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Linguística forense
Você aprenderá sobre linguística forense, área de interface entre a linguística e o direito, suas áreas de
atuação e possíveis contribuições em demandas judiciais.
Prof. Welton Pereira
1. Itens iniciais
Propósito
A língua é uma das principais ferramentas da comunicação. No que diz respeito ao trabalho pericial e ao
emprego da língua e dos textos em âmbito jurídico, a linguística forense ajuda no reconhecimento de padrões
de autoria de textos questionados e contribui para a compreensão de marcas sociolinguísticas e discursivas
desses textos.
Preparação
Antes de iniciar seu estudo, pesquise e acesse o Dicionário de Termos Linguísticos, disponível no Portal da
Língua Portuguesa, para entender termos específicos da área.
Objetivos
Reconhecer a linguística forense como ciência da linguagem.
Reconhecer a importância dos estudos linguísticos em relação ao direito e à investigação forense.
Identificar os conceitos básicos da linguística em sua aplicação forense.
Introdução
A língua faz parte das interações cotidianas vivenciadas pelo homem, e é empregada em situações passíveis
de tipificação penal, o que o linguista forense Roger Shuy (1996) chama de crimes de linguagem. Para ele,
alguns crimes, como ameaças, injúrias e textos forjados, podem ser cometidos principalmente ou unicamente
pelo uso da língua, merecendo atenção por parte da linguística. 
Aqui conheceremos a linguística como ciência da linguagem, bem como a linguística forense: área em que os
conhecimentos da linguística são aplicados na resolução de problemas relacionados ao direito. Veremos um
breve histórico, seus campos de atuação e postulados teóricos básicos. Ao final, seremos capazes de
entender como a linguística forense pode contribuir em nossa formação e atuação profissional.
• 
• 
• 
Ferdinand de Saussure.
1. Campo da linguística forense
Constituição da linguística forense a partir da linguística
aplicada
Confira, neste vídeo, o conceito de linguística forense e sua relação com a linguística em geral a partir de
exemplos.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A linguística forense pode ser compreendida como o campo de estudos que realiza a interface entre a
linguística e o direito. 
A linguística é a ciência que se ocupa da
descrição e compreensão da linguagem e das
línguas naturais, como português, inglês,
línguas indígenas etc. Foi fundada, como
disciplina científica, a partir da publicação do
Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de
Saussure, em 1916.
Os estudos sobre a linguagem humana e as
línguas naturais remontam à Antiguidade
Clássica. Dionísio, Trácio, foi um estudioso da
Biblioteca de Alexandria que estipulou algumas
classes gramaticais que empregamos até hoje,
como os substantivos e os verbos.
Com o passar do tempo, a ciência linguística se desenvolveu e recebeu contribuições de outras disciplinas,
como ciências sociais, antropologia, psicologia e neurociências, permitindo a expansão da área e o estudo de
diferentes fenômenos linguísticos. Hoje, podemos pensar em pesquisas teóricas básicas e pesquisas
aplicadas acerca dos fenômenos linguísticos.
A descrição e a compreensão de fenômenos linguísticos podem ser consideradas estudos teóricos na
linguística. Esses fenômenos linguísticos, por exemplo, podem ser:
 
Combinação sintática dos elementos na oração.
Diferentes variantes fonológicas e lexicais.
Forma como atribuímos significado às estruturas linguísticas.
Quando pesquisadores empregam esse conhecimento e o aplicam a determinados fins, temos a linguística
aplicada, campo que relaciona princípios analíticos e teóricos da linguística à resolução de problemas sociais.
Por anos, a linguística aplicada se desenvolveu buscando soluções no campo educacional, investigando, por
exemplo, metodologias didáticas no ensino de línguas.
A aplicação da linguística chega, contudo, a outros campos, pois há quem se dedique a empregar algumas
teorias e metodologias linguísticas à área da computação e da inteligência artificial, na chamada linguística
computacional; uns contribuem em pesquisas sobre terapias da fala, enquanto outros linguistas contribuem
com a seara jurídica, por meio da linguística forense.
De acordo com Sousa-Silva e Coulthard (2016), além da divisão entre a linguística teórica e a aplicada, a
própria linguística forense também pode ser dividida em:
• 
• 
• 
Vamos entender cada uma dessas abordagens adiante. 
Breve histórico da linguística forense
Confira, neste vídeo, a origem da linguística forense e entenda como seu desenvolvimento levou à sua
configuração atual.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Assim como a linguística em geral, a linguística forense também tem seu marco fundador. Trata-se do artigo 
The Evan’s Statements: a case for forensic linguistics, em tradução livre, Os depoimentos de Evan: um caso
para a linguística forense, do linguista Jan Svartvik. Vamos acompanhar a história:
 
Primeiramente, Jan trabalhou em um caso jurídico, analisando depoimentos de um jovem chamado
Evan, na Inglaterra, em meados do século XX. O rapaz havia sido condenado à forca pela morte da
esposa, grávida, e da filha do casal. Contudo, a análise linguística dos depoimentos demonstrou
inserções em partes do discurso dos policiais.
Depois, Evan confessou ter assassinado sua família, mas, durante o julgamento, voltou atrás, dizendo
que se sentiu coagido e afirmando que seu vizinho, John Christie – a principal testemunha de acusação
–, era o responsável pelos assassinatos. Mesmo assim, Evan foi condenado à morte.
Anos mais tarde, o caso foi revisitado e contou com a análise de um linguista. Jan Svartvik notou que
os depoimentos não eram condizentes com o de um rapaz semianalfabeto, havendo empregos
linguísticos característicos do discurso policial da Inglaterra daquele período: o constante uso do
advérbio then, dando sequência ao discurso, como em: “Contou, então, que...”, “então, sua esposa...”.
Outras investigações comprovaram ser Christie, o vizinho, um serial killer, e foi então que Timothy
recebeu perdão póstumo, em 1966.
