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Periodontia Clínica 11ª Edição Fermin A. Carranza, DR ODONT Professor Emeritus, Section of Periodontics, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California Michael G. Newman, DDS Professor Emeritus, Section of Periodontics, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California Henry H. Takei, DDS, MS Distinguished Clinical Professor, Section of Periodontics Clinical Professor, Section of Periodontics, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California Perry R. Klokkevold, DDS, MS Associate Professor, Section of Periodontics Program Director, Postgraduate Periodontics Residency, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California Elsevier Saunders 2 Table of Contents Instruções para acesso on-line Cover image Title page Copyright Revisão científica e tradução Editores Colaboradores Agradecimentos Apresentação Sobre os autores Sobre o livro Novo nesta edição Nova arte Introdução Capítulo 1: Cenário Histórico da Periodontia Parte 1: O Periodonto Normal Introdução Capítulo 2: Anatomia do Periodonto Capítulo 3: Envelhecimento e Periodonto Parte 2: Classificação e Epidemiologia das Doenças Periodontais Introdução Capítulo 4: Classificação das Doenças e Condições que Afetam o Periodonto Capítulo 5: Fundamentos nos Métodos de Epidemiologia da Doença Periodontal Parte 3: Patologia Periodontal Introdução 3 Seção I: Doença gengival Capítulo 6: Mecanismos de Defesa da Gengiva Capítulo 7: Inflamação Gengival Capítulo 8: Características Clínicas da Gengivite Capítulo 9: Aumento Gengival Capítulo 10: Infecções Gengivais Agudas Capítulo 11: Doenças Gengivais na Infância Capítulo 12: Gengivite Descamativa Seção II: Doença periodontal Capítulo 13: A Bolsa Periodontal Capítulo 14: Perda Óssea e Padrões de Destruição Óssea Capítulo 15: Resposta Periodontal a Forças Externas Capítulo 16: Periodontite Crônica Capítulo 17: Periodontite Ulcerativa Necrosante Capítulo 18: Periodontite Agressiva Capítulo 19: Patologia e Manejo de Problemas Periodontais em Pacientes com Infecção pelo HIV Seção III: Desordens do sistema mastigatório Capítulo 20: Desordens do Sistema Mastigatório Parte 4: Etiologia das Doenças Periodontais Introdução Capítulo 21: Patogênese Periodontal Capítulo 22: O Papel do Cálculo Dentário e de Outros Fatores Predisponentes Locais Capítulo 23: Microbiologia Periodontal Capítulo 24: Fatores Genéticos e Doença Periodontal Capítulo 25: Biologia Molecular da Interação Microbiota-Hospedeiro nas Doenças Periodontais Capítulo 26: Tabagismo e Doença Periodontal Parte 5: Relação entre Doença Periodontal e Saúde Sistêmica Introdução 4 Capítulo 27: Influência das Condições Sistêmicas sobre o Periodonto Capítulo 28: Impacto da Infecção Periodontal sobre a Saúde Sistêmica Capítulo 29: Halitose Parte 6: Tratamento da Doença Periodontal Introdução Seção I: Diagnóstico, prognóstico e plano de tratamento Capítulo 30: Diagnóstico Clínico Capítulo 31: Auxílio Radiográfico no Diagnóstico da Doença Periodontal Capítulo 32: Avaliação de Risco Clínico Capítulo 33: Determinação do Prognóstico Capítulo 34: Plano de Tratamento Capítulo 35: Fundamentos Básicos para o Tratamento Periodontal Capítulo 36: Níveis de Significância Clínica Capítulo 37: Tratamento Periodontal de Pacientes Sistemicamente Comprometidos Capítulo 38: Terapia Periodontal em Pacientes do Sexo Feminino Capítulo 39: Tratamento Periodontal para Idosos Capítulo 40: Tratamento da Periodontite Agressiva e Formas Atípicas de Periodontite Seção II: Tratamento de emergências periodontais Capítulo 41: Tratamento da Doença Gengival Aguda Capítulo 42: Tratamento do Abscesso Periodontal Seção III: Terapia não cirúrgica Capítulo 43: Fase I da Terapia Periodontal Capítulo 44: Controle de Placa para o Paciente Periodontal Capítulo 45: Raspagem e Alisamento Radicular Capítulo 46: Instrumentação Sônica, Ultrassônica e Irrigação Capítulo 47: Terapia Anti-infecciosa Capítulo 48: Modulação do Hospedeiro Capítulo 49: Avaliação e Terapia Oclusais Capítulo 50: Papel Auxiliar da Terapia Ortodôntica 5 Capítulo 51: Diagnóstico e Manejo das Lesões Endodônticas-periodontais Seção IV: Terapia cirúrgica Capítulo 52: Fase II da Terapia Periodontal Capítulo 53: Anatomia Cirúrgica de Áreas Periodontais e Inaplantares Capítulo 54: Princípios Gerais da Cirurgia Periodontal Capítulo 55: Sedação Consciente Capítulo 56: Técnicas Cirúrgicas Gengivais Capítulo 57: O Retalho Periodontal Capítulo 58: Tratamento do Aumento Gengival Capítulo 59: A Técnica do Retalho para o Tratamento da Bolsa Capítulo 60: Cirurgia Óssea Ressectiva Capítulo 61: Cirurgia Periodontal Reconstrutiva Capítulo 62: Lesões de Furca: Envolvimento e Tratamento Capítulo 63: Cirurgia Estética e Plástica Periodontal Capítulo 64: Avanços Recentes na Tecnologia Cirúrgica Seção V: Inter-relações periodontal-restauradora Capítulo 65: Preparação do Periodonto para a Odontologia Restauradora Capítulo 66: Inter-Relações Restauradoras Capítulo 67: Abordagem Multidisciplinar para Problemas Dentais e Periodontais Parte 7: Implantodontia Oral Introdução Seção I: Biologia e diagnose Capítulo 68: Anatomia, Biologia e Função Peri-implantar Capítulo 69: Aspectos Clínicos e Avaliação do Paciente de Implante Capítulo 70: Diagnóstico por Imagem do Paciente de Implante Seção II: Procedimentos cirúrgicos Capítulo 71: Procedimentos Cirúrgicos Padrões em Implantodontia Capítulo 72: Aumento de Tecido Ósseo Localizado e Desenvolvimento do Sítio para Instalação do Implante Capítulo 73: Procedimentos Cirúrgicos Avançados em Implantodontia 6 Capítulo 74: Conduta Estética em Casos Difíceis (Abordagem Minimamente Invasiva) Capítulo 75A: Avanços Tecnológicos em Cirurgia de Implante: Microcirurgia em Implantes Dentais — Implantes Imediatos Capítulo 75B: Avanços Tecnológicos em Cirurgia de Implante: Cirurgia Óssea Piezoelétrica Capítulo 75C: Avanços Tecnológicos em Cirurgia de implante: Cirurgia de Implante Guiada por Computador Seção III: Biomecânica e complicações Capítulo 76: Biomecânica, Plano de tratamento e Considerações Protéticas Capítulo 77: Complicações Relacionadas aos Implantes Parte 8: Manutenção Periodontal Introdução Capítulo 78: Tratamento Periodontal de Apoio Capítulo 79: Resultados do Tratamento Periodontal Capítulo 80: Resultados do Tratamento com Implantes Parte 9: Tópicos Complementares Introdução Seção I: Tomada de decisão baseada em evidência Capítulo 81: Introdução à Tomada de Decisão Baseada em Evidência Capítulo 82: Avaliando a Evidência Capítulo 83: Implementando Decisões Baseadas em Evidências na Prática Clínica Seção II: Ética, questões jurídicas e práticas na gestão de pacientes periodontais Capítulo 84: Princípios Legais: Jurisprudência Capítulo 85: Seguro Odontológico e Gestão de Cuidados na Prática Periodontal Seção III: Atlas de medicina oral Capítulo 86: Lesões de Mucosa Oral, Osso e Outras Estruturas Índice 7 Copyright © 2012 Elsevier Editora Ltda. Tradução autorizada do idioma inglês da edição publicada por Saunders - um selo editorial Elsevier Inc. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. ISBN: 978-85-352-4540-0 Copyright © 2012, 2006 by Saunders, an imprint of Elsevier Inc. This edition of Carranza’s Clinical Periodontology by Michael G. Newman, Henry H. Takei, Perry R. Klokkevold and Fermin A. Carranza is published by arrangement with Elsevier Inc. ISBN: 978-1-4377-0416-7 Capa Folio Design Editoração Eletrônica Thomson Digital Elsevier Editora Ltda. Conhecimento sem Fronteiras Rua Sete de Setembro, nº 111 – 16º andar 20050-006 – Centro – Rio de Janeiro – RJ Rua Quintana, nº 753 – 8º andar 04569-011 – Brooklin – São Paulo – SP Serviço de Atendimentoembarcou em uma carreira de pesquisas que introduziu princípios modernos de bacteriologia na odontologia. Embora suas maiores realizações fossem pesquisas sobre cáries, em seu livro clássico The Microorganisms of Human Mouth (“Os microrganismos da boca humana”), publicado em 1890, descreveu as características da doença periodontal e considerou o papel dos fatores de predisposição, fatores irritantes e a bactéria e sua etiologia. Ele acreditava que a doença não era causada por uma bactéria específica, mas por uma formação complexa de várias bactérias normalmente presentes na cavidade oral. Isso constitui o que mais tarde ficou conhecido como hipótese não específica da placa, que não foi contestada por sete décadas.23,37 A placa bacteriana foi relatada por J. Leon Williams (1852- 1932), um dentista americano que exercia sua profissão em Londres e em 1897 descreveu o acúmulo gelatinoso de bactérias aderentes às superfícies do esmalte relacionadas com cáries.55 Em 1899, G. V. Black (1836-1915) criou o termo “placa gelatinosa microbiana”.5 Salomon Robicsek (1845-1928) nasceu na Hungria e praticou odontologia em Viena. Ele desenvolveu uma técnica cirúrgica constituída de uma gengivectomia de excisão contínua contornando os dentes e expondo as bordas ósseas à curetagem e remodelamento subsequentes.46 O primeiro relato (1901) sobre um possível papel do trauma de oclusão e bruxismo na doença periodontal é geralmente atribuído ao dentista austríaco Moritz 59 Karolyi (1865-1945), que também recomendou sua correção para o desgaste de superfícies oclusais e a preparação das placas de mordida.34 Gengivite Ulcerativa Necrosante A gengivite ulcerativa necrosante (GUN) foi reconhecida no século IV a.C. por Xenophon, que mencionou que os soldados gregos sofriam de “boca dolorida e hálito fétido”. Em 1778, Hunter descreveu as características dessa doença e a diferenciou do escorbuto e da periodontite crônica. Hyacinthe Jean Vincent (1862-1950),23,49 um médico francês que trabalhava no Instituto Pasteur, em Paris, e Hugo Carl Plaut (1858-1928),42 na Alemanha, descreveram os bacilos espirilo e fusiforme associados ao que mais tarde se tornou conhecido como angina de Vincent, e em 1904 Vincent descrevia esses organismos em gengivites ulceronecróticas.50 Século XX Na primeira terça parte do século XX, a periodontia prosperou na Europa Central, com dois grandes centros de qualidade superior: Viena e Berlim.22 Viena A escola de Viena desenvolveu o conceito histopatológico básico, no qual a periodontia moderna foi criada. O principal representante deste grupo foi Bernhard Gottlieb (1885-1950), que publicou estudos microscópicos extensos sobre a doença periodontal em autópsias em espécimes humanos (Fig. 1-8).19 Suas maiores contribuições apareceram na literatura alemã por volta de 1920 e descreviam a aderência do epitélio da gengiva ao dente, a histopatologia inflamatória e degenerativa da doença periodontal, a biologia do cemento, as erupções ativa e passiva dos dentes e a oclusão traumática. Um livro publicado em 1938 por Gottlieb e Orban apresentou uma completa revisão em inglês dos conceitos desenvolvidos por Gottlieb e seus colaboradores em Viena.24 60 Figura 1-8 Bernhard Gottlieb (1885-1950). (De Gold SI: J Clin Periodontol 12:171, 1985.) Um jovem contemporâneo de Gottlieb em Viena, Balint J. Orban (1899-1960) (Fig. 1-9), realizou estudos histológicos extensivos sobre os tecidos periodontais que servem como base para muitas das terapias atuais. Outros membros da escola vienense foram Rudolph Kronfeld (1901-1940), Joseph P. Weinmann (1889-1960) e Harry Sicher (1889-1974). Todos emigraram para os Estados Unidos por volta de 1930 e muito contribuíram para o progresso da odontologia americana. Figura 1-9 Balint J. Orban (1899-1960). (De J Periodontol 31:266, 1960.) Berlim O grupo de Berlim consistia principalmente de cientistas clínicos, que desenvolveram 61 e refinaram a abordagem cirúrgica para a terapia periodontal. Proeminentes nesse grupo foram Oskar Weski (Fig. 1-10) e Robert Neumann também realizou experimentos antiplaca usando vinagre em sua própria boca e experimentos in vitro utilizando vinagre sobre bactérias em cultura (Fig. 1-11). Figura 1-10 Oskar Weski (1879-1952). (De Hoffman-Axthelm W: History of dentistry, Chicago, 1981, Quintessence.) Figura 1-11 Robert Neumann (1882-1958). (Cortesia do Dr. Steven I. Gold, New York.) Weski (1879-1952) realizou estudos pioneiros correlacionados às mudanças na radiografia e na histopatologia em doenças periodontais.53 Ele também conceituou o periodonto como formado por cemento, gengiva, ligamento periodontal e osso, dando a isso o nome de paradentium, que mais tarde foi mudado (por razões etimológicas) para parodontium, um termo ainda usado na Europa. Neumann (1882-1958), em um livro publicado em 191238 (com novas edições em 1915, 1920 e 1924), relatou os princípios da cirurgia de retalho periodontal, incluindo o recontorno ósseo, como é atualmente conhecido20 (Fig. 1-12). Outros clínicos que descreveram a cirurgia de retalho no começo do século XX foram Leonard Widman, da Suécia (1871-1956),54 e A. Cieszynski, da Polônia. Uma amarga controvérsia se manifestou entre Widman, Cieszynski e Neumann por volta de 1920, sobre a prioridade em descrever o retalho periodontal. 62 Figura 1-12 Procedimento cirúrgico defendido por Robert Neumann no começo do século XX. Acima: Após levantar o retalho mucoperiosteal, sua borda é cortada com tesoura, deixando um recorte no contorno. Abaixo: Nivelamento ósseo com broca. (De Gold SI: J Periodontol 53:456, 1982.) Estados Unidos e Outros Países Nos Estados Unidos, antes da Segunda Guerra Mundial, houve uma importante contribuição para a cirurgia periodontal por A. Zentler, J. Zemsky, G. V. Black, O. Kirkland, A. W. Ward, A. B. Crane, H. Kaplan e outros. Em 1923, Ward introduziu o cimento cirúrgico sob o nome comercial de Wondr-Pak.51 A abordagem não cirúrgica foi defendida por Isadore Hirschfeld (1882-1965), de Nova York, que escreveu documentos clássicos sobre a higiene oral,28 fatores locais e outros tópicos. Em 1913, Alfred Fones (1869-1938) abriu a primeira escola para higienistas dentais em Bridgeport, Connecticut.9 Em outros países, H. K. Box (Canadá); M. Roy e R. Vicent (França); R. Jaccard e A.-J. Held (Suíça); F. A. Carranza, Sr., e R. Erausquin (Argentina); W. W. James, A. Counsell e E. W. Fish (Grã-Bretanha) e A. Leng (Chile) são bem conhecidos por suas importantes contribuições. O livro mais abrangente sobre periodontia publicado na primeira metade do século XX, em 1939, provavelmene foi El Paradencio, Su Patologia 63 y Tratamiento, escrito pelo uruguaio F.M. Pucci. Infecção Focal Os conceitos de doenças sistêmicas, originadas de infecções dentárias e orais, foram mencionados em placas de argila da Assíria (século VII a.C.), por Hipócrates (460-370 a.C.), no Talmude babilônico (século III d.C.) e por Girolamo Cardano e o alemão Walter Hermann Ryff, no século XVI.29,52 No século XIX, Benjamin Rush (médico famoso e um dos signatários da Declaração de Independência Americana), em 1818, e Leonard Koecker, em 1828, reconheceram o papel da sepse oral na doença reumática e em outras doenças. Mais tarde, no século XIX, W. D. Miller também mencionou as infecções orais como causa de inúmeras doenças.37 Em documento publicado em 190031 e uma década mais tarde, durante conferência na Universidade McGill, em Montreal,32 William Hunter (1861-1937), médico britânico, apontou a odontologia como causa da sepse oral, a qual, por sua vez, causava doenças reumáticas e outras doenças crônicas. Essa ideia foi levantada por Billings, Rosenow e muitos outros, que defenderam a extração de todos os dentes com infecção periodontal ou periapical para prevenir doenças sistêmicas. O fato levou à extração de dentes em grande escala (e à remoção das amígdalas). Mas a teoria da infecção oral caiu em descrédito quando se descobriu que as extrações não ajudavam a eliminar ou reduzir as doenças sistêmicas, às quaisos dentes infectados estavam supostamente associados.15 Entretanto, o conceito foi revisto por volta de 1990, desta vez com base em pesquisas mais sólidas. Implantes Dentários A substituição de dentes humanos por implantes foi tentada por séculos. Crânios com implantes de metal ou pedra foram encontrados em um cemitério gaulês-romano na França, proveniente do segundo século d.C., e em uma mandíbula de origem maia datada do ano 600 d.C.9 Em 1806, o italiano M. Maggiolo tentou colocar raízes de ouro sólido em um maxilar humano e, mais tarde, no século XIX, vários outros investigadores usaram porcelana e implantes metálicos. Na primeira metade do século XX, várias tentativas foram feitas com o uso de técnicas cirúrgicas elaboradas e estruturas complexas em ouro e outros materiais preciosos, dando origem a investigações microscópicas sobre a resposta do tecido aos vários metais. Em 1939, A.E. Strock, da Universidade de Harvard, começou a implantar parafusos de cobalto-cromo (Vitallium) dentro do alvéolo do dente. Após a Segunda Guerra Mundial, numerosas tentativas ocorreram com diferentes materiais e formas de implantes, incluindo espiral de tântalos torcidos (Formiggini), Vitallium em forma 64 de árvore (Lee), réplica da raiz do dente em acrílico (Hodosh), espiral helicoidal dupla (Chércheve), pinos trípodes de tântalo (Scialom), tântalo com abertura vent- plant e lâmina de titânio (Linkow) e carbono vítreo.9 Em meados de 1950, o cirurgião-ortopedista sueco Per-Ingvar Bränemark desenvolveu uma técnica usando implantes intraósseos de titânio moldados em formato de parafuso. Isto provou ser muito bem-sucedido e foi gradualmente adotado por profissionais da área depois da conferência internacional em Toronto, em 1982. O sucesso e o prognóstico da técnica de Bränemark são atribuídos à realização do contato direto entre o osso vital e a superfície do implante, sem interferência do tecido mole, um fenômeno mais tarde denominado “osseointegração”.6 Inúmeras variações do conceito de Branemark foram apresentadas por A. Kirsch, G.A. Niznick, A. Schroeder e outros, sendo extremamente usadas no momento. Após a Segunda Guerra Mundial Os Estados Unidos e a Escandinávia tiveram um papel de liderança na pesquisa periodontal básica e clínica durante e após os anos de 1950, com maior avanço nos campos de patologia experimental, microbiologia, imunologia e terapia. Nos EUA, cinco indivíduos lideraram os esforços no avanço da nossa compreensão sobre os processos das doenças e as abordagens técnicas para solucioná- los: Irving Glickman (1914-1972) (Fig. 1-13), Henry M. Goldman (1911-1991), Balint J. Orban (1889-1960) (Fig. 1-8), Sigurd P. Ramfjord (1911-1997) e Helmut A. Zander (1912-1991). Na área clínica, a influência de John Prichard (1907-1990) e Saul Schluger (1908-1990) conduziu a novos conceitos e novas direções na busca do sucesso clínico e sua excelência. Figura 1-13 Irving Glickman (1914-1972). A principal figura do grupo escandinavo foi Jens Waerhaug (1907-1980) (Fig. 1- 65 14), de Oslo, cuja tese, A Bolsa Gengival (1952), e dedicação à pesquisa abriram uma nova era na compreensão da biologia do periodonto e no tratamento de problemas periodontais. Figura 1-14 Jens Waerhaug (1907-1980). (De J Clin Periodontol 7:534, 1980.) As gerações seguintes focalizaram sua atenção mais no papel dos microrganismos e na resposta imunológica. incluindo seus aspectos de defesa e destrutivos. Tais contribuições, como também as de seus predecessores, estão documentadas no presente livro. Vários seminários e conferências internacionais resumiram o conhecimento existente sobre os aspectos biológicos e clínicos da periodontia. Dignos de menção são aqueles realizados em 1951, 1966, 1977, 1989 e 1996, e copatrocinados e publicados pela American Academy of Periodontology (AAP). Fundada em 1914 por duas periodontistas, Grace Rogers Spalding (1881- 1953) e Gillette Hayden (1880-1929), a AAP tornou-se líder da periodontia organizada. Sua publicação científica mensal, The Journal of Periodontology, apresenta todos os avanços nessa disciplina. Na Europa, as sociedades periodontais se juntaram para formar a Federação Europeia de Periodontia, que se reúne regularmente nas assembleias europeias. Sua publicação oficial é o Journal of Clinical Periodontology. Outros jornais científicos em inglês sobre periodontia incluem o Journal of Periodontal Research 2000 e o International Journal of Periodontics and Restorative Dentistry. Em outras línguas, temos a destacar o Journal de Parodontologie (França), Periodoncia (Espanha) e Journal of the Japanese Association of Periodontology. A educação periodontal nos Estados Unidos cresceu também na segunda metade do século XX e a maioria das escolas de odontologia possui hoje unidades independentes e separadas para o ensino e pesquisa desta disciplina. A periodontia 66 foi reconhecida como uma especialidade da odontologia pela American Dental Association em 1947. Os primeiros programas em universidades para treinamento de especialistas em periodontia foram iniciados em várias instituições (Columbia, Michigan, Tufts) em meados de 1940; uma década mais tarde, esses programas de um ano se estenderam para dois anos. Em 1995, a AAP ordenou que todos os programas de pós-graduação periodontal aumentassem para um currículo de três anos por causa da expansão do conhecimento em periodontia e da ampliação do escopo da periodontia ao abarcar a colocação de implantes dentários e a administração de sedação deliberada. Atualmente, mais de 50 programas de graduação periodontal funcionam em universidades e hospitais nos Estados Unidos. História deste livro O criador deste livro e autor de suas quatro primeiras edições, publicadas em 1953, 1958, 1964 e 1972, foi o Dr. Irving Glickman (Fig. 1-13), professor e diretor do Departamento de Periodontia da Tufts University School of Dental Medicine, em Boston, Massachusetts. O Dr. Glickman foi um proeminente pesquisador, excelente educador bem como um orador escritor, cujos conceitos por muitos anos moldaram o pensamento periodontal. Seu estilo de escrita, suas ideias e sua filosofia sobre a prática dental ainda podem ser encontradas em muitas áreas deste livro. Após a morte do Dr. Glickman, em 1972, aos 58 anos de idade, a responsabilidade pela continuação deste livro passou a ser do Dr. Fermin A. Carranza, um ex-aluno e colaborador do Dr. Glickman. Na época, o Dr. Carranza era professor e diretor de periodontia da School of Dentistry of the University of California, Los Angeles (UCLA). As quatro edições seguintes foram publicadas em 1979, 1984, 1990 e 1996 sob a orientação do Dr. Carranza, que atualmente é professor emérito da UCLA. Em 2002, a tarefa de manter a tradição do livro de quase meio século, mais uma vez, mudou de mãos. Os Drs. Michael G. Newman e Henry H. Takei uniram-se ao Dr. Carranza para assumir maior responsabilidade pela nona edição. Na décima (2006) e décima primeira (2011) edições, eles se uniram ao Dr. Perry Klokkevold. As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. 67 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Parte 1 O Periodonto Normal 68 Parte 1: O Periodonto Normal Michael G. Newman O periodonto consiste em tecidos de recobrimento e suporte do dente: gengiva, ligamento periodontal, cemento e osso alveolar. Ele foi dividido em duas partes: a gengiva, cuja principal função é proteger os tecidos subjacentes, e o aparato de inserção, composto pelo ligamento periodontal, cemento e osso alveolar. O cemento é considerado como parte do periodonto porque, juntamente com o osso, serve de suporte para as fibras do ligamento periodontal. O periodonto está sujeito a variações morfológicas e funcionais, assim como a mudanças associadas à idade. Esta seção lida com as características normais dos tecidos do periodonto, já que esse conhecimento realmente é necessário para o entendimento da doença periodontal. Os tecidos moles e duros que cercam os implantes dentais possuem muitascaracterísticas similares e algumas diferenças importantes, quando comparados ao tecido periodontal, como discutido mais adiante no Capítulo 68. 69 Capítulo 2 Anatomia do Periodonto Joseph P. Fiorellini, David M. Kim, N. Guzin Uzel Sumário do capítulo ASPECTOS CLÍNICOS Gengiva Marginal Sulco Gengival Gengiva Inserida Gengiva Interdental ASPECTOS MICROSCÓPICOS Epitélio Gengival Tecido Conjuntivo Gengival CORRELAÇÃO DAS CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS E HISTOLÓGICA Cor Tamanho Contorno Forma Consistência Textura Superficial Posição Para consultar o material complementar, acesse o site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. A mucosa oral consiste em três zonas a seguir: 1. A gengiva e o revestimento do palato duro, denominados de mucosa mastigatória. 2. O dorso da língua, revestido pela mucosa especializada. 3. A mucosa oral que reveste o restante da cavidade oral. A gengiva é parte da mucosa oral que recobre o processo alveolar dos maxilares e circunda o colo dos dentes. 70 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Aspectos clínicos Em um adulto, a gengiva normal recobre o osso alveolar e a raiz dental em um nível coronal à junção cemento-esmalte. A gengiva é dividida anatomicamente em marginal, inserida e área interdental. Embora cada tipo de gengiva exiba considerável variação na diferenciação, histologia e espessura, de acordo com a sua demanda funcional, todos os tipos são especificamente estruturados para funcionar de forma adequada contra danos mecânicos e microbianos.4 Ou seja, a estrutura específica de diferentes tipos de gengiva reflete a sua eficácia como uma barreira à penetração de microrganismos e agentes nocivos mais profundamente no tecido. Gengiva Marginal A gengiva marginal, ou não inserida, é a porção terminal ou borda da gengiva ao redor dos dentes em forma de colar (Figs. 2-1 e 2-2). Em torno de 50% dos casos, ela é demarcada da gengiva inserida adjacente por uma depressão linear rasa, o sulco gengival livre.3 Normalmente medindo aproximadamente 1 mm de largura, a gengiva marginal forma a parede de tecido mole do sulco gengival e pode ser separada da superfície dental com uma sonda periodontal. Figura 2-1 Gengiva normal em um adulto jovem. Observe a demarcação (linha mucogengival) (setas) entre a gengiva inserida e a mucosa alveolar mais escura. 71 Figura 2-2 Diagrama mostra os pontos de referência anatômicos da gengiva. O ponto mais apical do arco côncavo da gengival marginal é chamado de zênite gengival. Suas dimensões apicocoronal e mesiodistal variaram entre 0,06 e 0,96 mm.81 Sulco Gengival O sulco gengival é um espaço raso ou fenda ao redor do dente delimitado pela superfície dental de um lado e o epitélio de revestimento da gengiva marginal livre no outro. Possui a forma de V e mal permite a entrada de uma sonda periodontal. A determinação clínica da profundidade do sulco gengival é um importante parâmetro de diagnóstico. Sob condições absolutamente normais e ideais, a profundidade do sulco é de zero ou próximo a zero milímetro.50 Essas condições estritas de normalidade podem ser produzidas experimentalmente apenas em animais livres de germes ou após intenso e prolongado controle do biofilme.8,23 Na gengiva humana clinicamente normal, um sulco de alguma profundidade pode ser encontrado. A profundidade deste sulco, como determinado em secções histológicas, foi determinada em 1,8 mm, com variações de zero a seis milímetros;90 outros estudos relataram 1,5 mm136 e 0,69 mm.47 A avaliação clínica usada para determinar a profundidade do sulco envolve a introdução de um instrumento metálico, a sonda periodontal, e a estimativa da distância que ela penetra. A profundidade histológica de um sulco não precisa ser exatamente igual à profundidade de penetração da sonda. A assim chamada profundidade de sondagem de um sulco gengival clínico normal em humanos é de 2 a 3 mm (Cap. 30). Gengiva Inserida A gengiva inserida é contínua com a gengiva marginal. Ela é firme, resiliente e fortemente ligada ao periósteo do osso alveolar subjacente. O aspecto vestibular da 72 gengiva inserida se estende à mucosa alveolar relativamente frouxa e móvel e é demarcada pela junção mucogengival (Fig. 2-2). A largura da gengiva inserida é outro parâmetro clínico importante. É a distância entre a junção mucogengival e a projeção na superfície externa do fundo do sulco gengival ou da bolsa periodontal. Ela não deveria ser confundida com a largura da gengiva queratinizada, porque a última inclui também a gengiva marginal (Fig. 2-2). A largura da gengiva inserida no aspecto vestibular varia em diferentes áreas da boca.16 Ela é geralmente maior na região dos incisivos (3,5 a 4,5 mm na maxila e 3,3 a 3,9 mm na mandíbula), e mais estreita nos segmentos posteriores (1,9 mm na maxila e 1,8 mm nos primeiros pré-molares inferiores)3 (Fig. 2-3). Figura 2-3 Largura média da gengiva inserida na dentição permanente. Em razão de a junção mucogengival permanecer estacionária ao longo da vida adulta,1 mudanças na largura da gengiva inserida são causadas pelas modificações na posição da sua porção coronal. A largura da gengiva inserida aumenta com a idade4 e em dentes supraerupcionados.2 Na face lingual da mandíbula, a gengiva inserida termina na junção da mucosa alveolar lingual, a qual é contínua com a mucosa de revestimento do assoalho da língua. A superfície palatina da gengiva inserida na maxila se mistura imperceptivelmente com a mucosa palatina, igualmente firme e resiliente. Gengiva Interdental A gengiva interdental ocupa a ameia gengival, que é o espaço interproximal abaixo da área de contato dos dentes. A gengiva interdental pode ser piramidal ou pode ter a forma de “col”. Na primeira, a ponta da papila está localizada imediatamente abaixo do ponto de contato; a última apresenta uma depressão em forma de vale que conecta a papila vestibular e lingual e em conformidade com a forma do contato interproximal31 (Figs. 2-4 e 2-5). 73 Figura 2-4 Local de extração mostra a papila interdental vestibular e palatina e o col entre elas (seta). Figura 2-5 Secção vestibulolingual (macaco) mostra o col entre a papilas interdentais vestibular e lingual. O col é revestido por epitélio escamoso estratificado não queratinizado. A forma da gengiva em um determinado espaço interdental depende do ponto de contato entre dois dentes adjacentes e da presença ou ausência de algum grau de retração. A Figura 2-6 descreve as variações na gengiva interdental normal. Figura 2-6 Diagramas comparando as variações anatômicas do col interdental na gengiva normal (lado esquerdo) e após retração gengival (lado direito). A e B, segmento anterior inferior, vistas vestibular e vestibulolingual, respectivamente. C e D, região posterior inferior, vistas vestibular e vestibulolingual, respectivamente. Os pontos de contato dentais são mostrados por marcações pretas nos dentes inferiores individuais. As superfícies vestibular e lingual são afiladas em direção à área de contato interproximal, enquanto as superfícies mesial e distal são levemente côncavas. As bordas laterais e as pontas das papilas interdentais são formadas pela gengiva marginal dos dentes adjacentes. A porção central consiste em gengiva inserida (Fig. 2-7). 74 Figura 2-7 Papila interdental (seta) com porção central formada por gengiva inserida. A forma da papila varia de acordo com a dimensão da ameia gengival. (Cortesia de Dr. Osvaldo Costa.) Se um diastema estiver presente, a gengiva torna-se firmemente aderida ao osso interdental e forma uma superfície lisa e arredondada sem papilas interdentais (Fig. 2-8). Figura 2-8 Ausência de papila interdental e de col onde o contato do dente proximal está faltando. (Cortesia do Dr. Osvaldo Costa) Aspectos microscópicos O exame microscópico revela que a gengiva é composta de um epitélio externo escamoso estratificado e do tecido conjuntivo central subjacente. Embora o epitélio seja predominantemente celular por natureza, o tecido conjuntivo é menos celular e composto principalmente por fibras colágenase substância fundamental. Esses dois tecidos estão considerados separadamente.* Epitélio Gengival Aspectos Gerais da Biologia do Epitélio Gengival. Historicamente, pensava-se que o compartimento epitelial funcionava apenas como uma barreira física à inserção gengival subjacente e à infecção. Contudo, agora se acredita que as células epiteliais desempenham um papel ativo na defesa inata do 75 hospedeiro por responder às bactérias de uma maneira interativa,33 o que significa que o epitélio participa ativamente na resposta à infecção, na sinalização de outras reações do hospedeiro e na integração das respostas imunes inata e adquirida. Por exemplo, as células epiteliais podem responder às bactérias pelo aumento na proliferação, alteração dos eventos de sinalização celular, mudanças na diferenciação e morte celular, e por fim, alterações na homeostase tecidual33 Para entender esta nova perspectiva das respostas de defesa inata epitelial e o papel do epitélio na saúde e doença gengival, é importante compreender sua função e estrutura básicas (Quadro 2-1). QUADRO 2-1 Funções e Características do Epitélio Gengival Funções Barreira mecânica, química, microbiana e contra água Funções de sinalização Integridade da Arquitetura Adesão célula-célula Lâmina basal Citoesqueleto de queratina Tipo Celular Principal Queratinócito Outros Tipos Celulares Células de Langerhans Melanócitos, células de Merkel Renovação Constante Substituição de células danificadas Adesão Célula-Célula Desmossomos, aderências juncionais Junções oclusivas, junções tipo gap Lâmina Basal-Célula 76 Síntese de componentes da lâmina basal Hemidesmossomos Modificado de Dale BA: Periodontol 2000 30:71, 2002. O epitélio gengival consiste em um revestimento contínuo de epitélio escamoso estratificado e as três diferentes áreas podem ser definidas a partir de pontos de vista morfológico e funcional: epitélio externo ou oral, epitélio sulcular e epitélio juncional. O principal tipo celular do epitélio gengival, bem como de outros epitélios escamosos estratificados, é o queratinócito. Outras células encontradas no epitélio são as células claras ou não queratinócitos, que incluem as células de Langerhans, as células de Merkel e os melanócitos. A principal função do epitélio gengival é proteger as estruturas profundas, enquanto permite o intercâmbio seletivo com o meio ambiente oral. Isto é alcançado pela proliferação e diferenciação dos queratinócitos. A proliferação dos queratinócitos ocorre por mitose na camada basal e, menos frequentemente, nas camadas suprabasais, em que uma pequena proporção de células permanece com um comportamento proliferativo enquanto um grande número começa a migrar para a superfície. A diferenciação envolve o processo de queratinização, que consiste nas progressões de eventos bioquímicos e morfológicos que ocorrem na célula à medida que migram da camada basal (Fig. 2-9). As principais alterações morfológicas são (1) achatamento progressivo da célula com uma prevalência aumentada de tonofilamentos, (2) junções intercelulares aliadas à produção de grânulos de querato- hialina, e (3) desaparecimento do núcleo. (Consulte Schroeder105 para mais detalhes.) Figura 2-9 Diagrama mostrando células representativas das várias camadas do epitélio escamoso estratificado como visto pela microscopia eletrônica. 77 (Modificado de Weinstock A: In Ham AW: Histology, ed 7, Philadelphia, 1974, Lippincott.) Um completo processo de queratinização leva à produção de uma camada córnea superficial ortoqueratinizada similar à da pele, sem núcleos no estrato córneo e um estrato granuloso bem definido (Fig. 2-10). Apenas algumas áreas do epitélio gengival externo são ortoqueratinizadas; as outras áreas gengivais são cobertas por um epitélio paraqueratinizado ou não queratinizado,20 considerado pertencente a estágios intermediários de queratinização. Essas áreas podem amadurecer ou se desdiferenciar sob distintas condições fisiológicas ou patológicas. Figura 2-10 A, Microscopia eletrônica de varredura da gengiva queratinizada mostra queratinócitos achatados e seus limites na superfície da gengiva. (1.000 × ) B, Microscopia eletrônica de varredura da gengiva marginal na extremidade do sulco gengival mostra vários queratinócitos prestes a serem esfoliados. (3.000 × ) (De Kaplan GB, Pameijer CH, Ruben MP: J Periodontol 48:446, 1977.) No epitélio paraqueratinizado, o estrato córneo retém núcleos picnóticos e os grânulos de querato-hialina estão dispersos, não dando origem a um estrato granuloso. O epitélio não queratinizado (embora as citoqueratinas sejam o principal componente, como em todos os epitélios) não tem nem estrato granuloso nem córneo, enquanto as células superficiais possuem núcleos viáveis. Técnicas de imuno-histoquímica, gel de eletroforese e imunotransferência têm identificado o padrão característico das citoqueratinas possíveis em cada tipo epitelial. As proteínas da queratina são compostas por diferentes subunidades de polipeptídeos caracterizadas por seus pontos isoelétricos e pesos moleculares. Eles são numerados em uma sequência contrária aos seus pesos moleculares. Geralmente, as células basais começam a sintetizar queratinas de baixo peso molecular, como a K19 (40 kD), e expressam outras queratinas de alto peso molecular à medida que migram 78 para a superfície. O polipeptídeo da queratina K1 (68 kD) é o principal componente do estrato córneo.29 Outras proteínas não relacionadas às queratinas são sintetizadas durante o processo de maturação. As mais extensivamente estudadas são a queratolinina e involucrina, as quais são precursoras de uma estrutura quimicamente resistente (o envelope) localizada abaixo da membrana celular, e a filagrina, cujos precursores estão armazenados nos grânulos de querato-hialina. Na transição súbita para a camada córnea, os grânulos de querato-hialina desaparecem e dão origem à filagrina, que forma a matriz das células epiteliais mais diferenciadas, o corneócito. Assim, no estado de completa diferenciação, os corneócitos são principalmente formados por feixes de tonofilamentos de queratina incorporados em uma matriz amorfa de filagrina e circundados por um resistente envelope sob a membrana celular. Os padrões imuno-histoquímicos dos diferentes tipos de queratina, de proteínas do envelope e de filagrina mudam sob estímulos normais ou patológicos, modificando o processo de queratinização.57-59 A microscopia eletrônica revela que os queratinócitos estão interconectados por estruturas na periferia das células chamadas de desmossomos.70 Esses desmossomos têm uma estrutura típica que consiste em duas placas de adesão densas, nas quais as tonofibrilas se inserem, e uma linha intermediária, elétron-densa, no compartimento extracelular. Os tonofilamentos, que são a expressão morfológica do citoesqueleto de proteínas de queratina, irradiam um aspecto em forma de escova a partir das placas de adesão para o citoplasma das células. O espaço entre as células mostra projeções citoplasmáticas semelhantes a microvilos que se estendem para o espaço intercelular e, muitas vezes, se interdigitam. Formas de conexão de células epiteliais menos frequentemente observadas são as junções oclusivas (zonae occludens), nas quais as membranas das células adjacentes parecem estar fusionadas.127,134 Evidências sugerem que essas estruturas permitem que íons e pequenas moléculas passem de uma célula para outra. A concentração de organelas citoplasmáticas varia entre os diferentes estratos epiteliais. As mitocôndrias são as mais numerosas no estrato mais profundo e reduzem em direção à superfície da célula. De acordo com isso, a demonstração histoquímica da desidrogenase succínica, da nicotinamida adenina dinucleotídeo, da citocromo oxidase e outras enzimas mitocondriais revelam um ciclo tricarboxílico mais ativo nas células basais e parabasais, em que a proximidade ao suprimento sanguíneo facilita a produção de energia através do processo de glicólise aeróbica. De maneira inversa,enzimas do desvio da pentose (uma via alternativa da glicólise), tais como glucose-6-fosfatase, aumentam a sua atividade em direção à superfície. Esta via produz uma grande quantidade de produtos intermediários para a produção de ácido ribonucleico (RNA) que, por sua vez, pode ser usado para a síntese de proteínas de queratinização. Este padrão histoquímico está de acordo com o 79 volume aumentado e a quantidade de tonofilamentos observados nas células que alcançam a superfície; a intensidade da atividade é proporcional ao grau de diferenciação.36,43,56,93 As células mais superiores da camada espinhosa contêm numerosos grânulos densos, os queratinossomos ou corpos de Odland, que são lisossomos modificados. Eles contêm uma grande quantidade de fosfatase ácida, uma enzima envolvida na destruição das membranas das organelas, que ocorre repentinamente entre os estratos granuloso e córneo e durante a cimentação intercelular das células córneas. Assim, a fosfatase ácida é outra enzima bastante relacionada ao grau de queratinização.18,54,132 Células não queratinócitas estão presentes no epitélio gengival assim como em outros epitélios de Malpighi. Os melanócitos são células dendríticas localizadas nas camadas basal e espinhosa do epitélio gengival. Eles sintetizam melanina em organelas denominadas pré-melanossomos ou melanossomos30,102,120 (Fig. 2-11). Estes contêm tirosinase, que hidrolisa a tirosina em diidroxifenilalanina (Dopa), que por sua vez é progressivamente convertida em melanina. Os grânulos de melanina são fagocitados e mantidos dentro de outras células do epitélio e do tecido conjuntivo, chamadas melanófagos ou melanóforos. Figura 2-11 Gengiva pigmentada de cão mostra melanócitos (M) na camada epitelial basal e melanóforos (Mf) no tecido conjuntivo (Técnica de Glucksman). As células de Langerhans são células dendríticas localizadas entre os queratinócitos em todos os níveis suprabasais (Fig. 2-12). Elas pertencem ao sistema fagocitário mononuclear (sistema reticuloendotelial) como monócitos modificados derivados da medula óssea. Elas contêm grânulos alongados e são consideradas macrófagos com possíveis propriedades antigênicas.36 As células de Langerhans desempenham um papel importante na reação imune como células apresentadoras de antígenos para linfócitos. Elas contêm grânulos g-específicos (grânulos de Birbeck) e possuem intensa atividade da adenosina trifosfatase. Foram encontradas no epitélio oral da gengiva normal e em menores quantidades no epitélio sulcular; estão provavelmente ausentes do epitélio juncional da gengiva normal. 80 Figura 2-12 Epitélio gengival humano, aspecto oral. Técnica da Imunoperoxidase mostrando células de Langerhans. As células de Merkel estão localizadas nas camadas mais profundas do epitélio, ancoradas às terminações nervosas e conectadas às células adjacentes pelos desmossomos. Elas têm sido identificadas como perceptores táteis.87 O epitélio está unido ao tecido conjuntivo subjacente pela lâmina basal de 300 a 400 Å de espessura, encontrando-se aproximadamente a 400 Å abaixo da camada basal do epitélio.66,110,121 A lâmina basal consiste em uma lâmina lúcida e uma lâmina densa. Os hemidesmossomos das células epiteliais basais estão em contato com a lâmina lúcida, que é composta principalmente da glicoproteína laminina. A lâmina densa é composta de colágeno tipo IV. A lâmina basal, claramente distinguível em nível ultraestrutural, está conectada a uma condensação reticular das fibrilas do tecido conjuntivo subjacente (principalmente colágeno tipo IV) pelas fibrilas de ancoragem.86,95,124 As fibrilas de ancoragem têm 750 nm de comprimento do término do epitélio ao término do tecido conjuntivo, em que elas aparecem formando laços em torno das fibras colágenas. O complexo de lâmina basal e fibrilas é positivo para o ácido periódico de Schiff (PAS) e a linha argirofílica é observada em nível óptico112,125 (Fig. 2-13). A lâmina basal é permeável a fluidos, mas age como barreira contra substâncias particuladas. 81 Figura 2-13 Gengiva humana normal corada pelo método histoquímico do ácido Periódico de Schiff (PAS). A membrana basal (B) é vista entre o epitélio (E) e o tecido conjuntivo subjacente (C). No epitélio, o material glicoproteico ocorre nas células e nas membranas celulares das camadas córnea (Cc) e granulosa (G) subjacente. O tecido conjuntivo apresenta uma substância fundamental amorfa, difusa e fibras colágenas. As paredes dos vasos sanguíneos se destacam claramente nas projeções papilares do tecido conjuntivo (P). Características Estruturais e Metabólicas de Diferentes Áreas do Epitélio Gengival. O componente epitelial da gengiva apresenta variações morfológicas que refletem a adaptação tecidual ao dente e ao osso alveolar.106 Essas variações incluem o epitélio oral, o epitélio sulcular e o epitélio juncional. Enquanto o epitélio oral e o epitélio sulcular têm função altamente protetora, o epitélio juncional apresenta muito mais funções e é de considerável importância na regulação da saúde tecidual.11 É atualmente reconhecido que as células epiteliais não são “espectadoras passivas” nos tecidos gengivais; ao contrário, elas são metabolicamente ativas e capazes de reagir a estímulos externos por meio da síntese de inúmeras citocinas, moléculas de adesão, fatores de crescimento e enzimas.11 Epitélio Oral (Externo). O epitélio oral ou externo recobre a crista e a superfície externa da gengiva marginal e a superfície da gengiva inserida. Na média, o epitélio oral possui 0,2 a 0,3 mm de espessura. Ele é queratinizado ou paraqueratinizado ou apresenta várias combinações destas condições (Fig. 2-14). No entanto, a superfície prevalente é a paraqueratinizada.14,20,133 Figura 2-14 Variações no epitélio gengival. A, Queratinizado. B, Não queratinizado. C, Paraqueratinizado. Camada córnea (Cc), camada granular (G), camada de células espinhosas (E), camada basal (Ba), células superficiais achatadas (A), camada paraqueratótica (Pq). 