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DELEGADO DE POLÍCIA CIVIL Direito Penal Capítulos 1 ao 12 DELEGADO DE POLÍCIA CIVIL Direito Penal Capítulo 1 1 Olá, aluno! Bem-vindo ao estudo para os concursos de Delegado de Polícia Civil. Preparamos todo esse material para você não só com muito carinho, mas também com muita métrica e especificidade, garantindo que você terá em mãos um conteúdo direcionado e distribuído de forma inteligente. Para isso, estamos constantemente analisando o histórico de provas anteriores com fins de entender como cada Banca e cada Carreira costuma cobrar os assuntos do edital. Afinal, queremos que sua atenção esteja focada nos assuntos que lhe trarão maior aproveitamento, pois o tempo é escasso e o cronograma é extenso. Conte conosco para otimizar seu estudo sempre! Ademais, estamos constantemente perseguindo melhorias para trazer um conteúdo completo que facilite a sua vida e potencialize seu aprendizado. 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Capítulo 3 – Erro de tipo. Iter criminis. Capítulo 4 – Ilicitude. Capítulo 5 – Culpabilidade. Concurso de pessoas. Capítulo 6 – Das penas. Capítulo 7 – Concurso de crimes. Capítulo 8 – Extinção da punibilidade Capítulo 9 – Dos crimes contra a pessoa. Dos crimes contra a honra. Capítulo 10 – Dos crimes contra a dignidade sexual. Capítulo 11 – Dos crimes contra o patrimônio. Capítulo 12 – Dos crimes contra a administração pública e outros. 3 SUMÁRIO DIREITO PENAL ................................................................................................................................................... 6 1. Noções gerais do direito penal ................................................................................................................... 6 1.1 Definição.............................................................................................................................................. 6 1.2 Natureza Jurídica ................................................................................................................................. 6 1.3 Nomenclatura ...................................................................................................................................... 6 1.4 Características do Direito Penal .......................................................................................................... 7 1.5 Criminalização primária e criminalização secundária. Seletividade e vulnerabilidade do Direito Penal 7 1.6 Ciência do direito penal ...................................................................................................................... 8 1.6.1 Dogmática penal .............................................................................................................................. 8 1.6.2 Política criminal ............................................................................................................................... 9 1.6.3 Criminologia ..................................................................................................................................... 9 1.7 Funções do direito penal ................................................................................................................... 10 1.7.1 Direito Penal como proteção de bens jurídicos ............................................................................ 10 1.7.2 Direito Penal como instrumento de controle social ..................................................................... 10 1.7.3 Direito Penal como garantia .......................................................................................................... 10 1.7.4 Função ético-social do Direito Penal ............................................................................................. 11 1.7.5 Função simbólica do Direito Penal ................................................................................................ 11 1.7.10 Categorias do Direito Penal ............................................................................................................... 12 1.8 Fontes do Direito Penal ..................................................................................................................... 13 1.8.1 Fontes materiais, substanciais ou de produção ............................................................................ 13 1.8.2 Fontes formais, cognitivas ou de conhecimento........................................................................... 14 1.9 Escolas penais .................................................................................................................................... 17 1.9.1 Escola Clássica................................................................................................................................ 17 1.9.2 Escola Positiva................................................................................................................................ 17 1.9.3 Correcionalismo Penal ................................................................................................................... 18 1.9.4 Tecnicismo Jurídico-Penal ............................................................................................................. 18 1.9.5 A defesa social ............................................................................................................................... 19 1.10 Evolução doutrinária do direito penal .............................................................................................. 19 1.10.1 Positivismo Jurídico ....................................................................................................................... 19 4 1.10.2 Neokantismo Penal ........................................................................................................................ 19 1.10.3 Garantismo Penal .......................................................................................................................... 20 1.10.4 Funcionalismo Penal ...................................................................................................................... 21 1.11 Direito de Intervenção ...................................................................................................................... 23 1.12 Velocidades do Direito Penal ............................................................................................................ 23 1.13 Princípios do direito penal ................................................................................................................ 25 1.13.1 Princípio da reserva legal ou da estrita legalidade ........................................................................ 25 1.13.2 Princípio da anterioridade ............................................................................................................. 28 1.13.3 Princípio da insignificância ............................................................................................................os princípios Constitucionais: Explícitos: Legalidade e corolários: anterioridade e retroatividade penal benéfica; Personalidade ou Responsabilidade Pessoal; Individualização da Pena; Humanidade. Implícitos: Intervenção mínima e corolários: fragmentariedade, subsidiariedade, ofensividade ou lesividade. Insignificância ou bagatela e adequação social. Culpabilidade Proporcionalidade Vedação da Dupla punição pelo menos fato. 1.14 Lei penal É a fonte imediatado Direito Penal. Exerce o papel exclusivo de criar infrações penais e cominar-lhes as penas respectivas. Sua estrutura é composta por dois preceitos, um primário (conduta) e outro secundário (pena). 1.14.1 Classificação As leis penais apresentam diversas divisões. Podem ser: ● Incriminadoras: são as que criam crimes e cominam penas. ● Não incriminadoras: são as que não criam crimes nem cominam penas. Subdividem-se em: 41 Permissivas: autorizam a prática de condutas típicas, ou seja, são as causas de exclusão de ilicitude. Ex: aborto legal (art. 128 do CP). Exculpantes: estabelecem a não culpabilidade do agente ou ainda a impunidade de determinados delitos. Ex: menoridade, prescrição e perdão judicial. Interpretativas: esclarecem o conteúdo e o significado de outras leis penais. Ex: conceito de domicílio, conceito de Funcionário Público. De aplicação, finais ou complementares: delimitam o campo de validade das leis incriminadoras. Diretivas: estabelecem os princípios de determinada matéria. Ex: Princípio da reserva legal. Integrativas ou de extensão: complementam a tipicidade no tocante ao nexo causal nos crimes omissivos impróprios, à tentativa e à participação. ● Completas ou perfeitas: apresentam todos os elementos da conduta criminosa. ● Incompletas ou imperfeitas: reservam a complementação da definição da conduta criminosa a outra lei, a um ato administrativo ou ao julgador. Necessitam de complementação no preceito secundário, por não trazerem a cominação da pena correspondente à prática da conduta típica.12 1.14.2 Características A lei penal não é proibitiva, mas descritiva. A legislação penal brasileira optou por uma proibição indireta. ● Exclusividade: só a lei pode criar delitos e penas. ● Imperatividade: o seu descumprimento acarreta imposição de pena ou medida de segurança, tornando obrigatório o seu respeito. ● Generalidade: dirige-se indistintamente a todas as pessoas, inclusive aos inimputáveis. ● Impessoalidade: projeta seus efeitos abstratamente a fatos futuros. Exceções: anistia e abolitio criminis. ● Anterioridade: aplicação da lei em vigor quando da prática da infração penal, salvo no caso de retroatividade benéfica. 12 Vide questão 14 do material 42 1.14.3 Lei Penal em Branco É também denominada de cega ou aberta. Espécie de lei penal cuja definição da conduta (preceito primário) criminosa reclama a complementação, seja de outra lei, seja por ato administrativo. Divide-se em: ● Lei penal em branco em sentido lato ou homogênea: o complemento tem a mesma natureza jurídica e provém do mesmo órgão que elaborou a lei incriminadora. Homovitelina: o complemento encontra-se no mesmo diploma legislativo. Ex: Lei penal e Lei penal. Heterovitelina: diplomas diversos. Ex: Lei penal e Lei civil. ● Lei penal em branco em sentido estrito ou heterogênea: o complemento tem natureza diversa e emana de órgão distinto. Ex: Lei de drogas – editado pelo Legislativo federal, mas complementado pelo Poder executivo. ● Leipenal em branco inversa ou ao avesso (ao revés): o preceito primário (conduta) é completo, mas o secundário não (pena). A complementação deve ser obrigatoriamente a lei. Ex: crime de genocídio. ● Lei penal em branco de fundo constitucional: o complemento do preceito primário é a norma constitucional. Ex: crime de abandono intelectual. ● Lei penal em branco ao quadrado: complemento depende de complementação. O tipo penal é duplamente complementado. 1.14.4 Interpretação da lei penal Deve buscar a vontade da lei. É disciplinada pela hermenêutica jurídica. É também conhecida como exegese. INTERPRETAÇÃODA LEI PENAL Autêntica: retroage, ainda 43 QUANTO AO SUJEITO que mais gravosa. Doutrinária: exposição de motivos tem esse valor. Jurisprudencial: Dada pela reiteração de decisões dos tribunais no mesmo sentido. QUANTO AO RESULTADO Declarativa: a letra da lei corresponde exatamente aquilo que o legislador quis dizer. Extensiva: amplia-se o alcance das palavras da lei para corresponder ao alcance/vontade do texto. A lei disse menos do que desejava. Restritiva: reduz-se o alcance das palavras da lei para corresponder ao alcance/vontade do texto. A lei disse mais do que desejava. Progressiva/adaptativa/evolu tiva: busca amoldar a lei à realidade atual. 44 INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA ANALOGIA (integração) Existe norma para o caso concreto Existe norma para o caso concreto existe norma para o caso concreto Amplia-se o alcance na palavra “arma” – art. 157, § 2° do CP O legislador previu uma fórmula genérica, permitindo ao juiz encontrar outros.13 Juiz aplica a lei prevista para outro caso no caso em que há lacuna. 1.14.5 Direito Penal Intertemporal (Aplicação da Lei Penal no Tempo) Na Lei penal no tempo, atenção para a abolitio criminis e seus efeitos. Quem deve aplicar a lei mais favorável ao réu, bem como na lei penal no espaço [e muito importante saber os critérios e requisitos. Definirá qual a norma será aplicada. ● Regra: tempus regit acto. ● Exceções: extra-atividade. ⮚ Retroatividade benéfica – A lei posterior retroage e alcança fatos ocorridos anteriormente à sua entrada em vigor. ⮚ Ultra-atividade – A lei revogada regula fatos ocorridos DURANTE sua vigência. ● Teorias: Atividade: Resultado Ubiquidade Considera-se praticado o crime no momento da conduta, isto é, da AÇÃO OU OMISSÃO. Considera-se praticado o crime no momento Considera-se praticado o crime no momento 13 45 do resultado. da conduta ou do resultado. O Código Penal adotou a TEORIA DA ATIVIDADE(tempus regit actum), em seu Art. 4.º: “Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, AINDA QUE outro seja o momento do resultado”. BIZU: LUTA = Lugar do crime, Ubiquidade/Tempo do crime, Atividade ● Efeitos: ⮚ Análise da imputabilidade no momento da conduta; ⮚ Análise das condições da vítima no momento da conduta; 1.14.6 Sucessão de Leis Penais no Tempo ⮚ ABOLITIO CRIMINIS É a retirada de um crime do ordenamento jurídico. É uma causa extintiva da punibilidade (art. 107, III): retroagepara alcançar os fatos que deixaram de ser crime antes da nova lei. Encontra previsão legal no art. 2.º, caput, do Código Penal.14 14 Vide questão 15 do material 46 Art. 2º, CP - Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. A abolitio criminis não respeita a coisa julgada, assim, cessa a execução penal e os efeitos penais da condenação, permanecendo os efeitos extrapenais. Ex.: a sentença continua servindo como título executivo judicial para reparação de danos sofridos pela vítima; o sujeito não recupera o cargo, emprego ou função perdido. É preciso distinguir a abolitio criminis do princípio da continuidade normativa típica. O princípio da continuidade normativa típica ocorre, segundo o STJ (Info. 518), “quando uma norma penal é revogada, mas a mesma conduta continua sendo crime no tipo penal revogador, ou seja, a infração penal continua tipificada em outro dispositivo, ainda que topologicamente ou normativamente diverso do originário”. Ex.: o atentado violento ao pudor foi revogado (Lei 12.015/09), maso fato passou a ser alcançado pelo tipo do art. 213 (estupro). ABOLITIO CRIMINIS CONTINUIDADE NORMATIVA TÍPICA Há uma supressão formal e material da figura criminosa. Há uma supressão apenas formal da figura criminosa. A conduta não mais será punida (o fato deixa de ser punível). O fato permanece sendo punível (a conduta criminosa, no entanto, é deslocada para outro tipo penal). A conduta não é mais criminosa. A conduta continua sendo criminosa. Ex: o art. 240 do CP (crime de adultério) foi revogado e não existe mais nenhuma lei no ordenamento jurídico que afirme que esta conduta é crime. Ex: o art. 1º da Lei 2.252/54 (corrupção de menores) foi revogado, mas o ordenamento jurídico continua prevendo esta conduta como criminosa, porém em um outro dispositivo legal (art. 244- B do ECA). ⮚ NOVATIO LEGIS INCRIMINADORA 47 É o contrário da abolitio criminis. Tipifica um comportamento que até então não era crime. Como a extra-atividade só atua em benefício do réu, a lei não retroagirá para alcançar os fatos praticados antes da entrada em vigor da nova lei. ⮚ LEX MITIOR É a lei posterior que, de qualquer modo, favorece o agente. É sempre retroativa. Ex.: se surgir uma lei que reduz a pena mínima de um delito, esta será aplicada, mesmo que a sentença condenatória tenha transitado em julgado. Só não será aplicada se o agente já tiver cumprido a pena. Isto porque a lex mitior também não respeita a coisa julgada. Art. 2º, parágrafo único, Código Penal - A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. Os crimes permanente e continuado têm uma especificidade, constante na súmula 711 do STF: “A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência”. Ex.: o agente sequestrou a vítima quando estava em vigor à lei A (início dos atos de execução). Quando a vítima foi libertada, já estava em vigor a lei B, que dava tratamento mais rigoroso ao réu, aumentando as penas cominadas. Deverá ser aplicada a lei B, mesmo que configure novatio legis in pejus. ⮚ LEX GRAVIOR É a lei posterior que prejudica a situação do agente. Como a extra-atividade da lei penal só ocorre benefício do réu, a lex gravior não o prejudica. Não retroage. 1.14.7 Lei Penal Temporária e Excepcional ● Lei Temporária: Aquela que tem, prefixado em seu texto, o tempo de vigência. Ex.: Lei A estabelece que sua vigência durará do dia 1º de janeiro de 2012 ao dia 1º de junho de 2012. 48 ● Lei Excepcional: Aquela que atende a transitórias necessidades estatais, tais como guerras, calamidades e epidemias. Ex.: Lei A começa dia 1º de janeiro de 2012 e perdurará até o fim da epidemia. Ambas são ULTRATIVAS e AUTORREVOÁVEIS: os fatos praticados durante sua vigência continuarão a ser punidos mesmo após o fim de sua vigência. Se assim não fossem, como essas leis são de curtíssima duração, seria sancionada uma ineficácia preventiva, ou seja, essas leis não teriam aplicabilidade. Art. 3º, Código Penal- A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência. 1.14.8 Lex Tertia (combinação de leis penais) Há uma divergência doutrinária quanto à aplicação da combinação de leis no direito penal. Ex.: uma lei antiga favorecia o réu em um determinado ponto e a nova, em outro. Discute-se se é possível a combinação das duas leis para aproveitar o que nelas for mais benéfico ao réu. ● STJ: Já foi favorável a aplicação, adotando a Teoria da ponderação diferenciada, desde que a combinação seja em benefício do réu; ● STF: Contrário. Afirma que o juiz iria atuar na função de legislador, violando o Princípio da Separação dos Poderes, adotando, assim, a Teoria da ponderação unitária; ATENÇÃO! O CPM: veda expressamente. Súmula n.º 501, STJ:É cabível a aplicação retroativa da Lei n. 11.343/2006, desde que o resultado da incidência das suas disposições, na íntegra, seja mais favorável ao réu do que o advindo da aplicação da Lei n. 6.368/1976, sendo vedada a combinação de leis. 1.14.9 Lei penal no espaço O campo de validade da lei penal observa de dois vetores fundamentais: a territorialidade (art. 5.º) e a extraterritorialidade (art. 7.º), e é através deles que são estabelecidos princípios que buscam solucionar os conflitos de leis penais no espaço. 49 Aplica-se a lei brasileira aos crimes cometidos no território nacional. Há exceções que ocorrem quando o brasileiro pratica crime no exterior ou quando um estrangeiro comete delito no Brasil. Fala-se, assim, que o Código penal adotou o princípio da territorialidade temperada ou mitigada. Art. 5º, CP - Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional. A territorialidadeé a regra. Entretanto, excepcionalmente, admitem-se outros princípios para o caso de extraterritorialidade, que são os da personalidade, do domicílio, da defesa, da justiça universal e da representação. ● Princípio da personalidade ou da nacionalidade: autoriza a submissão à lei brasileira dos crimes praticados no estrangeiro por autor brasileiro (ativa) ou contra vítima brasileira (passiva). De acordo com a personalidade ativa, o agente é punido de acordo com a lei brasileira, independentemente da nacionalidade do sujeito passivo e do bem jurídico ofendido. É previsto no art. 7.º, I, alínea “d” (“quando o agente for brasileiro”), e também pelo inciso II, alínea “b”, do Código Penal. Já o princípio da personalidade passivaaplica-se nos casos em que a vítima é brasileira. O autor do delito que se encontrar em território brasileiro, embora seja estrangeiro, deverá ser julgado de acordo com a nossa lei penal. É adotado pelo art. 7.º, § 3.º, do Código Penal. ● Princípio do domicílio: o autor do crime deve ser julgado em consonância com a lei do país em que for domiciliado, pouco importando sua nacionalidade. Previsto no art. 7.º, I, alínea “d” (“domiciliado no Brasil”), do Código Penal, no tocante ao crime de genocídio no qual o agente não é brasileiro, mas apenas domiciliado no Brasil. ● Princípio da defesa, real ou da proteção: permite submeter à lei penal brasileira os crimes praticados no estrangeiro que ofendam bens jurídicos pertencentes ao Brasil, qualquer que seja a nacionalidade do agente e o local do delito. Adotado pelo Código Penal, em seu art. 7.º, I, alíneas “a”, “b” e “c”, compreendendo os crimes contra: a) a vida ou a liberdade do Presidente da República; b) o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, 50 sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público; e c) a administração pública, por quem está a seu serviço. ● Princípio da justiça universal: Conhecido também como princípio da justiça cosmopolita, da competência universal, da jurisdição universal, da jurisdição mundial, da repressão mundial ou da universalidade do direito de punir, é característico da cooperação penal internacional. Fundamenta-se no dever de solidariedade na repressão de certos delitos cuja punição interessa a todos os povos. É adotado no art. 7.º, II, “a”, do Código Penal: “os crimes que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir”. ● Princípio da representação: também denominado princípio do pavilhão, da bandeira, subsidiário ou da substituição. Segundo esse princípio, deve ser aplicada a lei penal brasileira aos crimes cometidos em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, quando estiverem em território estrangeiro e aí não sejam julgados.É adotado pelo art. 7.º, II, “c”, do Código Penal. 1.14.10 Lugar do crime O Código Penal adotou a TEORIA DA UBIQUIDADE: Art. 6º. Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado. A teoria da ubiquidade não se aplica nos seguintes casos: 1) Crimes conexos; 2) Crimes plurilocais; 3) Infrações penais de menor potencial ofensivo; 4) Crimes falimentares; 5) Atos infracionais. 1.14.11 Extraterritorialidade 51 Extraterritorialidade é a aplicação da legislação penal brasileira aos crimes cometidos no exterior. Pode ser incondicionada ou condicionada. Não se admite a aplicação da lei penal brasileira às contravenções penais praticadas no estrangeiro, de acordo com a regra estabelecida pelo art. 2.º do Decreto-lei 3.688/1941 – Lei das Contravenções Penais. Extraterritorialidade incondicionada: não está sujeita a nenhuma condição. A mera prática do crime em território estrangeiro autoriza a incidência da lei penal brasileira, independentemente de qualquer outro requisito. As hipóteses estão previstas no art. 7.º, I, do Código Penal e, no tocante a esses crimes, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou condenado no estrangeiro(art. 7.º, § 1.º). Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: I - os crimes: a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República; b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público; c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil; Extraterritorialidade condicionada: prevista no art. 7.º, II, e § 3.º, do Código Penal. Hipóteses: II - os crimes: 52 a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir; b) praticados por brasileiro; c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados. A aplicação da lei brasileira depende das seguintes condições cumulativas: ▪ entrar o agente no território nacional; ▪ ser o fato punível também no país em que foi praticado; ▪ estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição; ▪ não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena; ▪ não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais favorável. De outro lado, no caso de crime cometido por estrangeiro contra brasileiro, fora do Brasil, exigem-se outras duas condições, além das anteriormente indicadas, quais sejam: a) não ter sido pedida ou ter sido negada a extradição; e b) ter havido requisição do Ministro da Justiça. 1.14.12 Conflito Aparente de Leis Penais (Antinomia) Ocorre quando um único fato se revela possível, em tese, a aplicação de dois ou mais tipos legais. O conflito é aparente, pois desaparece com a correta interpretação da lei penal, que se dá com a utilização de princípios adequados. A solução desse conflito dedica-se a manter a coerência sistemática do ordenamento jurídico, bem como a preservar a inaceitabilidade do bis in idem. Possui como requisitos: 1) Unidade do fato; 2) Pluralidade de leis penais; 3) Vigência simultânea de todas elas. Assim, a solução do conflito aparente é dada pela aplicação dos princípios da ESPECIALIDADE, SUBSIDIARIEDADE, CONSUNÇÃOe ALTERNATIVIDADE. 53 ● Princípio da especialidade: Norma especial afasta a aplicação da norma geral (Lex specialis derrogat generali.). Ex.: Homicídio e Infanticídio. ● Princípio da subsidiariedade: Na impossibilidade de aplicação da norma principal mais grave, aplica-se a norma subsidiária menos grave, atuando como verdadeiro soldado de reserva. (Lex primaria derrogat legi subsidiariae). Pode ser: Tácita - O fato previsto em norma (subsidiaria) [e elemento componente de fato incriminado mais gravemente por outra norma (principal); Expresso - Prevista expressamente na lei. ● Princípio da consunção: o fato mais amplo e grave consome, absorve os demais fatos menos amplos e graves. A lei consuntiva prefere a lei consumida. Hipóteses de aplicação: Crime complexo: da fusão de dois ou mais crimes, que passam a desempenhar a função de elementares ou circunstâncias daquele, tal como se dá no roubo, união do furto e ameaça/lesão corporal. O crime complexo absorve os delitos autônomos que compõe a sua estrutura típica. Crime progressivo: quando o agente, almejando desde o início alcançar o resultado mais grave, pratica, a reiteração de atos, crescentes violações aos bens jurídicos. O ato final, gerador do evento originariamente desejado, consome os anteriores, os crimes de ação de passagem. Progressão criminosa: quando o agente pretende inicialmente produzir um resultado e, depois de alcança-lo, opta por prosseguir na prática ilícita e reinicia outra conduta, produzindo um evento mais grave. Pluralidade de desígnios, havendo alteração em seu dolo. Atos impuníveis: são divididos em três grupos: anteriores, simultâneos e posteriores. Os anteriores são os que funcionam como meios de execução do tipo principal, ficando por estes absorvidos. Os simultâneos: são os praticados no instante em que se executa o fato principal. E os posteriores, são os que, depois de realizada a conduta, o sujeito pratica nova ofensa contra o mesmo bem jurídico. Post Factum nãopunível - Ocorre geralmente quando após consumar o crime, ha agressão contra o mesmo bem jurídico. ● Princípio da Alternatividade: duas ou mais disposições legais se repetem diante do mesmo fato. É a consunção que resolve o conflito entre condutas previstas na mesma 54 lei penal. Boa parte da doutrina não inclui a alternatividade como critério para solução de conflito aparente de normas, pois afirmam que existe conflito dentro da própria norma, portanto a alternatividade éinútil para solucionar conflito. 1.14.13 Pena cumprida no estrangeiro Conforme o Art. 8º, do Código Penal, a pena cumprida no estrangeiro ATENUAa pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando DIVERSAS, ou nela é computada, quando idênticas. 1.14.14 Eficácia da sentença estrangeira Em regra, a sentença estrangeira não precisa ser homologada no Brasil para gerar efeitos, bastando prova legal da existência da condenação (carta de sentença). O art. 9º traz duas exceções, ou seja, duas situações em que a sentença penal estrangeira precisa ser homologada no Brasil para gerar: SENTENÇA PENAL PRECISA SER HOMOLOGADA PARA... A HOMOLOGAÇÃO DEPENDE DE... Gerar EFEITOS CIVIS PEDIDO da parte interessada Sujeitar o condenado a MEDIDA DE SEGURANÇA seja, duas situações em que a sentença penal estrangeira precisa ser homologada no Brasil para gerar: TRATADO DE EXTRADIÇÃO com o país de cuja autoridade judiciária emanou a sentença, ou, na falta de tratado, de REQUISIÇÃO DO MINISTRO DA JUSTIÇA 1.14.15 Contagem de prazo Conforme dispõe o Art. 10, Código Penal: “o dia do começo inclui-se no cômputo do prazo”. Contam-se os dias, os meses e os anos pelo calendário comum. Para calcular na prova, diminui um dia. Ex.: se a pena é de um ano e se iniciou em 10/10, estará integralmente cumprida no dia 09/10 do ano subsequente. 55 OS PRAZOS PENAIS SÃO IMPRORROGÁVEIS, MESMO QUE TERMINEM EM SÁBADOS, DOMINGOS OU FERIADOS. Assim, se o prazo decadencial para o oferecimento de queixa-crime encerrar em um domingo, o titular do direito de queixa ou de representação deverá exercê-lo até a sexta-feira anterior. O prazo sempre terá natureza penal quando guardar pertinência com o jus puniendi.56 QUADRO SINÓPTO NOÇÕES GERAIS DO DIREITO PENAL Definição O Direito Penal é o conjunto de normas (regras e princípios) destinadas a combater o crime e a contravenção penal, mediante a imposição de uma pena ou de uma medida de segurança (espécies de sanção penal). Natureza Jurídica É ramo de direito público, sendo o Estado titular exclusivo do direito de punir. Nomenclatura Atualmente, o correto é falar-se em direito penal, tendo em vista que a nossa codificação é o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940, recepcionado pela CF/88 como lei ordinária. Características do Direito Penal Ciência. Cultural. Normativa. Valorativa. Finalista. Constitutivo. Sancionatório. Caráter fragmentário Criminalização primária e criminalização secundária. Seletividade e vulnerabilidade do Direito Penal Criminalização primária: é o ato de sancionar uma lei primária material, na qual incrimina ou permite a punição de determinadas pessoas. Criminalização secundária: Para Zaffaroni, a criminalização secundária possui duas características: seletividade e vulnerabilidade, pois há forte tendência de ser o poder punitivo exercido sobre pessoas previamente escolhidas em face de suas fraquezas, a exemplo dos moradores de rua, prostitutas e usuários de drogas. Ciência do direito penal Dogmática penal: É a interpretação, sistematização e aplicação lógico- racional do Direito Penal. Política criminal: É a ciência independente, que tem por objeto a apresentação de críticas e propostas para a reforma do Direito Penal em vigor. Criminologia: É a ciência independente, que tem por objeto a apresentação de críticas e propostas para a reforma do Direito Penal em vigor. Funções do direito penal Direito Penal como proteção de bens jurídicos. Direito Penal como instrumento de controle social. Direito Penal como garantia. 57 Função ético-social do Direito Penal. Função simbólica do Direito Penal. Categorias do Direito Penal Direito Penal Fundamental (Primário): Parte Geral do Código Penal. Direito Penal Complementar (Secundário): Legislação penal extravagante. Direito Penal Comum: é aplicável a todas as pessoas. Direito Penal Especial: aplicável somente a determinadas pessoas. Direito Penal Substantivo (material): conjunto de leis penais em vigor. Direito Penal Adjetivo (adjetivo): é o Direito Processual Penal. Direito Penal Objetivo: é o conjunto de leis penais em vigor no país. Direito Penal Subjetivo: direito de punir do Estado. Direito Penal de Emergência: sensação de insegurança da sociedade. Direito Penal Simbólico: necessidade de devolver a sociedade uma sensação ilusória de tranquilidade. Fontes do Direito Penal Fontes materiais: é o órgão encarregado da criação do Direito Penal, a União. Fontes formais: 1) Imediatas: Lei; 2) Mediatas: CF, jurisprudência, Doutrina; Tratados e convenções internacionais sobre direito humanos; Princípios gerais do direito; Atos administrativos; Costumes. Escolas penais Escola Clássica: Beccaria. Método racionalista e dedutivo (lógico). Entendiam o crime como um conceito meramente jurídico. Escola Positiva: A responsabilidade penal baseava-se na responsabilidade social. Três fases: Fase antropológica (Cesare Lombroso). Fase sociológica (Enrico Ferri). Fase jurídica da escola positiva (Rafael Garofalo). Correcionalismo Penal: Lançou no Direito Penal a semente da sentença indeterminada. Tecnicismo Jurídico-Penal: O objeto é o estudo da norma jurídica em vigor. 58 Evolução doutrinária do direito penal Positivismo Jurídico: Atribuíam prioridade do “ser” do direito. Neokantismo Penal: as normas jurídicas são determinadas por valores prévios. Garantismo Penal: é dividido em Garantismo Penal em: Garantismo penal monocular e Garantismo penal binocular. Funcionalismo Penal: chamado de pós-finalismo. Duas concepções: 1. Funcionalismo moderado, dualista ou de política criminal – Claus Roxin, escola de Munique – preocupa-se com os fins do Direito penal. 2. Funcionalismo radical, monista ou sistêmico – Gunther Jakobs, escola de Bonn - preocupa-se com os fins da pena. Direito de Intervenção: Winfried Hassemer. O poder punitivo estatal deveria limitar-se ao núcleo do Direito Penal. Velocidades do Direito Penal 1ª velocidade: Direito penal da prisão – Jesús-Maria Silva Sanchez. 2ª velocidade: Direito penal sem prisão - Jesús-Maria Silva Sanchez. 3ª velocidade: compatível com o Direito penal do inimigo - Gunther Jakobs. 4ª velocidade: Neopunitivismo (ou Panpenalismo): Daniel Pastor. Direito Penal mais arbitrário que o Direito Penal do inimigo. PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL Princípio da reserva legal ou da estrita legalidade Preceitua a exclusividade da lei para criação de delitos (crimes e contravenções penais) e cominação de penas. Princípio da anterioridade A criação dos tipos penais e a cominação de sanções exigem lei anterior, proibindo-se a retroatividade maléfica. Princípio da Insignificância Sustenta ser vedada a atuação penal do Estado quando a conduta não é capaz de lesar ou no mínimo de colocar em perigo o bem jurídico tutelado pela norma penal. Individualização da pena Determina que a pena não deve ser padronizada, cabendo a cada condenado a exata medida punitiva pelo que fez. Princípio da Transcendência ou O direito penal se ocupa com condutas que excedam o âmbito do próprio sujeito. 59 alteridade Princípio da adequação social Não é adotado no Brasil pelo STF e STJ. Torna materialmente atípica a conduta formalmente típica, pois caiu no ceio da sociedade. Princípio da Intervenção mínima O direito penal só deve ser aplicado quando os demais ramos do direito se revelarem insuficientes à tutela. Apenas quando a criminalização de um fato se constitui meio indispensável para a proteção de determinado bem ou interesse. “Direito penal mínimo”. É dividido em: Fragmentariedade e Subsidiariedade. Princípio da Proporcionalidade Tem dupla face: a) proibição ao excesso; b) impede a proteção insuficiente de bens jurídicos. Princípio da humanidade Nenhuma pena pode atentar contra a dignidade da pessoa humana. Desta forma, há vedação de aplicação de pena cruéis e infantes e a pena deverá ser cumprida de forma a ressocializar o condenado. Princípio da Ofensividade ou lesividade O direito penal só deve se ocupar com condutas que causem efetiva lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico. Princípio da Intranscendência da pena Nenhuma pena passará da pessoa do acusado, podendo a obrigação de reparar, passar para os sucessores no limite da herança. Princípio do bis in idem Não se admite, em hipótese alguma, dupla punição pelo mesmo fato. Princípio da imputação pessoal Não se admite a punição quando se tratar de agente inimputável, sem potencial consciência da ilicitude ou de quem não se possa exigir conduta diversa. LEI PENAL Introdução É a fonte imediata do Direito Penal. Exerce o papel exclusivo de criar infrações penais e cominar-lhes as penas respectivas. Classificação Incriminadoras: são as que criam crimes e cominam penas. Não incriminadoras: são as que não criam crimes nem cominam penas. Completas ou perfeitas: apresentam todos os elementos da conduta criminosa. Incompletas ou imperfeitas: Necessitam de complementação no preceito 60 secundário, por não trazerem a cominação da pena correspondente à prática da conduta típica. Características Exclusividade. Imperatividade. Generalidade. Impessoalidade. Anterioridade. Lei Penal em Branco É também denominada de cega ou aberta. Espécie de lei penal cuja definição da conduta (preceito primário) criminosa reclama a complementação. Interpretação da Lei PenalDeve buscar a vontade da lei. É disciplinada pela hermenêutica jurídica. É também conhecida como exegese. Direito Penal Intertemporal (Aplicação da Lei Penal no Tempo) Definirá qual a norma será aplicada. Regra: tempus regit acto. Exceções: extra-atividade. Sucessão de Leis Penais no Tempo Abolitio criminis: Há uma supressão formal e material da figura criminosa. Continuidade normativa típica: Há uma supressão apenas formal da figura criminosa. Novatio legis incriminadora: tipifica um comportamento que até então não era crime. Lex mitior: É a lei posterior que, de qualquer modo, favorece o agente. É sempre retroativa. Lex gravior: É o contrário (lei posterior que prejudica a situação do agente). Lei Penal Temporária e Excepcional Lei Temporária: Aquela que tem, prefixado em seu texto, o tempo de vigência. Lei Excepcional: Aquela que atende a transitórias necessidades estatais. Lei penal no espaço A territorialidade é a regra. Aplica-se a lei brasileira aos crimes cometidos no território nacional. Há exceções que ocorrem quando o brasileiro pratica crime no exterior ou um estrangeiro comete delito no brasil. Fala-se, assim, que o Código penal adotou o princípio da territorialidade temperada ou mitigada. Lugar do crime O Código Penal adotou a TEORIA DA UBIQUIDADE. Combinação de leis penais Há uma divergência doutrinária quanto à aplicação da combinação de leis no direito penal. Ocorre quando um único fato se revela possível, em tese, a aplicação de dois ou mais tipos legais. A solução do conflito aparente é dada pela aplicação 61 Conflito Aparente de Leis Penais (Antinomia) dos princípios da ESPECIALIDADE, SUBSIDIARIEDADE, CONSUNÇÃO e ALTERNATIVIDADE. 62 LEGISLAÇÃO COMPILADA Princípio da reserva legal ou da estrita legalidade ⮚ Art. 1º, CP.; ⮚ Art. 5º, XXXIX, CF; ⮚ Art. 9º da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto São José da Costa Rica); ⮚ Art. 15 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos; ⮚ Art. 5º, XLI, XLII, XLIII, XLIV, da CF; Princípio da Insignificância ⮚ Art. 34 da Lei nº 9.605/98 ⮚ Art. 22, parágrafo único, 1ª parte, da Lei 7.492/86; ⮚ Súmula n.º 599, STJ. O princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a administração pública. ⮚ Súmula n.º 589, STJ. É inaplicável o princípio da insignificância nos crimes ou contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito das relações domésticas. STJ. 3ª Seção. Aprovada em 13/09/2017, DJe 18/09/2017. ⮚ Súmula n.º 606, STJ. Não se aplica o princípio da insignificância aos casos de transmissão clandestina de sinal de internet que caracterizam o fato típico previsto no artigo 183 da Lei 9.472/97. Princípio da adequação social ⮚ Súmula n.º 502, STJ. Presentes a materialidade e a autoria, afigura-se típica, em relação ao crime previsto no art. 184, § 2º, do CP, a conduta de expor à venda CDs e DVDs piratas. Princípio do bis in idem 63 ⮚ Art. 8º, 4 do Pacto de São José da Costa Rica; ⮚ Súmula nº. 241, STJ. A reincidência penal não pode ser considerada como circunstância agravante e, simultaneamente, como circunstância judicial. Lei penal ⮚ Art. 1º, 2º, 3º, 4º 5º, 6º, 7º, 8º, 9º, 10º do Código Penal. ⮚ Súmula n.º 711, STF: A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência. ⮚ Súmula n.º 501, STJ: É cabível a aplicação retroativa da Lei n. 11.343/2006, desde que o resultado da incidência das suas disposições, na íntegra, seja mais favorável ao réu do que o advindo da aplicação da Lei n. 6.368/1976, sendo vedada a combinação de leis. ⮚ Súmula n.º 611, STF: Transitada em julgado a sentença condenatória, compete ao juízo das execuções a aplicação de lei mais benigna. • Válida. • LEP/Art. 66. Compete ao Juiz da execução: I — aplicar aos casos julgados lei posterior que de qualquer modo favorecer o condenado. 64 JURISPRUDÊNCIA Princípio da Insignificância ⮚ STJ. 6ª Turma. HC 473.334/RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 21/05/2019. Os delitos de posse e de porte de arma de fogo são crimes de perigo abstrato, de forma que, em regra, é irrelevante a quantidade de munição apreendida. O entendimento acima exposto configura a regra geral. No entanto, o STF e o STJ, a depender do caso concreto, reconhece a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância para o crime de posse ou porte ilegal de pouca quantidade de munição desacompanhada da arma. O atual entendimento do STJ é no sentido de que a apreensão de pequena quantidade de munição, desacompanhada da arma de fogo, permite a aplicação do princípio da insignificância ou bagatela. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 517.099/MS, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 06/08/2019. O STJ, alinhando-se ao STF, tem entendido pela incidência do princípio da insignificância aos crimes previstos na Lei nº 10.826/2003 (Estatuto do Desarmamento), afastando a tipicidade material da conduta quando evidenciada flagrante desproporcionalidade da resposta penal. A aplicação do princípio da insignificância deve, contudo, ficar restrita a hipóteses excepcionais que demonstrem a inexpressividade da lesão, de forma que a incidência do mencionado princípio não pode levar ao esvaziamento do conteúdo jurídico do tipo penal em apreço - porte de arma, incorrendo em proteção deficiente ao bem jurídico tutelado. ⮚ STF. 1ª Turma. HC 102550, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 20/09/2011. STF. 2ª Turma. RHC 132706 AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 21/06/2016. STJ. 3ª Seção. AgRg na RvCr 4.881/RJ, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 22/05/2019. Não é possível a aplicação do princípio da insignificância aos crimes de apropriação indébita previdenciária e de sonegação de contribuição previdenciária, independentemente do valor do ilícito, pois esses tipos penais protegem a própria subsistência da Previdência Social, de modo que é elevado o grau de reprovabilidade da conduta do agente que atenta contra este bem jurídico supraindividual. O bem jurídico tutelado pelo delito de apropriação indébita previdenciária é a subsistência financeira da Previdência Social. Logo, não há como afirmar- se que a reprovabilidade da conduta atribuída ao paciente é de grau reduzido, considerando que esta conduta causa prejuízo à arrecadação já deficitária da Previdência Social, configurando nítida lesão a bem jurídico supraindividual. 65 ⮚ STF. 1ª Turma. HC 135164/MT, Rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ ac. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 23/4/2019 (Info 938). A reincidência não impede, por si só, que o juiz da causa reconheça a insignificância penal da conduta, à luz dos elementos do caso concreto. No entanto, com base no caso concreto, o juiz pode entender que a absolvição com base nesse princípio é penal ou socialmente indesejável. Nesta hipótese, o magistrado condena o réu, mas utiliza a circunstância de o bem furtado ser insignificante para fins de fixar o regime inicial aberto. Desse modo, o juiz não absolve o réu, mas utiliza a insignificância para criar uma exceção jurisprudencial à regra do art. 33, § 2º, “c”, do CP, com base no princípio da proporcionalidade. ⮚ STF. 1ª Turma. HC 137217/MG, Rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ ac. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 28/8/2018 (Info 913). Em regra, o reconhecimento do princípio da insignificância gera a absolvição do réu pela atipicidade material. Em outras palavras, o agente não responde por nada. Em um caso concreto, contudo, o STF reconheceu a insignificância do bem subtraído, mas, como o réu era reincidente em crime patrimonial, em vez de absolvê-lo, o Tribunal utilizou esse reconhecimento para concedera substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos. Em razão da reincidência, o STF entendeu que não era o caso de absolver o condenado, mas, em compensação, determinou que a pena privativa de liberdade fosse substituída por restritiva de direitos. ⮚ STF. 1ª Turma. HC 136385/SC, Rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ ac. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 7/8/2018 (Info 910). João, reincidente, foi condenado a uma pena de 1 ano e 4 meses de reclusão, em regime inicial fechado, pela prática do crime de furto simples (art. 155, caput, do CP). A defesa postulou a aplicação do regime aberto com base no princípio da insignificância, considerado o objeto furtado ter sido apenas uma garrafa de licor. O STF decidiu impor o regime semiaberto. Entendeu-se que, de um lado, o regime fechado deve ser afastado. Por outro, não se pode conferir o regime aberto para um condenado reincidente, uma vez que isso poderia se tornar um incentivo à criminalidade, ainda mais em cidades menores, onde o furto é, via de regra, perpetrado no mesmo estabelecimento. A reincidência delitiva do paciente, que praticou o quinto furto em pequeno município, eleva a gravidade subjetiva de sua conduta. ❏ STF. 2ª Turma. HC 141440 AgR/MG, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 14/8/2018 (Info 911). Em regra, a habitualidade delitiva específica (ou seja, o fato de o réu já responder a outra ação penal pelo mesmo delito) é um parâmetro (critério) que afasta o princípio da insignificância mesmo em se tratando de bem de reduzido valor. Excepcionalmente, no entanto, as peculiaridades do caso concreto podem justificar o afastamento dessa regra e a aplicação do princípio, com base na ideia da proporcionalidade. É o caso, por exemplo, do furto de um galo, quatro galinhas caipiras, uma galinha garnizé e três quilos de feijão, bens avaliados em pouco mais de cem reais. O valor dos bens é inexpressivo e não houve emprego de violência. Enfim, é caso de mínima ofensividade, ausência de periculosidade social, reduzido grau de reprovabilidade e 66 inexpressividade da lesão jurídica. Mesmo que conste em desfavor do réu outra ação penal instaurada por igual conduta, ainda em trâmite, a hipótese é de típico crime famélico. A excepcionalidade também se justifica por se tratar de hipossuficiente. Não é razoável que o Direito Penal e todo o aparelho do Estado-polícia e do Estado-juiz movimente-se no sentido de atribuir relevância a estas situações. ⮚ STF. 1ª Turma. HC 122560/SC, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 8/5/2018 (Info 901). O princípio da bagatela não se aplica ao crime previsto no art. 34, caput c/c parágrafo único, II, da Lei 9.605/98: Art. 34. Pescar em período no qual a pesca seja proibida ou em lugares interditados por órgão competente: Pena - detenção de um ano a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente. Parágrafo único. Incorre nas mesmas penas quem: II - pesca quantidades superiores às permitidas, ou mediante a utilização de aparelhos, petrechos, técnicas e métodos não permitidos; Caso concreto: realização de pesca de 7kg de camarão em período de defeso com o uso de método não permitido. Obs: apesar de a redação utilizada no informativo original ter sido bem incisiva (“O princípio da bagatela não se aplica ao crime previsto no art. 34, caput c/c parágrafo único, II, da Lei 9.605/98”), existem julgados tanto do STF como do STJ aplicando, excepcionalmente, o princípio da insignificância para o delito de pesca ilegal. Deve-se ficar atenta(o) para como isso será cobrado no enunciado da prova. ⮚ STJ. 3ª Seção. REsp 1688878-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 28/02/2018 (recurso repetitivo). STF. 1ª Turma. HC 137595 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 07/05/2018. STF. 2ª Turma. HC 155347/PR, Rel. Min. Dias Tóffoli, julgado em 17/4/2018 (Info 898). Qual é o valor máximo considerado insignificante no caso de crimes tributários e descaminho? 