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Aula 2 Obrigações e Contratos As pessoas interagem economicamente em sociedade se apropriando dos bens (as coisas que possuam valor econômico) e estabelecendo relações com outras pessoas, relações estas que, quando dotadas de coeficiente econômico, são consideradas negócios jurídicos. Esse relacionamento interpessoal é fundamental para a perpetuação da sociedade como hoje a conhecemos, vez que a circulação das riquezas no ambiente social, ou o comércio, é elemento fundamental de nossa estrutura cultural. A Europa Feudal se caracterizava pela imensa pulverização das divisões territoriais entre as áreas de poder e influência dos Senhores Feudais. Esse estado de organização geopolítica, que atendia ao modelo então vigente, era um obstáculo virtualmente intransponível ao comércio. A estrutura da sociedade feudal era extremamente hierarquizada e estática, com papéis e posições definidos, em geral, pelo nascimento – e não contemplava a ascendente burguesia como uma das classes relevantes. Portanto, temos que o direito obrigacional surgiu como resposta a um imperativo econômico e social e coincidiu com uma profunda alteração nos regimes políticos das então Metrópoles, movimento de que Portugal foi um dos precursores – a superação da Idade Média e o consequente início da Idade Moderna (A nova estrutura social que surgia pressupunha justamente a livre circulação de riquezas em sociedade e uma sociedade muitíssimo mais abrangente em planos espaciais do que a sociedade hierarquizada, estática e fixa do regime que substituía; essa estrutura social podemos perceber mesmo na visualização social do comércio, e foi representada em planos legais pelo estabelecimento da estrutura do direito obrigacional, Requisitos de estabelecimento do direito obrigacional O primeiro requisito para o ingresso no Direito das Obrigações é a relevância econômica dos negócios praticados; sem coeficiente econômico esses negócios serão de outra natureza, como, por exemplo, aqueles advindos dos direitos da personalidade, que são dissociados de coeficiente econômico ou são dotados de um coeficiente econômico inestimável. Formação e cumprimento dos contratos A formação de contratos se verifica quando as partes – as convergências de interesses contratantes (por exemplo: parte vendedora e parte compradora, em um contrato de compra e venda) – estabelecem um negócio jurídico, dispondo sobre a destinação econômica que pretendem emprestar a determinado bem (qualquer que seja a sua natureza). Será um contrato a compra e venda, e suas partes serão vendedor e comprador, vale dizer, partes no contrato, porque representam convergências de interesses: uma se interessa por adquirir determinado bem enquanto a outra se interessa por colocá-lo em comércio por um certo preço, consequentemente transmitindo sua propriedade ao comprador e por isso mesmo chegam a esse determinado contrato e não a outro. É regra de nosso Direito a liberdade para contratar. Isso significa que os cidadãos poderão contratar livremente, desde que respeitados a licitude e a possibilidade do objeto e a capacidade das partes contratantes. A liberdade de contratar, ou de assumir obrigações, pressupõe a liberdade de interagir socialmente e de praticar ou deixar de praticar atos jurídicos na medida do interesse de cada indivíduo. Importante frisar que o direito obrigacional apenas se estabelece entre pessoas, em primeiro lugar porque apenas pessoas podem interagir socialmente; depois porque uma pessoa apenas pode se relacionar com um bem se apropriando dele, jamais mantendo com ele qualquer relação senão de assenhoreamento ou de propriedade. Repercussões patrimoniais das obrigações e contratos Quando as partes estabelecem um negócio jurídico, comprometem o seu patrimônio para garantir a sua consecução ou o seu cumprimento. Como já pudemos observar, o direito obrigacional não se sustentaria desprovido do poder de coerção patrimonial; de tal forma que ao cumprimento de um contrato se submetem os bens dos contratantes. O inadimplemento, ou o descumprimento dos contratos, impõe não apenas o seu cumprimento coercitivo como gera a obrigação de indenizar nas hipóteses em que o cumprimento coercitivo se mostrar impossível ou naquelas em que a sua simples