricas ao impulso inovador do País, mas que eram detentoras de culturas consolidadas (Nordeste, Minas Gerais e Rio Grande do Sul), as quais produziram, nos anos subsequentes, a nossa literatura mais vigorosa. Confira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O Movimento Modernista como memórias de Mário de Andrade Confira este artigo, o qual apresenta o Movimento Modernista como memórias de Mário de Andrade, levando em consideração tanto a narrativa de experiências pessoais desse autor como gênero discursivo quanto as questões levantadas sobre sua obra por suas memórias. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Modernismo revisitado Neste link, revisite o Modernismo, que foi um movimento artístico que procurou romper com características estéticas então consideradas tradicionais. Na literatura brasileira, a abolição de versificações utilizadas pelos poetas parnasianos e a produção de textos sobre a identidade nacional, em uma linguagem popular, foram algumas de suas diretrizes mais significativas. Atualmente, pesquisadores repensam o lugar do movimento vanguardista paulistano na cena cultural brasileira. https://www.scielo.br/pdf/ts/v23n2/v23n2a08.pdf https://www.scielo.br/pdf/rieb/n55/a02n55.pdf Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Semana de Arte Moderna de 1922 A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um importante marco na história do Modernismo no Brasil. Neste vídeo, acompanhe outros detalhes e curiosidades a respeito do evento, que gerou muitas críticas e mobilização na época de sua criação. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Semana de Arte Moderna de 1922 Você sabia que o início do Movimento Modernista no Brasil foi marcado por um grande evento que reuniu nomes muito famosos da música, da literatura, da pintura e da escultura, que se juntaram para promover as estéticas vanguardistas aplicadas à arte nacional? Esse evento, ocorrido no Theatro Municipal de São Paulo em 1922, ficou conhecido como Semana de Arte Moderna, um marco que ampliou os horizontes artístico-literários do País. Foi nesse mesmo evento, por exemplo, que as estéticas importadas da Europa foram ressignificadas e aplicadas às produções nacionais, momento de grande crítica para seus criadores. Conheça, no vídeo a seguir, os eventos que levaram à produção da Semana de Arte Moderna, bem como o que ocorreu durante os 7 dias de evento. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://revistapesquisa.fapesp.br/modernismo-revisitado/ https://www.youtube.com/embed/yPoyWzHjsFA http://pvbps-sambavideos.akamaized.net/account/2975/3/2020-07-29/video/4c3a2bf4d6c126289f7a58edbed0d64c/4c3a2bf4d6c126289f7a58edbed0d64c_720p.mp4