20 mil reais (tanto para o STF como para o STJ) Incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10.522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. ⮚ STJ. 5ª Turma. REsp 1428628/RS, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 28/04/2015. STJ. 6ª Turma. REsp 1.427.796-RS, Rel. Min. Maria Thereza De Assis Moura, julgado em 14/10/2014 (Info 551). STF. 2ª Turma. HC 131943/RS, Rel. Min. Gilmar Mendes, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgado em 7/5/2019 (Info 939). Configura CONTRABANDO (e não descaminho) a conduta de importar, à margem da disciplina legal, arma de pressão por ação de gás comprimido ou por ação de mola. A importação de arma de pressão está sujeita à autorização prévia da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército Brasileiro e só pode ser feita por colecionadores, atiradores e caçadores registrados no Exército. Além disso, deve se submeter às normas de desembaraço alfandegário previstas no Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados. Logo, trata-se de mercadoria de proibição relativa, sendo a sua importação fiscalizada não apenas por questões de ordem tributária, mas outros interesses ligados à segurança pública. Não é possível aplicar o princípio da insignificância 67 mesmo que a arma de ar comprimido importada seja de calibre inferior a 6 mm, já que este postulado é incabível para contrabando. ⮚ STF. 2ª Turma. HC 157014 AgR/SE, rel. orig. Min. Cármen Lúcia, red. p/ o ac. Min Ricardo Lewandowski, julgado em 17/9/2019 (Info 952) É possível aplicar o princípio da insignificância para a conduta de transmitir sinal de internet como provedor sem autorização da ANATEL (art. 183 da Lei nº 9.472/97)? No STJ: é pacífico que NÃO (Súmula 606-STJ: Não se aplica o princípio da insignificância a casos de transmissão clandestina de sinal de internet via radiofrequência, que caracteriza o fato típico previsto no art. 183 da Lei n. 9.472/1997). No STF: prevalece que não. Assim, é inaplicável o princípio da insignificância no crime de transmissão clandestina de sinal de internet, por configurar o delito previsto no art. 183 da Lei nº 9.472/97, que é crime formal, e, como tal, prescinde de comprovação de prejuízo para sua consumação (STF. 1ª Turma. HC 124795 AgR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 23/08/2019). Apesar disso, no HC 157014 AgR/SE, julgado pela 2ª Turma do STF em 17/9/2019 (Info 952), houve um empate na votação: dois Ministros entenderam que se deveria reconhecer o princípio e dois outros negaram o HC. Quando há um empate no julgamento de um habeas corpus, prevalece a decisão mais favorável ao paciente, conforme determina o art. 146, parágrafo único, do Regimento Interno do STF. Logo, neste caso concreto, o réu foi absolvido por se tratar de delito de bagatela, em razão do mínimo potencial ofensivo da conduta. 68 QUESTÕES COMENTADAS Questão 1 Ano: 2019 Banca: Instituto AcessoÓrgão: PC-ESProva: Instituto Acesso - 2019 - PC-ES - Delegado de Polícia Tício, morador do Rio de Janeiro, começou a namorar Gabriela, uma jovem moradora da cidade de São Paulo. Com o passar do tempo e os efeitos da distância, Tício, motivado por ciúmes, resolveu tirar a vida de Gabriela. Pôs-se então a planejar a prática do crime em sua casa, no Rio de Janeiro, tendo adquirido uma faca, instrumento com o qual planejou executar o crime. No dia em que seguiu para São Paulo para encontrar Gabriela, que lhe o esperava na rodoviária, Tício combinou com a jovem uma viagem a passeio para o Espírito Santo. Ao ingressarem no ônibus que os levaria de São Paulo para o Espírito Santo, Tício afirmou para Gabriela que iria matá-la. Todavia, dada a calma de Tício, a jovem achou que se tratava de uma brincadeira.Durante o trajeto, Tício, ofereceu a ela uma bebida contendo substância que causava a perda dos sentidos. Após Gabriela beber e dormir, sob efeito da substância, enquanto passavam pela BR-101, no Rio de Janeiro, Tício passou a desferir golpes com a faca no peito da jovem. Quando chegou ao destino, Tício se entregou para polícia, e Gabriela, embora tenha sido socorrida, veio a óbito ao chegar ao Hospital. O crime descrito no texto foi praticado, de acordo com a lei penal, no momento A - Da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado. Trata-se, portanto, do momento em que Tício desferiu os golpes em Gabriela. B - Em que o agente se prepara para a promoção da conduta criminosa. Ou seja, trata- se do momento em que Tício planejou e adquiriu as ferramentas necessárias ao cometimento do crime. C - Em que a autoridade policial toma conhecimento do crime. Ou seja, quando Tício se entregou para a polícia. 69 D - Em que é alcançada a consumação do crime. Trata-se, portanto, do momento da morte de Gabriela, que ocorreu no hospital. E - Da ação ou omissão, se este for concomitante ao resultado. Não sendo possível determiná-lo, no presente caso, em razão da separação temporal entre a conduta e o resultado. Comentário: Gabarito letra A - TEMPO do crime é teoria da atividade. Lembrar da LUTA , Art. 4º CP - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado. QUESTÃO 2 Ano: 2019 Banca: Instituto AcessoÓrgão: PC-ESProva: Instituto Acesso - 2019 - PC-ES - Delegado de Polícia João Carlos, 30 anos, brasileiro, com residência transitória na Argentina, aproveitando-se da aquisição de material descartado por uma indústria gráfica falida, passou a fabricar moeda brasileira em território argentino. Para garantir a diversidade da moeda falsificada, João imprimia notas de 50 e de 100 reais. Ao entrar em território brasileiro João foi revistado por policiais que encontraram as notas falsificadas em meio a sua bagagem. João foi acusado da prática do crime previsto no artigo 289 do Código Penal. De acordo com as teorias que informam a aplicação da lei penal brasileira no espaço, é correto dizer que, nesse caso, cabe a aplicação A- Da lei argentina, em atenção à regra da territorialidade, uma vez que o crime fora praticado na Argentina. 70 B - Incondicionada da lei brasileira, uma vez que o crime cometido atenta contra a fé pública. C - Condicionada da lei brasileira, pelo fato de a conduta ter sido cometida em território argentino. D- Condicionada da lei brasileira, já que a conduta integra dois ordenamentos jurídicos. E - Da lógica da extraterritorialidade, já que o fato ocorreu em território argentino Comentário: Gabarito letra B - Trata-se de extraterritorialidade INCONDICIONADA, ou seja, sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro. Art. 7ª CP: I - os crimes: a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República; b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público; c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil; Questão 3 Ano: 2018 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: PC-SE Prova: CESPE - 2018 - PC-SE - Delegado de Polícia Julgue o item seguinte, relativo aos direitos e deveres individuais e coletivos e às garantias constitucionais. O princípio da individualização da pena determina que nenhuma pena passará da pessoa do condenado, razão pela qual as sanções relativas à restrição de liberdade não alcançarão parentes do autor do delito. ( ) Certo 71 ( ) Errado Comentário: Errada - O princípio descrito é o Princípio da Personalidade ou Intranscendência e não o princípio da Individualização da pena. Questão 4 Ano: 2018 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: Polícia Federal Prova: CESPE - 2018 - Polícia Federal - Delegado de Polícia Federal Em cada item a seguir, é apresentada uma situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada com base na legislação de regência e na jurisprudência dos tribunais superiores a respeito de execução penal, lei penal no tempo, concurso de crimes, crime impossível e arrependimento posterior. Manoel praticou conduta tipificada como crime. Com a entrada em vigor de nova lei, esse tipo penal foi formalmente revogado, mas a conduta de Manoel foi inserida em outro tipo penal. Nessa situação, Manoel responderá pelo crime praticado, pois não ocorreu a abolitio criminis com a edição da nova lei. ( ) Certo ( ) Errado Comentário: CERTO - Trata se do Princípio da continuidade normativa típica - Onde a conduta migra para outro tipo penal. Não ocorre abolitio criminis. Questão 5 Ano: 2018 Banca: UEGÓrgão: PC-GOProva: UEG - 2018 - PC-GO - Delegado de Polícia 72 “Ciência ou a arte de selecionar os bens (ou direitos), que devem ser tutelados jurídica e penalmente, e escolher os caminhos para efetivar tal tutela, o que iniludivelmente implica a crítica dos valores e caminhos já eleitos.” (ZAFFARONI, E. R.; PIERANGELI, J. H. Manual de Direito Penal Brasileiro. 12. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2018. p. 128) A descrição apresentada acima se refere a um conceito de: A - Criminologia. B - Teoria do delito. C - Política criminal. D - Abolicionismo penal. E - Direito penal do inimigo. Comentário: A -ERRADO - A criminologia é uma ciência autônoma que estuda o criminoso, o crime, a vítima, os controles sociais formais e informais que atuam na sociedade, bem como a forma de prevenção da criminalidade B- ERRADO - Teoria do delito - A teoria geral possibilita a compreensão dos elementos necessários à configuração do crime, bem como dos pressupostos para imposição da sanção penal. Trata-se do estudo dos contornos que devem estar presentes no fato jurídico (provindos da vontade humana) para que possa concretizar, com justiça, o direito de o Estado punir seu autor (Rogério Sanches) C - CORRETO - A política criminal é como se fosse um filtro das soluções apresentadas pela criminologia. D - ERRADO - Principal defensor da escola abolicionista: Louk Hulsman, com o livro penas perdidas. Para ele as sanções criminais não servem para ressocializar ninguém, mas apenas para impor um castigo inútil. Ele via as penas como uma vingança do Estado. Outro motivo do abolicionismo penal é com base nas cifras negras, onde o Direito Penal apenas puniria as cifras de ouro (crimes conhecidos) e as cifras negras (crimes desconhecidos) seriam a maioria mas ficariam impunes, e diante dessa infinidade de crimes não descobertos surge a ideia de que o Direito Penal estaria sendo totalmente falho e dispensável, o que demandaria sua abolição. (Christiano Gonzaga, Manual de Criminologia - Editora Saraiva) 73 E - ERRADO - O direito penal do inimigo é trazido por Günther Jokbs e busca punir o sujeito que viola as expectativas sociais e põe em risco toda a coletividade. Questão 6 Ano: 2018 Banca: VUNESPÓrgão: PC-SPProva: VUNESP - 2018 - PC-SP - Delegado de Polícia João comete um crime no estrangeiro e lá é condenado a 4 anos de prisão, integralmente cumpridos. Pelo mesmo crime, João é condenado no Brasil à pena de 8 anos de prisão. João A - Cumprirá 8 anos de prisão no Brasil, uma vez que para essa quantidade de pena não se reconhece o cumprimento no estrangeiro. B - Não cumprirá pena alguma no Brasil caso de trate de país com o qual o Brasil tem acordo bilateral para reconhecer cumprimento de pena. C - Não cumprirá pena alguma no Brasil, uma vez já punido no país em que o crime foi cometido. D - Cumprirá 8 anos de prisão no Brasil, uma vez que o Brasilnão reconhece pena cumprida no estrangeiro. E - Ainda deverá cumprir 4 anos de prisão no Brasil. Comentário:LetraE- trata do art 8° CP é aplicado a crimes de extraterritorialidade incondicionada. Países diferentes e mesmo crime só que com penas diferentes = A pena cumprida no estrangeiro ( 04 anos) atenuará a pena imposta no Brasil.Como já cumpriu 04 no estrangeiro, falta cumprir mais 04 aqui no Brasil. Caso o tempo de pena do estrangeiro fosse idêntica ao do Brasil a pena seria computada e não precisaria cumprir mais nada no Brasil. Questão 7 74 Ano: 2018 Banca: CESPE / CEBRASPEÓrgão: PC-SEProva: CESPE - 2018 - PC-SE - Delegado de Polícia Julgue o item seguinte, relativo aos direitos e deveres individuais e coletivos e às garantias constitucionais. Em razão do princípio da legalidade penal, a tipificação de conduta como crime deve ser feita por meio de lei em sentido material, não se exigindo, em regra, a lei em sentido formal. ( ) Certo ( ) Errado Comentário:ERRADO - O princípio da legalidade estabelece, dentre outras coisas, que a tipificação de uma conduta deve se dar por lei formal, ou seja, lei em sentido estrito, e não qualquer diploma legislativo. Questão 8 Ano: 2008 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: PC-TO Prova: CESPE – 2008 – PC-TO – Delegado de polícia Acerca dos princípios constitucionais que norteiam odireito penal, da aplicação da lei penal e do concurso de pessoas, julgue os itens de 108 a 112. Na hipótese de o agente iniciar a prática de um crime permanente sob a vigência de uma lei, vindo o delito a se prolongar no tempo até a entrada em vigor de nova legislação, aplica-se a última lei, mesmo que seja a mais severa. ( ) Certo ( ) Errado 75 Comentário:CORRETO - A superveniência de lei penal mais gravosa que a anterior não impede que a nova lei se aplique aos crimes continuados ou ao crime permanente, caso o início da vigência da referida lei seja anterior à cessação da continuidade ou da permanência. Súmula 711 STF. Questão 9 Ano: 2008 Banca: CESPE / CEBRASPEÓrgão: PC-TOProva: CESPE - 2008 - PC-TO - Delegado de Polícia Acerca dos princípios constitucionais que norteiam o direito penal, da aplicação da lei penal e do concurso depessoas, julgue os itens de 108 a 112. Prevê a Constituição Federal que nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação de perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido. Referido dispositivo constitucional traduz o princípio da intranscendência. ( ) Certo ( ) Errado Comentário:CORRETO - Os efeitos penais da própria aplicação da pena privativa de liberdade, restritiva de direito, multa ou medida de segurança não podem ultrapassar a pessoa do condenado. Para não errar nunca mais: Princípio da Impessoalidade/intranscendência: a sanção penal que não passará da pessoa do condenado, isso inclui a multa. Princípio da individualização da penal: cada agente receber sua pena individualizada. Questão 10 76 Ano: 2018 Banca: CESPE / CEBRASPEÓrgão: PC-MAProva: CESPE - 2018 - PC-MA - Delegado de Polícia Civil No direito penal, a analogia A - É uma forma de autointegração da norma penal para suprir as lacunas porventura existentes. B - É uma fonte formal imediata do direito penal. C - Utiliza, na modalidade jurídica, preceitos legais existentes para solucionar hipóteses não previstas em lei. D - Corresponde a uma interpretação extensiva da norma penal. E - É uma fonte formal mediata, tal como o costume e os princípios gerais do direito. Comentário: Gabarito - LETRAA - Analogia: não é meio de interpretação do Direito, mas sim de integração que busca suprir as lacunas da lei com utilização de normas que regulam situação com alguma semelhança; Interpretação extensiva: classificação da interpretação quanto ao resultado. Quando se considera que a lei expressa menos do que pretende, diz menos do que queria dizer. Nestes casos, busca-se adequar o sentido da lei para o seu alcance seja o adequado; Interpretação analógica: o legislador utiliza a técnica de, após a enumeração de hipóteses de aplicação de norma, abrir a possibilidade de sua aplicação em situações semelhantes, por meio de fórmula mais genéricas. B - ERRADA- Pode até ser uma fonte formal imediata, mas sem especificar se estamos diante de uma analogia legis ou juris (jurídica) não é possível fazer uma afirmação exata pois pode ser que seja uma fonte formal mediata. No caso da analogia legisvamos aplicar um enunciado normativo (LEI) a um caso semelhante, dessa forma, estamos diante de um caso de FONTE FORMAL IMEDIATA; 77 Já no caso da analogia juris (jurídica) não temos um enunciado normativo (LEI), vamos ter que usar os Princípios Gerais do Direito a uma lacuna, dessa forma, estamos diante de um caso de FONTE FORMAL MEDIATA. C - ERRADA- Analogia na modalidade JURÍDICA (JURIS) NÃO se utiliza dos preceitos legais existentes (LEI) como ocorre na analogia legis. D - ERRADA - Analogia não se confunde com a interpretação extensiva. Na analogia nós temos uma lacuna (falta de lei) a ser suprimida por uma outra fonte normativa similar (LEI) ou por Princípios Gerais do Direito. Já na interpretação extensiva temos uma fonte normativa (LEI) que disse menos do que pretendia, dessa forma é atribuição do intérprete ampliar o alcance do texto normativo. E - ERRADA - Mesma explicação da questão B, pode até ser uma fonte formal mediata, mas sem especificar se estamos diante de uma analogia legis ou juris (jurídica) não é possível fazer uma afirmação exata pois pode ser que seja uma fonte formal imediata. Analogia legis: nessa modalidade de analogia, aplica-se ao caso concreto, para suprir a lacuna, o tratamento dado por outro enunciado normativo. Analogia juris (jurídica): como forma de integração, recorre-se aos princípios gerais do Direito. 78 GABARITO Questão 1 - A Questão 2 - B Questão 3 - E Questão 4 - C Questão 5 - C Questão 6 - E Questão 7 - E Questão 8 - C Questão 9 - C Questão 10 – A 79 QUESTÃO DESAFIO Em que consiste a espiritualização dos bens jurídicos? Máximo de 5 linhas 80 GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO A espiritualização dos bens jurídicos decorre do aumento de delitos com interesse metaindividual e de perigos, sobretudo abstratos, os quais refletem a necessária proteção ao bem jurídico, decorrência da antecipação da tutela penal, prevenindo o delito e sancionando a mera exposição. Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta: Princípio da exclusiva proteção do bem jurídico O princípio da exclusiva proteção do bem jurídico possui o propósito de vedar ao Direito Penal a preocupação com as intenções e pensamentos das pessoas, do seu modo de viver ou de pensar, ou ainda de suas condições internas, enquanto não exteriorizada a atividade delitiva. Isso porque o Direito Penal se destina à tutela de bens jurídicos, não podendo ser utilizado para resguardar questões de ordem moral, ética, ideológica, religiosa, política ou semelhantes. (SANCHES, Rogério; Manual de Direito Penal – parte geral; Ed. 8; Ed. Juspodivm: Salvador; 2020). Nesse sentido, o HC 111.017/RS do STF: “Em tema de política criminal, a Constituição Federal pressupõe lesão significante a interesses e valores (os chamados “bens jurídicos”) por ela avaliados como dignos de proteção normativa”. Antecipação da tutela penal. Prevenção. Exposição Assim, com fundamento no princípio da exclusiva proteção do bem jurídico, somente se configurava uma infração penal quando presente uma lesão a interessesindividuais das pessoas, como a vida, integridade física, patrimônio. Ocorre que com o passar do tempo, observou-se que tal tutela seria insuficiente, sendo necessário, pois, uma antecipação do direito penal no intuito de não apenas punir as lesões causadas, mas prevenir essas lesões causadas as pessoas. Logo, o Direito Penal passou a se preocupar com momentos anteriores ao dano, incriminando condutas limitadas à causação de perigo. (Masson, Cleber; Direito Penal – Parte Geral; 13 ed.; Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método; 2019, p.49) 81 Nesse sentido, é válido destacar os ensinamentos do STF: “A criação de crimes de perigo abstrato não representa, por si só, comportamento inconstitucional por parte do legislador penal. A tipificação de condutas que geram perigo em abstrato, muitas vezes, acaba sendo a melhor alternativa ou a medida mais eficaz para a proteção de bens jurídico-penais supraindividuais ou de caráter coletivo”. (HC 102.087/MG) Daí advém a expressão Direito Penal Preventivo tendo em vista que a mera exposição dos bens jurídicos são seria suficiente para a atuação dessa parte do direito. 82 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alves, Jamil Chaim. Manual de direito penal: parte geral e especial. Juspodivm,2020. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de direito penal: parte geral (arts. 1º ao 120). 3. ed. Salvador: JusPodivm, 2015. Estefam, André: Direito penal esquematizado: parte geral / André Estefam e Victor Eduardo Rios Gonçalves; coordenador Pedro Lenza. – 5. ed. – São Paulo: Saraiva, 2016. – (Coleção esquematizado). Masson, Cleber. Direito Penal: parte geral (arts. 1º a 120) – vol. 1 / Cleber Masson. – 13. ed. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019. DELEGADO DE POLÍCIA CIVIL Direito Penal Capítulo 2 1 SUMÁRIO DIREITO PENAL, Capítulo 2 ........................................................................................................................................... 3 2. Teoria Geral do Crime ............................................................................................................................................. 3 2.1 Noções introdutórias. ........................................................................................................................................... 3 2.1.1 Conceito de crime ................................................................................................................................................. 3 2.1.2 Sistemas penais ..................................................................................................................................................... 5 2.1.3 Sujeitos do crime ................................................................................................................................................... 8 2.1.4 Objeto do crime .................................................................................................................................................. 11 2.1.5 Classificação dos crimes ...................................................................................................................................... 11 2.2 Fato típico ........................................................................................................................................................... 21 2.2.1 Conduta ............................................................................................................................................................... 22 2.2.2 Resultado naturalístico ....................................................................................................................................... 27 2.2.3 Relação de causalidade (nexo causal) ................................................................................................................. 28 2.2.4 Tipicidade ............................................................................................................................................................ 33 2.3 Teoria do tipo ...................................................................................................................................................... 38 2.3.1 Conceito .............................................................................................................................................................. 38 2.3.2 Espécies ............................................................................................................................................................... 38 2.3.3 Funções do tipo legal (incriminador) .................................................................................................................. 38 2.3.4 Estrutura do tipo penal ....................................................................................................................................... 39 2.3.5 Classificação doutrinária do tipo penal ............................................................................................................... 39 2.4 Dolo. .................................................................................................................................................................... 40 2.4.1 Teorias do dolo.................................................................................................................................................... 40 2.4.2 Elementos do dolo .............................................................................................................................................. 41 2.4.3 Espécies de dolo .................................................................................................................................................. 42 2.5 Culpa. .................................................................................................................................................................. 44 2.5.1 Introdução ........................................................................................................................................................... 44 2.5.2 Conceito .............................................................................................................................................................. 45 2.5.3 Elementos do crime culposo ............................................................................................................................... 45 2.5.4 Espécies de culpa ................................................................................................................................................ 46 2.5.5 Graus de culpa .................................................................................................................................................... 47 2.5.6 Compensação de culpas ...................................................................................................................................... 47 2.5.7 Concorrência de culpas ....................................................................................................................................... 47 2.5.8 Exclusão da culpa ................................................................................................................................................ 47 2 2.6 Preterdolo ........................................................................................................................................................... 48 2.6.1 Conceito .............................................................................................................................................................. 48 2.6.2 Versari in re illicita............................................................................................................................................... 48 2.6.3 Crimes qualificados pelo resultado:conceito ..................................................................................................... 49 2.6.4 Crimes qualificados pelo resultado: espécies ..................................................................................................... 49 QUADRO SINÓPTO ......................................................................................................................................................... 50 LEGISLAÇÃO COMPILADA............................................................................................................................................ 58 JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 59 QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 60 GABARITO ........................................................................................................................................................................... 73 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................................. 77 3 DIREITO PENAL Capítulo 2 2. Teoria Geral do Crime 2.1 Noções introdutórias. 2.1.1 Conceito de crime O crime pode ser conceituado sob três aspectos: material, legal e formal ou analítico. O critério material ou substancialleva em conta a relevância do mal produzido. De acordo com esse critério, crime é toda ação ou omissão humana que lesa ou expõe a perigo bens jurídicos penalmente tutelados. Já para o critério legal, o conceito de crime é o fornecido pelo legislador. A Lei de Introdução ao CP, em seu art. 1º, define crime. Art. 1º Considera-se crimea infração penal que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente. O Brasil é adepto do sistema dualista, dividindo a infração penal em crime e contravenção (crime anão, delito liliputiano, crime vagabundo). A diferença entre crime e contravenção é de grau, quantitativa (quantidade da pena), e também qualitativa (qualidade da pena) e não ontológica. 4 CRIME CONTRAVENÇÃO Pena de reclusão ou de detenção cominada ou não com multa. Pena de prisão simples ou de multa (podem ou não sem cominadas). Ação penal pública ou ação penal privada. Ação penal pública incondicionada. Pune-se tentativa. Tentativa não é punível. Não significa que não é admitida a tentativa, mas juridicamente não é punível. Admite-se a extraterritorialidade. Não se admite a extraterritorialidade. Compete à Justiça Federal ou Estadual. Compete à Justiça Estadual. Obs.: Será da competência da JF quando o agente tiver foro por prerrogativa e função. Limite de 40 anos de pena. Conforme atualização pacote anticrime Limite de 05 anos de pena. O período de sursis varia de 02 a 04 anos (podendo variar de 04 a 06 excepcionalmente no sursis etário ou humanitário) O período de sursis varia de 01 a 03 anos (art. 11 da LCP). No que tange ao Art. 28 da Lei 11.343/2006 – Lei de Drogas, o qual define o crime de posse de droga para consumo pessoal, o Professor Luís Flávio Gomes entende que não se trata de crime (não tem pena de detenção e nem de reclusão) e nem de contravenção penal (não tem pena de prisão simples e nem de multa), mas que se tratava de uma infração penal sui generis. Entretanto, o STF e a doutrina não aceitam este posicionamento, considerando o art. 28 um crime. O legislador optou pela despenalização no tocante à pena privativa de liberdade (provisória ou definitiva). 5 É possível concluir que o art. 1º da Lei de Introdução traz um conceito genérico de crime, ou seja, um conceito de crime aplicável à criminalidade em geral. Para o crime específico do art. 28 da Lei de Drogas, deve-se utilizar o seu conceito específico, há crime sem pena de detenção e de reclusão, mas com pena de advertência, de prestação de serviços à comunidade e de medida educativa. O critério analítico, também conhecidoformal ou dogmático, se funda nos elementos que compõem a estrutura do crime. Para a posição quadripartida, claramente minoritária, o crime é composto de quatro elementos: fato típico, ilicitude, culpabilidade e punibilidade.Defendida por Basileu Garcia e Giulio Battaglin. Essa posição não prosperou, tendo em vista que a punibilidade não é um elemento do crime, mas sim sua consequência. Já parateoria tripartida, o crime é composto por três elementos: fato típico, ilicitude e culpabilidade. Perfilham desse entendimento, entre outros, Nélson Hungria, Aníbal Bruno, E. Magalhães Noronha, Francisco de Assis Toledo, Cezar Roberto Bitencourt e Luiz Regis Prado. Os defensores da Teoria Tripartida podem ser clássicos ou finalistas. Quem é clássico (Nelson Hungria, Magalhães Noronha, Aníbal Bruno), obrigatoriamente, é tripartido. Quem é finalista pode ser tripartido (Hans Welzel, Luís Regis Prado, Rogério Grego) ou bipartido. Por fim, para a teoria bipartida, crime é formado por fato típico e ilicitude. Já a culpabilidade é um pressuposto para aplicação da pena.Criada por Rene Ariel Dotti, sendo difundida por Damásio de Jesus e por Mirabete. 2.1.2 Sistemas penais Estuda-se a forma como o Direito Penal foi elaborado. SISTEMA CLÁSSICO: Ven Liszt, Beling e Radbruch. Para à conduta, o sistema clássico adota a Teoria Causalista ou Mecanicista ou Causal ou Naturalista, para quem a conduta é o comportamento humano voluntário que produz um resultado no mundo exterior. 6 Com relação à culpabilidade, adota a Teoria Psicológica. Defende que a culpabilidade nada mais é do que o vínculo psicológico, representado pelo dolo ou pela culpa, entre o agente imputável e o fato típico e ilícito por ele praticado. Tem como estrutura o crime: FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE Conduta Relação de contrariedade entre o fato típico e a norma. Imputabilidade Resultado Dolo (normativo – contém a consciência da ilicitude) ou culpa. Nexo de causalidade Tipicidade Existe conduta sem dolo e sem culpa (estão na culpabilidade). Por isso, a afirmação de antes: “quem é clássico necessariamente é tripartido”. Excluindo a culpabilidade ter-se-á responsabilidade penal objetiva. SISTEMA NEOCLÁSSICO (NEOKANTISTA): Reinhart Frank, o qual desenvolveu a Teoria da Normalidade das Circunstâncias Concomitantes (Teoria da Evitabilidade), só é culpável quem pratica o fato típico e ilícito em uma situação de normalidade, ou seja, quando lhe era exigível uma conduta diversa. Em relação à conduta, o sistema clássico adota também Teoria Causalista. Em relação à culpabilidade, adota a Teoria Psicológico-Normativa, a qual autoriza o surgimento de duas novas excludentes da culpabilidade: coação moral irresistível e obediência hierárquica. Além disso, abre espaço para as causas supralegais de exclusão da culpabilidade. Tem como estrutura o crime: 7 FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE Conduta Relação de contrariedade entre o fato típico e a norma. Imputabilidade Resultado Dolo (normativo – contém a consciência da ilicitude) ou culpa. Nexo de causalidade Exigibilidade de conduta diversa. Tipicidade SISTEMA FINALISTA: Hans Welzel. Para Welzel a causalidade é cega, não analisa o querer interno do agente. O finalismo, por ser guiado (pelo dolo e pela culpa), é vidente. Em relação à conduta, adotou a Teoria Finalista, segundo a qual a conduta é a ação ou omissão humana consciente e voluntária, dirigida a um fim. Ou seja, o agente faz ou deixa de fazer algo com determinada finalidade.28 1.13.4 Princípio da individualização da penal .......................................................................................... 36 1.13.5 Princípio da alteridade ................................................................................................................... 37 1.13.6 Princípio da adequação social ....................................................................................................... 37 1.13.7 Princípio da intervenção mínima ................................................................................................... 37 1.13.8 Princípio da proporcionalidade ..................................................................................................... 38 1.13.9 Princípio da humanidade ............................................................................................................... 38 1.13.10 Princípio da ofensividade ou da lesividade ................................................................................ 39 1.13.11 Princípio da personalidade ou da intranscendência .................................................................. 39 1.13.12 Princípio do bis in idem .............................................................................................................. 39 1.13.13 Princípio da imputação pessoal ................................................................................................. 39 1.14 Lei penal ............................................................................................................................................ 40 1.14.1 Classificação ................................................................................................................................... 40 1.14.2 Características................................................................................................................................ 41 1.14.3 Lei Penal em Branco ...................................................................................................................... 42 1.14.4 Interpretação da lei penal ............................................................................................................. 42 1.14.5 Direito Penal Intertemporal (Aplicação da Lei Penal no Tempo) .................................................. 44 1.14.6 Sucessão de Leis Penais no Tempo................................................................................................ 45 1.14.7 Lei Penal Temporária e Excepcional .............................................................................................. 47 1.14.8 Lex Tertia (combinação de leis penais).......................................................................................... 48 1.14.9 Lei penal no espaço ....................................................................................................................... 48 1.14.10 Lugar do crime ........................................................................................................................... 50 1.14.11 Extraterritorialidade................................................................................................................... 50 1.14.12 Conflito Aparente de Leis Penais (Antinomia) ........................................................................... 52 1.14.13 Pena cumprida no estrangeiro................................................................................................... 54 5 1.14.14 Eficácia da sentença estrangeira ............................................................................................... 54 1.14.15 Contagem de prazo .................................................................................................................... 54 QUADRO SINÓPTO ........................................................................................................................................... 56 LEGISLAÇÃO COMPILADA ................................................................................................................................ 62 GABARITO ........................................................................................................................................................ 78 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................................................................ 82 6 DIREITO PENAL Capítulo 1 1. Noções gerais do direito penal 1.1 Definição O Direito Penal é o conjunto de normas (regras e princípios) destinadas a combater o crime e a contravenção penal, mediante a imposição de uma pena ou de uma medida de segurança (espécies de sanção penal). Destaca-se que pena e medida de segurança são espécies de sanção penal. Assim, afirma- se que a pena é a primeira via do Direito Penal, sendo a medida de segurança sua segunda via, a terceira via do direito penal é a reparação do dano. 1.2 Natureza Jurídica É ramo de direito público, sendo o Estado titular exclusivo do direito de punir, figurando como sujeito passivo constante nas relações jurídico-penais. Suas normas são indisponíveis, impostas e dirigidas a todas as pessoas. 1.3 Nomenclatura A expressão “direito criminal” é mais abrangente, pois coloca em destaque o direito relativo ao crime. Já a expressão "direito penal" induz à ideia de pena, de um direito exclusivamente à pena. No passado, por volta de 1.830, havia o Código Criminal do Império, o qual alegava a insuficiência da denominação “Direito Penal”, uma vez que não abrangeria a medida de segurança, destacando-se, dessa forma, o direito criminal. 7 Entretanto, atualmente, o correto é falar-se em direito penal, tendo em vista que a nossa codificação é o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940, recepcionado pela CF/88 como lei ordinária. Além do mais, a Constituição Federal, em seu art. 22, I, também adotou a expressão Direito Penal, ao prevê a competência da União para legislar sobre a matéria. 1.4 Características do Direito Penal Conforme Edgar Magalhães Noronha o direito penal é uma ciência cultural normativa, valorativa e finalista. Sendo assim, pode ser considerado como: ● Ciência: regras compõem a dogmática jurídico-penal. ● Positiva: A existência e coercibilidade do direito penal pressupõem normas escritas. ● Cultural: integra a classe da ciência do “dever ser”, ou seja, a forma como a pessoa dever se comportar. ● Normativa: seu objeto de estudo é a própria lei penal. ● Valorativa: determina sua própria escala de valores, valorizando hierarquicamente as suas normas, ou seja, suas normas são carregadas de valores humanos e sociais. ● Finalista: a finalidade do direito penal é, na visão de Claus Roxin, a proteção de bens jurídicos fundamentais. ● Constitutivo: quando protege interesses não regulados e outras áreas do direito, ainda que excepcionalmente. ● Sancionatório: não cria novos bens jurídicos, mas reforça (sanciona) a proteção penal conferida aos bens jurídicos disciplinados por outras áreas do direito. ● Caráter fragmentário: não tutela todos os valores ou interesses, mas somente os mais importantes para manutenção e o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. 1.5 Criminalização primária e criminalização secundária. Seletividade e vulnerabilidade do Direito Penal A criminalização, desempenhada pelo Estado, desenvolve-se em duas etapas: ● Criminalização primária: é o ato de sancionar uma lei primária material, na qual incrimina ou permite a punição de determinadas pessoas. É ato formal, 8 programático, pois quando estabelece a punição de certa conduta, deve ser cumprido pelos entes estatais. ● Criminalização secundária: époder estatal para aplicar a lei penal introduzida no ordenamento com a finalidade de coibir determinados comportamentos antissociais. Para Zaffaroni, a criminalização secundária possui duas características: seletividade e vulnerabilidade,Em relação à culpabilidade, adotou a Teoria Normativa Pura, pois os elementos psicológicos (dolo e culpa) foram deslocados para a conduta. Tem como estrutura o crime: FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE CONDUTA (Dolo e culpa) Relação de contrariedade entre o fato típico e a norma. Imputabilidade RESULTADO Potencial consciência da ilicitude. NEXO DE Exigibilidade de conduta 8 CAUSALIDADE diversa. TIPICIDADE O dolo e a culpa, antes na culpabilidade, passam a integrar a conduta. Passou-se a ter uma consciência potencial da ilicitude na culpabilidade, deixando de ser atual para ser potencial. 2.1.3 Sujeitos do crime Dividem-se em sujeito ativo e sujeito passivo. Sujeito ativoé a pessoa que realiza direta ou indiretamente a conduta criminosa, seja isoladamente, seja em concurso. Autor e coautor realizam o crime de forma direta, ao passo que o partícipe e o autor mediato o fazem indiretamente. A regra é a de que apenas o ser humano pode ser sujeito ativo de infrações penais, mas também se discute a possibilidade de responsabilidade penal da pessoa jurídica. Para a teoria da ficção jurídica, idealizada por Savigny, a pessoa jurídica não tem existência real, não tem vontade própria. Para os adeptos dessa corrente, é impossível a prática de crimes por pessoas jurídicas. Por outro lado, a teoria da realidade, orgânica, organicista ou da personalidade real, de Otto Gierke, sustenta ser a pessoa jurídica um ente autônomo e distinto de seus membros, dotado de vontade própria. É, assim, sujeito de direitos e obrigações, tais como uma pessoa física. É a teoria mais aceita no Direito. Nesse ponto, há duas correntes. A primeira, no sentido da impossibilidade de a pessoa jurídica ser sujeito ativo de infrações penais. A segunda corrente pugna pela possibilidade de a pessoa jurídica figurar como sujeito ativo de crimes. Com a opção pela segunda corrente, pode-se dizer que a Constituição Federal admitiu a responsabilidade penal da pessoa jurídica nos crimes contra a ordem econômica e 9 financeira, contra a economia popular e contra o meio ambiente, autorizando o legislador ordinário a cominar penas compatíveis com sua natureza, independentemente da responsabilidade individual dos seus dirigentes (CF, arts. 173, § 5.º, e 225, § 3.º).O legislador infraconstitucional ainda não criou nenhuma hipóteses atribuindo responsabilidade penal a pessoa jurídica por crimes contra a ordem econômica e financeira e nem contra economia popular. Porem, em relação a responsabilidade por crimes ambientais esta regulada art 3 da lei 9.605;1998 ( lei de crimes ambientais). Já foi editada a Lei 9.605/1998, no tocante aos crimes contra o meio ambiente, e o seu art. 3.º, parágrafo único, dispõe expressamente sobre a responsabilização penal da pessoa jurídica. O posicionamento atual do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça é pela admissibilidade da responsabilidade penal da pessoa jurídica em todos os crimes ambientais, dolosos ou culposos. Em relação aos crimes contra a economia popular e a ordem econômica e financeira, ainda não sobreveio lei definidora dos crimes da pessoa jurídica. Agora, ao se aceitar a responsabilidade penal da pessoa jurídica, deve destacar-se que esse reconhecimento não exclui a responsabilidade da pessoa física coautora ou partícipe do delito. É o que se denomina de sistema paralelo de imputação (teoria da dupla imputação), previsto no art. 3.º, parágrafo único, da Lei 9.605/1998, e com amparo nos arts. 13, caput, e 29, caput, ambos do Código Penal. É de se observar, entretanto, que a condenação da pessoa jurídica não acarreta, automaticamente, em igual medida a responsabilização da pessoa física, pelo mesmo crime. 10 STF/STJ: é admissível a condenação de pessoa jurídica pela prática de crime ambiental, AINDA QUE absolvidas as pessoas físicas que figuravam na ação penal. No que tange à possibilidade de responsabilização penal da pessoa jurídica de direito público, Cleber Masson trás em seu livro duas posições: Sim, é possível, pois a Constituição Federal e a Lei 9.605/1998 – Crimes Ambientais – não fazem distinção entre a pessoa jurídica de direito privado e a pessoa jurídica de direito público; e Não é possível, pois a sanção penal acabaria prejudicando a própria coletividade, seja em face da lesão ao patrimônio público (pena de multa), seja com a suspensão ou extinção de serviço de interesse público (nas demais penas). Os animais podem funcionar como instrumento do crime, mas jamais serão sujeito ativo de uma infração penal. Sujeito passivodo crime é o titular do bem jurídico protegido pela lei penal violada por meio da conduta criminosa.