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Prévia do material em texto

1
M A T E R I A L G R A T U I T O 
Treino de identificação 
das classes gramaticais 
em textos literários
Olá! Professora Amanda aqui!
Vocês certamente já me viram falar sobre a importância de, como 
professor, estar sempre pensando nos melhores exercícios para o 
aprendizado dos alunos. Nada de ficar repetindo somente os mesmos, 
a cada ano; mas, sim, buscar o melhor caminho para que todos 
cheguem à visão do que foi ensinado. 
Sei que, nos estudos de morfologia, quando falo para treinarem as 
classes gramaticais em textos literários, muitas vezes aparece a 
dificuldade de selecionar os que deem oportunidade para os alunos 
desenvolverem essa sensibilidade morfológica com relação às 
palavras. Ou o texto não é interessante, ou há nele pouca variedade 
dos diferentes tipos de palavras, ou simplesmente não temos tempo 
para procurar em antologias e obras literárias os melhores… 
Mas eu decidi ajudar você também com isso. Além da grande 
quantidade de material para treino e exercício de morfologia e sintaxe 
que há nos meus módulos do Curso Prático de Letramento, selecionei 
aqui pequenos textos e trechos de obras literárias que eu mesma 
usaria para ensinar cada classe gramatical, individualmente.
Em uns, há oportunidade de trabalhar a compreensão do substantivo; 
em outros, a do adjetivo; em um outro, há diversos tipos de pronome; 
em outro ainda, há particípios regulares e irregulares; em outro, 
mais verbos com diferentes flexões. Enfim, e o mesmo com todas as 
classes gramaticais. 
Espero que aproveitem esse pequeno – mas muito rico e útil – 
material gratuito para estudo da morfologia da língua portuguesa.
Divirtam-se! 
2
Substantivos:
O Saci-Pererê
Olívio do Lago
O saci habita na cavidade dos bambus e gosta da agitação dos 
redemoinhos de vento. É escuro como a noite sem luar e traz 
habitualmente, na cabeça, uma carapuça rubra como sangue. Tem um 
enorme olho no centro da testa, saltita com agilidade sobre a única perna 
que possui. Surge inopinadamente numa curva de estrada, atira-se 
às crinas dos cavalos que passam, grita-lhes com estridor ao 
ouvido e fá-los disparar em desabalado e estrepitoso 
galope pelo campo afora. Assusta os pobres e 
bondosos pretos de carapinha branca, aparecendo-
lhes de súbito à frente. Entra nos casebres pelo 
buraco das fechaduras ou por uma fenda 
da porta, arrebenta, por simples prazer, os 
móveis e vasilhas, faz desandar o sabão 
caseiro em preparo, lança punhados de 
cinza sobre os doces que borbulham, 
fervendo e desmanchando-se, dentro 
dos grandes tachos de ferro, apaga 
o fogo rubro e crepitante, derrama no 
chão de terra socada os potes de água, 
e, ora assobiando com viva alegria, ora 
tirando longas fumaçadas do cachimbinho 
de barro, salto daqui, pula dacolá, a tudo pondo 
em pandarecos. E, depois, desaparece, rápido 
como o relâmpago, para recomeçar mais adiante 
suas maldosas travessuras.
3
Adjetivos:
O Cisne
Buffon
Formas arredondadas, graciosos contornos, alvura deslumbrante 
e dura, movimentos flexíveis, tudo no cisne nos agrada aos 
olhos. Pela facilidade, pela liberdade de seus movimentos na 
água, devemos reconhecê-lo, não somente como o primeiro dos 
navegadores alados, mas ainda como o mais belo modelo, que, 
para a arte da navegação, nos ofereceu a natureza. Seu aspecto 
ereto e seu peito arredondado parecem, com efeito, figurar a proa 
de um navio, ao fender as ondas: seu largo estômago representa a 
quilha; o corpo, inclinado para a frente ao singrar as águas, ergue-
se atrás como uma popa; a cauda é um verdadeiro leme; os pés 
parecem largos remos e as grandes asas, semiabertas ao vento 
e levemente pandas, são velas a impelirem o navio, que é, ao 
mesmo tempo, navio e piloto.
4
Particípios:
Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Pilotos lhe pedia o Capitão,
Por quem pudesse à Índia ser levado;
Diz-lhe que o largo prêmio levarão
Do trabalho que nisso for tomado.
Promete-lhos o Mouro, com tenção
De peito venenoso, e tão danado,
Que a morte, se pudesse, neste dia,
Em lugar de pilotos lhe daria.
Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
Que aos estrangeiros súbito tomou,
Sabendo ser sequazes da verdade
Que o filho de Davi nos ensinou.
Ó segredos daquela Eternidade,
A quem juízo algum não alcançou!
Que nunca falte um pérfido inimigo
Àqueles de quem foste tanto amigo!
Partiu-se disto enfim co’a companhia,
Das naus o falso Mouro despedido,
Com enganosa e grande cortesia,
Com gesto ledo a todos e fingido.
Cortaram os batéis a curta via
5
Das águas de Netuno; e recebido
Na terra do obsequente ajuntamento
Se foi o Mouro ao cógnito aposento.
 
Do claro assento etéreo, o grão Tebano,
Que da paternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento lusitano
Ao Mouro ser molesto e aborrecido,
No pensamento cuida um falso engano,
Com que seja de todo destruído.
E enquanto isto só n’alma imaginava,
Consigo estas palavras praticava:
 
“Está do Fado já determinado,
Que tamanhas vitórias tão famosas,
Hajam os Portugueses alcançado
Das indianas gentes belicosas.
E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei de sofrer que o Fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça?
“Já quiseram os Deuses que tivesse
O filho de Filipo nesta parte
Tanto poder, que tudo submetesse
Debaixo de seu jugo o fero Marte.
Mas há-se de sofrer que o Fado desse
6
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Qu’eu co’o grão Macedônio e o Romano,
Demos lugar ao nome lusitano?
“Não será assim; porque antes que chegado
Seja este capitão, astutamente
Lhe será tanto engano fabricado
Que nunca veja as partes do Oriente.
Eu descerei à Terra, e o indignado
Peito revolverei da Maura gente,
Porque sempre por via irá direita,
Quem do oportuno tempo se aproveita.”
7
8
Pronomes:
Confissão de Pedro
Fagundes Varela
“- O que se diz de mim por essas vilas
E por essas cidades? O que pensa
E fala o pobre povo a meu respeito?
O que julgam aqueles que me cercam, 
E pedem meu auxílio, e atentos ouvem
Da Nova Lei as máximas fecundas? – 
- Dizem uns que és Elias, lhe respondem.
Outros que és o Batista, outros ainda
Que és Jeremias, mas ninguém duvida
Que tu sejas do Eterno um mensageiro.
- E tu, quem dizes que sou eu? – pergunta
A Pedro o Galileu – Tu és o Cristo,
O Filho de Deus vivos, - lhe responde 
O velho pescador no mesmo instante.
- Oh! Bem-aventurado és tu, pois creste
Não no que o sangue revelou e a carne,
Senão meu Pai que está no céu, - exclama
Comovido Jesus; - e pois, te digo 
Que tu és Pedro e que serás a pedra
Sobre a qual fundarei a minha Igreja,
E nunca poderão do inferno as portas
Prevalecer contra ela! – Ouve, não tremas.
Do eterno Reino te darei as chaves,
E tudo o que ligares sobre a terra
Será no céu ligado, e tudo aquilo
Que sobre a terra desligado houveres,
Desligado será no céu. – Por ora
Cumpre sobre o que ouvis guardar silêncio.”
9
Artigos:
O Galo e a Pérola
Curvo Semedo
Num monturo esgravatando
Formoso galo aguerrido,
Acha uma pérola fina, 
Qu’havia um nobre perdido.
Por três vezes a escoucinha
Sem nela querer pegar, 
À quarta erguendo-a no bico,
Se põe a cacarejar.
Vêm logo algumas galinhas
Cuidando qu’era algum grão;
Mas vendo a pérola, tristes,
Vão-se, deixando-a no chão.
Acaso passa um ourives,
E apanhando-a, alegre diz:
“É uma pérola fina!
Que belo achado que fiz!”
“Homem, lhe pergunta o galo, 
Tanto essa joia merece?
Pois eu por um grão de milho
Te dera mil, se as tivesse.”
Pérola em poder de galo,
Que lhe não sabe o valor,
É como entre as mãos d’um néscio
As obras de um sábio autor
10
Numerais:
O prazer de viajar
Eça de Queirós
11
Ia viajar! Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo 
o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia no 
vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer 
de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente 
limonadas mornas que me escangalhavam a entranha.Catorze vezes 
subi derreadamente, atrás num criado, a escadaria desconhecida de 
um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e 
estranhei uma cama desconhecida donde me erguia, estremunhado, 
para pedir em língua desconhecidas um café com leite que sabia a 
fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Perdi uma chapeleira, 
quinze lenços e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do 
pé direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente 
que me chegasse o boeuf-à-la-mode, já frio, com molho coalhado – 
e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus que eu provava 
e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra 
dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e 
nove Catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em 
catorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tetos de 
Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitetura, verduras, 
sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis. E o dia 
mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, 
encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto... 
Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
Verbos:
Berço pátrio
Joaquim Manuel de Macedo
Um célebre poeta polaco, descrevendo em magníficos versos uma 
floresta encantada do seu país, imaginou que as aves e os animais ali 
nascidos, se por acaso longe se achavam, quando sentiam aproximar-
se a hora da sua morte, voavam ou corriam e vinham todos expirar à 
sombra das árvores do bosque imenso, onde tinham nascido.
O amor da pátria não pode ser explicado por mais bela e delicada 
imagem. Coração sem amor é um campo árido, quase sempre ou 
sempre cheio de espinhos e sem uma única flor que nele se abra e o 
amenize. Haveria somente um homem em quem palpitasse coração 
tão seco, tão enregelado e sem vida de sentimento: o homem que não 
amasse o lugar do seu nascimento.
Depois dos pais, que recebem o nosso primeiro grito, o solo pátrio 
recebe os nossos primeiros passos: é um duplo receber que é duplo 
dar. As idéias grandes e generosas dilatam o horizonte da pátria: a 
religião, a língua, os costumes, as leis, o governo, as aspirações fazem 
de uma nação uma grande família e de um país imenso a pátria de 
cada membro dessa família.
12
Advérbios:
Canção do Exílio
Gonçalves Dias
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite – 
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
13
Preposições:
O Amor Materno
Garcia Redondo
No fundo da chácara, numa 
touceira de arbustos, um menino 
encontrou um ninho, onde três avezinhas mal emplumadas dormiam. 
Contente do seu achado e no desejo inconsciente de se apoderar 
dele, o menino meteu o braço por entre a trama dos galhos e das 
folhas e aproximou a mão cobiçosa dos pobres inocentes, que logo 
ergueram para ele o biquinho guloso. Nesse momento, o menino ouviu 
pipilos angustiados e o sussurro duma asa que lhe roçou pelo rosto. 
Depois sentiu que essa asa lhe batia nos olhos e que um bico audaz 
lhe espicaçava o rosto. Tímido, receoso dessa inesperada agressão, 
retirou o braço e olhou. Era um tico-tico, a mãe das avezinhas no ninho, 
que defendia a prole, e continuou a atacar o menino, enquanto ele 
permaneceu junto à touceira de arbustos. Saindo dali, muito admirado 
da audácia e da coragem dessa ave minúscula, o menino contou o 
caso à mãe. E a mãe disse-lhe: “Não há que estranhar, meu filho: essa 
avezinha faz pelos filhos o que eu faria por ti.” 
14
Conjunções:
Seleta dos Sermões
Pe. Antônio Vieira
“Mas do que éreis e do que sois, passemos ao que tínheis e ao que 
tendes. Entronizado José no governo e império do Egito, soube el 
rei Faraó que tinha pai e irmãos na terra de Canaã, e mandou-os 
logo chamar para que viessem ser companheiros da fortuna de seu 
irmão. “Vinde logo, e não deixeis coisa alguma das vossas alfaias, 
porque todas as riquezas do Egito hão de ser vossas.” Este porquê, 
não entendo. Antes, porque todas as riquezas do Egito haviam de ser 
suas, não era necessário que trouxessem coisa alguma do que tinham 
em Canaã. Pois por que lhes manda Faraó que tragam todas as suas 
alfaias? Por isso mesmo: para que cotejando as alfaias da fortuna 
presente com as da fortuna passada, conhecessem melhor a mercê 
que o rei lhes fizera.”
15
Interjeições:
Meu ser evaporei na lida insana
Bocage
Meu ser evaporei na lida insana 
Do tropel de paixões que me arrastava;
Ah! Cego! Eu cria! Ah! Mísero! Eu sonhava 
Em mim, quase imortal a essência humana. 
De que inúmeros sóis a mente ufana 
Existência falaz me não doirava! 
Mas eis sucumbe a Natureza escrava 
Ao mal, que a vida em sua origem dana. 
Prazeres! Sócios meus, e meus tiranos! 
Esta alma, que sedenta em si não coube, 
No abismo vos sumiu dos desenganos. 
Deus! Oh! Deus!... quando a morte a luz me roube, 
Ganhe um momento o que perderam anos, 
Saiba morrer o que viver não soube. 
16
17
Amanda Stella
@amandastel lac

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