82 O epitélio oral é composto por quatro camadas: estrato basal (camada basal), estrato espinhoso (camada de células espinhosas), estrato granuloso (camada granulosa) e estrato córneo (camada corneificada). O grau de queratinização gengival diminui com a idade e o início da menopausa,92 mas não está necessariamente relacionado às diferentes fases do ciclo menstrual.60 A queratinização da mucosa oral varia em diferentes áreas na seguinte ordem: palato (mais queratinizado), gengiva, porção ventral da língua e mucosa jugal (menos queratinizada).84 As queratinas K1, K2 E K10 a K12, que são específicas para a diferenciação da epiderme, são expressas imuno-histoquimicamente com grande intensidade em áreas ortoqueratinizadas e com menos intensidade em áreas paraqueratinizadas. A K6 e K16, características de epitélios altamente proliferativos, e K5 e K14, citoqueratinas específicas de estratificação também estão presentes. As áreas paraqueratinizadas expressam K19, que está muitas vezes ausente do epitélio ortoqueratinizado normal.15,100 De acordo com a completa ou quase completa maturação, as reações de histoenzima para a fosfatase ácida e enzimas do desvio da pentose estão muito fortes.19,56 O glicogênio pode acumular-se intracelularmente quando não está completamente degradado por qualquer uma das vias da glicólise. Portanto, a sua concentração na gengiva normal está inversamente relacionada ao grau de queratinização111,133 e inflamação.35,129,131 Epitélio Sulcular. O epitélio sulcular reveste o sulco gengival (Fig. 2-15). Ele é um epitélio escamoso estratificado não queratinizado fino sem cristas epiteliais e se estende do limite coronal do epitélio juncional à crista da gengival marginal (Fig. 2-16). Ele geralmente apresenta muitas células com degeneração hidrópica.14 Figura 2-15 Vista por microscopia eletrônica de varredura da superfície epitelial frente ao dente em um sulco gengival humano normal. O epitélio (Ep) mostra células descamando, alguns eritrócitos dispersos (E) e poucos leucócitos emergentes(L). (1.000 × ) 83 Figura 2-16 Espécime de biópsia humana embebida em epon mostra um sulco gengival relativamente normal. A parede de tecido mole do sulco gengival é composta por epitélio sulcular oral (eso) e seu tecido conjuntivo subjacente (tc), enquanto a base do sulco gengival é formada pela superfície descamada do epitélio juncional (ej). O espaço do esmalte é delineado por uma estrutura cuticular densa (cd). A linha de demarcação relativamente forte existe entre o epitélio juncional e o epitélio sulcular oral (seta) e vários leucócitos polimorfonucleares (pmn) podem ser vistos atravessando o epitélio juncional. O sulco contém células sanguíneas vermelhas resultantes da hemorragia ocorrida no momento da biópsia. (391 × ; detalhe 55 × .) (De Schluger S, Youdelis R, Page RC: Periodontal disease, Philadelphia, 1977, Lea & Febiger.) Assim como outro epitélio não queratinizado, o epitélio sulcular não tem estratos granuloso e córneo e nem as citoqueratinas K1, K2 e K10 a K12, mas possui a K4 e a K13, também chamadas citoqueratinas tipo esofágicas. Ele também expressa a K19 e normalmente não possui células de Merkel. Estudos histoquímicos de enzimas têm revelado consistentemente um menor grau de atividade no epitélio sulcular do que no epitélio externo, particularmente no caso de enzimas relacionadas à queratinização. A enzima glucose-6-fosfatase desidrogenase expressou uma reação fraca e homogênea em todos os estratos, ao contrário do gradiente crescente em direção à superfície observado na camada córnea do epitélio.56 A marcação da fosfatase ácida é negativa,18 embora lisossomos tenham sido descritos em células esfoliadas.67 Apesar dessas características morfológicas e químicas, o epitélio sulcular tem o potencial de se queratinizar se (1) ele for rebatido e exposto à cavidade oral17,21 ou (2) a microbiota do sulco for completamente eliminada.22 De maneira inversa, o epitélio externo perde sua queratinização quando é colocado em contato com o dente.22 Estes achados sugerem que a irritação local do sulco previne a queratinização sulcular. O epitélio sulcular é extremamente importante porque pode atuar como uma membrana semipermeável através da qual produtos bacterianos passam da gengiva 84 para o fluido gengival e tecidual penetrando no sulco.126 Ao contrário do epitélio juncional, no entanto, o epitélio sulcular não é abundantemente infiltrado por neutrófilos polimorfonucleares (PMNs) e parece ser menos permeável.11 Epitélio Juncional. O epitélio juncional consiste em uma faixa de epitélio escamoso estratificado não queratinizado em forma de colar. Possui de três a quatro camadas de espessura no início da vida, mas o número de camadas aumenta com a idade para 10 ou até mesmo 20 camadas. Igualmente, o epitélio juncional se afunila a partir da extremidade coronal, que deve ter de 10 a 29 células de largura para uma ou duas células na sua extremidade apical, localizada na junção cemento-esmalte nos tecidos saudáveis. Essas células podem ser agrupadas em dois estratos: a camada basal que reveste o tecido conjuntivo e a camada basal que se estende para a superfície dental. O comprimento do epitélio juncional varia de 0,25 a 1,35 mm. O epitélio juncional é formado pela confluência do epitélio oral e o epitélio reduzido do esmalte durante a erupção dental (Fig. 2-17). Contudo, o epitélio reduzido do esmalte não é essencial para a sua formação; na verdade, o epitélio juncional é completamente restabelecido após a instrumentação ou cirurgia da bolsa e se forma ao redor de implantes.69 Figura 2-17 Processo de erupção em dente de gato. A, Dente não erupcionado. Dentina (D), remanescentes da matriz de esmalte (E), epitélio reduzido do esmalte (ERE), epitélio oral (EO), artefato (a). B, Dente em erupção formando o epitélio juncional (EJ). C, Dente completamente erupcionado. Sulco com debris epiteliais (S), cemento (C) e restos epiteliais (RE). As camadas celulares não justapostas ao dente exibem numerosos ribossomos livres e proeminentes estruturas ligadas à membrana, como os complexos de Golgi e os vacúolos citoplasmáticos, presumivelmente fagocíticos. Corpos semelhantes a 85 lisossomos também estão presentes, mas a ausência de queratinossomos (corpos de Odland) e de fosfatase ácida histoquimicamente demonstrável, correlacionada ao baixo grau de diferenciação, pode refletir em uma baixa capacidade de defesa contra o acúmulo do biofilme bacteriano no sulco gengival. Achados morfológicos similares foram descritos na gengiva de ratos livres de germes. Os PMNs são encontrados rotineiramente no epitélio juncional tanto de ratos convencionais como ratos livres de germes.137 A pesquisa mostrou que embora numerosos PMNs em migração sejam evidentes e presentes em torno do epitélio juncional saudável, um considerável aumento nos números de PMNs pode ser esperado com o acúmulo de biofilme dental e inflamação gengival.11 Os diferentes polipeptídeos de queratina do epitélio juncional possuem um padrão histoquímico específico. O epitélio juncional expressa K19, está ausente do epitélio queratinizado, e as citoqueratinas específicas de estratificação K5 e K14.100 Morgan et al85 relataram que reações para demonstrar K4 ou K13 revelaram uma mudança repentina entre o epitélio sulcular e o epitélio juncional. A área juncional é o único epitélio estratificado não queratinizado na cavidade oral que não sintetiza esses polipeptídeos específicos. Outro comportamento particular do epitélio juncional é a falta de expressão de K6 e K16, as quais estão geralmente ligadas a epitélios altamente proliferativos, embora a taxa de renovação das células do epitélio juncional seja muito alta. Semelhante ao epitélio sulcular, o epitélio juncional exibe menos atividade de enzimas glicolíticas do que o epitélio oral e ele não possui atividade de fosfatase ácida.18,56 O epitélio juncional está aderido à superfície dental (adesão epitelial) por meio de uma lâmina basal interna. Ele está unido ao tecido conjuntivo por uma lâmina basal externa que tem a mesma estrutura como qualquer outra união entre tecidos epitelial e conjuntivo em qualquer parte do corpo.71,76 A lâmina basal interna consiste em uma lâmina densa (adjacente ao esmalte) e uma lâmina lúcida na qual os hemidesmossomos estão inseridos. Os hemidesmossomos têm um papel decisivo na firme união das células à lâmina basal interna na superfície dental. Dados recentes sugerem que os hemidesmossomos podem também atuar como sítios específicos de transdução de sinal e assim podem participar na regulação da expressão gênica, proliferação e diferenciação celular.61 Filamentos orgânicos parecem se estender a partir do esmalte para a lâmina densa.123 O epitélio juncional adere ao cemento afibrilar presente na coroa (geralmente restrito a uma área de 1 mm da junção cemento-esmalte)108 e ao cemento radicular de maneira semelhante. Foi relatada evidência histoquímica para a presença de polissacarídeos neutros na área da adesão epitelial.128 Os dados também mostraram que a lâmina basal do epitélio juncional se assemelha àquela das células endoteliais e epiteliais quanto à laminina, mas difere em relação à lâmina basal interna, que não tem colágeno tipo 86 IV.63,99 Esses achados indicam que as células do epitélio juncional estão envolvidas na produção de laminina e desempenham papel fundamental no mecanismo de adesão. A união do epitélio juncional ao dente é reforçada pelas fibras gengivais, as quais ligam a gengiva marginal à superfície dental. Por esta razão, o epitélio juncional e as fibras gengivais são considerados uma unidade funcional, citados como a unidade dentogengival.73 Em conclusão, geralmente é dito que o epitélio juncional apresenta várias características estruturais e funcionais únicas que contribuem para prevenir a superfície dental subgengival da colonização pelo biofilme bacteriano patogênico.94 Primeiro, o epitélio juncional está firmemente aderido à superfície dental, formando uma barreira epitelial contra o biofilme bacteriano. Segundo, ele permiteacesso do fluido gengival, células inflamatórias e componentes do sistema imunológico de defesa do hospedeiro à gengiva marginal. Terceiro, as células do epitélio juncional apresentam uma rápida renovação, que contribui para o equilíbrio hospedeiro- parasita e permite um rápido reparo do dano tecidual. Alguns investigadores também indicaram que as células do epitélio juncional têm uma capacidade endocítica igual àquela dos macrófagos e neutrófilos e que esta atividade pode ser protetora por natureza.27 Desenvolvimento do Sulco Gengival. Após a formação completa do esmalte, este é coberto com o epitélio reduzido do esmalte (ERE), que está aderido ao dente por uma lâmina basal e hemidesmossomos.72,122 Quando o dente penetra a mucosa oral, o ERE se une ao epitélio oral e se transforma no epitélio juncional. Assim que o dente erupciona, este epitélio unido se condensa ao longo da coroa e os ameloblastos, que formam a camada interna do ERE (Fig. 2-17), gradualmente tornam-se células epiteliais escamosas. A transformação do ERE em epitélio juncional acontece em uma direção apical sem interromper a adesão ao dente. De acordo com Schroeder e Listgarten,108 esse processo leva entre um e dois anos. O epitélio juncional é uma estrutura que está continuamente se autorrenovando, com atividade mitótica ocorrendo em todas as camadas de células.72,122 As células epiteliais em regeneração se movem em direção e ao longo da superfície dental em um sentido coronal ao sulco gengival onde elas são desprendidas12 (Fig. 2-18). As células-filhas em migração proporcionam uma adesão contínua à superfície dental. A força da união epitelial ao dente ainda não foi medida. 87 Figura 2-18 Epitélio juncional em um dente em erupção. O epitélio juncional (EJ) é formado pela junção do epitélio oral (EO) e do epitélio reduzido do esmalte (ERE). O cemento afibrilar (CA) é às vezes formado sobre o esmalte após degeneração do ERE. As setas indicam o movimento coronal das células epiteliais em regeneração, que se multiplicam mais rapidamente no EJ do que no EO. E, esmalte; C, cemento radicular. Um padrão similar de renovação celular existe no dente completamente erupcionado. (Modificado de Listgarten MA: J Can Dent Assoc 36:70, 1970.) O sulco gengival é formado quando o dente erupciona na cavidade oral. Neste momento, o epitélio juncional e o ERE formam uma faixa larga aderida à superfície do dente, de perto da ponta da coroa até a junção cemento-esmalte. O sulco gengival é um espaço ou sulco raso em forma de V, entre o dente e a gengiva, que circunda a ponta da coroa recém-erupcionada. No dente completamente erupcionado, apenas o epitélio juncional persiste. O sulco consiste em um espaço raso localizado coronalmente à adesão do epitélio juncional e delimitado pelo dente em um lado e pelo epitélio sulcular no outro. A extensão coronal do sulco gengival é a gengiva marginal. Renovação do Epitélio Gengival. O epitélio oral está sob contínua renovação. A sua espessura é mantida pelo equilíbrio entre a nova formação celular nas camadas basal e espinhosa e a descamação das células antigas na superfície. A atividade mitótica apresenta uma periodicidade de 24 horas, com as maiores e menores taxas ocorrendo pela manhã e pela noite, respectivamente.123 A taxa mitótica é maior em áreas não queratinizadas e está aumentada na gengivite, sem diferenças significativas quanto ao gênero. As opiniões divergem sobre se a taxa mitótica está aumentada75,76,83 ou diminuída10 com a idade. A taxa mitótica em animais experimentais varia entre diferentes áreas do epitélio oral em ordem decrescente: mucosa oral, palato duro, epitélio sulcular, epitélio juncional, superfície externa da gengiva marginal e gengiva inserida.6,52,75,130 Foi 88 relatado o tempo de renovação para diferentes áreas do epitélio oral em animais experimentais a seguir: palato, língua e mucosa jugal, de cinco a seis dias; gengiva, de 10 a 12 dias, sendo requerido o mesmo tempo ou até maior com o aumento da idade; e epitélio juncional, de um a seis dias.12,119 Em relação ao epitélio juncional, anteriormente se pensava que apenas as células epiteliais voltadas para a lâmina basal externa se dividiam rapidamente. No entanto, evidências revelam que um número significativo de células, como as células basais ao longo do tecido conjuntivo, é capaz de sintetizar ácido desoxirribonucleico (DNA), demonstrando sua atividade mitótica.97,98 O rápido desprendimento das células remove efetivamente bactérias que se aderem às células epiteliais e é, portanto, uma parte importante dos mecanismos de defesa na junção dentogengival.92 Estruturas Cuticulares nos Dentes. O termo cutícula descreve uma fina estrutura acelular com uma matriz homogênea, às vezes circunscrita por bordas lineares claramente demarcadas. Listgarten74 classificou as estruturas cuticulares em revestimentos de origem do desenvolvimento e adquiridas. Os revestimentos adquiridos incluem aqueles de origem exógena como a saliva, as bactérias, o cálculo e as manchas superficiais (Caps. 22 e 23). Os revestimentos de origem do desenvolvimento são aqueles formados normalmente como parte do desenvolvimento do dente e incluem o ERE, o cemento coronal e a cutícula dental. Após a formação completa do esmalte, o epitélio ameloblástico é reduzido a uma ou duas camadas de células que permanecem aderidas à superfície do esmalte por hemidesmossomos e uma lâmina basal. Este ERE representa ameloblastos pós- secretores e células do estrato intermediário do órgão do esmalte. Em algumas espécies animais, o ERE desaparece total e muito rapidamente, colocando, assim, a superfície do esmalte em contato com o tecido conjuntivo. As células do tecido conjuntivo depositam, então, uma fina camada de cemento conhecida como cemento coronário sobre o esmalte. Em humanos, manchas finas de cemento afibrilar podem ser vistas, às vezes, na metade cervical da coroa. A microscopia eletrônica mostrou uma cutícula dental composta por uma camada de material orgânico homogêneo de espessura variável (aproximadamente 0,25 μm) sobrejacente ao esmalte dental. Ela não é mineralizada e nem sempre está presente. Em alguns casos, ela é depositada próximo à junção cemento-esmalte sobre uma camada de cemento afibrilar, que por sua vez recobre o esmalte. A cutícula pode estar presente entre o epitélio juncional e o dente. Estudos histoquímicos ultraestruturais constataram que a cutícula dental é proteica,64 e pode ser um acúmulo de componentes do fluido tecidual.46,107 Fluido Gengival (Fluido Sulcular). 89 A importância do fluido gengival é que ele pode ser representado tanto por um transudato quanto por um exsudato. O fluido gengival contém uma vasta gama de fatores bioquímicos, oferecendo uso potencial como um biomarcador de diagnóstico ou prognóstico do estado biológico do periodonto na saúde e doença.42 O fluido gengival contém componentes do tecido conjuntivo, epitelial, células inflamatórias, soro e microrganismos que habitam a margem gengival ou o sulco (bolsa).41 Em um sulco saudável, a quantidade de fluido gengival é muito pequena. Durante a inflamação, no entanto, o fluxo do fluido gengival aumenta e sua composição começa a se assemelhar àquela de um exsudato inflamatório.28 A principal via de difusão do fluido gengival é através da membrana basal, por meio dos espaços intracelulares relativamente amplos do epitélio juncional e depois para o sulco.94 Acredita-se que o fluido gengival (1) purifique o material do sulco, (2) contenha proteínas plasmáticas que podem melhorar a adesão do epitélio ao dente, (3) possua propriedades antimicrobianas; e (4) exerça atividade de anticorpo para defender a gengiva (Cap. 6). Tecido Conjuntivo Gengival Os principais componentes do tecido conjuntivo gengival são as fibras colágenas (em torno de 60% em volume), fibroblastos (5%), vasos, nervos e matriz (aproximadamente 35%). O tecido conjuntivo da gengiva é conhecido como lâmina própria e consiste em duas camadas: (1) uma camada papilar, subjacente ao epitélio, queconsiste em projeções papilares entre as cristas epiteliais; e (2) uma camada reticular contígua com o periósteo do osso alveolar. O tecido conjuntivo possui um compartimento celular e outro extracelular compostos por fibras e substância fundamental. Assim, o tecido conjuntivo gengival é basicamente um tecido conjuntivo fibroso que possui elementos que se originam diretamente do tecido conjuntivo da mucosa oral, bem como algumas fibras (dentogengivais) que se originam do folículo dental em desenvolvimento.11 A substância fundamental preenche o espaço entre as fibras e as células, é amorfa e possui um alto conteúdo aquoso. É composto por proteoglicanas, principalmente ácido hialurônico e sulfato de condroitina, e glicoproteínas, principalmente fibronectina. As glicoproteínas são responsáveis pela fraca reação PAS-positiva da substância fundamental.43 A fibronectina liga os fibroblastos às fibras e muitos outros componentes da matriz intercelular, ajudando a mediar a adesão e migração celulares. A laminina, outra glicoproteína encontrada na lâmina basal, serve para aderi-la às células epiteliais. Os três tipos de fibras do tecido conjuntivo são: colágenas, reticulares e elásticas. O colágeno tipo I forma a massa da lâmina própria e proporciona força tênsil ao 90 tecido gengival. O colágeno tipo IV (fibra reticular argirofílica) se ramifica entre os feixes de colágeno tipo I e é contínuo com as fibras da membrana basal e as paredes dos vasos sanguíneos.76 O sistema de fibras elásticas é composto de fibras oxitalânicas, elaunínicas e elastinas distribuídas entre as fibras colágenas.26 Portanto, os feixes de colágeno densamente agrupados que estão ancorados no cemento acelular de fibras extrínsecas logo abaixo da porção terminal do epitélio juncional formam o tecido conjuntivo de inserção. A estabilidade desta inserção é o fator-chave para limitar a migração do epitélio juncional.27 Fibras Gengivais. O tecido conjuntivo da gengiva marginal é densamente colagenoso e contém um sistema proeminente de feixes de fibras colágenas chamado fibras gengivais. Elas consistem em colágeno tipo I.95 As fibras gengivais possuem as seguintes funções: 1. Unir firmemente a gengiva marginal contra o dente. 2. Promover a rigidez necessária para resistir às forças da mastigação sem serem defletidas da superfície dental. 3. Unir a gengiva marginal livre ao cemento radicular e à gengiva inserida adjacente. As fibras gengivais são organizadas em três grupos: gengivodental, circular e transseptal.65 Grupo Gengivodental. As fibras gengivodentais são aquelas nas superfícies vestibular, lingual e interproximal. Elas estão inseridas no cemento logo abaixo do epitélio na base do sulco gengival. Nas superfícies vestibular e lingual, elas se projetam do cemento na conformação semelhante a um leque em direção à crista e à superfície externa da gengiva marginal, terminando abaixo do epitélio (Figs. 2-19 e 2-20). Elas também se estendem externamente ao periósteo dos ossos alveolares vestibular e lingual, terminando na gengiva inserida ou misturando-se com o periósteo do osso. Interproximalmente, as fibras gengivodentais estendem-se em direção à crista da gengiva interdental. Figura 2-19 Secção vestibulolingual da gengiva marginal mostra as fibras gengivais (F) que se estendem do cemento (C) à crista da gengiva, para a superfície gengival externa e externamente ao periósteo do osso (O). Fibras circulares (FC) são mostradas em secção transversal entre os outros grupos. (Cortesia de Sol Bernick.) 91 Figura 2-20 Diagrama mostrando as fibras gengivodentais que se estendem do cemento (1) à crista gengival, (2) até a superfície externa, e (3) externamente ao periósteo da cortical vestibular. As fibras circulares (4) são mostradas na secção transversal. Grupo Circular As fibras circulares percorrem através do tecido conjuntivo da gengiva marginal e interdental e circundam o dente de forma semelhante a um anel. Grupo Transseptal Localizadas na região interproximal, as fibras interproximais formam feixes horizontais que se estendem entre o cemento de dois dentes próximos, nos quais estão inseridas. Elas se encontram na área entre o epitélio da base do sulco gengival e a crista do osso interdental e, às vezes, são classificadas como fibras principais do ligamento periodontal. Page et al91 também descreveram como (1) um grupo de fibras semicirculares que se inserem em uma superfície proximal de um dente, imediatamente abaixo da junção cemento-esmalte, circundam a gengiva marginal vestibular ou lingual e se inserem na outra superfície proximal do mesmo dente; e (2) um grupo de fibras transgengivais que se inserem na superfície proximal de um dente, atravessam o espaço interdental diagonalmente, circundam a superfície vestibular ou lingual do dente adjacente, atravessam de novo diagonalmente o espaço interdental e se inserem na superfície proximal do próximo dente. Acredita-se que forças de tração na matriz extracelular produzidas por fibroblastos são forças responsáveis pela geração de tensão no colágeno. Isso mantém 92 os dentes firmemente ligados uns aos outros e ao osso alveolar. Elementos Celulares. O elemento celular predominante no tecido conjuntivo é o fibroblasto. Numerosos fibroblastos são encontrados entre os feixes de fibras. Os fibroblastos são de origem mesenquimal e desempenham importante papel no desenvolvimento, na manutenção e no reparo do tecido conjuntivo gengival. Tal como acontece com o tecido conjuntivo em outras partes do corpo, os fibroblastos sintetizam fibras colágenas e elásticas, bem como glicoproteínas e glicosaminoglicanas da substância intercelular amorfa. Os fibroblastos também regulam a degradação do colágeno através da fagocitose e secreção de colagenases. A heterogeneidade dos fibroblastos é, atualmente, um aspecto bem estabelecido dos fibroblastos do periodonto.101 Embora a significância biológica e clínica dessa heterogeneidade não esteja clara, parece que ela é necessária para o funcionamento normal os tecidos na saúde, na doença e no reparo.11 Os mastócitos, que estão distribuídos por todo o corpo, são numerosos no tecido conjuntivo da mucosa oral e da gengiva.24,116,117,135 Macrófagos fixos e histiócitos estão presentes no tecido conjuntivo gengival como componentes do sistema fagocítico mononuclear (sistema reticuloendotelial) e são derivados dos monócitos sanguíneos. As células adiposas e os eosinófilos, embora escassos, também estão presentes na lâmina própria. Na gengiva clinicamente normal, pequenos focos de plasmócitos e linfócitos são encontrados no tecido conjuntivo próximo à base do sulco (Fig. 2-21). Neutrófilos podem ser vistos em número relativamente grande tanto no tecido conjuntivo gengival quanto no sulco. Essas células inflamatórias geralmente estão presentes em pequenas quantidades na gengiva clinicamente normal. Figura 2-21 Secção da gengiva clinicamente normal mostra algum grau de inflamação, que está quase sempre presente próxima à base do sulco. Especulações sobre se pequenas quantidades de leucócitos deveriam ser consideradas um componente normal da gengiva ou um infiltrado inflamatório 93 incipiente, sem expressão clínica, são de importância mais teórica do que clínica. Os linfócitos estão ausentes quando a normalidade gengival é julgada por rigorosos critérios clínicos ou sob condições experimentais especiais,8,89 mas eles são praticamente constantes na gengiva normal e saudável, mesmo antes de completar a erupção dental.68,78,104 Estudos imuno-histoquímicos que utilizam anticorpos monoclonais identificaram as diferentes subpopulações de linfócitos. O infiltrado da área abaixo do epitélio juncional da gengiva saudável em dentes recém-erupcionados em crianças é composto principalmente de linfócitos T (auxiliar ou helper, citotóxico, supressor e natural killer)7,48,115 e, portanto, poderia ser interpretado com um tecido linfoide normal envolvido no sistema de reconhecimento de defesa inicial. Com o decorrer do tempo, os linfócitos B e os plasmócitosaparecem em maiores proporções para a produção de anticorpos específicos contra antígenos já reconhecidos e que estão sempre presentes no sulco da gengiva clinicamente normal.109 Reparo do Tecido Conjuntivo Gengival. Em razão da alta taxa de renovação, o tecido conjuntivo da gengiva possui notavelmente uma boa capacidade regenerativa e de cicatrização. Na verdade, ele é um dos melhores tecidos de cicatrização no organismo e geralmente mostra pouca evidência de formação de cicatrizes após procedimentos cirúrgicos. Isto provavelmente é causado pela rápida reconstrução da arquitetura fibrosa dos tecidos.82 No entanto, a capacidade reparativa do tecido conjuntivo gengival não é tão grande quanto aquela do ligamento periodontal ou do tecido epitelial. Suprimento Sanguíneo, Linfático e Nervos. A microcirculação, os vasos sanguíneos e os vasos linfáticos desempenham um importante papel na drenagem do fluido tecidual e na disseminação da inflamação. Na gengivite e na periodontite, a microcirculação e a formação vascular alteram muito a rede vascular diretamente sob o epitélio sulcular gengival e epitélio juncional.80 Os vasos sanguíneos são facilmente evidenciados nas secções histológicas por meio de reações imuno-histoquímicas contra proteínas das células endoteliais (fator VIII e moléculas de adesão). Antes de essas técnicas serem desenvolvidas, os padrões de vascularização dos tecidos periodontais foram descritos utilizando-se reações histoenzimáticas para fosfatase alcalina e adenosina trifosfatase por causa da grande atividade dessas enzimas nas células endoteliais.25,138 A perfusão com tinta nanquim também foi utilizada para estudar a distribuição vascular em animais experimentais. A injeção e subsequente demonstração da peroxidase permitem a identificação dos vasos sanguíneos e estudos de permeabilidade.114 A reação do PAS também realça as paredes dos vasos através de 94 uma linha positiva na membrana basal.112 As células endoteliais também expressam atividade da 5-nucleotidase.55 A microscopia eletrônica de varredura pode ser usada após injeção de plástico dentro dos vasos através da artéria carótida, seguida por corrosão dos tecidos moles.44 Além disso, a medida do fluxo por meio do laser Doppler fornece um meio não invasivo para observar modificações do fluxo sanguíneo relacionadas à doença.5 Transferência científica Compreender a estrutura e função gengival normal oferece aos clínicos a base para a tomada de decisões clínicas que manterão a saúde gengival. A espessura da superfície epitelial queratinizada juntamente com o denso colágeno tipo I do tecido conjuntivo gengival deveriam ser protegidos de danos durante as terapias periodontal e restauradora. O epitélio juncional e o epitélio sulcular do sulco gengival são frequentemente rompidos por procedimentos periodontais, como a raspagem e alisamento radicular, e por procedimentos restauradores que envolvem as margens gengivais. Essas camadas epiteliais têm uma grande capacidade reparativa; no entanto, sua função protetora de promover uma barreira e um selamento contra o dente depende de uma subestrutura de colágeno denso intacto que é proporcionada pelas fibras gengivais. O clínico tem a obrigação de minimizar o trauma das fibras gengivais durante o tratamento para que a forma e a função da gengiva normal possam ser mantidas. A gengivite é iniciada pelas bactérias subgengivais que causam a interrupção da função de barreira do epitélio sulcular e a subsequente inflamação. Pacientes necessitam ser capazes de usar técnicas de higiene oral que reduzam a carga bacteriana subgengival sem causar danos significativos à estrutura epitelial do sulco gengival. Os clínicos têm que adequar as instruções de higiene oral para cada anatomia gengival do paciente com devida consideração às dinâmicas celulares subjacentes. Pacientes com um biotipo fino de arquitetura gengival são particularmente vulneráveis à perda de tecido conjuntivo e ao dano epitelial; portanto, precisam de um tratamento e técnicas de higiene oral especiais e atraumáticos. Biotipos espessos são mais resilientes à terapia e são capazes de ser tratados com procedimentos mais agressivos sem o risco de perda da função gengival normal. As três fontes de suprimento sanguíneo para a gengiva são as seguintes (Figs. 2- 22 e 2-23): 1. Arteríolas supraperiosteais ao longo das superfícies vestibular e lingual do osso alveolar, das quais capilares se estendem ao longo do epitélio sulcular e entre as cristas epiteliais da superfície externa gengival.39,53 Ramos ocasionais das arteríolas passam através do osso alveolar para o ligamento periodontal ou percorrem sobre a crista do osso alveolar. 2. Vasos do ligamento periodontal, que se estendem para a gengiva e anastomosam com os capilares na área do sulco. 95 3. Arteríolas, que emergem da crista do septo interdental44 e se estendem paralelamente à crista óssea e se anastomosam com vasos do ligamento periodontal, com capilares nas áreas creviculares gengivais e com vasos que percorrem sobre a crista alveolar. Figura 2-22 Diagrama de uma arteríola que penetra o osso alveolar interdental para suprir os tecidos interdentais (esquerda) e uma arteríola supraperiosteal sobre o osso alveolar vestibular, que envia ramos ao tecido circunjacente (direita). Figura 2-23 Suprimento sanguíneo e circulação periférica da gengiva. Perfusão dos tecidos com tinta Índia. Observe o plexo capilar paralelo ao sulco (S) e as alças capilares na camada papilar externa. Observe também os vasos supraperiosteais externamente ao osso (O), que suprem a gengiva, e um vaso do ligamento periodontal que se anastomosa com o plexo do sulco. (Cortesia de Sol Bernick.) Abaixo do epitélio da superfície gengival externa, os capilares se estendem para o tecido conjuntivo papilar entre as cristas epiteliais na forma de alças terminais de 96 grampos de cabelos, com ramos eferentes e aferentes, espirais e varizes25,53 (Figs. 2- 23 e 2-24). As alças estão, algumas vezes, unidas por ligações cruzadas, e capilares achatados servem de vasos reservas quando a circulação é aumentada em resposta à irritação.49 Figura 2-24 Vista por microscopia eletrônica de varredura dos tecidos gengivais palatinos de molar de rato após perfusão vascular de plástico e dissolução do tecido mole. A, Vista oral dos capilares gengivais: d, dente; papila interdental (cabeça da seta). (180 × .) B, Vista do lado do dente. Observe os vasos do plexo próximo aos epitélios sulcular e juncional. As cabeças de seta apontam para os vasos na área do sulco com alterações inflamatórias moderadas. g, crista da gengiva marginal; s, fundo do sulco gengival; lp, vasos do ligamento periodontal. (150 × .) (Cortesia de N. J. Selliseth e K. Selvig, University of Bergen, Noruega.) Ao longo do epitélio sulcular, os capilares estão organizados em um plexo achatado que anastomosa e se estende paralelamente ao esmalte a partir da base do sulco para a margem gengival.25 Na área do col, ocorre um padrão misto de anastomose capilar e alças. Como mencionado, mudanças anatômicas e histológicas foram mostradas na microcirculação gengival com gengivite. Estudos prospectivos da vasculatura gengival em animais demonstraram que, na ausência da inflamação, a rede vascular está 97 organizada em um padrão repetitivo, regular e em camadas.25,96 Em contrapartida, a vasculatura da gengiva inflamada exibe um padrão irregular do plexo vascular, com os microvasos apresentando uma aparência anelada, dilatada e enrolada.96 O papel do sistema linfático em remover o excesso de fluidos, debris celulares e proteicos, microrganismos e outros elementos é importante no controle da difusão e na resolução do processo inflamatório.79 A drenagem linfática da gengiva ocorre nos vasos linfáticos do tecido conjuntivo papilar.113 Ela progride para a rede coletora externa ao periósteo do processo alveolar, em seguida para os linfonodos regionais, particularmente o grupo submandibular. Além disso, os vasos linfáticos logo abaixo do epitélio juncionalse estendem até o ligamento periodontal e acompanham os vasos sanguíneos. Elementos neurais estão amplamente distribuídos por todos os tecidos gengivais. Dentro dos tecidos conjuntivos gengivais, a maioria das fibras nervosas é mielinizada e está intimamente associada aos vasos sanguíneos.77 A inervação gengival é derivada das fibras provenientes dos nervos no ligamento periodontal e dos nervos labiais, bucais e palatinos.13 As estruturas nervosas a seguir estão presentes no tecido conjuntivo: uma malha de fibras argirofílicas terminais, algumas das quais se estendem até o epitélio; corpúsculos táteis do tipo Meissner; bulbos terminais de Krause, que são receptores de temperatura; e fusos encapsulados.9 Correlação das características clínicas e histológicas Uma compreensão das características clínicas normais da gengiva requer a capacidade de interpretá-las em termos das estruturas microscópicas que elas representam. Cor A cor da gengiva marginal e inserida é geralmente descrita como “rosa coral” e resulta do suprimento vascular, da espessura, do grau de queratinização do epitélio e da presença de células que contêm pigmento. A cor varia entre diferentes pessoas e parece estar correlacionada à pigmentação cutânea. É mais clara em indivíduos loiros com pele clara do que em indivíduos de pele e cabelos escuros (Fig. 2-25). 98 Figura 2-25 A, Gengiva clinicamente normal em um adulto jovem. B, Gengiva profundamente pigmentada (melanótica) em um adulto de meia-idade. (De Glickman I, Smulow JB: Periodontal disease: clinical, radiographic, and histopathologic features, Philadelphia, 1974, Sauders.) A gengiva inserida é demarcada da mucosa alveolar adjacente na face vestibular por uma linha mucogengival claramente definida. A mucosa alveolar é vermelha, lisa e brilhante, em vez de rosa e pontilhada. A comparação da estrutura microscópica da gengiva inserida com a da mucosa alveolar fornece uma explicação para a diferença na aparência. O epitélio da mucosa alveolar é mais fino, não é queratinizado e não contém cristas epiteliais (Fig. 2-26). O tecido conjuntivo da mucosa alveolar é frouxamente organizado e os vasos sanguíneos são mais numerosos. Figura 2-26 Mucosa oral, superfícies vestibular e palatina. A superfície vestibular (V) mostra a gengiva marginal (GM), a gengiva inserida (GI) e mucosa alveolar (MA). A linha dupla marca a junção mucogengival. Observe as diferenças no epitélio e tecido conjuntivo na gengiva inserida e na mucosa alveolar. A superfície palatina (P) mostra a gengiva marginal (GM) e a espessa mucosa palatina queratinizada (MP). Pigmentação Fisiológica (Melanina). A melanina, um pigmento marrom não derivado da hemoglobina, é responsável pela pigmentação normal da pele, da gengiva e do restante da mucosa oral. Ela está presente em todos os indivíduos normais, muitas vezes, não em quantidade suficiente para ser detectada clinicamente, mas está ausente ou severamente diminuída em albinos. A pigmentação melânica na cavidade oral é proeminente em indivíduos negros (Fig. 2-25). O ácido ascórbico regula negativamente a pigmentação melânica nos tecidos gengivais.118 De acordo com Dummett,37 a distribuição da pigmentação oral em indivíduos 99 negros é a seguinte: gengiva, 60%; palato duro, 61%; mucosa oral, 22%; e língua, 15%. A pigmentação gengival ocorre como uma coloração arroxeada difusa ou como manchas marrons e castanho-claras de formas irregulares. Ela pode aparecer na gengiva tão precoce quanto em três horas após o nascimento e, muitas vezes, é a única evidência de pigmentação.37 A repigmentação oral se refere ao reaparecimento clínico da pigmentação melânica após um período de despigmentação clínica da mucosa oral resultante de fatores químicos, térmicos, cirúrgicos, farmacológicos ou idiopáticos.38 Informações sobre a repigmentação dos tecidos orais após procedimentos cirúrgicos são extremamente limitadas e nenhum tratamento definitivo é oferecido neste momento. Tamanho O tamanho da gengiva corresponde à soma total da maior parte dos elementos celulares e intercelulares e seu suprimento vascular. A alteração no tamanho é uma característica comum da doença gengival. Contorno O contorno ou forma da gengiva varia consideravelmente e depende da forma dos dentes e do seu alinhamento no arco, da localização e do tamanho da área do contato proximal e das dimensões das ameias vestibular e lingual. A gengiva marginal envolve o dente em forma de colar e segue um contorno festonado nas superfícies vestibular e lingual. Ela forma uma linha reta ao longo dos dentes com superfícies relativamente planas. Em dentes com convexidade mesiodistal pronunciada (p. ex., caninos superiores) ou dentes em vestibuloversão, o contorno arqueado normal é acentuado e a gengiva fica localizada mais apicalmente. Nos dentes com linguoversão, a gengiva é horizontal e mais espessa (Fig. 2-27). Além disso, o biotipo do tecido gengival varia significativamente. Uma gengiva fina e clara é encontrada em um terço da população, principalmente em mulheres com dentes finos e com uma faixa estreita de tecido queratinizado, ao passo que uma gengiva espessa e clara com uma faixa ampla de tecido queratinizado está presente em dois terços da população, principalmente nos homens.34 100 Figura 2-27 Contorno espesso e em formato de platô da gengiva em dente com linguoversão agravada pela irritação local causada pelo acúmulo de biofilme. Forma A forma da gengiva interdental é regida pelo contorno das superfícies proximais dos dentes e pela localização e forma das ameias gengivais. Quando as superfícies proximais das coroas são relativamente planas no sentido vestibulolingual, as raízes estão próximas uma das outras, o osso interdental é fino no sentido mesiodistal e as ameias gengivais e a gengiva interdental são estreitas no sentido mesiodistal. Por outro lado, quando as superfícies proximais se distanciam da área de contato, o diâmetro mesiodistal da gengiva interdental é maior (Fig. 2-28). A altura da gengiva interdental varia com a localização do ponto de contato proximal. Assim, na região anterior da dentição, a papila interdental tem a forma piramidal, ao passo que, na região de molares, a papila é mais plana no sentido vestibulolingual. Figura 2-28 Forma da papila gengival interdental correlacionada à forma dos dentes e ameias. A, Papilas interdentais largas. B, Papilas interdentais estreitas. Consistência A gengiva é firma e resiliente e, com exceção da gengiva marginal livre, fortemente ligada ao osso subjacente. A natureza colágena da lâmina própria e sua contiguidade com o mucoperiósteo do osso alveolar determinam a firmeza da gengiva inserida. As fibras gengivais contribuem para a firmeza da gengiva marginal. Textura Superficial 101 A gengiva apresenta uma textura superficial semelhante a uma casca de laranja e é citada como pontilhada (Fig. 2-25). O pontilhado é mais bem visualizado ao secar a gengiva. A gengiva inserida é pontilhada, ao passo que a gengiva marginal não. A porção central da papila interdental é geralmente pontilhada, mas as bordas marginais são lisas. O padrão e a extensão do pontilhado variam entre os indivíduos e entre as diferentes áreas da cavidade bucal.51,96 O pontilhado é menos proeminente nas superfícies linguais do que nas vestibulares e pode estar ausente em algumas pessoas. O pontilhado varia com a idade. Está ausente na infância, aparece em algumas crianças em torno dos cinco anos de idade, aumenta até a idade adulta e frequentemente começa a desaparecer nos idosos. Microscopicamente, o pontilhado é produzido pela alternância das protuberâncias arredondadas e depressões na superfície gengival. A camada papilar do tecido conjuntivo se projeta para dentro das elevações, e as áreas elevadas e de depressão estão cobertas por epitélio escamoso estratificado (Fig. 2-29). O grau de queratinização e a proeminência do pontilhado parecem estar relacionados. Figura 2-29 Biópsia gengival do paciente mostrada na Figura 2-7, demonstrando elevações e depressões (setas)ao Cliente 0800 026 53 40 sac@elsevier.com.br Nota Como as novas pesquisas e a experiência ampliam o nosso conhecimento, pode haver necessidade de alteração dos métodos de pesquisa, das práticas profissionais ou do tratamento médico. Tanto médicos quanto pesquisadores devem sempre basear-se em sua própria experiência e conhecimento para avaliar e empregar quaisquer informações, métodos, substâncias ou experimentos descritos neste texto. Ao utilizar qualquer informação ou método, devem ser criteriosos com relação a sua própria segurança ou a segurança de outras pessoas, incluindo aquelas sobre as quais tenham responsabilidade profissional. Com relação a qualquer fármaco ou produto farmacêutico especificado, aconselha-se o leitor a 8 mailto:sac@elsevier.com.br cercar-se da mais atual informação fornecida (i) a respeito dos procedimentos descritos, ou (ii) pelo fabricante de cada produto a ser administrado, de modo a certificar-se sobre a dose recomendada ou a fórmula, o método e a duração da administração, e as contraindicações. É responsabilidade do médico, com base em sua experiência pessoal e no conhecimento de seus pacientes, determinar as posologias e o melhor tratamento para cada paciente individualmente, e adotar todas as precauções de segurança apropriadas. Para todos os efeitos legais, nem a Editora, nem autores, nem editores, nem tradutores, nem revisores ou colaboradores, assumem qualquer responsabilidade por qualquer efeito danoso e/ou malefício a pessoas ou propriedades envolvendo responsabilidade, negligência etc. de produtos, ou advindos de qualquer uso ou emprego de quaisquer métodos, produtos, instruções ou ideias contidos no material aqui publicado. O Editor CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C299 Carranza, periodontia clínica / [editores] Michael G. Newman, Henry H. Takei e Perry R. Klokkevold ; editor emérito Fermin A. Carranza ; [tradução Débora Rodrigues Fonseca… et al.]. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2011. 1328p. : il. ; 28 cm Tradução de: Carranza’s clinical periodontology, 11th ed Inclui índice ISBN 978-85-352-4540-0 1. Periodontia. 2. Doença periodontal. I. Newman, Michael G., 1947-. II. Takei, Henry H., 1938-. III. Klokkevold, Perry R. IV. Carranza, Fermín A., 1926-. V. Título: Periodontia clínica. 11-5608. CDD: 617.632 CDU: 617.314 9 Revisão científica e tradução Revisão científica Luciana Saraiva Professora Doutora do Departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) Doutora em Periodontia pela USP Mestre em Periodontia pela USP Marinella Holzhausen Professora Doutora da Disciplina de Periodontia do Departamento de Estomatologia da FOUSP Pós- doutorado pela Faculty of Medicine, University of Calgary, Canadá Doutora em Periodontia pela Faculdade de Odontologia de Araraquara, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) Mestre em Periodontia pela Faculdade de Odontologia de Araraquara da UNESP Tradução Adriana Moura Foz Mestranda em Periodontia pela FOUSP Especialista em Periodontia pela Fundação para o Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FUNDECTO- FOUSP) Alex Nogueira Haas Professor Adjunto de Periodontia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Professor dos cursos de Especialização, Mestrado e Doutorado em Periodontia da UFRGS Mestre e Doutor em Periodontia pela UFRGS Editor Associado da Revista da Faculdade de Odontologia de Porto Alegre, RS Alexandre Barboza de Lemos Professor Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia da Odontoclínica Central do Exército (OCEX), RJ Professor Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia da SLMandic, RJ Especialista em Periodontia pela UERJ 10 Especialista em Implantodontia pela SLMandic Mestre em Periodontia pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), RJ Alexandre Vianna Aldighieri Soares Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Especialista em Clínica Médica pelo Hospital Naval Marcílio Dias e Endocrinologia pelo Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), RJ Ana Paula Vieira Colombo Professora Adjunta do Departamento de Microbiologia Médica do Instituto de Microbiologia Professor Paulo de Góes da UFRJ Doutora em Biologia Oral pela Harvard School of Dental Medicine Doutora em Microbiologia Oral pelo Forsyth Institute, Boston, MA Especialista em Periodontia pela UFRJ Andrea Del Corso Tradutora graduada em Língua e Literatura Inglesa, modalidade Tradução pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Bruno César de Vasconcelos Gurgel Professor Adjunto do Departamento de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Doutor em Clínica Odontológica, na área de Periodontia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Mestre em Clínica Odontológica, na área de Periodontia, pela Unicamp Carlos Rossa Junior Professor Adjunto do Departamento de Diagnóstico e Cirurgia da Faculdade de Odontologia de Araraquara da UNESP Mestre e Doutor em Periodontia pela UNESP Pós-doutorado na Universidade de Michigan, Ann Arbor, Estados Unidos Cassia Tiemi Fukuda Nakashima Professora da Associação de Cirurgiões Dentistas de Campinas Visiting Research Fellow da University of Okayama, Japão Visiting Research Fellow da University of Heidelberg, Alemanha Doutora em Periodontia pela USP Mestre em Periodontia pela USP Especialista em Periodontia pela Sociedade Brasileira de Periodontia Cláudio Mendes Pannuti Professor da Disciplina de Periodontia do Departamento de Estomatologia da FOUSP Professor da Disciplina de Periodontia das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), SP Professor do Curso de Especialização em Periodontia da FFO-FUNDECTO Secretário Executivo da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica 11 Doutor em Periodontia pela USP Mestre em Periodontia pela USP Daniella Zomignani Alves Tradutora – SP Danielle Resende Camisasca Barroso Especialista em Estomatologia pela UFRJ Mestre em Patologia Bucodental pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Doutoranda em Patologia Bucodental pela UFF Debora Rodrigues Fonseca Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pela UFRJ Mestre em Ciências Morfológicas pela UFRJ Staff do Serviço de Rotina de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Hospital Federal do Andaraí, RJ Staff do Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Hospital Estadual Getúlio Vargas, RJ Diego Alfaro Graduado em Medicina pela UFRJ Elcio Marcantonio Junior Professor Titular das Disciplinas de Periodontia e Implantodontia da Faculdade de Odontologia de Araraquara da UNESP Érika Menezes Hottz Especialista em Periodontia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Mestre em Periodontia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Estela Maia Bellini Pannuti Mestre em Microbiologia pela USP Fausto Medeiros Mendes Professor Associado do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da FOUSP Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Odontológicas da FOUSP Mestre e Doutor em Odontopediatria pela FOUSP Fernanda de Souza Lima Defensora Pública do Estado do Rio de Janeiro Pós-graduada em Direito Público pela UERJ Bacharel em Direito pela UFRJ Fernando Oliveira Costa Professor Associado de Periodontia da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Doutor em Epidemiologia pela UFMG Especialista e |Mestre em Periodontia pela UFMG Coordenador do Mestrado e Doutorado em Periodontia da Faculdade de 12 Odontologia da UFMG Giovane Hisse Gomes Especialista em Periodontia pela Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Odontologia (FUNDECTO), SP Mestre em Periodontia pela FOUSP Giuseppe Alexandre Romito Professor Titular da Disciplina de Periodontia do Departamento de Estomatologia da USP. Presidente da Sociedade Brasileira de Periodontologia (2008-2010) Presidente da Sociedade Brasileiraalternadas na gengiva inserida responsáveis pela aparência pontilhada. A microscopia eletrônica de varredura mostrou considerável variação na forma, mas uma profundidade do pontilhado relativamente constante. Em menor aumento, uma superfície ondulada é vista, interrompida por depressões irregulares de 50 μm de diâmetro. Em maior aumento, micropoços celulares são vistos.30 102 O pontilhado é uma forma de adaptação especializada ou reforço para a função. É uma característica da gengiva saudável e a redução ou perda do pontilhado é um sinal comum de doença gengival. Quando a gengiva restabelece a saúde após o tratamento, a aparência de pontilhado é restaurada. A textura superficial da gengiva também está relacionada à presença e ao grau de queratinização epitelial. A queratinização é considerada uma adaptação protetora à função. Ela aumenta quando a gengiva é estimulada pela escovação dental. No entanto, uma pesquisa com enxertos gengivais livres (Cap. 63) mostrou que quando o tecido conjuntivo é transplantado de uma área queratinizada para uma área não queratinizada, ele se torna um tecido revestido por epitélio queratinizado.62 Este achado sugere que a determinação do tipo de superfície epitelial se baseia na genética do tecido conjuntivo. Posição A posição da gengiva se refere ao nível em que a margem gengival está aderida ao dente. Quando o dente irrompe na cavidade oral, a margem e o sulco estão na ponta da coroa; à medida que a erupção progride, eles podem ser vistos mais próximos da raiz. Durante este processo de erupção dental, como descrito anteriormente, o epitélio juncional, o epitélio oral e o epitélio reduzido do esmalte são submetidos a extensas alterações e remodelação para manter a profundidade fisiológica rasa do sulco. Sem esta remodelação do epitélio, o resultado seria um relacionamento anatômico anormal entre a gengiva e o dente. Erupção Dental Contínua. De acordo com o conceito de erupção contínua,50 a erupção não cessa quando os dentes encontram os seus antagonistas funcionais, mas continua por toda a vida. A erupção consiste em uma fase ativa e uma passiva. Erupção ativa é o movimento do dente em direção ao plano oclusal, enquanto erupção passiva é a exposição dos dentes pela migração apical da gengiva. Este conceito distingue entre coroa anatômica (porção do dente coberta por esmalte) e raiz anatômica (porção do dente coberta por cemento), e entre coroa clínica (parte do dente que foi descoberta de sua gengiva e se projeta para a cavidade oral) e raiz clínica (porção do dente coberta pelos tecidos periodontais). Quando os dentes alcançam seus antagonistas funcionais, o sulco gengival e o epitélio juncional estão ainda sobre o esmalte, e a coroa clínica corresponde aproximadamente a dois terços da coroa anatômica. Gottlieb e Orban50 acreditavam que a erupção ativa e a passiva aconteciam ao mesmo tempo. A erupção ativa é coordenada pela atrição; os dentes erupcionam para compensar a substância do dente desgastado pelo atrito. A atrição reduz a coroa clínica e a previne de se tornar desproporcionalmente longa em relação à raiz clínica; 103 assim, evita o excessivo poder de alavanca nos tecidos periodontais. Idealmente, a taxa de erupção ativa acompanha o ritmo com o desgaste dental, preservando a dimensão vertical da dentição. À medida que os dentes erupcionam, o cemento é depositado nos ápices e regiões de bifurcações dos dentes, e osso é formado ao longo do fundo do alvéolo e na crista do osso alveolar. Desta forma, parte da substância dental perdida pela atrição é substituída pelo alongamento da raiz e a profundidade do alvéolo é mantida para suportar a raiz. Embora originalmente pensado ser um processo fisiológico normal, a erupção passiva é agora considerada um processo patológico. A erupção passiva é dividida nos quatro estágios a seguir (Fig. 2-30): Estágio 1: Os dentes alcançam o plano oclusal. O epitélio juncional e a base do sulco gengival estão sobre o esmalte. Estágio 2: O epitélio juncional prolifera de forma que parte dele está sobre o cemento e parte está sobre o esmalte. A base do sulco ainda está sobre o esmalte. Estágio 3: Todo o epitélio juncional está sobre o cemento e a base do sulco está na junção cemento-esmalte. À medida que o epitélio juncional prolifera da coroa para a raiz, ele não permanece na junção cemento-esmalte por mais tempo do que em qualquer outra área do dente. Estágio 4: O epitélio juncional proliferou ainda mais sobre o cemento. A base do sulco está sobre o cemento, uma parte do qual está exposto. A proliferação do epitélio juncional em direção à raiz é acompanhada pela degeneração das fibras gengivais e do ligamento periodontal e sua separação do dente. A causa desta degeneração não é conhecida. Atualmente, acredita-se que ela seja o resultado da inflamação crônica, e, portanto, um processo patológico. Figura 2-30 Representação diagramática dos quatro passos na erupção passiva de acordo com Gottlieb e Orban.50 1, A base do sulco gengival (seta) e o epitélio juncional (EJ) estão sobre o esmalte. 