É a pessoa ou ente que sofre as consequências da infração penal. É dividido em duas categorias: Sujeito passivo constante, mediato, formal, geral, genérico ou indireto: é sempre oEstado, pois a ele pertence o direito público subjetivo de exigir o cumprimento da legislação penal. Sujeito passivo eventual, imediato, material, particular, acidental ou direto: é o titular do bem jurídico especificamente tutelado pela lei penal. Exemplo: o proprietário do carro subtraído no crime de furto. É possível constatar a existência de sujeito passivo indeterminado, noscrimes vagos, quais sejam aqueles que têm como vítima um ente destituído de personalidade jurídica. 11 Os mortos e os animais não podem ser sujeitos passivos de crimes.No caso da figura definida pelo art. 138, § 2.º, do Código Penal (calúnia contra a memória dos mortos), não é o morto o sujeito passivo do crime. Os ofendidos são os seus familiares. Em relação aos crimes contra a fauna, é a coletividade que figura como vítima (arts. 29 a 37 da Lei 9.605/1998). 2.1.4 Objeto do crime É o bem ou objeto contra o qual se dirige a conduta criminosa. Pode ser jurídico ou material. Objeto jurídico: o interesse ou valor protegido pela norma penal. No crime de homicídio, a objetividade jurídica recai na vida humana. Objeto material: a pessoa ou a coisa que suporta a conduta criminosa. No homicídio, exemplificativamente, é o ser humano que teve sua vida ceifada pelo comportamento do agente. 2.1.5 Classificação dos crimes Trataremos aqui sobre a classificação dos crimes, incluindo os crimes com maior incidência nas provas de concurso. Quanto à qualidade do sujeito ativo, os crimes se classificam como: Crimes comuns, próprios e de mão própria. QUANTO À QUALIDADE DO SUJEITO ATIVO Crimes comuns ou gerais Podem ser praticados por qualquer pessoa. O tipo penal não exige nenhuma condição especial. Exemplos: homicídio, furto, extorsão mediante sequestro. Fala-se também em crimes bicomuns, compreendidos como aqueles que podem ser cometidos por qualquer pessoa e contra qualquer pessoa. Crimes próprios O tipo penal exige uma situação fática ou jurídica diferenciada por parte do sujeito ativo. Exemplos: peculato (só pode ser praticado por 12 funcionário público). Admitem coautoria e participação. Dividem-se em puros e impuros. Puros: a ausência da condição imposta pelo tipo penal leva à atipicidade do fato. Ex: prevaricação, pois, excluída a elementar “funcionário público”, não subsiste crime algum. Impuros: a exclusão da especial posição do sujeito ativo acarreta na desclassificação para outro delito (exemplo: peculato doloso, pois, afastando-se a elementar “funcionário público”, o fato passará a constituir crime de furto ou apropriação indébita). Crimes próprios com estrutura inversa: classificação relativa aos crimes praticados por funcionários públicos contra a Administração em geral (crimes funcionais). Crimes bipróprios: exigem uma peculiar condição (fática ou jurídica) no tocante ao sujeito ativo e ao sujeito passivo. Ex: infanticídio (mãe e recém-nascido). Crimes de mão própria,de atuação pessoal ou de conduta infungível. Somente podem ser praticados pela pessoa expressamente indicada no tipo penal. É o caso do falso testemunho. Não admitem coautoria, mas admite participação, eis que a lei não permite delegar a execução do crime a terceira pessoa. Quanto à estrutura da conduta delineada pelo tipo penal: crimes simples e complexos. QUANTO À ESTRUTURA DA CONDUTA DELINEADA PELO TIPO PENAL Crime simples É aquele que se amolda em um único tipo penal. É o caso do furto (CP, art. 155). 13 Crime complexo Resulta da união de dois ou mais tipos penais. Fala-se, nesse caso, em crime complexo em sentido estrito. Ex: O crime de roubo é oriundo da fusão entre furto e ameaça. Os delitos que compões a estrutura unitária do crime complexo são chamados de famulativos. Já o crime complexo em sentido amplo: é o que deriva da fusão de um crime com um comportamento por si só penalmente irrelevante, a exemplo da denunciação caluniosa. Quanto ao resultado naturalístico ou material: crimes materiais, formais e de mera conduta. QUANTO AO RESULTADO NATURALÍSTICO OU MATERIAL Crimes materiais ou causais O tipo penal descreve uma conduta e um resultado naturalístico, sendo a ocorrência deste último necessária para a consumação. Crimes formais, de consumação antecipada ou de resultado cortado Contém em seu bojo uma conduta e um resultado naturalístico, mas este último é desnecessário para a consumação. Ex: crime de extorsão, Súmula n.º 96, STJ: O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida. Crimes de mera conduta ou de simples atividade São aqueles em que o tipo penal se limita a descrever uma conduta, ou seja, não contém resultado naturalístico. Quanto ao momento consumativo: crimes instantâneos, crimes permanentes, crimes instantâneos de efeitos permanentes e crimes a prazo. 14 QUANTO AO MOMENTO CONSUMATIVO Crimes instantâneos ou de estado A consumação se verifica em um momento determinado, sem continuidade no tempo. Ex: furto, o roubo, estelionato, entre outros. Crimes permanentes São aqueles cuja consumação se prolonga no tempo, por vontade do agente. Subdividem em: Necessariamente permanentes: são os que têm sua consumação protraída no tempo como requisito essencial do tipo penal. A conduta típica é, por sua natureza, duradoura no tempo. Ex: sequestro. Eventualmente permanentes: são aqueles que a conduta típica pode ou não ser prolongada no tempo. Ex: o furto de energia elétrica. Crimes instantâneos de efeitos permanentes Seus efeitos subsistem após a consumação, independentemente da vontade do agente, tal como ocorre na bigamia (CP, art. 235). Crimes a prazo São aqueles cuja consumação exige a fluência de determinado período. É o caso da lesão corporal de natureza grave em decorrência da incapacidade para as ocupações habituais por mais de 30 dias. Quanto à pluralidade de sujeitos: crimes unissubjetivos, plurissubjetivos e eventualmente coletivos. QUANTO À PLURALIDADE DE SUJEITOS Crimes unissubjetivos, unilaterais, São praticados por um único agente. Admitem, entretanto, o concurso de pessoas. 15 monossubjetivos ou de concurso eventual Crimes plurissubjetivos, plurilaterais ou de concurso necessário O tipo penal reclama a pluralidade de agentes, que podem ser coautores ou partícipes, imputáveis ou não, conhecidos ou desconhecidos, e inclusive pessoas em relação às quais já foi extinta a punibilidade. Subdividem-se em: Crimes bilaterais ou de encontro: o tipo penal exige dois agentes, cujas condutas tendem a se encontrar. Crimes coletivos ou de convergência: existência de três ou mais agentes, dividindo-se em: a. de condutas contrapostas: os agentes devem atuar uns contra os outros. É o caso da rixa. b. de condutas paralelas: os agentes se auxiliam, mutuamente, com o objetivo de produzirem o mesmo resultado. É o caso da associação criminosa (CP, art. 288). NÃO confundir com o crime participação necessária. Estes podem ser praticados por uma única pessoa, nada obstante o tipo penal reclame a participação necessária de outra pessoa. Crimes eventualmente coletivos São aqueles em que, não obstante o seu caráter unilateral, a diversidade de agentes atua como causa de majoração da pena, tal como se dá no furto qualificado. Quanto ao número de vítimas, a classificação divide-se em: Crimes de subjetividade passiva única e de dupla subjetividade passiva. 16 QUANTO AO NÚMERO DE VÍTIMAS Crimes de subjetividade passiva única Consta no tipo penal uma única vítima. Crimes de dupla subjetividade passiva Prevê a existência de duas ou mais vítimas. Quanto ao resultado jurídico ou normativo, temos: crimes de dano e de perigo. QUANTO AO RESULTADO JURÍDICO OU NORMATIVO Crimes de dano ou lesão A consumação somente se produz com a efetiva lesão do bem jurídico. Crimes de perigo Se consumam com a mera exposição do bem jurídico penalmente tutelado a uma situação de perigo. Subdividem-se em: a. Crimes de perigo abstrato, presumido ou de simples desobediência: consumam-se com a prática da conduta, automaticamente. Não se exige a comprovação da produção da situação de perigo. b. Crimes de perigo concreto: consumam-se com a efetiva comprovação, no caso concreto, da ocorrência da situação de perigo. 17 Quanto ao número de atos executórios: Crimes unissubsistentes e plurissubsistentes. QUANTO AO NÚMERO DE ATOS EXECUTÓRIOS Crimes unissubsistentes A conduta se revela mediante um único ato de execução, capaz de por si só produzir a consumação. Não admitem a tentativa, pois a conduta não pode ser fracionada, e, uma vez realizada, acarreta automaticamente na consumação. Crimes plurissubsistentes A conduta se exterioriza por meio de dois ou mais atos, os quais devem somar-se para produzir a consumação. É possível a tentativa. Quanto à conduta: Crimes comissivos, omissivos e de conduta mista. QUANTO À CONDUTA Crimes comissivos ou de ação São os praticados mediante uma conduta positiva. Crimes omissivos São os cometidos por meio de uma conduta negativa, de um não fazer. Subdividem-se em: a. Crimes omissivos próprios ou puros: a omissão está contida no tipo penal. Ex: crime de omissão de socorro.1 b. Crimes omissivos impróprios, espúrios ou comissivos por omissão: tipo penal aloja em sua descrição uma ação, uma conduta positiva, mas a omissão do agente, que descumpre seu dever jurídico de agir, acarreta a produção do resultado naturalístico e a sua consequente responsabilização penal.As hipóteses do dever de agir foram previstas no art. 13, § 2.º, do Código Penal: (a) dever legal; (b) posição de garantidor; e (c) ingerência. 1 Vide questão 3 do material 18 Crimes de conduta mista É aquele em que o tipo penal é composto de duas fases distintas, uma inicial e positiva, outra final e omissiva. Ex: crime de apropriação de coisa achada. Quanto ao modo de execução: Crimes de forma livre e de forma vinculada. QUANTO AO MODO DE EXECUÇÃO Crimes de forma livre Admitem qualquer meio de execução. Crimes de forma vinculada São aqueles que apenas podem ser executados pelos meios indicados no tipo penal. Quanto à necessidade ou não da elaboração de exame de corpo de delito: Crimes transeuntes e não transeuntes. QUANTO À NECESSIDADE OU NÃO DA ELABORAÇÃO DE EXAME DE CORPO DE DELITO Crimes transeuntes ou de fato transitório São aqueles que não deixam vestígios materiais. Crimes não transeuntes ou de fato permanente São aqueles que deixam vestígios materiais. A falta de exame de corpo de delito leva à nulidade da ação penal, salvo quando impossível a sua realização. 19 Quanto ao local em que se produz o resultado: Crimes à distância, plurilocaise em trânsito. QUANTO AO LOCAL EM QUE SE PRODUZ O RESULTADO Crimes à distância A conduta e resultado ocorrem em países diversos. Crimes plurilocais A conduta e resultado se desenvolvem em comarcas diversas, sediadas no mesmo país. Crimes em trânsito São aqueles em que somente uma parte da conduta ocorre em um país, sem lesionar ou expor a situação de perigo bens jurídicos de pessoas que nele vivem. OUTRAS CLASSIFICAÇÕES Crime gratuito É o praticado sem motivo conhecido, porque todo crime tem uma motivação. A ausência de motivo conhecido não deve ser equiparada ao motivo fútil. Crime de ímpeto É o cometido sem premeditação, como decorrência de reação emocional repentina, tal como no homicídio privilegiado, cometido pelo agente sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima. Crime exaurido É aquele em que o agente, depois de já alcançada a consumação, insiste na agressão ao bem jurídico. Não caracteriza novo crime. Crime de atentado É aquele em que a lei pune de forma idêntica o crime consumado e a forma tentada, isto é, não há diminuição da 20 ou de empreendimento pena em face da tentativa. É o caso do crime de evasão mediante violência contra a pessoa. Crime de opinião ou de palavra É o cometido pelo excesso abusivo na manifestação do pensamento, seja pela forma escrita, seja pela forma verbal, tal como ocorre na injúria. Crime multitudinário É aquele praticado pela multidão em tumulto. A lei não diz o que se entende por “multidão”. Crime vago É aquele em que figura como sujeito passivo uma entidade destituída de personalidade jurídica, como a família ou a sociedade. Exemplo: tráfico de drogas, no qual o sujeito passivo é a coletividade. Crime habitual Crime habitual próprio é o que somente se consuma com a prática reiterada e uniforme de vários atos que revelam um criminoso estilo de vida do agente. Cada ato, isoladamente considerado, é atípico. Com efeito, se cada at fosse típico, restaria configurado o crime continuado. Exemplos: exercício ilegal da medicina e curandeirismo. Crime habitual impróprio é aquele em que uma só ação tem relevância para configurar o tipo, ainda que a sua reiteração não configure pluralidade de crimes, a exemplo do que se verifica no delito de gestão fraudulenta. Crime obstáculo É aquele que retrata atos preparatórios tipificados como crime autônomo pelo legislador. É o caso da associação criminosa. Crimes de rua, Crimes de rua são os praticados pelas pessoas de classes sociais desfavorecidas, a exemplo dos mendigos. Quando ficam alheios 21 crimes do colarinho branco e do colarinho azul ao conhecimento do Poder Público, integram as cifras negras do Direito Penal. Crimes do colarinho branco: cometidos por aqueles que gozam e abusam da elevada condição econômica e do poder daí decorrente, como é o caso dos delitos contra o sistema financeiro nacional. Nesses crimes socioeconômicos, surgem as “cifras douradas do Direito Penal”. Crimes do colarinho azul: Se os crimes econômicos são etiquetados como crimes do colarinho branco, os crimes de rua são rotulados como crimes do colarinho azul. Aqueles fazem alusão às finas camisas utilizadas pelos executivos das grandes empresas, enquanto estes se referem à cor dos macacões utilizados pelos operários norteamericanos da década de 1940. Crime progressivo É aquele que para ser cometido deve o agente violar obrigatoriamente outra lei penal, a qual tipifica crime menos grave, chamado de crime de ação de passagem. Em síntese, o agente, pretendendo desde o início produzir o resultado mais grave, pratica sucessivas violações ao bem jurídico. Progressão criminosa Há mutação no dolo do agente, que inicialmente realiza um crime menos grave e, após, quando já alcançada a consumação, decide praticar outro delito de maior gravidade. 2.2 Fato típico No aspecto material, fato típico é o fato humano indesejado, norteado pelo princípio da intervenção mínima (subsidiariedade e fragmentariedade), consistente em uma conduta produtora de um resultado e que se ajusta formal e materialmente ao tipo penal. No aspecto analítico, fato típico é primeiro substrato do crime. 22 São quatro os elementos do fato típico: conduta, resultado naturalístico, relação de causalidade (nexo causal) e tipicidade.Salienta-se que a conduta e a tipicidade estão presentes em todo e qualquer crime. Já o resultado (naturalístico) e a relação de causalidade estão presentes apenas nos crimes materiais consumados. 2.2.1 Conduta A conduta é a ação ou omissão humana (e da pessoa jurídica nos crimes ambientais) consciente e voluntária (o agente sabe o que está fazendo) que produz modificação no mundo exterior. Não há crime sem conduta. O dolo e a culpa estão na conduta. Dessa forma, toda conduta será dolosa ou, no mínimo, culposa. TEORIAS DA CONDUTA Atenção futuro Delta estude estas teorias detalhamente, pois são muito cobradas, inclusive foi questão da segunda fase delegado ES-2019. Pontos que devem ser mais focados: As principais ideias de cada teoria e o funcionalismo deve ser feita e sabida a distinção entre Jakobs e Roxin. Atenção para o conceito de conduta em cada uma das escolas e a teoria que cada uma adota em relação à culpabilidade. Teoria clássica, naturalística, mecanicista ou causal: Essa teoria foi idealizada por Liszt, Beling e Radbruch e foi recepcionada no Brasil por diversos penalistas de destaque, tais como Aníbal Bruno, Costa e Silva, E. Magalhães Noronha, José Frederico Marques, Basileu Garcia, Manoel Pedro Pimentel e Nélson Hungria. Conduta é todo movimento capaz de produzir um resultado (“Fotografia do Resultado”).A vontade humana engloba duas partes diversas: uma externa, objetiva, correspondente ao movimento corpóreo do ser humano, e outra interna, subjetiva, relacionada ao conteúdo final da ação. Em suma, a vontade é a causa da conduta, e a conduta é a causa do resultado. Não há vontade no tocante à produção do resultado. A caracterização da conduta criminosa depende do resultado previsto em lei como infração penal, independentemente de dolo ou culpa. 23 Na teoria clássica, dolo e culpa se alojam no interior da culpabilidade. Para os adeptos da teoria clássica, crime é necessariamente o fato típico e ilícito, praticado por agente culpável. A teoria clássica não distingue a conduta dolosa da conduta culposa.Essa teoria foi abandonada com o tempo, principalmente devido às críticas que sofreu: É um erro separar a conduta da relação psíquica do agente, deixando de analisar sua vontade. Não se distingue a conduta dolosa da culposa. Fica impossível, no estudo da tipicidade, diferenciar, por exemplo, tentativa de homicídio de lesão corporal. Reunir o dolo e a culpa como elementos da culpabilidade. Por conceituar conduta como “ação humana”, ignora a existência de crimes omissivos. Não explica os crimes formais e os de mera conduta. Teoria final ou finalista Foi criada por Hans Welzel, e conceitua a conduta como um comportamento humano voluntário e consciente psiquicamente dirigido a um fim. A ação é um “acontecer final”, não somente “causal”. Para teoria finalista, o dolo e culpa está no tipo, não na culpabilidade (culpabilidade vazia). O dolo não é mais normativo, porque a consciência da ilicitude (elemento normativo) agora está na culpabilidade, que passa a ser normativa pura. O adepto do finalismo pode adotar um conceito tripartido ou bipartido, conforme repute a culpabilidade como elemento do crime ou pressuposto de aplicação de pena. O Código Penal parece ter manifestado preferência pelo finalismo penal. Um forte indício dessa afirmação consta no art. 20 “o erro sobre o elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei”.Se a ausência do dolo acarreta a exclusão do fato típico, é porque o dolo está na conduta. Essa teoria recebeu diversas críticas acerca dos crimes culposos, pois não se sustentava a finalidade da ação concernente ao resultado naturalístico involuntário. 24 Teoria cibernética Conhecida como “ação biociberneticamente antecipada”, foi criada por Welzel com o intuito de tentar explicar o finalismo para os crimes culposos. Leva em conta o controle da vontade, existente tanto nos crimes dolosos quando culposos. Teoria social da conduta Criada pelo alemão Jehannes Wessels, defende que conduta é o comportamento humano com transcendência social. Para os ideais clássicos e finalistas são insuficientes para disciplinar à conduta, porque desconsiderariam uma nota essencial do comportamento humano: o seu aspecto social. No Brasil, não ganhou adeptos. Teoria jurídico-penal É a teoria sustentada por Francisco de Assis Toledo para superar os entraves travados entre as vertentes clássica, finalista e social. Considerava ação como um comportamento humano, dominado ou dominável pela vontade, dirigido para a lesão ou para a exposição a perigo de um bem jurídico, ou, ainda, para a causação de uma previsível lesão a um bem jurídico. Teoria da ação significativa O penalista espanhol Tomás Salvador Vives Antón desenvolveu a teoria da ação significativa. Apresentando uma nova definição de conduta penalmente relevante. Tem como pilares fundamentais os conceitos de ação e norma, unidos pela ideia central de liberdade de ação. Essa teoria sustenta que os fatos humanos somente podem ser compreendidos por meio das normas, ou seja, o seu significado existe somente em virtude das normas, as quais lhes são preexistentes. 25 APONTAMENTOS GERAIS SOBRE A CONDUTA Aposição finalista éindiscutivelmente, a mais aceita em provas e concursos públicos. Desse modo, conduta é a ação ou omissão humana, consciente e voluntária, dirigida a um fim, consistente em produzir um resultado tipificado em lei como crime ou contravenção penal. FORMAS DE CONDUTA A conduta pode se exteriorizar por ação ou por omissão.A ação consiste em um movimento corporal exterior. Reclama do ser humano uma postura positiva, um fazer. Já a omissão não se constitui em um mero comportamento estático. É, sim, a conduta de não fazer aquilo que podia e devia ser feito. TEORIAS ACERCA DA OMISSÃO Teoria naturalística: caracteriza-se como espécie de ação. Assim, quem se omite efetivamente faz alguma coisa. Teoria normativa: a omissão é um indiferente penal, pois o “nada” não produz efeitos jurídicos. Dessa forma, o omitente não responde pelo resultado, pois não o provocou. Essa teoria, contudo, aceita a responsabilização do omitente pela produção do resultado, desde que seja a ele atribuído, por uma norma, o dever jurídico de agir. A omissão é, assim, não fazer o que a lei determinava que se fizesse. A teoria normativa foi à teoria acolhida pelo Código Penal. Nos crimes omissivos próprios ou puros a norma impõe o dever de agir no próprio tipo penal (preceito preceptivo). Já nos crimes omissivos impróprios, o tipo penal descreve uma ação (preceito proibitivo), mas a omissão do agente, que descumpre o dever jurídico de agir, acarreta a sua responsabilidade penal pela produção do resultado naturalístico. CARACTERES DA CONDUTA A conduta se reveste das seguintes características: Apenas o ser humanopode praticar condutas penalmente relevantes. É possível também que as pessoas jurídicas pratiquem condutas relativas a crimes ambientais. 26 Somente a conduta voluntáriainteressa ao Direito Penal. A vontade é elemento constitutivo da conduta. Apenas os atos lançados ao mundo exterioringressam no conceito de conduta. O simples querer interno do agente (cogitação) é desprezado pelo Direito Penal. A conduta é composta de dois elementos: um ato de vontade, dirigido a um fim, e a manifestação da vontade no mundo exterior, por meio de uma ação ou omissão dominada ou dominável pela vontade. EXCLUSÃO DA CONDUTA Apontam-se as seguintes hipóteses como de exclusão da conduta: CAUSAS DE EXCLUSÃO DA CONDUTA Caso fortuito e força maior São acontecimentos imprevisíveis e inevitáveis, que escapam ao controle da vontade. Se não há vontade, não há dolo nem culpa.Exclui a voluntariedade do movimento. O caso fortuito é provocado pelo homem, Ex: greve. Já a força maior, pela natureza, Ex: inundação. Atos ou movimentos reflexos Consistem em reação motora ou secretoraem consequência de uma excitação dos sentidos.Falta vontade. Reação automática, impulso fisiológico. Exemplo: levou um choque e acabou apertando o gatilho matando alguém; tomou um susto e deu um soco em alguém. NÃOse confundem com as ações em curto circuito, derivadas dos atos impulsivos fundamentados em emoções ou paixões violentas. Nesses casos há o elemento volitivo que estimula a conduta criminosa. Também NÃO se confunde com os atos habituais, mecânicos ou automáticos, que consistem na reiteração de um comportamento. Coação física irresistível Chamada de vis absoluta, quando o coagido não tem liberdade para agir. Não lhe resta nenhuma outra opção, a não ser praticar um ato em conformidade com a vontade do coator. 27 #Em contrapartida, temos a coação moral irresistível, ou vis compulsiva, na qual o coagido pode escolher o caminho a ser seguido: obedecer ou não a ordem do coator.Como a sua vontade existe, porém de forma viciada, exclui-se a culpabilidade, em face da inexigibilidade de conduta diversa. Sonambulismo e hipnose Não há conduta. Há falta de vontadenos comportamentos praticados em completo estado de inconsciência. 2.2.2 Resultado naturalístico É o segundo elemento do fato típico. Resultado é o efeito, a consequência da conduta do agente. Pode ser jurídico ou naturalístico. Resultado Jurídico/Normativo: é a lesão ou exposição a perigo de lesãodo bem jurídico protegido pela lei penal. É a violação da lei penal. Todo crime tem, não existe crime sem resultado jurídico ou normativo, eis que todo crime irá violar uma norma penal, atacando um bem jurídico. Resultado Naturalístico/Material:é a modificação do mundo exterior provocada pela conduta do agente.É possível um crime sem resultado naturalístico.Estará presente somente nos crimes materiais consumados. Se tentado o crime, ainda que material, não haverá resultado naturalístico. TODO crime tem resultado jurídico, mas nem todo crime tem resultado naturalístico. 28 2.2.3 Relação de causalidade (nexo causal) Relação de causalidade e nexo causal possui o mesmo significado. É o terceiro elemento do fato típico. É o vínculo formado entre a conduta praticada por seu autor e o resultado por ele produzido. É por meio dela que se conclui se o resultado foi ou não provocado pela conduta, autorizando, se presente a tipicidade, a configuração do fato típico. Está previstono art. 13 do Código Penal: Art. 13. O resultado(naturalístico), de que depende a existência do crime(material), somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. § 1.º A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. § 2.º A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. Prevalece na doutrina brasileira o entendimento de que a expressão “o resultado”, constante no início do art. 13, caput,do Código Penal, alcança somente o resultado naturalístico. O estudo da relação de causalidade tem pertinência apenas aos crimes materiais. Destacam-se três teorias na busca de definir a relação de causalidade: Teoria da Equivalência dos antecedentes: também chamada de teoria da equivalência das condições, ou, teoria da conditio sine qua non. Conceitua causa como todo fato humano sem o qual o resultado não teria ocorrido, quando ocorreu e como ocorreu. 29 Teoria da causalidade adequada:também chamada de teoria da condição qualificada, ou teoria individualizadora. Causa, nesse contexto, é o antecedente, não só necessário, mas adequado àprodução do resultado.A causa adequada é aferida de acordo com o juízo do homem médioe com a experiência comum. Não basta contribuir de qualquer modo para oresultado: a contribuição deve ser eficaz. Teoria da imputação objetiva: Introduzida no Direito Penal por Claus Roxin, preconizando que a culpabilidade se encontra inserida em um contexto mais amplo, chamado responsabilidade.2 Tinha como finalidade de limitar a responsabilidade penaldo agente sem a necessidade de analisarmos o elemento subjetivo do autor (causalidade psíquica). Essa finalidade é atingida com o acréscimo de um nexo normativo ao nexo físico já existente na causalidade simples. Logo, para que se possa considerar um comportamento como causa objetiva de um resultado, não basta um mero nexo físico entre eles. É necessário que haja: criação ou aumento de um risco proibido; realização do risco no resultado; nexo normativo(mera relação de causa e efeito).Assim, não haverá nexo de causalidade se o agente atuar dentro do risco permitido, mesmo que a sua conduta gere resultado previsto em lei como crime.3Embora não tenha previsão legal, já foi adotada em alguns julgados pelo STJ, pois é mais favorável ao agente. Teorias adotadas pelo Código Penal Acolheu-se, como regra, a teoria da equivalência dos antecedentes. Mas, excepcionalmente, o Código Penal adota, no § 1.º do art. 13, a teoria da causalidade adequada4. CONCAUSAS Concausas é o concurso de eventos que vão em direção de um mesmo resultado. É a concorrência de causas, ou seja, há mais de uma causa que contribui para a produção do resultado final.Espécies: dependentes e independentes: 2 Vide questão 2 do material 3 Vide questão 7 do material 4 Vide questão 10 do material 30 Dependentes: precisa da conduta do agente para provocar o resultado, ou seja, não é capaz de produzi-lo por si própria, razão pela qual não exclui a relação de causalidade. Independentes: é aquela capaz de produzir, por si só, o resultado. Pode ser de natureza absoluta ou relativa, dependendo da sua origem.Ou seja, não depende da conduta do agente. Podendo ser absolutas ou relativas. CONCAUSAS ABSOLUTAMENTE INDEPENDENTES QUANDO O EVENTO PARALELO À CONDUTA CAUSOU SOZINHO O RESULTADO. Preexistente TENTATIVA As concausas absolutamente rompem o nexo causal. O agente só responde pelos atos que causou, não responde pelo resultado final. Por isso, o agente responderá por tentativa.Utiliza a Teoria da Equivalência dos Antecedentes. Concomitante Superveniente CONCAUSAS RELATIVAMENTE INDEPENDENTES QUANDO O EVENTO PARALELO PRECISOU DA CONDUTA DO SUJEITO PARA PRODUZIR O RESULTADO. Preexistente CONSUMADO Não rompem o nexo causal. O agente responde pelo resultado final. Aplica a Teoria da Equivalência dos Antecedentes. Concomitante 31 Superveniente Que, por si só, NÃO causou o resultado = CONSUMADO. O resultado se deu na mesma linha do normal. Ex: levar um tiro e morrer na cirurgia. Aplica a Teoria da equivalência dos antecedentes. Que, por si só, causou o resultado = TENTATIVA.5 Fugiu da linha de desdobramento normal. Ex: desabamento, incêndio. Aplica a Teoria da causalidade adequada. RELEVÂNCIA DA OMISSÃO Atenção aluno, ponto bastante explorado pelas bancas. Portanto, estude bem as espécies de omissão e a posição dos garantidores. A omissão penalmente relevante encontra-se disciplinada pelo art. 13, § 2.º, do Código Penal: “A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado”. § 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agirpara evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: Esse dispositivo é aplicável somente aos crimes omissivos impróprios, espúrios ou comissivos por omissão, isto é, aqueles em que o tipo penaldescreve uma ação, mas a inércia do agente, que podia e devia agir para impediro resultado naturalístico, conduz à sua produção. 5 Vide questão 6 do material 32 O art. 13, § 2.º, do Código Penal, no tocante à natureza jurídica da omissão, acolheu a teoria normativa.Só tem importância jurídico-penal quando presente o dever de agir. A omissão somente interessa ao Direito Penal quando, diante da inércia do agente, o ordenamento jurídico lhe impunha uma ação, um fazer. Há dois critérios para definir o dever de agir: judicial e legal. Critério judicial: permite ao magistrado, no caso concreto, decidir pela presença ou não do dever de agir. Não é aceito. Critério legal: é a lei que deve arrolar, taxativamente, as hipóteses do dever de agir.Por ele optou o legislador pátrio, ao indicar nas alíneas “a”, “b” e “c” do §2.º do art. 13 do Código Penal as pessoas a quem incumbe o dever de agir. O Código Penal consagra o critério legal para definir o dever de agir.É importante salientar que, quem tem o dever de agir não pratica, automaticamente, uma conduta penalmente reprovável. É necessário que tenha se omitido quando devia e podia agir de forma a impedir o resultado. Poder de agir é a possibilidade real e efetiva de alguém, na situação concreta e em conformidade com o padrão do homem médio, evitar o resultado penalmente relevante. Nesse sentido, a questão da DPE/AP (2018)considerou correta a seguinte afirmativa: (C) a falta do poder de agir gera atipicidade da conduta. São hipóteses dodever de agir: Tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância: Trata-se do dever legal, relativo às pessoas que, por lei, têm a obrigação de impedir o resultado. Ex: Policial, bombeiro. De outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado: Significa qualquer outra forma diversa da lei. Chama-se de “garante” ou “dever de garantidor danão produção do resultado naturalístico”.A posição do garantidor pode derivar de um contrato, a exemplo da babá contratada para cuidar de um bebê. 33 Com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado: Trata- seda ingerência ou situação precedente. É aquele que, com o seu comportamento anterior, criou uma situaçãode perigo, tem o dever de agir para impedir o resultado lesivo ao bem jurídico. A QUESTÃO DA DUPLA CAUSALIDADE Ocorre quando duas ou mais condutas, independentes entre si e praticadas por pessoas diversas, que não se encontram subjetivamente ligadas, produzem simultaneamente o resultado naturalístico por elas desejado. Exemplo: “A” ministra veneno na comida de “B”, enquanto almoçavam em um restaurante. Ao mesmo tempo, “C”, que também estava sentado à mesa, coloca veneno na comida de “B”. “A” e “C” não têm ciência do propósito criminoso alheio. As doses subministradas produzem, por si sós, efeito imediato, matando “B”. Muito provavelmente a doutrina iria pugnar pela punição de ambos os autores por homicídio consumado. No Brasil, o crime seria inclusive qualificado pelo emprego de meio insidioso (veneno). 2.2.4 Tipicidade É o quarto elemento do fato típico, presente em todo e qualquer crime. Em suma, não há crime sem tipicidade.É a adequação de um ato praticado pelo agente com as características que o enquadram à norma descrita na lei penal como crime.6Está diretamenterelacionada com oprincípio da insignificância. Divide-se em formal e material. Tipicidade formal:é o juízo de subsunção entre o fato e a norma(“adequação ao catálogo”). Tipicidade material (ou substancial):é a lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado em razão da prática da conduta legalmente descrita. Relaciona-se 6 Vide questão 8 do material 34 intimamente com o princípio da ofensividade (ou lesividade) do Direito Penal, pois nem todas as condutas que se encaixam nos modelos abstratos e sintéticos de crimes (tipicidade formal) acarretam dano ou perigo ao bem jurídico. É o que acontece, por exemplo, nas hipóteses de incidência do princípio da insignificância, não se verifica a tipicidade material, embora possamos verificar a presença da tipicidade formal. Assim, a presença simultânea da tipicidade formal e da tipicidade material caracteriza a tipicidade penal. EVOLUÇÃO DOUTRINÁRIA DA TIPICIDADE Corpus delicti A definição atual da tipicidade deriva das ideias do alemão Ernst von Beling, datadas de 1906. Prevalecia no direito Romano, a ideia de corpus delicti, denominado em alemão de Tatbestand. Abarcava todas as características e elementos do delito, abrangendo a materialidade do fato delituoso, a ilicitude e a culpabilidade, para se criar a concepção objetiva do tipo penal, operando-se a distinção entre a tipicidade e a ilicitude. Antes de Beling, o crime se dividia em ilicitude, de ordem objetiva, e culpabilidade, de natureza subjetiva. Não se falava em tipicidade. Posteriormente à criação de Beling, o delito passou a possuir três partes: tipicidade e ilicitude, ambas objetivas, e culpabilidade, de ordem subjetiva. A tipicidade era considerada como mero processo de adequação do fato concreto ao tipo penal. Fase da independência do tipo Surgiu a fase da independência do tipo, desvinculando-se completamente a tipicidade da ilicitude, com função meramente descritiva, sem nenhum conteúdo valorativo. Entretanto, essa fase perdeu espaço para teoria finalista da conduta e com o descobrimento dos elementos subjetivos do tipo. 35 Teoria Indiciária Nascia, então, a fase da tipicidade como indício da ilicitude (teoria indiciária ou da ratio cognoscendi), em 1915, na Alemanha, através de Max Ernst Mayer. É, desde então, a teoria mais aceita no Direito Penal. A tipicidade é um indício da ilicitude. Consagra-se um sistema tripartido, dependendo a análise do crime de três fases distintas e sucessivas: tipicidade, ilicitude e culpabilidade.A tipicidade acarreta em uma presunção de ilicitude. Contudo, trata-se de presunção relativa (iuris tantum)admite-se prova em contrário (exclusão da ilicitude). Na prática, a Teoria Indiciária acarreta a inversão do ônus da prova no tocante às excludentes da ilicitude.Em outras palavras, à acusação basta demonstrar a tipicidade do fato, pois desponta como a sua ilicitude. Em síntese, o fato típico presume-se igualmente ilícito. Teoria da Identidade Surge em 1931, com os estudos de Edmund Mezger, através da criação da fase da tipicidade como essênciaa da ilicitude (ratio essendi). O tipo penal é transformado em tipo de injusto, ou seja, o tipo passa a ser conceituado como a ilicitude tipificada. Assim, tipo e ilicitude fundiram-se de modo indissociável, embora seus conceitos não se confundam. Teoria dos elementos negativos do tipo Desenvolvida por Hellmuth Von Weber, propõe o tipo total de injusto, por meio do qual as excludentes de ilicitude funcionam como elementos negativos do tipo penal.Tipicidade e ilicitude integram o tipo penal (tipo total).Não há distinção entre os juízos da tipicidade e da ilicitude, assim, crime não é o fato típico e ilícito, e sim um tipo total de injusto. Não foi acolhida pelo nosso sistema penal. Teoria da tipicidade conglobante 36 Atenção futuro Delta essa teoria foi cobrada na fase oral do concurso de Delegado SE-2018. Criada por Eugenio Raúl Zaffaroni. Sustenta que todo fato típico se reveste de antinormatividade, pois embora o agente atue em consonância com o que está descrito no tipo incriminador, na verdade contraria a norma, entendida como o conteúdo do tipo legal. Conglobar é sinônimo de englobar. O nome “conglobante” deriva da necessidade de que a conduta seja contrária ao ordenamento jurídico em geral. TIPICIDADE CONGLOBANTE = TIPICIDADE LEGAL + ANTINORMATIVIDADE. Tipicidade legalé adequação à fórmula legal do tipo, ou seja, subsunção do fato à norma. Tipicidade conglobante (antinormatividade) é a comprovação de que a conduta legalmente típica está também proibida pela norma. Esta teoria, embora ainda se apresente como uma proposta doutrinária com resistência no Brasil, já foi acolhida pelo Superior Tribunal de Justiça, na AP 638. Adequação típica: conceito e espécies É a tipicidade formal colocada em prática.Ou seja, verifica-se se o fato cometido se enquadra ao modelo descrito no modelo de crime previsto na lei penal.Pode se apresentar sob duas espécies: subordinação imediata e subordinação mediata. Subordinação imediata: o fato praticado se enquadra diretamente na lei penal incriminadora, sem necessidade de utilizar qualquer outro dispositivo legal. Ex: A conduta de subtrair coisa alheia móvel para si, mediante emprego deviolência contra a pessoa, se encaixa perfeitamente ao Art. 157, caput, do CP. Subordinação mediata: a conduta humana não se enquadra prontamente na lei penalincriminadora, reclamando-se, para complementar a tipicidade, a interposição deum dispositivo contido na Parte Geral do Código Penal. No Brasil, ocorre em três situações: Tentativa, participação e os Crimes omissivos impróprios, espúrios ou comissivos por omissão. 1. Tentativa: opera-se uma ampliação temporal da figura típica. 37 Art. 14, II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Ex: tício disfere dois tiros de arma de fogo contra mévio, mas, por circunstância alheias a vontade de tício, mévio não morrer=. Ora, o fato praticado por tício não se encaixa no art. 121 do CP, uma vez que a vítima não morreu. Dessa forma, é necessário a utilização de uma norma de extensão, qual seja, o art. 14, II do Código Penal, prevendo a tentativa. Na denúncia, será previsto o Art. 121, caput, c/c art. 14, II, ambos do CP. 2. Participação: há uma ampliação espacial e pessoal do tipo penal. Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. Em consequência do disposto pelo art. 29, caput, do Código Penal, passa a alcançar não só o sujeito que praticou os atos executórios do crime, como também outras pessoas que de qualquer modo concorreram para a realização do delito, sem, contudo, executá-lo. Ex: Tício contrata Plínio para matar Mévio. Perceba que Tício não executou o crime, apenas mandou matar. Plínio será denunciado pelo art. 121, §2º, I do CP e Tício será denunciado pelo art. 121, §2º, I c/c art. 29, caput, ambos do CP. 3. Crimes omissivos impróprios, espúrios ou comissivos por omissão: ocorre uma ampliação da conduta criminosa. Art. 13, § 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. 38 O emprego do art. 13, § 2.º, do Código Penal, passa a englobar também a omissão daquele que indevidamente não cumpriu o seu dever jurídico de agir. 2.3 Teoria do tipo 2.3.1 Conceito Tipo penal é o modelo genérico e abstrato, formulado pela lei, descritivo da conduta criminosa ou da conduta permitida. Tipo e tipicidade não se confundem, conforme Zaffaroni.Tipo é a figura que resulta da imaginação do legislador. Tipicidade é a operação prática por meio da qual se verifica se a conduta do agente se encaixa no modelo imaginário criado pelo legislador. 2.3.2 Espécies Tipos incriminadores ou legais: são os tipos penais que definem a conduta criminosa. Estão definidos na Parte Especial doCódigo Penal e na legislação penal especial. Não há tipo incriminador na ParteGeral do Código Penal. Tipos permissivos ou justificadores: são os tipos penais que contêm a descrição legal da conduta permitida, autorizando a prática de um fato típico. São as caudas de exclusão da ilicitude.7 2.3.3 Funções do tipo legal (incriminador) Garantia: está relacionada com o princípio da reserva legal. O Código Penal mais do que punir serve para proteger as pessoas do arbítrio do Estado. A partir do momento em que existem tipos legais, o cidadão sabe que é livre para praticar todas as condutas que não estão previstas nos tipos penais. Fundamentadora: a existência de tipos penais incriminadores fundamenta o direito de punir do Estadoquando o indivíduo viola a lei penal. Seletiva: cabe ao tipo penal à tarefa de selecionar as condutasque deverão serproibidas (crimes comissivos) ou ordenadas (crimes omissivos) pela lei penal. 7 Vide questão 4 do material 39 Indiciária da ilicitude: A realização do tipo legal pelo agente faz nascer à presunção relativada ilicitude. Função diferenciadora do erro: eventual ignorância acerca de alguma elementar do tipo penal configura erro de tipo, afastando o dolo. Assim, autor de um fato típico somente poderá ser responsabilizado pela práticade um crime doloso quando conhecer todas as circunstâncias de fato que o compõem. 2.3.4 Estrutura do tipo penal O tipo legal é composto por um núcleo e elementos. Nas figuras qualificadas e privilegiadas são acrescentadas circunstâncias. TIPO PENAL = Núcleo (verbo) + Elementos + Circunstâncias (somente para figuras qualificadas ou privilegiadas). O núcleo, representado pelo verbo. Ex: No furto, é “subtrair”. Toda infração penal contém um núcleo. Em torno do núcleo encontram-se os elementos, que trazem a descrição da conduta criminosa. Esses elementos podem ser de três espécies distintas: objetivos, subjetivos e normativos. Elementos objetivos ou descritivos: podem ser constatados por qualquer pessoa. Exprimem um juízo de certeza. Ex: “alguém” no homicídio e estupro. Elementos normativos: necessitam de um juízo de valor acerca da situação de fato. Podem ser: a) jurídicos- são também denominados elementos normativos impróprios – contém um conceito a ser extraído do próprio do Direito, Ex: documento; e b) culturais, morais ou extrajurídicos - envolvem conceitos próprios de outras disciplinas do conhecimento. Elementos subjetivos: são os que dizem respeito animo do agente, isto é, à sua especial finalidade de agir e às demais tendências e intenções. 2.3.5 Classificação doutrinária do tipo penal Tipo normal e tipo anormal: o tipo normal prevê,além do núcleo, elementos de ordem objetiva. Já o tipo anormal, possui núcleo, elementos objetivos e, ainda, elementos subjetivos e/ou normativos. 40 Tipo fechado e tipo aberto: o tipo fechado ou cerradoapresenta descrição minuciosa da conduta criminosa. O tipo aberto não contém descrição detalhada da conduta criminosa, cabe ao Poder Judiciário fazer sua valoração no caso concreto, mediante um juízo de valor, a exemplo dos crimes culposos em geral. Tipo simples e tipo misto: O tipo simples possui apenas um núcleo, uma única conduta típica, Ex: roubo, em que existe apenas o núcleo “subtrair”. O tipo misto possui dois ou mais núcleos, e divide-se em: a) Tipo misto alternativo(crime de ação múltipla ou crime de conteúdo variado) - dois ou mais núcleos contra o mesmo objeto material estará caracterizado um único crime; b) Tipo misto cumulativo: prática de mais de uma conduta leva ao concurso material. Tipo congruente e tipo incongruente: No tipo congruente há perfeita coincidência entre a vontade do agente e o resultado produzido. Ex.: crimes dolosos consumados. Já no tipo incongruente, não há coincidência entre a vontade do autor e o fato descrito na lei penal, ou seja, a conduta do agente provoca algo diverso do que era por ele desejado, Ex: tentativa, nos crimes culposos e nos crimes preterdolosos. Tipo preventivo: é inerente aos crimes-obstáculo. Há a incriminação de forma autônoma o que seria um ato preparatório de outro crime. 2.4 Dolo. Para o finalismo penal o dolo integra a conduta, e, consequentemente, o fato típico. É elemento psicológico do tipo penal e inerente a todo crime doloso. Para o sistema Clássico e Neoclássico, o dolo é normativo e funciona como elemento da culpabilidade. 2.4.1 Teorias do dolo Existem três teorias acerca do dolo:representação, vontade, consentimento. Teoria da Representação: a configuração do dolo exige apenas a previsão do resultado. Dessa forma, basta que o agente tenha previsto o resultado como possível.Pouco importa se o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo, pois há o privilegio do lado intelectual e não do aspecto volitivo. Tal teoria deve ser afastada, por confundir o dolo com a culpaconsciente. 41 Teoria da Vontade: agente precisa querer produzir o resultado, não basta prevê- lo. É adota pelo Código Penal para o dolo direito. Teoria do Consentimento/Assentimento/Anuência: há dolo não somente quando o agente quer o resultado, mas também quando realiza a conduta assumindo o risco de produzi-lo.Adotada para o dolo eventual. Art. 18 Diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis o resultado (teoria da vontade – dolo direto) ou assumiu o risco de produzi-lo (teoria do consentimento ou assentimento – dolo eventual); Por fim, o dispositivo legal revela que foram duas as teorias adotadas pelo Código Penal: a da vontade, ao dizer “quis o resultado”, e a do assentimento, no tocante à expressão “assumiu o risco de produzi-lo”. 2.4.2 Elementos do dolo Consciência: é o elemento cognitivo ou intelectual. Corresponde à consciência da conduta, do resultado e do nexo causal entre eles. Vontade: é o elemento volitivo, ou seja, a vontade de realizar a conduta e produzir o resultado. O dolo não se confunde com desejo. No dolo o agente quer o resultado delitivo como consequência de sua própria conduta. No desejo, espera o resultado delitivo como consequência de conduta alheia (ou evento alheio). Punir alguém por simples desejo é direito penal do autor. 