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RAQUEL POZZENATO SILAZAKI O COTIDIANO DA ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL: DINÂMICAS E DESAFIOS NA MATERIALIZAÇÃO DO PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO Presidente Prudente, SP 2022 RAQUEL POZZENATO SILAZAKI O COTIDIANO DA ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL: DINÂMICAS E DESAFIOS NA MATERIALIZAÇÃO DO PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Câmpus de Presidente Prudente, como requisito parcial para a obtenção do título de doutora em Educação. Orientadora: Profa. Dra. Renata Portela Rinaldi Linha de Pesquisa 4: Formação dos Profissionais da Educação, Políticas Educativas e Escola Pública. Presidente Prudente, SP 2022 Ao pai Tósio e à mãe Natalina (in memoriam), exemplos de força, responsabilidade e retidão. À filha Jéssica, meu orgulho, razão e vida... AGRADECIMENTOS As marcas passadas e a minha consciente inconclusão humana me projetam para o meu futuro. O passado reflete em mim a consciência e a responsabilidade profissional pelas quais eu devo me mover como Professora, a profissão escolhida! Afinal, já não sou mais aquela pessoa insegura e de identidade profissional ‘frágil’ do início de carreira. O passado me mostrou também como devo me mover como pessoa, como ser humano. No meu futuro, sei que posso ser melhor, sei que posso sempre mais, sei que ser responsável sempre me colocará frente a alegrias e a tristezas, sendo assim, é preciso rir e chorar, é provável também cair, mas é sempre possível levantar. Hoje, sei que tudo passa, compreendo que estou cumprindo apenas uma etapa da vida, hoje preciso viver e agir para o meu bem e para o bem daqueles que estão ao meu lado, pessoal ou profissionalmente. Hoje, preciso agradecer a cada um que doou-se em meu “projeto” de doutoramento. Hoje, tornou-se realidade. Foram anos diferentes, de muito crescimento pessoal e profissional. Nesse caminhar, muitos se fizeram presentes em minha vida e é preciso, então, agradecer! Sou grata a todos àqueles que contribuíram comigo academicamente, assim como sou grata àqueles que, com apenas um sorriso ou um olhar, me compreenderam e me transmitiram força e calmaria. Sou grata aos que, inesperadamente, me trouxeram alegrias, diferentes alegrias: da conquista, da amizade, do amor, do fazer, do transcrever, do traduzir, do viajar e até do chorar, porque houve confiança, porque trouxe alívio, trouxe luz... Sou grata àqueles que, com suas generosas orações, desejaram o melhor para a minha vida. Sou grata à Deus por sua infinita bondade e misericórdia. Fui, sou e serei imensamente grata a todos vocês: Tósio Silazaki, meu Pai amado, meu exemplo de responsabilidade e honradez, meu maior apoio. Natalina Pozzenato Silazaki (in memorian), minha Mãe amada, exemplo de vida, de caridade e honestidade, foi uma guerreira. Jéssica Silazaki, minha Filha amada, minha tradutora ímpar, meu orgulho, minha razão de vida, meu amor eterno. Paulo José Pozzenato Silazaki, meu irmão abençoado; amada sobrinha Nanda; e cunhada Márcia, nossa família. Obrigada pelas orações e força. Felipe Canuto, que me apoia incondicionalmente, obrigada por seguir comigo e por compreender cada passo meu, amor.... Profa. Dra. Renata Portela Rinaldi, minha querida Orientadora, honrosa e dedicada profissional, com conhecimento ímpar me conduziu até aqui, acreditou e me deu a oportunidade desta conquista. Sou grata por você significar meu processo acadêmico com o seu conhecimento, entusiasmo e dedicação. Obrigada pelo ensinamento, pela confiança e generosidade externados ao longo desses anos os quais contribuíram para o meu aprendizado e para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Admiração e gratidão a ti! Prof. Dr. Fábio Perboni, que integrou minha trajetória desde o seminário de pesquisa do mestrado, me concedendo a honra de também participar do meu processo de doutoramento. Sou grata pela sua generosidade e por todo o seu conhecimento expresso, por partilhar reflexões críticas que ampliaram e conduziram o meu olhar e meus conhecimentos oportunizando maior coerência teórica aos meus escritos. Prof. Dr. Silvio Cesar Nunes Militão, com quem tive a honra de conviver e estabelecer a relação professor-aluno na disciplina de doutorado, obrigada por contribuir significativamente nos meus seminários de pesquisa, em minha banca de mestrado e, também, em toda a minha trajetória no doutorado. Agradeço seu olhar cuidadoso sobre a minha tese, pela disponibilidade de material e pelo conhecimento ímpar que permite refletir e alinhar conhecimentos mais consistentes à esta tese. Professores Fábio e Silvio, por fim, enalteço-os pelo trabalho e agradeço a forma interessada e dedicada de cada um nesta minha trajetória acadêmica. Também, às arguidoras Professoras Dra. Adriani Varani e Dra. Magali Aparecida Silvestre, que prontamente aceitaram o desafio de participarem da minha defesa. Foi uma honra conhecê-las, suas ricas trajetórias na/pela educação me trouxeram novos olhares e conhecimentos que favoreceram a conclusão deste trabalho. Professora Adriani, sou grata pela abertura ao diálogo e pela leveza em suas palavras, por partilhar experiências que enriquecem a pesquisa e que, consequentemente, contribuíram com as minhas reflexões. Professora Magali, obrigada pelo seu olhar desmedido sobre o meu trabalho e pelas correspondências feitas para que o meu aporte teórico e as minhas análises também ganhassem em coerência, permitindo eu avançar em minhas escritas. Às Professoras Dra. Ana Luzia Videira Parisotto, Dra. Eliana Marques Zanata, Dra. Marili Moreira da Silva Vieira e ao Professor Dr. Pierre André Garcia Pires, externo minha honrosa gratidão a vocês que me apoiaram nesse chamamento para comporem este processo. Não conseguiríamos prosseguir sem a generosa abertura de vocês para a suplência deste trabalho. Andrea Ramos de Oliveira, minha preciosa amiga, exemplo de força, companheirismo e doação, um presente para a vida. Obrigada pelo incentivo ao doutorado, apoio e amizade sincera ao longo desses anos. Meu carinhoso abraço e agradecimento à sua Mãe Dora e Avó Noêmia pela amizade e pelas orações, a fé nos move... Patrícia Regina de Souza, amiga que se fez presente em minha vida pela sua mansidão, pelas suas doces e sábias palavras, na grandiosidade de Ser; obrigada pela amizade expressa, por sua valiosa parceria e contribuição nessa minha trajetória. Amiga Michelle Mariana Germani, obrigada pela presença diária com mensagens que nos fortalece e nos faz perseverar. Camila Cancian e Valéria Romeiro Dechichi, amigas preciosas que sustentam a caminhada com palavras e orações. Gratidão por ajudarem a tornar a vida mais leve e possível diante das dificuldades, obrigada pelo apoio, por ouvir... e por me orientarem na busca por informações necessárias a esta tese. Diretoria: Ana Cláudia, Márcia Húngaro, Priscila Pessoa e Solange Rister, pelo apoio, preocupação e incentivo nessa jornada. Amigas que a profissão uniu, concretizou atos de harmonia e colaboração no trabalho pela Educação e que, agora, seguem unidas por uma preciosa amizade. 2021, 10 anos de Diretoria! Cláudia Gomes de Oliveira, diretora da EMEB Profa. Egles Gabas de Carvalho, pelo acolhimento e cordialidade ao me receber para a produção dos dados empíricos. Mulher forte, que sabe o valor da Educação e da formação profissional. Gestora que conhece sua realidade escolarem oito seções, seguido a elas, as referências, os apêndices e os anexos. A primeira seção, antecedente a esta, apresentou a trajetória pessoal, profissional e acadêmica desta pesquisadora. Uma história que demonstra para mim mesma o quanto é possível aprender com ela, cada momento foi concretizado em meio ao convívio de muitas pessoas que significaram a minha vida. Se fez por diferentes relações: a familiar, a de amigos, a profissional, na relação professor-aluno pelo ato de ser ensinada e, também, pelo de ensinar, no aprender sobre o conhecimento e no construir o conhecimento. Olhar para traz e observar a sua própria evolução é muito gratificante, voltar ao passado é significar o hoje, mas, sobretudo, me projetar para o amanhã. É preciso comprometer-se com um futuro melhor, independentemente de onde você esteja ou o que faça, o importante é mover-se no mundo positivamente. Esclareço que busquei retomar de uma forma menos densa, parte do que já havia apresentado no mestrado (SILAZAKI, 2017), mas não poderia deixar de resgatar essa trajetória desde os primeiros anos escolares. A cada momento vivido, percebi a minha constituição como pessoa em que a minha identidade pessoal se fortaleceu, mas, sobretudo, a profissional. Nessa trajetória, a vivência diante de um sistema municipal de ensino me conduziu ao mestrado, mas a docência na Educação Básica, as experiências no Ensino Superior, as aprendizagens significativas na pós-graduação stricto sensu com a pesquisa desenvolvida e os conhecimentos da prática profissional educacional, aos poucos, me projetaram ao doutorado. Tempos e momentos que fizeram com que eu fortalecesse a consciência de que a prática no ensino é uma prática social complexa, carregada de conflitos, de valores, éticos, culturais, econômicos, políticos, sociais e culturais, para os quais precisamos ter a mente aberta para conhecer, refletir, exercer a crítica e desenvolver uma ação docente coerente aos alunos e à sociedade. Que siga a vida, que siga o aprendizado... 34 Demarcamos na terceira seção, uma visão introdutória desta pesquisa alinhando parte dos propósitos a serem alcançados no decorrer de todo o trabalho. Nesse sentido, a tese, os objetivos, geral e específicos, e a problemática foram apresentados. Coloca em destaque a instituição escolar e as percepções acerca de seu cotidiano neste século XXI. Anuncia onde a pesquisa se desenvolve tendo como foco a análise do cotidiano de uma Escola de Tempo Integral e do seu Projeto Político Pedagógico (PPP), observando como ele se materializa no cotidiano dessa escola, nas ações e práticas educativas desenvolvidas na escola pelos professores e pela equipe de gestão escolar, observando a viabilização das políticas educacionais implantadas, para a garantia dos direitos e de uma educação integral aos alunos. Apresenta a subseção que justifica a realização deste trabalho perante o Sistema Municipal de Ensino (SME) de Araçatuba/SP, colocando em destaque as pesquisas que já foram realizadas junto às escolas com jornadas ampliadas no município, bem como a parceria concretizada entre a universidade e a escola, como parte da contribuição social da pesquisa oferecida ao município. Evidencia, com isso, as situações que culminaram no interesse da pesquisadora em dar continuidade no seu processo de conhecimento sobre o sistema de ensino, na vertente da ETI. Para avançar na compreensão desta investigação, em subseção seguinte é apresentado um levantamento bibliográfico a partir das bases: Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Scientific Electronic Library Online (SCIELO). O descritor pesquisado foi o ‘cotidiano escolar’ público, na Educação Básica e que tivesse relação com a ETI. Buscamos, também, averiguar o que diziam os ‘gestores’ e ‘professores’ sobre o cotidiano da ETI. Ainda, foram analisadas produções que estabelecessem alguma ligação entre o ‘PPP e a ETI’. De modo geral, as pesquisas demonstraram temáticas ainda pouco investigadas conforme as que são propostas nesta pesquisa, configurando o ineditismo deste trabalho, fato que fortaleceu-nos no processo de conhecer sobre as políticas de ampliação das jornadas na escola pública, suas dinâmicas e desafios A quarta seção vai apresentar aos leitores que o trabalho buscou apoio também nas referências do método Materialista Histórico Dialético (MHD) que comparece no campo educacional para ampliar as análises dos fenômenos estudados, mediante uma escola que está integrada às questões sociais e históricas do meio. Propõe a abordagem de natureza qualitativa, que concebe os indivíduos envolvidos em um movimento contínuo de relações sociais, históricas e culturais. Aponta que a produção de dados empíricos foi guiada pela pesquisa participante e pela observação participante, buscando construir o conhecimento sobre a ETI, sobre o seu cotidiano e seu PPP, e sobre aqueles que se responsabilizam por oferecer a educação integral na escola (professores e gestão escolar). A seção, ainda apresenta a diferença entre a 35 pesquisa participante e a pesquisa-ação e os instrumentos utilizados na produção dos dados empíricos. Seguindo, uma das subseções caracteriza o município de Araçatuba, seu contexto educacional mais amplo e, em específico, o SME com leis de criação, número de escolas, alunos, modalidades, sobre as jornadas ampliadas etc. Temos a subseção que revela o lócus da ETI participante, tendo como base os indicadores educacionais disponibilizados pelo MEC- INEP. Por fim, apresenta a última subseção que revela as categorias de análise pautadas no MDH, que nortearam a análise dos dados coletados. As alterações no curso da pesquisa e o impacto vivido na educação no SME em virtude da pandemia da COVID-19 foram retratados na seção cinco. Foi necessário trazer em questão, as medidas estabelecidas para as escolas no decorrer desses dois últimos anos letivos, que impactaram no desenvolvimento deste trabalho. Discorreu como o município de Araçatuba organizou ações e normas para dar continuidade aos processos de ensino e de aprendizagem no seu sistema de ensino, mediante o Programa Estudo no Lar (ARAÇATUBA, 2020). As regulamentações seguiram sendo publicadas no decorrer de 2020 e 2021, juntamente com as incertezas que a pandemia colocou e ainda coloca para a sociedade de modo geral, especialmente para a educação e seus profissionais que precisaram se reinventar. O aporte teórico sobre o cotidiano escolar foi desenvolvido na sexta seção e nas suas subseções, que colocaram em evidência as concepções de diferentes teóricos: Penin (1989); Heller (2000); Aguiar; Herschmann (2014); Giard (1999); Certeau (1998); Alves (2001, 2003) etc., permitindo-nos avançar sobre as percepções acerca da escola e sobre as visões, muitas vezes, simplistas, que podem surgir quando nos reportamos aos termos cotidiano, cotidiano escolar, ou à questão da cotidianidade, da vida cotidiana em si etc. O trabalho desses teóricos sobre as questões que envolvem a temática do cotidiano é expressivo e levou-nos a perceber a sua importância científica. Os caminhos escolhidos para observar e analisar a unicidade da escola participante seguiram relacionados nessa seção, toda a teoria estudada e refletida orientou o olhar para o cotidiano da ETI, para as suas práticas e para os aspectos que o relacionam com o PPP da ETI. Apresentamos uma subseção que busca refletir sobre a educação no século XXI, analisando de forma mais apurada algumas questões apontadas na seção três na proposta introdutória. A escola, como instituição pública social, se traduz na oferta do ensino mediante a execução das políticas e diretrizes educacionais, responsabilizando-se no seu cotidiano escolar a corresponder com este mundo globalizado, marcado por suas dinâmicas evolutivas, por exemplo, na área das tecnologias digitais. O trabalhoapresentado na seção e nas suas subseções, propõe pensar com o apoio de diversos autores: Santos (2010); Ianni (2001); Kiill; Militão (2016); Libâneo; Oliveira; Toschi (2012); Militão; Aranda (2019); Charlot (2013) 36 etc., qual escola está configurada neste novo século e que vive um paradoxo de um mundo que ‘evoluiu’ científica e tecnologicamente falando, mas que ainda expressa suas mazelas denunciando, diuturnamente, um cenário de desigualdades nas diferentes áreas da esfera social. As considerações perpassam em perceber o papel da educação e da escola nessa sociedade, demarcando seus avanços e retrocessos, sobretudo, a partir das políticas públicas voltadas para a oferta do ensino em jornadas ampliadas. Outra subseção, apresenta sobre a estrutura organizacional da escola e da gestão democrática-participativa no cotidiano escolar, que se consolida por meio das questões administrativas e pedagógicas que levam a compreender sobre a elaboração e o desenvolvimento prático do PPP. O destaque para a escola como instituição pública com fins, objetivos, linguagens próprias e de natureza eminentemente interativa pela ação de seus profissionais especialistas e técnicos e, também, da comunidade escolar, seguem descritos para demonstrar a necessidade dessa instituição garantir a sua autonomia e cumprir com sua função social. Face a isso, a seção coloca em questão também o PPP que, por ser um documento que planeja toda a ação educativa e se perfaz como um referencial político, administrativo e pedagógico, precisa encontrar mecanismos que o traduza como um instrumento pensado, especificamente, para a ETI. Por isso, a necessidade de recompô-lo diante da realidade pesquisada. Para apresentar as respostas desta pesquisa, tecemos a seção sete, mirando os objetivos deste trabalho e propondo as análises acerca do que foi a experiência desta pesquisadora no cotidiano da escola. Desde a apresentação do perfil dos participantes, como também as ‘respostas’ oferecidas por eles por meio dos instrumentos utilizados na produção de dados da pesquisa (entrevista e questionário). Além disso, apresenta as observações coletadas, relacionando-as ao PPP da escola e às narrativas a que tivemos acesso no decorrer da coleta empírica, com a pesquisa participante. Retoma-se a tese, demonstrando o quanto é valioso o cotidiano escolar para demonstrar que, só a partir dele, temos fortes indícios de como se encaminha uma proposta de educação integral ao aluno, além disso, como o PPP pode ou não validar a promoção deste ensino. Por fim, as considerações finais seguem descritas na seção oito. Retomamos pontos que no decorrer da pesquisa empírica não puderam ser observados pela via da pesquisa participante e da observação participante devido à mudança do cotidiano escolar em decorrência da pandemia da COVID-19. Retoma-se também a tese, discutindo-a a partir das análises tecidas na seção anterior sobre as dinâmicas e desafios que vive a Escola de Tempo Integral. Compreendemos que o PPP da escola, olhado pela via da tese, significou e conduziu os profissionais para a promoção da formação do aluno nessa escola de dia inteiro, sempre 37 galgando a formação integral do aluno. Na outra ponta, discute-se não se ter um PPP atualizado, diante do qual a autonomia e a identidade da escola se fragilizam. No entanto, esses aspectos são influenciados pelos problemas que vive a ETI, sem uma política de escola de tempo integral e de educação integral fortalecida, tanto na esfera municipal, como na federal. Com isso, vimos uma ETI com profissionais lutando para manter a oferta do ensino num cotidiano nada previsível onde, muitas vezes, as práticas são significadas e o conhecimento é desenvolvido pelas artes do fazer (CERTEAU, 1998). 38 3 OS CAMINHOS QUE JUSTIFICAM A PESQUISA, A TESE E OS SEUS OBJETIVOS Nesta seção e subseções, trouxemos uma visão introdutória da pesquisa alinhando parte dos propósitos a serem alcançados no decorrer de todo o trabalho. Face a isso apresentamos a justificativa da pesquisa, um levantamento bibliográfico sobre o cotidiano escolar e suas interfaces com a ETI, assim como anunciamos a problemática da investigação, a tese e os seus objetivos. 3.1 A JUSTIFICATIVA DA PESQUISA O encaminhamento desta pesquisa integrou o interesse da proponente por aprofundar o assunto sobre a temática da ETI e sobre a educação integral do aluno compreendida, aqui, como aquela educação que fundamenta a função social da escola e contempla as múltiplas dimensões do ser humano, ou seja, visa a formação completa/plena do aluno nos seus aspectos humanos, sociais, culturais e políticos, pela qual ele significa e ressignifica sua própria história. Referida educação ultrapassa o tempo da jornada de atendimento ao aluno, ela deve ser assegurada tanto no turno parcial, como no integral. Gadotti (2009) afirma que todas as escolas precisam ser de educação integral, mesmo que não sejam de tempo integral. Assim, a partir dessa perspectiva apontada pelo autor e também pelas referências que obtivemos em nível de mestrado envolvendo escolas com cargas horárias estendidas, vimos a necessidade de nos apropriarmos de maiores conhecimentos acerca da ETI, de sua efetividade e da execução de sua função social por parte dos profissionais envolvidos e pela comunidade escolar. Observar e analisar como funciona a ETI, nos coloca como condição (primeira a de docente e depois de uma pesquisadora) o compromisso político com a formação do aluno, para o qual devemos resguardar o direito à educação, que se traduz na escola por meio de um trabalho que, em tese, está planificado no PPP. Diante do cenário de mudanças das últimas décadas em todos os setores da sociedade, diante também da recente implantação da política educacional BNCC (Resolução CNE/CP nº 02, de 22 de dezembro de 2017) pouco debatida dentro da escola antes e pós publicação, que integra um quadro atual de políticas neoliberais, com caráter formativo pragmático e tecnicista (FREITAS, 2018), e que interfere nos currículos dos diferentes sistemas de ensino, parece oportuno ampliar o debate sobre a ETI e o seu cotidiano para que os profissionais da educação, bem como os órgãos executivos educacionais possam atentar para a realidade diferenciada e peculiar dessas escolas, com vistas à criar canais de discussão e reflexão sobre suas 39 necessidades e desafios na atual conjuntura educacional do país que influi diretamente no cotidiano desse tipo de escola. Ademais, propomos a continuidade de um trabalho que vinha se formalizando no município de Araçatuba, por meio da pesquisa, e que tem ampliado as possibilidades dessa realidade e dos profissionais envolvidos, visando o fortalecimento de uma política que ainda abre vias para o seu desenvolvimento e o seu aprimoramento. Foram duas pesquisas em nível de mestrado que envolveram as temáticas da ETI e da educação integral nessa localidade. Se fizeram complementares uma a outra, com aspectos diferenciados, mas que representaram às pesquisadoras e ao município, um ganho sobre a compreensão dessas escolas como um campo fértil de aprendizagens e que ainda fomenta a busca por novos caminhos para o fortalecimento dessa política de atendimento ao aluno. Em virtude disso, é preciso ampliar as ações para que sejam agregadas aos encaminhamentos e direcionamentos já propostos, a partir das pesquisas concluídas (SILVA, 2016; SILAZAKI, 2017). Brevemente, é preciso tratar dessas duas vias de investigação. A primeira recebeu o título: “A formação de Professores Prevista e Vivenciada na Implementação do Projeto da Escola de Tempo Integral no Município de Araçatuba: Práticas e Desafios” e focalizou, segundo Silva (2016, p.155) “[...] duas vias de análise, formação de professores e educação em tempointegral, buscando compreender como a primeira comparece na segunda [...]”. Nesse contexto, a autora desenvolveu sua pesquisa de modo a responder “Como a escola e seus atores traduzem a implementação e a formação de professores para o projeto de Escola de Tempo Integral?” (SILVA, 2016, p. 155), envolvendo, então, a perspectiva formativa dos professores no SME de Araçatuba/SP, investigando-a, levantando fatos, legislações e dados que trouxeram significativas constatações e que fomentam a continuidade de investigações na área. Na sequência desse trabalho, decorre a segunda investigação intitulada: “O processo de aprendizagem profissional de coordenadores pedagógicos para as/nas escolas de/em tempo integral no município de Araçatuba” (SILAZAKI, 2017), focando, especificamente, o coordenador pedagógico da ETI; estipulou como objetivo geral: “[...] Compreender o processo de aprendizagem profissional dos Coordenadores Pedagógicos em exercício nas Escolas de Tempo Integral (ETI) e de Atividades Complementares (AC) [...]” (SILAZAKI, 2017, p. 37), e visou responder questões relacionadas à atuação desses profissionais, se eles se reconheciam, ou não, como formadores de professores, uma vez que são os responsáveis pela formação pedagógica do professor, quais suas práticas relacionadas às ações de formação continuada nas ETI/AC, as dificuldades que enfrentavam e enfrentam no cotidiano dessa realidade de escolas, 40 como se desenvolviam os processos formativos junto aos professores, como a secretaria municipal de educação implementava seus processos formativos (SILAZAKI, 2017) etc. Essa perspectiva investigativa, correlata à primeira, deu-se como um encadeamento lógico de ações, que visou ampliar a oferta da educação integral na ETI no município de Araçatuba. A possibilidade de vivenciar e efetivar uma relação entre a universidade e a escola, como uma contribuição social de uma pesquisa, foi proposta na investigação concluída em 2017, em que os coordenadores pedagógicos do sistema pesquisado foram acolhidos em um curso de formação continuada, sob o título “A Coordenação Pedagógica na Perspectiva da Escola de Tempo Integral” e foi formalizado como uma atividade de “[...] extensão universitária da Faculdade de Ciência e Tecnologia – FCT/UNESP, com carga horária de 180 (cento e oitenta horas), na modalidade aperfeiçoamento, com certificação da Pró-Reitoria de Extensão Universitária (PROEX) da UNESP” (SILAZAKI, 2017, p. 40). Denota-se a necessidade de uma crescente responsabilização no SME pela política de atendimento da ETI, para uma educação integral, onde a pesquisadora buscou novamente atuar. As investigações, desenvolvidas até então, revelaram indícios de fragilidades nos PPP dessas unidades escolares. Seria necessário compreender sobre a efetividade desse documento no âmbito escolar, se mostrava condizente, coerente e favorecedor à educação integral do aluno, se a gestão e os professores se identificavam com ele, foi preciso observar como o documento era levado a efeito no planejamento anual e nos planos de ensino da ETI. 3.1.1 O levantamento bibliográfico sobre o cotidiano escolar e as interfaces da ETI Com o intuito de oferecer autenticidade a este trabalho e confirmar a sua pertinência, realizou-se um levantamento bibliográfico sobre produções que versam sobre o cotidiano escolar e a Escola de Tempo Integral/educação integral/escola de educação integral/escola integral. As bases utilizadas foram: Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Scientific Electronic Library Online (SCIELO). Tais bases foram escolhidas pela visibilidade que tais interfaces oferecem aos trabalhos científicos, assim como proporcionam o acesso à periódicos importantes de produção nacional e internacional. O objetivo concentrou-se na busca por trabalhos sobre o cotidiano escolar da ETI. Porém, no primeiro momento do levantamento, foram considerados trabalhos que envolvessem a escola pública por toda a extensão da Educação Básica, e que dessem ênfase à experiências que traduzissem o ‘cotidiano escolar’ para, num próximo passo, olhar para a ETI. 41 Na busca foi considerado um período de 30 (últimos) anos com a possibilidade, não só de resgatar um maior número possível de produções, mas também por ser um tempo que demarca dois grandes períodos da educação integral e das jornadas ampliadas no país. Um ideário de escola marcado por seus maiores defensores, Anísio Teixeira (Escola Parque – 1950) e Darcy Ribeiro (Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) - 1983), chegou ao final do século sucumbido pela falta de políticas de investimento capazes de assegurar as estruturas outrora implantadas no país. Porém, no século XXI, ela emerge juntamente com um conjunto de políticas e práticas que objetivavam influir na melhoria da qualidade de ensino no Brasil. Como exemplo, o Programa Mais Educação (2007), tendo-se retomado neste início do século, os caminhos de seu desenvolvimento. Dessa forma, vamos observar nesses 30 anos, como se desenvolveram os trabalhos nessa linha. O grande tema ‘cotidiano escolar’ conduziu o olhar permitindo observar a ocorrência de trabalhos realizados em diferentes vertentes temáticas/práticas desenvolvidas dentro da escola pública, no Portal da CAPES. A proposta foi de ‘busca refinada’, envolveu o tema geral ‘cotidiano escolar’ e, após, algumas variações com temas que envolvessem a jornada ampliada, entre busca por título e assunto com os seguintes resultados: Quadro 1 – Levantamento bibliográfico com o descritor ‘cotidiano escolar’ no portal de periódicos da CAPES Base de Dados Período consider ado Assunto Busca refinada Nº de trabalhos levantados no Portal CAPES Nº de trabalhos considerad os Nº de trabalhos considerados no cotidiano da jornada ampliada Portal de Periódicos da CAPES 1990 - 2020 30 anos Cotidiano Escolar (no título) 171 33 1 Cotidiano Escolar and Escola de Tempo Integral (no título) 0 0 0 Cotidiano Escolar and Escola Integral (no título) 0 0 0 Cotidiano Escolar and Escola de Educação Integral (no título) 0 0 0 Cotidiano Escolar and Educação em Tempo Integral (no título) 0 0 0 Cotidiano Escolar and Escola de Tempo Integral (no assunto) 0 0 0 Cotidiano Escolar and Escola Integral (no assunto) 0 0 0 Cotidiano Escolar and Escola de Educação Integral (no assunto) 0 0 0 Cotidiano Escolar and Educação em Tempo Integral (no assunto) 0 0 0 Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados levantados no portal de periódicos da CAPES. 42 A análise dos trabalhos se deu inicialmente pelo título e pela leitura dos resumos, porém, quando não era possível identificar se, de fato, eles apresentavam uma análise do cotidiano escolar, mesmo que em diferentes temáticas e se versavam sobre a Educação Básica, independente de seus níveis/modalidades, foi necessária a leitura dos textos, atentando-se, sobretudo, aos aspectos metodológicos que evidenciassem participantes, modo de coletas de dados, contextos e tipos de pesquisas. Como se observa foram 171 trabalhos levantados até 19/03/2020. De 171, 164 foram escolhidos para análise, descartando-se, neste primeiro momento, títulos que não estavam diretamente ligados ao ‘cotidiano escolar’ ou à escola em si. De 164 trabalhos, 12 deles encontravam-se repetidos na própria base do Portal da CAPES, restando, então, 152 no total. De 152, 119 foram descartados por não contemplarem, em específico, o cotidiano escolar na Educação Básica, chegando, ao final, com 33 trabalhos considerados. Desse total, apenas 1 teve como campo de investigação uma escola de funcionamento em tempo integral, tendo como enfoque o tema Ciberterritorialidades, buscando cartografar territorialidadesdocentes e discentes no uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e suas tensões no cotidiano escolar de um 9º ano do Ensino Fundamental (ALMEIDA; NETTO; SOUZA, 2019). Com a intenção de caracterizar outros contextos além do Brasil, dentre os 33 trabalhos considerados, 2 deles referiram-se a outras nacionalidades. Um artigo de caráter teórico de José Rivera, da Universidade de Los Andes, Venezuela, trata, ‘de modo geral’, da prática escolar diária (cotidiano escolar), fazendo um contraponto entre o que o aluno tem como acesso à informação e ao conhecimento via televisão, o que encontra e vive nas práticas escolares, sobretudo, na sala de aula que, segundo o autor, são práticas e/ou diretrizes pedagógicas tradicionais; situação que força as escolas a pensarem em renovação e alternativas para mudar o contexto de rotinas obsoletas neste dinâmico mundo global (RIVERA, 2005). O segundo artigo retrata uma pesquisa na Costa Rica, com um estudo de observação do trabalho diário de Professores da Educação Diversificada (corresponde ao nosso ensino médio) do cotidiano escolar, salientando a importância de um trabalho de apreender as práticas escolares dos professores, suas intervenções didáticas, e práticas avaliativas como mecanismos processuais que interferem na avaliação da aprendizagem do alunos, avaliação esta que necessita ter um caráter formativo e contribuir com significativos processos de ensino e aprendizagem para superar mediações pedagógicas tradicionais (SEGURA CASTILHO, 2018). Observa-se que o dois trabalhos, muito embora apresentem questões relacionadas ao cotidiano escolar, não tratavam de jornadas ampliadas, tão pouco retratavam em específico a Educação Básica, mas 43 visamos trazê-los porque o cotidiano da escola é um dos objetos da pesquisa em andamento, além de retratarem outras realidades. Na base Scientific Electronic Library Online (SCIELO), obtivemos os seguintes dados, também com o grande tema e, após, suas variações: Quadro 2 - Levantamento bibliográfico com o descritor ‘cotidiano escolar’ no portal SCIELO Base de Dados Período consider ado Assunto Em todos os índices de busca Nº de trabalhos levantados na SCIELO Nº de trabalhos considerados Nº de trabalhos considerados no cotidiano da jornada ampliada Scientific Electronic Library Online (SCIELO) 1990 - 2020 30 anos Cotidiano Escolar 407 13 1 Cotidiano Escolar and Escola de Tempo Integral 3 3 3 Cotidiano Escolar and Escola Integral 4 (3 repetidos) (3 rep.) Cotidiano Escolar and Escola de Educação Integral 3 (2 rep.) (2 rep.) Cotidiano Escolar and Educação em Tempo Integral 3 (2 rep.) (2 rep.) Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados levantados no portal SCIELO. De 407 trabalhos apurados sobre cotidiano escolar, 57 deles foram escolhidos e analisados. Desses 57, 1 deles se repetia na mesma base e outros 24 já haviam sido apurados no Portal CAPES, tendo sido excluídos automaticamente. Assim, restaram 32 trabalhos os quais observamos se versavam ou não sobre o cotidiano escolar na Educação Básica. E, analisando os resumos e textos, ao final, 13 deles foram considerados. Desses, apenas 1 no contexto da escola de tempo integral e que trata, mais especificamente, sobre a teoria dos cotidianos e da cultura digital e a necessidade de políticas públicas que fomentem o protagonismo e a formação de professores nessa cultura (CORDEIRO, 2017). Cumpre chamar a atenção que, desse montante de 13, 7 documentos referiam-se a trabalhos teóricos sobre cotidiano escolar ou sobre a teoria dos cotidianos (LOUREIRO, 1999; PAULA, 1999; ALVES, 2003; ALVES, OLIVEIRA, 2004; LAGORIA, 2017; FERRACO, 2017; STECANELA, 2018), que, mesmo não se tratando diretamente de pesquisas empíricas no cotidiano escolar e na ETI, trazem contribuições para o desenvolvimento da temática desta pesquisa, na qual faz parte este recorte de levantamento bibliográfico. Sequencialmente, na busca por descritores compostos, ainda na SCIELO, conforme se observa no quadro 2, o máximo de trabalhos encontrados foram 4, dos quais, entre as repetições, ao final, 3 seguiram considerados. O primeiro aborda a ETI versus a formação humana, com 44 destaque para a reflexão sobre a política de implantação nessa perspectiva, além de olhar para as necessidades dos estudantes e educadores no trabalho educativo (MESSA, 2019). O segundo trata da identificação de novos territórios na Educação Infantil em tempo integral e destaca as potencialidades de espaços já utilizados pelas crianças no cotidiano da escola, além de destacar sobre territórios externos à ela que possam integrar políticas públicas que também deem abertura para integrar outros agentes na formação integral do sujeito (MATIELLO, 2017). O terceiro trabalho destacado trata de uma análise da implantação do tempo integral, sob a ótica discente, em um Centro Pedagógico (CP), escola pública de Ensino Fundamental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também seu cotidiano visando contribuir com a discussão e avaliação de políticas educacionais de tempo integral naquela realidade (GLORIA, 2016). Dando continuidade, outra temática foi analisada neste levantamento e buscou averiguar o que dizem os ‘gestores’ sobre o cotidiano da ETI e, também, o que dizem os ‘Professores’, tendo sido levantados: Quadro 3 - Levantamento bibliográfico com o descritor ‘gestão escolar’ e ‘professores’ no portal de periódicos da CAPES Base de Dados Período consider ado Assunto Busca refinada Nº de trabalhos levantados no Portal CAPES Nº de trabalhos considerad os Nº de trabalhos considerados no cotidiano da jornada ampliada Portal de Periódicos da CAPES 1990 - 2020 30 anos Gestão escolar and Escola de Tempo Integral (no título) 3 1 1 Gestão escolar and Escola Integral (no título) 7 1 (repetido) (1 rep.) Gestão escolar and Escola de Educação Integral (no título) 5 (1 rep.) (1 rep.) Gestão escolar and Educação em Tempo Integral (no título) 3 (1 rep.) (1 rep.) Professores and Escola de Tempo Integral (no título) 57 2 2 Professores and Escola Integral (no título) 85 (2 rep.) (2 rep.) Professores and Escola de Educação Integral (no título) 52 4 (2 rep.) 2 novos (2 rep.) Professores and Educação em Tempo Integral (no título) 65 (2 rep.) (2 rep.) Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados levantados no portal de periódicos da CAPES. Com o descritor gestão escolar, dentre o total de 18, apenas 1 deles foi considerado, tendo este, se repetido em todos os descritores e suas variações. Trata-se de uma pesquisa 45 realizada no Projeto de Educação Integral em Tempo Integral (PROEITI) em uma escola pública do Distrito Federal, onde seus gestores foram levados a dizer sobre a adesão ao projeto (pelos professores, pais e alunos), sobre a articulação intersetorial e redes de apoio (papel assistencialista do estado), bem como sobre os benefícios e limitações do projeto, tendo sido utilizado para a produção dos dados as entrevistas semiestruturadas, a observação e a análise documental (SOUZA; GUIMARÃES; ZARDO, 2018). No que diz respeito ao descritor professores e suas variações, totalizando todos eles, obtivemos 259 trabalhos, porém, desse montante, somente 4 trabalhos foram considerados, sendo que um buscava compreender as concepções dos docentes sobre a literatura infantil de uma ETI, e como ela pode ser utilizada no espaço escolar para habilitar os alunos a se tornarem bons leitores letrados e emancipados socialmente, pela via de pesquisa de análises semânticas/combinações de palavras (NASCIMENTO; ARAÚJO, 2016). O outro trabalho de iniciação científica versava sobre aapresentação da percepção dos professores, via questionário, em relação às atividades de complementação curricular no contraturno escolar e sobre a atuação docente de um colégio estadual do Paraná (ALVES DA SILVA; STRIEDER, 2015). A percepção dos professores sobre o macrocampo Comunicação e Uso de Mídias – rádio escolar, do Programa Mais Educação, ouviu 124 deles, em 21 escolas de Fortaleza – CE. (PATRÍCIO, 2017). Por fim, um estudo caracterizou a implementação de uma proposta de escola integral, sua interface com a interdisciplinaridade e a práxis de professores de Ciências da Natureza e Matemática, por meio da observação participante das aulas dessa disciplina e de reuniões pedagógicas de uma escola pública (GONÇALVES, BONI, RODRIGUES, 2019). Olhando para os mesmos descritores, ‘gestores’ e ‘professores’ na ETI, na base Scientific Electronic Library Online (SCIELO), obtivemos: Quadro 4 - levantamento bibliográfico com o descritor ‘gestão escolar’ e ‘professores’ no portal SCIELO Base de Dados Período consider ado Assunto Em todos os índices de busca Nº de trabalhos levantados na SCIELO Nº de trabalhos considera dos Nº de trabalhos considerados no cotidiano da jornada ampliada Scientific Electronic Library Online (SCIELO) 1990 - 2020 30 anos Gestão escolar and Escola de Tempo Integral 1 1 (repetido e já citado na CAPES) (1 rep.) Gestão escolar and Escola Integral 2 2 (1 rep. já citado na CAPES) 1 novo (1 rep.) Continua 46 Quadro 4 - levantamento bibliográfico com o descritor ‘gestão escolar’ e ‘professores’ no portal SCIELO (Continuação) Base de Dados Período consider ado Assunto Em todos os índices de busca Nº de trabalhos levantados na SCIELO Nº de trabalhos considera dos Nº de trabalhos considerados no cotidiano da jornada ampliada Gestão escolar and Escola de Educação Integral 2 2 (1 rep. na CAPES e outro na SCIELO (2 rep.) Gestão escolar and Educação em Tempo Integral 3 2 (1 rep. já citado na CAPES) 1 novo (1 rep.) Scientific Electronic Library Online (SCIELO) 1990 - 2020 30 anos Professores and Escola de Tempo Integral (no título) 9 1 1 Professores and Escola Integral (no título) 10 (1 rep.) (1 rep.) Professores and Escola de Educação Integral (no título) 0 0 0 Professores and Educação em Tempo Integral (no título) 17 4 (2 rep.) 2 novos (2 rep.) Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados levantados no portal SCIELO. No Quadro 4, de 8 trabalhos considerados com o descritor gestão escolar, apenas 2 não se repetem, tendo sido considerados válidos. O primeiro artigo aborda os caminhos percorridos em duas pesquisas acerca da temática da educação integral, envolvendo experiências de jornada ampliada numa perspectiva contemporânea, que investigaram pressupostos teórico- metodológicos envolvendo objetivos, operacionalização, condições, contextos e impactos nos processos educativos, sendo que uma pesquisa reuniu e analisou tais questões em um conjunto de escolas públicas e privadas e, a outra, deteve-se a conhecer, no cotidiano de uma delas (escola pública), a tradução teórica e prática das ideias debatidas no país acerca da concepção de educação integral no Projeto Político Pedagógico (PPP) e a visão de mães e avós acerca dessa implantação da educação integral e do Programa Mais Educação (TITTON; PACHECO, 2015). Outro trabalho, de caráter teórico, verifica sobre políticas educativas e suas possibilidades de gestão, num cenário de fragilização dos dispositivos institucionais, a partir de análises das relações entre tais políticas e a gestão do modo de vida do indivíduos em reformas urbanas desde o início do século XXI, além de olhar para a educação integral no país e o projeto político instituído; os apontamentos levam a considerar a necessidade de novas práticas de gestão escolar em suas condições possíveis de institucionalidade, sobretudo para as políticas de educação integral em tempo integral (SILVA; BUSNELLO; PEZENATTO, 2013). Com o descritor professores e suas variações, 36 documentos foram levantados e, retirando aqueles que se repetem nas bases, ficaram 3 trabalhos no contexto da ETI. Um estudo 47 realizado em uma ETI, do estado de São Paulo retrata a percepção de professores e também dos alunos, em relação à Deficiência Visual (DV) e às Atividades de Vida Autônoma (AVA), contextualizadas à inclusão educacional. Por meio da entrevista, foram levantadas categorias de análises das percepções docentes sobre o atendimento dessas crianças, bem como suas práticas escolares e ações voltadas à educação inclusiva (TRINANES; ARRUDA, 2014). Ainda, um outro trabalho apresenta experiências desenvolvidas na região sul do Brasil: Apucarana, Joinville e Porto Alegre, sobre os desafios do aumento de tempo da jornada escolar, tendo retratado a percepção dos gestores municipais, coordenadores pedagógicos e pais de alunos sobre os desafios enfrentados para implantar a educação integral nas escolas. O artigo apresenta a pesquisa em dois momentos, a fase de um estudo quantitativo e, a outra, qualitativa com a aplicação de entrevistas com seus participantes. O trabalho apresenta, então, um recorte de um mapeamento de 21 experiências selecionadas no Brasil, que visavam demonstrar e acompanhar o desenvolvimento da jornada ampliada (BRANCO, 2012). Por fim, trouxemos outro trabalho que nos auxilia a retratar algumas experiências além Brasil, trata-se de um artigo de Sérgio Martinic, que aponta teoricamente a importância do tempo como objeto de políticas de educação na América Latina e retrata a realidade chilena de implantação do programa de ampliação do tempo nas escolas, olhando, dentre outras situações, para a eficácia e o impacto dessa política nas aprendizagens dos alunos (MARTINIC, 2015). Conforme retratado, com o levantamento bibliográfico, visamos olhar para as experiências e trabalhos já realizados no país, ou fora dele, para ver quais retratariam a incursão de pesquisadores no cotidiano escolar, nele permanecesse, observasse e participasse dos desafios e demandas desse contexto de escolas. Foi possível detectar que, de 56 trabalhos considerados conforme os critérios já ditos, apenas 15 que versavam sobre a ETI foram escolhidos. Dentre os 15 considerados, em nenhum dos trabalhos, o cotidiano escolar da ETI representou uma inserção profunda na escola, para verificar como ela se traduz na sua totalidade. O cotidiano, na maioria das vezes, foi visto mediante a aplicação de um programa, projeto ou ação (cultura digital, inclusão, comunicação e uso de mídias, matemática, literatura infantil no espaço escolar etc.). A percepção (ou a ‘voz’) de pessoas sobre as diferentes situações apontadas nos trabalhos é vista 3 vezes pelos professores, 4 pelo aluno, 2 vezes em que o gestor fala de suas impressões sobre a visão de outros indivíduos (professores, pais e os próprios alunos), que figuram no cotidiano escolar e, em 1 pesquisa, suas próprias percepções e opiniões são consideradas. A incursão na escola para observar, vivenciar e conhecê-la em suas diferentes interfaces, não se caracteriza na maioria dos trabalhos, prova disso, são os usos 48 contínuos de questionários e entrevistas que permeiam o desenvolvimento das pesquisas, poucas são as observações no próprio contexto. Um trabalho que se aproxima de nossa investigação, retrata o trabalho desenvolvido de duas grandes pesquisas, uma delas pela inserção no cotidiano, com a observação, e com a análise da implementação da proposta de educação integral em jornada ampliada, mas a ‘vozes”, via 4 grupos focais, decorreram de 9 mães/avós de alunos (TITTON; PACHECO, 2015). Conclui-se que a investigação em desenvolvimento, ao buscar analisaro cotidiano escolar da ETI, ouvir seus professores e gestores na implantação dessa política, bem como, olhar para seu documento orientador, o PPP, se configura como um cenário ainda pouco investigado, marcando o ineditismo deste trabalho, permitindo-nos ampliar o conhecimento acerca das políticas de ampliação de jornadas nas escolas e suas dinâmicas acerca da formação do aluno. 