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Conteudista: Prof.ª M.ª Fany Govetri Sena Crispim Revisão Textual: Esp. Jéssica Dante Objetivos da Unidade: Conhecer as principais mudanças físicas e biológicas na gestação e lactação, as necessidades nutricionais e características da alimentação nessas duas fases da vida; Aplicar as recomendações para orientação nutricional durante a gestação e a lactação; Compreender os processos que interferem nas escolhas alimentares de gestantes e lactantes e associá-los às recomendações nutricionais, para a elaboração de planos alimentares adequados a este público. 📄 Material Teórico 📄 Material Complementar 📄 Referências Planejamento Alimentar para Gestantes e Lactantes Introdução Você já pensou quanta alteração ocorre no corpo humano durante a gestação? É um período em que a mulher merece uma atenção especial devido à complexidade da sua situação fisiológica. Além das alterações fisiológicas e físicas, ocorrem alterações emocionais, comportamentais e também alimentares. E tudo isso pode ter reflexo na saúde da gestante e do bebê. Durante a gestação, o corpo da mãe é a única fonte de nutrientes para o feto. Por essa razão, a gestante precisa ter boas condições de saúde, estar em bom estado nutricional e manter uma boa nutrição durante o período gestacional. Também é necessário que os profissionais de saúde tenham conhecimento sobre essas alterações fisiológicas, estejam envolvidos no atendimento às gestantes e as orientem nessa fase importante da vida. Além disso, é importante o acompanhamento do ganho de peso materno durante toda a gestação, assim como a evolução do peso e crescimento do feto durante o mesmo período, porque esses dados refletem se o seu desenvolvimento está dentro do esperado ou não. Após o nascimento do bebê, a mulher também precisa continuar mantendo uma alimentação e hidratação adequadas porque irá se iniciar a fase da lactação. Então, é importante que os profissionais de nutrição orientem as lactantes a manter uma alimentação balanceada quantitativa e qualitativamente, contendo alimentos de Página 1 de 3 📄 Material Teórico todos os grupos e variados, boa ingestão hídrica e ambiente calmo, a fim de favorecer a produção de leite materno porque muitas vezes o estresse da lactante e uma alimentação inadequada podem afetar negativamente a produção de leite. Aspectos Fisiológicos e Nutricionais da Gestante Durante a gestação, devido às adaptações que ocorrem no corpo da mulher a fim de gerar um novo ser vivo, várias alterações orgânicas irão ocorrer, como as hormonais, metabólicas e de nutrientes, e nos sistemas circulatório, urinário, respiratório e digestório. No quadro a seguir serão demonstrados alguns efeitos dos hormônios durante a gestação. Quadro 1 – Ação dos hormônios na gestação Hormônios Efeitos Principais Gonadotrofina Coriônica Humana (hCG) Hormônio produzido pela placenta e células do trofoblasto. É útil no diagnóstico inicial da gestação. Suas funções são: estimular produção de progesterona; impedir a rejeição imunológica do embrião; estimular a produção de relaxina pelo ovário, que junto com a progesterona, inibe a contratilidade espontânea do útero. Progesterona Hormônio produzido pela placenta. Importante para o sucesso da implantação e placentação, sendo produzido antes da 8ª e 9ª semana de gestação. Suas funções Hormônios Efeitos Principais são: reduzir a motilidade do trato gastrointestinal; favorecer a deposição de gordura materna; aumentar a excreção renal de sódio; estimular o apetite materno na primeira metade da gestação; interfere no metabolismo do ácido fólico. Estrogênio Hormônio produzido pela placenta. Suas funções são: favorecer o crescimento uterino e promover o desenvolvimento do tecido glandular mamário. Outros efeitos incluem: redução de proteína sérica, afeta a função da tireoide, interfere no metabolismo de ácido fólico, causa hiperpigmentação cutânea, alteração do metabolismo glicídico, altera o tecido conjuntivo e vascular, diminui o apetite na segunda metade da gestação e, juntamente com a progesterona, inibe a secreção de prolactina no eixo hipotálamo-hipofisário e, consequentemente, de leite durante a gestação. Lactogênio Placentário Humano (hPL) Hormônio produzido pela placenta e também conhecido