Apesar de o artigo de Svartvik ser considerado o marco fundador da área, é possível perceber que, já na
Antiguidade, havia a compreensão de alguns dos princípios que orientam a linguística forense.
Linguística forense lato sensu 
Concepção de linguística mais abrangente e
que faz menção a estudos do discurso
jurídico, da interação em contexto forense, da
tradução e interpretação forense, do discurso
policial etc.
Linguística forense stricto sensu 
Concepção de linguística mais restrita e
que se refere à aplicação do
conhecimento linguístico à seara
forense, como na atribuição de autoria,
identificação de plágio e perfilamento
linguístico.
• 
• 
• 
Exemplo
A passagem narrada na Bíblia, no livro de Juízes, capítulo 12, versículos de 1 a 15. Segundo a passagem,
havia duas tribos em guerra, cada uma vivendo em uma margem do Rio Jordão; ambas falavam a mesma
língua, embora em diferentes variedades. Quando alguém atravessava o rio e era capturado, os soldados
pediam-no para pronunciar a palavra shibolet, que se refere à parte da espiga de trigo que comporta os
grãos. De acordo com o relato bíblico, alguns pronunciavam sibolet, empregando o fone [s] – som inicial
da palavra “sapo”, em vez do fone [ʃ] – som inicial da palavra “shampoo” – sendo, por isso, degolados. 
O que essa narrativa bíblica tem em comum com nosso estudo?
É possível identificar parte das características identitárias de um indivíduo pelo modo que ele emprega a
própria língua. Cada indivíduo, mesmo compartilhando a língua com outros de seu grupo social, a emprega de
um jeito particular, o que é teoricamente reconhecível por um linguista forense.
Métodos da linguística em contextos legais e
investigativos
Confira, neste vídeo, os diferentes métodos que a linguística utiliza para realizar investigações, como a
sociolinguística e a análise do discurso.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital paraassistir ao vídeo.
Algumas áreas da linguística podem fornecer métodos pertinentes à análise de um texto em contexto forense.
Vejamos agora como podemos empregar pressupostos de sociolinguística e da análise do discurso quando
investigamos se um texto foi ou não escrito por determinada pessoa. Vamos lá!
Sociolinguística
Proposta pelo linguista norte-americano William Labov, pressupõe que a língua é um sistema
naturalmente variável e mutável, que apresenta diferenças dependendo das seguintes variantes:
Espaço geográfico (falar gaúcho, falar mineiro, falar baiano).
Espaço social (pessoas mais escolarizadas falam de maneira diferente das menos escolarizadas;
adolescentes de diferentes grupos apresentam suas peculiaridades e gírias).
Espaço temporal (falamos de maneira diferente dos que viveram no Brasil do século XIX);
Natureza da interação (a escrita é diferente da oralidade; profissionais de determinada área
empregam termos técnicos).
Essas características sociais se somam a outras pessoais e permitem a discriminação de um autor de
determinado texto em relação a outros. Idioleto é o conjunto de características linguísticas
empregadas por um indivíduo que o distingue dos demais, permitindo a atribuição de um texto a
determinado autor.
Análise do discurso
Proposta, inicialmente, pelo filósofo francês Michel Pêcheux, mas desenvolvida por outros
pesquisadores, a análise do discurso pressupõe que deixamos transparecer nossas ideologias e
visões de mundo pela forma como empregamos a língua como discurso. Assim, se escolho dizer “vi
um senhor pedindo ajuda na rua” em vez de “vi um mendigo pedindo esmola na rua”, não apenas
descrevo uma realidade, mas imprimo sobre ela o meu ponto de vista.
Esses pressupostos também são úteis em tarefas de atribuição de autoria, pois a escolha de
determinadas palavras em vez de outras passa por como enxergamos o mundo e falamos sobre ele.
Quando analisamos um texto sob o aparato da linguística forense, procuramos evidenciar marcas
sociolinguísticas e discursivas que nos forneçam indícios sobre sua autoria.
Mas que marcas são essas? McMenamin (2017), linguista forense norte-americano, fornece um conjunto de
características, vejamos! 
Frequência lexical
São contabilizadas, por meio de softwares especializados, quantas vezes algumas palavras foram
usadas. Um autor tende a usar as mesmas palavras em seus textos, aquelas que ele conhece.
Escolhas lexicais
São fornecidas pistas sobre o autor, já que empregamos palavras que conhecemos. Em algumas
ocasiões, essas escolhas deixam transparecer nossa visão de mundo.
Comprimento das frases
É estabelecido um padrão a partir da extensão dos enunciados. Pessoas que escrevem frases curtas
tendem a manter o padrão, bem como pessoas que escrevem frases maiores.
Sinais de pontuação
É estabelecido um padrão a partir da pontuação empregada nos enunciados. Pessoas que se
esquecem de inserir certo sinal de pontuação, ou não sabem usá-lo de acordo com a norma culta
escrita, tendem a repetir essa característica em outros textos.
Desvios ortográficos e gramaticais
É estabelecido um padrão a partir dos desvios cometidos nos enunciados. Assim como nos sinais de
pontuação, alguém que cometa um desvio ortográfico frequentemente, como troca de letras, falta de
concordância etc., continuará cometendo esse desvio em outros textos.
Marcas sociolinguísticas
São características regionais e sociais que fornecem pistas sobre a origem geográfica e social do
autor. Por exemplo, um falante gaúcho teria maior chance de usar o termo “guri” do que um falante
mineiro.
McMenamin (2017) chama a análise dos traços estilísticos presentes em um texto de estilometria ou estilística
forense. Por meio dessa técnica, é possível traçar o perfil linguístico de um texto, comparando-o a outros
textos do suspeito, de modo a averiguar a possibilidade de o suspeito tê-lo escrito. 
Essa abordagem é empregada, por exemplo, quando se quer descobrir se uma carta de suicídio foi realmente
escrita pelo suposto suicida; se uma carta de ameaça foi escrita por determinado suspeito; se um testamento
foi escrito por quem o assinou etc. 