42 2.4.3 Espécies de dolo ESPÉCIES DE DOLO Dolo natural/incolor/avalorado É o dolo do finalismo, independe da consciência da ilicitude. Basta à consciência e a vontade de realizar o tipo penal, pouco importa se o agente sabe ou não que aquilo é contrário ao direito.Dolo alocado no Fato Típico. Dolo normativo/valorado Depende da consciência atual/real da ilicitude. O agente sabe que seu comportamento é contrário ao direito. É o dolo do sistema clássico e do sistema neoclássico.Dolo alocado na Culpabilidade. Dolo direito/determinado A vontade do agente dirige-se a um único resultado. Ele dirige sua conduta a uma finalidade precisa. Teoria da Vontade Dolo indireto/indeterminado O agente não tem a vontade dirigida a um resultado determinado. Subdivide-se: a. Dolo alternativo: É aquele em que o agente quer produzir, com igual intensidade, um OU outro resultado, qualquer um deles serve. b. Dolo eventual: agente não quer o resultado, por ele previsto, mas assume o risco de produzi-lo. A teoria positiva do conhecimento é útil como critério prático para identificar o dolo eventual. há dolo eventual quando o agente diz a si mesmo: “seja assim ou de outra maneira, suceda isto ou aquilo, em qualquer caso agirei”, revelando a sua indiferença em relação resultado OBS:A embriaguez ao volante que resulta em 43 morte da vítima é considerada um homicídio doloso (dolo eventual) ou culposo (culpa consciente)? Atualmente, dependerá da análise do caso concreto, podendo ser dolo eventual ou culpa consciente. Dolo de propósito/refletido Resulta da reflexão do agente. Verifica-se nos crimes premeditados. Dolo de ímpeto/repentino Quando o autor pratica o crime motivado por paixão violenta ou excessiva perturbação de ânimo. É comum nos crimes passionais. Dolo genérico Quando a vontade do agente se limitava à prática da conduta típica, sem nenhuma finalidade específica. Dolo específico O agente tem vontade de realizar a conduta típica, mas com finalidade específica. Não é incompatível com os crimes formais, a exemplo peculato eletrônico. 8 Dolo presumido Conhecido como dolo in re ipsa, dispensa comprovação no caso concreto. Não é admitido no direito penal, por caracterizar hipótese de responsabilidade penal objetiva. Dolo de primeiro grau É o dolo direto, o agente busca produzir um único resultado, certo e determinado. Dolo de segundo grau Também chamado de dolo de consequências necessárias, criação de Claus Roxin. A utilização dos meios para alcançar o resultado desejado, inclui, obrigatoriamente, efeitos colaterais de 8 Vide questão 5 do material 44 verificação praticamente certa. Dolo geral Refere-se ao meio de execução do crime. Ocorre quando o sujeito, acreditando já ter alcançado o resultado almejado, pratica uma nova conduta com finalidade diversa, e ao final, se constata que foi esta última que produziu o que se buscava desde o início.É o erro quanto ao meio de execução do crime. 2.5 Culpa Alerta – Culpa - cai mais que o dolo. Muita atenção para os crimes que não admitem a modalidade culposa estude também suas espécies. Dando enfoque maior aos elementos do crime culposo, pois eles despencam em prova. 2.5.1 Introdução A culpa é o elemento normativo da conduta, pois a sua aferição dependeum juízo de valor do operador do direito. Os crimes culposos, em regra, são previstos por tipos penais abertos, os quais não descrevem de forma minuciosa a conduta criminosa, designando tal função ao magistrado na apreciação da lide posta à sua análise. A regra é o crime ser doloso. O crime culposo é expressamente previsto pela lei. Art. 18, CP: Diz-se o crime: II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia. Entretanto, há no Código Penal um crime culposo previsto em tipo penal fechado (art. 180, §3º do CP), receptação culposa. 45 2.5.2 Conceito Segundo Masson, crime culposo é aquele que se verifica quando o agente, deixando de observar o dever objetivo de cuidado, por imprudência, negligência ou imperícia, realiza uma conduta voluntária que produz um resultado naturalístico não previsto nem querido, mas objetivamente previsível, e excepcionalmente previsto e querido, o qual podia, com a devida atenção, ter evitado.9 2.5.3 Elementos do crime culposo O crime culposo possui, em regra, os seguintes elementos: Conduta voluntária, mas o resultado será involuntário. Resultado naturalístico involuntário:não há crime culposo sem resultado naturalístico. Por isso, não se admite tentativa em crime culposo. Destaca-se que a culpa imprópria admite tentativa. Nexo causal Tipicidade Previsibilidade objetiva:é a possibilidade de uma pessoa comum prever o resultado naturalístico. Ausência de previsão: O resultado que era previsível ao homem médio, no caso concreto, não foi previsto pelo agente. Violação do dever objetivo de cuidado: A violação ocorre por negligência, imprudência e imperícia. Imprudência: conduta positiva. Fazer o que não deveria. Negligência: conduta negativa. Descuido. Deixar de fazer. Imperícia: É também chamada de culpa profissional, pois somente pode ser praticada no exercício de arte, profissão ou ofício. É a falta de habilidade, pois embora o agente esteja autorizado a função, não possui conhecimentos práticos ou teóricos para fazê-la. 9 Vide questão 9 do material 46 ATENÇÃO: Imperícia (culpa profissional) não se confunde com erro profissional. Naquela a culpa é do agente, responderá por crime culposo na modalidade imperícia. Já no erro profissional a culpa não é do agente, mas sim da ciência que não está pronta para enfrentar, com eficácia, determinados problemas, acaba sendo uma causa de exclusão da culpa. 2.5.4 Espécies de culpa ESPÉCIES DE CULPA Culpa inconsciente/sem previsão/ex ignorantia É aquela em que o agente não prevê o resultado objetivamente previsível. Culpa consciente/com previsão/ex lascivia Possui a previsão e previsibilidade, mas confia que o resultado não vai acontecer. Culpa própria Verifica-se quando o agente não quer o resultado nem assume o risco de produzi-lo. É, por assim dizer, a culpa propriamente dita. Culpa imprópria/culpa por extensão, por equiparação ou por assimilação É aquela em que o sujeito, após prever o resultado, e desejar sua produção, realiza a conduta por erro inescusável quanto à ilicitude do fato. Trata-se, em verdade, de dolo, mas o legislador, por questões de política criminal, decidiu punir como se fosse culpa. Tem natureza jurídica de descriminante putativa. Art. 20, § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo. Diante do caráter misto ou híbrido da culpa imprópria (dolo tratado como culpa), revela- se como a única modalidade de crime culposo que comporta a tentativa. 47 Culpa mediata/indireta Quando o resultado é indiretamente produzido a título de culpa. Culpa presumida Não é aceita no Direito Penal moderno, tendo em vista que se trata de responsabilidade penal objetiva. 2.5.5 Graus de culpa Atualmente, não existem graus de culpa. A culpa existe ou não. 2.5.6 Compensação de culpas Não se admite a compensação de culpas no Direito Penal. 2.5.7 Concorrência de culpas É o que se verifica quando duas ou mais pessoas concorrem, contribuem, culposamente, para a produção de um resultado naturalístico. Entretanto, a concorrência de culpas não acarreta em concurso de pessoas, uma vez que não possuem vinculo subjetivo. 2.5.8 Exclusão da culpa Exclui-se a culpa nos seguintes casos: Caso fortuito e força maior: acontecimentos imprevisíveis/inevitáveis. Erro profissional: a culpa pelo resultado naturalístico não é do agente, mas da ciência. Risco tolerado: há situações que são perigosas, mas que são indispensáveis para a evolução do ser humano e da sociedade. Por exemplo, teste em um novo avião. Princípio da confiança: aquele que age dentro da normalidade das relações sociais, diga-se, dentro dos limites do risco permitido, tem o direito de esperar que os demais assim atuem (confiança permitida), impossibilitando que seja a ele 48 imputada a previsibilidade de um comportamento imprudente, contrário ao dever de cautela praticado por outrem. 2.6 Preterdolo 2.6.1 Conceito Preterdolo advém do latim praeter dolum, ou seja, além do dolo. Verifica-se quando a conduta dolosa acarreta a produção de um resultado mais grave do que o desejado pelo agente. A finalidade do autor era praticar um crime doloso, mas, por culpa, sobreveio resultado mais gravoso. Há, no Código Penal, uma série de exemplos de crimes preterdolosos. Contudo, apenas no crime de lesão corporal seguida de morte (art. 129, §3º) o Código declara expressamente o caráter preterdoloso. Art. 129, § 3° Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo: 2.6.2 Versari in re illicita Trouxeo brocardo: Qui in re illicita versatur tenetur etiam pro casu, isto é, quem se envolve com coisa ilícita é responsável também pelo resultado fortuito. Ou seja, aquele que realizar um ato ilícito penal responde por todas as consequências derivadas deste fato, ainda que em sua inicial atuação não houvesse nenhum nexo subjetivo. 10 Não se admite a figura da versari in re illicita, instituto originário do direito canônico e que serviu como ponto de transição entre a responsabilidade penal objetiva e a responsabilidade penal subjetiva. Ora, a culpa que agrava especialmente o resultado deve ser provada.Não se presume, seja de forma absoluta (iuris et de iure), seja de forma relativa (iuris tantum), cabendo o ônus da prova a quem alega sua ocorrência. 10 Vide a questão 1 do material 49 2.6.3 Crimes qualificados pelo resultado: conceito São crimes que possuem uma conduta inicial básica, que constitui um crime autônomo, acompanhada de um resultado que o qualifica, majorando-lhe a pena por força de sua gravidade. O crime preterdoloso é qualificado pelo resultado. Mas nem todo crime qualificado pelo resultado é preterdoloso. 2.6.4 Crimes qualificados pelo resultado: espécies Dolo na conduta antecedente e dolo no resultado agravador: é o crime duplamente doloso. É o caso do latrocínio (art. 157, §3º, II), espécie de roubo qualificado pela morte, quando o agente mata a vítima por livre deliberação. Culpa na conduta antecedente e culpa no resultado agravador(culpa no antecedente e culpa no consequente):É chamado de crime duplamente culposo. A conduta básica e o resultado mais gravoso são legalmente previstos na forma culposa. Como exemplo, tem-se o art. 258 do CP, incêndio culposo qualificado por uma morte culposa. Culpa na conduta antecedente e dolo no resultado agravador(culpa no antecedente e dolo no consequente):é o caso do art. 303 do CTB, em que há uma lesão culposa. Caso deixe de socorrer a vítima, haverá o dolo agravando o resultado. 50 QUADRO SINÓPTO TEORIA GERAL DO CRIME Conceito de crime Considera-se crime a infração penal que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente. O Brasil é adepto do sistema dualista, dividindo a infração penal em crime e contravenção (crime anão, delito liliputiano, crime vagabundo). Sistemas penais SISTEMA CLÁSSICO: Ven Liszt, Beling e Radbruch. O dolo e a culpa estão na culpabilidade. SISTEMA NEOCLÁSSICO (NEOKANTISTA): Reinhart Frank. Desenvolveu a Teoria da Normalidade das Circunstâncias Concomitantes (Teoria da Evitabilidade). SISTEMA FINALISTA: Hans Welzel. Em relação à culpabilidade, adotou a Teoria Normativa Pura, pois os elementos psicológicos (dolo e culpa) foram deslocados para a conduta. Sujeitos do crime Sujeito ativo é a pessoa que realiza direta ou indiretamente a conduta criminosa. Sujeito passivo do crime é o titular do bem jurídico protegido pela lei penal 51 violada por meio da conduta criminosa. Objeto do crime Objeto jurídico: o interesse ou valor protegido pela norma penal. Objeto material: a pessoa ou a coisa que suporta a conduta criminosa. CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES Quanto à qualidade do sujeito ativo Crimes comuns ou gerais: Podem ser praticados por qualquer pessoa. O tipo penal não exige nenhuma condição especial. Crimes próprios:O tipo penal exige uma situação fática ou jurídica diferenciada por parte do sujeito ativo. Crimes de mão própria: Somente podem ser praticados pela pessoa expressamente indicada no tipo penal. É o caso do falso testemunho. Quanto à estrutura da conduta delineada pelo tipo penal Crime simples: É aquele que se amolda em um único tipo penal. Crime complexo: Resulta da união de dois ou mais tipos penais. Quanto ao resultado naturalístico ou material Crimes materiais: O tipo penal descreve uma conduta e um resultado naturalístico, sendo a ocorrência deste último necessária para a consumação. Crimes formais: o resultado é desnecessário para consumação, embora previsto. Crimes de mera conduta: não contém resultado naturalístico. Quanto ao momento consumativo Crimes instantâneos: A consumação se verifica em um momento determinado, sem continuidade no tempo. Crimes permanentes: São aqueles cuja consumação se prolonga no tempo, por vontade do agente. 52 Crimes instantâneos de efeitos permanentes: Seus efeitos subsistem após a consumação, independentemente da vontade do agente. Crimes a prazo: São aqueles cuja consumação exige a fluência de determinado período. Quanto à pluralidade de sujeitos Crimes unissubjetivos: São praticados por um único agente. Crimes plurissubjetivos: reclama a pluralidade de agentes. Crimes eventualmente coletivos: a diversidade de agentes atua como causa de majoração da pena. Quanto ao número de vítimas Crimes de subjetividade passiva única: uma única vítima. Crimes de dupla subjetividade passiva: existência de duas ou mais vítimas. Quanto ao resultado jurídico ou normativo Crimes de dano ou lesão: A consumação somente se produz com a efetiva lesão do bem jurídico. Crimes de perigo: Se consumam com a mera exposição do bem jurídico penalmente tutelado a uma situação de perigo. Quanto ao número de atos executórios Crimes unissubsistentes: A conduta se revela mediante um único ato de execução, capaz de por si só produzir a consumação. Crimes plurissubsistentes: A conduta se exterioriza por meio de dois ou mais atos, os quais devem somar-se para produzir a consumação. Quanto à conduta Crimes comissivos ou de ação: são os praticados mediante uma conduta positiva Crimes omissivos: são os cometidos 53 por meio de uma conduta negativa, de um não fazer. Crimes de conduta mista: É aquele em que o tipo penal é composto de duas fases distintas, uma inicial e positiva, outra final e omissiva. Quanto ao modo de execução Crimes de forma livre: Admitem qualquer meio de execução. Crimes de forma vinculada: podem ser executados pelos meios indicados no tipo penal. Quanto à necessidade ou não da elaboração de exame de corpo de delito Crimes transeuntes: não deixam vestígios materiais. Crimes não transeuntes: São aqueles que deixam vestígios materiais. A falta de exame de corpo de delito leva à nulidade da ação penal, salvo quando impossível a sua realização. Quanto ao local em que se produz o resultado Crimes à distância: A conduta e resultado ocorrem em países diversos. Crimes plurilocais: A conduta e resultado ocorrem em países diversos. Crimes em trânsito: São aqueles em que somente uma parte da conduta ocorre em um país, sem lesionar ou expor a situação de perigo bens jurídicos de pessoas que nele vivem. Outras classificações Crime gratuito: é o crime sem motivação. Não se confunde com o motivo fútil. Crime de ímpeto: É o cometido sem premeditação, como decorrência de reação emocional repentina. Crime exaurido: É aquele em que o agente, depois de já alcançada a consumação, insiste na agressão ao bem jurídico. Crime de atentado ou de 54 empreendimento: É aquele em que a lei pune de forma idêntica o crime consumado e a forma tentada. Crime de opinião ou de palavra: É o cometido pelo excesso abusivo na manifestação do pensamento. Crime multitudinário: É aquele praticado pela multidão em tumulto. Crime vago: É aquele em que figura como sujeito passivo uma entidade destituída de personalidade jurídica. Crime habitual: Crimehabitual próprio é o que somente se consuma com a prática reiterada e uniforme de vários atos que revelam um criminoso estilo de vida do agente. Crime habitual impróprio é aquele em que uma só ação tem relevância para configurar o tipo, ainda que a sua reiteração não configure pluralidade de crimes. Crime obstáculo: É aquele que retrata atos preparatórios. Crime progressivo: É aquele que para ser cometido deve o agente violar obrigatoriamente outra lei penal, a qual tipifica crime menos grave, chamado de crime de ação de passagem. Progressão criminosa: Há mutação no dolo do agente, que inicialmente realiza um crime menos grave e, após, quando já alcançada a consumação, decide praticar outro delito de maior gravidade. FATO TÍPICO Conceito No aspecto material, fato típico é o fato humano indesejado, norteado pelo princípio da intervenção mínima 55 (subsidiariedade e fragmentariedade), consistente em uma conduta produtora de um resultado e que se ajusta formal e materialmente ao tipo penal. No aspecto analítico, fato típico é primeiro substrato do crime. Elementos Conduta: é a ação ou omissão humana (e da pessoa jurídica nos crimes ambientais) consciente e voluntária (o agente sabe o que está fazendo) que produz modificação no mundo exterior. Resultado naturalístico: É o segundo elemento do fato típico. Resultado é o efeito, a consequência da conduta do agente. Relação de causalidade (nexo causal): É o terceiro elemento do fato típico. É o vínculo formado entre a conduta praticada por seu autor e o resultado por ele produzido. Tipicidade: É a adequação de um ato praticado pelo agente com as características que o enquadram à norma descrita na lei penal como crime. TEORIA DO TIPO Conceito Tipo penal é o modelo genérico e abstrato, formulado pela lei, descritivo da conduta criminosa ou da conduta permitida. Espécies Tipos incriminadores ou legais: são os tipos penais que definem a conduta criminosa Tipos permissivos ou justificadores: são os tipos penais que contêm a descrição legal da conduta permitida, autorizando a prática de um fato típico. 56 Funções do tipo legal (incriminador) Garantia. Fundamentadora. Seletiva. Indiciária da ilicitude. Diferenciadora do erro. Estrutura do tipo penal TIPO PENAL = Núcleo (verbo) + Elementos + Circunstâncias (somente para figuras qualificadas ou privilegiadas). Classificação doutrinária do tipo penal Tipo normal e tipo anormal: o tipo normal prevê, além do núcleo, elementos de ordem objetiva. Já o tipo anormal, possui núcleo, elementos objetivos e, ainda, elementos subjetivos e/ou normativos. Tipo fechado e tipo aberto: o tipo fechado ou cerrado apresenta descrição minuciosa da conduta criminosa. O tipo aberto não contém descrição detalhada da conduta criminosa. Tipo simples e tipo misto: O tipo simples possui apenas um núcleo, uma única conduta típica. O tipo simples possui apenas um núcleo, uma única conduta típica. Tipo congruente e tipo incongruente: No tipo congruente há perfeita coincidência entre a vontade do agente e o resultado produzido. No tipo incongruente, não há coincidência entre a vontade do autor e o fato descrito na lei penal. Tipo preventivo: Há a incriminação de forma autônoma o que seria um ato preparatório de outro crime. 57 DOLO. CULPA. PRETERDOLO. Dolo Para o finalismo penal o dolo integra a conduta, e, consequentemente, o fato típico. É elemento psicológico do tipo penal e inerente a todo crime doloso. Foram duas as teorias adotadas pelo Código Penal: a da vontade, ao dizer “quis o resultado”, e a do assentimento, no tocante à expressão “assumiu o risco de produzi-lo”. Culpa A culpa é o elemento normativo da conduta, pois a sua aferição depende um juízo de valor do operador do direito. Os crimes culposos, em regra, são previstos por tipos penais abertos. Crime culposo é aquele que se verifica quando o agente, deixando de observar o dever objetivo de cuidado, por imprudência, negligência ou imperícia, realiza uma conduta voluntária que produz um resultado naturalístico não previsto nem querido, mas objetivamente previsível, e excepcionalmente previsto e querido, o qual podia, com a devida atenção, ter evitado. Não se admite a compensação de culpas no Direito Penal. Preterdolo Verifica-se quando a conduta dolosa acarreta a produção de um resultado mais grave do que o desejado pelo agente. Versari in re illicita: aquele que realizar um ato ilícito penal responde por todas as consequências derivadas deste fato, ainda que em sua inicial atuação não houvesse nenhum nexo subjetivo. 58 LEGISLAÇÃO COMPILADA Conceito de crime Art. 1.º, CP Relação de causalidade Art. 13, CP. Superveniência de causa independente Art. 13, §1º, CP. Relevância da omissão Art. 13, §2º, a, b e c, CP. Dolo e Culpa Art. 18 59 JURISPRUDÊNCIA Teoria da dupla imputação STJ. 6ª Turma. RMS 39173-BA, STJ. 6ª Turma. RMS 39173-BA. STF. 1ª Turma. RE 548181/PR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 6/8/2013 (Info 714). É possível a responsabilização penal da pessoa jurídica por delitos ambientais independentemente da responsabilização concomitante da pessoa física que agia em seu nome. A jurisprudência não mais adota a chamada teoria da "dupla imputação". STJ. 6ª Turma. RMS 39173-BA, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 6/8/2015 (Info 566). STF. 1ª Turma. RE 548181/PR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 6/8/2013 (Info 714). STF. 1ª Turma. HC 124687/MS, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgado em 29/5/2018 (Info 904). Verifica-se a existência de dolo eventual no ato de dirigir veículo automotor sob a influência de álcool, além de fazê-lo na contramão. Esse é, portanto, um caso específico que evidencia a diferença entre a culpa consciente e o dolo eventual. O condutor assumiu o risco ou, no mínimo, não se preocupou com o risco de, eventualmente, causar lesões ou mesmo a morte de outrem. STJ. 6ª Turma. REsp 1689173-SC, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 21/11/2017 (Info 623). A embriaguez do agente condutor do automóvel, por si só, não pode servir de premissa bastante para a afirmação do dolo eventual em acidente de trânsito com resultado morte. A embriaguez do agente condutor do automóvel, sem o acréscimo de outras peculiaridades, não pode servir como presunção de que houve dolo eventual. 60 QUESTÕES COMENTADAS Questão 1 (Banca: FCC - 2018 - DPE-AP - Defensor Público) O chamado versari in re illicita implica que: A) aquele que realizar um ato ilícito penal responde por todas as consequências derivadas deste fato, ainda que em sua inicial atuação não houvesse nenhum nexo subjetivo. B) o fato (o que compreende o acontecimento principal e todas as consequências que se derivem posteriormente) deve pertencer ao sujeito. C) a pena não pode transcender da pessoa do delinquente. D) a determinação da pena e das medidas de segurança deve se guiar por critérios de proporcionalidade ao delito cometido. E) deve-se aplicar sanção penal a produtores de artigos de consumo perigosos que afetam a vida e a saúde das pessoas. Comentário: Pelo VERSARI IN RE ILLICITA aquele que, fazendo algo não permitido no ordenamento jurídico, cause um resultado antijurídico, deve ser responsabilizado por todas as consequências decorrentes. Exemplo: O agente que rouba uma loja deveria ser responsabilizado pela morte do dono do estabelecimento que teve um infarto ao saber do ocorrido. Esse princípio viola frontalmente o princípio do nullum crimen sine culpa,pois há forte tendência de ser o poder punitivo exercido sobre pessoas previamente escolhidas em face de suas fraquezas, a exemplo dos moradores de rua, prostitutas e usuários de drogas. Esse fenômeno guarda relação com o movimento criminológico Labeling approach(teoria da reação social, da rotulação social ou do etiquetamento social), ou seja, aqueles que integram a população criminosa são estigmatizados, rotulados e etiquetados. 1.6 Ciência do direito penal O crime/contravenção penal, o criminoso, a sanção penal (pena e medida de segurança) e a vítima (colocada pelo professor) são objeto de estudo de várias ciências, também denominadas, nas palavras de José Cereze Mir, “enciclopédia de ciência penais”. Assim, ao lado do Direito Penal e da Ciência do Direito Penal, encontra-se o gênero “ciências penais”, integrado pelo grupo da Dogmática Penal - Conjunto de normas limitadoras do poder punitivo, voltadas a disciplinar determinados comportamentos; Criminologia - Ciência empírica e interdisciplinar, voltada para o estudo crítico do delito enquanto fenômeno social; e a Política Criminal - conjunto de estratégias, programas e alternativas adotado pelos poderes públicos no tocante ao controle do crime. 1.6.1 Dogmática penal A dogmática penal tem a função de conhecer o sentido das normas e princípios jurídico- penais positivos e desenvolver de modo sistemático o conteúdo do Direito Penal. É a interpretação, sistematizaçãoe aplicação lógico-racional do Direito Penal. Não se confunde com dogmatismo, quer dizer, aceitação cega e sem críticas de uma verdade absoluta e imutável. 9 1.6.2 Política criminal Nas lições de Rogério Sanches, a Política Criminal, por sua vez, a finalidade de trabalhar as estratégias e meios de controle social da criminalidade (caráter teleológico). É característica da Política Criminal a posição de vanguarda em relação ao direito vigente, vez que, enquanto ciência de fins e meios, sugere e orienta reformas à legislação positivada. É a ciência independente, que tem por objeto a apresentação de críticas e propostas para a reforma do Direito Penal em vigor. Segundo Cleber Masson, a melhor palavra para designar política criminal é “filtro”. Filtro entre a letra fria da lei e a realidade social, aos interesses da coletividade. Em outras palavras, a política criminal permite adaptar uma lei feita no século passado aos dias atuais. 1.6.3 Criminologia É uma ciência empírica e interdisciplinarque se ocupa do estudo do crime, da pessoa do infrator, da vítima e do controle social do comportamento delitivo. Ocupa-se das circunstâncias humanas e sociais relacionadas com a prática e maneira de evitar o crime. Preocupa-se com os aspectos sintomáticos, individuais e sociais do crime e da criminalidade. DIREITO PENAL CRIMINOLOGIA POLÍTICA CRIMINAL Finalidade Analisando os fatos indesejados, define quais devem ser rotulados como infrações penais, anunciando as respectivas sanções. Ciência empírica que estuda o crime, a pessoa do criminoso, da vítima e o comportamento da sociedade. Trabalha as estratégias e meios de controle social da criminalidade. Objeto O crime enquanto norma. O crime enquanto fato. O crime enquanto valor. 10 Exemplo O direito penal define o crime de homicídio. A criminologia estuda o fenômeno do homicídio, o agente homicida, a vítima e o comportamento da sociedade. A política criminal estuda as formas de diminuir homicídio. 1.7 Funções do direito penal É tema de grande importância. Aqui, abordaremos as divisões e definições de maior incidência nas provas de concurso. 1.7.1 Direito Penal como proteção de bens jurídicos É a função mais importante do Direito Penal. Apenas os interesses mais relevantes são erigidos à categoria de bens jurídicos penais, em face do caráter fragmentário e da subsidiariedade do Direito Penal. Portanto, o Direito penal não se presta a tutelar todo e qualquer bem jurídico. O legislador penal realiza uma tarefa seletiva, ou seja, faz um juízo de valor positivoao criar um crime ou cominar uma pena. 1.7.2 Direito Penal como instrumento de controle social É o dever de preservar a paz pública, compreendida como a ordem que deve existir em determinada coletividade. O direito penal dirige-se a todas as pessoas, mas apenas uma minoria pratica infração penal. 1.7.3 Direito Penal como garantia Franz Von Liszt dispõe que o Código Penal é a magna carta do delinquente. Assim, antes mesmo de punir, o Código Penal serve para proteger contra o arbítrio do Estado, seria um escudodos cidadãos. 11 1.7.4 Função ético-social do Direito Penal Ficou conhecida como função criadora ou configuradora dos costumes. Busca-se o efeito moralizador, visando assegurar um “mínimo ético” que deve reinar em toda a comunidade. Os crimes ambientais são exemplos da função ético-social do Direito Penal. 1.7.5 Função simbólica do Direito Penal Essa função tem grande incidência em concursos públicos. Muita atenção nesse tópico. Inerente a todas as leis, não dizendo respeito somente às de cunho penal. Não produz efeitos externos, mas efeitos internos. Somente na mente dos governantes, trazendo a sensação de terem feito algo para proteção da paz pública, e dos cidadãos. Proporciona a falsa impressãode que o problema da criminalidade se encontra sob o controle das autoridades, buscando transmitir à opinião pública a impressão tranquilizadora de um legislador atento e decidido. Refere-se às leis penais desprovidas de efetividade no tocante aos bens jurídicos, editadas tão somente para transmitir àopinião pública a aparência que o legislador é atuante. Está ligada no direito penal do terror, que se verifica com a inflação legislativa (Direito penal de emergência), criando figuras penais desnecessárias, ou com aumento desproporcional de penas (hipertrofia do Direito Penal). Essa função deve ser afastada, pois cumpre funções educativas e promocionais dos programas de governo, tarefa que não pode ser atribuída ao Direito Penal. 1.7.6Direito Penal de Emergência É aquele criado em razão da ocorrência de algum acontecimento de maior repercussão, para servir como resposta rápida a sociedade. São leis penais editadas às pressas. 1.7.7Direito Penal Promocional Consiste na utilização das leis penais para atingir finalidade política. Ofende o princípio da intervenção mínima. 12 1.7.8Direito Penal Subterrâneo É aquele realizado pelas agências estatais de persecução penal, porém atuando a margem da lei, de forma violenta e arbitrária. 1.7.9Direito Penal Paralelo Diz respeito ao poder punitivo exercido por agências que não tem oficialmente essa finalidade. 1.7.10 Categorias do Direito Penal A doutrina divide o Direito Penal em categorias, destacando-se: ● Direito Penal Fundamental (Primário) x Direito Penal Complementar (Secundário) O direito penal fundamental é composto pelas normas da Parte Geral do Código Penal, e excepcionalmente, por normas da Parte Especial. Abrange o conjunto de normas e princípios gerais do direito penal. Já o direito penal complementar é o conjunto de normas que integram o acerco da legislação penal extravagante, a exemplo da Lei nº 9.455/1997 (Crimes de Tortura), a Lei nº 9.613/1998 (Lei de Lavagem de Capitais). ● Direito Penal Comum x Direito Penal Especial O direito penal comum é aplicável a todas as pessoas, sem distinção. Direito Penal especial é aquele aplicável somente a determinadas pessoas, que devem preencher as condições exigidas em lei específica. Como exemplo, citam-se: Código Penal Militar: aplicável apenas aos militares e nos casos ali indicados; Decreto-Lei 201/97: aplicável apenas aos prefeitos. ● Direito Penal Substantivo (material) e Direito Penal Adjetivo (adjetivo) Direito Penal Substantivo corresponde ao direito material, é propriamenteartigo 18, § único do CP e o princípio da reserva legal previsto no artigo 5º,XXXIX da CF. Questão 2 61 (Banca: CESPE - 2019 - TCE-RO - Procurador do Ministério Público de Contas) De acordo com a teoria da imputação objetiva, A) a culpabilidade penal tradicional é reformulada por uma categoria mais ampla, denominada responsabilidade. B) a função da pena e do direito penal é a proteção da ordem estatal justa. C) um fato poderá ser considerado penalmente típico mesmo que não crie um risco juridicamente relevante. D) na verificação da criação de um risco juridicamente proibido, adota-se o princípio da confiança apenas para os crimes de trânsito não intencionais. E) o comportamento de vítima que se coloque em risco real ou potencial não interfere na análise da imputação objetiva. Comentário: A TEORIA DA IMPUTAÇÃO OBJETIVA tem por objetivo LIMITAR A RESPONSABILIDADE PENAL, pois a atribuição de um resultado a uma pessoa não deve se embasar apenas pela relação de causalidade (nexo físico), é necessário que, além disso haja outro nexo, o normativo, referente à realização de um risco proibido pela norma. Questão 3 (Banca: MPE-SC - 2019 - MPE-SC - Promotor de Justiça – Matutina) Os crimes omissivos próprios são os cujo tipo descreve a conduta omissiva de forma direta, e por isso não é necessária a incidência do art. 13, § 2º, do CP. ( ) Certo ( ) Errado 62 Comentário: Os crimes omissivos próprios são previstos em tipos penais específicos e dispensam a ocorrência de resultado para a sua consumação, não sendo necessário verificar a ocorrência do art. 13, § 2º, do CP. Já os crimes omissivos impróprios não possuiriam um tipo específico, sendo resultado da combinação de uma cláusula geral com um tipo penal de delito comissivo. Para sua incorrência é necessário verificar o DEVER GARANTE, por isso é necessário verificar o art. 13, § 2º, do CP. Questão 4 (Banca: MPE-GO - 2019 - MPE-GO - Promotor de Justiça Substituto) Marque a alternativa incorreta. A) São omissões próprias ou tipos de omissão própria aqueles em que o autor pode ser qualquer pessoa que se encontre na situação típica. Os tipos de omissão própria caracterizam- se por não ter um tipo ativo equivalente. Ex. artigo 135, do Código Penal - Omissão de socorro. B) Os tipos de omissão imprópria são aqueles em que o autor só pode ser quem se encontra dentro de um determinado círculo, que faz com que a situação típica seja equivalente à de um tipo ativo. Nessa situação, o autor está em posição de “garantidor”. C) Tipos penais justificadores são aqueles que descrevem situações em que o autor do delito aplica fraude verbal e argumentativa para seu cometimento, justificando a ação da vítima. Ex. estelionato praticado por telefone, como o conhecido golpe do “Bença Tia” D) A previsibilidade subjetiva, em que o agente, dadas as suas condições peculiares, tinha o dever de prever o resultado, não é elemento do fato típico culposo. A ausência de 63 previsibilidade subjetiva no crime culposo exclui a culpabilidade, mas não o fato típico culposo. Comentário: O tipo penal apresenta duas categorias: incriminadores e permissivos. Tipos incriminadores ou legais são os tipos penais propriamente ditos, consistentes na síntese legal da definição da conduta criminosa. Tipos permissivos ou justificadores são os que contêm a descrição legal da conduta permitida, isto é, as situações em que a lei considera lícito o cometimento de um fato típico. São as causas de exclusão da ilicitude, também denominadas eximentes ou justificativas” (Masson, Cleber. Direito Penal: parte geral (arts. 1º a 120) – vol. 1 / Cleber Masson. – 13. ed. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019). Questão 5 (Banca: MPE-SC - 2019 - MPE-SC - Promotor de Justiça) A especial finalidade da conduta (também denominada “dolo específico”) é um elemento subjetivo do tipo existente em alguns delitos materiais, mas não é compatível com os delitos formais. ( ) CERTO ( ) ERRADO Comentário: Segundo Rogério Sanchez, no dolo específico o agente tem vontade de realizar a conduta, visando um fim específico que é elementar do tipo penal. O autor cita como exemplo o crime de extorsão mediante sequestro. Outro exemplo que se pode citar é a hipótese do chamado peculato eletrônico (ART. 313-A, CP): 64 Art. 313-A. Inserir ou facilitar, o funcionário autorizado, a inserção de dados falsos, alterar ou excluir indevidamente dados corretos nos sistemas informatizados ou bancos de dados da Administração Pública com o fim de obter vantagem indevida para si ou para outrem ou para causar dano: De acordo com a doutrina de Sanchez, o delito é formal, pois se consuma com a prática de qualquer dos núcleos do tipo penal, independente da obtenção de vantagem indevida ou da ocorrência do dano pretendido. Logo, conclui-se que não incompatibilidade entre o dolo específico e os crimes formais. Questão 6 (Banca: CESPE - 2019 - DPE-DF - Defensor Público) Considerando o Código Penal brasileiro, julgue o item a seguir, com relação à aplicação da lei penal, à teoria de delito e ao tratamento conferido ao erro. A superveniência de causa relativamente independente da conduta do agente excluirá a imputação do resultado nos casos em que, por si só, ela tiver produzido o resultado. ( ) CERTO ( ) ERRADO Comentário: As causas supervenientes relativamente independentes são divididas em duas situações: I) Quando NÃO CAUSA, por si só, o resultado: o agente responde pelo resultado produzido. Não há rompimento do nexo de causalidade. 65 II) Quando causa, por si só, o resultado: há o rompimento do nexo de causalidade. Com efeito, o agente não será responsabilizado pelo resultado produzido, mas apenas pelos anteriores, visto que ele está fora do desdobramento da conduta. Previsão Legal: Artigo 13, parágrafo 1° do Código Penal § 1º – A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. Questão 7 (Banca: CESPE - 2019 - TJ-DFT - Titular de Serviços de Notas e de Registros – Remoção) Considerando a relação causal entre conduta e resultado típico, assinale a opção correta. A) A concausa preexistente absolutamente independente reforça o nexo entre a ação do agente e o resultado, não retirando a consumação do crime praticado pelo ofensor. B) A causa superveniente relativamente independente não exclui a imputação do fato ao agente, ainda que tenha produzido o resultado por si só. C) A teoria da imputação objetiva prevê que não haverá nexo de causalidade se o agente atuar dentro do risco permitido, mesmo que a sua conduta gere resultado previsto em lei como crime. D) A causa preexistente relativamente independente à conduta do agente não configura o nexo causal da ação do sujeito ativo e, por isso, exclui a imputação do resultado. E) A teoria naturalística, adotada em caso de omissão, dispõe que não há relevância causal entre a conduta omissiva do garantidor e o resultado material ocorrido quando ele poderia e deveria agir. 66 Comentário: a) Na concausa absolutamente independente a causa efetiva do resultado não se origina, direta ou indiretamente do comportamento concorrente. Por ser preexistente, ela antecede o comportamento concorrente e dá causa ao resultado. Dessa forma, ela NÃO reforça o nexo entre a ação do agente e o resultado. Ela é absolutamente independente. b) Art. 13 (...) § 1º - A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. c) Incorporada ao DP por Claus Roxin no ano de 1970 (funcionalismo penal), trabalha com a ideia dorisco proibido. Para haver relação de causalidade é necessário que o agente tenha criado um risco proibido ou aumentado um já existente. NÃO ENCONTRA PREVISÃO LEGAL, PORÉM O STJ JÁ ADOTOU ESSA TEORIA EM ALGUNS JULGADOS, POR SER MAIS FAVORÁVEL AO RÉU. d) Nas concausas relativamente independente, a causa efetiva do resultado se origina, ainda que indiretamente, do comportamento concorrente. As causas se conjugam para produzir o resultado final. Na preexistente, a causa efetiva do resultado é anterior a causa concorrente. Exemplo clássico do indivíduo hemofílico que recebe uma facada. O agente aqui responde pelo resultado, uma vez que eliminado seu comportamento o resultado não teria ocorrido. Portanto, nestes casos a causa preexistente relativamente independente configura sim o nexo causal da ação do sujeito e de forma contrária ao que dispõe a assertiva não exclui a imputação do resultado. e) Art. 13 §2° CP define os crimes omissivos impróprios, espúrios ou comissivos por omissão, em que a omissão do agente é penalmente relevante. 67 Questão 8 (Banca: VUNESP - 2019 - TJ-SP - Administrador Judiciário) A doutrina dominante define tipicidade como A) a adequação de um ato praticado pelo agente com as características que o enquadram à norma descrita na lei penal como crime. B) um juízo de valor negativo ou desvalor, indicando que a ação humana foi contrária às exigências do Direito. C) a voluntária omissão de diligência em calcular as consequências possíveis e previsíveis do próprio fato. D) um juízo de reprovação pessoal que recai sobre o autor do crime, que opta em praticar atos ou omissões de forma contrária ao Direito. Comentário: a) Além da necessidade da previsão normativa da conduta criminosa, também é necessário que a ação esteja adequada ao modelo descrito na lei. b) A antijuridicidade é o juízo de valor negativo, ou desvalor, que qualifica o fato como contrário ao Direito. c) a antijuridicidade é o juízo de valor negativo, ou desvalor, que qualifica o fato como contrário ao Direito. d) a antijuridicidade é o juízo de valor negativo, ou desvalor, que qualifica o fato como contrário ao Direito. e) O dolo é uma ação delitiva de maneira consciente e voluntária. 68 Questão 9 (Banca: INSTITUTO AOCP - 2019 - PC-ES - Escrivão de Polícia) Considera-se crime culposo quando A) o agente atinge o resultado delitivo requerido. B) o agente impede que resultado delitivo se conclua. C) o agente não quer o resultado delitivo, mas assume o risco de se realizar. D) o agente pratica a conduta por imperícia, imprudência ou negligência. E) o delito se agrava por resultado diverso do pretendido. Comentário: O crime culposo é resultante da inobservância do cuidado necessário do agente, o qual não intenta nem assume o risco do resultado típico, porém a ele dá causa por imprudência, negligência e imperícia. Ou seja, é um agir descuidado que acaba por gerar um resultado ilícito não desejável, porém previsível. Ocorre crime culposo, por exemplo, quando o motorista, trafegando por via pública em alta velocidade, agindo com imprudência, atropela um pedestre que circulava pelo local. Questão 10 (Banca: NC-UFPR - 2019 - TJ-PR - Titular de Serviços de Notas e de Registros – Remoção)Relação de causalidade é o liame ou vínculo de causa e efeito entre atos passíveis de serem imputados ao suspeito de determinado delito e seu resultado material. É certo que nosso direito positivo adotou um posicionamento sobre o assunto. A teoria da relação causal adotada pelo Código Penal brasileiro é: A) causalidade adequada. B) relevância jurídica. 69 C) totalidade das condições. D) causa eficaz. E) equivalência das condições. Comentário: Acolheu-se, como regra, a teoria da equivalência dos antecedentes causais. é o que se extrai do art. 13, caput, in fine: "Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido". Causa, pois, é todo comportamento humano, comissivo ou omissivo, que de qualquer modo concorreu para a produção do resultado naturalístico. Pouco importa o grau de contribuição. Basta que tenha contribuído para o resultado material, na forma e quando ocorreu. OBS: Excepcionalmente, o CP adota, no §1º do art. 13, a Teoria da Causalidade Adequada. Vejamos: "A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou". Questão 11 Ano: 2019 Banca: MPE-GO Órgão: MPE-GO Prova: MPE-GO - 2019 - MPE-GO - Promotor de Justiça - Reaplicação A clássica frase a seguir inaugurou uma nova fase na dogmática jurídico-penal: " O caminho correto só pode ser deixar as decisões valorativas político-criminais introduzirem-se no sistema de direito penal" . Assinale a alternativa em que consta o autor da referida afirmação, bem como o sistema jurídico-penal a que se refere: 70 A) Edmund Mezger - neokantismo penal B)Claus Roxin - funcionalismo teleológico racional C)Günther Jakobs - funcionalismo sistêmico radical D) Hans Welzel - finalismo penal Comentário: GABARITO - B Funcionalismo de Roxin - Preocupa-se com os fins do direito penal, norteando-se por finalidades político-criminais, priorizando valores e princípios garantistas. Funcionalismo de Jakobs - Se satisfaz com os fins da pena, de modo que o Direito Penal deve se adequar às necessidades do sistema. Questão 12 Ano: 2018 Banca: FUNDATEC Órgão: PC-RS Prova: FUNDATEC - 2018 - PC-RS - Delegado de Polícia - Bloco II Em relação à teoria geral do crime, assinale a alternativa INCORRETA. A) A diferença entre autoria indireta intelectual e autoria indireta mediata é que naquela, há o planejamento pelo autor indireto e a execução do crime por um terceiro. Nesta, o autor se vale de um instrumento, alguém que esteja sob coação moral irresistível, por exemplo, para a prática do crime. Na autoria indireta mediata, não haverá concurso de pessoas. B) De acordo com o entendimento que prevalece, atualmente, na doutrina, há a possibilidade de reconhecimento de tentativa no dolo eventual, entretanto, esse mesmo entendimento, 71 majoritário doutrinariamente, não admite o reconhecimento da tentativa naqueles crimes identificados como crimes de ímpeto. C) O Código Penal adota a teoria da atividade, no que diz respeito ao tempo do crime. Já com relação ao lugar do crime, o Código Penal adota a teoria da ubiquidade, também chamada de teoria eclética. D) De acordo com a doutrina, prevalece o entendimento de que em um crime praticado em concurso de agentes, a aplicação da denominada “ponte de prata”, prevista no artigo 16 do Código Penal, quando reconhecida para um, estende-se aos seus comparsas. E) O que a doutrina denomina crime oco, nada mais é do que o crime impossível, também conhecido como quase crime, reconhecido pelo artigo 17 do Código Penal. Comentário: Certa - Letra A - O Código Penal possui cinco situações em que pode ocorrer a autoria mediata: a) inimputabilidade penal do executor por menoridade penal, embriaguez ou doença mental (CP, art. 62, III); b) coação moral irresistível (CP, art. 22); c) obediência hierárquica (CP, art. 22); d) erro de tipo escusável, provocado por terceiro (CP, art. 20, § 2.º); e e) erro de proibição escusável, provocado por terceiro (CP, art. 21, caput). E, além delas, outros casos podem ocorrer, tais como na coação física irresistível, no sonambulismo e na hipnose. Não é admitida para crimes culposos, mas apenas dolosos. 72 É admitida em crime próprio (desde que o autor mediato tenha as características exigidas pelo tipo), mas não é admitida em crimes de mão própria. Nada impede, todavia, a coautoria mediata e participação na autoria mediata. B – Errada - Crime de ímpeto, é aqueleem que a vontade delituosa é repentina, sem preceder deliberação. O ímpeto de seu gesto inviabilizaria a tentativa, até porque ficaria impossível discernir quanto ao seu elemento subjetivo. C – Certa – Também conhecida como teoria mista. D – Certa - PONTES DE PRATA são institutos penais que, após a consumação do crime, pretendem suavizar ou diminuir a responsabilidade penal do agente. É dessa natureza, por exemplo, o art. 16 do CP, que cuida do arrependimento posterior; o agente consuma o crime não violento e depois repara os danos ou restitui a coisa, antes do recebimento da ação penal. STF, REsp 1.187.976/SP. "A reparação do dano ou restituição da coisa tem natureza objetiva. Consequentemente, comunica-se aos demais coautores e partícipes do crime (Art. 30 CP)". E – Certa - o Crime Impossível é também denominado de “Crime Oco”, “Quase-Crime”, “Tentativa Inidônea”, ou, ainda, “Tentativa Inadequada”. 