Prévia do material em texto
AULA 1 GESTÃO DO VAREJO Prof. Lucas Lira Finoti 2 CONVERSA INICIAL Quando foi a última vez que você fez compras no supermercado? Arriscamos dizer que, na última semana, você foi, ao menos uma vez, a um supermercado, ou pelo menos comprou itens de um supermercado por aplicativo. Os supermercados são estabelecimentos comerciais varejistas que fazem parte da rotina das pessoas. Eles são tão comuns em nossa rotina que muitas vezes não nos damos conta de sua importância. Para começarmos a falar de gestão do varejo, é essencial que você entenda a importância do setor varejista na vida dos consumidores. Todo o processo de gestão do varejo começa pelo entendimento de quais necessidades dos consumidores o varejo satisfaz. Vamos aprofundar essa discussão no Tema 1 desta aula. Sabendo que o varejo provê necessidades dos consumidores e que os consumidores têm necessidades distintas, é importante iniciar nossa discussão estabelecendo algumas diferenças básicas entre os tipos de varejo, como varejos com loja e varejos sem loja. Essa discussão será desenvolvida no nosso Tema 2. Para ajudar a entendermos melhor os tipos de varejo, preparamos para o Tema 3 um resgate histórico sobre o desenvolvimento do varejo no Brasil. Esse conteúdo vai fornecer a você uma importante base sobre o funcionamento do varejo hoje em dia. Você sabia, por exemplo, que o crediário, que ainda hoje compõe a estratégia de muitas empresas varejistas, começou a ser desenvolvido no Brasil durante a década de 1920? No Tema 4, vamos mostrar que o varejo tem grande importância para a economia brasileira, gerando um valor de aproximadamente 26% do Produto Interno Bruto (PIB) do país (SBVC, 2020). Ou seja, aprender gestão do varejo vai lhe capacitar para atuar em empresas que operam em um setor central da economia, que sempre tem oportunidades de trabalho para cargos de gestão. Para fechar esta nossa aula, fizemos uma seção específica para abordar os conceitos básicos sobre gestão do varejo, os chamados seis pês do varejo, que são compostos por preço, ponto de venda, promoção, produto, pessoal e apresentação (no inglês, presentation) – 6Ps, em que nos aprofundaremos no Tema 5. 3 TEMA 1 – A IMPORTÂNCIA DO VAREJO PARA O CONSUMIDOR Imagine que você precise comprar os seguintes produtos para consumir no café da manhã: pão, leite, café em pó, manteiga, presunto, queijo, mamão e granola. Qual a forma mais fácil de comprar todos esses produtos? Indo até um supermercado, a uma mercearia ou a uma padaria, correto? Supermercados, mercearias e padarias são apenas alguns exemplos de empresas varejistas que proporcionam uma importante vantagem para os consumidores: a redução de contatos para realizar compras, chamada de eficiência de contatos (Urdan; Urdan, 2003). Vamos lhe mostrar como a eficiência de contatos funciona: para realizar a compra de todos os itens listados de que necessita no café da manhã, você provavelmente realizará apenas um contato com uma empresa varejista. Se existir um bom sortimento de produtos na loja que você costumar frequentar, esse único contato de compra será suficiente para que você consiga preencher seu café da manhã. Agora, imagine a quantidade de contatos que você precisaria realizar para montar um café da manhã se os empreendimentos varejistas simplesmente não existissem: você teria que se deslocar até a área rural para encontrar um produtor de leite (se você tivesse sorte, aproveitaria a viagem para comprar manteiga e queijo, também). Depois, você precisaria buscar o pó de café diretamente com o produtor do grão. O presunto precisaria ser comprado no açougue ou diretamente com o produtor pecuário. Assim, já é possível perceber que muitos outros contatos de compra seriam necessários para conseguir montar um bom café da manhã. Com esse exemplo, é possível perceber que o varejo, de forma geral, tem como função facilitar o acesso dos consumidores aos produtos. Ao se utilizar da eficiência de contatos, os consumidores se beneficiam disso, pois podem alocar o tempo economizado em