Linguagem e direito
Confira, neste vídeo, variados aspectos da relação entre direito e linguagem, como o envolvimento da
linguística forense em variadas vertentes do direito, a aplicação da análise do discurso e muito mais!
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A linguística forense apresenta diversas possibilidades de contribuição na esfera jurídica. De acordo com os
professores e linguistas forenses Rui Sousa-Silva e Malcolm Coulthard (2016), a linguística forense tem uma
definição mais ampla e uma mais restrita. Na definição mais ampla, relacionamos linguística forense a
trabalhos de diferentes searas do direito.
Exemplo
Há quem estude a complexidade do jargão jurídico e a importância de os textos jurídicos serem
produzidos por meio de um registro mais próximo do cidadão comum. Há quem auxilie em entrevistas
com refugiados que pedem asilo, bem como há aqueles especializados em tradução de textos legais. Há
quem se ocupe do estudo acadêmico da interação no âmbito policial ou judicial, e quem estude a
natureza dos textos legais escritos e da argumentação jurídica. Todos esses trabalhos são atravessados
por conhecimentos linguísticos diferentes. 
A análise do discurso nos fornece maneiras de perceber o posicionamento dos sujeitos em seus textos, como
também pode ajudar a desvelar relações de poder, auxiliando na compreensão de como a argumentação é
empregada. Saber argumentar para fundamentar melhor sua defesa ou acusação é fundamental em qualquer
processo no âmbito do direito. Outros trabalhos figuram no escopo da linguística forense. Recentemente tem
havido maior preocupação com a democratização do conhecimento linguístico. 
O movimento plain language, ou linguagem simples, busca conscientizar os juristas de que seus
textos, que serão acessíveis às partes do processo, precisam ser compreendidos por quem não
domina a linguagem técnica do direito. Trata-se, portanto, de uma questão de acesso ao
conhecimento.
A preocupação democrática passa, ainda, por outras atividades nas quais o linguista pode contribuir. O auxílio
a testemunhas que não falem português como língua materna, como indivíduos surdos e membros de alguma
etnia indígena, por exemplo, deve ser feito por um profissional que entenda e saiba se comunicar na língua
materna – a primeira língua que o indivíduo aprende – desses indivíduos. Isso também é válido para imigrantes
que não dominam o português. Se esses indivíduos estão passando por um processo, é preciso garantir que
eles compreendam o que está sendo dito a eles, de modo que possam ter seus direitos garantidos.
Verificando o aprendizado
Questão 1
A linguística forense se desenvolveu a partir da própria linguística, mas a área apresenta algumas
ramificações. Quais são as duas principais áreas em que se divide a linguística forense?
A
Linguística teórica e linguística descritiva.
B
Fonologia do português e sintaxe do português.
C
Estilometria e atribuição de autoria.
D
Linguística forense lato sensu e linguística forense stricto sensu.
E
Linguística de corpus e análise do discurso.
A alternativa D está correta.
A linguística forense pode ser concebida a partir de duas grandes divisões: a linguística forense lato sensu,
que abarca os diversos trabalhos voltados para a relação entre a linguagem e o direito; e a linguística
forense stricto sensu, que é restrita ao trabalho do linguista como expert em análise da língua como
evidência.
Questão 2
Cada ser humano apresenta particularidades que o distinguem dos demais, como seus gostos em vestimenta,
alimentação, religião, gestos, manias e modos de empregar a língua. O conjunto de características linguísticas
próprias de um indivíduo, que permite encontrarmos padrões em tarefas de perfilamento e estilometria,
chamamos de
A
sociolinguística.
B
morfologia.
C
idioleto.
D
marcadores linguísticos.
E
frases e orações.A alternativa C está correta.
O idioleto é o conjunto de particularidades linguísticas de um indivíduo. Permite que seja possível perceber
padrões recorrentes no emprego da língua que distinguem esse indivíduo dos demais.
2. Linguagem e disputas judiciais
Determinação de significado
Confira, neste vídeo, o significado e sua determinação para o desenvolvimento e resolução do caso em
disputas judiciais e investigações forenses.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Agora, veremos como a linguística forense pode contribuir em disputas judiciais e investigações forenses.
Nosso debate será sobre o significado, que pode levar à instauração de um processo. 
Como sabemos, as palavras carregam determinados significados. Quando dizemos “árvore”, imaginamos a
imagem de uma árvore, certo? Contudo, há bastante tempo, os filósofos da linguagem começaram a pensar
no significado e se ele já estaria presente nas formas linguísticas (palavras, expressões e frases). 
Exemplo
O filósofo Wittgenstein questionou o significado prototípico de um termo. Pensemos novamente na
palavra “árvore”: você imaginou um coqueiro quando a leu? Provavelmente não, pois os coqueiros não
são membros prototípicos do conjunto árvore. Pensamos em uma árvore com tronco, galhos e folhas. 
Outras considerações acerca do significado têm a ver com o contexto. Considere a seguinte frase:
A porta está aberta.
Agora perceba como o significado se altera se levarmos em consideração os seguintes contextos de uso e as
identidades dos participantes da interação:
 
Dita de maneira descontextualizada, significa que há uma porta, um objeto que abre e fecha, servindo
de passagem, sem tocar no portal.
Agora, se alguém bate à sua porta, e você diz essa frase, está convidando a pessoa a entrar.
Imagine um aluno conversando muito em sala de aula, atrapalhando o professor e os demais colegas. O
professor se dirige a ele com a mesma frase. O que você acha que ela significa? É uma sugestão para
que o estudante saia da sala, correto?
Você entra em um carro e o motorista diz essa frase. Você imediatamente abre e fecha a porta
novamente, pois entendeu a frase como um aviso e um pedido.
Portanto, o significado das palavras e frases varia dependendo do contexto, que precisa ser levado em
consideração quando analisamos um texto de maneira apropriada. Observe o significado desses importantes
conceitos:
• 
• 
• 
• 
Semântica
É a área da linguística que se ocupa dos
significados carregados pelas palavras e frases.
