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1 TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO BELO HORIZONTE / MG 2 SUMÁRIO Nenhuma entrada de sumário foi encontrada. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 3 1 TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO – TGD O termo transtorno foi utilizado como forma de evitar problemas ainda maiores inerentes ao uso de termos tais como 'doença' ou 'enfermidade. A versão oficial admite que transtorno não seja um termo preciso, entretanto, foi dada preferência a transtorno, utilizado como tradução da expressão disorder na primeira tradução oficial do DSM-IIIR (Manual para Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais, 3a. edição, revisada da Associação Americana de Psiquiatria, APA, 1995), por entender que teria um caráter mais apropriado. É importante, pois, perceber que a denominação transtorno assume significações diferentes nas variadas áreas da ciência brasileira. Para fins deste trabalho optamos pela utilização do termo transtornos globais do desenvolvimento – TGD e não por transtornos invasivos do desenvolvimento ou transtornos abrangentes do desenvolvimento por acreditarmos que seja o que melhor expressa o quadro (mas todos os termos são sinônimos). O termo “Transtornos Invasivos do Desenvolvimento”, apresenta como característica do quadro o prejuízo severo e invasivo em diversas áreas do desenvolvimento, tais como: habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação, ou presença de comportamento, interesses e atividades estereotipados. Os prejuízos qualitativos que definem essas condições representam um desvio acentuado em relação ao nível de desenvolvimento ou idade mental do indivíduo. O quadro de transtornos globais do desenvolvimento abrange o autismo clássico, a síndrome de Asperger, a síndrome de Rett e o transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação. Dentro do amplo quadro de Transtornos globais do Desenvolvimento encontra-se o autismo infantil, descrito e assim denominado por Kanner, em 1943. A condição então identificada se caracteriza pela presença de prejuízos significativos nas áreas da comunicação, interação social e comportamento (SCHWARTZMAN, 2003). Em relação ao autismo, admite-se, atualmente, que o quadro tenha várias etiologias possíveis, graus muito diversos de severidade e causas neurobiológicas presentes desde o nascimento. Indiscutivelmente, há fatores genéticos em jogo, e a presença de mais de um membro afetado em uma mesma família pode ocorrer, principalmente, nos casos menos severos (SCHWARTZMAN, 2003). Dada a grande variabilidade presente no quadro prefere-se falar em um espectro de condições autísticas. Dentro deste espectro situa-se o autismo clássico, tal como descrito inicialmente e a síndrome de Asperger, na qual a inteligência está mais preservada e o atraso no EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 4 desenvolvimento da linguagem é menor ou inexistente. Para grande parte dos autores, a síndrome de Asperger seria como autismo de alto funcionamento intelectual (SCHWARTZMAN, 2003). A prevalência do autismo já foi estabelecida anteriormente em torno de 410:10.000, e atualmente é considerada como 1:1.000, enquanto que os TGD teriam prevalência de 1:150 a 1:100. Este aumento na prevalência destas desordens se deve, possivelmente, a uma mudança no conceito diagnóstico, que se tornou mais abrangente, a um número maior de casos identificados em função do reconhecimento mais frequente. Schwartzman (2003), Gadia C.A. et alii (2004) os TGD são mais comuns no sexo masculino e são acompanhados, em cerca de 70% dos casos, de graus variados de deficiência mental. São comuns com morbidades com inúmeras outras condições médicas e poderíamos citar, como exemplo, a síndrome do xfrágil, a síndrome fetal alcoólica, a síndrome da rubéola congênita, os prejuízos sensoriais (visuais e/ou auditivos), dentre outros. Os TGD de uma maneira geral e o autismo em particular causa grande impacto familiar e social. Muitas crianças e de jovens com transtorno dessa natureza são meramente reconhecidos como deficientes mentais, hiperativos ou com distúrbios do comportamento. Quanto ao aspecto comportamental, a criança com TGD apresenta intolerância frente a alterações e mudanças de rotina, expressando- se com reações de oposição. Seus comportamentos e interesses são limitados, tendendo a ser repetitivos e estereotipados, conforme Mercadante et al, (2006). O custo social e o sofrimento determinado pelas dificuldades de adaptação dessa população justificam um investimento de nossa sociedade para uma maior compreensão desses estados e para o estabelecimento de práticas racionais de diagnóstico e de intervenção. A avaliação sistematizada com o diagnóstico preciso e o reconhecimento das habilidades existentes está na base das intervenções possíveis, conforme Schwartzman, (2003); Mercadante et. Al. (2006). Em relação a modelos de intervenção pedagógica sabe-se que existe uma defasagem entre o conhecimento atual originado pelos estudos de base neurobiológica do autismo e as propostas de intervenção. De fato, apesar de existirem certos métodos de intervenção rotineiramente aplicados não há estudos sistemáticos que avaliem sua qualidade (BOSA, 2006). O movimento que tem sido gerado para a efetivação do direcionamento de investimentos em pesquisas, em diretrizes de saúde pública, em políticas públicas de inclusão escolar, por exemplo, ainda não se constituíra em práticas capazes de dar respostas adequadas à complexa problemática que envolve os sujeitos com TGD e suas famílias. A proposta de desenvolver uma educação inclusiva para surdos, cegos, pessoas com baixa visão e outras necessidades educacionais especiais é um desafio recente na cultura educacional. Ao se tratar da inclusão de alunos com transtornos globais do desenvolvimento, estamos diante de uma questão não somente desafiante como também polêmica, principalmente se considerarmos a singularidade e divergências conceituais e EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 5 teóricas sobre transtornos, uma vez que ciências como a Neurologia, a Psiquiatria e a Psicologia estão aptas a diagnosticá-los utilizando-se inclusive de diferentes instrumentos. Serra (2009), “entidades diagnósticas do TGD que têm em comum a ruptura nos processos de socialização, comunicação e imaginação, comprometendo o aprendizado antes dos três anosde novas informações e compromissos, mas o tempo é o grande inimigo e as intervenções devem começar o quanto antes. Apesar de todas as limitações de interação social que o TEA impõe, quanto mais e melhor incluída a criança estiver, melhores serão os ganhos para ela e para os colegas. No Brasil, a lei (nº 12.7764, criada em 2012) estabelece a Política Nacional de Proteção dos Direitos de Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, o que garante a obrigatoriedade da matrícula em escola regular, a acomodação do ambiente e do currículo escolar, a elaboração de programas de ensino individualizado e o oferecimento de profissionais de apoio para os alunos. Além da boa vontade e da disposição das professoras, os pais devem cobrar da Instituição de ensino um trabalho que envolva o acesso da equipe clínica à escola, o treinamento da equipe pedagógica e a orientação aos colegas (e seus familiares) para que as crianças com Transtorno de Espectro Autista possam ter ganhos reais de tal inclusão! Por fim, ainda se passarão alguns 2 de abril até que o Brasil possa desligar a sirene do alerta e comemorar com a tranquilidade azul do dever cumprido. Mas isso só será possível se os pais receberem informações rápidas e corretas, os profissionais seguirem os modelos baseados em evidência científica e se as escolas e sociedades respeitarem e cumprirem os princípios da inclusão. 8 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TRABALHO COM O AUTISMO O processo de alfabetização é muito mais do que reconhecer símbolos e letras, é saber interpretar o que está a sua volta com a leitura de mundo, como diz Freire (1993). Cada sujeito realiza essa aprendizagem de uma forma diferente. Esse aprender de formas diferenciadas também diz respeito às pessoas com deficiência (PD), que, em decorrência das especificidades EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 24 de suas deficiências, elas aprendem os conteúdos de forma peculiar e cada uma apresenta características próprias como resposta ao trabalho pedagógico. Portanto, as diferentes deficiências geram necessidades e formas educativas especiais próprias, o que não é diferente em relação às síndromes. Este também é o caso de pessoas com autismo, foco maior deste Objeto de Aprendizagem. De acordo com Mello (2004), o autismo é uma síndrome que se caracteriza por desvios qualitativos na comunicação, na interação social e no uso da imaginação. As pessoas com autismo apresentam, desde cedo, um distúrbio se vero do desenvolvimento, principalmente relacionado à sua comunicação e interação social. Entretanto, em alguns casos, podem apresentar incríveis habilidades motoras, musicais, de memória e outras, que muitas vezes não estão de acordo com a sua idade cronológica. Além disso, as pessoas com autismo possuem um estilo cognitivo diferenciado. Todas estas características peculiares ao autismo exigem uma metodologia específica para ensiná- los. Considerando-as, portanto, ressalta-se a importância do computador no processo de ensino e aprendizagem de pessoas com autismo. O computador dispõe de recursos como animação, som, efeitos especiais, tornando o material mais interessante e atrativo para todas as pessoas, não só para aquelas com algum tipo de deficiência ou com autismo. Com esse recurso, o aluno talvez seja capaz de ficar “ligado” ao material por mais alguns minutos, o que pode ser um grande ganho. Consequentemente, a ferramenta que tem se mostrado cada vez mais efetiva na educação de pessoas com autismo, é o computador. Portanto, levando este fato em consideração, o Objeto de Aprendizagem se torna um recurso pedagógico importante, uma vez que contribui para o processo educacional das pessoas com autismo porque pode proporcionar, além da comunicação, um conhecimento de mundo que favoreça o processo de alfabetização. A concepção pedagógica para o OA “Alfabetização” visou uma proposta que contribuísse para o ensino de pessoas com autismo, auxiliando em seu processo de conhecimento e comunicação com o mundo ao seu redor. Tendo em vista que as defasagens decorrentes dessa síndrome podem ser relacionadas aos modos de comunicação com o mundo externo, a proposta educativa deste software considera não só os conteúdos escolares, mas também a vida em sociedade de forma geral. Portanto, espera-se que este Objeto de Aprendizagem contribua no processo educacional das pessoas com autismo porque poderá proporcionar a elas, além da melhora na sua comunicação, um conhecimento de mundo que favorece o processo de alfabetização para qualquer aluno, independentemente de suas necessidades especiais. Para contribuir com o processo de “alfabetização” de pessoas com autismo é fundamental considerar as suas dificuldades de comunicação com o mundo externo. Portanto, as atividades propostas por este OA buscam contribuir para expandir o EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 25 conhecimento de mundo, procurando contextualizar o que se pretende ensinar com a realidade do aluno. De acordo com Freire (1993, p.11) “a leitura de mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. ” As pessoas com autismo têm dificuldades em estabelecer relações entre eventos e, consequentemente, estabelecer generalizações. Tendo em vista essas dificuldades, o OA visa também uma “alfabetização” que auxilie a pessoa com autismo a também incorporar novos elementos ao seu contexto de mundo. Possibilita que avance em termos de abstração e generalização de conhecimento sobre a realidade a sua volta. Além disso, este OA aproveita ao máximo os recursos que podem ser oferecidos pelo computador, inclusive agregando componentes como vídeos, imagens e sons, facilitando ao aluno o contato com uma atividade bastante aproximada da realidade. A inclusão escolar tem como objetivo inserir, sem distinção, todas as crianças e adolescentes com variados graus de comprometimento social e cognitivo em ambientes escolares tradicionais, com intuito de diminuir o preconceito e estimular a socialização das pessoas com desenvolvimento atípico para que desfrutem dos espaços e ambientes comunitários. O Transtorno do Espectro Autista teve sua descoberta há pouco tempo na história das psicopatologias do desenvolvimento. Inicialmente foi considerado pelo psicanalista Bruno Bettelheim, como uma doença relacional, com o foco do problema na relação didática, mãe bebê, originando a expressão “mãe geladeira”, e sua causa associada a fatores ambientais. Porém, na atualidade, considera-se o autismo como de ordem multifatorial, com etiologias variadas e de origem neurológica. Os problemas de comunicação englobam atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem, tais como: Repetir palavras e frases (ecolalia); Inverter os pronomes; Dar respostas deslocadas do contexto da pergunta; Não responder quando lhe é mostrado algo; Não utilizar gesto ou