como Somatomamotropina Coriônica Humana (hCS). Suas funções são de mobilizar a reserva de glicogênio (glicogenólise), promovendo o aumento da glicemia materna, associada à resistência insulínica; promover a lipólise e elevação dos níveis sanguíneos de ácidos graxos Hormônios Efeitos Principais livres, favorecendo a captação de glicose e aminoácidos pelo feto. Hormônio do Crescimento Hormônio produzido pela glândula pituitária anterior. Suas funções são: elevar a glicemia, estimular o crescimento dos ossos longos e promover a retenção de nitrogênio. Tiroxina Hormônio produzido pela tireoide. Sua função é regular a velocidade de oxidação celular (taxa metabólica basal). Insulina Hormônio produzido pelas células beta do pâncreas. Sua função é diminuir a glicemia para produzir energia e sintetizar gordura. Glucagon Hormônio produzido pelas células alfa do pâncreas. Sua função é aumentar a glicemia devido à glicogenólise. Calcitonina Produzido pela tireoide, inibe a reabsorção óssea de cálcio. Fonte: Adaptado de ACCIOLY; SAUNDERS; LACERDA 2009 apud SOUZA; SIROTA, 2020, p. 9 Pelo que é possível observar no quadro acima, a ação desses hormônios é capaz de alterar a função de vários órgãos como o trato gastrointestinal, alterando o apetite e a motilidade, alterações endócrinas, alteração no metabolismo de nutrientes, na necessidade energética etc. Por volta do 3º mês de gestação, a taxa metabólica basal materna (TMB) aumenta, em média, de 15% a 20%, para suprir as necessidades do feto. Esse gasto energético é decorrente do aumento das funções cardíacas e renais que ocorrem nessa fase. Também é comum a gestante começar a sentir cansaço, sono e sensação de superaquecimento. O metabolismo basal também estará aumentado devido ao aumento do peso da gestante, à maior demanda de O2 e à maior produção hormonal. Ocorrem vários ajustes no metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios para assegurar que o feto receba todos os suprimentos necessários ao seu crescimento (VITOLO, 2008, p. 44). No processo de adaptação do organismo materno para cada fase da gestação, observamos várias alterações. Falando do Sistema Circulatório, observamos que no primeiro trimestre o débito cardíaco aumenta cerca de 30% a 40%, ocorrendo uma pequena queda de pressão arterial. O volume sanguíneo aumenta em média 45% a 50% acima dos valores não gestacionais no início do terceiro trimestre. Devido a esse aumento de volume, pode ocorrer a anemia fisiológica na gestante, porque as taxas de hemoglobina e hematócrito estarão menores quando associadas à elevação desproporcional do volume plasmático. Importante! Nem sempre que a gestante apresentar anemia poderá ser do tipo fisiológica. É importante saber que durante a gestação a necessidade nutricional de ferro e de outros nutrientes aumenta bastante, e se a Sobre o Sistema Urinário, no segundo mês de gestação ocorre um aumento da taxa de filtração glomerular e do fluxo renal para facilitar a depuração de creatinina, ureia e outros resíduos metabólicos. Em algumas mulheres é comum observar a presença de glicose na urina, devido à redução do limiar de excreção renal e menor capacidade de reabsorção pelo organismo, além de outros nutrientes como aminoácidos e vitaminas lipossolúveis que também podem aparecer. Durante a gestação, a dilatação das veias ovarianas pode causar uma obstrução mecânica dos ureteres, causando um retardo no fluxo urinário e maior predisposição da gestante às infecções urinárias. Você já ouviu alguma gestante dizer que se cansa até para falar? Ou que tem dificuldade para respirar? Isso ocorre porque durante a gestação a ventilação pulmonar aumenta cerca de 50% para suprir as necessidades aumentadas de oxigênio. Alémdisso, o útero comprime o diafragma e a frequência respiratória fica maior para manter a ventilação, caracterizando a respiração ofegante da gestante. E a digestão? Sofre alguma alteração? Com certeza, sim. No primeiro e segundo trimestres ocorre redução da secreção gástrica e no segundo e terceiro trimestres é comum a queixa de pirose (azia) por várias razões como: aumento do tempo de esvaziamento gástrico, pressão do abdômen pelo útero e relaxamento do esfíncter esofagiano. mulher não tiver um consumo alimentar adequado, ela poderá ter anemia