3.1.2 Uma proposta introdutória: a tese e seus objetivos Ao apresentar este trabalho de pesquisa, com Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) nº 28546720.4.0000.5402, aprovado em 17/03/2020, tivemos como pressuposto olhar para dentro da escola pública, entendida como instituição que presta um serviço público (MEIRIEU, 2005) ou, como considera Libâneo (2013), a instituição básica do sistema escolar, e nela reconhecer o projeto educacional que tem sido efetivado ao longo deste século XXI. A educação vem sendo referenciada e propagada com base em diferentes políticas públicas, a exemplo, o Plano Nacional de Educação (PNE 2014 - 2024), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as Diretrizes Curriculares para a Educação Básica (gerais e específicas). Mais recentemente, o fim do período da vigência do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB7 2007 – 2020). No entanto, mesmo com um processo de baixa discussão sobre o 7 O FUNDEB (2007-2020) e o FUNDEF (1997-2006) encontram-se conceituados na página 88 desta tese em, por ora o objetivo é apenas retratar a sua continuidade, já que recentemente teve seu período de vigência encerrado em 2020. Mantem-se com um fundo contábil, agora de natureza permanente, previsto em norma constitucional. A Câmara dos Deputados em 21/07/2020, votou e aprovou a Proposta de Emenda à Constituição PEC nº 15 C/2015. Em 25/08/2020, o Senado Federal, votou e aprovou a PEC, sob novo número PEC nº 26/20, com a seguinte ementa: altera a Constituição Federal para estabelecer critérios de distribuição da cota municipal do Imposto Sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS), para disciplinar a disponibilização de dados contábeis pelos entes federados, para tratar do planejamento na ordem social e para dispor sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB); altera o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; e dá outras providências. Informações sobre a PEC nº 15 C/2015, estão contidas em página da Câmara dos Deputados: Disponível em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 8 Disponível em: . Acesso em: 13 jul. 2021 9 Explica o autor Paro (2007): Cultura, no seu aspecto amplo, é tomada como “[...] toda a produção histórica do homem: valores, conhecimentos, objetos, crenças, tecnologia, costumes, arte, ciência, filosofia [...] tudo o que se contrapõe ao naturalmente dado e que é passível de apropriado por meio da educação” (p. 16). Sujeito histórico ou “[...] ser histórico é aquele que se faz ao fazer a história, e isso revela sua característica essencial de sujeito [...] significa que ele é um ser de vontade (ético), que se faz autor ao criar valores, estabelecer objetivos e realizá-los” (p. 17). A dimensão individual e social do homem, a primeira “[...] diz respeito ao provimento do saber necessário ao autodesenvolvimento do educando, dando-lhe condições de realizar o bem-estar pessoal e o usufruto dos bens sociais e culturais postos ao alcance dos cidadãos” (p. 16), já a dimensão social “[...] liga-se à formação do cidadão, de modo que sua atuação concorra para a construção de uma ordem social mais adequada à realização do “viver bem” de todos, ou seja, para a realização da liberdade como construção social” (p 16), para o autor a “[...] a dimensão social dos objetivos da escola se sintetiza na educação para a democracia” (p.17). 50 formação da personalidade do educando em sua integralidade, não apenas à aquisição de conhecimentos em seu sentido tradicional” (PARO, 2007, p. 34). A diversidade social na qual a escola está inserida, os diferentes contextos socioculturais vividos pela população e pelas famílias dos alunos, os irrefreáveis avanços da terceira revolução industrial (ou até mesmo, a já anunciada quarta revolução10), marcada pelo uso expressivo dos recursos tecnológicos, informacionais e comunicacionais, inevitavelmente colocam a instituição escolar em questionamento quanto às suas finalidades. A compreender que as revoluções oferecem as condições técnicas para a caracterização da globalização atual, aonde os tempos e distâncias se modificam dentro de uma dinâmica muito complexa, é preciso olhar para a escola pública para compreender seus objetivos, e “[...] a necessidade de os educadores buscarem respostas para uma pergunta incômoda, e para muitos, aparentemente obvia: para que serve a escola?” (LIBÂNEO, 2013, p. 10). Em outras palavras, como têm sido traduzidas as suas práticas, a formação dos alunos, o trabalho dos professores e da gestão escolar (Diretor e Coordenador Pedagógico) dentro da escola? Como a participação e a formação dos alunos se configura, assim como a participação dos pais no acompanhamento do desenvolvimento dos filhos nessa complexa e atual sociedade? Já alertava Mello (1989) que a teoria educacional pouco se preocupou com essa compreensão mais global do funcionamento da unidade escolar. Ressalvado o contexto da época, a autora elucidava que as investigações realizadas, muito embora significativase outras tantas relevantes, os estudos sobre a escola eram marcados por aspectos isolados, ocorria a fragmentação e a dispersão de temas (o pedagógico, o administrativo, o processo de aprendizagem, a relação professor-aluno). O padrão burocrático, segundo a autora, que presidia na organização e no funcionamento dos sistemas, tonava difícil a compreensão da realidade escolar. Tornava-se necessário ao pesquisador, para que não cometesse equívocos em suas análises, que buscasse instrumentais teóricos a dar maior sentido ao dia a dia da escola. O fato é que, passadas algumas décadas e com a virada do milênio, olhar para a escola buscando situá-la neste contexto onde os indivíduos se aproximam das tecnologias, possuem acesso às informações, no momento em que há uma evolução sem precedentes no campo da técnica, da ciência, também se torna relevante investigar os caminhos da escola hoje. Mesmo porque, como parte de um contexto social amplo, ela vive suas inúmeras contradições, pois, ao mesmo tempo que temos avanços de toda ordem, concomitante a eles expandem prejuízos 10 KLAUS SCHWAB (2016); BRITO (2017). 51 sociais no campo individual e coletivo (depressão, individualismo, falta de objetivos para a vida, a fome, a falta de saneamento básico etc.). A escola tem seu cotidiano vivido e expresso diante de uma sociedade complexa e também contraditória: que aluno quero formar, que ensino oferecer, quais valores e funções da escola neste século? Assim, a considerar as dinâmicas, as políticas educacionais recentes e a escola propriamente dita, visamos desenvolver esta investigação no Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba, município do interior do estado de São Paulo, especificamente, em uma unidade de Ensino Fundamental I, de jornada ampliada11, denominada Escola de Tempo Integral (ETI)12. Revela-se, aqui, a dimensão específica desta pesquisa que recaiu sobre a ETI, de jornada superior a sete horas diárias, na perspectiva de uma educação integral, já anunciada como aquela educação que contempla as múltiplas dimensões do ser humano (nos seus aspectos humanos, sociais, culturais e políticos) pelas quais ele significa e ressignifica sua própria história, observando o cotidiano que se materializa nesse ambiente escolar, tendo também como referência as questões traduzidas no Projeto Político Pedagógico (PPP)13, compreendendo que a escola é uma instituição situada histórica e socialmente. No entanto, a rápida evolução da sociedade que demonstra tempos complexos e muito dinâmicos, as atuais políticas educacionais e a escola fomentaram nesta pesquisa discussões acerca dessa instituição básica do sistema escolar que nos parece, ainda, ser uma das únicas instituições que pouco evoluiu ao longo das últimas décadas. Assim, a pesquisa se desenvolveu em torno da seguinte problemática: o que revela a Escola de Tempo Integral (ETI), no seu cotidiano escolar nos aspectos objetivos e subjetivos 11 Jornada ampliada (ou jornadas ampliadas) diz respeito ao aumento de horas trabalhadas além da jornada escolar mínima de 4 horas de efetivo trabalho com aluno, prevista no artigo 34 da LDBEN. Aqui considerada apenas como o aumento da carga horária de permanência do aluno na escola. 12 O entendimento para “tempo integral” desta tese tinha sua regulamentação pelo Decreto Federal nº 6.253/2007, que definia os critérios de funcionamento do FUNDEB (Lei nº 11.494/2007) que disciplinava no Art. 4 “[...] considera-se Educação Básica em tempo integral a jornada escolar com duração igual ou superior a sete horas diárias, durante todo o período letivo, compreendendo o tempo total que um mesmo aluno permanece na escola ou em atividades escolares” (BRASIL, 2007). Com a aprovação da Lei nº 14.113/2020, o FUNDEB, agora de natureza permanente, previsto em norma constitucional, tem sua regulamentação por meio do Decreto nº 10.656/2021 e trata no Art. 11 “[...] considera-se Educação Básica em tempo integral a jornada escolar de um estudante que permanece na escola ou em atividades escolares por tempo igual ou superior a sete horas diárias ou a trinta e cinco horas semanais, inclusive em dois turnos, desde que não haja sobreposição entre os turnos, durante todo o período letivo” (BRASIL 2021). 13 Projeto Político Pedagógico (PPP), será a denominação utilizada neste trabalho e utilizaremos no corpo do texto a sua sigla. O PPP é descrito na literatura com várias denominações, como exemplo, Libâneo, Oliveira e Toschi (2012, p. 470) adotam o termo Projeto Pedagógico-curricular, mas esclarecem que esse documento que propõe uma direção política e pedagógica à escola, recebe outras denominações, referindo-se ao mesmo objeto, são elas: “[...] Projeto Político Pedagógico, Projeto Pedagógico, Projeto Educativo, Projeto da Escola, Plano Escolar, Plano Curricular [...]”. Já Santos Filho (2012), adota o termo Projeto Educativo Escolar. 52 para a materialização do Projeto Político Pedagógico (PPP), tendo como fim a educação integral do aluno? Antecipando alguns aspectos do desenvolvimento deste trabalho, é necessário dizer que houve duas pesquisas executadas no sistema municipal de ensino envolvendo as ETI. Nelas, tornou-se evidente que o PPP não (ou pouco) traduzia a identidade da escola de tempo integral, para uma educação integral do aluno. Assim, neste novo momento investigativo, foi possível adentrar no cotidiano escolar da ETI, com o intuito de observá-lo para investigar como ocorre tal processo de materialização do PPP e como as práticas dos profissionais (professores e gestão) se traduzem. Não esquecendo, também, de observar como se dá a integração dos alunos (pela condução dos profissionais) em suas atividades na escola. Nesse processo, buscamos compreender como esse documento norteador da política da escola se revela diante do que acontece no seu cotidiano. Além disso, visamos ampliar e colaborar com a pesquisa para a reflexão sobre os encaminhamentos teóricos metodológicos do PPP, sobre as ações que acontecem no cotidiano via professores e gestão escolar, sobre as ações encaminhadas pela SME para refletir no processo de construção (por parte da equipe) do PPP da escola, de forma que haja sempre a perspectiva pelo aprimoramento de ações e que vise um projeto alinhado à concepção da ETI, além de uma equipe sempre aberta a olhar para a sua realidade, nela atuar e transformar. Entendemos que o PPP precisa ser um instrumento vivo, melhor compreendido pela equipe e sua comunidade e que expresse como uma ETI pode atuar como uma instituição pública na oferta de uma educação integral ao aluno, defendida como essência da função social da escola. Para isso, ingressar o cotidiano escolar e observá-lo, via pesquisa participante, foi com o intuito de contribuir com a construção de conhecimento e ampliar as possiblidades de análises sobre o PPP de uma ETI, além disso, seguir na promoção de estudos que ampliem a consciência sobre a sua importância e necessidade de seu alinhamento com a realidade social circundante. Dessa forma, a tese colocada neste trabalho, parte da consciência de que “a escola é um lugar determinado, perfaz-se no seu cotidiano por um espaço de movimento, mas, sobretudo, na perspectiva da uma Escola de Tempo Integral (ETI) vive diferentes desafios, inclusive, a luta pela sobrevivência da política da jornada ampliada. Entretanto, diante de um processo de fortalecimento da autonomia e da identidade da escola, as concepções de uma política de tempo integral poderão prevalecer se ela estiver materializada no Projeto Político Pedagógico (PPP), pela via da gestão democrática-participativa e na promoção da educação integral ao aluno. Face a isso, o PPP deve ser um documento que identifica a essência dessa política e que retrata um cotidiano que só faz sentidoquando a escola luta, tanto pela sua autonomia, como pela 53 concretização dos objetivos concebidos em sua cultura instituinte, mesmo quando a cultura instituída (seja ela nacional, estadual ou municipal) não prioriza, com maior intensidade, a permanência desse tipo de escola neste século XXI”. Assim, a fim de defender a tese proposta, foram definidos neste trabalho os seguintes objetivos: Objetivo geral: - Analisar as dinâmicas e os desafios do cotidiano escolar da Escola de Tempo Integral (ETI) a partir da materialização do Projeto Político Pedagógico (PPP) no cumprimento da função social da escola. Objetivos específicos: - Compreender a partir da ótica dos membros da gestão escolar (Diretor e Coordenador Pedagógico) e professores o processo de elaboração e implementação do PPP da ETI; - Analisar a percepção da gestão e dos professores sobre os objetivos e metas do PPP e sua articulação com a função social da escola; por fim: - Analisar o cotidiano escolar (via trabalho docente e gestão escolar) e a materialização do PPP nesse contexto. Buscando nos aproximar da conquista de tais objetivos, seguimos no decorrer do processo de doutoramento com a alteração de alguns caminhos e ajustando-se às imposições sociais vividas pela disseminação da COVID-19. Por isso, é oportuno informar que com a aprovação da pesquisa pelo CAAE nº 28546720.4.0000.5402, em 17/03/2020, já tínhamos as condições para darmos início à produção de dados empíricos. Referida data de aprovação se deu num período muito próximo ao início da pandemia da COVID-19 no Brasil, que teve o primeiro caso registrado em 26/02/202014 e que modificou consideravelmente a vida e as formas das pessoas se relacionarem. Diante do novo cenário vivido à época, tivemos a restrição do convívio em sociedade, foram se estabelecendo períodos de quarentenas sucessivos, impondo, aos poucos, o isolamento social, contrastando com a rápida propagação do vírus e com sua capacidade de ceifar vidas. Com efeito, o início do ano de 2020 transcorreu com a modificação do curso de todos os setores sociais, incluindo o da educação, suspendendo as aulas nas escolas e nas universidades do país. Tal fato afetou parte do desenvolvimento desta pesquisa, uma vez que não foi possível adentrar na escola para a realização dos trabalhos, fato que nos levou em 25/04/2020, a solicitar 14 Informação disponível em . Acesso em: 10 ago. 2020. https://www.gov.br/pt-br/noticias/saude-e-vigilancia-sanitaria/2020/02/brasil-confirma-primeiro-caso-do-novo-coronavirus https://www.gov.br/pt-br/noticias/saude-e-vigilancia-sanitaria/2020/02/brasil-confirma-primeiro-caso-do-novo-coronavirus 54 a suspensão do prazo da pesquisa perante o CEP, tendo sido concedida em 19/06/2020. Ao passo dessa nova realidade, o início da produção de dados empíricos na escola participante, sofreu grande impacto. O constructo teórico já havia avançado, sobretudo, o levantamento bibliográfico acerca, basicamente, do termo cotidiano escolar/ETI (em 19/03/2020), as seções do método/metodologia da pesquisa, e, sobre a pesquisa participante e a teoria do cotidiano, restavam alguns poucos apontamentos para a finalização, pois constituíam a base para integrar a escola e compreendê-la, a partir de uma relação dialética entre a teoria e a prática na busca pelos fins da pesquisa. Sob a nova ordem das coisas, fomos trilhando alguns caminhos, mas que não avançaram como o desejado se consideradas as primeiras expectativas desta investigação. Com as mudanças ocorridas nas escolas para a oferta do ensino, as rotinas do cotidiano escolar tiveram seu curso ‘alterado’, projetando o futuro para novas possiblidades e aprendizados que, até então, não haviam sido imaginadas à vista do contexto social vivido. Desta forma, a cada seção, seguiremos posicionando o leitor para essas interfaces da pesquisa, a iniciar pelo método e metodologia no qual nos pautamos para desenvolver este trabalho, que colocou-nos diante de um frutífero aprendizado sobre a ciência. 55 4 O MÉTODO E A CIÊNCIA: A PESQUISA, OS INSTRUMENTOS E O CONTEXTO PESQUISADO O trabalho desenvolvido nesta seção e subseções, traz considerações sobre a ciência e sobre o método Materialista Histórico Dialético (MHD), vai tratar das escolhas feitas para a produção de dados empíricos pela via da pesquisa participante e pela observação participante, propõe os instrumentos utilizados no decorrer do processo de investigação, assim como apresenta todo o contexto em que ela foi desenvolvida. Ainda, vai tratar sobre os caminhos escolhidos para a análise dos dados produzidos. 4.1 O MATERIALISMO HISTÓRICO DIALÉTICO (MHD), A CIÊNCIA E A PESQUISA QUALITATIVA Visando elucidar os caminhos aqui percorridos, foi proposto um trabalho pautado na abordagem Materialista Histórico Dialética (MHD), optamos por buscar apoio também nesse referencial teórico a fim de trazer elementos do método que nos possibilitassem observar a realidade de uma forma mais profunda e crítica. Compreendemos que suas bases teóricas auxiliam a observar a escola em seu contexto social e histórico, pelos quais entendemos que ela não pode se desligar, ou seja, não pode ser vista isoladamente, por isso a escolha a partir de suas referências. Intencionamos, a partir do conhecimento que este método nos oferece, observar o cotidiano escolar para que, seguidamente, fosse ampliada a análise de todo o material coletado na pesquisa empírica, perseguindo, assim, o alcance dos objetivos propostos nessa investigação. Desta forma, não o assumimos a partir de sua perspectiva ortodoxa diante dos quais seus marcos se estruturam (grandes eventos sociais, culturais, políticos, econômicos, no marxismo ortodoxo, nas lutas de classes etc.), mas ele foi escolhido como apoio importante pela possibilidade de uma compreensão mais próxima da realidade da escola com jornada ampliada, de seu PPP e de como este documento se materializa no cotidiano escolar, face às dinâmicas colocadas frente à história educacional e social do país. Referida abordagem, nos coloca dentro de uma perspectiva de compreensão do processo de transformação do homem e da sociedade, da qual a escola é parte. Assim, no exercício da apreensão do conteúdo das temáticas estudadas, permitiu-nos a superação da percepção de uma realidade apenas visível e imediata da escola para uma concreta e pensada, na qual ela foi sendo observada com maior criticidade, melhor conhecida e compreendida nos seus diversos caminhos e contraditórios aspectos. 56 A proposta desta investigação visou compreender a realidade, estabelecendo as relações sujeito/objeto, demandando a apreensão das temáticas propostas (cotidiano escolar/PPP/ETI/educação integral), para a construção do conhecimento a considerar que a realidade social como um todo gera, por dinâmica própria, seu contrário ou as condições objetivas e subjetivas para a sua superação, de forma que a antítese formula-se na estrutura do conflito social. Ou seja, a essência da dialética se dá na investigação das contradições da realidade, pois são essas as forças propulsoras do desenvolvimento da natureza (DEMO, 1995). Ao alinhar esta forma de pensar à pesquisa desenvolvida, observamos que numa perspectiva de trabalho envolvendo uma ETI onde se espera uma educação integral do aluno, num ideário capaz de sustentar uma política de atendimento de jornada ampliada que visa a promoção emancipatória do indivíduo e de seu direito a uma educação de qualidade, não se via devidamente compreendida, estabelecida, tampouco vivenciada pelos seus profissionais e pela comunidade escolar, fatos merecedores de uma investigaçãoaprofundada. Temos observado a escola (de modo geral) distante do projeto a dar efetividade à educação integral do aluno. É- nos evidenciado, também, que seus profissionais, bem como a própria comunidade, de modo geral, possui uma visão ainda distorcida e carente de conhecimento dessa perspectiva de escolas com cargas horárias ampliadas. O que esperar dessas realidades? Que tipo de aluno formar? Qual a compreensão dos profissionais, alunos e pais acerca da função social da escola? A partir disso, é que fazemos referência ao MHD, que seguirá sendo discutido neste trabalho para a formulação das análises que buscaremos desenvolver a partir do conhecimento aqui alcançado e que permite ao pesquisador e profissional da educação conhecer os diferentes e variados enfoques ou elementos da práxis educacional. Para esse conhecimento, o método orienta e indica os caminhos que permitem ampliar, como dito, as realidades aparentes, imediatas, para uma realidade que apreende o fenômeno/o objeto na sua complexidade, contrariedade e na sua totalidade, o que significa dizer, a compreensão do real, do processo de transformação do homem, de sua multiplicidade e de sua historicidade. Nessa perspectiva, corresponde afirmar que a compreensão aprofundada da realidade educacional que embasa a transformação do homem na e da sociedade deve vir pautada pela ciência. De tal modo, a respeito da investigação científica, Benite (2009, p. 3) nos posiciona que “É inquestionável a importância da pesquisa científica em todos os ramos do conhecimento e, por conseguinte, a sua aplicação e/ou reflexão perante a busca da verdade caracteriza-se como a finalidade própria da pesquisa científica”. Para a autora, a busca de qualidade nesse processo é crucial, pois na elaboração do conhecimento científico, é imprescindível utilizar métodos e 57 técnicas eficazes para atingir os objetivos da pesquisa, contando com concepções teóricas e matrizes epistêmicas que orientarão o caminho da investigação (BENITE, 2009). Assim, no campo educacional, o MHD comparece no sentido de ampliar as análises dos fenômenos, visto que o objeto de estudo está integrado às questões sociais e históricas decorrentes do meio e necessita ser observado à luz da criticidade, da contradição e da superação de visões, muitas vezes, idealistas em torno da educação e da sociedade. Referida forma de observar o mundo (a idealista), encontra suas bases na filosofia hegeliana que defendia a supremacia das ideias em relação às práticas sociais, uma percepção da realidade apenas no plano do espírito, do pensamento, das ideias. Fato que, na perspectiva do MHD, é superado pela concepção materialista, defendida por Marx, assim os autores Tanamachi e Viotto Filho (2012, p. 30) nos posicionam que: A filosofia hegeliana pretendia superar, de forma idealista, o isolamento entre as leis e as formas do pensamento e as leis da realidade concreta, porque considerava que aquelas são as mesmas leis do ser, já que elas refletem o mesmo conteúdo objetivo destas. Na sua visão idealista, Hegel considera o pensamento como a base de todo o processo de desenvolvimento da realidade, ou seja, o pensamento como constituinte da própria realidade e, portanto, o próprio ser. Segundo esses mesmos autores, Marx apropria-se criticamente dos postulados de Hegel e propõe uma versão materialista da teoria de Hegel, buscando superar deformações nela existentes, uma vez que, para este teórico, o conhecimento não deriva apenas da atividade do pensamento, mas surge da prática do sujeito, como produto da reflexão sobre essa própria prática, numa realidade que não é estanque, mas sim dinâmica e contraditória pela qual o ser humano se constitui na sociedade (TANAMACHI; VIOTTO FILHO, 2012). Esta forma de buscar o conhecimento sobre essa prática, sobre fatos, temas, programas, políticas educacionais, sobre os modos de viver e estar no mundo, parte da necessidade de acompanhar as mutações constantes do meio social, da natureza, da vida e do próprio homem. O enfoque para a educação integral, nas escolas com jornadas ampliadas e sua efetividade assegurada via PPP, integra-se a uma política pública complexa e que faz parte da totalidade social, sendo pertinente o estudo desse ensino, de seu movimento e dos elementos que o compõem. Existem forças pelas quais as políticas perpassam que não se desvinculam das tensões marcadas pelos vieses econômicos, políticos, ideológicos e que, portanto, acabam por influenciar os diferentes campos sociais, o que não é diferente no campo da educação, também marcado por disputas, antagonismos, poder etc. A presente investigação requereu um trabalho de análise ampla em processo com outras diferentes manifestações sociais, leis, representações 58 etc., pois revelou-se como uma política complexa e que faz parte de uma totalidade, pela qual pôde ser observada pelo MHD. Neste sentido, tem-se que a contribuição da concepção metodológica dialética nas pesquisas educacionais para Masson (2012, p. 9): [...] reside na constante busca de um conjunto amplo de relações, particularidades e detalhes que possibilitam captar o seu movimento numa totalidade. Nessa abordagem, totalidade significa estabelecer as máximas relações possíveis para o desvelamento do real. Neste sentido, tal método possibilita estabelecer as conexões entre os diferentes aspectos que caracterizam a realidade. A totalidade existe nas e através das mediações, pelas quais as partes específicas (totalidades parciais) estão relacionadas, numa série de determinações recíprocas que se modificam constantemente pelas contradições existentes no real. O estudo de uma política educacional requer, para a apreensão de sua essência, considerar a correlação de diferentes forças no processo pelo qual se define e se implementa uma política pública. A apreensão do objeto de estudo a partir das relações, das mutações do campo social e das diferentes implicações e transformações no campo educacional nos conduz à necessidade de uma análise densa do objeto de estudo escolhido, no caminho da pesquisa. Além disso, das relações que uma proposta materialista dialética exige entre seu sujeito e objeto de estudo. Nessa seara, para elucidar e trazer à luz os postulados pelos quais Marx deixa seu legado, em que propõe uma teoria do conhecimento de natureza crítica e revolucionária, que abarca a política, a história e as condições sociais que tornam objetivas a existência humana (MARX, 2011; MARX; ENGELS, 2007), propomos a utilização dos referenciais desse método a fim de chegarmos próximos do real, tal como ele é, analisando o cotidiano escolar, também a partir da visão das teorias do cotidiano e da cotidianidade. Por assim desejar, na obra de José Paulo Netto (2011), a “Introdução ao Estudo do Método de Marx”, nos coloca diante do pensamento desse teórico, sobre sua forma de pensar a teoria pela qual difere, também, das visões empiristas e/ou positivistas, da sistematização controlada, de relações puramente de causa e efeito etc. Nos apontamentos de Paulo Netto: Para Marx, a teoria é uma modalidade peculiar de conhecimento, entre outras coisas (como, por exemplo, a arte, o conhecimento prático da vida cotidiana, o conhecimento mágico-religioso – cf. Marx, 1992, p.15). Mas a teoria se distingue de todas essas modalidades e tem especificidades: o conhecimento teórico é o conhecimento do objeto – de sua estrutura e dinâmica – tal qual ela é em si mesmo, na sua existência real e efetiva, independentemente dos desejos, das aspirações e das representações do pesquisador. A teoria é, para Marx, a reprodução ideal do movimento real do objeto pelo sujeito que pesquisa: pela teoria o sujeito reproduz em seu pensamento a estrutura e o objeto que pesquisa. E esta reprodução (que constitui propriamente o conhecimento teórico) será tanto mais correta e verdadeira quantomais fiel o sujeito for ao objeto [...] (PAULO NETTO, 2011, p. 20-21, grifos do autor). 59 A aproximação efetiva do objeto que se pesquisa é que permite conhecê-lo melhor, conhecer sua realidade, ou seja, sua essência e dinâmica, pelo uso da crítica que almeja possiblidades de transformar a própria realidade. Ainda, por Paulo Netto, [...] Isto significa que a relação sujeito/objeto no processo do conhecimento teórico não é uma relação de externalidade, tal como se dá, por exemplo na citologia ou na física; antes, em que o sujeito está implicado no objeto. Por isso mesmo a pesquisa – e a teoria que dela resulta – da sociedade exclui qualquer pretensão de “neutralidade”, geralmente identificada com “objetividade” (PAULO NETTO, 2011, p. 23). Parte-se, então, da contraposição às ditas visões idealistas da realidade, para uma análise que engloba as questões sociais e históricas e que, portanto, observa o movimento (do espaço escola, no caso) e os processos que transformam o homem, a sociedade, a educação. Revela que não deve haver o distanciamento entre o sujeito e o objeto, que não deve haver a separação entre eles, como observado, por exemplo, na perspectiva positivista. Tal distanciamento deve ser superado no MHD. Para Benite (2011, p. 3) “Compreender a relação sujeito/objeto é compreender como o ser humano se relaciona com “as coisas” com a natureza, com a vida”, portanto, são complementares um ao outro e observam a constante transformação do meio. Nas pesquisas desenvolvidas até então no município de Araçatuba e que envolveram a temática da ETI, foi detectada a ausência de um currículo estruturante em nível de secretaria de educação para essas escolas, caracterizando-se um pouco distantes das definições e encaminhamentos de políticas educacionais na seara da educação integral em jornadas ampliadas. Com isso, coloca-se em evidência que o PPP pode deixar de traduzir como a escola formaliza sua educação num ideário de escola pública frente a esse mundo, no qual tempos e espaços se configuram de forma complexa, sobretudo, a acompanhar a dinâmica do aparato científico, tecnológico, informacional e comunicacional disponível na sociedade. A presente investigação propôs a continuidade de um trabalho que foi sendo desenvolvido perante o sistema municipal de ensino de Araçatuba ao longo dos últimos anos, de forma a permitir o aprimoramento e a possibilidade de ampliar o conhecimento sobre a ETI, sobre a atuação, as vivências e ações de seus profissionais nas suas ações cotidianas e humano- genéricas, assim como dos alunos em seus processos de ensino e de aprendizagem e em suas relações com o lugar escola, que se constitui como um espaço onde é possível o movimento, além de perceber a comunidade e seu entorno, dentro de um contexto social. Essa via de investigação, ou seja, de fazer ciência, nos coloca a refletir o ensinamento de Miranda (2005, p. 249-250): 60 Os conhecimentos científicos colaboram para que os homens produzam sua existência, criando condições mais adequadas para uma sociedade melhor. Este processo é contínuo, cada conhecimento produzido representa um novo nível, de significação esclarecedora, mas, porém parcial, à medida que se torna fonte de novos problemas de investigação. Isso não significa que a ciência seja a acumulação de resultados parciais linearmente articulados entre si, mas sim um processo produtivo permanente que possibilita a contínua ampliação e aperfeiçoamento do conhecimento, uma vez que uma afirmação gera novas interrogações que se situam na base de sua continuidade. Decorre, então, da mobilização do olhar para a realidade investigada e conhecer, ou seja, analisar os processos resultantes da relação entre a pesquisadora com o objeto a ser estudado: a ETI, o seu cotidiano, as propostas e ações produzidas no PPP da escola, como esse contexto é assimilado pelos profissionais e como isso se traduz na formação dos alunos. Eis, portanto, a necessidade do método que se caracteriza como um conjunto de atividades sistemáticas e racionais que oferece segurança no alcance dos objetivos da pesquisa e de conhecimentos válidos e verdadeiros, que direciona os caminhos do pesquisador para alcançar suas respostas e tomadas de decisão (LAKATOS; MARCONI, 2010). Severino (2003, p. 100) explica que: Não basta seguir um método e aplicar técnicas para se completar o entendimento do procedimento geral da ciência. Esse procedimento precisa ainda referir-se a um fundamento epistemológico que sustenta e justifica a própria metodologia aplicada. É que a ciência é sempre o enlace de uma malha teórica com os dados empíricos, é sempre uma articulação do lógico com o real, do teórico com o empírico, do ideal com o real. Toda a modalidade de conhecimento realizado por nós implica uma condição prévia, um pressuposto relacionado à nossa concepção da relação sujeito/objeto. Por esses aspectos, as relações do campo teórico com o empírico, do ideal com o real e, mais precisamente, da relação sujeito/objeto, encontramos no MHD a base para nos apropriamos desta pesquisa que, segundo Benite (2011, p. 8) “Assumir o MHD enquanto pressuposto epistemológico que orienta a investigação implica entender que este é atributo da realidade e não do pensamento”. Ela ainda menciona sobre o caráter sincrônico e diacrônico dos fatos, ressaltando o caráter histórico dos objetos investigados, implicados na relação sujeito- objeto (BENITE, 2011). Nas palavras de Marx e Engels (1977, p. 37), “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”. De tal forma que, pelo MHD, não há apenas a reprodução de fatos, leis ou teorias, nos pautamos na relação e na contradição que implicam a capacidade de capturar as mutações do meio e nele busca agir transformando-o. A investigação também apesenta seus fundamentos por meio da pesquisa qualitativa, a partir de uma matriz teórica interpretativa (PACHECO, 1995), de forma a corroborar na descoberta de novos aspectos acerca do objeto que se pretende conhecer. 61 Para Chizzotti (2003, p. 221): O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível e, após este tirocínio, o autor interpreta e traduz em um texto, zelosamente escrito, com perspicácia e competência científicas, os significados patentes ou ocultos do seu objeto de pesquisa. Dessa forma, a pesquisa qualitativa imprime uma forma mais ampla e viável de investigação, por meio da qual se permite descobrir na relação, sempre complexa que se estabelece entre o pesquisador e seu objeto, significados capazes de influenciar realidades. Na perspectiva histórico cultural, por exemplo, concebe-se a percepção do objeto em movimento, visto que ele está em constante integração com os acontecimentos presentes na realidade concreta, ou seja, foge à lógica da objetividade, à lógica formal que se baseia apenas na observação direta dos fatos em espaços e tempos determinados. Valoriza-se, então, as relações sociais no contexto social, histórico, cultural diante do qual os indivíduos se desenvolvem e se relacionam. Por isso, a pesquisa qualitativa nos auxilia a buscar os sentidos desse contexto, pois, como já dizia Minayo (1994), o imaginário do sujeito não pode ser quantificado, pois seu universo de aspirações, significados, motivos, crenças e valores correspondem a um espaço mais amplo e profundo de relações, de processos e fenômenos que não podem ser reduzidos à quantificações. A escolha por essa abordagem, pressupõe que o pesquisador suspenda ou se afaste de suas próprias crenças, perspectivas e predisposições para olhar seu local de pesquisa como se não o conhecesse. Este processo investigativo qualitativoe, com isso, faz um brilhante trabalho em meio a inúmeras adversidades. Obrigada, também, à Coordenadora aposentada Elenice Góes da Silva Camargo que, com todo o seu empenho e conhecimento à frente da escola, permitiu-me compreender um pouco mais sobre os desafios da ETI. Agradeço à toda essa Equipe Escolar, sua nova Coordenadora Karina Silveira Ribeiro e a todos os demais profissionais (professores, técnicos e colaboradores) da escola que buscam oferecer o melhor ao aluno... Grupo de Pesquisa FPPEEBS, pelo significativo aprendizado coletivo. A todos os amigos obrigada por contribuírem com suas trajetórias e seus depoimentos nos encontros. Às Professoras Ana Luzia e Renata Rinaldi, minha gratidão pelo exemplo e compromisso com a formação acadêmica, pela disponibilidade pessoal e profissional na condução de uma Educação significativa. Ivonete Gomes de Andrade e Equipe, membros da Secretaria da Pós-Graduação, pela atenção e agilidade no atendimento das demandas encaminhadas. Parabéns pelo trabalho. Neiva Solange da Silva, marcou-me com sua generosidade e disposição em ajudar-me na trajetória do mestrado, não esquecerei nossas conquistas e companheirismo. Equipe da EMEB Profa. Norma Gazoni Martins, onde habito como professora do Sistema Municipal de Ensino. Agradeço o acolhimento ao meu retorno como professora após 18 anos na Secretaria de Educação. Muito obrigada por permitirem o meu aprendizado na Educação Infantil, apoiando-me nessa rica trajetória educacional. A toda Equipe da Secretaria Municipal de Educação, agradeço a oportunidade de fazer parte deste Sistema Municipal de Ensino que se consolida a muitas mãos e me deu a oportunidade de conhecer, trabalhar e ressignificar o meu olhar sobre a Educação. O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001. À DEUS, o SUSTENTO de minha vida... RESUMO Esta pesquisa de doutorado foi desenvolvida no interior da linha de pesquisa Formação dos Profissionais da Educação, Políticas Educativas e Escola Pública, do Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Câmpus de Presidente Prudente. O trabalho centra na análise do cotidiano de uma Escola de Tempo Integral (ETI) de Ensino Fundamental I, no Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba/SP, envolvendo dois membros da equipe de gestão escolar e sete professores. Teve como objetivo analisar as dinâmicas e os desafios do cotidiano escolar da Escola de Tempo Integral (ETI) a partir da materialização do Projeto Político Pedagógico (PPP) no cumprimento da função social da escola. Buscamos apoio nas referências no método Materialista Histórico Dialético (MHD) que, no campo educacional, comparece para ampliar as análises dos fenômenos; a escola social e histórica será observada à luz da criticidade, da contradição e da superação de visões, muitas vezes, idealistas em torno dela própria, da educação e da sociedade. A abordagem metodológica é de natureza qualitativa, que concebe os indivíduos envolvidos em um movimento contínuo de relações sociais, históricas e culturais. Os fundamentos teóricos e epistemológicos versaram sobre as principais temáticas: o cotidiano escolar, a escola de tempo integral e a educação integral e o Projeto Político Pedagógico. A pesquisa documental ampliou as análises, tendo como fonte primária o Projeto Político Pedagógico da escola e, por fim, os documentos e normativos sobre a política da Escola de Tempo Integral e da pandemia da COVID-19. A produção de dados empíricos, impactada pelas consequências da pandemia, foi guiada pela pesquisa participante e pela observação participante com a construção de um diário de observação, foi também aplicada a entrevista para a gestão escolar e o questionário aos professores. A pesquisa se desenvolveu em torno da seguinte problemática: o que revela a Escola de Tempo Integral no seu cotidiano escolar nos aspectos objetivos e subjetivos para a materialização do Projeto Político Pedagógico, tendo como fim a educação integral do aluno? A tese deste trabalho considerou que a “escola é um lugar determinado, perfaz-se no seu cotidiano por um espaço de movimento, mas, sobretudo, na perspectiva da uma Escola de Tempo Integral (ETI) vive diferentes desafios, inclusive, a luta pela sobrevivência da política da jornada ampliada. Entretanto, diante de um processo de fortalecimento da autonomia e da identidade da escola as concepções de uma política de tempo integral poderão prevalecer se ela estiver materializada no Projeto Político Pedagógico (PPP), pela via da gestão democrática- participativa e na promoção da educação integral ao aluno. Face a isso, o Projeto Político Pedagógico deve ser um documento que identifica a essência dessa política e que retrata um cotidiano que só faz sentido quando a escola luta, tanto pela sua autonomia como pela concretização dos objetivos concebidos em sua cultura instituinte, mesmo quando a cultura instituída (seja ela nacional, estadual ou municipal) não prioriza a permanência desse tipo de escola neste século XXI”. Como resultados, categorias de análise foram abstraídas, tratadas aqui como dinâmicas e desafios vividos na ETI, a saber: a comunidade de alunos e pais; a construção do Projeto Político Pedagógico; a política da escola de tempo integral; a BNCC, seu conhecimento e a formação do professor. O alcance da totalidade dos objetivos foi prejudicado devido à pandemia, o que fez com que a tese deste trabalho fosse defendida parcialmente. Resulta-se a necessidade de agir sobre os desafios vividos na escola de tempo integral, esta que ainda precisa conquistar a singularidade de seu Projeto Político Pedagógico e, com isso, fortalecer a sua própria autonomia e identidade, o que contribuirá para a luta pela permanência de uma política na perspectiva de uma educação integral no município de Araçatuba. Palavras-chave: Cotidiano Escolar. Escola de Tempo Integral. Projeto Político Pedagógico. Formação Continuada de Professores e Formadores. ABSTRACT This doctoral research was developed within the line of research Training Professionals in Education, Educational Policies and Public Schools, of the Graduate Program in Education of São Paulo State University (Unesp), School or Institute, Câmpus Presidente Prudente. The paper is centered on the analysis of Full Time Elementary Schools’ daily life in the Municipal Education System of Araçatuba, a city in the countryside of the state of São Paulo. We propose to analyze the dynamics and challenges of this school model, in the materialization of the Pedagogical Political Project. The method used is the Dialectical Historical Materialism which, in the educational field, appears to expand the analysis of the studied phenomena, where the social and historical school needs to be observed in the light of criticality, contradiction and the overcoming of often idealistic views about the school itself, education and society. The approach is qualitative in nature, which sees individuals involved in a continuous movement of social, historical and cultural relations. The bibliographical work reached theorists on the main themes dealt with here: daily school life, Full Time Schools and Full Time Education and the Pedagogical Political Project. The documentary research expanded the analysis, having as its primary source the Pedagogical Political Project of the school where the research was carried out, and, finally, the documents and regulations on the Full Time Schools’ policy and the COVID-19 pandemic, that impacted the work development of schools. The collection of empirical data was guided by participatory research and participant observation, with the construction of an observationvaleu-se da pesquisa bibliográfica que sempre direciona e organiza o pensamento em torno do tema investigado, colocando-o frente às produções científicas que permitem ampliar os caminhos da pesquisa, conhecer o que já está disponível na área, os diferentes enfoques e vertentes de um tema, o que permite ampliar e gerar conhecimento novo. A análise documental também se constituiu como um fator importante neste processo investigativo, pois o PPP da escola formalizou-se como uma fonte primária expressiva deste trabalho para a compreensão da escola. A investigação, contudo, valeu-se do trabalho empírico, configurando-se como uma experimentação da realidade observável. Nesse sentido, formalizou-se como uma oportunidade de averiguação acerca da construção teórica em relação à prática, de modo que a “empiria significa oportunidade de testar até que ponto o que se pensa bate com a realidade” (DEMO, 2008 p. 39). Além disso, o contato com a realidade investigada nos conduziu também a 62 descobrir situações sequer antes pensadas, além de ampliar as possibilidades de respostas às indagações formalizadas no decorrer da pesquisa. 