73 GABARITO Questão 1 - A Questão 2 - A Questão 3 - Correta Questão 4 -C Questão 5– Errado Questão 6 - Correta Questão 7 - C Questão 8 - A Questão 9 - D Questão 10– E Questão 11- B Questão 12– B 74 QUESTÃO DESAFIO Qual a relação entre o princípio da taxatividade e a função garantidora do tipo? E, por qual razão essa função é considerada "a outra face da moeda" da função fundamentadora do tipo? Máximo de 5 linhas 75 GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO Considerando que os casos de incriminação são taxativos, o tipo penal funciona como garantia do indivíduo. Assim, tendo em vista a fundamentação da função garantidora, o Estado está autorizado a exercer o direito de punir apenas quando tipo penal for violado (função fundamentadora). Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta: Função Garantidora do Tipo Além da função indiciária da ilicitude, já estudada em outra questão, o tipo dispõe de outras funções relevantes: função de garantia, função fundamentadora, função diferenciadora do erro e função seletiva. A função de garantia, decorrente da previsão constitucional do princípio da reserva legal, no qual somente a lei pode criar um tipo incriminador, consiste em uma garantia ao indivíduo (STF: Inq 1.145/STF) à medida que ao conhecer as condutas reputadas ilícitas pelo Direito Penal, o indivíduo ganha liberdade para praticar livremente todas as demais não incriminadas. A função fundamentadora, por sua vez, nas lições de Rogério Greco é a "outra Face da moeda" (GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal - Parte Geral. 10 ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2008, p.181) quando comparado a função de garantia pois a previsão de uma conduta criminosa por um tipo penal fundamenta o direito de punir do Estado quando o indivíduo viola a lei penal. Na função diferenciadora do erro, o dolo do agente deve alcançar os elementares do tipo legal, razão pela qual o autor de um fato típico somente pode ser responsabilizado pela prática de um crime doloso quando conhecer todas as circunstâncias de fato que o compõem, sob pena de incidência do erro de tipo. A função seletiva, por fim, determina que cabe ao tipo penal a tarefa de selecionar as condutas que deverão ser proibidas ou ordenadas pela lei penal. Princípio da taxatividade O princípio da taxatividade ou da reserva legal preceitua a exclusividade da lei para criação de delitos e cominação de penas em virtude da dimensão democrática conferida ao poder 76 legislativo. Está previsto no art. 5º, XXXIX, da CF/88 e, em âmbito infraconstitucional no artigo 1º do Código Penal. O fundamento jurídico é a taxatividade, certeza, ou ainda, a determinação precisa do conteúdo do tipo penal e a sanção a ser aplicada. Nesse sentido é o entendimento do STJ: "o princípio da reserva legal atua como expressiva limitação constitucional ao aplicador judicial da Lei, cuja competência jurisdicional, por tal razão, não se reveste de idoneidade suficiente para lhe permita a ordem jurídica ao ponto de conceder benefícios proibidos pela norma vigente, sob pena de incidir em domínio reservado ao âmbito de atuação do Poder Legislativo". (STJ: HC 92.010/ES). 77 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alves, Jamil Chaim. Manual de direito penal: parte geral e especial. Juspodivm,2020. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de direito penal: parte geral (arts. 1º ao 120). 3. ed. Salvador: JusPodivm, 2015. Estefam, André: Direito penal esquematizado: parte geral / André Estefam e Victor Eduardo Rios Gonçalves; coordenador Pedro Lenza. – 5. ed. – São Paulo: Saraiva, 2016. – (Coleção esquematizado). Masson, Cleber. Direito Penal: parte geral (arts. 1º a 120) – vol. 1 / Cleber Masson. – 13. ed. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019. DELEGADO DE POLÍCIA CIVIL Direito Penal Capítulo 3 1 SUMÁRIO DIREITO PENAL, Capítulo 3 ........................................................................................................................................... 2 3. ERRO DE TIPO. ITER CRIMINIS. ........................................................................................................................... 2 3.1 ERRO DE TIPO ........................................................................................................................................................ 2 3.1.1 Erro e ignorância: distinção e tratamento ............................................................................................................ 2 3.1.2 Conceito ................................................................................................................................................................ 3 3.1.3 Espécies ................................................................................................................................................................. 3 3.1.4 Efeitos ................................................................................................................................................................... 4 3.1.5 Erro de tipo e crime putativo por erro de tipo ..................................................................................................... 5 3.1.6 Descriminantes putativas ...................................................................................................................................... 5 3.1.7 Erro determinado por terceiro.............................................................................................................................. 7 3.1.8 Erro de tipo acidental ............................................................................................................................................ 8 3.2 Iter Criminis ......................................................................................................................................................... 13 3.2.1 Introdução ........................................................................................................................................................... 13 3.2.2 Fase interna do crime: Cogitação........................................................................................................................ 13 3.2.3 Fases externas do crime ...................................................................................................................................... 14 3.2.4 O exaurimento .................................................................................................................................................... 16 3.2.5 Tentativa ............................................................................................................................................................. 17 3.2.6 Desistência voluntária e arrependimento eficaz ................................................................................................22 3.2.7 Arrependimento posterior .................................................................................................................................. 27 3.2.8 Crime impossível ................................................................................................................................................. 30 QUADRO SINÓPTO ......................................................................................................................................................... 34 LEGISLAÇÃO COMPILADA............................................................................................................................................ 38 JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 40 QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 41 GABARITO ........................................................................................................................................................................... 54 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................................. 58 2 DIREITO PENAL Capítulo 3 3. ERRO DE TIPO. ITER CRIMINIS. 3.1 ERRO DE TIPO Atenção futuro Delta, quando se trata do assunto Erro tenha o máximo de cuidado, especialmente em relação às discriminantes putativa e as teorias extremada e limitada. Assunto sempre presentes nas provas. No passado, o Código Penal de 1040 em seu Art. 17, o erro de tipo era conhecido como erro de fato. Entretanto, esse dispositivo era pouco abrangente, referindo-se apenas aos elementos objetivos do tipo penal. Com a reforma da Parte Geral pela Lei 7.209/1984, o erro de fato foi substituído pelo erro de tipo, que, além dos elementos objetivos, engloba também os elementos subjetivos e normativos eventualmente descritos na conduta criminosa. Atualmente, está previsto no Art. 20 do Código Penal: Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei.1 3.1.1 Erro e ignorância: distinção e tratamento Erroé a falsa percepção da realidade ou o falso conhecimento de determinado objeto. Exemplo: O sujeito erra ao confundir um boi com um cavalo. Já a ignorânciaé o completo desconhecimento da realidade ou de algum objeto. 1 Vide questão 2 do material 3 O Código Penal trata de forma idêntica o erro e a ignorância. Ambos podem ensejar a aplicação do instituto do erro de tipo. No entanto, quando dispõe sobre o "erro", utiliza o seu sentido amplo, abrangendo tanto o erro propriamente dito quanto a ignorância. 3.1.2 Conceito Conforme Cleber Masson, o erro de tipo é a falsa percepção da realidadeacerca dos elementos constitutivos do tipo penal. Extrai-se essa conclusão do art. 20, caput, do Código Penal, que somente menciona as elementares. É o chamado erro de tipo essencial. O exemplo trazido pelo referido autor foi: “A”, no estacionamento de um shopping center, aperta um botão inserido na chave do seu automóvel, com a finalidade de desativar o alarme. Escuta o barulho, abre a porta do carro, coloca a chave na ignição, liga-o e vai para casa. Percebe, posteriormente, que o carro não lhe pertencia, mas foi confundido com outro, de propriedade de terceira pessoa. Nesse caso, “A” não praticou o crime de furto, embora tenha errado sobre a elementar “alheia”, o instituto impede o agente de compreender o aspecto ilícito do fato por ele praticado. Por fim, importa dizer que é cabível o erro de tipo na seara dos crimes omissivos impróprios. Também chamados de crimes omissivos espúrios ou comissivos por omissão, o dever de agir, disciplinado no art. 13, § 2.º, do Código Penal, funciona como elemento constitutivo do tipo. Assim, nada impede a incidência do erro de tipo em relação ao dever de agir para evitar o resultado, levando-se em conta a relação de normalidade ou perigo do caso concreto. 3.1.3 Espécies O erro de tipo essencial pode ser escusávelou inescusável. O critério de diferenciação é o homem médio, figura imaginária, que representa a normalidade. A natureza do erro (escusável ou inescusável) deve ser aferida na análise do caso concreto, levando-se em consideração as condições em que o fato foi praticado. 1. Escusável, inevitável, invencível ou desculpável:não deriva de culpa do agente. Assim, ainda que agisse com a cautela e a prudência de um homem médio, não 4 poderia evitar a falsa percepção da realidade sobre os elementos constitutivos do tipo penal. 2. Inescusável, evitável, vencível ou indesculpável: provém da culpa do agente. Dessa forma, se ele empregasse a cautela e a prudência do homem médio poderia evitá-lo, uma vez que seria capaz de compreender o caráter criminoso do fato. 3.1.4 Efeitos O erro de tipo, seja escusável ou inescusável, sempre exclui o dolo, tendo em vista que o sujeito não possui a necessária vontade de praticar integralmente a conduta tipificada em lei como crime ou contravenção penal. Por essa razão, Zaffaronidenomina o erro de tipo de “cara negativa do dolo”. O erro de tipo escusávelexclui o dolo e a culpa. Já o erro de tipo inescusável excluio dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei (excepcionalidade do crime culposo). Excepcionalmente, quando se opera a desclassificaçãopara outro crime,pode acontecer de o erro de tipo, embora escusável, não excluir a criminalidade do fato, a exemplo do particular que, desconhecendo a condição de funcionário público do agente, o ofende. Entretanto, embora se afaste o desacato, subsistirá a injúria, pois a honra do particular é tutelada pela lei penal. Erro escusável Erro Inescusável Outras denominações Inevitável, invencível ou desculpável. Evitável, vencível ou indesculpável. Conceito O agente errou, mas um homem médio, no lugar dele, também erraria. Em suma, é um erro que não emana da culpa do agente. O agente erro, mas um homem médio, em seu lugar, NÃO erraria. Portanto, é um erro que emana da culpa do agente, que foi imprudente, imperito ou negligente. Efeitos O erro de tipo essencial SEMPRE exclui o dolo, mesmo quando inescusável. 5 Também exclui a culpa. Permite a punição por crime culposo, desde que previsto em lei. 3.1.5 Erro de tipo e crime putativo por erro de tipo Embora os institutos sejam similares, não se confundem. No erro de tipo, o agente desconhece os elementos constitutivos, não sabendo que está praticando um fato definido como infração penal, quando na verdade o faz. Já no crime putativo por erro de tipo (ou delito putativo por erro de tipo), o crime é imaginário, existindo tão somente na mente do agente. Assim, o agente praticar um crime, mas, por erro, comente um fato penalmente irrelevante. Exemplo: a mulher que pratica atos abortivos e depois descobre que na verdade não havia gravidez.2 3.1.6 Descriminantes putativas De acordo com Cleber Masson, a descriminante é a causa que exclui o crime, retirando o caráter ilícito do fato típico praticado por alguém. É sinônima, portanto, de causa de exclusão da ilicitude. Putativa provém de parecer, aparentar. É algo imaginário, erroneamente suposto. É tudo aquilo que parece, mas não é o que aparenta ser. Descriminante putativa é a causa de exclusão da ilicitude que não existe concretamente, mas apenas na mente do autor de um fato típico. É também chamada de descriminante erroneamente suposta ou descriminante imaginária. Está previsto no Art. 20, §1º do Código Penal: Art. 20, § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que,se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de CULPA e o fato é punível como crime culposo. 2 Vide questão 1 do material 6 As descriminantes putativas podem ser de três espécies. Traremos a classificação exposta na doutrina de Cleber Masson: 1. Erro quanto à existência da causa excludente de ilicitude: Ex: o agente imagina que matar sua esposa e amante estaria acobertado pela Legítima defesa da honra. Configura erro de proibição indireto – Descriminante Putativa por Erro de proibição – subsiste o dolo e também a culpa, excluindo-se a culpabilidade, se o erro for inevitável ou escusável. Caso o erro seja evitável ou inescusável, não afasta a culpabilidade, e o agente responde por crime doloso, diminuindo-se a pena de 1/6 a 1/3. 2. Erro quanto aos limites da causa excludente de ilicitude: Ex: fazendeiro que reputa adequado matar todo e qualquer posseiro que invada sua propriedade. Configura erro de proibição indireto – Descriminante Putativa por Erro de proibição – subsiste o dolo e também a culpa, excluindo-se a culpabilidade, se o erro for inevitável ou escusável. Caso o erro seja evitável ou inescusável, não afasta a culpabilidade, e o agente responde por crime doloso, diminuindo-se a pena de 1/6 a 1/3. 3. Erro quanto aos pressupostos fáticos da causa excludente de ilicitude: o agente pensa existir uma situação de fato que faria incidir a excludente de ilicitude que, na verdade, não existe. Ex.: Desafeto do agente coloca a mão no bolso. Agente pensa que ele vai sacar uma arma e, para se defender, mata-o antes. A natureza jurídica da descriminante putativa depende da teoria da culpabilidade adotada: Teoria normativa pura, em sua vertente limitada: há erro de tipo permissivo (MASSON, 2019) – se escusável/inevitável o erro, exclui-se o dolo e a culpa, acarretando a atipicidade do fato, pois o finalismo o dolo e a culpa compõem a estrutura da conduta. Mas, se inescusável/evitável, afasta-se o dolo, subsistindo a responsabilidade por crime culposo. Teoria normativa pura da culpabilidade, extrema ou estrita, trata-se de erro de proibição – subsiste o dolo, e também a culpa, excluindo a culpabilidade se o erro for inevitável ou escusável. Sendo evitável ou inescusável o erro, não se afasta a culpabilidade, e o agente responde por crime doloso, diminuindo a pena de 1/6 a 1/3. Adotam essa teoria Cezar Roberto Bitencourt e Guilherme de Souza Nucci. A bancaFCC adota entendimento pela teoria extremada e nas suas questões. 7 Descriminante Putativa Teoria Limitada da Culpabilidade Teoria normativa pura da culpabilidade, extrema ou estrita (FCC) Erro quanto aos pressupostos fáticos da causa excludente de ilicitude Erro de tipo Erro de proibição (teoria unitária do erro) Erro quanto à existência da causa excludente de ilicitude Erro de proibição Erro de proibição Erro quanto aos limites da causa excludente de ilicitude Erro de proibição Erro de proibição 3.1.7 Erro determinado por terceiro Estabelece o art. 20, § 2.º, do Código Penal: “Responde pelo crime o terceiro que determina o erro”.É a falsa percepção da realidade no que diz respeito aos elementos constitutivos do tipo penal em decorrência de ação provocada por outra pessoa, denominada de agente provocador. Destaca-se que no erro determinado por terceiro não há concurso de pessoas, eis que ausente o elemento subjetivo. Apenas o terceiro irá responder pelo crime, nos termos do art. 20, §2º do CP. Entretanto, caso o agente perceba o erro, aproveitando-se dele, irá responder também pelo crime em concurso de pessoas. 8 3.1.8 Erro de tipo acidental Diferentemente do erro de tipo essencial, o erro de tipo acidental recai sobre circunstâncias secundárias do crime, sobre dados diversos dos elementos constitutivos do tipo penal, ou seja, sobre as circunstâncias (qualificadoras, agravantes genéricas e causas de aumento da pena) e fatores irrelevantes da figura típica. A infração penal subsiste íntegra, e esse erro não afasta a responsabilidade penal. O erro de tipo acidental pode ser de seis espécies: erro sobre a pessoa; erro sobre o objeto; erro quanto às qualificadoras; erro sobre o nexo causal; erro na execução; e resultado diverso do pretendido. Erro sobre a pessoa ou error in persona O agente com sua conduta criminosa visa certa pessoa, mas por erro de representação, acredita ser aquela em que efetivamente deseja atingir.3Exemplo: “A”, com a intenção de matar “B”, mata “C”, irmão gêmeo de “B”, confundindo-o com aquele que efetivamente queria matar. O erro de tipo acidental sobre a pessoa não interfere na tipicidade do crime, trata-se de um dado irrelevante. Em nosso exemplo, o agente realizou a conduta descrita no art. 121 do CP, uma vez que matou alguém, não importa quem é o alguém. Neste ponto, o Código Penal consagrou a Teoria da Equivalência do Bem Jurídico, ou seja, os bens se equivalem. O agente responde como se tivesse atingindo a pessoa que pretendia e não a que efetivamente atingiu, conforme estabelece o Art. 20, § 3.º, do Código Penal: § 3º - O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime.4 Assim, para a aplicação da pena, levam-se em conta, as condições da vítima virtual, isto é, aquela que o sujeito pretendia atingir, mas que no caso concreto não sofreu perigo algum, e não a vítima real, que foi efetivamente atingida. 3 Vide questão 3 do material 4 Vide questão 4 do material 9 Por fim, resumidamente, o erro acidental sobre a pessoa: não exclui o dolo e a culpa; não isenta o agente de pena; e o agente responde pelo crime como se tivesse atingido a vítima virtual. Erro sobre o objeto No erro sobre o objeto, o agente supõe estar praticando a conduta contra o objeto material que deseja, mas por erro acaba atingindo outro. Exemplo: uma pessoa querendo furtar um aparelho de televisão que se encontra em embalagem fechada, entra na loja da vítima, mas acaba levando uma máquina de lavar. Esse erro é irrelevante, de natureza acidental, e não interfere na tipicidade penal. O art. 155, caput, do Código Penal tipifica a conduta de “subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel”, e, no exemplo, houve a subtração do patrimônio alheio, pouco importando o seu efetivo valor. A análise do caso concreto, entretanto, pode autorizar a incidência do princípio da insignificância, excluindo a tipicidade do fato, quando todos os seus requisitos objetivos e subjetivos estiverem presentes. Por fim, podemos constatar que o erro sobre o objeto não exclui dolo e culpa; não isenta o agente de pena; e o agente só responde pelo crime, considerando-se o objeto material (coisa) efetivamente atingido. Erro sobre as qualificadoras O agente age com falsa percepção da realidade desconhecendo a presença de uma qualificadora do crime. Exemplo: Exemplo: O agente furta um carro depois de conseguir, por meio de fraude, a chave verdadeira do automóvel. Acredita praticar o crime de furto qualificado pelo emprego de chave falsa (CP, art. 155, § 4.º, inc. III),quando na verdade não incide o tipo derivado por se tratar de chave verdadeira. Esse erro não afasta o dolo nem a culpa relativamente à modalidade básica do delito. Exclui a qualificadora, por falta de dolo, mas se mantém intacto o tipo fundamental, ou seja, subsiste o crime efetivamente praticado, o qual deve ser imputado ao seu responsável. 10 Erro sobre o nexo causal ou aberratio causae É o erro relacionado à causa determinante do crime. O resultado buscado pelo agente ocorreu em razão de um acontecimento diverso daquele que ele inicialmente idealizou. Exemplo: Mévio empurra Tício para matá-lo afogado. A vítima falece,não por força do afogamento, e sim por traumatismo crânio-encefálico, pois se chocou em uma pedra antes de ter contato com a água. O agente deve responder pelo delito, em sua modalidade consumada, tendo em vista que o erro aqui é penalmente irrelevante, atingindo o sujeito o resultado naturalístico que almejava. Erro sobre nexo causal mediante conduta única (aberratio causae em sentido estrito) – o agente pratica apenas uma conduta. Já no Erro sobre nexo causal mediante mais de uma conduta (Dolo geral ou erro sucessivo) – Imaginando ter produzido o resultado pretendido, o agente pratica nova conduta com finalidade diversa, sendo esta a efetiva causa do resultado inicialmente visado. Para alguns autores deve ser considerado o nexo causal ocorrido; para outros, prevalece o nexo causal pretendido. Rogério Sanches afirma, que nestas situações deve responder pelo resultado mais benéfico para o agente. Por fim, há doutrina que faz distinção entre dolo geral e aberratio causae. No aberratio causae, através de apenas um único ato, o agente provoca o resultado visado. Já no dolo geral, o agente, mediante conduta desenvolvida em dois ou mais atos, provoca o resultado visado, porém, com nexo de causalidade diverso. Exemplo: atira na vítima, e imaginando estar morta, joga o corpo no mar, vindo então a morrer afogada. Erro na execução ou aberratio ictus Ocorre quando o agente por execução imperfeita acaba atingindo um terceiro que, em regra, não fazia parte do seu “animus”. O agente não se engana quanto à pessoa que desejava atacar, mas age de modo desastrado, errando o seu alvo e acertando pessoa diversa. 5Exemplo: erro de pontaria. Encontra previsão no Art. 73 do Código Penal: 5 Vide questão 5 do material 11 Art. 73 - Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º do art. 20 deste Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. A 1.ª parte do art. 73 do Código Penal é taxativa: a relação no erro na execução é de pessoa x pessoa, uma vez que o crime não se altera, o que muda é a vítima. Ainda, determina o dispositivo legal que no erro na execução deve atender-se ao disposto pelo art. 20, § 3.º, do Código Penal, isto é, observam-se as regras inerentes ao erro sobre a pessoa. Assim, levam-se em conta as condições da vítima que o agente desejava atingir (vítima virtual), desprezando-se as condições pessoais da vítima efetivamente ofendida (vítima real). Todavia, não podemos confundir o erro na execução e erro sobre a pessoa, que são institutos diversos. No erro sobre a pessoa o agente confunde a pessoa que queria atingir com pessoa diversa. Já no erro na execução o agente não confunde a pessoa que desejava atingir com outra, mas por aberração no ataque acaba por acertar pessoa diversa. Por fim, o erro na execução pode ser de duas espécies: com unidade simples ou com unidade complexa. Com unidade simples ou com resultado único: é a situação descrita pelo art. 73, 1.ª parte, do Código Penal, na qual o agente atinge unicamente a pessoa diversa da desejada. A solução será idêntica àquela que se verifica no erro sobre a pessoa, ou seja, o agente responde como se tivesse matado a vítima virtual. Será irrelevante no plano da tipicidade, em razão da Teoria da Equivalência do Bem Jurídico, mas interfere na dosimetria da pena. Com unidade complexa ou com resultado duplo:o agente atinge a pessoa desejada e também a pessoa diversa. Sua conduta enseja dois resultados: o originariamente pretendido e o involuntário. Nessa hipótese, determina o Código Penal a aplicação da regra do concurso formal próprio ou perfeito (CP, art. 70, caput, 1.ª parte): o magistrado utiliza a pena do crime mais grave, aplicando a regra da exasperação aumentando-a de um 1/6 (um sexto) até a 1/2 (metade). 12 Importa dizer que, só haverá erro na execução com unidade complexa quando o segundo crime for culposo. Nesse caso, aplica-se o sistema do concurso formal próprio ou perfeito (sistema da exasperação) com a imposição da pena de um dos crimes aumentada de 1/6 (um sexto) até 1/2 (metade). Porém, se houver dolo eventual no tocante às demais pessoas ofendidas, não há falar em erro na execução, e incide a regra do concurso formal impróprio ou imperfeito (sistema do cúmulo material). Somam-se as penas, pois a pluralidade de resultados deriva de desígnios autônomos, ou seja, dolos diversos para a produção dos resultados naturalísticos. Resultado diverso do pretendido, aberratio delicti ou aberratio criminis Está previsto no art. 74 do Código Penal: Art. 74 - Fora dos casos do artigo anterior, quando, por acidente ou erro na execução do crime, sobrevém resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime culposo; se ocorre também o resultado pretendido, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. Significa o crime diverso do pretendido, ou seja, o agente queria praticar determinado crime, mas por erro acabou praticando um crime diverso. Ao contrário do erro na execução, no resultado diverso do pretendido a relação é crime x crime. A expressão “fora dos casos do artigo anterior” traduz um caráter subsidiário do resultado diverso do pretendido. Assim, só será possível quando não for caso de erro na execução. O resultado diverso do pretendido possui duas espécies: Com unidade simples ou com resultado único: prevista no art. 74, 1.ª parte, do Código Penal. Nessa situação, o agente atinge somente bem jurídico diverso do pretendido. Temos como exemplo, o agente que joga uma pedra para quebrar vidraça (claramente crime de dano), mas acaba acertando um pedestre (lesão corporal culposa). Nesse caso, o agente responderá pela lesão corporal culposa, uma vez que prevista em lei, conforme prevê o art. 74 do CP. 13 Com unidade complexa ou resultado duplo:prevista no art. 74, 2.ª parte, do Código Penal. Nessa situação, a conduta do agente atinge o bem jurídico desejado e também bem jurídico diverso, culposamente. No exemplo, o sujeito quebra a vidraça e também fere a pessoa. Utiliza-se a regra do concurso formal, aplicando-se a pena do crime mais grave, aumentada de 1/6 (um sexto) até 1/2 (metade), variando o aumento de acordo com o número de crimes produzidos a título de culpa. Por fim, ressalta-se que somente estará caracterizado quando o crime diverso for culposo. Caso os dois sejam dolosos não há que se falar em erro. 3.2 Iter Criminis 3.2.1 Introdução O iter criminis, ou “caminho do crime”, são as fases que sucedem a prática de um fato previsto em lei como infração penal. Há duas fases: uma interna e outra externa. A fase interna(impunível) é representada pela cogitação. Por sua vez, a fase externase divide em outras três: preparação, execução e consumação. O exaurimento não integra o iter criminis, pois ele se refere aos acontecimentos posteriores á consumação do delito. 3.2.2 Fase interna do crime: Cogitação É a ideação do crime na mente do agente. É chamada de claustro-psíquico, tendo em vista que a vontade criminosa está “presa” na mente do agente. É sempre interna, não se revelando em atos externos. Tratando-se de mera ideia e sem qualquer possibilidade de ofensa ao bem jurídico, não será punível. Caso fosse punida, seria típico caso de direito penal do autor. É possível a divisão da cogitação em três momentos distintos: Idealização: surgimento da intenção. Deliberação: o agente analisa as circunstâncias do crime. Resolução: o sujeito se decide pelo cometimento da infração penal. 14 3.2.3 Fases externas do crime Preparação Também chamada de fase dos atos preparatórios, cria condições prévias adequadaspara realização do crime, sem que se deva, contudo, iniciar a imediata realização tipicamente relevante da vontade delitiva (máximo). É o caso, por exemplo, da aquisição de um revólver para a prática de um homicídio. Geralmente, os atos preparatórios não são puníveis, nem mesmo na forma tentada, uma vez que não se iniciou a realização do núcleo do tipo penal. De fato, o art. 14, inc. II, do Código Penal vinculou a tentativa à prática de atos executórios. Excepcionalmente, é possível a punição de atos preparatórios nas hipóteses em que a lei optou por incriminá-los de forma autônoma. São os chamados crimes-obstáculo. Nesses casos, o legislador transforma o ato preparatório de um determinado delito em crime diverso e independente, ou seja, passa a tratá-lo como ato de execução, a exemplo da associação criminosa, petrechos para falsificação de moeda, fabrico, fornecimento, aquisição, posse ou transporte de explosivos e gás tóxico. A única exceção a esta regra consta na Lei n.º 13.260/2016 (Lei de terrorismo), em seu art. 5º, a qual contempla o tipo penal de praticar atos preparatórios de terrorismo. Execução A fase da execução, ou dos atos executórios, é o momento em que o agente realiza o núcleo do tipo. É a maneira pela qual o agente atua exteriormente. Em regra, é aqui que começa a punibilidade, configurando no mínimo um crime tentado. O ato de execução deve ser idôneo e inequívoco. Idôneo, quer dizer, o suficiente para lesar o bem jurídico penalmente tutelado. Essa idoneidade deve ser constatada no caso concreto. Inequívoco, porque é direcionado ao cometimento do delito, almejando a consumação da infração penal. O ato de execução deve, obrigatoriamente, possuir essas características, simultaneamente. Diferença entre os atos preparatórios para os atos executórios 15 Não é uma tarefa fácil estabelecer a diferença exata entre os atos preparatórios e os atos de execução. Inúmeras foram às teorias que apresentaram propostas para solução dessa discussão. Dividem-se em subjetiva e objetiva: 1. Teoria subjetiva: não faz distinção entre ato preparatório e ato de execução. O que interessa é a vontade criminosa. Logo, as duas fases são puníveis. Não foi aceita. 2. Teoria objetiva: os atos preparatórios dependem do início de realização do tipo penal, não podendo o agente ser punido pelo seu mero “querer interno”. Aqui a punição depende da exteriorização de atos idôneos e inequívocos para chegar ao resultado. Subdividem-se em: Teoria da hostilidade ao bem jurídico (Nelson Hungria, Max Ernst Mayer):os atos executórios são aqueles que atacam o bem jurídico, retirando-o do “estado de paz”, enquanto os atos preparatórios não caracterizam afronta ao bem jurídico. Está ultrapassada. Teoria objetivo-formal ou lógico-formal (Franz Von Liszt):o ato executório é aquele em que se inicia com a realização do verbo contido na conduta criminosa. Exige a efetivação de uma parte da conduta criminosa. É a preferida pela doutrina pátria. Teoria objetivo-material (Reinhart Franck):Atos executórios são aqueles que se realizam no período imediatamente anterior ao começo da realização do núcleo do tipo, na visão de um terceiro observador. Exemplo: CP Português. Teoria objetivo-individual: Criada por Hans Welzel. Possui como um dos seus grandes adeptos Zaffaroni. O ato de execução é aquele em que o agente pratica o núcleo do tipo, mas também são os atos que lhe são imediatamente anteriores, de acordo com o plano concreto do autor. Consumação Também chamada de crime consumado, crime pleno ou summatum opus, é a última fase, o encerramento da iter criminis. Reúne todos os elementos de sua definição legal (CP, art. 14, I). Crime completo ou perfeito. É a reunião de todas as elementares descritas pelo preceito primário de uma lei penal. Exemplo: no homicídio, em que a conduta é “matar alguém”, a consumação ocorre com a morte de um ser humano, provocada por outra pessoa. 16 Art. 14, I, CP - consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal; Nos crimes materiais, a consumação ocorre com a produção do resultado naturalístico. Já nos crimes formais, ocorre com a prática da conduta, podendo o resultado naturalístico ocorrer ou não. No caso doscrimes de mera conduta, a consumação ocorre com a prática da conduta, jamais ocorrerá resultado naturalístico. Os crimes qualificados pelo resultadotem a consumação verificada com a produção do resultado agravador, doloso ou culposo. E, por fim, a consumação dos crimes de perigo concretoocorre com a efetiva exposição do bem jurídico a uma probabilidade de dano. Já nos crimes de perigo abstrato ou presumido a consumação opera-se com a mera prática da conduta definida em lei como perigosa. 3.2.4 O exaurimento Conhecido como crime exaurido ou crime esgotado, é o delito que mesmo após a consumação, subsistem os efeitos lesivos. É o conjunto de efeitos posteriores a consumação do delito. Exemplo: recebimento de resgate após o sequestro. Por guardar semelhança com os crimes formais, é chamado por Zaffaroni de consumação material. Salienta-se que o exaurimento não integra o inter criminis, influindo, contudo, na dosimetria da pena. Art. 59, CP - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime (exaurimento), bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime. Em alguns casos, pode funcionar como qualificadora, como é o caso do crime de resistência (art. 329, §1º) ou como causa de aumento da pena, tal como na corrupção passiva (CP, art. 317, § 1.º), até mesmo como crime autônomo. 17 3.2.5 Tentativa Previsto no art. 14, II do CP, ocorre quando a o início da execução de um crime que não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Art. 14. Diz-se o crime: [...] II – tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. O ato de tentativa é, necessariamente, um ato de execução. Exige-se tenha o sujeito praticado atos executórios, daí não sobrevindo à consumação por forças estranhas ao seu propósito. Denominação A tentativa é também conhecida por outras denominações: conatus, de crime imperfeito (Zaffaroni), crime incompleto, crime manco. Elementos A tentativa possui quatro elementos: Início da execução – necessário que o agente inicie a execução. Não consumação do crime por circunstâncias alheias á vontade do agente – Se o agente deixa de prosseguir na execução por vontade própria, surgem os institutos do arrependimento voluntario e desistência eficaz. Dolo de consumação – O dolo na tentativa e na consumação é o mesmo, o crime tentado é subjetivamente completo e objetivamente incompleto. Possibilidade do resultado – Somente é punível a tentativa idônea, ou seja, a consumação deve ser ao menos possível. Do contrario, haverá crime impossível, também denominado de tentativa inidônea. Violação incompleta da norma. Iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Entretanto, tanto na forma tentada quanto na consumada, o dolo é o mesmo. 18 Teorias sobre a punibilidade da tentativa São inúmeras as teorias que tentam fundamentar a punibilidade da tentativa, mas quatro delas se destacam: Teoria subjetiva, voluntarística ou monista: leva em consideração a vontade criminosa. Admite a punição dos atos preparatórios, que, inclusive, pode ter punição igual ao do crime consumado. O sujeito é punido por sua intenção, pois o que importa é o desvalor da ação, sendo irrelevante o desvalor do resultado. Teoria aceita, excepcionalmente, pelo CP, nos casos dos Crimes de Atentado (empreendimento), nos quais os crimes consumados recebem a mesmapena do que os crimes tentados. Teoria sintomática: sustenta a punição em razão da periculosidade subjetiva, isto é, do perigo revelado. Possibilita a punição de atos preparatórios, pois a mera manifestação de periculosidade já pode ser enquadrada como tentativa. Aqui não há finalidade de abrandamento de sanção, dada a sua finalidade preventiva. Teoria da impressão ou objetivo-subjetiva: representa um limite à teoria subjetiva, evitando o alcance desordenado dos atos preparatórios. Leva-se em conta a vontade criminosa associada ao risco ao bem jurídico protegido, ou seja, a vontade associada à impressão que a sua manifestação causa na sociedade. No caso de tentativa, a redução de pena é uma faculdade, considerando a vontade criminosa e a impressão produzida na sociedade. Teoria objetiva, realística ou dualista: para punição da tentativa, leva-se em conta o perigo proporcionado ao bem jurídico. Sopesam-se o desvalor da ação e o desvalor do resultado: a tentativa deve receber punição inferior à do crime consumado. A punibilidade da tentativa é disciplinada pelo art. 14, parágrafo único. Essa foi a teria aceita pelo Código Penal, ao determinar que a pena da tentativa deva ser correspondente à pena do crime consumado, diminuída de um a dois terços. Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terço. Dessa forma, a tentativa constitui-se natureza jurídica decausa obrigatória de diminuição da pena. Incide na terceira fase de aplicação da pena privativa de liberdade, e sempre a reduz. O critério decisivo é a maior ou menor proximidade da consumação, ou seja, a distância percorrida do iter criminis. 19 Tentativa e crimes de competência dos Juizados Especiais Criminais Em caso de crime tentado, não será processado no Juizado Especial quando a causa de diminuição de pena for aplicada entre a fração mínima e máxima, o resultado for superior a 02 anos. Tentativa e diminuição da pena no Código Penal Militar O Código Penal Militar admite uma exceção ao critério da obrigatória diminuição da pena do crime tentado, ao dispor em seu art. 30, parágrafo único: Pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime, diminuída de um a dois terços, podendo o juiz, no caso de excepcional gravidade, aplicar a pena do crime consumado. Espécies de tentativa Tentativa branca ou incruenta: oobjeto material não é atingido. Em regra, a diminuição será no patamar máximo. Exemplo: Mévio atira em Tício, mas não acerta. Tentativa cruenta ou vermelha: o objeto material é atingido. Em regra, a diminuição será menor. Por exemplo, desfere um tiro e acerta o braço. Exemplo: Mévio atira em Tício, acerta, mas a vítima é socorrida e sobrevive. Tentativa perfeita, acabada ou crime falho: pratica todos os atos executórios, mas o resultado não se consuma, por circunstâncias alheias à sua vontade. Exemplo: Mévio dispara contra Tício todos os seis cartuchos do tambor do seu revólver, com a intenção de matá-lo. A vítima, gravemente ferida, é socorrida por policiais e sobrevive. Tentativa imperfeita, inacabada ou tentativa propriamente dita: o agente inicia a execução sem, contudo, utilizar todos os meios que tinha ao seu alcance, e o crime não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade.6 Exemplo: Mévio, querendo matar Tício, tem um revólver municiado com 6 balas. Ao encontrá-lo, efetua três disparos, atingindo-o. Quando, contudo, iria efetuar outros disparos, é surpreendido pela Polícia Militar e foge. A vítima é socorrida pelos milicianos e sobrevive. 6 Vide questão 7 do material 20 Tentativa falha:o agente acredita que não pode prosseguir na execução, quando, na verdade, isso era possível. Exemplo: é convencido por terceiro que a arma está descarregada e não atira. Tentativa qualificada ou abandona:refere-se às hipóteses de desistência voluntária ou arrependimento eficaz. Tentativa e dolo eventual É admissível no Brasil o cabimento da tentativa nos crimes cometidos com dolo eventual, equiparado pelo art. 18, I, do Código Penal, no tocante ao seu tratamento, ao dolo direto. Entretanto, existem posições pela inadmissibilidade da tentativa nos crimes praticados com dolo eventual, com fundamento na redação do art. 14, II, do Código Penal. Inadmissibilidade da tentativa Em regra, os crimes dolosos são compatíveis com a tentativa. Pouco importa se o crime é material, formal ou de mera conduta, o que interessa é ser um crime plurissubsistente. Ou seja, a conduta é composta de dois ou mais atos que se unem para juntos produzirem a consumação. A regra, portanto, é a compatibilidade dos crimes com o conatus. Algumas espécies de infrações penais, todavia, não admitem a tentativa. Vejamos quais são: CRIMES QUE NÃO ADMITEM A TENTATIVA Crimes culposos Nos crimes culposos o resultado naturalístico é involuntário. Portanto, não há compatibilidade lógica entre crime culposo e a tentativa. EXCEÇÃO: no que diz respeito à culpa imprópria ou culpa por equiparação, compatível com a tentativa, pois nela há a intenção de se produzir o resultado. Cuida-se, em verdade, de dolo, punido por razões de política criminal a título de culpa. Crimes preterdolosos É um crime híbrido, misto de dolo e de culpa. O resultado agravador é culposo, não desejado pelo agente. Por esse motivo, não se compactuam com a tentativa.EXCEÇÃO: se o feto nasce vivo em consequência das manobras abortivas, 21 o crime de aborto se consuma; mas, se a morte resultou de causa independente, existirá apenas tentativa de aborto. Crimes unissubsistentes A conduta é exteriorizada mediante um único ato, suficiente para alcançar a consumação. Assim, Não é possível a divisão do iter criminis, razão pela qual é incabível a tentativa. Crimes omissivos próprios ou puros São considerados unissubsistentes, o simples não fazer acarreta na consumação. Por isso, não se admite a tentativa. Crimes de perigo abstrato Também se enquadram no bloco dos crimes unissubsistentes, não admitindo a tentativa. Contravenções penais A tentativa de contravenção penal é um irrelevante penal, não é punida. Crimes condicionados São aqueles cuja punibilidade está sujeita à produção de um resultado legalmente exigido, ou seja, se a condição se realiza o crime estará consumado, senão o fato é impunível. Crimes subordinados a condição objetiva de punibilidade São crimes em que o fato já foi praticado, mas para que seja punível deve ocorrer outro fato previsto em lei, a exemplo da sentença declaratória de falência. Crimes de atentado ou de empreendimento Não há tentativa, uma vez que a figura tentada recebe igual pena destinada ao crime consumado. Crimes com tipo penal composto de condutas amplamente abrangentes A conduta é muito ampla, sendo consumada por um ato qualquer. Por exemplo art. 50, I da Lei 6766/1979. Crimes habituais próprios São aqueles compostos pela reiteração de atos. Ou seja, um único ato isolado é irrelevante, sendo considerado fato atípico. O autor Mirabete admite a tentativa. Não se devem confundir com os crimes permanentes, nos quais a tentativa é perfeitamente cabível. 22 Crimes-obstáculo ou crimes que punem somente os atos preparatórios. O legislador transforma em um crime autônomo um ato preparatório, a exemplo do crime de petrechos de fabricação de moeda. Crimes punidos somente na forma tentada A regra vigente no sistema penal brasileiro é a punição dos crimes nas modalidades consumada e tentada. Entretanto, há na Lei de Crimes contra a Segurança Nacional (arts. 9.º e 11 da Lei 7.170/1983) crimes que são punidos apenas na forma tentada, pois a consumação deixa de ser matéria de Direito Penal para ser de Direito Internacional. Art. 9.º Tentar submeter o territórionacional, ou parte dele, ao domínio ou à soberania de outro país. Pena – reclusão, de 4 a 20 anos. Parágrafo único. Se do fato resulta lesão corporal grave, a pena aumenta-se até um terço; se resulta morte aumenta-se até a metade. Art. 11. Tentar desmembrar parte do território nacional para constituir país independente. Pena – reclusão, de 4 a 12 anos. 3.2.6 Desistência voluntária e arrependimento eficaz ouResipiscência O art. 15 do Código Penal contempla a desistência voluntária e o arrependimento eficaz. Art. 15 - O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados. Natureza jurídica de acordo com doutrina majoritária é causa de extinção da tipicidade (Fragoso) ou de punibilidade ( Zaffaroni) e da culpabilidade (Roxin). 23 São formas de tentativa abandonada. Diferente da tentativa, pois a consumação não ocorre em razão da vontade do agente, que não chega ao resultado inicialmente desejado por interromper o processo executório do delito ou, esgotada a execução, emprega diligências eficazes para impedir o resultado. A diferença é que na tentativa a consumação não ocorre por circunstâncias alheias à vontade do agente. São consideradas pontes de ouro do direito penal. Tentativa: “eu quero, mas não consigo”. Tentativa abandonada: “eu consigo, mas não quero” A diferença entre tentativa e tentativa abandonada foi cobrada recentemente na prova da DPE/PE. Questão 73 da prova da DPE/PE (2018). Contudo a banca inverteu os conceitos, por isso a alternativa foi considerada errada. Observe: (D) A diferença entre a tentativa e a tentativa abandonada é que, no primeiro caso, o agente diz “eu consigo, mas não quero” e, no segundo, o agente diz “eu quero, mas não consigo”. Delegado de Polícia Civil/PE/2016) Na análise das classificações e dos momentos de consumação, busca-se, por meio da doutrina e da jurisprudência pátria, enquadrar consumação e tentativa nos diversos tipos penais. Considerou como correta - Segundo o STJ, configura crime consumado de tráfico de drogas a conduta consistente em negociar, por telefone, a aquisição de entorpecente e disponibilizar veículo para o seu transporte, ainda que 24 o agente não receba a mercadoria, em decorrência de apreensão do material pela polícia, com o auxílio de interceptação telefônica. Fundamento O fundamento surgiu na Alemanha com o chamado Direito Premial. É o estímulo ao agente para evitar a produção do resultado de um crime cuja execução já se iniciou, em relação ao qual lhe é perfeitamente possível alcançar a consumação. Franz Von Liszt chama a desistência voluntária e o arrependimento eficaz de Ponte de Ouro do Direito Penal, isto é, a forma capaz de se valer o agente para retornar à seara da licitude. Natureza jurídica Há três correntes sobre a natureza jurídica da desistência voluntária e do arrependimento eficaz: 1. Causa pessoal de extinção da punibilidade: É a posição de Nélson Hungria, E. Magalhães Noronha, Aníbal Bruno e Eugenio Raúl Zaffaroni, entre outros. 