imposição não se mostra suficiente para compensar o prejuízo causado ao devedor pelo inadimplemento, Nunca será demais reiterarmos que as partes jamais poderão, por meios próprios, substituir o Estado – Juiz, já que a vida em sociedade organizada pressupôs a entrega do monopólio da composição dos conflitos ao Estado, com a sua consequente retirada da esfera de poder dos particulares, pelo que o exercício dos direitos por meios próprios, ou o exercício das próprias razões é ato ilícito, somente sendo admissível em hipóteses excepcionais, como a legítima defesa ou o estado de necessidade, por exemplo. Tipologia das Obrigações em nosso sistema de Direito: Já vimos que a circulação de riquezas em nossa sociedade se mantém graças à estruturação de um ramo do Direito que denominamos, para fins didáticos, Direito das Obrigações, e que surgiu com a transição da Idade Média para a Idade Moderna, portanto teve a sua origem em uma profunda alteração das estruturas sociais, que abandonaram o feudalismo, ingressando na sociedade mercantil. As subsequentes alterações na estrutura social, decorrentes do fordismo e da revolução industrial, nos séculos anteriores, e da sociedade de consumo de massa e da globalização mais recentemente, impuseram alterações e aperfeiçoamentos ao direito obrigacional, que passou a incorporar normas e regras adequadas às realidades negociais então emergentes. Em brevíssima síntese, e para fins acadêmicos, podemos classificar as obrigações segundo a natureza do negócio e da prestação que encerram da seguinte forma: obrigações de dar, obrigações de fazer e obrigações de não fazer. Obrigações de dar são aquelas cuja prestação encerra a entrega de um determinado bem, ou de seu equivalente; por exemplo, na compra e venda necessariamente teremos a entrega do objeto ao comprador quando do pagamento do preço ou quando da formalização do negócio. Assim também na doação, em que apenas não encontramos o preço, ou o valor estimado para o bem objeto da relação obrigacional. Contratos e obrigações e as relações de consumo Também a forma de contratar, de assumir obrigações economicamente estimáveis em sociedade, se alterou profundamente na era das relações de massa, na medida em que os contratos, ou instrumentos das obrigações, deixaram de ser redigidos em razão de um acordo de vontades entre pessoas e passaram a ser a bem da verdade instrumentos preconcebidos, elaborados anteriormente pelos fabricantes ou fornecedores e veiculados à população como um todo e indistintamente, cabendo ao cidadão, então tornado consumidor, apenas escolher entre assinar ou não o contrato ou, por outra, entre contratar na forma preestabelecida ou simplesmente não contratar. A esse tipo de instrumento chamou-se contrato de adesão, porque a participação do consumidor na elaboração de seu conteúdo simplesmente inexiste ou se limita à adesão a cláusulas predefinidas pelos fornecedores, fabricantes e vendedores. A contratação de um plano de seguro saúde, contrato usual em nossa sociedade, pressupõe, para seu amplo conhecimento, noções técnicas de ordem médica e jurídica que a média dos cidadãos não detém, e nem se pode exigir que detenha, pela sua especificidade, restando sujeito, portanto, a toda sorte de abusos por parte de quem elabora tais contratos., E o fez por meio da definição das figuras do consumidor, do fabricante e do vendedor e da instituição de alguns princípios, que são: a interpretação em benefício do consumidor dos contratos de adesão; a nulidade ou anulação das cláusulas abusivas destes instrumentos em seu desfavor; a consideração de sua deficiência em termos processuais quando de ação judicialem face de fornecedores, fabricantes e vendedores (a denominada hipossuficiência) com a consequente inversão do ônus da prova em seu favor. Essas alterações integram um fenômeno que em doutrina passou a denominar-se dirigismo estatal das relações contratuais, e representa, de fato, uma intervenção do Estado na formação dos contratos, porém com a finalidade de garantir, tanto quanto possível, a isonomia e a igualdade de condições entre as partes contratantes. #### Para aprofundar o conhecimento dessa matéria, estude os tópicos 7, 8 e 9 do livro Direito Civil: Introdução, Pessoas e Bens (RS – EDUCS), de Alexandre Cortez Fernandes