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Guerras Interétnicas em Parintins

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ScientiaTec: Revista de Educação, Ciência e Tecnologia do IFRS, v.5, n.1, p: 157-167, Janeiro/Junho 2018. 
Parintins: palco de guerras tribais 
 
 
Max Deulen Baraúna Nogueira 
Instituto Federal do Amazonas (IFAM) 
(maxdeulen@hotmail.com) 
 
 
Resumo: A ilha de Parintins foi palco de guerras inter-étnicas, entre os séculos XVII e VXIII na 
Amazônia colonial, onde vários grupos étnicos habitavam e viviam. A problemática desse trabalho é 
procurar nas fontes o porquê que faziam guerra contra a etnia Mura. O objetivo geral desse trabalho 
é fazer uma pesquisa historiográfica sobre as guerras inter-étnicas (guerra intertribal) entre os povos 
indígenas que habitavam o período da Amazônia Colonial e o objetivo específico é analisar a guerra 
contra o grupo étnico Mura pelo grupo étnico Mundurucu. A metodologia empregada é a pesquisa 
historiográfica nas fontes primárias, que se encontram em arquivos, museus e bibliotecas públicas do 
Amazonas. O resultado dessa pesquisa é que, pela ferocidade e belicosidade dessas tribos, eles 
conseguiram sobreviver no tempo, não foram exterminadas como tantas dezenas de outros grupos 
étnicos que foram exterminados em contato com os europeus. Concluímos que é necessário fazer 
um resgate desses personagens, outorgar-lhes um protagonismo esquecido que eles merecem, 
resgatar suas lutas e suas glórias por esses brasileiros que não aceitaram a conquista da Amazônia. 
 
Palavras-Chaves: Parintins; Guerras; Tribos Indígenas. 
 
Parintins: tribal war scene 
 
Abstract: The island of Parintins was the scene of inter-ethnic wars between the seventeenth and 
eighteenth centuries in the colonial Amazon where several ethnic groups inhabited and lived in it. The 
problem of this work is to look for the sources why they made war against the Mura ethnic group? The 
general objective of this work is to make a historiographic research on the inter-tribal wars between 
the indigenous peoples who inhabited the period of Colonial Amazonia and the specific objectives is to 
analyze the war against the Mura ethnic group by the Mundurucu ethnic group. The methodology 
used is the historiographic research in the primary sources found in archives, museums and public 
libraries of Amazonas. The result of this research is that because of the ferocity and bellicosity of 
these tribes they managed to survive in time, they were not exterminated like so many dozens of other 
ethnic groups that were exterminated in contact with the Europeans. We conclude that it is necessary 
to rescue these characters, to grant them a forgotten protagonism that they deserve, to rescue their 
struggles and their glories for those Brazilians who did not accept the conquest of the Amazon. 
 