Pragmática
É a área que estuda o significado, levando em
consideração o contexto de uso.
Devido a essas possíveis diferenças de interpretação, por vezes, alguns termos e expressões são alvo de
disputa judicial. 
Coulthard (2016) apresenta o exemplo: um senhor de 58
anos, trabalhador de uma indústria de cimento, processou a
companhia que se recusou a pagar sua pensão. Na ocasião,
ela alegou que o indivíduo havia mentido em um
questionário ao negar que tivesse alguma deficiência, ainda
que estivesse acima do peso e com alto índice de
colesterol.
De acordo com Coulthard (2016), a linguista Prince foi
chamada para avaliar o caso, evidenciando a vagueza da
palavra deficiência, em inglês. A linguista forense afirmou
que o leitor cooperativo – que se esforça para entender o
que é dito – inferiria que deficiência teria um sentido relativo
a alguma incapacidade ou inaptidão física, comprovando, assim, que o indivíduo não havia agido de má-fé.
No caso, o contexto também foi levado em conta, pois a pergunta era: Você possui alguma deficiência? O
texto ainda trazia alguns exemplos, como perda de visão, perda de audição e até perda de um membro, como
um braço ou uma perna. Logo, levando em conta o texto, a palavra deficiência fazia menção a uma questão
física, em que, normalmente, não inserimos o colesterol.
Poderíamos até mesmo alegar que colesterol alto não é um membro prototípico do grupo de deficiências,
como vimos anteriormente com o coqueiro no grupo das árvores. Logo, o significado não é algo tão simples,
pois ele se altera dependendo do contexto e de quem entra em contato com o texto.
Demandas sobre marcas registradas
Confira, neste vídeo, o significado de marca, além de aspectos da linguística relacionados às demandas de
marcas registradas.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Outra área na qual podemos aplicar conhecimentos de linguística é sobre marcas registradas. De acordo com
o Instituto Nacional da Propriedade Industrial:
Exemplo de uma marca fictícia.
Marca é todo sinal distintivo, visualmente perceptível, que identifica e distingue produtos e serviços,
bem como certifica a conformidade dos mesmos (sic) com determinadas normas ou especificações
técnicas. A marca registrada garante ao seu proprietário o direito de uso exclusivo no território nacional
em seu ramo de atividade econômica. Ao mesmo tempo, sua percepção pelo consumidor pode resultar
em agregação de valor aos produtos ou serviços. 
(INPI, 2020, n. p)
A marca é parte essencial da identidade da empresa, o que garante o direito de mantê-la e resguardá-la de
cópias indevidas que tenham intenção de se aproveitar da integridade e legitimidade da marca original. De
acordo com Butters (2010), outro linguista forense norte-americano, marcas podem ser compostas por
palavras ou frases, símbolos, logos, desenhos e, mais recentemente, domínios na internet.
Um produto menos conhecido pode se valer de fontes
(formato das letras), imagens e textos que se aproximam de
uma marca mais famosa, levando o consumidor a comprá-lo
por engano. Como ninguém quer “comprar gato por lebre”, e
nenhuma empresa quer ter seu lucro desviado por
empresas oportunistas, o campo das marcas registradas é
terreno fértil para disputas judiciais.
Em caso recente ocorrido no Brasil e mencionado por
Sousa-Silva e Coulthard (2016), o rótulo da cachaça João
Andante foi considerado cópia do rótulo do uísque Johnnie
Walker. Observe:
No plano linguístico, é possível verificar o seguinte:
A semelhança entre os nomes João, em português, e Johnnie, apelido para John, em inglês.
O adjetivo walker, em inglês, significa caminhante, aquele que anda; já que o sufixo -er é anexado ao
verbo para dar a noção de aquele que realiza a ação de X, como lover (do verbo to love: amar) –
amante, e writer (do verbo to write: escrever) – escritor, relação muito próxima ao adjetivo andante, em
português.
Uísque Johnnie Walker 
O rótulo do uísque, no plano imagético
apresenta um homem de botas, cartola e
bengala, caminhando para a esquerda.
Cachaça João Andante 
O rótulo da cachaça traz um homem de
chapéu de palha, segurando uma vara
com uma trouxa, também caminhando
para a esquerda.
1. 
2. 
As proximidades fizeram com que o juiz considerasse o rótulo da cachaça João Andante uma apropriação
indevida do rótulo da Johnnie Walker, fazendo com que a marca de cachaça reformulasse seu nome para O
Andante. Além disso, a imagem, agora, apresenta o homem sem as pernas; não há mais a ideia de caminhar.
Essa discussão nos leva ao próximo tópico: o plágio!
Detecção de plágio
Confira, neste vídeo, como a linguística atua na detecção de plágios, de que forma uma cópia é considerada
plágio, sendo passível de punição.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
O plágio (do latim plagium – roubo) consiste na apropriação das ideias de outra pessoa, apresentando-as
como se fossem criação própria. No âmbito acadêmico e artístico, o plágio é combatido e punido legalmente.
Há muitos relatos de acadêmicos que perderam seus títulos, bem como artistas que foram obrigados a se
retratar publicamente, além de todas as sanções penais envolvidas, por terem plagiado uma obra sem sua
devida referência.
Quando se fala em roubo de ideias, essa questão merece atenção no âmbito da linguística forense. Afinal, é
por meio da língua que expressamos nossas ideias, pensamentos e emoções.
Ao se basear em outra obra para sua própria criação, é preciso que seatente à referência do
original, deixando claro de onde vem determinada informação.
De acordo com a Constituição Federal, em seu artigo 5º:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e
à propriedade.XXVII - aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução
de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar. 
(BRASIL, 1988, n. p.)
Além da própria Constituição Federal, o Código Penal brasileiro também tipifica o plágio, por meio do artigo
184 do Decreto-Lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Segundo o artigo, o indivíduo que comete a
violação dos direitos do autor pode receber como sanção prisão de três meses a um ano, ou multa. No plano
da linguística forense, de acordo com os professores Coulthard e Johnson:
Simplificadamente, plágio, ou mais propriamente o tipo de plágio com o qual os linguistas estão aptos a
lidar, é o roubo, ou uso sem autorização, de um texto criado por outro. 