compras para realizar outras atividades do seu dia a dia. As Figuras 1 e 2 ilustram bem essa eficiência de contatos proporcionada pelo varejo. Na Figura 1, visualizamos 5 produtores (de café, pão, leite, queijo e maçã) realizando trocas comerciais com 4 clientes. Para que todos os clientes comprem todos os produtos vendidos, serão necessários 20 contatos de compra. Já na Figura 2, visualizamos os mesmos produtores e varejistas; no entanto, nota- se que existe a presença de um comércio varejista para realizar as transações 4 comerciais. Dessa forma, para que todos os clientes consigam comprar todos os produtos, serão realizados apenas 9 contatos de compra. Figura 1 – Transações comerciadas sem varejistas Figura 2 – Transações comerciais com varejistas Se pensarmos a atuação do varejo pela perspectiva de gestão de marketing, podemos dizer que a operação varejista agrega valor aos produtos dos fabricantes. A agregação de valor pode ocorrer devido à eficiência de 5 contatos, como acabamos de ver, mas também existem três grandes tipos de utilidades que o varejo proporciona e que aumentam a percepção de valor dos produtos pelos consumidores, sendo elas: utilidade de lugar, utilidade de tempo e utilidade de forma, discutidas a seguir. 1.1 Varejo e agregação de valor aos produtos A primeira forma pela qual o varejo agrega valor aos produtos é por meio da utilidade de lugar. O comércio varejista suaviza as dificuldades causadas pela distância entre o lugar de produção de um bem e o ponto onde o consumidor deseja receber e consumir o produto (Urdan; Urdan, 2003). Pense, por exemplo, no açaí que é produzido no Norte do Brasil e consumido nas Regiões Sul e Sudeste como uma sobremesa. A existência do varejo (e de outros intermediários no canal de distribuição) possibilita que um consumidor que mora na cidade de São Paulo possa comprar polpa de açaí, que é produzido no Pará, na sorveteria do seu bairro, a qualquer hora do dia. Sem a operação do varejo, esse consumidor teria que encomendar o produto e esperar todo o tempo que levaria o transporte desse produto do seu local de produção à residência do consumidor. Mesmo quando um produto não está disponível no ponto de venda, a operação varejista pode fazer com que ele seja entregue muito rápido. A isso damos o nome de utilidade de tempo. A utilidade de tempo é possível devido à gestão eficiente e eficaz da cadeia de suprimento e dos estoques. Os avanços em tecnologias de gestão e de comunicação estão possibilitando cada vez mais as empresas varejistas entregarem produtos com prazos mais curtos, aos clientes (Urdan; Urdan, 2003). Hoje em dia, muitos varejistas on-line usam a utilidade de tempo como argumento de venda para convencer o consumidor. Por exemplo, o Mercado Livre promete entregar suas compras em até 24 horas, o Submarino anuncia compre e receba hoje, enquanto a Americanas.com diz que a entrega de suas mercadorias pode ser feita em até 3 horas. A terceira forma pela qual o varejo agrega valor aos produtos é por meio da utilidade de forma. A utilidade de forma nada mais é do que a possibilidade de o consumidor comprar uma grande variedade de produtos em porções muito pequenas (Urdan; Urdan, 2003). Mas por que isso é tão importante? Fábricas são especializadas em produzir produtos específicos, em grande quantidade. No entanto, os consumidores não têm necessidade (nem dinheiro) para comprar grandes lotes de produtos. É muito mais conveniente comprá-los em pequenas 6 quantidades. Se a fábrica precisasse enviar pequenas quantidades de produtos aos consumidores, o custo para isso seria muito mais alto, o que deixaria os produtos mais caros. Dessa forma, ao ligar fabricantesa consumidores, o varejo atua como um amortecedor dessas diferenças relativas às formas de fabricação e consumo. Assim, por meio da eficiência de contatos e das utilidades de lugar, tempo e forma, podemos entender a importância do varejo para os consumidores. No próximo tema, vamos aprofundar um pouco mais essa discussão ao entender que existem tipos diferentes de