2. Causa de exclusão da culpabilidade: Welzel e Claus Roxin. 3. Causa de exclusão da tipicidade: É a posição dominante(STJ HC 110.504) Exclui-se a tipicidade do crime inicialmente desejado e o agente só responde pelos atos praticados. Desistência voluntária Na desistência voluntária, o agente, por ato voluntário, interrompe o processo executório do crime, desiste de prosseguir por vontade própria. É durante a execução. Os atos executórios não se esgotaram: “posso prosseguir, mas não quero”. É compatível com a tentativa imperfeita ou inacabada. Em regra, caracteriza-se por uma conduta negativa, pois o agente desiste da execução do crime, deixando de realizar outros atos que estavam sob o seu domínio. Nos crimes omissivos impróprios, todavia, a desistência voluntária reclama uma atuação positiva, um fazer, pelo qual o autor de um delito impede a produção do resultado. 25 Não é admitida nos crimes unissubsistentes, pois, se a conduta não pode ser fracionada, exteriorizando-se por um único ato, é impossível desistir da sua execução. Arrependimento eficaz No arrependimento eficaz o agente pratica todos os atos executórios, no entanto, antes que a consumação7 ocorra, impede a consumação. Ocorre após execução. Compatível com a tentativa perfeita ou acabada. 8 Conforme o art. 15 do Código Penal o arrependimento eficaz somente é possível no tocante aos crimes materiais, ou seja, aqueles que exigem a ocorrência de resultado para consumação. Requisitos São comuns os requisitos da desistência voluntária e do arrependimento eficaz: voluntariedade e eficácia. Devem ser voluntário, ou seja, livres de coação física e moral, pouco importando sejam espontâneos ou não. A iniciativa pode emanar de terceira pessoa ou mesmo da própria vítima. Com relação à eficácia, é necessário que a atuação do agente seja capaz de evitar a produção do resultado. Todavia, se o agente tenha tentado impedir sua ocorrência, mas ainda assim o resultado se verificou, responde por crime consumado, incidindo a atenuante do Art. 65, II, do CP. Motivos Os motivos que levaram o agente a desistir ou a impedir o resultado são irrelevantes, não importam para o Direito Penal. Efeito Nas duas hipóteses, os efeitos são os mesmos, isto é, o agente não responde pela forma tentada do crime inicialmente desejado, mas somente pelosatos já praticados. Incompatibilidade com os crimes culposos 7 Vide questão 10 do material 8 Vide questão 9 do material 26 São incompatíveis com os crimes culposos, salvo na culpa imprópria. Nos crimes culposos o resultado é involuntário. Assim, não há lógica em se desistir ou se arrepender de algo que o agente não quis. A questão 30 da prova para o MP/MG (2018) considerou correta a seguinte assertiva: C) A desistência voluntária e o arrependimento eficaz são incompatíveis com os crimes culposos, sendo, contudo, admitidos na culpa imprópria. Delegado de Polícia Federal (2013) Foi considerada correta a seguinte afirmação: No arrependimento eficaz, é irrelevante que o agente proceda virtutis amore ou formidine poence, ou por motivos subalternos, egoísticos, desde que não tenha sido obstado por causas exteriores independentes de sua vontade. Adiamento da prática do crime Há desistência voluntária no adiamento da empreitada criminosa, com o propósito de repeti-la em ocasião mais adequada. Exemplo: Mévio, famoso homicida portando apenas uma faca, após efetuar um golpe na vítima, atingindo-a de raspão, decide interromper a execução do homicídio, para, no futuro, sem despertar suspeitas, atingi-la com disparos de arma de fogo. Todavia, não há desistência voluntária, porém, na hipótese de execução retomada, em que a pessoa deseja dar sequência, no futuro, à atividade criminosa que precisou adiar. Comunicabilidade da desistência voluntária e do arrependimento eficaz 27 No concurso de pessoas a desistência voluntária e o arrependimento eficaz se comunicam aos demais agentes? A doutrina não é unânime, dividindo-se em duas correntes (conforme Cleber Masson): 1ª corrente:Heleno Cláudio Fragoso e Costa e Silva, sustentam o caráter subjetivo dos institutos, defendem a manutenção da responsabilidade do partícipe no tocante à tentativa abandonada pelo autor. 2ª corrente:Nélson Hungria apregoa o caráter misto – objetivo e subjetivo – da desistência voluntária e do arrependimento eficaz, com a consequente aplicação da regra prevista no art. 30 do Código Penal, excluindo a responsabilidade penal do partícipe. Essa segunda corrente é a dominante, pois a conduta do partícipe é acessória, dependendo sua punição da prática de um crime, consumado ou tentado, pelo autor, responsável pela conduta principal. E se este não comete nenhum crime, impossívela punição do partícipe. Tentativa qualificada Ocorre quando a não consumação de um crime mais grave representa a consumação de um crime de menor gravidade já consumado. Por exemplo, a lesão corporal no caso em que o agente dispara contra a vítima, mas desiste de prosseguir. Resta, contudo, a responsabilidade penal pelos atos já praticados, os quais configuram um crime autônomo e já consumado. Daí falar-se em tentativa qualificada. 3.2.7 Arrependimento posterior Previsto no art. 16 do CP, ocorre quando o responsável pelo crime praticado sem violência à pessoa ou grave ameaça, voluntariamente e até o recebimento da denúncia ou queixa, restitui a coisa ou repara o dano provocado por sua conduta. Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída à coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços.9 9 Vide questão 8 do material 28 É a causa obrigatória de diminuição da pena. Incide na terceira fase de aplicação da pena privativa de liberdade. Ponte de prata do Direito Penal. Alcança qualquer crime que com ele seja compatível, e não apenas os delitos contra o patrimônio,a exemplo do peculato doloso. Basta que exista um “dano” causado em razão da conduta penalmente ilícita. Em outras palavras, é cabível nos crimes patrimoniais e também em delitos diversos, desde que apresentem efeitos de índole patrimonial. Possível à aplicação do instituto para fins de reparação do dano moral, embora com algumas controvérsias, a exemplo do que ocorre nos crimes contra a honra em geral. Por fim, o instituto tem raízes em questões de política criminal, fundadas em duplo aspecto: (1) proteção da vítima, que deve ser amparada em relação aos danos sofridos; e (2) fomento do arrependimento por parte do agente, que se mostra mais preocupado com as consequências de seu ato, reduzindo as chances de reincidência. Requisitos 1. Natureza do crime: crime deve ter sido praticado sem violência ou grave ameaça à pessoa. A violência contra a coisa não exclui o benefício. Em caso de violência culposa, é cabível o instituto. No tocante aos crimes perpetrados com violência imprópria, duas posições se destacam (Cleber Masson): 1ª corrente:é possível o arrependimento posterior, pois a lei só o excluiu no que diz respeito à violência própria. Se quisesse afastá-lo, o teria feito expressamente, tal como no art. 157, caput, do Código Penal; e 2ª corrente:não se admite o benefício. Violência imprópria é violência dolosa, e nela a vítima é reduzida à impossibilidade de resistência. A situação é tão grave que a subtração de coisa alheia móvel assim praticada deixa de ser furto e se torna roubo, crime muito mais grave. 2. Reparação do dano ou restituição da coisa Deve ser voluntária, pessoal e integral. 29 Voluntária: livre de coação (não se exige a espontaneidade). Pessoal: feita pelo próprio agente, salvo em caso de impossibilidade de fazê-lo. Integral: reparar e restituir na exata proporção do prejuízo à vítima. STF, todavia, já admitiu o arrependimento posterior na reparação parcial do dano. 3. Limite temporal: A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser efetuada até o recebimento da denúncia ou da queixa. É irrelevante, destarte, o momento do oferecimento da denúncia ou da queixa. Quando a reparação do dano ou a restituição da coisa é feita após o recebimento, serão consideradas como circunstancias atenuantes da pena (art. 65, III, b, do CP): Art. 65 - São circunstâncias que sempre atenuam a pena: III - ter o agente: b) procurado, por sua espontânea vontade e com eficiência, logo após o crime, evitar-lhe ou minorar-lhe as consequências, ou ter, antes do julgamento, reparado o dano; Comunicabilidade do arrependimento posterior no concurso de pessoas Por possuir natureza objetiva, o arrependimento posterior, no concurso de pessoas, será comunicável, com os demais coautores e partícipes do crime, na forma definida pelo art. 30 do Código Penal. Critério para redução da pena A redução de pena deve ser calculada com base na celeridade e não voluntariedade da reparação do dano da restituição da coisa. Quanto mais rápida, maior a redução da pena; quanto mais lenta, menor será diminuição. Como o STF ao admitir a restituição parcial do dano, a diminuição leva em conta a extensão do ato reparador do agente. Recusa do ofendido em aceitar a reparação do dano ou a restituição da coisa Quando a vítima se recusar a receber a reparação do dano e a restituição da coisa, o ofendido pode fazer a entrega da coisa à autoridade policial, bem como pode fazer depósito 30 em juízo, em ação de consignação e pagamento. O agente não será privado da diminuição da pena se preencher todos os requisitos. Dispositivos especiais acerca da reparação do dano Situações de não incidência do Arrependimento posterior, devido à extinção de punibilidade. Peculato culposo: reparação ou restituição, se antes da sentença é causa extintiva de punibilidade. Se depois, redução da metade da pena. Juizados Especiais Criminais: a composição dos danos civis entre o autor do fato e o ofendido, em se tratando de crimes de ação penal privada ou ação penal pública condicionada à representação, acarreta na renúncia ao direito de queixa ou de representação, com a consequente extinção da punibilidade (art. 74, parágrafo único da Lei 9.099/1995). Apropriação indébita previdenciária: no crime tipificado pelo art. 168-A do Código Penal, dispõe seu § 2.º: “É extinta a punibilidade se o agente, espontaneamente, declara, confessa e efetua o pagamento das contribuições, importâncias ou valores e presta as informações devidas à previdência social, na forma definida em lei ou regulamento, antes do início da ação fiscal”. Súmula n.º 554, STF: "O pagamento de cheque emitido sem provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta ao prosseguimento da ação penal". O entendimento dominante é no sentido de não se referir ao arrependimento posterior, mas à falta de justa causa para a denúncia, por ausência de fraude. O STJ limita a sua aplicação exclusivamente ao crime de estelionato na modalidade emissão de cheque sem fundos. 3.2.8 Crime impossível Previsto no art. 17 do Código Penal, é o que se verifica quando, o comportamento do agente não tem condições de gerar o resultado delituoso, seja por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto. Trata-se de uma causa de exclusão de tipicidade. 31 Art. 17 - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime.10 O crime impossível guarda afinidade com o instituto da tentativa. Nos dois casos, a consumação não é atingida. Porém, são institutos diferentes. Na tentativa, é possível atingir a consumação, a qual somente não ocorre por circunstâncias alheias à vontade do agente. Os meios empregados pelo agente são idôneos, e o objeto material contra o qual se dirige a conduta é um bem jurídico suscetível de sofrer lesão ou perigo de lesão. Já no crime impossível, também chamado de crime oco, de tentativa inadequada, de tentativa impossível, tentativa inidônea, tentativa irreal,tentativa inútil, quase-crime ou de tentativa supersticiosa, emprego de meios ineficazes ou o ataque a objetos impróprios inviabilizam a produção do resultado, inexistindo situação de perigo ao bem jurídico penalmente tutelado. Teorias sobre o crime impossível 1. Teoria objetiva: a responsabilização de alguém pela prática de determinada conduta depende de elementos objetivos e subjetivos (dolo e culpa). Subdivide-se em duas: 1.1. Teoria objetiva pura: quando a conduta é incapaz, por qualquer razão, de provocar lesão, o fato há de permanecer impune.dito, conjunto de leis penais em vigor, que cria as figuras criminosas e contravencionais. 13 Direito Penal formal ou adjetivo compreende as leis processuais penais, é o Direito Processual Penal, tratando das normas destinadas a instrumentalizar a atuação do Estado diante da ocorrência de um crime. ● Direito Penal Objetivo e Direito Penal Subjetivo Direito Penal objetivo (ou jus poenale) é o conjunto de leis penais em vigor no país, devendo observar a legalidade. Direito penal subjetivo (ou jus puniendi) refere-se ao direito de punir do Estado, ou seja, a capacidade que o Estado tem de produzir e fazer cumprir suas normas. ● Direito Penal de Emergência e Direito Penal Simbólico O direito penal da emergência é baseado na sensação de insegurança da sociedade. Assim, cria normas de repressão, afastando-se, não raras vezes, de seu importante caráter subsidiário e fragmentário, assumindo feição nitidamente punitiva, e ignorando as garantias do cidadão. O direito penal simbólico, já explicado em tópico anterior, corresponde a necessidade de devolver a sociedade uma sensação ilusória de tranquilidade, que o estado está tomando as medidas contra a criminalidade. 1.8 Fontes do Direito Penal O estudo das fontes do Direito Penal diz respeito a sua criação e, posteriormente, a sua manifestação (aplicação prática). Fala-se em fonte formal (ou de cognição ou conhecimento) ou fonte material (ou de produção). 1.8.1 Fontes materiais, substanciais ou de produção É a fonte de produção da norma, é o órgão encarregado da criação do Direito Penal. Por previsão constitucional, a fonte material do Direito Penal é a União, (Art. 22, I, CF). Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho; 14 Excepcionalmente, conforme o art. 22, parágrafo único da CF, a União, através de LC pode autorizar os Estados-membros a legislar sobre questões específicas de interesse local. 1.8.2 Fontes formais, cognitivas ou de conhecimento É como o Direito Penal se apresenta para o mundo, se desdobrando em: ● Fontes formais imediatas: a leié a única fonte formal imediata do direito penal, pois somente ela pode criar crimes (e contravenções penais) e cominar penas. Trata-se de Lei ordinária. ● Fontes formais mediatas ou secundárias: a Constituição Federal, a jurisprudência, a doutrina, os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos, os costumes, os princípios gerais do Direito e os atos administrativos são conhecidos como fontes formais mediatas do Direito Penal. ⮚ Constituição Federal: não cria crimes nem comina penas. Porém, contém inúmeras disposições aplicáveis ao Direito Penal, a exemplo dos princípios da irretroatividade da lei penal (art. 5.º, XL), da intransmissibilidade ou da personalidade da pena (art. 5.º, XLV). É o que o STF chama de constituição penal. ⮚ Jurisprudência: nem sempre se reveste de natureza cogente, razão pela qual não pode ser automaticamente compreendida como fonte do Direito Penal. Sendo assim, apenas as hipóteses previstas no Art. 927 do Código de Processo Civil, podem ser consideradas fontes formais imediatas. 15 Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão: I - as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; II - os enunciados de súmula vinculante; III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos; IV - os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional; V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem Vinculados. Em regra, não é fonte de direito penal, eis que não possui força obrigatória. Salvo nos casos do art. 927 do CPC, são eles: Decisões em controle concentrado; Enunciados de Súmulas Vinculantes; Demandas repetitivas; Demandas com repercussão geral. ⮚ Doutrina: a afirmação de que a doutrina é considerada como fonte mediata do direito penal deve ser vista com cautela. Por mais renomada e respeitada 16 que seja, representa um estudo científico, e não se reveste de obrigatoriedade. ⮚ Tratados e convenções internacionais sobre direito humanos: em regra, só são considerados como fontes do Direito Penal depois de terem efetivamente ingressado em nosso ordenamento jurídico, com respeito a procedimento complexo destinado a esta finalidade. ⮚ Princípios gerais do direito: os princípios não podem, em hipótese alguma, ser utilizados para tipificação de condutas ou cominação de penas. Sua atuação se reserva ao âmbito das normas penais não incriminadoras. ⮚ Atos administrativos: são complementos de normas penais em branco. ⮚ Costumes: é a repetição de um comportamento, de modo constante e uniforme (elemento objetivo), por força da convicção de sua obrigatoriedade (elemento subjetivo). Os dois elementos devem estar simultaneamente presentes. No Direito Penal, o costume nunca pode ser empregado para criar delitos ou aumentar penas. É absolutamente vedado o costume incriminador. Os costumes se dividem em: ▪ Secundum legem ou interpretativo: auxilia o intérprete a esclarecer o conteúdo de elementos ou circunstâncias do tipo penal. Atualmente, temos como exemplo o conceito de ato obsceno, previsto no art. 233 do Código Penal e mutável de acordo com as condições regionais e culturais de cada sociedade. ▪ Contra legem ou negativo: também chamado de DESUETUDO. É aquele que contraria uma lei, mas não a revoga. É o caso da contravenção penal de jogo do bicho, definida pelo art. 58 do Decreto- lei 3.688/1941. ▪ Praeter legem ou integrativo: preenche a lacuna da lei. E somente pode ser utilizado na seara das normas penais não incriminadoras, apenas para favorecer o agente admite-se a sua utilização. 17 1.9 Escolas penais 1.9.1 Escola Clássica Seus fundamentos tiveram origem nos estudos de Beccariae foram lapidados e desenvolvidos, pelos italianos Francesco Carrara, Carmignani e Rossi. Utilizavam o método racionalista e dedutivo (lógico)e eram, em regra, jusnaturalistas, ou seja, aceitavam que normas absolutas e naturais prevalecessem sobre as normas do direito posto. Suas notas fundamentais eram: ● Entendiam o crime como um conceito meramente jurídico, tendo como sustentáculo o direito natural, ou seja, o crime é um ente jurídico (violação do direito) ● Predominava a responsabilidade penal baseada na concepção do livre-arbítrio, isto é, o homem age segundo a sua própria vontade. ● Ao responsável por infringir a normal penal deve ser imposta uma pena, como forma de retribuição. ● Método racionalista e dedutivo. 1.9.2 Escola Positiva Também denominada Positivismo Criminológico, despontando os estudos dos “três mosqueteiros”: Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Rafael Garofalo. FASE ANTROPOLÓGICA (CESARE LOMBROSO). FASE SOCIOLÓGICA (ENRICO FERRI) FASE JURÍDICA DA ESCOLA POSITIVA (RAFAEL GAROFALO) Para ele, o homem não é livre em sua vontade. Ao contrário, sua conduta é determinada por forças inatas. Desenvolveu a teoria do criminoso nato, predeterminando a prática de Reafirmação e defesa da tese negativa do livre-arbítrio, fundamentando a responsabilidade penal na responsabilidade social. Influenciado pela teoria da seleção natural, sustentava que os criminosos não assimiláveis deveriam ser eliminados pela deportação ou pela morte. Empregou e imortalizou a expressão “Criminologia”. 18 infrações penais por características antropológicas. A escola positiva negou o livre-arbítrio, tendo em vista que a responsabilidade penal baseava-se na responsabilidadeEssa impunidade ocorrerá independentemente do grau da inidoneidade da ação, pois nenhum bem jurídico foi lesado ou exposto a perigo de lesão. 1.2. Teoria objetiva temperada ou intermediária: a ineficácia do meio e a impropriedade do objeto – devem ser ABSOLUTAS para afastar a tentativa. Do contrário, se relativas, pune-se como tentativa. Foi à teoria adotada pelo Código Penal. 2. Teoria subjetiva: leva em conta a intenção do agente. Então, seja a inidoneidade absoluta ou relativa, haverá tentativa. 10 Vide questão 6 do material 32 3. Teoria sintomática: preocupa-se com a periculosidade do autor, e não com o fato praticado. Espécies de crime impossível 1. Crime impossível por ineficácia absoluta do meio: a palavra "meio" refere-se a meio de execução. Os instrumentos são incapazes de lesar o bem jurídico e de produzir o resultado. A inidoneidade do meio deve ser analisada no caso concreto, e jamais em abstrato. Se a ineficácia for relativa, estará caracterizada a tentativa. Exemplo: arma de brinquedo. 2. Crime impossível por impropriedade absoluta do objeto: o objeto material é a pessoa ou a coisa que suporta a conduta criminosa. O objeto material absolutamente impróprio é aquele que não existe ao tempo da conduta, a exemplo, querer realizar um aborto em uma mulher que não está grávida. Momento adequado para aferição da inidoneidade absoluta A ineficácia absoluta do meio e a impropriedade absoluta do objeto devem ser analisadas APÓS a prática da conduta com a qual se deseja consumar o crime. No caso de furto, assim já entendeu o Superior Tribunal de Justiça: Súmula n.º 567, STJ.Sistema de vigilância realizado por monitoramento eletrônico ou por existência de segurança no interior de estabelecimento comercial, por si só, não torna impossível a configuração do crime de furto. O STJ entende que não podemos falar em absoluta ineficácia do meio. O que se tem, no caso, é a inidoneidade relativa do meio. Em outras palavras, o meio escolhido pelo agente é relativamente ineficaz, visto que existe sim uma possibilidade (ainda que pequena) de o delito se consumar. Assim, só depois do momento em que o agente estiver efetivamente preso, portanto, seria autorizado discutir a caracterização ou não do crime impossível. Crime putativo e crime impossível 33 Também chamado de imaginário ou erroneamente suposto, é o que existe apenas na mente do agente, que acredita violar a lei penal, quando na verdade o fato por ele concretizado não possui adequação típica. São três as espécies de crime putativo: Crime putativo por erro de tipo: agente acredita ofender uma lei penal incriminadora efetivamente existente, mas à sua conduta faltam elementos da definição típica. Ex: “A” acredita praticar tráfico de drogas ao vender pó branco, que reputa ser cocaína, mas, na verdade, é farinha. Crime putativo por erro de proibição: o erro recai sobre ilicitude do fato, pois supõe violar uma lei penal que não existe. Crime putativo por obra do agente provocador (crime de ensaio, de experiência):quando alguém, insidiosamente, induz pessoa a cometer uma conduta criminosa, e, simultaneamente, adota medidas para impedir a consumação. É o caso do flagrante provocado, pois pela circunstância não haveria como ser consumado. Neste caso, não há possibilidade de prisão em flagrante, se ocorrer deve ser relaxada, pois ilegal. Súmula n.º 145, STF. Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação. Diferença entre crime impossível e crime putativo No crime impossível, o crime buscado pelo agente quer seja pela impropriedade do objeto, quer seja pela ineficácia do meio, é impossível de ser alcançado. Já no delito putativo, o agente pratica uma conduta supondo erroneamente ser típica, quando na verdade é atípica. 34 QUADRO SINÓPTO ERRO DE TIPO Conceito É a falsa percepção da realidade acerca dos elementos constitutivos do tipo penal. Espécies Escusável, inevitável, invencível ou desculpável: não deriva de culpa do agente. Ainda que agisse com a cautela e a prudência de um homem médio, não poderia evitar. Inescusável, evitável, vencível ou indesculpável: provém da culpa do agente. Efeitos O erro de tipo, seja escusável ou inescusável, sempre exclui o dolo. O erro de tipo escusável exclui o dolo e a culpa. Já o erro de tipo inescusável exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo. Descriminantes putativas Erro quanto aos pressupostos fáticos da causa excludente de ilicitude: Teoria Limitada da Culpabilidade: Erro de tipo. Teoria normativa pura da culpabilidade, extrema ou estrita (FCC): Erro de proibição (teoria unitária do erro). Erro quanto à existência da causa excludente de ilicitude: Teoria Limitada da Culpabilidade: Erro de proibição. Teoria normativa pura da culpabilidade, extrema ou estrita (FCC): Erro de proibição. Erro quanto aos limites da causa excludente de ilicitude Teoria Limitada da Culpabilidade: Erro de proibição. 35 Teoria normativa pura da culpabilidade, extrema ou estrita (FCC): Erro de proibição. Erro determinado por terceiro É a falsa percepção da realidade no que diz respeito aos elementos constitutivos do tipo penal em decorrência de ação provocada por outra pessoa, denominada de agente provocador. Erro de tipo acidental Recai sobre circunstâncias secundárias do crime, sobre dados diversos dos elementos constitutivos do tipo penal, ou seja, sobre as circunstâncias (qualificadoras, agravantes genéricas e causas de aumento da pena) e fatores irrelevantes da figura típica. Espécies de erro de tipo acidental Erro sobre a pessoa ou error in persona: O agente com sua conduta criminosa visa certa pessoa, mas por erro de representação, acredita ser aquela em que efetivamente deseja atingir. Erro sobre o objeto: o agente supõe estar praticando a conduta contra o objeto material que deseja, mas por erro acaba atingindo outro. Erro sobre as qualificadoras: o agente age com falsa percepção da realidade desconhecendo a presença de uma qualificadora do crime. Erro sobre o nexo causal ou aberratio causae: É o erro relacionado à causa determinante do crime. O resultado buscado pelo agente ocorreu em razão de um acontecimento diverso daquele que ele inicialmente idealizou. Erro na execução ou aberratio ictus: Ocorre quando o agente por execução imperfeita acaba atingindo um terceiro que, em regra, não fazia parte do seu “animus”. Resultado diverso do pretendido, aberratio delicti ou aberratio criminis: o agente queria praticar determinado crime, mas por erro acabou praticando um crime diverso. 36 ITER CRIMINIS Conceito O iter criminis, ou “caminho do crime”, são as fases que sucedem a prática de um fato previsto em lei como infração penal. Fases Interna - Cogitação: É a ideação do crime na mente do agente. Externa: se divide em outras três: preparação, execução e consumação. Atos preparatórios: cria condições prévias adequadas para realização do crime. Em regra, não são puníveis. Exceção: crimes-obstáculo. Atos executórios: é o momento em que o agente realiza o núcleo do tipo. Consumação: É a reunião de todas as elementares descritas pelo preceito primário de uma lei penal. O exaurimento não integra o iter criminis. Tentativa Ocorre quando a o início da execução de um crime que não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Possui três elementos: Início da execução; Não consumação do crime por circunstâncias alheias; Dolo de consumação. É causa obrigatória de diminuição da pena. O critério decisivo é a maior ou menor proximidade da consumação, ou seja, a distância percorrida do iter criminis. Espécies de tentativa: Tentativa branca ou incruenta: o objetomaterial não é atingido. Tentativa cruenta ou vermelha: o objeto material é atingido. Tentativa perfeita, acabada ou crime falho: pratica todos os atos executórios, mas o resultado não se consuma, por circunstâncias alheias à sua vontade. Tentativa imperfeita, inacabada ou tentativa 37 propriamente dita: o agente inicia a execução sem, contudo, utilizar todos os meios que tinha ao seu alcance, e o crime não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade. NÃO admitem tentativa: Crimes culposos (com exceção da culpa imprópria), Crimes preterdolosos, Crimes unissubsistentes, Crimes omissivos próprios ou puros, Crimes de perigo abstrato, Contravenções penais, Crimes condicionados, Crimes subordinados a condição objetiva de punibilidade, Crimes de atentado ou de empreendimento, Crimes com tipo penal composto de condutas amplamente abrangentes, Crimes habituais, Crimes-obstáculo. Desistência voluntária O agente, por ato voluntário, interrompe o processo executório do crime, desiste de prosseguir por vontade própria. É durante a execução. Os atos executórios não se esgotaram: “posso prosseguir, mas não quero”. É compatível com a tentativa imperfeita ou inacabada. Arrependimento eficaz O agente pratica todos os atos executórios, no entanto, antes que a consumação ocorra, impede a consumação. Ocorre após execução. Compatível com a tentativa perfeita ou acabada. Arrependimento posterior Ocorre quando o responsável pelo crime praticado sem violência à pessoa ou grave ameaça, voluntariamente e até o recebimento da denúncia ou queixa, restitui a coisa ou repara o dano provocado por sua conduta. Crime impossível É o que se verifica quando, o comportamento do agente não tem condições de gerar o resultado delituoso, seja por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto. Trata-se de uma causa de exclusão de tipicidade. 38 LEGISLAÇÃO COMPILADA Erro sobre elementos do tipo Art. 20, Código Penal Descriminantes putativas Art. 20, §1º, Código Penal Erro determinado por terceiro Art. 20, §2º, Código Penal Erro sobre a pessoa Art. 20, §3º, Código Penal Erro sobre a ilicitude do fato Art. 21, Código Penal Art. 21, Parágrafo único, Código Penal Erro na execução ou aberratio ictus Art. 73, Código Penal Resultado diverso do pretendido, aberratio delicti ou aberratio criminis Art. 74, Código Penal Crime consumado Art. 14, I, Código Penal 39 Tentativa Art. 14, II, Código Penal Art. 14, Parágrafo único, Código Penal Desistência voluntária e arrependimento eficaz Art. 15, Código Penal Arrependimento posterior Art. 16, Código Penal Súmula n.º 554, STF. O pagamento de cheque emitido sem provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta ao prosseguimento da ação penal. Crime impossível Art. 17, Código Penal Súmula n.º 567, STJ. Sistema de vigilância realizado por monitoramento eletrônico ou por existência de segurança no interior de estabelecimento comercial, por si só, não torna impossível a configuração do crime de furto. Súmula n.º 145, STF. – Retrata o chamado flagrante preparado também chamado de flagrante provocado, crime de ensaio ou delito putativo por obra do agente provocador. Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação. 40 JURISPRUDÊNCIA (HC 338.840/SC, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 04/02/2016, DJe 19/02/2016) HABEAS CORPUS. IMPETRAÇÃO SUBSTITUTIVA DE RECURSO ESPECIAL. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. ARREPENDIMENTO POSTERIOR. RECONHECIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. REPARAÇÃO INTEGRAL DO DANO. NÃO OCORRÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO. 1. Tratando-se de habeas corpus substitutivo de recurso especial, inviável o seu conhecimento. 2. A causa de diminuição de pena relativa ao artigo 16 do Código Penal (arrependimento posterior) somente tem aplicação se houver a integral reparação do dano ou a restituição da coisa antes do recebimento da denúncia, variando o índice de redução da pena em função da maior ou menor celeridade no ressarcimento do prejuízo à vítima. Na espécie, não foi preenchido o requisito relativo à reparação integral do dano, eis que as instâncias de origem consignaram que houve apenas devolução parcial. Maiores considerações acerca do preenchimento dos requisitos legais para o reconhecimento da minorante implicariam no reexame do acervo fático e probatório dos autos, inviável em sede de habeas corpus. 3. Habeas corpus não conhecido. STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1549809/DF, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 02/02/2016. O instituto do arrependimento eficaz e da desistência voluntária somente são aplicáveis a delito que não tenha sido consumado. STJ. REsp 1561276/BA, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 28/06/2016, DJe 15/09/2016 Não se aplica o instituto do arrependimento posterior (art. 16 do CP) para o homicídio culposo na direção de veículo automotor (art. 302 do CTB) mesmo que tenha sido realizada composição civil entre o autor do crime a 41 família da vítima. Para que seja possível aplicar a causa de diminuição de pena prevista no art. 16 do CP é indispensável . QUESTÕES COMENTADAS Questão 1 (Banca: MPE-GO - 2019 - MPE-GO - Promotor de Justiça Substituto) A respeito da temática do erro, marque a alternativa correta: A) No delito de estupro de vulnerável não se admite o erro de tipo. B) O erro de tipo vencível (ou inescusável) afasta o dolo e a culpa. C) Comete um delito putativo por erro de tipo a mulher que pratica atos abortivos e depois se descobre que na verdade não havia gravidez. D) Há erro de tipo permissivo na hipótese do caçador que está na floresta e atira contra um vulto acreditando se tratar de um animal, mas depois percebe que atirou em seu companheiro de caça. Comentário: a) No delito de estupro de vulnerável é possível o erro de tipo. B) O erro de tipo vencível (ou inescusável) afasta somente o dolo. c) No delito putativo, o agente possui vontade de cometer o delito, mas, em face do erro, pratica uma conduta atípica. O delito putativo pode ser: I) delito putativo por erro de tipo: ocorre erro sobre o elemento do tipo. O agente possui consciência e vontade de cometer o delito, mas, em face do erro acerca dos 42 elementos da figura típica, pratica uma conduta atípica. Exemplo: Maria, imaginando- se grávida e com a intenção de provocar autoaborto, ingere pílula abortiva. Trata-se de conduta atípica, pois não estava realmente grávida. d) A hipótese vertente é caso de erro de tipo essencial. O erro de tipo permissivo está associado às descriminantes putativas, a depender da teoria que se adota. No caso narrado, não há nenhuma situação de excludente de ilicitude putativa. Questão 2 (Banca: FCC - 2018 - MPE-PB - Promotor de Justiça Substituto) O erro sobre elementos do tipo, previsto no artigo 20 do Código Penal, A) exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. B) sempre isenta o agente de pena. C) não isenta o agente de pena, mas esta será diminuída de um sexto a um terço. D) não tem relevância na punição do agente, pois o desconhecimento da lei é inescusável. E) se inevitável, isenta o agente de pena; se evitável, poderá diminuir a pena de um sexto a um terço. Comentário: ERRO DE TIPO - Art. 20 - o erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. INEVITÁVEL - EXCLUI DOLO E CULPA EVITÁVEL - EXCLUI DOLO 43 Questão 3 (Banca: FGV - 2018 - TJ-SC - Analista Jurídico) Flavio, pretendendo matar seu pai Leonel, de 59 anos, realiza disparos de arma de fogocontra homem que estava na varanda da residência do genitor, causando a morte deste. Flavio, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas vem a descobrir que matara um amigo de seu pai, Vitor, de 70 anos, que, de costas, era com ele parecido. À Flavio poderá ser imputada a prática do crime de homicídio doloso, com erro: A) sobre a pessoa, considerando a agravante de crime contra ascendente, mas não a causa de aumento em razão da idade da vítima; B) sobre a pessoa, considerando a causa de aumento em razão da idade da vítima, mas não a agravante de crime contra ascendente; C) de execução, considerando a agravante de crime contra ascendente, mas não a causa de aumento em razão da idade da vítima; D) de execução, considerando a agravante de crime contra ascendente e a causa de aumento em razão da idade da vítima; E) de execução, considerando a causa de aumento da idade da vítima, mas não a agravante de crime contra ascendente. Comentário: Trata-se de uma espécie de Erro sobre a pessoa (error ir persona). É o que se verifica quando o agente confunde a pessoa visada, contra a qual desejava praticar a conduta criminosa, com pessoa diversa. Exemplo: "A", com intenção de matar "B", efetua disparos de arma de fogo contra "C", irmão gêmeo de "B", confundindo-o com aquele que efetivamente queria matar. 44 Trata-se de uma espécie de Erro sobre a pessoa (error ir persona). É o que se verifica quando o agente confunde a pessoa visada, contra a qual desejava praticar a conduta criminosa, com pessoa diversa. Exemplo: "A", com intenção de matar "B", efetua disparos de arma de fogo contra "C", irmão gêmeo de "B", confundindo-o com aquele que efetivamente queria matar. Dessa forma, não se aplica a agravante em razão da idade porque o pai, vítima pretendida, tinha 59 anos, e a agravante é pra maior de 60 anos (§ 4º 121 CP) Questão 4 (Banca: VUNESP - 2018 - PC-SP - Escrivão de Polícia Civil) A respeito dos artigos 13 ao 25 do Código Penal, é correto afirmar que A) a redução da pena em virtude do arrependimento posterior aplica-se a todos os crimes, excepcionados apenas os cometidos com violência. B) o erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena, considerando-se, no entanto, as condições ou qualidades da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime e não as da vítima. C) o agente que, por circunstâncias alheias à própria vontade, não prossegue na execução do crime, só responderá pelos atos já praticados. D) o dever de agir para evitar o resultado incumbe a quem tenha, por lei ou convenção social, obrigação de cuidado, proteção e vigilância. E) são excludentes da ilicitude o estado de necessidade e a legítima defesa, não sendo punível o excesso, se praticado por culpa. Comentário: 45 O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime. Questão 5 (Banca: CESPE - 2018 - EBSERH - Advogado) Com referência à lei penal no tempo, ao erro jurídico-penal, ao concurso de agentes e aos sujeitos da infração penal, julgue o item que se segue. Situação hipotética: Um agente, com a livre intenção de matar desafeto seu, disparou na direção deste, mas atingiu fatalmente pessoa diversa, que se encontrava próxima ao seu alvo. Assertiva: Nessa situação, configurou-se o erro sobre a pessoa e o agente responderá criminalmente como se tivesse atingido a pessoa visada. ( ) Certo ( ) Errado Comentário: Não houve erro sobre a pessoa, mas sim erro na execução (aberratio ictus - Art. 73 CP). Erro sobre a pessoa: O agente, pensando atingir uma vítima, confunde-se, atingindo pessoa diversa da que pretendia. No caso, deve-se levar em conta, para fins de aplicação de pena, as qualidades da pessoa visada (Art. 20 §3º CP). Erro na Execução: O agente, querendo atingir determinada pessoa, por inabilidade ou outro motivo qualquer, erra na execução do crime, atingindo pessoa diversa da pretendida. O agente responderá pelo crime, levando-se em consideração as características da pessoa visada (vítima virtual). 46 Questão 6 (Banca: FEPESE - 2019 - SJC-SC - Agente Penitenciário) De acordo com o Código Penal Brasileiro, é correto afirmar: A) O crime na forma tentada deverá reunir todos os elementos de sua definição legal. B) Para se considerar um crime tentado, basta que ele tenha iniciado a sua execução. C) O crime tentado será punido com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída pela metade. D) Quando o agente, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução de um crime, ele será considerado tentado. E) Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime. Comentário: a) O crime na forma tentada não precisa reunir todos os elementos de sua definição legal. Se reunir todos os elementos, será CONSUMADO. b) Para ser crime tentado, além do início da execução, é necessário que haja dolo na consumação e que o crime não se consume por circunstâncias alheias à vontade do agente. c) Pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços. 47 d) Quando o agente, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução de um crime, será desistência voluntária. e) Quando o agente, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução de um crime, Questão 7 (Banca: CESPE - 2019 - TCE-RO - Procurador do Ministério Público de Contas) A respeito de consumação e tentativa delitiva, julgue os itens a seguir. I Tentativa inacabada é impunível, pois nela é impossível a consumação delitiva pela ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto material. II Nos casos de desistência voluntária e arrependimento eficaz, o agente responderá apenas pelos atos delitivos já praticados, mas não por delito tentado. III Crime monossubsistente, contravenção penal e crime preterdoloso não admitem punição por tentativa. IV No caso de crime habitual ou continuado, a consumação se prolonga no tempo por vontade do agente, e o prazo prescricional se inicia quando cessada a consumação. Estão certos apenas os itens: A) I e II. B) I e IV. C) II e III. D) I, III e IV. E) II, III e IV. 48 Comentário: I) Na tentativa inacabada/imperfeita o agente não consegue realizar todo o seu plano executório, pois é interrompido no desenrolar da ação, sendo possível que o crime se consuma. O conceito da alternativa se refere ao "crime impossível/ tentativa inidônea/ inadequada/ quase crime". II) Na tentativa inacabada/imperfeita o agente não consegue realizar todo o seu plano executório, pois é interrompido no desenrolar da ação, sendo possível que o crime se consuma. O conceito da alternativa se refere ao "crime impossível/ tentativa inidônea/ inadequada/ quase crime". III) Crime unissubsistente (monossubsistente), contravenção penal e crime preterdoloso não admitem punição por tentativa. IV) Nos crimes habituais, o prazo da prescrição inicia-se da data da última das ações que constituem o fato típico (STF); Questão 8 (Banca: VUNESP - 2019 - Prefeitura de Cerquilho - SP - Procurador Jurídico) Assinale a alternativa correta. A) Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. B) Quando se tratar de crime continuado, a prescrição regula-se pela pena imposta na sentença e compreende o acréscimo decorrente da continuação. C) A sentença concessiva do perdão judicial é declaratória da extinção da punibilidade, mas subsistemos efeitos secundários da condenação. 49 D) A pena para o crime de quem faz uso de selo público falsificado, destinado a autenticar atos oficiais de Município, é de reclusão de um a quatro anos e multa e é aumentada em um terço se o agente é funcionário público. E) A divulgação indevida praticada por funcionário público, com o fim de beneficiar a si ou a outrem, ou de comprometer a credibilidade do certame, conteúdo sigiloso de exame ou processo seletivo previstos em lei com danos à Administração Pública é punível com reclusão de dois a seis anos de reclusão e multa. Comentário: Art. 16 - nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída à coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de 1/3 a 2/3. Questão 9 (Banca: MPE-SC - 2019 - Promotor de Justiça) O arrependimento eficaz somente se configura (é necessário) em relação à tentativa perfeita. ( ) Certo ( ) Errado 50 Comentário: A diferença entre desistência voluntária e arrependimento eficaz é que, na desistência voluntária, o agente não esgota todos os atos executórios tendentes a consumação do crime. Já no arrependimento eficaz, o agente pratica todos os atos executórios aptos à consumação. Assim sendo a desistência voluntária está para a tentativa imperfeita, como o arrependimento eficaz está para tentativa perfeita. Questão 10 (Banca: CESPE - 2019 - TJ-DFT - Titular de Serviços de Notas e de Registros) A respeito de institutos penais previstos no ordenamento brasileiro, julgue os itens seguintes. I A reparação do dano ou a restituição da coisa, por ato voluntário, até o recebimento da denúncia ou da queixa configura o arrependimento eficaz e permite a redução da pena de um a dois terços. II Não se admite o arrependimento eficaz após a consumação do delito, de modo que o agente não será beneficiado com a causa de exclusão de tipicidade. III Há desistência voluntária quando o agente promove uma nova atitude, diversa da que originou o ato criminoso iniciado, para obstar a produção do resultado, de forma que só responderá penalmente se o resultado se confirmar. Assinale a opção correta. A) Apenas o item I está certo. B) Apenas o item II está certo. C) Apenas os itens I e III estão certos. D) Apenas os itens II e III estão certos. 51 E) Todos os itens estão certos. Comentário: I) reparação do dano ou a restituição da coisa, por ato voluntário, até o recebimento da denúncia ou da queixa configura o arrependimento posterior e permite a redução da pena de um a dois terços. II) O arrependimento eficaz ocorre quando o agente pratica alguma conduta para salvaguardar o bem jurídico que já foi colocado em risco. Em tal situação, a fase de execução foi realizada, entretanto, o agente agrega nova conduta a fim de evitar o sacrifício do bem tutelado, salvando-o. Note que a execução do crime aconteceu, mas não o seu exaurimento. III) Há arrependimento eficaz quando o agente promove uma nova atitude, diversa da que originou o ato criminoso iniciado, para obstar a produção do resultado, de forma que só responderá penalmente se o resultado se confirmar. Questão 11 Delegado de Polícia Civil/AL/2012 Apesar de, no campo fático, ser possível ocorrer a tentativa de contravenção penal, esta, quando se desenvolve na forma tentada, não é penalmente alcançável. ( ) Certo ( ) Errado 52 Comentário: GABARITO COMENTADO: CERTA. Vide artigo 4º da Lei das Contravenções Penais: “Art. 4º Não é punível a tentativa de contravenção”. Questão 12 Delegado de Polícia Civil/MG/2018 Com relação ao iter criminis, é CORRETO afirmar: (A) No crime falho ou na tentativa imperfeita, o processo de execução é integralmente realizado pelo agente e o resultado é atingido. (B) Não existe desistência voluntária no caso de agente que desiste de prosseguir com os atos de execução por conselho de seu advogado, já que ausente a voluntariedade. (C) Com relação à tentativa, o Código Penal adota, como regra, a teoria objetiva e aplica ao agente a pena correspondente ao crime consumado, reduzida de um a dois terços, conforme maior ou menor tenha sido a proximidade do resultado almejado. (D) O arrependimento posterior tem natureza jurídica de causa de exclusão da tipicidade, desde que restituída a coisa ou reparado o dano nos crimes praticados sem violência ou grave ameaça até o recebimento da denúncia ou queixa. Comentário: GABARITO COMENTADO: letra C. O código efetivamente adota, em relação à tentativa, a teoria objetiva, com aplicação da pena do crime consumado, diminuída de 1/3 a 2/3 (parágrafo único do artigo 14) 53 Questão 13 Delegado de Polícia/AL/2012 Considere que Pedro, penalmente imputável, pretendendo matar Rafael, seu desafeto, aponta em sua direção uma arma de fogo e aperta o gatilho por diversas vezes, não ocorrendo nenhum disparo em razão de defeito estrutural da arma que, de forma absoluta, impede o seu funcionamento. Nessa situação, Pedro será punido pela tentativa delituosa, porquanto agiu com manifesta vontade de matar José . ( ) Certo ( ) Errado Comentário: GABARITO COMENTADO: ERRADA. Trata-se de crime impossível por ineficácia absoluta do meio (o nosso Código Penal adotou a teoria objetiva temperada no artigo 17). Questão 14 Delegado de Polícia Civil/MG/2018 NÃO é um elemento do tipo culposo de crime: (A) Conduta involuntária. (B) Inobservância de dever objetivo de cuidado. (C) Previsibilidade objetiva. (D) Tipicidade. Comentário: GABARITO COMENTADO: letra A. Para que se configure crime culposo é necessário: a) conduta humana voluntária; b) inobservância do dever de cuidado; c) resultado não desejado; d) nexo de causalidade; e) previsibilidade objetiva; f) tipicidade. 