(COULTHARD; JOHNSON, 2007, p.186)
De acordo com Sousa-Silva (2016), especialista em plágio, para que a cópia seja configurada como tal, sendo
passível de punição, é preciso que se identifique a intenção de plagiar. Em algumas profissões, a cópia de
textos de autores sem a devida referência é mais tolerável do que em outras.
A intenção é percebida pelas estratégias usadas pelo plagiador, como a alteração de algumas palavras e de
sua ordem. Se há evidente tentativa de cometer plágio, há a prova da intenção. No âmbito acadêmico,
precisamos estar atentos ao nível de formação do estudante. Alunos do ensino médio e do início da
graduação têm mais dificuldade em compor seus próprios textos devido ao seu despreparo, e muitas vezes
cometem plágio sem intenção.
Para que se evite o plágio, é preciso que o texto original seja devidamente referenciado ou que a alusão seja
explícita.
Exemplo
Artistas que queiram homenagear outros colegas precisam deixar claro que sua produção faz alusão à
música X do compositor Y. Alunos que queiram citar algum autor em seu texto precisam se lembrar de
referenciá-los. 
Contudo, os textos nunca são completamente inéditos, e o que produzimos é fruto do que já lemos e ouvimos,
sendo essa uma das premissas básicas da linguagem. O fato de um texto sempre ser produzido com base em
outros, de maneira explícita ou não, é chamado de intertextualidade. Contudo, mesmo que os textos sejam
naturalmente produzidos tomando outros como base, é muito difícil que, de maneira aleatória, um grupo de
palavras, frases e, principalmente, ideias, seja apresentado da mesma forma por duas pessoas diferentes.
Acompanhe:
 
Em outro caso ocorrido no Brasil, o Dicionário Jurídico e de Finanças foi considerado plágio do Noronha
Dicionário Jurídico.
Na sentença, o juiz alegou que a perita incumbida da análise percebeu denotativos e conotativos, ou
seja, uso de linguagem literal e figurada, bem como falsos cognatos – palavras em língua estrangeira
que se assemelham a alguma palavra em português, mas cuja tradução é diferente. Um exemplo de
falso cognato é a palavra em inglês push, que se assemelha a puxar, mas significa empurrar.
De acordo com a perita, nas duas obras havia termos pouco usados e até mesmo impróprios para uma
obra jurídica. Essa similaridade, dentre outras características, a levaram a afirmar que uma obra era
plágio da outra.
 
Nessa seara, a linguística forense encontra amplo campo de atuação, recebendo muita contribuição por parte
dos programas de detecção automatizada de plágio.
• 
• 
• 
Verificando o aprendizado
Questão 1
Leia as afirmativas a seguir:
 
I. O idioleto de um autor corresponde ao conjunto de particularidades linguísticas que o distingue dos demais.
II. As marcas são analisadas apenas pelo aparato linguístico, sem levar em consideração a contraparte
imagética, caso ocorra.
III. O plágio em âmbito acadêmico costuma ser evitado quando o autor referencia devidamente os textos e
ideias mencionados.
 
Está(ão) correta(s)
A
as alternativas I e II.
B
as alternativas II e III.
C
as alternativas I e III.
D
as alternativas I, II e III.
E
apenas a alternativa III.
A alternativa C está correta.
Idioleto é o conjunto de características que fazem parte do repertório linguístico do indivíduo, distinguindo-
o dos demais membros de sua comunidade. No que concerne ao plágio em âmbito acadêmico, a correta
referenciação das obras e autores consultados é fator essencial. Sobre as marcas registradas, dependendo
da natureza da marca, é preciso analisar o material linguístico em conjunto com o imagético.
Questão 2
Um grande problema acadêmico gira em torno do plágio em trabalhos escolares e universitários. De acordo
com Sousa-Silva (2016), em alguns casos, o plágio precisa ser relativizado, como quando cometido por
estudantes que ainda não compreendem os danos gerados pela cópia literal das ideias de outro autor. Para
que se evite o plágio, deve-se
A
copiar o texto e mudar a ordem das palavras.
B
copiar o texto e mudar algumas palavras.
C
separar o texto copiado em pequenos trechos espalhados pelo seu próprio texto.
D
referenciar a obra consultada e deixar claro que as palavras são de outro autor.
E
referenciar ao final do trabalho, mas sem marcar a parte copiada.
A alternativa D está correta.
Em âmbito acadêmico, deve-se demarcar as palavras e ideias de outros autores e realizar a referência à
obra consultada de maneira adequada, mesmo quando a citação se fizer por meio de paráfrase do texto
original – o que se convencionou chamar de citação indireta.
3. Investigação e perícia em linguística
Perfilamento linguístico
Confira, neste vídeo, o perfilamento linguístico e a atribuição de autoria, juntamente com sua relação com a
investigação.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
O emprego da língua pode fornecer pistas sobre a identidade do autor de um texto. Apesar de
compartilharmos a mesma língua, cada um de nós a utiliza de maneira diferente dos demais membros de
nossa comunidade. Essa diferença pode ser percebida e analisada, de modo que possamos atribuir um texto
apócrifo, cuja autoria é desconhecida ou questionada, a um provável autor. Nesse âmbito, a linguística forense
reconhece duas áreas:
 
Perfilamento linguístico
Atribuição de autoria
Quando um texto é possível evidência de um crime, mas não conhecemos seu autor, algumas pistas
sociolinguísticas e discursivas podem apontar a provável identidade de quem escreveu.
O texto é capaz de fornecer pistas sobre o perfil do autor do crime: essa é a técnica do perfilamento
linguístico. Algumas marcas linguísticas podem nos ajudar a levantar certas hipóteses. Vamos conferir!