varejo, para atender a necessidades específicas dos consumidores. TEMA 2 – TIPOS DE VAREJO A ciência do marketing, há muito tempo, já diz que os consumidores têm necessidades diferentes e essas diferenças se refletem na forma como cada pessoa realiza compras. Por exemplo, existem pessoas que são completamente independentes e não gostam de ser incomodadas por vendedores durante o seu processo de compra. Por outro lado, outras pessoas podem estar em busca de um produto complexo e de alto valor agregado, que demande a atenção total da equipe de vendas da loja varejista. Uma terceira opção seria a compra dos produtos sem a necessidade de visitar nenhuma loja física, como é feito hoje por muitos consumidores, via internet. Esses três exemplos básicos já ajudam você a entender que existem tipos diferentes de varejo, voltados a necessidades específicas dos consumidores. Neste tema, vamos aprofundar essa discussão levando em consideração duas dimensões de análise: varejo com loja e varejo sem loja. 2.1 Varejo com loja Na categoria de varejo com loja, podemos diferenciar os tipos de loja de acordo com o nível de serviço oferecido pelo varejista. Nesse sentido, existem dois tipos principais de varejo: serviço limitado e serviço completo. No nível de serviço limitado, a loja varejista oferece poucos serviços de suporte ao consumidor no seu processo de compra (Urdan; Urdan, 2003). Geralmente, o consumidor consegue (e prefere) realizar a compra sozinho, utilizando serviços em momentos específicos, como o check-out (passar as 7 compras no caixa) ou quando o consumidor precisa de ajuda para encontrar algum item específico. Por isso, em lojas de serviço limitado, os vendedores acabam tendo uma função de apoio, sem interferirem diretamente no processo de compra. Na categoria de serviço limitado, podemos fazer uma diferenciação entre autosserviço e autoatendimento. No autosserviço, existe grande possibilidade de se conceder descontos ao consumidor. Isso ocorre pois o varejista não disponibiliza serviços de apoio ao consumidor, que deve realizar a sua compra de forma independente, sem o auxílio de vendedores. Ou seja, os consumidores devem conduzir sozinhos seu processo de procura, comparação e seleção de produtos. No autoatendimento, os consumidores conseguem ser independentes no processo de compra, mas, caso seja necessário pedir ajuda, existirá algum funcionário disponível para lhe dar algum suporte (Kotler; Keller, 2018). O avanço das tecnologias possibilita a implantação de lojas com serviços limitados com mais facilidade, de modo que o consumidor muitas vezes consegue usar a tecnologia para tirar suas dúvidas. Por exemplo, muitos supermercados contam com terminais onde os consumidores conseguem consultar informações sobre os produtos. Outro exemplo, que começa a ser mais difundido no Brasil, é o self-checkout, ou seja, quando o consumidor faz o pagamento de suas compras em um caixa automático, sem a presença de funcionários que lhe auxiliem no processo. Um ponto importante a ser observado em lojas varejistas de serviço limitado é que os gestores precisam pensar o ambiente de loja de forma que o processo de compra seja fácil e intuitivo. Por isso, deve-se trabalhar com a organização dos produtos em seções que façam sentido para o consumidor, evitando que ele precise de ajuda para encontrar os produtos que procura. Outra questão essencial é trabalhar a apresentação dos produtos de forma que chamem a atenção e “se vendam” sozinhos, afinal, muitas dessas lojas não contam com vendedores disponíveis para atendimento individualizado aos clientes. A maior vantagem das lojas de serviço limitado é a redução do custo da operação. Por isso, geralmente, o serviço limitado é pensado para consumidores mais sensíveis a preço ou então para compras consideradas rotineiras, que o consumidor está acostumado a realizar com frequência e não precisa de ajuda no processo de compra. No nível de serviço completo, por outro lado, a experiência de compra do consumidor é colocada em primeiro lugar. Nesse nível de