utilizar muito pouco; Apresentar fala monótona ou cantada (uso da prosódia); Não compreender as nuanças da língua como o sarcasmo ou provérbios.EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 26 A linguagem escrita, falada e a não verbal, são constituídas por sinais que emitimos o tempo todo, pela fala, pelos gestos, pelas expressões corporais e faciais. As pessoas com autismo não possuem a capacidade de avaliar estas formas de comunicação. A ideia básica de aprendizagem acontece como um processo de construção que se dá na interação constante e permanente do indivíduo com o meio familiar e escolar e, que, portanto, necessita estabelecer parcerias para que ele aconteça. Não basta conhecer o transtorno e sua manifestação na criança, isto é apenas um passo para se realizar processo de educação, o outro é integrar-se à escola e apoiar e orientar a família para que ambos caminhem na mesma direção. A legislação brasileira é bastante avançada com relação à inclusão escolar e toda escola deveria atender aos princípios constitucionais, porém, ela ainda é bastante excludente quando não são receptivas as características e condições especiais do autismo. O educador, para desenvolver um perfil de aprendizagem individualizado, tem que criar parcerias para estabelecer uma matriz de tomada de decisão, que deve ser organizada pelos sintomas apresentados pelo autista. Esta organização permite que os sintomas sejam reinterpretados em termos de limitação especificas para receber, processar, armazenar ou recuperar a experiência com significado. Diante da complexidade educacional que o transtorno apresenta, faz-se necessário realizar a orientação e a capacitação dos educadores dentro de sistemas de apoio que sirvam de diretriz para realização do processo ensinoaprendizagem do aluno com autismo, na desmistificação das representações preconcebidas e não científicas que interferem na atuação do educador, melhorando a eficácia dos profissionais e, com isso, a possibilidade do aluno autista adquirir novas habilidades que o ajude no seu desenvolvimento. Muito embora tenhamos encontrado estes dados, é necessário que outros estudos sejam realizados nessa área, por tratar-se de campo amplo e recente na história educacional do país. Várias leis, decretos, portarias e outros documentos legais existem para dar suporte à implementação da inclusão nas escolas regulares, porém só a lei ‘no papel’ não dá a garantia de inclusão. É necessário que a lei passe a vigorar no interior das escolas regulares, saindo da teoria e se efetivando na prática. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 27 E para que ocorra o exercício da inclusão mudanças são necessárias, não só mudanças físicas no ambiente escolar como também mudanças no interior do ser humano, para que haja a conscientização de todas as pessoas com relação à inclusão. É preciso vencer o preconceito e dar oportunidade para conviver com a diversidade. A proposta de inclusão tal como foi abordada na pesquisa tem seus aspectos favoráveis, mas há também os desfavoráveis. De forma equivocada, muitos professores e outros profissionais pensam que para praticar a inclusão basta colocar o aluno com necessidades especiais matriculado em uma classe regular, porém a inclusão escolar vai muito além de uma inclusão social. É necessário que na inclusão escolar o aluno especial se desenvolva, que ele aprenda, como os demais alunos, salvo suas limitações. Quando ingressam no ensino fundamental, a rotina muda completamente: os alunos - incluindo os especiais, inclusos - passam a ter vários professores de diversas disciplinas, cada um com sua cultura, com sua forma de lecionar, e com apenas 50 minutos para ensinar seu conteúdo. Os alunos, em grande parte, frente a estas mudanças, apresentam alterações no comportamento e no comprometimento com os estudos. Para os alunos autistas que possuem certa resistência à quebra de rotinas, a passagem da educação infantil para o ensino fundamental, é mais delicada ainda. Percebe-se que, tal como vem sendo incluído nesta escola, Leo não tem tido tanto progressos quanto poderia ter, caso houvesse maior comprometimento por parte do sistema escolar, professores e alunos com a inclusão. Ter o aluno com necessidades especiais ‘incluído’ numa sala de aula regular, mas não desenvolver atividades com ele, não fazer com que ele tenha avanços e acompanhamento adequado acaba se tornando uma prática, de certa forma, excludente. Vale ressaltar que no ano de 2010, a pesquisadora como professora de matemática do Leo, não conseguiu alcançar, da maneira esperada, seus objetivos com relação à aprendizagem matemática de seu aluno especial, seja por sua ainda inexperiência, em lecionar para tais alunos, seja pela falta de apoio, seja pela falta de condições ideais para um trabalho em conjunto com demais profissionais da escola. Desta forma, alguns jogos elaborados neste estudo e oferecidos ao Leo não tiveram um tratamento mais adequado; os momentos em que Leo esteve em contato com os jogos e suas atividades, há de se considerar que foram poucos para se obter uma análise minuciosa a respeito de suas respostas, diante da matemática envolvida nestes jogos. Sendo assim, a pesquisadora teve alguma dificuldade, na finalização deste estudo, em descrever a aprendizagem matemática adquirida pelo aluno Leo através dos jogos propostos. Diante destes fatores, reforça-se que o presente estudo teve como principal foco a inclusão escolar, ficando o detalhamento da aplicação dos jogos para ser aprofundado e melhor analisado em outra situação, que priorize investigar qual a relação do Leo com a matemática proposta nas atividades dos jogos. A inclusão, em alguns casos, é uma proposta promissora, mas apenas no papel, pois a prática se mostra bem diferente e excludente, porém mesmo nos casos mais críticos é preciso salientar a importância da inclusão social a qual permite a convivência de alunos especiais e demais alunos, o que proporciona ganhos a todas as pessoas da escola, pois é dada a EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 28 oportunidade a elas de conviverem com a diversidade. Os critérios diagnósticos exigem que os sintomas se tornem aparentes antes da idade de três anos. O autismo afeta o processamento de informações no cérebro, alterando a forma como as células nervosas e suas sinapses se conectam e se organizam; como isso ocorre ainda não é bem compreendido. Intervenções precoces em deficiências comportamentais, cognitivas ou da fala podem ajudar as crianças com autismo a ganhar autonomia e habilidades sociais e de comunicação. Embora não exista nenhuma cura conhecida, há relatos de casos de crianças que se recuperaram. Poucas crianças com autismo vivem de forma independente depois de atingir a idade adulta, embora algumas tenham sucesso. Tem se desenvolvido uma cultura do autismo, com alguns indivíduos buscando uma cura enquanto outros creem que o autismo deve ser aceito como uma diferençae não tratado como um transtorno. 9 INCLUSÃO DO AUTISMO Nas últimas semanas, um tema não muito frequente tem tomado as manchetes de jornais e revistas: o autismo. As polêmicas giram em torno da Lei nº 12.764, que institui a "Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista". Sancionada em dezembro do ano passado pela presidente Dilma. Rousseff, a medida faz com que os autistas passem a ser considerados oficialmente pessoas com deficiência, tendo direito a todas as políticas de inclusão do país - entre elas, as de Educação. Pode parecer estranho criar uma lei voltada especificamente ao autismo, sabendo que já existem no Brasil diretrizes gerais para a inclusão. A medida, no entanto, faz sentido. Segundo a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP), relatora do substitutivo do projeto que foi aprovado pela Câmara, "por não haver um texto específico que dissesse que os autistas são deficientes, muitos deles não podiam usufruir dos benefícios que já existem na legislação brasileira". Falando especificamente de Educação, a lei é vista por especialistas como mais um reforço na luta pela inclusão. O texto estabelece que o autista tem direito de estudar em escolas regulares, tanto na Educação Básica quanto no Ensino Profissionalizante, e, se preciso, pode solicitar um acompanhante especializado. Ficam definidas, também, sanções aos gestores que negarem a matrícula a estudantes com deficiência. Atualmente, no primeiro semestre de 2013, dos 47 alunos com autismo matriculados na escola especializada para esse público (a UTD), 35 estão incluídos em escolas comuns, frequentando o atendimento educacional especializado em turno contrário. Os demais frequentam somente o espaço da escola especializada. Apesar do recente incremento nas matrículas de alunos com autismo no ensino comum, sua aprendizagem e mesmo participação nas atividades escolares ainda se constituem um desafio para os educadores. Considerando as características dos alunos que apresentam o quadro diagnóstico de autismo, após compreender as implicações de ter um aluno com esta condição em sua classe, a principal demanda dos professores, é saber como desenvolver práticas de ensino que favoreçam o seu processo de inclusão e aprendizagem. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 29 Apresentar as ações realizadas na esfera do município de Angra dos Reis a fim de promover a inclusão escolar de alunos com autismo nas escolas comuns. No entanto, antes de prosseguirmos, faz-se pertinente pontuar, que não compreendemos que todos os alunos devem – pelo menos de imediato – frequentar os espaços dessas escolas. Para tal, uma análise criteriosa do contexto deve ser realizada, o que inclui, dentre outros fatores, seu estado geral de saúde, as manifestações comportamentais de agressividade contra si mesmo ou contra terceiros e a atenção e parceria entre escola comum, escola especializada e a família. A intenção aqui não é pôr em dúvida a garantia do direito à educação dos alunos com autismo, mas refletir sobre quais as condições e vantagens que a inclusão pode trazer para os sujeitos envolvidos. Trata-se de um direito assegurado e recentemente acrescido ao já vasto aparato legal voltado para alunos com necessidades especiais pela Lei 12.764 de 7 de dezembro de 2012 – Lei Berenice Piana. A lei que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e a reconhece como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, sobrepondo documentos anteriores, como a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, em que alunos com TGD não são considerados pessoa com deficiência. Entretanto observa-se uma contraditória relação entre dispositivos legais e sua efetiva repercussão na prática pedagógica docente. Em ambos os documentos citados encontram-se apontamentos referentes à formação profissional, sem, contudo, haver menção a qualquer tipo de ação voltada para efetivação do proposto. Embora concordando que a possibilidade da presença da criança com autismo na escola comum já ser um grande avanço, sabemos que é esta ação, por si só, não é garantia de aprendizagem, ainda que o aluno tenha a seu “dispor” um profissional “especializado”. Todo trabalho pedagógico que se pretenda exitoso, requer profissionais, em especial professores com formação adequada, o que inclui competência técnica e acesso a estratégias pedagógicas assertivas. Embora haja consenso sobre a necessidade de melhor capacitar os professores para a inclusão escolar de alunos com deficiência, a discussão se estende sobre a definição de qual, ou quais, modelos de formação continuada, são mais eficazes para desenvolver as competências desejadas nos docentes. É preciso diferenciar dois grupos de docentes: aqueles que atuam no ensino comum, em classes regulares e os que trabalham, em escolas ou instituições especializadas, ou na escola comum no contexto de classes especiais, salas de recursos ou demais modalidades de atendimento especializado. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 30 Além dos professores e monitores, a presença de algum membro da equipe gestora, como o diretor, pedagogo ou coordenador, também é de grande valia, principalmente pelo fato de que a inclusão precisa acontecer no espaço da escola como um todo e não somente na sala de aula. E para tanto, medidas de caráter pedagógico e administrativo que envolvam o coletivo da escola precisam, às vezes ser tomadas. Cumpre destacar que a participação efetiva dos professores é fundamental para que uma proposta de formação continuada contribua no aprimoramento de suas intervenções profissionais. Entretanto, muitas vezes, programas de formação vem carregados de objetivos e exigências externas desprovidas de significado para os docentes, o que acarreta em desinteresse e absenteísmo, ou então, um sentimento de futilidade. Uma vez definido o público alvo, o passo seguinte é estruturar a forma de acompanhamento do processo, a periodicidade de encontros entre os profissionais e a duração de cada encontro. Levando em conta a complexa dinamicidade do cotidiano escolar, consideramos viável um encontro presencial mensal entre os professores do ensino comum e da Educação Especial, com duração de, no mínimo quatro horas cada, com calendário previamente definido a fim de permitir a justes na escola, nos momentos em que a professora da turma estiver ausente da sala de aula participando da formação. Também é essencial determinar os objetivos a serem atingidos em cada encontro, os conteúdos a serem trabalhados, bem como as estratégias para tornar os encontros dinâmicos, dialógicos e, ao mesmo tempo, fazerem uma interlocução entre teoria e prática. Nesse momento é preciso conhecer as expectativas e anseios dos profissionais, e principalmente, conhecer suas ideias a respeito da inclusão do aluno com autismo. Só assim haverá um “ponto de partida” significativo que permitirá o trabalho fluir naturalmente. Entendemos que a formação de professores deve ser pensada como professor e não paraele. Trata-se, portanto, de um movimento reflexivo e dialógico, mas que precisa ter como consenso a ideia de que a inclusão escolar pode trazer ganhos para o aluno. A prática reflexiva na formação continuada, decorrente de uma formação inicial – seja em nível médio ou superior – pode se beneficiar da cooperação entre pares docentes. No caso em questão, foi estabelecido coletivamente como objetivos gerais do trabalho: dialogar sobre os aspectos teóricos que envolvem o autismo, conhecer as diferentes formas de manifestação considerando a tríade de sintomas, identificar as características individuais dos alunos e definir estratégias de atuação pedagógica em sala de aula comum. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 31 A partir de então, foi construída a seguinte estrutura para o trabalho de Formação Continuada do já citado Projeto de Acompanhamento à Inclusão ao Aluno com Entendemos que, assim como qualquer outra ação educacional, a inclusão requer planejamento, com objetivos definidos e metas a serem alcançados em prazos determinados. E a formação continuada oferecida ao professor deve proporcionar a elaboração desse material, não como uma tarefa de exigência legal, mas como um balizador de sua prática. Um outro ponto que merece ser destacado é que conhecer e estudar as características comuns aos alunos com autismo, e sobretudo as particularidades do aluno com autismo atendido pelo professor em formação, é imprescindível para que o trabalho de inclusão seja delineado. O professor deve observar atentamente seu aluno, perceber seus interesses e que tipo de evento ou situação desencadeia comportamentos incompatíveis com o ambiente escolar. Ou seja, precisa conhecer seu aluno para melhor interagir e se comunicar com ele, atender às suas necessidades educacionais especiais e evoluírem, tanto o aluno quanto o professor, no processo ensino-aprendizagem. Cada aluno com autismo é um ser único, com características próprias e por isso responde às intervenções de forma diferente, particular e no seu tempo, necessitando de um olhar individualizado do professor. À medida que os alunos com autismo incluídos em turmas comuns conseguem demonstrar progresso em seu processo de aprendizagem e desenvolvimento, principalmente nas áreas que compõem a tríade do transtorno, podemos dizer que as estratégias utilizadas estão adequadas às suas necessidades educacionais especiais. Para isso é preciso que os professores regentes, com o suporte da Educação Especial, conheçam formas diferentes de ensinar e avaliem sua pertinência. Assim, aos poucos, esses docentes passam a sentir-se mais seguros para modificar suas práticas. Entendemos, também, que o acompanhamento constante e sistemático da prática pedagógica do professor regente pelo professor especialista, em caráter de colaboração, permite avaliar se a proposta de formação está atendendo aos objetivos programados. A reflexão sobre a mesma, assim como a orientação ao professor do ensino comum no espaço/tempo necessários para ampliar as possibilidades de aprendizagem dos alunos, dará a este a segurança de assumir, cada vez mais a responsabilidade por seus alunos, pela sua aprendizagem e caminhar de forma mais independente diante de novas situações semelhantes que possam surgir no futuro. Nesse sentido, mais uma ação que corrobora o sucesso da formação continuada no âmbito da educação inclusiva é disponibilizar o trabalho colaborativo entre o ensino comum e o ensino especial, garantindo que o professor responsável pela turma possa contar com o apoio de um professor com conhecimentos específicos na área de necessidades educacionais especiais. Ao assumir a função de suporte ao ensino comum, formando, ao mesmo tempo que se forma, contribuindo, assim, com o aprimoramento da qualidade da educação, direito constitucional de todos, inclusive dos alunos com autismo. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 32 Os estudos deixaram clara a necessidade de realizar mais pesquisas relacionadas ao tema autismo e inclusão. Ainda é grande a falta e preparo dos professores e da população em geral para lidar com essas crianças. É a qualidade do relacionamento professor - aluno que torna o processo educativo e a escola significativos para o educando. É preciso que os professores sejam capacitados para atender à crescente população de crianças com autismo. Infelizmente ainda é grande o número de pessoas que enxergam esses indivíduos de forma errônea e acabam não realizando a inclusão da melhor forma possível a esses alunos. Mas em todas as pesquisas estudadas, ficou clara a importância da inclusão dessas crianças em escolas regulares para promover experiências de socialização atividades diárias, tornando-as o mais independente possível. 10 INTERVENÇÃO PARA TRABALHAR COM AUTISMO O autismo é uma condição crônica, caracterizado pela presença de importantes prejuízos em áreas do desenvolvimento, por esta razão o tratamento deve ser contínuo e envolver uma equipe multidisciplinar. A eficácia de um tratamento depende da experiência e do conhecimento dos profissionais sobre o autismo e, principalmente, de sua habilidade de trabalhar em equipe e com a família. Existem vários tipos de tratamento que podem ser usados para ajudar uma criança com autismo. Independente da linha escolhida, a maioria dos especialistas ressalta que: o tratamento deve começar o mais cedo possível; as terapias devem ser adaptadas às necessidades específicas de cada criança e a eficácia do tratamento deve ser medida com os avanços da criança. Sabe-se que uma boa intervenção consegue reduzir comportamentos inadequados e minimizar os prejuízos nas áreas do desenvolvimento. Os tratamentos visam tornar os indivíduos mais independentes em todas as suas áreas de atuação, favorecendo uma melhoria na qualidade de vida das pessoas com autismo e suas famílias. A análise do comportamento aplicada, ou ABA (Applied Behavior Analysis, na sigla em inglês) é uma abordagem da psicologia que é usada para a compreensão do comportamento e vem sendo amplamente utilizada no atendimento a pessoas com desenvolvimento atípico, como os transtornos invasivos do desenvolvimento (TIDs). ABA vem do behaviorismo e observa, analisa e explica a associação entre o ambiente, o comportamento humano e a aprendizagem. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 33 As origens experimentais da terapia comportamental trouxeram algumas vantagens importantes ao clínico: ele foi treinado na observação de comportamentos verbais e não verbais, seja em casa, na escola e/ou no próprio consultório, o que é fonte de dados relevantes. Ele estuda o papel que o ambiente desempenha – ambiente este onde é possível interferir e verificar as hipóteses levantadas. Outra habilidade é o entendimento do que é observado comoum processo comportamental, com contínuas interações e, portanto, sujeito a mudanças. As técnicas de modificação comportamental têm se mostrado bastante eficazes no tratamento, principalmente em casos mais graves de autismo. Para o analista do comportamento ser terapeuta significa atuar como educador, uma vez que o tratamento envolve um processo abrangente e estruturado de ensinoaprendizagem ou reaprendizagem. Um dos princípios básicos da ABA é que um comportamento é qualquer ação que pode ser observada e contada, com uma frequência e duração, e que este comportamento pode ser explicado pela identificação dos antecedentes e de suas consequências. É a identificação das relações entre os eventos ambientais e as ações do organismo. Para estabelecer estas relações devemos especificar a ocasião em que a resposta ocorre, a própria resposta e as consequências reforçadoras. Estes comportamentos são motivados, de forma prazerosa. Eles têm uma função: servem para conseguir algo que se deseja. Sabemos que todos os comportamentos de um modo geral são aprendidos, bem como os comportamentos problemas. Isso não significa que alguém intencionalmente nos ensinou a exibir este tipo de comportamento problema, apenas que aprendemos que eles são eficazes para conseguirmos o que queremos. O método ABA pode intencionalmente ensinar a criança a exibir comportamentos mais adequados no lugar dos comportamentos problemas. Comportamentos estão relacionados a eventos ou estímulos que os precedem (antecedentes) e a sua probabilidade de ocorrência futura está relacionada às consequências que os seguem. Todo comportamento é modificado através de suas consequências. Tentamos fazer coisas e se elas funcionam faremos novamente; quando nossas ações não funcionam é menos provável que as realizemos novamente no futuro. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 34 10.1 Objetivos da intervenção Trabalhar os déficits, identificando os comportamentos que a criança tem dificuldades ou até inabilidades e que prejudicam sua vida e suas aprendizagens. Diminuir a frequência e intensidade de comportamentos de birra ou indesejáveis, como, por exemplo: agressividade, estereotipias e outros que dificultam o convívio social e aprendizagem deste indivíduo. Promover o desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas, adaptativas, cognitivas, acadêmicas etc. Promover comportamentos socialmente desejáveis. A intervenção é baseada em uma análise funcional, ou seja, análise da função do comportamento determinante, para eliminar comportamentos socialmente indesejáveis. Este é um ponto central para entendermos qual é o propósito do comportamento problema que a criança está apresentando e, com isso, montarmos a intervenção para modificá-lo. Se o comportamento é influenciado por suas consequências, podemos manipulá-las para entendermos melhor como essa sequência se dá e também modificar os comportamentos das pessoas, programando consequências especiais para tal. O primeiro passo para se resolver um comportamento problema é identificar a sua função. Se não soubermos por que uma criança deve se engajar em um comportamento adequado (qual a função ou propósito), será difícil saber como devemos ensiná-la. Pais, terapeutas e professores tendem a imaginar ou achar um motivo para o comportamento e isso incorrerá no insucesso da intervenção. A avaliação comportamental é a fase da descoberta, e visa à identificação e o entendimento de alguns aspectos relativos à criança com autismo e seu ambiente. Alguns dos objetivos da avaliação são: Entender o repertório de comunicação da criança: presença ou não de linguagem funcional, contato visual, atendimento de ordens, entre outros; Como ela se relaciona em seu ambiente: brinquedos preferidos, apresenta birras frequentes, como reage às pessoas; Qual a função de seus comportamentos; Em que circunstâncias certos problemas ocorrem ou deixam de ocorrer com maior frequência ou intensidade? Quais as consequências fornecidas a esses comportamentos problema? Com base nestas informações, o segundo passo é traçar pequenos objetivos a curto prazo, visando à ampliação de habilidades e eliminação de comportamentos inadequados, realizando a manipulação dos antecedentes (estratégias de prevenção). É importante que a modificação de comportamentos desafiadores seja feita gradualmente, sendo a redução da ansiedade e do sofrimento o objetivo principal. Isto é feito pelo estabelecimento de regras claras e consistentes (quando o comportamento não é admitido ou permitido); uma modificação gradativa; identificação de funções subjacentes, tais como ansiedade ou incerteza; modificações ambientais (mudança nas atitudes ou tornar a situação mais previsível) e transformação das obsessões em atividades adaptativas. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 35 Modificando os antecedentes podemos prevenir que o comportamento problema aconteça. Isto é realizado de diferentes maneiras: Evitando situações ou pessoas que sirvam como antecedentes para o comportamento problema; Controlando o meio ambiente – no decorrer da vida do indivíduo o ambiente modela, cria um repertório comportamental e o mantém; o ambiente ainda estabelece as ocasiões nas quais o comportamento acontece, já que este não ocorre no vácuo. Dividindo as tarefas em passos menores e mais toleráveis, o que chamamos de aprendizagem sem erro. Toda a intervenção está baseada na aprendizagem sem erros, ou seja, deixamos de lado o histórico de fracassos e ensinamos a criança a aprender. Esta aprendizagem deve ser prazerosa e divertida para a criança, podendo-se usar reforçadores para manter a criança motivada. Um reforço é uma consequência que aumenta a probabilidade de esta resposta acontecer novamente. Quando um comportamento é fortalecido, é mais provável que ele ocorra no futuro. Além do reforço, usamos a hierarquia de dicas: quando iniciamos o ensino de qualquer comportamento, ajudamos a criança a realizá-lo com a dica necessária, que pode ser verbal (total ou parcial), física, leve, gestual, visual ou auditiva – e planejamos a retirada dessa dica até que a criança seja capaz de realizar o comportamento de maneira independente. O terceiro passo é a elaboração de programas de ensino. Os programas de ensino são individualizados, geralmente ocorrem em situação de “um para um” e envolvem as diversas áreas do desenvolvimento: acadêmica, linguagem, social, verbal, motora, de brincar, pedagógica e atividades de vida diária. A metodologia ABA e seus procedimentos são constantes e padronizados, o que possibilita que mais de um professor (pessoa que realiza os programas) trabalhe com a criança. A participação dos familiares da criança no programa é de grande contribuição para seu sucesso e assegura a generalização e manutenção de todas as habilidades aprendidas pela criança. Várias estratégias do ABA (Análise Aplicada do Comportamento) assim como o método do ensino estruturado da abordagem TEACCH são exemplos de estratégias educacionais feitas especialmente sob medida para pessoas com autismo. O TEACCH éfundamentado na avaliação individualizada centrada na pessoa com autismo e no desenvolvimento de um programa de ensino estabelecido a partir de suas habilidades, interesses (motivação) e necessidades. Adota uma perspectiva holística, levando em conta as vidas das pessoas com autismo e suas famílias. A parceria com os pais é vital, assim como desenvolver habilidades de comunicação, de socialização e de lazer. Outro objetivo principal é generalizar todas as habilidades e atuar de forma mais independente quanto possível para levar uma vida mais plena. Usa como ponto de partida o potencial relativamente bom da maioria das pessoas com TEA nas habilidades visuais, no reconhecimento de detalhes e memória. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 36 A ABA é a aplicação da ciência chamada Análise do Comportamento. É uma técnica de intervenção educacional estruturada usada no delineamento de programas de tratamento individualizados. Uma parte crucial do processo é saber o tempo todo onde o indivíduo está (saber o que ele pode e não pode fazer) e desenvolver estratégias para ensinar novas habilidades específicas. Uma das etapas principais é decidir que comportamentos-chaves irão ajudar a criança a levar uma vida mais plena. Existe a concepção de que os déficits no autismo resultariam primariamente de um bloqueio de "aprendizagem". Os pais são parte importante no ensino de seus próprios filhos e a generalização das habilidades também é uma parte principal do ensino. A intervenção compreensiva deveria ser realizada em todos os lugares, em todo momento disponível. Deveriam ser praticados e generalizados em situações naturais. Os programas da ABA são delineados para trabalhar com pessoas em situações de um para um, dando ao indivíduo o máximo de atenção. Os programas enfatizam mais a importância de duas áreas: da imitação e autenticidade, porém a mais importante de todas é a motivação. A abordagem TEACCH usa estratégias que permitem que a pessoa "entenda" (atue) Através da interpretação da informação, delineadas para propiciar o desenvolvimento cognitivo e reduzir o estresse e a pressão. Usa também estratégias de adaptação do ambiente para delinear programas que os capacite a atuar na vida cotidiana com estresse mínimo e também não tendo que depender dos outros para atuar. O programa TEACCH assume que as pessoas são diferentes. Mudar o comportamento não é um objetivo em si mesmo, não pensam que o comportamento torna as pessoas diferentes: as diferenças são fundamentalmente diferenças cognitivas devido a diferenças neurológicas. É possível combinar as estratégias do TEACCH e da ABA, porém, se for usar mais de um programa é muito importante que eles sejam integrados. Talvez as pessoas que trabalham com ABA omitem o ensino da independência, sendo as vezes difícil evitar que as crianças se tornem dependentes de dicas. Trabalhar com a abordagem TEACCH pode fazer com que os profissionais se concentrem demais na independência e nas tarefas e deixem de trabalhar com imitação, usando as situações de um para um somente para ensinar a realização das atividades. Não importa o que façamos ou o que escolhemos, o importante é entender que todo processo de ensino/aprendizagem é baseado nas mesmas intervenções: avaliação, observação, análise e o uso dessas informações para delinear programas fundamentados na motivação e individualização. Para muitas pessoas com TEA aprender é difícil e, consequentemente, somos responsáveis por ensinar-lhes habilidades úteis, significativas e com o menor custo possível: o objetivo maior é ensinar as pessoas com TEA e suas famílias. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 37 O interesse, a sensibilidade e a envolvência no processo ensino/aprendizagem dos docentes, quer sejam de formação especializada quer sejam do ensino regular, é primordial para dar resposta a crianças com necessidades educativas especiais. As Unidades de Ensino Estruturado (UEEA) não representam de forma alguma mais uma turma da escola, pois todos os alunos pertencem a uma turma do ensino regular. Desta forma, as escolas oferecem um recurso pedagógico especializado em complemento à turma regular, garantindo-se a tão aclamada inclusão dos alunos com Perturbações do Espetro do Autismo. É urgente que se dê uma mudança nas mentalidades do corpo docente, de modo a dar resposta a todas as crianças, pois são as personagens principais no palco da educação, que deve ser inclusiva e para todos. É numa perspectiva de trabalho em cooperação e num ambiente democrático, que se contribuirá para o sucesso das crianças portadoras das Perturbações do Espectro do Autismo, e fazer com que elas se sintam integradas e iguais às outras, para que na vida adulta se tornem pessoas com um futuro mais promissor e o menos dependentes possíveis de outros. Uma criança autista é acima de tudo uma criança, e deve ter como garantidos todos os direitos do ser humano. Ensinar crianças autistas não deve ser encarado como uma tragédia, mas sim como um desafio que porá à prova muitas das nossas competências e com certeza nos tornará profissionais mais capazes. Há muito tempo que o autismo vem sendo estudado para ser melhor compreendido, contudo parece ser um a perturbação da qual nem sempre se têm certezas absolutas. Fazem parte do espetro do autismo um conjunto de perturbações do desenvolvimento muito graves, que ainda não são totalmente compreendidas quer ao nível do diagnóstico quer ao nível da terapêutica. Não se pode falar de autismo sem falar das famílias envolvidas, pois são estas que se encontram num papel central e se deparam diariamente com grandes dificuldades. Os professores são por outro lado agentes que assumem grande importância no processo de desenvolvimento destas crianças, mas nem sempre é fácil darem as respostas mais assertivas, pois são poucas as escolas dotadas de recursos humanos e materiais que permitam desempenhar pedagogias que melhor respondam a estes casos sendo que, por vezes, se verifica que as crianças com necessidades educativas especiais ainda se sentem estigmatizadas e pouco integradas nas escolas regulares. É no decurso desta problemática que iremos abordar a importância da inclusão e do EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 38 recurso ao ensino estruturado, como fonte de resposta às crianças portadoras de PEA. 11 BIBLIOGRAFIA ALENCAR & VIRGOLIM, A.M.R. Dificuldades emocionais e sociais do superdotado. In: F.P.N. Sobrinho & A.C.B. Cunha (Org.) Dos problemas disciplinares aos distúrbios de conduta (pp. 89-114). Rio de Janeiro: Dunya, 1999. ALENCAR, E.M.L.S. & FLEITH, D.S. Superdotação: determinantes, educação e ajustamento. São Paulo: EPU, 2001. BRASIL. Casa Civil. Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília:CC, 1990. Disponível em: . Acesso em: 17 jul. 2010. BRASIL. Casa Civil. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Brasília: CC, 1996. Disponível em: . Acesso em: 12 maio 2010. BRASIL. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora com Deficiência. Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais. Brasília, Corde, 1994. BRASIL. Direito à educação: subsídios para a gestão dos sistemas educacionais: orientações gerais e marcos legais. 2. ed. Brasília: MEC, SEESP, 2006. BRASIL. Diretrizes gerais para o atendimento educacional aos alunos portadores de altas habilidades/superdotação e talentos. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Especial. 1995 BRASIL. Diretrizes Operacionais do Atendimento Educacional Especializada na Educação Básica, modalidade Educação Especial. Brasília, 2009. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96). Ministério da Educação, 1996. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Decreto Nº 3.956, de 8 de outubro de 2001. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Formação Continuada a Distância de Professores para o Atendimento Especializado. Deficiência Física. Brasília: MEC,2006. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Especial. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. LDB 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Brasília: MEC/SEE, 1961. BRASIL. Saberes e práticas de inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais de alunos com deficiência física/ neuro-motora. Brasília: MEC/ SEESP, 2006. FÁVERO, Eugenia Augusta Gonzaga. PANTOJA, Luísa de marillac.MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Atendimento educacional especializado: aspectos legais e orientações pedagógicas. São Paulo: MEC/SEESP, 2007. GARDNER, H. Inteligências múltiplas. A teoria na prática. Porto Alegre: Artes Médicas. 1995. MAZZOTTA, M. J. S. Educação Especial no Brasil: História e Política Públicas. São Paulo: Cortez, 1996 NOGUEIRA, C. M. A história da deficiência: Tecendo a história da assistência à criança deficiente no Brasil. Rio de Janeiro: 2008. Disponível em: p.121-140, jan.-abr.2009. REILY, Lúcia. Escola inclusiva: linguagem e mediação. São Paulo: Papirus, 2004. SASSAKI, K. R. Inclusão: Construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997. VYGOTSKY LS. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984. WINNER, E. Crianças superdotadas. Mitos e realidades. Porto Alegre: Artes Médicas: Sul, 1998.de idade. ” As três dimensões desse tripé manifestam-se de forma diferente em cada um dos casos. Destacamos a seguir algumas das características mais comuns em crianças e jovens: Inversão pronominal, isto é, substituição do uso da primeira pessoa do singular pela terceira; Ecolalia, repetição de palavras ou expressões ouvidas anteriormente; Rejeição ao contato físico; Tendência ao isolamento; Uso de pessoas com ferramentas; Comportamentos autoestimulatórios; Comportamentos auto lesivos ou auto agressivos; Dificuldade em manter contato físico; Dificuldade em manter contato visual; Manipulação inadequada de materiais e objetos; Atenção seletiva; Interesse por objetos giratórios; Atraso na aquisição da fala a ausência de linguagem-verbal; Interesses restritos; Resistência a mudanças de rotina e detalhes do meio ambiente individual; Hábitos alimentares seletivos, Aparência de surdez. Diante das características aqui elencadas e considerando que na maioria dos casos elas apresentam-se simultaneamente, fica perceptível a dificuldade em garantir a inclusão desses alunos em espaços de escola regular que estejam centradas no processo de ensino e não no da aprendizagem. Incluir esses alunos em escolas regulares que, embora muitas vezes já tenham incorporado o discurso democrático, ainda reproduzem práticas fragmentadas e que consideram que todos aprendem no mesmo ritmo e da mesma maneira pode contraditoriamente configurar-se como uma prática excludente. Nesse sentido entendemos e defendemos que a inclusão não deve configurar- se como o único modelo de educação para alunos com TGD e a decisão de incluir deve ser bastante criteriosa, considerando-se não apenas o sujeito, mas também o ambiente escolar e a família, que devem receber apoio e orientação dos serviços especializados. (SERRA, 2009) Alunos autistas e asperges, assim como demais alunos que apresentam necessidades educacionais especiais necessitarão de adaptações curriculares para que possam acompanhar os colegas nas atividades e rotina escolar. Decidir implantar adaptações de pequeno e grande porte deve ser uma decisão que envolva as diferentes esferas do sistema educacional. Instâncias políticas da educação, redes de saúde e ação social, EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 6 familiares, etc. Somente a predisposição dos professores em “aceitar” no espaço da sala de aula crianças com autismo ou asperger não garante uma prática de sucesso. A Síndrome de Rett, foi identificado em 1966 por Andréas Rett, mas somente após o trabalho de Hagberg et al. tornou-se mais conhecido. Nesse mesmo trabalho foi proposto o epônimo síndrome de Rett (SR). A descrição original de Rett enfatizava a deterioração neuromotora, predominância em mulheres, sinais e sintomas particulares, a presença de hiperamonemia, tendo sido