decorrente da deficiência de nutrientes e não da desproporção de hemoglobina em relação ao volume plasmático. Outra ocorrência comum devido à ação da progesterona e da pressão uterina é a redução da motilidade intestinal, com consequente constipação, flatulência e hemorroidas. A hipotonia do trato gastrointestinal aumenta o tempo de trânsito intestinal, promovendo maior absorção de nutrientes e água. Outro efeito das alterações hormonais é a interferência no paladar e olfato, podendo ocorrer náuseas, vômitos e hiperêmese decorrentes da maior capacidade olfativa. Como já dito anteriormente, durante a gestação ocorrem vários ajustes no metabolismo dos nutrientes a fim de assegurar que o feto receba todos os suprimentos necessários ao seu crescimento. No quadro a seguir serão apresentadas as principais alterações que ocorrem no metabolismo dos macronutrientes. Quadro 2 – Adaptações no metabolismo de macronutrientes Carboidrato Durante a gestação ocorre leve hipoglicemia em jejum, hiperglicemia pós-prandial e hiperinsulinemia. A glicemia materna pode diminuir em 10 a 20% e as reservas são mobilizadas de acordo com as demandas fetais por meio da glicogenólise hepática. Na segunda metade da gestação, a sensibilidade periférica à insulina ficará prejudicada e os níveis de glicemia aumentam, ficando mais disponíveis para o feto. Lipídio Ocorre armazenamento de gordura, com aumento de colesterol e triglicérides e significativo aumento de lipoproteínas. Os níveis de colesterol aumentam em 50% e os triglicérides podem triplicar. O LDL atinge maior concentração plasmática por volta de 36 semanas. O HDL tem seu nível máximo por volta de 25 semanas, diminuindo até 32 semanas e mantendo-se constante até o parto. Proteína A insulina estimula a síntese proteica, devido ao seu papel facilitador no transporte de aminoácidos para o interior das células. Na gestação, os níveis de aminoácidos no sangue são menores. A hemodiluição provoca diminuição das proteínas plasmáticas, principalmente a albumina, facilitando o desenvolvimento de edema. Fonte: Adaptado de ACCIOLY; SAUNDERS; LACERDA, 2009 apud SOUZA; SIROTA, 2020, p. 10 Saiba Mais Desde o primeiro atendimento da gestante precisamos conhecer sua “idade gestacional”, que deve ser expressa em semanas e é calculada a partir do primeiro dia da data da última menstruação (DUM). É a partir da idade gestacional que se calcula a data provável do parto (DPP) e se analisa toda a evolução da gestante e do bebê. Considera-se primeiro trimestre o período de 1 a 13 semanas gestacionais, o segundo refere-se ao intervalo de 14 a 27 semanas e o terceiro, a partir de 28 semanas gestacionais (SILVA; MURA, 2016, p. 264). Necessidades Nutricionais e Planejamento Alimentar para Gestantes Durante a gestação ocorre um período de anabolismo intenso e constante, o que justifica a adaptação da alimentação para atender as demandas nutricionais aumentadas nessa fase. Ao fazer esse ajuste, e oferecendo uma assistência nutricional adequada, estaremos garantindo um bom desenvolvimento da mãe e do feto. Ter necessidades nutricionais aumentadas não significa que a gestante precisa “comer por dois”, mas ter orientação de uma dieta balanceada, segundo os guias alimentares, e se necessário, aumentando o consumo de alguns nutrientes como o ferro e ácido fólico, que necessitam de maior atenção nessa fase. Energia Quadro 3 – Equações para estimativa da necessidade energética (EER) de gestantes Estágio NAF EER (kcal/dia) 2º e 3º trimestre da gravidez Sedentário EER = 1131,20 – (2,04 × idade) + 0,34 × altura) + (12,15 × peso) + (9,16 × semanas de gestação) + energia de depósito* Pouco ativo EER = 693,35 – (2,04 × idade) + (5,73 × altura) + (10,20 × peso) + (9,16 × semanas de gestação) + energia de depósito* Ativo EER = –223,84 – (2,04 × idade) + (13,23 × altura) + (8,15 × peso) + (9,16 × semanas de gestação) + energia de depósito* Muito ativo EER = –779,72 – (2,04 × idade) + (18,45 × altura) + (8,73 × peso) + (9,16 × semanas de gestação) + energia de depósito* NAF – Nível de Atividade Física: Sedentário: atividades diárias típicas (atividades domésticas); Pouco ativo: atividades diárias típicas + 30 a 60 minutos de atividades moderadas (ex.: caminhadas com velocidade 5 a 7 km/hora); Ativo: atividades diárias