4.2 A PESQUISA PARTICIPANTE, SUAS RELAÇÕES TEÓRICO-PRÁTICAS E SUA DISTINÇÃO DIANTE DA PESQUISA-AÇÃO A forma de perseguir as referências encontradas no MHD se deu pela via da pesquisa participante, haja vista que ela visa colocar o pesquisador dentro da realidade a ser analisada. Realidade que no decorrer do desenvolvimento da pesquisa foi modificada pela pandemia da COVID-19, mas, mesmo assim, perseguimos o intento de realizar a pesquisa participante integrando a escola para a aplicação dos instrumentos no mês de abril de 2020 e para a realização da observação participante em meados de setembro de 2020, observados todos os protocolos de segurança sanitários, necessários à nossa permanência na escola (nas seções seguintes, essas questões serão abordadas). Para referida integração na escola foi preciso percorrer longa trajetória no reconhecimento da pesquisa participante, ainda que essa pesquisa tenha sido impactada por não ter sido experimentada na sua amplitude, nos referenciamos em suas bases para na escola permanecer. Brandão (1988) aponta que esta pesquisa fundamenta-se a partir do papel da ciência e da participação popular. Em seu livro “Pesquisa Participante”, o autor demostra uma organização teórica em que diferentes autores elucidam os enfoques dessa possibilidade investigativa e menciona que, à época, a obra configurava-se como uma das pioneiras que reunia “artigos sobre o assunto no Brasil e na América Latina” (BRANDÃO, 1988, p.15). Nesse sentido, buscamos, neste primeiro momento, embasar o conhecimento aqui desenvolvido na obra desse autor que, mesmo atuando pela via da antropologia, ajuda-nos a compreender sobre a pesquisa participante pela qual podemos realizar contrapontos com a área educacional. Seu livro também cita outros autores (THIOLLENT (1981); BORBA (1972); ANTON DE SCHUTTER (1980) que, na sua experiência, contribuíram significativamente para a construção do conhecimento acerca desse tipo de proposta. Dentre esses que trabalharam no desenvolvimento da temática, Brandão (1988, p. 12) ressalta que Orlando Fals Borba também representou à época, um dos cientistas sociais que participou ativa e diretamente sobre a “investigação participativa” e, como foi dito, por toda a “América Espanhola”. Por pesquisa participante, trazemos, então, a definição dada por Borba (1988, p. 43): 63 [...] Refere-se, antes, a uma “pesquisa da ação voltada para as necessidades básicas do indivíduo” (Huynh, 1979) que responde especialmente às necessidades de populações que compreendem operários, camponeses, agricultores e índios – as classes mais carentes nas estruturas sociais contemporâneas – levando em conta suas aspirações e potencialidades de conhecer e agir. É a metodologia que procura incentivar o desenvolvimento autônomo (autoconfiante) a partir das bases e uma relativa independência do exterior [...] (Grifos do autor). O resgate dessa definição advém da necessidade de discutirmos neste trabalho, ainda que não exaustivamente, questões relacionadas à predominância da ciência clássica pela qual a pesquisa participante se contrapôs, uma vez que ofereceu ao contexto da época um contorno científico que buscou atender as necessidades das populações revelando, sobretudo, que as classes mais carentes deveriam estar presentes em processos de participação e desenvolvimento social. O autor retratou que os fundamentos para os problemas da participação popular não seriam novos, mesmo porque suas bases teriam encontrado apoio nas teorias sociais e de prática social de “Stavenhagen (1971)”, no “desenvolvimento endógeno” centrado no homem e na participação popular” de “Huynh (1979)”, e, também, nos trabalhos realizados pela “Organização Internacional do Trabalho”, pelo “Instituto das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social” pela “Comissão sobre a Participação das Igrejas no Desenvolvimento, do Concílio Mundial de Igrejas, que estavam trabalhando em questões relacionadas à participação popular (BORBA, 1988). Entendemos a possiblidade advinda desses autores por colocar em evidência o modo de fazer ciência, por outra via que não fosse pelos fundamentos da ciência clássica, afinal: Todos sabem que a ciência é construída pela aplicação de regras, métodos e técnicas, sujeitas a certo tipo de racionalidade convencionalmente aceita por uma pequena comunidade constituída de indivíduos chamados cientistas que, por serem humanos, estão, por isso mesmo, sujeitos a motivações, interesses, crenças e superstições, emoções e intepretações de seu desenvolvimento social, cultural e individual. Consequentemente, não pode haver valores absolutos no conhecimento científico porque este irá variar conforme os interesses objetivos das classes envolvidas na formação e na acumulação de conhecimento, ou seja, na sua produção (BORBA, 1988, p. 44, grifo do autor). Interessava a esses autores examinar o processo de produção de fazer conhecimento libertos das amarras dos cientistas clássicos que monopolizavam o entendimento de como fazer ciência e de decidir aquilo que era ou não ciência, era ou não uma ‘verdade’. Conforme os contextos sociais vividos, grupos e pessoas envolvidas, cientistas, todos humanos têm seus valores, objetivos, contradições pela qual a ciência buscar oferecer respostas, por isso coloca- se não haver valores absolutos no conhecimento científico. O autor Borba (1988, p. 44) ainda chama a atenção para a comunidade científica ocidental que, segundo ele, exercia influências 64 nítidas sobre a manutenção do “[...] status quo político e econômico que cerca o sistema industrial e capitalista dominante”, o que evidentemente fazia preservar e fortalecer o sistema já vigente. Diante disso, a manutenção do status quo deixa uma expressiva parcela da população sem a possibilidade de atuar e expor suas motivações, interesses, opiniões, pois ela poderia revelar as contradições do sistema dominante revelando as fraquezas e inconsistências existentes na sociedade. O fato é que, aos poucos, a ciência clássica é contraposta pelo que Borba (1988, p. 45) chama de “[...] ciência ou a cultura “emergente” ou “subversiva” que, por sua vez, não é avessa ao processo de acumulação de conhecimento “[...] científico, tecnológico e artístico [...]” até então produzido, pois considera suas potencialidades no desenvolvimento da humanidade. Mas, na verdade, a ciência popular – o conhecimento popular – o conhecimento empírico, para Borba (1988, p. 45) [...] tem sido uma característica ancestral, cultural e ideológica dos que se acham na base da sociedade [...] não é codificado segundo os padrões da forma dominante e, por esta razão, é menosprezado como se não tivesse o direito de articular-see expressar-se em seus próprios termos. Mas este conhecimento popular também possui sua própria racionalidade e sua própria estrutura de causalidade, isto é pode-se demostrar que tem mérito e validade científica per se. A ciência, então, revela-se como um processo presente em vários níveis e que se expressa por pessoas que pertencem a vários grupos sociais nos quais há a possibilidade de enfatizar diferentes situações estudadas, diferentes aspectos, atribuir maior ou menor importância a determinados fatores, construir ou destruir paradigmas. Não se nega que houve ao longo da história a manutenção de um sistema marcado pelo poder social, político e econômico, pelos quais Borba (1988) menciona que há um aparelho científico construído para defender interesses da burguesia, modelo que domina os países ocidentais e que limitam o crescimento de outras construções científicas que possam se sobressair a partir daqueles ou daquilo que se encontra nas bases da sociedade. Para o autor, no decorrer da história contemporânea, o curso do modelo de submissão de classes sofre mudanças contrapondo-se, também, à neutralidade e objetividade da ciência clássica, que buscava impressionar o grande público. Mas, essa ciência não deixou suas trajetórias, seus paradigmas, suas relações com a sociedade e com a história, porém “O conceito de verdade deixa de ser uma qualidade fixa, sendo condicionado por uma função de poder que formaliza e justifica o que é aceitável” (BORBA, 1988, p. 47). Nesse contexto, a pesquisa participante vai revelando as suas interfaces, pois busca responder especialmente às necessidades de populações que, muitas vezes, não 65 foram atendidas pela ciência clássica. Por outro lado, a cultura popular ou a “filosofia espontânea” (BORBA, 1988, p.48) no âmbito da sociedade, é marcada por um conhecimento prático empírico, que permite que essa própria sociedade e as pessoas sobrevivam, interpretem, produzam e trabalhem, criando modos de viver que são próprios e peculiares, que criem conhecimentos e conceitos em torno de suas necessidades. Assim, o conhecimento popular, por séculos, foi capaz de tornar evidentes os caminhos para que as civilizações avançassem, uma vez que foram condicionadas e produzidas a partir de visões concretas da sociedade e de seu desenvolvimento. Para tanto, Borba (1988) faz-nos um alerta, explicitando que a ciência emergente ou subversiva deve ser melhor compreendida, chamando a atenção para a necessidade de uma reordenação da atuação científica a fim de que essa ciência se torne mais útil à sociedade, isso para que a manutenção do status quo do sistema dominante não se mantenha hegemônico, mas que as necessidades das grandes maiorias humanas, até mesmo vítimas do progresso ‘desiquilibrado’ da própria ciência, sejam também ouvidas, exponham suas motivações e opiniões, que suas verdades sejam aceitas e justificadas. O autor diz que: Com relutância, e em virtude da ameaça que acarretam para o sistema dominante, está se dando hoje grande atenção às necessidades das massas trabalhadoras que sofrem a exploração capitalista. É preciso, pois, aproximar-se das bases da sociedade não apenas com o objetivo de entender sua própria versão de sua ciência prática e expressão cultural, mas também para procurar formas de incorporá-las às necessidades coletivas mais gerais, sem ocasionar a perda de sua identidade e seu teor específico (BORBA, 1988, p. 47). Nos é dado o compromisso de olhar para a sociedade de modo amplo e permitir que ela se manifeste, que compreenda suas demandas e construa conhecimentos, pois a pesquisa participante permite que pesquisadores e ‘pesquisados’ sejam sujeitos de um mesmo trabalho, ainda que em situações e tarefas diferenciadas, mas visando um fim comum de desvelar um outro real possível para e na sociedade. Para Borba (1988, p. 47) “[...] ser um cientista hoje significa estar compromissado com alguma coisa que afeta o presente e o futuro da humanidade. Portanto, a substancia da ciência é tanto qualitativa quanto cultural [...]”, pois para ele é preciso que questionemos que tipo de conhecimento queremos e precisamos, a quem se destinam tais conhecimentos científicos e a quem beneficiará? (BORBA, 1988). Questões que orientam o processo e que devem ser constantemente revisadas para que a investigação se torne válida, almejando exercer uma pesquisa coerente, não só teórica e metodológica, mas uma prática que envolva significativamente a população pesquisada. 66 Nessa linha, Demo (2008) também nos influência com seus ensinamentos, orienta que essa pesquisa deve ser considerada em suas bases sob a integração de dois princípios propostos: o científico e o educativo. O primeiro viabiliza a pesquisa no sentido de trazer confiabilidade ao processo, uma vez que considera os rigores metodológicos e epistemológicos na construção do conhecimento, dando voz à ciência e credibilidade ao trabalho investigativo em processo. Por outro lado, o princípio educativo permite um conhecimento formativo, que gera significado pedagógico, de formação de consciência crítica e criativa, de possibilidade de formar sujeito capaz de construir sua própria história (DEMO, 2008). Por essa perspectiva, buscamos construir o conhecimento sobre a ETI (pelo PPP, suas concepções de ensino, sua política, o embasamento teórico), sobre aqueles que se responsabilizam por oferecer a educação nesse tipo de escola (professores e gestão), além de observar a comunidade escolar e as suas as relações. Por outro lado, para além da construção do conhecimento sobre a escola, o princípio educativo, conforme menciona Demo (2008, p. 16) “[...] aposta na politicidade do conhecimento como instrumento essencial de mudanças profundas e autônomas” que é querer alterar uma dinâmica capaz de ampliar os resultados para o reconhecimento da escola como um campo dinâmico, complexo e multifacetado, fonte capaz e responsável não só por dar condições de construir posicionamentos coerentes por aqueles que a conduzem nos seus diferentes aspectos, mas também na formação de alunos conscientes, conhecedores e capazes de intervir, se relacionar e transformar seus espaços de convivência, trabalho e sociedade. A pesquisa participante também está aliada à dialética, o que na visão de Demo (2008), condiz melhor com a visão complexa e não linear da realidade, em constante vir a ser. Segundo o autor (2008, p. 86): [...] Caracteriza-se profundamente a dialética a ideia de que toda formação social é suficientemente contraditória, para ser historicamente superável. [...] Privilegia-se o lado conflituoso e caótico da realidade, não como defeito, mas como propriedade natural histórica. Toda realidade histórica é marcada pela incompletude ambígua que a faz constante vir a ser e dinâmica irreversível. Uma sociedade marcada por contradições, pode-se dizer que é o que dá vida ao conceito da antítese que marca a convivência num todo de polos contrários. Para este mesmo autor a história é sucessão não linear de fases, e nesse sentido ‘a fase’ coloca dois movimentos típicos da antítese: 67 [...] persistência histórica relativa, sem a qual a fase não se institucionaliza e passagem da fase porque sempre provisória. Antítese não é formação histórica específica, mas as contradições ativas na formação. Se o movimento contrário se institucionalizar, já não é antítese, mas nova tese, dentro da qual vai germinar nova contradição (DEMO, 2008, p. 87). A pesquisa participante coloca os envolvidos nesse processo de construção histórica pela possibilidade de alterar a realidade, ou seja, construir uma nova realidade a partir daquilo que se coloca como objeto de estudo que é a vida escolar, o PPP, o cotidiano e, neste, observar a necessidade de alterar a política de como ordenar e construir um PPP alinhado para a educação integral doaluno, que represente política e pedagogicamente a escola, que concretize sua função social etc. Valer-se, então, dos caminhos dessa pesquisa permite reafirmar seu uso, uma vez que é considerada por Hall (1981 apud DEMO, 2018, p. 93) “como atividade integrada que combina investigação social, trabalho educacional e ação”. Foi, então, por meio da pesquisa participante que ocorreu a integração da pesquisadora no cotidiano escolar e que direcionou a produção de dados empíricos. Por ela, também foi possível compreender ao longo do processo que é na vivência, na participação, na observação que decorre a análise da realidade concreta e ‘contraditória’ da instituição escolar que, por sua vez integra a vida social totalizante. A pesquisa participante ganha efetividade contrapondo-se às visões empiristas e/ou positivistas, pois o que marca essas visões (dentre outras características) é o “distanciamento intencional com relação ao objeto”, e “o controle é unilateral e é vedado o acesso por parte do pesquisado” (DEMO, 2008, p. 51). Por outro lado, na visão deste autor, a pesquisa participante: [...] busca a identificação totalizante entre sujeito e objeto, de tal sorte a eliminar a característica de objeto. A população pesquisada é motivada a participar da pesquisa como agente ativo, produzindo conhecimento e intervindo na realidade própria. A pesquisa torna-se instrumento no sentido de possibilitar à comunidade assumir seu próprio destino. Ao pesquisador que vem de fora cabe identificar-se ideologicamente com a comunidade, assumindo a proposta política, a serviço da qual se põe a pesquisa (DEMO, 2008, p. 43). Algumas questões se despontam quando o autor propõe o entendimento da contraposição às visões empiristas e/ou positivistas por meio da pesquisa participante, e também quanto à participação não só do pesquisador como de sua população. Primeiro, a pesquisa participante vem com a proposta de transformar a ordem vigente, pois, na visão do autor, àquelas pesquisas no processo da objetividade, da neutralidade, da rigorosidade, traz como resultados a manutenção do sistema vigente, não atuando na transformação do meio em que tais investigações se desenvolvem, onde o pesquisador tem somente para si o controle de 68 todo o processo, por meio de sua ação unilateral. Igualmente, como já retratou Borba (1988), a produção de conhecimento pela ‘ciência dominante’ já se via orientada à preservação e fortalecimento do sistema vigente. Na outra ponta, pela via da pesquisa participante, a ação empreende-se em envolver seus participantes de uma forma ativa, criando caminhos para diagnosticar problemas e juntamente propor soluções, as ações são pensadas conjuntamente a fim de transformar aquilo que foi detectado como uma posposta de mudança da ordem vigente. Tal ordem, pela via das pesquisas clássicas, tendem a ser mantidas, uma vez que o acesso ao saber está, em tese, no domínio do pesquisador e deixa a população investigada fora do campo do poder que o saber pode proporcionar. Assim, “[...] monta-se a ideia de que a pesquisa é coisa de perito profissional; como tais peritos provêm da parte privilegiada da sociedade, as pesquisas tendem a servir a manutenção dos privilegiados e seus privilégios” (DEMO, 2008, p. 53). Nessa linha, fica fora de plano a participação dos pesquisados, pois seus saberes não correspondem aos saberes do pesquisador, pois este é quem teria o conhecimento pautado na ideologia dominante, não se preocupando com o conhecimento, tão pouco, com a promoção do saber de outras pessoas (DEMO, 2008). Na visão de Brandão (1988, p. 10), pautada na crítica sobre o saber científico, ou melhor, da ciência em favor de causas populares, para as quais a ciência deveria agir em favor da reconquista do sujeito da pesquisa, de seu espaço de saber e da produção de conhecimento, alertou que “ [...] A expressão aparentemente neutra que existe na ideia de “objeto de pesquisa”, muitas vezes subordina a ideia e a intenção de que aqueles cujas “vida” e “realidade” afinal se “conhece”, sejam reconhecidos para serem objetos também da História” (Grifos do autor). A pesquisa participante tem seu encaminhamento que é fazer do pesquisado (o objeto) sujeito no processo, e não sujeito ‘objeto determinado’ da história. Para o autor “[...] pesquisadores-e- pesquisados são sujeitos de um mesmo trabalho comum, ainda que com situações e tarefas diferentes [...]” (BRANDÃO, 1988, p. 11). Novamente, concernente ao que nos coloca Demo (2008), a pesquisa participante se desenvolve numa realidade não linear, incompleta, ambígua e contraditória, sua perspectiva dialética nos coloca num movimento a não institucionalizar uma ordem vigente, ou seja, tal movimento decorre das inúmeras contradições e evolução social pela qual formulam-se novas contradições, justamente onde o indivíduo não se deve aceitar objeto da história, tão pouco dela não participar, pois nesse tipo de pesquisa os sujeitos são tanto os pesquisadores como os pesquisados. Gajardo (1999) contribui para que também situemos a pesquisa participante, revelando pontos de uma realidade pela qual é preciso pensar os modos de sociedade que não devem estar fadados à ordem vigente, por isso é necessário nos localizarmos como indivíduos capazes de 69 observar, conhecer e ter condições de mudar a ordem das situações, classificadas como autoritárias e excludentes. Ela diz que: A pesquisa participante surge, conceitual e metodologicamente, no início da década de oitenta, quando a realidade de um número importante da sociedade latino- americanas se caracteriza pela presença de regimes autoritários e modelos de desenvolvimento manifestamente excludentes, no aspecto político, e concentradores no aspecto econômico. As tendências modernizadoras e participativas próprias dos estilos modernizantes e integradoras dos anos sessenta, que defendiam a incorporação de amplos setores da população à vida social e política, cederam lugar às exigências impostas por uma reestruturação autoritária que, reduzindo às margens da heterogeneidade, substituíram as fronteiras difusas do populismo por classe de perfil mais definido (GAJARDO, 1999, p. 39-40). Seguiram, então, desenvolvendo alternativas de trabalho com os setores populares, buscando elaborar estratégias que os incorporassem aos setores de produção e comunicação de conhecimentos. Para a autora, surge a tendência da “investigação participativa ou pesquisa participante” (GAJARDO, 1999, p. 40), que sintetiza as propostas anteriormente resenhadas que incorporavam a experiência acumulada nas décadas passadas na América Latina, onde elas foram capazes de se adequarem às particularidades e conjunturas das sociedades, fazendo emergir estratégias e denominações para práticas investigativas que partiam da realidade concreta e que buscavam se defender do “[...] estabelecimento de relações horizontais e antiautoritárias” (1999, p. 40). Buscamos, nas precedentes linhas, situar a pesquisa participante em seu contexto como uma proposta que valoriza a integração/relação entre pesquisador e pesquisado (os), e que visa a necessidade de analisar a realidade concreta numa perspectiva de mudança e não de manutenção de uma ordem autoritária e direcionadora dos rumos da sociedade. Assim, busca- se uma abertura para a democratização, pela cultura coletiva, por aprendizagens que resultem em favorecimento aos benefícios coletivos nas diferentes práticas sociais. Porém, diante das leituras sobre tal pesquisa, algumas questões ainda são passíveis de reflexão para ampliar o conhecimento a seu respeito, e que soam como cuidados para que ela não seja mal compreendida, por isso é preciso tratar de alguns aspectos relevantes sobre a pesquisa participante, tais como a teoria e a prática, a dialética e a antítese como significantes de transformação por meio desse tipo de pesquisa.Optamos por seguir neste processo apresentando situações que foram levantadas por Demo (1995, 2008), uma vez que ele trata de especificidades que contribuem com este trabalho. Certamente, ampliam os conceitos em torno da pesquisa participante que, conjugados aos 70 trabalhos de Brandão (1988, 1999), de Fals Borba (1988), Gajardo (1988) etc., nos colocou mais próximos da compreensão dos caminhos sobre a realidade da ETI. Nessa trajetória teórica, Demo (2008) nos permitiu pensar acerca de elementos metodológicos da Pesquisa Participante, questionando até que ponto ela é mais participação do que pesquisa e até que ponto a participação pode abordar a realidade de forma científica. Deve- se haver cautela neste pensamento, uma vez que não podemos considerar uma única forma válida de pesquisa, até mesmo posturas meramente ativistas que banalizam a ideia do que é pesquisa, como, também, o que pode ser considerado participação. Segundo ele: [...] PP tem tudo para ser a próxima farsa. Em vez de superar a decepção histórica referente à utilidade prática das ciências sociais para os marginalizados, pode refinar controles sociais vigentes e, num pacote bonito esconder “presente de grego”. (DEMO, 2008, p. 75). Para o autor a farsa não está nas instituições oficiais ou governamentais de manutenção da ordem vigente, mas está, por exemplo, naqueles pesquisadores que se dizem de esquerda, mas não problematizam sua identidade com os oprimidos, ou naqueles outros, por vezes mal formados, que alimentam sua esperança de serem reconhecidos, que levantam a fumaça, mas, na verdade, não possuem fogo. Outros ainda, que manipulam a ideia de que as estruturas de poder precisam ser superadas, tendo em vista a presença grande de marginalizados e, “[...] não refletem sobre a questão vital de que nenhuma sociedade sobrevive e se organiza sem estruturas de poder. A participação não elimina o poder, mas busca alternativa de controle democrático” (DEMO, 2008, p. 76). Ainda, para ele, há banalizações tanto em relação à pesquisa quanto à participação, porém contornáveis. Assim, vê-se pelas ideias do autor que não há nem pesquisa, nem participação se não houver rigor nesses dois encaminhamentos, além do compromisso com a realidade onde ela se desenvolve, de fazê-la mais consciente de suas inúmeras contradições e de se tornar mais coerente e justa a todos. Outra discussão importante relacionada às questões metodológicas da pesquisa participante é a questão que envolve a teoria e a prática. Para Demo (1995, 2008), no âmbito das ciências sociais, uma teoria que não se liga à prática não chega sequer a ser uma teoria, e, nesse sentido, muitos diriam que a prática é o critério da verdade teórica. Mas, [...] não se pode dizer que a prática seja o critério da verdade, pura e simplesmente. É “um” critério da verdade, pois o mero fato de uma teoria chegar à prática, não a faz necessariamente verdadeira. Porquanto, de uma mesma teoria podemos deduzir inúmeras práticas opcionais, inclusive contraditórias (DEMO, 2008, p. 76). 71 Nesse contexto, a pesquisa participante está comprometida com a construção/elaboração teórica que se integra a uma determinada comunidade ou, a uma escola, como é caso desta pesquisa, visando gerar um benefício prático a esta comunidade. Os encaminhamentos teóricos construídos precisam fazer sentido ao ponto de que a teoria fundamente as práticas realizadas, que visem mudanças (as menos contraditórias possíveis), ampliem a consciência da realidade, a participação nas decisões e na organização coletiva para buscar objetivos e fins definidos também em conjunto. Com o objetivo de fazer seu leitor estabelecer uma relação coerente entre teoria, prática e verdade, Demo (2008) faz pertinentes apontamentos para nos aproximar dos conhecimentos da pesquisa participante e direciona sobre as verdades que se quer alcançar com as investigações. Para o autor, não há verdades absolutas, são sempre relativas, mas, mesmo assim, dentro na ciência, o conceito de verdade absoluta não perde o seu sentido, ela: Faz parte integrante do processo científico como utopia negativa, irrealizável e como tal parte da realidade, sem o qual nos satisfaríamos com os produtos cada vez mais relativos. Para não recairmos no simplismo de que determinada versão científica se erija em parâmetro final, é mister voltar à teoria, que, em sua pretensão absoluta, encontra sempre suficientes incompletudes históricas, para a declarar superável. É precisamente este o papel da utopia: não é historicamente realizável, mas faz parte da história (DEMO, 2008, p. 80). De uma mesma teoria não se deriva uma verdade única, a não ser sob peso do dogmatismo ou fundamentalismo que se impõe, sem limitações. O autor coloca que, de uma mesma bíblia produz-se inúmeras versões religiosas o que da mesma forma, de uma mesma teoria, podem surgir várias práticas, muitas verdades (relativas) (DEMO, 2008), por isso é preciso sempre rever as ‘verdades’ que queiramos que os outros apoiem, acreditem ou sigam. Com base ainda nesse autor, a prática também tem seu traço concreto. A teoria está marcada por seus conceitos generalizantes e a prática se faz pela concretização dessa teoria. A teoria é abstração, é universalizante, como todo conceito em sentido lógico, “[...] e que, por isso mesmo, diz respeito a todos os casos concretos cobertos por ele, mas não é em particular nenhum deles” (DEMO, 2008, p. 77). Como exemplo citado, o da democracia, ela é aplicada a todos os casos concretos históricos, pelos quais a teoria possa se ajustar, mas cada democracia (americana, europeia, brasileira, japonesa) exerce a sua democracia, pois nenhuma delas é capaz de esgotar a potencialidade de seu conceito mais amplo (DEMO, 2008). Outro apontamento ainda se faz pertinente, que diz respeito ao caráter limitante da prática em relação à teoria. Para Demo (2008), toda prática não ultrapassa a condição histórica de sua versão, no senso comum, ouvimos sempre dizer que a teoria é uma coisa e a prática é outra. Sobre isso ele se posiciona: “Uma coisa é a realidade teoricamente estruturada e 72 sistematizada, outra é a realidade como se dá efetivamente no mundo real. Toda prática, ao mesmo tempo em que realiza a teoria, contém elementos utópicos, quer dizer irrealizáveis historicamente” (DEMO, 2008, p. 78). A partir do mesmo exemplo da democracia, ela se configura como o governo do povo, pelo povo e para o povo, mas se faz apenas como uma afirmação teórica, haja vista que na prática, não é diretamente o povo quem governa e sim seus representantes, o que para Demo (2008) introduz na sociedade muitas limitações conhecidas do processo democrático. Nessa mesma linha, outro exemplo refere-se ao socialismo, sua prática não se efetiva como desejado na teoria, o que limita em muito a sua versão, embora seja uma ideia viva na prática não se concretiza como se deseja. A prática como condição da historicidade da teoria é outro aspecto trazido pelo autor. A prática é realização histórica concreta, ainda que esta mesma prática possa desfigurar e limitar a teoria, dando novos rumos à história. Sabe-se não haver história sem limitações, traições ou deturpações e é na prática que a história concreta se realiza (DEMO, 2008). A história se processa dinâmica e as ações práticas vão dando forma à estrutura social, estamos presentes no mundo mediante muitas forças sociais, culturais, históricas etc., e nele precisamos nos posicionar o mais consciente possível. Há, portanto, “[...] a dialética do relacionamento entre teoria e prática” (DEMO, 2008, p. 79), ambas estão ligadas, necessitam-se, mas também se repelem na unidade dos contrários, pois cada qual tem sua força própria. Não há dúvidas da relação que se estabelece entre a teoria e a prática, porém ambas devem estar em constante reflexão crítica por aqueles queas validam. Para o autor, a ciência, com seu caráter universalizante, somente pode ser imaginada inteira e acabada em teoria. Por outro lado, a prática é produto histórico e se concretiza como relativa, processual, infindável, discutível. A história tem sua marca que é a sua incompletude, uma vez que é dinâmica, produtiva, sempre nova, porque contraditória. Perfaz-se pela prática que deve ser assumida com compromisso por um agir e pensar utópico, mesmo que inalcançável, se faz um pensamento impulsionador da história. Contudo, “[...] A prática, por estar exposta a todas as fragilidades históricas, não deixa de ser importante, assim como a teoria, por ser construção abstrata, não é inutilidade vazia” (DEMO, 2008, p. 81). A construção teórica do autor acerca da teoria e prática revela a grandeza do compromisso pelo qual devemos nos assumir como indivíduos no universo da pesquisa, nada é absoluto, no que diz respeito à história, nada está planificado em um manual. Fazemos parte do processo de desenvolvimento histórico, elaboramos teoria e devemos permitir que ela se valide na prática, que ela se efetive. Nesse processo, devemos caminhar com consciência, com nossas marcas ideológicas (cada um fez sua escolha) e com isso precisamos seguir a não nos 73 escamotearmos nas próprias teorias, sem as devidas reflexões e, também, sem enganar-nos nas próprias práticas. Por isso, é importante sempre voltar à teoria no sentido de nela retroalimentar- se, ou então, reordená-la, rever a ideologia posta, na maioria das vezes como única e verdadeira para, então, reconduzir as práticas, porque infindáveis. Demo (2008, p. 82-83), diz que: Quem não volta à teoria, deixa de ser crítico e autocrítico, submergindo no ativismo fechado e obtuso, e passa a condenar a tudo o que não esteja de acordo com a teoria ou com a prática [...] prática, é elemento metodológico integrante do processo científico, tanto no sentido de servir de constante teste parcial para a validade da teoria, quanto no sentido de assumir que a própria pesquisa é intervenção na realidade. Não podemos nos furtar deste elemento metodológico do processo científico, mesmo porque a prática coloca questionamentos à teoria, quando se assume posicionamentos, sua prática leva-os a serem validados, senão em sua plenitude, em versões mais próximas às necessidades colocadas pela realidade concreta. A teoria sempre será uma referência para a prática, esta que sempre será caminho para a revisão teórica. Demo (2008) nos posiciona que em ciências sociais a dialética entre prática e teoria é fundamental para a pesquisa em si, como a participação na realidade pesquisada, porque elas se necessitam e se repelem, na unidade de contrários, para que possam produzir seus efeitos. Para este autor, não seria possível a pesquisa participante fora da dialética, uma vez que ela favorece uma visão mais profunda e não linear da realidade que está em constante vir a ser. Isso faz com que assumamos uma postura muito responsável a conhecer os caminhos que conduzem esse modelo de escola e perceber qual realidade se perfaz no seu cotidiano escolar, além disso como o seu PPP se encontra materializado. Na linha que nos leva à compreensão desse tipo de pesquisa, a participante, em seu texto, Demo (2008) ressalta a respeito da dialética, chamando a atenção de que não é somente a versão marxista da dialética a única aceitável, muito embora seja a versão mais frequente. Pela mesma linha de pensamento, não é possível pensar que tudo o que não for dialético seria simplesmente positivista, ele destaca que a dialética marxista não é unitária, assim como, também há positivismos “relativamente arejados” (DEMO, 2008, p. 85).15 Desta forma, se pensarmos que a realidade se faz sempre inacabada, também não há forma única de percebê-la, tão pouco de transformá-la. Entendemos, com isso, que a dialética não se configura como uma metodologia 15 Pedro Demo, lança mão dos autores seguintes pela afirmação de seus pensamentos – Lefebvre, 1975; Sartre, 1972; Harnecker, 1972; Cheptulin, 1982; Dal Pra, 1971; Foulquié, 1978; Godelier/Seve,1976; Haguette, 1990; Kopnin, 1978; Badiou/Althusser, 1972) 74 unitária para todas as realidades, ainda que se admita pensar que ela se faz metodologia própria das ciências sociais, mas, ainda assim, não é exclusiva. Para Demo (1995, p. 113-114), a dialética: [...] serve para captar fenômenos históricos caracterizados pelo constante devir, não para capturar fenômenos naturais que são dados. Caracteriza-se profundamente a dialética a idéia de que toda formação social é suficientemente contraditória para ser historicamente superável. Embora nem todas aceitem isto, serve como ponto de partida. Privilegia-se na realidade seu lado conflituoso, não como defeito, mas como característica histórica natural. No fundo, entende-se o histórico como conflituoso. A superação histórica é um fenômeno natural, porque predominam conflitos, não somente conflitos de menor porte, mas igualmente conflitos que não conseguimos resolver e que decretam o término de um sistema dado. Tais contradições não são extrínsecas, embora possa haver; são intrínsecas, no sentido de que fazem parte constituinte da realidade. Vivemos uma sucessão de fases históricas, um processo pelo qual o passado coloca suas marcas no presente e um presente que se compreende também pelas marcas do passado. Por seu inacabamento, a história não é precisa, tão pouco objetiva. A história é contraditória. “Uma história não contraditória coincidiria com uma história parada, tranquila, onde já nada acontece. Ou seja, não é um fenômeno histórico” (DEMO, 1995, p. 114). Por conta dessa dinâmica, a pesquisa participante corresponde à pesquisa buscando integrar a realidade concreta, que se desenvolve mediante fatos e acontecimentos sociais e históricos, mas que visa estar assegurada pelo desenvolvimento teórico-prático que, com espírito crítico, devem sempre ser avaliados, no sentido de que a história se faz condicionada no desenvolvimento da realidade social, em não havendo a prática, a teoria deixa de tornar-se histórica. Daí a dialética entre a teoria e a prática para Demo (2008, p. 104): A PP realiza as marcas típicas da dialética entre a teoria e prática: traduz a teoria em opções concretas, não somente confrontando-as com a realidade concreta, mas sobretudo realizando e explicitando a opção política e ideológica. Constrói contexto adequado em termos de relacionamento dialético entre teoria e prática, porque não precisa afogar a teoria. É muito possível manter a propriedade de cada polo e estabelecer entre eles a contrariedade dialética típica criativa. Ao mesmo tempo produz o efeito substancial de “acontecer na história”. O conhecimento torna-se útil, histórico, realizado, se for prático. Nesse sentido, coloca-se também em conhecimento o conceito de antítese. Para Demo (1995, p. 114) “A pedra de toque da dialética é o conceito de antítese. Do seu entendimento surgem as mais variadas versões dialéticas, inclusive contraditórias”. Para a dialética, a antítese será a sua validação, assim, na existência pessoal e no desenvolvimento social e histórico, estamos sempre envoltos às contradições pelas quais vivendo, podemos conhecê-las, refutá-las 75 ou modificá-las, pois são capazes de alterar o modo das coisas, situações ou processos. Demo (1995, p. 114) nos posiciona que: De modo geral, antítese significa a vigência de contradições dentro de determinada formação social, ou seja, a convivência num só todo de polos contrários, o que resulta na identidade de contrários. Se a antítese for radical, leva à superação do sistema, porque reflete um conflito que o sistema já não consegue absorver ou resolver. Se a antítese não for radical, determina a manutenção do sistema, aindaque introduz modificações internas. Para o autor, as mudanças pelas quais a sociedade perpassa, essa realidade histórica que se faz por uma sucessão não linear de fases, só é superada caso antíteses radicais sejam validadas, o que poderá levar a mudança do sistema vigente. Na outra ponta, as antíteses não radicais podem induzir apenas mudanças dentro do sistema, ou apenas uma relativa manutenção da situação dada em determinada realidade. Demo (1995, p. 114-115) coloca que “O conceito de fase introduz os dois movimentos típicos da antítese: existe a persistência histórica relativa, sem a qual a fase não se institucionaliza; mas não passa de fase, ou seja, é provisória, porque na história tudo nasce, cresce, vive e morre”. Cabe nos atentarmos que a dialética propõe a mudança ou a superação do sistema, porém no processo de mudança histórica, ou seja, numa alteração radical do sistema, a lógica da dialética não permite que tudo desapareça. A mudança ou a alteração proposta no cerne de uma transição histórica, mesmo que radical, muito dessa própria história se repete ou mantém algumas condições (ou estruturas16) e a dialética, como sempre, se fará presente, pois vivemos conforme já dito, “[...] num só todo de polos contrários” (DEMO, 1995, p. 114). Nesse sentido, resta dizer que a história é condicionada, só é capaz de sofrer mudanças porque envolta a fatos, situações, ideologias, antecedentes etc., o que faz que haja certa previsibilidade nos rumos que ela irá seguir, ou seja, estão presentes certas regularidades do acontecer. Para o autor não há somente transição histórica, mas há também institucionalização histórica, Uma revolução que se institucionaliza, ao mesmo tempo se realiza e envelhece. O conceito de antítese prevê as duas modalidades: o movimento radical que leva à transição histórica e o movimento não-antagônico que produz a permanência histórica (DEMO, 1995, p. 121). 16 Demo (2008) coloca que a história gira em torno de um bloco maior de estruturas, diferente da dialética marxista mais ortodoxa que reconhece a estrutura e considera a infraestrutura (econômica) como algo permanente na história. Para o autor, podemos imaginar que na sociedade há outras “estruturas” influenciadoras, que não somente a colocada pela dialética marxista ortodoxa, que são “[...] os horizontes de poder, mundo simbólico, relações afetivas, contextos culturais, além do econômico [...]”, assim como, “[...] não tomamos mais a estrutura como algo inamovível” (DEMO, 2008, p. 91), nunca estática, pois não viria a condizer com a história. 76 Então, nessa linha, a pesquisa participante pode não só produzir efeitos transformadores, mas também os reformistas, conservadores ou até mesmo reacionários, dependendo da ideologia política que se assume (DEMO, 1995). Porém, a despeito do poder transformador, o autor menciona que não se pode abusar deste conceito, porque se tomado ao pé da letra, supõe a existência de uma antítese muito radical, que traz consequências igualmente radicais, pelas quais não teríamos como enfrentar seus desafios, ou até mesmo tornando-se uma radicalidade impraticável (DEMO, 2008). Em contexto de participação na realidade concreta, é muito provável que as estruturas estabelecidas não se modifiquem, a depender das abordagens teórico- metodológicas e objetivos estabelecidos que não condizem com a realidade estudada, tão pouco se não envolverem aqueles que estão como ‘objetos’ do processo investigativo. O poder transformador está pautado nas contradições existentes no ambiente pesquisado e na forma como o ‘sujeito’ se posiciona nele. Não podemos nos esquecer que, por esta via de pesquisa (a participante), abre-se uma via de mão dupla, pela qual entre ‘sujeito e objeto’ se estabelece uma relação dialética que pode ser favorecedora à construção ou transformação histórica, ou à mudança da realidade concreta para que seja mais benéfica à coletividade participante. Nesse constructo teórico, é preciso, ainda, fazer a distinção entre a pesquisa participante e a pesquisa-ação para poder ressaltar as especificidades metodológicas da pesquisa participante. A literatura (THIOLLENT, 1999; DEMO, 1995, 2008) aponta para a necessidade de fazermos uma distinção entre esses dois tipos de pesquisa. Com isso, seguimos no caminho a compreender melhor sobre elas, de modo que os objetivos deste trabalho sigam alcançados. Há diferenças nesses dois tipos de pesquisas que influenciam nos contextos pesquisados e nos resultados das ações provenientes de cada seguimento. Na apropriação do conhecimento sobre a pesquisa participante é nítido que é preciso levar o conhecimento teórico e prático e a relação sujeito/objeto a uma análise que, de fato, se posicione a favor (tanto nas ciências sociais, pela qual a pesquisa participante ocupa seu maior espaço, como na ciência educacional) de uma postura que conduza o pesquisador a conhecer de maneira mais ampla as suas estratégias metodológicas, de modo a não cometer equívocos com a população que ela vai abranger. É preciso que na relação com o outro ‘objeto’ (do conhecer, do aproximar-se, do opor-se) não tenhamos a intenção de subordiná-lo às convicções do pesquisador, de não subjugá-lo no exercício da prática investigativa, de não impor ideologias (não que elas não compareçam). É preciso conhecer a vivência local, objetivos e caminhos traçados e desenvolvidos, os impasses, as determinações a serem cumpridas no cotidiano. Requer, então, do pesquisador uma postura participativa, pela qual interage com a comunidade investigada visando um conhecimento o mais próximo do real possível, além de conhecer as 77 interfaces das vivências estabelecidas, dos modos de condução das ações, das pessoas etc. Brandão (1999, p. 12) acerca de uma pesquisa social diz que: “[...] o primeiro fio de lógica do pesquisador deve ser não o seu, o de sua ciência, mas o da própria cultura que investiga, tal como a expressam os próprios sujeitos que a vivem [...]” o que requer uma apreensão pessoal e demorada da realidade investigada. Porém, o mesmo autor, ainda no seio das ciências sociais, revela um posicionamento de Marx, enfatizando sobre essa questão que, não é necessário que o pesquisador se faça operário ou se torne um dos pesquisados para conhecer o contexto onde está atuando. Poderíamos dizer que ele não deve perder sua identidade de pesquisador, haja vista, que poderá desviar de suas finalidades e dos rigores que a pesquisa exige do cientista. Brandão (1999, p. 12) diz que: É necessário que o cientista e sua ciência sejam, primeiro, um momento de compromisso e participação com o trabalho histórico e os projetos de luta do outro, a quem, mais do que conhecer para explicar, a pesquisa pretende conhecer para servir. A partir daí, uma nova coerência de trabalho científico se instala e permite que, a serviço do método que constitui diferentes técnicas sejam viáveis: o relato de outros observadores, mesmo quando não cientistas, a leitura de documentos, a aplicação de questionários (Marx mesmo fez um, mas às avessas) a observação da vida e do trabalho. Estava inventada a participação da pesquisa. Tomamos como lições tais ensinamentos no sentido de que eles trazem luz à nossa consciência para melhor observar e conviver no lócus pesquisado. Assim, percebemos que o envolvimento do pesquisador como o ‘outro pesquisado’ implica em fazer-se presente no contexto deste outro, participar da vida, do ambiente, da cultura local, o que requer compromisso alargado para tal vivência, no sentido, também, de não perder seus objetivos científicos, tão pouco querer alterar realidades apenas por seus modos de pensar e agir. Com efeito, Demo (2008, p. 108) também revela que a comunidade investigada pela pesquisa participante precisa ‘saber pensar e intervir juntos’ e, por isso,então, ela deve ser participação. Porém, o autor salienta que o termo participação deve ser um termo analisado com coerência pela literatura, até porque tem sido tomado como um termo vago de ação, tendo sido o caminho que colocou a noção de pesquisa-ação em uso. Segundo ele, esse tipo de pesquisa requer uma clara intervenção e o conhecimento produzido está a serviço do projeto de intervenção, mas não implica em processo participativo propriamente dito, ou que o pesquisador assuma o destino da comunidade investigada. Já, no cerne da pesquisa participante Demo (2008, p. 109) posiciona: [...] já a PP, como o nome garante, exige, ao lado da produção do conhecimento, o fenômeno da participação comunitária. [...] o cultivo da cidadania coletiva é condição 78 indispensável do projeto de mudança, uma das razões mais fortes da virtude educativa da pesquisa participante. O conhecimento, nesse caso, é construído pela participação junto com os investigados. O autor diz que é a participação baseada na pesquisa, que encontra, por exemplo em Paulo Freire, o entendimento de que, numa perspectiva libertadora, a pesquisa é um ato de conhecimento que tem como sujeitos cognoscentes, de um lado os próprios pesquisadores e de outro os grupos populares que ao serem ‘objetos’ são desvelados em sua realidade concreta, mas, ao mesmo tempo, se concebem dentro da investigação no sentido de conhecerem sua própria realidade, produzirem e integrarem (novos) saberes, ultrapassando um conhecimento anterior, superando seus aspectos mais ingênuos no caminho da produção do conhecimento, o que contribui para a continuidade das inúmeras situações de vida e permanência da comunidade pesquisada. Assim, observamos que a pesquisa participante está tanto para o pesquisador como para o pesquisado, no sentido de que a relação se estabelece para que o conhecimento seja produtivo para os dois lados da relação. O conhecimento gerado deve dar condições aos pesquisados de compreenderem a sua realidade, nela intervir, de modo a construir sua história, posicionarem- se em seu contexto, porque o conhecem com maior profundidade. Michel Thiollent (1999) expõe que há distinção entre pesquisa participante e pesquisa- ação, mas que, muitas vezes, são consideradas expressões sinônimas e, na verdade, a literatura aponta que não o são “[...] na literatura disponível, podemos considerar que existem diversos tipos de PP e diversos tipos de PA. Uma clara distinção é necessária. A PA é uma forma de PP, mas nem todas as PP são PA [...]” (THIOLLENT, 1999, p. 82-83). Ele esclarece que os pesquisadores da pesquisa participante não concentram suas preocupações em torno de que a investigação e a ação devam comparecer juntas na situação pesquisada. Já a pesquisa-ação está focada na questão do agir. Compreendemos que ao gerar conhecimento, terá validade a pesquisa se junto com o conhecimento advier necessariamente uma ação que recaia sobre o meio pesquisado. O autor menciona que “[...] a PA supõe uma participação dos interessados na própria pesquisa organizada em torno de uma determinada ação. Que tipo de ação? Em geral, trata-se de uma ação planejada, de uma intervenção dentro de uma ação planejada [...]” (THIOLLENT, 1999, p. 83). Esse critério, dentro das questões metodológicas, é o que oferece maior validade à pesquisa-ação, colocando os pesquisados em um processo de ação grupal, animados por objetivos consensualmente definidos. Já a pesquisa participante para Thiollent (1999), encontra-se mais concentrada no campo do pesquisador do que dos pesquisados, pois implica 79 que àquele tenha uma adequada participação dentro do campo escolhido para a investigação, de modo que consiga que compartilhem ações, modos, hábitos e papeis. Para o campo da antropologia/ciências sociais, o pesquisador não só participa como observa para conhecer e reduzir o impacto ou estranhezas que uma pesquisa ou um pesquisador pode causar quando busca construir o seu conhecimento em torno do trabalho desenvolvido. Tais pesquisadores, então, tendem a observar fatos, situações ou comportamentos decorrentes dessa presença participativa com seus pesquisados, que também são capazes de produzirem conhecimento útil e válido para a investigação em curso. Na educação, também é possível trilhar esse caminho entre o pesquisador e seus pesquisados no contexto escolhido a investigar, haja vista que espera- se produzir conhecimentos que possibilitem diferentes análises e reflexões que favoreçam olhar para as necessidades das ETI, além de buscar empreender ações de melhorias em diferentes aspectos, sejam formativos, operacionais, de infraestrutura etc. Acerca da pesquisa participante, Demo (2008, p. 115) diz que: Ambos os aspectos, o investigativo e o participativo, são essenciais. “O aspecto ‘investigativo’ da PP, colabora na aplicação do método a uma realidade específica; o componente ‘participativo’ contribui para realizar este começo a partir do ponto de vista do povo ou do estágio de desenvolvimento, tanto quanto possível” (Grifos do autor). Considerar a realidade estudada em suas nuances, em seus desafios, em sua complexidade, a forma como as pessoas estão inseridas neste local com suas vivências, faz parte do procedimento investigativo. É preciso participar para conhecer o que se pesquisa, visando integrar o conhecimento na relação que se estabelece entre ‘sujeito pesquisador’ e ‘sujeito pesquisado’. Porém, é prudente não banalizar tal processo participativo, ou seja, uma participação revestida de manipulação pode acontecer. Sob o manto de um discurso participativo, pode-se expressar nada mais, nada menos que uma imposição ou manipulação pela qual os sujeitos estão sendo iludidos, por ideias que não os permitem conceber a realidade de uma forma mais clara e, tão pouco, um conhecimento que de fato possibilite caminhos da mudança, sejam elas de maior ou menor potencial transformador. Fica no campo do pesquisador apenas conseguir seus objetivos e conduzir para que seus resultados sejam obtidos, prevalecendo em maior medida as suas convicções em relação às do grupo como um todo. Cabe aqui o ensinamento de Thiollent (1999, p. 89): A nosso ver, um dos riscos que apresenta a noção de PP consiste no fato de referir-se à noção de “participação” sempre bastante ideologizada. Desde os anos 60, em vários países, as ideologias da participação se espalham nos discurso do poder como forte 80 argumento de manipulação e de escamoteamento das relações sociais e especialmente das relações de poder. É preciso compreender que a noção de participação está sempre sujeita a interpretações equivocadas, além de trazer à tona aspectos manipulativos que recaem sobre a população pesquisada, sugerindo que o contexto participativo seja bem esclarecido a evitar conflitos nos resultados. Nesse pano de fundo, Demo (2008) diz que o termo participação nem sempre é questionado adequadamente e nos coloca desafios, pois além de uma participação manipulada, pode ser que a participação da comunidade e a mudança desejada sejam algo muito difícil ou longínquo de acontecer, o amadurecimento político pode ser um tanto quanto demorado que, às vezes, nem se espera. O autor ressalta: Por isso, muitas vezes a PP reduz-se a ações coletivas com alguma base de conhecimento. Tendo em vista a dificuldade de atingir níveis mais elevados de participação, entrou em cena o termo “pesquisa-ação”, porque resigna-se mais facilmente a apenas propor algumas ações com algum conhecimento de causa (DEMO, 2008, p. 101). Parece-nos que a pesquisa-ação se torna até mais fácil de assumir, no sentido de que se as ações forem propostas e cumpridas e os métodos seguidos, o pesquisador já teria alcançado seus objetivos. Ao passo que a participação requer do pesquisador um envolvimento no contexto pesquisado que o integre a compreendero meio, na sua maior complexidade possível e conjuntamente produzir conhecimentos válidos para mudanças, o que requer uma participação um tanto quanto demorada por parte do pesquisador. Por isso, a teoria do cotidiano, descrita mais adiante, nos alimentou nesse processo. É preciso ficar claro também que a pesquisa ação não se limita a ser uma forma de pesquisa ligada a qualquer forma de ação, pois poderia tornar-se uma proposta indeterminada ou até mesmo inútil. Seus objetivos ligam-se a um projeto de ação social ou na resolução de problemas coletivos. Precisa, em termos pelo menos relativos do movimento, da organização social, cultural, educacional, sindical ou política pela qual se vê concentrada (THIOLLENT, 1999). Nessa compreensão sobre a pesquisa ação devemos destacar que cada possibilidade apontada, tanto sobressaem aspectos positivos como os negativos na pesquisa. Como destaque positivo, são que as tecnologias e metodologias alternativas, visam maior “[...] autonomia ou independência para com as tecnologias impostas pelo “sistema dominante”. Reduz, assim, a “importação de técnicas e aparelhagens custosas e as correspondentes concepções 81 tecnoburocráticas” (THIOLLENT, 1999, p. 85-86). Já por outro lado, numa pesquisa ação de psicologias das organizações e a chamada sociotécnica, propõem pesquisas empenhadas no “Desenvolvimento organizacional” e na melhoria da organização do trabalho. Os objetivos dessas práticas são bastante limitados em função dos interesses empresariais à modernização, eficientização e humanização do trabalho e das organizações” (THIOLLENT, 1999, p. 85). Por isso, a escolha pela pesquisa participante se consolidou, ela busca um caminho de aproximação entre o ‘pesquisador e pesquisado’, ultrapassando aspectos que impedem que tanto o conhecimento, como os interesses de um e de outro sejam partilhados, pois é esse tipo de pesquisa que oferece um caminho mais promissor para a construção de um conhecimento que se consolida pelo compartilhamento de ações, perspectivas, hábitos, papeis etc., que os participantes da pesquisa, no seu cotidiano, colocaram em evidência. 