54 GABARITO Questão 1 - C Questão 2 -A Questão 3 -A Questão 4 -B Questão 5 -Errado Questão 6 - E Questão 7 -C Questão 8 -A Questão 9 –Correto Questão 10 – B Questão 11 –C Questão 12 –C Questão 13–E Questão 14–A 55 QUESTÃO DESAFIO Conforme a Teoria da Imputação Objetiva, o que fundamenta a atipicidade das lesões corporais causadas durante uma prática esportiva, como o boxe? Máximo de 5 linhas 56 GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO A teoria da imputação objetiva, em comparação ao finalismo, acrescenta duas novas elementares no tipo objetivo, sendo uma delas: a criação do risco seja proibida pelo Direito. Logo, sendo a prática desportiva aceita, as lesões provocadas em decorrência dela não permitem a formação do tipo objetivo. Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta: Imputação Objetiva e Elementares do Tipo Objetivo A Teoria da Imputação Objetiva foi desenvolvida por Claus Roxin em 1970 no ensaio "reflexões sobre a problemática da imputação do direito penal". Para os adeptos da Teoria da Imputação Objetiva, o sistema finalista, ao limitar o tipo objetivo à relação de causalidade, de acordo com a Teoria da Equivalência dos Antecedentes, não resolve todos os problemas inerentes à imputação. Assim, visando à solução desses problemas, a Teoria da Imputação insere duas novas elementares no tipo objetivo, que deixa de ser só causalidade: criação de um risco proibido e realização do risco no resultado. (MASSON, Cleber; Direito Penal - Parte Geral; 13 ed.; Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2019, p.214). Sua função é limitar a responsabilidade penal, pois a atribuição de um resultado a uma pessoa não é determinada pela relação de causalidade, mas é necessário outro nexo, de modo que esteja presente a realização de um risco proibido pela norma. (CAMARGO, AntonioLuís Chaves. Imputação Objetiva e direito penal brasileiro. São Paulo: Cultural Paulista, 2002, p.70). Essa teoria é aplicável exclusivamente aos crimes materiais. Risco criado deve ser proibido pelo direito Sendo um dos pressupostos da imputação objetiva, a criação do risco proibido pelo direito, desenvolve a ideia de que nem toda ação perigosa é proibida pelo direito. Deve-se fazer uma ponderação entre a necessidade de proteção de determinado bem jurídico e o interesse geral de liberdade. (MASSON, Cleber; Direito Penal - Parte Geral; 13 ed.; Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2019, p.215). 57 Como esclarece Gunther Jakobs: "um comportamento que gera um risco permitido é considerado socialmente normal, não porque no caso concreto esteja tolerado em virtude do contexto em que se encontra, mas porque nessa configuração é aceito de modo natural. Portanto, os comportamentos que criam riscos permitidos não são comportamentos que devam ser justificados, mas que não realizam tipo algum." (JAKOBS, Gunther. A imputação objetiva no Direito Penal. São Paulo: RT, 2000, P.38). Nesse sentido é a orientação do STJ: "de acordo com a Teoria Geral da Imputação Objetiva o resultado não pode ser imputado ao agente quando decorrer da prática de um risco permitido ou de uma ação que visa a diminuir um risco não permitido; o risco permitido não realize o resultado concreto; e o resultado se encontre fora da esfera de proteção da norma. O risco permitido deve ser verificado dentro das regras do ordenamento social, para o qual existe uma carga de tolerância genérica. É o risco inerente ao convívio social e, portanto, tolerável. Hipótese em que o agente agiu em desconformidade com as regras de trânsito (criou um risco não permitido), causando o resultado jurídico abrangido pelo fim de proteção da norma de cuidado - morte da vítima, atraindo a incidência da imputabilidade objetiva". (REsp 822517/DF). 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alves, Jamil Chaim. Manual de direito penal: parte geral e especial. Juspodivm,2020. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de direito penal: parte geral (arts. 1º ao 120). 3. ed. Salvador: JusPodivm, 2015. Estefam, André: Direito penal esquematizado: parte geral / André Estefam e Victor Eduardo Rios Gonçalves; coordenador Pedro Lenza. – 5. ed. – São Paulo: Saraiva, 2016. – (Coleção esquematizado). Masson, Cleber. Direito Penal: parte geral (arts. 1º a 120) – vol. 1 / Cleber Masson. – 13. ed. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019. DELEGADO DE POLÍCIA CIVIL Direito Penal Capítulo 4 1 SUMÁRIO DIREITO PENAL, Capítulo 4 ........................................................................................................................................... 4 4. Ilicitude .......................................................................................................................................................................... 4 4.1 Conceito ................................................................................................................................................................ 4 4.2 Formas de ilicitude ................................................................................................................................................ 4 4.3 Terminologia ......................................................................................................................................................... 4 4.4 Ilicitude genérica e ilicitude específica ................................................................................................................. 5 4.5 Ilicitude penal e ilicitude extrapenal ..................................................................................................................... 5 4.6 Causas de exclusão da ilicitude ............................................................................................................................. 6 4.6.1 Introdução ............................................................................................................................................................. 6 4.6.2 Nomenclatura ....................................................................................................................................................... 6 4.6.3 Previsão legal ........................................................................................................................................................ 7 4.6.4 Elementos objetivos e subjetivos das causas de exclusão da ilicitude ................................................................. 8 4.6.5 Causas supralegais de exclusão da ilicitude .......................................................................................................... 8 4.7 CONSENTIMENTO DO OFENDIDO ......................................................................................................................... 9 4.7.1 Aplicabilidade ........................................................................................................................................................ 9 4.7.2 Requisitos .............................................................................................................................................................. 9 4.8 ESTADO DE NECESSIDADE ................................................................................................................................... 10 4.8.1 Dispositivo legal .................................................................................................................................................. 10 4.8.2 Conceito .............................................................................................................................................................. 11 4.8.3 Natureza jurídica ................................................................................................................................................. 11 4.8.4 Teorias ................................................................................................................................................................. 11 4.8.5 Requisitos ............................................................................................................................................................ 12 4.8.6 Causa de diminuição da pena ............................................................................................................................. 15 4.8.7 Espécies de estado de necessidade .................................................................................................................... 15 4.8.8 Estado de necessidade recíproco ........................................................................................................................ 17 4.8.9 Comunicabilidade do estado de necessidade ..................................................................................................... 17 4.8.10 Estado de necessidade e crimes permanentes e habituais ................................................................................ 17 4.8.11 Estado de necessidade e erro na execução ........................................................................................................ 18 4.9 LEGÍTIMA DEFESA................................................................................................................................................ 18 4.9.1 Introdução ........................................................................................................................................................... 18 4.9.2 Natureza jurídica e conceito ............................................................................................................................... 18 4.9.3 Requisitos legais ..................................................................................................................................................19 2 4.9.4 Legítima defesa e pacote anticrime .................................................................................................................... 21 4.9.5 Legítima defesa e vingança ................................................................................................................................. 22 4.9.6 Desafio e legítima defesa .................................................................................................................................... 22 4.9.7 Espécies de legítima defesa ................................................................................................................................ 23 4.9.8 Legítima defesa contra a multidão ..................................................................................................................... 24 4.9.9 Legítima defesa contra pessoa jurídica ............................................................................................................... 24 4.9.10 Legítima defesa e aberratio ictus ........................................................................................................................ 24 4.9.11 Diferença entre estado de necessidade e legítima defesa ................................................................................. 24 4.9.12 Existência simultânea de legítima defesa e de estado de necessidade .............................................................. 25 4.9.13 Legítima defesa e relação com outras excludentes: ........................................................................................... 26 4.10 ESTRITO CUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL ........................................................................................................ 27 4.10.1 Dispositivo legal e natureza jurídica ................................................................................................................... 27 4.10.2 Conceito .............................................................................................................................................................. 27 4.10.3 Fundamento ........................................................................................................................................................ 27 4.10.4 Dever legal .......................................................................................................................................................... 28 4.10.5 Destinatários da excludente ............................................................................................................................... 28 4.10.6 Limites da excludente ......................................................................................................................................... 28 4.10.7 Estrito cumprimento de dever legal e crimes culposos ...................................................................................... 28 4.10.8 Comunicabilidade da excludente da ilicitude ..................................................................................................... 29 4.11 EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO ........................................................................................................................ 29 4.11.1 Introdução ........................................................................................................................................................... 29 4.11.2 Limites da excludente ......................................................................................................................................... 29 4.11.3 Costumes ............................................................................................................................................................. 29 4.11.4 Lesões em atividades esportivas ......................................................................................................................... 30 4.11.5 Intervenções médicas ou cirúrgicas .................................................................................................................... 30 4.11.6 Ofendículos ......................................................................................................................................................... 31 4.12 EXCESSO .............................................................................................................................................................. 31 4.12.1 Introdução ........................................................................................................................................................... 31 4.12.2 Conceito .............................................................................................................................................................. 32 4.12.3 Espécies ............................................................................................................................................................... 32 QUADRO SINÓPTO ......................................................................................................................................................... 34 LEGISLAÇÃO COMPILADA............................................................................................................................................ 41 JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 42 QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 43 3 GABARITO ........................................................................................................................................................................... 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................................. 62 4 DIREITO PENAL Capítulo 4 4. Ilicitude 4.1 Conceito Ilicitude é a contrariedadeentre o fato típico praticado por alguém e o ordenamento jurídico, capaz de lesionar ou expor a perigo de lesão os bens jurídicos penalmente tutelados. É um juízo posterior e dependente do juízo de tipicidade de modo que todo fato penalmente ilícito também é, necessariamente, típico. 4.2 Formas de ilicitude A ilicitude formal é a relação de contrariedadeentre o fato e o direito. Na doutrina, prevalece o entendimento de que a ilicitude é formal, consistindo no exame da presença ou não das causas de exclusão. Já a ilicitude materialé o conteúdo material do injusto. O conteúdo antissocial do comportamento, capaz de lesar ou de expor a lesão o bem jurídico tutelado. Apenas a ilicitude material é que permite a criação das causas supralegais de exclusão da ilicitude. 4.3 Terminologia Normalmente, a doutrina utiliza os termos ilicitude e antijuridicidade como sinônimos. Todavia, Cleber Masson afirma que isso não é correto, principalmente em provas discursivas e orais. 5 A justificativa reside no fato de que: “a infração penal (crime e contravenção penal) constitui-se em um fato jurídico, já que a sua ocorrência provoca efeitos no campo jurídico. Logo, é incoerente imaginar que um crime (fato jurídico) seja revestido de antijuridicidade. A contradição é óbvia: um fato jurídico seria, ao mesmo tempo, antijurídico. Por tal razão, mais acertado falar-se em ilícito e em ilicitude, em vez de antijurídico e antijuridicidade”. Injusto – é o fato típico e antijurídico. Logo, crime é um injusto culpável. Enquanto a antijuridicidade é apenas um dos elementos do injusto. 4.4 Ilicitude genérica e ilicitude específica Ilicitude genéricaencontra-se fora do tipo penal incriminador. O fato típico, unicamente considerado, já está em contradição com o ordenamento jurídico, ou seja, no crime de homicídio,"matar alguém" é conduta contrária ao direito, salvo as causas de justificação. A ilicitude se situa fora do tipo penal. Nada mais é do que antijuridicidade propriamente dita, um dos substratos do crime. Na ilicitude específica, está situada no interior do tipo penal, que contem em sua estrutura algum elemento ligado à ilicitude do fato. São elementos normativos do tipo, cuja sua ausência provoca atipicidade do fato. Por exemplo, o crime de violação de correspondência (art. 151 do CP). Art. 151 - Devassarindevidamente (o crime só existe quando a devassa for indevida. Sendo devida não haverá crime)o conteúdo de correspondência fechada, dirigida a outrem: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa. 4.5 Ilicitude penal e ilicitude extrapenal Essa divisão se relaciona intimamente com o caráter fragmentário do Direito Penal, tendo em vista que o Direito Penal não se interessa por toda ilicitude. Apenas as ilicitudes mais graves interessam ao Direito Penal. 6 4.6 Causas de exclusão da ilicitude Atenção futuro Delta tema de muita incidência. 4.6.1 Introdução A doutrina brasileira acolhe a Teoria Indiciária da Tipicidade, em que todo fato típico se presume ilícito, isto é, o comportamento humano previsto em lei como crime ou contravenção penal, presume-se o seu caráter ilícito. Todavia, essa presunção é relativa, tendo em vista que um fato típico pode ser lícito, desde que o seu autor demonstre ter agido acobertado por uma causa de exclusão da ilicitude. 4.6.2 Nomenclatura As causas de exclusão da ilicitude também são chamadas de:1 Causa de justificação; Justificantes Descriminantes Tipos penais permissivos Eximentes A palavra “dirimente” nada tem a ver com a área da ilicitude. Em verdade, significa causa de exclusão da culpabilidade. Cuidado com as expressões que os examinadores às vezes trocam para confundir nas assertivas: Exculpante – Culpabilidade Justificante – Antijuridicidade. 1 Vide questão 9 do material 7 4.6.3 Previsão legal O Código Penal possui em sua íntegra causas genéricas e específicas de exclusão da ilicitude. Causas genéricas, ou gerais, são as previstas na Parte Geral do Código Penal e que se aplicam a qualquer espécie de infração penal: Estado de necessidade; Legitima defesa; Estrito cumprimento do dever legal Exercício regular de direito. Art. 23 - Não há crime quando o agente pratica o fato: I - em estado de necessidade; II - em legítima defesa III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. Causas específicas, ou especiais, previstas na Parte Especial do Código Penal (e na legislação especial), com aplicação unicamente a determinados crimes, ou seja, somente àqueles delitos a que expressamente se referem. Exemplo: Art. 128 do CP – hipóteses de aborto permitido Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: Aborto necessário I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; Aborto no caso de gravidez resultante de estupro; II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. Há, entretanto, causas excludentes da ilicitude contidas fora do Código Penal, tais como: Art. 37 da Lei 9.605/98 – modalidade específica de estado de necessidade 8 Art. 37. Não é crime o abate de animal, quando realizado: I - em estado de necessidade, para saciar a fome do agente ou de sua família; II - para proteger lavouras, pomares e rebanhos da ação predatória ou destruidora de animais, desde que legal e expressamente autorizado pela autoridade competente; III – (Vetado); IV - por ser nocivo o animal, desde que assim caracterizado pelo órgão competente. 4.6.4 Elementos objetivos e subjetivos das causas de exclusão da ilicitude Há discussão na doutrina se o reconhecimento de uma causa de exclusão de ilicitude depende somente de requisitos legalmente previstos pelo Direito Penal (elementos objetivos),relacionados ao aspecto exterior, ou se está condicionado a um requisito subjetivo, ligado internamente à vontade do agente, a sua consciência de que atua sob a proteção da justificativa (elementos subjetivos). Indaga-se, dessa forma, se a exclusão de ilicitude exige a presença de elementos objetivos e subjetivos, ou apenas dos elementos objetivos? Para a primeira corrente, aderida por José Frederico Marques e E. Magalhães Noronha, o direito positivo não exige a presença do requisito subjetivo. Já para uma segunda corrente, capitaneada por Heleno Cláudio Fragoso, Júlio Fabbrini Mirabete, Francisco de Assis Toledo e Damásio E. de Jesus, afirma que o reconhecimento de uma causa de exclusão da ilicitude reclama o conhecimento da situação justificante pelo agente. Corrente Majoritária – teoria subjetiva. 4.6.5 Causas supralegais de exclusão da ilicitude As causas de exclusão da ilicitude não se limitam às hipóteses previstas em lei. É pacífica, na doutrina e na jurisprudência, que é possível a construção de causas supralegais não previstas em lei da exclusão da ilicitude, não ofendendo o princípio da reserva legal. 9 A causa supralegal de exclusão da ilicitude por todos aceita é o consentimento do ofendido. São três as teorias que buscam fundamentar o consentimento do ofendido como causa supralegal de exclusão da ilicitude: a) Ausência de interesse; b) Renúncia à proteção do Direito Penal; e a c) Ponderação de valores. A teoria da ponderação de valoresé a teoria mais aceita no direito comparado. Pra ela, o consentimento funciona como causa de justificação quando o Direito concede prioridade ao valor da liberdade de atuação da vontade frente ao desvalor da conduta e do resultado causado pelo delito que atinge bem jurídico disponível. 4.7 CONSENTIMENTO DO OFENDIDO Nélson Hungria, na elaboração do CP/40, afirma que o consentimento do ofendido estava previsto como uma causa de exclusão da ilicitude, mas foi excluído por reputar um dispositivo deste naipe “evidentemente supérfluo”. Por isso, acabou sendo aceito como supralegal de exclusão da ilicitude. 4.7.1 Aplicabilidade O consentimento do ofendido, como tipo penal permissivo, tem aplicabilidade restrita aos bens jurídicos forem disponíveis, ou seja, quando o único titular do bem ou interesse juridicamente protegido é a pessoa que aquiesce e que pode livremente dele dispor. Exemplo: a) crimes contra o patrimônio; b) crimes contra a honra; c) crimes contra a liberdade individual. Além disso, o consentimento do ofendido somente pode afastar a ilicitude nos delitos em que o titular do bem jurídico tutelado pela lei penal é uma pessoa, física ou jurídica. Não existe consentimento quando o bem pertencer a uma coletividade (direito metaindividual). 4.7.2 Requisitos Para ser eficaz, o consentimento do ofendido há de preencher os seguintes requisitos: 10 Deve ser expresso, não importando sua forma (oral ou por escrito, solene ou não). Todavia, tem se admitido o consentimento presumido (ou ficto), ou seja, nas hipóteses em que se possa, com razoabilidade, concluir que o agente atuou supondo que o titular do bem jurídico teria consentido se conhecesse as circunstâncias em que a conduta foi praticada. Deve ser livre, não pode ser fruto de coação ou fraude. Deve estar de acordo com a moral e os bons costumes. O consentimento deve ser anterior ou concomitante a consumação do delito. A anuência posterior à consumação do crime não afasta a ilicitude. O ofendido precisa ser pessoa capaz. Por fim, importante mencionar que há certos crimes em que o tipo penal reclama o dissenso da vítima. Por exemplo, no estupro o núcleo é constranger (fazer algo contra a sua vontade), caso a vítima concorde não há crime, seu consentimento exclui a tipicidade. 4.8 ESTADO DE NECESSIDADE 4.8.1 Dispositivo legalO Estado de Necessidade está previsto no art. 24 do Código Penal, observe: Art. 24 - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. 2 § 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo.3 § 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços.4 2 Vide questão 7 do material 3 Vide questão 1 do material 4 Vide questão 2 do material 11 4.8.2 Conceito Estado de necessidade é a causa de exclusão da ilicitude que depende de uma situação de perigo, caracterizada pelo conflito de interesses lícitos, ou seja, uma colisão entre bens jurídicos pertencentes a pessoas diversas, que se soluciona com a autorização conferida pelo ordenamento jurídico para o sacrifício de um deles para a preservação do outro. (Cleber Masson). 4.8.3 Natureza jurídica O art. 23, I, do Código Penal deixa claro tratar-se de causa de exclusão da ilicitude. A doutrina discute, contudo, acerca da essência do estado de necessidade: direito ou faculdade. Atualmente, é pacífico que o estado de necessidade é um direito subjetivo do réu, pois o juiz não tem discricionariedade para concedê-lo, isto é, presentes os requisitos legais, tem o magistrado a obrigação de decretar a exclusão da ilicitude; e uma faculdade, frente ao titular do bem jurídico em colisão, uma vez que um deles não está obrigado a suportar a ação alheia. 4.8.4 Teorias Sobre a natureza jurídica do estado de necessidade, existem as seguintes teorias: Teoria unitária:foi à teoria adotada pelo Código Penal.5 Sustenta que o estado de necessidade somente pode ser admitido como causa excludente da ilicitude, desde que o bem jurídico sacrificado seja de igual valor ou de valor inferior ao bem jurídico preservado. Essa teoria admite somente o estado de necessidade justificante (excludente da ilicitude),quando o bem jurídico sacrificado apresenta valor igual ou inferior ao bem jurídico preservado. Se, contudo, o bem jurídico sacrificado reveste-se de valor superior ao bem jurídico preservado, não se caracteriza o estado de necessidade (há crime), admitindo-se a redução da pena, de um a dois terços.6 5 Vide questão 6 do material 6 Vide questão 5 do material 12 Teoria diferenciadora:Adotada pelo Código Penal Militar7. Diferencia o estado de necessidade justificante (excludente da ilicitude) do estado de necessidade exculpante (excludente da culpabilidade). Estado de necessidade justificante:há o sacrifício de bem jurídico de valor igual ou inferior ao do bem jurídico preservado. Estado de necessidade exculpante:o bem jurídico sacrificado for de valor superior ao do bem jurídico protegido. Não se caracteriza a excludente da ilicitude, e sim uma causa de exclusão da culpabilidade, em face da inexigibilidade de conduta diversa. Teoria da equidade: prega a manutenção da ilicitude e da culpabilidade. Teoria da escola positiva: pugna também pela manutenção da ilicitude. 4.8.5 Requisitos Os requisitos estão no caput e no §1º do art. 24, de forma cumulativa. Podem-se dividir os requisitos em dois grupos: situação de necessidade e fato necessitado. Situação de necessidade PERIGO ATUAL Perigo é a probabilidade de dano ao bem jurídico, não sendo necessária a efetiva lesão, basta que seja possível o dano. O perigo poderá ser causado pela natureza, por seres irracionais (animal) ou por uma atividade humana. Além disso, deve ser efetivo ou real, ou seja, a sua existência deve ter sido comprovada no caso concreto. O Código Penal exige seja o perigo atual: deve estar ocorrendo no momento em que o fato é praticado. Sua presença é imprescindível. Indaga-se o perigo iminente (aquele que está prestes a ocorrer) caracteriza o estado de necessidade? Embora o Código Penal tenha silenciado a respeito, a doutrina majoritária entende que o perigo iminente se equipara ao perigo atual, por isso autoriza o estado de necessidade, excluindo o crime. 7 Vide questão 5 do material 13 Rogério Sanches, diversamente de Cleber Masson, afirma que a maioria da doutrina entende que não haverá estado de necessidade quando o perigo for iminente, uma vez que o CP não previu tal hipótese (página 252 – Manual de Direito Penal – parte geral) E, por fim, quanto ao perigo futuro (aquele que irá ocorrer) e perigo passado (aquele que já ocorreu) não caracterizam o estado de necessidade. PERIGO NÃO PROVOCADO VOLUNTARIAMENTE PELO AGENTE Quem, voluntariamente, cria uma situação de perigo não pode enfocar o estado de necessidade. A discussão reside na expansão da palavra “voluntariamente”, qual seria seu alcance, se abrange apenas o perigo provocado dolosamente, ou também o perigo provocado a título de culpa. Destaca-se que quando o perigo for provocado dolosamente pelo agente, obviamente, não caberá estado de necessidade. Em relação ao perigo provocado de forma culposa,Magalhães Noronha, Francisco de Assis Toledo, José Frederico Marques e Nélson Hungria, doutrina amplamente majoritária, sustenta que não caberá estado de necessidade, tendo em vista que no crime culposo, praticado nos casos de imprudência, a negligência e a imperícia derivam da conduta voluntária do autor. Rogério Sanches, novamente, diversamente de Cleber Masson, afirma que a maioria da doutrina entende a expressão “voluntariamente” abrange apenas a conduta dolosa. Portanto, o perigo causado por culpa seria abrangido pelo estado de necessidade (página 252 – Manual de Direito Penal – parte geral). Havendo a possibilidade de evitar o perigo ou lesão, não se configura o estado de necessidade. 14 AMEAÇA A DIREITO PRÓPRIO OU ALHEIO Todo e qualquer bem jurídico, próprio ou de terceiro, quando enfrentar um perigo capaz de configurar o estado de necessidade. Exemplo: vida, do patrimônio, da dignidade sexual. Exige-se, todavia, a legitimidade do bem, reconhecido e protegido pelo ordenamento jurídico. Assim, por exemplo, um preso não pode matar o carcereiro para defender a sua liberdade. Ademais, a proteção de bem jurídico de terceiro não exige uma relação de parentesco ou intimidade, pois a eximente se funda na solidariedade que deve reinar entre os indivíduos em geral. Destarte, é possível o estado de necessidade para a defesa de bens jurídicos pertencentes a pessoas desconhecidas, e, inclusive, de pessoas jurídicas, que também são titulares de direitos. AUSÊNCIA DO DEVER LEGAL DE ENFRENTAR O PERIGO Nos termos do art. 24, § 1.º, do Código Penal, aquele que tem o dever legal de evitar o perigo não pode invocar estado de necessidade. A discussão gira em torno do alcance da expressão “dever legal de enfrentar o perigo”. Para uma primeira corrente, a expressão deve ser interpretada restritivamente. Portanto, “dever legal” abrange somente o dever decorrente da lei em sentido amplo (lei, medida provisória, decreto, regulamento, portaria, etc.). Uma segunda corrente, por sua vez, afirma que a expressão há de ser interpretada extensivamente, compreendendo, além do dever legal, qualquer espécie de dever jurídico, tal como o dever contratual. É a posição mais acertada para Cleber Masson. Fato necessitado Satisfeitos aos requisitos acima relacionados, restando configurada a situação de necessidade, o agente pode praticar a conduta lesiva a outro bem jurídico (fato necessitado). 15 Esse fato, contudo, deve obedecer a dois outros requisitos: inevitabilidade do perigo por outro modo e proporcionalidade. INEVITABILIDADE DO PERIGO POR OUTRO MODO O fato necessitado deve ser absolutamente imprescindível para evitar a lesão ao bem jurídico. Havendo qualquer outra forma de preservaro bem jurídico, não se pode sacrificar bem alheio, inexistindo, assim, o estado de necessidade. Chamado de commodusdiscessus(saída mais cômoda), o estado de necessidade apresenta nítido caráter subsidiário: quando possível à fuga, por ela deve optar o agente, que também deve sempre proporcionar a qualquer bem jurídico o menor dano possível. PROPORCIONALIDADE Também conhecido como razoabilidade, considera os valores dos bens jurídicos em conflito, ou seja, a relação de importância entre o bem jurídico sacrificado e do bem jurídico preservado no caso concreto. 4.8.6 Causa de diminuição da pena No Código Penal, o estado de necessidade é causa de diminuição de pena, ocorre quando o agente, visando proteger bem jurídico próprio ou de terceiro, sacrifica outro bem jurídico de maior valor. Não há exclusão do crime. É mantida a tipicidade, mas é possível a diminuição da pena, dependendo das condições concretas em que o fato foi praticado. Art. 24, § 2.º, do Código Penal. Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. 4.8.7 Espécies de estado de necessidade A divisão do estado de necessidade leva em conta diversos critérios. Quanto ao bem sacrificado 16 Justificante: o bem sacrificado é de valor igual ou inferior ao preservado. Exclui a ilicitude. O Código Penal adota a Teoria Unitária, logo, só se admite no Direito Penal o estado de necessidade justificante. Exculpante: o bem sacrificado é de valor superior ao preservado. A ilicitude é mantida, mas, no caso concreto, pode afastar a culpabilidade, em face da inexigibilidade de conduta diversa. É adotada pelo Código Penal Militar (Teoria Diferenciadora). PROPORCIONALIDADE Teorias BEM PROTEGIDO BEM SACRIFICADO ESTADO DE NECESSIDADE Teoria Diferenciadora Valor igual ou maior Valor menor ou igual Justificante Valor menor Valor maior Exculpante – exclui a culpabilidade Teoria Unitária Valor maior ou igual Valor menor Justificante Valor menor Valor maior Causa de diminuição de pena Quanto à titularidade do bem jurídico preservado Próprio: protege-se bem jurídico pertencente ao autor do fato necessitado. De terceiro: o autor do fato necessitado tutela bem jurídico alheio. Quanto à origem da situação de perigo Agressivo: o agente sacrifica bem jurídico pertencente a terceiro inocente (aquele que não causou a situação de perigo). É lícito no Direito Penal e lícito no Direito Civil. No entanto, o agente terá de reparar o dano causado ao terceiro, podendo entrar com ação regressiva contra o causador do perigo. Defensivo: o agente sacrifica um bem jurídico pertencente ao causador do perigo. Não há, aqui, a obrigação de indenizar os prejuízos causados. 17 Quanto ao aspecto subjetivo do agente Real: a situação de perigo efetivamente existe, e dela o agente tem conhecimento. Exclui a ilicitude. Putativo: não existe a situação de necessidade, mas o autor do fato pensa que os requisitos legais estão presentes. O agente, por erro, isto é, falsa percepção da realidade que o cerca, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria sua ação legítima. Trata-se de descriminante putativa, mantendo a ilicitude. 4.8.8 Estado de necessidade recíproco É admissível quando duas ou mais pessoas estão, simultaneamente, em estado de necessidade. Não há crime para ninguém, todos são acobertados pela excludente de ilicitude. 4.8.9 Comunicabilidade do estado de necessidade O estado de necessidade possui natureza objetiva, por isso se comunica para todos os envolvidos na prática do fato típico.8 Desta forma, excluindo o crime ou a contravenção penal em relação a algum dos envolvidos, o estado de necessidade se comunica a todos os coautores e partícipes da infração penal. 4.8.10 Estado de necessidade e crimes permanentes e habituais Não se aplica, em regra, o estado de necessidade no campo dos crimes permanentes e habituais, tendo em vista que, não há os requisitos da atualidade do perigo e da inevitabilidade do fato necessitado. Entretanto, a jurisprudência já reconheceu a possibilidade no crime habitual de exercício ilegal de arte dentária (CP, art. 282), em caso atinente à zona rural longínqua e carente de profissional habilitado. 8 Vide questão 10 do material 18 4.8.11 Estado de necessidade e erro na execução O estado de necessidade é compatível com a aberratio ictus, quando o agente, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, atinge pessoa ou objeto diverso do desejado, com o propósito de afastar a situação de perigo a bem jurídico próprio ou de terceiro. 4.9 LEGÍTIMA DEFESA 4.9.1 Introdução Prevista no art. 25 do CP, observe: Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamentedos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. 9 Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão à vítima mantida refém durante a prática de crimes. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019). Para alguns doutrinadores tal previsão é inútil, pois simplesmente descreve uma situação de legitima defesa de terceiro, já abrangida pelo caput. 4.9.2 Natureza jurídica e conceito Trata-se da causa de justificação consistente em repelir injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio, usando moderadamente dos meios necessários. É causa legal e genérica de exclusão da ilicitude. Destarte, o fato típico praticado em legítima defesa é lícito. Não configura crime. A legitima defesa pode ser invocada para proteção de qualquer bem jurídico do próprio agente ou de terceiro. 9 Vide questão 3 do material 19 4.9.3 Requisitos legais Os requisitos da legítima defesa são cumulativos: (1) agressão injusta; (2) atual ou iminente; (3) contra direito próprio ou alheio; (4) reação com os meios necessários; e (5) uso moderado dos meios necessários. AGRESSÃO INJUSTA Agressãoé toda ação ou omissão humana, consciente e voluntária, que lesa ou expõe a perigo de lesão um bem ou interesse consagrado pelo ordenamento jurídico. Trata-se de atividade exclusiva do ser humano.Portanto, só haverá legítima defesa contra condutas de seres humanos (quando causada por animal será estado de necessidade). Todavia, nada impede, entretanto, a utilização de animaiscomo instrumentos do crime, como nos casos em que são ordenados, por alguém, ao ataque de determinada pessoa. Funcionam como verdadeiras armas, autorizando a legítima defesa. Exemplo: “Mévio” determina ao seu cão bravio o ataque contra “Tício”. Esse último poderá matar o animal, acobertado pela legítima defesa. A agressão, ainda, pode emanar de um inimputável. O fato é típico e ilícito, mas não é culpável. Entretanto, é pacífico na doutrina, que a condição de inimputável do agressor, se conhecida do agredido, impõe a este maior diligência no evitar, e maior moderação no repelir o ataque. Assim, não haveria desonra na fuga, e a esta, se possível e capaz de afastar a agressão, deve recorrer o agredido. Por fim, a agressão deve ser injusta, contrária ao Direito. Pode ser dolosa ou culposa. É aquela em que o ser humano não está obrigado a suportar. AGRESSÃO ATUAL OU IMINENTE A agressão injusta deve ser atual (está ocorrendo) ou iminente (prestes a ocorrer). Não se admite legítima defesa contra agressão futura (remota) e contra agressão passada (pretérita). 20 AGRESSÃO A DIREITO PRÓPRIO OU ALHEIO Admite-se legítima defesa própria e legítima defesa de terceiro. Qualquer bem jurídico pode ser protegido pela legítima defesa, com amparo no princípio da solidariedade humana. É possível o emprego da excludente para a tutela de bens pertencentesàs pessoas jurídicas, inclusive do Estado, pois atuam por meio de seus representantes e não podem defender-se sozinhas. Admite-se, também, a legítima defesa do feto e do cadáver. REAÇÃO COM OS MEIOS NECESSÁRIOS São aqueles que o agente tem à sua disposição para repelir a agressão injusta, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem, no momento em que é praticada. Seu cabimento não se exige análise milimétrica, devendo ser analisado de modo flexível. Deve ser feita no caso concreto, considerando-se quais os objetos o agente possuía para repelir a injusta agressão. Se o meio utilizado for desproporcional, estará caracterizado o excesso. O agente irá responder pelo excesso seja ele doloso ou culposo. Ao contrário do que ocorre no estado de necessidade, a possibilidade de fuga ou o socorro pela autoridade pública não impedem a legítima defesa. Não se impõe o commodusdiscessus, ou seja, que o agente utilize uma saída menos lesiva para repelir a agressão injusta. USO MODERADO DOS MEIOS NECESSÁRIOS É o emprego dos meios necessários e suficientes para afastar a agressão injusta. Trata- se da aplicação daproporcionalidade, tanto na reação quanto no bem jurídico tutelado. É o meio menos lesivo dentre os meios à disposição do agredido no momento da agressão, suficiente para repelir o comportamento injusto. O magistrado deve levar em conta o perfil do homem médio. Equiparar o comportamento do agredido com aquele que, em situação semelhante, seria adotado por um ser humano de inteligência e prudência comuns à maioria da sociedade. 21 Além disso, deve fazer um juízo de ponderação, analisando, no caso concreto, a natureza e a gravidade da agressão, a relevância do bem ameaçado, o perfil de cada um dos envolvidos e as características dos meios empreendidos para a defesa. Por fim, o bem jurídico preservado deve ser de valor igual ou superior ao sacrificado, sob pena de configurar excesso. Assim, não se pode invocar legítima defesa aquele que mata uma pessoa pelo simples fato de ter sido por ela ofendido verbalmente. 4.9.4 Legítima defesa e pacote anticrime Na edição extra do Diário Oficial da União (DOU) do dia 24 de dezembro de 2019, foi publicada a Lei n.º 13.964/2019, antigo PL 10.372/2018 — Pacote Anticrime—, sancionada pelo Presidente da República após aprovação no Senado Federal no dia 11 de dezembro de 2019. O prazo de vacatio legis desta lei foi de 30 dias, entrando em vigor no dia 23/01/2020. O jurista Fábio Roque Araújo, no dia 25.10.2019, trouxe várias explicações acerca das mudanças introduzidas pelo Pacote Anticrime. Nesse momento, iremos analisar a novidade trazida por essa lei no que tange a legítima defesa. Primeiramente, cumpre analisar as mudanças de cunho penal com base na ideia de retroatividade da lei. Então, a lei penal não irá retroagir, salvo se for para beneficiar o réu. Naquilo que beneficiar o réu, irá retroagir e alcançar os fatos pretéritos. Do contrário, o que for prejudicial, passa a valer a partir do momento em que a lei entrar em vigor. Algumas alterações, em sua larga maioria, são no sentido de recrudescer a intervenção penal. Não é o caso do Art. 25, parágrafo único do Código Penal, que dispõe: Art. 25, Parágrafo único. Observados os requisitosprevistos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança públicaque repele agressão ou risco de agressão à vítima mantida refémdurante a prática de crimes. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019). Essa não foi uma alteração tão substancial, tendo em vista que isso já era considerado legítima defesa. O legislador apenas veio explicitar uma hipótese que já era considerada como 22 tal. Por exemplo: há uma pessoa mantida refém, e um atirador de elite dar um tiro no sequestrador para salvaguardar a vida da vítima. Isso já era considerado legítima defesa. Isso não era, ao contrário do que muitos imaginam, estrito cumprimento de dever legal. Ora, não existe um dever legal de matar. Aliás, até existe um deve jurídico de matar, nas hipóteses de pena de morte em caso de guerra declarada. Fora isso, não existe outra hipótese de dever legal de matar. Assim, um atirador que atira para salvaguardar a vida da vítima que está sendo mantida refém, não está acobertado pelo estrito cumprimento do dever legal, mas sim, da legítima defesa. A despeito de eventuais polêmicas ainda subsistentes na doutrina, mas isso já era largamente aceito em sede doutrinaria. Dessa forma, é notório que esse paragrafo único acrescentado por essa lei, tem como finalidade explicitar algo que já era considerado pela nossa doutrina. 4.9.5 Legítima defesa e vingança Além da presença do caráter objetivo da legítima defesa, exige-se o elemento subjetivo, qual seja, a vontade de defender-se. Assim, a legítima defesa e a vingança são incompatíveis, tendo em vista que a vontade do agente não é de se defender (falta o elemento subjetivo), mas sim de se vingar. Todavia, nada impede que o agente aproveite de um momento de legítima defesa para se vingar do agressor, desde que objetivamente não exceda os requisitos da necessidade. Nesse caso, a vingança não exclui a legítima defesa, pois presentes os elementos objetivos e subjetivos. Exemplo: “Mévio”, com o desejo antigo de matar “Tício”, em razão de brigas pretéritas, aproveita-se do ataque injustificado de seu desafeto para eliminar a sua vida. 4.9.6 Desafio e legítima defesa O desafio, o duelo, o convite para a luta exclui a legítima defesa. Cada agente irá responder pelos atos que praticou. 23 4.9.7 Espécies de legítima defesa Quanto à forma de reação Agressiva, ou ativa:a reação contra a agressão injusta configura um fato previsto em lei como infração penal. Exemplo: provocar lesões corporais no agressor. Defensiva, ou passiva:aquele que reage limita-se a impedir os atos agressivos, sem praticar um fato típico. Quanto à titularidade do bem jurídico protegido Própria: é aquela em que o agente defende bens jurídicos de sua titularidade. De terceiro:é aquela em que o agente protege bens jurídicos alheios. Quanto ao aspecto subjetivo de quem se defende Real: é a espécie de legítima defesa em que se encontram todos os requisitos previstos no art. 25 do Código Penal. Exclui a ilicitude do fato (CP, art. 23, II). Putativa ou imaginária: É aquela em que o agente acredita que estão presentes os requisitos do art. 25 do CP. Por erro, supõe uma situação de legítima defesa, que na verdade não existe. É hipótese de descriminante putativa. Subjetiva ou excessiva: É aquela que o agente por erro escusável (aceitável, justificável) ultrapassa os limites da legítima defesa. Também conhecida como excesso acidental ou exculpante, ou seja, qualquer pessoa, nas mesmas circunstancias se excederia. É causa supralegal de inexigibilidade de conduta diversa, que exclui portanto, a culpabilidade. Legítima defesa presumida Não existe legítima defesa presumida, deve ser provada no caso concreto. Legítima defesa sucessiva É a reação contra o excesso na legítima defesa. Há, na realidade, uma legítima defesa na legítima defesa. 