típicas + no mínimo 60 minutos de atividades moderadas; Muito ativo: atividades diárias típicas + no mínimo 60 minutos de atividades moderadas + 60 minutos de atividades vigorosas ou 120 minutos de atividades moderadas. *A “energia de depósito” para as gestantes, que são as calorias adicionais para a Estágio NAF EER (kcal/dia) formação de novos tecidos, deve ser adicionada de acordo com o IMC: Mães com baixo peso: + 300 kcal/d; Mães com peso normal: + 200 kcal/d; Mães com sobrepeso: + 150 kcal/d; Mães com obesidade: – 50 kcal/d. Fonte: Adaptado de NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING AND MEDICINE, 2023 Para as mulheres no 1º trimestre de gestação, utiliza-se a equação para mulheres não grávidas, conforme quadro 4, visto que somente a partir do 3º mês de gestação é que a TMB aumenta. Quadro 4 – Equações para estimativa da necessidade energética (EER) de mulheres não grávidas Idade Sexo NAF EER (kcal/dia) +19 anos F Sedentário EER = 584,90 – (7,01 × idade) + (5,72 × altura) + (11,71 × peso) Pouco ativo EER = 575,77 – (7,01 × idade) + (6,60 × altura) + (12,14 × peso) Ativo EER = 710,25 – (7,01 × idade) + (6,54 × altura) + (12,34 × peso) Muito ativo EER = 511,83 – (7,01 × idade) + (9,07 × altura) + (12,56 × peso) NAF – Nível de Atividade Física: Sedentário: atividades diárias típicas (atividades domésticas); Pouco ativo: atividades diárias típicas + 30 a 60 minutos de atividades moderadas (ex.: caminhadas com velocidade 5 a 7 km/hora); Ativo: atividades diárias típicas + no mínimo 60 minutos de atividades moderadas; Muito ativo: atividades diárias típicas + no mínimo 60 minutos de atividades moderadas + 60 minutos de atividades vigorosas ou 120 minutos de atividades moderadas. Fonte: Adaptado de NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING AND MEDICINE, 2023 Proteína O desenvolvimento fetal depende da oferta adequada de proteína para a síntese de enzimas, anticorpos, músculos e colágeno e para a mãe, a proteína é importante para o crescimento dos tecidos maternos. Recomenda-se que 50% das proteínas consumidas sejam de alto valor biológico. Quadro 5 – Valores diários de EAR e AI ou RDA e AMDR para proteína segundo as DRIs, para gestantes Idade Proteína EAR (g/kg/d) AI* ou RDA (g/d) AI* ou RDA (g/kg/d) AMDR de 0,75 g/kg de peso a 1,0 g/kg de peso por dia, mais o adicional de 6 g/dia durante todo o período gestacional. Mais detalhadamente seria um adicional de 1,2, 6,1 e 10,7 g/dia para cada trimestre de gestação, sendo respectivamente o primeiro, o segundo e o terceiro trimestres (SILVA, MURA, 2016, p. 279). Carboidrato Por tudo o que você já viu anteriormente, o açúcar de adição deve ser desencorajado e é importante dar preferência aos carboidratos complexos e alimentos ricos em fibras para auxiliar na motilidade intestinal e melhorar o controle glicêmico. Quadro 6 – Valores diários de EAR e AI ou RDA e AMDR para carboidrato segundo as DRIs, para gestantes Idade Carboidrato EAR (g/d) AI* ou RDA (g/d) AMDR e prevenir a obstipação, juntamente com o consumo aumentado de fibras alimentares. A água deve ser consumida à vontade e o total de água ingerida inclui toda a água contida nos alimentos, bebidas e água potável. Segundo as DRIs, a recomendação de consumo de água para gestantes é de 3 litros por dia (PADOVANI et al., 2006, p. 759). Planejamento Alimentar Como você já viu anteriormente, durante a gestação, as alterações fisiológicas são responsáveis por várias intercorrências como as náuseas e até vômitos, constipação (intestino “preso”), anemia, diabetes etc. As náuseas (enjoos) geralmente ocorrem no início da gestação, até o 3º mês ou primeiro trimestre, e no período da manhã. Podem estar relacionados à presença dos hormônios hCG, estrogênio e hormônio da tireoide, além da hipersensibilidade olfativa, estado físico e emocional e predisposição genética. A alimentação gordurosa ou excessiva em carboidratos refinados pode acentuar as náuseas. Recomenda-se a oferta de alimentos cítricos e gelados e alimentação fracionada em maior número de vezes e menor volume. Deve-se evitar alimentos e molhos gordurosos e açúcar em excesso. Bebida como chá de gengibre com limão pode aliviar os sintomas de náuseas. Sobre a constipação, que é causada principalmente pela pressão uterina