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A ciência foi gestada no ventre da �loso�a e só no começo da idade moderna se tornou emancipada. Praticamente todos os �lósofos pré-socráticos, desde Tales até Demócrito, contribuíram com a ciência em algum aspecto. Para demonstrar que �loso�a e ciência caminhavam juntas, podemos lembrar que Galileu Galilei, o pai da ciência moderna, apesar de médico, matemático e astrônomo, lutou por muito tempo para adquirir o título de �lósofo. Ele dizia: “estudei mais anos de �loso�a do que meses de medicina e como sou considerado médico, nada mais justo do que ser também considerado um �lósofo” (ROVIGHI, 1999, p. 48). Galileu Galilei Introdução à Filoso�ia Ciência Você sabia que seu material didático é interativo e multimídia? Isso signi�ca que você pode interagir com o conteúdo de diversas formas, a qualquer hora e lugar. Na versão impressa, porém, alguns conteúdos interativos �cam desabilitados. Por essa razão, �que atento: sempre que possível, opte pela versão digital. Bons estudos! Saiba Mais Fonte: Wikipedia. O mito gesta a �loso�a e a �loso�a gesta a ciência Existe uma disciplina chamada História da ciência que busca mostrar como o conhecimento cientí�co surgiu, como foi se desenvolvendo ao longo do tempo. É consenso entre os estudiosos dessa área que o mito gesta a �loso�a e a �loso�a gesta a ciência. O caráter cientí�co dessa re�exão �losó�ca nascente está na busca de compreensão do mundo a partir da razão. Os gregos não faziam experiências, sua ciência era feita a partir da observação e da re�exão. A experimentação começou a fazer parte do método de aquisição de novos conhecimentos a partir de Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642). A experimentação é acrescentada, sem excluir a observação e a re�exão, a �m de permitir maior universalização aos conhecimentos cientí�cos. Entre as especi�cidades da ciência estão os princípios da objetividade, universalidade e da aplicabilidade, que buscam tornar o conhecimento neutro, universal e necessário. Esse aspecto universal pode ser facilmente observado nas ciências naturais. Caminhos para buscar a verdade A ciência busca a verdade e, para tal, pode se valer de caminhos distintos. A seguir, conheça cada um deles. Método dedutivo Um dos caminhos é a dedução, ou método dedutivo. Esse é um método que parte de uma a�rmação geral e dela extrai conclusões particulares, aplica algo que é compreendido universalmente aos casos particulares. Por exemplo, se todo cisne é branco, �ca sem sentido perguntarmos qual é a cor do cisne que morreu na manhã de ontem. É um método utilizado pela matemática, sendo as suas fórmulas um exemplo por excelência. Método indutivo Outro caminho para novos conhecimentos é a indução, ou método indutivo. Esse método faz o percurso contrário do anterior; pois ele parte de observações particulares – de muitas delas, por sinal – para então extrair uma lei universal. Por exemplo, jogam-se vários objetos para cima e se observa que todos eles caem ao chão. Então, conclui-se que todo objeto jogado ao alto tende a seu ponto de repouso. Perceba que não foram jogados todos os objetos, mas, mesmo assim, infere-se tal a�rmação. Método dialético Os métodos dedutivo e indutivo não foram os primeiros existentes. Possivelmente, o primeiro tenha sido o método dialético. Quem mais propagou o método dialético foi Sócrates (470-399 a.C.) e, para ele, a dialética acontecia por meio da discussão de pontos de vistas diferentes. A dialética exige muita maturidade e autocontrole, pois os debatedores não podem ser apegados aos seus pontos de vistas mais do que à procura da verdade. Nesse processo, dialética lhes permitia a percepção da fragilidade de suas opiniões e os levaria a querer lapidá-las para se aproximarem mais da verdade. Sócrates Para Sócrates, nós devemos amar a verdade e buscá-la sempre, o que não signi�ca defendê-la, já que isso pressupõe que a temos, e a postura de um sábio é não se considerar dono da verdade, o detentor dela, e sim desejá-la ardentemente. Nesse sentido, cabe ao verdadeiro �lósofo sugerir, supor, re�etir, questionar, mas não a�rmar. Talvez por isso, Sócrates fazia questão de deixar claro que não sabia tudo e que, também, não se incomodava em terminar um diálogo sem chegar a uma conclusão. Quando isso acontecia, esse diálogo era considerado aporético (sem conclusão). Sócrates Fonte: Shutterstock. Platão Para Platão, conhecimento é crença verdadeira e justi�cada. Assim sendo, na busca de justi�cativa para o conhecimento verdadeiro, ele criou a teoria dos dois mundos, um deles sensível (ou material) e o outro inteligível (ou das ideias). Segundo Platão (1999): O mundo sensível é o mundo da ilusão, das sombras, do engano e da mudança (é o interior da caverna relatada no livro VII de A República). O mundo inteligível é o mundo da certeza, da luz, da verdade e da constância (é o mundo fora da caverna). Platão Fonte: Shutterstock. Aristóteles Discordando de seu mestre, Aristóteles sustenta a ideia de que não existiriam dois mundos, mas apenas um, ou seja, ele não se apresenta um dualista como Platão. Ao falarmos em dois mundos, é importante você ter em mente que estamos falando do mundo sensível (material, físico, dos objetos) e o dos conceitos (mundo inteligível). Aristóteles