4.3 OS INSTRUMENTOS DA PESQUISA É oportuno apresentar brevemente os participantes da pesquisa que totalizaram nove profissionais, sendo: dois membros da equipe de gestão escolar (diretora e coordenadora pedagógica) e sete professor (es) de Ensino Básico I (PEB I)17. Após a aprovação do projeto pelo CEP, foi realizado o convite aos profissionais e prontamente se dispuseram a participar. Os instrumentos para a coleta de dados foram o questionário para os professores e a entrevista para a gestão escolar como mecanismos para a produção de dados a fim de atingir os objetivos da pesquisa. O questionário é um instrumento desenvolvido em bases científicas, composto por um conjunto de perguntas ordenadas de acordo com critérios predeterminados e é respondido sem a presença do entrevistador (MARCONI; LAKATOS, 1999). Foi elaborado a partir de perguntas abertas e fechadas no sentido que, em determinados momentos, foram consideradas as razões dos respondentes sobre suas ações e percepções da escola e noutros foram consideradas as questões ligadas à especificidade do contexto escolar e os questionamentos foram todos estruturados conforme a problemática da pesquisa e de seus objetivos. Marconi e Lakatos apontam para as vantagens ao utilizar esse instrumento, pois ele permite alcançar um número maior de pessoas, a padronização das questões possibilita uma interpretação mais uniforme dos dados coletados, facilita a compilação das respostas obtidas, seus respondentes não precisam se identificar, tão pouco, o pesquisador precisa estar no mesmo ambiente de aplicação. Por outro lado, pode ser que o retorno dos questionários fique aquém ao esperado, 17 O perfil acadêmico e profissional desses participantes encontra-se detalhado na seção sete, página 210 e seguintes. 82 que os respondentes deixem questões sem respostas por não compreendê-las ou, então, pode ocorrer a devolução tardia do instrumento prejudicando o cronograma do pesquisador. O questionário foi escolhido pela facilidade de propor o instrumento aos professores da ETI e por ser de maior conhecimento das pessoas, com ele, a pesquisadora buscou garantir as temáticas da pesquisa, bem como suas respostas em torno do reconhecimento da ETI, das percepções que os professores têm sobre a jornada ampliada e do trabalho realizado com o aluno nessa jornada acerca de sua educação integral, como consideram o PPP em seu dia a dia e como participaram de sua construção, como conceberam a BNCC na escola, que caminhos formativos ocorreram. Para a equipe de gestão escolar foi proposta a entrevista que, num primeiro momento, objetivou estabelecer uma aproximação maior da pesquisadora com os seus entrevistados, além disso, possibilitar, a partir da visão mais ampliada da gestão (todo escolar), dialogar abertamente sobre quais concepções e ações direcionam seus trabalhos dentro da escola. Foi conduzida pelo uso de perguntas semiestruturadas, que parte de questionamentos básicos, ancorados em teorias e hipóteses que interessam à pesquisa, mas que, no decorrer de sua aplicação, podem dar abertura para novas hipóteses conforme os encaminhamentos feitos pelo entrevistador acerca das respostas oferecidas pelo informante (TRIVIÑOS, 1987). Assim, “[...] O objetivo da entrevista é obter as visões individuais dos indivíduos sobre um tema. Por isso, as questões devem dar início a um diálogo entre o entrevistador e o entrevistado [...]” (FLICK, 2013, p. 115). Esse autor ainda orienta que será na aplicação desse instrumento, o momento de o pesquisador decidir o quando e como sondar extensivamente um tema, sendo oportuno que se crie um “[...] guia da entrevista [...]” (FLICK, 2013, p.115). Neste trabalho, o guia foi classificado como roteiro. Tal documento, reuniu informações das colaboradoras acerca da realidade escolar, de seu cotidiano, sobre o PPP e sua materialização na escola, suas fases de construção, sua compreensão pela comunidade intra e extraescolar, sobre a educação integral do aluno etc. Serão transcritas com base no protocolo NURC (ANEXO A). Por fim, a observação participante se caracterizou a partir do momento em que houve o ingresso da pesquisadora na escola na condução da pesquisa participante, permitindo o acesso às práticas e aos processos vividos na escola. Essa observação abriu a possibilidade da pesquisadora integrar o cotidiano escolar nas dimensões administrativas, pedagógicas e sociais presentes no contexto da ETI escolhida. Diz Flick (2013, p. 122) que: A observação participante pode ser entendida como um processo de duas partes. Primeiro, supõe que os pesquisadores se tornem participantes e encontrem acesso ao campo e às pessoas que estão nele. Segundo a própria observação se torna mais concreta e mais fortemente orientada para os aspectos essenciais da questão da pesquisa. 83 Por essa forma de observação, a distância entre pesquisador e a situação observada é reduzida, e exige a participação durante um período de tempo maior no contexto escolhido, haja vista que o cotidiano escolar é lugar fundamental para este trabalho. Para isso, Flick (2013, p. 122) orienta que: [...] você vai selecionar as situações, as pessoas e os eventos segundo até que ponto os fenômenos interessantes se tornam acessíveis nesta seleção. O principal procedimento pode ser resumido nas palavras de Jörgensen por “uma lógica e um processo de indagação que é aberto, flexível, oportunista e requer uma constante redefinição do que é problemático, baseado em fatos reunidos em ambientes concretos da existência humana” (1989, p.13)18. Valendo-se de tais ensinamentos, buscou-se estabelecer um caminho frutífero na coleta, de modo que a observaçãoparticipante fosse conduzida por um olhar, o mais atento possível, e que reunisse as condições necessárias para abstrair o que fosse significativo dos espações ocupados e das relações e integrações da equipe observadas na ETI. 4.4 O CONTEXTO DA PESQUISA: O MUNICÍPIO E O SEU SISTEMA DE ENSINO O contexto da pesquisa permite aos leitores observarem de que lugar falamos. Uma breve caracterização histórica da cidade, seu desenvolvimento, os aspectos educacionais gerais, além da apresentação do SME e o lugar onde a pesquisa foi desenvolvida. Esse reconhecimento da realidade, parte da importância de conhecer sobre o desenvolvimento desse contexto local e nos situarmos historicamente nele. Desta forma, a pesquisa se desenvolveu em Araçatuba, município localizado à noroeste do estado de São Paulo. A cidade é sede da 9ª região administrativa do estado, com 41 municípios. Foi fundada em 02 de dezembro de 1908 e possui, atualmente, a estimativa de 197.016 habitantes (IBGE, 2019)19. Em 2010, no último censo realizado havia, 181.579 habitantes. Desse modo, abaixo, apresentamos um mapa para situar o local ao qual nos referimos: 18 Jörgensen, D. L. (1989) Participant Observation: A methodology for Human Studies: London: Sage. 19 Disponível em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 84 Figura 1 – Município de Araçatuba, localizado à noroeste do estado de São Paulo Fonte: Imagem copiada na Wikipédia, a enciclopédia livre20. A história do município de Araçatuba tem como referência a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), que objetivou no início do século XX, expandir as fronteiras e desenvolver uma política de interiorização do país estabelecendo uma ligação com outros países da América do Sul21. As terras já eram habitadas pelos índios Caingangues, mas acabaram sendo dizimados pelos colonizadores os quais buscavam explorar a terra para fins econômicos22. As bases econômicas de Araçatuba estiveram centradas na plantação do café, na criação de gado (conhecida como a capital do boi gordo) e na agricultura com a plantação do arroz, feijão, milho e pastagens para o gado. Ao longo dos últimos anos, o setor em expansão é o sucroalcooleiro e a agricultura familiar. Há, também, potencial para o turismo em função de sua proximidade com a bacia hidrográfica do rio Tietê, que localiza-se próximo ao perímetro urbano de Araçatuba. A indústria, comércio e o serviço integram o plano de desenvolvimento econômico da cidade que tem despontado, sobretudo, nos últimos 10 anos (SILAZAKI, 2017). A cidade teve seu último Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)23 liberado no ano de 2010, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNDU), órgão da 20 Disponível em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 21 Informações disponíveis em: . Acesso em 13 jul. 2021. 22 Informações disponíveis em: . Acesso em 08 abr. 2020 23 Informações disponíveis em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 85 Organização das Nações Unidas (ONU). Tal índice registra a qualidade de vida das populações por meio de indicadores econômicos e sociais, dentre eles a renda per capta, a taxa de escolaridade, o analfabetismo adulto e a expectativa de vida. Araçatuba apresenta nos seus componentes os seguintes dados: Tabela 1 – IDH geral e os componentes renda, longevidade e educação de Araçatuba/SP IDH 2010 Município IDH Geral IDH Renda IDH Longevidade IDH Educação Araçatuba 0,788 0,782 0,841 0,744 Fonte: Elaboração própria com base no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, plataforma online do PNDU – Brasil24. O IDH atua como uma estratégia diferenciada no tratamento da informação acerca do desenvolvimento humano. Caracteriza-se como uma referência que não considera apenas os aspetos ligados à economia e à renda, mas envolve quesitos como saúde e educação. Esse índice, portanto, atua como um contraponto ao Produto Interno Bruto (PIB) per capta que demarca somente a dimensão econômica do desenvolvimento. O IDH sai de uma perspectiva econômica exclusiva, para considerar o ser humano. É mensurado quase que na totalidade dos países do mundo e, ao serem publicados os Relatórios de Desenvolvimento Humano (RDH), objetivam causar impactos nas reflexões sobre o tema, atuam na conscientização e também oferecem dados para poder avançar, por exemplo, no desenvolvimento de políticas públicas e estratégias que permitam ampliar as capacidades e oportunidades das pessoas. É possível observar o IDH de Araçatuba, em comparativo com o estado de São Paulo e com o Brasil. A média entre essas três esferas se equiparam, com pequena vantagem para o município, mas todos eles estão classificados com alto índice de desenvolvimento em uma escala de muito alto, alto, médio e baixo. Vejamos: Tabela 2 – Comparativo do IDH entre município, estado e país (ranking e classificação) IDH Brasil IDH 2010 Estado de São Paulo IDH 2010 Araçatuba 0, 755 (2014) 0,783 0,788 Mesma posição registrada em 2010 e em 2014 Posição obtida em 2010 Posição obtida em 2010 Entre países 75º Entre estados 2º Entre municípios do país 76º Classificado com alto IDH Classificado com alto IDH Classificado com alto IDH Fonte: Elaboração própria com base no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, plataforma online do PNDU – Brasil25. 24 Informações disponíveis em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 25 Informações disponíveis em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 86 Assim como o país, o município, a partir de seu IDH, está caracterizado como uma esfera governamental em desenvolvimento. Araçatuba obteve estimativa de crescimento importante ao longo dos últimos anos (10), superando 15 mil habitantes, aliado a um período de expansão econômica em todas as suas áreas (agricultura familiar, pecuária, comércio, prestação de serviços etc.). Localiza-se, regionalmente, como um polo promissor para a sua contínua expansão. Em termos educacionais, Araçatuba conta com o atendimento de toda a Educação Básica, assegurada pelo ensino público e privado. O sistema municipal de ensino é responsável pelo atendimento da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano) e o estado de São Paulo, administra o Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano) e o ensino médio públicos. A partir da Sinopse Estatística da Educação Básica de 2020, disponibilizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), é possível observar como se caracteriza o município de Araçatuba em temos de números de escolas, nas diferentes esferas administrativas e nas diferentes esferas de atuação, conforma se observa no quadro 5, a seguir: Quadro 5 – Número de escolas e matrículas por dependência administrativa, níveis e modalidades de atendimento na Educação Básica de Araçatuba Dependência Administrativa Nº de Escolas Nº de matrículas na Educação Básica com base no último censo - 2020 Esferas de atuação: níveis e modalidades atendidas e nº de matrículas. Municipal 65 16.392 Educação Infantil (7.259 – desses, 75 são da Educação Especial (EE)) Ensino Fundamental I – 1º ao 5º ano (8.884 – desses, 232 são daEE) EJA (249, desses 41 são da EE) Estadual 29 13.441 13.637* 13.656** Ensino Fundamental II – 6º ao 9 ano Ensino (6.473 – desses, 239 são da EE***) Médio (4.492 – desses, 124 são da EE) Educ. Profissional (885 – desses, 10 são da EE) EJA (1.751 - desses 537 são do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e 1.214 do Ensino Médio, com 35 do total em EE.) Continua 87 Quadro 5 – Número de escolas e matrículas por dependência administrativa, níveis e modalidades de atendimento na Educação Básica de Araçatuba (Continuação) Dependência Administrativa Nº de Escolas Nº de matrículas na Educação Básica com base no último censo - 2020 Esferas de atuação: níveis e modalidades atendidas e nº de matrículas. Privada 45 11.909 Educação Infantil (2.354) Ensino Fundamental I – 1º ao 5º ano (3.553) Ensino Fundamental II – 6º ao 9 ano (2.682) Ensino Médio (1.493) Educação Profissional (1.564) EJA (263 – desses 17 são do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e 246 do Ensino Médio) EE, somente dado geral – 61 matrículas. Fonte: Elaboração própria com base na Sinopse Estatística da Educação Básica - 2020, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)26 * O consolidado da Sinopse Estatística da Educação Básica aponta 13.441 matrículas no sistema estadual em 2020, porém, quando os números são apontados nos níveis e modalidades do ensino, se somados, resultam em 13.637. ** Na distribuição entre níveis de ensino, o consolidado ainda mostra mais 15 matrículas para a Educação Infantil e 4 matrículas para o Ensino Fundamental do 1º ao 5º ano no estado. *** No consolidado geral para a Educação Especial para a esfera administrativa estadual temos um total de 361 matrículas, entretanto, na soma por níveis e modalidades de ensino sobe para 423 matrículas. No Ensino Superior temos 4 unidades em atendimento, sendo 1 pública (graduação e pós stricto sensu) e 3 privadas (1 com graduação, presencial e em EAD e pós-graduação; 2 delas, com graduação presencial e em EAD). Há uma fundação educacional municipal, com cursos de graduação presenciais. O município tem recebido, ao longo dos últimos anos, vários polos de EAD27, num total de 10, com cursos de graduação e pós-graduação, sendo semipresenciais e em EAD e, alguns, exclusivos em EAD. No âmbito do sistema municipal de ensino de Araçatuba, desde 1954 já atendia a Educação Infantil e a modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Sucintamente, partiremos de quando ele foi legalizado/criado no ano de 1997. Nesse ano, a lei de criação do sistema de ensino, Lei Municipal nº 5.179, de 30 de dezembro do ano de 1997, atendeu à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), promulgada em 1996 que, em seu artigo 8, propunha a organização (pelo regime de colaboração entre a união, estados, distrito federal e municípios), de seus respectivos sistemas de ensino. Diante dessa criação, a lei municipal ofereceu legalidade ao atendimento (que já ocorria de longa data) e abriu a possibilidade do município ampliá-lo. Ainda em 1997, foi publicada a Lei Municipal nº 5.171, de 30 de dezembro de 1997, que autorizava o Executivo a celebrar convênio com o governo do estado 26 Informações disponíveis em: . Acesso em: 11 jul. 2021. 27 Informações disponíveis em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 88 de São Paulo para o atendimento do Ensino Fundamental I (à época da 1ª a 4ª série). As duas leis colocaram em marcha no município o processo de descentralização e municipalização das séries iniciais do Ensino Fundamental público, vindo a responsabilizá-lo, nos anos seguintes, pelo atendimento total dos alunos, que antes estavam sob a jurisdição do estado. Referidas leis municipais foram promulgadas para acompanhar o cenário educacional nacional, que visava deflagrar a municipalização do ensino e que ganhou maior força tendo em vista o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (FUNDEF)28, regulamentado em 1996, de natureza contábil e de âmbito estadual que atendeu no seu período de vigência apenas ao Ensino Fundamental e “[...] reunia automaticamente 15% (60% dos 25% constitucionalmente vinculados à educação) de impostos e transferências (ICMS, FPE, FPM, IPI - Exportação e LC 87/96) pertencentes a cada estado e seus respectivos municípios, aos quais retornavam proporcionalmente ao número de alunos matriculados nas redes de ensino fundamental” (MILITÃO, 2011, p.125)29. Para Militão (2007, p. 70) o FUNDEF “[...] configura-se como um poderoso mecanismo indutor à municipalização do ensino fundamental”. Para ele, o processo de municipalização seria a única alternativa para que os recursos municipais retidos no fundo, num processo inverso, voltassem aos municípios para serem aplicados e não aos estados, evitando problemas com as finanças municipais. Tal medida, segundo o autor, fez com que os municípios iniciassem uma corrida expressiva por matrículas nesse nível de ensino (MILITÃO, 2007). Tais medidas, como o fundo e a organização de leis municipais em consonância com a LDBEN para a criação do sistema de ensino, permitiram que as matrículas de Ensino Fundamental I fossem efetivadas para o início de 1999, quando a secretaria municipal de 28 O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF), com vigência de 1997 a 2006, foi instituído pela Emenda Constitucional n.º 14, de setembro de 1996, e regulamentado pela Lei n.º 9.424, de 24 de dezembro de 1996 e pelo Decreto nº 2.264, de junho de 1997. Foi substituído pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), com vigência de 2007 a 2020, criado pela Emenda Constitucional nº 53/2006, regulamentado pela Lei nº 11.494/2007 e pelo Decreto nº 6.253/2007. É de natureza contábil, criado para cada estado e Distrito Federal, formado por recursos provenientes de impostos e transferências do estados, Distrito Federal e municípios. O fundo retorna à Educação Básica, em seus âmbitos de atuação prioritária de cada ente governamental, para a manutenção e desenvolvimento do ensino (Grifos nosso). Disponível em: . Acesso em: 14 abr. 2020. Segundo Militão (2007, p. 127) “Além dos impostos e transferências que já faziam parte do FUNDEF (ICMS, FPE, FPM, IPI - Exportação e LC 87/96), o FUNDEB incorporou outros três: IPVA, ITCMD e ITR e [...] o percentual da subvinculação (de 15%, no FUNDEF) subiu para 20% dos recursos arrecadados com os impostos e transferências arroladas”. 29 Segundo este mesmo autor: A vinculação de recursos à educação está disciplinada no artigo 212 da Constituição Federal de 1988, nos seguintes termos: “A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino” (MILITÃO, 2011, p. 133) 89 educação de Araçatuba colocou as primeiras turmas em funcionamento em prédios da Educação Infantil, que passaram a atender concomitantemente os dois níveis de ensino. A história da ETI no sistema decorre dessa fase de descentralização e municipalização das escolas do estado, através do convênio nº 963-000/99, firmado com a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, que regia, então, sobre a descentralização dos anos iniciais do Ensino Fundamental. A partir daquele ano (1999), o município assumiu gradativamente as escolas do estado,diary, an interview with the school management team and a questionnaire for teachers were also applied. The research was developed around the following issue: what does the Full-Time School reveal in its daily school life in the objective and subjective aspects for the materialization of the Pedagogical Political Project, with the aim of student’s Full Time education? The thesis of this work considered that the “school is a determined place, it is made up in its daily life by a space of movement, but, above all, from the perspective of a Full Time School it faces different challenges, including the struggle for survival of the extended working day policy. However, in the face of a process of strengthening the autonomy and identity of the school, the conceptions of a full-time policy may prevail if it is materialized in the Pedagogical Political Project, through democratic-participatory management and in the promotion of student’s Full-Time education. In view of this, the Pedagogical Political Project must be a document that identifies the essence of this policy and that portrays a daily life that only makes sense when the school fights, both for its autonomy and for the achievement of the objectives conceived in its instituting culture, even when the established culture (whether national, state or municipal) does not prioritize the permanence of this type of school in the 21st century”. As a result, categories of analysis were abstracted, treated here as dynamics and challenges experienced in the Full-Time school, namely: the community of students and parents; the construction of the Pedagogical Political Project; full- time school policy; the BNCC, its knowledge and teacher training. The achievement of all the objectives was hampered due to the pandemic, which made the thesis of this work to be partially defended. The result is the need to act on the challenges experienced in the Full-Time school, which still needs to conquer the uniqueness of its Pedagogical Political Project and, with that, strengthen its own autonomy and identity, which will contribute to the struggle for permanence of a policy in the perspective of Full-Time education in the city of Araçatuba. Keywords: School Daily Life. Full-Time School. Political Pedagogical Project. Continuing Education of Teachers and Trainers. LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Levantamento bibliográfico com o descritor ‘cotidiano escolar’ no portal de periódicos da CAPES................................................................. 41 Quadro 2 - Levantamento bibliográfico com o descritor ‘cotidiano escolar’ no portal SCIELO.......................................................................................... 43 Quadro 3 - Levantamento bibliográfico com o descritor ‘gestão escolar’ e ‘professores’ no portal de periódicos da CAPES....................................... 44 Quadro 4 - Levantamento bibliográfico com o descritor ‘gestão escolar’ e ‘professores’ no portal SCIELO................................................................ 45 Quadro 5 - Número de escolas e alunos por dependência administrativa, níveis e modalidades de atendimento na Educação Básica de Araçatuba............... 86 Quadro 6 - Caracterização do número de escolas no Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba............................................................................................. 90 Quadro 7 - Índice de Esforço Docente da ETI............................................................ 92 Quadro 8 - Indicador de Adequação da Formação Docente da ETI............................ 93 Quadro 9 - Número total de indivíduos trabalhadores na ETI..................................... 100 Quadro 10 - Ambientes e recursos disponíveis na ETI................................................. 100 Quadro 11 - Ambientes e recursos disponíveis na ETI, não apontados no idebescola................................................................................................. 101 Quadro 12 - Quantitativo de ETI/AC, número de alunos em jornada ampliada no SME de EF e percentuais relativos às metas do PME - final do ano letivo de 2016...................................................................................................... 183 Quadro 13 - Quantitativo de ETI/AC, número de alunos em jornada ampliada no SME de EF e percentuais relativos às metas do PME – início do ano letivo de 2017............................................................................................ 183 Quadro 14 - Quantitativo de ETI/AC, número de alunos em jornada ampliada no SME de EF e percentuais relativos às metas do PME – ano letivo de 2020.......................................................................................................... 184 Quadro 15 - Quantitativo de ETI/AC, número de alunos em jornada ampliada no SME de EF e percentuais relativos às metas do PME – meados do ano letivo de 2021............................................................................................ 185 Quadro 16 - Perfil acadêmico e profissional da equipe de gestão escolar...................... 211 Quadro 17 - Perfil acadêmico e profissional dos professores........................................ 215 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - IDH geral e os componentes renda, longevidade e educação de Araçatuba/SP.......................................................................................... 85 Tabela 2 - Comparativo do IDH entre município, estado e país (ranking e classificação) ......................................................................................... 85 Tabela 3 - Índice de Desenvolvimento da Educação Básica da ETI ao longo dos períodos avaliados.................................................................................. 94 Tabela 4 - Indicador de Rendimento da ETI ao longo dos períodos avaliados....... 96 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Município de Araçatuba, localizado à noroeste do estado de São Paulo....................................................................................................... 84 Figura 2 - Comparação do IDEB da ETI entre as 26 escolas mensuradas no município de Araçatuba.......................................................................... 95 Figura 3 - Comparação do IDEB da ETI entre as 42.149 escolas mensuradas no Brasil...................................................................................................... 96 Figura 4 - Comparação do Indicador de Rendimento da ETI entre as 26 escolas mensuradas no município de Araçatuba................................................. 97 Figura 5 - Comparação do Indicador de Rendimento da ETI com outras 42.149 escolas mensuradas no Brasil................................................................. 97 LISTA DE ABREVIATURA E SIGLAS AC – Atividade Complementar AEE - Atendimento Educacional Especializado APM - Associação de Pais e Mestres AVA – Atividades de Vida Autônoma BNCC - Base Nacional Comum Curricular CAAE - Certificado de Apresentação de Apreciação Ética CAICs - Centros de Atendimento Integral à Criança CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEE - Centro de Educação Elementar CEE – Conselho Estadual de Educação CEFAM - Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério CEMFICA - Centros de Formação Municipal Integral da Criança e do Adolescente CP - Centro Pedagógico CIAC - Centros Integrados de Atendimento à Criança CIEP -passando para a administração municipal os prédios, bem como a absorção integral dos alunos e de professores e gestores que optaram pelo convênio junto ao município. Na terceira e última fase desse processo de municipalização em 2007, o município absorveu as sete últimas escolas da esfera estadual, sendo que quatro delas eram ETI. Dessa forma, o município se responsabilizou pelo atendimento total dos anos iniciais desse nível de ensino. Observa-se que “foram 19 unidades escolares municipalizadas por meio do convênio da municipalização do estado de São Paulo” (SILAZAKI, 2017, p.30). Uma dessas unidades escolares está inativa até os dias atuais. Com o decorrer dos anos, agruparam-se àquelas 4 unidades de ETI municipalizadas, mais 6 escolas próprias do município para atender jornadas ampliadas, totalizando dez unidades entre ETI e AC30 (SILVA, 2016). Outra ETI foi criada em 2017, totalizando 11 unidades. Como se pôde observar, nesse processo de municipalização, o sistema de ensino ampliou gradativamente a oferta de vagas e o número de escolas, bem como ampliou o número de profissionais, além das demandas administrativas e as pedagógicas. Apresentou, portanto, avanços nos processos de gestão, no oferecimento e na busca constante pela universalização do ensino no município, na formação profissional, na melhoria da educação e na ampliação da infraestrutura escolar (SILAZAKI, 2017). Conforme a Sinopse Estatística da Educação Básica de 202031, o município conta com 65 unidades escolares entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I. Em relação somente às escolas de que atendem em jornada ampliada, tínhamos em 2020, 23% do total de alunos do Ensino Fundamental, vejamos no quadro 6: 30 Atividade Complementar (AC), refere-se à ampliação da jornada no contraturno, somente para alunos da unidade escolar que os pais optassem pelo atendimento no período da manhã ou da tarde. 31 Sinopses Estatísticas da Educação Básica - 2020. Disponível em: . Acesso em: 14 jul. 2021. 90 Quadro 6 – Caracterização do número de escolas no Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba Dependência Administrativa Nº total de escolas no SME de Araçatuba Nº total de matrículas no Ensino Fundamental Nº total de matrículas no ensino regular em tempo integral no Ensino Fundamental – 1º ao 5º ano. Municipal 65 = 62 urbanas e 03 rurais 8.884 2.028 Equivalente a 23% do total. Fonte: Elaboração própria com base na Sinopse Estatística da Educação Básica – 2020. Foi notória a responsabilização pelas escolas que tiveram o aumento da carga horária de permanência do aluno na escola nesse sistema de ensino que evoluiu, sobretudo, a partir do século XXI em atendimento aos dispositivos legais e às políticas educacionais. Presenciou-se inúmeros desafios educacionais, dentre eles o de manter e/ou colocar em funcionamento tais escolas no processo de consolidação desse sistema municipal. As pesquisas, realizadas em nível de mestrado no município, permitiram conhecer e compreender em duas frentes de trabalho: primeiro, a perspectiva formativa de professores e a educação em tempo integral e depois, o processo de aprendizagem profissional de coordenadores pedagógicos e sua atuação profissional junto aos professores dessas escolas. No entanto, considerando a possibilidade de ampliar o conhecimento sobre essa realidade, propusemos com essa terceira pesquisa, envolver uma ETI do sistema municipal, colocando em evidência o seu cotidiano e os desafios educacionais vividos pela gestão e pelos professores na formação do aluno, seguindo o avanço deste século. 4.4.1 O lócus da pesquisa: a Escola de Tempo Integral (ETI) A escola participante foi criada em 2003 como rede própria municipal, seu atendimento como unidade de jornada ampliada aconteceu apenas em 2011, quando iniciou a proposta como AC, atendendo no contraturno alunos cujos pais tivessem feito a opção por integrar o filho em atividades de caráter lúdico (arte, cultura, esporte e recreação), distintas das exercidas em sala de aula. Porém, à época, o atendimento não acontecia dentro do próprio prédio escolar da ETI, e, sim, em outra unidade próxima, pois ela não comportava todos os alunos do turno parcial e os que fizeram a opção em AC. Em 2012, ainda como escola de AC, foi a primeira unidade municipal a aderir ao Programa Mais Educação e, a partir de 2013, passou a atender como ETI e todos os seus alunos foram integrados em um único prédio e turno escolar. 91 Para a caracterização da escola recorremos ao INEP, que disponibiliza à sociedade o site idebescola32, nele é possível fazer um levantamento de escolas nos diferentes estados e municípios, por dependência administrativa, localização urbana ou rural, ou até mesmo localizações diferenciadas (ex.: terra indígena). Também é possível observar diferentes notas técnicas referentes aos indicadores que identificam/classificam as unidades, tendo sido utilizados para essa caracterização do lócus da pesquisa. A ETI está localizada em um bairro distante do centro da cidade, no perímetro urbano, em Araçatuba/SP. Atende ao Ensino Fundamental I – 1º ao 5 ano, com 1 turno de funcionamento (tempo integral). Seu Indicador de Nível Socioeconômico (INSE)33, está no Nível IV e seu Indicador de Complexidade de Gestão34 está no Nível 1. O INSE é um dos indicadores que integra o monitoramento da qualidade da Educação Básica, assim como o próprio Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Segundo a nota técnica do INSE, o monitoramento por meio desses índices é essencial para a orientação e avaliação das políticas públicas educacionais e das formas de gestão do ensino do país. Para além do IDEB, que sintetiza indicadores de fluxo (taxa média de aprovação na Educação Básica, a partir dos dados do censo escolar) e os indicadores de desempenho (proficiência média padronizada dos alunos, pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB)), foi criado um indicador que caracteriza o aluno em outros aspectos, como o social e o econômico. A nota técnica divulgada pelo INEP referente ao INSE aponta que, com esse indicador, “[...] será possível conhecer, de forma matizada, as escolas que enfrentam os maiores desafios e as que foram bem sucedidas na promoção do ensino, e, consequentemente, da aprendizagem dos alunos [...]” (BRASIL, [2014?], p.1). As informações obtidas através desses indicadores podem subsidiar ações e a implementação de políticas governamentais que visam contribuir com as melhorias do atendimento escolar, da qualidade do ensino, com a diminuição das desigualdades sociais e regionais ainda existentes, de modo que o poder público tenha parâmetros para apoiar iniciativas para o enfrentamento de dificuldades apontadas (RONCA, 2013). Portanto, o INSE tem por objetivo situar o conjunto de alunos em estratos socioeconômicos definidos pela posse de bens domésticos, renda e contração de serviços pelas 32 Informações disponíveis em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 33 Informações disponíveis em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 34 Informações disponíveis em: . Acesso em: 13 jul. 2021. 92 famílias dos alunos e pelo nível de escolaridade de seus pais. As escolas são classificadas em níveis de escala entre I e VIII, sendo que aquelas classificadas no nível I predominam alunos com nível inferior e no nível VIII, com nívelsuperior para as escalas de medida socioeconômica. Conforme se observa no site do INEP35, ao longo dos últimos anos, o INSE foi medido em 2015 e apontou o nível III para a escola participante. Entretanto, no ano de 2019, quando da aplicação da Prova Brasil, referido índice teve seus dados atualizados e níveis revisados. O questionário aplicado para coleta do índice concentra dados entre a escolaridade de pais e a posse de bens e serviços e os itens para medir os aspectos socioeconômicos aumentou nessa última edição, ampliando a extensão dos conteúdos para posse desses bens e serviços na residência do estudante (BRASIL, 2021), o que gerou o INSE de nível IV para a escola participante. Comparando-a com as outras 9 atuais unidades de jornada ampliada no município, uma está classificada no mesmo grupo 3, outras 6 no grupo 4, uma delas apresenta-se no grupo 5, e, uma, não teve INSE medido. Já para o Índice Complexidade de Gestão, processa-se a partir dos seguintes critérios: porte da escola, número de turnos de funcionamento, quantidades e complexidade de modalidades/etapas oferecidas e números de profissionais da escola. Os níveis mais elevados, indicam maior complexidade. A ETI participante, está no nível 1, assim como outras 6 unidades, 2 no nível 2, uma no 4 e outra no 5. Os dados liberados são referentes à 2019, também conforme indicado no site do INEP. Há também indicadores relativos ao professor, o INEP disponibiliza o Índice de Esforço Docente, atualizados com dados de 2019. Esse índice é indicado por níveis, que estão distribuídos de 1 a 6. Para compreendê-lo, observe o quadro abaixo: Quadro 7 - Índice de Esforço Docente da ETI Níveis Descrição ETI Nível 1 Docente que tem até 25 alunos e atua em um único turno, escola e etapa 38,1 Nível 2 Docente que tem entre 25 e 150 alunos e atua em um único turno, escola e etapa 38,1 Nível 3 Docente que tem entre 25 e 300 alunos e atua em um ou dois turnos, em uma única escola e etapa 9,5 Continua 35 Informações disponíveis em: . Acesso em: 14 abr. 2020. 93 Quadro 7 - Índice de Esforço Docente da ETI (Continuação) Nível 4 Docente que tem entre 50 e 400 alunos e atua em dois turnos, em uma ou duas escolas e em duas etapas 14,3 Níveis Descrição ETI Nível 5 Docente que tem mais de 300 alunos e atua nos três turnos, em duas ou três escolas e em duas ou três etapas 0 Nível 6 Docente que tem mais de 400 alunos e atua nos três turnos, em duas ou três escolas e em duas ou três etapas 0 Fonte: Elaboração própria com base em nota técnica no idebescola e site do INEP – Indicadores Educacionais. Os níveis 1 e 2 compõem o quadro de professores que atuam numa única escola, em único turno e com número de alunos até 25 ou entre 25 e 150 alunos, no caso são a maioria na escola participante. No percentual de 9,5 do nível 3, indica professores que “dobram” o período na mesma escola, ou seja, atuam nos dois turnos, mas poucos estão nessa condição. No nível 4, estão aqueles professores de “dobram” período, mas em outras unidades escolares. Certamente que, nos níveis 3 e 4, o número de alunos atendidos por cada professor aumenta, conforme visto no quadro. Já para os níveis 5 e 6, não há nenhum professor atuando em três turnos, duas ou três escolas ou etapas. Outro indicador que diz respeito ao professor é o Indicador de Adequação da Formação Docente. Trata-se de um índice classificado por grupos (1 a 5), conforme se observa abaixo: Quadro 8 - Indicador de Adequação da Formação Docente da ETI Grupos Descrição ETI Grupo 1 Docentes com formação superior de licenciatura na mesma disciplina que lecionam, ou bacharelado na mesma disciplina com curso de complementação pedagógica concluído 94,3 Grupo 2 Docentes com formação superior de bacharelado na disciplina correspondente, mas sem licenciatura ou complementação pedagógica 0 Grupo 3 Docentes com licenciatura em área diferente daquela que leciona, ou com bacharelado nas disciplinas da base curricular comum e complementação pedagógica concluída em área diferente daquela que leciona 5,7 Grupo 4 Docentes com outra formação superior não considerada nas categorias anteriores 0 Grupo 5 Docentes que não possuem curso superior completo 0 Fonte: Elaboração própria com base em nota técnica atualizada, no site do INEP – Indicadores Educacionais. O indicador apontado no quadro 8 sinaliza que a maioria dos professores da ETI são adequadamente licenciados ou bacharelados com curso de complementação pedagógica para atuarem nos anos iniciais do ensino fundamental. Já 5,7 do total de professores que estão no grupo 3, formaram-se em áreas diferentes daquela que leciona. 94 Seguindo, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) da ETI, medido desde 2005, está mensurado da seguinte forma: Tabela 3 - Índice de Desenvolvimento da Educação Básica da ETI ao longo dos períodos avaliados Ano Meta ETI Valor ETI Meta Municipal Valor Municipal 2005 - 5,4 - 5,1 2007 5,5 4,6 5,2 5,3 2009 5,8 5,2 5,5 5,5 2011 6,1 5,0 5,8 5,6 2013 6,3 6,0 6,1 5,8 2015 6,6 7,1 6,3 6,4 2017 6,8 7,4 6,5 6,7 2019 7,0 7,6 6,8 6,9 Fonte: Elaboração própria com base no site INEP/IDEB – Resultados e Metas. Abaixo da meta Igual ou superior à meta O registro apontado pelo INEP indica a queda do IDEB da escola nas medições de 2007 a 2011 se comparadas a 2005, fica abaixo da meta estabelecida de 2007 a 2013, mas inicia um processo de superação dos índices ao longo das três últimas edições. É oportuno relembrar que, no ano de 2013, a escola em questão passou a atender como ETI, antes era escola de AC, aderiu ao Programa Mais Educação em 2012 e, no ano seguinte, passou a atender todos os seus alunos no período integral. Acreditamos que o trabalho desenvolvido no decorrer dos anos seguintes ao de 2013, como escola de dia inteiro e com o Programa Mais Educação, favoreceu os processos formativos desenvolvidos com os alunos, assim como possibilitou algumas mudanças nas estruturas administrativas e financeiras da escola que, alinhadas também às propostas do Programa Mais Educação, fez com que a unidade escolar desse um salto nos seus índices. Ou seja, há um ganho expressivo em torno deles conforme se observa na tabela 3, sobretudo se compararmos os anos de 2013 e 2015. É notório que houve um resultado positivo a partir do momento em que a escola se tornou ETI, certamente que ao longo dos anos foi sendo consolidado um trabalho da gestão e de seus profissionais, o que pôde implicar em melhorias na oferta do ensino e nos índices alcançados pelos alunos. Embora não tenhamos feito uma análise sobre esta ligação de a escola ter se tornado ETI e conseguido melhorar seus índices a partir dessa mudança, há indícios de que os bons resultados para o IDEB nos anos posteriores têm implicação com essa nova forma de atender os alunos na jornada integral, tal fato sugere a realização de novas pesquisas nesse sentido. Seguindo, contata-se que o desempenho da escola em relação às demais escolas do município é significativo. Embora o objetivo não seja o de classificar as escolas como melhores 95 ou piores a partir dos resultados do IDEB (situação erroneamente praticada em muitos sistemas de ensino), seguiremos demonstrando as diferentes medições disponíveis no INEP/IDEB sobre as escolas deste país, que trazem alguns parâmetros para análises. Assim, em linha comparativa com as demais escolas municipais de Ensino Fundamental do município, num total de 26, averígua-se que 19, 23% das escolas estão com desempenho acima da nota da ETI e, 80,77% das escolas, estão com desempenho abaixo ou igual à ETI, esta que ocupa o intervalo do índice (em destaque) entre 7,6 a 8,0, um resultado positivo quesupera um número expressivo de escolas com menores índices, conforme se observa na figura 2: Figura 2 - Comparação do IDEB da ETI entre as 26 escolas mensuradas no município de Araçatuba Fonte: Print do site do idebescola36. Em comparativo com as demais escolas brasileiras, num total de 42.149, averígua-se que 2,33% das escolas estão com desempenho acima da nota da ETI e, 97,67% das escolas, estão com desempenho abaixo ou igual à ETI, resultado também muito expressivo para comparativo com as demais escolas do país. Vejamos na figura, a escola ocupa o intervalo em destaque: 36 Informação disponível em: . Acesso em: 14 jul. 2021. 96 Figura 3 - Comparação do IDEB da ETI entre as 42.149 escolas mensuradas no Brasil Fonte: Print do site do idebescola. Outro indicador possível de averiguar no site é o Indicador de Rendimento. Conforme a Nota Técnica de Cálculo das Taxas de Rendimento Escolar, tal índice é levantado com base em taxas de aprovação, reprovação e abandono dos alunos. A partir de um Código de Identificação Único (ID) que cada aluno possui, ele é acompanhado no sistema educacional por sua matrícula, assim é observado seu movimento e também seu rendimento. O Censo Escolar da Educação Básica, módulo aluno, é fonte importante para que esse processo de mensuração do rendimento do aluno aconteça (BRASIL, 2013). O indicador de rendimento, sucintamente, é formalizado a partir da média entre os resultados (de aprovação, reprovação e abandono) do 1º ao 5º, dentro de cada ano letivo mesurado e está classificado para a ETI participante desde o ano de 2005, da seguinte maneira: Tabela 4 - Indicador de Rendimento da ETI ao longo dos períodos avaliados Anos 2005 2007 2009 2011 2013 2015 2017 2019 Indicador mensurado 0,95 0,96 0,99 0,96 0,90 0,96 0,96 0,97 Fonte: Elaboração própria com base no idebescola. Tal indicador sinaliza um índice crescente de aprovação dos alunos dentro dos anos (1º ao 5º), com exceção de 2013, todos os outros anos tem um indicador de rendimento igual ou superior a 0,95. Na figura abaixo, em situação comparativa para o mesmo indicador, observa- 97 se que a maioria das escolas municipais estão no intervalo em destaque de 0,96 a 1,0, incluindo- se nele a ETI participante, vejamos: Figura 4 - Comparação do Indicador de Rendimento da ETI entre as 26 escolas mensuradas no município de Araçatuba Fonte: Elaboração própria com base no idebescola. Também é possível uma análise comparativa deste indicador com as 42.149 escolas do país. Constatou-se, pelo idebescola, que 80,77% delas estão na escala entre 0,96 e 1,0, sendo também o caso da escola participante, vejamos na Figura 5 o intervalo em destaque: Figura 5 - Comparação do Indicador de Rendimento da ETI com outras 42.149 escolas mensuradas no Brasil Fonte: Print do site do idebescola. 