sobre o reto e pela menor motilidade intestinal decorrente do efeito da progesterona, pode-se orientar que a gestante aumente a ingestão de líquidos, de fibras e alimentos laxativos (como mamão, ameixa, linhaça etc.), e também de alimentos prebióticos como aveia, chicória, biomassa de banana-verde, cebola, alho etc. A ocorrência de anemia também é frequente entre as gestantes e é considerada um problema de saúde pública no Brasil. O diagnóstico é feito pelos sinais clínicos como tontura, falta de concentração, irritabilidade, confusão mental, apatia, fraqueza muscular, palidez nas mucosas, diminuição do apetite, língua vermelha e lisa; e deve ser confirmado através dos exames laboratoriais de hemoglobina e hematócrito ou hemograma completo. Por essa razão, é importante estimular o consumo de alimentos ricos em ferro heme (carnes), ferro não heme (fontes vegetais de ferro) e vitamina C nas principais refeições e excluir alimentos que possam dificultar a absorção desses nutrientes como café, chá, refrigerantes, leite e derivados e excesso de fibras. Em caso de deficiência de ferro, a suplementação é necessária. Já no caso do Diabetes Mellitus Gestacional (DMG), que é a intolerância à glicose que teve início durante a gestação, deve ser diagnosticado pelo médico. As gestantes devem ser tratadas de forma individualizada pois existem vários fatores de risco associados como o excesso de peso, idade materna, histórico familiar de diabetes etc. A glicemia materna deve permanecer controlada, através de alimentação correta e medicação (se necessário), porque a hiperglicemia irá fornecer ao bebê quantidades extras de glicose, podendo causar macrossomia e hipoglicemia neonatal, além do risco aumentado para diabetes, obesidade e problemas cardiovasculares. A atividade física também pode ser prescrita como parte do tratamento, caso não haja contraindicação médica. A oferta de edulcorantes (adoçantes) deve ser cuidadosa, dando preferência aos naturais como esteviosídeos, aspartame, acessulfame K e sucralose, em pequenas quantidades. Se for possível, consumir as bebidas sem nenhum tipo de edulcorante, a fim de promover a mudança de hábito e reequilibrar o paladar, para sentir cada vez menos necessidade do sabor doce, uma vez que não faz parte dos hábitos alimentares saudáveis. Aos profissionais nutricionistas, o Ministério da Saúde recomenda que seja aplicado um formulário com marcadores de Consumo Alimentar, como foi apresentado na unidade de planejamento alimentar para crianças, e, a partir das respostas e do auxílio de um fluxograma, o profissional faz as recomendações de consumo alimentar, baseadas em uma alimentação saudável. Como forma de orientação, podemos utilizar os Dez Passos para uma Alimentação Saudável, adaptado à gestante, conforme o Ministério da Saúde recomenda (BRASIL, 2013, p. 80): Realizar pelo menos três refeições (café da manhã, almoço e jantar) e dois lanches saudáveis por dia, evitando ficar mais de três horas sem comer. Entre as refeições beba água, pelo menos 2 litros (6 a 8 copos) por dia; 1 Incluir diariamente nas refeições seis porções do grupo de cereais (arroz, milho, pães e alimentos feitos com farinha de trigo e milho), tubérculos como as batatas e raízes como a mandioca/ macaxeira/aipim. Dando preferência aos alimentos na sua forma mais natural, pois além de serem fontes de carboidratos, são boas fontes de fibras, vitaminas e minerais; 2 Procurar consumir diariamente pelo menos três porções de legumes e verduras como parte das refeições e três porções ou mais de frutas nas sobremesas e lanches; 3 Comer feijão com arroz todos os dias ou, pelo menos, cinco vezes por semana, pois esse prato brasileiro é uma combinação completa de proteínas e excelente para a saúde; 4 Consumir diariamente três porções de leite e derivados e uma porção de carnes, aves, peixes ou ovos. Retirar a gordura aparente 5 Aspectos Fisiológicos e Nutricionais da Lactante Você sabia que durante o período de lactação ou produção de leite materno, denominamos a mulher de “lactante” e o bebê que é amamentado, de “lactente”? das carnes e a pele das aves antes da preparação, tornando esses alimentos mais saudáveis; Diminuir o consumo de gorduras. Consuma, no máximo, uma porção diária de óleos vegetais, azeite, manteiga ou margarina. Fique atenta aos rótulos dos alimentos e prefira aqueles livres de gorduras trans; 6 Evitar refrigerantes e sucos industrializados, biscoitos recheados e outras guloseimas no seu dia a dia; 7 Diminuir a quantidade de sal na comida e retire o saleiro da mesa. Evitar consumir alimentos industrializados com muito sal (sódio) como hambúrguer, charque, salsicha, linguiça, presunto, salgadinhos, conservas de vegetais, sopas prontas, molhos e temperos prontos. 