Keywords: Parintins; Wars; Indian tribes. 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
Na Amazônia colonial, dos séculos XVII e XVII, a ilha de Parintins foi palco de 
várias guerras intertribais e vários grupos étnicos habitaram essa ilha e nela 
viveram, como nos conta o diário de Carvajal (1986), frade dominicano que 
acompanhava a viagem do capitão espanhol Francisco Orellana, hoje exposto no 
http://www2.ifam.edu.br/
mailto:maxdeulen@hotmail.com
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museu de Madri, que relata a passagem por um povoado, e que viram às margens 
do mesmo rio estacas com cabeças de índios secas e espetadas. Deram ao 
povoado o nome de Las Picotas, e, logo depois, passavam pela serra de Parintins, 
que denominaram de Sierra Grand (Serra Grande), em 23 de junho de 1542, 
véspera de São João. 
Essa é a primeira vez que se fala na ilha, outros padres, só que da 
Companhia de Jesus, chamados Cristóbal de Acunã e Andrés de Artieda, que 
tinham a qualidade e a devida autoridade em nome do Rei Filipe IV da Espanha de 
serem as testemunhas oculares das informações coletadas do longo trajeto acerca 
da região percorrida, seus habitantes e suas riquezas, na companhia do Capitão-
Mor Pedro Teixeira, nos contam que: 
As vinte e oito léguas da boca deste rio, seguindo-se sempre pela 
mesma banda sul, há uma formosa ilha que tem sessenta léguas de 
comprimento e, consequentemente, mais de cem de circunferência, 
toda povoada pelos valentes Tupinambás, gentio que, após a 
conquista do Brasil, em terras de Pernambuco, há muitos anos, saiu 
derrotada, fugindo do rigor com que os portugueses o sujeitavam. 
Saíram em tão grande número, que, despovoando ao mesmo tempo 
oitenta e quatro aldeias onde viviam, não restou sequer que não 
trouxessem consigo. (ACUNÃ, 1641, p.148) 
A ilha já era conhecida no mundo, quase 100 anos depois do primeiro relato, 
ora por suas paragens e belezas naturais, ora por suas tribos, muitos desses que 
por sinal sucumbiram, desapareceram, ou foram exterminados sem dúvida, a 
história nos mostra que os índios têm sido os conquistados, e os brancos, os 
conquistadores. Esta mesma história é que é sempre contada pelos vencedores. A 
verdade do derrotado não é ouvida, muito menos lida, já que, via de regra, não 
existia a escrita entre os nativos. 
O que nos deixa abismados é por qual motivo tanta tribo inimiga convivia num 
mesmo local? Uma explicação vem do que escreveu Baena (apud Bernadino de 
Souza, 1873) sobre as tribos mencionadas na Ilha de Parintins. 
É muito rica em madeiras da melhor qualidade, sobressaindo entre 
todas a bella Muirapinima. Dizem que há também ali Páo-Brasil; 
entretanto nenhum dado seguro há para poder asseverar a sua 
existência. (BAENA, 1893, p. 36) 
Outra crença que une as tribos no mesmo local são seus ritos, suas crenças e 
suas religiões serem quase iguais, principalmente os ritos de iniciação dos meninos 
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onde alcançam a fase adulta, onde possam a ser chamados de guerreiros. Nesse 
sentido, surge a problemática, que é descobrir o significado da Guerra contra a etnia 
mura. 
O objetivo geral desse trabalho é fazer uma pesquisa historiográfica sobre as 
guerras inter-étnicas (guerra intertribal) entre os povos indígenas que habitavam o 
período da Amazônia Colonial. E o objetivo específico é analisar a guerra contra o 
grupo étnico Mura pelo grupo étnico Mundurucu. 
 