98 Diante de todos esses indicadores, algumas questões podem ser destacadas e visam contribuir para percebermos como essa unidade, em específico, foi sendo consolidada. Desde as pesquisas do mestrado, e por conhecer (a partir do trabalho em nível de secretaria da pesquisadora em tela) sobre parte da história de consolidação dessa ETI, destaca-se em sua realidade situações de vulnerabilidade social vivida pelas crianças e suas famílias. O INSE, classificado em 2015 com o nível III, passou em 2019 para o nível IV, muito embora haja evolução na condição socioeconômica da realidade analisada, nos oferece indicativos de uma população que ainda vive desafios sociais complexos, dentro de uma escala vai até o nível VIII (nível superior). Há históricos de violência, drogadição, prostituição nos bairros adjacentes e que estão muito próximos das vivências dos alunos e do histórico de vida de muitas famílias, mas tem sido notório que, ao logo desses anos, a gestão e seus professores buscaram atuar para a melhoria da qualidade da aprendizagem dos alunos, oportunidade que reflete em muito na vida desses alunos. Como vimos, a ETI participante acaba despontando no IDEB nas últimas três edições, supera suas metas e, inclusive, ultrapassa os índices municipais, além de alcançar bom patamar em nível nacional em relação às demais escolas do país, posiciona-se em grupos nos quais ‘poucas’ unidades atingiram os maiores índices. Ou seja, o quantitativo é maior e muito expressivo para escolas que ficaram aquém em relação ao índice obtido pela ETI. Observando esses resultados, fomos percebendo que ele é visto por uma perspectiva diferenciada na escola participante, tal índice não pode ser concebido e analisado com o foco apenas nos resultados e no alcance das metas estabelecidas. Face a isso, embora enalteçam os índices alcançados nas últimas edições, os membros desta escola compreendem que ele é apenas um parâmetro em meio a muitos aspectos que levaram a escola a apresentar um saldo positivo. A grande mídia e até mesmo governantes nas diferentes esferas (nacional, estadual e municipal) acabam utilizando o IDEB para justificar a ‘qualidade’ do ensino ofertado, destacam os melhores índices, ranqueiam as escolas, premiam e acabam rotulando, sobretudo, aquelas em que os resultados são mais tímidos. Mas, como dito, percebemos que a escola participante tem nele apenas um parâmetro e, por isso, não é tomado como o indutor de suas ações cotidianas. Compreendemos que a escola foi amadurecendo ao longo dos anos e tomou para si o entendimento de que o desenvolvimento de um bom trabalho no processo de ensino e de aprendizagem, certo investimento formativo e também financeiro incidiria positivamente no desempenho dos alunos. Mesmo mantendo-se por 4 períodos subsequentes abaixo da meta estabelecida para a escola, ainda assim, sabe-se que em muitos aspectos ela prosperou. O índice não é capaz de nos dizer do dia a dia daquele aluno que não leu e não escreveu até o final do 99 terceiro ano e, de repente, ele o faz no quarto ano, mediante o trabalho de inúmeros professores. Ele não mostra o desafio de ter uma equipe incompleta no início de um ano letivo, não demostra o que é colocar em prática a alimentação escolar no período integral, não mostra a falta de funcionários que se acidentam, que adoecem, enfim, os inúmeros percalços que se fazem presentes no âmbito escolar. Podemos dizer, então, de uma latência (no caso positiva) imperceptível, mas nunca inexistente de um ‘avanço’ nos índices, quando eles estiveram abaixo do esperado. Na outra ponta, muitos gestores e professores de escolas que não atingem os índices se veem desvalorizados quando analisados apenas por um critério numérico e a sociedade, de modo geral, deixa de ver que ao longo do caminho existiu ou existe uma história de ressignificação acontecendo. História que envolve a gestão que se mostra aberta e participativa e que vai, aos poucos, conquistando seu espaço num cenário talvez pouco provável aos olhos dos outros. Busca consolidar sua equipe para reconhecer no aluno suas capacidades, capacidades que não estão determinadas num critério socioeconômico ou num índice numérico, por exemplo. Certamente exercem influências, mas sabemos que não podem demarcar conformismos e, sim, a superação das dificuldades que não são poucas na maioria das escolas. É evidente que diferentes situações estão sendo enfrentadas para essa melhoria de referido índice, pois a escola, quer queira quer não, é cobrada dentro de seu próprio sistema de ensino. Compreendemos que ele é importante, mas as ações que são desenvolvidas no decorrer do processo e que, ao final, contribuem para uma classificação exitosa, certamente exigiu de toda a equipe muito trabalho e determinação, fatores que consideramos de maior relevância nesse caminhar. Todos os demais índices sãoparâmetros que sinalizam e possibilitam à gestão escolar e à gestão educacional do sistema de ensino, estudarem, planejarem e definirem quais políticas (ou não) são necessárias e produtivas para a escola, para os profissionais e para os alunos. Eles servem tanto para planejar e induzir ações, como para fazer reconhecer que o caminho mais frutífero ainda é investir na formação profissional, de modo que as oportunidades alcancem comunidades ameaçadas social e economicamente e que também se ressignifiquem, assim como essa escola que constantemente se desafia para oferecer uma educação de melhor qualidade. Ainda nesse cenário de reconhecimento e caracterização do lócus da pesquisa, é oportuno apresentar a equipe de profissionais que trabalha na ETI, e que promove a oferta do ensino. O quadro 9 encontra-se atualizado com base no ano letivo de 2021, vejamos: 100 Quadro 9 – Número total de indivíduos trabalhadores na ETI Indivíduos Nº total Alunos 197 em 10 classes Professores de turmas regulares 10 Professores de oficina 09 Professor de Ensino Básico II – Educação Física 01 Professor de Ensino Básico II - Arte 01 Professor de Ensino Básico II – Educação Especial 01 Diretor escolar 01 Vice-diretor escolar 0 Coordenador pedagógico 01 Secretário escolar 01 Oficial administrativo de secretaria 01 Estagiários contratados via prefeitura 02 Cozinheira da Prefeitura 01 Funcionários terceirizados Limpeza – 03 Cozinha - 02 Funcionários colaboradores em diferentes tarefas Sala de leitura - 01 Fonte: Elaboração própria com base em informações obtidas com a gestão escolar no ano de 2020. Por fim, em relação à estrutura escolar, o idebescola aponta os espaços disponíveis na unidade para o desenvolvimento das atividades, ficando de fora o laboratório de ciências, o auditório e o almoxarifado, conforme segue: Quadro 10 – Ambientes e recursos disponíveis na ETI Ambientes e recursos Nº total Sala de recursos multifuncionais Sim Banheiro adequado à alunos com deficiência Sim Dependências e vias adequadas a alunos com deficiência Sim Sala de leitura Sim Laboratório de ciências Não Laboratório de informática Sim Sala de Direção Sim Sala de professores Sim Sala de Secretaria Sim Almoxarifado Não Refeitório Sim Acesso à internet Sim Banda larga Sim Computadores para uso dos alunos Sim Pátio coberto Sim Auditório Não Quadra de esportes coberta Sim Parque infantil Sim Área verde Sim Fonte: Elaboração própria com base no idebescola, no INEP. 101 Entretanto, a escola tem outros ambientes não apontados no idebescola, conforme se observa no quadro 11: Quadro 11 – Ambientes e recursos disponíveis na ETI, não apontados no idebescola Ambientes e recursos Nº total Sala de coordenação Sim Ambientes diversos Sala de balé Fonte: Elaboração própria com base em informações obtidas com a gestão escolar no ano de 2020. Com base nessa caracterização da ETI, os apontamentos e índices até aqui descritos se tornaram instrumentos para ampliar o conhecimento sobre a escola, uma vez que todos eles ofereceram quesitos importantes para observar o cotidiano escolar, a realidade que se consolida em torno deles e as ações colocadas em prática pelos diferentes indivíduos que a frequentam. 4.5 OS CAMINHOS DE ANÁLISE DOS DADOS PRODUZIDOS Diante dessa trajetória de pesquisa anunciada até aqui e buscando caminhos para atingir os objetivos elencados neste trabalho, bem como chegar às respostas pelas quais a tese foi anunciada, a análise dos dados coletados perpassa por manter as referências no MHD que busca superar visões, muitas vezes idealistas, para uma outra forma de ver, conceber e experimentar o mundo, ou no caso, a escola. Assim a ETI em questão foi observada à luz da criticidade, da contradição e da superação de uma visão apenas idealista do que pode ser uma escola de dia inteiro. Ou seja, o conhecimento não derivou apenas da atividade do pensamento, mas surgiu da prática do sujeito sobre o seu objeto de pesquisa, como produto da reflexão sobre a própria prática, numa realidade que não é em nada estanque e sim, dinâmica e contraditória. Nessa relação entre o sujeito e o objeto, visualizamos no MHD o caminho: Pode-se compreender a relação posta entre sujeito e objeto, a partir de diferentes abordagens. Dentre elas, a dialética, mais especificamente, o materialismo histórico- dialético, ou a dialética marxista que em muito auxilia na tentativa de superação da dicotomia, da separação entre o sujeito e o objeto e, como método contribui para compreensão do objeto (MIURA, 2018, p. 2) Nesse sentido, o método na sua perspectiva de análise considera a compreensão da realidade histórica e das suas contradições buscando diferentes explicações tanto para os fenômenos da natureza, da sociedade ou dos pensamentos. A escola está situada histórica e socialmente, tanto que é considerada uma instituição social, integra-se numa ordem mundial, marcada por conflitos econômicos, políticos e ideológicos etc. Por isso, se faz objeto nesse 102 caminho de compreensão, possibilita a análise das relações que se estabelecem dentro dela entre os seres humanos (profissionais da educação), sobre seus modos de gerir a vida, sobre seus modos de produção e consumo, sobre suas contradições com as pessoas e a própria sociedade. Integrar a escola no seu cotidiano escolar, por meio da pesquisa participante com a observação participante, foi um passo decisivo neste trabalho, pois seria necessário permanecer naquele ambiente onde mesmo com a pandemia da COVID-19 era necessário seguir por um período considerável de tempo para que pudéssemos dar validade à pesquisa, para envolver-se no cotidiano, aproximar-se daqueles que estavam presentes na escola. Na concepção do MHD, o mundo empírico permite conhecer as manifestações aparentes da realidade. Entretanto, este mundo empírico não é para ser apenas narrado e descrito pura e simplesmente, mas interpretado nas suas perspectivas históricas, sociais, econômicas etc. Assim, como pressuposto, no processo investigativo, o objeto sempre deve ser desvelado em sua totalidade, por aquilo que somos capazes de observar, mas também tal qual por aquilo que ele não se mostra. É preciso que sua essência seja revelada por inteiro, num processo de contrários que serão revelados por meio da ciência (BENITE, 2011). Há um movimento do objeto para o sujeito e do sujeito para o objeto, da análise da totalidade, que também é decomposta em suas partes e, pela contradição, pelo movimento, transforma a realidade, de volta para o todo. Para Kosik37, (1976 apud BENITE, 2011, p. 9), o método investigativo se articula em três graus: minuciosa apropriação da matéria com pleno domínio material, nele incluídos todos os detalhes históricos aplicáveis disponíveis. análise de cada forma de desenvolvimento do próprio material; investigação da coerência interna, isto é, determinação da unidade de várias formas de desenvolvimento. [...] o MHD se institui como concepção de mundo, de realidade e de vida no seu conjunto. Assim, antecede o método de investigação uma vez que este se constitui em uma espécie de mediação de apreender, revelar, expor as estruturas de desenvolvimento e transformação dos fenômenos sociais, significando um rompimento com o pensar da ideologia dominante. Buscamos ultrapassar as manifestações imediatas e empíricas do objeto para adentrar às suas particularidades, nos seus contextos de manifestação e desenvolvimento mediante os diversos fenômenos sociais. Segundo Miura (2018, p. 3), “A pesquisa sobre políticas educacionais sugere a análise sob a perspectiva histórica no sentido de desvelar os conflitos, contradições, interesses e ideologias que se colocam por trás da implementação de tais políticas37 KOSIK, K. Dialética do Concreto. Trad. Célia Neves e Alderico Toríbio. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1976. 103 [...]”, assim é preciso reconhecer que o campo educacional é um campo de investigação histórica. Para Tanamachi e Viotto Filho (2012, p. 31): De acordo com a concepção marxiana, o caminho para se conhecer a realidade tem seu ponto de partida com a delimitação das relações mais simples e determinantes até a totalidade social nas suas múltiplas relações e desta, novamente, às determinações mais simples. Somente assim, considerando a relação dialética entre singular, particular e universal, pode-se compreender a realidade como síntese de muitas determinações. A articulação entre as categorias do MHD, singularidade, particularidade e universalidade contribuiu para as reflexões e análises sobre a ETI em si e dentro de seu contexto municipal, por meio de sua política pública que por hora se vê enfraquecida tanto em nível municipal, como em nível nacional. Permitiu, também, olhar para o PPP e concebê-lo numa análise dentro de um contexto maior (cultura instituída) e também nas suas singularidades e particularidades (na cultura instituinte). Então, foi preciso olhar para as partes, para voltar à totalidade e buscar superar visões imediatistas e idealistas acerca da ETI, do PPP, da educação integral, da função social da escola etc. Com isso, as entrevistas à gestão escolar, os questionários aos professores, o diário da observação participante da pesquisadora, o próprio cotidiano escolar e o PPP, integraram um processo dinâmico do pensamento, pelas abstrações, reflexões, teorias e análises das contradições existentes, que possibilitaram chegar a um pensamento elaborado e mais completo a partir da realidade observada. Elas seguiram sendo elucidadas no decorrer do trabalho, mais especificamente nas seções sete e oito. O cenário analisado desta instituição social (a ETI) requer um movimento real de mudanças acerca dos limites encontrados em seu contexto perante a sociedade. 104 5 A ESCOLA COMO INSTITUIÇÃO SOCIAL MEDIANTE OS IMPACTOS VIVIDOS NA SOCIEDADE: O COTIDIANO ESCOLAR DA ETI E A COVID-19 Esta seção foi criada para retratar como o cotidiano da ETI foi modificado devido à pandemia e como o SME buscou caminhos para dar continuidade à oferta do ensino, as questões aqui tratadas elucidam o quanto a escola foi impactada apresenta, ainda, as ações e atos normativos que conduziram os rumos da escolas municipais de Araçatuba. Além disso, a seção oferece pistas de como foi sendo possível a pesquisadora adentrar na escola e realizar a sua pesquisa participante. Vimos, neste século XXI, que a chamada globalização herdou um significado diferenciado diante da evolução humana, impondo para a vida das pessoas mudanças que não foram estabelecidas por elas próprias. A representação de uma sociedade quase que integralmente sem fronteiras, que se desenvolve freneticamente, vive hoje um problema mundial de saúde com a pandemia da COVID-19, que impactou as estruturas até mesmo das grandes potências e, ao mesmo tempo, impactou profundamente o cotidiano das pessoas, dizimando vidas e ampliado ainda mais as desigualdades sociais. Sabemos que, diante dos contraditórios avanços das tecnologias digitais, das ciências, da comunicação e da informação, que geram riquezas e ampliam as possibilidades humanas em diferentes aspectos, ainda não se é capaz de lidar com a fome e a pobreza e com os extremismos que impedem uma evolução mais justa e equânime da sociedade. Especificamente, a pandemia da COVID-19 demonstrou que a evolução humana mudou o seu eixo diante daquilo que a sociedade já conquistou, ela chegou a todos e não fez acepção pela pobreza ou riqueza, por etnias, ou crenças religiosas, simplesmente, ceifou vidas nos diferentes continentes do planeta. Um vírus de alta mortalidade colocou, a princípio, a dúvida de sua periculosidade dando aos poucos, sinais de sua potência e por um período curto de tempo, maximizou os problemas sociais como as desigualdades, a falta de saneamento básico, a crise na saúde, na economia e na política, numa escala mundial. Também verificou-se no decorrer do ano de 2020, ano que a pandemia se instala no Brasil, o impacto direto na vida das pessoas, uns mais apáticos ao que estava acontecendo ao seu redor, outros mais atentos e já vivendo crises de ansiedades, outros que manifestavam seu baixo nível de empatia em reconhecer no outro a dor, o sofrimento, a necessidade. Enfim, todos foram afetados em maior ou menor grau chegando em 2021 com altos índices de mortes, contágios e a busca pelas vacinas. A pandemia marcou um caminho de desconstrução para as pessoas, fazendo com que as opiniões, atos normativos, medidas sociais de saúde, políticas e econômicas perdessem a força ou a validade em poucos dias ou semanas, obrigando uma ação 105 constante na luta para encontrar os melhores caminhos que guiassem os diferentes seguimentos sociais. Dentro desse contexto, a escola. No Brasil, depois da democratização do ensino vive atualmente o maior impacto na sua oferta, não havendo na história mais recente o registro de um lapso temporal (letivo) tão longo que tenha retirado os alunos dos bancos escolares, seja da Educação Básica, do Ensino Superior, cursos técnicos e dos programas de pós-graduação públicos ou privados. Passado um século da Gripe Espanhola, que devastou vidas de milhões de pessoas no mundo, a história nos colocou novamente num cenário complexo, já tendo decorrido cem anos, os avanços ocorridos em todas as áreas seja científica, humana ou tecnológica, não foram capazes de oferecer caminhos mais promissores para conter, em menor tempo, o vírus Sars-Cov-2. Certamente que as especificidades desta pandemia devem ser consideradas, as mutações do vírus, o contexto de seu surgimento (ainda incerto) etc. Mas, em tese, considera-se que a sociedade avança e as realidades se modificam para melhor, o que nos fez e faz pensar em respostas mais rápidas e coerentes às necessidades das pessoas não fossem as forças pelas quais a sociedade se move, as forças da luta pelo poder e de uma economia embalada por interesses que, em sua grande maioria, não privilegia efetivamente o bem estar da grande população. Nesse contexto, a instituição social escola compôs ‘um’ dentre os diferentes órgãos ou instituições da sociedade que viveu e vive o desafio de lidar com esse problema de saúde. Ela foi diretamente afetada impactando suas atividades pedagógicas e administrativas, seus profissionais, alunos e famílias. A grande perspectiva vivida até hoje é a de que tudo minimamente se normalize, pois já se passaram quase dois anos convivendo com os riscos, com o medo, com a ansiedade e, atualmente, estamos, paulatinamente, caminhando na cobertura da terceira dose da vacina na população. A escola, ao longo de 2020, passou pelo desafio de ter que se reinventar diante da pandemia da COVID-19 e ficou nas mãos dos profissionais da área dar continuidade ao processo educacional do país, nele garantindo o direito do aluno aprender. Diante de todas as ações referentes ao momento social vivido, perante as leis, decretos e opiniões recaiu sobre o cotidiano escolar à custa de muito esforço por parte do gestores e professores, a responsabilidade de fazer a ponte das decisões governamentais junto aos alunos e famílias. Diante das necessidades seculares que a escola já possui foi preciso, então, lidar com essa repentina mudança nas formas de oferecer o ensino e promover o desenvolvimento do aluno. É certo que já temos percorrido caminhos mais claros na condução da educação nos dias atuais fazendo o uso das tecnologias, das aulas remotas ou do ensino híbrido, mas já sabendo dos prejuízos causados na formação do aluno quando ele, por exemplo, não teve 106 recursos (de toda ordem)para acompanhar o processo de ensino e de aprendizagem, ampliando- se as defasagens educacionais. Também o professor que se viu trocando a roda com o carro em movimento, lidando com seus parcos recursos, sobretudo, os tecnológicos e com as incertezas do como ensinar, reforçando ainda mais a necessidade de uma formação continuada que o coloque mais próximo de conhecimentos que atendam às necessidades atuais da escola. Nessa trajetória, a presente pesquisa também sofreu alguns percalços, pois foi interrompida na fase de produção dos dados empíricos, gerando expectativas marcadas por muitas angústias e incertezas por parte da pesquisadora e que pouco avançou na análise do cotidiano escolar se pensado a partir das primeiras versões do projeto desta pesquisa. O cotidiano escolar figura como um dos eixos centrais do trabalho, conforme será possível observar no desenvolvimento teórico deste trabalho, mas precisou ser visto sob novas lentes diante do vivido em sociedade. Para que haja a compreensão de como a pandemia da COVID-19 impactou a escola, mudando as formas de ofertar o ensino, seguiremos descrevendo parte do que foi proposto no SME de Araçatuba que, assim como os demais sistemas, em diferentes localidades do país buscaram construir seus caminhos para a oferta do ensino. O Decreto nº 21.270, de 16 de março de 2020, adota no âmbito da Administração Pública Municipal as medidas temporárias e emergenciais de prevenção quanto à COVID-19, e regulamenta o setor público, no qual suspende as aulas presenciais a partir de 23 de março de 2020, das escolas subordinadas à SME de Araçatuba, sendo que, de 16 a 23 daquele mês, tal medida suspensiva já teria a sua adoção gradual. Na sequência, o Decreto 21. 272, de 17 de março, declara no município Emergência em Saúde Pública e o Decreto nº 21. 283, de 20 de março, acrescenta novos dispositivos ao Decreto nº 21.272, além de regulamentar dentre diversas situações, a suspensão do funcionamento das creches do município e de suas conveniadas, a partir de 21 de março de 2020, recomendando a mesma orientação para as creches particulares. Os documentos legais municipais encontraram respaldo em legislações maiores da administração pública (federal e estadual) correspondentes às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) que decretou o estado de pandemia em 11/03/2020 (ARAÇATUBA, 2020). O alastramento do vírus que já ultrapassava continentes, colocava para o mundo a necessidade de adotar medidas de proteção e prevenção aos riscos que expunham à morte a população mundial. Diante dos sinais de alerta que a COVID-19 colocava em evidencia, nos decretos publicados, Araçatuba visou atender às determinações da Presidência da República e ao Ministério da Saúde que, por meio da Portaria nº 188, de 3 de fevereiro, declarou Emergência 107 em Saúde Pública de Importância Nacional no país tendo, logo em seguida, a Lei Federal nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, que estabeleceu o enfrentamento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional e a Portaria nº 356, de 11 de março, que dispunha sobre a regulamentação e operacionalização do disposto na lei federal. Além disso, por igual necessidade, o município se respalda no Decreto Estadual nº 64. 862, de 13 de março de 2020, que também regulamentou medidas temporárias e emergenciais de prevenção ao vírus, nos âmbitos público e privado estadual (ARAÇATUBA, 2020). Ainda, na esfera estadual tivemos o Decreto nº 64.881, de 22 de março de 2020, que estabeleceu a quarentena de 24 de março a 7 de abril de 2020; e o de nº 64.994, de 28 de maio de 2020, que estabeleceu a extensão da quarentena até 15 de junho de 2020, sucedendo-se pelo Decreto nº 65.088, de 24 de julho de 2020, ampliando a quarentena até 10 de agosto. Já no município, essa prorrogação que guarda coerência com a regulamentação estadual, foi o Decreto nº 21.467, de 32 de julho de 2020. A SME, assim como muitos órgãos da educação nas diferentes esferas governamentais, iniciou uma organização diferenciada na busca por caminhos que pudessem dar continuidade aos processos de ensino e de aprendizagem nas escolas. A pandemia foi se propagando e com ela as incertezas sobre o vírus, sobre a proliferação, formas de lidar com a higienização, com as medidas de isolamento, ela nos colocou dúvidas em relação ao tempo em que a ciência descobriria a ‘cura’, ou uma vacina que combatesse o vírus. Diante das incertezas e do tempo necessário para isso, logo que houve a suspensão das aulas no município de Araçatuba na rede municipal, ocorreu a antecipação do recesso escolar que foi, posteriormente, regulamentado pela Resolução SME nº 05, de 21 de maio de 2020, que regulamentou a “[...] reelaboração do Calendário Escolar das Escolas Municipais de Ensino Fundamental para o ano letivo de 2020” (ARAÇATUBA, 2020, p. 1). Assim que as aulas foram suspensas, o recesso, para o professor e demais profissionais da educação, regidos pela Lei nº 204/2009, que dispõe sobre a reorganização do estatuto, plano de carreira, vencimentos e salários do magistério municipal (ARACATUBA, 2009), foi antecipado e vigorou no período de 23/03 a 06/04/2020. Seguindo nesta explanação, a SME, então, publicou a Resolução SME nº 04, de 02 de abril de 2020, que dispunha sobre a organização das atividades complementares de educação a distância nas Escolas Municipais de Educação Básica e orientações às famílias, no período que perdurasse o isolamento social em razão da COVID-19 (ARAÇATUBA, 2020). De igual modo, referida resolução baseou-se nas legislações38 já publicadas nos âmbitos federal, estadual e 38 Além das citadas, por ocasião do primeiro Decreto Municipal de nº 21.270, de 16 de março de 2020, a Resolução nº 04/2020 foi embasada pelos seguintes atos legais: Portaria da Presidência da República, nº 356, de 11/03/2020; Decreto Federal nº 10.282, de 20/03/2020; Medida Provisória da Presidência da República nº 934/2020; Decreto 108 municipal, seguindo as recomendações estabelecidas para o combate ao vírus. Ela, veio regulamentar o trabalho a ser realizado com os alunos em seus lares. Chamaram de atividades complementares de educação a distância, padronizadas e organizadas pela equipe de Orientação Pedagógica da SME aos alunos do Ensino Fundamental regular, da EJA e às crianças da Educação Infantil. O artigo 2º da Resolução regulamenta que: Art. 2º - As atividades complementares de Educação a Distância destinadas aos alunos de cada ano escolar, serão disponibilizadas quinzenalmente, a partir do dia 7/04/2020 nas mídias sociais, em especial na página da prefeitura municipal de Araçatuba e a partir de 09/04/2020, por meio de um cronograma de atividades complementares que deverão ser acessadas pelos alunos ou pais no Sistema Demandanet pelo endereço – araçatuba.demandanet.com. Poderão ser disponibilizados materiais por outros meios eletrônicos definidos pelas equipes escolares, bem como por meio de material impresso a ser distribuído aos pais ou responsáveis, que não tiveram como acessar os meios eletrônicos disponibilizados (ARAÇATUBA, 2020, p. 3, grifo dos autores). A SME disponibliza para a sua comunidade escolar um material padronizado de atividades complementares mínimas e responsabiliza os profissionais da escola, sobretudo, os professores para, a cada 15 dias, inserirem essas atividades no Sistema Demandanet. Essa atividade foi sendo gradativamente assimilada e incorporada pelos professores, haja vista que era necessário lidar com o sistema on-line para que pudessem disponibilizar o material à comunidade, atendendo ao Ensino Fundamental, à EJA e à Educação Infantil. A ferramenta seria o principal meio de comunicação junto aos alunos e famílias para que fosse dada continuidade à oferta do ensino, podendo valer-se das atividades impressas quando o recursotecnlógico não estivesse ao alcance das famílias. Resguardaram-se as especificidades da Educação Infantil, na qual os pais e/ou responsaváeis legais, se tornaríam os interlocutores do processo, oportunizando e desenvolvendo as atividades junto às crianças, mediante as orientações recebidas da equipe de coordenação pedagógica da SME, responsavél por esse nível de ensino. Cada escola foi autorizada a acrescentar “[...] outras atividades pertinentes ao desenvolvimento de sua turma.” (ARAÇATUBA, 2020, p. 5). Tais atividades nos remetem a pensar que teriam como objetivos tanto atender às demandas locais quanto ao aprendizado do aluno, respeitando o desenvolvimento das turmas, atendendo aos interesses da comunidade escolar, mas a resolução não trata a questão pormenorizadamente e não impõe, neste primeiro Estadual nº 64.879, de 20/03/2020; Decreto Legislativo Estadual nº 06, de 20/03/2020; Resolução da Secretaria do Estado de Saúde, nº 27, de 13/03/2020; Resolução Estadual do Centro de Contingência do Coronavírus nº 27, de 13/03/2020; Decreto Municipal nº 21.287, de 22/03/2020; LDBEN nº 9.394/1996, art. 4º, VIII e 32, § 4º; Deliberação do Conselho Estadual de Educação nº 177/2020; Deliberação do Conselho Municipal de Educação nº 01/2020; CF/1988, art. 208, VII, Lei Federal nº 8.742/1993, art. 22; Lei Federal nº 11.947/2009, art. 3º. 109 momento, que a medida seja concretizada. Concernente a essa proposta, a escola participante desta pesquisa foi pioneira no sentido de oferecer à sua comunidade escolar atividades que acrescessem às ‘complementares míninas’ encaminhadas pela SME, utilizando o Google Forms para a elaboração de atividades preparadas pelos professores da unidade, buscando garantir as especificidades de suas turmas, mediante as possiblidades mínimas que as propostas via Sistema Demandanet ofereciam. Segundo o depoimento da Coordenadora Pedagógica, houve muitas reclamações por parte dos professores, pois muitos desconheciam a ferramenta e achavam difícil a utilização, sobretudo, utilizando o Sistema Demandanet para incluir esse material. Mas, com o apoio, dedicação e colaboração entre a equipe escolar, teve a adesão da maioria na utlização do Google Forms. A escola, também, além de pioneira no uso dos formulários Google, acabou servindo de exemplo para que a proposta ganhasse vida nas demais unidades do Ensino Fundamental. No decorrer das sucessivas prorrogações da quarentena, as escolas funcionaram em sistema de revezamento de funcionários, de modo a evitar as aglomeações, mantendo minimamente o atendimento à comunidade. Os professores estavam autorizados a trabalharem em Home Office, devendo arcar com os recursos tecnológicos, o acesso à internet e com a ligações telefônicas no trabalho de acopanhamneto do desenvolvimento das atividades pelos alunos e para tirar dúvidas surgidas em relação a todo o trabalho ligado às atividades pedagógicas e ao sistema. Caso não tivesssem recursos de trabalho disponíveis, poderiam utilizar os ambientes e recursos da escola, assegurado o revesamento dos profissionais (ARAÇATUBA, 2020). As escolas permanceram abertas e seus profissionais passaram a trabalhar em escalas de plantão, respeitados os afastamentos do chamado grupo de risco. A mesma resolução estabeleceu o funcionamento das escolas, no mínimo, das 8h às 12h e das 13h às 17, com um profissional docente, outro não docente, juntamente com a equipe de limpeza. Cada unidade escolar deveria constituir uma Comissão Pedagógica Emergencial, composta pelo diretor, pelo coordenador pedagógico e por três professores da unidade, responsável pela otimização do envio e realização das atividades que passaram a ser disponibilizadas a cada quinzena pela SME, subsidiando e apoiando os professores que enfrentassem dificuldades para propor a educação a distância, bem como, auxiliar na impressão, distribuição e no recolhimento das atividades de alunos sem acesso aos meios digitais. Após disponiblizado o material, passados três dias, não havendo o retorno das respostas pelos alunos no Ensino Fundamental, os professores deveriam entrar em contato com o pais e/ou responsáveis para saber as razões e tirar as possíveis dúvidas. A Educação Infantil seguiu com a mesma orientação, mas, no caso, os pais seriam consultados se fizeram ou não as atividades 110 propostas com seus filhos. O diretor membro da comissão emergencial, a cada semana, ficou responsável por registrar as atividades propostas e o acompanhamento de todo o processo com vistas a apresentar os relatórios ao conselho de escola e à SME para a homologação da compensação dos dias letivos, caso fossem necessários (ARAÇATUBA, 2020). Como os períodos de quarentena foram sucessivos, a medida da compensação dos dias letivos se fez necessária. A Resolução SME nº 04/2020, ainda regulamentou que, além do professores do ensino regular, os professores das oficinas pedagógicas das ETI ficassem responsáveis por atenderem a comunidade por meio de um telefone 0800. Tal medida seria mais um canal para atender pais e alunos, caso eles não conseguissem falar com o próprio professor de cada turma. Esses docentes de oficinas, num primeiro momento, ao se responsabilizarem pelo 0800, estavam desobrigados de comporem as escalas de revezamento de suas unidades escolares, conforme apontou tal ato normativo. Porém, o que foi observado na escola participante da pesquisa é que eles foram escalonados a cumprirem os plantões. O que chamou a atenção foi que esses professores em específico responderiam por todo o SME pelo 0800, com isso, atenderiam dúvidas que necessariamente não seriam das escolas a que pertenciam, o que possivelmente poderia expô-los ao pouco domínio sobre as atividades propostas por outras escolas, pricipalmente aquelas que excediam às disponiblizadas pela secretaria de educação. Com isso, os professores das oficinas encarregados de atenderem esse canal de comunicação, deveriam dirimir dúvidas que viessem a surgir em todo o sistema, mas lidariam com o improviso no sentido de corresponder aos questionamentos de atividades não preparadas por eles. No que diz respeito aos processos avaliativos e quanto ao registro das atividades realizadas durante o isolamento social, a Resolução SME nº 04 orienta que a regulamentação seria proposta em norma específica posterior, mas, desde a sua publicação, todas as atividades complementares realizadas pelos alunos por meio digital ou impresso, já seriam computadas como atividades complementares letivas, considerando os conteúdos e habilidades previstas para cada ano escolar, devendo o professor manter seus registros, conforme orientações à época disponiblizadas (ARAÇATUBA, 2020). As ações dos professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), de Arte e de Educação Física e a Equipe Multidisciplinar, corresponderiam ao processo desenvolvido nas escolas a partir de suas especialidades, contribuido com a comunidade escolar no desenvolvimento de orientações aos familiares para que os alunos continuassem a ser estimulados no ambiente domiciliar no caso do AEE. Da mesma forma, deveria ocorrrer a promoção de atividades voltadas às áreas de Arte e Educação Física a serem propostas via 111 Sistema Demandanet e outras formas digitais, bem como a produção de materiais pelo pessoal da equipe multidisciplinar, em parceria com a área de enfermagem e com o intérprete de libras, para fortalecer as relações familiares e o controle emocional frente ao isolamento imposto pela pandemia (ARAÇATUBA, 2020). Essas dinâmicas que foram se configurando nas escolas, direção e coordenação pedagógica tinham como atividades precípuas o registro e o aconpanhamento de todo o processo, visando garantir todo o trabalho da equipe e o aprendizado aos alunos. A coordenação ficou responsável em dar continuidade aosestudos do Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) e do Horário de Trabalho e das Horas de Trabalho de Desenvolvimento de Projetos e Pesquisas (HTPP) em consonância com as orientações do Departamento de Educação da SME. Ainda retratando a realidade do município, a secretaria de educação passado mais de um mês da primeira resolução que dispôs sobre as atividades complementares de Ensino à Distância, publicou a Resolução SME nº 05, de 21 de maio de 2020, que visou a reelaboração do calendário das escolas municipais de Ensino Fundamental para o ano letivo de 2020, com o intuito de assegurar o cumprimento das horas letivas estabelecidas pela LDBEN nº 9.394/1996 e atendendo à medida provisória nº 934/2020 da presidência da república, que flexibilizou o cumprimento dos dias letivos, mas não o cumprimento da carga horária de, no mínimo 800 horas. A resolução, também pautada no rol de legislações acerca da pandemia já expedidas nos níveis nacional, estadual e municipal, com acréscimo da Deliberação Estadual de São Paulo CEE 177/2020, que fixa as normas para a reorganização dos calendários escolares e do parecer do Conselho Nacional de Educação nº 05, de 28 de abril de 2020, trouxe ao município a necessidade de adequação ao momento vivido e coloca para as escolas municipais o dever de organizarem o calendário visando a garantia de atividades escolares para fins de atendimento dos objetivos de aprendizagens previstos nos currículos da Educação Básica, para o cumprimento de no mínimo 800 horas letivas de efetivo trabalho escolar, em caráter não presencial, para os alunos do Ensino Fundamental e da EJA. Assim estabelece seu artigo 3º: Art. 3º - Haverá a realização das atividades pedagógicas não-presenciais (mediadas ou não por tecnologias digitais da informação ou comunicação) enquanto persistirem restrições sanitárias para a presença dos estudantes nos ambientes escolares, decorrentes do COVID 19 – Coronavírus, garantindo ainda as demais cargas horárias previstas, e realização de atividades pedagógicas não-presenciais concomitante ao período de aulas presenciais, quando do retorno das atividades presenciais (ARAÇATUBA, 2020, p. 2). A realização dessas atividades visavam, conforme consta na resolução, a não ocorrência de um retrocesso de aprendizagem por parte dos estudantes e a perda do vínculo com a escola, 112 devendo compor no máximo 30% das horas letivas, com o cômputo máximo de três horas diárias e registradas sistematicamente para a validação dessas horas, considerando por classe, no mínimo, o retorno de 75% das atividades não presenciais pelos estudantes. Para isso, era preciso a comprovação se foram e como foram desenvolvidas as atividades para cada etapa e modalidade de ensino, dizendo dos recursos utilizados nesse trajeto, assegurando por meio dos relatórios e acompanhamento da evolução das atividades o cômputo da hora-aula, após, é claro, a validação da direção da unidade e da Supervisão de Ensino da SME (ARAÇATUBA, 2020). A resolução também leva em conta a possibilidade de retorno gradual das atividades presenciais, seguidas das orientações das autoriedades sanitárias e, com isso, estabelece o ano letivo para o ano de 2020 de 04/02 a 21/12, já computado o recesso escolar no ínício do ano com suspensão das aulas devido à COVID-19, de 23/03 a 06/04 e, o segundo recesso, foi demarcado para o final do ano letivo de 23 a 31/12 de 2020. Também regulamentava o número de reuniões do Conselho de Escola, reunião de pais, assim como os Conselhos de Ciclo e as reuniões coletivas que deveriam acontecer com a presença de todos os profissionais da escola. Diante disso, as escolas permanceram em atendimento remoto e em escalas de revezamento, sendo disponibilizadas as quinzenas de atividades complementares mínimas de educação a distância e as atividades extras que os professores tinham a possibilidade de oferecer em suas comunidades escolares locais. Para dar legalidade às atividades e considerá-las no decorrer do ano letivo, o acompanhamento das atividades deveria seguir devidamente organizado. Assim, o registro por classe de todas as atividades pedagógicas não presenciais se configuraria como o comprovante mais adequado para a composição da carga horária exigida no ano letivo. E, como o isolamento foi se prolongando no decorrer do ano letivo, as questões relativas às avaliações dos alunos também passaram a ser consideradas. A Resolução SME nº 05/2020, então regulamentou: Art. 9º - Para a avaliação da aprendizagem dos estudantes e aferição/registro de notas bimestrais deverão ser considerados os seguites critérios: I- Sondagem inicial realizada presencialmente no início do 1º bimestre – até 3 pontos; II- Participação e avaliação realizada presencialmente, antes do período de afastamento – até 2 pontos; III- Realização das atividades não presenciais (meios digitais ou impressos) – até 2 pontos; IV- Cumprimento dos prazos para o retorno das atividades não- presenciais na palataforma Demandanet ou entrega de material impresso no prazo a ser estipulado – até 2 pontos; V- Interação dos estudantes-família-escola no período de isolamento social – até 1 ponto. VI- As disciplinas de Arte e Educação Física serão avaliadas no retorno presencial. 