2, A base do sulco gengival (seta) está sobre o esmalte e parte do epitélio juncional está sobre a raiz. 3, A base do sulco gengival (seta) está na junção cemento-esmalte e o epitélio juncional inteiro sobre a raiz. 4, A base do sulco gengival (seta) e o epitélio juncional estão na raiz. Como se observa, a aposição óssea acompanha a erupção ativa. A distância entre 104 a extremidade apical do epitélio juncional e a crista óssea alveolar permanece constante durante a erupção dental contínua (1,07 mm).47 A exposição do dente pela migração apical da gengiva é chamada de retração gengival ou atrofia. De acordo com o conceito de erupção contínua, o sulco gengival pode estar localizado na coroa, na junção cemento-esmalte ou na raiz, dependendo da idade do paciente e do estágio da erupção. Contudo, alguma exposição da raiz com a idade seria considerada normal e denominada de retração fisiológica. Novamente, este conceito não é aceito atualmente. Exposição excessiva é denominada retração patológica (Cap. 22). As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. * Uma descrição detalhada da histologia gengival pode ser encontrada em Schroeder HE: The periodontium, Nova York, 1986, Springer-Verlag; e em “Biological structure of the normal and diseased periodontium”, Periodontology 2000 13, 1997. 105 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Capítulo 3 Envelhecimento e Periodonto Ian Needleman Sumário do capítulo EFEITOS DO ENVELHECIMENTO NO PERIODONTO Epitélio Gengival Tecido Conjuntivo Gengival Ligamento Periodontal Cemento Osso Alveolar Placa Bacteriana Respostas Imunes e Inflamatórias EFEITOS DO ENVELHECIMENTO NA PROGRESSÃO DAS DOENÇAS PERIODONTAIS ENVELHECIMENTO E RESPOSTA AO TRATAMENTO DO PERIODONTO O aumento da consciência sobre saúde e os avanços na odontologia preventiva levaram à diminuição da perda de dentes em todos os grupos etários. Os efeitos dessa mudança na retenção dos dentes devem ser considerados cuidadosamente. Particularmente, o aumento na expectativa de vida e as melhores condições de saúde da população idosa podem levar a uma alteração na demanda de tratamento periodontal por pessoas mais velhas e, potencialmente, um aumento substancial para a terapia periodontal de suporte. Consequentemente, um entendimento do impacto do envelhecimento no periodonto é crítico. Este capítulo faz uma revisão da literatura sobre os aspectos fundamentais do envelhecimento nos tecidos periodontais e, depois, examina aspectos mais amplos do envelhecimento, bem como os possíveis efeitos nos resultados do tratamento. A base de evidência apresenta muitos problemas que tornam difícil tirar conclusões sobre os efeitos do envelhecimento. Alguns destes problemas incluem inconsistência na definição de um grupo verdadeiramente “envelhecido”, inadequada exclusão de adultos com doenças sistêmicas que podem modificar os achados do estudo e tentativas de extrapolar resultados de pesquisascom animais. Para o 106 propósito deste capítulo, o efeito de envelhecimento será limitado a uma revisão restrita de possíveis mudanças biológicas e microbiológicas.* O leitor deve estar plenamente advertido de que isso exclui muitos fenômenos importantes associados à idade, como a redução na habilidade cognitiva e na função motora do indivíduo, que podem ter um impacto direto na conduta periodontal. O Capítulo 39 discutirá essas questões detalhadamente. Desde que este capítulo foi escrito pela primeira vez, há 10 anos, o número de pesquisas sobre envelhecimento e o periodonto não aumentou substancialmente. Novas técnicas moleculares estão sendo empregadas em pesquisa laboratorial relacionada, e estas técnicas estão começando a dar uma nova percepção aos efeitos relacionados à idade. Provavelmente, estas abordagens se mostrarão frutíferas no futuro. Apesar dos dados limitados sobre a investigação direta sobre o periodonto, muitos esforços e recursos vêm sendo empregados na pesquisa de questões parcialmente relacionadas a este tópico. Estas incluem o efeito da infecção periodontal sobre a saúde em geral (Cap. 28) e o impacto da osteoporose na condição periodontal (Cap. 38). Efeitos do envelhecimento no periodonto Epitélio Gengival Afinamento e diminuição na queratinização do epitélio gengival foram relatados com a idade.43 O significado desses achados pode indicar aumento na permeabilidade epitelial para antígenos bacterianos, resistência diminuída ao trauma funcional ou ambos. Caso ocorram, essas alterações podem influenciar o resultado periodontal em longo prazo. Entretanto, outros estudos não encontraram diferenças relacionadas à idade no epitélio gengival de humanos ou cães.8,19 Outras alterações relatadas com a idade incluem o achatamento das invaginações epiteliais para o conjuntivo (rete pegs) e densidade celular alterada. Dados conflitantes a respeito do tempo de regeneração cirúrgica para o epitélio gengival têm sido atribuídos a problemas na metodologia de pesquisa.48 O efeito do envelhecimento na localização do epitélio juncional tem sido objeto de muita especulação. Alguns investigações mostram a migração do epitélio juncional de sua posição em indivíduos saudáveis (isto é, sobre esmalte) para uma posição mais apical na superfície radicular, com simultânea retração gengival.8 Entretanto, em outros estudos em animais, não foi notada migração apical.22 Com a progressão da retração gengival, seria esperado que a largura da gengiva inserida diminuísse com a idade, mas o oposto parece ser verdade.2,3 Contrariamente, a migração do epitélio juncional para a superfície radicular poderia ser causada pela erupção dentária através da gengiva, numa tentativa de manter o contato oclusal com o dente 107 antagonista (erupção passiva) como resultado da perda de superfície dentária decorrente da atrição (Fig. 3-1). O consenso é que a retração gengival não é um processo fisiológico inevitável do envelhecimento, mas explicada pelos efeitos cumulativos da inflamação ou trauma sobre o periodonto6,8 (veja discussão adiante) (Fig. 3-2). Figura 3-1 Diagrama mostrando a relação da margem gengival com a coroa e a superfície radicular. A, Relação normal com a margem gengival de 1 a 2 mm acima da junção esmalte-cemento. B, Desgaste da borda incisal e erupção dentária contínua. A margem gengival permanece na mesma posição de A; portanto, a raiz dentária é exposta e a retração clínica fica evidente. A largura da gengiva inserida não se altera. C, Desgaste da borda incisal e erupção dentária contínua. A margem gengival moveu-se com o dente; assim, todo o complexo dentogengival moveu-se coronariamente, com um aumento resultante na largura da gengiva inserida. D, Sem desgaste evidente da borda incisal. A gengiva moveu-se apicalmente e a retração clínica é evidente. A largura da gengiva inserida está reduzida. 108 Figura 3-2 Três situações ilustram a variação da posição da margem gengival com a idade. A, Extrusão fisiológica com retração em um indivíduo idoso (mulher, 68 anos de idade), com retração generalizada e histórico prévio de periodontite (tratada). Note um pouco de sobrerupção dos dentes anteriores inferiores e desgaste de dentes relacionado a medidas de higiene oral. B, Radiografias da paciente em A. C, Extrusão fisiológica sem retração em um indivíduo mais velho (mulher, 72 anos de idade) sem periodontite, mas com desgaste marcante e extrusão dos incisivos inferiores. Note como a margem gengival migrou coronariamente com a erupção dos dentes. D, Retração extensa em indivíduo jovem (homem, 32 anos de idade) com retração marcante e sem histórico de periodontite. A retração resultou de uma combinação de tecidos anatomicamente finos associadas a trauma de escovação. Transferência científica Os tecidos periodontais são programados para proporcionar apoio saudável para a dentição durante a vida do paciente. Apesar de haver algumas preocupações de que os pacientes idosos tenham maior suscetibilidade à doença periodontal, o papel da idade na progressão da doença é mínimo. Com apropriada terapia dental e manutenção de baixos níveis de placas, os clínicos podem assegurar aos pacientes idosos que eles são capazes de manter uma dentição funcional, ainda que possa haver uma resistência ligeiramente menor à inflamação periodontal induzida por bactérias e um risco maior de níveis elevados de supostas bactérias patogênicas periodontais, como Tanerella forsythia, Treponema denticola, Porphyromonas gingivalis e Aggregatibacter actinomycetemcomitans. Em resposta ao tratamento da periodontite, os pacientes idosos geralmente têm todos os mecanismos celulares e moleculares necessários para assegurar a cicatrização e o reparo, mas estes mecanismos podem ser mais lentos e, de certa forma, inferiores aos dos pacientes jovens. Entretanto, com as interações celulares mais complexas que ocorrem com a cicatrização das cirurgias periodontais regeneradoras avançadas, envolvendo enxertos ósseos, regeneração tecidual guiada e uso de agentes bioativos, a expectativa é a de que os resultados do tratamento em pacientes idosos não sejam tão favoráveis quanto em jovens. Dessa forma, os clínicos podem decidir usar abordagens mais simples para tratar lesões avançadas nesses pacientes. Os procedimentos não cirúrgicos podem ser preferidos, nos casos em que se acredita que a idade dos pacientes é significativa. A distinção entre a idade real em anos e o estado biológico é uma habilidade clínica que os profissionais precisam avaliar. Com as melhoras nos históricos do estado de saúde dos pacientes idosos, podem ser implementados, para estes pacientes, planos mais exigentes de tratamento do que os de décadas anteriores. As habilidades motoras dos pacientes e as capacidades cognitivas podem estar desgastadas pela idade, assim o dentista precisa modificar as técnicas de ensino de higiene oral com base na avaliação do potencial de aprendizagem de cada paciente e aplicar técnicas individualizadas para remoção da placa. O uso de antissépticos bucais antibacterianos e os aparelhos para higiene oral têm um papel especial para esses pacientes. Tecido Conjuntivo Gengival O aumento da idade resulta em um tecido conjuntivo gengival mais grosseiro e 109 denso.51 Alterações qualitativas e quantitativas do colágeno têm sido relatadas. Elas incluem aumento da taxa de conversão do colágeno solúvel em insolúvel, aumento da resistência mecânica e elevação da temperatura de desnaturação. Esses resultados indicam maior estabilização do colágeno, causada por alterações na conformação macromolecular.26 De maneira não surpreendente, um conteúdo maior de colágeno é encontrado na gengiva de animais mais velhos, apesar de um menor grau na síntese de colágeno que diminui com a idade.8,26,48 Ligamento Periodontal Alterações no ligamento periodontal são reportadas com o envelhecimento, incluindo diminuição no número de fibroblastos e uma estrutura mais irregular acompanhando as mudanças no tecido conjuntivo gengival.8,26,48 Outros achados abrangem a diminuiçãoda produção de matriz orgânica e restos de células epiteliais e aumento na quantidade de fibras elásticas.48 Resultados conflitantes foram relatados sobre alterações na largura do ligamento periodontal em humanos e modelos animais. Apesar de uma variação verdadeira poder existir, esse achado provavelmente reflete a condição funcional dos dentes nos estudos, porque a largura do espaço irá diminuir se o dente estiver sem antagonista (hipofunção) ou irá aumentar com a sobrecarga oclusal.26,48 Ambas as situações podem ser antecipadas como resultado da perda dentária na população em questão. Esses efeitos também podem explicar a variabilidade dos estudos que relatam alterações qualitativas no ligamento periodontal. O reconhecimento de que o ligamento periodontal tem importante papel no metabolismo do osso alveolar levou a um interesse maior em investigar este papel em relação à manutenção da saúde periodontal e à patogênese da periodontite. Uma abordagem para investigar este papel é o exame dos mediadores da homeostase óssea, como o ligante do receptor ativador do fator nuclear kB (RANKL) e da osteoprotegerina (OPG). O RANKL é amplamente reconhecido por seu papel na ativação de osteoclastos, enquanto a OPG antagoniza a ligação de RANKL, ajudando assim a manter o equilíbrio. A interação das citocinas, em particular da família da interleucina, também tem sido amplamente pesquisada na patogênese periodontal. Algumas das interleucinas são potentes mediadores de inflamação (p. ex., interleucina-1 [IL-1]), enquanto outras mostraram que fazem a regulação descendente deste processo (p. ex., IL-4 e IL-10). Portanto, parece que a determinação do equilíbrio entre os processos homeostáticos seria de grande mérito na avaliação de possíveis alterações negativas no periodonto. Tal estratégia parece ser preditiva da destruição de tecido duro na artrite reumatoide.15 Achados recentes, comparando as células de ligamento periodontal em indivíduos idosos (>60 anos de idade) versus jovens (15 a 20 anos de idade), sugeriram maior expressão genética para citocinas pró-inflamatórias.7 Este efeito é citado de forma mais ampla como uma alteração 110 associada à idade, embora não esteja claro se como causa ou como efeito.35 Contudo, além da maior expressão de IL-1 e IL-6, a OPG também aumentou, sugerindo que este aumento de OPG poderia ser uma resposta homeostática à regulação ascendente da inflamação.7 Se este mecanismo homeostático fosse efetivo, ele poderia explicar por que um aumento na inflamação não resultou em maior dano tecidual com a idade. A proliferação de células do ligamento periodontal estava diminuída com a idade, sugerindo comprometimento do potencial de reparo, embora tal impacto não pareça se manifestar clinicamente.50 Outras pesquisas investigando as células do ligamento periodontal dos indivíduos diagnosticados com periodontite serão importantes para a compreensão da relação potencialmente importante entre envelhecimento e as células do ligamento periodontal. Cemento Existe algum consenso a respeito dos efeitos do envelhecimento sobre o cemento. Um aumento na largura do cemento é um achado comum; esse aumento pode ser de cinco a 10 vezes com o decorrer da idade.8 Esse achado não é surpreendente devido à deposição contínua após a erupção dos dentes. O aumento na espessura é maior apicalmente e na face lingual.48 Apesar de o cemento ter uma capacidade limitada para remodelação, um acúmulo de sítios de reabsorção explica o achado de aumento de irregularidade de superfície.16 Osso Alveolar As alterações morfológicas relacionadas à idade relatadas no osso alveolar espelham aquelas que ocorrem em outros sítios ósseos. Achados mais específicos ao periodonto são superfície óssea periodontal mais irregular e menor inserção regular de fibras colágenas.48 Apesar da idade ser um fator de risco para redução da massa óssea na osteoporose, ela não é causadora e, portanto, deve ser distinguida do processo fisiológico de envelhecimento.18 Passando por cima das diversas observações de alterações ósseas com a idade está o importante achado que o grau de cicatrização óssea em alvéolos de extração parece não ser afetado pela idade.4 De fato, o sucesso de implantes dentários osteointegrados, que depende das respostas de cicatrização intactas, não parece estar relacionado à idade.9 Entretanto, contrapõe-se a essa visão a observação recente de que preparados de enxerto ósseo (osso liofilizado) de doadores com mais de 50 anos de idade possuiam um potencial osteogênico significativamente menor do que o material de enxerto de doadores mais jovens.42 O possível significado desse fenômeno nas respostas normais de cicatrização precisa ser investigado. Placa Bacteriana 111 Sugeriu-se que o acúmulo da placa dentogengival aumenta com a idade.17 Isso pode ser explicado pelo aumento da superfície de tecidos duros resultante da retração gengival e pelas características da superfície radicular exposta como um substrato para a formação da placa diferente do esmalte. Outros estudos não demonstraram diferenças na quantidade da placa com a idade. Essa contradição poderia refletir as diferentes faixas etárias dos grupos experimentais como graus variáveis de retração gengival e exposição radicular. Para a placa supragengival, não foram demonstradas diferenças qualitativas reais para a composição da placa.17 Para a placa subgengival, um estudo demonstrou uma microbiota subgengival semelhante à microbiota normal, enquanto outro estudo relatou um aumento no número de bacilos entéricos e pseudomonas em adultos mais velhos.31,46 Mombelli sugere cautela na interpretação desse achado, devido à transmissão aumentada destas espécies entre indivíduos adultos.29 Especula-se que uma mudança ocorra na importância de certos patógenos periodontais com a idade, especificamente um aumento no papel da Porphyromonas gingivalis e uma diminuição no papel do Aggregatibacter actinomycetemcomitans. Entretanto, diferenciar os verdadeiros efeitos do envelhecimento das alterações nos determimantes ecológicos para as bactérias bucais será difícil.Este tópico é considerado mais detalhadamente em uma recente revisão.29 Uma outra abordagem para investigar microbiologia é conduzir estudos intervencionistas e examinar seu impacto sobre a microbiota. Em indivíduos de 60 a 75 anos de idade, a prevalência de P. gingivalis, Tanerella forsythia, T. denticola, A. actinomycetemcomitans, e Prevotella intermedia foi alta e não se relacionou claramente à profundidade de sondagem.39 O achado de altos níveis dos organismos poderia estar relacionado à amostra de indivíduos, visto que em sua maioria eram indivíduos de baixa renda e sem cuidados dentais recentes. O uso prolongado (cinco anos) de um colutório de clorexidina a 0,12% não promoveu reduções nas proporções dos organismos em indivíduos com perda óssea alveolar, comparados com o colutório placebo, possivelmente devido a rotina de uso do colutório ter sido menos frequente que o uso diário. Respostas Imunes e Inflamatórias Avanços recentes nos estudos dos efeitos do envelhecimento sobre as respostas imunes (imunofluorescência) alteraram a compreensão desse fenômeno. Particularmente, estudos mais recentes determinaram controles mais rígidos para a exclusão de indivíduos com condições sistêmicas que sabidamente afetam a resposta imune. Como resultado, reconheceu-se que a idade possui muito menos efeito na alteração das respostas do hospedeiro do que se pensa.20,27 Diferenças entre indivíduos jovens e idosos podem ser demonstradas nas células T e B, citocinas e células natural killer, mas não para células polimorfonucleares e atividade macrofágica. McArthur concluiu: “A mensuração de indicadores da competência imune e inflamatória sugere que, 112 dentro dos parâmetros testados, não houve evidência de mudanças relacionadas à idade nas defesas do hospedeiro correlacionando-se com periodontite em um grupo de indivíduos idosos (65 a 75 anos de idade), com e sem a doença.”27 As diferenças referentes à idade na resposta inflamatóriana gengivite foram claramente demonstradas e são discutidas adiante neste livro. Em relação às respostas inflamatórias sistêmicas, a proteína C reativa (PCR) é uma proteína de fase aguda e amplamente considerada como um marcador de carga inflamatória e resposta à infecção bacteriana.44 Ao investigar os níveis séricos de PCR em indivíduos de 60 a 75 anos de idade, comparados àqueles com periodontite progressiva contra doença estável, os níveis de PCR estavam aumentados naqueles com periodontite progressiva e sem outra condição sistêmica.47 Isso pode indicar que a carga inflamatória pode ser investigada com o uso da PCR, embora haja crescente evidência de que a PCR sozinha pode não ser um marcador muito confiável em pessoas idosas.40 Outro modulador das respostas imunes e inflamatórias é a nutrição. O interesse neste campo está crescendo rapidamente em medicina e periodontologia.11 A nutrição tem sido extensamente estudada em medicina geriátrica devido às alterações na ingestão nutricional com a idade. O impacto como um fator de risco em potencial para doenças periodontais e sua progressão é, portanto, de interesse. Começaram a surgir dados que sugerem a associação negativa entre folato sérico e a periodontite (isto é, após controlar os principais fatores de confusão, o folato sérico diminuído em adultos com dentes (>60 anos de idade) está associado a níveis mais altos de periodontite).53 Estes dados transversais podem não demonstrar apenas a causalidade, mas a reconhecida relação entre a proteção do folato para doenças inflamatórias crônicas, como a doença cardiovascular,28 oferece plausibilidade biológica para uma relação em potencial e merece mais investigações por estudos prospectivos. Em resumo, apesar da existência de muitas contradições, uma pesquisa na literatura demonstrou que algumas mudanças relacionadas à idade são evidentes no periodonto e na resposta do hospedeiro. A seguir será discutido se essas alterações são significativas na mudança da progressão das doenças periodontais ou na resposta de adultos idosos para o tratamento periodontal. Efeitos do envelhecimento na progressão das doenças periodontais Em um estudo clássico de gengivite experimental, restituiu-se a condição livre de placa e livre de inflamação nos indivíduos por meio de limpezas profissionais frequentes. Uma vez atingidos esses objetivos, os indivíduos abstinham-se das medidas de higiene bucal por um período de três semanas para permitir o 113 desenvolvimento da gengivite.25 Nesse modelo experimental, uma comparação do desenvolvimento da gengivite em indivíduos jovens e idosos demonstrou uma resposta inflamatória maior nos indivíduos idosos, tanto em humanos como em cães.8,12,13,17 No grupo mais velho (65 a 80 anos), os achados incluíram maior quantidade de infiltrado no tecido conjuntivo, aumento do fluxo do fluido gengival e aumento no índice gengival.12,13 Outros estudos não demonstraram diferenças entre os indivíduos; isso pode estar relacionado a diferenças menores entre as idades dos grupos experimentais jovem e idoso.52 De maneira intrigante, mesmo no início, com saúde gengival ótima antes do início do acúmulo da placa, podem existir diferenças entre os dois grupos, com o grupo idoso demonstrando mais inflamação.12,13 A frase “getting long in the tooth” (ficando um velho desdentado) expressa uma crença disseminada de que a idade está inevitavelmente associada ao aumento da perda de inserção conjuntiva. Entretanto, essa observação pode igualmente refletir a exposição cumulativa para um número de processos potencialmente destrutivos. Essas exposições podem incluir periodontite associada à placa, trauma mecânico crônico da escovação e danos iatrogênicos de uma odontologia restauradora desfavorável ou repetidas raspagem e alisamentos aumentada. Os efeitos da exposição aos fatores descritos atuam em uma única direção (perda de inserção).49 Nas tentativas de diferenciar os efeitos da idade desses outros processos, vários estudos foram delineados para eliminar temas que causam confusão e abordem mais claramente a questão da idade como um fator de risco para a periodontite. Um fator de risco é definido como “qualquer característica, comportamento ou exposição associado a uma determinada doença. A relação não é de natureza necessariamente causal … Alguns fatores de risco, se causais, podem ser modificados para reduzir o risco de início ou de progressão da doença em um indivíduo, como o tabagismo ou a melhora da higiene oral … enquanto outros fatores podem ser modificados, como os fatores genéticos”14 As conclusões desses estudos são notavelmente consistentes e mostram que o efeito da idade ou não existe ou leva a um aumento clinicamente insignificante no risco de perda de suporte periodontal.10,24,32,36,37 De fato, em comparação com a relação de chances de 20,52 para condição de higiene bucal precária e periodontite, a relação de chances para a idade foi de apenas 1,241 e o tabagismo tem mais influência do que a idade.32 Portanto, foi sugerido que a idade não é um fator de risco verdadeiro, mas um fato associado com a periodontite.36 Além do mais, esclarecimentos de base genética para a suscetibilidade a formas graves de periodontite enfatizam a grande importância da placa, do tabagismo e da suscetibilidade na explicação da maioria das variações de gravidade da doença periodontal entre indivíduos.21 Contudo, um longo estudo de periodontite essencialmente não tratada em uma população japonesa idosa (pelo menos 70 anos de idade) indicou que 296 de 394 indivíduos (75%) tiveram pelo menos um sítio com perda de inserção de 3mm ou mais ao longo de um período de dois anos.33 Tabagismo 114 e nível de inserção inicial de 6mm ou mais foram associados de modo significativo com a progressão da doença. Envelhecimento e resposta ao tratamento do periodonto O tratamento bem-sucedido da periodontite exige tanto controle meticuloso da placa pelo paciente, por meio de cuidados caseiros, quanto limpeza meticulosa supragengival e subgengival feita pelo terapeuta.30 Infelizmente, só alguns estudos têm comparado diretamente tal abordagem entre pacientes de grupos etários diferentes. Os poucos estudos que o fizeram demonstraram claramente que, apesar das mudanças histológicas no periodonto com o envelhecimento, não houve diferença na resposta para tratamento cirúrgico da periodontite versus tratamento não cirúrgico.5,23,50 Porém, se o controle de placa não for ideal, a perda de inserção é inevitável. Além do mais, sem uma efetiva terapia periodontal, a progressão da doença deve avançar com a idade.38 Tentativas de controle da placa por meios químicos também foram descritas.45 Uma revisão puramente biológica ou fisiológica indica que o envelhecimento tem certo impacto na estrutura e função do periodonto, assim como na função da resposta imune e na natureza tanto da placa supragengival como subgengival. Entretanto, essas mudanças apresentam um impacto desprezível na resposta individual ao tratamento. O envelhecimento pode afetar outros aspectos do tratamento das doenças periodontais, como o risco de cárie radicular41 (Cap. 39), e as dificuldades resultantes não devem ser menosprezadas. Curiosamente, um estudo recente identificou maior tendência à manutenção de suporte em indivíduos mais velhos do que em pacientes mais jovens.34 As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. * Para leitura adicional sobre os efeitos do envelhecimento no paciente dentado e periodontal, o leitor deve consultar Lamster IB, Northridge ME: Improving oral health for the elderly: an interdisciplinary approach, New York, 2008, Springer. 115 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Parte 2 Classificação e Epidemiologia das Doenças Periodontais 116 Parte 2: Classificação e Epidemiologia das Doenças Periodontais Michael G. Newman A classificação das doenças periodontais é útil para ajudar no estabelecimento do diagnóstico, determinar o prognóstico e facilitar o plano de tratamento. Diferentesclassificações das doenças periodontais utilizadas ao longo dos anos foram substituídas assim que novos conhecimentos melhoraram nossa compreensão sobre a etiologia e a patologia das doenças do periodonto, conforme discutido no Capítulo 4. Também, como discutido no Capítulo 5, a Parte 2 inclui informações sobre a epidemiologia das doenças periodontais que irão ajudar o estudante e o clínico a analisar a doença e basear seu diagnóstico e decisões terapêuticas na sua prevalência, incidência e distribuição em grandes populações ou grupos. O conhecimento da epidemiologia da doença melhora nosso entendimento e aguça nossas decisões em casos individuais. 117 Capítulo 4 Classificação das Doenças e Condições que Afetam o Periodonto James E. Hinrichs, M. John Novak Sumário do capítulo DOENÇAS GENGIVAIS Doenças Gengivais Induzidas pela Placa Dental Lesões Gengivais não Induzidas pela Placa PERIODONTITE Periodontite Crônica Periodontite Agressiva Periodontite como Manifestação de Doenças Sistêmicas DOENÇAS PERIODONTAIS NECROSANTES Gengivite Ulcerativa Necrosante Periodontite Ulcerativa Necrosante ABSCESSOS DO PERIODONTO PERIODONTITE ASSOCIADA A LESÕES ENDODÔNTICAS Lesões Endodônticas periodontais Lesões Periodontais endodônticas Lesões Combinadas DEFORMIDADES E CONDIÇÕES DE DESENVOLVIMENTO OU ADQUIRIDAS Fatores Locais Relacionados a Dentes que Modificam ou Predispõem a Doenças Gengivais Induzidas por Placa ou Periodontite Deformidades e Condições Mucogengivais ao Redor dos Dentes Deformidades e Condições Mucogengivais de Rebordos Edentados Trauma Oclusal Nossa compreensão sobre a etiologia e patogênese das doenças e condições orais está continuamente mudando devido aos avanços do conhecimento científico. Em vista disso, a classificação pode ser mais consistemente definida pelas diferenças nas manifestações clínicas das doenças e condições, porque essas diferenças são clinicamente consistentes e requerem pouca, se alguma, elucidação por meio de testes 118 laboratoriais científicos. A classificação apresentada neste capítulo é baseada no mais recente e internacionalmente aceito consenso de opinião sobre as doenças e condições que afetam os tecidos do periodonto e que foi apresentado e discutido em 1999 no International Workshop for the Classification of the Periodontal Diseases, organizado pela American Academy of Periodontology (AAP).3 O Quadro 4-1 apresenta o sistema de classificação global e cada uma das doenças e condições é discutida onde o esclarecimento é necessário. Em cada caso, o leitor é encaminhado para revisões pertinentes ao tema e capítulos específicos neste livro que discutem os tópicos com mais detalhes. QUADRO 4-1 Classificação das Doenças e Condições Periodontais Doenças Gengivais Doenças gengivais induzidas por placa* Lesões gengivais não induzidas por placa Periodontite Crônica† Localizada Generalizada Periodontite Agressiva Localizada Generalizada Periodontite como Manifestação de Doenças Sistêmicas Doenças Periodontais Necrosantes Gengivite ulcerativa necrosante (GUN) Periodontite ulcerativa necrosante (PUN) Abscessos do periodonto Abscesso gengival Abscesso periodontal Abscesso pericoronário Periodontite associada a lesões endodônticas 119 Lesão endodôntico periodontal Lesão periodontal endodôntica Lesão combinada Deformidades e condições de desenvolvimento ou adquiridas Fatores localizados relacionados ao dente que predispõem a doenças gengivais induzidas por placa ou periodontite Deformidades e condições mucogengivais ao redor do dente Deformidades e condições mucogengivais em rebordos edentados Trauma oclusal * Estas doenças podem ocorrer em um periodonto sem perda de inserção ou em um periodonto com perda de inserção estável. † A periodontite crônica pode ser classificada com base na extensão e gravidade. De forma geral, a extensão pode ser caracterizada como localizada ( 30% dos sítios envolvidos). A gravidade pode ser caracterizada com base na quantidade de perda clínica de inserção (PCI), como descrito: leve = 1 a 2 mm PCI; moderada = 3 a 4 mm PCI; e grave ≥ 5 mm PCI. Dados de Armitage GC: Ann Periodontol 4:1, 1999. Doenças gengivais Doenças Gengivais Induzidas pela Placa Dental A gengivite associada à formação da placa dental é a forma mais comum de doença gengival (Fig. 4-1). O Quadro 4-2 delineia a classificação das doenças da gengiva. A epidemiologia da doença gengival é revisada no Capítulo 5, sua etiologia detalhada desde o Capítulo 21 ao 28 e as características clinicas são discutidas entre os Capítulos 8 e 18 e em outros locais deste livro.9,13,14,24,25 A gengivite foi previamente caracterizada pela presença de sinais clínicos de inflamação confinados à gengiva e associados aos dentes, não demonstrando perda de inserção. A gengivite também tem sido observada afetando a gengiva de dentes acometidos pela periodontite e que perderam inserção, mas receberam terapia periodontal para estabilizar qualquer perda futura. Nestes casos tratados, a inflamação gengival induzida por placa pode apresentar recidiva, mas sem qualquer evidência de perda futura de inserção. 120 Figura 4-1 A, Gengivite relacionada à placa mostrando inflamação marginal e papilar, com 1 a 4 mm de profundidade de sondagem e generalizada perda de inserção clínica igual a zero, exceto pela retração no dente 28. B, Imagens radiográficas do paciente. QUADRO 4-2 Doenças Gengivais Doenças Gengivais Induzidas por Placa Estas doenças podem ocorrer em um periodonto sem perda de inserção ou em um periodonto com perda de inserção que está estável e não progredindo. I. Gengivite associada somente à placa dental A. Sem fatores locais contribuintes B. Com fatores locais contribuintes (Quadro 4-4) II. Doenças gengivais modificadas por fatores sistêmicos A. Associadas ao sistema endócrino 1. Gengivite associada à puberdade 2. Gengivite associada ao ciclo menstrual 3. Associada à gravidez a. Gengivite b. Granuloma piogênico 4. Gengivite associada ao diabetes melito B. Associada a discrasias sanguíneas 1. Gengivite associada à leucemia 2. Outras III. Doenças gengivais modificadas por medicamentos 121 A. Doenças gengivais influenciadas por drogas 1. Crescimento gengival influenciado por drogas 2. Gengivite influenciada por drogas a. Gengivite associada a contraceptivos orais b. Outras IV. Doenças gengivais modificadas por desnutrição A. Gengivite por deficiência do ácido ascórbico B. Outras Lesões Gengivais não Induzidas por Placa I. Doenças gengivais de origem bacteriana específica A. Neisseria gonorrhoeae B. Treponema pallidum C. Espécies estreptocócicas D. Outras II. Doenças gengivais de origem viral A. Infecções por herpesvírus 1. Gengivoestomatite herpética primária 2. Herpes oral recorrente 3. Varicela zóster B. Outras III. Doenças gengivais de origem fúngica A. Infecções por espécies de Candida: candidíase gengival generalizada B. Eritema gengival linear C. Histoplasmose D. Outras IV. Lesões gengivais de origem genética A. Fibromatose gengival hereditária B. Outras V. Manifestações gengivais de condições sistêmicas A. Lesões mucocutâneas 1. Líquen plano 2. Penfigoide 3. Pênfigo vulgar 4. Eritema multiforme 5. Lúpus eritematoso 6. Induzidas por drogas 7. Outras B. Reações alérgicas 1. Materiais restauradores odontológicos 122 a. Mercúrio b. Níquel c. Acrílico d. Outros 2. Reações atribuídas a: a. Pastas de dente ou dentifrícios b. Enxaguatórios orais c. Aditivos nas gomas de mascar d. Alimentos e aditivos 3. Outras VI. Lesões traumáticas (factícias, iatrogênicas ou acidentais) A. Lesão química B. Lesão física C. Lesão térmica VII. Reações a corpo estranho VIII. Não especificadas de outra maneira Dados de Holmstrup P: Ann Periodontol 4:20, 1999; e Marioti A: Ann Periodontol 4:7, 1999. A partir desta evidência, concluiu-se que a gengivite induzida por placa pode ocorrer em um periodonto sem perda de inserção ou em um periodonto com perda de inserção prévia, porém estável e não progressiva.Isto implica que a gengivite pode ser o diagnóstico para tecidos gengivais inflamados associados a um dente sem perda prévia de inserção ou a um dente que teve perda óssea e de inserção (suporte periodontal reduzido), mas que não apresenta perda óssea e de inserção no momento, mesmo que a inflamação gengival esteja presente (Fig. 4-2). Para que este diagnóstico seja feito, os registros longitudinais do estado periodontal, incluindo os níveis clínicos de inserção, devem ser avaliados. Figura 4-2 Segundo molar superior exibe inflamação leve na superfície mesiopalatina. Entretanto, a perda clínica de inserção clínica permaneceu estável durante 15 anos após o retalho posicionado apicalmente e a manutenção periodontal. O diagnostico é uma história de periodontite moderada, mas 123 o caso está em remissão. Gengivite Associada Somente à Placa Dental. A doença gengival induzida pela placa é o resultado de uma interação entre os microrganismos encontrados no placa biofilme e os tecidos e células inflamatórias do hospedeiro. A interação placa-hospedeiro pode ser alterada pelos efeitos de fatores locais, fatores sistêmicos, medicamentos e desnutrição, todos os quais podendo influenciar a gravidade e duração da resposta. Os fatores locais que podem contribuir para a gengivite, além da formação do cálculo nas coroas e superfície radiculares, são discutidos posteriormente (Cap. 22) Esses fatores são contribuintes pela sua capacidade de reter microrganismos da placa e inibir sua remoção por meio das técnicas de controle de placa utilizadas pelo paciente. Transferência científica Embora a gengivite e a periodontite induzidas pela placa sejam as doenças mais comuns do periodonto, existem muitos outros processos patológicos que são manifestados nos tecidos periodontais. Os clínicos precisam ter conhecimento de que os tecidos da cavidade oral podem estar sujeitos a uma ampla variedade de doenças e deformidades localmente específicas, assim como serem indicadores de entidades patológicas sistêmicas. Algumas doenças do periodonto produzem alterações diagnósticas específicas, e outras modificam a resposta aos biofilmes bacterianos dentários. Tais complexidades exigem que os dentistas desenvolvam amplo conhecimento e compreensão de uma grande variedade de doenças dentárias e sistêmicas de forma que suas habilidades diagnósticas possam oferecer um benefício significativo aos seus pacientes. A classificação mais amplamente aceita das doenças periodontais necessita ser rotineiramente modificada conforme novas modalidades diagnósticas sejam desenvolvidas. No futuro, haverá um aumento da utilização de marcadores genéticos e biotecnológicos para diagnósticos mais acurados e objetivos da patologia periodontal. Um grupo de doenças que é sub-representado em muitas classificações são os tumores benignos e malignos que afetam os tecidos periodontais. Doenças Gengivais Modificadas por Fatores Sistêmicos Os fatores sistêmicos que contribuem para a gengivite, como alterações endócrinas associadas à puberdade (Fig. 4-3), ciclo menstrual, gravidez (Fig. 4-4, A) e diabetes, podem ser exacerbados devido a alterações na resposta inflamatória gengival à presença da placa.13,14,24 Esta resposta alterada parece resultar dos efeitos das condições sistêmicas nas funções celulares e imunológicas do hospedeiro. Estas mudanças são mais aparentes durante a gravidez, quando a prevalência e a gravidade da inflamação gengival podem aumentar mesmo na presença de baixos níveis de placa. Discrasias sanguíneas, como a leucemia, podem alterar a função imunológica por meio de um distúrbio no equilíbrio normal dos leucócitos 124 imunologicamente competentes que suprem o periodonto. Aumento gengival e sangramento são achados comuns e podem estar associados a um tecido gengival edemaciado e com aspecto esponjoso, causado pela excessiva infiltração de células sanguíneas (Fig. 4-5) Figura 4-3 Menina de 13 anos de idade com inflamação marginal e papilar hormonal exagerada, com 1 a 4 mm de profundidade de sondagem, ainda que com mínima perda de inserção. A, Vista vestibular. B, Vista lingual. Figura 4-4 A, Imagem clínica de um granuloma piogênico em uma mulher grávida de 27 anos de idade. B, A imagem histológica mostra um infiltrado inflamatório denso e vasos proeminentes. 125 Figura 4-5 Menina de 12 anos de idade, com um diagnóstico médico primário de leucemia, que exibe uma gengiva edemaciada/esponjosa. Doenças Gengivais Modificadas por Medicamentos As doenças gengivais modificadas por medicamentos são altamente prevalentes devido ao uso aumentado de drogas, conhecidas por induzir aumento gengival, por exemplo: drogas anticonvulsivantes, como a fenitoína; drogas imunossupressoras, como a ciclosporina (Fig. 4-6); e bloqueadores de canais de cálcio, como a nifedipina (Fig. 4-7), verapamil, diltiazem e valproato de sódio.9,14,24 O desenvolvimento e a gravidade do aumento gengival em resposta às medicações são específicos para cada paciente e podem ser influenciados pelo acúmulo descontrolado de placa, bem como pelos níveis hormonais elevados. O aumento na utilização de contraceptivos orais por mulheres na pré-menopausa tem sido associado a uma maior incidência de inflamação gengival e desenvolvimento de aumento gengival, que podem ser revertidos pela suspensão do contraceptivo oral. Figura 4-6 Imagens cínicas de um menino de 9 anos de idade com severo crescimento gengival 126 secundário a um transplante cardíaco e terapia com ciclosporina. Figura 4-7 Imagens clínicas de crescimento gengival devido ao uso de bloqueador de canal de cálcio para controlar a hipertensão. Doenças Gengivais Modificadas por Desnutrição As doenças gengivais modificadas por desnutrição têm recebido atenção devido às descrições clínicas de uma gengiva brilhante, edemaciada e com sangramento associada à deficiência grave de ácido ascórbico (vitamina C) ou escorbuto.14 Sabe-se que as deficiências nutricionais afetam a função imunológica e podem ter um impacto na capacidade do hospedeiro de se proteger contra alguns dos efeitos nocivos dos produtos celulares, como os radicais de oxigênio. Infelizmente, pouca evidência científica está disponível para apoiar o papel das deficiências nutricionais específicas no desenvolvimento ou na gravidade da inflamação gengival ou periodontite em seres humanos. Lesões Gengivais não Induzidas por Placa Manifestações orais de doenças sistêmicas que produzem lesões nos tecidos do periodonto são raras. São observadas em grupos de baixo poder socioeconômico, países em desenvolvimento e em indivíduos imunocomprometidos.10 O penfigoide benigno de membrana mucosa é exemplo de uma lesão não induzida pela placa sem implicações socioeconômicas. Tecidos gengivais descamados deixam ulcerações dolorosas da gengiva (Fig. 4-8, A e B). Anticorpos autoimunes são orientados para a membrana basal e separam-na do tecido conjuntivo subjacente. (Fig. 4-8, C e D). 127 Figura 4-8 Mulher de 62 anos de idade com penfigoide benigno da membrana mucosa. A e B, Imagem clínica com superfície epitelial descamada. C, Coloracão de hematoxilina e eosina (H&E) demonstrando a separação do epitélio do tecido conjuntivo. D, Anticorpos marcados com imunofluorescência para a membrana basal. Doenças Gengivais de Origem Bacteriana Específica As doenças gengivais de origem bacteriana específica têm aumentado sua prevalência, especialmente devido a doenças sexualmente transmissíveis, como a gonorreia (Neisseria gonorrhoeae), e, em menor grau, a sífilis (Treponema pallidum).26,29 As lesões orais podem ser secundárias à infecção sistêmica ou ocorrer por meio de uma infecção direta. A gengivite estreptocócica ou gengivoestomatite é uma condição rara que pode se apresentar como uma manifestação aguda associada a febre, mal-estar e dor, juntamente com uma gengiva agudamente inflamada, difusa, avermelhada e edemaciada, com sangramento e formação ocasional de abscesso gengival. As infecções gengivais geralmente são precedidas por tonsilites e têm sido associadas ainfecções estreptocócicas β-hemolíticas do grupo A. Doenças Gengivais de Origem Virótica As doenças gengivais de origem virótica podem ser causadas por uma variedade de vírus do ácido desoxirribonucleico (DNA) e ácido ribonucleico (RNA), sendo o mais comum o herpesvírus (Fig. 4-9, A e B). As lesões são frequentemente relacionadas a uma reativação do vírus latente, especialmente como resultado de uma redução da função imune. As manifestações orais de infecções viróticas foram amplamente revisadas.10,28 Doenças gengivais de origem virótica são tratadas com drogas antivirais tópicas e/ou sistêmicas (Fig. 4-9, C e D). 128 Figura 4-9 A e B, Homem de 29 anos de idade com infecção herpética primária e inflamação gengival severa. C e D, Seis semanas após administração sistêmica de aciclovir. Doenças Gengivais de Origem Fúngica As doenças gengivais de origem fúngica são relativamente incomuns nos indivíduos imunocompetentes e ocorrem com mais frequência naqueles que estão imunologicamente comprometidos ou nas pessoas com a microbiota oral normal alterada devido ao uso prolongado de antibióticos de largo espectro.10,29,30 A infecção fúngica mais comum na boca é a candidíase, causada pela infecção por Candida albicans, que também pode ser vista sob peças protéticas em indivíduos utilizando esteroides tópicos e em pessoas com fluxo salivar diminuído, com aumento na glicose salivar ou diminuição do pH salivar. Uma infecção generalizada por Candida pode se manifestar por meio de placas brancas na gengiva e na língua ou por uma membrana mucosa que pode ser removida com gaze, deixando uma superfície eritematosa e sangrante. Nos indivíduos infectados com o vírus da imunodeficiência humana (HIV), a infecção por Candida pode se apresentar como um eritema da gengiva inserida e tem sido citado como eritema linear gengival ou gengivite associada ao HIV (Cap. 19). O diagnóstico da infecção por Candida pode ser feito por meio de cultura, esfregaço ou biópsia. Lesões fúngicas menos comuns também foram descritas.29,30 Doenças Gengivais de Origem Genética As doenças gengivais de origem genética podem envolver os tecidos do periodonto e foram previamente descritas em detalhes.1 Uma das mais evidentes condições clínicas é a fibromatose gengival hereditária, que exibe uma herança autossômica dominante ou (raramente) autossômica recessiva. O aumento gengival pode cobrir totalmente o dente, retardar a erupção e se apresenta como um achado isolado ou associado a 129 diversas síndromes mais generalizadas. Manifestações Gengivais de Condições Sistêmicas As manifestações gengivais de condições sistêmicas podem aparecer como lesões descamativas, ulceração gengival ou ambas.10.23,29 As reações alérgicas que se manifestam com alterações gengivais são incomuns, mas têm sido observadas associadas a diversos materiais restauradores (Fig. 4-10, A), cremes dentais, enxaguatórios orais, gomas de mascar (Fig. 4-11) e alimentos (Quadro 4-2). O diagnóstico destas condições pode ser difícil e necessitar de uma anamnese extensa e eliminação seletiva das causas potenciais. Traços histológicos de biópsias de reações alérgicas gengivais incluem infiltrado denso de células eosinofílicas (Fig. 4-10, B e C). Figura 4-10 A, Inflamação gengival localizada e pronunciada secundária à alergia a níquel. B e C, Biópsia demonstra infiltrado denso de plasmócitos. 130 Figura 4-11 Resposta alérgica severa generalizada como resultado de um aditivo na goma de mascar. Lesões Traumáticas As lesões traumáticas podem ser autoinflingidas ou factícias em sua origem, ou seja, produzidas por meios artificiais intencional ou não intencionalmente (Fig. 4-12). Outros exemplos de lesões traumáticas incluem trauma por escovação, resultando em ulceração gengival, retração ou ambas. Trauma iatrogênico (induzido pelo dentista ou profissional de saúde) à gengiva pode ser causado por cimento ortodôntico ou materiais preventivos ou restauradores (Fig. 4-13, A). Fibroma ossificante periférico pode se desenvolver em resposta à introdução de corpo estranho (Fig. 4-13, B e C). Alternativamente, dano acidental à gengiva pode ocorrer por meio de pequenas queimaduras provenientes de alimentos e bebidas quentes.10 Figura 4-12 Deiscência gengival autoinfringida induzida pelas unhas do paciente. 