denominada “Atrofia Cerebral Associada à Hiperamonemia”. Sabe-se, hoje em dia, que a hiperamonemia não é um achado necessário nem usual. A prevalência estimada de SR varia entre 1:10.000 e 1:15.000 em meninas. O Transtorno desintegrativo da infância (TDI) possui um histórico mais longo do que o autismo. Foi inicialmente descrito por Heller, em 1908. Heller relatou seis casos de crianças jovens que, após um desenvolvimento aparentemente normal nos primeiros três a quatro anos de vida, apresentaram uma perda muito grave das habilidades sociais e comunicativas. Heller denominou a condição “dementia infantilis”. Essa definição é insatisfatória: primeiro, porque a condição não é comparável à demência, no sentido de que as características de perda de memória e de habilidades executivas não são proeminentes; e, em segundo lugar, porque nenhuma causa orgânica da trajetória do prejuízo pode ser encontrada. O TDI é uma condição extremamente rara. Fombonne revisou 32 pesquisas epidemiológicas sobre autismo e TDI. O TDI foi mencionado somente em quatro estudos. A prevalência da estimativa total nesses estudos foi de 1,7 por 100.000 (Intervalo de Confiança 95%: 0,6-3,8 por 100.000). Os diagnósticos diferenciais incluem os transtornos metabólicos (e.g. mucopolisacaroidose San Filippo) e condições neurológicas (e.g. encefalite por vírus lento ou epilepsia), ainda que, no último caso, a linguagem seja muito mais afetada do que nos relatos de casos de TDI. Deve também ser diferenciado do autismo em que se observa um desenvolvimento próximo do normal nos primeiros um ou dois anos em até 30% de todos os casos. A etiologia ainda é desconhecida. Portanto, é possível que o TDI esteja fadado a desaparecer como categoria quando os instrumentos diagnósticos tornarem possível determinar as causas genéticas, metabólicas ou infecciosas envolvidas nesses casos ainda inexplicados. Um relato de caso aponta para um possível vínculo genético com o autismo em um caso em que o autismo e o TDI ocorreram em dois meio-irmão. Não existe tratamento para TDI. Como as complicações neurológicas, especialmente a epilepsia, são comuns e essas crianças funcionam no nível de grave a profundo retardo mental, é necessária uma abordagem multidisciplinar. Os pais necessitarão de psicoeducação focada nessa condição. Na maioria das vezes, quando os pais de crianças com TDI aderem às associações de pais de crianças com autismo ficam extremamente desapontados, pois o progresso visto em outras crianças com transtornos do espectro do autismo não ocorre com seu filho. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 7 Sabe-se pouco sobre o desfecho. O maior estudo de acompanhamento foi realizado por Mouridsen, em 39 casos pareados com controles autistas em um período de mais de 22 anos. Verificou-se que os indivíduos com TDI possuíam um funcionamento global pior, estavam mais ausentes e tiveram uma grande incidência de epilepsia como comorbidade. Isso confirma a noção de que o desfecho no TDI é pior do que nos transtornos do espectro autista em geral. Se o acordo entre os clínicos é alto para os diagnósticos de autismo, o mesmo não é verdadeiro no caso do TID-SOE. Ainda que os estudos epidemiológicos tenham sugerido que o TID-SOE seja duas vezes mais comum do que o TA, essa categoria continua a estar subinvestigada. Hoje em dia, diferentes categorizações têm sido propostas, algumas baseadas no enfoque fenomenológico descritivo, outras baseadas em outras perspectivas teóricas, tais como a neuropsicologia. 2 ALTAS HABILIDADES / SUPERDOTAÇÃO Para o Conselho Nacional de Educação os portadores de superdotação são: Segundo o Conselho Brasileiro para Superdotação – ConBraSD: A superdotação, a precocidade, o prodígio e a genialidade são gradações de um mesmo fenômeno estudado há décadas em diversos países. Assim, para o Conselho: Precoce é a criança que apresenta alguma habilidade específica prematuramente desenvolvida em qualquer área do conhecimento, seja na música, na matemática, na linguagem ou na leitura. “Criança prodígio” é o termo usado para sugerir algo extremo, raro e único, fora do curso normal da natureza. Um exemplo seria Wolfgang Amadeus Mozart, que começou a tocar piano aos três anos de idade. Aosquatro anos, sem orientação formal, já aprendia peças com rapidez e aos sete, já compunha regularmente e se apresentava nos principais salões da Europa. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 8 Mozart, assim como Einstein, Gandhi, Freud e Portinari, entre outros mestres, são exemplos de gênios, termo reservado para aqueles que deram contribuições extraordinárias à humanidade. São aqueles raros indivíduos que, até entre os extraordinários, se destacam e deixam sua marca na história. As pessoas citadas tenham sido elas precoces, prodígios ou gênios, podem então ser ditos “portadoras de altas habilidades” ou superdotadas. Joseph Renzulli, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa sobre o Superdotado e Talentoso, da Universidade de Connecticut, Estados Unidos, em seu Modelo dos Três Anéis, considera que os comportamentos de superdotação resultam de três conjuntos de traços: a) habilidade acima da média em alguma área do conhecimento (não necessariamente muito superior à média); b) envolvimento com a tarefa (implica motivação, vontade de realizar uma tarefa, perseverança e concentração); c) criatividade (capacidade de pensar em algo diferente, ver novos significados e implicações, retirar ideias de um contexto e usá- las em outro). Renzulli entende a superdotação como condição ou comportamento que pode ser desenvolvido em algumas pessoas (aquelas que apresentam alguma habilidade superior à média da população), em certas ocasiões (e não continuamente, uma vez que é possível se evidenciar comportamentos de superdotação na infância, mas não na idade adulta, ou apenas em alguma série escolar ou em um momento da vida) e sob certas circunstâncias (e não em todas as circunstâncias da vida de uma pessoa) [Renzulli & Reis, 1997]. Esta diferenciação é importante, pois ao considerar a superdotação como um comportamento a ser desenvolvido, o autor desloca a discussão, esvaziando a tendência, muitas vezes estéril, de se rotular uma criança como superdotada. Ele enfoca a necessidade de que sejam oferecidas oportunidades educacionais variadas aos alunos em geral, para que um número maior de crianças tenha a oportunidade de se desenvolver e apresentar comportamentos de superdotação. Segue-se, então, que tais comportamentos podem ser desenvolvidos em pessoas que não são, necessariamente, as que tiram as melhores notas ou apresentam maiores resultados em testes de QI. Uma educação democrática deve levar em consideração as diferenças individuais e, portanto, oferecer oportunidades de aprendizagem conforme as habilidades, interesses, estilos de aprendizagem e potencialidades dos alunos. Nesse sentido, alunos com altas habilidades/superdotados merecem ter acesso a práticas educacionais que atendam às suas necessidades, possibilitando um melhor desenvolvimento de suas habilidades. Segundo Renzulli (1986, P. 05), o propósito da educação dos indivíduos superdotados é “fornecer às jovens oportunidades máximas de auto realização por meio do desenvolvimento e expressão de uma ou mais áreas de desempenho onde o potencial superior esteja presente”. Tanto a legislação nacional quanto a base normativa referente aos direitos das pessoas com altas habilidades/superdotadas são escassas. Este segmento social, quando considerado na legislação, via de regra o é como se subconjunto fosse do segmento maior das ‘pessoas com deficiência’, não obstante a evidente impropriedade. Entre as várias consequências deste fato, está o tratamento legal muito mais detalhado e específico das deficiências e a ligeireza, falta de atenção ou, na maior parte dos casos, a desconsideração pura e simples dos aspectos especificamente concernentes aos alunos talentosos ou portadores de altas habilidades. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 9 Várias são as razões para justificar a necessidade de uma atenção diferenciada ao superdotado. Uma delas é por ser o potencial superior um dos recursos naturais mais preciosos, responsável pelas contribuições mais significativas ao desenvolvimento de uma civilização. Com relação a esse aspecto, Sternberg & Davidson (1986) lembram, por exemplo, que, quando se volta à História e se buscam os pilares das grandes civilizações, invariavelmente as contribuições artísticas, filosóficas e científicas, frutos da inteligência, talento e criatividade de alguns indivíduos ou grupos de indivíduos, são apontadas ou enaltecidas. Com relação à educação infantil, sabe-se que o período que antecede a educação fundamental é da maior importância para o desenvolvimento cognitivo e psicossocial. Nesse período, as influências do ambiente desempenham um papel fundamental para o desenvolvimento do potencial de cada criança. Propiciar condições que permitam a ela expressar seus interesses e desenvolver possíveis talentos deveria ser o ponto de partida de uma educação diferenciada. Observa-se, entretanto, que poucas são as oportunidades educacionais oferecidas ao aluno com altas habilidades/superdotado para desenvolver de forma mais plena as suas habilidades. Uma possível explicação para este cenário são os vários mitos sobre o superdotado, frequentes em nossa sociedade, que constituem entrave à provisão de condições favoráveis à sua educação. Predomina, por exemplo, a ideia de que esse indivíduo tem recursos suficientes para desenvolver suas habilidades por si só, não sendo necessária a intervenção do ambiente. No entanto, é preciso salientar e divulgar entre educadores que o aluno com altas habilidades/superdotado necessita de uma variedade de experiências de aprendizagem enriquecedoras, que estimulem seu potencial. Outro mito é a de que essa criança apresenta necessariamente um bom rendimento escolar. Porém, o que se tem observado é que indivíduos superdotados podem apresentar um rendimento aquém de seu potencial, revelando uma discrepância entre seu potencial e seu desempenho real (ALENCAR & FLEITH, 2001; ALENCAR & VIRGOLIM, 1999). Muitas vezes, o aluno com altas habilidades/superdotado pode ficar desmotivado com as atividades implementadas em sala de aula, com o currículo ou métodos de ensino utilizados (especialmente a excessiva repetição do conteúdo, aulas monótonas e pouco estimuladoras, e ritmo mais lento da classe). Acredita-se, ainda, que superdotação é um fenômeno raro e que são poucas as crianças e jovens de nossas escolas que poderiam ser considerados superdotados. O que pode ser salientado é que se realmente as condições forem inadequadas, dificilmente o indivíduo com um potencial maior terá condições de desenvolvê-lo. Assim, da mesma forma que uma boa semente necessita de condições adequadas de solo, luz e umidade para desenvolver-se, também o aluno com altas habilidades/superdotado necessita de um ambiente adequado estimulador e rico em experiências. Observa-se, também, uma tendência no sentido de se acreditar que os superdotados estariam concentrados em apenas uma parcela da população, que seria entre indivíduos do sexo masculino, de nível socioeconômico médio. De modo geral, tanto a mulher como o indivíduo proveniente de um meio pobre que apresentem uma habilidadeou um EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 10 talento especial tendem não apenas a passar despercebidos, mas também a sofrer uma pressão no sentido de um desempenho mais baixo (ALENCAR & FLEITH, 2001). Superdotação tem sido, ainda, vista, erroneamente, como genialidade. Esses termos, entretanto, não são sinônimos. O gênio seria aquele indivíduo reconhecido por ter dado uma contribuição original e de grande valor para a sociedade (por exemplo, Einstein, Darwin, Picasso). No âmbito das políticas educacionais, inicialmente, as diretrizes básicas da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação e do Desporto (BRASIL, 1995) consideravam superdotados (ou portadores de altas habilidades) aqueles alunos que apresentavam notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual, aptidão acadêmica ou específica (por exemplo, aptidão matemática), pensamento criativo e produtivo, capacidade de liderança, talento para artes visuais, artes dramáticas e música e capacidade psicomotora. Atualmente, segundo o artigo 5º, parágrafo III, da Resolução CNE/CEB Nº 2, de 2001, que instituiu as Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica (BRASIL 2001D), educandos com altas habilidades/superdotação são aqueles que apresentam grande facilidade de aprendizagem, levando-os a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes. Como consequência, estes alunos apresentam condições de aprofundar e enriquecer conteúdos escolares. Considerando as políticas educacionais inclusivas, o aluno deve ser cada vez mais atendido em seus interesses, necessidades e potencialidades, cabendo à escola ousar, rever suas concepções e paradigmas educacionais, lidando com as evidências que o desenvolvimento humano oferece. Uma criança pré-escolar que apresente um desenvolvimento cognitivo, sócio- afetivo e/ou psicomotor diferenciado e avançado para a idade não pode ser desconsiderada e/ou desqualificada no âmbito escolar. Nesse