113 Parágrafo Único: Caberá à Comissão Pedagógica Emergencial avaliar casos específicos não previstos neste artigo, podendo esses casos serem avaliados posteriormente ao retorno presencial (ARAÇATUBA, 2020, p. 4-5). Tendo transcorrido o semestre, no mês de julho, as notas do primeiro bimestre letivo foram disponibilizadas para os pais e/ou responsáveis legais, via Sistema Demandanet. Um comunicado foi expedido nesse sistema, explicando a forma como os filhos foram avaliados, considerando os critérios da Resolução SME nº 05, bem como foram oferecidas orientações para o acesso às notas. Foi salientado no comunicado que “[...] Neste ano, não haverá atribuição de notas nas oficinas curriculares (alunos que estudam em tempo integral)”39 e as notas dos componentes de Arte e Educação Física, no primeiro bimestre, também seguiriam sem notas aos alunos. Essa resolução ainda regulamenta que, se houvesse o retorno presencial dos alunos no ambiente escolar, deveria ser realizada uma avaliação diagnóstica, tendo em vista observar o desenvolvimento dos objetivos de aprendizagem, propostos no decorrer das atividades presencias, bem como construir um programa de recuperação, caso necessário, “[...] para que todas as crianças possam desenvolver de forma plena o que é esperado de cada uma ao fim de seu respectivo ano letivo” (ARAÇATUBA, 2020, p. 4). Devendo as unidades escolares organizarem programas de revisão das atividades presenciais iniciais e das não presenciais para suprir as dificuldades e defasagens que ainda se fizessem presentes (ARAÇATUBA, 2020). No mês de junho, transcorridos mais de dois meses da publicação da Resolução SME nº 04, que regulamentava as atividades complementares de educação a distância, foi publicada a Resolução SME nº 06, de 19 de junho de 2020 que veio, ao nosso ver, organizar questões que ficaram pendentes na regulamentação anterior, assim tratou desde a extensão de sua medida perante as escolas até mesmo quanto à reoganização de nomenclaturas e propostas de atividades pedagógicas e administrativas a serem desenvolvidas. Ela se repete em vários pontos em relação à Resolução SME nº 04, fazendo acréscimos. Entendemos que o documento buscou adequar- se não só à necessária extensão do período do afastamento às aulas presenciais, como buscou regulamentar medidas adequadas à assegurar que todo o processo desenvolvido pela SME e pelas escolas, validasse o ano letivo de 2020. Senão, vejamos: Considerando a necessidade de atualização e aperfeiçoamento do processo de organização das atividades não presenciais nas Escolas Municipais de EducaçãoBásica (EMEBs) e nas instituições educacionais filantrópicas conveniadas e orientações às famílias previstos na Resolução nº 04/2020 enquanto perdurar o 39 Informação disponível em: . Acesso em: 11 ago. 2020. https://www.aracatuba.demandanet.com/smerp2010/portal_doc/324.PDF 114 isolamento social decorrentes das medidas preventivas de combate ao Coronavírus – Covid-19. Tendo em vista que essa ação visa subsidiar as unidades escolares no planejamento, registros e acompanhamento do processo pedagógico e administrativo no âmbito do Programa Estudo no Lar (ARAÇATUBA, 2020, p. 2-3). Percebam que agora estamos falando do Programa Estudo no Lar (com início em 20/07/2020) e não mais em atividades complementares mínimas de educação a distância, pois o que vinha sendo desenvolvido não se caracterizava como a modalidade de Educação a Distância, apenas tínhamos atividades disponibilizadas por meios digitais onde os professores acompanhavam se estavam sendo cumpridas ou não. Englobou com a nova resolução as instituições educacionais filantrópicas, que são as conveniadas, de responsabilidade do município. Definiu uma nova nomenclatura para as atividades organizadas pela SME, que foram disponibilizadas, quinzenalmente, desde o dia 07/04/2020, nas mídias sociais e a partir do dia 09/04/2020, por meio do Sistema Demandanet, chamadas agora de atividades padronizadas que são: Atividades organizadas contemplando conteúdos mínimos essenciais e disponibilizados ao aluno pela equipe de orientação da SME, pela plataforma Demandanet/ou por outros meios eletrônicos definidos pelas equipes escolares, bem como por meio do material impresso a ser distribuído aos pais ou responsáveis, que não tiverem como acessar os meios eletrônicos disponibilizados (ARAÇATUBA, 2020, p. 3). Por outro lado, buscaram adequar e conceituar o que denominavam como atividades complementares, agora, são as exclusivamente compreendidas como aquelas que são disponibilizadas pela equipe escolar “[...] a fim de atender as especificidades de cada turma [...]” e, “ [...] deverão promover um ritmo diário de estudos, garantindo assim a continuidade das aprendizagens, bem como o desenvolvimento de conteúdos e habilidades previstas nos planos escolares [...]” (ARAÇATUBA, 2020, p. 3-4) e não substituiriam, em hipótese alguma, as padronizadas. Seguiram, também, disponibilizadas nos canais digitais as atividades padronizadas para a Educação Infantil, para o Ensino Fundamental, atendendo as disciplinas de Arte e de Educação Física e materiais para a EJA. Se houvesse necessidade eminente, e para garantir que os alunos desenvolvessem seus trabalhos, os professores poderiam realizar orientações presenciais às famílias em dias e horários pré-agendados, guardadas todas as medidas preventivas divulgadas pelos órgãos competentes da saúde. A Resolução SME nº 06/2020 contempla anexos para serem preenchidos pelos professores do Ensino Fundamental regular, pelos da EJA, do AEE e pelos professores de Arte e de Educação Física, são os anexos: 115 - Anexo I – Campo de atuação do Professor/meios de comunicação com as famílias/informações acerca da disponibilização e acompanhamento das atividades encaminhadas pelo Demandanet - plataforma oficial. - Anexo I A – Ensino Fundamental – Programa Estudo no Lar, Planilha do Professor para registro e acompanhamento das atividades não presenciais, com a Tabela 1 de atividades padronizadas e Tabela 2 de atividades complementares nas quais devem ser preenchidas com: o componente curricular, objetivo das atividades, o conteúdo contemplado e o material necessário e, por fim, a Tabela 3 de ações de monitoramento de participação do aluno e/ou baixa frequência – com nome do aluno, data e meio de contato, nome do responsável e retorno do que foi acordado. - Anexo I B – Educação Infantil – Programa Estudo no Lar, Planilha do Professor para registro e acompanhamento das experiências, com 5 questões objetivas. - Anexo I C – Arte e Educação Física – Programa Estudo no Lar, Planilha do Professor para registro e acompanhamento das atividades não presenciais com: o componente curricular, conteúdo contemplado e objetivo geral das atividades, ferramentas utilizadas nas atividades e breve relato de fatos relevantes na quinzena em relação à turma. Anexo I D – PEB II – AEE – Programa Estudo no Lar, Planilha do Professor do AEE para registro e acompanhamento das atividades não presenciais com: nome da escola, professor do AEE, relação de alunos, nome do professor regular da turma, ano/série, meio de disponibilização e de comunicação e obs. Anexo I E – Coordenador Pedagógico – Programa Estudo no Lar, Planilha do Coordenador Pedagógico para registro e acompanhamento das atividades quinzenais das atividades não presenciais com: controle das devolutivas do Ciclo 1 (1º ao 3º ano) e do Ciclo 2 (4º e 5º ano), se pelo Demandanet ou outras forma de acesso, se impressas, quantidade dos que não acessaram por turmas e anos (ARAÇATUBA, 2020). Esses anexos visaram assegurar o mínimo de controle das atividades oferecidas ou pela SME ou pelas escolas, permitindo averiguar como os professores e a gestão escolar acompanharam todo o processo, além disso como foi a participação dos alunos e dos pais no auxílio de seus filhos, dentre outras questões. Não podemos esquecer que esse processo conta com o apoio da Comissão Pedagógica Emergencial do agora chamado ‘Programa Estudo no Lar’, criada em cada unidade escolar. Outras questões foram reorganizadas e acrescidas nesta Resolução SME nº 06/2020, uma, que diz respeito aos professores das oficinas curriculares das ETI, que ficaram pela Resolução SME nº 04/2020, responsáveis pelo atendimento através do canal 0800 e 116 desobrigados de trabalharem em escalas de revezamentos nas suas unidades voltam agora para suas escolas. Nessa oportunidade também passa-se a contar com o apoio e o acréscimo do trabalho dos professores das escolas com complementação educacional e dos professores e monitores dos Centros de Formação Municipal Integral da Criança e do Adolescente (CEMFICA). O novo ato legal estipulou que, se não houvesse demanda para esse canal de comunicação (0800), esses profissionais passariam a ficar à disposição da gestão escolar nas suas respectivas sedes, se integrando às ações escolares e auxiliando no acompanhamento dos alunos nas atividades não presenciais e com orientações às famílias, haja vista que a SME, também já disponibilizava as atividades específicas para as oficinas curriculares das ETI. Outra reorganização foi quanto aos professores de Arte e de Educação física, se antes estiveram nas escolas disponíveis para oferecer materiais aos alunos, a partir da Resolução SME nº 06, além de estarem nas suas escolas, eles passariam a trabalhar junto com seus Orientadores de Área na elaboração, no encaminhamento e no monitoramento de atividades específicas de suas áreas, por meio do Sistema Demandanet, demais mídias ou material impresso, uma vez que essas atividades já estavam sendo disponibilizadas juntamente com as atividades quinzenais propostas via SME, como atividades padronizadas. Quanto aos professores do AEE, a resolução também foi mais propositiva, tanto que o Anexo I D, diz respeito ao acompanhamento desses Professores de Ensino Básico - PEB II, que juntamente com a equipe de profissionais das escolas, deveriam manter a análise da necessidade e a elaboração de adaptações curriculares aos alunos público-alvo da Educação Especial, nesse sentido, a comunidade de alunos e pais poderiam contar com o apoio maior desses profissionais. Por fim, a resolução também abarcou as instituições filantrópicas educacionais, conveniadas de Educação Infantil, que passariam a elaborar um “[...] Planode Trabalho Educacional Temporário e Emergencial [...]” (ARAÇATUBA, 2020, p. 6), nele devendo constar a justificativa, metodologia, cronograma de atividades a serem realizadas, indicando a ação, o período, as ferramentas, os responsáveis pela ação, registros e avaliação, o plano de aplicação de recursos financeiros e cronograma de desembolso enquanto perdurasse o período de isolamento social (ARAÇATUBA, 2020). Essas medidas acrescidas pela Resolução SME nº 06/2020, deram maior efetividade às ações nas escolas por parte dos profissionais, visando atender os alunos, pais e/ou responsáveis legais na manutenção do atendimento ao ensino, no sentido de garantir o mínimo necessário em relação ao aprendizado do aluno. Mais especificamente, é preciso fazer menção à Resolução SME nº 08, de 14 de julho de 2020, que atuou como complemento da Resolução SME nº 06/2020. Visou com seu conteúdo disciplinar o processo de organização das Escolas de Tempo Integral, Escolas com 117 Complementação Educacional e os Centros Municipais de Educação Integral da Criança e do Adolescente do Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba (CEMFICA), vindo a implantar a obrigatoriedade da oferta de atividades padronizadas no âmbito das oficinas pedagógicas desses estabelecimentos de ensino do município. Assim, o Departamento de Educação Complementar (DEC) da SME, com vistas a complementar as atividades do currículo básico do ensino regular, passaria a oferecer as atividades padronizadas. No âmbito das escolas, com vistas a atender as especificidades dos alunos, essas atividades padronizadas poderiam ser complementadas pelos seus professores e monitores. As oficinas pedagógicas passaram a ser reorganizadas a partir de três eixos: atividades de linguagens e matemática, linguagens artísticas/atividades esportivas e motoras e, por fim, atividades de participação social e organização pessoal, as quais passaram a ser disponibilizadas quinzenalmente, juntamente com as atividades do ensino regular. A resolução não impôs obrigatoriedade de devolutiva por parte dos alunos, somente as do ensino regular, mas colocou os professores das oficinas pedagógicas a acompanharem sua realização, por meio do registro sistemático das atividades desenvolvidas a cada quinzena. Além disso, tais professores, em situações emergenciais do cotidiano poderiam, a critério da gestão escolar, auxiliar os professores do ensino regular concernente às suas turmas e, até mesmo, a própria gestão. A resolução tratou de ampliar e ressignificar o trabalho desses profissionais no segundo semestre letivo de 2020 para além do atendimento de um 0800. Vale esclarecer que a escola participante desta pesquisa já havia integrado esses profissionais nas atividades da escola, por meio do escalonamento de atendimento de toda a equipe da escola. Como medida que se estendeu ao atendimento das escolas, houve também a publicação do Decreto Municipal nº 21. 317, de 06 de abril de 2020. Essa publicação (e inúmeras outras que seguiram) acrescenta dispositivos ao Decreto n.º 21.272/2020, que declarou Emergência em Saúde Pública no município devido à COVID-19. Esse decreto autorizou e estabeleceu critérios para a distribuição de kits de alimentação escolar (cestas básicas e hortifrútis) na rede pública de ensino. Com isso, a prefeitura de Araçatuba promoveu a distribuição dos alimentos às crianças e aos adolescentes, atendendo uma de suas necessidades básicas com o intuito de amenizar os impactos sociais que a pandemia já vinha causando. Com a extensão do período de isolamento social, as famílias, de modo geral, passaram a ter maiores dificuldades para manterem seus empregos e a crise econômica se estabelecendo na sociedade fez com que a administração municipal permanecesse com a oferta dos kits alimentares até novembro de 2021, sendo encerrado o programa. Infelizmente, sabemos que, em muitas realidades, a escola figura como um canal importante de alimentação às crianças e aos adolescentes e como um direito, a administração pública municipal reservou à escola mais essa tarefa em meio a tantas que já 118 vinham sendo desempenhadas por sua atividade precípua, que é a oferta do ensino. A escola, então, se responsabilizou por garantir que o alimento chegasse às famílias. Na primeira edição da entrega de kits na escola participante, todas as famílias fizeram a opção pelo recebimento do alimento, apoiadas pela orientação e auxílio da gestão escolar para a realização da opção via sistema on-line (Demandanet). As edições seguintes mantiveram a ampla adesão dos pais. As medidas normativas40 para o ano de 2020 seguiram sendo publicadas em âmbito municipal para a prorrogação da quarentena, mantendo as aulas presenciais do sistema municipal de ensino suspensas até o final do ano letivo, em 21/12. No entanto, foi publicado o Decreto nº 21.498, de 03 de setembro de 2020, que alterou algumas questões no decorrer do período do ensino remoto que vinha sendo praticado no ensino público municipal e estadual, bem como nas escolas privadas. Abriu-se a possibilidade para esses setores, público e privado, conforme seus níveis e modalidades de atuação para a oferta de atividades presenciais de orientação de estudos e de recuperação de aprendizagem facultativas, assegurando a oitiva dos pais nesse processo e a manutenção dos protocolos sanitários estabelecidos. No sistema municipal de ensino, tal retorno seria limitado ao atendimento individualizado dos alunos (ARAÇATUBA, 2020). Esse atendimento foi regulamentado pela Resolução SME nº 12, de 10 de setembro de 2020 e dispunha sobre a implantação do Programa Movimento do Aprender nas Escolas Municipais de Araçatuba, que propôs basicamente três encaminhamentos: instituiu o programa para atuar na diminuição das dificuldades apresentadas pelos alunos do ensino obrigatório em ensino remoto; a propositura de videoaulas diárias para cada etapa e ano de escolaridade obrigatória, para alunos da EJA e para as áreas de Arte e de Educação Física; o atendimento individualizado feito pelos professores da unidade escolar, nos dias de sua escala presencial, podendo ser em dois ou três dias da semana, incluindo os professores da EJA, do AEE, Arte e Educação Física, o atendimento também poderia ser feito por outros profissionais de apoio e estagiários orientados pela coordenação pedagógica da unidade. Professores e coordenação ficaram responsáveis por levantar a relação de alunos que não estavam realizando as atividades remotas, sem acesso à internet, ou àqueles com dificuldades de aprendizagem, dentre outros fatores comprometedores ao acompanhamento do aprendizado dos alunos. Foi exigido o levantamento junto aos pais, a organização de escalas de atendimento para os cinco dias da semana, com horário de no mínimo 2 e máximo 3 horas de atendimento por aluno, devendo ser preferencialmente semanal, ou quinzenal conforme a demanda escolar, respeitando-se um fluxo escolar seguro e normas de distanciamento e 40 Decretos municipais: nº 21.467, de 31/07/2020; nº 21.471, de 10/08/2020; nº 21.488, de 24/08/2020; nº 21.508, de 05/09/2020; nº 21.513, de 21/09/2021; nº 21.528, de 13/10/2020; nº 21.545, de 16/11/2020. 119 higienização. Tais normas deveriam ser asseguradas pela Comissão de Implementação dos Protocolos Sanitários que cada escola deveria criar para a elaboração de um Plano de Contingência para Prevenção, Monitoramento e Controle do Novo Coronavírus (ARAÇATUBA, 2020). Os meses entre o terceiro e o quarto trimestre do ano de 2020, sinalizavam para a sociedade brasileira uma retomada de ações que estiveram suspensas até então, havendo em muitas localidades uma certa flexibilização para a abertura (guardados os protocolos de distanciamento e sanitização) de atividades que não eram consideradas essenciais, fato que permitiu, inclusive, a realizaçãoCentros Integrados de Educação Pública CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CONSED - Conselho Nacional de Secretários de Educação DEC – Departamento de Educação Complementar DF – Deficiência Visual DOU - Diário Oficial da União EAD – Educação a Distância EE – Educação Especial EJA – Educação de Jovens e Adultos EMEBs - Escolas Municipais de Educação Básica ECE - Escola com Complementação Educacional ETI – Escola de Tempo Integral GP FPPEEBS – Grupo de Pesquisa “Formação de Professores e Práticas de Ensino na Educação Básica e Superior” FUNDEB - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação FUNDEF - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação HTPC - Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo HTPP - Horas de Trabalho no Desenvolvimento de Projetos e Pesquisas IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ID - Código de Identificação Único IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica IDH – Índice de Desenvolvimento Humano INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira INSE - Indicador de Nível Socioeconômico LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação MHD - Materialismo Histórico Dialético NOB – Estrada de Ferro “Noroeste do Brasil” OMS – Organização Mundial da Saúde ONU - Organização das Nações Unidas PA – Pesquisa Participante PAR - Plano de Ações Articuladas PDE - Plano de Desenvolvimento da Educação PDDE - Programa Dinheiro Direto na Escola PEB I - Professor de Ensino Básico I PEB II – Professor de Ensino Básico II PEC - Proposta de Emenda Constitucional PIB – Produto Interno Bruto PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes PME – Plano Municipal de Educação PNDU - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNE - Plano Nacional de Educação PPP – Projeto Político Pedagógico PPPI - Projeto Político Pedagógico Institucional PROERD - Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência do Estado de São Paulo PROEX - Pró-Reitoria de Extensão Universitária PROFIC - Programa de Formação Integral da Criança PROEITI - Projeto de Educação Integral em Tempo Integral RDH – Relatórios de Desenvolvimento Humano SEALF – Secretaria de Alfabetização SEB – Sistema Educacional Brasileiro SEMESP - Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo SESU – Secretaria de Educação Superior SETEC – Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica SCIELO - Scientific Electronic Library Online SP – São Paulo TCLE – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais UNDIME – União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação SUMÁRIO 1 A CONSCIÊNCIA DOCENTE: A IDENTIDADE PESSOAL E PROFISSIONAL QUE SE CONSTRÓI AO LONGO DO CAMINHO.... 20 2 A EVOLUÇÃO DO TRABALHO: APONTAMENTOS INICIAIS.......... 33 3 OS CAMINHOS QUE JUSTIFICAM A PESQUISA, A TESE E OS SEUS OBJETIVOS...................................................................................... 38 3.1 A JUSTIFICATIVA DA PESQUISA ............................................................. 38 3.1.1 O levantamento bibliográfico sobre o cotidiano escolar e as interfaces da ETI.................................................................................................................. 40 3.1.2 Uma proposta introdutória: a tese e seus objetivos...................................... 48 4 O MÉTODO E A CIÊNCIA: A PESQUISA, OS INSTRUMENTOS E O CONTEXTO PESQUISADO............................................................... 55 4.1 O MATERIALISMO HISTÓRICO DIALÉTICO (MHD), A CIÊNCIA E A PESQUISA QUALITATIVA............................................................................ 55 4.2 A PESQUISA PARTICIPANTE, SUAS RELAÇÕES TEÓRICO- PRÁTICAS E SUA DISTINÇÃO DIANTE DA PESQUISA-AÇÃO............. 62 4.3 OS INSTRUMENTOS DA PESQUISA.......................................................... 81 4.4 O CONTEXTO DA PESQUISA: O MUNICÍPIO E O SEU SISTEMA DE ENSINO........................................................................................................... 83 4.4.1 O lócus da pesquisa: a Escola de Tempo Integral (ETI).............................. 90 4.5 OS CAMINHOS DE ANÁLISE DOS DADOS PRODUZIDOS..................... 101 5 A ESCOLA COMO INSTITUIÇÃO SOCIAL MEDIANTE OS IMPACTOS VIVIDOS NA SOCIEDADE: O COTIDIANO ESCOLAR DA ETI E A COVID-19................................................................................. 104 6 O APORTE TEÓRICO: A ESCOLA E O COTIDIANO, A ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL E O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO.. 123 6.1 A ESCOLA E O SEU COTIDIANO................................................................ 123 6.1.1 A estrutura da vida cotidiana na visão de Agnes Heller.............................. 126 6.1.2 A perspectiva de outros autores sobre o cotidiano e sobre o cotidiano escolar............................................................................................................. 138 6.2 A EDUCAÇÃO NO MUNDO ATUAL E A EDUCAÇÃO INTEGRAL EM JORNADAS AMPLIADAS: AVANÇOS E RETROCESSOS....................... 158 6.2.1 Os desafios da Escola de Tempo Integral (ETI) para uma Educação Integral no município de Araçatuba/SP e suas interfaces com as políticas públicas nacionais.......................................................................................... 182 6.3 O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO (PPP) E AS SUAS IMPLICAÇÕES NA ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL (ETI)..................... 190 7 AS DINÂMICAS E OS DESAFIOS DA PESQUISA: O ALCANCE DOS RESULTADOS A PARTIR DOS OBJETIVOS PROPOSTOS................... 206 8 A CHAVE FOI VIRADA: CONSIDERAÇÕES FINAIS............................ 260 REFERÊNCIAS............................................................................................. 272 APÊNDICES.................................................................................................. 286 Apêndice I - Perfil Diretor (a) de Escola....................................................... 286 Apêndice II - Roteiro de entrevista Diretor (a) de Escola............................ 289 Apêndice III - Perfil Coordenador (a) Pedagógico (a)................................. 291 Apêndice IV - Roteiro de entrevista Coordenador (a) Pedagógico (a)....... 294 Apêndice V - Questionário do Professor (a)................................................. 296 Apêndice VI - Roteiro de observação participante...................................... 307 Apêndice VII - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)..... 309 ANEXOS......................................................................................................... 312 Anexo I – Protocolo NURC........................................................................... 312 20 1 A CONSCIÊNCIA DOCENTE: A IDENTIDADE PESSOAL E PROFISSIONAL QUE SE CONSTRÓI AO LONGO DO CAMINHO Neste introdutório, coloco-me a apresentar os caminhos percorridos em minha trajetória pessoal, profissional e acadêmica, com destaque para aquilo que teve maior relevância e significado em minha história de vidadas eleições municipais que ocorreriam em outubro, alteradas em virtude da COVID-19 para 15 e 29 de novembro, primeiro e segundo turnos, respectivamente. Embalados por uma ‘falsa’ sensação de que a sociedade brasileira caminharia para a normalidade o mais breve possível, aproximamo-nos do final do ano. No entanto, à essa época, as notícias dos meios de comunicação de massa e de órgãos governamentais indicavam que em diferentes países se instalava uma nova escalada de casos de infecção do Coronavírus. Tendo já ceifado milhares de vidas desde o seu surgimento, naquele momento colocava para o mundo a chamada ‘segunda onda da COVID-19’, já intensificada, por exemplo, no continente europeu e, também, já muito expressiva em países da América, como nos Estados Unidos. Em meio a isso, seguimos para o ano letivo de 2021, de modo que as aulas no sistema municipal iniciaram com o atendimento presencial dos alunos, não mais em atendimento individualizado como o finalizado em 2020. Houve a possiblidade de os pais fazerem a opção por seus filhos ficarem exclusivamente remotos, o que foi acatado por boa parte da população escolar do sistema municipal. O retorno dos alunos matriculados seguiria as escalas estipuladas em 35% para a fase vermelha ou laranja, 50% para a fase amarela e 100% para a fase verde (escalas regulamentadas via Plano São Paulo, instituído pelo Decreto Estadual nº 64.994, de 28 de maio e 2020 e regulamentações posteriores). Assim, o município, por meio do Decreto Municipal nº 21.606, de 15 de janeiro de 2021, seguiu no atendimento em 35% do número de alunos por turma até final de fevereiro e 50% na primeira semana de março. Face ao agravamento em escala mundial da COVID-19 e a passagem do município para a fase vermelha, as aulas foram suspensas a partir de 8 de março, até 11 de abril41, sendo exclusivamente oferecidas em ensino remoto. Uma nova regulamentação permitiu o retorno às aulas em 19 de abril de 2021, foi o Decreto municipal nº 21.751, de 16 de abril de 2021. O atendimento transcorreu o 1º semestre 41 Tendo como normas regulamentadoras os Decretos Municipais: nº 21. 693, de 04/03/2021, nº 21. 708, de 18/03/2021 e nº 21.730, de 29/03/2021. 120 com alunos exclusivamente remotos e com alunos em ensino híbrido, ou seja, uma semana em ensino remoto, noutras em escalas de atendimento ao aluno com 35%, flexibilizando-se para 50% no final do semestre42. O segundo semestre letivo iniciou regulamentado pelo Decreto Estadual nº 65.849, de 06 de julho de 2021, que deu embasamento ao Decreto Municipal nº 21. 863, de 8 de julho de 2021 então publicado. Com a retomada gradual da economia e atividades comerciais e serviços gerais nas formas previstas pelo governo do estado no Plano São Paulo, seguidas pelo governo municipal, tivemos a abertura para a retomada de todas as instituições escolares públicas e privadas, nas etapas, níveis e modalidades, com a observância mínima de um metro entre as pessoas em todos os ambientes escolares, inclusive nos ambientes comuns para o desenvolvimento de quaisquer atividades. Era preciso assegurar a capacidade física das unidades escolares, admitindo-se escalonamentos de horários de entrada, saída e intervalos, o ensino se deu de modo presencial, com a continuidade das escalas com base na capacidade máxima de cada unidade escolar, mas a permanência de alunos exclusivamente remotos também foi mantida, em respeito à vontade dos pais. Em comunicado efetivado pela SME às escolas em 28 de outubro de 2021, orientou que as aulas fossem obrigatoriamente retomadas sem escalas de revezamento, a partir de 08/11/2021, conforme se observa: Sobre a obrigatoriedade do retorno presencial de todos os alunos, o Conselho Estadual de Educação através de deliberação 204/2021estabeleceu o prazo de 3 de novembro para que todas as redes de ensino sob sua jurisdição se organizassem para dar cumprimento. Para organizar sobre a questão no município de Araçatuba, a Secretaria de Educação encaminhou consulta ao Conselho Municipal de Educação que através do parecer nº3 de 27 de outubro de 2021 fundamentadamente ratificou a importância da obrigatoriedade do retorno presencial de todos os alunos matriculados na rede municipal de ensino (creche, pré-escola e ensino fundamental) (ARAÇATUBA, 2021, p. 1). Nesse sentido, as aulas foram retomadas pelos alunos do sistema municipal incluindo a obrigatoriedade para aqueles que, por escolha dos pais, estavam exclusivamente remotos. O ano letivo seguiu até o dia 21/12/2021 e com ele todas as demandas escolares específicas para assegurar a validação do calendário letivo no SME de Araçatuba. 42 Decretos Municipais regulamentadores: nº 21.757, de 23/04/2021, nº 21.766, de 29/04/2021, nº 21.778, de 07/05/2021, nº 21.790, de 21/05/2021, nº 21.801, de 28/05/2021 e nº 21.825, de 11/06/2021. Todos esses decretos disponíveis em: . Acesso em: 17 ago. 2021. 121 Vimos que as dimensões de toda essa mudança na sociedade marcaram um cenário sem muitas respostas, sobretudo, para o ano de 2020 quando fomos surpreendidos pela COVID-19, haja vista que garantir o direito à educação das crianças e dos adolescentes tornou-se um dos maiores desafios já vivido neste século. Sabemos que o dever do Estado com a educação pública prevalece, a lei guarda esse direito, mas, sem sombras de dúvidas, o dever da família ganhou uma nova dinâmica, recaiu sobre ela uma responsabilidade maior, a de lidar mais efetivamente com as aprendizagens de seus filhos, ultrapassando aquele acompanhamento muitas vezes ‘mínimo’ das tarefas escolares diárias. Tal proximidade e responsabilização deveria ser algo constante, independentemente do momento vivido, mas o dever do Estado sempre esteve em evidência e agora, guardadas todas as limitações educacionais que ainda temos, vimos uma corresponsabilização marcada entre Estado-Família na educação. Certamente que essa corresponsabilização vem permeada por inúmeros fatores, desde os culturais aos econômicos e fatalmente acabam implicando também no maior ou menor aprendizado do aluno. Face às desigualdades sociais, educacionais, culturais e econômicas presentes no país e agora acentuadas com a pandemia, amplia-se para a educação o desafio de lidar com a defasagem no processo de ensino e de aprendizagem de sua população estudantil, pois, apesar dos esforços dos diferentes estados/municípios e de seus sistemas de ensino, dos profissionais das escolas e de muitas famílias que assumiram essa luta, criou-se um lapso temporal significativo para a retomada do desenvolvimento educacional que, somado à falta de políticas e de uma governança nacional melhor estruturada e diretiva, impôs para a sociedade um trabalho de recuperação em todos os seus aspectos e setores, o que não será diferente para a educação. Mas, por outro lado, foi observado o aprendizado e a difusão de novas formas de trabalho e, para além disso, a maior valorização da escola e de seus profissionais, pois a grande população tem percebido sua importância e a sua relevância para a sociedade. Desta forma, acreditamos que tem havido uma melhor compreensão da ação do professor, uma vez que boa parte das famílias tiveram que lidar com ‘tarefas’ mais extensas de seus filhos, tiveram que ler histórias, buscar materiais, ensinar, acompanhar, enfim, oferecer condições aos filhos para aprenderem algo, um trabalho que é feito pelo professor, próprio de seu ofício, mas que, muitas vezes, não é reconhecido, tão pouco valorizado por muitos da população. Naturalmente que, diante de todo esse contexto, vimos o cotidiano de toda a sociedade se modificar trazendo-nos novas e diferentes questões para serem dirimidas, face a isso, a escolaviveu mudanças expressivas quando perpassávamos pelos altos índices de contágio e mortalidade devido à COVID-19, e foi neste cenário que a pesquisa participante, via observação 122 participante, foi realizada. A realidade vivida entra para a história da humanidade e diante das transformações ocorridas, colocou para a pesquisadora o dever de, minimamente, retratar essa realidade educacional do sistema municipal de ensino que reverberou nos caminhos de sua investigação. 123 6 O APORTE TEÓRICO: A ESCOLA E O COTIDIANO, A ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL E O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO O aporte teórico, segue desenvolvido nesta seção e nas suas subseções, alcançou vários teóricos acerca das principais temáticas que buscamos pesquisar: o cotidiano escolar, a escola de tempo integral e a educação integral e o Projeto Político Pedagógico. O conhecimento é amplo e faz avançar na compreensão da escola e do seu cotidiano, além disso abre um caminho enriquecedor para construir as análises da pesquisa. 6.1 A ESCOLA E O SEU COTIDIANO A escola e o seu cotidiano nos coloca diante de dois desafios inevitáveis, conhecer sobre o cotidiano em seus aspectos teóricos, pois quando pensamos sobre o termo “cotidiano” pode nos levar a acreditar que compreendê-lo e conhecê-lo é algo alheio à ciência. E, o outro desafio, é adentrar na prática do cotidiano (escolar) e, ao vivenciá-lo, é possível que a percepção do pesquisador possa enganar a ele próprio, pois pode querer ver apenas o que quer (o que tira a credibilidade da pesquisa), como também pode deixar de ver o que é preciso ver. Pode, ainda, sentir a pressão de não compreendê-lo, pois ele pode ser muito complexo e imprevisível, ou então, nele se integrar, interagir, se comprometer a conhecê-lo mais profundamente para fazer emergir suas potencialidades. Sigamos na compreensão desses apontamentos: o cotidiano teórico e prático, considerando a centralidade da escola e de seus indivíduos. A escola, como instituição social, tem seu cotidiano vivido e expresso diante também de uma sociedade complexa, contraditória, histórica e que não tem fim determinado. Assim, com o desenvolvimento da humanidade social e historicamente, avançam as questões e necessidades educacionais, o ensino (ainda que não ideal), as tecnologias, os valores etc. Mas, ainda nesse cenário, é preciso ter em mente que aluno quero formar, quais valores perseguir, bem como, é preciso refletir qual é a função social da escola neste século. É certo que avançamos no tempo, avançamos na história e na história da educação brasileira, mas que avanços estão na imanência do cotidiano escolar? O cotidiano escolar requer análise dedicada a compreender como ele se configura. A escola, lugar determinado a observar esse cotidiano, pressupõe, como já dito, uma tarefa de implicações teóricas e práticas a compreendê-la, pois, em contexto maior, a escola é situada histórica e socialmente. Nela, vivem pessoas que trabalham, que a conduzem, que estabelecem relações, desde as institucionais às administrativas, bem como as pedagógicas e as relações dos 124 processos de ensino e de aprendizagem. Assim, gestão escolar e professores, na dinâmica da construção do conhecimento, vivem o desafio de formar o aluno/indivíduo que conheça, compreenda, viva e interfira na sociedade. Esta, por sua vez, se formaliza em diferentes contextos, tempos e espaços, uma realidade que é marcada fortemente pelos avanços das revoluções científicas e tecnológicas, de comunicação e informação e, ao mesmo tempo, pelas contradições e dicotomias entre pobre/rico, público/privado, poder/submissão etc. Em trabalho de introdução do livro de Penin (1989), a autora menciona que a escola é uma instituição questionada por diferentes aspectos, mas que ainda se apresenta como uma instituição sólida no contexto da sociedade moderna, pois, independente da classe social, todos a reivindicam, não só para se fazerem presentes nela, mas exigem o seu aprimoramento e crescimento para que ela cumpra o que promete na formação do aluno. Qual seria, então, a função da escola? Meirieu (2005, p. 23) posiciona a escola como uma “instituição”, um “serviço público” e coloca que dentre as inúmeras ações, medidas e serviços prestados por ela, parece fácil definir a sua verdadeira função que se traduz a que todas as crianças aprendam a ler, a escrever e a contar, se apropriem dos programas escolares para o desenvolvimento pessoal, social e que tenha êxito profissional. O autor, então, nos remete a questionamentos, será que isso resolveria, será o êxito válido? Bastaria que conseguíssemos que todos tivessem êxito? Alguém aceitaria que a escola submetesse a todos os alunos a um “guru todo poderoso” que lhes encantassem, ou que ingerissem drogas capazes de torná-los ao mesmo tempo dóceis e intelectualmente competentes? Na visão do autor, não caberia tais situações a dar conta do êxito dos alunos, uma vez que, mesmo que os pais, numa eventualidade, quisessem isso para seus filhos, tais perspectivas deveriam ser prontamente recusadas, até mesmo, por imperativos éticos. Nesse sentido, ressalta que a escola, embora seja um serviço público, não é qualquer serviço, pois ela não pode ser uma “[...] máquina de ensinar e aprender. Ela não é redutível a uma lógica de “serviço público”. Ela não depende da simples eficácia de suas funções sociais. Ela remete a valores, ou, mais precisamente, a princípios” (MEIRIEU, 2005, p. 23). Perfaz-se, então, como uma complexa função, que vai além do ensinar a ler, escrever e socializar, amplia-se pelo autor a visão do exercício do serviço público, sendo que “Em uma democracia, os princípios que fundamentam a escola só podem ser encontrados nas próprias condições que possibilitam o exercício democrático” (MEIRIEU, 2005, p. 25). Ao querer ampliar os caminhos desta análise, questiona-se, que tipo de relação a escola mantém com a sociedade? Em suas buscas em conhecer sobre teorias sobre a escola e o cotidiano escolar, Penin (1989) traduziu, à época, três grupos de posições teóricas, que agora são resgatadas, uma vez que o terceiro grupo apontado na análise das diferentes políticas de 125 ação e de práticas pedagógicas faz sentido, ainda hoje, para o desenvolvimento de trabalhos investigativos. Brevemente, para o primeiro grupo, os autores (clássicos da educação como John Dewey, Decroly, Motessori) consideravam a escola e a educação como neutras, diante da estrutura e conjuntura social de um determinado país e época. Assim, “[...] As pesquisas em educação desse período, denominadas pela abordagem positivista e neopositivista da ciência, reforçavam esse posicionamento “acrítico” sobre a relação escola e sociedade”. O segundo grupo, reintroduz a força dos determinantes sociais sobre o fenômeno educativo, por considerarem a escola com estreita dependência ao contexto social. Numa sociedade capitalista, de classes, ela apenas reproduziria as diferenças de classes existentes. A diferença no rendimento escolar entre alunos, eram entendidas como a reprodução das diferenças de classe social vividas por cada um deles na sociedade de classes. Os autores “críticos-reprodutivistas” eram basicamente “Ilich (1985), Bordieu e Passeron (1975), Althusser (s.d.), e Baudelot e Establet (1971)” (PENIN, 1989, p. 4). A autora refere-se que, a partir deste pensamento provocou-se uma paralisia na prática pedagógica, visto que a contradição da escola seria uma “contradição secundária”, visto que, dependente da contradição primeira experimentada pela diferença de classes da sociedade capitalista, seria como se determinasse que a escola não poderia resolver sua contradição, antes que houvesse uma mudança revolucionária na sociedade, na superação das contradições entre as classessociais. Por fim, Penin (1989, p. 5) aponta o terceiro grupo, que [...] “originou-se de estudos menos ortodoxos do pensamento Marxista, ressaltando a obra de Gramsci (1979 e 1984)”43. A partir do trabalho deste autor sobre a análise das superestruturas, de modo especial, da sociedade civil (que incluiu o papel das grandes instituições e dos intelectuais), traz elementos que confrontam com a posição anterior, a crítico reprodutivista. Mas, não a exclui, pois considera os determinantes sociais do fenômeno educativo, agregando-se a isso que a dinâmica da relação sociedade-escola, apresenta contradições que são evidenciadas e compreendidas no movimento histórico. Assim, no dizer da autora: Por considerar o movimento histórico das contradições que ocorrem no interior da escola, esta posição tem sido denominada “histórico-crítica”. Segundo este ponto de vista, a escola, apesar de estar estruturada e organizada na atualidade para atender às necessidades das camadas privilegiadas, desenvolve tal reação e dinâmica com a sociedade que lhe possibilita servir à causa das camadas populares. Ou seja, a escola ao mesmo tempo que reproduz as desigualdades de classes presentes no contexto social – oprimindo os indivíduos pertencentes às camadas populares – é também 43 GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 3ª ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979. GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. 5ª ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984. 126 espaço onde indivíduos que a ela pertencem podem se apropriar do saber escolar, utilizando-o em benefício de seu projeto social (PENIN, 1989, p. 5). A partir desses indicativos, julgamos que a terceira posição nos oferece caminhos para analisar a realidade escolar, conhecendo sua dinâmica interna (seu cotidiano). A escola, como visto, se configura contraditória, mas está situada histórica e socialmente e, para compreender esses apontamentos, veremos a sua substância, que é a sua vida cotidiana. Seguimos um caminho que entende que os homens fazem a sua própria história, mas em condições previamente dadas, por um lado, a tese da imanência e, por outro, a da objetividade que, segundo Agnes Heller (2000) retrata a concepção marxista da história. A autora explica que a história é a substância da sociedade, substância que configura-se pelo homem, portador da objetividade social, o qual lhe cabe a construção e a transmissão de cada estrutura social. Mas essa substância não pode ser o “[...] indivíduo humano, já que esse – embora a individualidade seja a totalidade de suas relações sociais – não pode jamais conter a infinitude extensiva das relações sociais [...]”, assim, a autora coloca que a história é a explicitação da essência humana, a substância, porém não contém apenas o essencial (humano), “mas também a continuidade de toda a heterogênea estrutura social, a continuidade de valores. Por já dito, a substância da sociedade só pode ser a própria história”. Essa substância é estruturada e amplamente heterogênea, pela qual se constitui, por exemplo, por: “[...] produção, relações de propriedade, estrutura política, vida cotidiana, moral, ciência, arte etc. [...]” (HELLER, 2000, p. 3). A vida cotidiana da ETI se torna, num primeiro momento, elemento base para a compreender a instituição escola quanto à educação integral do aluno e, a partir disso, observar como o PPP se estrutura diante dessa instituição. 6.1.1 A estrutura da vida cotidiana na visão de Agnes Heller Na perspectiva de que o cotidiano é objeto de análise da ciência, foram perseguidos alguns caminhos na busca de sua compreensão, visando aprofundar o conhecimento para que, na análise da prática do cotidiano da escola, tivéssemos condições de uma visão direcionada e coerente, contrapondo-se a um olhar superficial que, muitas vezes, pode levar as pessoas a pensarem que o cotidiano se configura numa rotina de pouca importância, de fatos e atos insignificantes. No sentido de estabelecer aproximações sobre o tema, buscamos nos pautar, 127 num primeiro momento, nos ensinamentos da filósofa húngara, Agnes Heller44 (2000), que aborda sobre a estrutura da vida cotidiana e permite que, a partir dessa concepção, possamos compreender sobre o cotidiano. Como introdutório para discorremos sobre sua obra, atentamo-nos ao que dizem Maria Lívia Aguiar e Micael Herschmann (2014, p. 3): Talvez a definição mais sucinta e ao mesmo tempo mais abrangente seja a de Agnes Heller na abertura de seu clássico estudo sobre o tema: “A vida cotidiana é a vida de todo homem” (HELLER, 1985, p. 17. Grifo da autora). Na sua teoria, Heller divide a vida em atividades cotidianas (objetivadas) e não cotidianas (de certa forma as subjetivadas). Todo homem nasce no cotidiano, mas ao reproduzir reflexões teóricas, filosóficas, artísticas e políticas estaria na dimensão não-cotidiana, que, evidentemente, tem sua origem no próprio cotidiano. Ao grifar todo na frase em que define cotidiano como vida, Heller indica que qualquer um, não importa seu estágio de consciência histórica em que seja lançado ao mundo, nasce no cotidiano e aí se desenvolve. Nas colocações dos autores, evidencia-se que o homem transita em dois âmbitos, o cotidiano e o não cotidiano e, a fim de compreender esse movimento, pautamo-nos na obra de Heller, de 2000, intitulada como “O Cotidiano e a História”, na qual ela trata da “Estrutura da vida cotidiana”. Sendo assim, iniciamos com a mesma citação já utilizada por Aguiar e Herschmann, “A vida cotidiana é a vida de todo homem” e, também, “A vida cotidiana é a vida do homem inteiro” (HELLER, 2000, p. 17, grifos da autora). Todos vivem essa vida cotidiana, sem exceção, seja em qualquer posto de trabalho intelectual e físico. A autora afirma que ninguém é capaz de identificar-se com sua atividade humano genérica a ponto de desligar-se por inteiro da sua cotidianidade como, também, não é possível a um homem, por mais insubstancial que seja, viver tão somente na cotidianidade. O homem, portanto, já nasce inserido numa cotidianidade, tem sua individualidade e personalidade que o permite participar por inteiro da vida cotidiana, coloca seus sentidos em uso, suas capacidades intelectuais, habilidades manipulativas, sentimentos, paixões, ideias, ideologias, mas, diante de todas essas possibilidades, não é capaz de vivenciá-las plenamente, em todos os seus aspectos. Dessa forma, não consegue absorver inteiramente todos essas situações e, por consequência, não pode levá-las todas ao seu grau mais intenso de realização (HELLER, 2000). Nesse sentido, 44 Sua obra é inspirada principalmente em György Lukács (1885-1971). Filósofo e político Húngaro de origem judaica, ingressou no Partido Comunista Húngaro em 1918. Foi Comissário do Povo durante o efémero governo de Bela Kun, e tornou-se, no pós 2ª guerra, uma espécie de porta voz do Marxismo intelectual, sobretudo, após a discussão pública que o opôs a K. Jaspers e outros filósofos ocidentais nos Encontros Internacionais de Genebra, de 1946. Ministro da Educação do Governo de Imre Nagy, foi deportado para a Roménia após a invasão da Hungria por tropas soviéticas em 1956. Informação retirada da biblioteca Marxists Internet Archive (MIA) disponível em: . Acesso em 13 mai. 2020. 128 abstraímos que todos nós vivemos inteiramente a vida cotidiana, mas nela, não conseguimos levar ao ápice todas as nossas aspirações, emoções e desejos, mas, mesmo assim, seguimos na vida buscando concretizá-los. Para tanto, é necessário pensar que se já nascemos numa cotidianidade, como podemos captar nela seus aspectos mais relevantes? Como percebê-la em sua amplitude e complexidade, como compreender a cotidianidadeda ETI, se não for por meio da integração da pesquisadora em tal realidade? Para isso, foi preciso conhecer com maior profundidade sobre essa vida cotidiana, pois se ingressássemos na escola sem que tivéssemos parâmetros que orientassem o nosso olhar poderia causar riscos (a nós e aos participantes) por não compreendê-lo com maior clareza, inclusive fortalecer preconceitos presentes na vida cotidiana, na vida escolar. Heller (2000), coloca que a vida cotidiana é heterogênea e hierárquica. Heterogênea porque vários aspectos a revelam, ou seja, há o que a autora chama de partes orgânicas da vida cotidiana, “[...] a organização do trabalho e da vida privada, os lazeres e o descanso, a atividade social sistematizada, o intercâmbio e a purificação” (HELLER, 2000, p. 18), o que configura a sua perspectiva não singular. É hierárquica porque, no desenvolvimento desses aspectos “orgânicos” da vida cotidiana, configura-se uma hierarquia espontânea, que na verdade se torna, naturalmente, condição de organicidade dessa vida, uma vez que mantém uma certa ordem na esfera heterogênea. Como exemplo, a autora cita que o trabalho em época pré-histórica ocupou lugar dominante na hierarquia, pois para determinados trabalhadores (servos) toda a vida cotidiana se constituía em torno da organização do trabalho, o que levava à subordinação de todas as demais formas de atividades das esferas heterogêneas da vida cotidiana (HELLER, 2000). Seguindo na compreensão da teoria de Heller, ela coloca que, com o amadurecimento o homem adquire inúmeras habilidades para viver a vida cotidiana em sociedade, ele vive a sua própria existência tendo assimilado suas formas de viver, mas, nesse processo, já como adulto, deve dominar a manipulação. Se ele assimila essa condição da manipulação ele assimila, segundo a autora, as relações sociais e também, de modo imanente, tem domínio espontâneo das leis da natureza. No seu amadurecimento, diz-se que ocorre sua assimilação imediata de formas de intercâmbios ou comunicação social. Essa assimilação, esse amadurecimento para a cotidianidade começa sempre por grupos (de modo geral, na família, na escola, em pequenas comunidades). Tais grupos sociais perfazem uma mediação entre o homem (indivíduo) e os “[...] costumes, as normas e a ética e de outras integrações maiores” (HELLER, 2000, p. 17). O indivíduo assimila suas condições e amplia suas integrações para dimensões maiores, tais 129 dimensões voltam-se para a sociedade de modo geral, ou mesmo sua integração na humanidade, tal qual nos encontramos vivendo hoje. Ao dizermos que a escola está situada histórica e socialmente, também para Heller (2000, p. 20), “A vida cotidiana não está “fora” da história, mas no centro do acontecer histórico: é a verdadeira “essência” da substância social” (Grifos da autora). Para ela, é no efeito da cotidianidade que uma grande façanha histórica se concretiza, ou seja, ela se torna particular e histórica. O indivíduo que assimila a cotidianidade de sua época, assimila o passado da humanidade, embora essa assimilação possa até, não ser consciente. “A vida cotidiana é a vida do indivíduo” (HELLER, 2000, p. 20), este (o indivíduo) é um ser, simultaneamente, particular e genérico. Explica que as necessidades humanas tornam-se conscientes no indivíduo, a partir de suas próprias necessidades. A autora chama de necessidades do “eu”. O “eu” tem fome, sede, paixões, afeto e suas particularidades giram em torno da satisfação dessas necessidades do “eu”, mas, também, não só como o indivíduo se satisfaz, mas pela forma como ele se manifesta e se expressa na satisfação dessas necessidades. Esse processo é o que configura o ser (indivíduo) particular. Agora, é também genérico, pois o indivíduo “[...] é produto e expressão de suas relações sociais, herdeiro e preservador do desenvolvimento humano” (HELLER, 2000, p. 21). Sua natureza não é de ser um homem sozinho, está sempre em integração (nos grupos, classes, tribos, nação), possui nessa integração a consciência do eu, mas, também se processa a consciência do nós. Para a autora o genérico está contido em todo homem, e mais precisamente em toda a atividade que tenha caráter genérico, embora o indivíduo tenha seus motivos particulares move-se dentro do genérico a atender interesses, como exemplo, o trabalho, tem frequentemente motivações particulares, mas ele é socialmente necessário, portanto, está para o gênero humano particular, que age dentro da generacidade. Na díade, particular e genérico, Agnes Heller coloca que: O indivíduo (a individualidade, contém, tanto a particularidade quanto o humano- genérico, que funciona consciente e inconscientemente no homem. Mas o indivíduo é um ser singular que se encontra em relação com sua própria individualidade particular e com sua generacidade humana: e, nele, tornam-se conscientes ambos os elementos. É comum a toda individualidade a escolha relativamente livre (autônoma) dos elementos genéricos e particulares; mas, nessa formulação deve-se sublinhar igualmente os termos “relativamente”. Temos ainda de acrescentar que o grau de individualidade pode variar. O homem singular não é pura e simplesmente indivíduo no sentido aludido: nas condições de manipulação social e da alienação, ele vai se fragmentando cada vez mais “em seus papeis”. O desenvolvimento do indivíduo é antes de mais nada – mas de nenhum modo exclusivamente – função de sua liberdade fática ou de suas possibilidades de liberdade (HELLER, 2000, p. 22, grifos da autora). 