131 Figura 4-13 A, Crescimento gengival proliferativo devido à impactação de um corpo estranho. B, Histologia de fibroma ossificante periférico. C, Magnificação maior da imagem em B. D, Quatro semanas após biópsia excisional. Reações a Corpo Estranho As reações a corpo estranho levam a condições inflamatórias locais da gengiva e são causadas pela introdução de materiais estranhos no tecido conjuntivo gengival através de rupturas no epitélio.10 Exemplos comuns são a penetração de amálgama na gengiva durante a colocação de restauração; extração de dente ou apicectomia endodôntica com obturação retrógrada deixando uma tatuagem por amálgama (Fig. 4-14, A), com fragmentos de metal resultantes observados na biópsia (Fig. 4-14, B); ou também a penetração de abrasivos durante os procedimentos de polimento. Figura 4-14 A, Pigmentação gengival associada com apicetomia prévia e obturação retrógrada com amálgama. B, Biópsia revela fragmentos de metal. Periodontite A periodontite é definida como “uma doença inflamatória dos tecidos de suporte dos dentes, causada por microrganismos específicos ou grupos de microrganismos 132 específicos, resultando em uma destruição progressiva do ligamento periodontal e osso alveolar, com formação de bolsa, retração ou ambas.” A característica clínica que distingue a periodontite da gengivite é a presença da perda de inserção clinicamente detectável. Isto geralmente é acompanhado pela formação de bolsa periodontal e mudanças na densidade e altura do osso alveolar subjacente. Em alguns casos, a retração da gengiva marginal pode acompanhar a perda de inserção, mascarando a progressão da doença se as medidas de profundidade da bolsa forem realizadas sem a verificação dos níveis de inserção clínica. Os sinais clínicos de inflamação, como mudanças na coloração, contorno, consistência e sangramento à sondagem, podem não ser sempre indicadores positivos da progressão da perda de inserção. No entanto, a presença contínua de sangramento à sondagem, em visitas sequenciais, tem provado ser um indicador confiável da presença de inflamação e do potencial para uma subsequente perda de inserção no sítio com sangramento. A perda de inserção associada à periodontite tem demonstrado progredir tanto continuamente como em surtos episódicos de atividade da doença. Embora muitas classificações das diferentes manifestações clínicas da periodontite tenham sido apresentadas ao longo dos últimos 20 anos, reuniões gerais na América do Norte em 19896 e na Europa em 19934 identificaram que a periodontite pode se apresentar com início precoce, início em adultos ou em formas necrosantes (Tabela 4-1). Além disso, a reunião da AAP concluiu que a periodontite pode estar associada a condições sistêmicas, como o diabetes e a infecção por HIV, e que algumas formas de periodontite podem ser refratárias à terapia convencional. A doença de início precoce foi diferenciada daquela de início no adulto pela idade (35 anos foi a idade colocada como separação arbitrária das doenças), velocidade de progressão da doença e presença de alterações na resposta do hospedeiro. As doenças de início precoce eram mais agressivas, ocorriam em indivíduos com menos de 35 anos de idade e foram associadas a problemas no sistema de defesa do hospedeiro, enquanto as formas adultas da doença demonstravam progressão lenta, tornando-se clinicamente mais evidentes na quarta década de vida, e não foram associadas a problemas no sistema de defesa do hospedeiro. Além disso, a periodontite de início precoce foi subclassificada em pré-púbere, juvenil e de progressão rápida, com distribuição localizada ou generalizada da doença. Tabela 4-1 Classificação das Várias Formas de Periodontite Classificação Formasde Periodontite Características da Doença AAP World Workshop in Clinical Periodontics, 19895 Periodontite do adulto Idade de início > 35 anos Progressão lenta da doença Sem deficiências nas defesas do hospedeiro 133 Periodontite de início precoce (pode ser pré-púbere, juvenil ou de progressão rápida) Idade de início 30% dos sítios envolvidas. 135 • Leve: 1 a 2mm de perda de inserção clínica. • Moderada: 3 a 4mm de perda de inserção clínica. • Grave: ≥ 5mm de perda de inserção clínica. Periodontite Agressiva As seguintes características são comuns em pacientes com periodontite agressiva: • Ocorre também em pacientes clinicamente saudáveis. • Rápida perda de inserção e destruição óssea. • Quantidade de depósitos microbianos inconsistentes com a gravidade da doença. • Agregação familiar dos indivíduos doentes. As seguintes características são comuns, mas não universais: • Áreas doentes infectadas com aggregatibacter actinomycetemcomitans. • Anormalidades na função fagocitária. • Macrófagos hiper-responsivos, causando aumento de prostaglandina E2 (PGE2) e interleucina-1β (IL-1β) • Em alguns casos, uma autointerrupção na progressão da doença. A periodontite agressiva pode ainda ser classificada nas formas localizada e generalizada, com base nas características em comum descritas aqui e nas seguintes características específicas: Forma localizada • Início da doença na fase da puberdade. • Doença localizada no primeiro molar ou incisivo, com perda de inserção proximal em pelo menos dois dentes permanentes, um dos quais o primeiro molar. • Grave resposta de anticorpos sorológicos aos agentes infecciosos. Forma generalizada • Geralmente afetando pessoas abaixo dos 30 anos de idade (contudo, podem ser mais velhas). • Perda de inserção proximal generalizada atingindo pelo menos três dentes, que não sejam os primeiros molares e incisivos. • Pronunciada natureza episódica da destruição periodontal. • Pouca resposta de anticorpos sorológicos aos agentes infecciosos. Periodontite como Manifestação de Doenças Sistêmicas A periodontite pode ser observada como manifestação das seguintes doenças sistêmicas: 136 1. Distúrbios hematológicos a. Neutropenia adquirida b. Leucemias c. Outras 2. Distúrbios genéticos a. Neutropenia familiar ou cíclica b. Síndrome de Down c. Síndrome de deficiência de adesão leucocitária d. Síndrome de Papillon-Lefèvre e. Síndrome de Chédiak-Higashi f. Síndromes de histiocitose g. Doença do armazenamento do glicogênio h. Agranulocitose genética infantil i. Síndrome de Cohen j. Síndrome de Ehlers-Danlos (tipos IV e VIII AD) k. Hipofosfatasia l. Outras 3. Não especificadas de outra forma Dados de Flemming TF: Ann Periodontol 4:32, 1999; Kinane DF: Ann Periodontol 4:54, 1999; e Tonetti MS, Mombelli A: Ann Periodontol 4:39, 1999. Periodontite Crônica A periodontite crônica é a forma mais comum de periodontite7; o Quadro 4-3 descreve as características desta forma de periodontite. A periodontite crônica é mais prevalente em adultos, mas pode ser observada em crianças; logo, o limite de idade superior a 35 anos designado anteriormente para a classificação desta doença foi descartado. A periodontite crônica é associada ao acúmulo de placa e cálculo e geralmente tem um curso de progressão de lento a moderado, porém períodos de destruição mais rápida podem ser observados. Aumentos na velocidade da progressão da doença podem ser causados pelo impacto de fatores locais, sistêmicos ou ambientais que influenciam a interação normal hospedeiro-bactéria. Fatores locais podem influenciar o acúmulo de placa (Quadro 4-4); doenças sistêmicas, como o diabetes melito e a infecção pelo HIV, podem influenciar a defesa do hospedeiro; e fatores ambientais, como cigarro e estresse, também podem alterar a respostado hospedeiro ao acúmulo de placa. A periodontite crônica pode ocorrer como doença localizada quando menos de 30% dos sítios avaliadas demonstram perda óssea e de inserção, ou como uma doença mais generalizada quando mais de 30% dos sítios estão afetados. A doença também pode ser descrita por sua severidade como leve: 1 a 2 mm (Fig. 4-15), moderada: 3 a 4 mm (Fig. 4-16), ou grave: ≥ 5 mm (Fig. 4-17), 137 com base na quantidade de perda de inserção (Quadro 4-3). QUADRO 4-4 Deformidades e Condições de Desenvolvimento ou Adquiridas Fatores localizados Relacionados aos Dentes que Modificam ou Predispõem a Doenças Gengivais Induzidas por Placa ou Periodontite 1. Fatores anatômicos dentários 2. Restaurações ou próteses dentárias 3. Fraturas radiculares 4. Reabsorção radicular cervical e fraturas cementárias Deformidades e Condições Mucogengivais ao Redor dos Dentes 1. Retração gengival ou de tecido mole a. Superfície vestibular ou lingual b. Interproximal (papilar) 2. Ausência de gengiva queratinizada 3. Profundidade vestibular diminuída 4. Posição inadequada do freio ou músculo 5. Excesso gengival a. Pseudobolsa b. Margem gengival irregular c. Exposição gengival excessiva d. Crescimento gengival (Quadro 4-2) e. Coloração anormal Deformidades e Condições Mucogengivais em Rebordos Edentados 1. Deficiência vertical e/ou horizontal do rebordo 2. Ausência de gengiva ou tecido queratinizado 3. Aumento gengival ou de freios e bridas 4. Posição inadequada do freio ou músculo 5. Profundidade vestibular diminuída 6. Coloração anormal Trauma Oclusal 1. Trauma oclusal primário 2. Trauma oclusal secundário 138 Dados de Blieden TM: Ann Periodontol 4:91, 1999; Halmon WW: Ann Periodontol 4:102, 1999; e Pini Prato GP: Ann Periodontol 4:98, 1999. Figura 4-15 A, Imagem clínica de periodontite crônica leve/precoce relacionada à placa com 1 a 2 mm de perda de inserção em uma mulher de 40 anos de idade. B, Imagens radiográficas da paciente. Figura 4-16 A, Imagem clínica de periodontite crônica moderada relacionada à placa, com 3 a 4 mm de perda de inserção num homem fumante de 53 anos de idade. B, Imagens radiográficas do paciente. 139 Figura 4-17 A, Imagem clínica de periodontite crônica grave/avançada relacionada à placa com ≥5 mm de perda de inserção em uma mulher de 47 anos de idade. B, Imagens radiográficas do paciente. Periodontite Agressiva A periodontite agressiva difere da forma crônica primeiramente pela (1) rápida taxa de progressão da doença observada da mesma forma em indivíduos saudáveis (Figs. 4-18 e 4-19), (2) ausência de grandes acúmulos de placa e cálculo, e (3) história familiar de doença agressiva sugestiva de um traço genético20,31 (Quadro 4-3). Esta forma de periodontite foi previamente classificada como de início precoce (Tabela 4- 1), e, portanto, inclui muitas características anteriormente identificadas com as formas localizadas e generalizadas da doença. Embora a apresentação clínica da doença agressiva pareça ser universal, os fatores etiológicos envolvidos não são sempre consistentes. Características clínicas, microbiológicas e imunológicas adicionais da doença agressiva que podem estar presentes são esquematizadas no Quadro 4-3. Como previamente descrito para a doença de início precoce, a forma agressiva geralmente afeta indivíduos jovens, na puberdade ou imediatamente após a mesma, e pode ser observada durante a segunda ou terceira décadas de vida (ou seja, dos 10 aos 30 anos de idade). A doença pode ser localizada, conforme mencionado anteriormente para a periodontite juvenil localizada (PJL), ou generalizada, como descrito para a periodontite juvenil generalizada (PJG) e periodontite de progressão rápida (PPR) (Tabela 4-1). O Quadro 4-3 fornece as características mais comuns das formas localizada e generalizada da periodontite agressiva. 140 Figura 4-18 A, Imagem clínica de periodontite agressiva moderada relacionada a placa, com 1 a 7 mm de PS e 3 a 4 mm de perda de inserção em um homem de 31 anos de idade. B, Imagens radiográficas do paciente. Figura 4-19 A, Imagem clínica de periodontite agressiva grave relacionada à placa, com 3 a 13 mm de PS e 7 a 15 mm de perda de inserção clínica em um homem de 32 anos de idade. B, Imagens radiográficas do paciente. Periodontite como Manifestação de Doenças Sistêmicas 141 Diversos distúrbios hematológicos e genéticos têm sido associados ao desenvolvimento da periodontite em indivíduos afetados12,13 (Quadro 4-3). A maioria das observações dos efeitos sobre o periodonto é resultado de relatos de condições e algumas pesquisas têm sido realizadas para investigar a natureza exata do efeito dessas condições específicas sobre os tecidos do periodonto. Especula-se que o principal efeito desses distúrbios se dê através de alterações nos mecanismos de defesa do hospedeiro, que foram descritas com clareza para distúrbios como a neutropenia e deficiências de adesão leucocitária, mas são menos bem compreendidas nas muitas síndromes multifacetadas. A manifestação clínica de muitos desses distúrbios aparece em idade precoce e pode ser confundida com a forma agressiva da periodontite, com rápida perda de inserção e potencial perda precoce dos dentes. Com a introdução desta forma de periodontite neste sistema de classificação e no anterior (Tabela 4-1), existe a possibilidade de surgir confusões entre a periodontite como manifestação de doença sistêmica e as formas agressiva e crônica da doença, quando se suspeita de um componente sistêmico. No momento, a periodontite como manifestação de doença sistêmica é o diagnóstico usado quando a condição sistêmica é o maior fator predisponente e fatores locais, como grande quantidade de placa e cálculo, não estão claramente evidentes. No caso em que a destruição periodontal é notoriamente o resultado de fatores locais, mas tem sido exacerbada pelo início de condições como diabetes melito (Figs. 4-20 e 4-21) ou infecção por HIV, o diagnóstico deve ser periodontite crônica modificada pela condição sistêmica. Figura 4-20 A, Imagem clínica de periodontite agressiva severa associada a placa em um homem de 53 anos de idade, fumante, com diabete e hemoglobina A1c (HbA1c) = 10,7. B, Imagens radiográficas do paciente. 142 Figura 4-21 Profundidades de sondagem do mesmo paciente diabético de 53 anos de idade mostrado na Figura 4-20 com periodontite agressiva severa. A sarcoidose é uma doença crônica que se expressa como uma hipersensibilidade do tipo tardia mediada por célula que afeta primariamente os pulmões, os linfonodos, a pele, os olhos, o fígado, o baço, e pequenos ossos das mãos e pés etc.21 A sarcoidose raramente afeta a cavidade oral, com uma incidência de ocorrência em ordem decrescente nos linfonodos, lábios, palato mole, mucosa bucal, gengiva, língua e osso.21 A Figura 4-22 descreve o padrão pré-tratamento da perda óssea e retração associadas com a sarcoidose, assim como do infiltrado fibroso do parênquima pulmonar observado nos pulmões como apresentado por um padrão de renda branca nos raios x de tórax (Fig. 4-22, C). Características histológicas da sarcoidose incluem a presença de um infiltrado inflamatório crônico intenso com áreas focais de granulomas não caseosos e teste de Kveim positivo2 (Fig. 4-23, C). A remineralização do osso alveolar é observada nas radiografias obtidas um ano após a administração sistêmica de esteroides (Prednisona)18 (Fig. 4-23, A). 143 Figura 4-22 Sarcoidose pré-tratamento. A, Raios x intraorais demonstram perda óssea mais extensa nos dentes anteriores do que a perda de inserção clínica. B, Retração extensa mais perda de inserção clínica. C, Infiltrado fibroso do parênquima pulmonar. Figura 4-23 Sarcoidose após tratamento com prednisona. A. Raios x intraorais demonstram remineralização do osso. B, Redução na inflamação gengival, embora a retração extensa e a perda de inserção clínica persistam. C, Biópsia antes do tratamento. Doenças periodontais necrosantes As características clínicas das doenças periodontais necrosantes podemincluir, mas não estão limitadas à margem gengival e papila ulcerada ou necrosada, recobertas por um tecido necrosado ou pseudomembrana branco-amarelada ou acinzentada, 144 papila grosseira e em cratera, sangramento provocado ou espontâneo, dor e odor fétido. Estas doenças podem estar acompanhadas por febre, mal-estar e linfadenopatia, embora estas características não sejam constantes. Duas formas de doença periodontal necrosante foram descritas: gengivite ulcerativa necrosante (GUN) (Fig. 4-24) e periodontite ulcerativa necrosante (PUN) (Fig. 4-25). A GUN foi previamente classificada como “doenças gengivais” ou “gengivites” porque a perda clínica de inserção clínica não é uma característica consistente, ao passo que a PUN foi classificada como uma forma de “periodontite” porque a perda de inserção está presente. Revisões recentes das características clínicas e etiológicas da GUN e da PUN sugeriram que as duas doenças representam manifestações clínicas de uma mesma doença, exceto pelas características distintas da PUN que são perda óssea e de inserção clínica. Como resultado, tanto a GUN quanto a PUN foram classificadas como grupo separado de doenças que possuem necrose tecidual como característica clínica principal (Quadro 4-1). Figura 4-24 A, Gengivite ulcerativa ilustrando a necrose da gengiva marginal. B, Microscopia de contraste de fase revela espiroquetas na amostra do biofilme subgengival. 145 Figura 4-25 A, Periodontite ulcerativa necrosante com perda de inserção clínica severa num homem de 28 anos de idade infectado pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). B, Espiroquetas observadas na superfície das células epiteliais necrosadas. Gengivite Ulcerativa Necrosante As características clínicas e etiológicas da GUN27 estão descritas em detalhes no Capítulo 10. As características que definem a GUN são sua etiologia bacteriana, lesão necrótica e fatores predisponentes, como estresse psicológico, tabagismo e imunossupressão. Além disso, a desnutrição pode ser um fator contribuinte nos países em desenvolvimento. A GUN é geralmente vista como uma lesão aguda que responde bem à terapia antimicrobiana combinada com a remoção profissional da placa e do cálculo, melhorando as condições de higiene oral. Periodontite Ulcerativa Necrosante A PUN difere da GUN em relação à característica consistente de perda óssea alveolar e de inserção clínica.19 Todas as outras características são parecidas entre as duas formas de doença necrosante. As características da PUN são descritas em detalhes no Capítulo 17. A PUN pode ser observada em pacientes infectados pelo HIV e manifesta ulceração local e necrose do tecido gengival com exposição e rápida destruição do osso subjacente, sangramento espontâneo e dor grave. Pacientes infectados pelo HIV e com PUN estão 20,8 vezes mais predispostos a ter contagem de células CD4+ abaixo de 200 células/mm3 no sangue periférico do que pacientes com HIV sem PUN, sugerindo que a imunossupressão é um importante fator contribuinte. Além disso, o valor preditivo da PUN para pacientes com HIV e contagem de células CD4+ abaixo de 200 células/mm3 foi de 95,1%, e a probabilidade cumulativa de morte dentro de 146 24 meses do diagnóstico da PUN em indivíduos com HIV foi de 72,9%. Nos países em desenvolvimento, a PUN também foi associada à desnutrição grave, que, em alguns casos, leva à imunossupressão em alguns pacientes. Abscessos do periodonto O abscesso periodontal é uma infecção purulenta localizada dos tecidos periodontais e classificada pelo seu tecido de origem.16 As características clínicas, microbiológicas, imunológicas e predisponentes são discutidas nos Capítulos 5 e 23. Periodontite associada a lesões endodônticas A classificação das lesões que afetam o periodonto e a polpa é baseada na sequência do processo da doença. Lesões Endodônticas Periodontais Nas lesões endodônticas periodontais, a necrose pulpar precede as mudanças periodontais. Uma lesão periapical originada da infecção e necrose pulpar pode drenar para a cavidade oral através do ligamento periodontal, resultando na destruição do ligamento periodontal e do osso alveolar adjacente podendo se apresentar clinicamente como uma bolsa periodontal localizada e com profundidade de sondagem, estendendo-se até o ápice do dente (Fig. 4-26, A). Um defeito extenso resultante no rebordo alveolar (Fig. 4-26, B e C) pode necessitar de cirurgia reconstrutiva (Fig. 4-26, D) antes da colocação de implantes e próteses (Fig. 4-27) para restabelecer um resultado funcional e estético. A infecção pulpar também pode drenar através dos canais acessórios, especialmente na região da furca, e levar ao envolvimento da furca por meio da perda de inserção clínica e osso alveolar. 147 Figura 4-26 A e C, Imagem clínica da perda extensa do rebordo alveolar devido à lesão endodôntica periodontal. B, Imagem de TC mostra perda óssea alveolar. D, Imagem de TC mostra o rebordo regenerado através de enxerto ósseo alogênico, parafuso de sustentação e membrana. Figura 4-27 Mesmo paciente mostrado na Figura 4-26 A e B, Exame de TC de rebordo regenerado com implantes colocados nas áreas do 12, 21 e 22. C e D, Imagem clínica da prótese implantossuportada. Lesões Periodontais Endodônticas Nas lesões periodontais endodônticas, a infecção bacteriana da bolsa periodontal associada à perda de inserção e exposição radicular pode penetrar nos canais acessórios, resultando em necrose pulpar. No caso de uma doença periodontal avançada, a infecção pode atingir a polpa por meio do forame apical. A raspagem e o 148 alisamento radicular removem o cemento e a dentina adjacentes levando a uma pulpite crônica por meio da penetração bacteriana dos túbulos dentinários. No entanto, muitos dentes afetados pela periodontite e que foram raspados e alisados não mostraram evidência de envolvimento pulpar. Lesões Combinadas As lesões combinadas ocorrem quando a necrose pulpar e a lesão periapical se apresentam em um dente que também está com envolvimento periodontal. Um defeito intraósseo angular que se comunica com a lesão periapical de origem pulpar resulta em uma lesão combinada periodonto-endodôntica. Em todos os casos de periodontite associada a lesões endodônticas, a infecção endodôntica deveria ser controlada antes do início do tratamento definitivo para a lesão periodontal, especialmente quando técnicas regenerativas e de enxerto ósseo são planejadas. Deformidades e condições de desenvolvimento ou adquiridas Fatores Locais Relacionados a Dentes que Modificam ou Predispõem a Doenças Gengivais Induzidas por Placa ou Periodontite Em geral, são considerados fatores locais que contribuem para o início e progressão da doença periodontal devido ao aumento do acúmulo de placa ou impedimento de uma efetiva remoção da placa por meio de medidas usuais de higiene oral.5 Estes fatores são divididos em quatro subgrupos como mostrado no Quadro 4-4. Fatores Anatômicos Dentários Estes fatores estão associados com malformações no desenvolvimento dentário ou posicionamento dos dentes. Fatores anatômicos como projeções cervicais de esmalte e pérolas de esmalte estão associados à perda de inserção clínica, especialmente em regiões de furca. Projeções cervicais de esmalte são encontradas em 15% a 24% dos molares inferiores e 9% a 25% dos molares superiores, e fortes correlações têm sido observadas em relação ao envolvimento da furca.15 Sulcos palatogengivais, encontrados principalmente nos incisivos superiores, são observados em 8,5% dos indivíduos e estão associados a aumento no acúmulo de placa, perda de inserção clínica e perda óssea. Sulcos radiculares proximais nos incisivos e pré-molares superiores também predispõem a acúmulo de placa, inflamação, perda óssea e de inserção clínica. O posicionamento dentário é considerado importante para o início e 149 desenvolvimento da doença. Um alinhamento dentário inadequado predispõe a acúmulo de placa e inflamação em crianças e pode predispor à perda de inserção clínica em adultos, especialmente quando associadode Pesquisa Odontológica (2010-2012). Hilana Paula Carillo Artese Aluna de Doutorado do programa de Ciências Odontológicas, área de concentração em Periodontia, pela FOUSP Mestre em Odontologia, área de concentração em Periodontia, pela UFRJ João Batista César Neto Professor Doutor da Disciplina de Periodontia da FOUSP Mestre e Doutor em Periodontia pela Unicamp Especialista em Periodontia e Implantodontia pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) José Roberto Cortelli Professor Assistente Doutor III de Periodontia do Departamento de Odontologia da Universidade de Taubaté (UNITAU), SP Pós-doutorado pelo Forsyth Institute, Estados Unidos Doutor em Biopatologia Bucal pela Unicamp Mestre em Periodontia pela UNITAU Especialista em Periodontia pela Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas Coordenador do Mestrado e Doutorado em Odontologia da UNITAU Luis Otávio de Miranda Cota Especialista, Mestre e Doutor em Periodontia pela UFMG Professor Adjunto do Departamento de Clinica, Patologia e Cirurgia Odontológicas da UFMG Luiz Octávio Benatti Junior. Especialista em Implantodontia pela FOUSP Especialista em Periodontia pela FOUSP Marcelo Bönecker Professor Titular da Disciplina de Odontopediatria da FOUSP Coordenador Geral do Programa de Pós-graduação em Ciências Odontológicas da FOUSP Post Doctoral Research at the Dental Research Institute of the Witwatersrand University in Johannesburg, África do Sul Doutor em Odontopediatria pela FOUSP e pelo Department of Public Health at 13 University College London (UCL), Reino Unido Mestrado em Odontopediatria pela FOUSP Marco Antonio P. Georgetti Graduado pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp) Especialista em Periodontia pela FUNDECTO-USP Mestre em Odontologia pela FOUSP Doutor em Periodontia pela FOUSP Professor Doutor da Disciplina de Periodontia da FOUSP Coordenador do Curso de Graduação, disciplina de Periodontia, pela FOUSP Maria Aparecida Pinho Luz Tradutora – RJ Mariana Alves de Sá Siqueira Doutora em Periodontia pela UERJ Mestre em Ciências pela UERJ Mariana de Sousa Rabelo Mestranda em Periodontia pela USP Graduada em Odontologia pela USP Marina Clemente Conde Professora Assistente Doutora da Disciplina de Periodontia,do Departamento de Estomatologia da FOUSP Professora Assistente do Curso de Especialização em Periodontia da FUNDECTO- USP Professora do Curso de Especialização em Implantodontia da Associação Brasileira de Odontologia (ABO) – Distrital Santana, SP Mestre e Doutora em Periodontia pela FOUSP Especialista em Periodontia pela Escola de Aperfeiçoamento Profissional da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (EAP-APCD) – Regional Araraquara Especialista em Implantodontia pela ABO – Distrital Santana Nelson Gomes de Oliveira Médico Aposentado do Trabalho da Petrobras Patrícia Cavalcante Pedreira dos Reis Professora dos Cursos de Especialização em Cirurgia Bucomaxilofacial da ABO – Petrópolis/RJ Staff do Serviço de Cirurgia Bucomaxilofacial do Hospital Municipal Conde Modesto Leal, Maricá/RJ Staff do Serviço de Cirurgia Bucomaxilofacial do Hospital Estadual Pedro II, RJ Pedro Bernardo Paes Graduado em Odontologia pela UFRJ Especialista em Periodontia pela OCEX Renata Sanna e Silva Especialista em Periodontia pela OCEX 14 Ricardo Takiy Sekiguchi Mestre em Periodontia pela FOUSP Doutorando em Periodontia pela FOUSP Rivail Antonio Sergio Fidel Junior Professor de Periodontia e Clínica Integrada da UVA, RJ Professor da Especialização em Periodontia da PUC-Rio Doutorando em Periodontia pela UERJ Roberta Loyola Del Caro Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pela UFRJ Staff do Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Hospital Federal do Andaraí, RJ Rodrigo Melo do Nascimento Especialista em Radiologia pela UFRJ Rosemary Adriana Chiérici Marcantonio Professora titular em Periodontia do Departamento de Diagnóstico e Cirurgia da Faculdade de Odontologia de Araraquara (UNESP) Professora do Programa de Pós-graduação em Odontologia, áreas de Periodontia e Implantodontia, da Faculdade de Odontologia de Araraquara (UNESP) Professora do Curso de Especialização em Periodontia da Faculdade de Odontologia de Araraquara (UNESP) Sheila Cavalca Cortelli Especialista e mestre em periodontia pela UNITAU Doutora em biopatologia bucal pela UNESP Professor assistente de Periodontia e Odontologia Preventiva da UNITAU Diretora do Núcleo em Pesquisa Periodontal da UNITAU (NUPER) Silvia Mariangela Spada Formada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP Cursos Extracurriculares Certificados de Tradução pela USP Tatiana Ferreira Robaina Cirurgiã-dentista pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEl) Especialista em Estomatologia pela UFRJ Mestre em Patologia pela UFF Vania Regina de Souza Albuquerque Especialista em Radiologia pelo Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) Especialista em Ultrassonografia pela Associação Médica Brasileira (AMB) Conteúdo Revisão científica 15 Luciana Saraiva de Campos Tradução Carlos André Oighenstein Especialista em língua inglesa e intérprete de conferências pela PUC-Rio Tradutor com experiência em textos médicos Mariana Alves de Sá Siqueira Rosa Lima Peralta Formada em Comunicação Social pela UFRJ e tradutora de inglês/espanhol 16 Editores Editores de seção e associados Fermin A. Carranza, Dr Odont Professor Emeritus, Section of Periodontics, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California Jane L. Forrest, RDH, EdD Professor of Clinical Dentistry, Section Chair, Behavioral Science & Practice Management Director, National Center for Dental Hygiene Research, Herman Ostrow School of Dentistry of USCUniversity of Southern California, Los Angeles, California E. Barrie Kenney, DDS, MS Professor and Chairman, Tarsson Family Endowed Chair in Periodontics Division of Associated Specialties, Section of Periodontics, University of California, School of Dentistry, Los Angeles, California Perry R. Klokkevold, DDS, MS Associate Professor, Section of Periodontics Program Director, Postgraduate Periodontics Residency, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California Michael G. Newman, DDS Professor Emeritus, Section of Periodontics, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California M. John Novak, BDS, LDS, PhD Professor of Perodontics and Associate Director Department of Periodontics, Center for Oral Health Research, University of Kentucky, Lexington, Kentucky 17 Philip Preshaw, BDS, FDS RCSEd, FDS (Rest Dent) RCSEd, PhD Professor, Periodontology, Institute of Cellular Medicine, School of Dental Sciences, Newcastle University, Newcastle upon Tyne, United Kingdom Henry H. Takei, DDS, MS Distinguished Clinical Professor, Section of Periodontics, School of Dentistry, University of California, Los Angeles, California Online editor Nadeem Y. Karimbux, DMD, MMSc Associate Professor of Oral Medicine, Infection, and Immunity, Assistant Dean for Dental Education Interim Director, Advanced Graduate Education Program in Periodontology, Harvard School of Dental Medicine, Harvard University, Boston, Massachusetts 18 Colaboradores Elliot Abt, DDS, MS, MSc Director, General Practice Residency Program, Advocate Illinois Masonic Medical Center, Chicago, Illinois Alfredo Aguirre, DDS, MS Professor, Department of Oral Diagnostic Sciences Director, Advanced Oral and Maxillofacial Pathology Program, School of Dental Medicine, SUNY at, Buffalo Buffalo, New York Edward P. Allen, DDS, PhD Director, Center for Advanced Dental Education, Dallas, Texas William F. Ammons, DDS, MSD † Professor Emeritus, Department of Periodontics, University of Washington, School of Dentistry, Seattle, Washington Maxwell H. Anderson, DDS, MS, MEd President and CEO, C3 Jian, Inc., Inglewood, California Akira Aoki, DDS, PhD Instructor and Research Associate, Section of Periodontology, Department of Hard Tissue Engineering, Tokyo Medical and Dental University, Tokyo, Japana uma higiene oral deficiente. Além disso, diastemas têm sido associados a um acréscimo na perda de osso alveolar, provavelmente por meio de uma impactação alimentar.11 Restaurações Dentárias ou Próteses As restaurações dentárias ou próteses estão frequentemente associadas ao desenvolvimento da inflamação gengival, especialmente quando localizadas subgengivalmente. Isto se aplica à colocação subgengival de onlays, coroas, obturações e bandas ortodônticas. As restaurações podem invadir o espaço biológico quando realizadas profundamente no sulco ou ao atingir o epitélio juncional. Isto pode causar inflamação e perda óssea e de inserção clínica, com migração apical do epitélio juncional e restabelecimento do aparato de inserção em um nível mais apical. Fraturas Radiculares As fraturas radiculares causadas por forças traumáticas ou procedimentos restauradores e endodônticos podem levar ao envolvimento periodontal através da migração apical da placa ao longo da fratura, quando esta fratura se origina coronariamente à inserção clínica e está exposta ao meio oral, com um defeito resultante no rebordo alveolar (Fig. 4-28, D). Figura 4-28 A e B, Imagem clínica do trato fistuloso. C, Raiz fraturada. D, Defeito resultante no rebordo alveolar. Reabsorção Radicular Cervical e Fraturas de Cemento A reabsorção radicular cervical, conforme observado em tomografia computadorizada (TC) na Figura 4-29, A e B, e as fraturas de cemento podem levar à destruição periodontal quando a lesão se comunica com a cavidade oral e permite que as 150 bactérias migrem subgengivalmente. Dentes avulsionados que são reimplantados frequentemente desenvolvem anquilose e reabsorção cervical muitos anos após o reimplante. A remoção atraumática de tais dentes anquilosados e a reconstrução dos defeitos de rebordo resultantes com enxertos ósseos, implantes dentários e próteses são soluções viáveis para tais defeitos (Fig. 4-30). Figura 4-29 A e B, Exame de TC revela reabsorção radicular cervical severa dos incisivos centrais superiores e abscesso periapical. C, Coroas fraturadas por causa da reabsorção. D, Biópsia do tecido mole na área de reabsorção. 151 Figura 4-30 A, Imagem clínica pós-tratamento do mesmo paciente descrito na Figura 4-29 com coroas metaloplásticas implantossuportadas nas laterais. B e C, Exame de TC dos enxertos ósseos e dos implantes substituindo os incisivos centrais perdidos como resultado da severa reabsorção radicular cervical. Deformidades e Condições Mucogengivais ao Redor dos Dentes Deformidade mucogengival é um termo genérico usado para descrever a junção mucogengival e sua relação com a gengiva (Fig. 4-31), mucosa alveolar, freio e inserções musculares. Uma deformidade mucogengival pode ser definida como um significativo desvio da forma da gengiva e da mucosa alveolar, podendo envolver o osso alveolar adjacente. A cirurgia mucogengival corrige defeitos na morfologia, posição e/ou quantidade de gengiva, sendo descrita em detalhes no Capítulo 63. A correção cirúrgica das deformidades mucogengivais pode ser realizada por razões estéticas, para restabelecer a função ou facilitar a higiene oral.22 152 Figura 4-31 A, Defeito mucogengival representado pela retração. B, Defeitos estendendo-se para dentro da mucosa alveolar e ausência de gengiva queratinizada. Deformidades e Condições Mucogengivais em Rebordos Edentados As deformidades mucogengivais, como a falta de gengiva queratinizado estável entre os fórnices vestibulares e o assoalho da boca (Fig. 4-32, A) podem necessitar de enxerto de tecido mole e aprofundamento de vestíbulo antes da reconstrução protética (Fig. 4-32, B a D). Defeitos ósseos alveolares em rebordos edentados (Fig. 4- 33, A e B) geralmente necessitam de correção cirúrgica (Fig. 4-33, C e D) para restaurar a forma e a função, antes da colocação de próteses ou implantes para substituir os dentes ausentes(Fig. 4-34).22 Figura 4-32 A, Defeito mucogengival do rebordo do assoalho da boca para o fórnice vestibular. B, Retalho de espessura parcial com aprofundamento vestibular. C, Colocação de enxerto gengival livre. D, Restabelecimento da profundidade vestibular e da gengiva inserida queratinizada. 153 Figura 4-33 A, Imagem clínica do defeito do rebordo edêntulo. B, Imagem de TC antes do tratamento do defeito. C, Rebordo reconstruído usando enxerto em bloco do ramo. D, Exame de TC do lado enxertado. Figura 4-34 A, Imagem clínica do rebordo seis meses após o enxerto. B, Colocação dos implantes na área dos dentes 32 e 41. C, Coroas metalocerâmica para os incisivos superiores e prótese implantossuportada do dente 32 ao 41. Trauma Oclusal A etiologia do trauma oclusal e seus efeitos sobre o periodonto8 são discutidos em detalhes nos Capítulos 20 e 49. As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. 154 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Capítulo 5 Fundamentos nos Métodos de Epidemiologia da Doença Periodontal Philippe Hujoel Sumário do capítulo A NECESSIDADE PARA EPIDEMIOLOGIA Medindo a Ocorrência de Condições ou Doenças Condições Periodontais Normalmente Mensuradas Clinicamente Traduzindo Condições Periodontais em Medidas Epidemiológicas Tradicionais da Ocorrência de Doença Desfechos Reais e Sub-rogados da Condição Periodontal Desafios na Obtenção de Medidas Epidemiológicas de Condições e Doenças Periodontais ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS Ensaios Clínicos Controlados Randomizados Estudos de Coortes Estudos de Caso-Controle ETIOLOGIA Fatores Etiológicos Suspeitos Modificáveis para Doença Periodontal. A Causa da Doença Periodontal para o Paciente Sentado em Sua Cadeira DIAGNÓSTICO Condições Periodontais Versus Doenças Periodontais Testes de Diagnóstico Disponíveis para Avaliar as Condições Periodontais Traduzindo Resultados do Teste de Diagnóstico Periodontal para Diagnóstico da Doença Periodontal Diagnóstico da Doença Periodontal DADOS DA PREVALÊNCIA DE DOENÇA PERIODONTAL NOS ESTADOS UNIDOS A necessidade epidemiológica Crenças são consideradas sobre a causa do impacto da doença como diagnóstico, 155 tratamento, prevenção, consequências sistêmicas e agendas de pesquisa. Na corrente principal da periodontia, teorias sobre causas de doenças periodontais têm sido tipicamente específicas e fortes na última metade do século XX. “Doenças periodontais (gengivais), incluindo gengivite e doença periodontal destrutiva, são sérias infecções.” Essa declaração69 de uma organização odontológica profissional em 2009 reflete crenças recentes, comuns e relativas, de que condições periodontais são causadas por bactérias. Tal dogma sobre a infecção levou às seguintes hipóteses: • Diagnósticos das doenças periodontais não infecciosas que estavam em uso clínico por mais de 200 anos foram eliminados por decreto do dicionário periodontal.53 • A “fase relacionada a causa da terapia periodontal” tornou-se focada em antimicrobianos, antibióticos e outras medidas de controle da placa.41 • Respeitadas instituições afirmaram que a doença periodontal destrutiva seria “amplamente prevenida” através de um programa de boa higiene bucal.47 • Uma vez que se supõe que infecções médicas possam causar doenças sistêmicas crônicas não transmissíveis,52 então poderia, igualmente, supor-se que as infecções periodontais, poderiam causar doenças sistêmicas. • Investigações focadas em tópicos como vacinas periodontais, diagnósticos microbiológicos12 e consequências sistêmicas de infecções periodontais. Entretanto, evidência adicional é necessária para se estar razoavelmente confiante na crença de que a doença periodontal é de fato uma doença infecciosa. Em um mundo moderno baseado em evidências, estudos de caso-controle, estudos de coortes e ensaios clínicos controlados randomizados são estudos que podem levar a um alto nível de evidência sobre as causas e o tratamento de uma doença. Esses três modelos de estudos epidemiológicos fornecem uma inferência confiável sobre a etiologia, o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico. Esse capítulo enfocao papel da epidemiologia em fornecer evidências sobre a etiologia e a epidemiologia clínica e como estas se relacionam com o diagnóstico. Estudos de caso-controle e de coorte são os dois modelos de estudos mais comumente empregados para identificação segura de fatores etiológicos que causam doença. Tabagismo, radiação ionizante, hepatite B e hipertensão arterial são exemplos de causas de doenças humanas crônicas comuns que foram identificadas com esses modelos de pesquisa. Ensaios clínicos controlados randomizados oferecem o método mais seguro de se avaliar o diagnóstico, tratamento e prognóstico de doenças. Triagem de antígeno prostático específico (PSA), vacinação contra a pólio e terapia de reposição hormonal são exemplos de diagnósticos e tratamentos para doenças crônicas que foram avaliados por ensaios clínicos controlados randomizados. 156 Transferência Científica Atualmente, é difícil acessar precisamente dados epidemiológicos sobre doença periodontal, devido a alta variedade de índices e mensurações usados, assim como as grandes diferenças na experiência e confiabilidade dos examinadores clínicos. Por exemplo, algumas pesquisas epidemiológicas avaliaram a profundidade de sondagem usando sondas que têm uma esfera na ponta; em contraste, clínicos praticam mensurações de bolsas profundas com sondas que tenham pontas finas e arredondadas. Esses dados epidemiológicos podem ser muito diferentes das mensurações do dia a dia, que são usadas para planejamento de diagnósticos e tratamentos individuais de pacientes. Portanto, os relatos em que a prevalência de doenças periodontais em adultos nos Estados Unidos tem decaído na última década podem ou não refletir uma imagem precisa. Um erro comum de interpretação de dados epidemiológicos é assumir uma relação entre causa e efeito quando duas medidas mostram uma alta conexão estatística. Essas conexões estatísticas podem ou não estarem relacionadas à causa e ao efeito, e ensaios clínicos controlados são necessários para provar se tal relação existe. Sugestões sobre o fato de que as doenças periodontais são doenças infecciosas são muitas vezes justificadas por estudos com uma abordagem moderna baseada em evidências que estão em um nível abaixo desses modelos de estudos. Alguns trabalhos científicos, como o estudo de gengivite experimental ou um estudo experimental e infecção em primatas, foram muitas vezes citados para sustentar a tese de que “doença periodontal é uma doença infecciosa”. Mas há razões para que esses estudos tenham um menor nível de evidência do que os ensaios clínicos controlados. Seria a transição de uma condição não natural livre de inflamação, citada como “Aarhus superhealthy gingiva”70 para gengivite experimental44 (que é diferente de gengivite clínica) na verdade “prova didática do papel essencial da placa bacteriana dentária em doenças periodontais”70 ou seria uma reflexão sobre os efeitos prejudiciais da típica dieta ocidental? É um surto” de perda óssea22 subsequente à injeção de Bacteroides gingivalis provando que “este organismo é de grande importância para o controle da doença periodontal destrutiva”? Em um mundo moderno, baseado em evidências, dados desses pequenos estudos de caso não controlados e estudos experimentais em animais deveriam ser considerados evidências insuficientes para se fazer a pedra angular do raciocínio clínico “doença periodontal como uma doença infecciosa”. Estudos epidemiológicos — nível mais elevado de evidência do que estudos de série de casos ou estudos em animais — têm tido um impacto poderoso na incidência de doenças crônicas por seguramente identificarem as causas primárias. Evidências confiáveis sobre o que causa as doenças permitem que as pesquisas laboratoriais foquem em intervenções nos percursos causais, que podem levar a ensaios clínicos. “A ciência médica continua a passar o bastão da descoberta através da observação (epidemiológica) para estudos laboratoriais e para ensaios clínicos humanos.”40 Por 157 exemplo, observações epidemiológicas identificaram a hepatite B como causa principal de carcinoma hepático, um dos cânceres mais comuns no mundo.5 Posteriormente, o bastão da descoberta foi passado para a ciência básica, em que uma vacina recombinante foi desenvolvida para a hepatite B. Então, o bastão da descoberta foi passado para os epidemiologistas clínicos que avaliaram a eficácia de vacinações e documentaram um declínio dramático nas taxas de mortalidade devidas ao câncer de fígado.39 Histórias similares de sucesso no tratamento de doenças crônicas em que a epidemiologia teve um papel crítico incluem doença cardíaca coronária e medicação para pressão sanguínea, cáries dentárias e flúor, câncer de pulmão e programas de intervenção para fumantes. O alto nível de evidência epidemiológica emergente na etiologia de doenças periodontais sugere que fatores sistêmicos podem ser os verdadeiros condutores da epidemia. Fatores como tabagismo e diabetes, são cada vez mais reconhecidos como causas de doença periodontal, e seus efeitos no periodonto não parecem relacionados a fatores infecciosos.7,61 Organizações, como a Organização Mundial da Saúde, sugerem que a prevenção da doença periodontal seja feita como uma parte integrante de programas que enfoquem o controle do fumo, a dieta e a atividade física.54 As consequências de tal mudança de uma crença da doença periodontal como uma doença infecciosa a uma crença de que a doença periodontal é uma doença do estilo de vida, podem ter impacto sobre vários aspectos dos cuidados clínicos. Independentemente de suas atuais crenças sobre a etiologia da doença periodontal, torna-se cada vez mais importante familiarizar-se com a metodologia epidemiológica para poder julgar esta evidência emergente de forma independente e crítica. Medindo a Ocorrência de Condições ou Doenças As ferramentas fundamentais da epidemiologia são simples somas e divisões que refletem como os indivíduos ou sítios têm ou desenvolveram uma condição ou doença em particular. A prevalência é o número de indivíduos ou sítios que têm uma condição ou doença em particular dentro de uma população definida. A prevalência é a soma do número de indivíduos ou sítios divididos pela soma de todos os indivíduos ou sítios examinados que exibiam a condição ou a doença de interesse. A prevalência de uma condição pode variar de 0% (ninguém tem a condição ou a doença de interesse) até 100% (todos têm a condição ou a doença de interesse). Como exemplo de prevalência, o Centers for Disease Control (CDC) informou sobre a prevalência de indivíduos com pelo menos uma bolsa periodontal igual ou superior a 4 mm de profundidade. O CDC informou que, em 1988-1994, um pouco mais de um em cada cinco americanos apresentava esta condição (a prevalência de um pouco mais de 20%), enquanto em 1994-2004, somente um em cada 10 foi incluído nesta categoria17 (ou prevalência de aproximadamente 10%). Estes achados 158 sugerem um declínio de mais de 50% na prevalência da profundidade de bolsa maior ou igual a 4 mm, para adultos de 20 a 64 anos de idade, em aproximadamente uma década. Estes dados epidemiológicos confirmam outro relato do declínio da prevalência da doença periodontal destrutiva nos Estados Unidos.9 Essas informações sobre as medidas de prevalência de condições periodontais podem ter implicações sobre as necessidades de mão de obra nos Estados Unidos e pode fornecer pistas a respeito dos fatores etiológicos que levam a tais mudanças. A grande maioria dos países não dispõe desses sistemas de vigilância de prevalência,54 o que dificulta determinar se estas tendências observadas nos EUA são isoladas ou parte de uma tendência mais geral. O risco é a probabilidade de que um indivíduo ou sítios irão desenvolver determinada condição ou doença durante o acompanhamento. O risco para uma condição ou doença é (da mesma forma que a prevalência) um número que varia entre 0% e 100%. O modo mais simples de estimar risco é ter um número fixo de pessoas ou de dentes em risco num momento definido (tempo zero[t0]). Indivíduos ou dentes dentro de indivíduos são acompanhados ao longo do tempo posterior a este momento de definição. Depois de um período de acompanhamento (desde o tempo t0 até o tempo tn), o risco pode ser calculado como a proporção de pessoas, ou dentes, que desenvolvem o desfecho clínico de interesse durante o acompanhamento. Uma vez que o risco é estimado como uma proporção, ele é sem dimensão e varia entre zero e um. Quando um risco é relatado, deve ser acompanhado por um período de tempo específico para o qual ele é aplicado. Um risco de 5% por morte pode ser considerado pequeno quando se refere a um período de 20 anos, mas consideravelmente alto quando se refere a um período de três meses. Como um exemplo da utilidade clínica do conceito de risco, considere as preocupações sobre o vírus da imunodeficiência humana ocupacional (HIV) para dentistas. Demonstrou-se que o risco em desenvolver uma infecção pelo HIV na sequência de um acidente com uma agulha com sangue contaminado com o vírus HIV é de 0,3%. Tal estatística tem um apelo intuitivo e pode estar relacionado a pacientes ou colegas. Um risco de 0,003 (0,3%) indica que para cada 1.000 indivíduos que têm um acidente com uma agulha contaminada com vírus HIV, três desenvolverão uma infecção de HIV. A chance de um evento é a probabilidade de que um evento aconteceu dividido pela probabilidade de que ele não aconteceu. Considerando que a probabilidade é um valor que varia entre zero e um, os valores de chances variam entre zero até infinito. Se a probabilidade de se observar um evento é pequena, então as chances e a probabilidade são quase idênticas. Por exemplo, se a possibilidade para uma fratura vertical da raiz depois de um procedimento endodôntico é 0,001, as chances são 0,001/0,999 ou 0,001001. As chances são normalmente relatadas em estudos porque são mais fáceis de se estimar com modelos estatísticos do que as probabilidades. Por exemplo, as chances 159 de se desenvolver uma infecção pelo HIV em um acidente perfurocortante com sangue contaminado é de 0,003 (0,003/0,997). As chances para se desenvolver câncer bucal ao se fumar por 15 anos são de 0,098 (0,089/0,911). As taxas de incidência são uma medida alternativa intuitiva para se descrever a ocorrência de uma doença. Em ensaios clínicos epidemiológicos, a taxa reflete o número de ocorrências de doenças por unidade de tempo por pessoa ou sítio. A estimativa mais comumente utilizada para a taxa de doença é a proporção na qual o numerador é um número de sujeitos ou sítios diagnosticados com a doença de interesse e o denominador é a soma do tempo de risco de todos os sujeitos ou sítios na população. As taxas de incidência, ao contrário de qualquer uma das medidas mostradas anteriormente de ocorrência da doença, implica um elemento de tempo. O denominador na taxa de incidência tem o tempo como dimensão. Portanto, a dimensão da taxa de incidência é de 1/tempo. Esta dimensão é muitas vezes citada como “pessoa-tempo” ou “sítio-tempo” para distinguir a soma do tempo de um relógio comum. A magnitude da taxa de incidência pode variar entre zero e infinito. Quando não há indícios de novas doenças durante o período do estudo, a taxa de incidência é zero. Quando cada pessoa observada morre instantaneamente no início do estudo, (e então a soma do período de tempo é zero), a taxa de incidência é infinita. Um exemplo da aplicação de taxas é fornecido na Figura 5-1, em que o número de dentes perdidos por 1.000 dentes por ano é usado como a função da profundidade máxima de sondagem no início do seguimento. O diagrama sugere uma relação não linear entre a bolsa máxima e a perda dentária com um aumento substancial na taxa de perda dentária para os dentes que têm bolsas periodontais de 7 mm ou mais de profundidade. Figura 5-1 Taxa de perda dentária (1.000 dentes/ano) como uma função de máxima profundidade de sondagem por dente em uma coorte de 1.021 pacientes (idade 40–65 anos) sob os cuidados de um especialista periodontal para doença periodontal destrutiva. (De Hujoel PP, Cunha-Cruz J, Selipsky H, et al: Periodontol 2000 2005;39:22-29.) 