Procedência geográfica do autor
Neste caso, se houver emprego de expressão linguística característica de alguma região, estado ou
cidade, levantamos a hipótese de que o autor tenha vivido bastante tempo ali. Não falamos
necessariamente em local de nascimento, pois a língua é adquirida no contato social. Logo, ele pode
ter nascido em Santa Catarina, mas ter aprendido a falar no Ceará, adquirindo, portanto,
características do falar daquele estado.
Grau de letramento
Neste caso, dependendo das palavras empregadas e da forma de escrita e pontuação, é possível
perceber o grau de letramento do autor, que costuma se relacionar ao grau de escolaridade. Contudo,
uma pessoa pode ser muito letrada, ter muito controle sobre leitura e escrita, sem apresentar nível
superior, por exemplo. O contrário também é válido: algum indivíduo dotado de nível superior pode
cometer diversos desvios gramaticais. Portanto, falamos em letramento e não em escolaridade.
Uso de termos técnicos
Neste caso, você é capaz de perceber que estamos sempre usando termos técnicos, certo? Bem,
falamos em discurso, idioleto, variação linguística, pois estamos no âmbito da linguística. Assim, se o
autor emprega algum termo própriode alguma profissão ou especialidade também podemos levantar
hipóteses sobre sua formação ou área de atuação.
• 
• 
Idade
Neste caso, normas ortográficas que caíram em desuso, bem como o uso de palavras pouco comuns,
podem fornecer pistas sobre a idade de alguém.
Gênero/sexo
Neste caso, de acordo com alguns linguistas, é provável que possamos perceber o gênero/sexo do
autor do texto por meio de certas escolhas linguísticas.
Nenhum uso linguístico é restrito apenas a um grupo. Portanto, quanto mais evidências, mais certeza teremos
sobre as hipóteses levantadas acerca da identidade do autor de um texto. Vejamos um exemplo real em que o
perfilamento linguístico foi usado. Trata-se de um episódio descrito por Queralt (2021), veja:
 
Em 1979, uma garota foi sequestrada no estado de Illinois, Estados Unidos. Os policiais já tinham uma
lista de suspeitos, mas a investigação estava parada. Dentre as evidências, havia um pedido de resgate
enviado à família para que os pais deixassem dinheiro na caixa de correio da devil strip. Em português,
não temos uma tradução exata, mas Fabiana Lima, tradutora de Queralt (2021), interpretou devil strip
como “faixa de grama da calçada”, um caminho de grama entre a rua e a calçada encontrado em
algumas cidades.
O linguista Roger Shuy notou que essa expressão é usada apenas em uma localidade dos Estados
Unidos, na região da cidade de Akron, no estado de Ohio. Segundo ele, mesmo em cidades próximas,
outros termos são usados para se referir a essa faixa de grama.
Munido dessa informação, Shuy afirmou que o sequestrador provavelmente seria daquela região, e um
dos suspeitos efetivamente era oriundo de lá. Os policiais o interrogaram e ele acabou confessando o
crime. Incrível, não é mesmo?
Pois bem, esse exemplo ficou bastante famoso na literatura de linguística forense, sendo um dos casos mais
emblemáticos de como o uso diferenciado de algumas marcas linguísticas pode servir como critério distintivo
em investigações.
Atribuição de autoria
Confira, neste vídeo, as noções de autoria e estilo para entendermos e analisarmos a investigação com vistas
à atribuição de autoria.
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Vimos como levantar hipóteses acerca da identidade de alguém por meio do material escrito. Contudo, se
tivermos dúvida sobre a autoria de um texto, mas houver um suspeito em mente, podemos comparar o estilo
do texto questionado com o de outros escritos pelo suspeito: é a atribuição de autoria. Para entendermos
melhor, precisamos ter em mente duas noções, vejamos!
1. 
2. 
3. 
Autoria
Corresponde à qualidade de autor de um texto, o criador e produtor do material. Muito ainda se
discute sobre a autoria de alguns textos de Shakespeare ou de certos livros da Bíblia, por exemplo.
No âmbito forense, contudo, essa preocupação é bem mais recente.
Por meio da análise dos marcadores estilísticos de um texto é possível, no âmbito da linguística
forense, afirmar com algum grau de certeza se um autor escreveu ou não determinado texto.
Estilo
Corresponde às diferenças entre o modo de usar a língua de um autor em relação a outro.
A palavra vem do latim stilus, que designava um instrumento de metal com ponta fina que servia para
ornar as letras escritas. Na literatura, por exemplo, sabemos que o estilo de Machado de Assis é
diferente do de Guimarães Rosa – esse último é famoso por inventar neologismos em seus textos,
enquanto Machado é reconhecido por seu ceticismo e ironia. De acordo com o linguista brasileiro
Joaquim Mattoso Câmara Junior: “Em verdade, o estilo é a definição de uma personalidade em termos
linguísticos” (1953, p. 13).
O estilo aponta para a individualidade e identidade de quem fala ou escreve, sendo passível de ser
aplicado a uma investigação. Provém da literatura e da estilística, e muito se relaciona ao conceito de
idioleto, noção mais empregada na sociolinguística.
Aqui não precisamos entrar em questões profundas sobre os fenômenos e os termos técnicos. Basta
sabermos que, por meio da língua, é possível reconhecer padrões que indiquem pistas sobre a identidade do
autor, pois o idioleto corresponde ao emprego individual que cada um faz do sistema linguístico compartilhado
por sua comunidade.
Em uma análise para fins forenses, diversos marcadores linguísticos podem ser observados; quanto mais
marcadores obtivermos, mais certeiros seremos em nossas análises do estilo de um autor. McMenamin (2017)
lista uma série de marcadores linguísticos, tais como:
Frequência lexical
Refere-se ao número de vezes que uma palavra aparece em um texto.
Comprimento das frases
Refere-se à tendência de se escrever frases mais longas ou mais curtas.
Escolhas lexicais
Refere-se a escolha de palavras pouco usuais, que costumam ser forte indício de autoria.