sentido, é importante atender os alunos de altas habilidades/superdotados, considerando seu desenvolvimento real, evitando contemplar níveis de desenvolvimento padronizados, conforme os apresentados em escalas de desenvolvimento. Cabe, portanto, à escola definir no projeto pedagógico seu compromisso com uma educação de qualidade para todos seus alunos, inclusive o de altas habilidades/superdotados, respeitando e valorizando essa diversidade, e definindo sua responsabilidade na criação de novos espaços inclusivos. Além disso, é na educação infantil que se aponta para a possibilidade de realização de novas interações sociais por meio dos reagrupamentos escolares, conforme preconizam os artigos 23 e 24 da nova LDBEN e que buscam, em última instância, não que o aluno se molde ou se adapte à escola, mas que a escola se coloque à disposição do aluno, como um espaço inclusivo. Na educação infantil se inicia a construção de um processo escolar que poderá ser concluído em menor tempo quanto à série em que o aluno estejam cursando, etapa escolar em que o aluno esteja inserido ou mesmo em relação a toda a sua escolarização. Dessa forma, é EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 11 fundamental oferecer desafios suplementares aos alunos de altas habilidades/superdotados. Para isso é importante a definição de um projeto pedagógico que inclua a modalidade de ensino educação especial no cotidiano escolar, oferecendo aos alunos de altas habilidades/superdotados alternativas motivadoras e criativas de aprendizagem que possam garantir o seu sucesso escolar. É importante ressaltar que crianças superdotadas em idade pré-escolar constituem um grupo heterogêneo em termos de interesses, níveis de habilidades, desenvolvimento emocional, social e físico (CLINE & SCHWARTZ, 1999). Nesse sentido, podemos nos deparar com uma criança avançada do ponto de vista intelectual, mas imatura emocionalmente. O professor deve estar atento a essa possível falta de sincronia entre desenvolvimento intelectual e afetivo ou físico. Por exemplo, uma criança superdotada pode apresentar leitura precoce, porém ter dificuldade em manipular um lápis, pois suas habilidades motoras não estão totalmente desenvolvidas. Além disso, a habilidade superior demonstrada por essa criança pode ser resultado de uma estimulação intensa por parte das pessoas significativas de seu ambiente. Ao atingir a idade escolar, o desenvolvimento dessa criança pode se normalizar e ela passar a apresentar um desempenho semelhante aos alunos de sua idade. Por isso, nem sempre uma. Criança precoce poderá ser caracterizada como superdotada. É essencial, portanto, acompanhar o desempenho dessa criança, registrando habilidades e interesses demonstrados ao longo dos primeiros anos de escolarização, oferecendo várias oportunidades estimuladoras e enriquecedoras ao seu potencial. Dentre as características mais comumente encontradas em crianças superdotadas em idade pré-escolar destacam-se (CLINE & SCHWARTZ, 1999; LEWIS & LOUIS, 1991): •. Alto grau de curiosidade • Boa memória • Atenção concentrada • Persistência • Independência e autonomia • Interesse por áreas e tópicos diversos • Aprendizagem rápida • Criatividade e imaginação • Iniciativa • Liderança • Vocabulário avançado para a sua idade cronológica • Riqueza de expressão verbal (elaboração e fluência de ideias) • Habilidade para considerar pontos de vistas de outras pessoas • Facilidade de interagir com crianças mais velhas ou com adultos • Habilidade para lidar com ideias abstratas • Habilidade para perceber discrepâncias entre ideias e pontos de vista • Interesse por livros e outras fontes de conhecimento •. Alto nível de energia • Preferência por situações/objetos novos • Senso de humor • Originalidade para resolver problemas Crianças com altas habilidades/superdotadas em idade pré-escolar devem vivenciar diversas situações de aprendizagem de forma a desenvolver suas habilidades e talentos. Isso significa implementar atividades que envolvam o pensamento criativo (produção de muitas ideias originais e variadas) e crítico, e que levem a criança a fazer conexões entre ideias, resolver problemas e levantar questionamentos. É importante, ainda, proporcionar à criança oportunidades para explorar mais amplamente um tema de seu interesse. Sob uma perspectiva efetiva, espera- EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 12 se que a criança com altas habilidades/superdotada desenvolva suas habilidades interpessoais e de comunicação, autonomia, iniciativa, um autoconceito positivo, e uma compreensão do outro e seu ponto de vista. Embora estejamos cônscios dos recursos limitados em muitas escolas, em termos ideais um ambiente estimulador deve incluir materialde consulta diversificado impresso ou eletrônico (por exemplo, livros, revistas, jornais, enciclopédias, dicionário, programas de computador), materiais para manipulação e exploração (brinquedos, bolas, blocos e jogos pedagógicos, objetos com sons e formatos diferentes, lupas e lentes de aumento), equipamentos (vídeo, globo terrestre, aparelho de som e, se possível, computador). Além disso, seria altamente desejável que o aluno tivesse oportunidade de conhecer e frequentar bibliotecas, de participar de atividades (na escola ou em outros locais da comunidade), conforme seu interesse e área de habilidade. Na área artística, materiais de consumo como tintas, lápis, pincéis, canetas, massinha, argila, telas, bem como instrumentos musicais (flauta, por exemplo) devem, também, ser disponibilizados aos alunos. É relevante ressaltar a necessidade não apenas de recursos materiais, como também de recursos humanos diversos (por exemplo, bibliotecário, professores bem qualificados de música, educação física, educação artística etc.). Um projeto pedagógico inclusivo para alunos de altas habilidades na préescola não pode deixar de considerar as atividades que favoreçam o saberaprender, o saber-fazer e o saber ser, favorecendo aprendizagens para toda a vida. Seeley (1998) sugere o desenvolvimento de atividades que envolvam o uso da linguagem, a representação de experiências e ideias, o raciocínio lógico e criativo, a compreensão de tempo e espaço e uma aprendizagem ativa por parte do aluno com altas habilidades/superdotado. Exemplos de atividades são: • Descrição de objetos, eventos e relações • Conversa com colegas acerca de experiências importantes • Expressão de sentimentos em palavras • ouvir e criar ou completar histórias • ouvir, criar ou recriar canções • Imitações ou criações de sons • sonorizar poemas (por meio de sons do corpo, objetos ou instrumentos musicais) • Dramatizações • Reconhecimento de objetos pelo som, cheiro e formato • Identificação de diferenças e semelhanças entre objetos • Descrição de objetos de várias maneiras • Comparação de tamanho, peso, texturas, comprimento etc. • Observação de objetos sob diferentes perspectivas • Representação de seu corpo • Descrição de relações espaciais presentes em desenhos e figuras. Alencar & Fleith (2001) sugerem outras atividades a serem implementadas com alunos superdotados: EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 13 • Atividades que levem o aluno a produzir muitas ideias • Atividades que levem o aluno a brincar com ideias, situações e objetos (ex.: brincadeiras de faz-de-conta: casinha, supermercado etc.) • Atividades que envolvam análise crítica de um acontecimento • Atividades que estimulem o aluno a levantar questões • Atividades que levem o aluno gerar múltiplas hipóteses • Atividades que desenvolvam no aluno a habilidade de explorar consequências para acontecimentos que poderão ocorrer no futuro • Atividades que envolvam a discussão de problemas do mundo real • Atividades que estimulem o aluno a definir e solucionar problemas • Atividades de pesquisa sobre tópicos do interesse do aluno • Atividades que estimulem a imaginação dos alunos • Atividades que possibilitem ao aluno explorar e conhecer diferentes áreas do Conhecimento. A avaliação da aprendizagem de alunos com necessidades educacionais especiais em idade pré-escolar deve ser orientada por dois propósitos principais: a identificação das necessidades educacionais especiais e a tomada de decisão quanto ao atendimento que esses alunos devem receber, conforme previsto na nova legislação. Dada a diversidade de estilos de aprendizagem, estilos de expressão e habilidades dos alunos superdotados, múltiplas formas de avaliação da aprendizagem devem ser consideradas, visando não somente assegurar respostas educativas de qualidade, mas, também, a tomada de decisões quanto ao atendimento de que a criança pré-escolar necessita no âmbito da escola, nas modalidades de apoio, complemento ou suplemento escolar, garantindo a educação e o desenvolvimento das potencialidades desses educandos. Além disso, em situações de desenvolvimento dessincronizado na préescola (por exemplo, desenvolvimento intelectual mais avançado do que o emocional), um cuidadoso e exaustivo trabalho de avaliação escolar deve ser realizado a fim de fundamentar decisões tomadas como a de aceleração de estudos de alunos autodidatas ou que apresentem ritmos de aprendizagem acelerados em uma ou várias áreas de aprendizagem escolar. Além das alternativas tradicionais de avaliação, outras poderão ser utilizadas como, por exemplo, auto avaliação, relatório de atividades e avaliação de produtos elaborados pelos alunos. A estratégia ideal de avaliação é aquela em que o progresso do aluno é ressaltado. Isso possibilita ao aluno desenvolver um senso de realização acadêmica e, consequentemente, levá-lo a se sentir intrinsecamente motivado em relação ao seu processo de aprendizagem (FELDHUSEN, 1994). É importante, ainda, que o professor incentive múltiplas formas de produto final. Ou seja, o aluno pode demonstrar sua proficiência por meio de um produto escrito (história, poesia, carta etc.), oral (dramatização, música, contar histórias etc.), visual (desenho, colagem, mural etc.) e/ou concreto (móbile, máscara, brinquedos, jogos etc.), de forma a contemplar os diferentes EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 14 estilos de expressão dos alunos. Toda informação sobre o aluno (por exemplo, trabalhos de classe e extraclasse, outras produções do aluno, áreas/atividades de interesse) deve ser documentada e guardada em um portfólio, ou seja, em uma pasta para cada aluno, com sua produção, de forma que as habilidades, interesses, estilos de aprendizagem e expressão do aluno superdotado sejam ressaltados e o professor possa, portanto, conhecê-lo melhor e estruturar a aula visando atender às suas necessidades educacionais (PURCELL & RENZULLI, 1998). Pensar a construção da educação inclusiva de alunos de altas habilidades/superdotados na pré-escola envolve superar desafios que vão desde a organização dos sistemas de ensino, passando pela escola e pela família, garantindo condições escolares de qualidade que favoreçam a formação de cidadãos brasileiros que poderão, definitivamente, contribuir para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. 3 O DIREITO A EDUCAÇÃO O direito da pessoa à educação é resguardado pela política nacional de educação independentemente de gênero, etnia, idade ou classe social. O acesso à escola extrapola o ato da matrícula e implica apropriação do saber e das oportunidades educacionais oferecidas à totalidade dos alunos com vistas a atingir as finalidades da educação, a despeito da diversidade na população escolar. A perspectiva de educação para todos constitui um grande desafio, quando a realidade aponta para uma numerosa parcela de excluídos do sistema educacional sem possibilidade de acesso à escolarização, apesar dos esforços empreendidos para a universalização do ensino. Enfrentar esse desafio é condição essencialpara atender à expectativa de democratização da educação em nosso país e às aspirações de quantos almejam o seu desenvolvimento e progresso. A escola que se espera para o século XXI tem compromisso não apenas com a produção e a difusão do saber culturalmente construído, mas com a formação do cidadão crítico, participativo e criativo para fazer face às demandas cada vez mais complexas da sociedade moderna. Nessa perspectiva, o governo tem desencadeado movimentos nacionais de democratização do ensino, atualmente representados pelo Programa Toda Criança na Escola que preconiza a universalização do atendimento educacional com qualidade. Prioriza o ensino fundamental, contando-se com a expectativa de colaboração dos estados, municípios e da sociedade civil, ao admitir que “... a não-garantia de acesso à escola na idade própria, seja por incúria do Poder Público ou por omissão da família e da sociedade, é a forma mais perversa e irremediável de exclusão social, pois nega o direito elementar de cidadania”. Assim, depreende-se a importância da educação escolar no exercício da cidadania que implica a efetiva participação da pessoa na vida social resguardada a sua dignidade, a igualdade de direitos, a importância da solidariedade e do respeito, bem como a recusa categórica de quaisquer formas de discriminação. Com base no reconhecimento da diversidade existente na população escolar e na necessidade de respeitar e atender a essa diversidade, o presente trabalho focaliza o currículo como ferramenta básica da escolarização; busca dimensionar o sentido e o alcance que se pretende dar às adaptações curriculares como estratégias e critérios de atuação docente; e admite decisões que oportunizam adequar a ação educativa escolar às maneiras peculiares de os alunos aprenderem, considerando que o processo de ensino-aprendizagem pressupõe atender à diversificação de necessidades dos alunos na escola. Essas adaptações resguardam o caráter de flexibilidade e dinamicidade que o currículo escolar deve ter, ou seja, a EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 15 convergência com as condições do aluno e a correspondência com as finalidades da educação na dialética de ensino e aprendizagem. Não se colocam, portanto, como soluções remediativas para “males diagnosticados” nos alunos, nem justificam a cristalização do ato pedagógico igualmente produzido para todos na sala de aula. Do mesmo modo, não defendem a concepção de que a escola dispõe sempre de uma estrutura apropriada ou realiza um fazer pedagógico adequado a que o educando deve se adaptar. Implica, sim, a convicção de que o aluno e a escola devem se aprimorar para alcançar a eficiência da educação a partir da interatividade entre esses dois atores. 