8 Para evitar a anemia, consuma diariamente alimentos fontes de ferro como: carnes, vísceras, feijão, lentilha, grão-de-bico, soja, folhas verde-escuras, grãos integrais, castanhas e outros. Consuma junto desses alimentos aqueles fontes de vitamina C como: acerola, laranja, caju, limão e outros. Procure orientação de um profissional de saúde para complementar a sua ingestão de ferro; 9 Manter o seu ganho de peso gestacional dentro de limites saudáveis. Pratique, seguindo orientação de um profissional de saúde, alguma atividade física e evite as bebidas alcoólicas e o fumo. 10 Mas também precisamos diferenciar os termos “lactação” e “amamentação ou aleitamento materno”. A lactação são as mudanças fisiológicas e hormonais que ocorrem no corpo da mulher para que ocorra a produção de leite. A amamentação vai além dos fatores fisiológicos, pois envolve também fatores ambientais, emocionais, socioculturais etc. É o ato de amamentar o bebê com o leite materno. É importante o conhecimento das alterações fisiológicas e das necessidades nutricionais da lactante (ou nutriz), e também a composição nutricional do leite materno e seus benefícios, para que possamos incentivar a ocorrência do aleitamento materno para todos. Fisiologicamente, a lactação está sob controle de hormônios, cuja produção é influenciada por estímulos externos e emoções maternas. Tanto o início quanto a manutenção da lactação envolvem processos neuroendócrinos complexos, que fazem parte os nervos sensoriais dos mamilos, a pele adjacente à mama, a parede torácica, a medula dorsal, o hipotálamo e a hipófise com vários hormônios, especialmente a prolactina, ACTH, glicocorticoides, hormônio de crescimento e ocotocina (VITOLO, 2008, p. 125). Durante a amamentação, a sucção do bebê no seio materno estimula as terminações nervosas do mamilo e aréola, enviando impulsos para o hipotálamo,que estimula a hipófise anterior a secretar o hormônio prolactina, e a hipófise posterior a secretar o hormônio ocitocina. Logo após o nascimento do bebê e a remoção da placenta, a prolactina tem a função de promover a secreção de leite (colostro) pelas células lactotróficas. Inicialmente o controle da produção de leite é endócrino, já que depende dos níveis dos hormônios que participam deste processo. Aproximadamente após 30 minutos do início da mamada, há elevação da prolactina basal, fazendo com que a mama produza leite para o próximo horário de mamada. Como dito anteriormente, a sucção do bebê estimula a região do mamilo, enviando impulsos para o hipotálamo, onde existem fatores estimulantes e inibidores da produção de prolactina. Como a elevação da prolactina basal pode se manter por 3 a 4 horas, as mamadas frequentes ajudam a manter os níveis sanguíneos do hormônio elevados. Do mesmo modo, se as mamadas não forem frequentes, a quantidade de prolactina basal cai e a produção de leite diminui. Como o leite é um alimento proteico e os peptídeos (frações de proteína) podem suprimir a produção de leite, se a mama não for esvaziada, há acúmulo destes peptídeos fazendo com que a produção seja interrompida. Por isso é importante orientar a mãe a trocar de mama somente quando ela esvaziar por completo. Então, o volume de leite a ser produzido irá depender da demanda, ou seja, é diretamente proporcional ao número de mamadas. Quanto mais frequente o bebê mama, maior quantidade é produzida. Se o bebê mama poucas vezes, menor quantidade é produzida. Outra informação importante a ser dada à lactante, é o estímulo às mamadas noturnas porque a prolactina é produzida principalmente à noite. Além disso, ela pode dar sensação de relaxamento e sonolência para a mãe. Outro hormônio importante é a ocitocina, responsável pela expulsão ou ejeção do leite. Sua produção também é estimulada pela sucção do mamilo pelo