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17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 1/57 A literatura contemporânea brasileira A literatura contemporânea brasileira Descrição Você vai estudar a literatura brasileira contemporânea por meio de seus temas, questões e alguns autores. Propósito Ao analisar algumas das principais linhas de força da produção literária contemporânea e identificar tendências e processos, considerando os aspectos estéticos, históricos e culturais, você vai ampliar sua competência literária. Objetivos Módulo 1 Poesia Concreta Identificar os principais aspectos da Poesia Concreta e seus autores. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 2/57 Módulo 2 Prosa urbana Identificar as relações entre a cidade e a narrativa contemporânea. Módulo 3 As escritas de si Identificar os principais aspectos das chamadas escritas de si. Módulo 4 Literatura e outras artes Identificar as relações entre a literatura contemporânea e outras artes. Introdução Quem tem medo da literatura brasileira contemporânea? Não é incomum encontrar pessoas que costumam resistir à leitura de obras atuais, pois associam a ideia de contemporâneo nas artes com algo fechado, hermético, voltado apenas para pessoas cultas ou cults. Nada contra a preferência por clássicos! Muitos deles, aliás, são referências também das autoras e autores da atualidade. E diante de um tempo cada vez mais veloz e inquieto, 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 3/57 parece missão impossível conseguir acompanhar tudo o que as pessoas andam escrevendo no Brasil. Isso nos faz pensar em Jorge Luis Borges, que havia imaginado uma biblioteca infinita, com uma quantidade monstruosa de livros. Acalme-se! De fato, é assustador, mas não precisa se desesperar. Se, por um lado, a produção contemporânea soa como a Biblioteca de Babel do escritor argentino, por outra, é possível mapear suas principais tendências a partir de algumas linhas de força, ou seja, agrupar elementos que ajudem a tomar direções e, assim, obter uma visão panorâmica do que vem acontecendo no cenário literário contemporâneo. Neste conteúdo, partiremos de um dos movimentos mais criativos da produção literária brasileira do pós-guerra, a Poesia Concreta, identificando suas principais características e autores. Em seguida, passearemos pela cidade e suas camadas mais baixas através das narrativas urbanas, com suas violências e seus desejos. Sem pedir licença, entraremos na intimidade das autoras e autores que se dedicam às escritas de si, desde os que encontram na literatura espaço de construção de identidade até aqueles que fazem dela um espaço de releitura crítica da história do país. Por fim, nós nos envolveremos com palavras, imagens e gestos, a fim de participar da interminável conversa da literatura com as outras artes. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material javascript:CriaPDF() 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 4/57 1 - Poesia Concreta Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car os principais aspectos da Poesia Concreta e seus autores. Tradição e vanguarda Quando você escuta ou lê a palavra “tradição”, o que vem a sua cabeça? Em geral, associamos a algo antigo e que possua uma história, não é? Um hábito ou costume tradicional é aquele que não apenas tenha começado em um determinado momento do passado, mas que permaneça no presente. Tradicional, portanto, não é simplesmente o que ficou datado, mas o que, de alguma maneira, sobreviveu ao tempo. E a palavra “vanguarda”? O que lhe ocorre? Assim como “tradição”, “vanguarda” também se aplica geralmente ao tempo, mas de maneira bem distinta. Vejamos a diferença. Tradição Está ligada à continuidade. Vanguarda Se aplica quando queremos apontar uma ruptura. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 5/57 Se dizemos que uma pessoa está “na vanguarda”, queremos destacar seu pioneirismo, sua ousadia e sua inovação. Portanto, a relação entre tradição e vanguarda não é simplesmente entre o velho e o novo, mas, sim, entre continuidade e descontinuidade, permanência e ruptura. O Modernismo surgiu no século XX como uma proposta de ruptura com o passado, ou seja, contra a continuidade de uma determinada maneira de expressar o mundo. Por isso, ele foi um movimento de vanguarda. Não por acaso, ele sofreu grande influência das chamadas vanguardas artísticas europeias, como o cubismo, o futurismo, o dadaísmo, o surrealismo e o expressionismo. A literatura e as artes plásticas foram as que ficaram mais marcadas por essas tendências. Veja a seguir exemplos de expressões artísticas. Guernica, Pablo Picasso, 1937. Cubismo A cidade se levanta, Umberto Boccioni, 1910. Futurismo 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 6/57 Indian dancer, Hannah Höch, 1930. Dadaísmo A persistência da memória, Salvador Dalí, 1931. Surrealismo O grito, Edvard Munch, 1893. Expressionismo No caso brasileiro, essas transformações acompanhavam uma necessidade de se pensar um novo retrato para o país, isto é, uma identidade nacional, estando relacionadas ao contexto social e político dos anos 1920. Com a morte de Mário de Andrade, em 1945, o Modernismo como movimento artístico e escola literária teve o seu fim. Nesse mesmo período, surgiram poetas interessados em resgatar as formas clássicas 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 7/57 da tradição. Portanto, uma das vertentes da poesia era de feição neoparnasiana, ou seja, novos aspectos da produção poética inspirados no Parnasianismo. Era a chamada Geração de 1945, tendo como representantes Ledo Ivo, Gilberto Mendonça Teles, Geraldo Vidigal, Bueno Rivera, entre outros. Mas também tivemos autores interessados em aprofundar as experimentações formais levadas a cabo pelos modernistas de primeira hora. São os casos de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto. Por essa razão, alguns estudiosos chamam essa etapa de terceira fase do Modernismo. Guimarães Rosa. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 8/57 Clarice Lispector. João Cabral de Melo Neto. Não podemos esquecer que estávamos vivendo um período, no cenário político nacional e internacional, de saída de uma grande guerra e de fim de vários regimes ditatoriais, como o Terceiro Reich, de Adolf Hitler, e o 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 9/57 Estado Novo, de Getúlio Vargas. Mas também entrávamos em um momento de muita tensão por conta da chamada Guerra Fria, uma corrida armamentista e polarização entre EUA e URSS. Ou seja, o clima não estava nada fácil e as esperanças minguavam dia a dia. Dessa maneira, a literatura e as outras artes buscavam também na forma outras maneiras de lidar com esses impasses nos âmbitos social, político e econômico. Ao mesmo tempo que se voltavam para a compreensão do presente, não se furtavam a lançar um olhar atento para o passado, como se buscassem iluminar outras projeções para o futuro. Nesse sentido, as vanguardas voltaram a ter um papel de destaque. Entre as décadas de 1950 e 1960, os paulistas Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldode Campos lideraram a criação de um dos principais movimentos vanguardistas da literatura brasileira do século XX depois do Modernismo: a Poesia Concreta. Também chamada por alguns de Concretismo, a Poesia Concreta representou o aprofundamento de rupturas propostas pelo movimento modernista em sua primeira fase, mas também se voltou para a tradição clássica, resgatando autores esquecidos ou invisibilizados não apenas da literatura brasileira, como Gregório de Matos, Pedro Kilkerry e Sousândrade, mas também da internacional, como o provençal Arnaut Daniel. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 10/57 Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos. Por meio dessa volta ao passado, os poetas concretos se engajaram em um novo futuro para a produção poética nacional. O verso costuma ser lembrado como o principal aspecto formal da poesia, não é verdade? Os concretos, então, quebram a sua centralidade e passam a valorizar outras dimensões da linguagem a partir do referente linguístico, ou seja, a partir da forma concreta da palavra escrita no papel. Assim, eles extraem outros significados dos vários aspectos que compõem a palavra, como o visual, o verbal e o fonético. Não basta a acepção do dicionário. Nesse diálogo entre presente, passado e futuro, os poetas concretos ampliam as relações entre a palavra e o mundo ao redor, ressaltando a sua força criativa e criadora. Tradição e vanguarda 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 11/57 Confira neste vídeo o contexto de surgimento do Concretismo no Brasil, com destaque para a tensão entre tradição e vanguarda na cultura e nas artes. Noigandres Como vimos, os poetas concretos desenvolveram uma arte literária que desse conta dos três principais aspectos que constituem uma palavra. São eles: Visual ou grá�co Verbal ou semântico Fonético ou sonoro Há um termo que eles encontraram para se referir a essa relação: verbivocovisual. Verbi refere-se a verbal; voco, a fonético; e visual, isso mesmo, visual. Se eles criaram essa palavra? Não! Os poetas concretos encontraram esse termo em um dos romances emblemáticos da literatura modernista internacional: Finnegans Wake, de James Joyce. O escritor irlandês adota a expressão em sua obra para se referir à potência da composição literária. Nada mais apropriado para se referir aos poetas da Poesia Concreta. A revista Noigandres foi a principal publicação do grupo, lançando as bases de seu movimento e influenciando diversos intelectuais. "Noigandres" é uma expressão que pode provocar estranheza, não 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 12/57 apenas para falantes de língua portuguesa, mas também para falantes de outros idiomas. Essa enigmática expressão foi lançada por Arnaut Daniel, um trovador provençal do século XIII, em um verso de sua Canção XIII. Daniel era conhecido por sua inventividade e hermetismo poético; por isso, era admirado por figuras como Dante Alighieri, Francesco Petrarca, T. S. Eliot e Ezra Pound. Foi por meio de Pound que Décio Pignatari e os irmãos Campos se depararam com essa palavra intrigante. Então decidiram nomear a sua publicação com ela. Arnaut Daniel. A palavra "Noigandres" tem gerado curiosidade sobre seu significado. Etimologicamente, a interpretação mais aceita é "proteção contra o tédio", de acordo com um provençalista alemão chamado Emil Lévy. No entanto, os poetas concretos, ao adotarem essa palavra, não a escolheram com base em seu significado exato. Para eles, "Noigandres" simbolizava poesia em progresso, experimentação e pesquisa poética em equipe, mais do que um conceito definido (Campos; Pignatari; Campos, 2006, p. 193). O uso da palavra “Noigandres” estava alinhado com o projeto estético-político do movimento concreto, que buscava a quebra de paradigmas. Eles não estavam interessados em desvendar o enigma por trás da palavra, mas, sim, em valorizar a dimensão ilimitada que ela representava. Como muitos movimentos desse tipo, o grupo necessitava de uma publicação que refletisse seu espírito e servisse como plataforma para divulgar suas ideias e debater seus princípios. Nesse contexto, as revistas desempenham um papel crucial, tornando-se quase uma 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 13/57 extensão da produção do grupo que representam. No caso dos poetas concretos, Noigandres era essa revista essencial, assim como Invenção. Noigandres foi fundada em 1952, mesmo ano da Exposição e do Manifesto do Grupo Ruptura, em São Paulo, e da criação do chamado Grupo Frente, no Rio de Janeiro, dois grupos que, mais tarde, formariam o chamado movimento concretista. Nesse período, Décio Pignatari e os irmãos Campos estavam envolvidos em uma poesia tradicional, embora já esboçassem uma ruptura em relação aos poetas da época. O único poeta a quem eles permaneceram esteticamente ligados foi João Cabral de Melo Neto, embora ele nunca tenha se filiado à Poesia Concreta. Mesmo assim, é possível identificar diálogos entre sua produção e as propostas do movimento. Capa da revista Noigandres. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 14/57 Manifesto do Grupo Ruptura. No que diz respeito ao nome do movimento, em artigo publicado em outubro de 1955, na revista Forum, do Centro Acadêmico 22 de Agosto, da Faculdade Paulista de Direito, lançado depois também na edição Noigandres 2, naquele mesmo ano, Augusto de Campos afirma: “Em sincronização com a terminologia adotada pelas artes visuais e, até certo ponto, pela música de vanguarda (concretismo, música concreta), diria eu que há uma poesia concreta” (Campos, 2015, p. 87). Portanto, havia uma relação interdisciplinar e intertextual na origem do próprio grupo. Na prática, o que vem a ser Poesia Concreta e qual é a proposta desse movimento? Uma obra que pode nos oferecer algumas pistas é o poema Cidade, City, Cité, de Augusto de Campos. O poema aborda a cidade, com cada palavra representando a palavra "cidade" em um idioma diferente: português, inglês e francês. O 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 15/57 português é a língua dos poetas concretos, o inglês simboliza a globalização e modernização das cidades, enquanto o francês representa a tradição clássica. A cidade é vista como símbolo de desenvolvimento social, econômico e cultural na sociedade moderna. A velocidade e a superposição das palavras que resultam em “cidade” traduzem a aceleração do cotidiano naquele período. Dica Cidade, City, Cité é apresentado visualmente no perfil Instrumental Sesc Brasil, no YouTube. Faça uma busca e assista ao vídeo em que o poema é apresentado. A Poesia Concreta também exerceu grande influência em outras artes, como a música e o teatro. Caetano Veloso, por exemplo, trata dessa relação em seu livro Verdade tropical. Caetano Veloso. Integrante do chamado Tropicalismo, o cantor e compositor construiu muitas de suas canções a partir dos pressupostos da Poesia Concreta. Um exemplo disso é a música Circuladô de Fulô, baseada em um fragmento do livro Galáxias, de Haroldo de Campos, em que o diálogo com a cultura popular é mais evidente. Coloque Circuladô de Fulô no seu streaming de música favorito e escute! Noigandres Assista a esta conversa sobre a Poesia Concreta, em que são abordadas as características estéticas e sua relação com a revista 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio#16/57 Noigandres, destacando o poema Cidade, City, Cité, de Augusto de Campos. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O poeta Arnaut Daniel inspirou, de alguma forma, os poetas concretos brasileiros ao ter uma expressão de sua obra usada por esses poetas para nomear sua revista. Assinale a alternativa que apresenta tal expressão. Parabéns! A alternativa D está correta. A Concretismo B Poesia Concreta C Verbivocovisual D Noigandres E Vanguarda 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 17/57 A expressão “Noigandres” foi retirada de um poema do trovador provençal do século XIII Arnaut Daniel. A palavra, para os poetas concretos, passou a significar experimentação e poesia em progresso. Embora verbivocovisual tenha relação também com a Poesia Concreta, tal expressão foi retirada de Finnegans Wake, de James Joyce. Questão 2 Os poetas concretos, em seu diálogo com a tradição, resgataram alguns nomes que estiveram esquecidos ou invisibilizados pela historiografia literária. Marque a alterativa que indique um desses autores. Parabéns! A alternativa A está correta. O poeta Pedro Kilkerry foi um dos autores brasileiros do século XIX resgatado pelos poetas concretos, valorizando não apenas a obra e a vida do escritor, mas inserindo-o também no diálogo desses autores vanguardistas com a tradição. A Pedro Kilkerry B Machado de Assis C Clarice Lispector D James Joyce E Cecília Meireles 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 18/57 2 - Prosa urbana Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as relações entre a cidade e a narrativa contemporânea. O retorno do realismo O que você busca em um bom livro: realidade ou fantasia? As respostas certamente devem variar bastante, a depender de quem está acompanhando este texto agora. É comum, aliás, aplicarmos essa categorização em outros gêneros artísticos que consumimos, como filmes. Há quem prefira documentários, já outros gostam de uma boa ficção científica, outros ainda vão de suspenses ou dramas baseados em fatos reais. No caso da literatura, essas categorias vão de romances policiais, passando por clássicos, biografias, e chegando, em alguns casos, aos livros de reportagem, alguns com notável combinação entre jornalismo e literatura. Independentemente da sua escolha, é importante ressaltar que, mesmo o mais “realista” dos livros, é dotado de estratégias narrativas e recursos ficcionais para que a história convença o leitor. Ou seja, toda literatura é construção. Portanto, quando falamos em “realismo”, estamos nos referindo a uma determinada categoria estética, ou seja, um modo de construção de uma história, de maneira que ela se aproxime daquilo que nós entendemos como “realidade”, mas também estamos tratando da escola literária da segunda metade do século XIX, cujos principais 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 19/57 expoentes no Brasil são Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e Júlia Lopes de Almeida. Machado de Assis. Aluísio Azevedo. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 20/57 Adolfo Caminha. Júlia Lopes de Almeida. As principais características do Realismo são: 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 21/57 Objetividade Crítica da sociedade Descrições psicológicas das personagens A tendência do naturalismo, uma das vertentes estéticas do Realismo, vai adicionar ainda a investigação dos aspectos sociais e biológicos das camadas populares. É o que vemos em romances como O cortiço, de Aluísio Azevedo, O bom crioulo, de Adolfo Caminha, ou no conto Os porcos, de Júlia Lopes de Almeida. Os problemas relativos à vida precária da população mais pobre e seus comportamentos, sem as mediações de códigos de conduta da sociedade burguesa, expõem os contrastes dessa camada social. Em um país como o nosso, marcado até os dias de hoje por profundas desigualdades e injustiças no que se refere aos desprestigiados, o interesse por uma literatura que explore esses aspectos parece algo sempre atual. Embora não estejamos mais em uma sociedade escravista, por exemplo, sabemos o quanto o Brasil contemporâneo se estrutura pelas ressonâncias da escravidão, como o racismo. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 22/57 Capa do livro O cortiço. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 23/57 Capa do livro Bom crioulo. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 24/57 Capa do livro Os porcos. A crítica literária Flora Süssekind (1983), ao examinar o naturalismo brasileiro como ideologia estética, percebe suas voltas em outros momentos da história da literatura brasileira, como na geração do romance de 1930 e no romance-reportagem dos anos 1970. Alguns autores costumam classificar a literatura de Graciliano Ramos, por exemplo, como “neonaturalista”, por causa desse resgate dos aspectos que fizeram parte do realismo/naturalismo. Nos anos 1960 e 1970, diante de um cenário de intensa repressão no Brasil e de desenvolvimento urbano, a relação entre o escritor e a cidade se intensifica, expondo as transformações de hábitos e costumes, bem como suas desigualdades e mazelas sociais. Ao falarmos sobre a volta do realismo na literatura brasileira para nos referirmos ao cenário de consolidação da prosa urbana contemporânea, não queremos dizer, claro, que as mesmas questões do século XIX voltaram a nortear a produção dessas autoras e autores, tanto no que se refere aos aspectos formais quanto socioeconômicos. Podemos 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 25/57 estabelecer algumas relações de aproximação, mas o contexto e as motivações são bem distintos. Karl Erik Schøllhamer (2009, p. 54) observa que “o novo realismo se expressa pela vontade de relacionar a literatura e a arte com a realidade social e cultural da qual emerge, incorporando essa realidade esteticamente dentro da obra e situando a própria produção artística como força transformadora”. E essa realidade é transposta para a literatura, em geral, pela perspectiva dos marginalizados e periféricos, seja apenas como personagens ou também como autores. Mais do que retratar a realidade, notamos um esforço de interpretar e até mesmo interferir na percepção da realidade. Dos anos 2000 para cá, presenciamos ainda o surgimento de mais autoras e autores nascidos em regiões periféricas do país, cujos pais não tiveram acesso à educação formal. Alguns sequer conseguiram ser alfabetizados. Estão entre as classes baixas e os chamados remediados sociais. As mudanças nas políticas públicas voltadas para a educação no país depois do retorno à democracia também exerceram um papel na constituição dos novos narradores das cidades. Eles deixaram de ser meros personagens e se tornaram autores de suas próprias histórias, apresentando camadas da realidade social somente vistas por aqueles que sempre estiveram no olho do furacão. O retorno do realismo Veja neste vídeo em que contexto se produz a prosa urbana no Brasil a partir da relação com aspectos do movimento realista na literatura. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio#26/57 Narrativas periféricas A prosa urbana brasileira contemporânea possui uma galeria de autoras e autores que souberam expressar, como poucos, as condições sociais e econômicas da vida nas cidades. Mudamos? Mudamos, e muito. E não apenas nas dinâmicas urbanas, mas também nas relações entre as pessoas que vivem nesses espaços. O geógrafo David Harvey (1980, p. 174) afirma que a cidade é “o lugar das contradições acumuladas”, ou seja, ela é resultado não apenas do desenvolvimento dos modos de circulação e habitação, mas também dos contrastes resultantes desse processo. A modernização é uma faca de dois gumes, e seu corte atinge justamente aqueles que ficam à margem de suas promessas. Um dos autores que se destaca nos anos 1960 e 1970 dessa literatura é o paulista João Antônio, infelizmente esquecido nos círculos acadêmicos. Em sua obra, somos apresentados a uma galeria de tipos sociais que habitam os bares, os prostíbulos, as fábricas, as ruas das periferias, favelas e das partes consideradas baixas da cidade. Desempregados, criminosos, operários, policiais, mendigos, estelionatários, apostadores e outras figuras ganham vida em sua narrativa ágil e crua, incorporando não apenas a descrição dessas personagens e de seus ambientes, mas também a linguagem por eles empregada. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 27/57 João Antônio. O livro de estreia de João Antônio é Malagueta, Peru e Bacanaço (1963), longo conto dividido em seis partes, cada uma representando o nome de um lugar em São Paulo. A ação se passa numa noite em um bar, onde três pessoas se encontram numa mesa de sinuca. Somos convidados a jogar uma partida com eles de tão impactante e envolvente que é a narrativa. Outro autor da mesma época, e que faleceu bem recentemente, é Rubem Fonseca. Diferentemente de João Antônio, compôs uma obra volumosa e bem diversificada em termos formais. Rubem Fonseca também apresenta o submundo dos bairros da cidade, com um estilo bruto e cortante, mas em suas histórias o autor explora mais profundamente as marcas da violência e do sexo nas dinâmicas sociais urbanas, como podemos notar em seus livros de contos, como Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965), Feliz ano novo (1975) e Secreções, excreções e desatinos (2001). 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 28/57 Rubem Fonseca. Rubem Fonseca também vai dialogar com a história e literatura, como no romance Agosto (1990), sobre os eventos que resultaram no suicídio de Getúlio Vargas. A escritora Patrícia Melo, mais atual, costuma ser comparada com Rubem Fonseca, devido aos temas e à influência exercida por ele em sua literatura que ela já havia admitido em algumas ocasiões. Entretanto, a autora possui um estilo próprio de abordar as brutalidades da vida cotidiana nas cidades. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 29/57 Patrícia Melo. Em um de seus romances mais emblemáticos, Inferno, publicado em 2000, somos conduzidos a acompanhar a história de Reizinho, que de olheiro do tráfico, aos 11 anos de idade, se tornou o bandido mais procurado da cidade do Rio de Janeiro. É um romance ágil, mas doloroso, pois acompanhamos a saga do personagem em um ambiente hostil e precarizado, que influencia nas decisões controversas que o levam ao mundo do crime. No entanto, acompanhamos também os conflitos psicológicos do menino que cresceu sem pai e que, pouco a pouco, tem a sua infância esvanecida como a fumaça do cano do revólver após o tiro. Ainda sobre o tema, temos de citar uma das obras mais marcantes já produzidas em nossas letras. Mas não estamos falando de uma narrativa convencional, em termos de suporte material e circulação. O álbum Sobrevivendo no inferno (1997), dos Racionais MC’s, abalou as estruturas não apenas do cenário musical brasileiro, mas também o literário. Afinal, é literatura também, e literatura de qualidade e de grande impacto como jamais foi visto. Talvez pudéssemos mencionar como exemplo comparativo, dentro da categoria convencional de literatura, o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins. Isso mesmo! O do filme! Aliás, grande filme. Apesar de o livro de Lins poder ser aqui tratado como exemplar de uma narrativa periférica, optamos por trazer a você o álbum dos Racionais 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 30/57 por representar tanto os aspectos em torno da prosa urbana mencionados neste conteúdo quanto as camadas marginalizadas retratadas por esse tipo de narrativa. Racionais MC’s na Virada Cultural em São Paulo. Em 2018, a editora Companhia das Letras lançou as letras do álbum como livro, poucos meses depois de a Unicamp incluí-lo na lista de leituras obrigatórias para o vestibular. Portanto, assim como os demais autores que vimos, os Racionais também expõem, por meio de narrativas musicais e literárias, os contrastes e conflitos sociais de uma cidade que se desenvolve às custas da exclusão das camadas mais periféricas. Narrativas periféricas Acompanhe neste vídeo uma conversa sobre a prosa urbana focada nas narrativas periféricas. Vamos destacar alguns autores e suas obras, como João Antônio, Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Racionais MC’s e Paulo Lins. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 31/57 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Há movimentos artísticos e literários que retomam, em alguma medida, aspectos de correntes e movimentos passados. Marque a alternativa que aponte um aspecto em comum entre o Realismo do século XIX e o realismo na literatura brasileira contemporânea. Parabéns! A alternativa E está correta. Apesar das diferenças do contexto histórico, as narrativas realistas do século XIX e da atualidade têm em comum a presença de uma crítica social, abordando a hipocrisia das classes dominantes e as mazelas socioeconômicas das classes mais baixas. Questão 2 Na prosa urbana brasileira, podemos destacar as narrativas periféricas. Qual das obras abaixo pode ser considerada uma A Princípio de verossimilhança B Idealização dos nativos C Objetividade da narrativa D Temática abolicionista E Crítica social 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 32/57 narrativa periférica, embora não esteja na categoria convencional de literatura? Parabéns! A alternativa A está correta. O álbum Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC’s, lançado em 1997, é uma obra musical e literária, pois constrói por meio de suas letras narrativas em torno das vidas das pessoas marginalizadas nas periferias das cidades. Essa obra foi reconhecida pelas instituições de ensino como literatura, a exemplo da Unicamp, que a incluiu em sua lista para o vestibular. A Sobrevivendo no inferno B Dom Casmurro C O cortiço D Cidade de Deus E Agosto 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 33/57 3 - As escritas de si Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car os principais aspectos das chamadas escritas de si. Ficção e auto�cção Quando falamos em ficção, costumamos pensar em algo oposto à verdade, não é? Ora, se estamos tratando de “escritas de si”, ou “escritas do eu”, o conceito de ficção, em um primeiro momento, pode parecer inadequado, considerando uma definição mais convencional. Afinal de contas, ficção costuma ser associada à invenção, à mentira. Não por acaso, há pessoas que preferema leitura de livros biográficos ou autobiográficos, pois dizem preferir “a vida real”. Mas a ficção também pode ser uma maneira de tratar do que chamamos de vida real. No entanto, as estratégias discursivas são diferentes, dependem do gênero do discurso. Segundo o filósofo francês Jacques Rancière (2009, p. 58), “o real precisa ser ficcionado para ser pensado”. A �cção é uma forma de compreender o mundo e a si mesmo. Só que existem várias possibilidades para realizar isso. O termo ficção vem do verbo em latim fingere, que significa fingir. O fingimento não tem a ver apenas com o que é falso, mas com o que 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 34/57 costumamos chamar “fazer de conta”, ou seja, o ato de fazer está no cerne do conceito da ficção, que, por sua vez, nos leva a pensar em construção. Assim, a ficção se refere às estratégias construtivas utilizadas para contar alguma coisa para alguém. Exemplo Ao escrever Dom Casmurro, Machado de Assis não estava preocupado em retratar personagens que existem na vida real. Bento Santiago, até onde sabemos, nunca existiu. Mas não se trata disso. A criação de Bentinho e de Capitu atendem a outro expediente da narrativa machadiana, que é, entre outras coisas, revelar as contradições da sociedade brasileira do século XIX, em especial das classes dominantes. Embora Bentinho, como pessoa, não exista como referência factual, ele e seu discurso podem ser identificados com uma maneira de se agir e pensar no Brasil. Na literatura contemporânea, há uma tendência dominante que combina, em princípio, a ideia de ficção com autobiografia, chamada de autoficção. Esse gênero literário surgiu há pouco tempo, na França, e foi nomeado pelo escritor Serge Doubrovsky, na quarta capa de seu romance Fils, publicado em 1977. Desde então, o termo vem sendo disputado conceitualmente por diversos escritores e intelectuais dos estudos literários, dentre eles, podemos destacar Philippe Lejeune, Philippe Gasparini e Vincent Colonna. Sim, todos franceses. Serge Doubrovsky. No Brasil, o conceito vem sendo bastante debatido, especialmente pelas pesquisadoras Eurídice Figueiredo, Anna Faedrich e Jovita Noronha. Antes de continuarmos, entenda alguns conceitos! Ficção 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 35/57 Criação de outras realidades, pelo fingimento. Autobiogra�a Reconstituição da vida de um “eu”. Auto�cção Ficcionalização do eu, em que o autor da obra se torna personagem de seu livro, misturando fatos de sua vida com invenção, de maneira que não se torne clara a fronteira entre a realidade e a ficção. Na literatura brasileira contemporânea, temos vários exemplos de autoficção. Um caso representativo é o do escritor Ricardo Lísias, por meio de seus livros O céu dos suicidas (2012) e Divórcio (2013). Nas duas obras, o autor que assina a capa é também personagem envolvido na história. A primeira trata da forma como o personagem lida, ao longo da narrativa, com a perda de um amigo que se matou; já a segunda, como já sugere o título, se volta para os bastidores de uma difícil separação conjugal. Ricardo Lísias. Um dos conflitos presentes na literatura autoficcional é com a identidade, seja a da personagem e do autor do livro, no plano de construção do próprio discurso, seja a dos laços desse autor/personagem com o seu passado, isto é, suas heranças culturais, seus ancestrais e sua filiação. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 36/57 O romance A chave de casa (2007), de Tatiana Salem Levy, é exemplar nesse sentido, pois explora, em sua busca por construção de si mesma, não apenas se libertar do relacionamento abusivo que atravessa, mas também se conectar com suas memórias familiares. Tatiana Salem Levy. Em uma perspectiva semelhante, um romance autoficcional que vale a pena ser mencionado é O diário da queda (2011), de Michel Laub, história dolorosa e impactante que também se desenrola a partir de um trabalho da memória e da busca por uma identidade. O diário do título é uma referência aos escritos deixados pelo avô do personagem, de família de judeus. Embora tenha sofrido com as atrocidades de Auschwitz, durante a ocupação nazista, ele não descreve essa terrível experiência nas páginas que deixou. O silêncio, às vezes, acaba se tornando ainda mais potente e revelador. Assim, o personagem vai em busca desses vazios deixados nas frestas do seu passado e de seu presente, reinventando-se ao longo da narrativa. Ficção e auto�cção Confira neste vídeo uma análise da relação entre ficção e autoficção na prosa contemporânea brasileira, e veja alguns exemplos de romance autoficcional. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 37/57 Perspectivas indígenas e afrodiaspóricas A linguagem é um dispositivo de poder. Intelectuais como Roland Barthes e Michel Foucault apontam, em suas obras, para essa natureza dos mecanismos de produção e circulação dos textos, seja por meio da oralidade ou pela escrita. Quem detém o enunciado, a capacidade de formular um discurso, também detém o controle sobre a história que é contada. A Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, em 2019, levou para a Marquês de Sapucaí o enredo História para ninar gente grande, com a proposta de apresentar um “país que não está no retrato”. A ideia era dar o devido espaço a personagens e episódios esquecidos e invisibilizados, para que possamos entender a formação do nosso país não mais a partir da versão dos dominantes, mas pela voz daqueles que foram silenciados. Desfile da Mangueira em 2019. Desde o período colonial até os dias atuais, a história do país sempre foi marcada por esses silenciamentos, que nunca foram arbitrários. Ao contrário, eles constituem um projeto que não contempla todo mundo. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 38/57 Como sabemos, a escravidão foi um dos capítulos mais perversos da nossa história, servindo de combustível para o desenvolvimento social e econômico de uma determinada classe e a manutenção de seu poder. Pessoas negras e indígenas foram exploradas, torturadas, violentadas e mortas, para que o projeto colonialista de dominação e controle de seus corpos, afetos e conhecimentos pudesse alcançar êxito. Por isso, tivemos (e, infelizmente, ainda temos) ao longo do tempo no Brasil não apenas um genocídio, mas também um epistemicídio. Epistemicídio O sociólogo português Boaventura de Souza Santos definiu da seguinte forma: “Destruição de algumas formas de saber locais, à inferiorização de outros, desperdiçando-se, em nome dos desígnios do colonialismo, a riqueza de perspectivas presente na diversidade cultural e nas multifacetadas visões do mundo por elas protagonizadas” (Santos; Meneses, 2009, p. 183). O indianismo romântico, com os romances de José de Alencar, funcionou como uma ideologia estética que contribuiu, de certo modo, para esse extermínio no campo simbólico, ao idealizar a exploração do indígena pelo colonizador europeu. Embora outros autores do período tenham se colocado contra essa concepção, como Gonçalves Dias e Maria Firmina dos Reis, ela representa um amplo esforço de atenuar a violência da colonização. José de Alencar. Na literatura contemporânea, temos presenciado cada vez mais autoras e autores realizando uma releitura crítica da colonização por meio da literatura, tomando como ponto de vista as suas identidades. O conceito clássico de literatura, sabemos, é ocidental e europeu. Portanto, ao fazer uso desse instrumento para recontar a história de seuspovos, pessoas 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 39/57 negras e indígenas transgridem e reinventam outras maneiras de falar de si e de habitar o mundo. A literatura indígena contemporânea é relativamente recente e tem obtido cada vez mais sucesso de público e de crítica. Isso não quer dizer que os povos indígenas não produziram literatura antes. Há diversos registros de cantos ameríndios, do período da colonização, que podem ser incluídos como poemas na história da literatura brasileira, mas, em geral, são criações coletivas, sem autoria e sem alguns dos elementos que constituem uma narrativa de ficção, como as que temos presenciado na atualidade. Um autor fundamental de nosso tempo representante dessa tendência de hoje é Daniel Munduruku. Ele é um dos precursores da literatura indígena contemporânea e ativista dos direitos dos povos originários. De um modo geral, suas obras são voltadas para o público infantojuvenil, como Histórias de índio (1996), seu livro de estreia. Daniel Munduruku. Em Meu vô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória (2001), o autor resgata passagens da sua infância e adolescência para nos apresentar a sua relação com seus ancestrais e como isso o ajudou a compreender o que é ser indígena hoje. Entre outros autores de destaque nesse cenário, temos ainda Márcia Kambeba, Eliane Potiguara, Ailton Krenak e Graça Graúna. A diáspora africana também tem sido resgatada por autoras e autores contemporâneos, com novas abordagens e olhares diversos. Como se tratou de uma imigração forçada de pessoas negras africanas, por meio do tráfico transatlântico, a diáspora resultou em marcas profundas na sociedade brasileira até hoje, como a violência do Estado contra a juventude negra e periférica e as desigualdades sociais e econômicas. Uma das autoras negras mais importantes da atualidade e que adota uma perspectiva afrodiaspórica na revisão do nosso passado é 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 40/57 Conceição Evaristo, autora de obras já consagradas da nossa literatura, como Ponciá Vicêncio (2003), Becos da memória (2006) e Olhos d’água (2014). Conceição Evaristo. Temas como ancestralidade, racismo e discriminação de gênero e de classe atravessam sua literatura, construídas a partir do seu conceito de “escrevivência”, ou seja, contar história pessoais a partir de vivências que podem ser compartilhadas e identificadas coletivamente. Além de Evaristo, temos também um conjunto cada vez mais crescente de escritoras e escritores que adotam essas e outras perspectivas, como Eliana Alves Cruz, Itamar Vieira Junior, Jarid Arraes e Ana Maria Gonçalves. A escritora Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor (2006), adota uma perspectiva afrodiaspórica em sua obra ao resgatar, ficcionalmente, aspectos da história do Brasil e da formação da sociedade brasileira a partir da diáspora africana. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 41/57 Ana Maria Gonçalves. Perspectivas indígenas e afrodiaspóricas Assista a esta conversa sobre a produção literária de autores indígenas e afrodescendentes, destacando suas obras e temáticas. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 42/57 Questão 1 O escritor francês Serge Dubrovsky cunhou um termo que aparece em seu romance Fils e que remete a uma característica da prosa contemporânea. Qual é esse termo? Parabéns! A alternativa E está correta. O escritor francês Serge Dubrovsky foi o autor que criou o termo autoficção para se referir a uma narrativa que misture ficção e relato autobiográfico. A palavra aparece na quarta capa de seu romance Fils, publicado em 1977. Questão 2 Autores como Daniel Munduruku resgatam no cenário literário contemporâneo no Brasil narrativas ameaçadas pelo esquecimento ou silenciamento, numa perspectiva indígena. Entre as obras que se inscrevem na perspectiva indígena, podemos mencionar A Escrevivência B Decolonialismo C Epistemicídio D Ficção E Autoficção A Meu vô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 43/57 Parabéns! A alternativa A está correta. Daniel Munduruku é o autor de Meu vô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória, obra que narra sua história ou o que ele foi se constituindo no processo de convivência com o avô Apolinário. As demais obras correspondem à perspectiva afrodiaspórica. 4 - Literatura e outras artes Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as relações entre a literatura contemporânea e outras artes. B Ponciá Vicêncio C Becos da memória D Olhos d’água E Um defeito de cor 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 44/57 Literatura e artes visuais A literatura é a arte da palavra. Quando você pensa em um bom livro, naturalmente o associa a elementos de natureza linguística, como o significado, o som e a relação das palavras no papel. No entanto, o diálogo entre imagem e palavra não é nada novo. Desde o Neolítico, quando as inscrições nas cavernas começaram a ser registradas, passando pelos templos da Antiguidade e os manuscritos medievais, até chegar nas telas de celular, a literatura e as artes visuais sempre mantiveram um contato bem próximo. Ora se aproximando, ora se afastando. Exemplo No Renascimento italiano, os pintores começaram a exigir o mesmo prestígio e posição social que os poetas tinham. Entretanto, mesmo quando as imagens parecem não estabelecer nenhuma relação com as palavras, elas acabam mobilizando histórias que nos envolvem, inquietam e fascinam, assim como um livro. O modernismo brasileiro, com a Semana de Arte Moderna, também é representativo desse diálogo. Ao mesmo tempo que poetas declamavam seus poemas e discursos, havia uma exposição de pintura ocorrendo no Theatro Municipal de São Paulo, naquele início de fevereiro de 1922. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 45/57 Capa do catálogo da exposição de arte da Semana de Arte Moderna por Di Cavalcanti, 1922. Os poetas concretos, que vimos ainda há pouco, também possuem uma relação muito presente entre essas expressões. Aliás, esse diálogo é parte indissociável das produções desses autores. Ainda nos dias de hoje, a pintura, a escultura e o desenho estabelecem relações com a literatura, misturando-se ou dialogando com alguns de seus principais aspectos, por meio dos temas, das formas ou de referências. O entrecruzamento de expressões costuma ser lido contemporaneamente pela chave da intermidialidade, que é o processo de interação de mídias diferentes, como as artes. Com o avanço de novas tecnologias, algumas fronteiras se tornaram não apenas tênues, mas quase inexistentes, criando novos produtos e relações entre eles. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 46/57 A ilustração de livros talvez seja um dos exemplos mais convencionais para esse tipo de relação. No entanto, ainda pode apresentar um caráter inovador, dependendo do projeto e da proposta desse diálogo. Os livros infantis e infantojuvenis estão cada vez mais interativos, pois, diante do celular e da internet, como prender a atenção dos pequenos? Apenas as palavras são suficientes? Difícil! Por isso, o papel dosilustradores nessas obras é tão importante. As narrativas contemporâneas dos povos originários vêm se consolidando nesse segmento, com escritores e artistas atuando em conjunto. O livro Eu sou macuxi e outras histórias, da escritora indígena Julie Dorrico, traz imagens com ilustrações do artista visual indígena Gustavo Caboco, em que o traço e a letra buscam estabelecer importantes conexões para a experiência de leitura. Capa do livro Eu sou macuxi e outras histórias. O escritor mineiro Evando Nascimento é um caso impressionante do diálogo entre imagem e palavra. Professor universitário de literatura e crítico literário, Evando é também ficcionista e artista visual. A atividade 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 47/57 acadêmica, de certo modo, contribui para as escolhas de algumas referências que aparecem em suas obras, mas como artista, seja da palavra ou da imagem, ele cria um universo próprio, independentemente de formação intelectual. O que queremos dizer com isso? Que você não precisa ter a bagagem cultural do artista, pois ele não faz de seu trabalho uma exposição de seu saber acadêmico, como talvez você encontre por aí. Arte visual de Evando Nascimento. Assim como Evando, temos outros escritores-artistas/artistas- escritores de grande relevância no cenário artístico nacional contemporâneo, como Nuno Ramos, Leila Danziger e Carlito Azevedo. No caso de Carlito, são notáveis suas oficinas de poesia, em que a literatura e as artes visuais aparecem frequentemente como motivo para criação ou desdobramento das relações com a cultura contemporânea. Nuno Ramos e Leila Danziger são artistas com obras expostas em galerias de arte, muitas delas trazendo essas travessias entre imagem e palavra. Mas também são autores de livros em formato convencional. Ou seja, não há limites para as artes da palavra e da imagem, que em suas frentes e em seus versos são quase como se mirassem em um espelho. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 48/57 Instalação de Nuno Ramos. Instalação de Leila Danziger. Literatura e artes visuais Acompanhe neste vídeo uma análise da relação entre a literatura e as artes plásticas no contexto da intermidialidade, com destaque para o escritor, crítico e artista visual Evando Nascimento. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 49/57 Literatura e artes cênicas Assim como as artes visuais, as artes cênicas também sempre mantiveram intenso diálogo com a literatura, afinal de contas, o teatro tem a palavra como um de seus principais instrumentos de trabalho. Mas podemos pensar também na dança, que é mais voltada para o movimento do corpo, e no cinema, um pouco mais próximo do teatro em termos de estrutura dramatúrgica e construção narrativa. É possível uma peça sem palavras, claro, como as de Samuel Beckett ou a mímica de Jacques Lecoq, mas o silêncio também conta uma história e, para fazer sentido como arte, precisa de uma construção, isto é, de uma estrutura que faça com que as pessoas parem para assistir. Nesse sentido, a literatura pode exercer um importante papel. No século IV AEC, o teatro grego lançou as bases ocidentais para o que compreendemos até os dias de hoje como interpretação, personagem, música e texto teatrais. Ésquilo, Sófocles e Eurípides são reconhecidos como precursores sobretudo em razão dos seus textos. Não podemos esquecer que o maior escritor da literatura ocidental é um reconhecido autor de peças de teatro. Sim, ele mesmo: William Shakespeare! AEC O uso das siglas AEC (antes da Era Comum) e EC (Era Comum) tem como objetivo uma escrita inclusiva, sem distinção de crença ou cultura. São equivalentes aos termos antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). No Brasil, o teatro brasileiro se consolidou como gênero no século XIX com a participação de grandes escritores, como José de Alencar, Machado de Assis e Artur Azevedo. O teatro moderno, segundo críticos como Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi, se estabeleceu a partir da encenação da peça de um autor reconhecido como fundamental também da nossa literatura. Esse mesmo, Nelson Rodrigues. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 50/57 Nelson Rodrigues. Como você já deve ter notado, literatura e artes cênicas são mais do que vizinhos: são praticamente da mesma família. Presenciamos, na atualidade, experimentações cada vez mais ousadas dessas relações, não apenas em termos literários, mas também cênico- dramatúrgicos. Com a criação do Teatro Oficina, nos anos 1960, o ator e diretor teatral José Celso Martinez Corrêa revolucionou a linguagem teatral e também sua relação com a literatura. José Celso Martinez Corrêa. A montagem de O rei da vela, em 1967, texto escrito por Oswald de Andrade, é considerada um marco na história do teatro brasileiro, atualizando questões trazidas pela antropofagia cultural do escritor modernista para o cenário artístico brasileiro contemporâneo. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 51/57 Dina Sfat em cena de O rei da vela no palco do Teatro Oficina, em São Paulo. Uma de suas encenações mais impressionantes, no entanto, foi a adaptação de Os sertões, de Euclides da Cunha, para os palcos. O caudaloso livro sobre a campanha de Canudos ganhou uma versão cênica dividida em seis partes, cada uma com cerca de seis horas de duração. Não era apenas uma série de montagens teatrais, mas uma experiência estética, ética e política como raramente se viu por aqui. Zé Celso em cena de Os sertões no palco do Teatro Oficina, em São Paulo. Ainda em torno das adaptações de obras literárias grandiosas para os palcos, não há como não mencionar a recente montagem de Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, realizada pela diretora teatral, dramaturga e artista visual Bia Lessa, em 2017. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 52/57 Bia Lessa. Para quem teve contato com o universo de Guimarães Rosa, deve se perguntar como foi possível transpor aquele tsunami de palavras para a cena, para o palco. E Bia o faz com muito vigor e sensibilidade, não se preocupando com uma transposição meramente realista do romance, mas em mergulhar, por meio da linguagem teatral, em seu rio inquietante de palavras e narrações, que constituem a voz do jagunço Riobaldo. Assim como no livro, a peça explora a potência das palavras de Guimarães Rosa e propõe outras experiências com o espectador/leitor. A peça é um espetáculo-instalação. Todos ocupam uma estrutura chamada de “gaiola”, com os atores muito próximos, dizendo as falas e reproduzindo os sons dos animais que habitam o sertão criado pelo escritor mineiro. Afinal, como ele mesmo diz no livro, sertão é dentro da gente. E somente a arte, seja da palavra, da imagem ou movimento, é capaz de recriar novos sertões e mundos. Caio Blat e grande elenco em cena de Grande sertão: veredas no palco do CCBB, no Rio de Janeiro. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 53/57 Literatura e artes cênicas Assista ao vídeo e acompanhe uma conversa sobre o diálogo entre literatura e artes cênicas, destacando a montagem da obra O rei da vela, por Zé Celso, e Grande sertão: veredas, por Bia Lessa. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 A literatura pode ter interfaces ou interações com outras linguagens e manifestações artísticas.Como se chama, contemporaneamente, o processo de interação entre as artes, os meios de comunicação e outros dispositivos? A Diálogos de mídias B Comunicação social C Intermidialidade D Socialização 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 54/57 Parabéns! A alternativa C está correta. A intermidialidade é o processo contemporâneo de interação entre mídias diferentes no qual as fronteiras se misturam, estabelecendo novos usos e funções dos componentes envolvidos nessa relação. Questão 2 A relação entre literatura e teatro no Brasil resultou em montagens de grande impacto. Uma delas é considerada um marco histórico do teatro brasileiro, sendo encenada por José Celso Martinez Corrêa. Qual alternativa apresenta a obra literária montada pelo Teatro Oficina? Parabéns! A alternativa A está correta. Com a criação do Teatro Oficina, nos anos 1960, o ator e diretor teatral José Celso Martinez Corrêa inovou a linguagem teatral e sua relação com a literatura. A montagem de O rei da vela, em 1967, texto escrito por Oswald de Andrade, atualizou questões trazidas E Artes de mídia A O rei da vela, de Oswald de Andrade. B Os sertões, de Euclides da Cunha. C Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. D Macunaíma, de Mário de Andrade. E Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 55/57 pela antropofagia cultural do escritor modernista para o cenário artístico brasileiro contemporâneo. Considerações �nais A literatura brasileira contemporânea apresenta uma diversidade de vozes e perspectivas cada vez mais instigantes. Por meio de seus autores e obras, é possível apreender o difícil retrato fragmentado da formação da nossa sociedade, considerando suas contradições e conflitos estruturais. As tensões entre a tradição e a vanguarda, dos anos 1950 e 1960, expuseram os impasses da modernização e a necessidade de atualização das propostas do movimento modernista no início do século XX. Historicamente, o Brasil é marcado também pela exclusão e silenciamento de agentes sociais que hoje falam por si e que não precisam mais de mediadores. Pessoas negras e indígenas vêm se consolidando no cenário literário com suas obras, em um contexto no qual a construção das subjetividades vai ao encontro de uma dimensão ancestral e coletiva. Como território em disputa, portanto, a literatura contemporânea tem se mostrado instrumento de luta por grupos que exigem seu espaço, assim como também tem se revelado um campo aberto e inacabado de experimentações com outras linguagens. A arte da palavra reverbera em e com outras artes, reinventando histórias, sentidos e perspectivas de futuro. Explore + Assista à série A vida como ela é..., baseada na obra de Nelson Rodrigues. Ela foi produzida e dirigida por Daniel Filho e é considerada uma das melhores adaptações para a TV do universo rodrigueano. No YouTube, você pode assistir a alguns dos episódios. 17/04/2024, 11:15 A literatura contemporânea brasileira https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05637/index.html?brand=estacio# 56/57 Escute o podcast Página Cinco, produzido e apresentado por Rodrigo Casarin. São resenhas, entrevistas, notícias, entre outros temas ligados à produção contemporânea. Leia as edições do caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, que sai todas as sextas-feiras. É possível acompanhar o periódico pelo site na internet. Em suas poucas páginas, os editores trazem novidades literárias de qualidade. Visite o site de Evando Nascimento e vá à seção Artes visuais. Lá você vai encontrar vídeos de exposições e algumas de suas criações. Há desenhos-escritos, pinturas-escritas e colagens-escritas, ou seja, o diálogo entre o verbal e o imagético estão no cerne do trabalho do escritor e artista. Referências CAMPOS, A.; PIGNATARI, D.; CAMPOS, H. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. São Paulo: Ateliê, 2006. CAMPOS, A. Mallarmé. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2015. CANDIDO, A. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006. FIGUEIREDO, E. Mulheres ao espelho: autobiografia, ficção, autoficção. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2013. GUINSBURG, J.; COELHO NETTO, J. T.; CARDOSO, R. C. (orgs.) Semiologia do teatro. São Paulo: Perspectiva, 1988. HARVEY, D. A justiça social e a cidade. São Paulo: Hucitec, 1980. NORONHA, J. M. G. (org.). Ensaios sobre a autoficção. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. PEDROSA, C. et al. (org.). Indicionário do contemporâneo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018. RANCIÈRE, J. 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