160 Para o estudo de risco, a população estudada é geralmente limitada àqueles indivíduos em risco para o desfecho de interesse. Portanto, se o desfecho de interesse é uma doença, os sujeitos seguidos são excluídos da coorte: pessoas que já possuem a doença, as imunes à doença ou aquelas que são biologicamente incapazes de desenvolver a doença. Condições Periodontais Normalmente Mensuradas Clinicamente Um exame clínico periodontal, normalmente pode incluir uma variedade de medidas que refletem as características do periodonto. A maioria dos registros dentais dos pacientes com doença periodontal contém informações sobre os dentes que estão presentes, ausentes ou impactados, bem como informações sobre a condição periodontal dos dentes que são mensuráveis. Normalmente, uma sonda periodontal é usada e informações como profundidade clínica de sondagem, sangramento à sondagem, retração gengival, mobilidade dentária e presença de lesões de bifurcação são estabelecidas. Além disso, alguns clínicos podem coletar informações sobre a presença de gengivite através da avaliação da cor e forma dos tecidos gengivais. Essas medidas podem ou não ser complementadas com exames radiográficos que podem fornecer informações sobre os níveis de osso marginal. No contexto de pesquisa ou em algumas práticas selecionadas, medidas adicionais periodontais podem ser coletadas, como níveis de inserção clínica, medidas microbiológicas, volume de fluido gengival, presença de biomarcadores no fluido gengival e uma variedade de índices que medem a quantidade de inflamação gengival, a placa bacteriana ou o acúmulo de detritos. Num levantamento de estudos clínicos, foi observado que o índice gengival (IG) e o sangramento à sondagem são os dois métodos mais comuns para avaliar inflamação gengival.23 O IG foi proposto em 1963 como um método para avaliar a gravidade e a quantidade de inflamação gengival.42,43 Com este índice em particular, apenas tecidos gengivais são avaliados. Cada uma das quatro áreas gengivais do dente (vestibular, mesial, distal e lingual) é avaliada quanto ao grau de inflamação e codificada como gengiva normal (um escore de 0) até uma inflamação gengival grave com tendência a sangramento espontâneo (escore de 3). À gengiva levemente inflamada, mas sem sangramento à sondagem, é dado um IG 1, enquanto à gengiva moderadamente inflamada com sangramento, é dado um escore de 2. Os escores podem ser calculados por paciente para fornecer a média em cada um. Análises alternativas de locais específicos podem relatar fatores locais específicos do paciente para o IG. A lentidão para se obter o IG torna improvável que ele seja usado na prática clínica. Sangramento à sondagem é uma medida de inflamação periodontal que pode ser mais comumente utilizada por pesquisadores e clínicos. A abordagem específica para se obter uma medida de sangramento pode variar de um estudo a outro, bem como de 161 um clínico para outro. Por exemplo, no Third National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES III),1 medidas de sangramento foram obtidas como a seguir. Em primeiro lugar, foram selecionados os sítios vestibular e mesiovestibular dos dentes, em dois quadrantes selecionados aleatoriamente, um maxilar e um mandibular. Uma sonda especial, conhecida como a sonda do National Institute of Dental Research (NIDR) foi utilizada nessas avaliações. Esta sonda com código de cores é marcada para 2, 4, 6, 8, 10 e 12 mm. Para começar a avaliação, o examinador secou o quadrante de dentes com ar. Então, começando com o dente mais posterior no quadrante (excluindo os terceiros molares), o examinador colocou uma sonda periodontal 2 mm no sulco gengival no sítio vestibular e cuidadosamente passou a sonda da área mesiovestibular à mesial interproximal. Depois de sondar os sítios no quadrante, o examinador avaliou a presença ou ausência de sangramento em cada sítio sondado. O mesmo procedimentofoi repetido para o quadrante remanescente. Ao contrário do protocolo NIDR em que o sangramento gengival é avaliado passando a sonda periodontal, enquanto inserida apenas 2 mm em sulcos ou bolsas periodontais, os clínicos podem ir para a profundidade dos sulcos ou bolsas periodontais e medir a profundidade da bolsa em conjunto com sangramento à sondagem. Medidas de destruição dos tecidos periodontais comumente utilizadas em estudos clínicos – em oposição à inflamação periodontal – são a média da profundidade de sondagem, a média de perda de inserção e a média do nível de retração.31 Novamente, o protocolo clínico sobre a forma como os valores médios são coletados e calculados pode voltar a variar consideravelmente de um estudo para o outro. Um exemplo de descrição de como esses valores podem ser verificados clinicamente está descrito no National Institute of Dental and Craniofacial Research (NIDCR), exame de “destruição periodontal.”1 Esse exame inclui uma avaliação da perda de inserção periodontal58 como a distância (em milímetros) a partir da junção cemento-esmalte ao fundo do sulco gengival. Esta distância foi medida nos sítios vestibulares e mesiovestibulares de dentes, em um quadrante selecionado aleatoriamente na maxila e mandíbula, utilizando o método indireto de mensuração desenvolvido por Ramfjord.58 Traduzindo Condições Periodontais em Medidas Epidemiológicas Tradicionais da Ocorrência de Doença A aplicação dos métodos epidemiológicos tradicionais de risco, prevalência e taxa foi um desafio porque médicos - epidemiologistas normalmente lidam com pacientes que tenham ou não condição de interesse particular. Epidemiologistas dentistas lidam com o máximo de 188 sítios por paciente que podem ou não sangrar. Além disso, estes sítios periodontais em pacientes estão correlacionados, o que significa que se um paciente tem um sítio que sangra, é provável que esse mesmo paciente também tenha 162 outros sítios que irão sangrar. Está bem estabelecido que o sangramento gengival é suprimido em fumantes.8 Portanto, sangramento à sondagem em sítios periodontais em um paciente fumante tende a ser mais parecido do que o sangramento à sondagem em sítios periodontais entre os não fumantes. Em outras palavras, sítios em um mesmo paciente podem não ser assumidos como estatisticamente independentes, como um resultado de fatores relacionados ao paciente, como o tabagismo ou a dieta. A metodologia estatística para lidar com essas observações correlacionadas é complexa e, para a maior parte do século XX, foi um desafio calcular os intervalos de confiança para os riscos de sítios específicos ou a prevalência.33 Como resultado, os clínicos não conseguiram obter informações confiáveis sobre se um sítio periodontal infectado com uma espécie microbiológica em particular apresentava um risco aumentado para perda de inserção periodontal. Esses desafios dificultam extremamente o progresso na construção de modelos causais da doença periodontal, que se basearam principalmente no alto nível de evidências oriundos de ensaios clínicos controlados do que no baixo nível de evidências oriundos de teorias fundamentadas em série de casos e estudos em animais. A abordagem mais comum para lidar com esse desafio de observações correlacionadas foi resumir dados periodontais de sítios específicos ao nível do paciente. Os resumos podem ser calculados de várias maneiras. Comumente, as informações de sítios específicos foram a média do nível do paciente. Entretanto, uma variedade de outras abordagens, também foi utilizada. Por exemplo, a informação sobre a presença de sangramento em até 188 sítios periodontais em um paciente pode ser resumido como a presença de pelo menos um sítio sangrante, ou a presença de pelo menos cinco sítios com sangramento, independentemente se os pacientes tinham um ou 32 dentes. Alguns desenvolveram uma abordagem mais sofisticada para fornecer dados resumidos do nível do paciente para dados de desfecho periodontal. Por exemplo, o índice de extensão e severidade (IES) da doença periodontal foi desenvolvido para fornecer estimativas separadas da extensão e severidade da doença periodontal.11 Um limiar de doença deve ser estabelecido para calcular o escore de extensão para um indivíduo. No seu estudo inicial do IES, Carlos et al.,11 consideraram um sítio doente quando a perda de inserção era superior a 1 mm. Para um indivíduo, o escore de extensão é a porcentagem de sítios examinados que apresentavam perda de inserção maior que 1 mm. O escore de severidade, para um indivíduo, é a média da perda de inserção por sítio entre os sítios doentes. O IES é expresso como uma estatística bivariada: IES = (extensão, severidade). Por exemplo, IES de um indivíduo de (20, 5,0) poderia ser interpretado como 20% dos sítios analisados apresentavam doença e, dos sítios doentes, a perda média de inserção foi de 5 mm. O IES para uma população seria a média dos escores de extensão e severidade para os indivíduos examinados. O advento das modernas técnicas estatísticas para lidar com o problema dos dados correlacionados tornou possível evitar a perda dos resumos de informações de 163 sítios específicos ao nível do paciente e a riqueza dos dados clínicos de que os clínicos necessitam.15,16.27,32,33 Esses métodos permitem responder importantes questões clínicas, como determinar se os 3 mm de perda de inserção em um sítio está relacionado a fatores locais específicos (como quantidade de placa naquele sítio, localização do sítio na cavidade bucal ou a microbiota presente naquele sítio), a fatores do hospedeiro (como o controle da glicose, níveis séricos de cotinina ou ingestão de carboidratos fermentáveis) ou a uma interação entre um fator de sítio específico e um fator do hospedeiro. Desfechos Reais e Sub-rogados da Condição Periodontal Uma consideração importante na epidemiologia e na prática clínica é a distinção entre os desfechos real e sub-rogado da doença periodontal. Desfechos reais são resultados tangíveis que medem diretamente como um paciente se sente, funções ou sobrevida.18 Um abcesso doloroso periodontal é um exemplo de um caso concreto que pode ser perfeitamente identificado ou realizado pelo paciente. Desfechos reais incluem a saúde bucal relatada mensurada pela qualidade de vida38,48,65 ou problemas autodeclarados, tais como uma resposta positiva à pergunta: “Quando escova os dentes ou passa fio dental, você percebe que há um sangramento regular que envolve a saliva manchada de sangue?” Sinônimos para desfechos reais incluem desfechos clinicamente relevantes, clinicamente significativos, terminais ou finais. Desfechos sub-rogados são intangíveis para o paciente.68 Alterações no sangramento à sondagem ou profundidade de sondagem são exemplos de mudanças que são intangíveis para o paciente. Exemplos de desfechos sub-rogados na pesquisa periodontal incluem mensurações anatômicas (p. ex., profundidade de sondagem), medidas de inflamação (p. ex., gastrointestinal), medidas microbiológicas e imunológicas.15 Desfechos sub-rogados são, em geral, objetivos porque podem ser medidos pelo clínico (em vez de se confiar no autorrelato dos pacientes) ou por métodos laboratoriais. Sinônimos para desfechos sub-rogados incluem desfechos intermediários, marcadores biológicos ou biomarcadores. Desfechos sub-rogados podem ser equivocados quando o objetivo é fornecer informações confiáveis sobre as decisões clínicas relacionadas ao diagnóstico, à etiologia, ao tratamento e ao prognóstico. Uma visão geral da situação em pesquisa clínica na qual desfechos sub-rogados têm levado a conclusões equivocadas é fornecida na Tabela 82-1. Um exemplo em períodontia são os antibióticos sistêmicos que podem ter um impacto benéfico no ganho de inserção,20 mas um risco potencialmente aumentado para a perda dentária.14 Desafios na Obtenção de Medidas Epidemiológicas de Condições e Doenças Periodontais 164 Entre os desafios que enfrenta o epidemiologista periodontal estão contínuas mudanças no tipo de dados coletados, escassez de informaçõessobre se a informação sub-rogada fornece informações confiáveis sobre os desfechos palpáveis de benefício ao paciente (p. ex., resultados com que o paciente se preocupa), a falta de códigos de diagnóstico para as razões de perda dentária e a dificuldade em estimar o impacto da perda dentária nos desfechos sub-rogados.14 A diversidade de medidas para avaliar a condição ou doença periodontal é verdadeiramente impressionante. Um levantamento de ensaios clínicos periodontais conduzidos durante um período de apenas quatro anos, indicou que um total de 153 diferentes desfechos sub-rogados foram definidos e que mais de 80% foram utilizados em menos de cinco dos 82 ensaios.23 Outra pesquisa também identificou a diversidade de metodologias e definições como uma questão desafiadora para a evidência em revisão sistemática.62 Esta criação contínua de desfechos sub-rogados “novos e melhorados” na pesquisa periodontal, é provavelmente um importante fator de conclusões falso-positivas.26 Além disso, existe variabilidade secular importante no tipo de medidas periodontais favorecidas com as novas medidas sub-rogadas que aparecem regularmente. Russel desenvolveu o Índice Periodontal,60 que codificou os tecidos de suporte para cada dente na boca, de acordo com uma escala progressiva que dá pouco peso à inflamação gengival e peso relativamente elevado para a doença periodontal avançada. Embora o Índice Periodontal fosse utilizado no primeiro NHANES, ganhando destaque nacional nos EUA, não foi usado novamente em qualquer um dos exames nacionais subsequentes. Desta forma, em periodontia clínica, os níveis clínicos de inserção já foram considerados padrão-ouro para avaliar a eficácia de um tratamento, mas agora estão relegados, como medida de segurança apenas em alguns processos de aprovação de medicamentos.29 Como resultado desta mudança contínua do tipo de medidas periodontais sub-rogadas que estão na moda, não foi possível, até hoje, fornecer informações confiáveis sobre questões tão simples como se a prevalência de doença periodontal destrutiva estava aumentando, diminuindo ou permanecendo constante. Um segundo desafio em interpretar a relevância clínica é a escassez de informações sobre se os dados coletados são informativos sobre qualquer medida que importa para os pacientes, como perda de dentes ou problemas de qualidade de vida relacionada à saúde bucal. Esta situação cria desafios para a interpretação de evidências. É semelhante ao rastreamento do câncer de próstata, medido pela inflamação ou inchaço da próstata por palpação digital, sem informações sobre como esse dado se refere à mortalidade por câncer de próstata, aos sintomas clínicos da doença de próstata ou qualquer coisa que importe para o paciente. Este desafio é ainda agravado pela ausência de códigos de diagnóstico para a perda dentária, que tem de maneira geral impedido a obtenção de informações confiáveis sobre quantos 165 dentes realmente são perdidos como resultado de doença periodontal em oposição à cárie dentária. A tentativa de controlar uma doença apenas por cobrança de uma medida de desfecho sub-rogado, como profundidade de sondagem daqueles dentes que estão presentes, leva a um tipo de viés que é geralmente conhecido como viés de sobrevivência. A maioria dos ensaios clínicos periodontais, no século XX, avaliou o efeito de terapias periodontais sobre os dentes que sobreviveram ao tratamento. Como na pesquisa do câncer, em que se estuda o efeito da quimioterapia nos sobreviventes, criam-se resultados que não podem ser interpretados. Estudando o efeito da terapia periodontal nos dentes sobreviventes, criam-se dados não confiáveis. Alguns métodos, como a imputação, podem fornecer uma compreensão da extensão em que tais vieses podem alterar as conclusões dos estudos epidemiológicos. Resumindo, o instrumento fundamental da epidemiologia periodontal é uma medida da ocorrência de condições periodontais. Essas medidas incluem estatísticas epidemiológicas, como a prevalência, risco e taxas, e foca-se em marcadores específicos ao paciente ou específicos ao sítio, como a qualidade de vida associada a saúde bucal, perda de dentes, medidas anatômicas ou medidas de inflamação gengival. Essa riqueza de possibilidades de definições das condições periodontais combinadas com os desafios da estatística no tratamento dos dados correlacionados tornou difícil de responder até mesmo uma pergunta tão simples, como saber se uma epidemia de doença periodontal ocorreu no século XX.28 Estudos epidemiológicos A essência da epidemiologia e da epidemiologia clínica é relacionar as medidas de ocorrência da doença para causas suspeitas ou intervenções. Pode a recente queda drástica da prevalência da doença periodontal destrutiva nos EUA ser atribuída a uma mudança na prevalência do tabagismo? Pode a presença de uma particular espécie microbiológica ao redor de um dente estar relacionada ao risco de futura perda dentária? Pode a taxa de perda dentária em uma amostra de idoso estar relacionada ao uso de um enxaguatório antimicrobiano? Em uma abordagem baseada em evidências, essas questões podem ser respondidas com mais confiança por três estudos epidemiológicos. Como mencionado anteriormente neste capítulo e brevemente apresentado no Capítulo 2, esses estudos (em ordem decrescente de confiança) são o ensaio clínico controlado randomizado, os estudos de coorte e os casos-controle. Para uma revisão abrangente dos estudos, o leitor pode consultar livros de estatística ou epidemiologia. Ensaios Clínicos Controlados Randomizados Ensaios clínicos controlados randomizados, em periodontia, normalmente esignam 166 pacientes ou alguns dentes de um paciente para receber um determinado tratamento e os resultados subsequentes são verificados. A Tabela 5-1 fornece dois exemplos de ensaios clínicos controlados randomizados. Tabela 5-1 Exemplos de Ensaios Controlados Randomizados Periodontais Tratamento Periodontal Desfecho Tamanho da Amostra Raspagem e aplainamento radicular em mulheres grávidas 50 Criança de baixo peso ao nascer 823 Fosfato de cálcio bifásico em cerâmica51 Nível clínico de inserção 137 O ensaio clínico controlado randomizado é o único desenho de estudo que pode proporcionar uma base probabilística para fazer inferências de causalidade entre uma intervenção e um desfecho. Inferência confiável sobre a causalidade das associações só é possível se houver uma hipótese específica que aponta o desfecho, os tratamentos a serem comparados, a população de pacientes, bem como o grau de precisão exigido e se a realização do ensaio segue rigorosamente a concepção e os princípios de análise dos ensaios definitivos. Fatores importantes na obtenção de respostas confiáveis incluem um processo de randomização seguro, mascaramento dos pacientes e clínicos, a presença de dados independentes, segurança no quadro de monitoramento e uma adesão estrita à hipótese preventiva, incluindo a análise de intenção de tratar. Tais estudos são raros em qualquer campo, incluindo a pesquisa periodontal. Como resultado, a maioria dos estudos publicados na literatura está na categoria dos ensaios exploratórios, normalmente não relatando nenhuma hipótese preventiva e concluindo que a intervenção foi bem-sucedida quando comparada ao controle.23 Essas conclusões são quase sempre falso-positivas.26 Somente ensaios definitivos podem fornecer respostas confiáveis sobre a eficácia do tratamento. Infelizmente, estes são os ensaios menos prováveis de serem publicados. Estudos de Coortes Os estudos de coortes são muitas vezes citados como desenhos de estudo baseados na exposição. Os sujeitos são classificados de acordo com uma exposição, como o tabagismo ou diabetes e acompanhados longitudinalmente para a avaliação dos desfechos periodontais. A Tabela 5-2 fornece dois exemplos de estudos de coortes. Tabela 5-2 Exemplos de Estudos Coortes Periodontais Exposição Periodontal Desfecho Tamanho da Amostra 167 Doença periodontal e perda dentária34 Doença coronária cardíaca 51.529 Gengivite10Perda dentária > 500 Coortes podem ser definidas por uma área geográfica, registros, situação de exposição, ou uma combinação de diferentes critérios. Num estudo de fatores causais de edentulismo, a população de interesse foi definida como os habitantes da cidade de Tecumseh, Michigan. As pessoas dentro dessa comunidade foram examinadas em 1959 como parte de um amplo estudo de saúde. Vinte e oito anos mais tarde, um subconjunto destes pacientes foi reexaminado para estudar os fatores de risco para o edentulismo.1 Vários estudos da história natural da doença periodontal destrutiva têm sido realizados com base na localização geográfica. Exemplos incluem o Norwegian Longitudinal Study,3 o Veterans Administration Longitudinal Study,37 e o Sri Lanka Study.4 Uma coorte pode ser definida por registros (escolas, planos de saúde, sindicatos, indústrias ou organizações profissionais). Muitos estudos de coortes sobre desfechos das doenças periodontais são realizados em pacientes pertencentes a uma companhia particular de seguros odontológicos14 ou a um grupo de profissionais.34 Finalmente, as coortes podem ser definidas com base em uma exposição específica. Por exemplo, tem sido utilizado para a definição de coortes o fornecimento de diferentes níveis de concentração de flúor na água. Estudos de Caso-controle Os estudos de caso-controle são normalmente citados como desenho de estudo baseado nos desfechos. Pessoas com uma condição ou desfecho de interesse (casos) são comparadas às pessoas sem a condição de interesse (controles) em relação ao passado histórico dos fatores causais suspeitos. Muitas pessoas intuitivamente pensam ao longo das linhas de um estudo caso-controle ao avaliar a etiologia da doença. Por exemplo, se uma pessoa sofre de intoxicação alimentar depois de uma festa, é provável que compare seu histórico passado de ingestão alimentar com o histórico passado de consumo alimentar daqueles indivíduos na festa que não tiveram intoxicação alimentar. Desta forma, se um é diagnosticado com uma doença grave, uma reação comum é: “Por que eu?” seguido por uma comparação do histórico passado de exposições com outros indivíduos que não desenvolveram a doença grave. O principal objetivo de um estudo caso-controle é descobrir quais exposições passadas ou fatores são diferentes entre os pacientes doentes (casos) e pacientes não doentes? A Tabela 5-3 fornece dois exemplos de estudo de caso-controle. Tabela 5-3 Exemplos de Estudos Casos-Controle Periodontais Critério Caso-Controle Fatores de Risco Investigados Tamanho da Amostra 168 Doença periodontal destrutiva3 Fumo Infarto agudo do miocárdio4 Saúde dentária O estudo de caso-controle é o tipo de estudo mais difícil de realizar. Tentando minimizar o papel do viés nos estudos casos-controle, exige um planejamento cuidadoso, condução, análise e, mesmo quando tudo está perfeito, pode-se chegar a conclusões erradas nos estudos de caso-controle. Uma revisão recente da qualidade dos estudos de caso-controle periodontais sugeriu que eles são frequentemente conduzidos e reportados inadequadamente.46 Dois elementos importantes do desenho do estudo caso-controle são as definições de caso e controle. Um caso é uma pessoa na população ou no grupo do estudo identificado com uma determinada doença, desordem na saúde ou condição.12 A definição de caso deve ser rigorosa para minimizar o viés e os erros de classificação podendo ser baseada nos sintomas, sinais ou resultados dos testes de diagnóstico. Por exemplo, a definição de caso para infarto do miocárdio em um estudo de caso- controle na relação entre saúde dentária e infarto do miocárdio foi a seguinte:4 1. Os sintomas iniciam dentro de 36 horas antes da adesão. 2. Não ter infarto do miocárdio prévio. 3. Residente em Helsinki ou na vizinhança. 4. Idade inferior a 60 anos para homens e inferior a 65 anos para mulheres. 5. Disponibilidade das amostras de sangue no início e em quatro semanas. Três diferentes tipos de casos podem ser distinguidos baseados na relação entre os dados do início da doença e a data do início do estudo. Casos incidentes são aqueles cuja data de diagnóstico é anterior à data de início do estudo. Usando essa abordagem, os casos são entrevistados no tempo mais próximo possível da exposição etiológica. Fatores que afetam a sobrevivência dos casos podem ainda não ter começado a agir. Como resultado, os estudos caso-controle com casos incidentes são os menos propensos para se confundir causas da doença com consequências de uma doença. Casos prevalentes são aqueles cuja data de diagnóstico precede à data de início do estudo. A seleção de casos prevalentes tem apenas uma vantagem: os casos estão prontamente disponíveis. Casos prevalentes podem representar a sobrevivência de todos os casos. Sob tais circunstâncias, os fatores que afetam a sobrevivência podem aparecer como fatores etiológicos. O último é de particular preocupação em estudos de caso-controle odontológicos em que o diagnóstico da situação dos casos é baseado nos dentes sobreviventes. Casos perdidos são os casos que morreram antes da data de início do estudo. Casos falecidos possuem todas as desvantagens dos casos prevalentes. Além disso, pode ser que necessite de procurações dos entrevistados para investigar o histórico da exposição no passado. Em um estudo de caso-controle, os controles devem estar sob o risco de 169 desenvolver a doença investigada e vêm da população que gerou os casos. Por exemplo, se a doença investigada é cárie de raiz, os controles devem estar sob o risco para o desenvolvimento de cárie de raiz (p. ex., ter as superfícies radiculares expostas) e são originários da mesma população que gerou os casos que têm cáries de raiz. Etiologia As doenças humanas crônicas, como câncer, diabetes e doença periodontal destrutiva, têm etiologia complexa. Os termos causa necessária, componente causal e causa suficiente ajudam a definir os desafios em determinar a etiologia da doença e em verbalizar a complexidade da etiologia da doença crônica.59 O conjunto de causas que desencadeiam uma doença crônica é citado como causa suficiente. Cada causa suficiente consiste em múltiplos componentes causais. Considere o exemplo hipotético no qual quatro causas suficientes existem para a doença periodontal destrutiva não iatrogênica (Fig. 5-2). A primeira causa suficiente neste exemplo inclui os seguintes componentes causais: tabagismo, atraso na apoptose dos neutrófilos, interleucina-1 (IL-1), gene defeituoso, placa dentária, um dente e um defeito de um gene não especificado. Esses diferentes elementos de uma causa suficiente são citados como componentes causais. Todos os componentes causais de uma causa suficiente precisam estar presentes para que o processo de doença possa ser iniciado. As múltiplas causas suficientes podem ser responsáveis por uma determinada doença. Por exemplo, duas causas suficientes existem para a doença periodontal destrutiva, que não inclui o fumo. Figura 5-2 Causas de periodontite não iatrogênica. (De Rothman KJ: Am J Epidemiol 1995;141(2):90-95.) Um componente causal, que é um elemento de todas as causas suficientes para uma determinada doença, é apresentado como uma causa necessária. Por exemplo, os carboidratos fermentáveis são uma causa necessária para cárie dentária. No entanto, 170 existem poucos exemplos de causa necessária – tabagismo não é uma causa necessária de câncer de pulmão ou doença periodontal destrutiva; a infecção por Hepatite B não é uma causa necessária para câncer de fígado; ou Streptococcus viridan não é uma causa necessária para endocardite bacteriana. Pesquisas para causas necessárias de doença são importantes, desde que a sua eliminação possa erradicar uma doença. A proporção de doença provocada por diferentes componentes causais não soma 100%. O componente causal “tabagismo” é responsável por 80% dos casos de doença periodontal destrutiva, a placa por 100% e o diabetes por 10%. A teia complexa de causalidade, que conduz à iniciação e à progressão da doença crônica,torna difícil a identificação correta de componentes causais. Nos últimos 50 anos, a epidemiologia tem conseguido, de forma confiável, identificar as causas de alta prevalência para doenças crônicas humanas. Agora que foram identificados os componentes causais, responsáveis por uma grande proporção de casos para doenças específicas (p. ex., tabagismo para câncer de pulmão), a busca por novas causas está se tornando muito mais difícil. Por exemplo, existiu a esperança de que o projeto genoma poderia levar a avanços rápidos, mas essas esperanças não foram concretizadas. As doenças crônicas são geralmente causadas não por um gene, mas por um conjunto de genes muitos diferentes, cada um responsável por apenas uma pequena proporção dos casos, e atuam em uma variedade de mecanismos sinérgicos no início da doença. Fatores Etiológicos Suspeitos Modificáveis para Doença Periodontal Tabagismo O tabagismo é reconhecido por diversas organizações como um dos principais impulsionadores da epidemiologia da doença periodontal.7 Muitos critérios para causalidade foram respondidos,19 e a cessação do fumo tem mostrado retardar a progressão da doença periodontal.36,37,55 O forte impacto do tabagismo na doença periodontal tem potencial para induzir falsas associações causais em outros fatores de risco suspeitos para doença periodontal. Por exemplo, o tabagismo é um fator de risco para diabetes tipo II72 e doença periodontal, tornando associações entre o diabetes tipo II e a doença periodontal suscetíveis a vieses. Para obter inferência confiável sobre os fatores causais, além do tabagismo, os estudos sobre epidemiologia da doença periodontal podem necessitar ser restritos àquelas pessoas que nunca fumaram. Metabolismo do Carboidrato Vários estudos têm demonstrado relações entre a doença periodontal e uma variedade de condições que centram no metabolismo de carboidratos, incluindo a ingestão de 171 dieta de carboidratos, exercício, obesidade, pré-diabetes e diabete. Uma revisão sistemática de ensaios controlados randomizados de carboidratos sugere que o aumento da ingestão de carboidratos fermentáveis irá causar aumento na gengivite.24 Duas revisões sistemáticas sugeriram diabetes como fator de risco para doença periodontal destrutiva.61,64 Placa Dental Várias revisões sistemáticas mostraram evidências de que o controle de placa quimioterápico e mecânico irá reduzir a inflamação gengival. Óleos essenciais e bochechos bucais que contêm cloreto de cetilpiridínio21 podem reduzir a inflamação gengival. Escovas interdentais podem reduzir a placa dentária, o sangramento e a profundidade de sondagem.66 Escovas de dentes elétricas podem ser mais efetivas do que as manuais na remoção da placa bacteriana e na redução da inflamação.63 O uso do fio dental pode não ser eficaz na redução da placa e na inflamação gengival.6 Embora estas revisões sistemáticas forneçam evidências sobre o papel da placa bacteriana na inflamação gengival, esses estudos não necessariamente sugerem que a placa dentária é a causa primária da inflamação gengival. Da mesma forma que o flúor é necessário para evitar a deterioração causada por carboidratos fermentáveis, uma escova de dente pode ser necessária para prevenir a gengivite resultante de uma dieta pouco saudável. Não há nenhuma evidência confiável em ensaios controlados randomizados que demonstram que a higiene bucal tem um impacto benéfico na prevenção da destruição periodontal.25 A Causa da Doença Periodontal Em epidemiologia clínica, em um tribunal e na moderna prática clínica diária, a incerteza sobre a “causa” é uma questão fundamental quando se discute causalidade. O termo porcentagem de risco atribuível é usado para expressar a probabilidade de que uma doença é causada por um agente etiológico suspeito. Em um fumante com câncer de pulmão, pode haver probabilidade de 20% que o câncer de pulmão tenha sido causado por um fator que não o fumo (p. ex., radônio). Em uma pessoa obesa com diabetes, pode haver 10% de chances de o fumo não ser a causa do aparecimento da diabetes. Para um trabalhador com leucemia na indústria nuclear, pode haver 80% de chances de que a leucemia não tenha sido causada pela exposição prolongada de níveis baixos de radiação. Talvez nunca possamos determinar com certeza o que causou uma determinada condição ou doença que aparece em um paciente. Tudo o que se pode fazer é atribuir a probabilidade de que um fator causal específico foi responsável pela causa da doença diagnosticada em um paciente. Doença periodontal destrutiva e inflamação periodontal não são exceções a esta regra geral de incertezas 172 em se determinar a etiologia da doença. Como resultado, os nomes diagnósticos, como doença gengival induzida por placa ou lesões gengivais inflamatórias não induzidas por placa,41 podem ser considerados impróprios, uma vez que tais nomes implicam na certeza diagnóstica que leva a um raciocínio lógico.4 Na ausência de alto nível de evidências sobre as causas dessas doenças, uma declaração da certeza sobre causalidade reflete a forte crença no baixo nível de evidências que sugerem que a causa da doença periodontal seja uma infecção. O princípio de incerteza diagnóstica é importante não só quando se considera a etiologia da doença, mas também quando se trata de diagnosticar as condições periodontais. Diagnóstico Condições Periodontais versus Doenças Periodontais A doença é definida como um atributo ou uma característica de uma pessoa, e o diagnóstico é a crença do clínico de que a pessoa tem o atributo.67 A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a doença como aquelas consequências adversas de saúde que incluem comprometimento físico ou psicológico, restrições das atividades e/ou limitação na função.67 Certas condições periodontais têm sido associadas a tais consequências adversas e, assim, certas condições qualificam as doenças no âmbito da definição da OMS. Em um estudo, cerca de um em cada cinco pacientes relatou a um especialista periodontal que os dentes, as gengivas ou as próteses tiveram um impacto frequente ou muito frequente ao comer, relaxar, evitar sair de casa, sentimento de autoconsciência, dor ou desconforto. Neste mesmo estudo, quatro em cada 10 pacientes avaliaram sua saúde bucal como regular ou pobre.13 Outros estudos têm mostrado que as condições gengivais, como gengivite ulcerativa necrosante ou perda de inserção em estudantes do ensino fundamental, são da mesma forma relacionadas a qualidade de vida associada a saúde bucal.45 Uma questão importante no diagnóstico periodontal é determinar quais condições periodontais podem ser diagnosticadas como “doentes”. Pode um paciente com um par de sítios com 1 ou 2 mm de perda de inserção ser classificado como doente? Ou um paciente com inflamação gengival sutil na qual a maioria dos clínicos não consegue perceber e que mesmo sendo altamente treinados concordem pouco com a presença de gengivite? Discordâncias sobre essa questão é uma das razões pelas quais a prevalência de gengivite e doença periodontal destrutiva pode variar amplamente, dependendo de qual nível de referência é considerado como ponto de corte para normal versus doente. Testes de Diagnóstico Disponíveis para Avaliar as Condições Periodontais 173 Os testes de diagnóstico para a doença periodontal podem incluir mensurações anatômicas de destruição dos tecidos, como profundidade de sondagem e perda de inserção clínica; medidas de inflamação gengival, como eritema, supuração, sangramento, sangramento à sondagem, temperatura gengival elevada; e uma série de marcadores do fluido do sulco gengival; medidas radiográficas de destruição óssea e mobilidade dentária; e medidas microbiológicas. Os resultados desses testes combinados com fatores como idade, histórico odontológico passado e condições sistêmicas podem ser traduzidos num conjunto distinto de diagnóstico periodontal. Traduzindo Resultados do Teste de Diagnóstico Periodontal para Diagnóstico da Doença Periodontal Três métodos diferentes podem ser distinguidos para traduzir ascondições clínicas dentro das doenças: (1) valores normativos ou arbitrários, (2) valores de referência baseados em risco ou (3) valores de referência baseados no tratamento.30 Valores Normativos ou Arbitrários para Diagnosticar a Doença Periodontal As doenças podem ser definidas com base em valores de referência normativos ou arbitrários. Se o periodonto normal é assumido como não ter profundidade de bolsa maior que 3 mm, então pode-se definir doença periodontal destrutiva como um paciente com qualquer profundidade de bolsa maior ou igual a 4 mm, ou um paciente com três bolsas ≥5 mm pode ser classificado como tendo doença periodontal destrutiva. Alternativamente, os valores normativos podem basear-se na porcentagem de valores de corte paramétricos ou não paramétricos. Por exemplo, o percentil 97,5 do número de bolsas profundas maiores que 5 mm associado com a idade pode ser usado para definir a doença periodontal destrutiva. Com base nos dados do NHANES III, um indivíduo de 28 anos com duas bolsas maiores que 5 mm de profundidade pode ser diagnosticado com doença periodontal destrutiva, enquanto cinco bolsas periodontais com profundidade maior que 5 mm possa ser exigido para um indivíduo de 58 anos de idade.30 Diagnóstico baseado em pontos de corte normativos ou arbitrários resulta em níveis de prevalência da doença normativos ou arbitrários, independentemente da distribuição dos fatores de risco subjacentes. Independentemente se 5% ou 95% da população fumava dois maços por dia durante 40 anos, a prevalência da doença periodontal destrutiva permaneceria igual ao ponto de corte selecionado. Se todas as doenças crônicas humanas foram definidas com base em um percentual decimal arbritário de valor de ponto de corte, a prevalência de todas as doenças crônicas deveria ser igual a 5% (p. ex., 5% da população deveria ter a pressão sanguínea muito alta ou 5% deveria ter um nível de glicose no sangue muito alto). 174 Valores de referência baseados no risco para diagnosticar a doença periodontal O diagnóstico da doença pode ser definido em um ponto no marcador diagnóstico, no qual um acentuado aumento de risco para resultados adversos para a saúde esteja presente. O ponto de corte ainda é um pouco arbitrário, mas está ligado à realidade clínica, em termos de risco de resultados adversos para a saúde. Há um ”acordo” entre os perigos de diagnósticos errados, quando o ponto de corte é muito elevado (mais específicos), e os perigos de diagnósticos falso-positivos, quando o ponto de corte é demasiado baixo (mais sensíveis). Um diagnóstico, baseado no risco de doença periodontal destrutiva, exige a realização de estudos longitudinais no qual a profundidade da bolsa no início do estudo está relacionada ao risco de resultados adversos posteriores, como a perda do dente. A Figura 5-1 representa tal situação e sugere que uma profundidade de bolsa de 6 mm possa ser um marcador diagnóstico para a doença periodontal destrutiva porque um aumento distinto do risco para a perda dentária é associado a valores de 6 mm ou mais de profundidade de bolsa. Diagnóstico com base no risco de doenças crônicas, similar ao uso de valores normativos ou arbitrários, pode fazer mais mal do que bem. Um diagnóstico da obesidade baseado em um índice de massa corporal (IMC) de 28 pode fazer mais mal do que bem se os tratamentos da perda de peso aumentam o risco da mortalidade.35 Um diagnóstico de hipertensão arterial,57 ou diabetes49 pode causar mais mal do que bem se o tratamento prescrito aumenta ainda mais o risco de mortalidade. Desta forma, um diagnóstico de doença periodontal destrutiva, baseado na presença de bolsa periodontal de 6 mm ou mais de profundidade, pode causar mais danos do que ser bom se o tratamento periodontal sugerido aumentar a morbidade periodontal. Valores de Referência de Tratamento para Diagnosticar a Doença Periodontal Uma definição mais atrativa de doença é a terapêutica, ou diagnóstico baseado no tratamento. Segundo essa definição, uma pessoa é definida como doente apenas se o diagnóstico da doença leva a benefícios tangíveis. Mais comumente, é melhor evitar o diagnóstico da doença a menos que possa ser demonstrado que o diagnóstico e o tratamento subsequente realmente fornecem resultados concretos ao paciente. Com base em tal abordagem para o diagnóstico, a doença periodontal só deve ser diagnosticada se levar a uma menor morbidade. Diagnóstico da Doença Periodontal O termo-chave Medical Subject Heading (MESH) para a doença periodontal, os sistemas de classificação para doenças periodontais desenvolvidos por organizações profissionais e livros texto de periodontia indicam que o diagnóstico da doença 175 periodontal vem e vai em um ritmo rápido. No PubMed, sete diferentes termos de entrada estão atualmente listados no MESH sob o título de Periodontites, refletindo alguns dos distintos diagnósticos periodontais utilizados na literatura desde 1965. Uma recente conferência de consenso2 concluiu que cinco dos sete termos constantes no MESH estão obsoletos. A Academia Americana de Periodontia (AAP) relatou 10 diferentes sistemas de classificação em 20 anos.4 Livros periodontais têm igualmente reportado diferentes conjuntos de diagnóstico periodontal a cada década. Distrofias periodontais fornecem um exemplo sobre a aparente arbitrariedade pela qual o diagnóstico periodontal vem e vai. Distrofias periodontais foram comumente relatadas desde o século XVIII até a década de 1960. Este diagnóstico tornou-se obsoleto depois de duas Conferências Mundiais, na década de 1970, concluírem que, “microrganismos ainda não classificados foram encontrados no fundo da bolsa periodontal.”56 Consequentemente, livros didáticos periodontais posteriores já não se referiam ao diagnóstico de periodontoses. Recentemente, argumentou-se que este diagnóstico deveria ser ressuscitado.53 Este exemplo ilustra o quão profundamente a crença de que “a doença periodontal é infecciosa” tem influenciado em todos os aspectos a periodontia clínica, incluindo o sistema para classificação das condições periodontais. Diagnósticos periodontais são atualmente baseados na premissa de que as doenças periodontais “seguem um paradigma infecção/hospedeiro em que se considerou que materiais tóxicos da placa bacteriana dentária induzem a uma resposta inflamatória no tecido periodontal adjacente… Central para este paradigma é a noção de que a destruição dos tecidos periodontais é acompanhada por uma resposta inflamatória.”3 Isto significa que, mesmo que a resposta inflamatória não seja vista clinicamente, como em periodontopatias, e, se o microrganismos não pode ser identificado, como no caso de periodontopatias, ainda pode ser teorizado que o paradigma da infecção deva ser verdadeiro, que a inflamação não pode ser observada clinicamente e que microrganismos não identificáveis devam estar em jogo. Tais crenças sobre a “doença periodontal como uma infecção” que cria uma classificação de diagnóstico das doenças periodontais são questionáveis em dois pontos. Primeiro, um alto nível de evidência de estudos epidemiológicos é necessário para determinar que a crença na doença periodontal como uma infecção é válida. A evidência emergente sugere que tabagismo e diabetes podem causar doença periodontal destrutiva independente da colonização microbiana, discordando desta premissa. Em segundo lugar, para doenças crônicas, com múltiplas causas, não é possível determinar a causa da doença e, portanto, é de pouco valor clínico nomear a doença, depois de uma causa provável. Por exemplo, a doença periodontal em diabéticos não pode ser citada como periodontite diabética. O clínico só pode dizer que há certa probabilidade de que a doença periodontal no paciente diabético possa ser atribuída à condição de diabético. De uma perspectiva clínica, a constante mudança nos sistemas de classificação de 176 diagnóstico, resultante de conferências de consensos, é altamente irrelevante, já que não existe evidência confiável de que o uso clínico deste tipo de sistema dediagnóstico melhore os resultados para o paciente. De uma perspectiva clínica, o sistema de classificação desenvolvido pela American Dental Association (ADA) e a AAP tem maior relevância clínica, pois fornece informações ao paciente, com respeito à severidade e ao prognóstico, e está livre de suposições, quando se trata de fatores etiológicos em potencial. Os quatro diagnósticos periodontais a seguir são geralmente reconhecidos na dentição permanente: Caso tipo I: Gengivite Caso tipo II: Periodontite incipiente Caso tipo III: Periodontite moderada Caso tipo IV: Periodontite avançada Esse simples sistema de diagnóstico da doença periodontal tem muitas vantagens no cuidado ao paciente, pois fornece informações úteis que abrangem severidade e prognóstico da doença. Dados da prevalência de doença periodontal nos estados unidos Os EUA são um dos poucos países em que a informação detalhada sobre as mudanças na prevalência de doença periodontal tem sido documentada com pesquisas nacionais (Dye, 2005) (Tabelas 5-4 e 5-5). Como resultado, pode valer a pena dar uma olhada mais de perto nas tendências seculares da doença neste país, pois isso pode fornecer informações úteis do que pode estar acontecendo em todo o mundo. Tabela 5-4 Condição Periodontal entre a População Adulta dos Estados Unidos Adultos (20–64 anos) 1988– 1994 1999– 2004 Número de dentes presentes 24 25 Edentulismo 6% 4% Doença periodontal (um sítio com perda de inserção ≥ 3 mm e profundidade de sondagem ≥ 4 mm) 15% 9% Doença periodontal entre pobres 28% 14% Visitas odontológicas 66% 6% Média de profundidade de bolsa 1,47 mm 1,02 mm Média de perda de inserção 1,07 mm 0,72 mm Retraçaõ ≥ 2 mm em pelo menos um sítio 32% 21% Profundidade de bolsa ≥ 4 mm em pelo menos um sítio 23% 10% 177 Perda de inserção ≥ 4 mm em pelo menos um sítio 25% 17% Tabela 5-5 Condição Periodontal entre a População Idosa dos Estados Unidos Idosos (65 anos e mais velhos) 1988– 1994 1999– 2004 Número de dentes presentes 18 19 Edentulismo 34% 27% Doença periodontal (um sítio com perda de inserção ≥ 3 mm e profundidade de sondagem ≥ 4 mm) 19,5% 10,5% Doença periodontal entre pobres 26,3% 16,6% Visitas odontológicas 54% 55% Média de profundidade de sondagem 1,47 mm 1,07 mm Média de perda de inserção 2,04 mm 1,55 mm Retração ≥ 2 mm em pelo menos um sítio 73% 48% Profundidade de sondagem ≥ 4 mm em pelo menos um sítio 22% 12% Perda de inserção ≥ 4 mm em pelo menos um sítio 59% 50% Mas, antes de mergulharmos nos resultados deste relatório, a questão da definição de doença periodontal necessita de uma breve revisão (Cap. 4/Parte 2). O uso de definição de especialistas da doença periodontal, em oposição às definições baseadas em evidências, causa os mesmos problemas em desafios para a interpretação dos dados de pesquisa nacional, como acontece com a interpretação de pesquisas sobre o tratamento ou etiologia. Considere o seguinte exemplo: na pesquisa de 1994-2000, foi relatado que aproximadamente um em cada 10 idosos de 75 anos ou mais apresentava doença periodontal (11,3%). Se um em cada 10 idosos tem doença periodontal, parece simplesmente impossível que dois em cada 10 idosos possam ter periodontite de moderada a severa (20,75%). No entanto, estas são as estatísticas demonstradas. Apesar de várias explicações serem possíveis para esses resultados aparentemente contraditórios, a definição arbitrária de doença periodontal oferece uma explicação plausível (Cap. 4/Parte 2). A miríade de decisões baseadas em não evidências para definir a doença periodontal permite uma infinidade de estimativas de prevalência que nem sempre são logicamente consistentes umas com as outras. Essas decisões de especialistas incluem medidas de desfecho periodontal para selecionar quais valores de corte escolher para cada uma das medidas de desfecho selecionadas, em quais situações periodontais essas condições particulares precisam estar presentes e se essas condições precisam ocorrer no mesmo sítio. Essa multiplicidade de opções é problemática para grande parte da pesquisa periodontal, incluindo pesquisas nacionais, e pode levar a estimativas de prevalência muito 178 diferentes. Independentemente desses desafios na interpretação dos dados da pesquisa nacional, as mudanças relatadas nos parâmetros da doença periodontal entre as pesquisas de NHANES 1998-2004 e NHANES 1994-2004 – e outros dados de pesquisa – consistentemente sugerem melhorias substanciais na prevalência da doença periodontal (pelo menos em termos de profundidade da bolsa e nível clínico de inserção) (Dye, 2005). Entre os adultos, o edentulismo caiu 2%, o número médio de dentes presentes na cavidade bucal aumentou para um dente na boca, a prevalência de periodontite moderada a grave caiu para 4,3% e a prevalência de visitas ao dentista diminuiu para 6%. Entre os adultos pobres, a prevalência de periodontite diminuiu para 14%. Da mesma forma, grandes mudanças ocorreram entre os idosos. O edentulismo diminuiu para 7% o número médio de dentes presentes na cavidade bucal e aumentou para um dente a prevalência de periodontite moderada a grave e diminuiu para 9% a prevalência de visitas ao dentista que permaneceu inalterada. Entre os idosos pobres, a prevalência de periodontite caiu quase 10%. Se viessem a revelar que bolsas periodontais são um substituto válido para a doença periodontal, esses dados sugeririam que uma fração da redução observada no edentulismo e perda dentária na população dos EUA poderia ocorrer em virtude de uma redução na severidade da doença periodontal. Embora as estatísticas relativas ao nível populacional com suspeita de fatores causais possam ser enganosas, as hipóteses sobre as causas destas rápidas mudanças podem ser analisadas. Grandes declínios na prevalência da doença periodontal parecem difíceis de se explicar através de melhores tratamentos periodontais ou por procedimentos periodontais mais efetivos. Os declínios dramáticos na prevalência da doença periodontal são mais pronunciados entre aqueles que têm menos acesso aos cuidados odontológicos, as pessoas mais pobres. Além disso, esses grandes declínios ocorreram quando os estudos anteriores relataram grandes reduções na utilização do tratamento periodontal. Uma explicação mais plausível para a diminuição da prevalência da doença periodontal é o tabagismo. O grande declínio pode, pelo menos em parte, ser atribuído à queda continuada do tabagismo. Enquanto esses estudos eram realizados, a prevalência de fumantes nos EUA continuou a diminuir (www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/mm5644a2.htm). Mudanças no hábito do tabagismo e na prevalência de periodontite atualmente oferecerão novas oportunidades, refutando ou confirmando o tabagismo como o principal motor da epidemia de periodontite no mundo. Outros fatores etiológicos suspeitos da doença periodontal parecem contrariar as expectativas. Dois fatores causais suspeitos da doença periodontal, diabetes e obesidade, aumentados durante esta década, sugerem que a prevalência de bolsas periodontais e perda de inserção periodontal igualmente aumentariam. No entanto, a tendência oposta foi documentada. Hipóteses causais com base em dados agregados têm levado a conclusões equivocadas sobre temas como o consumo de açúcar e cáries dentárias; portanto, 179 http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/mm5644a2.htm deve-se ter cautela na geração de hipóteses sobre os principais impulsionadores da epidemia da doença periodontal com base em dados sucessivos da pesquisa nacional. Análises mais detalhadas do paciente em nível epidemiológico serão necessárias para explorar as respostas a perguntas tais como por que a prevalência da doença periodontal mensurada em termos de profundidade de bolsa periodontal e nível de inserção está diminuindo muito rapidamente. Entretanto, o que se pode concluir é que a prevalência de bolsas periodontais e a necessidade de tratamento periodontal foram contrárias ao previsto: a necessidade e a utilização atual de serviços parecem diminuir tão rapidamente como aprópria doença. Uma última nota de cautela deve ser considerada quando na interpretação destes dados de prevalência nacional. Seria errado sugerir que a pandemia de doenças dentárias foi dominada. Melhorias substanciais ocorreram em parâmetros inequívocos de sofrimento dentário, tais como o edentulismo. Entretanto, as doenças dentárias permanecem mais prevalentes do que a maioria das doenças sistêmicas crônicas e continuam sendo uma das condições crônicas mais caras a ser tratada. O custo- benefício da prevenção primária das doenças dentárias parece continuar sendo uma meta distante para a maioria das sociedades civilizadas. As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. 