 
2. MATERIAL E MÉTODO 
 
Faz-se necessária uma análise sobre os documentos históricos de textos 
escritos sobre as tribos que habitavam a ilha de Parintins e adjacências e o que 
motivavam a guerra entre si, principalmente entre o ódio mortal entre os Muras e os 
Mundurucus. 
O trabalho foi desenvolvido por uma pesquisa bibliográfica em fontes 
documentais que estão nos arquivos do Museu Amazônico, arquivos do Instituto 
Geográfico e histórico do Amazonas, arquivo digital do Museu Ultramarino de 
Portugal, base de dados da Scielo e outras bases de teses e dissertações acerca 
dos documentos e registros históricos desses acontecimentos sobre as guerras 
tribais na ilha de Parintins e das tribos envolvidas. 
Levantamento de material bibliográfico para um estudo do tipo descritivo, 
realizado através de livros, que, segundo Lakatos (2006), é caracterizado por 
abranger toda bibliografia publicada em relação ao tema de estudo, desde 
publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, pesquisas, monografias, teses e 
meios de comunicações visuais e auditivas. A finalidade é proporcionar ao 
pesquisador o contato direto com todos os métodos de divulgação sobre o 
determinado assunto. 
Como concorda Gil (2002), uma pesquisa bibliográfica é definida como um 
estudo que toma partida de material já elaborado, constituído por vários livros de 
literatura corrente, livros de referência informativa e remissiva, como dicionários, 
enciclopédias, anuários, almanaques e catálogos; publicações, como jornais e 
revistas; e impressos diversos. 
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Depois de levantar todo material necessário de pesquisa, a segunda parte da 
metodologia é viajar até a ilha de Parintins, Itacoatiara, Autazes e adjacências para 
entrevistar os indígenas das etnias Muras e Mundurucu, tendo em vista que essas 
etnias possuem comunidades em Parintins, Itacoatiara e Autazes, ou vão sempre 
fazer comércio com nela. 
Outro caminho que podemos seguir é realizar a entrevista de História Oral 
com os indígenas, onde é preciso seguir um “caminho” (método). Registrar os 
depoimentos em fitas ou equipamentos digitais, imagem e som, é também registrar 
as experiências vividas pelos sujeitos sociais que contribui para a compreensão do 
passado recente. 
História Oral é o registro da história de vida de indivíduos que, ao focalizar 
suas memórias pessoais, constroem também uma visão mais concreta da dinâmica 
de funcionamento da trajetória do grupo social ao qual pertence. Segundo Meihy: 
A História Oral é um procedimento destinado à constituição de novas 
fontes para a pesquisa histórica, com base nos depoimentos orais 
colhidos sistematicamente em pesquisas específicas, sob métodos 
problemas e pressupostos teóricos explícitos. (MEIHY, 1996, p. 56-7) 
Nesse momento, a pesquisa segue em andamento, sendo municiada com 
referencial bibliográfico da história cultural como forma de embasamento para 
sustentação da dissertação do trabalho. 
 
 
3. RESULTADOS 
 
As fontes que pesquisamos nos revelaram que as guerras tribais sempre 
estiveram motivando as sociedades e que se apoiavam numa lógica de guerra para 
explicar a necessidade do empreendimento belicoso. Como cada tribo via as outras 
como inimigas e, portanto, como potenciais agressoras, justificam os ataques 
preventivos contra elas pelas ameaças que óbvia e invariavelmente constituíam. 
Segundo Marvin Harris: 
Os grupos que adotaram instituições de controle de crescimento 
sobreviveram por mais tempo do que aqueles que deixaram 
ultrapassar sua capacidade limite de sustentação. As guerras 
primitivas não resultam de caprichos, nem de necessidades 
instintivas; são simplesmente um dos mecanismos de regulação que 
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ajudam a manter as populações humanas num estado de equilíbrio 
ecológico, com respeito aos seus territórios. (...) A guerra primitiva [é] 
um mecanismo de adaptação ecológica. (HARRIS, 1978, p. 58-59) 
O sociólogo Florestan Fernandes, entre outras razões, não deixa de apontar 
também a questão ecológica como fator importante para os conflitos belicosos 
envolvendo os Tupinambá: “Em virtude dos conhecimentos que possuímos sobre as 
formas de adaptação dos Tupinambá ao meio natural circundante, sabe-se que a 
guerra desempenhava um papel relevante na estratégia tribal da luta pela vida” 
(FERNANDES, 1970, p. 128). 
As diferentes tribos indígenas que habitavam a Ilha de Parintins se viam como 
inimigas, portanto, como potenciais agressoras, de modo que invariavelmente uma 
delas tomava a iniciativa para a realização de “ataques preventivos” contra outra. 
Segundo à filosofia de Thomas Hobbes (2003), superficialmente condensada 
na ideia da “guerra de todos contra todos” que teria prevalecido no estado de 
natureza, é que o homem é movido por seus desejos e aventuras, a guerra em 
várias sociedades indígenas é prazerosa aos mais jovens e nesse sentido, não 
hesitaria em matar e destruir seu inimigo. 
O medo de serem atacados faz com que as tribos ocasionalmente desfiram 
ataques preventivos, o que dá às outras aldeias boas razões para empreenderem 
seus próprios ataques preventivos e impele grupos de aldeias a formar alianças que 
deixam seus vizinhos mais nervosos (PINKER, 2004, p. 439). 
Justificativas morais como essas alicerçavam as guerras intertribais, 
implicando uma “reciprocidade belicosa” que na prática significava uma situação de 
conflito permanente. Daí as guerras indígenas constituírem sempre um ingrediente 
importante, senão, fundamental da vida primitiva. 
Segundo Florestan Fernandes (1970), a vingança é a causa da guerra para o 
Tupinambá. Sua finalidade seria o aprisionamento de inimigos para o sacrifício ritual 
e a antropofagia cerimonial. 
 A justificativa desse relato de pesquisa é mostrar que as tribos mais 
belicosas, mesmo perecendo no tempo, continuam vivas como as tribos indígenas 
Mura, Mundurucus e que ainda habitam a mesma ilha que foi palco de lutas e 
guerras de séculos e séculos atrás. 
 