serviço, é realizado um 8 grande esforço para que o consumidor receba toda a atenção necessária no seu processo de compra. Geralmente, o vendedor acompanha o consumidor durante todo o processo, fazendo considerações sobre os produtos, explicando suas funcionalidades e destacando seus diferenciais, ou seja, agregando-lhes valor (Urdan; Urdan, 2003). Mas por que essa abordagem é importante? Em algumas situações de consumo, as pessoas precisam de maior suporte no processo de compra. Pense por exemplo na compra de móveis planejados para um apartamento. A compra envolve o investimento de valores monetários elevados, sendo comum que o consumidor gaste R$ 20.000 ou mais nesse tipo de compra. Dessa forma, a decisão acaba sendo naturalmente mais complexa, de modo que a presença de um vendedor para sanar todas as dúvidas do consumidor é essencial para efetivação da venda. O serviço completo também é mais comum em lojas varejistas nos setores de luxo. Em algumas marcas de roupas de grife, os consumidores são recebidos nas lojas com champagne, para que possam realmente sentir o processo de compra como um momento especial. É comum também que essas lojas ofereçam os serviços de alfaiataria (inclusos no preço pago pelas peças), para que ajustes sejam feitos nas roupas para melhor atender às necessidades do consumidor. 2.2 Varejo sem loja Embora o varejo com loja seja o mais conhecido e utilizado pelos consumidores, cada vez mais as pessoas se acostumam com o conceito de varejo sem loja. O avanço do comércio pela internet tem ajudado a aumentar a proporção de operações varejistas sem loja. Nesse sentido, o varejo sem loja pode ser dividido em quatro categorias principais: marketing direto, venda direta, máquinas de venda e serviços de compra (Kotler; Keller, 2018). O marketing direto é muito bem representado pelas operações de vendas on-line. A Amazon.com é um bom exemplo de varejo sem loja na categoria marketing direto. A empresa nasceu e cresceu sem operações físicas e hoje é uma gigante varejista. Outro exemplo de marketing direto são as operações de telemarketing ativo, ou seja, realização de vendas de produtos por meio de ligações telefônicas. Nesse caso, também não existe loja física: o consumidor faz suas compras diretamente pelo telefone e o produto adquirido é entregue em sua casa. 9 A venda direta ocorre por meio do contato direto entre vendedores e compradores, geralmente de porta em porta ou em reuniões domiciliares organizadas pelos vendedores. Essa modalidade é muito conhecida como marketing multinível ou marketing em rede. Empresas como Avon, Mary Kay e Tupperware nasceram e cresceram atuando com varejo sem loja, mais especificamente com vendas diretas. As máquinas de vendas automáticas são utilizadas principalmente para venda de produtos de conveniência ou itens de compra por impulso. As máquinas mais populares são aquelas que vendem bebidas (refrigerantes, sucos, água); no entanto, essa é uma modalidade de varejo que cresce cada vez mais em escritórios, grandes lojas de varejo, postos de gasolina, hotéis, locais públicos etc. e até mesmo dentro de condomínios residenciais. Com as restrições de circulação impostas pela pandemia de coronavírus desde março de 2020, muitos condomínios residenciais têm montado micromercados com vending machines, para atender às necessidades de seus moradores (Vieira, 2021). O serviçode compra é uma estratégia de varejo sem loja voltada a públicos muito específicos, como é o caso de funcionários de grandes organizações. As grandes organizações fecham parcerias com varejistas que oferecem descontos em produtos mediante a filiação dos funcionários aos serviços de compra. As compras são realizadas de forma eletrônica ou por catálogo; não existe loja física. Agora que você já tem um bom conhecimento sobre a importância do varejo para os consumidores e também a respeito dos tipos de varejo existentes, vamos avançar nossa discussão entendendo como o varejo se desenvolveu no Brasil. Essa retomada histórica fornecerá uma importante base para você entender