Fonte: Shutterstock. A mudança (leia-se movimento), dirá Aristóteles, faz parte da natureza das coisas, pois todas elas se encontram nesse mundo de dois modos: em ato e em potência (REALE; ANTISERI, 2003, p. 194). A seguir, conheça cada um desses conceitos. Ato O ato indica o modo como as coisas estão no momento em que elas são apreendidas. Potência A potência indica a possibilidade que as coisas têm de se tornar diferentes (crescendo, envelhecendo, etc.), sem deixar de ser elas mesmas. Nesse sentido, a potência é como uma energia intrínseca (inerente) que as coisas carregariam dentro de si, pois todas as coisas do mundo teriam um τέλος (télos é �m, �nalidade, propósito) e elas tenderiam a realizar esse télos. O télos de todas as coisas é a busca da realização do seu bem (REALE; ANTISERI, 2003, p. 341). Aristóteles entende que a ciência é conhecimento verdadeiro e causal, portanto, para se conhecer seria preciso buscar a causa daquilo que se pretende conhecer. Além de estar no mundo em ato e potência, todas as coisas teriam quatro causas: material, formal, e�ciente e �nal. Francis Bacon: o primeiro a estudar a ciência A ciência, ou a epistemologia, foi um dos assuntos que mais dominou os círculos acadêmicos no início da Idade Moderna, e o primeiro a se dedicar a ele foi Francis Bacon. Bacon dá tanto valor à experiência na aquisição do conhecimento que �cou conhecido como “pai do método experimental”. Esse intelectual entendia que, à medida em que vamos vivendo, acabamos assimilando algumas ideias equivocadas que passam a di�cultar a nossa compreensão de mundo (REALE; ANTISERI, 2004, p. 269). Francis Bacon Fonte: Wikipedia. Assim, o conhecimento cientí�co permite que as pessoas façam coisas que, antes, não poderiam ser feitas demonstrando que saber é poder (AA. VV., 2011, p. 110). Método baconiano O método baconiano para alcançar a verdade consiste em fazer uma rigorosa observação dos fenômenos naturais e submetê-los à experiência, pois, segundo Bacon, é dela que nasce a verdade. Os passos para evitar os equívocos seriam: 1. Observação. 2. Organização racional dos dados coletados. 3. Explicações gerais por meio de hipóteses. 4. Repetidas experimentações para comprovar/descartar as hipóteses. O método experimental desenvolvido por Francis Bacon será inserido na concepção cientí�ca moderna por meio de Galileu Galilei, o qual fará uso do referido método para estabelecer as bases da ciência moderna e a�rmará que tanto Aristóteles quanto a Igreja, com sua fundamentação bíblica, contêm equívocos do ponto de vista cientí�co. Método de Galileu O método de Galileu foi uma revolução na ciência e consistia-se em três princípios: 1. Observação dos fenômenos sem in�uências religiosas ou extra cientí�cas.2. Experimentação: para Galileu, nenhuma a�rmação, que se pretenda cientí�ca, deve prescindir da veri�cação de sua legitimidade. 3. Descoberta da regularidade matemática do evento estudado. Na contemporaneidade, quem contribuiu signi�cativamente para essa temática foi Karl Popper (1902-1994). Karl Popper: criador da refutabilidade empírica Karl Popper Karl Popper nasceu em Viena e lá estudou física, matemática e �loso�a. Ele lecionou por seis anos na Universidade de Viena, onde escreveu a obra A lógica da pesquisa cientí�ca (POPPER, 1972). Diante da ameaça nazista, Popper fugiu, em 1937, para a Nova Zelândia, onde lecionou até o �m da Segunda Guerra Mundial, quando mudou-se para a Inglaterra, sendo, posteriormente, professor na Universidade de Londres. Karl Popper Fonte: Wikipedia. Ao romper com o Círculo de Viena, Popper propôs como critério dos juízos cientí�cos a refutabilidade empírica, ou falsi�cabilidade. O que a refutabilidade empírica signi�ca? Signi�ca que uma ciência só seria verdadeira se resistisse à refutação. Só seria ciência a teoria, ou a hipótese, que mesmo sendo falsi�cável (desmentida, contradita, confrontável), resistisse. Hoje, há a tendência a acreditar naquilo que os cientistas a�rmam, mesmo que não nos demonstrem e mesmo que não entendamos suas teorias. O mito do cienti�cismo se baseia nas seguintes premissas: Por �m, não há dúvidas de que a ciência nos proporciona uma vida boa (saúde, comunicação, transportes, etc.), tem um grande poder de convencimento e, na grande maioria das vezes, prova o que está a�rmando. Contudo, talvez precisemos admitir que, embora forneça respostas, a ciência não tem uma resposta para tudo e que as verdades cientí�cas de hoje poderão despertar estranhamento amanhã, tal como já aconteceu com algumas teorias (o geocentrismo e o criacionismo, por exemplo). A ciência tem explicações para tudo. O conhecimento cientí�co alcançou plenamente a verdade e permanecerá imutável. Somos mais evoluídos por dominarmos mais a natureza e dispormos de mais tecnologia. O cientista é neutro em sua busca pela verdade. A ciência é um conhecimento superior. O surgimento da Filoso�a se dá a partir da ruptura com o mito, um tipo de saber inquestionável. Na História da Filoso�a, Sócrates forja a �gura do �lósofo: aquele que indaga, que questiona constantemente e que tem um método para realizar as suas indagações �losó�cas. Com isso, ele funda uma forma de racionalidade como busca da verdade. Nesse vídeo você vai conhecer mais sobre esse método de indagar, de buscar a verdade. 00:00 / 05:53 1x