130 A possibilidade de liberdade do indivíduo origina a “unidade do indivíduo”. Entre particularidade e generacidade, essa aliança que se configura no indivíduo, produz-se, então, a individualidade unitária que, para a autora, quanto mais unitária for essa individualidade, tanto mais ela se torna independente da união vital do genérico e do particular, ou seja, o indivíduo se tornaria mais liberto pelo qual poderia dispor de um “[...] certo âmbito de movimento no qual pode escolher sua própria comunidade e seu próprio modo de vida no interior das possibilidades dadas” (HELLER, 2000, p. 22, grifos da autora). Ele, o indivíduo, pode, então, ter um distanciamento entre o genérico e o particular, ele constrói uma relação com a própria comunidade, mas, também, com sua própria particularidade, porém, para a autora, essa unidade individual segue na linha de uma mera possibilidade, uma vez que a liberdade do indivíduo pode ser tolhida por preconceitos (que serão vistos mais adiante). Não podemos nos esquecer que generacidade e particularidade estão contidas no indivíduo e, segundo Heller (2000), não de uma forma consciente. Assim como os choques entre esses dois aspectos também não costumam tornarem-se conscientes na vida ao indivíduo, ambas submetem-se uma a outra silenciosamente, estão em uma muda coexistência (de particularidade e generacidade). Para ela, se a particularidade buscar agir a serviço dos próprios afetos, desejos e egoísmos, coloca em questão uma provável submissão do humano genérico, fato que já não cabe mais na humanidade. Isso, então, faz suscitar a ética como necessidade da comunidade social, de modo que: As exigências e normas da ética formam a integração específica determinada (e a tradição do desenvolvimento humano) dirige ao indivíduo, a fim de que esse submeta sua particularidade ao genérico e converta essa intimação em motivação interior. A ética como motivação (o que chamamos de moral) é algo individual, mas não uma motivação particular: é individual no sentido de atitude livremente adotada (com liberdade relativa) por nós diante da vida, da sociedade e dos homens. (HELLER, 2000, p. 23) Na coexistência da particularidade e da generacidade, a autora coloca que a moral figura como veto, como inibição, muito embora moral tenha também como função a transformação e a culturalizaçãodas aspirações das particularidades do indivíduo. Quanto maior a importância da moralidade para o indivíduo, maiores serão as chances de ele ter suas particularidades elevadas à esfera da generacidade (o humano-genérico). Estando o indivíduo moralmente motivado, terminaria então, a muda coexistência da particularidade e da generacidade, o conhecimento do próprio eu, a assimilação das intimações humano-genéricas seria “[...] a fim de que o homem seja capaz de decidir elevando-se acima da cotidianidade [...]” (HELLER, 2000, p. 24). Segundo a autora, embora nenhum homem consiga ser assim em sua totalidade, 131 acima de tudo, ainda existe o caráter paradigmático a produzir a elevação do genérico humano (HELLER, 2000). Mas, ela alerta, a elevação do humano genérico não significa a abolição da particularidade, as paixões e sentimentos orientados pelo “eu” não desaparecem, apenas se convertem em motor da realização do humano genérico, ou então, ficam suspensas. Na outra ponta, a moral colocada pela autora, deve ser sempre considerada como uma tendência, pois não é possível considerar de modo rigoroso e inequívoco entre as ações e decisões cotidianas, as que são moralmente motivadas. Heller (2000, p. 24) esclarece que: A maioria das ações e escolhas tem motivação heterogênea; as motivações particulares e as genérico-morais encontram-se e se unem, de modo que a elevação acima do particular-individual jamais se produz de maneira completa, nem jamais se deixa de existir inteiramente, mas ocorre geralmente em maior e menor medida. Além do mais, não é possível na própria cotidianidade concentrar todas as energias em cada decisão moralmente tomada na vida do indivíduo, haja vista que, agindo dessa forma, não estaríamos vivendo a estrutura básica da própria cotidianidade. Para Heller (2000, p. 26) “[...] O cume da elevação moral acima da cotidianidade é a catarse [...]”, nela, o homem se tornaria consciente do humano-genérico, na sua individualidade. Ainda menciona que em nenhuma esfera da atividade humana (e não apenas no caso da elevação moral) seria possível traçar uma divisão rígida entre o comportamento cotidiano e o não cotidiano (HELLER, 2000). Podemos dizer, entre as ações objetivadas e as não objetivadas (subjetivas). Agnes Heller destaca que a forma de elevação (moral) acima da vida cotidiana, e que produzem objetivações duradoras, são a arte e a ciência. Para elevar a compreensão dessa afirmativa, nos valeremos de um excerto de Aguiar e Herschmann: Assim, embora para Heller a vida social possa ser dividida em dois grandes sistemas (o da vida cotidiana e o da não-cotidiana), mesmo as ações do segundo sistema são profundamente influenciadas pela contingência do homem estar no mundo por inteiro. Para ela, a vida cotidiana é constituída a partir de objetivações do gênero humano (objetivações genéricas em si) e essas são aquelas que formam o sujeito na sua constituição primeira: a linguagem, os objetos (utensílios, instrumentos) e os usos e costumes de uma determinada sociedade. Já as esferas chamadas por ela não- cotidianas são constituídas a partir das objetivações humanas superiores (objetivações genéricas para si), como a consciência religiosa, a arte, a ciência e a política (HELLER, 1985, 1987) (AGUIAR; HERSCHMANN, 2014, p. 7-8). Nessa compreensão, Heller esclarece que essas objetivações humanas superiores (o artístico e o científico, mas também a consciência religiosa e a política) rompem com a tendência espontânea do indivíduo para o pensamento cotidiano, tendência orientada ao “Eu individual-particular” (HELLER, 2000, p. 26). Porém, é preciso lembrar que nem toda a ciência 132 e nem toda arte, estão separadas da vida e do pensamento cotidiano por limites rígidos, uma vez que o próprio cientista e o artista têm vida cotidiana, até mesmo pelos problemas que enfrentam de suas objetivações e obras que lhes são colocados pela vida, tão somente. Eles possuem sua particularidade individual na cotidianidade, mas a suspende durante a produção artística ou científica. Retrata o indivíduo no seu movimento cotidiano e não cotidiano. Por fim, a obra sendo significativa, pois decorrentes das objetivações humanas superiores, ele volta à cotidianidade e também seu efeito, sobrevive na cotidianidade de todos (HELLER, 2000). Coube-nos refletir o quanto, na análise do cotidiano escolar, era necessário exercer nossas objetivações humanas superiores, uma vez que o olhar deveria estar num patamar superior para a observação da vida cotidiana da ETI. O compromisso deveria fazer emergir não uma análise considerando puramente uma particularidade individual, mas sim uma ‘elevação moral’, consciente do humano-genérico, ainda que soubéssemos que esses aspectos não se mantém separados, como diz a autora, por uma “[...] muralha chinesa entre as esferas da cotidianidade e da moral” (HELLER, 2000, p. 25). Mas, era preciso manter em suspenso o ‘eu individual particular’. Ainda para a compreensão maior sobre a vida cotidiana, a autora propõe o conceito da homogeneização. Para ela, essa é a condição para o indivíduo sair de sua total ou parcial particularidade, decolando, então, do cotidiano e elevando-se ao humano-genérico. Desta forma, o que significa o termo? Significa, por um lado, que concentramos toda a nossa atenção sobre uma única questão e “suspenderemos” qualquer outra atividade durante a execução da anterior tarefa; e, por outro lado, que empregamos nossa inteira individualidade humana na resolução dessa tarefa. Utilizaremos outra expressão de Lukács: transformando-nos assim em um “homem inteiramente” [“Menschen ganz”]. E significa, finalmente, que esse processo não se pode realizar arbitrariamente, mas tão somente de modo tal que nossa particularidade individual se dissipe na atividade humanogenérica que escolhemos consciente e autonomamente, isto é enquanto indivíduos. (HELLER, 2000, p. 27, grifos da autora). Ao entendermos que a vida cotidiana é heterogênea, que exige que nossas capacidades rumem em várias direções, o processo de homogeneização exige uma combinação de fatores que pudemos observar complexos! Complexos porque para Agnes Heller, esse processo em direção ao humano-genérico pela via à homogeneização, com a suspensão do completo particular-individual, assim como a transformação em homem inteiro, é algo que excepciona à maioria dos seres humanos. Somente aqueles que movidos por uma “[...] paixão dominante se orienta para o humano-genérico, e ademais, quando tem uma capacidade de realizar tal paixão [...] (HELLER, 2000, p. 29, grifo da autora). Ela posiciona que, também, não seria apenas a 133 paixão, mas o trabalho como principal atividade básica do ser, uma atividade necessária para que o indivíduo esteja inteiramente absorvido nesse processo transformador da homogeneização, como cita, seriam os grandes exemplares de estadistas, moralistas, artistas, cientistas. Eles também não deixam de viver suas tensões, pois possuem, como todos os outros seres humanos, sua vida cotidiana, o particular-individual neles manifesta como em todos os demais homens, mas, na fase produtiva, a particularidade é suspensa e diante da homogeneização, agem como protagonistas do processo histórico global (HELLER, 2000). Tal entendimento sobre este processo de homogeneização nos coloca a refletir sobre o desenvolvimento da sociedade como um todo, o desenvolvimento da própria história, além de ser parte de um devir, para o qual devemos alinhar nossas lentes e ações para não se deixar viver tão somente a cotidianidade do eu particular-individual, mas buscar alavancar ações em direção a fins humano-genéricos, em prol de uma sociedade cada vez melhor e, em nosso caso, para uma educação melhor. É na vida cotidiana que os homens particulares se caracterizam pelo conjunto de atividades que desenvolvem, e criam as possibilidadesde reprodução social, a continuidade da história. Heller (2000) coloca que a sociedade possibilita que o homem particular se reproduza, um processo natural e, em toda sociedade também há uma vida cotidiana, pois o homem em qualquer lugar que ocupar na divisão social do trabalho tem sua vida cotidiana. Aguiar e Herschmann (2014), também valendo-se de Heller, expressam sua voz e dizem que cada indivíduo tem seu início nas esferas da vida cotidiana, é lançado num mundo pré-existente, aprende os usos e costumes da sociedade onde está inserido, aprende uma linguagem, os elementos culturais, ou seja, um conjunto de atividades voltadas para a própria existência do indivíduo. Na outra ponta, a vida não cotidiana englobaria as atividades voltadas para a reprodução da sociedade. Esses mesmos autores citam Rossler (2004) esclarecendo que na cotidianidade configura-se o espaço de satisfação das necessidades essenciais (indivíduo- particulares), enquanto as atividades não cotidianas seriam determinadas por motivações genéricas, existentes desde o início da história da humanidade, o resultado de um longo processo histórico. O homem participa desse processo, ele produz as possibilidades de sua própria essência, produz história e, como diz Heller, não podemos conhecer a meta da história, nem suas necessidades, mas “[...] podemos estabelecer a possibilidade de um subsequente desenvolvimento dos valores, apoiar tal possiblidade e, desse modo, emprestar um sentido à nossa história” (2000, p. 15). Com isso: 134 Para Heller, os níveis de objetivação do mundo histórico, estão sempre em permanente transformações, que representa os estágios da consciência histórica, caminhando da “consciência da generalidade não refletida (o mito)” até “a generalidade refletida como tarefa” que seria a responsabilidade planetária do homem de transformar o mundo. Nessa perspectiva, evolucionista, o homem na vida cotidiana caminha sempre em direção a uma tarefa mais complexa localizada num futuro previsível (AGUIAR; HERSCHMANN, 2014, p. 8). Essas falas foram caracterizando os modos de atuação da pesquisadora diante do trabalho a ser desenvolvido, pois foram se perfazendo como momentos de conscientização e, sobretudo, amadurecimento para olhar para a escola e nela ver as possibilidades pelas quais seus indivíduos podem ter e manter vivo o processo de transformação do ambiente de trabalho (da cotidianidade), colocando o aluno no foco para uma educação de melhor qualidade. Outras características da vida cotidiana são destacadas por Heller, dentre elas a espontaneidade, mas essa característica não tem o mesmo nível em todas as atividades cotidianas, assim como as diferentes atividades não são identicamente espontâneas, mas nos dois casos ela é a tendência de toda e qualquer atividade cotidiana. E, mesmo quando em elevação do humano-genérico, ou seja, no rompimento com o eu particular-individual, ela não entra em contradição nesse processo, ao contrário, implicam-se mutuamente, pois “[...] A assimilação do comportamento consuetudinário, das exigências sociais e dos modismos, a qual a maioria dos casos, é uma assimilação não tematizada, já exige para a sua efetivação a espontaneidade” (HELLER, 2000, p. 30). Se fôssemos depositar tempo e refletir sobre o conteúdo de verdade formal ou material, não nos sustentaríamos nessa tarefa, pois não conseguiríamos realizar um terço das atividades cotidianas imprescindíveis, o que prejudicaria nossa produção e reprodução na sociedade. A atividade humana e suas consequências também estão marcadas pelas possibilidades (a autora chama de probabilidades), explica que jamais na vida é possível calcular a consequência possível das ações humanas, mesmo por isso, as respostas às nossas ações devem ser avaliadas com base em probabilidades, pois não seria possível e nem plausível que, todas vezes que atravessássemos a rua, fizéssemos cálculos para saber se daria ou não tempo de cruzá-la com segurança, por isso a vida cotidiana, também está pautada na base da probabilidade, o que indica também um economicismo dessas ações, pois ações cotidianas se manifestam para a continuidade de nossas ações de uma maneira não intensa, mas apenas para a continuação da própria cotidianidade. Se inversamente pensarmos, em ações humano-genéricas, que exige maior profundidade e tem amplitudes maiores como no caso da ciência e da arte, a intensidade da ação será maior, dissolvendo fatalmente a ordem da cotidianidade (HELLER, 2000). 135 A vida cotidiana se baseia pela unidade imediata de pensamento e ação, nesse sentido, a vida cotidiana não é jamais teoria, assim como a atividade cotidiana nunca é práxis, porém, em ambos os casos (teoria e práxis) há finalidades e conteúdos que representam e promovem o desenvolvimento do humano-genérico, e são capazes de produzirem novidades em seu estado. A vida cotidiana pode ser ponto de partida para a teoria, como ela, também, pode ter certa participação não consciente na práxis. Desta forma, uma outra característica dessa vida cotidiana, defendida por Agnes Heller, é a ultrageneralização, ou seja, o conceito está ligado a um juízo provisório ou uma regra provisória, que durante um tempo confirmam nossas práticas, ou, pelo menos, segundo a autora, não às refuta. No manejo grosseiro da vida cotidiana, estamos sempre reagindo a situações singulares, respondendo a estímulos singulares, resolvendo problemas também singulares, por isso os juízos provisórios se colocam contribuindo na resolução de nossa vida singular. Heller orienta que para reagirmos na cotidianidade, temos de ultrapassar o singular do modo mais rápido possível, sob alguma universalidade, temos que organizar o singular na nossa vida cotidiana, no conjunto de nossa atividade vital, ou seja, temos que resolver o problema (HELLER, 2000). A ultrageneralização - os juízos provisórios – o são porque se antecipam à atividade possível e nem sempre encontra confirmação na infinitude das práticas. Esses juízos, são diferentes dos juízos científicos, que contém uma provisoriedade apenas até um determinado momento da evolução científica, ou seja, até o momento que as hipóteses forem (ou não) confirmadas como verdades (GUIMARÃES, 2014). Compreendemos que na vida, em nossa unidade imediata de pensamento e ação, nem sempre poderemos exercer nossas infinitas ações singulares com base em conceitos científicos. Para Heller (2000), é por isso que os juízos provisórios - os vários tipos de ultrageneralização – servem, para que possamos nos mover em pensamento e ação, e para ela, é por isso que se recorre à analogia, pois É através dela que, principalmente, funciona o nosso conhecimento cotidiano do homem, sem o qual não poderíamos sequer nos orientar: classificamos com algum tipo já conhecido por experiência o homem que agora queremos conhecer sob algum aspecto importante para nós e essa classificação por tipos permite nossa orientação. Tão somente a posteriori torna-se “evidente” na prática que podemos dissolver aquela analogia e conhecer o fenômeno singular – nesse caso o homem em questão – em sua concreta totalidade e, assim, avaliá-lo e compreendê-lo (HELLER, 2000, p. 35). Porém, a autora diz que o juízo provisório da analogia pode se cristalizar em um preconceito, pois podemos não encontrar nenhuma força que contradiga o nosso juízo provisório, podendo nós, então, ficarmos submetidos à força de nossas tipificações, ou seja, de nossos próprios preconceitos (que podem ser positivos e negativos), o que impede a autonomia 136 do homem, diminui a liberdade relativa do ser diante de suas escolhas, quando estreita suas alternativas. Ela ressalta que o juízo provisório analógico é necessário na vida cotidiana, mas é preciso tomar cuidado para que ele não fique exposto ao perigo da cristalização, caso ele já tenha cumprido a sua missão. A analogia,enfim, deve ser dissolvida, tão logo sua utilidade se esgote no conhecimento do fenômeno singular, o homem. Para Heller (2000), algo parecido se manifesta no uso dos precedentes - mais uma característica da vida cotidiana - este é mais utilizado para o conhecimento das situações do que das pessoas e se configura como um indicador válido para o nosso comportamento, nossa forma de agir. Seriam situações já vivenciadas por outros e que podem balizar a experiência do indivíduo, seguem como exemplos a serem seguidos em determinadas situações (HELLER, 2000). No campo das atitudes do humano-particular, outra característica da vida cotidiana se faz presente, a imitação (mimese). Na vida não agimos inteiramente por preceitos, mas acabamos imitando uns aos outros. Para a autora, nem o trabalho e nem o intercâmbio seriam possíveis sem a mimese, porém, neste aspecto, é preciso que haja no campo da liberdade individual a superação das mimeses para que se configure atitudes novas nos indivíduos, ou seja, que não se viva apenas por imitação. Nesse sentido, não vivemos o tempo todo nela, assim como ela também não é necessária a todo momento no processo de assimilação do sistema consuetudinário, pois a vida se manifesta em diferentes lugares, épocas e situações (HELLER, 2000). Por fim, Heller (2000) destaca a entonação como questão importante para a vida cotidiana, de modo que, sem ela, o indivíduo carece de individualidade. A entonação está ligada à produção de uma atmosfera tonal, ou seja, o indivíduo na sociedade age, pensa e avalia aos outros, manifesta sua individualidade por sua forma de ser e se fazer perceber no mundo. Quando não consegue agir, pensar, relacionar-se, representa uma carência quanto à sua individualidade e, assim como os juízos provisórios (ultrageneralização), devem ser superados para que não fiquemos sujeitos somente a preconceitos (HELLER, 2000). Segundo ela, todas essas características apontadas para a vida cotidiana, formam uma conexão necessária entre elas, uma não é independente da outra, mas seguem inter-relacionados a garantir a vida do homem na cotidianidade. Heller (2000, p. 37) destaca que: Não há vida cotidiana sem espontaneidade, pragmatismo, economicismo, andologia, precedentes, juízo provisório, ultrageneralização, mimese e entonação. Mas as formas necessárias da estrutura e do pensamento da vida cotidiana não devem se cristalizar em absolutos, mas tem de deixar ao indivíduo uma margem de movimento e possiblidades de explicitação [...] Se essas formas se absolutizam, deixando de possibilitar uma margem de movimento, encontramo-nos diante da alienação da vida cotidiana (Grifos da autora). 137 A autora afirma que a vida cotidiana, em todas as esferas da realidade humana, é a que mais se presta à alienação, pois se no homem em si ocorrer uma existência muda de particularidade e generacidade, a atividade humano-genérica pode não estar sendo consciente, embora suas motivações, como ocorre normalmente, são efêmeras e particulares. Segundo Heller (2000, p. 38), parece natural na cotidianidade a desagregação, a separação do ser e essência, mas, por outro lado, essa alienação na vida cotidiana “[...] não é de nenhum modo necessariamente alienada [...]”. Explica que existe alienação quando ocorre um abismo entre o desenvolvimento do humano genérico e as possibilidades de desenvolvimento dos indivíduos humanos, entre a produção humano-genérica e a participação consciente do indivíduo nessa produção, como fato coloca que “[...] Quanto maior for a alienação produzida pela estrutura econômica de uma sociedade dada, tanto mais a vida cotidiana irradiará sua própria alienação para as demais esferas” (HELLER, 2000, p. 38). Mas, no desenvolvimento da história, o abismo entre o desenvolvimento do humano genérico, da sociedade como um todo, é marcado por abismos de diferentes graus de profundidade e também em diferentes épocas, ou seja, podem ser menos profundos em algumas épocas e mais marcantes em outras, como no capitalismo moderno citado pela autora. Também nesse caso, alguns conseguiram com suas capacidades individuais-particulares, pelo seu talento, ou pelas grandes “[...] constelações históricas [...]” (2000, p. 39) superar tal abismo, assim como também ocorre o processo inverso, ou seja, outros não conseguiram superá-lo (HELLER, 2000). Para o caso do fato histórico (capitalismo moderno) colocado, entendemos que uma grande massa não superou esse abismo, pois na produção humano-genérica não houve participação consciente do indivíduo, tendo sido mantidos a alienação e o conformismo. Isso ocorre até mesmo pelas formas como a sociedade se desenvolve (ainda hoje), embalada por diferentes indivíduos-particulares que, na construção do humano-genérico, na assimilação das relações sociais, extrapolam em suas particularidades e em seus interesses que, ao atingirem seus objetivos, influenciam sobremaneira nos demais, impedindo outros de saírem da alienação. Diz a autora: [...] o moderno desenvolvimento capitalista exacerbou ao extremo essa contradição. Por isso, a estrutura da cotidianidade alienada começou a expandir-se e a penetrar em esferas onde não é necessária, nem constitui uma condição prévia da orientação, mas nas quais aparece até mesmo como obstáculo para essa última (HELLER, 2000, p. 39). Na sua visão, a vida cotidiana, necessariamente, não é alienada por consequência de sua estrutura, ou seja, já configurada, mas apenas em algumas ou determinadas circunstâncias sociais. Agnes Heller explica, portanto, que há quem tenha vivido numa cotidianidade não 138 alienada, dado que também a estruturação científica da sociedade pode possibilitar o final dessa alienação, uma possibilidade que está aberta a qualquer indivíduo. Em tese, qualquer um poderia sair da alienação. A autora coloca que na vida cotidiana há sempre uma hierarquia espontânea determinada pela época, pela produção, pela sociedade, mas, por outro lado, há a construção de uma hierarquia da cotidianidade efetuada pela individualidade consciente e pode ser chamada de “[...] condução da vida [...]” (HELLER, 2000, p. 40). Implica dizer que a condução da vida não significa que haverá a abolição da hierarquia espontânea da cotidianidade, mas sim que a muda coexistência da particularidade e da generacidade no indivíduo será nele alterada, pela sua relação consciente com o humano-genérico que “[...] é, ao mesmo tempo, um “engagement” moral, de concepção de mundo, e uma aspiração à auto-realização e a autofruição da personalidade – “ordena” as várias e heterogêneas atividades da vida” (HELLER, 2000 p. 40). Assim, a condução da vida faz com que o indivíduo, mesmo mantendo- se na estrutura de sua cotidianidade deverá apropriar-se de sua realidade e colocar nela a marca de sua personalidade, ainda que esse caminhar da realização da vida, não seja algo plenamente perfeito, pois é condução da vida porque sua perfeição é função da individualidade do homem e não de uma capacidade especial ou um dom particular. Heller (2000, p. 47) expõe que: Todo homem é ao mesmo tempo, ente particular individual e ente humano genérico, ou seja, uma “singularidade” e simultaneamente uma parte orgânica da humanidade, da história humana. Com diferenças de grau, todo homem tem motivações que referem apenas a si mesmo, finalidades que pacificam tão somente suas próprias necessidades; mas, além disso, está necessariamente inserido no desenvolvimento global da humanidade mediante atividades objetivas (como o trabalho) e podem ter motivações que tendam a encarnar o humano-genérico, objetivos dirigidos “para fora”. Nesse contexto, vislumbramos olhar para a ETI e nela lançarmo-nos com as nossas singularidades, mas já compreendendo que estaria a ver as singularidades dos outros. Descobrir nesse caminho, como ações (minhas e dos participantes envolvidos) caminhampara saírem da muda coexistência da particularidade-generacidade, para perseguir motivações objetivadas a viver o humamo-genérico, ou seja, encontrar ações e pensamentos já configurados no cotidiano estudado, além disso, perseguir o desenvolvimento mais global, para uma escola melhor para os alunos. No entanto, o conhecimento deveria ser ampliado, o que foi feito observando as obras de outros autores sobre o cotidiano, sobretudo, o escolar. 6.1.2 A perspectiva de outros autores sobre o cotidiano e sobre o cotidiano escolar 139 A autora Penin (1989), já mencionada nesta caracterização teórica, traz importante contribuição para conhecer a “obra”45 escola. Para a autora, cada escola é única, não se dá a ser reproduzida, não há exemplar repetido na sociedade, por isso, para ela, a natureza de “obra” é a sua unicidade e exclusividade. Para a análise, a autora observou dois caminhos, um pela via mais abrangente, uma visão totalizadora da realidade referindo-se a um ponto de vista macrossocial, pelo qual ela é entendida como uma instituição ou, como aparelho do estado46, e, as explicações por esse ponto, são mais amplas no que diz respeito à escola e ao seu papel. O segundo caminho, pela via microssocial, busca a compreensão da natureza do estrutural, formal ou funcional de determinados fenômenos, sendo que as pessoas e suas relações sociais (nível individual e suas relações) ganham aqui, maior expressividade. Nesse sentido, esclarece Penin (1989) que diferentes autores seguem seus pontos de vista sobre esses dois caminhos apontados, tendo inclusive um terceiro ponto de vista, que seria intermediário (entre o micro e o macro). Mesmo assim, o que a autora nos chama atenção, de modo geral, são para formas absolutas e dogmáticas pelas quais diferentes abordagens tratam questões e caminhos de análise, sobretudo, quando se observa os processos educativos e a escola, o que claramente, pode impedir uma compreensão mais significativa da sua realidade. Penin (1989), buscando desvelar essas situações na leitura de alguns autores (cita Gramsci, Kosik, Lefebvre, Heller, Ezpeleta e Rocckwell), fortaleceu sua crença de que as explicações microssociais seriam as que mais poderiam equacionar os problemas que a escola enfrenta, porém dá ênfase, também, às explicações macro: De fato, é no âmbito da análise do cotidiano que podemos melhor entender as ações dos sujeitos que movimentam a escola e com isso alcançar a natureza dos processos constitutivos da realidade escolar, tendo em vista a sua transformação. Acreditamos, entretanto, que a natureza das ações e dos processos escolares não é alcançada apenas pela identificação da existência destes, mas na sua articulação com eventos presentes no nível social e histórico, com os quais a análise macrossocial se preocupa. Apenas o conhecimento crítico de um e de outro nível pode levar adiante o conhecimento da realidade. Nesse sentido, concordamos com Lefebvre (1961), II: 102), para quem “não é possível conhecer a sociedade (global) sem conhecer a vida cotidiana (...) e não é possível conhecer a cotidianidade sem o conhecimento crítico da sociedade (global) (PENIN, 1989, p. 13). A relação apontada pela autora foi, no entanto, outra possibilidade que direcionou compreender a ETI, ou seja, ver suas particularidades dentro de seu contexto mais amplo. 45 Sonia Penin, em seu livro Cotidiano e Escola: a obra em construção, analisa o cotidiano de 4 escolas estaduais em São Paulo. No livro, classifica a escola como uma “obra”, seguindo a caracterização feita por Lefebvre (1983), que distingue a obra de produto, a obra é única, podendo apenas ser copiada ou imitada. Produto, por definição, é reprodutivo (repetitivo) (PENIN, 1989, p. 17). 46 Segundo Penin, o conceito “instituição” é herdado das investigações de cunho positivista e “aparelho de Estado”, herdado das explicações critico-reprodutivistas (PENIN, 1989). 140 Percebê-la numa comunidade de nível socioeconômico menos favorecido, com suas nuances entre a pobreza e a possibilidade de superá-la, ainda que parcialmente, entre as diretrizes da gestão escolar e as do sistema de ensino municipal, entre essas e as políticas públicas mais amplas, entre o que acontece na sala de aula e no pátio, entre como pensar a escola a partir dela mesma ou, como pensá-la a partir da perspectiva de uma secretaria de educação, enfim, muitas relações entre o micro e o macro acabam se consagrando e, para compreender melhor a realidade, até mesmo para as possibilidades de mudança, foi preciso ampliar o saber sobre o cotidiano. A autora Penin (1989), na busca por uma análise do cotidiano crítico-dialética, encontra parâmetros em diferentes autores, mas foi em Lefebvre que ela ancorou-se, por entender que ele traz maior riqueza conceitual para o tema. Agnes Heller, seguidora de Lukács, também serviu de seu arcabouço teórico, assim como de Kosik, Ezpeleta e Rockwell etc. Ela cita, inclusive, que foi Lukács que introduziu o tema do cotidiano, mas “[...] foi Lefebvre o primeiro autor a fazer da vida cotidiana o objeto de uma reflexão filosófica sistemática: sua primeira obra sobre o assunto trata de 1946 [...]” (PENIN, 1989, p. 13). No capítulo em que Penin (1989, p. 15) trata da “Vida cotidiana: conhecimento e crítica” posiciona-se e relata que a vida cotidiana é um “[...] nível da realidade social”, devendo esse conceito ser distinguido, já num primeiro momento, de outro conceito mais abrangente que é a práxis. Lefebvre, segundo a autora, tem um posicionamento diferenciado sobre a práxis, se comparado ao posicionamento de Agnes Heller. Essa não considera que as atividades cotidianas fazem parte da práxis, já Lefebvre coloca que ela tanto engloba a base, como as superestruturas, é a totalidade em ato. Penin, que conjuga deste pensamento, diz que Lefebvre encontra apoio em kosik, e juntos, pensam a práxis como aquela que abrange a totalidade da prática humana, ou seja, tanto a atividade objetiva e transformadora da natureza e da sociedade - pelo homem, como a sua atividade subjetiva. O homem será considerado em sua forma mais abrangente, pois todos os seus momentos, ações, reflexões e sentimentos que se originam no trabalho, fazem parte da práxis (PENIN, 1989). Se a vida cotidiana é considerada um nível da realidade social, um nível da totalidade, ela também pode ser investigada, assim como o biológico, o psicológico, o econômico etc. Diz-se também, que o nível cotidiano não é um campo fechado para o conhecimento, pois liga-se a outros campos da realidade que, também implicam-se entre si, ou seja, cada qual resulta de uma análise, que acaba por resgatar ou explicitar conteúdos de outros níveis, pelos quais atividades superiores, muito embora distingam-se daquelas consideradas da vida cotidiana, dessas não se desligam. Penin (1989, p. 16) cita que: 141 Para Lefebvre, o conhecimento, a ciência, a descoberta científica consistem em breves instantes de descoberta e, durante esse tempo, há uma vida cotidiana da ciência: aprendizagem, ensino, clima dos meios científicos, questão de administração, funcionamento das instituições. Assemelha-se ao pensamento de Agnes Heller (2000) na forma como ela trata as atividades humano-genéricas, como atividades superiores, momento que o homem contrapõe por um tempo suas atividades cotidianas, mas não as deixa totalmente de fora (no caso da ciência, da arte, da política, discussões filosóficas etc.). Penin acrescenta que é do cotidiano que emergem as grandes decisões (mesmo os instantes difíceis de decisão e de ação), ela menciona que para Lefebvre, “[...] as atividades superiores dos homens nascem do germe contido na prática cotidiana” (PENIN, 1989, p. 16). Acreditamos nessa assertiva da autora, pois caso a escola conheça de forma precisa e pormenorizada as suaspráticas e os processos desenvolvidos no cotidiano escolar, ela pode orientar mais seguramente suas decisões internas, ou então, orientar ações e decisões de caráter mais amplo, que envolvem uma classe, uma categoria ou uma política pública, como um todo. Olhando para a ETI pesquisada, temos alguns indícios de que suas ações, suas práticas e processos, caminham muito na direção desse reconhecimento mais pormenorizado do seu cotidiano, muitas questões vividas e experienciadas parecem poder servir de exemplo para que sejam enraizadas na própria escola (experiências boas já vividas, mas que não se efetivaram no tempo, por depender de outros níveis da totalidade), ou ultrapassar suas estruturas para atingir outras escolas do sistema, que podem avançar muito mais na propositura e efetivação de uma política pública, que esteja coerente com as linhas que defendem a escola de tempo integral, pois é uma possibilidade de um ganho maior no tempo (horas), não para fazer mais do mesmo, mas para avançar como um todo na formação do aluno, nas integrações entre profissionais, nos estudos de formação, na valorização profissional, na consciência do PPP etc. Mais adiante abordaremos tais questões. A autora Penin (1989) segue nos ensinando, por meio de Lefebvre, que a importância de conhecer a vida cotidiana está também relacionada ao fato de que aquilo que se constrói e se produz nas esferas superiores da prática social precisa mostrar sua verdade na vida cotidiana, precisa encontrar sentido, mostrar sua verdade, deve vir, verificar e validar a criação, quer seja na arte, na filosofia, na política etc. Desta forma, a vida cotidiana se configura, por vezes, como parâmetros para atingir outras estruturas, saindo de uma perspectiva micro para direcionar o macrossocial, mas é também caracterizada pela possibilidade de validar aquilo que advém das 142 esferas superiores, o cotidiano revela a possibilidade de experienciar, executar, pensar, refletir, agir, enfim, vivê-lo. Mas afinal, estamos falando de vida cotidiana, cotidiano ou cotidianidade? Agnes Heller (2000) nos possibilitou compreender situações relacionadas à estrutura da vida cotidiana, nela, apontou diferentes características que direcionam um maior entendimento sobre a questão. Por outro lado, Penin (1989), baseada em Lefebvre, faz a distinção entre os três termos. A fim de distingui-los, até mesmo pelo uso mais frequente dos termos cotidiano e cotidianidade, também de uma forma sucinta, nos valeremos dos apontamentos da autora para observar suas implicações. Segundo ela, Lefebvre situa que a vida cotidiana passou por modificações na própria história, não a situa em aspectos pormenorizados de sua descrição, mas em aspectos mais globais do desenvolvimento das sociedades, épocas, modificações das relações de trabalho, ideologias etc., e ele faz a distinção dos termos, a partir da observação do desenvolvimento de onde tem suas origens, a comunidade europeia, com países de capitalismo avançado. O primeiro período, considerado a vida cotidiana, situa-se como o período que vai até o século XIX – na sociedade prevalecia valores, ritos e mitos, dos quais, a vida cotidiana não se separava daquilo que era mais alto e de maior valor, ou seja, da cultura e das ideias. Nesse período, o modo de produção se configurava, então, por atividades que se desenvolviam num sistema rígido de planificação, era repetitivo e homogêneo em que as pessoas produziam roupas, sapatos, objetos. Nesse momento, caracterizava-se não a produção (que findaria no produto), mas a obra, inclusive as coletivas. Tais obras também tinham estilo. O segundo momento está configurado pelo capitalismo competitivo, tempo que a vida cotidiana sofre, poderíamos dizer, sua transição. As obras, aqui, quase desapareceram, sendo substituídas pelos produtos. Assim, no início do século XX, a sociedade europeia torna-se cumulativa devido suas capacidades produtivas. A exploração substitui a opressão direta da época anterior e a vida cotidiana chega na modernidade, momento em que abre espaço para a consolidação do, então, cotidiano. A modernidade se caracteriza por três valores: a técnica, o trabalho e a linguagem. O estilo daquela vida cotidiana se opõe (nessa então modernidade) à cultura, caracterizada como a cultura cotidiana de massa e a alta cultura. Esse estilo também é substituído pela arte (arte pela arte – estética). Nessa distinção de termos, Penin (1989), ainda com base em Lefebvre, aponta uma segunda fase da modernidade que é quando ela se torna uma ideologia – um valor básico a ser alcançado, ou seja, “[...] a ideologia da modernidade vigente, tem mantido o cotidiano como lugar de continuidade, anunciando a ilusão de uma ruptura com a época anterior [...]” (PENIN, 1989, p. 19). Coloca-se aqui, que diferentes autores interpretam de diferentes 143 formas e valores – positivas e negativas – o alcance da modernidade, mas que, para Lefebvre, não restam conclusões a essa fase, devido às controvérsias quanto ao seu entendimento. Porém, ele acredita, que, mais recentemente, a modernidade sofreu sua crise, havendo sua ruptura, dando lugar ao modernismo. Penin (1989) coloca que “[...] Lefebvre afirma que a modernidade, que teve seu início no começo do século XX, cessa por volta de 1980, quando a civilização ocidental entrou no terceiro momento de sua classificação (LEFEBVRE, 1981, III)”. Este terceiro momento, é classificado por modernismo, o cotidiano dá então lugar à instalação e à consolidação da cotidianidade. O próprio cotidiano (da modernidade) seria objeto de programação, o desenvolvimento comandado pelo mercado, pelos mesmos sistemas de soluções, pelo marketing e pela publicidade. Aqui, a ideologia da modernidade é superada, o cotidiano abre-se à cotidianidade, a prática tecnológica se estabelece. A cotidianidade mostra, como o cotidiano se cristaliza - a cotidianidade “[...] insiste sobre o homogêneo, sobre o repetitivo, sobre o fragmentário na vida cotidiana: mesmos gestos, mesmos trajes etc.” (PENIN, 1989, p. 19). Compreendemos que a vida cotidiana ganha diferentes características nos períodos apontados por Lefebvre e que, atualmente, a cotidianidade se estabeleceu porque o cotidiano foi deixando, cada vez mais, o individual submerso na modernidade, às programações, às explorações do próprio mercado, do marketing, da publicidade. Penin (1989) coloca que a programação do cotidiano, ocupa o tempo do trabalho social, mas, também, o tempo do não trabalho. Ambos estão a serviço da economia, ambos se prestam ao consumo, à produtividade. Mesmo o não trabalho gera poderosos setores produtivos que se consolidam por meio do turismo, do lazer, da indústria cultural etc. Vive-se numa sociedade que até as crianças estão submersas às programações diárias, agendas etc. Observamos que, muito embora Lefebvre se remeta à sua realidade, local em que pôde perceber mais fortemente as implicações dos acontecimentos sociais (e históricos) sobre o cotidiano, tendo vivido num país de capitalismo avançado, não deixamos de ver, aqui em nosso país, a presença de tais programações sobre o cotidiano das pessoas, assim como a influência do mercado em nossas vidas, a forte presença das tecnologias (inclusive as da comunicação e informação) etc., que nos colocam a viver, ao que parece, numa cotidianidade na qual a presença da consciência se faz pouco presente. A escola, no pensamento de Penin (1989), seguiu a tendência dessa modernidade, assumindo um de seus valores, a técnica. Esclarece que quando o tecnicismo torna-se tendência pedagógica em nosso cenário educacional (ainda na época caracterizada por Lefebvre de modernidade), com a entrada dos especialistas nas escolas e a ênfase técnica que se deu aos seus trabalhos, a prática docente também tornou-se burocraticamente organizada em seus 144 diferentes níveis. Dessa forma, assim comoa modernidade afetou todos os setores (o cotidiano de modo geral) afetou também o cotidiano escolar, ambos tenderam a se constituírem num sistema fechado de produção-consumo-produção. A escola e seu cotidiano, segundo a autora, configura-se como uma base da instituição estatal, e, essa instituição (o Estado), procura programar a sua produção no seu cotidiano. Porém, essa mesma base de produção programada pelo Estado, é a mesma base que pode impor critérios de mudança em relação à programação da produção ou da organização desse ente da federação, ou seja, para a autora, a escola é base de mudança daquilo que é imposto pelo Estado (PENIN, 1989). Mas, então, como perceber, como se movimentar diante desse cenário controlador do Estado ou do capitalismo exacerbado, do marketing etc., ou diante do que Penin (1989) resgata do pensamento de Lefebvre, ou seja, como escapar ao modernismo, à consolidação da cotidianidade que “[...] insiste no homogêneo, sobre o repetitivo, sobre o fragmentário da vida cotidiana [...]”? Seria uma tremenda façanha a superação dessa ordem da cotidianidade apresentada por Lefebvre e como percebemos que há um processo longo nesse sentido é preciso, como sugere Penin, avançar no exame das representações dos sujeitos cotidianos. A autora faz um estudo bastante aprofundado sobre representações, apoiando-se, em maior medida ainda em Lefebvre, mesmo valendo-se de outros autores. Em trabalho mais recente (1994), aponta que “[...] meu entendimento de representação é o de algo formado na imbricação entre as representações chamadas “sociais” e aquelas chamadas da vivência pessoal dos indivíduos (PENIN, 1994, p. 32). Esse entendimento da autora perpassa pelos estudos das representações nas diferentes áreas do conhecimento entre filósofos, psicólogos, sociólogos, antropólogos etc., destaca a grande contribuição de Moscovici, na área da psicologia, quando ele apresenta um reconhecido estudo sobre as representações sociais, pelos quais a autora atribui valor, por isso ela considera que as representações sociais existentes estão para as representações levantadas na particular vivência do indivíduo. Ela diz que: Este também é o ponto de vista de autores com Henri Lefebvre para quem as representações são “contemporâneas da constituição do sujeito, tanto a história de cada indivíduo como a gênese do indivíduo na escala social” (1983b, p. 20), Assim, entendo que as representações sociais ou representações coletivas tem uma existência no social, independente de cada sujeito particular, isto é, elas estão no social mesmo antes do nascimento do sujeito (PENIN, 1994, p. 32). A autora se interessa em ver como as representações sociais chegam aos sujeitos e como estes, a partir de suas próprias vivências, elaboram-nas e reagem às mesmas (PENIN, 1994). O cotidiano é acompanhado de representações que mostram o seu papel, desta forma, a peça do 145 vestuário, o automóvel, a publicidade, os modelos culturais colocam para os indivíduos necessidades que fazem nascer novas representações, e na convergência dessas representações como um todo, o cotidiano acaba se programando. Assim, as representações nascem no cotidiano e para ele mesmo regressa. Essa questão ainda nos leva a estabelecer uma outra ponte, a de que as representações se formam entre o “[...] vivido e o concebido, diferenciando-se de ambos [...]’ (PENIN, 1989, p. 27). O concebido constitui um discurso articulado que visa instituir um eixo do saber a ser divulgado, promovido e conhecido, algo como um ideário teórico. O vivido, por outro lado, é formado tanto pela vivência da subjetividade dos sujeitos, quanto de suas vivências sociais e coletivas num contexto específico. Entre o concebido e o vivido há sempre um movimento constante e dialético e as representações que se formam nesse movimento, algumas delas se consolidam e modificam o concebido e o vivido e outras apenas desaparecem, sem deixar marcas (PENIN, 1989). O espaço ocupado pelas representações, segundo a autora, está entre o vivido e o concebido, entre a presença e a ausência, entre o sujeito e o objeto no conhecimento que se quer alcançar. Ela esclarece que para Lefebvre a representação é o terceiro termo da dupla representante-representado, tanto é a relação com o outro vivido quanto com o outro ausente, o concebido. Na modernidade, essa relação entre o vivido e o concebido expõe a primazia do saber, através da valorização expressiva da lógica, do discurso que acabam por expulsar o indivíduo. Penin (1989, p. 27) aponta que “[...] Para Lefebvre, este projeto subjacente à modernidade, da absoluta primazia do saber, da razão, da ciência e da técnica, suscitou contrapartida: o anti-saber, a anti-razão, a antiteoria (1983: 212). [...]”. Diante disso, não é possível e prudente absolutizar o concebido, e sim “[...] relativizar, dialetizando o saber e a sua relação com a vivência, sem excluí-la (1983: 215) [...]”. Desta forma, é preciso dar à vivencia o seu devido valor que, embora frágil, oferece condições de perceber as representações acontecidas nesse âmbito. Concordamos que a escola, assim como outras instituições, é lugar do concebido e do vivido, na qual as representações dela provenientes, contribuem tanto para conhecer o concebido, como o vivido. Portanto, as representações circulam a partir das práticas dos indivíduos que ocupam o cotidiano escolar e, nesse aspecto, Penin (1989, p.29) aponta que para Lefebvre tais práticas “[...] para captá-las é necessário estudar o discurso e a prática social correspondente e por isso, Lefebvre (1983: 95 e 1999-2000) se refere à elas como “fatos de palavras e de prática social [...]”