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Como a literatura moldou a identidade 
cultural durante a ditadura?
A literatura durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985) desempenhou um papel fundamental na 
construção e afirmação da identidade cultural do país. Em um período marcado por censura, repressão 
e controle ideológico, a palavra escrita se tornou um espaço de resistência e expressão da identidade 
nacional, com obras que atingiram mais de 100.000 leitores mesmo sob forte vigilância do Departamento 
de Ordem Política e Social (DOPS).
Através da literatura, escritores e intelectuais brasileiros conseguiram dar voz às diversas vertentes da 
cultura nacional. Ariano Suassuna, com "Auto da Compadecida" (1975), retratou a cultura popular 
nordestina com suas características peculiares. João Cabral de Melo Neto, em "Morte e Vida Severina" 
(1966), denunciou a realidade social do sertão. Clarice Lispector, através de "A Hora da Estrela" (1977), 
deu voz à migrante nordestina Macabéa, personagem que simbolizava milhões de brasileiros 
marginalizados.
A literatura também combateu ativamente o apagamento da memória nacional. Rubem Fonseca, em 
"Feliz Ano Novo" (1975, censurado em 1976), retratou a violência urbana do Rio de Janeiro com um 
realismo brutal. Dalton Trevisan, com seus contos em "O Vampiro de Curitiba" (1965), expôs a hipocrisia 
da sociedade conservadora. Chico Buarque, em "Fazenda Modelo" (1974), utilizou a alegoria de uma 
fazenda para criticar o "milagre econômico" brasileiro.
O regionalismo ganhou força como movimento de resistência cultural. No Nordeste, o movimento 
armorial, fundado por Ariano Suassuna em 1970 na Universidade Federal de Pernambuco, integrava 
literatura, música e artes plásticas, resgatando elementos da cultura popular como o cordel e as 
xilogravuras. No Sul, Moacyr Scliar, com "O Centauro no Jardim" (1980), explorou a identidade judaica 
no Brasil. Na Amazônia, Márcio Souza publicou "Mad Maria" (1980), denunciando a exploração da 
região desde o ciclo da borracha.
A poesia concreta, movimento iniciado em 1956 por Augusto e Haroldo de Campos com a revista 
"Noigandres", atingiu seu ápice político durante a ditadura. Em São Paulo, os poetas marginais criaram a 
"Nuvem Cigana" em 1972, distribuindo poesias mimeografadas em bares e universidades, atingindo 
mais de 10.000 leitores mensalmente através deste sistema alternativo de distribuição.
O romance brasileiro inovou em técnicas narrativas. "Zero" (1975) de Ignácio de Loyola Brandão, 
publicado primeiro na Itália devido à censura, utilizava colagens, fragmentos de notícias e múltiplas 
vozes narrativas. "A Festa" (1976) de Ivan Ângelo reconstituía um evento político através de diferentes 
perspectivas, técnica que influenciou toda uma geração de escritores.
A literatura deste período criou um legado que ultrapassa seu tempo histórico. Entre 1964 e 1985, foram 
publicadas mais de 500 obras literárias que, direta ou indiretamente, confrontavam o regime militar. 
Dessas, pelo menos 140 foram censuradas, mas continuaram circulando clandestinamente, criando 
redes de resistência que conectavam leitores de diferentes regiões do país. Este movimento literário não 
apenas preservou a identidade cultural brasileira durante os anos de chumbo, mas também estabeleceu 
as bases para uma nova literatura nacional que emergiria com a redemocratização.

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