as operações varejistas e as características do varejo no nosso país. TEMA 3 – DESENVOLVIMENTO DO VAREJO NO BRASIL Nesta seção, o objetivo é mostrar para você um breve histórico do desenvolvimento do varejo no Brasil com base nos momentos mais marcantes da evolução dos empreendimentos varejistas. Para isso, utilizamos duas obras do autor Luis Fernando Varotto (2006, 2018), especialista no assunto. Montamos para isso uma linha do tempo destacando os principais acontecimentos em cada período, do século XVIII até os dias de hoje. 10 3.1 Século XVIII Podemos dizer que o varejo começou a tomar forma no Brasil a partir do século XVIII, quando uma experiência mais organizada de atividade varejista surgiu no interior de Minas Gerais, devido à corrida do ouro. Com o deslocamento, para essa região, de grande quantidade de pessoas, em busca das riquezas prometidas pela mineração, formaram-se centros populacionais que demandavam produtos de subsistência. Assim, agricultores iniciaram atividades agrícolas orientadas para o comércio, abastecendo com seus produtos as vilas próximas às minas. À medida que a economia local se desenvolvia e a população nesses centros crescia, a demanda por alimentos e outros bens de consumo também aumentava. A produção local não dava mais conta de suprir toda a necessidade dessas populações. Esse momento marca o surgimento dos tropeiros, que passaram a abastecer os centros populacionais que se estabeleceram nas Minas Gerais. 3.2 Século XIX Enquanto, no século XVIII, o varejo começou a se desenvolver para atender às demandas dos centros populacionais do interior do país, o século XIX vê surgir no Brasil um movimento de estabelecimentos varejistas de luxo, principalmente nas cidades portuárias. Esse movimento teve início com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, o que fez com que ocorresse a abertura dos portos brasileiros às nações amigas de Portugal. Com isso, observou-se grande movimentação de navios com mercadorias importadas, nas cidades portuárias. Os tratados de livre comércio inundaram as cidades portuárias com produtos vindos da Europa, principalmente da França, fazendo com que os produtos brasileiros perdessem competitividade, afinal, a indústria europeia era muito mais desenvolvida do que a brasileira. A partir de 1850, observamos um grande movimento de importação de produtos semiduráveis, duráveis e supérfluos vindos da Europa e dos Estados Unidades. Itens como pianos e papéis de parede viraram febre entre a burguesia, de modo que começaram a surgir estabelecimentos varejistas voltados à comercialização desses itens de alto padrão. Em 1860, temos a inauguração da Casa Garraux, em São Paulo. Inicialmente pensada como uma livraria, o estabelecimento varejista se tornou conhecido pela grande quantidade de 11 produtos importados que comercializava, incluindo livros, papéis de carta, artigos para escritório, revistas, jogos, charutos, entre outros produtos. Também no segmento de luxo, em 1871 foi fundada, em Porto Alegre, a Casa Masson, sinônimo de luxo e bom gosto entre a alta classe da época e que tinha como especialidade a comercialização de relógios importados. Após 1880, o ciclo do café impulsiona a economia e o processo de industrialização nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. A produção de café se desloca para o oeste de São Paulo, incrementando a construção de estradas de ferro, o que possibilita o desenvolvimento de centros de varejo no interior do estado. 