. O cuidado aqui, é no como analisar essas representações, que podem ser ao mesmo tempo verdadeiras ou falsas, estereotipadas ou mistificadoras pelo o que aponta Penin (1989). Ela menciona que, para Lefebvre, a contradição vista no mundo moderno, é a de que de um lado há numerosas representações e a utilização exagerada das mesmas e, na 146 outra ponta, o esgotamento das representações, seu desgaste e o esforço por renová-las. Assim, a autora compreende o cotidiano escolar revela uma constante transitoriedade de representações (fatos de palavras e de prática social), até mesmo seu desgaste ou renovação, o que também acontece nas demais relações sociais no mundo moderno, cabendo, com isso, saber como são e se manifestam as representações no âmbito da escola, se bloqueadoras e mistificadoras, ou se produtoras de reflexão que levam à modificação e à transformação das práticas entre o vivido e o concebido, ou, enfim, se contribuem para a mudança de aspectos que querem apenas absolutizar ou programar a escola. É preciso, então, superar condições que alienam a vida cotidiana da escola, de modo que ela garanta a sua autonomia, suas descobertas e formas de fazer coerentes à sua realidade, num contexto social maior. Penin (1994) coloca que, para que haja a verdadeira construção do conhecimento, há que se coordenar o vivido e o concebido, isso porque: [...] é sempre possível que realizações aconteçam a partir de equilíbrios fictícios, ou sobrevalorizando determinadas concepções, ou a vivência. A utilização de concepções existentes, sem reflexão, pode tornar-se meros discursos; a submissão à vivência pode acarretar uma prática alienada. Em um ou outro caso, o resultado pode parecer como presença, mas ser apenas simulacro (PENIN, 1994, p. 38-39). O cuidado com a análise do cotidiano escolar nos colocou a ver suas interfaces, as representações entre o concebido e o vivido, entre a política de tempo integral do sistema de ensino e a sua prática na escola, entre o PPP e sua assimilação na vida cotidiana dos indivíduos que a compõem, visando, contudo, observar quais representações circulam numa coordenação entre concebido e o vivido, daqueles que fazem a escola acontecer. Aindae que me colocaram diante deste processo de doutoramento. Um processo de busca pelo conhecimento e a viva consciência de nosso inacabamento perante o mundo. Com tal consciência, precisamos viver convictos da capacidade ontológica de sermos mais, defendida nos ensinamentos de Paulo Freire. Refiro-me e este autor já no primeiro parágrafo por compreender que seus escritos e pensamentos fizeram parte de minha trajetória no magistério e na graduação e, mesmo com a minha pouca compreensão de seus ensinamentos, eles foram ganhando, ao longo do tempo, significado e expressão, sobretudo, na pós-graduação, onde a consciência pela Educação se tornou mais forte em mim. Face a esse despertar e perante a obra deste autor, enalteço todo o seu trabalho que segue justificando minha vida profissional. O mestrado, terminado em 2017, permitiu que eu descrevesse detalhadamente a minha história de vida desde a Educação Básica. Neste momento, muito embora eu ainda me faça valer de alguns de meus escritos sobre o meu caminhar, procuro dizê-lo agora, entrelaçado aos ensinamentos pelos quais tive na academia nesses últimos anos, nas vivências fora dela e pelo conhecimento que avançou, que apenas avançou, pois sou consciente de minha inconclusão. Hoje, percebo com maior clareza as lutas na área educacional, os avanços e retrocessos que me fizeram perceber o porquê de uma Educação Básica (precisamente, quando cursei o 1º grau - 1ª a 8ª série1) vivida absolutamente marcada pela imposição, transmissão e ausência de criticidade que conseguiu me deixar anos e anos em inércias: a do pensar criticamente, a do refletir e a do agir com maior consciência em minha vida e profissão. Entretanto, tais inércias não impediram ou impedem que eu reconheça a importância da escola pública da qual sou fruto, tão pouco dos profissionais que nela atuaram ou atuam. Percebo que as lentes que conduziram o meu olhar na graduação e na pós-graduação, me permitiram conhecer melhor como se configurou a educação deste país desde que colonizado, as interfaces de uma longa história que liga-se ao hoje e, consequentemente, nos projeta para o amanhã. Por isso, coloco-me diante deste trabalho descrevendo esta trajetória, porque a história de um professor se constrói ao longo da vida, em cada etapa ela ganha significado, em cada 1 Atualmente chamado de Ensino Fundamental, que versa do 1º ao 9º ano. 21 momento a que você está aberto a conhecer e a buscar o seu melhor, você permite que sua autonomia e sua identidade profissional se fortaleçam. Vejo, a cada dia, que é preciso seguir, buscado me aproximar de uma visão ampla educacional e social. Aqui, volto em Paulo Freire, pelo seu exemplo que expressa uma vida e obra que se caracterizam em profundas análises da sociedade, por meio da visão de um professor extremamente comprometido com a democracia, com a existência, com a busca pela consciência crítica da população, com a cultura, além de ter buscado exercer uma postura sempre dialógica e ética na sua interação com o outro. Por isso, me chama a atenção pela sua autenticidade em ser professor, vida convicta na defesa de uma educação libertadora e progressista em favor da autonomia dos educandos. Autonomia que eu busco cotidianamente, porque desejo conhecer. O Ensino Fundamental foi iniciado e concluído em uma única escola2, trazendo na lembrança as marcas positivas e negativas de uma trajetória escolar concluída com muita dedicação e esforço, mas também me recordo com sofrimento e a incompreensão de algumas questões que envolviam a relação professor-aluno. Ingressei já na primeira série, sabendo escrever meu nome completo, ensinado por meus pais (sabia decodificá-lo). Meu primeiro desafio foi viver esta série com a constante troca de professores, não me recordo de nenhum deles. Na segunda série veio a recuperação escolar, cursada no período oposto, situação muito constrangedora para o aluno, quando a sua ‘não inteligência’ era dia a dia ressaltada pela professora que propôs a sua recuperação. O castigo atrás da porta por não conseguir responder a tabuada foi vivido na terceira série. Mas me recordo da Dona Cristina, foi a professora da quarta, percebam que jamais pude esquecer seu nome! Já compreendi em minha trajetória porque não a esqueci, pois foi somente nesta série que percebi que eu podia ser aluna, porque aquela profissional permitiu uma boa relação e um bom ensino. Da quinta à oitava série foram muitos professores, nas diferentes áreas do conhecimento, foram diversas experiências, muitas coisas por aprender, muitas tarefas, mas o que marcou nesse período, foi a professora de matemática na sexta série, fazendo-me viver uma experiência muito negativa por ‘não saber a matéria’. Segui meu caminho até a oitava série, mas sempre com muita mágoa daquela professora. Mas, enfim, aprendi a ler e a escrever, não reprovei, era extremamente obediente na escola, cumpria com todos os meus deveres. Ao olhar para este passado e refletindo sobre ele, deparei-me com a certeza de que, mesmo eu não sabendo qual seria a minha profissão naquela época, ela já estava sendo 2 Escola Estadual Licolina Villela Reis Alves, de Ensino Fundamental e Médio, criada pelo Decreto Estadual nº 50537/1968, publicado no DOE de 11/10/1968. Localizada na cidade de Araçatuba/SP, mantida pelo poder público estadual, sob a jurisdição da Diretoria de Ensino da região de Araçatuba. 22 constituída. Essa certeza se fortaleceu quando me encontrei cursando as disciplinas do mestrado e participando do Grupo de Pesquisa Formação de Professores e Práticas de Ensino na Educação Básica e Superior (FPPEEBS). Em contato com os docentes, com novos conhecimentos, com as experiências de outros alunos, a leitura de textos, cursos e seminários me colocaram diante do reconhecimento daquilo que Marcelo Garcia3 (2009, p. 11-12) defende sobre a identidade do professor e, também, sobre o seu desenvolvimento profissional. Para ele, ambos estão em processo, é a construção do próprio “eu” profissional “[...] que evolui ao longo da carreira docente e que pode ser influenciada pela escola, pelas reformas, contextos políticos”, bem como a “[...] disponibilidade para aprender a ensinar”, as crenças e os valores construídos. Além do mais, que a identidade profissional docente abarca as experiências passadas, que se constitui e se desenvolve ao longo da vida, individual e coletivamente. Se constitui no “terreno do intersubjetivo” como um processo evolutivo e de interpretação de si mesmo, em determinados contextos, na interação com os outros, ou com os objetos (SILAZAKI, 2017). A academia, no entanto, trouxe-me à consciência de que meus saberes da docência estavam sendo constituídos já naqueles anos escolares, pois quando assumi ser professora, escolhi não deixar marcas negativas na vida de meus alunos. No ano de 1988, ingressei no Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério4 (CEFAM). Após ter vivido alguns conflitos na escolha profissional, a atenta e zelosa orientação de minha mãe, fez com que eu ingressasse no magistério. A nova fase estudantil teve início no mesmo ano em que abriram as primeiras turmas do CEFAM, no estado de São Paulo. Foram anos de muito aprendizado, tínhamos bons mestres, eram muito comprometidos, todos pareciam executar uma missão referente à formação dos alunos, estávamos sempre envolvidos em práticas pedagógicas, confeccionávamos materiais, jogos, tínhamos que criar planos de ensino. Os estágios supervisionados integravam as atividades e, nesse processo de minha constituição como professora, logo percebi que nós (alunos) éramos observadores de práticas, não tínhamos a interação com os professores, e, quando elas existiam, eram bastante tímidas, mas já era possível distinguir algumas situaçõesna direção de ampliar a visão sobre o cotidiano neste trabalho, nos valemos de Aguiar e Herschmann (2014) que trazem a contribuição do historiador47 Michel de Certeau (e de sua obra: A Invenção do Cotidiano, dividida em 5 partes). Àqueles apontam que para este estudioso o cotidiano não é algo dado, mas nasce das relações sociais, com práticas que vão do micro ao macro, e que esse cotidiano se inventa de mil maneiras por meio de uma caça não autorizada, caça, muitas vezes, microscópica, que tem a relação (sempre social) que “[...] determina seus termos, e não o inverso, e que cada individualidade é o lugar onde atua a pluralidade incoerente (muitas vezes contraditória) de suas determinações relacionais” (CERTEAU, 2004, p. 38 apud, AGUIAR; HERSCHMANN, 2014, p. 10). Explicam os autores 47 Teólogo e historiador, mas para Luce Giard (1998) sua colaboradora e que apresenta a obra de Certeau em sua segunda edição em 1990) diz que “[...] ele é sucessivamente historiador da medicina e da sociedade, teólogo, psicanalista, quantificador, discípulo de Freud ou Foucault [...] Mantém-se indecifrável” (GIARD, 1998, p. 10). 147 que o interesse de Certeau é pela análise do mundo diário, mundo abundante de pessoas, falas, gestos, movimentos, coisas, que abrigam o que o autor chama de ‘invenções anônimas” que são desvios que se manifestam nas táticas difusas do homem comum, que agem e transformam o mundo. Assim, explicam que, para Certeau há sempre no cotidiano sujeitos produtivos, que ocupam um espaço que não é apenas de mera produção, mas sim de invenção, das artes de fazer, e, para ele, o que interessa saber é como os indivíduos (atores sociais) envolvidos no mundo social se expressam, quais os sentidos latentes que decorrem desse envolvimento com o mundo e as suas funções sociais. Sigamos a observar seu entendimento sobre as práticas ou artes de fazer: Muitas práticas cotidianas (falar, ler, circular, fazer compras ou preparar refeições etc.) são do tipo tática. E também, de modo mais geral, uma grande parte delas “maneiras de fazer”: vitórias do “fraco” sobre o mais “forte” (os poderosos, a doença, as violências das coisas ou de uma ordem etc.), pequenos sucessos, artes de dar golpes, astúcias de “caçadores”, mobilidades da mão-de-obra [...] Essas performances operacionais dependem de saberes muito antigos [...] remontam a tempos muito mais recuados, a imemoriais inteligências com as astúcias e simulações de plantas e de peixes. Do fundo dos oceanos até as ruas das megalópoles, as táticas apresentam continuidades e permanências (CERTEAU, 1998, p. 47). Essas táticas usadas na vida cotidiana são caminhos para a análise na obra do autor, as astúcias, as vitórias do fraco, os pequenos sucessos, os rumores da vida cotidiana etc., que sempre existiram, mas que foram pouco percebidas ou analisadas. Ele menciona que é preciso repensar essas táticas negadas pela epistemologia da ciência (CERTEAU, 1998). Por outro lado, as estratégias que o autor distingue como o “[...] cálculo (ou manipulação) das relações de forças que se tornam possíveis a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado” (CERTEAU, 1998, p. 99). A estratégia, ocupa um lugar de poder e querer próprio, pela qual pode gerir as relações a partir de uma exterioridade de alvos e ameaças (os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade etc.), ela é capaz de produzir e impor. A tática, por sua vez, tem a ausência desse próprio, de lugar, ela “joga” com àquilo que lhe é imposto, segundo Certeau (1998), a tática é movimento dentro do campo do outro (pode ser do inimigo), exerce a astúcia, aproveita as ocasiões, consegue estar onde ninguém espera, por isso a importância de perceber esse movimento. Esclarecem Aguiar e Herschmann (2014, p. 11) que para Certeau, no consumo de bens culturais e materiais, há sempre apropriações e ressignificações imprevisíveis “[...] Essas “astúcias” é que irão compor uma rede de antidisciplina que aparecerá ora como “resistência” 148 ora como inércia em relação às imposições sociais”. Seria algo colocado como uma contraposição. Assim, propõe a noção de cultura cotidiana (como artes de fazer), que seria a produzida pelos atores sociais - também históricos - situados no processo. São, portanto, essas artes que, para Certeau, caracteriza o cotidiano e não os fatos da sociedade, ou os produtos da cultura. Nessa cultura cotidiana, assimilamos que o que se propõe observar é como os atores agem na arte do fazer, não meramente reproduzindo situações, mas suas formas de reação à fabricação cultural à que todos estão sujeitos na sociedade. Desta forma, segundo ele, não interessa só perceber que o indivíduo ficou diante da televisão um excessivo tempo (comportamento), percebendo as imagens (representações) ali veiculadas, mas sim, saber o que essa ação provocou ou produziu neste indivíduo e como ele reage nesse processo (CERTEAU, 1998). É preciso, nesse processo, o “[...] estudo daquilo que o consumidor cultural “fabrica” durante essas horas e com essas imagens. O mesmo se diga no que diz respeito ao uso do espaço urbano, dos produtos comprados no supermercado ou dos relatos e legendas que o jornal distribui” (CERTEAU, 1998, p. 39, grifo do autor). O que na individualidade da pessoa isso causou, ou o que ela produziu? Para ele é necessário perceber à que a individualidade está submetida e o que ela produz quando se encontra com a toda a vivência e pluralidade do mundo diário: A “fabricação” que ser quer detectar é uma produção, uma poética – mas escondida, por que ela se dissemina nas regiões definidas e ocupadas pelos sistemas da “produção” (televisiva, urbanística, comercial etc.) e porque a extensão sempre mais totalitária desses sistemas não deixa aos “consumidores” um lugar onde possam marcar o que fazem com os produtos (CERTEAU, 1998, p. 39, grifos do autor). Para ele, se existe de um lado uma produção racionalizada, barulhenta, espetacular, centralizada (que entendemos as estratégias), há, como resposta a essa produção, sempre uma “outra” produção qualificada de consumo (as táticas), que é astuciosa, dispersa, mas, ao mesmo tempo, silenciosa e quase que invisível, que não se faz notar com produtos próprios, mas nas maneiras de empregar aquilo que lhes é imposto por uma ordem econômica dominante (CERTEAU, 1998). Para ele, é preciso analisar esta “outra” produção. Como exemplo, cita sobre os estudos realizados ao longo do tempo quanto ao equívoco do “sucesso” dos colonizadores espanhóis junto às etnias indígenas da América do sul que, mesmo consentindo à dominação, faziam das ações, representações, rituais ou das leis impostas, outra coisa que não aquela que o colonizador julgava obter. Como disse Certeau (1998, p. 39), os indígenas às “subvertiam”, não às rejeitavam diretamente ou às modificavam, mas a maneira de usá-las para fins e em função das referências estranhas ao sistema de que não podiam fugir. Para que 149 possamos compreender um pouco mais, Luce Giard (1998) esclarece quanto ao exemplo de colonização, [...] Parecendo por fora submeter-se totalmente e conformar-se com as expectativas do conquistador, de fato “metaformizavam a ordem dominante”, fazendo funcionar as suas leis e suas representações “num outro registro”, no quadro de sua própria tradição (GIARD, 1990, p. 18, grifos da autora). No modo de uso da ordem dominante, podemos dizer que também exerciam seu próprio poder, pois dele não podiam fugir, “[...] A força de sua diferença se mantinha nos procedimentos de “consumo” (CERTEAU, 1998, p. 40). O autor procura olhar para as interfaces (na diferença ou no distanciamento) que ocorrem no âmbito desses acontecimentos, pelas quais se observa uma “produção”que conflitavam com 3 MARCELO GARCIA, C. Desenvolvimento Profissional: passado e futuro. Sísifo – Revista das Ciências da Educação, Portugal, n. 8, p. 7-22, jan.-abr. 2009. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2020. 4 Decreto nº 28089/1988, de 13 de janeiro de 1988, da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, cria Centros Específicos de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério. A Resolução SE nº 119, de 7 de novembro de 2003, regulamentou o término da abertura de novas turmas para o CEFAM, caracterizando a extinção do programa no ano de 2005. Informações disponíveis em: e respectivamente. Acessos em: 10 mar. 2020 e 18 ago. 2021. 23 meu aprendizado e outras que podiam servir de exemplo. O curso foi iniciado no município de Araçatuba onde foram cursados três anos do magistério e, por motivos pessoais, terminei-o em Presidente Prudente, no ano de 1991. Minha primeira experiência como professora licenciada ocorreu em 1993. De volta em Araçatuba, ingressei como estagiária na Educação Infantil de uma escola particular. Exerci a função por um ano e, nos últimos três meses de minha estada nessa escola, substitui uma professora afastada, tendo conquistado meus primeiros salários. Foi uma experiência de muito trabalho e superação, pois foi o primeiro momento em que estive diante dos alunos sob minha exclusiva responsabilidade. As crianças eram apaixonantes, muito vivas e muito ativas para aprender. Com isso, o meu aprendizado e os meus saberes docentes prosperaram. Vivi, no entanto, a expectativa de ter uma turma nessa escola, pois gostavam de meu trabalho e minha chance poderia surgir no próximo ano letivo, restavam seis meses ainda para saber se isso se concretizaria. Antes disso, porém, fui levada a fazer uma escolha: em julho de 1994 ingressei na prefeitura de Araçatuba e assumi o cargo de escriturária datilógrafa. Foi uma decisão difícil ao assumir o posto, pois até o final de junho daquele ano, estive na sala de aula em minha primeira e gratificante experiência no magistério. Porém, como voltaria a ser estagiária no decorrer dos próximos meses, resolvi assumir a prefeitura devido às necessidades financeiras. Com um ano e meio de prefeitura, saiu o edital para o concurso de professor. Era importante e necessário ser aprovada, uma vez que eu já tinha expectativas, tão logo surgisse o concurso, de prestá-lo. Obtive êxito no certame e ingressei no cargo em fevereiro de 1996. Ano que também passei a cursar a licenciatura em pedagogia. Foram dois inícios, o ingresso no cargo público como professora foi em uma escola de Educação Infantil em um bairro marginalizado da cidade de Araçatuba, com um histórico de violência, à época, muito expressivo. Vivi um choque de realidade, sobretudo, quando comparado à experiência que tive na escola particular. As crianças eram carentes, desprovidas de recursos, ficavam doentes com muita frequência, mas tinham muita vivacidade e capacidade para aprender se comparadas àquelas crianças de minha primeira vivência profissional. Foi um tempo de crescimento profissional, as professoras da escola eram muito companheiras e pude perceber nelas algumas referências para minha profissão. Foram duas diretoras nessa unidade, uma se envolvia com a burocracia escolar e a outra procurava conduzir administrativa e pedagogicamente sua equipe. Duas posturas diferenciadas que, logicamente, influenciaram no meu modo de ser professora e a forma de observar os caminhos da escola. Ao ingressar na carreira docente no município, também iniciei a minha graduação no curso de licenciatura em pedagogia. Com um pouco mais de amadurecimento pessoal, cursei a 24 faculdade, percebi que o CEFAM já havia dado conta de me ensinar muitas coisas, mas, naquele momento, as teorias apresentadas pareciam fazer maior sentido, uma vez que algumas situações podiam ser observadas em minha prática como professora. Essa transposição, no entanto, não era tão simples, a faculdade me exigiu muito, pois percebia que minhas capacidades de interpretação, transposição e entendimento das teorias eram bastante limitadas, senti o peso de uma educação transmissiva e cheia de lacunas, que vivi no período escolar. Com esforço, cheguei à formatura, para a minha surpresa e a de meus pais, mas, particularmente para minha mãe que orientou-me na carreira, recebi o certificado de melhor aluna da turma. Foi muito gratificante, mesmo com tantas tarefas entre estudar e trabalhar no meu início de carreira, pude perceber que eu estava seguindo o caminho certo (SILAZAKI, 2017). Durante os meus primeiros três anos como professora, recebi dois convites, um para trabalhar em outra unidade escolar em um bairro central da cidade, tendo sido negado, pois naquele momento eu estava envolvida com os alunos e com a equipe de trabalho e decidi não alterar a situação vivida. No início de 1999, recebi o segundo convite e era para trabalhar na Secretaria Municipal de Educação, naquela oportunidade, fui compor uma equipe de profissionais responsáveis pelas escolas do sistema municipal na área pedagógica, era uma função, tão precoce na sala de aula e já me envolvi com outro universo, o institucional. Reflito que, quando eu estava compreendendo melhor minhas práticas pedagógicas, adaptando-me com a comunidade e com os alunos em sala de aula, quando eu estava me percebendo ‘a professora’, fui viver um outro desafio. Integrei-me numa nova ordem de trabalhos, fui me adaptando às situações da secretaria de educação e amadurecendo com o apoio de pessoas da equipe. De administração a administração, o convite se estendeu e me mantive na função pedagógica. Quando menos percebi, estava envolvida com as situações pedagógicas e as administrativas conjuntamente. Passei por anos muito conflituosos e sobrecarregados com os trabalhos e com as dinâmicas da secretaria de educação, ocorreu a municipalização, vieram as questões do plano de carreira e estatuto do magistério municipal, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), o Plano de Ações Articuladas (PAR), o aumento de demandas administrativas e pedagógicas do sistema. Vieram a efetivação dos conselhos municipais e escolares, as conferências municipais obrigatórias referentes ao plano nacional e municipal de educação, convênios com o governo federal etc. Enfim, estive envolvida com diversas situações, confesso que tudo era tão emergencial e frenético que, às vezes, paro para pensar e parece que não vivi tantas situações. Muitos detalhes já se perderam, mas a experiência foi ampliada e muitos desafios vencidos, o desenvolvimento profissional foi ganhando corpo ao longo dos dezoito anos que estive na 25 secretaria de educação. Na maior parte desse tempo, como dito, exerci funções no setor pedagógico, mas fui tomada por muitas questões administrativas que vieram se consolidando por minha ‘longa trajetória’ na secretaria. Uma caminhada que se envolveu com a responsabilidade (individual e coletiva) de colocar em andamento diferentes programas do governo federal visando a consolidação de um sistema municipal de ensino. Todas essas possibilidades, permitiram que eu ampliasse a consciência sobre a complexidade da gestão de uma secretaria de educação e do desenvolvimento das atividades escolares, que coloca todos os profissionais da educação em um patamar de inúmeras responsabilidades a serem perseguidas e concretizadas (SILAZAKI, 2017). Minha história de vida ainda revela outros dois momentos, uma nova graduação e a pós- graduação. Eu fiz o magistério, entendi a necessidade de continuarestudando e fui fazer a licenciatura em pedagogia quando já professora. Ao terminá-la, não estava satisfeita, queria continuar estudando. À época, em minha família, desconhecíamos o mestrado e o doutorado, a faculdade também não fomentava sobre esses assuntos. A minha vontade de continuar estudando fez com que, no ano seguinte ao término de minha graduação em pedagogia, eu ingressasse no bacharelado em direito. Foram, novamente, dois inícios, pois foi em 1999 que comecei a minha trajetória na secretaria de educação e juntamente o primeiro ano do direito, terminado em 2003. As batalhas pessoais permearam todo esse processo, com ele o falecimento (em 2000) de minha amada e responsável por eu ingressar no magistério, minha mãe. Os anos vividos foram marcados por imensas lutas, mas era necessário continuar. No ano de 2008, fiz a especialização concluída em 2009. Naquele momento, já estava consciente da necessidade de continuar estudando na área da educação, por isso, cursei a pós- graduação lato sensu em direito educacional. A implantação do Ensino Fundamental de nove anos foi o foco de meu trabalho de conclusão de curso, pois estava vivendo ‘na pele’ o processo no município. Uma política pública que se implantou, mas às duras penas, e que, no meu entendimento, foi uma medida desconexa, sem um posicionamento efetivo e preciso dos conselhos nacional e estadual, que viesse amparar o conselho municipal nas decisões locais, as idades dos alunos e as datas para o início do ensino de nove anos se deram de variadas formas, nas diversas realidades desse país, fatos que geraram inúmeras demandas para o município e para a secretaria de educação, motivo pelo qual, à época, resolvi escrever algumas tímidas laudas sobre o assunto. Contudo, foi a minha vivência profissional na secretaria de educação que motivou a busca pelo mestrado. As atividades vividas por mim fomentavam muitas situações, às vezes, as certezas se tornavam incertezas, o conhecimento de tantas coisas parecia não dar conta de 26 responder a inúmeros encaminhamentos realizados com os coordenadores pedagógicos, diretores e professores das escolas, haja vista que estive ligada a eles por um longo período na secretaria de educação. Penso que conviveremos com isso, não conseguimos responder/resolver a tudo e a todos, mas a possibilidade de ampliar o conhecimento e assimilar com maior clareza as questões do cotidiano profissional fez e faz a diferença não só no campo profissional, mas no pessoal. Por isso, o contexto das experiências vividas na secretaria, conjugadas às do mestrado me colocaram diante do que Marcelo Garcia (2009, p. 12) menciona em sua revisão sobre identidade e desenvolvimento profissional docente quando aponta que “[...] a identidade profissional é um processo evolutivo de interpretação e reinterpretação de experiências”. Isso foi se tornando muito mais claro já no mestrado. No ano de 2013, prestei pela primeira vez o processo seletivo vindo a ser classificada como aluna especial, cursando as disciplinas “Formação de Professores para uma Escola Digital e Inclusiva”, sob a responsabilidade da Profa. Dra. Elisa Tomoe Moriya Schlünzen e do Prof. Dr. Klaus Schlünzen Júnior, e “Entre os saberes Docentes e os Aprenderes Discentes: Questões Teóricas e Metodológicas”, ministrada pelo Prof. Dr. Mauro Betti. Cursei, ainda, o Tópico Especial “Política Educacional (1995-2014) Avanços e Retrocessos”, sob a responsabilidade da Profa. Dra. Yoshie Ussami Ferrari Leite, experimentei um rico aprendizado naquele ano. No ano de 2014, logrei êxito no mestrado, foi especialmente gratificante. Passei a frequentá-lo regularmente em 2015, cursando as disciplinas “Procedimentos Metodológicos e Técnicas da Pesquisa em Educação”, ministrada pelo Prof. Dr. Alberto Albuquerque Gomes, e a disciplina “Inclusão Escolar e Ensino Colaborativo”, sob a responsabilidade da Profa. Dra. Renata Portela Rinaldi, minha orientadora e docente, que me conduziu nessa fase, compartilhando generosamente seu conhecimento ímpar, suas experiências e o seu entusiasmo, tendo me levado ao título de mestre com a pesquisa intitulada “O processo de aprendizagem profissional de coordenadores pedagógicos para as/nas escolas de/em tempo integral5 no município de Araçatuba”, envolvendo esses coordenadores no desafio de ser um “formador de professor” num contexto desafiador de escola. Expresso, neste momento, que tenho uma avaliação muito positiva sobre minha experiência no mestrado, pois estive diante de muitas respostas que minha vida profissional exigia e para as quais eu não tinha consciência antes da pós-graduação stricto sensu. Passei a organizar melhor o pensamento com a vivência de minha pesquisa, nos aspectos relacionados à formação inicial e continuada dos professores, sobre a identidade profissional dos 5 O conceito para Escola de/em Tempo Integral será tratado na seção introdutória desta tese. 27 coordenadores pedagógicos, o desenvolvimento profissional, sobre os problemas educacionais e escolas de tempo integral para uma educação integral, sobre as políticas públicas etc. Além disso, pelo olhar atento e pela convicção de minha orientadora, revelou-me a possibilidade de vivenciar a contribuição social de uma pesquisa. Assim, vinculamos à pesquisa do mestrado à oferta de um curso de formação continuada destinado aos coordenadores pedagógicos do sistema de ensino de Araçatuba, integrantes das escolas de tempo integral do município. O curso sob o título “A Coordenação Pedagógica na Perspectiva da Escola de Tempo Integral”, sob a coordenação da Profa. Dra. Renata Portela Rinaldi, aconteceu no período de maio a novembro de 2016, num total de 180h oferecidas. Para além da interpretação e reinterpretação de experiências vividas em minha vida profissional e acadêmica, todo esse processo de desenvolvimento da pesquisa assim como as disciplinas cursadas, colocaram-me diante de novos conhecimentos, conceitos desconhecidos, bibliografias riquíssimas, experiências que me possibilitaram rever minha experiência profissional, refletir sobre ela, sobre preconceitos e sobre crenças que influenciaram minhas formas de me constituir profissional. Nesse caminhar, muitas questões e ideias foram compartilhadas nas aulas, a ponto da reflexão e do conhecimento adquirido serem capazes de mudar algumas crenças, a partir dos ensinamentos dos professores e das relações estabelecidas com os alunos da pós-graduação. Fui vivendo o processo de descoberta da pesquisa e me colocando diante da grandeza do universo da pós-graduação stricto sensu, uma vez que pouco sabia sobre ela, meus saberes docentes certamente ampliaram. Integrei o Grupo de Pesquisa Formação de Professores e Práticas de Ensino na Educação Básica e Superior (FPPEEBS), que marcou positivamente este caminhar, o compromisso das professoras responsáveis Profa. Dra. Ana Luzia Videira Parisotto e Profa. Dra. Renata Portela Rinaldi, fez o grupo crescer e perceber a importância de o aluno-pesquisador estar envolvido, também, nesse processo. Tive a oportunidade de vivenciar o desenvolvimento de uma pesquisa coletiva do grupo, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Participei como colaboradora na elaboração do questionário utilizado via pesquisa nas escolas do sistema municipal de ensino de Presidente Prudente/SP, e contribuí com a sua aplicação junto aos professores e gestores de uma unidade escolar desse sistema. Além disso, a partir dos estudos e discussões realizadas no grupo sobre a análise de conteúdo (BARDIN, 2011; FRANCO, 2012), pude experienciar o processo de categorização de parte do material coletado na pesquisa. Participei, ainda, como ouvinte de um curso de formação de professores, intitulado “Ensino de Língua Materna: produção de texto na educação fundamentalI”, que foi planejado e desenvolvido a partir das necessidades dos participantes dessa 28 investigação coletiva, no sistema de ensino do município de Presidente Prudente, o que também revelou a contribuição social da pesquisa e suas implicações entre a universidade e a escola. Foram fatos, ações e experiências vividas que sempre me motivavam a participar das atividades e delas me sentir alimentada para voltar para minha vivência profissional e buscar superar alguns dos inúmeros desafios que a educação ainda precisa superar. Compreendi nesses anos, ao longo de minha trajetória pessoal, profissional e acadêmica, sobretudo, aqui na pós-graduação stricto sensu, que ser professor é assumir-se, modificar-se, comprometer-se a todo momento com o ato de formar/educar o outro. Paulo Freire defende essa condição e, como um grande exemplo, propõe uma postura dialógica, crítica e pautada na ética quando se pensa, vive e se faz educação. Essa postura é a que busco ser fortalecida em mim a todo o momento e que precisou ser vivida no ano de 2017, quando terminei o mestrado e fui convidada a lecionar duas disciplinas no Ensino Superior, na licenciatura em pedagogia. Coloquei os meus pés onde fui egressa dos cursos de minhas graduações (pedagogia e direito). Vivi minha primeira experiência no Ensino Superior que, além de gratificante, foi extremamente reveladora quanto aos desafios a serem superados na formação inicial do indivíduo, tanto pelo aluno, como pelo próprio professor. O mestrado, então, abriu as portas para uma vivência diferenciada em minha vida, foi um constante pensar, repensar, planejar, refletir, retomar e, sobretudo, dialogar, com os desafios da formação inicial. Igualmente, o mestrado foi revelador para o meu retorno, também em 2017, ao cargo de professora no sistema municipal de ensino. Após os dezoito anos na secretaria da educação, ao retomar as atividades na prefeitura pós-mestrado, elas aconteceram na escola a qual atualmente estou lotada. O plano de carreira de ensino de Araçatuba permite o afastamento do professor/gestor por 18 meses para cursar a pós-graduação stricto sensu. Vali-me da possibilidade por um período inferior a um ano para o mestrado e, para o retorno das atividades no município era exigido, à época, que o profissional voltasse para o local onde estivesse lotado no cargo. Foi, então, que retornei ao ambiente escolar, na sala de aula da Educação Básica. Não é preciso dizer que também foi um recomeço desafiador. No início de minha carreira como professora em 1996, fiquei apenas dois anos na docência, uma experiência breve no magistério municipal, tendo sido convidada para trabalhar na secretaria de educação, local onde permaneci o maior período de minha carreira. O recomeço na escola carregou consigo todas as experiências vividas tanto na secretaria de educação como no mestrado e no Ensino Superior. Minha constituição como docente, minha identidade profissional, meus saberes da docência se aprimoraram e se ampliaram neste meu retorno à sala de aula. As crianças, a equipe de profissionais, a gestão escolar e a prática do ensino me proporcionaram um retorno 29 significativo, pois permitiram confrontar muitas ações cotidianas escolares com as perspectivas teóricas de toda a minha trajetória na educação. A sala de aula ampliou minha experiência sobre a própria prática docente e sobre os meus saberes teóricos. Saberes que devem ser ampliados neste cenário educacional contemporâneo, no qual o professor exerce uma prática social muito complexa, a de formar o aluno numa sociedade marcada por conflitos de valores, éticos, econômicos, políticos, sociais e culturais. Eu, como professora, reconheci a cada momento vivido ao longo desses últimos anos, sobre a minha responsabilidade de refletir e compreender sobre o meu inacabamento. Paulo Freire (1996) nos leva a pensar que não somos seres determinados e, em qualquer esfera, seja ela pessoal ou profissional, não podemos nos eximir de interferir no mundo, não podemos deixar de problematizá-lo, de trazermos à nossa consciência as tensões das diferentes forças sociais e, a partir delas, reconhecer-me como pessoa, sujeito histórico, que se insere no mundo para nele intervir e transformar. Este pensamento esteve comigo quando, em 2017, participei do processo seletivo para o doutorado. Motivada pela rica experiência do mestrado e por toda a trajetória vivida com os coordenadores pedagógicos das escolas de jornada ampliada e, também, pelo retorno à sala de aula, o caminho seguinte seria o doutorado. O desejo, o esforço e o êxito no processo seletivo foram situações marcadas por minha extrema gratidão. Em 2018, foram três disciplinas cursadas: “Educação, Poder e Subjetividade: uma leitura filosófica, ministrada pelo Prof. Dr. Divino José da Silva; a “Política Educacional Brasileira: abordagem histórica e contemporânea, proposta pelo Prof. Dr. Silvio Cesar Nunes Militão; a disciplina “Epistemologia e métodos de pesquisa em Educação”, ministrada pelo Prof. Dr. Alberto Albuquerque Gomes; e, por fim, participei de um tópico especial sobre “Implicações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a formação e o trabalho docente”, dirigido pelas professoras Dra. Renata Portela Rinaldi e Andréia Nunes Militão. Em 2019, foram cursados outros dois tópicos especiais, o primeiro denominado “Coleta, tratamento e análise quantitativa de dados educacionais, uma visão introdutória”, conduzida colaborativamente pelo Prof. Dr. José Gilberto Spasiani Rinaldi e pela Profa. Dra. Renata Portela Rinaldi; fechando esse ciclo participei do tópico especial “A importância de Paulo Freire para uma educação de qualidade” que teve como docente responsável a Profa. Dra. Yoshie Ussami Ferrari Leite e o Docente convidado da Unoeste, Prof. Dr. Cristiano Amaral Garboggini Di Giorgi. Retrato essa trajetória para dizer da importância da academia como espaço de formação profissional, conhecer por novos ângulos e por visões mais críticas sobre a educação e seu contexto social, a história educacional brasileira desde seus primórdios até as políticas atuais, as perspectivas possíveis no desenvolvimento de pesquisas, a importância de 30 conhecer sobre autores, seus pensamentos e ações, foram questões que se tornaram referências importantes e, a cada momento, instrumentalizam a minha escolha pelo magistério. As minhas vivências e aprendizagens na pós-graduação stricto sensu contrastam com àquelas vividas no período escolar do 1º grau, fazendo, continuamente, eu refletir sobre o quanto a educação deve se constituir como uma atividade intelectual crítica, reflexiva e promissora para a sociedade. Em 2019, fui novamente convidada a exercer a docência no Ensino Superior para duas turmas do curso de licenciatura em Pedagogia, na mesma universidade onde vivi minha primeira experiência na formação inicial, foi outro momento de muita aprendizagem. Foi se revelando mais fortemente a trajetória do desenvolvimento profissional, aprende-se muito com as teorias, mas é a prática que te revela que o fazer pedagógico é um campo de muitas aproximações, decisões e articulações (teoria-prática, relação professor-aluno, reflexão-crítica- ação, alunos interessados, outros nem tanto, o que ensinar, o que ‘querem’ aprender, como ensinar, como aprender etc.). Dessa forma, foi possível refletir que, para desenvolver o conhecimento no processo formativo dos alunos é preciso realizar uma mediação muito mais significativa dos saberes do mundo atual com aqueles produzidos ao longo do desenvolvimento da sociedade, fazendo com que eles se situem historicamente e sintam-se mais produtivos e autônomos no meio social. Essa experiência revelou, como previsto, o quanto somos inacabados e o quanto é preciso investir em formação, seja ela inicial ou continuada, pois a ação educativa vai além dos discursos bonitos, não é fácil quererlevar o aluno à outra margem! O estágio docente no curso de licenciatura em pedagogia na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Câmpus de Presidente Prudente, também compôs o meu aprendizado acadêmico em 2020, foi desenvolvido sob a regência de minha professora orientadora Dra. Renata Portela Rinaldi e fundamentou-se num processo formativo de aprendizagem sobre a docência e sobre a formação docente no Ensino Superior, na disciplina Escola e Currículo. Constituiu-se como uma experiência colaborativa no desenvolvimento da profissionalidade e da profissionalização dos envolvidos, mas, sobretudo, a minha caminhada de maior aproximação e o aprofundamento do conhecimento sobre as concepções, fundamentos e teorias do currículo, bem como as suas implicações teóricas e práticas na escola. Os processos de estruturação do desenvolvimento da disciplina, o planejamento e a avaliação da regência, os instrumentos de ensino utilizados no decorrer do semestre, a proposta formativa de avaliação do grupo, foram situações viabilizadas por posturas dialógicas no desenvolvimento do programa de curso da disciplina, ampliando as aprendizagens para o que é ser professor e para o que é formar professores no Ensino Superior. Finalizamos o estágio de docência, perpassando por um processo de amplas mudanças na sociedade que, em 31 escala mundial, impactou a vida das pessoas, mas, sobretudo, das escolas e das comunidades acadêmicas devido à pandemia da Covid-196. Referida pandemia estabeleceu o isolamento social, o fechamento das escolas e das universidades e, em um curto período de tempo, foi possível perceber o quanto os processos vividos em nosso cotidiano pessoal e profissional podem mudar os seus cursos e o quanto os profissionais da educação são capazes de se reinventar para, com responsabilidade, garantir o melhor aos seus alunos. Nesse tempo de fechamento das instituições escolares e de suspensão das aulas presenciais, houve (e ainda há) ganhos e perdas para os alunos e os professores nos diferentes níveis e modalidades do ensino, há um currículo que se reformula e se adequa, há um momento de ensinar e de aprender e outro de aceitar, que embora pudéssemos muito mais, talvez tenhamos conseguido um pouco menos em virtude, por exemplo, da relação professor-aluno que se reformulou e, peculiarmente, se estabeleceu nessa pandemia da COVID-19 por meio do uso das tecnologias digitais. Por outro lado, quando esses recursos tecnológicos não estiveram disponíveis aos alunos e famílias, exigiu que eles também se reinventassem diante das adversidades vividas com o isolamento social. Em meio a esse processo em que vivia a sociedade, escola e universidade, novamente, fui conduzida por minha Orientadora Profa. Dra. Renata Rinaldi, a ministrar aulas como Professora Bolsista na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Câmpus de Presidente Prudente. Os aprendizados e conhecimentos profissionais foram e são constantes. A disciplina “Organização e Gestão Escolar” foi ministrada no curso de Pedagogia, 2º ano (vespertino e noturno), no segundo semestre de 2020, finalizada em março de 2021 e buscou construir conhecimento com os alunos sobre as temáticas ligadas à organização e à gestão escolar que, mediante um processo que persegue uma gestão democrática-participativa, permite a conquista da autonomia da escola, a participação colaborativa dos profissionais e da comunidade nas decisões e nas ações escolares, o que implica decisivamente na oferta de um ensino de qualidade. No entanto, é notório que tal gestão 6 A COVID-19 é uma doença causada pelo coronavírus, denominado SARS-CoV-2, que apresenta um espectro clínico variando de infecções assintomáticas a quadros graves. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a maioria (cerca de 80%) dos pacientes com COVID-19 podem ser assintomáticos ou oligossintomáticos (poucos sintomas), e aproximadamente 20% dos casos detectados requer atendimento hospitalar por apresentarem dificuldade respiratória, dos quais aproximadamente 5% podem necessitar de suporte ventilatório. Os coronavírus são uma grande família de vírus comuns em muitas espécies diferentes de animais, incluindo camelos, gado, gatos e morcegos. Raramente, os coronavírus que infectam animais podem infectar pessoas, como exemplo do MERS- CoV e SARS-CoV. Recentemente, em dezembro de 2019, houve a transmissão de um novo coronavírus (SARS- CoV-2), o qual foi identificado em Wuhan na China e causou a COVID-19, sendo em seguida disseminada e transmitida pessoa a pessoa, em escala mundial. Informação retirada do site do Ministério da Saúde do Brasil. Disponível em: . Acesso em: 10 ago. 2020. https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#o-que-e-covid 32 ainda se configura como um desafio nas escolas públicas (e privadas). Assim, é preciso ultrapassar seu vasto campo teórico e, efetivamente, ser exercida na prática cotidiana das escolas. Nessa trajetória, aqui retratada, confesso que me deparei com outra experiência desafiadora, tanto para mim, como para os alunos da graduação, haja vista uma relação professor-aluno marcada pelo ensino remoto, experiência que trouxe novos aprendizados e com eles, outros tantos desafios que vieram à tona no processo de ensino e de aprendizagem. Certamente, estamos passando um processo muito peculiar de desconstrução e de reinvenção mediante aquilo que foi ‘imposto’ a toda a sociedade. Percebemos o quanto o trabalho no decorrer dos semestres, do estágio de docência e da disciplina ministrada foram embasados por princípios e uma grande responsabilidade por parte de minha Professora Orientadora, que nos motivou e sempre serve de exemplo para refletir e compreender que, mesmo nas dificuldades, é possível fazer o melhor pelos alunos e pela educação. Chego ao ‘final’ desta trajetória com a clareza de que, ao partilhar a minha história, também me responsabilizo cada vez mais por ela. Em virtude disso, sabendo que não somos seres determinados, mas sim condicionados, sejamos igualmente certos de que a busca pelo conhecimento ou a sua produção se torna um permanente movimento consciente de procura e reflexão em que devemos deixar nossa vocação ontológica prevalecer, pela capacidade de sermos sempre mais, como propunha Paulo Freire. Trata-se de uma responsabilidade ética no exercício da atividade docente e na maneira de intervir no mundo. Por isso, a necessidade de ampliar o conhecimento e criar caminhos para, dialogicamente, nos posicionarmos sobre a vida, sobre a escola, sobre a educação em uma sociedade onde muitos, ainda precisam refletir sobre seu condicionamento e inacabamento frente ao mundo. Coloco-me diante da certeza de que esses apontamentos representam apenas um novo começo, na busca pelo conhecimento que ainda precisa ser aprofundado e descoberto por mim. Posiciono-me diante da vida, com a consciência e a certeza de que posso aprender muito mais... 33 2 A EVOLUÇÃO DO TRABALHO: APONTAMENTOS INICIAIS Esta seção dois tem o intuito de apresentar a construção desta tese de doutoramento, perpassado, brevemente, pelos aspectos trabalhados no decorrer de seu desenvolvimento. Permite aos leitores observar como suas seções e subseções foram organizadas, antecipando uma visão geral do documento. Demostra como foi se constituindo o conhecimento da pesquisadora, diante dos desafios da pesquisa teórica, documental e na produção dos dados empíricos. São três grandes temáticas que basicamente implicaram em conhecer a dinâmica do cotidiano escolar de uma Escola de Tempo Integral e suas interfaces diante do que está colocado no PPP dessa escola considerando, ainda, o contexto da pandemia da COVID-19. O trabalho se encontra organizado