Desvios ortográficos e gramaticais
Refere-se aos desvios constantes, tanto no texto questionado quanto nos textos atribuídos ao
suspeito, que podem fornecer fortes pistas sobre a provável autoria.
Características sociolinguísticas, como gírias, sotaques (no caso do texto oral) e certas escolhas lexicais que
carreguem ideologias, também podem servir como pistas em investigações sobre a autoria de um texto.
Theodore Kaczynski – o Unabomber
Manifesto do Unabomber.
Hoje em dia, a linguística forense conta com o apoio de diferentes softwares de análise de textos. Muitos
desses softwares são gratuitos e fornecem, por exemplo, uma lista de palavras com as frequências já
computadas; não precisamos realizar a contagem manual – que seria quase impossível, dependendo do
tamanho dos textos remetidos para análise.
Vamos exemplificar com uma famosa investigação que levou em consideração pistas linguísticas fornecidas
por um texto: o caso Unabomber.
Estudo de caso: o Unabomber
Confira, neste vídeo, como foram aplicados os conhecimentos de linguística forense no caso Unabomber.
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Provavelmente, um dos casos mais emblemáticos a receber contribuições da linguística forense foi o de
Theodore Kaczynski – o Unabomber.
Entre 1978 e 1995, 16 artefatos explosivos foram enviados a
representantes de empresas de aviação ou universidades,
deixando três mortos e 23 feridos. Na ocasião, o FBI teve
dificuldades para traçar o perfil do suspeito, chamado de
Unabomber – una é a junção de university e airlines, e 
bomber indica a relação com os artefatos explosivos, as
bombas enviadas por ele.
Theodore, um doutor em matemática que escolheu viver em
reclusão, enviou o manifesto A sociedade industrial e seu
futuro a diversos jornais, exigindo sua publicação em troca
do não envio de um suposto material explosivo. O texto
continha 35 mil palavras. Por meio de sua
publicação, houve o reconhecimento de um
padrão linguístico característico de Ted
Kaczynski, pois uma construção fraseológica
chamou a atenção de seus familiares, que
procuraram a polícia.
No manifesto, há a seguinte construção: “you
can’t eat your cake and have it too”: para
ganhar algo, você deve sacrificar outra coisa,
pois não é possível “comer o bolo e mantê-lo”.
Esse é um ditado em inglês norte-americano
que apresenta uma forma mais recente, em que
há a inversão da ordem sintática dos verbos:
“you can't have your cake and eat it (too)”.
Além dessa frase bem recorrente no idioleto de
Kaczynski, outra construção chamou a atenção dos familiares: o emprego da expressão “lógico de cabeça
fria”, bastante empregada por Theodore, segundo eles.
Durante as investigações, com a ajuda da linguista Natalie Schilling, entre outros profissionais, o perfilador
criminal James Fitzgerald apresentou o que entendia como o perfil linguístico do Unabomber.
Exemplo
Fitzgerald, de acordo com Almeida (2020), elencou algumas características, como o uso de broad (largo)
e chick para se referir a mulheres, apontando o autor como conservador em relação a elas, ou negro
para se referir a pessoas negras, uma forma preconceituosa, o que colocou o autor em determinada
faixa etária: idêntica àquelado suspeito. 
O manifesto apresentava também o uso do registro formal do inglês padrão, com pouquíssimos desvios da
norma culta, grafia britânica de algumas palavras e outras pouco comuns, como coreligionist (correligionário –
adepto da mesma religião), anomie (anomia – falta de padrão ético e moral) e chimerical (quimérico –
fantasioso).
Essas pistas levaram à procura de Theodore. Na cabana em que Ted vivia foram encontrados outros escritos,
o que permitiu comparar o estilo linguístico desses textos ao estilo linguístico do manifesto, levando o FBI a
afirmar que Theodore era o Unabomber. De acordo com Sheila Queralt (2021), o caso Unabomber foi o
primeiro em que provas linguísticas foram usadas para conseguir um mandado de busca, permitindo a prisão
de Theodore Kaczynski.
O estudo de caso é um ótimo exemplo de como podemos levantar hipóteses sobre a identidade de
um autor por meio de como ele emprega a língua. Na primeira parte das investigações, quando havia
apenas o manifesto, os investigadores levantaram hipóteses sobre idade, gênero, inclinações
ideológicas e grau de letramento de Theodore Kaczynski: o perfilamento linguístico.
Com os especialistas forenses em posse do material suspeito, o conteúdo do manifesto pôde ser comparado
aos escritos de Ted, o que forneceu fortes indícios sobre a identidade do Unabomber, levando à prisão de
Kaczynski.
Até aqui, falamos principalmente do texto escrito. Contudo, por meio de características do texto oral, também
é possível realizar a identificação do autor. É o que veremos em fonética forense!
A fonética forense
Confira, neste vídeo, a fonética forense e sua relevância, abordando características linguísticas, como a
produção dos sons da fala e a presença de variantes sociolinguísticas.
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Vimos que diferentes disciplinas relacionadas à linguística podem contribuir em demandas judiciais que
tenham como foco algum texto escrito. Contudo, ao nos depararmos com os textos orais, falados, precisamos
de postulados teóricos e metodológicos que abarquem as especificidades da fala. No caso, a fonética.
A fonética é a disciplina que estuda os sons da fala a partir de sua realização no aparelho fonador. O aparelho
fonador consiste no conjunto de órgãos do corpo humano que empregamos no processo de produção da voz.
Dentre eles, podemos mencionar boca, língua, fossas nasais, faringe, glote, pregas ou cordas vocais, e
pulmões. Ou seja, compõem o aparelho fonador órgãos do aparelho digestivo e respiratório.
Na imagem, vemos a parte superior do aparelho fonador, com a representação da cavidade oral, da cavidade
nasal e da laringe, onde estão as pregas vocais:
O trato vocal.