180 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Parte 3 Patologia Periodontal 181 Parte 3: Patologia Periodontal Fermin A. Carranza O conhecimento completo das mudanças teciduais microscópicas na doença é essencial para compreender a natureza biológica da resposta periodontal ao dano e à cicatrização. Esse conhecimento também propõe uma base indispensável para o entendimento e a interpretação dos achados clínicos e radiográficos encontrados nos pacientes odontológicos. Esta parte do texto fornece informação sobre as doenças gengivais (Seção I) e doenças periodontais (Seção II). A última seção também inclui capítulos com descrições detalhadas das diferentes doenças que podem afetar o periodonto. 182 Seção I Doença gengival 183 Capítulo 6 Mecanismos de Defesa da Gengiva Jaime Bulkacz, Fermin A. Carranza Sumário do capítulo FLUIDO SULCULAR Métodos de Coleta Permeabilidade dos Epitélios Sulcular e Juncional Quantidade Composição Atividades Celular e Humoral no Fluido Sulcular Gengival Implicação Clínica Drogas no Fluido Sulcular Gengival LEUCÓCITOS NA ÁREA DENTOGENGIVAL SALIVA Fatores Antibacterianos Anticorpos Salivares Enzimas Tampões Salivares e Fatores de Coagulação Leucócitos Papel na Patologia Periodontal Para consultar o material complementar, acesse o site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. O tecido gengival é constantemente submetido a agressões mecânicas e bacterianas. A saliva, a superfície epitelial e os estágios iniciais da resposta inflamatória fornecem resistência a essas ações. O Capítulo 2 revê o papel do epitélio, através do seu grau de queratinização e taxa de renovação. Este capítulo descreve a permeabilidade dos epitélios juncional e sulcular e o papel do fluido sulcular, leucócitos e saliva. Fluido sulcular 184 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult A presença de fluido sulcular, ou fluido sulcular gengival (FSG), é conhecida desde o século XIX, porém sua composição e um possível papel nos mecanismos de defesa oral foram elucidados pelos trabalhos pioneiros de Waerhaug122 e Brill e Krasse14 em 1950. Os últimos investigadores introduziram papel filtro no sulco gengival de cães que receberam injeção intramuscular prévia de fluoresceína; dentro de três minutos, o material fluorescente foi recuperado nas tiras de papel. Isso indicou a passagem do fluido da corrente sanguínea através dos tecidos e a saída via sulco gengival. Em estudos subsequentes, Brill11,12 confirmou a presença de FSG em humanos e o considerou um “transudato”. Contudo, outros73,123 demonstraram que o FSG é um exsudato inflamatório, não um transudato contínuo. Na gengiva estritamente normal, pouco ou nenhum fluido pode ser coletado. Mais recentemente, interesses no desenvolvimento de testes para a detecção ou predição da doença periodontal resultaram em numerosas pesquisas científicas sobre os componentes, origem e função do FSG. Métodos de Coleta O obstáculo mais difícil de transpor quando se coleta o FSG é a escassez de material que pode ser obtido do sulco. Muitos métodos de coleta foram testados.* Eles incluem o uso de tiras de papel absorvível, fios torcidos colocados sobre e dentro do sulco, micropipetas e lavagens intrassulculares. As tiras de papel absorvente são colocadas dentro do sulco (método intrassulcular) ou em sua entrada (método extrassulcular) (Fig. 6-1). A colocação da tira de papel filtro com relação ao sulco ou bolsa é importante. A técnica de Brill insere a tira dentro da bolsa até que seja encontrada resistência (Fig. 6-1, A). Esse método introduz um grau de irritação para o epitélio sulcular que pode, por si só, iniciar o fluxo de fluido. Figura 6-1 Colocação de uma tira de filtro no sulco gengival para coleta de fluido. A, Método intrassulcular. B e C, Métodos extrassulculares. Para minimizar tal irritação, Löe e Holm-Pedersen73 colocaram a tira de papel filtro logo na entrada da bolsa ou sobre a entrada da bolsa (Fig. 6-1, B e C). Desse modo, o fluido que escorre para fora é coletado pela tira, mas o epitélio sulcular não 185 entra em contato com o papel. Fios retorcidos previamente pesados foram usados por Weinstein et al.123 Os fios foram colocados no sulco gengival ao redor dos dentes e a quantidade de fluido coletado foi estimada pela pesagem do fio da coleta. O uso de micropipetas permite a coleta de fluido por capilaridade. Tubos capilares de comprimento e diâmetro padronizados são colocados na bolsa e seu conteúdo é posteriormente centrifugado e analisado.10,12,13 Lavagens sulculares podem ser usadas para estudar o FSG de gengivas clinicamente normais. Um método usa um aparelho que consiste em uma placa de acrílico resistente sobre a maxila com bordas suaves e um sulco seguindo as margens gengivais, que é conectado a quatro tubos de coleta. As lavagens são obtidas pelo enxágue das áreas sulculares de um lado ao outro, por meio de uma bomba peristáltica.21 Uma modificação do método anterior usa duas agulhas de injeção posicionadas uma dentro da outra, de modo que, durante a amostragem, a agulha de dentro (ejeção) está no fundo da bolsa e a de fora (de coleta) está na margem gengival. A agulha de coleta é drenada para um tubo de amostra por sucção contínua.101 Permeabilidade dos Epitélios Sulcular e Juncional Os estudos iniciais de Brill e Krasse14 com fluoresceína foram posteriormente confirmados com substâncias como tinta nanquim95 e sacarato de óxido de ferro.21 Substâncias que já demonstraram penetrar o epitélio sulcular incluem a albumina,94 endotoxina 93,98 timidina,49 histamina 28 fenitoína,114 e a enzima “Horseradish” peroxidase.79 Esses achados indicam a permeabilidade a substâncias com peso molecular de até 1.000 kD. Squier e Johnson113 revisaram os mecanismos de penetração através do epitélio intacto. O movimento intercelular das moléculas e íons através dos espaços intercelulares parece ser um possível mecanismo. Substâncias que fazem essa rota não atravessam as membranas celulares. Quantidade A quantidade de FSG coletada na tira de papel pode ser avaliada de diversas maneiras. A área molhada pode se tornar mais visível pela coloração com ninidrina e, então, ser medida planimetricamente em uma fotografia ampliada ou com uma lupa de aumento ou um microscópio. Um método eletrônico foi criado para medir o fluido coletado em uma tira de papel filtro (Periopaper), empregando um transdutor eletrônico (Periotron, Harco Electronics, Winnipeg, Manitoba, Canadá) (Fig. 6-2). A umidade da tira de papel 186 afeta o fluxo de uma corrente eletrônica e fornece uma leitura digital. A comparação com o método de coloração com ninidrina e o método eletrônico realizado in vitro revelou não haver diferenças significativas entre as duas técnicas.116 Figura 6-2 Aparelho eletrônico para mensuração da quantidade de fluido coletado em um papel filtro. A quantidade de FSG coletada é extremamente pequena. Medidas feitas por Cimasoni21 mostraram que uma tira de papel de 1,5 mm de espessura colocada a 1 mm dentro do sulco gengival de uma gengiva levemente inflamada absorve aproximadamente 0,1 mg de FSG em três minutos. Challacombe79 usou um método de diluição de isótopos para medir a quantidade de FSG presente em um espaço particular em dado momento. Seus cálculos em voluntários humanos com um índice gengival médio menor doRobert R. Azzi, DDS Assistant Clinical Professor, Department of Periodontics, University of Paris VII — School of Dentistry, Paris, France Janet G. Bauer, DDS, MSEd, MSPH, MBA Associate Professor, School of Restorative Dentistry, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California 19 John Beumer, DDS, MS Professor Emeritus, Division of Advanced Prosthodontics, Biomaterials, and Hospital Dentistry, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Mitchell J. Bloom, DMD Director, International Implant Dentistry Residency Program and Clinical Associate Professor Ashman Department of Periodontology & Implant Dentistry, New York University College of Dentistry, Private Practice, New York, New York Charbel Bou Serhal, DDS, MSD, PhD Consultant, Department of Periodontology, Catholic University of Leuven, Private Practice, Periodontology and Implantology, Leuven, Belgium Jaime Bulkacz, Dr Odont, PhD Lecturer, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Bobby Butler, DDS Private Practice, Seattle, Washington Paulo M. Camargo, DDS, MS, MBA Professor, Division of Associated Clinical Specialties, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Fermin A. Carranza, Dr Odont Professor Emeritus, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Ting-Ling Chang, DDS Clinical Professor and Chair, Section of Removable Prosthodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California 20 Sang-Choon Cho, DDS Assistant Clinical Professor, Associate Director of Clinical Research, Ashman Department of Periodontology and Implant Dentistry, New York University College of Dentistry, New York, New York Chih-Hung Chou, MS Center for Pharmacogenomics and Complex Disease Research Department of Oral Biology, New Jersey Dental School Department of Health Informatics, School of Health Related, Professions University of Medicine and Dentistry of New Jersey, Newark, New Jersey Sebastian G. Ciancio, DDS Distinguished Service Professor, Department of Periodontics and Endodontics, State University of New York – School of Dentistry, Buffalo, New York David L. Cochran, DDS, PhD Professor and Chair, Department of Periodontics, The University of Texas Health Science Center, San Antonio, Texas Joseph P. Cooney, BDS, MS Clinical Professor Emeritus, Restorative Dentistry, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California James J. Crall, DDS, ScD Professor, Pediatric Dentistry, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California J. David Cross, DDS Private Practice, Springfield, Illinois Jesica Dadamio, MSc Research Associate, Department of Periodontology, Catholic University of Leuven, School of Dentistry, Oral Pathology and Maxillofacial Surgery, Leuven, Belgium 21 Raymond R. Derycke, DScD Private Practice, Paris, France Scott R. Diehl, PhD Professor of Oral Biology, New Jersey Dental School Director, Center for Pharmacogenomics and Complex Disease Research Professor of Health Informatics, School of Health Related Professions University of Medicine and Dentistry of New Jersey, Newark, New Jersey Donald F. Duperon, DDS, MSc Professor Emeritus, Section of Pediatric Dentistry, University of California, Los Angeles School of Dentistry, Los Angeles, California Nicolas Elian, DDS Assistant Professor and Head of the Division of Implant Dentistry Ashman Department of Periodontology and Implant Dentistry, New York University College of Dentistry, New York, New York, Private Practice New Jersey Daniel H. Etienne, DDS, MS Department of Periodontology, Service of Odontology, Pitié-Salpêtrière Hospital, Denis Diderot University, UFR of Odontology, Paris, France Robert C. Fazio, DMD Associate Clinical Professor in Surgery, Yale Medical School, College of Medicine, New Haven, Connecticut, Private Practice, Norwalk, Connecticut Joseph P. Fiorellini, DMD, DMSc Professor and Chair, Department of Periodontics, University of Pennsylvania School of Dental Medicine, Philadelphia, Pennsylvania Jane L. Forrest, RDH, EdD Professor of Clinical Dentistry, Section Chair, Behavioral Science and Practice Management 22 Director, National Center for Dental Hygiene Research, Herman Ostrow School of Dentistry of USC, University of Southern California, Los Angeles, California Stuart J. Froum, DDS Clinical Professor and Director of Clinical Research Ashman Department of Periodontology and Implant Dentistry, New York University College of Dentistry, New York, New York Private Practice Periodontics and Implant Dentistry, New York, New York Scott H. Froum, DDS Clinical Assistant Professor, Ashman Department of Periodontology and Implant Dentistry, New York University, College of Dentistry, Private Practice Periodontics and Implant Dentistry, New York, New York Ying Gu, DDS, PhD Clinical Associate Professor, Department of General Dentistry, Stony Brook University, School of Dental Medicine, Stony Brook, New York Thomas J. Han, DDS, MS Adjunct Professor, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Gerald W. Harrington, DDS, MSD Professor Emeritus and Chair, Department of Endodontics, University of Washington, School of Dentistry, Seattle, Washington M. Cenk Haytac, PhD Professor, Cukurova University, Faculty of Dentistry, Department of Periodontology, Adana, Turkey James E. Hinrichs, BS, DDS, MS Professor and Director of Advanced Education in Periodontology Department of Developmental and Surgical Sciences, University of Minnesota, School of Dentistry, Minneapolis, Minnesota 23 Eva L. Hogan, MD, DDS, MS Lecturer, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Ching-Yu Huang, PhD Senior Computer Scientist, Center for Pharmacogenomics and Complex Disease Research Department of Oral Biology, New Jersey Dental School, University of Medicine and Dentistry of New Jersey, Newark, New Jersey Philippe P. Hujoel, PhD, DDS, MSD, MS Professor, Department of Public Health Sciences, University of Washington, School of Dentistry, Seattle, Washington Isao Ishikawa, DDS, PhD Professor, Section of Periodontology, Department of Hard Tissue Engineering, Tokyo Medical and Dental University, Tokyo, Japan Carol A. Jahn, RDH, MS Senior Professional Relations Manager, Water Pik, Inc, Warrenville Illinois Nick Jakubovics, BSc, PhD Lecturer in Oral Biology, Newcastle University, School of Dental Sciences, Newcastle upon Tyne, United Kingdom Brian P. Kamel, Esq Managing Partner, Kamel and Maxwell Attorneys at Law, Los Angeles, California Mo K. Kang, DDS, PhD Associate Professor and Chairman, Jack A. Weichman Endowed Chair, Section of Endodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Daniel W.K. Kao, DDS, MS, DMD Instructor, Department of Periodontics, University of Pennsylvania School of 24 Dental Medicine, Director, Predoctoral Periodontics, Philadelphia, Pennsylvania E. Barrie Kenney, DDS, MS Professor and Chairman, Tarsson Family Endowed Chair in Periodontics, Division of Associated Specialties, Section of Periodontics, University of California, School of Dentistry, Los Angeles, California David Kim, DDS, DMSc Assistant Professor, Oral Medicine, Infection, and Immunity, Director, Predoctoral Program in Periodontology, Harvard School of Dental Medicine, Boston, Massachusetts Geon U. Kim, DDS, MS Postgraduate Student in Implant Dentistry, Department of Periodontology and Implant Dentistry, New York University College of Dentistry, New York, New York Research and Lecture Coordinator, Vizstara and Vizstara Professional, Englewood Cliffs, New Jersey Keith L. Kirkwood, DDS, PhD Professorque 1 mostraram que o volume médio de FSG nos espaços proximais de dentes molares variou de 0,43 a 1,56 μl. Composição Os componentes do FSG podem ser caracterizados de acordo com as proteínas individuais,73,85,103 anticorpos específicos, antígenos,35,92 e enzimas de várias especificidades.15 O FSG também contém elementos celulares.28,31,124 Muito empenho em pesquisas tem sido feito na tentativa de usar os componentes do FSG para detectar ou diagnosticar doença ativa ou para predizer pacientes em risco para doença periodontal.2 Até agora, mais de 40 componentes encontrados no FSG foram analisados,89 porém suas origens não são conhecidas com exatidão. Esses compostos podem ser derivados do hospedeiro ou produzidos pelas bactérias no sulco 187 gengival, mas sua fonte pode ser difícil de ser elucidada; exemplos incluem a β- glicoronidase, uma enzima lisossômica, e a desidrogenase ácida lática, uma enzima citoplasmática. A fonte para colagenases podem ser fibroblastos ou leucócitos polimorfonucleares (PMNs, neutrófilos),87 ou colagenases podem ser secretadas pelas bactérias.35 As fosfolipases são enzimas lisossômicas e citoplasmáticas, mas também produzidas por microrganismos.15 A maioria dos elementos do FSG detectados até hoje foram enzimas, embora haja igualmente substâncias não enzimáticas. Elementos Celulares Os elementos celulares encontrados no FSG incluem bactérias, células epiteliais descamadas e leucócitos (PMNs, linfócitos, monócitos/macrófagos), que migram através do epitélio sulcular.28,31 Eletrólitos Potássio, sódio e cálcio foram estudados no FSG. A maioria dos estudos demonstrou uma correlação positiva entre as concentrações de sódio e cálcio, e a razão entre sódio/potássio com a inflamação.56-58 (Para mais informações, veja referências 12 e 13 e Quadro 6-2.) Compostos Orgânicos Tanto carboidratos quanto proteínas foram investigados. A hexosaminaglicose e o ácido hexurônico são dois dos compostos encontrados no FSG. 47 Os níveis sanguíneos de glicose não se correlacionam com os níveis de glicose no FSG; a concentração no FSG é três a quatro vezes maior do que no soro.47 Isso é interpretado não somente como resultado da atividade metabólica dos tecidos adjacentes, mas também como uma função da microbiota local. O conteúdo proteico total do FSG é bem menor do que o do soro.13,14 Não foram encontradas correlações significativas entre a concentração de proteínas no FSG e a gravidade da gengivite, profundidade da bolsa ou extensão da perda óssea.7 Produtos metabólicos e bacterianos identificados no FSG incluem ácido lático,48 ureia,42 hidroxiprolina,91 endotoxinas,109 substâncias citotóxicas, sulfato de hidrogênio112 e fatores antibacterianos.27 Muitas enzimas também foram identificadas (Quadros 6-1 e 6-2). QUADRO 6-1 Enzimas e Outros Compostos Reportados no Fluido Sulcular Gengival* Fosfatase ácida46 Fosfatase alcalina38,39 188 α1-Antitripsina2 Arilsulfatase27 Aspartato aminotransferase27 Catelicidina LL-3740 Alanina aminotransferase49 Condroitina sulfatase48 Ácido cítrico33 Cistatinas21 Citocinas (interleucinas)13,24,35,41,50,54 IL-1α IL-1β IL-4, IL-6 e IL-8 IL-11 e IL-12 IF-Gama50 Endopeptidases: Catepsina D22 Catepsina B/L15 Catepsina G14,15 Cathepsin K34 Elastase14,15 Ativador de plasminogênio5 Colagenase16,32 Enzima semelhante à triptase15 Enzima semelhante à tripsina15 Enzima semelhante à dipeptidilpeptidase IV15 Inibidor de elastase-α1-proteinase20 Exopeptidases45 Fibrina47 Fibronectina47 β-Glucoronidase29,30 Glicosidases3,48 α1-Fucosidase 189 Sialidase β-N-acetilglicosaminidase β-Galactosidase β-Manosidase Hialuronidase51 Imunoglobulinas (IgG, IgA, IgG4, IgM)18 Lactato desidrogenase27 Lactoferrina22 Ácido lático31 Lisozima31 α2-Macroglobulinas2 Medulasina30 (encontrada na medula óssea) Metaloproteinase42 Mieloperoxidase26 Prostaglandina E2 (PGE2)30,37 Transferrina2 Tromboxano30,37 * As referências deste quadro estão disponíveis no site como mencionado no fim do capítulo. QUADRO 6-2 Compostos e Enzimas (Produtos) de Possível Origem Bacteriana Detectados no Fluido Sulcular Gengival* Fosfatase ácida43,44 Fosfatase alcalina39 Aminopeptidases39 Condroitina sulfatase52 Produto semelhante à quimotripsina53 Colagenase18 Desoxirribonuclease (DNase)43 Enzima semelhante a dipeptidilaminopeptidase IV1 Fibrinolisina15,36 Glicosidases43 190 Hemolisina12 Hialuronidase52 Iminopeptidases4 Iminoglobulinases20,27 β-Lactamase43,44 Lisofosfolipase6,8 Fosfolipase A6,9 Fosfolipase C7,10 Produto semelhante à prostaglandina11 Enzima semelhante à tripsina43,44 * As referências deste quadro estão disponíveis no site como mencionado no fim do capítulo. A metodologia usada para análise dos componentes do FSG é tão variada quanto à diversidade desses componentes. Exemplos incluem a fluorometria para detecção de metaloproteinases;28 ensaio de imunossorvente ligado à enzima (ELISA) para detectar níveis de enzima e interleucina-1 beta (IL-1β);71 radioimunoensaios para detecção de derivados da ciclooxigenase86 e pró-colágeno III117; cromatografia líquida de alta performance (HPLC) para detectar timidazol;67 e testes de immunodot diretos e indiretos para detecção de proteínas de fase aguda.108 Atividades Celular e Humoral no Fluido Sulcular Gengival A monitoração da doença periodontal é uma tarefa complicada porque poucos procedimentos não invasivos podem acompanhar o início e a progressão da doença. Análises dos constituintes do FSG na saúde e na doença podem ser extremamente úteis devido à simplicidade do FSG e devido ao FSG poder ser obtido por métodos não invasivos. As análises do FSG identificaram respostas celulares e humorais tanto em indivíduos saudáveis quanto naqueles com doença periodontal.64 A resposta imunecelular inclui o surgimento de citocinas no FSG (Quadro 6-1), porém não há evidência clara a respeito de uma relação entre citocinas e doença. Contudo, a interleucina-1 alfa (IL-1α) e a IL-1β são conhecidas por aumentar a ligação dos PMNs e monócitos/macrófagos às células endoteliais, estimular a produção de prostaglandina E2 (PGE2) e liberar enzimas lisossômicas, e, ainda, estimular a reabsorção óssea.68 Evidências preliminares também indicam a presença de interferon-α no FSG,64 que pode possuir um papel protetor na doença periodontal 191 devido à sua habilidade de inibir a atividade de reabsorção óssea da IL-1β.44 Como a quantidade de fluido recuperável do sulco gengival é pequena, somente a aplicação de imunoensaios muito sensíveis permite a análise da especificidade dos anticorpos.27 Um estudo comparando anticorpos em diferentes sulcos com anticorpos séricos direcionados a microrganismos específicos não forneceu evidências conclusivas sobre o significado da presença de anticorpos no FSG na doença periodontal.64 Apesar de o papel dos anticorpos nos mecanismos de defesa gengival ser difícil de determinar, o consenso é de que, em um paciente com doença periodontal, (1) uma redução na resposta por anticorpos é prejudicial e (2) uma resposta por anticorpos possui papel protetor.65 Implicação Clínica Como mencionado anteriormente, o FSG é um exsudato inflamatório.73 Sua presença no sulco clinicamente normal pode ser explicada devido ao fato de que a gengiva que parece clinicamente normal invariavelmente exibe inflamação quando examinada microscopicamente. A quantidade de FSG é maior quando há inflamação presente34,106 e, algumas vezes, é proporcional à gravidade da inflamação.88 A produção de FSG não aumenta pelo trauma devido à oclusão,78 contudo, aumenta pela mastigação de alimentos duros, escovação dental e massagem gengival, ovulação.71 contraceptivos hormonais70 e tabagismo.80 Outros fatores que influenciam a quantidade de FSG são a periodicidade circadiana e terapia periodontal. Periodicidade Circadiana Há um aumento gradual na quantidade de FSG de 6h da manhã às 22h e diminuição após este período9. Hormônios Sexuais Os hormônios sexuais femininos aumentam o fluxo do FSG, provavelmenteporque aumentam a permeabilidade vascular.68 Gravidez, ovulação67 e contraceptivos hormonais69 aumentam a produção de fluido gengival. Estimulação Mecânica A mastigação12 e escovação gengival vigorosa estimulam o fluxo de FSG. Até o menor dos estímulos, representado pela colocação intrassulcular de tiras de papel, aumenta a produção de fluido. Tabagismo 192 O ato de fumar produz um aumento transitório imediato, porém marcante, no fluxo de FSG.80 Tratamento Periodontal Há um aumento na produção de FSG durante o período de cicatrização após uma cirurgia periodontal.3 Drogas no Fluido Sulcular Gengival Drogas excretadas através do FSG podem ser usadas de forma proveitosa na terapia periodontal. Bader e Goldhaber6 demonstraram em cachorros que as tetraciclinas são excretadas através do FSG; este achado deu início a pesquisas extensas que mostraram uma concentração de tetraciclinas no FSG comparável à do soro.43 O metronidazol é outro antibiótico detectado no FSG de humanos32 (Cap. 47). Leucócitos na área dentogengival Os leucócitos foram encontrados no sulco de gengivas clinicamente saudáveis em humanos e em animais experimentais. Os leucócitos encontrados são predominantemente PMNs. Aparecem em pequenos números extravascularmente no tecido conjuntivo adjacente ao fundo do sulco; nesse ponto, eles atravessam o epitélio18,45 em direção ao sulco gengival, onde são expelidos (Figs. 6-3 e 6-4). Figura 6-3 Vista por microscopia eletrônica de varredura da parede da bolsa periodontal. Diversos leucócitos estão emergindo (setas retas), sendo que alguns parcialmente cobertos por bactérias (seta curva). Os orifícios vazios correspondem aos canais através dos quais os leucócitos emergiram. 193 Figura 6-4 Vista por microscopia eletrônica de varredura em um aumento maior do que o da Figura 6.3. Um leucócito emergindo da parede da bolsa está coberto por bactérias (setas pequenas). A seta grande e curvada aponta para um vacúolo fagossômico através do qual a bactéria está sendo fagocitada. Os leucócitos estão presentes no sulco mesmo quando cortes histológicos de tecidos adjacentes não apresentam infiltrado inflamatório. Contagens diferenciais de leucócitos de sulcos gengivais humanos clinicamente saudáveis mostraram de 91,2% a 91,5% de PMNs e 8,5% a 8,8% de células mononucleares.111,125 As células mononucleares foram identificadas como sendo 58% de linfócitos B, 24% de linfócitos T e 18% de fagócitos mononucleares. Foi encontrado que a proporção de linfócitos T com relação aos linfócitos B estava invertida, quando comparada à razão normal de 3:1 encontrada no sangue periférico, sendo de aproximadamente 1:3 no FSG.125 Os leucócitos são atraídos por diferentes bactérias do biofilme dental,54,124 mas também podem ser encontrados na região dentogengival de animais adultos livres de germes.74,100 Foram encontrados leucócitos no sulco gengival de gengiva saudável não irritada mecanicamente (gengiva em repouso), indicando que sua migração pode ser independente de um aumento na permeabilidade vascular.5 A maioria dessas células é viável e possui capacidade fagocítica e de destruição.62,90,96 Portanto, os leucócitos constituem o principal mecanismo de proteção contra a extensão do biofilme dental em direção ao sulco gengival. Os leucócitos também são encontrados na saliva (veja discussão a seguir). A principal porta de entrada de leucócitos na cavidade oral é o sulco gengival.104 Saliva As secreções salivares são protetoras por natureza, pois mantêm os tecidos orais em um estado fisiológico (Tabela 6-1). A saliva exerce grande influência sobre a placa 194 por meio da limpeza mecânica das superfícies orais expostas, através do tamponamento de ácidos produzidos por bactérias, e pelo controle da atividade bacteriana. Tabela 6-1 Papel da Saliva na Saúde Oral Função Componentes Salivares Mecanismo Provável Lubrificação Glicoproteínas, mucoides Recobrimento similar à mucina gástrica Proteção física Glicoproteínas, mucoides Recobrimento similar à mucina gástrica Limpeza Fluxo físico Remoção de resíduos e bactérias Tamponamento Bicarbonato e fosfato Antiácidos Manutenção da integridade do dente Minerais Maturação, remineralização Película de glicoproteína Proteção mecânica Ação antibacteriana Imunoglobulina A Controle da colonização bacteriana Lisozima Quebra das paredes celulares bacterianas Lactoperoxidase Oxidação de bactérias suscetíveis Fatores Antibacterianos A saliva contém numerosos fatores inorgânicos e orgânicos que influenciam as bactérias e seus produtos no ambiente oral. Os fatores inorgânicos incluem íons e gases, bicarbonato, sódio, potássio, fosfatos, cálcio, fluoretos, amônio e dióxido de carbono. Os fatores orgânicos incluem lisozima, lactoferrina, mieloperoxidase, lactoperoxidase e aglutininas como as glicoproteínas, mucinas, β2-macroglobulinas, fibronectina117 e anticorpos. A lisozima é uma enzima hidrolítica que cliva, in vitro, a ligação entre os componentes estruturais do glicopeptídeo ácido murâmico contido na parede celular de algumas bactérias. Ela age tanto em organismos Gram-negativos quanto em Gram- positivos; 50 seus alvos incluem espécies de Veillonella e Aggregatibacter actinomycetemcomitans. Provavelmente, repele certos invasores transitórios da boca.53 Transferência científica Os clínicos precisam estar atentos quanto aos mecanismos de defesa da gengiva porque o tratamento odontológico pode prejudicar as defesas gengivais. O rompimento do epitélio sulcular pode ocorrer durante procedimentos de rotina como raspagem e tratamento restaurador que envolvam a região subgengival, resultando em aumento do risco à inflamação uma vez que bactérias e seus produtos entram em contato direto com o tecido conjuntivo subjacente. Os epitélios juncional e sulcular 195 possuem capacidade de cicatrizar e formar novamente uma barreira entre sete a 10 dias e, durante esse período, o controle de placa deve ser bem executado para reduzir o risco de iniciar o dano ao periodonto. O uso de técnicas minimamente traumáticas também é importante. O tabagismo pode diminuir a defesa da gengiva por prejudicar o funcionamento de leucócitos polimorfonucleares nesse tecido. Além disso, os fumantes frequentemente apresentam menores inflamação gengival e sangramento à sondagem que os pacientes não fumantes com a mesma quantidade de perda de inserção periodontal. Assim, os pacientes tabagistas deveriam estar sob cuidadoso acompanhamento para alterações na profundidade de bolsa e deveriam receber tratamento periodontal agressivo. O sistema lactoperoxidase-tiocianato da saliva mostrou ser bactericida para algumas cepas de Lactobacillus e Streptococcus82,99 através da prevenção do acúmulo de lisina e ácido glutâmico, ambos essenciais para o crescimento bacteriano. Outro achado antibacteriano é a lactoferrina, que é efetiva contra espécies de Actinobacillus.55 A mieloperoxidase, uma enzima similar à peroxidase salivar, é liberada por leucócitos e é bactericida para Actinobacillus,81 porém possui o efeito adicional de inibir a ligação de cepas de Actinomyces à hidroxiapatita.16 Anticorpos Salivares Como ocorre com o FSG, a saliva contém anticorpos reativos a espécies de bactérias orais indígenas. Apesar de as imunoglobulinas G (IgG) e M (IgM) estarem presentes, a imunoglobulina preponderante encontrada na saliva é a imunoglobulina A (IgA). Contudo, a IgG é a mais prevalente no FSG.115 As glândulas salivares maiores e menores contribuem com toda a IgA secretória (sIgA) e com quantidades menores de IgG e IgM. O FSG contribui com a maior parte de IgG, complemento e PMNs, que, em conjunção com a IgG ou IgM, inativam ou opsonizam as bactérias. Os anticorpos salivares parecem ser sintetizados localmente, pois reagem com cepas de bactérias indígenas da boca, mas não com organismos característicos do trato intestinal.36,38 Foi demonstrado que muitas bactérias encontradas na saliva estavam recobertas com IgA, e os depósitos bacterianos nos dentes contêm tanto IgA quanto IgG em quantidades maioresdo que 1% do seu peso seco.37 Mostrou-se que os anticorpos IgA presentes na saliva da parótida podem inibir a adesão de espécies de Streptococcus orais a células epiteliais.33,122 Gibbons et al.36-38 sugeriram que os anticorpos nas secreções podem impedir a habilidade das bactérias de se ligar às superfícies mucosas ou dentais. Enzimas As enzimas normalmente encontradas na saliva são derivadas de glândulas salivares, 196 bactérias, leucócitos, tecidos orais e substâncias ingeridas; a enzima principal é a amilase da parótida. Algumas enzimas salivares foram encontradas em concentrações aumentadas na doença periodontal: a hialuronidase e lipase,17 β-glicoronidase e condroitina sulfatase,41 aspartato aminotransferase e fosfatase alcalina,119 aminoácido descarboxilases,41 catalase, peroxidase e colagenase.60 Enzimas proteolíticas na saliva são geradas tanto pelo hospedeiro quanto por bactérias orais. Essas enzimas foram reconhecidas como contribuintes para o início e a progressão da doença periodontal.49,77 Para combater essas enzimas, a saliva contém antiproteases que inibem as cisteinaproteases, como as catepsinas,51 e antileucoproteases que inibem a elastase.87 Outra antiprotease, identificada como inibidora tecidual da metaloproteinase de matriz (TIMP), mostrou inibir a atividade de enzimas degradadoras de colágenos.26 Glicoproteínas mucinosas de alto peso molecular da saliva ligam-se especificamente a muitas bactérias formadoras da placa. As interações entre glicoproteínas e bactérias facilitam o acúmulo bacteriano na superfície dentária exposta.33,36-38,124 A especificidade dessas interações já foi demonstrada. A matriz interbacteriana da placa humana parece conter polímeros similares a glicoproteínas salivares que podem ajudar na manutenção da integridade da placa. Além disso, essas glicoproteínas adsorvem seletivamente a hidroxiapatita para fazer parte da película adquirida. Outras glicoproteínas salivares inibem a absorção de algumas bactérias à superfície do dente e a células epiteliais da mucosa oral. Essa atividade parece estar associada a glicoproteínas que possuem reatividade a grupos sanguíneos.1,33,36,38,122 Outro efeito da mucina é a eliminação das células bacterianas da cavidade oral pela agregação a filmes ricos em mucina. As glicoproteínas e os glicolipídios presentes nas superfícies celulares de mamíferos parecem servir de receptores para a adesão de alguns vírus e bactérias. Portanto, a íntima similaridade entre glicoproteínas das secreções salivares e componentes da superfície celular epitelial sugere que as secreções podem, competitivamente, inibir a absorção de antígenos e, assim, limitar as alterações patológicas. Tampões Salivares e Fatores de Coagulação A manutenção da concentração fisiológica do íon hidrogênio (pH) na superfície celular epitelial mucosa e na superfície do dente é uma função importante dos tampões salivares. Seu efeito primário foi estudado com relação às cáries dentais. Na saliva, o tampão salivar mais importante é o sistema bicarbonato-ácido carbônico.76 A saliva também contém fatores de coagulação (fatores VIII, IX e X; antecedente da tromboplastina do plasma [PTA]; fator de Hageman) que aceleram a coagulação do sangue e protegem as feridas da invasão bacteriana.66 Uma enzima fibrinolítica 197 ativa também pode estar presente. Leucócitos Além das células epiteliais descamadas, a saliva contém todas as formas de leucócitos, dentre os quais as células principais são os PMNs. O número de PMNs varia de pessoa para pessoa em diferentes momentos do dia e está aumentado na gengivite. Os PMNs alcançam a cavidade oral através da migração pelo revestimento do sulco gengival. PMNs vivos na saliva são, algumas vezes, denominados orogranulócitos e sua taxa de migração para a cavidade oral é conhecida como taxa migratória de orogranulócitos. Alguns investigadores acreditam que a taxa de migração se correlaciona com a gravidade da inflamação gengival e é, portanto, um índice confiável para avaliar a gengivite.111 Papel na Patologia Periodontal A saliva exerce uma grande influência no início, na maturação e no metabolismo da placa. O fluxo e a composição salivares também influenciam a formação do cálculo, da doença periodontal e da cárie. A remoção das glândulas salivares em animais experimentais aumenta significativamente a incidência de cárie dental39 e de doença periodontal46 e atrasa a cicatrização de feridas.107 Em humanos, um aumento da doença inflamatória gengival, da cárie dental e da rápida destruição dentária rápida associada a cáries cervicais e cementárias é parcialmente consequência da diminuição na secreção das glândulas salivares (xerostomia). A xerostomia pode resultar de sialolitíase, sarcoidose, síndrome de Sjögren, doença de Mikulicz, irradiação, remoção cirúrgica das glândulas salivares e outros fatores (Caps. 37 e 39). As referências bibliográficas estão disponíveis no site www.elsevier.com.br/odontoconsult. * Referências 10, 13, 59, 63, 75, 76, 101. 198 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Capítulo 7 Inflamação Gengival Joseph P. Fiorellini, David M. Kim, N. Guzin Uzel Sumário do capítulo GENGIVITE ESTÁGIO I: A LESÃO INICIAL GENGIVITE ESTÁGIO II: A LESÃO PRECOCE GENGIVITE ESTÁGIO III: A LESÃO ESTABELECIDA GENGIVITE ESTÁGIO IV: A LESÃO AVANÇADA Para consultar o material complementar, acesse o site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. As mudanças patológicas na gengivite estão associadas à presença de microrganismos orais aderidos ao dente e, talvez, no sulco gengival ou próximo a ele. Esses organismos são capazes de sintetizar produtos (p. ex., colagenase, hialuronidase, protease, condroitina sulfatase e endotoxina) que causam danos às células do epitélio e do tecido conjuntivo, assim como aos constituintes intercelulares, como o colágeno, substância fundamental, e o glicocálice (revestimento celular). O espessamento resultante dos espaços entre as células epiteliais juncionais durante a gengivite precoce pode permitir que os agentes deletérios derivados das bactérias, ou que as próprias bactérias, ganhem acesso ao tecido conjuntivo.10,48,52,10 Os produtos microbianos ativam os monócitos/macrófagos para produzir substâncias vasoativas como a prostaglandina E2 (PGE2), interferon (IFN), fator de necrose tumoral (TNF) e interleucina-1 (IL-1).25,38 Além disso, IL-1β altera as propriedades dos fibroblastos gengivais por retardar sua morte via um mecanismo de bloqueio de apoptose. Isso estabiliza a população de fibroblastos gengivais na inflamação.58 Mudanças morfológicas e funcionais na gengiva durante o acúmulo de placa foram extensivamente investigadas, especialmente em cães beagle e em humanos.39 Uma estrutura útil para a organização e consideração desses dados foi planejada com base nas características histopatológicas, radiográficas e ultraestruturais e nas medidas biomecânicas.40,42 A sequência de eventos que resultam em gengivite clinicamente aparente é categorizada nos estágios inicial, precoce e estabelecido, com a 199 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult periodontite designada como estágio avançado41 (Tabela 7-1). Um estágio evolui para o próximo, sem linhas divisórias de corte claras. Tabela 7-1 Estágios da Gengivite Apesar das extensas pesquisas, ainda não podemos distinguir definitivamente entre o tecido gengival normal e o estágio inicial da gengivite.39 A maioria das biópsias feitas em gengiva humana clinicamente normal contém células inflamatórias que consistem predominantemente de células T, com raras células B ou plasmócitos39,53,54 Essas células não geram dano tecidual, porém, parecem ser importantes na resposta diária do hospedeiro a bactérias e outras substâncias às quais a gengiva está exposta.39 Portanto, sob condições normais, um fluxo contínuo de neutrófilos está migrando dos vasos do plexo gengival, através do epitélio juncional, para a gengiva marginal, e para dentro do sulco gengival e da cavidade oral.46 Gengivite estágio i: a lesão inicial As primeiras manifestações deinflamação gengival são alterações vasculares consistindo de capilares dilatados e aumento do fluxo sanguíneo. Essas mudanças inflamatórias iniciais ocorrem em resposta à ativação microbiana de leucócitos residentes e à estimulação subsequente de células endoteliais. Clinicamente, essa resposta inicial da gengiva à placa bacteriana. (gengivite subclínica28) não é aparente. Microscopicamente, algumas características clássicas de inflamação aguda podem ser vistas no tecido conjuntivo sob o epitélio juncional. Mudanças nas características morfológicas dos vasos sanguíneos (p. ex., aumento de pequenos capilares ou vênulas) e aderência de neutrófilos às paredes dos vasos (marginalização) ocorrem dentro de uma semana e, algumas vezes, tão precocemente quanto dois dias após ser permitido o acúmulo de placa19,44 (Fig. 7-1). Os leucócitos, principalmente leucócitos polimorfonucleares (PMNs), deixam os capilares pela migração através das paredes (diapedese, emigração)27,54,55 (Fig. 7-2). Eles podem ser vistos em quantidades aumentadas no tecido 200 conjuntivo, no epitélio juncional e no sulco gengival* (Figs. 7-3 e 7-4). A exsudação de fluido do sulco gengival19 e proteínas extravasculares estão presentes.21,22 Figura 7-1 Amostra de biópsia humana exibindo gengivite experimental. Após quatro dias de acúmulo de placa, os vasos sanguíneos imediatamente adjacentes ao epitélio juncional estão distendidos e contêm leucócitos polimorfonucleares (PMNs, neutrófilos). Os neutrófilos também migraram por entre as células do epitélio juncional(EJ). ESO, Epitélio sulcular oral. (Aumento 500 ×). (De Payne WA, Page RC, Ogilvie, AL, et al: J Periodontal Res 10:51, 1975.) Figura 7-2 Amostra de biópsia humana exibindo gengivite experimental. A, Espécime controle de biópsia de um paciente com boa higiene oral e acúmulo de placa indetectável. O epitélio juncional está à esquerda. O tecido conjuntivo (CT) mostra poucas células além dos fibroblastos, vasos sanguíneos e uma densa matriz de fibras colágenas (500 ×). B, Espécime de biópsia realizada oito dias após o acúmulo de placa. O tecido conjuntivo está infiltrado por células inflamatórias, que deslocam as fibras colágenas. Um vaso sanguíneo distendido (V) é visto no centro (500 × ). C, 201 Após oito dias de acúmulo de placa, o tecido conjuntivo próximo ao epitélio juncional na base do sulco mostra um infiltrado de células mononucleares e evidência de degeneração de colágeno (espaços claros ao redor do infiltrado celular) (500 ×). D, O infiltrado de células inflamatórias em maior aumento. Após oito dias de acúmulo de placa, numerosos linfócitos pequenos (SL) e de tamanho médio (ML) são vistos dentro do tecido conjuntivo. A maioria das fibras colágenas ao redor dessas células desapareceu, presumivelmente como resultado da digestão enzimática (1.250 ×). (De Payne, WA, Page RC, Ogilvie AL, et al: J Periodontal Res 10:51, 1975.) Figura 7-3 Micrografia eletrônica de varredura mostrando um leucócito atravessando a parede do vaso para entrar no tecido conjuntivo gengival. Figura 7-4 Lesão precoce de gengivite humana. Área de lâmina própria subjacente ao epitélio sulcular mostra um capilar com vários linfócitos extravasculares e um linfócito dentro do lúmen. O espécime também exibe considerável perda da densidade de colágeno perivascular (2.500 ×). (Cortesia de Dr. Charles Cobb, Kansas City, Mo.) * Referências 2, 3, 26, 37, 44, 49, 50. 