3.3 Século XX O século XX concentra a maior quantidade de modificações do varejo brasileiro. Durante esse século, se desenvolvem as bases para o sistema de varejo que estamos acostumados a utilizar nos dias de hoje. Para começar, entre 1908 e 1913 surgem, no Brasil, as primeiras grandes lojas de departamentos. Em 1908, são inauguradas as Casas Pernambucanas, presentes até hoje em muitas cidades brasileiras; em 1912, a Mesbla; e, em 1913, a Mappin. Essas lojas estabeleceram os fundamentos do que conhecemos sobre funcionamento e gestão de lojas de departamentos no Brasil. Por exemplo, foram essas grandes lojas de departamentos que, em 1920, começaram a realizar liquidações em momentos específicos do ano, com intensa divulgação em jornais de grande circulação. Mas talvez o maior legado dessas lojas foi o estabelecimento do crediário. Em uma época em que não existiam cartões de crédito, os crediários possibilitavam o parcelamento das compras por meio de um carnê cujas prestações o cliente pagava mensalmente. Empresas como Pernambucanas e Casas Bahia cresceram no Brasil utilizando a venda por meio de crediário. Percebemos, assim, que o século XX trouxe uma democratização dos estabelecimentos varejistas, que até então eram pensados para os consumidores de maior renda. Outro exemplo do movimento de popularização do varejo é a fundação das Lojas Americanas, em 1930. As Lojas Americanas foram pensadas para atender às demandas de uma nascente classe média e tinham como apelo de venda os preços mais baixos. Em 1949, foi inaugurada, em São Paulo, a primeira loja da Sears no Brasil. A gigante do varejo americano trouxe para o país duas novidades para lojas de departamentos: estacionamento amplo e lanchonete. Dessa forma, os consumidores contavam com maior comodidade 12 para a realização das suas compras. Também é importante destacar o oferecimento de assistência técnica própria da loja para os eletrodomésticos comercializados. A década de 1950 ficou marcada pelo estabelecimento do conceito de supermercado, no Brasil. Considerado o primeiro supermercado no formato de autosserviço, o Sirva-se, que foi inaugurado em 1953, em São Paulo, tinha 800 m² de área de loja. Em 1959, foi inaugurado o Pão de Açúcar. O conceito de supermercado de autosserviço foi muito bem-aceito pelos consumidores brasileiros. Em 1966, o país contava com 997 supermercados e, em 1973, o país superou a marca de 5 mil estabelecimentos nesse formato. A década de 1970 presenciou o surgimento dos hipermercados, com mais de 3.000 m² de área. O primeiro a ser lançado foi o Jumbo, em 1971. O Carrefour inaugurou seu primeiro hipermercado em São Paulo no ano de 1975. Ainda na década de 1960, começou a operar no Brasil o primeiro shopping center. O Shopping Center Iguatemi foi inaugurado em 1966, em São Paulo. Em um primeiro momento, os consumidores não entendiam muito bem o conceito de shopping center; no entanto, características como comodidade, segurança e facilidade de estacionamento acabaram conquistando o consumidor brasileiro nas grandes cidades. Avançando um pouco na história, a década de 1990 ficou marcada pelo surgimento das primeiras lojas de varejo digital no Brasil. Em 1992, a marca Magazine Luiza lançou sua primeira loja virtual: ainda sem possibilidade de acesso pela internet, os consumidores consultavam os catálogos em computadores disponíveis nas lojas físicas da marca. Em 1996, surgia a Booknet, que comercializava mais de 120 mil títulos de livros brasileiros e 4 milhões de títulos estrangeiros pela internet. Era o início da era do varejo on-line, que se consolidou nos anos 2000. 3.4 Século XXI Os anos 2000chegaram e o comércio varejista on-line começou a se estabelecer como uma opção viável aos consumidores. No ano de 2000, ocorreu a inauguração da Americanas.com. Em 2006, as Americanas se uniram ao Submarino (outra gigante do varejo on-line) para formar a B2W, a maior varejista virtual do Brasil e uma das maiores do mundo. A partir de 2010, a consolidação dos smartphones com acesso facilitado à internet levou a uma maior necessidade 13 de integração dos canais on-line e off-line do varejo. Essa integração, muitas vezes chamada de estratégia omnichannel, é um dos grandes desafios atuais para gestores que trabalham no varejo. Agora que você tem um entendimento sobre a evolução do varejo no Brasil, vamos discutir, no próximo tema, como as atividades varejistas são importantes para a economia brasileira, sendo o setor varejista um grande empregador da população em seus diversos níveis de qualificação. TEMA 4 – A IMPORTÂNCIA DO VAREJO NA ECONOMIA BRASILEIRA Como vimos no tema anterior, alguns modelos de lojas varejistas foram muito bem-aceitos pelo consumidor brasileiro ao longo do tempo, como os supermercados e os shopping centers. Hoje, as atividades varejistas representam parte importante da economia brasileira. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC, 2020), as atividades varejistas movimentaram, em 2019, um total de R$ 1,9 trilhão. Para efeito de comparação, o PIB brasileiro, no mesmo período, foi de R$ 7,3 trilhões. Ou seja, o varejo movimentou em valor anual o que corresponde a 26,2% de toda a riqueza gerada no Brasil. Ainda vale destacar que o comércio (varejo e atacado) emprega formalmente 8,5 milhões de trabalhadores, o que representa 25% da força de trabalho formal no Brasil. Começamos nossa análise detalhada pelo setor dos shopping centers. Atualmente, existem 577 shopping centers no território nacional. São mais de 100 mil lojas instaladas em shopping centers, que geram aproximadamente 1,1 milhão de empregos diretos e indiretos. No total, os shopping centers, no Brasil, recebem mais de 500 milhões de visitantes por mês, demonstrando que o modelo ainda tem bastante fôlego no país, sendo responsável por um faturamento de aproximadamente R$ 200 bilhões, em 2019 (SBVC, 2020). Para caracterizar a importância do varejo na economia brasileira, destacamos também a operação dos super/hipermercados. De 2010 a 2020, o faturamento total do setor aumentou 175%, saindo de R$ 201 bilhões em 2010 para 554 bilhões em 2020. Com esse montante, o setor movimentou um valor que representa 7,5% do PIB do país. Com 91 mil lojas no Brasil, o setor empregou, direta e indiretamente, em 2020, mais de 3 milhões de pessoas (Abras, 2021). Merece menção, também, na economia brasileira, o setor de franchising. As lojas varejistas que operam pelo sistema de franquias (franchising) faturaram R$ 167 bilhões em 2020. Importa destacar que o desempenho desse campo foi 14 10,5% menor do que em 2019, devido aos impactos da crise provocada pela Covid-19, que restringiu a possibilidade de operação de lojas varejistas em muitas cidades, ao longo do ano, por questões sanitárias. Atualmente, existem mais de 150 mil unidades franqueadas no Brasil, que empregam, formalmente, 1,2 milhão de trabalhadores (Números, 2021). Para fechar esse relato sobre a relevância do varejo na nossa economia, não poderíamos deixar de lado a análise do e-commerce, no Brasil. Desde a primeira loja virtual inaugurada pelo Magazine Luiza, em 1992, o varejo digital brasileiro evoluiu muito. Em 2010, o setor já acumulava um faturamento anual de R$ 18,7 bilhões, que chegou a R$ 61,9 bilhões em 2019, com um incremento total de 231% no seu faturamento, ao longo da década (SBVC, 2020). Destacamos também que, devido a todas as mudanças ocorridas no varejo em 2020, em decorrência da pandemia de Covid-19, o varejo on-line acabou se desenvolvendo ainda mais. Segundo informações do relatório da Ebit Nielsen (2021) intitulado Webshoppers, o e-commerce, no Brasil, cresceu 41% em comparação com 2019, fechando 2020 com um faturamento de R$ 87,4 bilhões, o maior aumento percentual de faturamento desde 2007. TEMA 5 – AS BASES DA GESTÃO DO VAREJO: OS 6Ps A esta altura, você já tem uma boa noção sobre os tipos de varejo e seu desenvolvimento no Brasil. Para fechar esta nossa aula, vamos apresentar um esquema que será muito útil para você usar como base em suas decisões gerenciais no varejo: o composto de marketing varejista. Independentemente do tipo de varejo que você precisar gerenciar (de serviço completo, de serviço limitado, loja de departamentos, loja de conveniência, loja de especialidades), esse esquema lhe ajudará a pensar de forma abrangente todos os aspectos de gestão necessários para garantir o bom desempenho da sua operação varejista. O composto de marketing varejista, também chamado de 6Ps do varejo, é formado por: produtos, preços, promoções, ponto de venda, pessoal e apresentação. Quando desenvolvidos corretamente, os 6Ps do varejo ajudam o gestor a conquistar a preferência dos consumidores