24 4.9.8 Legítima defesa contra a multidão É admissível a legítima defesa contra multidão, pois esse instituto reclama tão somente uma agressão injusta, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio, emanada de seres humanos, pouco importando sejam eles individualizados ou não. 4.9.9 Legítima defesa contra pessoa jurídica É possível a legítima defesa contra pessoa jurídica, uma vez que esta exterioriza a sua vontade por meio da conduta de seres humanos, permitindo a prática de agressões injustas. 4.9.10 Legítima defesa e aberratio ictus Aberratio ictus é o erro na execução, a exemplo do agente que por erro de pontaria atinge pessoa diversa da desejada. A legítima defesa é compatível com a aberratio ictus.social, derivada do determinismo. A melhor forma de punição [e a medida de segurança por prazo indeterminado, a pena [e um meio de defesa social. 1.9.3 Correcionalismo Penal Chamou-se de Escola Correcionalista, surgiu na Alemanha, amparada por Karl David August Roeder. A pena tem a finalidade de corrigir a injusta e perversa vontade do criminoso e, dessa forma, não pode ser fixa e determinada. Ao contrário, a sanção penal deve serindeterminadae passível de cessação de sua execução quando se tornar prescindível. A finalidade da pena não era a repressão ou punição, muito menos seria a prevenção geral. Mas, tão somente, a prevenção especial. 1.9.4 Tecnicismo Jurídico-Penal Arturo Rocco delimitou o método de estudo do Direito Penal como o positivo, restrito às leis vigentes, cujo objeto é o estudo da norma jurídica em vigor. Representou um movimento de restauração metodológico sobre o estudo do Direito Penal. Dessa forma, NÃO constituiu uma nova escola penal. O Direito Penal tem conteúdo dogmático. Em um primeiro momento, negava a abordagem do livre-arbítrio, bem como a existência do direito natural, sustentando ser a sanção penal mero meio de defesa do Estado contra a periculosidade do agente. Todavia, em uma segunda etapa, mais moderna, o tecnicismo jurídico acabou acolhendo a existência do direito natural, admitindo o livre-arbítrio como fundamento do direito punitivo, voltando a pena a assumir sua índole retributiva. 19 1.9.5 A defesa social Tem por objetivo principal o aprimoramento da sociedade, com a prevenção do crime, tratamento do menor delinquente e a reforma penitenciária. 1.10 Evolução doutrinária do direito penal Tema de grande incidência em concurso público. 1.10.1 Positivismo Jurídico Trouxe o conceito clássico de delito. Atribuíam prioridade do “ser”do direito. A conduta se resume a um mero movimento corporal que produz uma modificação no mundo exterior. A conduta, portanto, era meramente objetiva, vinculada ao resultado pela relação de causalidade. 1.10.2 Neokantismo Penal A prioridade é o dever ser. Permitiu a graduação do injusto de acordo com a gravidade da lesão produzida. A conduta passou a ter um significado social, e já não mais era considerada como mero movimento corporal. Permitiu, ainda, a introdução de elementos normativos e subjetivos nos tipos penais. Adotou-se a teoria psicológica-normativa, revestindo a culpabilidade com o juízo de reprovabilidade. A ilicitude passou a ter uma concepção material. Bitencourt, em seu Tratado de Direito Penal, explica perfeitamente: “O Neokantismo demonstrou que toda realidade traz em seu bojo um valor preestabelecido (cultura), permitindo a constatação de que o Direito positivo não contém em si mesmo um sentido objetivo que deve ser, simplesmente, “descoberto” pelo intérprete. Ao contrário, as normas jurídicas, como um produto cultural, têm como pressupostos valores prévios, e o próprio intérprete que, por mais que procure adotar certa neutralidade, não estará imune a maior ou menor influência desses valores1”. 1 Vide questão 1 desse material 20 Ano: 2019. Banca: MPE-PR Órgão: MPE-PR Prova: MPE-PR - 2019 - MPE-PR - Promotor Substituto. A forma pela qual ocorreu a estruturação da teoria do delito nem sempre foi uniforme, sendo variável segundo um perfil de evolução de conceitos do que é o direito. Assim, na medida em que ocorreram mudanças nas teorias basilares que influenciaram a estruturação do Direito Penal, a forma de apresentação e de estudo do delito igualmente foram mudando. Tendo isto em mente, a afirmação de que “o direito positivo não possui uma valoração intrínseca e objetiva, sendo que as normas jurídicas aparecem determinadas por valores prévios e que contaminam, além de sua edição, também os próprios autores de sua elaboração, sendo que uma pretensa ‘verdade jurídica’ vem influenciada pela cultura”, se mostra ajustada à definição de: Neokantismo. 1.10.3 Garantismo Penal Conduzida por Luigi Ferrajoli, surgiu com a obra “Direito e a razão” – assentado em 10 axiomas ou princípios axiológicos fundamentais, a saber:2 ● Nulla poena sine crimine: princípio da retributividade ou da consequencialidade da pena. ● Nullum crimen sine lege: princípio da reserva legal. ● Nulla lex (poenalis) sine necessitate:princípio da necessidade ou da economia do direito penal. ● Nulla necessitas sine injuria: princípio da lesividade ou da ofensividade do resultado. ● Nulla injuria sine actione: princípio da materialidade ou da exterioridade da ação. 2 Vide questão 5 do material 21 ● Nulla actio sine culpa: princípio da culpabilidade ou da responsabilidade pessoal. ● Nulla culpa sine judicio: princípio da jurisdicionalidade. ● Nullum judicium sine accusatione: princípio acusatório ou da separação entre juiz e acusação. ● Nulla accusatio sine probatione: princípio do ônus da prova. ● Nulla probatio sine defensione: princípio do contraditório ou da ampla defesa. A doutrina moderna divide o Garantismo Penal em: Garantismo penal monocular e Garantismo penal binocular. Garantismo penal monocularpreocupa-se unicamente com os interesses do acusado. Em casos de favorecimento exagerado, é rotulado como hiperbólico monocular. Garantismo penal binocular (integral)volta sua atenção às pretensões do acusado e da sociedade. Garantismo Penal Hiperbólico x Garantismo Penal Integral - O segundo faz uma crítica do garantismo voltado apenas para o réu, de forma excessiva. O garantismo penal integral impede a proteção deficiente para o réu, mas também para a vítima, enquanto o primeiro entende que apenas o réu deve ser protegido (monocular). Tema bem atual, boas chances de cair em prova. 1.10.4 Funcionalismo Penal Também chamado de pós-finalismo, o funcionalismo penal é um movimento da atualidade que visa discutir a função do Direito Penal. Possui três características fundamentais: 1) Proteção do bem jurídico; 2) Desapego da técnica jurídica excessiva; 3) Prevalência do jurista sobre o legislador. Busca o desempenho pelo direito penal de sua tarefa primordial, qual seja, possibilitar o adequado funcionamento da sociedade, considerando mais importante, do que seguir à risca a letra fria da lei. Entretanto, essa mitigação do texto legal encontra limites e, neste ponto, o funcionalismo apresenta duas concepções: 22 Funcionalismo moderado, dualista ou de política criminal – Claus Roxin, escola de Munique– preocupa-se com os fins do Direito penal. Sua vertente norteia-se por finalidades políticos-criminais, priorizando valores e princípios garantistas. Claus Roxin privilegia um conceito bipartido do delito, em que se consideram seus elementos fundamentais dois juízos de valor: o injusto penal (fato típico + ilicitude) e a responsabilidade, que inclui a culpabilidade. O funcionalismo de Roxin é chamado de racional-teleológico, pois é motivo pela razão, possuindo uma finalidade prática. Direito penal mínimo. Funcionalismo radical, monista ou sistêmico – Gunther Jakobs, escola de Bonn- preocupa-se com os fins da pena. A função do Direito Penal é de assegurar o império da norma, ou seja, resguardar o sistema, mostrando que o direito posto existe e não pode ser violado. Desenvolveu a teoria do direito penal do inimigo.3 Jakobs adota a Teoria dos Sistema, de Luhmann, considerando o Direito Penal um sistema autônomo(independe dos demais ramos do direito), autorreferente(todos os conceitos e referencias que precisa busca no próprio DP) e autopoiético(renova-se por conta própria). O Direito Penal possui como finalidade a proteção da norma, ou seja, serve para proteger o próprio Direito Penal, pois só passará a ser respeitado quando for aplicado de forma rígida, severa, punindo os seus infratores. Direito Penal máximo.4 Funcionalismo teleológico (moderado) = Claus Roxin = PROTEÇÃO DE BENS JURÍDICOS. FuncionalismoPortanto, o erro na execução não exclui a legítima defesa. 4.9.11 Diferença entre estado de necessidade e legítima defesa O Estado de necessidade e a legítima defesa são causas legais de exclusão da ilicitude. Além disso, ambos têm em comum o perigo a um bem jurídico, próprio ou de terceiro. Mas diferenciam-se claramente. Na legítima defesa, o perigo provém de uma agressão ilícita do homem, e a reação se dirige contra seu autor. Já no estado de necessidade agressivo o perigo é originário da natureza, de seres irracionais ou mesmo de um ser humano, mas, para dele se safar, o agente sacrifica bem jurídico pertencente a quem não provocou a situação de perigo. No estado de necessidade defensivo o agente sacrifica bem jurídico de titularidade de quem causou a situação de perigo. 25 LEGÍTIMA DEFESA ESTADO DE NECESSIDADE Natureza jurídica Causa excludente da ilicitude Finalidade Afastar perigo a bem jurídico próprio ou de terceiros. Previsão legal Art. 25 do CP Art. 24 do CP Perigo Fruto de uma agressão injusta (atividade exclusiva do ser humano). Não há agressão injusta. Existe uma situação de perigo causada pela natureza, por seres irracionais ou por atividade humana. Reação Voltada contra o agressor. Embate é entre um titular de bem jurídico e um agressor agindo ilicitamente. Não precisa buscar a retirada discreta, mais cômoda. Voltada contra o causador do perigo ou contra terceiro inocente. Embate entre dois titulares de bens jurídicos. Tem CommodusDiscessus. 4.9.12 Existência simultânea de legítima defesa e de estado de necessidade É admissível a coexistência entre legítima defesa e estado de necessidade, quando, para repelir uma agressão injusta, praticar um fato típico visando afastar uma situação de perigo contra bem jurídico próprio ou alheio. Exemplo: “Mévio” corre atrás de “Tício” com uma faca, com o intuito de mata-lo. “Tício” está sem nenhum objeto para se defender, avistando uma viatura da polícia com uma arma no banco do carona. Imediatamente, furta a arma e continua correndo por mais 500m. Com a proximidade de “Mévio”, “Tício” acaba disparando. Perceba que “Tício” agiu em legítima defesa ao atirar em “Mévio” e em estado de necessidade ao furtar a arma. 26 4.9.13 Legítima defesa e relação com outras excludentes: ADMISSIBILIDADE: são casos em que a legítima defesa “convive” com outras excludentes. Legítima defesa real X Legítima defesa putativa A legítima defesa real pressupõe uma agressão injusta e a legítima defesa putativa é uma agressão injusta. Desta forma, é perfeitamente possível que o agente atua em legítima defesa contra um sujeito que está agindo em legítima defesa putativa. Exemplo: “A” caminha em área perigosa. De repente, visualiza “B” colocando a mão no interior de sua blusa, e, acreditando que seria assaltado, “A” saca uma arma de fogo para matar “B”. Este último, entretanto, que iria apenas pegar um cigarro, consegue se esquivar dos tiros, e, em seguida, mata “A” para se defender. Legítima defesa putativa recíproca É a legítima defesa putativa contra a legítima defesa putativa, dois ou mais agentes acreditam, erroneamente, que um irá praticar contra o outro uma agressão injusta, quando na verdade o ataque ilícito não existe. Exemplo: “A” e “B”, colocam as mãos nos bolsos ao mesmo tempo, e, em razão disso, partem um para cima do outro, lutando até o momento em que desmaiam. Depois, descobrem que e “A” iria oferecer a “B” um cigarro, enquanto "B" iria lhe entregar uma carta. Legítima defesa real contra legítima defesa subjetiva (excesso) Legítima defesa subjetiva, ou excessiva, é aquela em que o indivíduo, por erro escusável, ultrapassa os limites da legítima defesa. Daí ser também chamada de excesso acidental. No momento em que se configura o excesso, a outra pessoa – que de agressor passou a ser agredido –, pode agir em legítima defesa real, uma vez que foi praticada contra ele uma agressão injusta. Legítima defesa real contra legítima defesa culposa É possível, tendo em vista que legítima defesa importa somente o caráter injusto da agressão, objetivamente considerado, independente do elemento subjetivo do agente. 27 Legítima defesa contra conduta amparada por causa de exclusão da culpabilidade Será sempre cabível a legítima defesa contra uma agressão que, embora injusta, esteja acobertada por qualquer causa de exclusão da culpabilidade. INADMISSIBILIDADE: são hipóteses em que não se admite a existência da legítima defesa e de outras excludentes. Legítima defesa real recíproca Não é cabível, pois o pressuposto da legítima defesa é a existência de uma agressão injusta. E, se a agressão de um dos envolvidos é injusta, automaticamente a reação do outro será justa, pois constituirá uma simples atitude de defesa. Legítima defesa real contra outra excludente real Mesmo fundamento acima. 4.10 ESTRITO CUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL 4.10.1 Dispositivo legal e natureza jurídica É causa de exclusão da ilicitude, e sua previsão está no Art. 23, III, 1.ª parte, do Código Penal: “Não há crime quando o agente pratica o fato em estrito cumprimento de dever legal”. 4.10.2 Conceito O Código Penal não definiu o que seria estrito cumprimento do dever legal, diferentemente do estado de necessidade e a legítima defesa.Também conhecido como Descriminante em branco. De acordo com a doutrina, consiste na prática de um fato típico, em razão de cumprir o agente uma obrigação imposta por lei, de natureza penal ou não. 4.10.3 Fundamento Há, em verdade, o dever legal de agir. É o caso, por exemplo, da busca domiciliar em que o morador desobedeça à ordem de ingresso na residência, autorizando o arrombamento 28 da porta e a entrada forçada. Em decorrência do estrito cumprimento do dever legal, o funcionário público responsável pelo cumprimento da ordem judicial não responde pelo crime de dano, e sequer pela violação de domicílio. Seria incoerente que a lei impusesse a determinadas pessoas a prática de um ato, e, ao mesmo tempo, incriminasse tal conduta. 4.10.4 Dever legal É qualquer obrigação direta ou indiretamente resultante de lei(em sentido genérico), compreendendo, assim, qualquer ordem/comando normativo emanado do Estado, a exemplo da lei sentido estrito, decretos, portarias, regulamentos em geral e decisões judiciais. Ora, o dever legal pode também originar-se de atos administrativos, desde que de caráter geral, pois, se tiverem caráter específico, o agente não estará agindo sob o manto da excludente do estrito cumprimento de dever legal, mas sim protegido pela obediência hierárquica (causa de exclusão da culpabilidade), 4.10.5 Destinatários da excludente Em regra, a excludente é destinada ao funcionário público, em sentido amplo. Todavia, nada impede que a excludente beneficie o particular quando ele atua em estrito cumprimento do dever legal. Assim, não há crime de falso testemunho na conduta do advogado que se recusa a depor sobre fatos que tomou conhecimento no exercício da sua função, acobertados pelo sigilo profissional. 4.10.6 Limites da excludente O cumprimento deve ser estritamente dentro da lei, ou seja, é limitado e disciplinado em sua execução. Dessa forma, quando os limites são ultrapassados surge o excesso. Podendo, inclusive, caracterizar um abuso de autoridade. 4.10.7 Estrito cumprimento de dever legal e crimes culposos A excludente é incompatível com os crimes culposos, pois a lei não obriga ninguém, funcionário público ou não, a ser imprudente, negligente ou imperito. 29 A Geralmente, a situação é compatível com excludente de estado de necessidade. Exemplo: bombeiro que dirige a viatura em excesso de velocidade para salvar uma pessoa queimada em incêndio, e em razão disso atropela alguém,sistêmico (radical) = Gunther Jakobs = PROTEÇÃO DE NORMAS. 3 Vide questão 3 do material 4 Vide questão 4 do material 23 1.11 Direito de Intervenção Seu criador e principal defensor é o alemão Winfried Hassemer. Para ele, o Direito Penal não oferece resposta satisfatória para a criminalidade oriunda das sociedades modernas. Além disso, o poder punitivo estatal deveria limitar-se ao núcleo do Direito Penal, isto é, a estrutura clássica dessa disciplina formada pelos crimes de dano e de perigo contra bens jurídicos individuais.5. Os problemas resultantes dos riscos da modernidade, quais sejam, as condutas que atingem bens metaindividuais, difusos e coletivos, devem ser resolvidos pelo direito de intervenção, única solução apta a enfrentar a atual criminalidade. 1.12 Velocidades do Direito Penal 1ª velocidade: Direito penal da prisão – Jesús-Maria Silva Sanchez. Modelo de direito penal clássico, que utiliza preferencialmente a pena privativa de liberdade, mas se funda em direitos e garantias individuais. Portanto, aplica pena privativa de liberdade respeitando todas as garantias. Estamos nessa velocidade no Brasil. 2ª velocidade: Direito penal sem prisão - Jesús-Maria Silva Sanchez. Flexibilização de determinadas garantias penais, aliadas à adoção das medidas alternativas à prisão(penas restritivas de direito, pecuniárias, etc). Ex: Lei n.º 9.099/95 introduziu institutos despenalizadores. 3ª velocidade: compatível com o Direito penal do inimigo- Gunther Jakobs. Mistura das características acima, utilizando-se da pena privativa de liberdade, mas permitindo a flexibilizaçãode direitos e garantias. A teoria do direito penal do inimigo sustenta que determinados indivíduos como terroristas e membros do crime organizado, que se afastam de modo permanente do direito, perdem o 5 Vide questão 6 do material 24 estado de cidadania e, por conseguinte, não podem usufruir dos mesmos benefícios processuais concedidos às demais pessoas6. DIREITO PENAL DO CIDADÃO DIREITO PENAL DO INIMIGO O Direito Penal do Cidadão é Garantista, porque respeita os Direitos e Garantias do ser humano. Este Direito Penal do Cidadão é Retrospectivo, porque se baseia na Culpabilidade do Agente. O Direito Penal do Inimigo é Autoritário, porque suprime e ignora direitos e garantias do ser humano (o Inimigo não tem direito à ampla defesa, ao duplo grau de jurisdição, e pode ficar incomunicável). É aquele que olha para o Passado: o agente é punido por aquilo que fez ou deixou de fazer. O Direito Penal do Inimigo é Prospectivo, porque olha para o Futuro, amparando-se na Periculosidade, de modo que o Inimigo é Punido não somente por aquilo que Fez, mas, inclusive, por aquilo que pode Vir a Fazer. O Direito Penal do Cidadão é, também, “Do Fato”, porque julga o Fato Típico e Ilícito praticado pelo agente. As condições do agente vão interferir na dosimetria da pena, mas não caracterizarão o crime. Por essa razão, é um Direito Penal do Autor, que vai estereotipar determinadas pessoas como indesejáveis para o convívio social. O que importa, na verdade, é o que o Inimigo pode vir a fazer. O Inimigo terá uma defesa meramente formal, no lugar de uma ampla defesa; não terá acesso ao duplo grau de jurisdição; pode ficar incomunicável; para ele se admitem penas indeterminadas. Se o Inimigo não respeita as regras do Estado, o Estado não precisa respeitar as regras, então, as regras postas para os cidadãos (Direito Penal do Cidadão), havendo, assim 2 Direitos Penais, merecendo o Inimigo as durezas do Direito Penal do Inimigo. 6 Vide questão 2 do material 25 - O Direito Penal do Inimigo é um Direito Penal de Guerra (Bélico), e numa Guerra o importante é vencer. 4ª velocidade: Neopunitivismo(ou Panpenalismo): Daniel Pastor. Há restrição e supressão de garantias penais e processuais penais de réus que foram chefes de Estado. É um Direito Penal mais arbitrárioque o Direito Penal do inimigo, vai além, pois ignora os princípios da reserva legal e da anterioridade. Aqui, o crime é criado após a prática da conduta. 1.13 Princípios do direito penal Atenção futuro Delta,para os princípios com maior incidência, especialmente legalidade, subsidiariedade, intervenção mínima, ofensividade, lesividade e insignificância. Portanto, estude com muita atenção. 1.13.1 Princípio da reserva legal ou da estrita legalidade Previsto na Constituição Federal, tratado como cláusula pétrea. Preceitua a exclusividade da lei para criação de delitos(crimes e contravenções penais) e cominação de penas. 7 Encontra-se previsto no Art. 1º do Código Penal e art. 5º, XXXIX da CF: Art. 1º - Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal. Art. 5º, XXXIX - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal; 7 Vide questão 11 do material 26 Também há previsão no art. 9º da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto São José da Costa Rica); no art. 15 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e, ainda, no art. 1º do Código Penal Brasileiro. A infração penal só pode ser criada por lei em sentido estrito, ou seja, leis ordinárias. Assim, é vedada a edição de medidas provisórias sobre matéria relativa à Direito Penal, seja ela prejudicial ou mesmo favorável ao réu. É a posição de Cleber Masson. Entretanto, o STF (2013) firmou o entendimento jurisprudencial que as medidas provisórias podem versar sobre direito penal NÃO incriminador, assim, a vedação não abrange as normas penais benéficas (aquelas que abolem o crime ou lhes restringem o alcance, extingam ou abrandem penas ou ampliam os casos de isenção de pena ou de extinção de punibilidade). Ou seja, Medida Provisória pode versar sobre DIREITO PENAL MAIS FAVORÁVEL AO RÉU. (Divergência na doutrina). Ademais, não se pode veicular matéria penal por lei delegada, em virtude do art. 68, §1º, II (direitos individuais), da Constituição Federal. Há autores que tratam o princípio da legalidade e princípio da reserva legal como sinônimos. Todavia, Cleber Masson não as considera expressões sinônimas, e indica que, o melhor caminho a seguir é o da coerência. Assim, se as alternativas em provas objetivas apontarem somente o princípio da legalidade, adote essa nomenclatura, até mesmo por exclusão. Por outro lado, no confronto entre legalidade e reserva legal ou estrita legalidade, fique com os últimos. 27 O princípio da reserva legal possui dois fundamentos, um de natureza jurídica e outro de cunho político. ● Fundamento jurídico- é a taxatividade, certeza ou determinação, a lei deve prever com precisão o conteúdo mínimo da conduta criminosa. Implica, por parte do legislador, a determinação precisa, ainda que mínima, do conteúdo do tipo penal e da sanção penal a ser aplicada, bem como, da parte do juiz, na máxima vinculação ao mandamento legal. Como desdobramento lógico da taxatividade, o direito penal não tolera a analogia in malam partem. ● Fundamento político– O princípio da reserva legal manifesta-se como um direito fundamental de primeira dimensão (geração), que busca limitar a atuação do Estado, visando à proteção do ser humano. ⮚ Princípio da reserva legal e mandado de criminalização. Também conhecido como mandados constitucionais de criminalização. Os mandados de criminalização apresentam matérias sobre as quais o legislador ordinário não tem a faculdade de legislar, mas a obrigatoriedade de tratar, protegendo determinados bens ou interesses de forma adequada e, dentro do possível, integral. São ordens emitidas pela CF ao legislador ordinário no sentido da criminalização de determinados comportamentos. É uma determinação, uma ordem, e não um pedido. A constituição determina, de forma expressa, os casos em que a lei deverá criminalizarreferida conduta como forma de proteção a bem ou interesse. Estão contidos no Art. 5º, da CF (EXPRESSO/EXPLÍCITOS): XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais; XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei; XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como 28 crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem; XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático; No entanto, há também os mandados de criminalização implícitos, como exemplo o combate à corrupção no poder público. Alguns dos mandados de criminalização já foram atendidos pelo legislador ordinário de modo satisfatório, a exemplo da Lei 13.260/2016, que regulamentou o art. 5.º, inc. XLIII, da Constituição Federal, para tipificar o terrorismo. Destaca-se que nem todos os mandados de criminalização foram cumpridos. 1.13.2 Princípio da anterioridade A criação dos tipos penais e a cominação de sanções exigem lei anterior, proibindo-se a retroatividade maléfica. Assim, a formulação do princípio da legalidade compreende, necessariamente, a anterioridade da lei e sua irretroatividade. A lei penal produz efeitos a partir da data em que entra em vigor. Assim, é proibida a aplicação da lei penal inclusive aos fatos praticados durante o período de vacation. Embora já publicada e formalmente válida, a lei ainda não estará em vigor. 1.13.3 Princípio da insignificância Conhecido também como criminalidade de bagatela sustenta ser vedada a atuação penal do Estado quando a conduta não é capaz de lesar ou no mínimo de colocar em perigo o bem jurídico tutelado pela norma penal. Destina-se a efetuar uma interpretação restritiva da lei penal, diminuindo o seu alcance, eis que a lei penal é muito abrangente. 29 É pacífico o entendimento de que o princípio da insignificância funciona como uma cláusula supralegal (não prevista em lei) de exclusão da tipicidade, tornando o fato atípico. Exclui a tipicidade material do fato. A tipicidade penal é formada pela soma da: ● Tipicidade FORMAL– fato praticado se encaixa na norma típica. ● Tipicidade MATERIAL- efetiva lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico. Embora haja a atipicidade do fato, isso não impede a concessão de ofício de habeas data. Além disso, o trânsito em julgado da condenação não impede seu reconhecimento. São requisitos de ordem objetiva(quatro condições criadas pela jurisprudência do STF): 1. Mínima ofensividade da conduta; 2. Ausência de periculosidade social da ação; 3. Reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e 4. Inexpressividade da lesão jurídica. Requisitos subjetivos: São aqueles ligados ao agente e à vítima: ● Condições pessoais do agente Nessa seara, três situações merecem análise: reincidente, criminoso habitual e militar. Reincidência: Existem duas posições acerca da possibilidade de aplicação do princípio da insignificância ao reincidente: 1ª posição: É vedada a incidência do princípio da insignificância ao reincidente (STF). Trata-se de instituto de política criminal e, nesse contexto, não há interesse da sociedade no deferimento do benefício àquele que já foi definitivamente condenado pela prática de uma infração penal. 2ª posição: Admite-se o princípio da insignificância em favor do reincidente (STJ). Este postulado exclui a tipicidade do fato, e a reincidência (agravante genérica) é utilizada somente 30 na dosimetria da pena. Em outras palavras, não há relevância penal tanto para o primário como para o reincidente. É possível aplicar o princípio da insignificância para furto de bem avaliado em R$ 20,00 mesmo que o agente tenha antecedentes criminais por crimes patrimoniais É possível a aplicação do princípiodainsignificância para o agente que praticou o furto de um carrinho de mão avaliado em R$ 20,00 (3% do salário-mínimo), mesmo ele possuindo antecedentes criminais por crimes patrimoniais. STF. 1ª Turma. RHC 174784/MS, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 11/2/2020 (Info 966). Em outro precedente mais recente: É possível a aplicação do princípiodainsignificância em face de réu reincidente e realizado no período noturno. Na espécie, trata-se de furto de R$ 4,15 em moedas, uma garrafa pequena de refrigerante, duas garrafas de 600 ml de cerveja e uma de 1 litro de pinga, tudo avaliado em R$ 29,15. STF. 2ª Turma. HC 181389/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 14/04/2020 (Info 973) Entretanto, na prova (TJ-CE/2018 - Juiz Substituto) o CESPE considerou a assertiva correta: a reincidência do acusado não é motivo suficiente para afastar a aplicação do princípio da insignificância. Fundamento: Jurisprudência do STF/2016 sobre o tema - Por maioria, foram também acolhidas as seguintes teses: (i) a reincidência não impede, por si só, que o juiz da causa reconheça a insignificância penal da conduta, à luz dos elementos do caso concreto; (HC 123108, Relator (a): Min. ROBERTO BARROSO, Tribunal Pleno, julgado em 03/08/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-018 DIVULG 29-01-2016 PUBLIC 01-02-2016)". Ano: 2012 Banca: FUNCAB Órgão: PC-RJ Prova: FUNCAB - 2012 - PC-RJ - Delegado de Polícia considerou correta a seguinte assertiva: O princípio da insignificância, decorrência do caráter fragmentário do Direito Penal, tem base em uma orientação utilitarista, tem origem controversa, encontrando, na atual jurisprudência do STF, os seguintes requisitos de configuração: a mínima ofensividade da conduta do agente; nenhuma periculosidade social da ação; o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; e a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Fique ligado, pois é importante saber os requisitos da insignificância. 31 Criminoso habitual É aquele que faz da prática de delitos o seu meio de vida, não se permitindo a incidência. Militares É vedada a incidência do princípio da insignificância. ● Condições da vítima Há de conjugar a importância do objeto material para a vítima, levando-se em consideração a sua condição econômica, o valor sentimental do bem, as circunstâncias e o resultado do crime = extensão do dano, valor sentimental do bem. ⮚ APLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA O princípio da insignificância é aplicável a qualquer delito que seja com ele compatível, não havendo um valor máximo (teto) a limitar a incidência do princípio. Pode ser reconhecido mesmo após o trânsito em julgado da sentença. Principais situações em que se discute a aplicabilidade do princípio da insignificância: ● Roubo e demais crimes cometidos com grave ameaça ou violência à pessoa: não se admite o princípio da insignificância. ● Crimes contra a Administração Pública: Posição do STJ: não é admitido nos crimes contra a Administração Pública, pois, ainda que a lesão econômica seja irrisória, há ofensa à moralidade administrativa e à probidade dos agentes públicos. Posição do STF: admite o princípio da insignificância nos crimes contra a Administração Pública em situações extremas. ATENÇÃO: Súmula 599-STJ: O princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a administração pública.8 8 Vide questão 8 do material 32 ● Descaminho e crimes tributários: incide o princípio da insignificância. Valor máximo que era considerado insignificante: STJ: 10 mil reais (Lei 10.522/2002, art. 20); STF: 20 mil reais (valor atualizado pelas Portarias 75 e 132/2012 do Ministério da Fazenda). No entanto, atualmente, tanto o STF, quanto o STJ, consideram o valor de 20.000 reaiscomo insignificante. OBS.: O limite imposto pela Lei 10.522/2002 alcança somente tributos federais. Para os tributos estaduais e municipais deve existir previsão específica por cada ente federativo. Incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10.522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. STJ. 3ª Seção. REsp 1.709.029/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 28/02/2018 (recurso repetitivo). ● Lei de Drogas: os crimes tipificados na Lei de Drogas são de perigo abstrato e tutelam saúde pública. No tráfico de drogas, é indiscutível a inadmissibilidade do princípio da insignificância. O mesmo raciocínio deve ser utilizado na posse de droga para consumo pessoal. OBS: o STF2 já decidiu em sentido diverso, aplicando o princípio da insignificância ao crime do art. 28 da Lei 11.343/2006. Não se aplica ao tráfico de drogas, visto se tratar de crime de perigo abstrato ou presumido, sendo, portanto, irrelevante a quantidade de droga apreendida. STJ. 5ª Turma. HC 318936/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 27/10/2015. Se a pessoa for encontrada com alguns poucos gramas de droga para consumo próprio, é possível aplicar o princípio da insignificância? STJ: não é possível aplicar o princípio da insignificância A jurisprudência de ambas as turmas do STJ firmou entendimento de que o crime de posse de drogas para consumo pessoal (art. 28 da Lei nº 11.343/06) é de perigo presumido ou abstrato e a pequena quantidade de droga faz parte da própria essência do delito em questão, não lhe sendo aplicável o princípio da insignificância (STJ. 6ª Turma. RHC 35920 -DF, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 20/5/2014. Info 541). STF: possui um precedente isolado, da 1ª Turma, aplicando o princípio: HC 110475 , Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 14/02/2012. 33 Tráfico de drogas: é possível a aplicação do princípio da insignificância? A grande maioria dos julgados afirma que não se aplica ao tráfico de drogas, visto se tratar de crime de perigo abstrato ou presumido, sendo, portanto, irrelevante a quantidade de droga apreendida. STJ. 5ª Turma. HC 318936/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 27/10/2015. STJ. 6ª Turma. EDcl-HC 463.656/SP , Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 24/10/2018. STF. 1ª Turma. HC 129489, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 17/09/2019. Vale ressaltar, no entanto, que a 2ª turma do STF reconheceu, recentemente, a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância ao tráfico de drogas para absolver mulher flagrada com 1 grama de maconha. O juiz de 1ª instância condenou a mulher à pena de 6 anos e 9 meses de reclusão, em regime inicial fechado, pelo crime de tráfico, previsto no art. 33 da Lei nº 1.343/06. A sentença foi mantida pelo TJ/SP. A defesa impetrou, então, habeas corpus no STF. O Min. Relator Gilmar Mendes entendeu ser aplicável ao caso o princípio da insignificância, pois, para ele, a conduta descrita nos autos não é capaz de lesionar ou colocar em perigo a paz social, a segurança ou a saúde pública. Em seu voto, o relator destacou que a resposta do Estado não foi adequada nem necessária para repelir o tráfico de 1 grama de maconha. Para ele, esse é um exemplo emblemático de flagrante desproporcionalidade na aplicação da pena em hipóteses de quantidade irrisória de entorpecentes, e não houve indícios de que a mulher teria anteriormente comercializado quantidade maior de droga. Conforme o ministro, no âmbito dos crimes de tráfico de drogas, a solução para a desproporcionalidade entre a lesividade da conduta e a reprimenda estatal é a adoção do princípio da insignificância. O relator observou que o STF tem entendido que o princípio da insignificância não se aplica ao delito de tráfico, ainda que a quantidade de droga apreendida seja ínfima. Porém, considerou que a jurisprudência deve avançar na criação de critérios objetivos para separar o traficante de grande porte do traficante de pequenas quantidades, que vende drogas apenas em razão de seu próprio vício. Para ele, se não houver uma clara comprovação da possibilidade de risco de dano da conduta, o comportamento não deverá constituir crime, ainda que o ato praticado se adeque à definição legal. O voto do relator foi seguido pelos Ministros Celso de Mello e Ricardo Lewandowski. Ficaram vencidos os Ministros Edson Fachin e Cármen Lúcia. STF. 2ª Turma. HC 127573/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 11/11/2019. ● Contrabando: o princípio da insignificância não é aplicável. A importação de arma de ar comprimido configura CONTRABANDO (e não descaminho) a conduta de importar, à margem da disciplina legal, arma de pressão por ação de gás comprimido ou por ação de mola, ainda que se trate de artefato de calibre inferior a 6 mm. A importação de arma de pressão está sujeita à autorização prévia da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército Brasileiro, e só pode ser feita por colecionadores, atiradores e caçadores registrados no Exército. Além disso, deve se submeter às normas de desembaraço alfandegário previstas no Regulamento para a Fiscalização de Produtos 34 Controlados. Logo, trata-se de mercadoria de proibição relativa, sendo a sua importação fiscalizada não apenas por questões de ordem tributária, mas outros interesses ligados à segurança pública. Não é possível aplicar o princípio da insignificância, já que este postulado é incabível para contrabando. STJ. 5ª Turma. REsp 1428628/RS, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 28/04/2015. STJ. 6ª Turma. REsp 1427796-RS, Rel. Min. Maria Thereza De Assis Moura, julgado em 14/10/2014 (Info 551). ● Crimes ambientais: vem sendo admitido, embora ainda haja certa polêmica e divergências na própria jurisprudência. É bom estar sempre ligado. Não se configura o crime previsto no art. 34 da Lei nº 9.605/98 na hipótese em que há a devolução do único peixe – ainda vivo – ao rio em que foi pescado. STJ. 6ª Turma. REsp 1.409.051-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 20/4/2017 (Info 602). A Lei de Crimes Ambientais tipifica a pesca ilegal, nos seguintes termos: "Art. 34. Pescar em período no qual a pesca seja proibida ou em lugares interditados por órgão competente:" Se a pessoa é flagrada sem nenhum peixe, mas portando consigo equipamentos de pesca, em um local onde esta atividade é proibida, ela poderá ser absolvida do delito do art. 34 da Lei de Crimes com base no princípio da insignificância? A 2ª Turma do STF possui decisões conflitantes sobre o tema: SIM. Inq 3788/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 1°/3/2016 (Info 816). O princípio da bagatela não se aplica ao crime previsto no art. 34, caput c/c parágrafo único, II, da Lei 9.605/98: Art. 34. Pescar em período no qual a pesca seja proibida ou em lugares interditados por órgão competente: Pena - detenção de um ano a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente. Parágrafo único. Incorre nas mesmas penas quem: II - pesca quantidades superiores às permitidas, ou mediante a utilização de aparelhos, petrechos, técnicas e métodos não permitidos; ● Tráfico internacional de arma de fogo: não comporta o princípio da insignificância. 35 ● Rádio pirata: duas posições acerca da aplicabilidade da insignificância. 1ª posição: para o STF, é possível a incidência do princípio, desde que o serviço de radiofusão apresente finalidade social e objeto lícito e não apresente capacidade para interferir nos demais meios de comunicação e na segurança do tráfego aéreo. 2ª posição (STJ): o crime tipificado no art. 183, da Lei 9.742/97 é incompatível com o princípio da insignificância. ● Crimes contra a fé pública: não incide o princípio da insignificância. ● Porte ilegalde munição: não se admite. ● Atos infracionais: admite o princípio da insignificância. ● Evasão de divisas: no crime de evasão de divisas, praticada mediante operação da modalidade “dólar-cabo” (Lei 7.492/86, art. 22, parágrafo único, 1ª parte), não se aplica o teto de 10 mil reais, previsto na Lei 10.522/02, como parâmetro para incidência da insignificância. STJ. 6ª Turma. REsp 1535956-RS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 1º/3/2016 (Info 578) Nos casos de evasão de divisas praticada mediante operação do tipo "dólar-cabo", não é possível utilizar o valor de R$ 10 mil como parâmetro para fins de aplicação do princípio da insignificância. ● Violência doméstica ou familiar: não se aplica o princípio da insignificância. Súmula n.º 589, STJ. É inaplicável o princípio da insignificância nos crimes ou contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito das relações domésticas. STJ. 3ª Seção. Aprovada em 13/09/2017, DJe 18/09/2017. ⮚ A QUESTÃO DO FURTO PRIVILEGIADO 36 No furto privilegiado, a coisa é de pequeno valor (inferior a um salário mínimo), enquanto que no princípio da insignificância, o valor é irrelevante para o Direito penal, por não colocar em risco o bem jurídico penalmente tutelado. Furto Qualificado - STJ. 5ª Turma. HC 553872-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 11/02/2020 (Info 665). A despeito da presença de qualificadora no crime de furto possa, à primeira vista, impedir o reconhecimento da atipicidade material da conduta, a análise conjunta das circunstâncias pode demonstrar a ausência de lesividade do fato imputado, recomendando a aplicação do princípio da insignificância. ⮚ VALORAÇÃO PELA AUTORIDADE POLICIAL Segundo o entendimento do STJ, não é possível que a autoridade policial aplique o princípio da insignificância (Info. 441), tendo em vista que se trata de matéria reservada ao poder judiciário. Salienta-se que até o momento o STF não se manifestou sobre o tema. ⮚ PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA IMPRÓPRIA OU DA CRIMINALIDADE DE BAGATELA IMPRÓPRIA A infração bagatelar imprópria é a que inicialmente tem relevância para o Direito penal, pois existe desvalor de conduta e de resultado. É a infração que nasce com relevância para o ordenamento jurídico, mas sua punição se faz desnecessária. Há falta de interesse de punir. A aplicação da pena no caso concreto torna-se absolutamente desnecessária em razão das circunstâncias do fato = causa legal de extinção de punibilidade, não afastando a tipicidade material. 1.13.4 Princípio da individualização da penal Disposto no art. 5º, XLVI, da CF, determina que a pena não deve ser padronizada, cabendo a cada condenado a exata medida punitiva pelo que fez. 9 9 Vide questão 10 do material 37 O processo de aplicação da pena desenvolve-se em três estágios: 1) Fixação do quantum da pena; 2) Estabelecimento do regime de cumprimento da pena; 3) Opção pelos benefícios legais cabíveis (penas alternativas, sursis). 1.13.5 Princípio da alteridade O direito penal se ocupa com condutas que excedam o âmbito do próprio sujeito. Punição de condutas que causem danos a terceiros. Ninguém pode ser punido por causar mal a si próprio, autolesão não é punível. 1.13.6 Princípio da adequação social Não é adotado no Brasil pelo STF e STJ. Torna materialmente atípica a conduta formalmente típica, pois caiu no ceio da sociedade. Afasta o crime, é exclusão da tipicidade MATERIAL, assim como o princípio da insignificância. Ex: trotes acadêmicos, circuncisão realizada nos judeus. 10 Advirta-se, porém, que a autorização para o exercício de determinada profissão não implica, automaticamente, na adequação social dos crimes praticados no seu bojo. O STJ já decidiu que, em crime de descaminho praticado por camelô, a existência de lei regulamentando tal atividade não conduz ao reconhecimento de que o descaminho é socialmente aceitável. Súmula n.º 502, STJ. Presentes a materialidade e a autoria, afigura-se típica, em relação ao crime previsto no art. 184, § 2º, do CP, a conduta de expor à venda CDs e DVDs piratas. 1.13.7 Princípio da intervenção mínima O direito penal só deve ser aplicado quando os demais ramos do direito se revelarem insuficientes à tutela. Apenas quando a criminalização de um fato se constitui meio indispensável para a proteção de determinado bem ou interesse. É o “Direito penal mínimo”. 11 10 Vide questão 9 do material 11 Vide questão 7 do material 38 É dividido em: Fragmentariedade e Subsidiariedade. ● Fragmentariedade– Não são todos os bens jurídicos que serão protegidos. Somente condutas mais graves e mais perigosas, intentadas contra bens jurídicos relevantes, fundamentais, necessitam da tutela do Direito Penal. Só uma pequena parcela é protegida pelo Direito Penal. ● Fragmentariedade às avessas– nas situações em que um comportamento inicialmente típico deixa de interessar ao Direito Penal, sem prejuízo da sua tutela pelos demais ramos do Direito. Ex: o adultério deixou de ser crime, mas continuou como ilícito cível. ● Subsidiariedade– Direito Penal de ultima ratio, atua somente quando insuficientes às demais formas de controle social, como o Direito Civil e o Direito Administrativo. Assim, a tutela penal deixa de ser necessária quando existir, de forma eficaz, outros meios de controle social menos lesivos aos direitos individuais. 1.13.8 Princípio da proporcionalidade Também conhecido como princípio da razoabilidade ou da convivência das liberdades públicas, a criação de tipos penais incriminadores deve constituir-se em atividade vantajosa para os membros da sociedade. Tem dupla face: a) proibição ao excesso; b) impede a proteção insuficiente de bens jurídicos. Possui três destinatários: ● Legislador (proporcionalidade abstrata) – eleitas as penas mais apropriadas para cada infração penal. ● Judiciária (proporcionalidade em concreto)– orienta o juiz no julgamento da ação penal. ● Administrativa (proporcionalidade executória)– regras inerentes ao cumprimento da pena. 1.13.9 Princípio da humanidade Nenhuma pena pode atentar contra a dignidade da pessoa humana. Desta forma, há vedação de aplicação de pena cruel e infante. A pena deverá ser cumprida de forma a 39 ressocializar o condenado. Assim, o direito penal deve pautar-se pela benevolência, garantindo o bem-estar da coletividade, incluindo-se o dos condenados. 1.13.10 Princípio da ofensividade ou da lesividade O direito penal só deve se ocupar com condutas que causem efetiva lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico. Não há infração penal quando a conduta não tiver oferecido ao menos perigo de lesão ao bem jurídico. 1.13.11 Princípio da personalidade ou da intranscendência Nenhuma pena passará da pessoa do acusado, podendo a obrigação de reparar, passar para os sucessores no limite da herança. OBS: a pena não passa da pessoa do acusado, mas, a obrigação de repara (obrigação civil) passa para os sucessores. 1.13.12 Princípio do bis in idem Não se admite, em hipótese alguma, dupla punição pelo mesmo fato. Pode ser extraído do art. 8º, 4 do Pacto de São José da Costa Rica, incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Dec. 678/1992. Ademais, a Súmula 241 do STJ proíbe o uso de uma única reincidência como circunstancia judicial desfavorável e como agravante, pois haveria violação a este princípio. Súmula nº. 241, STJ. A reincidência penal não pode ser considerada como circunstância agravante e, simultaneamente, como circunstância judicial. 1.13.13 Princípio da imputação pessoal O Direito Penal não pode castigar um fato cometido por agente que atue sem culpabilidade. Em outras palavras, não se admite a punição quando se tratar de agente inimputável, sem potencial consciência da ilicitude ou de quem não se possa exigir conduta diversa. 40 Sistematizando