202 No entanto, esses achados não estão acompanhados por manifestações de danos teciduais perceptíveis ao microscópio ótico ou ao nível ultraestrutural; eles não formam um infiltrado e sua presença não é considerada como um indicador de alteração patológica.39 Transferência Científica A lesão inicial de gengivite é caracterizada por inflamação aguda com vasodilatação, edema e acúmulo de leucócitos polimorfonucleares. Ocorre também ulceração do epitélio sulcular de modo que o sangramento à sondagem é observado. Em alguns pacientes, isso é observado precocemente, em até dois dias de acúmulo de placa bacteriana, e pode ser tratado com sucesso pela remoção de placa e cálculo. O acúmulo de placa é, então, controlado por meio da higiene oral e de sete a 10 dias a gengiva retorna ao estado saudável. Quando a gengivite está estabelecida, a resposta aguda inicial é acompanhada por inflamação crônica com ênfase ao acúmulo de linfócitos e plasmócitos, à proliferação de capilares e destruição de colágeno. Esse processo também pode ser inicialmente revertido com terapia, mas será necessário um período mais longo para que o tecido gengival retorne ao estado saudável e as fibras colágenas perdidas sejam recuperadas. Em alguns pacientes, a gengivite precede a periodontite, que é muito mais difícil de ser tratada. Portanto, os clínicos devem estar atentos para diagnosticar os estágios iniciais de gengivite e realizar um tratamento efetivo, associado ao acompanhamento e tratamento contínuos como parte do protocolo de reavaliações. Alterações sutis também podem ser detectadas no epitélio juncional e no tecido conjuntivo perivascular nesse estágio inicial. Por exemplo: a matriz de tecido conjuntivo perivascular torna-se alterada e há exsudação e deposição de fibrina na área afetada.39 Além disso, os linfócitos logo começam a acumular (Fig. 7-2, D). O aumento na migração de leucócitos e seu acúmulo dentro do sulco gengival podem ser correlacionados com um aumento no fluxo de fluido gengival dentro do sulco.4 O caráter e a intensidade da resposta do hospedeiro determinam se essa lesão inicial se resolve rapidamente, com a restauração do tecido a um estado normal, ou evolui para uma lesão inflamatória crônica. Se esta última ocorrer, um infiltrado de macrófagos e células linfoides aparece dentro de poucos dias. Gengivite estágio ii: a lesão precoce A lesão precoce evolui da lesão inicial dentro de aproximadamente uma semana após o início do acúmulo da placa.38,44 Clinicamente, a lesão precoce pode aparecer como gengivite precoce, se sobrepondo à lesão inicial e evoluindo a partir dela sem uma linha divisória definida. Com o passar do tempo, sinais clínicos de eritema podem 203 aparecer, principalmente devido à proliferação de capilares e à formação aumentada de alças de capilares entre as projeções ou pontes conjuntivas ou saliências (Fig. 7-5). O sangramento à sondagem também pode ser evidente.1 O fluxo do fluido gengival flui e o número de leucócitos transmigrando atinge seu máximo em seis a 12 dias após o início da gengivite clínica.28 Figura 7-5 Gengivite marginal e contorno gengival irregular. O exame microscópico da gengiva revela um infiltrado leucocitário no tecido conjuntivo sob o epitélio juncional, consistindo principalmente de linfócitos (75%, sendo a maior parte células T),44,51 mas também composto de alguns neutrófilos em migração, assim como macrófagos, plasmócitos e mastócitos. Todas as alterações vistas na lesão inicial continuam a se intensificar com a lesão precoce .16,30,32,38,51 O epitélio juncional torna-se densamente infiltrado por neutrófilos, assim como o sulco gengival, e o epitélio juncional pode começar a desenvolver projeções ou pontes conjuntivas. A quantidade de destruição de colágeno aumenta,12,51 70% dele é extinto ao redor do infiltrado celular. Os principais grupos de fibras afetadas parecem ser o conjuntivo de fibras circulares e dentogengivais. Alterações nas características morfológicas dos vasos e no padrão do leito vascular também foram descritas.19,20 Os leucócitos polimorfonucleares (PMNs) que deixaram os vasos sanguíneos em resposta ao estímulo quimiotático dos componentes da placa viajam para o epitélio, atravessam a lâmina basal e são encontrados no epitélio, emergindo nas áreas de bolsa (Fig. 7-3). Os PMNs são atraídos para as bactérias e as englobam no processo de fagocitose (Fig. 7-6). Os PMNs liberam seus lisossomos em associação à ingestão das bactérias.24 Os fibroblastos demonstram alterações citotóxicas,43 com uma capacidade diminuída para produção de colágeno. 204 Figura7-6 Micrografia eletrônica de varredura de leucócito emergindo para a parede da bolsa e coberto com bactérias e lisossomos extracelulares. EC, Células epiteliais; B, bactéria; L, lisossomos. Enquanto isso, no lado oposto aos eventos moleculares, a degradação de colágeno está relacionada às metaloproteinases da matriz (MMPs). Diversas MMPs são responsáveis pelo remodelamento da matriz extracelular dentro de sete dias da inflamação que está diretamente relacionada com a produção e ativação MMP-2 e MMP-9.58 Gengivite estágio iii: a lesão estabelecida Com o tempo, a lesão estabelecida se desenvolve, caracterizada por uma predominância de plasmócitos e linfócitos B e provavelmente em conjunção com a criação de uma pequena bolsa gengival alinhada com o epitélio da bolsa.50 As células B encontradas na lesão estabelecida são predominantemente das subclasses de imunoglobulinas G1 (IgG1) e G3 (IgG3).39 Na gengivite crônica, que ocorre em duas a três semanas após o início do acúmulo de placa, os vasos sanguíneos tornam-se obstruídos e congestionados, o retorno venoso está impedido e o fluxo sanguíneo fica lento (Fig. 7-7). O resultado é anoxemia gengival localizada, que se sobrepõe como uma coloração azulada à gengiva avermelhada.18 O extravasamento de eritrócitos no tecido conjuntivo e a degradação da hemoglobina em seus componentes pigmentados podem, também, intensificar a cor da gengiva clinicamente inflamada. A lesão estabelecida pode ser descrita como uma gengiva moderada a gravemente inflamada. 205 Figura 7-7 Placa supragengival marginal e gengivite. Nos cortes histológicos, uma reação inflamatória crônica e intensa é observada. Diversos estudos citológicos detalhados já foram realizados na gengiva cronicamente inflamada.* Uma característica- chave que diferencia a lesão estabelecida é o aumento no número de plasmócitos, que se tornam o tipo de célula inflamatória preponderante. Os plasmócitos invadem o tecido conjuntivo não somente logo abaixo do epitélio juncional, mas também profundamente, ao redor dos vasos sanguíneos e entre os feixes de fibras colágenas.6 O epitélio juncional revela um espaço intercelular alargado, preenchido por resíduos de células granulares, incluindo lisossomos derivados dos neutrófilos, linfócitos e monócitos rompidos (Fig. 7-8). Os lisossomos contêm hidrolases ácidas que podem destruir o componente tecidual. O epitélio juncional desenvolve projeções ou pontes que se projetam para dentro do tecido conjuntivo, e a lâmina basal é destruída em algumas áreas. No tecido conjuntivo, as fibras colágenas estão destruídas ao redor do infiltrado de plasmócitos intactos e rompidos, neutrófilos, linfócitos, monócitos e mastócitos (Fig. 7-9). Figura 7-8 Gengivite estabelecida em ser humano. Área de epitélio sulcular exibindo espaços intercelulares alargados com numerosas microvilosidades e junções desmossômicas. Vários linfócitos, tanto pequenos quanto grandes, são vistos migrando através da camada epitelial (3.000 ×). 206 Figura 7-9 Gengivite avançada em um humano. Espécime da lâmina própria exibindo degeneração de plasmócitos, com resíduos celulares abundantes visíveis (3.000 ×). (Cortesia de Dr. Charles Cobb, Kansas City, Mo.) * Referências 13, 15, 16, 43, 50, 53, 57. Acredita-se que a predominância de plasmócitos é uma característica primária da lesão estabelecida. Contudo, vários estudos de gengivite experimental em humanos falharam em demonstrar a predominância de plasmócitos nos tecidos conjuntivos afetados,7,8,53 incluindo um estudo de seis meses de duração.1 Aumentos nas proporções de plasmócitos foram evidentes com a gengivite de longo prazo, mas o tempo para o desenvolvimento da “lesão estabelecida” clássica pode exceder seis meses. Uma relação inversa parece existir entre o número de feixes colágenos intactos e o número de células inflamatórias.55 A atividade colagenolítica está aumentada no tecido gengival inflamado17 pela ação da enzima colagenase. A colagenase está presente normalmente nos tecidos gengivais5 e é produzida por algumas bactérias orais e por PMNs. Estudos histoquímicos de enzimas mostraram que a gengiva cronicamente inflamada possui níveis aumentados de fosfatase ácida e alcalina,60 β-glicoronidase, β-glicosidase, β-galactosidase, estearases,31 aminopeptidases36,45 e citocromo oxidase.9 Os níveis de mucopolissacarídeos neutros estão diminuídos,57 presumivelmente como resultado da degradação de substância fundamental. Parecem existir dois tipos de lesão estabelecida; alguns permanecem estáveis e não progridem por meses ou anos35,36,56 enquanto outros parecem tornar-se mais ativos e são convertidos em lesões progressivamente destrutivas. Além disso, as lesões estabelecidas parecem ser reversíveis, pois a sequência de eventos que ocorre nos tecidos como resultado da terapia periodontal bem-sucedida se apresenta 207 essencialmente como o inverso daquela observada com o desenvolvimento da gengivite. À medida que a microbiota caracteristicamente associada a lesões destrutivas é revertida àquela associada à saúde periodontal, a porcentagem de plasmócitos diminui grandemente e a população de linfócitos aumenta proporcionalmente.29,33 Gengivite estágio iv: a lesão avançada A extensão da lesão no osso alveolar caracteriza um quarto estágio conhecido como lesão avançada43 ou fase de colapso periodontal.28 Ela será descrita em detalhes nos Capítulos 13 e 14. Microscopicamente, há fibrose da gengiva e manifestações generalizadas de danos teciduais inflamatório e imunopatológico.39 No estágio avançado, os plasmócitos dominam o tecido conjuntivo e os neutrófilos permanecem dominando o epitélio juncional. Pacientes com gengivite experimental mostraram, significantemente, maior acúmulo de placa, concentrações mais elevadas de IL-1β e menores de IL-8 aos 28 dias.11 A gengivite progredirá para periodontite somente em indivíduos suscetíveis. Pacientes que possuíam sítios com intenso sangramento (índice gengival [IG] = 2) apresentaram 70% mais perda de inserção que aqueles onde não era observado sangramento (IG = 0). Taxa de sobrevida de 50 anos foi observada em 99,5% dos dentes com sítios consistentemente não inflamados de forma consistente e em 63,4% dos dentes com inflamação gengival intensa. Baseando-se nesse estudo longitudinal sobre história natural de periodontite em uma população masculina bem acompanhada, a gengivite persistente representa um fator de risco para perda de inserção periodontal e dentária.23 No entanto, não se sabe, atualmente, se a periodontite pode ocorrer sem uma gengivite precursora. As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. 208 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Capítulo 8 Características Clínicas da Gengivite Joseph P. Fiorellini, David M. Kim, N. Guzin Uzel Sumário do capítulo ALTERAÇÔES NO CONTORNO GENGIVAL EVOLUÇÃO E DURAÇÃO DESCRIÇÃO ACHADOS CLÍNICOS Sangramento Gengival à Sondagem Sangramento Gengival Causado por Fatores Locais Sangramento Gengival Associado a Alterações Sistêmicas Alterações da Cor da Gengiva Alterações de Cor Associadas a Fatores Sistêmicos Alterações na Consistência da Gengiva Alterações na Textura Superficial da Gengiva Alterações na Posição da Gengiva Alterações no Contorno Gengival Alterações no contorno gengival Estudos experimentais sobre a gengivite forneceram os primeiros indícios empíricos de que o acúmulo de biofilme microbiano nas superfícies limpas dos dentes resulta no desenvolvimento de um processo inflamatório ao redor do tecido gengival.41,69 Foi demonstrado, também, através de pesquisas, que a inflamação local persiste enquanto o biofilme microbiano estiver presente adjacente aos tecidos gengivais e que a inflamação pode se resolver após a remoção meticulosa do biofilme.69 A prevalência de gengivite em todo o mundo é evidente. Por exemplo: estudos epidemiológicos indicam que mais de 82% dos adolescentes nos Estados Unidos apresentam gengivite patente e sinais de sangramento gengival. Em crianças e adolescentesde outras partes do mundo, relata-se uma prevalência igual ou maior de gengivite.7 Entre adultos, uma porcentagem significativa também apresenta sinais de 209 gengivite; estima-se que mais da metade da população adulta norte-americana apresente sangramento gengival e outras populações apresentam níveis ainda maiores de inflamação gengival.3,5,6,8,66 Considerando que a placa permanece o fator etiológico primário da gengivite, outros fatores podem afetar o desenvolvimento das doenças periodontais. Descobertas recentes sugerem que diferenças fenotípicas podem exercer um papel no desenvolvimento da gengivite.59 Em geral, as características clínicas da gengivite são marcadas pela presença de algum dos seguintes sinais clínicos: tecido gengival vermelho e esponjoso, sangramento a um estímulo, alterações no contorno da gengiva e presença de cálculo ou placa sem evidências radiográficas de perda óssea na crista alveolar.10 O exame histológico do tecido gengival inflamado revela a ulceração do epitélio. A presença de mediadores inflamatórios afeta negativamente a ação do epitélio como barreira protetora. A regeneração desse epitélio ulcerado depende da atividade proliferativa ou regenerativa das células epiteliais. A remoção dos agentes etiológicos que desencadeiam a ruptura gengival é essencial. Evolução e duração A gengivite pode ter início súbito e curta duração, podendo ser dolorosa. Pode ter, também, uma apresentação mais branda. A gengivite recorrente reaparece após ser eliminada pelo tratamento ou desaparecer espontaneamente. A gengivite crônica tem início lento e longa duração. É indolor, a menos que complicada por exacerbações agudas ou subagudas, e é o tipo observado com maior frequência (Fig. 8-1). A gengivite crônica é uma doença flutuante, na qual a inflamação persiste ou se resolve e áreas normais se tornam inflamadas.30,36 Figura 8-1 Gengivite crônica. As gengivas marginal e interdentária são lisas, edematosas e apresentam alterações de cor. É possível observar regiões isoladas de resposta aguda. Descrição A gengivite localizada é confinada à gengiva de um único dente ou grupo de dentes, 210 enquanto a gengivite generalizada envolve toda a boca. A gengivite marginal envolve a margem gengival e pode incluir uma porção da gengiva inserida contígua. A gengivite papilar atinge as papilas interdentárias e frequentemente se estende para a porção adjacente da margem gengival. As papilas são envolvidas com mais constância do que a margem gengival e, em geral, são os primeiros locais acometidos. Já a gengivite difusa afeta a margem gengival, a gengiva inserida e as papilas interdentárias. A doença gengival em casos individuais é descrita pela combinação desses termos, da seguinte maneira: • A gengivite marginal localizada é confinada a uma ou mais áreas da gengiva marginal (Fig. 8-2). • A gengivite difusa localizada se estende a partir da margem da prega mucobucal, em uma área limitada (Fig. 8-3). • A gengivite papilar localizada é confinada a um ou mais espaços interdentários, em uma área limitada (Fig. 8-4). • A gengivite marginal generalizada envolve as margens gengivais relacionadas com todos os dentes. As papilas interdentárias geralmente são afetadas (Fig. 8-5). • A gengivite difusa generalizada envolve toda a gengiva. A mucosa alveolar e a gengiva inserida são afetadas, de modo que, ocasionalmente, ocorre a obliteração da junção mucogengival (Fig. 8-6). A causa da gengivite difusa generalizada pode estar relacionada a condições sistêmicas, que devem ser avaliadas caso se suspeite de que constituam um cofator etiológico. Figura 8-2 Área intensamente avermelhada, localizada e difusa, na face vestibular do dente número 7, com alterações marginais, de coloração rosa-escura, nos demais dentes anteriores. Figura 8-3 Gengivite marginal generalizada no maxilar superior, com áreas de gengivite difusa. 211 Figura 8-4 Gengivite papilar generalizada. Figura 8-5 Gengivite marginal e papilar generalizada. Figura 8-6 A gengivite difusa generalizada envolve as gengivas marginal, papilar e inserida. Achados clínicos Na avaliação das características clínicas da gengivite, é necessária uma abordagem sistemática. O clínico deve se concentrar em alterações teciduais sutis, pois estas podem ter significado diagnóstico. A abordagem clínica sistemática requer um exame ordenado da gengiva, pesquisando-se sua cor, contorno, consistência e posição, além da facilidade e gravidade do sangramento e da dor. Esta seção discute essas características clínicas e as alterações microscópicas responsáveis por cada uma delas. Sangramento Gengival à Sondagem Os dois primeiros sinais de inflamação gengival anterior à gengivite estabelecida são (1) aumento da produção de fluido sulcular gengival e (2) sangramento a partir do sulco gengival durante a sondagem suave (Fig. 8-7). O Capítulo 6 discute em detalhes o fluido sulcular gengival. 212 Figura 8-7 Sangramento à sondagem. A, Gengivite edematosa leve; foi introduzida uma sonda na parte inferior do sulco gengival. B, O sangramento surge após alguns segundos. O sangramento gengival apresenta variações em sua gravidade, duração e facilidade da provocação. O sangramento à sondagem é detectado clinicamente com facilidade; portanto, é importante para o diagnóstico precoce e para a prevenção da gengivite mais avançada. Foi demonstrado que o sangramento à sondagem surge mais precocemente do que a alteração da cor ou outros sinais de inflamação;36,37,46 além disso, o diagnóstico de inflamação gengival inicial feito através do sangramento, e não pelas alterações de cor, é vantajoso, pois o sangramento é um sinal mais objetivo, exigindo menor avaliação subjetiva pelo examinador. Por exemplo: estima-se que 53,2 milhões (50,3%) dos adultos dos Estados Unidos, com 30 anos de idade ou mais, apresentem sangramento gengival.6 A medição da profundidade das bolsas, isoladamente, tem pouco valor na avaliação da extensão e da gravidade da gengivite. Exemplo: a retração gengival pode resultar na redução da profundidade de sondagem, causando, assim, uma avaliação imprecisa do estado periodontal.4 Portanto, o sangramento à sondagem é amplamente utilizado por clínicos e epidemiologistas para medir a prevalência e a progressão da doença, avaliar os resultados do tratamento e motivar os pacientes com relação a seus cuidados domésticos.24 Foram desenvolvidos diversos índices gengivais baseados no sangramento,2,16,53 conforme descrito no Capítulo 5. (Para mais considerações sobre a sondagem, consulte o Capítulo 30.) Em geral, o sangramento gengival à sondagem indica uma lesão inflamatória tanto no epitélio como no tecido conjuntivo, apresentando diferenças histológicas específicas quando comparadas à gengiva saudável.25 Embora o sangramento gengival à sondagem possa não seja um bom indicador diagnóstico para a perda clínica de inserção, sua ausência é um excelente sinal preditivo negativo da perda futura de inserção.34 Assim, a ausência de sangramento gengival à sondagem é desejável, indicando um baixo risco de perda clínica futura de inserção. Resultados de estudos longitudinais revelaram que sítios com significativo sangramento (índice gengival [IG] = 2) tiveram 70% mais perda de inserção que sítios que não estavam inflamados, durante um período de 26 anos em 565 homens. Consequentemente, a gengivite persistente pode ser considerada um fator de risco para a perda da inserção periodontal que pode levar à perda do dente 35 É interessante observar que diversos estudos demonstram que o tabagismo ativo 213 suprime a resposta inflamatória gengival, e o estudo NHANES III (National Health and Nutrition Examination Survey)19 determinou que o tabagismo exerce um efeito forte, crônico e dependente da dose sobre o sangramento gengival à sondagem. Além disso, pesquisas recentes revelam um aumento no sangramento gengival à sondagem em pacientes que interrompem o tabagismo.54 Portanto, pessoas comprometidas com um programa de interrupção do tabagismo devem ser informadassobre a possibilidade de um aumento do sangramento gengival associado à interrupção do tabagismo. Sangramento Gengival Causado por Fatores Locais Os fatores associados à retenção de placa que podem levar à gengivite incluem as variações dentárias anatômicas e relacionadas com o desenvolvimento de cáries, inserção do freio, fatores iatrogênicos, mau posicionamento dentário, respiração bucal, restaurações desadaptadas, próteses parciais, ausência de gengiva inserida e retração. Em adição, o tratamento ortodôntico e os retentores fixos estão associados ao aumento do acúmulo de placa e do sangramento à sondagem.38,78 Sangramento Crônico e Recorrente A causa mais comum de sangramento gengival à sondagem é a inflamação crônica.50 O sangramento é crônico ou recorrente, sendo provocado por traumatismo mecânico (p. ex., escovação, limpeza com palito ou impacção de alimentos) ou pela mastigação de alimentos sólidos, como maçãs. Avaliações histológicas em modelo animal revelaram que, nos estágios iniciais de gengivite, a expressão de citocinas responsáveis pela degradação de tecido conjuntivo, as metaloproteinases de matriz (MMPs), é ubíqua. Diversas MMPs desempenham papel nessa degradação em diferentes estágios (p.ex., um aumento da atividade da MMP-14 em sete dias de inflamação e um aumento imediato de MMP-2, especialmente com estimulação de fibroblastos). Além disso, houve um pico na expressão da MMP-9 cinco dias após a ocorrência de gengivite, que também foi por macrófagos e neutrófilos. Assim, o remodelamento da matriz extracelular foi regulado pela produção e ativação das MMP-2 e -9 pela resposta inflamatória do hospedeiro.42 Na inflamação gengival, as alterações histopatológicas que resultam em sangramento gengival anormal incluem a dilatação e o ingurgitamento dos capilares e o afinamento ou ulceração do epitélio sulcular (Fig. 8-8). Como os capilares se encontram ingurgitados e mais próximos à superfície, e o epitélio fino e degenerado exerce um menor efeito protetor, estímulos habitualmente inócuos podem causar ruptura dos capilares e sangramento gengival. Os locais em que ocorre sangramento à sondagem apresentam uma área maior de tecido conjuntivo inflamado (tecido com muitas células e pouco colágeno) do que as áreas que não sangram. Na maioria dos casos, o infiltrado celular de locais em que ocorre sangramento à sondagem é predominantemente linfocítico (uma característica 214 da gengivite de estágio II ou inicial).9,17,25 Figura 8-8 Imagem microscópica de um espaço interdentário em uma amostra humana autopsiada. Observe o infiltrado inflamatório e o epitélio fino em uma área adjacente ao dente, assim como tecido colagenoso na outra metade da secção. Transferência Científica A gengivite é diagnosticada por hiperemia e edema dos tecidos gengivais. Pode ocorrer um aumento da profundidade de bolsa sem perda de inserção, causada pelo crescimento gengival, e sangramento à sondagem, é uma característica marcante da gengivite e da periodontite. Diagnóstico precoce, terapia não cirúrgica simples e melhora na higiene oral do paciente são necessários para controlar a gengivite na maioria dos pacientes. Monitoramento detalhado e cuidadoso da gengiva ao redor de cada dente, com registros de profundidade de bolsa, sangramento à sondagem e localização da margem gengival é essencial para que pacientes com gengivite não evoluam para perda óssea periodontal. A retração gengival também deve ser registrada para avaliar sua progressão e para determinar se será necessária cirurgia mucogengival para aumentar a quantidade de gengiva inserida queratinizada e para tratar problemas estéticos. A gravidade do sangramento e a facilidade de sua provocação dependem da intensidade da inflamação. Depois da lesão e ruptura dos vasos, mecanismos inter- relacionados induzem à hemostasia.73 As paredes dos vasos sofrem contração, reduzindo o fluxo sanguíneo; as plaquetas aderem às bordas do tecido e ocorre a formação de um trombo fibroso, que se contrai e resulta na aproximação das bordas 215 da área lesada. Há recorrência do sangramento quando a área é irritada. Em casos de periodontite moderada ou avançada, a presença de sangramento à sondagem é considerada um sinal de destruição tecidual ativa. Episódios agudos de sangramento gengival são causados por lesões e podem ocorrer espontaneamente na doença gengival. A laceração da gengiva por cerdas durante a escovação agressiva ou por pedaços afiados de alimentos sólidos pode causar sangramento gengival mesmo na ausência de doença gengival. Queimaduras gengivais por alimentos quentes ou substâncias químicas aumentam a facilidade com que ocorre o sangramento gengival. O sangramento espontâneo ou à provocação leve pode ocorrer na gengivite ulcerativa necrosante aguda. Nessa situação, ocorre a exposição de vasos sanguíneos ingurgitados do tecido conjuntivo inflamado pela ulceração do epitélio superficial necrótico. Sangramento Gengival Associado a Alterações Sistêmicas Em alguns distúrbios sistêmicos, a hemorragia gengival ocorre espontaneamente ou após a irritação, sendo excessiva e de difícil controle. Essas doenças hemorrágicas representam uma ampla variedade de condições, com diferentes fatores etiológicos e manifestações clínicas. Tais patologias têm a característica comum de insuficiência de um mecanismo hemostático, resultando em sangramento anormal da pele, órgãos internos e outros tecidos, inclusive mucosa oral.71 Os distúrbios hemorrágicos nos quais ocorre sangramento gengival anormal incluem anormalidades vasculares (deficiência de vitamina C ou alergia; p. ex., púrpura de Schönlein-Henoch), distúrbios plaquetários27 (púrpura trombocitopênica), hipoprotrombinemia (deficiência de vitamina K), outros defeitos da coagulação (hemofilia, leucemia, doença de Christmas), deficiência de fator tromboplástico plaquetário (PF3) devido à uremia 47mieloma múltiplo12 e púrpura pós-rubéola.30 Há, também, relatos de que os efeitos da terapia de reposição hormonal, dos contraceptivos orais, da gestação e do ciclo menstrual afetam o sangramento gengival.43,65,79,80 Além disso, nas mulheres, a depressão de longa duração relacionada com exposição ao estresse pode aumentar as concentrações de interleucina-6 (IL-6) no fluido gengival e pode piorar as condições periodontais com aumento da inflamação gengival e da profundidade de bolsa.32 Além disso, há muito tempo foi determinado que alterações nos hormônios androgênicos representam importantes fatores modificadores da gengivite, especialmente entre adolescentes. Diversos estudos demonstraram efeitos notáveis da flutuação dos níveis de estrogênio/progesterona sobre o periodonto, iniciando-se já na puberdade.1,55 Entre as alterações endócrinas patológicas, o diabetes é uma condição endócrina com efeito bem caracterizado sobre a gengivite.78 No diabetes, a inflamação intensa afeta tanto os tecidos epiteliais quanto os tecidos conjuntivos, que 216 leva à degeneração do epitélio da papila, ao aumento do número de células inflamatórias, à destruição das fibras reticulares e ao acúmulo de fibras colágenas densas, que causam fibrose.70 Diversos medicamentos provocam efeitos colaterais sobre a gengiva. Sabe-se que os anticonvulsivantes, bloqueadores de canais de cálcio e drogas imunossupressoras causam aumento gengival (Cap. 9), podendo provocar sangramento gengival secundário. A American Heart Association recomendou o uso de aspirina sem indicação médica como um agente terapêutico contra doenças cardiovasculares, e a aspirina é frequentemente prescrita para artrite reumatoide, osteoartrite, febre reumática e outras doenças articulares inflamatórias.28 Portanto, é importante considerar o efeito da aspirina sobre o sangramento durante o exame dentário de rotina, para evitar interpretações falso-positivas que poderiam resultar em um diagnóstico impreciso.67 (O Capítulo 27 discute o envolvimento periodontal em distúrbios hematológicos.) Alterações da Cor da Gengiva A cor da gengiva é determinada por diversos fatores, incluindo onúmero e tamanho de vasos sanguíneos, a espessura epitelial, a quantidade de queratinização e os pigmentos no interior do epitélio. Alterações de Cor na Gengivite. A alteração da cor é um importante sinal clínico de doença gengival. A cor normal da gengiva é o “rosa coral”, gerado pela vascularidade do tecido e modificado pelas camadas epiteliais sobrepostas. Por isso, a gengiva torna-se vermelha quando a vascularização aumenta ou quando o grau de queratinização epitelial é reduzido ou desaparece. A cor torna-se pálida quando a vascularização é reduzida (associada à fibrose do cório) ou quando a queratinização epitelial aumenta. Assim, a inflamação crônica intensifica a coloração vermelha ou azulada devido à proliferação vascular e à redução da queratinização. Além disso, a estase venosa contribui para uma tonalidade azulada. A cor da gengiva altera-se com a cronicidade do processo inflamatório. As alterações iniciam-se nas papilas interdentárias e na margem gengival, disseminando- se para a gengiva inserida (Fig. 8-1). Para um diagnóstico e tratamento corretos, é necessário compreender as mudanças teciduais que alteram a cor da gengiva em situações clínicas. Tanto a natureza quanto a distribuição das alterações da cor na inflamação gengival aguda são diferentes daquelas observadas na gengivite crônica. As alterações de cor podem ser marginais, difusas ou focais, conforme a condição aguda subjacente. Na gengivite ulcerativa necrosante aguda, o envolvimento é marginal; na gengivoestomatite herpética, é difuso; nas reações agudas causadas por irritação química, é focal ou difuso. 217 As alterações de cor variam com a intensidade da inflamação. Inicialmente, ocorre um aumento no eritema. Se não houver agravamento da patologia, essa será a única alteração de cor até que a gengiva retorne ao normal. Na inflamação aguda grave, a cor vermelha geralmente se torna cinza-esbranquiçada. A coloração cinza provocada pela necrose tecidual é demarcada da gengiva adjacente por uma zona eritematosa fina e bem delineada. O Capítulo 10 apresenta descrições detalhadas das características clínicas e patológicas das diversas formas de gengivite aguda. Pigmentação Metálica. Os metais pesados (bismuto, arsênio, mercúrio, chumbo e prata) absorvidos sistemicamente por uso terapêutico ou em ambientes ocupacionais ou domésticos podem descolorir a gengiva e outras áreas da mucosa oral.45 Essas alterações são raras, mas, ainda assim, devem ser descartadas em casos suspeitos. Habitualmente, os metais provocam a formação de uma linha preta ou azulada na gengiva, que acompanha o contorno da margem (Fig. 8-9). A pigmentação também pode surgir na forma de focos negros isolados que envolvem a gengiva interdentária marginal e inserida. Essa pigmentação é diferente daquela provocada pela deposição acidental de amálgama ou outros fragmentos metálicos15 (Fig. 8-10). Figura 8-9 Gengivite por bismuto. Observe a coloração linear negra da gengiva em um paciente recebendo terapia com bismuto. Figura 8-10 Alteração da cor da gengiva causada por partículas metálicas incrustadas (amálgama). A pigmentação gengival causada por metais absorvidos sistemicamente resulta da precipitação perivascular de sulfitos metálicos no tecido conjuntivo subepitelial. A 218 pigmentação gengival não decorre da toxicidade sistêmica. Ocorre somente em áreas de inflamação, onde a permeabilidade aumentada dos vasos sanguíneos irritados permite o escoamento do metal para o tecido circundante. Além da gengiva inflamada, áreas de mucosa irritada por mordeduras ou por hábitos mastigatórios anormais (p. ex., superfície interna dos lábios, mucosa vestibular ao nível da linha oclusal, borda lateral da língua) também são locais comuns de pigmentação. A pigmentação pode ser eliminada pelo tratamento das alterações inflamatórias, sem que seja necessário interromper o uso do medicamento que contém o metal. Alterações de Cor Associadas a Fatores Sistêmicos Muitas doenças sistêmicas podem causar alterações na cor da mucosa oral, incluindo a gengiva.22 Em geral, essas pigmentações anormais são inespecíficas e devem promover um maior esforço diagnóstico ou o encaminhamento ao especialista apropriado.68 Pigmentações orais endógenas podem ser causadas por melanina, bilirrubina ou ferro.45 As pigmentações orais por melanina podem ser fisiológicas, sendo frequentemente encontradas em grupos étnicos de alta pigmentação (Cap. 2). Como exemplos de doenças que aumentam a pigmentação por melanina, podemos citar: • A doença de Addison é causada por disfunção adrenal, produzindo focos isolados de alteração de cor, que variam de preto-azulado a marrom. • A síndrome de Peutz-Jeghers gera polipose intestinal e pigmentação por melanina na mucosa oral e nos lábios. • A síndrome de Albright (displasia fibrosa poliostótica) e a doença de von Recklinghausen (neurofibromatose) produzem áreas de pigmentação oral por melanina. A pele e as mucosas também podem ser coradas por pigmentos biliares. A melhor maneira de detectar a icterícia é pelo exame da esclera, mas a mucosa oral também pode adotar uma coloração amarelada. O depósito de ferro na hemocromatose pode gerar uma pigmentação azul-acinzentada da mucosa oral. Diversas situações endócrinas e metabólicas, incluindo o diabetes e a gestação, podem resultar em alterações de cor. Discrasias sanguíneas, como anemia, policitemia e leucemia, também podem induzir alterações da cor. Os fatores exógenos capazes de gerar alterações da cor da gengiva incluem irritantes atmosféricos, como pó de carvão ou metálico, e corantes utilizados em alimentos ou em pastilhas mastigáveis. O tabaco causa hiperqueratose da gengiva, podendo, também, induzir um aumento significativo da pigmentação da mucosa oral, por melanina.56 Áreas localizadas de pigmentação preto-acinzentada frequentemente são causadas por amálgama implantado na mucosa (Fig. 8-10). 219 Nos últimos anos, aumentaram as preocupações estéticas na odontologia, devido à maior demanda por sorrisos agradáveis. Isso fez com que os indivíduos se tornassem mais atentos à sua pigmentação gengival, visível durante a fala ou o sorriso.20,21 Tradicionalmente, a despigmentação gengival era realizada por procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos, como técnicas químicas, criocirúrgicas e eletrocirúrgicas. Entretanto, essas técnicas eram encaradas com ceticismo, devido aos graus variáveis de eficácia. Mais recentemente, têm sido usados lasers para realizar a ablação de células que produzem a melanina; um raio laser inespecífico destrói as células epiteliais, incluindo a camada basal. Além disso, a ablação seletiva, utilizando-se um raio laser com um comprimento de onda absorvido especificamente pela melanina, destrói efetivamente as células pigmentadas sem lesar as células não pigmentadas. Em ambos os casos, a energia de radiação é transformada em energia de ablação, resultando em ruptura e vaporização celular com um mínimo aquecimento do tecido adjacente.76 Alterações na Consistência da Gengiva Inflamações agudas e crônicas geram alterações na consistência normalmente firme e elástica da gengiva. Como ressaltado anteriormente, na gengivite crônica coexistem alterações destrutivas (edematosas) e reparativas (fibróticas), e a consistência da gengiva é determinada por sua predominância relativa (Figs. 8-11 e 8-12). A Tabela 8-1 resume as alterações clínicas na consistência da gengiva e as alterações microscópicas que as produzem. Figura 8-11 Gengivite crônica. Ocorrem inchaço, perda da aparência pontilhada e alteração da coloração quando as alterações microscópicas predominantes são a presença de edema e exsudato inflamatório. A gengiva é mole e friável, e o sangramento ocorre facilmente. 220 Figura 8-12 Gengivite crônica. A gengiva se apresenta firme quando a fibrose predomina no processo inflamatório. Tabela 8-1 Alterações Clínicas e Histopatológicas na Consistência Gengival Alterações Clínicas Características Microscópicas Subjacentes Gengivite Crônica 1. Edemaciada, depressívelà pressão. 2. Bastante mole e friável, com fácil fragmentação durante a exploração com sonda, e áreas superficiais pontuais de vermelhidão e descamação. 3. Firme, com consistência de couro. 1. Infiltração por líquido e células do exsudato inflamatório. 2. Degeneração do tecido conjuntivo e do epitélio, associada à substâncias lesivas que provocam a inflamação e o exsudato inflamatório; alteração na relação tecido conjuntivo-epitélio, com tecido conjuntivo inflamado e ingurgitado, expandindo-se para o interior de algumas células epiteliais superficiais, afinamento do epitélio e degeneração associada ao edema e à invasão por leucócitos, separada por áreas nas quais há cristas interpapilares alongadas no tecido conjuntivo. 3. Fibrose e proliferação epitelial associadas à inflamação de longa data. Formas Agudas de Gengivite 1. Gengiva difusamente edemaciada e mole. 2. Necrose epitelial, com partículas escamosas acinzentadas 3. Formação de vesículas. 1. Edema difuso, de origem inflamatória aguda, infiltração gordurosa na xantomatose. 2. Necrose com formação de pseudomembrana composta por bactérias, leucócitos polimorfonucleares e células epiteliais degeneradas, em uma trama de fibrina. 3. Edema inter e intracelular, com degeneração do núcleo e do citoplasama e ruptura da membrana celular. Massas Calcificadas na Gengiva É possível encontrar massas microscópicas calcificadas na gengiva.14,52 Essas massas podem ocorrer isoladamente ou em grupos, com diferentes tamanhos, localizações, formatos e estruturas. Podem ser formadas por restos de raízes, fragmentos de 221 cemento, cementículos ou material calcificado removido dos dentes e implantado traumaticamente na gengiva durante a raspagem.52 Essas massas podem provocar inflamação crônica e fibrose, um ocasional corpo estranho e atividade de células gigantes. Por vezes, estão encapsuladas em uma matriz osteoide. Foram descritos, também, corpos estranhos cristalinos, mas sua origem não foi determinada.80 Escovação A escovação provoca diversos efeitos sobre a consistência da gengiva, como a promoção da queratinização do epitélio oral, aumento da circulação capilar gengival e espessamento do osso alveolar.44,49,77 Em estudos animais, descobriu-se que a estimulação mecânica causada pela escovação aumenta em 2,5 vezes a atividade proliferativa das células basais juncionais da gengiva canina, em comparação àquela provocada pelo uso de um raspador.31 Esses achados podem indicar que a escovação causa maior taxa de reposição e descamação das superfícies epiteliais juncionais. Esse processo pode regenerar pequenas rupturas no epitélio juncional e impedir o acesso direto ao tecido subjacente pelo patógeno periodontal.81 Alterações na Textura Superficial da Gengiva A superfície da gengiva normal geralmente apresenta muitas depressões e elevações de pequeno tamanho, dando ao tecido uma aparência de casca de laranja, chamado de pontilhado.13 Essa aparência pontilhada se restringe à gengiva inserida, localizando-se predominantemente na área subpapilar, mas se estende em graus variáveis para a papila interdentária.61 Embora o significado biológico da aparência pontilhada não seja conhecido, alguns pesquisadores concluíram que a perda dessa aparência é um sinal precoce de gengivite.33,61 Contudo, o clínico deve ter em mente que a aparência e a extensão do pontilhamento variam entre as diferentes regiões da boca, entre diferentes pacientes e em diferentes idades. Na inflamação crônica, a superfície gengival é lisa e brilhante ou firme e nodular, conforme a natureza das alterações dominantes: exsudativas ou fibróticas. A textura superficial lisa também é provocada por atrofia epitelial na gengivite atrófica, enquanto a descamação da superfície ocorre na gengivite descamativa crônica. A hiperqueratose resulta em uma textura semelhante a couro e o crescimento gengival medicamentoso gera uma superfície nodular. Alterações na Posição da Gengiva Lesões Traumáticas 222 Uma das características singulares da mais recente classificação de doenças gengivais é o reconhecimento de lesões gengivais traumáticas não induzidas por placa, que constituem entidades patológicas próprias.11 As lesões traumáticas, sejam químicas, físicas ou térmicas, estão entre as lesões bucais mais comuns. Entre as fontes de lesões químicas, podemos citar a aspirina, peróxido de hidrogênio, nitrato de prata, fenol e materiais endodônticos. Já lesões físicas incluem a aplicação de piercings nos lábios, boca e língua, o que pode resultar em retração gengival. Lesões térmicas, por sua vez, podem resultar de alimentos e bebidas quentes. Os casos agudos são caracterizados pelo surgimento de necrose epitelial, erosão ou ulceração, juntamente ao eritema que acompanha esses sinais. Nos casos crônicos, geralmente se observam defeitos gengivais permanentes sob a forma de retração gengival. A natureza localizada das lesões e a ausência de sintomas prontamente descartam o diagnóstico diferencial de doenças sistêmicas, que podem apresentar-se como lesões orais erosivas ou ulcerativas.64 Retração Gengival A retração gengival é um achado comum. A prevalência, extensão e gravidade da retração gengival aumentam com a idade e a patologia é mais prevalente em homens.6 Posições da Gengiva Clinicamente, a retração é definida pela exposição da superfície radicular causada por um deslocamento apical da posição da gengiva. Para que se compreenda a retração, é importante distinguir entre as posições real e aparente da gengiva. A posição real é o nível do término coronário da inserção epitelial sobre o dente, enquanto a posição aparente é o nível da crista da margem gengival (Fig. 8-13). A gravidade da retração é determinada pela posição real da gengiva, e não por sua posição aparente. Por exemplo: na doença periodontal, a parede da bolsa inflamada cobre uma parte da raiz exposta; assim, parte da retração está oculta e parte pode ser visível. A quantidade total de retração é a soma de ambas. 223 Figura 8-13 Diagrama das posições aparente e real da gengiva, com retração visível e oculta. A retração refere-se à localização da gengiva, e não à sua condição. A gengiva retraída pode estar inflamada, mas pode estar normal, exceto por sua posição (Fig. 8- 14). A retração pode ser localizada, afetando apenas um dente ou grupo de dentes, ou generalizada, ocorrendo em toda a boca. Figura 8-14 Diferentes graus de retração. A retração é leve nos dentes 42 e 45 e acentuada nos dentes 43 e 44. A alteração no contorno gengival e a retração observadas no dente 44 são chamadas de fissuras de Stilllman. A retração gengival aumenta com a idade; a incidência varia de 8% em crianças a 100% após os 50 anos de idade.83 Com base nesses dados, alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que a retração pode ser um processo fisiológico relacionado com o envelhecimento. Entretanto, não foram apresentadas evidências convincentes da ocorrência de um deslocamento fisiológico na inserção gengival.39 O deslocamento apical gradual provavelmente resulta do efeito cumulativo de pequenos envolvimentos patológicos e leves traumatismos diretos repetitivos à gengiva. Contudo, em algumas populações sem acesso a cuidados odontológicos, a retração pode resultar da ocorrência crescente de doença periodontal.29,40 Os seguintes fatores etiológicos foram relacionados com a retração gengival: técnica de escovação inadequada (abrasão gengival), mau posicionamento dos dentes, fricção por tecidos moles (ablação gengival),72 inflamação gengival, inserção anormal 224 do freio e lesões iatrogênicas. O trauma oclusal foi uma etiologia sugerida no passado, mas seu mecanismo de ação nunca foi demonstrado. Por exemplo: a sobremordida profunda foi associada à inflamação e retração gengival. A sobreposição excessiva dos incisivos pode resultar em lesões traumáticas à gengiva. Em macacos, foi demonstrado que o movimento ortodôntico em direção labial provoca a perda de osso marginal e da inserção do tecido conjuntivo, assim como retração gengival.74Procedimentos habituais de higiene oral, com escova ou fio dental, podem levar a lesões gengivais transitórias mínimas.18,62 Embora a escovação seja importante para a saúde gengival, a técnica inadequada ou a escovação com cerdas duras pode levar a lesões significativas. Essas lesões podem apresentar-se como lacerações, abrasões, queratose e retração, com maior ocorrência de danos à gengiva marginal vestibular.59 Assim, nesses casos, a retração tende a ser mais frequente e grave em pacientes com gengivas clinicamente saudáveis, com pouca placa bacteriana e com uma boa higiene oral.23,57,58 A suscetibilidade à retração também é influenciada pela posição dos dentes na arcada,82 pelo ângulo entre a raiz e o osso e pela curvatura mesiodistal da superfície dentária.51 Em dentes que sofreram rotação, inclinação ou deslocamento vestibular, a espessura ou a altura da placa óssea é reduzida. A pressão pela mastigação ou pela escovação moderadamente intensa lesa a gengiva sem suporte, provocando a retração. O efeito do ângulo entre a raiz e o osso sobre a retração é frequentemente observado na região molar maxilar. Se a inclinação lingual da raiz palatina for proeminente ou se as raízes vestibulares se inclinarem externamente, o osso da região cervical se tornará mais fino ou curto, e a retração resultará de traumatismos repetidos à gengiva marginal fina. A saúde do tecido gengival também depende de materiais restauradores preparados e posicionados adequadamente. A pressão causada, por exemplo, pelo grampo de uma prótese parcial mal projetada, pode provocar traumatismo e retração gengival.84 Há muito tempo, considera-se que restaurações de tamanho excessivo constituem um fator contribuinte para a gengivite, devido à retenção de placa. Além disso, há um consenso geral de que a colocação de margens restaurativas dentro do espaço biológico frequentemente leva à inflamação gengival, perda da inserção clínica e, finalmente, perda óssea. Clinicamente, a transgressão do espaço biológico se manifesta tipicamente como inflamação gengival, bolsas periodontais profundas ou retração gengival. Pode existir uma relação entre o tabagismo e a retração gengival (Cap. 26). Os mecanismos multifatoriais podem incluir a redução do fluxo sanguíneo gengival e a alteração da resposta imune, mas os estudos sobre esse tema ainda não são conclusivos.26,63 Significado Clínico 225 Diversos aspectos da retração gengival a tornam clinicamente significativa. A superfície exposta da raiz é suscetível a cáries. A abrasão ou erosão do cemento exposto pela retração deixa uma superfície subjacente de dentina, que pode ser sensível. A exposição excessiva da superfície da raiz pode levar à hiperemia pulpar e sintomas associados.48 A retração interproximal gera problemas de higiene oral, o que resulta em acúmulo de placa. Alterações no Contorno Gengival As alterações no contorno gengival estão associadas principalmente ao aumento gengival (Cap. 9), mas essas alterações também podem ocorrer em outras situações. É interessante observar, por motivos históricos, as descrições de dentículos da margem gengival chamados de fissuras de Stillman (Fig. 8-14)75 e festões de McCall. O termo “fissuras de Stillman” foi usado para descrever um tipo específico de retração gengival, que consiste em uma estreita retração gengival triangular. À medida que a retração progride no sentido apical, a fissura se torna mais larga, expondo o cemento da superfície da raiz. Quando a lesão atinge a junção mucogengival, a borda apical da mucosa oral geralmente se encontra inflamada, devido à dificuldade em se manter um controle adequado da placa nesse local. O termo “festões de McCall” foi usado para descrever uma banda espessada e enrolada de gengiva, geralmente observada adjacente aos caninos quando a retração se aproxima da junção mucogengival. Inicialmente, as fissuras de Stillman e os festões de McCall foram relacionados com a oclusão traumática e o tratamento recomendado era o ajuste oclusal. Entretanto, essa associação nunca foi provada e as retrações representam meramente alterações inflamatórias peculiares da gengiva marginal.14 As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. 226 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Capítulo 9 Aumento Gengival Fermin A. Carranza, Eva L. Hogan Sumário do capítulo AUMENTO INFLAMATÓRIO Aumento Inflamatório Crônico Aumento Inflamatório Agudo AUMENTO GENGIVAL MEDICAMENTOSO Informações Gerais Anticonvulsivantes Imunossupressores Bloqueadores de Canais de Cálcio AUMENTO GENGIVAL IDIOPÁTICO AUMENTOS ASSOCIADOS A DOENÇAS SISTÊMICAS Aumentos Condicionados Doenças Sistêmicas que Causam Aumento Gengival AUMENTO NEOPLÁSICO (TUMORES GENGIVAIS) Tumores Benignos da Gengiva Tumores Malignos da Gengiva FALSO AUMENTO Lesões Ósseas Subjacentes Tecidos Dentários Subjacentes O aumento do tamanho da gengiva é uma característica comum das doenças gengivais. A terminologia atualmente aceita para essa situação clínica é aumento gengival ou crescimento gengival. Esses termos clínicos são estritamente descritivos, evitando as conotações patológicas errôneas de termos usados no passado, como “gengivite hipertrófica” ou “hiperplasia gengival”. Os diversos tipos de aumento gengival podem ser classificados segundo seus fatores etiológicos e alterações patológicas, da seguinte maneira: I. Aumento inflamatório 227 A. Crônico B. Agudo II. Aumento medicamentoso A. Informação geral B. Anticonvulsivantes C. Imunossupressores D. Bloqueadores de canais de cálcio III. Aumentos associados a doenças ou condições sistêmicas A. Aumento condicionado 1. Gravidez 2. Puberdade 3. Deficiência de vitamina C 4. Gengivite plasmocitária 5. Aumento condicionado inespecífico (granuloma piogênico) B. Doenças sistêmicas que causam aumento gengival 1. Leucemia 2. Doenças granulomatosas (p. ex., granulomatose de Wegener, sarcoidose) IV. Aumento neoplásico (tumores gengivais) A. Tumores benignos B. Tumores malignos V. Falso aumento Segundo critérios de localização e distribuição, o aumento gengival é denominado da seguinte maneira: • Localizado: Limitado à gengiva adjacente a um único dente ou grupo de dentes. • Generalizado: Envolve a gengiva de toda a boca. • Marginal: Confinado à gengiva marginal. • Papilar: Confinado à papila interdentária. • Difuso: Envolve a gengiva marginal e inserida e as papilas. • Circunscrito: Aumento tumoral delimitado, séssil ou pedunculado. O grau de aumento gengival pode ser classificado da seguinte maneira:16 • Grau 0: Sem sinais de aumento gengival. • Grau I: Aumento confinado às papilas interdentais. • Grau II: Aumento envolvendo as papilas e a gengiva marginal. • Grau III: Aumento cobrindo três quartos ou mais da coroa. 