bebê, que estimula as terminações nervosas, enviando estímulos para o hipotálamo, que sinaliza a adenohipófise a liberar o hormônio ocitocina no sangue, que vai então agir nas células mioepiteliais, em torno dos alvéolos e ductos, contraindo-as e expulsando o leite para os ductos mais largos até que o bebê consiga sugar. Outros estímulos que ajudam a ação da ocitocina, facilitando a descida do leite, são os sentimentos agradáveis, estímulos auditivos e visuais. Já as situações como dor, estresse, ansiedade, cansaço e preocupações inibem esse reflexo pela ação da adrenalina e noradrenalina. Um dos benefícios da amamentação é que a liberação de ocitocina também promove contração das fibras musculares do útero, contribuindo para a involução uterina e uma recuperação mais rápida da mulher no puerpério. Outros benefícios do ato de amamentar que podem ser citados é a redução da incidência de diabetes mellitus tipo 2, redução da prevalência de câncer de mama, de ovário e de útero e outras doenças como hipertensão, hipercolesterolemia, doença coronariana, obesidade, doença metabólica, osteoporose, depressão pós-parto, artrite reumatoide (SOUZA; SIROTA, 2020, p. 63). Logo após o nascimento, o leite secretado até uma semana depois é denominado colostro. Do sétimo ao décimo dia é chamado de leite de transição e somente após o décimo dia é classificado como leite maduro. O colostro muitas vezes é confundido com um “leite fraco”, mas é exatamente o contrário. Embora seja um líquido amarelado e espesso, é rico em proteínas (imunoglobulinas) e com menor conteúdo de gorduras e lactose. Essas proteínas do colostro possuem uma função importante, muito mais imunológica do que nutricional, porque, logo ao nascer, o recém-nascido precisa de proteção no ambiente externo (fase extrauterina). A coloração amarelada do colostro é decorrente da grande concentração de vitaminas lipossolúveis e carotenoides. O colostro possui grande quantidade de Na, K, Cl e Zn e altíssima quantidade de imunoglobulinas, que vai diminuindo do primeiro ao terceiro dia. Por essa razão é importante oferecer o colostro ao bebê nas primeiras 48 horas após o nascimento, mesmo que em pequenas quantidades (VITOLO, 2008, p. 128). Deve haver um encorajamento para que as mães ofereçam seu próprio leite para seus filhos, porque nenhuma fórmula infantil se equipara ao leite humano. Você tem ideia dos benefícios que o leite humano oferece? O leite humano possui inúmeras vantagens como os aspectos econômicos, higiênicos, imunológicos, psicossociais e cognitivos, prevenção de doenças futuras, efeito anticoncepcional e os benefícios do aleitamento sobre o organismo materno. Ele também possui uma composição nutricional balanceada de macronutrientes, promovendo crescimento e desenvolvimento adequados do bebê. Por essa razão, o aleitamento é recomendado durante os dois primeiros anos de vida (CALIL; FALCÃO, 2003, p. 1). Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Necessidades Nutricionais e Planejamento Alimentar para Lactantes O peso que a mulher ganha durante a gestação é para garantir o crescimento e desenvolvimento do feto. Além disso, também acumula reservas energéticas para a lactação, porque o bebê dependerá do leite materno para o seu crescimento e desenvolvimento. Durante a gestação ocorre um armazenamento de 2 a 4 kg de gordura corporal, que podem ser mobilizados para suprir parte da energia adicional para a lactação. Leitura Composição do Leite Humano: O Alimento Ideal Leia o artigo a seguir para conhecer a composição nutricional completa do leite materno e todos os seus benefícios. https://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/62475/65272 A lactação é o período com maior necessidade de nutrientes dentro do ciclo reprodutivo, maior inclusive que a demanda requerida para a gestação. Para a produção de leite materno nos quatro primeiros meses após o parto, é necessária uma quantidade de energia equivalente ao gasto energético total da gravidez (SILVA; MURA, 2016, p. 317). Como a nutriz também apresenta necessidade aumentada de proteína, vitaminas e minerais, o aumento energético deve ser acompanhado de uma alimentação equilibrada e fracionada ao longo do dia. Energia Estima-se que nos primeiros seis meses após o parto, a mulher