pela loja varejista (Parente; Barki, 2014). O primeiro P refere-se aos produtos. Basicamente, envolve as decisões que o gestor precisa tomar relacionadas à variedade de itens a serem comercializados, o que remete à discussão apresentada anteriormente, nesta 15 aula, sobre amplitude e profundidade dos produtos comercializados. Essas decisões são essenciais para atender às necessidades específicas do público- alvo que uma loja busca atingir. O segundo P refere-se aos preços. O gestor precisa tomar decisões que envolvem o correto estabelecimento das estratégias de precificação de acordo com os produtos vendidos e o público-alvo atendido. Também cabem, nas decisões de preço, as possibilidades de pagamentos oferecidas aos consumidores e as relações de custo/benefício que os clientes podem enxergar nas suas transações com a loja varejista. O terceiro P refere-se à promoção. Nesse caso, vinculada a uma ideia ampla de divulgação, ou seja, abarcando as estratégias de comunicação que os gestores vão desenvolver para atrair os clientes até as suas lojas, sejam elas físicas, sejam on-line. Como vimos nesta aula, a adoção de promoções de venda é uma estratégia bastante utilizada em lojas de departamentos para chamar a atenção dos consumidores para produtos que não estavam originalmente em sua lista de compras. O quarto P refere-se ao ponto de venda. Uma parte essencial na abertura de uma loja varejista é pensar na sua localização, que deve levar em consideração as características do público-alvo, a acessibilidade à loja, a visibilidade da vitrine, entre outros aspectos que podem fazer do ponto de venda um sucesso ou um fracasso. Os quatro primeiros Ps apresentados são originários do composto de marketing conforme proposto por McCarthy (1964) e difundido por Philip Kotler em suas diversas obras sobre gestão de marketing, como Kotler e Keller (2018). Os dois próximos Ps referem-se exclusivamente à gestão de lojas varejistas. O quinto P refere-se à apresentação, isto é, à formatação do ambiente de loja. Anteriormente, nesta aula, nós comentamos a importância da apresentação dos produtos para guiar os consumidores nas lojas de serviço limitado. Estratégias de merchandising no ponto de venda e vitrinismo ajudam a melhorar os aspectos de apresentação da loja varejista. O sexto P refere-se às pessoas. É essencial que a equipe que está em contato com os clientes no varejo seja bem treinada para oferecer o melhor serviço, o melhor atendimento, mesmo em lojas de serviço limitado. A dimensão humana é fundamental para se garantir a satisfação dos consumidores, em muitos setores varejistas. 16 Futuramente, sobre gestão do varejo, nós vamos nos aprofundar nas discussões sobre os 6Ps do varejo. Por enquanto, o conteúdo desenvolvidoserviu para que você tivesse um panorama das operações varejistas. 17 REFERÊNCIAS EBIT NIELSEN. Webshoppers. 44. ed. [S.l.], ago. 2021. Disponível em: . Acesso em: 25 out. 2021. KOTLER, P.; KELLER, K. L. Administração de marketing. 15. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2018. McCARTHY, E. J. Basic Marketing: a managerial approach. Homewood: RD Irwin, 1964. NÚMEROS do franchising/desempenho do setor. ABF, 26 ago. 2021. Disponível em: . Acesso em: 25 out. 2021. PARENTE, J.; BARKI, E. Varejo no Brasil: gestão e estratégia. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2014. SBVC – Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo. O papel do varejo na economia brasileira: atualização 2020. São Paulo, 29 abr. 2020. (Estudos). Disponível em: . Acesso em: 24 out. 2021. URDAN, F. T.; URDAN, A. T. Gestão do composto de marketing. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2003. VAROTTO, L. F. História do varejo. GV Executivo, v. 5, n. 1, p. 86-90, 2006. _____. Varejo no Brasil: resgate histórico e tendências. Revista Brasileira de Marketing, v. 17, n. 3, p. 429-443, 2018. VIEIRA, L. Empresas apostam em máquinas automáticas para vender vinho em condomínios, lojas e aeroportos. 6 Minutos, 19 jun. 2021. Disponível em: . Acesso em: 25 out. 2021.