228 Aumento inflamatório O aumento gengival pode resultar de alterações inflamatórias crônicas ou agudas; as alterações crônicas são muito mais comuns. Além disso, os aumentos inflamatórios geralmente representam uma complicação secundária de qualquer outro tipo de aumento, gerando um aumento gengival combinado. Nesses casos, é importante entender a etiologia dupla e tratar ambas adequadamente. Aumento Inflamatório Crônico Características Clínicas O aumento gengival inflamatório crônico inicia como um pequeno abaulamento das papilas interdentárias e da gengiva marginal. Nos estágios iniciais, gera um abaulamento em forma de boia salva-vidas ao redor dos dentes envolvidos. Esse abaulamento pode aumentar de tamanho até cobrir partes das coroas. O aumento pode ser localizado ou generalizado e progride de maneira lenta e indolor, a menos que seja complicado por uma infecção aguda ou por trauma (Figs. 9-1 e 9-2). Figura 9-1 Aumento gengival inflamatório crônico, localizado na região anterior. Figura 9-2 Aumento gengival inflamatório crônico. Ocasionalmente, o aumento gengival inflamatório crônico se apresenta como massa circunscrita, séssil ou pedunculada, semelhante a um tumor. Pode ser interproximal ou estar localizado na gengiva marginal ouand Chair, Department of Craniofacial Biology, Associate Dean for Research Director, Center for Oral Health Research, James B. Edwards College of Dental Medicine Professor of Microbiology and Immunology, Medical University of South Carolina College of Medicine, Charleston, South Carolina Perry R. Klokkevold, DDS, MS Associate Professor and Program Director, Postgraduate Periodontics Residency, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Vincent G. Kokich, DDS, MSD Professor, Department of Orthodontics, University of Washington, School of Dentistry, Seattle, Washington 25 Fengshen Kuo, MS Senior Bioinformatics Scientist, Center for Pharmacogenomics and Complex Disease Research Department of Oral Biology, New Jersey Dental School Department of Health Informatics, School of Health Related Professions University of Medicine and Dentistry of New Jersey, Newark, New Jersey Clarice S. Law, DMD, MS Assistant Clinical Professor, Sections of Pediatric Dentistry and Orthodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Mark B. Lieberman, DDS Clinical Lecturer, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Angelo Mariotti, BS, DDS, PhD Professor and Chair, Division of Periodontology, The Ohio State University, College of Dentistry, Columbus, Ohio Michael J. McDevitt, DDS Visiting Faculty, LD Pankey Insitute, Private Practice, Atlanta, Georgia Adriana McGregor, DDS Private Practice, Westlake Village, California Brian L. Mealey, DDS, MS Professor and Graduate Program Director, Department of Periodontics, The University of Texas Health Sciences Center at San Antonio, San Antonio, Texas Philip R. Melnick, DMD Lecturer, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California 26 Robert L. Merin, DDS, MS Private Practice, Woodland Hills, California Syrene A. Miller, BA Project Manager, National Center for Dental Hygiene Research, School of Dentistry, University of Southern California, Los Angeles, California Ian Needleman, BDS MSc PhD MRDRCS(Eng) FDSRCS(Eng) FFPH FHEA Professor of Restorative Dentistry and Evidence-Based Healthcare, Honorary Consultant and Specialist in Periodontology Director, International Centre for Evidence-Based Oral Health (ICEBOH), Unit of Periodontology, Division of Restorative Dental Sciences, UCL Eastman Dental Institute, London, England Michael G. Newman, DDS Professor Emeritus, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Marc L. Nevins, DMD, MMSc Assistant Clinical Professor, Division of Periodontology, Harvard School of Dental Medicine, Boston, Massachusetts Russell J. Nisengard, DDS, PhD (ret.) Distinguished Teaching Professor, Associate Dean for Advanced Education and Research, State University of New York, School of Dentistry, Buffalo, New York Karen F. Novak, DDS, MS, PhD Professor, Department of Periodontics, Center for Oral Health Research, University of Kentucky, Lexington, Kentucky M. John Novak, BDS, LDS, PhD Professor of Perodontics and Associate Director, Department of Periodontics, Center for Oral Health Research, University of Kentucky, Lexington, Kentucky 27 Joan Otomo-Corgel, DDS, MPH Greater Los Angeles Veteran’s Administration Healthcare System Associate Clinical Professor, Section of Periodontics, University of California Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Onur Ozcelik, PhD Associate Professor, Cukurova University, Faculty of Dentistry, Department of Periodontology, Adana, Turkey Kwang-Bum Park, DDS, MS, PhD Former Assistant Researcher in Periodontics, University of California, Los Angeles School of Dentistry, Los Angeles, California Director, MINEC Institute of Clinical Periodontics and Implantology, Lecturer in Oral Anatomy and Histology, Kyung-Pook National University, Taegu, Korea Anna Matsuishi Pattison, RDH, MS Clinical Associate Professor, Division of Perio, Diagnostic Sciences and Dental Hygiene, Ostrow School of Dentistry, University of Southern California, Los Angeles, California Gordon L. Pattison, DDS Private Practice, Los Angeles, California Formerly, Instructor, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Birgit Pelsmaekers Private Practice, Leuven, Belgium Dorothy A. Perry, RDH, PhD Professor and Associate Dean for Education and Student Affairs Department of Preventive and Restorative Dental Sciences, University of California, San Francisco, School of Dentistry, San Francisco, California Philip Preshaw, BDS, FDS RCSEd, FDS (Rest Dent) RCSEd, 28 PhD Professor, Periodontology, Institute of Cellular Medicine, School of Dental Sciences, Newcastle University, Newcastle upon Tyne, United Kingdom Marc Quirynen, DDS, PhD Professor, Department of Periodontology, Catholic University of Leuven, School of Dentistry, Oral Pathology and Maxillofacial Surgery, Leuven, Belgium Terry D. Rees, DDS, MSD Professor, Department of Periodontics, Baylor College of Dentistry, Texas A & M Health Science Center, Dallas, Texas Mark A. Reynolds, DDS, PhD Professor and Chair, Director, Postdoctoral Periodontics, Department of Periodontics, University of Maryland, School of Dentistry, Baltimore, Maryland Carlos Rossa, DDS, MS, PhD Adjunct Professor, Department of Diagnosis and Surgery, Faculdade de Odontologia de Araraquara, Universidade Estadual Paulista, UNESP, Araraquara, SP, Brazil Maria Emanuel Ryan, DDS, PhD Professor of Oral Biology and Pathology, Associate Dean for Strategic Planning and External Affairs, Stony Brook University, School of Dental Medicine, Stony Brook, New York E. Todd Scheyer, DDS, MS Private Practice, Perio Health Professionals PLLC, Houston, Texas Dennis A. Shanelec, DDS Director, Microsurgery Training Institute, Santa Barbara, California Kitetsu Shin, DDS, PhD Professor, Division of Peridontology, Department of Oral Biology and Tissue 29 Engineering, Meikai University, School of Dentistry, Sakado-shi, Saitama, Japan Gerald Shklar, DDS, MS Professor Emeritus, Charles A. Brackett Professor of Oral Pathology, Harvard University, School of Dental Medicine, Boston, Massachusetts Thomas N. Sims, DDS Lecturer, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles School of Dentistry, Los Angeles, California Private Practice, Torrance and Santa Monica, California Sue S. Spackman, DDS Lecturer and Director of Extended Care Programs, Division of Restorative Dentistry, June and Paul Ehrlich Endowed Program in Geriatric Dentistry, University of California, Los Angeles School of Dentistry, Los Angeles, California Frank M. Spear, DDS, MSD Founder and Director, Seattle Institute for Advanced Dental Education, Seattle, Washington Henry H. Takei, DDS, MS Distinguished Clinical Professor, Section of Periodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Jose Luis Tapia, DDS, MS Assistant Professor, Department of Oral Diagnostic Sciences, State University of New York, School of Dentistry, Buffalo, New York Dennis P. Tarnow, DDS Professor and Director of Implant Education, Columbia University College of Dental Medicine, New York, New York Private Practice, New York, New York 30 John J. Taylor, PhD Senior Lecturer in Molecular Immunology, Periodontal Immunobiology Research Group, Institute of Cellular Medicine and School of Dental Sciences, Newcastle University, Newcastle upon Tyne, United Kingdom Sotirios Tetradis, DDS, PhD Professor and Chair, Section of Oral and Maxillofacial Radiology, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Wim Teughels, DDS, PhD Associate Professor, Department of Periodontology, Catholic University of Leuven – School of Dentistry, Oral Pathology and Maxillo-Facial Surgery, Leuven,inserida. As lesões são massas de crescimento lento, geralmente indolores. Podem sofrer redução espontânea 229 de tamanho, seguida por exacerbação e aumento continuado. Por vezes, ocorre ulceração dolorosa na prega entre a massa e a gengiva adjacente. Histopatologia Os aumentos gengivais inflamatórios crônicos apresentam as características exsudativas e proliferativas da inflamação crônica (Fig. 9-3). As lesões clinicamente vermelho-escuras ou vermelho- azuladas são moles e friáveis, com superfície lisa e brilhante, e sangram facilmente. Possuem, também, uma preponderância de líquido e células inflamatórias, com ingurgitamento vascular, neoformação capilar e alterações degenerativas associadas. As lesões que se apresentam relativamente firmes, elásticas e rosadas possuem um maior componente fibrótico, com abundância de fibroblastos e fibras colágenas. Figura 9-3 Corte transversal de um aumento gengival inflamatório crônico mostrando parte central do tecido conjuntivo inflamada e proliferação epitelial marginal. Etiologia O aumento gengival crônico é causado pela exposição prolongada à placa dentária. Os fatores que provocam acúmulo e retenção48 de placa incluem higiene oral deficiente e irritação causada por anormalidades anatômicas ou por restaurações e aparelhos ortodônticos inadequados. Alterações Gengivais Associadas à Respiração Bucal A gengivite e o aumento gengival são frequentemente observados em respiradores bucais. A gengiva se apresenta vermelha e edematosa, com brilho superficial difuso na área exposta. A região maxilar anterior é o local habitual desse tipo de envolvimento. Em muitos casos, a gengiva alterada está claramente demarcada da gengiva normal adjacente, não exposta (Fig. 9-4). O modo exato pelo qual a respiração bucal provoca as alterações gengivais não foi demonstrado. Seu efeito lesivo é geralmente atribuído à irritação causada pela desidratação superficial. Contudo, não foi possível demonstrar alterações comparáveis em animais 230 experimentais, quando provocado o ressecamento gengival por ar.67 Figura 9-4 Aumento gengival em um respirador bucal. Observe a lesão marcadamente circunscrita nas regiões marginal e papilar anteriores. Aumento Inflamatório Agudo Abscesso Gengival O abscesso gengival é uma lesão localizada, dolorosa, de expansão rápida, que geralmente tem início súbito (Fig. 9-5). Habitualmente, limita-se à gengiva marginal ou à papila interdentária. Nos estágios iniciais, surge como uma tumoração vermelha, com superfície lisa e brilhante. Após 24 a 48 horas, a lesão geralmente se torna flutuante e apresenta um orifício pontual na superfície, através do qual é possível drenar um exsudato purulento. Os dentes adjacentes são, muitas vezes, sensíveis à percussão. Caso permita a progressão da lesão, geralmente ocorre ruptura espontânea. Figura 9-5 Abscesso gengival na superfície gengival vestibular da gengiva, no espaço entre o canino e incisivo lateral, sem relação com a região do sulco gengival. Histopatologia O abscesso gengival consiste em um foco purulento no tecido conjuntivo, cercado por infiltração difusa de leucócitos polimorfonucleares (PMNs), tecido edematoso e ingurgitamento vascular. O epitélio superficial apresenta graus variáveis de edema intra e extracelular, invasão por leucócitos e, ocasionalmente, ulceração. 231 Etiologia O aumento gengival inflamatório agudo é causado por bactérias transportadas profundamente para o interior dos tecidos quando uma substância estranha (p. ex., cerda de escova de dentes, pedaço de maçã, fragmento de concha de lagosta) é incrustado forçosamente na gengiva. A lesão se confina à gengiva, não devendo ser confundida com abscessos periodontais ou laterais. Abscesso Periodontal (Lateral) Os abscessos periodontais envolvem os tecidos periodontais de suporte e geralmente produzem aumento da gengiva. (Para uma descrição detalhada dos abscessos periodontais, consulte o Capítulo 13.) Aumento gengival medicamentoso O aumento gengival é uma consequência bem conhecida da administração de alguns anticonvulsivantes, imunodepressores e bloqueadores de canais de cálcio, podendo gerar problemas de erupção dentária, fonéticos, mastigatórios e estéticos. As características clínicas e microscópicas dos aumentos causados pelas diferentes drogas são semelhantes.19,87 Essas características serão apresentadas em primeiro lugar, seguidas por uma descrição das características particulares de cada droga. Informações Gerais Características Clínicas O crescimento inicia-se como um aumento esférico indolor da papila interdentária e se estende para as margens gengivais vestibular e lingual (Fig. 9-6). À medida que a patologia evolui, os aumentos marginal e papilar se unem e podem formar uma grande prega de tecido que cobre uma porção considerável das coroas, podendo interferir na oclusão (Fig. 9-7). Figura 9-6 Aumento gengival associado à terapia com fenitoína. A, vista vestibular; observe as lesões papilares proeminentes e a superfície nodular firme. B, vista oclusal da maxila. 232 Figura 9-7 Aumento gengival associado à fenitoína em uma criança de cinco anos de idade, cobrindo a maior parte das coroas clínicas dos dentes. Quando não ocorrem complicações inflamatórias, a lesão apresenta formato de amora, sendo firme, de coloração rosa-clara e elástica, com uma superfície minimamente lobulada e sem tendência ao sangramento. O aumento normalmente tende a se projetar debaixo da margem gengival, da qual é separado por um sulco linear. Entretanto, a presença do aumento dificulta o controle da placa, o que, com frequência, resulta em um processo inflamatório secundário que complica o crescimento gengival causado pela droga. O aumento resultante torna-se, então, uma combinação entre o aumento de tamanho causado pela droga e a complicação inflamatória causada por bactérias. As alterações inflamatórias secundárias não só aumentam o tamanho da lesão causada pela droga, como também provocam uma coloração avermelhada ou vermelho- azulada, obliterando as demarcações superficiais lobuladas e aumentando a tendência ao sangramento (Fig. 9-8). Figura 9-8 Aumento gengival combinado, resultante da inflamação de um crescimento induzido por fenitoína. O aumento habitualmente é generalizado, ocorrendo em toda a boca, mas é mais grave nas regiões anteriores. Ocorre em áreas onde há dentes, não nos espaços edêntulos, e o aumento desaparece nas áreas em que é feita extração dentária. Foi relatada hiperplasia da mucosa em bocas edêntulas, mas trata-se de um evento raro.26,27 O aumento medicamentoso pode ocorrer em bocas com pouca ou nenhuma placa e 233 estar ausente em bocas com depósitos abundantes. Alguns pesquisadores, porém, acreditam que a inflamação seja um pré-requisito para a ocorrência do aumento, que poderia, dessa forma, ser prevenido pela remoção da placa e pela higiene oral ostensiva.22,37,79,102 A higiene oral pela escovação dos dentes ou pelo uso de dentifrício com clorexidina91 reduz a inflamação, mas não diminui ou impede o crescimento. Hassell et al.42,44 apresentaram a hipótese de que, em gengivas sem inflamação, os fibroblastos estariam menos ativos, ou mesmo quiescentes, e não responderiam à fenitoína circulante, enquanto os fibroblastos do tecido inflamatório estariam em um estado ativo, resultante da presença de mediadores inflamatórios e de fatores de crescimento endógenos. Transferência Científica O aumento gengival é observado sob diversas formas e possui diferentes etiologias. Frequentemente há um histórico de uso de medicamentos que induzem hiperplasia gengival, onde a resposta ao acúmulo de placa bacteriana se caracteriza por aumento de proliferação tecidual, p.ex., hidantoína, bloqueadores dos canais de cálcio e imunossupressores. Também são consideradas outras causas como gravidez, puberdade, respiração bucal, leucemia, sarcoidose e granulomatose de Wegener. Um aumento gengival localizado que não possua causa óbvia deveria ser biopsiado para que doenças neoplásicas malignas sejam identificadasBelgium Leonard S. Tibbetts, DDS, MSD Private Practice, Arlington, Texas Kenneth C. Trabert, DDS, MEd Associate Clinical Professor, Section of Endodontics, University of California, Los Angeles, School of Dentistry, Los Angeles, California Istvan A. Urban, DMD, MD Assistant Professor, Graduate Implant Dentistry, Loma Linda University, Loma Linda, California, Private Practice, Budapest, Hungary N. Buzin Uzel Formerly, Instructor, Department of Periodontics, University of Pennsylvania, Philadelphia, Pennsylvania Sandra Van den Velde, MSc, PhD Research Associate, Catholic University of Leuven, School of Dentistry, Oral Pathology and Maxillofacial Surgery, Leuven, Belgium Betty Vendekerckhove, DDS, PhD Instructor, Catholic University of Leuven, School of Dentistry, Oral 31 Pathology and Maxillofacial Surgery, Leuven, Belgium † In memoriam. 32 Agradecimentos O criador da presente obra e autor de suas outras quatro edições, publicadas em 1953, 1958, 1964 e 1972, foi Dr. Irving Glickman, professor e presidente do Departamento de Periodontia da Tufts University School of Dental Medicine, em Boston, Massachusetts. Após a morte de Dr. Glickman, em 1972, aos 58 anos, a responsabilidade de continuar o trabalho do livro passou para Dr. Fermin A. Carranza, aluno e colaborador de Dr. Glickman. Na época, Dr. Carranza era professor e presidente de periodontia da Faculdade de Odontologia na University of California, Los Angeles (UCLA). As quatro edições seguintes foram publicadas em 1979, 1984, 1990 e 1996 sob a orientação de Dr. Carranza, que é hoje professor emérito na UCLA. Em 2002, a tarefa de manter a tradição de mais de meio século do livro mudou de mãos mais uma vez. Dr. Michael G. Newman e Dr. Henry H. Takei se juntaram ao Dr. Carranza a fim de assumirem a responsabilidade pela nona edição. Para a décima edição, Dr. Perry R. Klokkevold, da UCLA, ingressou como coeditor. Os avanços na ciência básica e nas técnicas clínicas aumentaram o conhecimento fundamental de forma tão marcante que é praticamente impossível para um indivíduo memorizar e reter sozinho todas as informações necessárias para praticar a profissão com excelência. Certamente, também, a tarefa de prover uma disciplina é hercúlea e deve ser levada por muitos especialistas com vontade de compartilhar suas experiências e conhecimentos. Os editores estão em débito com todos aqueles que trabalharam incansavelmente para produzir este marco impresso de Carranza Periodontia Clínica, bem como seu conteúdo on-line. Muitos cientistas e clínicos compartilharam seu conhecimento e experiência das edições anteriores de Carranza Periodontia Clínica, mas seus nomes não aparecem mais como colaboradores da presente edição. Expressamos nossa profunda gratidão a todos eles por seus valiosos conceitos e ideias. Muitos agradecimentos à Elsevier e principalmente a John Dolan e Brian Loehr. Sua experiência e atenção minuciosa a todas as palavras e conceitos contribuíram enormemente na produção de um livro de qualidade e de um site realmente útil. Queremos expressar nossa gratidão a nossos pais, colegas, amigos e mentores que sempre nos mostraram tolerância, ânimo e compreensão, e que nos guiaram nos primeiros passos em nossas profissões e nos ajudaram a desenvolver nossas ideias na área. Dr. Newman: minha família, Susan, Andrea, Natalie, Scott e Kara; meus pais, Paul, Rose, John e Inez. Sigmund S. Socransky, Stephen Stone, J.D. Murray, Fermin A. Carranza, Jr., e Henry H. Takei. Minha gratidão aos meus coeditores e colaboradores, cuja perícia e desejo de participação no trabalho fizeram deste livro um padrão em excelência educacional. Dr. Takei: minha esposa June; meus filhos Scott e Akemi; seus cônjuges Kozue e David; meus netos Hana, Markus, Carter e Arden. Minha gratidão a meus mentores Dr. Donald Van Scotter, Dr. Delbert Nachazel e Dr. John Pfeiffer. Muito obrigado a meus três coeditores e amigos Michael G. Newman, Fermin A. Carranza, Jr., e Perry R. Klokkevold. Meu agradecimento especial a Laura Miyabe por seu apoio profissional. Gostaria ainda de reconhecer e agradecer a todos os meus alunos do pós-doutorado em periodontologia da UCLA pela ajuda e apoio durante a preparação deste livro que é um clássico. Dr. Klokkevold: minha esposa Angie; minhas filhas Ashley e Brianna; meus pais Carl e Loretta Klokkevold; meus mentores Henry H. Takei, John Beumer III, Bradley G. Seto, Charles N. Bertolami, Peter K. Moy e E. Barrie Kenney. Agradeço a todos os residentes com quem eu tive o prazer de trabalhar nesses anos, pela paixão e inspiração que me deram como educador e clínico. Agradecimento especial a meus coeditores Michael G. Newman, Henry H. Takei, e Fermin A. Carranza, Jr., pelo companheirismo, apoio e incentivo. Dr. Carranza: minha esposa Rita; meus filhos Fermin, Patricia e Laura; e meus netos. Irvin 33 Glickman, Fermin Carranza, Sr., e Romulo L. Cabrini. Minha gratidão também a meus coeditores, que darão continuidade à tradição deste livro. Michael G. Newman Henry H. Takei Perry R. Klokkevold Fermin A. Carranza 34 Apresentação A 11ª edição deste livro-texto é a mais abrangente fonte de informações sobre periodontologia já disponibilizada. Utilizando a tecnologia avançada da Elsevier e altos padrões de qualidade, a equipe internacional de editores e os colaboradores desenvolveram um importante recurso periodontal destinado ao uso de todos os interessados em periodontologia. Nosso objetivo, ao revisar completamente este clássico livro-texto, foi preservar a mesma tradição de abrangência e organização que tornaram este livro o número um na escolha dos educadores, estudantes, clínicos, pesquisadores e legisladores. E, pela primeira vez, o livro permite acesso ao site . Desde a publicação de sua primeira edição, há 58 anos, a periodontologia fez um enorme progresso. A análise dos tecidos periodontais, bem como a elucidação dos mecanismos e das causas da doença, estenderam-se muito além da histologia e da fisiologia, adentrando o domínio do conhecimento biológico molecular e celular. Novos objetivos terapêuticos e técnicas clínicas, baseados em maior compreensão da doença, facilitaram melhores resultados e nos puseram ao alcance de uma meta final de saúde e função periodontais ótimas. Hoje, a reconstrução e a regeneração de estruturas periodontais perdidas, a substituição de dentes comprometidos por implantes e a criação de resultados estéticos são partes integrantes da prática clínica. Este livro foi escrito para todos - de estudantes a educadores, clínicos a pesquisadores e também para especialistas e generalistas. É nossa crença que o cuidados periodontal do público é a principal função dos dentistas clínicos gerais e dos higienistas dentais. A responsabilidade de examinar, diagnosticar e tratar ou encaminhar todos os problemas periodontais é inquestionável. Da mesma forma, o papel da periodontite na doença sistêmica torna essencial o diagnóstico e o tratamento imperativo. A tarefa complexa e multifacetada de produzir a 11ª edição exigiu a colaboração de numerosos especialistas de várias áreas, e suas contribuições foram inestimáveis. Sabemos que esta nova edição continuará a ser tão útil aos dentistas, higienistas, periodontistas, estudantes, educadores e pesquisadores quanto a edição anterior e continuará a contribuir para o contínuo progresso em nossa profissão. Michael G. Newman Henry H. Takei Perry R. Klokkevold 35 Fermin A. Carranza 36 Sobre os autores Michael G. Newman, DDS, FACD Dr. Michael G. Newman é graduado pela University of California, Los Angeles (UCLA) College of Letters and Sciences com título em psicologia. Ele concluiu seu treinamento odontológico na UCLA School of Dentistry em 1972. Recebeu o diploma em Periodontia e Medicina Oral pela Harvard School of Dental Medicine e um diploma em Microbiologia Oral da Forsyth Dental Institute, sob a orientação do Dr. Sigmund Socransky. Ele é diplomado pela American Board of Periodontology e professor adjunto em periodontia na UCLA School of Dentistry.É antigo presidente e membro da American Academy of Periodontology. Em 1975, ganhou o Balint Orban Memorial Prize da American Academy of Periodontology. Ele já vem trabalhando na prática privada da periodontia há mais de 25 anos. Em 2007, Dr. Newmann foi condecorado com a Gold Medal, a mais alta homenagem concedida pela American Academy of Periodontology. Já publicou mais de 250 resumos, artigos de jornais e capítulos de livros, além da coedição de oito livros. Atuou como revisor ad hoc do National Institute of Dental and Craniofacial Research, é consultor para o Council on Scientific Affairs da American Dental Association, além de revisor para inúmeros jornais científicos e profissionais e organizações de pesquisa governamentais. Dr. Newman apresentou palestras no mundo todo sobre microbiologia, antimicrobianos, metodologia baseada em evidências, fatores de risco e estratégias de diagnóstico da periodontite. Possui grande interesse em ciência aplicada e transferência de nova tecnologia para o uso prático. Foi consultor em muitas das maiores empresas dentárias e farmacêuticas no mundo. Ele é o principal editor fundador do Journal of Evidence-Based Dental Practice e foi o editor associado do 37 International Journal of Oral and Maxillofacial Implants. Henry H. Takei, DDS, MS, FACD Dr. Henry H. Takei formou-se em 1965 pela Marquette University School of Dentistry em Milwaukee, Wisconsin. Recebeu o diploma em Periodontia e o título de Mestre em Ciências em 1967, pela Marquette University e pelo Veterans Administration Hospital em Wood, Wisconsin. É professor de periodontia clínica na UCLA School of Dentistry e consultor em periodontia no Veterans Administration Hospital em Los Angeles. Mantém um consultório particular especializado em cirurgia periodontal e implantes. Já publicou vários artigos sobre cirurgia periodontal e contribuiu com capítulos para cinco livros. Envolvido ativamente com a educação continuada, já palestrou por todo o mundo sobre periodontia clínica e implantes cirúrgicos. Tem sido homenageado por numerosas organizações de periodontia, universidades e clubes de estudo por suas contribuições para a educação. Recebeu o Distinguished Alumnus Award da Marquette University em 2001 e o Honorary Distinguished Alumnus Award da University of California, em Los Angeles em 2008. A American Society of Periodontology homenageou Dr. Takei com o prestigioso Master Clinician Award em 2006. Perry R. Klokkevold, DDS, MS 38 Dr. Perry R. Klokkevold se formou pela University of California, na San Francisco School of Dentistry, em 1986. Seu treinamento clínico pós-doutorado incluiu a residência geral prática em odontologia hospitalar, finalizada em 1987, a residência periodontal de pós-graduação, concluída em 1994, além de uma bolsa de estudos em implante cirúrgico em 1995. Todos os seus treinamentos de pós-graduação foram realizados na UCLA School of Dentistry. Também completou o programa de mestrado em biologia oral pela UCLA em 1995. Dr. Klokkevold é diplomado pela American Board of Periodontology. É professor assistente na Division of Associated Specialties, Seção de Periodontia, na UCLA School of Dentistry e diretor do programa de Residência de Pós-graduação em Periodontia da mesma. Atuou anteriormente como diretor clínico e diretor do programa de residência de prática geral em odontologia hospitalar na UCLA School of Dentistry, de 1987 a 1992. Há mais de 15 anos mantém um consultório na UCLA especializado em periodontia e implante dentário cirúrgico. Publicou vários artigos para jornais internacionais e escreveu vários capítulos de livros sobre assuntos que incluem periodontite juvenil, medicina periodontal, influência de doenças sistêmicas e fatores de risco em periodontites, regeneração óssea e implantes dentários. Foi revisor em vários jornais, incluindo o Journal of Periodontology e o International Journal of Oral and Maxillofacial Implants. Já palestrou em seu país e no exterior sobre muitos tópicos de periodontia e relacionados a implantes. Fermin A. Carranza, Dr Odont, FACD 39 Dr. Fermin A. Carranza graduou-se pela Faculdade de Odontologia da Universidad de Buenos Aires, na Argentina, em 1948, e completou seu treinamento pós-doutorado em periodontia na Tufts University School of Dental Medicine em 1952, sob a orientação do Dr. Irving Glickman. É professor emérito de periodontia na UCLA School of Dentistry. Foi chefe do Departamento de Periodontia na Universidad de Buenos Aires de 1966 a 1974, e na UCLA, de 1974 até sua aposentadoria em 1994. Dr. Carranza publicou mais de 218 jornais científicos e resumos sobre aspectos básicos e aplicados de periodontia e 18 livros, incluindo cinco edições anteriores da obra Periodontia Clínica. Recebeu vários prêmios de reconhecimento por seu trabalho, incluindo o IADR Science Award em Periodontal Disease e o Gies Award da American Academy of Periodontology. Palestrou pelo mundo afora sobre periodontia clínica, patologia e terapia periodontal. 40 Sobre o livro Carranza Periodontologia Clínica, 11ª edição, é o texto de referência internacional definitivo em periodontia. Editado pelos Drs. Michael G. Newman, Henry H. Takei, Perry R. Klokkevold e pelo emérito editor, Fermin A. Carranza, esta edição apresenta informações de alta qualidade para estudantes, residentes e profissionais. Gostaríamos de aproveitar esta oportunidade para dar as boas-vindas à mais instigante e significativa das edições de Periodontologia Clínica (PC11). Ela é realmente transformacional. Reúne totalmente as mais modernas informações, ao mesmo tempo em que mantém e refina seus 50 anos de excelência educacional. PC11 aperfeiçoa a edição anterior do livro-texto mais significativo da periodontia, por refletir de forma muito precisa as informações essenciais da periodontologia, bem como o estado da arte dos métodos da ciência e dos princípios dos conhecimentos clínicos. Os colaboradores, de um número de países muito maior que antes, refletem a visão unificada das informações básicas relacionadas à ciência e à tecnologia da periodontia moderna. O livro, PC11, faz uma completa apresentação dos princípios básicos de periodontologia, mantendo ao mesmo tempo o estilo e a qualidade que fazem do Carranza – Periodontologia Clínica o livro-texto de Periodontia número um no mundo. Avanços em editoração e tecnologia digital tornarão a leitura do PC11 mais fácil do que foi a edição anterior. Todo o Índice é apresentado em cores variadas para que o leitor identifique os títulos dos assuntos na edição inteira. 41 Novo nesta edição Cobertura expandida Parte IV: Etiologia das Doenças Periodontais concentra-se na educação abrangente do estudante de odontologia em anatomia, fisiologia e patogênese periodontais. Completamente revisada Capítulo 24 Fatores Genéticos e Doença Periodontal é escrito por especialistas internacionalmente renomados em suas áreas. 42 Quadros de transferência científica Nos capítulos há um quadro de Transferência Científica que apresenta a base científica dos procedimentos clínicos e a aplicação clínica em tópicos científicos. Novas informações! Capítulo 21 Patogênese Periodontal Capítulo 25 Biologia Molecular da Interação Microbiota- hospedeiro nas Doenças Periodontais Capítulo 65 Preparação do Periodonto para a Odontologia Restauradora 43 Capítulo 67 Abordagem Multidisciplinar para Problemas Dentais e Periodontais Capítulo 68 Anatomia, Biologia e Função Peri-implantar Capítulo 74 Conduta Estética em Casos Difíceis (Abordagem Minimamente Invasiva) 44 Atlas de medicina oral 45 46 Nova arte Novas ilustrações identificam a anatomia clinicamente importante 47 48 Introdução Conhecer o passado histórico de nossa especialidade e o papel que tiveram os nossos antecessores em alcançar nosso status presente nos dá não só a percepção de que nosso conhecimento atual não passa de uma fase passageira no desenvolvimento da ciência e da tecnologia, mas também a apreciação da origem e evolução de nosso conhecimento que nosajuda de forma inteligente a compreender o presente e a planejar o futuro. 49 Capítulo 1 Cenário Histórico da Periodontia Gerald Shklar, Fermin A. Carranza Sumário do capítulo CIVILIZAÇÕES PRIMITIVAS MUNDO CLÁSSICO IDADE MÉDIA RENASCENÇA SÉCULO XVIII SÉCULO XIX Gengivite Ulcerativa Necrosante SÉCULO XX Viena Berlim Estados Unidos e Outros Países Infecção Focal Implantes Dentários Após a Segunda Guerra Mundial HISTÓRIA DESTE LIVRO As doenças gengivais e periodontais têm afligido a espécie humana desde os primórdios da história. Pesquisas em paleopatologia indicam que a doença periodontal destrutiva, evidenciada pela perda óssea, afetou os primeiros humanos em diversas culturas, como o antigo Egito e a primitiva América pré--colombiana. Os registros históricos mais antigos que tratam de temas médicos revelam consciência da doença periodontal e a necessidade de tratamento. Quase todos os primeiros escritos preservados possuem seções e capítulos referentes a doenças orais e problemas periodontais, ocupando espaço significativo nestes documentos. O cálculo e a doença sistêmica eram frequentemente postulados como causa dos distúrbios periodontais. Entretanto, discussões metódicas e cuidadosamente ponderadas sobre terapêutica não existiam até os tratados árabes sobre cirurgia na Idade Média, e o tratamento 50 moderno com textos ilustrados e instrumentação sofisticada não se desenvolveu até a época de Pierre Fauchard, no século XVIII. Civilizações primitivas A higiene oral era praticada por sumérios, babilônios e assírios, incluindo a massagem gengival combinada com vários medicamentos fitoterápicos.25,33 A doença periodontal era a mais comum de todas as doenças encontradas nos corpos embalsamados dos antigos egípcios.7,44 O papiro de Erbs contém muitas referências sobre a doença gengival e oferece um número de prescrições para o fortalecimento dos dentes e da gengiva.14 As obras médicas da antiga Índia dedicam espaço significativo aos problemas orais e periodontais e à higiene oral,47 com descrição das inflamações gengivais, abcessos periodontais e ulcerações da gengiva.12,21 Os primeiros hebreus também reconheciam a importância da higiene oral. Nos escritos do Talmude, são descritas muitas condições patológicas dos dentes e suas estruturas vizinhas. Mundo clássico Entre os antigos gregos, Hipócrates de Cos (460-377 a.C.), o pai da medicina moderna, discutiu a função e erupção dos dentes e a etiologia da doença periodontal. Ele acreditava que a inflamação da gengiva poderia ser causada pelo acúmulo de “pituíta” ou tártaro, com hemorragia gengival ocorrendo em casos de doenças esplênicas persistentes.10,27 Entre os romanos, Aulus Cornelius Celsus (25 a.C. a 50 d.C.) referiu-se a doenças que afetavam as partes moles da boca e seu tratamento, incluindo a higiene oral. Paul de Aegina (625-690 d.C.) escreveu que as incrustações do tártaro deveriam ser removidas com um raspador ou uma pequena lima e que os dentes deveriam ser cuidadosamente limpos após a última refeição do dia.41 Idade média O declínio e a queda do Império Romano, que mergulhou a Europa na idade das trevas, foram acompanhados pela ascensão do islamismo e da era dourada da ciência e medicina árabe. Os tratados árabes tiraram suas informações dos tratados médicos gregos, mas adicionando muitos refinamentos e novas abordagens, particularmente nas especialidades cirúrgicas.45 Albucasis (936-1013) nasceu e viveu na Espanha Moura e sua enciclopédia médica em 30 volumes, denominada al-Tasrif, foi versada para o latim no século XII e 51 era o texto médico adotado pelas universidades europeias até o século XVII. Suas contribuições a odontologia e periodontia foram realizações notáveis.1 Ele tinha uma clara compreensão do papel etiológico principal dos depósitos de cálculo e descreveu as técnicas de curetagem dos dentes usando um grupo de instrumentos que desenvolveu (Fig. 1-1). Ele também escreveu sobre a extração de dentes, a sustentação com fios de ouro de dentes com mobilidade e a conexão das anomalias oclusais grosseiras. Figura 1-1 Ilustração de instrumentos periodontais de Albucasis, mostrando raspador (r), limas (l) e fixação de dentes com mobilidade (f). Avicenna (980-1037) foi possivelmente o maior dos médicos árabes. Seu Canon, um amplo tratado sobre medicina, esteve em uso contínuo por quase 600 anos. Avicenna usou uma extensiva “matéria médica” para doenças orais e periodontais e raramente recorria à cirurgia.3 Renascença 52 Houve significativas contribuições durante a Renascença para a anatomia e cirurgia, com o renascimento da cultura clássica e o desenvolvimento do pensamento científico e conhecimento médico, além do florescimento da arte, música e literatura. O trabalho de Albucasis foi expandido, no século XV, pelo autor turco Serefeddin Sabuncuoglu (1385-1468), que incluiu ilustrações de remoção cirúrgica da gengiva hipertrófica e edemaciada, assim como do frênulo lingual (Fig. 1-2). Segundo ele, o tratamento medicamentoso deveria ser iniciado, na presença de gengivas edemaciadas, dentes com mobilidade e formação de pus. Se não houvesse resposta, o tratamento cirúrgico deveria ser realizado. Uma cânula seria introduzida nas gengivas. Um cautério aquecido seria inserido dentro da cânula, e o tecido gengival seria cauterizado. Se corretamente aplicado, os dentes adjacentes ficariam aquecidos. Figura 1-2 Ilustração feita por Serefeddin Sabuncuoglu que mostra cauterização gengival, de Albucasis, redesenhada pelo Professor Ilter Uzel, da Turquia. Paracelsus (1493-1541) desenvolveu uma teoria interessante e incomum sobre a doença: a doutrina do cálculo. Ele reconheceu a extensiva formação de cálculo sobre o dente e o associou à dor de dente. Paracelsus considerava a dor de dente comparável à dor produzida por cálculo em outros órgãos, como nos rins.39 Andreas Vesalius (1514-1564), nascido em Bruxelas, ensinou na Universidade de Pádua, na República Veneziana, e escreveu um livro magnífico sobre anatomia, com excelentes ilustrações.48 Bartholomaeus Eustachius (1520-1574), de Roma, foi outro anatomista extraordinário que escreveu um pequeno livro de 30 capítulos sobre odontologia, Libellus de Dentibus (“Um pequeno tratado sobre dentes”).16 Esse foi o primeiro livro original sobre dentes que ofereceu descrição dos tecidos periodontais, 53 de doenças bucais e suas modalidades e justificativa para tratamento. Para tratar periodontite, Eustachius aconselhou igualmente a raspagem dos cálculos e a curetagem do tecido granulomatoso com a finalidade de assegurar a reinserção dos tecidos periodontais e gengivais. O francês Ambroise Paré (1509-1590), era um renomado cirurgião do período da Renascença, e suas contribuições para a cirurgia dentária incluíam a gengivectomia para tecidos gengivais hiperplásicos.40 Ele também compreendeu o significado etiológico do cálculo e utilizou um jogo de curetas para remover os depósitos duros sobre os dentes. O primeiro livro em uma língua comum (alemão) e especificamente devotado à prática dentária, com o título de Aretzney Buchlein ou Zene Artzney (“Medicina dos dentes”), foi publicado em Leipzig em 1530.2 Contém três capítulos dedicados a problemas periodontais, incluindo um conceito primitivo sobre os fatores locais e sistêmicos na etiologia da doença periodontal. Ainda menciona a presença dos agentes infecciosos locais ou “vermes”. Uma variedade de unguentos, normalmente de natureza adstringente, é sugerida, recomendando que a sustentação dos dentes com mobilidade por meio de outros saudáveis seja feita com fio de seda ou de ouro. A cauterização da gengiva com ferro quente também é citada. O médico, matemático e filósofo italiano Girolamo Cardano (1501-1576) parece ter sido o primeiro a diferenciar os tipos de doença periodontal. Em uma publicação datada de 1562, ele menciona um tipo de doença que ocorre com a idade avançada e leva a uma mobilidade progressiva e à perda dos dentes, assim como um segundo tipo muito agressivo que acomete pacientes jovens.26 Poucoantes do final do século XX esta classificação foi redescoberta e se tornou mundialmente aceita. Anton Van Leeuwenhoek (1632-1723), de Delft, Holanda, era leigo, mas sua mente inquisitiva e o passatempo de cortar vidros/lentes o fizeram capaz de desenvolver um microscópio. Ele o usou para descobrir os microrganismos, a estrutura celular, as células do sangue, o esperma e várias outras estruturas microscópicas, inclusive a estrutura tubular da dentina.9,13 Utilizando material coletado de sua própria boca, Leeuwenhoek foi o primeiro a descrever a microbiota oral e seus desenhos mostravam uma razoável apresentação dos espiroquetas orais e bacilos (Fig. 1-3). Também realizou experimentos antiplaca usando vinagre em sua própria boca e experimentos in vitro utilizando vinagre sobre bactérias em cultura.13 54 Figura 1-3 Desenhos de Leeuwenhoek mostrando espiroquetas orais, bacilos e outros microrganismos. Século XVIII A odontologia moderna desenvolveu-se essencialmente no século XVIII, na Europa, particularmente na França e na Inglaterra. Pierre Fauchard, nascido na Bretanha em 1678, é considerado o pai da profissão de dentista como nós a conhecemos. Seu livro, The Surgeon Dentist (“O cirurgião dentista”), publicado em 1728, cobria todos os aspectos da prática dentária, incluindo restauração odontológica, protética, cirurgia oral, periodontia e ortodontia17 (Fig. 1-4). Fauchard descreveu em detalhes seus instrumentos periodontais e a técnica de raspagem para usá-los (Fig. 1-5). Figura 1-4 Contracapa do livro The Surgeon Dentist, de Fauchard (edição de 1746). de Fauchard (edição de 1746). 55 Figura 1-5 Os cinco tipos de instrumentos usados por Fauchard para remover cálculo dental: 1, cinzel; 2, bico-de-papagaio; 3, buril; 4, lâmina convexa; e 5, gancho em forma de Z. John Hunter (1728-1793), o mais notável anatomista, cirurgião e patologista do século XVIII na Inglaterra, escreveu um excelente tratado sobre odontologia intitulado The Natural History of the Human Teeth (“A história natural dos dentes humanos”).30 Ele apresentou ilustrações claras e extraordinárias da anatomia dos dentes e suas estruturas de suporte, também detalhando os aspectos das doenças periodontais. Um contemporâneo de Hunter, Thomas Berdmore (1740- 1785), foi considerado um importante dentista na Inglaterra e publicou, em 1770, um livro com vários capítulos referentes a problemas periodontais.4 Século XIX Leonard Koecker (1785-1850) foi um dentista alemão que exercia sua profissão em Baltimore. Num documento de 1821, mencionou o cuidado na remoção do cálculo e a necessidade da higiene oral do paciente, recomendando que fosse feita pela manhã e depois de cada refeição, usando-se um pó adstringente e uma escova de dentes e colocando-se “as cerdas… dentro dos espaços entre os dentes”. Koecker foi um antigo defensor da teoria da “infecção focal odontogênica” e recomendava a extração de todos os dentes e raízes envolvidos, incluindo os molares não ocluídos, para prevenir infecções sistêmicas.35 Levi Spear Parmly (1790-1859) era um dentista de Nova Orleans considerado o pai da higiene oral e o inventor do fio dental.11,18 Em meados do século XIX, John W. Riggs (1811-1885) era a principal autoridade nos Estados Unidos sobre doença periodontal e seu tratamento, a ponto de a periodontite ser conhecida como “doença de Riggs” (Fig. 1-6). Graduou-se pelo 56 Baltimore College of Dental Surgery em 1854 e exerceu seu trabalho em Hartford, Connecticut, onde morreu em 11 de novembro de 1885. Riggs parece ter sido o primeiro indivíduo a limitar sua prática em periodontia e, por isso, pode ser considerado o primeiro especialista neste campo. Entretanto, suas publicações são limitadas. Em uma delas, de 1876, Riggs se apresentava como forte oponente da chamada abordagem conservadora para o tratamento periodontal, desenvolvendo o conceito da profilaxia oral e prevenção, defendendo a limpeza da boca e se opondo à cirurgia, que àquela época consistia em ressecção da gengiva.43 Figura 1-6 John W. Riggs (1811-1885). (De Hoffman-Axthelm W: History of dentistry, Chicago, 1981, Quintessence.) Riggs e discípulos tiveram grande influência na profissão odontológica. Entre seus seguidores, estavam L. Taylor, D. D. Smith, R. B. Adair e W. J. Younger. Os instrumentos designados por Younger57 e mais tarde modificados por seu aluno Roberd Good foram usados além da metade do século XX. Diversas evoluções notórias na ciência médica ocorreram na segunda metade do século XIX, iniciando a era que pode ser chamada de medicina moderna, que inclui a odontologia.9,36 A primeira foi o descobrimento da anestesia por Horace Wells (1813- 1848), de Hartford, Connecticut, em 1845, e por William Morton (1819-1868), de Boston, em 1846, que descobriu os efeitos da anestesia geral com óxido nitroso e com éter, respectivamente. A anestesia local foi desenvolvida pelo oftalmologista vienense Carl Köller (1857-1944), que produziu anestesia para os olhos com gotas de cocaína. A Procaína (Novocaína) foi desenvolvida em 1905 pelos químicos Alfred Einhorn e Richard Willstädter, ambos de Munique. Mais tarde, com a adição de adrenalina, descoberta separadamente nos Estados Unidos por Jokichi Takamine e Thomas Bell Aldrich, nascia a anestesia local.29 57 O segundo avanço científico foi feito pelo químico francês Louis Pasteur (1822- 1895), que estabeleceu a teoria do germe da doença. Subsequentemente, o médico alemão Robert Koch (1843-1910), em uma série de investigações brilhantes, descobriu o microrganismo causador da doença do gado chamada antraz e a etiologia bacteriana da tuberculose e da cólera. Os conceitos de Pasteur foram transferidos para a prática clínica e cirúrgica por Joseph Lister (1827- 1912), da Inglaterra, e assim nascia a era da antissepsia (e, mais tarde, da assepsia) em cirurgia. A anestesia e a antissepsia tornaram possíveis avanços extraordinários nas técnicas cirúrgicas. Pasteur, Koch e outros colaboradores e seguidores (Eli Metchnikoff, Emile Roux, Paul Ehrlich, Emil von Behring, Shibasaburo Kitasato e muitos outros) descobriram a etiologia bacteriana de muitas doenças (p. ex., pneumonia, febre puerperal, difteria, meningite, peste, disenteria, sífilis) e originaram duas ciências que se tornaram básicas para a periodontia: a bacteriologia e a imunologia. A terceira descoberta científica que mudou a prática dentária em geral e a periodontite em particular foi o descobrimento da radiografia pelo físico alemão Wilhelm Röntgen (1845-1923; também conhecido como Röentgen). A descoberta de Röntgen se deu em 1895 na Universidade de Würzburg como simplesmente um descobrimento científico básico, mas foi logo compreendido por médicos e dentistas e provou ser um desenvolvimento crucial em periodontia e em muitas outras áreas da medicina e odontologia. Também mais tardiamente no século XIX, estudos feitos por Rudolph Virchow (1821-1902), Julius Cohnhein (1839-1884), Elie Metchnikoff (1845-1916) e outros tinham começado a divulgar as mudanças microscópicas que ocorriam na inflamação,8,9 resultando na compreensão da patogenia da doença periodontal baseada em estudos histopatológicos. O russo N.N. Zbamensky descreveu a complexa interação de fatores locais e sistêmicos na etiologia da doença periodontal. Suas observações e conceitos foram sumarizados em 1902 em um documento clássico, no qual descreveu a presença, em gengivas inflamadas, de uma célula infiltrada que se estendia mais profundamente à medida que a doença progredia, causando a reabsorção do osso associada a células multinucleadas (osteosclastos) e à lacuna de Howship58 (Fig. 1-7). 58 Figura 1-7 Características microscópicas da doença periodontal apresentadas por Znamensky. O primeiro indivíduo a identificar a bactéria como causa da doença periodontal parece ter sido o dentista alemão Adolph Witzel (1847-1906).23,56 Entretanto, o primeiro microbiologista oral verdadeiro foi o americano Willoughby D. Miller (1853- 1907), cujas atividades profissionais eram realizadas em Berlim, onde