4 EDUCAÇÃO PARA TODOS O movimento nacional para incluir todas as crianças na escola e o ideal de uma escola para todos vêm dando novo rumo às expectativas educacionais para os alunos com necessidades especiais. Esses movimentos evidenciam grande impulso desde a década de 90 no que se refere à colocação de alunos com deficiência na rede regular de ensino e têm avançado aceleradamente em alguns países desenvolvidos, constatando-se que a inclusão bem-sucedida desses educandos requer um sistema educacional diferente do atualmente disponível. Implicam a inserção de todos, sem distinção de condições linguísticas, sensoriais, cognitivas, físicas, emocionais, étnicas, socioeconômicas ou outras e requer sistemas educacionais planejados e organizados que deem conta da diversidade dos alunos e ofereçam respostas adequadas às suas características e necessidades. A inclusão escolar constitui, portanto, uma proposta politicamente correta que representa valores simbólicos importantes, condizentes com a igualdade de direitos e de oportunidades educacionais para todos, em um ambiente educacional favorável. Impõe-se como uma perspectiva a ser pesquisada e experimentada na realidade brasileira, reconhecidamente ampla e diversificada. Ao pensar a implementação imediata do modelo de educação inclusiva nos sistemas educacionais de todo o país (nos estados e municípios), há que se contemplar alguns de seus pressupostos. Que professor o modelo inclusivista prevê? O professor especializado em todos os alunos, inclusive nos que apresentam deficiências? O plano teórico-ideológico da escola inclusiva requer a superação dos obstáculos impostos pelas limitações do sistema regular de ensino. Seu ideário defronta-se com dificuldades operacionais e pragmáticas reais e presentes, como recursos humanos, pedagógicos e físicos ainda não contemplados nesse Brasil afora, mesmo nos grandes centros. Essas condições, a serem plenamente conquistadas em futuro remoto, supõe-se, são exequíveis na atualidade, em condições restritamente específicas de programas-modelos ou experimentais. O que se figura de maneira mais expressiva ao se pensar na viabilidade do modelo de escola inclusiva para todo o país no momento, é a situação dos recursos humanos, especificamente dos professores das classes regulares, que precisam ser efetivamente capacitados para transformar sua prática educativa. A formação e a capacitação docente impõem-se como meta principal a ser alcançada na concretização do sistema educacional que inclua a todos, verdadeiramente. É indiscutível a dificuldade de efetuar mudanças, ainda mais quando implicam novos desafios e inquestionáveis demandas socioculturais. O que se pretende, numa fase de transição onde os avanços são inquietamente almejados, é o enfrentamento desses desafios mantendo-se a continuidade entre as práticas passadas e os presentes, vislumbrando o porvir; EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 16 é procurar manter o equilíbrio cuidadoso entre o que existe e as mudanças que se propõem. Observe-se a legislação atual. Quando se preconiza, para o aluno com necessidades especiais, o atendimento educacional especializado preferencialmente na rede regular de ensino, evidencia-se uma clara opção pela política de integração no texto da lei, não devendo a integração – seja como política ou como princípio norteador – ser penalizada em decorrência dos erros que têm sido identificados na sua operacionalização nas últimas décadas. O êxito da integração escolar depende, dentre outros fatores, da eficiência no atendimento à diversidade da população estudantil. Como atender a essa diversidade? Sem pretender respostas conclusivas, sugere-se estas, dentre outras medidas: elaborar propostas pedagógicas baseadas na interação com os alunos, desde a concepção dos objetivos; reconhecer todos os tipos de capacidades presentes na escola; sequenciar conteúdos e adequá-los aos diferentes ritmos de aprendizagem dos educandos; adotar metodologias diversas e motivadoras; avaliar os educandos numa abordagem processual e emancipadora, em função do seu progresso e do que poderá vir a conquistar. Alguns educadores defendem que uma escola não precisa preparar-se para garantir a inclusão de alunos com necessidades especiais, mas tornar-se preparada como resultado do ingresso desses alunos. Indicam, portanto, a colocaçãoimediata de todos na escola. Entendem que o processo de inclusão é gradual, interativo e culturalmente determinado, requerendo a participação do próprio aluno na construção do ambiente escolar que lhe seja favorável. Embora os sistemas educacionais tenham a intenção de realizar intervenções pedagógicas que propiciem às pessoas com necessidades especiais uma melhor educação, sabe-se que a própria sociedade ainda não alcançou níveis de integração que favoreçam essa expectativa. Para incluir todas as pessoas, a sociedade deve ser modificada, devendo firmar a convivência no contexto da diversidade humana, bem como aceitar e valorizar a contribuição de cada um conforme suas condições pessoais. A educação tem se destacado como um meio privilegiado de favorecer o processo de inclusão social dos cidadãos, tendo como mediadora uma escola realmente para todos, como instância sociocultural. A prática escolar tem evidenciado o que pesquisas científicas vêm comprovando: os sistemas educacionais experimentam dificuldades para integrar o aluno com necessidades especiais. Revelam os efeitos dificultadores de diversos fatores de natureza familiar, institucionais e socioculturais. A maioria dos sistemas educacionais ainda se baseia na concepção médico psicopedagógico quanto à identificação e ao atendimento de alunos com necessidades especiais. Focaliza a deficiência como condição individual e minimiza a importância do fator social na origem e manutenção do estigma que cerca essa população específica. Essa visão está na base de expectativas massificadas de desempenho escolar dos alunos, sem flexibilidade curricular que contemple as diferenças individuais. Outras análises levam à constatação de que a própria escola regular tem dificultado, para os alunos com necessidades especiais, as situações educacionais comuns propostas para os demais alunos. Direcionam a prática pedagógica para alternativas exclusivamente especializadas, ou seja, para alunos com necessidades especiais, a resposta educacional adequada consiste em serviços e recursos especializados. Tais circunstâncias apontam para a necessidade de uma escola transformada. Requerem a mudança de sua visão atual. A educação eficaz supõe um projeto pedagógico que enseje o acesso e a permanência – com êxito – do aluno no ambiente escolar; que assume a diversidade dos educandos, de modo a contemplar as suas necessidades e potencialidades. A forma convencional da prática pedagógica e do exercício da ação docente é EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 17 questionada, requerendo-se o aprimoramento permanente do contexto educacional. Nessa perspectiva é que a escola virá a cumprir o seu papel, viabilizando as finalidades da educação. Em uma dimensão globalizada da escola e no bojo do seu projeto pedagógico, a gestão escolar, os currículos, os conselhos escolares, a parceria com a comunidade escolar e local, dentre outros, precisam ser revistos e redimensionados, para fazer frente ao contexto da educação para todos. A lei nº 9.394 – de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – respalda, enseja e oferece elementos para a transformação requerida pela escola de modo que atenda aos princípios democráticos que a orientam. 5 EDUCAÇÃO ESPECIAL A Educação Especial tem sido atualmente definida no Brasil segundo uma perspectiva mais ampla, que ultrapassa a simples concepção de atendimentos especializados tal como vinha sendo a sua marca nos últimos tempos. Conforme define a nova LDB, trata-se de uma modalidade de educação escolar, voltada para a formação do indivíduo, com vistas ao exercício da cidadania. Como elemento integrante e indistinto do sistema educacional, realiza-se transversalmente, em todos os níveis de ensino, nas instituições escolares, cujo projeto, organização e prática pedagógica devem respeitar a diversidade dos alunos, a exigir diferenciações nos atos pedagógicos que contemplem as necessidades educacionais de todos. Os serviços educacionais especiais, embora diferenciados, não podem desenvolver-se isoladamente, mas devem fazer parte de uma estratégia global de educação e visar suas finalidades gerais. A análise de diversas pesquisas brasileiras identifica tendências que evitam considerar a educação especial como um subsistema à parte e reforçam o seu caráter interativo na educação geral. Sua ação transversal permeia todos os níveis – educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e educação superior, bem como as demais modalidades – educação de jovens e adultos e educação profissional. 6 NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS Os Parâmetros Curriculares Nacionais preconizam a atenção à diversidade da comunidade escolar e baseiam-se no pressuposto de que a realização de adaptações curriculares pode atender a necessidades particulares de aprendizagem dos alunos. Consideram que a atenção à diversidade deve se concretizar em medidas que levam em conta não só as capacidades intelectuais e os conhecimentos dos alunos, mas, também, seus interesses e motivações. A atenção à diversidade está focalizada no direito de acesso à escola e visa à melhoria da qualidade de ensino e aprendizagem para todos, irrestritamente, bem como as perspectivas de desenvolvimento e socialização. A escola, nessa perspectiva, busca consolidar o respeito às diferenças, conquanto não elogie a desigualdade. As diferenças vistas não como obstáculos para o cumprimento da ação educativa, mas, podendo e devendo ser fatores de enriquecimento. A diversidade existente na comunidade escolar contempla uma ampla dimensão de características. Necessidades educacionais podem ser identificadas em diversas situações representativas de dificuldades de aprendizagem, como decorrência de condições EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 18 individuais, econômicas ou socioculturais dos alunos: • crianças com condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais e sensoriais diferenciadas; • crianças com deficiência e bem- dotadas; • crianças trabalhadoras ou que vivem nas ruas; • crianças de populações distantes ou nômades; • crianças de minorias linguísticas, étnicas ou culturais; • crianças de grupos desfavorecidos ou marginalizados. A expressão necessidades educacionais especiais podem ser utilizadas para referir-se a crianças e jovens cujas necessidades decorrem de sua elevada capacidade ou de suas dificuldades para aprender. Está associada, portanto, a dificuldades de aprendizagem, não necessariamente vinculada a deficiência (s). O termo surgiu para evitar os efeitos negativos de expressões utilizadas no contexto educacional – deficientes, excepcionais, subnormais, superdotados, infradotados, incapacitados etc. – para referir-se aos alunos com altas habilidades/superdotação, aos portadores de deficiências cognitivas, físicas, psíquicas e sensoriais. Tem o propósito de deslocar o foco do aluno e direcionálo para as respostas educacionais que eles requerem, evitando enfatizar os seus atributos ou condições pessoais que podem interferir na sua aprendizagem e escolarização. É uma forma de reconhecer que muitos alunos, sejam ou não portadoresde deficiências ou de superdotação, apresentam necessidades educacionais que passam a ser especiais quando exigem respostas específicas adequadas. O que se pretende resgatar com essa expressão é o seu caráter de funcionalidade, ou seja, o que qualquer aluno pode requerer do sistema educativo quando frequenta a escola. Isso requer uma análise que busque verificar o que ocorre quando se transforma as necessidades especiais de uma criança numa criança com necessidades especiais. Com frequência, necessitar de atenção especial na escola