produz uma média de 750 a 800 ml de leite/dia e no segundo semestre, 600 ml/dia. Para produzir 100 ml de leite, são necessárias 85 kcal adicionais. Segundo o Institute of Medicine, as mulheres com ganho de peso adequado durante a gestação, precisam de um adicional de 500 kcal/dia no primeiro semestre e 400 kcal/dia no segundo semestre. Quadro 9 – Equações para estimativa da necessidade energética (EER) de lactantes Idade da mãe Estágio pós-parto NAF EER (kcal/dia) + 540* – 140** Ativo EER = 710,25 – (7,01 × idade) + (6,54 × altura) + (12,34 × peso) + 540* – 140** Muito ativo EER = 511,83 – (7,01 × idade) + (9,07 × Sedentárioaltura) + (12,56 × peso) + 540* – 140** Idade da mãe Estágio pós-parto NAF EER (kcal/dia) 7 a 12 meses (amamentação parcial) Sedentário EER = 584,90 – (7,01 × idade) + (5,72 × altura) + (11,71 × peso) + 380*** Pouco ativo EER = 575,77 – (7,01 × idade) + (6,60 × altura) + (12,14 × peso) + 380*** Ativo EER = 710,25 – (7,01 × idade) + (6,54 × altura) + (12,34 × peso) + 380*** Muito ativo EER = 511,83 – (7,01 × idade) + (9,07 × altura) + (12,56 × peso) + 380*** NAF: Nível de Atividade Física: Sedentário: atividades diárias típicas (atividades domésticas); Pouco ativo: atividades diárias típicas + 30 a 60 minutos de atividades moderadas (ex.: caminhadas com velocidade 5 a 7 km/hora); Ativo: atividades diárias típicas + no mínimo 60 minutos de atividades moderadas; Muito ativo: atividades diárias típicas + no mínimo 60 minutos de atividades moderadas + 60 minutos de atividades vigorosas ou 120 minutos de atividades moderadas. Idade da mãe Estágio pós-parto NAF EER (kcal/dia) Observações: * Energia para produção de leite, baseado em taxas de produção de leite para mulheres ofertando aleitamento materno exclusivo nos 6 primeiros meses pós-parto; ** Energia de mobilização da reserva de tecidos no período pós-parto (somente para mulheres em aleitamento materno exclusivo); *** Energia para produção de leite baseado em taxas de produção de leite para mulheres ofertando aleitamento materno parcial nos 7 a 12 primeiros meses pós- parto. Fonte: Adaptado de NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING AND MEDICINE, 2023 Proteína Para a produção de leite, o Institute of Medicine recomenda um acréscimo de 25 g de proteína/dia, estimado a partir dos dados da composição do leite e do volume médio produzido por dia. Quadro 10 – Valores diários de EAR e AI ou RDA e AMDR para proteína segundo as DRIs, para lactantes Idade Proteína EAR (g/kg/d) AI* ou RDA (g/d) AI* ou RDA (g/kg/d) AMDR maternas na gravidez Anatomia da mama e amamentação | Parte IAnatomia da mama e amamentação | Parte I https://www.youtube.com/watch?v=U69QlA1FeJk https://www.youtube.com/watch?v=j0F8UmIJHWc Anatomia da Mama e Amamentação – Parte II Leitura Pirâmide Alimentar para Gestantes Eutróficas de 19 a 30 Anos Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Alimentação na Gestação e Puerpério Anatomia da mama e amamentação | Parte IIAnatomia da mama e amamentação | Parte II https://www.scielo.br/j/rn/a/mY4q5mH5TGcKcjKY5Qv7KTD/?format=pdf&lang=pt https://www.youtube.com/watch?v=OD4gzQ2ig5U Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Protocolo de Uso do Guia Alimentar para a População Brasileira na Orientação Alimentar da Gestante – Fascículo 3 Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://www.scielo.br/j/rn/a/pn34GrZdz6rrFfDwqCpycFH/?format=pdf&lang=pt http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_guia_alimentar_fasciculo3.pdf BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: . Acesso em: 09/11/2023. CALIL, V. M. L. T.; FALCÃO, M. C. Composição do leite humano: o alimento ideal. Revista de Medicina, [S. l.], v. 82, n. 1-4, p. 1-10, 2003. DOI: 10.11606/issn.1679-9836.v82i1- 4p1-10. Disponível em: . Acesso em: 10/11/2023. ENERGY and protein requirements. Report of a joint FAO/WHO/UNU Expert Consultation. World Health Organ Tech Rep Ser., [S. l.], v. 724, p. 1-206, 1985. INSTITUTE OF MEDICINE. Dietary Reference Intakes: the essential guide to nutriente requirements. Washington, DC: The National Academies Press, 2006. DOI: . NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING AND MEDICINE. Dietary Reference Intakes for Energy. 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