 
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4. DISCUSSÕES 
 
Muras 
 
Os Muras são a tribo mais conhecida da história colonial da Amazônia; com 
seus assaltos, causavam medo e pavor nas missões jesuítas na Serra de Parintins, 
durante a segunda metade do século XVII. Em sua monografia sobre o grupo Mura, 
publicada em 1948, Curt Nimuendaju afirma que esses índios foram mencionados 
pela primeira vez, em 1714, numa carta do padre jesuíta Bartolomeu Rodrigues, da 
missão dos Tupinambaranas. Segundo Curt Nimuendajú, “[...] de todas as tribus da 
Amazônia foi esta a que mais extenso território occupou, espalhando-se das 
fronteiras do Peru até o Trombetas. (NIMUENDAJU, 1925, p. 140). 
O grupo indígena Mura pertence a uma família linguística menor do sul do 
Amazonas integrada pelas línguas Mura e Pirahã (RODRIGUES, 1998, p. 81). A 
Funai dispõe de amplo material de cunho histórico e documental a respeito dos 
Mura, sendo que os vários postos indígenas que atuaram, e ainda atuam, na região 
do estado do Amazonas foram instalados no início do século XX pelo então Serviço 
de Proteção aos Índios/SPI. 
Os índios Mura ficaram conhecidos na bibliografia etnográfica como “corsários 
do caminho fluvial”. Viviam em suas próprias canoas, como se fossem suas casas, e 
se destacavam na resistência à ocupação pelos não índios. De acordo com o 
naturalista Henry Walter Bates: 
Os Mura se tornaram uma tribo de pescadores nômades, que 
desconhecem a agricultura e todas as artes praticadas por seus 
vizinhos. Não constroem moradias sólidas e duradouras: vivem em 
grupos familiais isolados ou em pequenos bandos, errando de um 
lugar para outro ao longo das margens dos rios e das lagoas onde há 
mais abundância de peixes e de tartarugas. Em cada lugar onde 
param temporariamente, eles constroem choças provisórias à beira 
da água, mudando-se mais para cima ou para baixo do barranco à 
medida que a água sobe ou desce. (BATES, 1840, p. 129-130) 
Sua imagem é marcada por traços guerreiros, destemidos, conhecedores de 
táticas sui generis de ataque e de emboscada, o que atemorizava e lhes concedia 
uma enorme fama de “perigosos”, principalmente nos idos dos séculos XVII a XIX, 
quando impediram, por sua presença e força física, o avanço das missões, do 
comércio português e das ações de cunho militar na Amazônia. 
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 Mundurucus 
 