pode repercutir no risco de tornar-se um portador de necessidades especiais. Não se trata de mero jogo de palavras ou de conceitos. Falar em necessidades educacionais especiais, portanto, deixa de ser pensar nas dificuldades específicas dos alunos e passa a significar o que a escola pode fazer para dar respostas às suas necessidades, de um modo geral, bem como aos que apresentam necessidades específicas muito diferentes dos demais. Considera os alunos, de um modo geral, como passíveis de necessitar, mesmo que temporariamente, de atenção específica e poder requerer um tratamento diversificado dentro do mesmo currículo. Não se nega o risco da discriminação, do preconceito e dos efeitos adversos que podem decorrer dessa atenção especial. Em situação extrema, a diferença pode conduzir à exclusão. Por culpa da diversidade ou de nossa dificuldade em lidar com ela? Nesse contexto, a ajuda pedagógica e os serviços educacionais, mesmo os especializados – quando necessários – não devem restringir ou prejudicar os trabalhos que os alunos com necessidades especiais compartilham na sala de aula com os demais colegas. Respeitar a atenção à diversidade e manter a ação pedagógica “normal” parece ser um desafio presente na integração dos alunos com maiores ou menos acentuadas dificuldades para aprender. Embora as necessidades especiais na escola sejam amplas e diversificadas, a atual Política Nacional de Educação Especial aponta para uma definição de prioridades no que se refere ao atendimento especializado a ser oferecido na escola para quem dele necessitar. Nessa perspectiva, define como aluno portador de necessidades especiais aquele que “... por apresentar necessidades próprias e diferentes dos demais alunos no domínio das EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 19 aprendizagens curriculares correspondentes à sua idade, requer recursos pedagógicos e metodologias educacionais específicas. ” A classificação desses alunos, para efeito de prioridade no atendimento educacional especializado (preferencialmente na rede regular de ensino), consta da referida Política e dá ênfase a: • portadores de deficiência mental, visual, auditiva, física e múltipla; • portadores de condutas típicas (problemas de conduta); • portadores de superdotação. 7 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA O Transtorno do Espectro Autista, ou simplesmente Autismo é um assunto complexo, e necessita de uma análise particular em cada criança e/ou pessoa. No entanto, há aspectos básicos para que se possa compreender de forma clara este conceito. Dito isto, podemos definir o autismo como uma síndrome comportamental que apresenta sintomas básicos como: • Dificuldade de interação social; • Déficit de comunicação social, tanto quantitativo quanto qualitativo; • Padrões inadequados de comportamento que não possuem finalidade social. Ao identificarmos estas 3 características básicas é possível definir e diagnosticar o autismo. A partir do último Manual de Saúde Mental – DSM-5, que é um guia de classificação diagnóstica, o Autismo e todos os distúrbios, incluindo o transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não especificado (PDD-NOS) e Síndrome de Asperger, fundiram-se em um único diagnóstico chamado Transtornos do Espectro Autista – TEA. O TEA é uma condição geral para um grupo de desordens complexas do desenvolvimento do cérebro, antes, durante ou logo após o nascimento. Esses distúrbios se caracterizam pela dificuldade na comunicação social e comportamentos repetitivos. Embora todas as pessoas com TEA partilhem essas dificuldades, o seu estado irá afetá-las com intensidades diferentes. Assim, essas diferenças podem existir desde o nascimento e serem óbvias para todos; ou podem ser mais sutis e tornarem-se mais visíveis ao longo do desenvolvimento. O TEA pode ser associado com deficiência intelectual, dificuldades de coordenação motora e de atenção e, às vezes, as pessoas com autismo têm problemas de saúde física, tais como sono e distúrbios gastrointestinais e podem apresentar outras condições como síndrome de déficit de atenção e hiperatividade, dislexia ou dispraxia. Na adolescência podem desenvolver ansiedade e depressão. Algumas pessoas com TEA podem ter dificuldades de aprendizagem em diversos estágios da vida, desde estudar na escola, até aprender atividades da vida diária, como, por exemplo, tomar banho ou preparar a própria refeição. Algumas poderão levar uma vida relativamente “normal”, enquanto outras poderão precisar de apoio especializado ao longo de toda a vida. O autismo é uma condição permanente, a criança nasce com autismo e torna-se um adulto com autismo. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 20 Assim como qualquer ser humano, cada pessoa com autismo é única e todas podem aprender. As pessoas com autismo podem ter alguma forma de sensibilidade sensorial. Isto pode ocorrer em um ou em mais dos cinco sentidos – visão, audição, olfato, tato e paladar – que podem ser mais ou menos intensificados. Por exemplo, uma pessoa com autismo pode achar determinados sons de fundo, que outras pessoas ignorariam, insuportavelmente barulhentos. Isto pode causar ansiedade ou mesmo dor física. Alguns indivíduos que são sub sensíveis podem não sentir dor ou temperaturas extremas. Algumas podem balançar rodar ou agitar as mãos para criar sensação, ou para ajudar com o balanço e postura ou para lidar com o stress ou ainda, para demonstrar alegria. As pessoas com sensibilidade sensorial podem ter mais dificuldade no conhecimento adequado de seu próprio corpo. Consciência corporal é a forma como o corpo se comunica consigo mesmo ou com o meio. Um bom desenvolvimento do esquema corporal pressupõe uma boa evolução da motricidade, das percepções espaciais e temporais, e da afetividade. As pessoas com Transtornos do Espectro Autista podem se destacar em habilidades visuais, música, arte e matemática: A maioria das pessoas com autismo é boa em aprender visualmente; Algumas pessoas com autismo são muito atentas aos detalhes e à exatidão; Geralmente possuem capacidade de memória muito acima da média; É provável que as informações, rotinas ou processos uma vez aprendidos, sejam retidos; Algumas pessoas conseguem concentrar-se na sua área de interesse especifico durante muito tempo e podem optar por estudar ou trabalhar em áreas afins; A paixão pela rotina pode ser fator favorável na execução de um trabalho; Indivíduos com autismo são funcionários leais e de confiança. Transtorno do EspectroAutista (TEA) é transtorno do neurodesenvolvimento infantil caracterizado por dificuldades na interação social, comunicação, comportamentos repetitivos e interesses restritos, podendo apresentar também sensibilidades sensoriais. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 21 Esses comportamentos muitas vezes se manifestam pelo interesse intenso e focalizado em um assunto em particular; com movimentos corporais estereotipados como agitar as mãos; e uma sensibilidade aumentada a sons ou texturas. O conceito de espectro reflete a ampla gama de desafios e até que ponto que as pessoas com autismo podem ser afetadas. A ocorrência é de cerca de um em cada 100 pessoas tem um TEA. Sabe-se que é quatro vezes mais comum em meninos do que meninas. A qualidade de vida de muitas crianças e adultos pode ser significativamente melhorada por um diagnóstico precoce e a indicação de tratamento. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizada por dificuldades acentuadas no comportamento, interação social, comunicação e sensibilidades sensoriais. Algumas destas características são comuns entre pessoas com um transtorno do espectro autista; outros são típicos da doença, mas não necessariamente exibido por todas as pessoas do espectro do autismo. 7.1 Comportamental As pessoas com o transtorno do espectro autista, devido às dificuldades que têm de responder ao ambiente, podem apresentar um comportamento incomum. O seu comportamento é geralmente uma tentativa de comunicar os seus sentimentos ou para lidar com uma situação. Problemas de comportamento podem ocorrer como resultado de sua maior sensibilidade a um som ou algo que pode ter visto ou sentido. As pessoas com transtorno do espectro autista, aderem rigidamente a rotinas e podem passar seu tempo com comportamentos repetitivos a fim de tentarem reduzir as incertezas e manter a previsibilidade do ambiente. Outros comportamentos podem incluir: Interesses intensos ou híper foco; Movimentos corporais estereotipados e repetitivos, tais como agitar as mãos; Manipulação repetitiva de objetos, tais como ligar e desligar ou alinhar brinquedos; Insistência em aderir a rotinas, tais passar sempre pelo mesmo lugar e fazer as coisas exatamente na mesma ordem a cada vez; Interesses sensoriais incomuns, como cheirar objetos ou olhar atentamente para objetos em movimento; Sensibilidades sensoriais, incluindo a evitação de sons do cotidiano e texturas, como secadores de cabelo, aspiradores de pó e areia; Deficiência intelectual ou dificuldades de aprendizagem. 7.2 A interação social As pessoas com TEA têm dificuldade em estabelecer e manter relacionamentos. Eles têm dificuldades para entender algumas formas de comportamentos não-verbais típicos como como expressões faciais, gestos físicos e contato visual. Eles são muitas vezes incapazes de compreender e expressar as suas necessidades, assim como eles podem ter dificuldades de interpretar e compreender as necessidades dos outros. Isso prejudica sua capacidade de partilhar interesses e atividades com outras pessoas. Por esta razão, podem parecer distantes e indiferentes. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 22 A dificuldade de comunicação verbal em geral acarreta problemas de interação social, podendo abandonar brincadeiras de jogos, com comportamentos repetitivos para evitar a interação. Suas dificuldades de interação social podem se manifestar das seguintes formas: Utilização limitada e compreensão da comunicação não-verbal, como o olhar, a expressão facial e o gesto; Dificuldade de iniciar e manter amizades; Falta de compartilhamento de prazeres, interesses e atividades com outras pessoas; Dificuldades com a capacidade de resposta social e emocional. 7.3 Comunicação Pessoas com um TEA, invariavelmente, têm de uma forma ou de outras dificuldades de comunicação. Há algumas pessoas com ASD que falam fluentemente, outros podem ter alteração da fala em diferentes graus, alguns poucos podem ainda serem incapazes de falar normalmente. Dentre os que conseguem falar, sua linguagem pode ser limitada ou incomum. O seu discurso pode incluir a repetição de frases ou palavras de forma a fazer as mesmas perguntas várias vezes. As pessoas com ASD geralmente só falam de temas que são de interesse para eles mesmos, o que torna difícil a troca de experiências na comunicação. Eles têm dificuldade em interpretar as formas não- verbais de comunicação, como expressões faciais, gestos e outras linguagens corporais. Comunicação prejudicada é caracterizado por: Desenvolvimento atrasado da linguagem; Dificuldades de iniciar e manter conversas; Uso estereotipado e repetitivo da linguagem como repetir sempre as mesmas frases. Desde 2013, o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais trouxe uma nova classificação dentro de Transtornos do Neurodesenvolvimento: o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Isso significa que o quadro engloba Autismo, Síndrome de Asperger, Síndrome de Rett, Transtornos do desenvolvimento e Transtorno Desintegrativo da Infância. Na prática, tal mudança ampliou as possibilidades diagnósticas. Entretanto, no Brasil, isto tem confundido muitos profissionais e familiares. Para se ter uma ideia, enquanto há crianças brasileiras de 04/05 anos de idade sem diagnóstico, os bebês americanos de 09/10 meses que apresentam qualquer suspeita ou atraso nas fases do desenvolvimento neuropsicomotor e linguístico já estão inseridos em terapias de estimulação. E, claro, se necessário, em seguida são assistidos por equipe multidisciplinar composta por psicólogo comportamental, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo e médico neuropediatra ou psiquiatra. EDUCAÇÃO E TRABALHO, CULTURA E SOCIEDADE 23 A situação brasileira é bastante grave, já que não sabemos quantas pessoas com TEA existem por aqui. Levando em conta as estatísticas internacionais, estima-se que 1 em cada 68 bebês nascidos tenham características e que existam 2 milhões de cidadãos brasileiros no Espectro Autista. E sabem por que estou contando tudo isso? Para que vocês, pais/tios/avós, busquem informações seguras e com bases científicas e fiquem atentos aos sinais. Sabe aquele amiguinho “mal-educado e birrento”, aquela menina “esquisita e tímida” ou o bebê “preguiçoso e bonzinho” da amiga? Então, eles também podem ter os sintomas. Uma criança com Transtorno de Espectro Autista tem alterações no funcionamento neurológico que geram consequências para habilidades sociais, linguagem e comportamento, tais como: ausência de fala, agressividade, sensações corporais desconfortáveis. E isso não tem a ver com traços de personalidades. O diagnóstico de TEA não é uma “sentença de morte” - apesar da tristeza, do medo e da angústia dos pais em um primeiro momento. Sei que é um turbilhão