Conhecidos como os “espartanos da Amazônia”, os Mundurucu sempre foram 
apontados como a grande tribo guerreira da Amazônia, desde que surgiram na 
história da região na segunda metade do século XVIII. Os índios Mundurucus 
apareceram nos registros históricos por volta de 1770, quando fizeram uma série de 
devastadores ataques aos povoados localizados à beira do rio Tapajós. Nessa 
época o território da “Mundurucânia” já era objeto de exploração de colonos luso-
brasileiros e algumas aldeias missionárias já haviam sido estabelecidas pelos 
padres jesuítas. 
 O objetivo dos Mundurucu será perpetrar uma série de ataques tanto a outras 
tribos indígenas quanto às comunidadesnão-índias do vale amazônico. Mas, 
frequentemente elas se mantinham à caça de inimigos de outras etnias durante 
vários meses, período que podia chegar a um ano e meio. Essa dedicação à 
atividade belicosa evidencia a importância da guerra para a sociedade Mundurucu. 
Por outro lado, Spix e Martius, ao discorrerem sobre a guerra praticada pelos 
Mundurucu, afirmam que estes “fazem incursão exclusivamente de dia, e, por isso, 
veem-se igualmente atacados à noite pelos belicosos Araras”. Em sua obra Viagem 
pelo Brasil, os naturalistas alemães, após extensa viagem por várias regiões do país 
em 1817-1819, observaram que para os Mundurucu: 
A guerra é uma ocupação agradável, mais ainda do que para a 
maioria das tribos; tudo, desde o princípio parece calculado para eles 
se fazerem valer na guerra. (...). No ataque, distribuem-se os 
Mundurucus em extensas linhas; esperam a carga de flechas do 
inimigo (...) e só então desferem instantaneamente as suas flechas 
apresentadas pelas mulheres, quando o inimigo, em bando cerrado, 
já não dispõe de muita munição. (SPIX, VON MARTIUS. 1938, p. 
409) 
 Um dos motivos para a brabeza dos Mundurucu, sendo um ponto complexo 
de entendimento, e as informações evidenciam, é a caça de cabeças humanas, que 
se revestiam do mais alto significado naquela sociedade. 
Segundo Aires de Casal (1976), os Mundurucu eram chamados pelos 
indígenas de outras tribos de paiquicés, que significava “corta-cabeça”, prática essa 
de que não se tem notícia em qualquer outra tribo indígena do Brasil. 
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O teórico acima se confunde aqui, porque tanto índios Parintintins como 
índios muras, também são cortadores de cabeças. Todos os inimigos homens 
adultos eram mortos, enquanto as mulheres e crianças eram levadas para as 
aldeias Mundurucu; aquelas mais tarde se casavam com homens deste grupo, 
enquanto estas eram adotadas e tratadas como crianças comuns. As cabeças dos 
homens eram decepadas, preparadas por um processo que ficou conhecido como 
mumificação e, depois, mantidas como troféus de inestimável valia para os 
Mundurucu. 
As cabeças dos inimigos e, nesse caso, por inimigo se entende qualquer 
outra etnia, em particular aquele que se e a mantinham – depois de devidamente 
mumificada e enfeitada – como o mais valioso troféu que se podia exibir. Ela 
simbolizava o feito máximo a que qualquer homem podia aspirar, o que resultava em 
orgulho extremado e respeito – provavelmente também inveja – dos seus pares. O 
dono da cabeça – exuberante em prestígio e glória – conduzia-a frequentemente 
implantada numa estaca e se tornava o elemento central de uma série de 
festividades e cerimônias celebrantes da cabeça- troféu, que, segundo Murphy, se 
estendia por três estações chuvosas após a guerra em que havia sido conquistada. 
O inimigo, depois de morto, tinha sua cabeça decepada pelo captor com o 
auxílio de uma lâmina de bambu que lhe cortava o pescoço e a vértebra. Depois, 
retiravam-se os músculos internos, os miolos, os olhos e a língua para se proceder à 
mumificação que se fazia pela exposição continuada da cabeça à fumaça do óleo de 
copaíba, posto a ferver e, em seguida, pela lavagem e banho em azeite de urucu. O 
crânio não era retirado, de modo que a peça mantinha o tamanho próximo ao 
original; era preenchido com algodão e depois se colocavam nele olhos de resina, 
processo que se completava com o implante de dentes de animais e um enfeite de 
penas que fazia da cabeça um belo troféu que permanecia por um largo período 
inseparável do seu possuidor. É interessante notar que não se registram cabeças de 
não índios tomadas como troféus pelos guerreiros Mundurucu, apesar dos 
incontáveis ataques e mortes infligidas aos colonos luso-brasileiros que habitavam 
as paragens por eles percorridas. (MURPHY,1954, p. 54). 
 As guerras intertribais beneficiavam também os portugueses, que viam com 
bons olhos o enfraquecimento da resistência indígena ao seu domínio, favorecendo 
– através de uma espécie de escravidão dissimulada - uma utilização cada vez 
maior da mão-de-obra indígena nas vilas dos colonizadores. 
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Devido à grande combatividade desses índios, eles foram recrutados 
pelos brancos para fazer face a tribos hostis. Com isso os 
Mundurucu conseguiram manter, por um longo período, certa 
integridade e autonomia tribal e o poder político dos seus chefes 
alcançado pelo relevante papel que exerciam na guerra. Assim, os 
padrões guerreiros passaram a ser desempenhados tanto pelas 
antigas motivações tribais, como por razões mercenárias. (RIBEIRO, 
1979, p. 40) 
É o que observa o professor Darcy Ribeiro, que também destaca a aliança 
guerreira entre os Mundurucu e as forças da coroa portuguesa. 
 
 
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
A questão principal que moveu esse trabalho foi buscar identificar os 
personagens que participaram ativamente das guerras tribais na Amazônia colonial 
portuguesa. Ao mesmo tempo, como eles passaram a sobreviver com a imposição 
da cultura portuguesa, e das políticas da coroa lusitana nesse período. 
 Dentre as tribos pesquisadas, apenas os Tupinambás pereceram no tempo, 
foram caçados e exterminados pela coroa portuguesa, O sociólogo Florestan 
Fernandes, em sua Tese de Doutorado intitulada “A função Social da Guerra na 
Sociedade Tupinambá”, nos brinda com o poder belicoso da tribo tupinambá frente 
aos inimigos, assim como o historiador Almir Diniz Carvalho Júnior, que nos conta 
em sua Tese de Doutorado “Índios Cristãos: Poder, Magia e Religião na Amazônia 
Colonial” de uma batalha sangrenta que aconteceu aos arredores da cidade de 
Belém, onde duas nações tupinambás se juntaram, uma vinda de Pernambuco e 
outra do Maranhão, para atacar repetidas vezes os acampamentos em torno da 
cidade de Belém, fazendo tática de guerrilha, deixando a cidade às escuras, sem 
abastecimento e sobressaltadas por seus ataques que duraram longos 3 anos. 
 São esses personagens esquecidos pela historiografia brasileira que 
pretendemos contar nesse relato, por que foi através desse empreendimento 
belicoso que muitas prosperam e não foram exterminadas que é o caso dos índios 
Muras que ainda vivem nos arredores do Rio Madeira, onde que vários relatos de 
viajantes, pediam o seu extermínio por serem indolente e belicosos. Os mundurucus 
foram a nação mais promissora desta época, inteligentes e guerreiros, logo 
aprenderam a fazer políticas com os portugueses e colocaram à disposição da coroa 
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portuguesa a “máquina de guerra mundurucu” que era capaz de percorrer 
quilômetros e quilômetros só para buscar seus preciosos troféus as cabeças 
inimigas. 
 Por fim, essa pesquisa vem retratar de forma acadêmica e cientifica que a 
Amazônia Colonial Portuguesa dos séculos XVII e XVIII não foi entregue aos 
portugueses sem luta e resistência por parte das nações indígenas. Os portugueses 
se sobressaíram, utilizando as brigas internas que já existiam antes da vinda de 
Cabral por essas terras, utilizando as rivalidades que cada tribo inimiga tinha umas 
das outras e essa foi a grande vantagem do conquistador. 
 
 
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VIVEIROS DE CASTRO, E. Araweté: Os Deuses Canibais. Rio de Janeiro, Jorge Zahar 
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	Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
	(maxdeulen@hotmail.com)

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