No processo de fonação, o ar egressivo – que sai dos pulmões – encontra as pregas vocais afastadas ou
aproximadas. O espaço entre as pregas é chamado de glote. Estando a glote aberta, o ar passa livremente
pelas pregas vocais separadas, produzindo sons desvozeados, como o [p] e o [t]. Caso a glote esteja fechada,
a pressão exercida pelo ar faz com que as pregas vibrem, produzindo sons vozeados, como o [b] e o [d].
Curiosidade
Ponha a mão sobre o pescoço, na região do pomo-de-adão, e produza as palavras pato e bato. Você irá
notar que, na palavra pato, a vibração do trato vocal inicia-se apenas na produção da vogal [a]. Já na
emissão da palavra bato, a vibração ocorre antes mesmo de vocalizarmos o [b]. 
Os colchetes [ ] são uma marca formal para distinguirmos os fones de outros itens de natureza linguística.
Assim, se escrevemos [b], nos referimos ao som emitido e não à letra escrita. Cada som emitido pelo homem é
produzido em diferentes regiões do aparelho fonador.
Exemplo
O [b] é produzido encostando os lábios e expulsando o ar, como em uma explosão em que ocorre a
vibração das cordas vocais; por sua vez, o [p] também é produzido com os lábios encostados e a
subsequente explosão, mas sem vibração das cordas vocais. 
Impressão de ondas sonoras.
Outros sons são articulados em distintas regiões, como as vogais, que não encontram obstrução no trato oral,
apenas maior ou menor grau de arredondamento dos lábios e levantamento/abaixamento da língua. Note que,
ao dizer [a], seus lábios estão relaxados e a língua abaixada, mas, ao realizar [u], seus lábios estão
arredondados e a língua sobe e recua para trás (SILVA, 2008).
Além dessas características articulatórias, a fonética também se ocupa das características físicas da
produção dos sons da fala. Diferentes vozes são produzidas por diferentes intensidades, frequência e
qualidade. De acordo com Braid: 
O resultado acústico da onda sonora produzida por um falante apresenta diferenças com relação à
sonoridade realizada por outro. 
(BRAID, 2003, p. 3)
Um foneticista forense com elevada prática profissional consegue fazer o reconhecimento da voz presente em
gravações e vídeos. 
Por meio de um software que permite a impressão e leitura
das ondas sonoras, o espectrograma, o foneticista é capaz
de dizer com algum grau de certeza se a voz gravada
provém ou não do aparelho fonador de alguém, o que pode
ser empregado como evidência pericial.
A prática da fonética forense abarca ainda outras
características linguísticas, como a presença de variantes
sociolinguísticas. Observe: 
Falante do português do Oeste de São
Paulo
Produz o chamado R retroflexo em final de
sílaba, o famoso R caipira. Assim, em palavras
como “amor” e “porta”, um falante nativo dessa
região tenderá a produzir [amoɻ] e [pɔɻtɐ].
Falante de algumas regiões do Rio de
Janeiro
Produz o S chiado, transcrito como [ʃ], diante
de sons desvozeados, algo como caxca,
enquanto falantes de outras regiões dizem 
casca.
Para saber mais sobre fonética, indicamos ao final um site que poderá aprofundar seu conhecimento. Por ora,
tenha em mente que os textos escritos e falados têm características que permitem a um perito experiente
reconhecer pistas que indiquem seu provável autor.
Verificando o aprendizado
Questão 1
O linguista forense norte-americano Roger Shuy, trabalhando em um caso de sequestro, notou que o autor do
pedido de resgate era oriundo da cidade de Akron pelo uso do termo devil strip. Trazendo para a nossa
realidade, esse uso seria comparável a qual dos exemplos listados a seguir?
A
Fala de pessoas com baixo nível de escolaridade, como dizer “tauba” em vez de “tábua”.
B
Gírias empregadas por grupos de adolescentes, como “tipo assim”.
C
Linguagem técnica usada em textos profissionais, como ”data vênia” nos textos jurídicos.
D
Palavras antigas já em desuso, como o termo “fidalgo”.
E
Termos próprios de determinada região geográfica, como “garoto”, “menino” e “guri”.
A alternativa E está correta.
O termo devil strip é característico de uma cidade do estado de Ohio. Portanto, diz respeito à variação
linguística relacionada a questões geográficas. Das alternativas apresentadas, aquela referente às
diferentes formas de nos referirmos às crianças do sexo masculino entram nesse tipo de variação. Em
certas regiões, como no Sul do Brasil, encontramos o emprego de "guri", enquanto "garoto" prevalece no
Rio de Janeiro e "menino" é mais disseminado em outros estados.
Questão 2
Em linguística forense, procedemos à tarefa de atribuição de autoria quando
A
temos uma gravação de conversa em que conste a voz do suspeito.
B
temos como comparar o texto questionado a um material efetivamente escrito pelo suspeito.
C
temos apenas o texto questionado como ponto de partida.
D
não temos modo de analisar textos escritos pelo suspeito.
E
sabemos quem escreveu o texto questionado.
A alternativa B está correta.
A tarefa de atribuição de autoria demanda que tenhamos uma forma de comparar o estilo empregado no
texto questionado com o estilo empregado em textos efetivamente atribuídos ao suspeito.
4. Conclusão
Considerações finais
Você foi apresentado à área da linguística forense. Aqui, vimos que a linguística, como ciência que descreve e
explica a linguagem e as línguas naturais, pode ser aplicadaa questões forenses que tenham um texto como
possível evidência.
Aprendemos que o conhecimento linguístico pode ser aplicado a tarefas de atribuição de autoria – quando
podemos comparar um texto questionado a outros, buscando um padrão estilístico em comum – e a tarefas de
perfilamento linguístico – quando não há material para comparação e precisamos levantar hipóteses acerca do
perfil do indivíduo por meio de marcas linguísticas.
Por fim, estudamos ainda sobre marcas registradas, plágio e fonética forense, apresentando a linguística
forense e algumas possibilidades de atuação.
Explore +
Para entender mais sobre linguística forense, assista à série Manhunt: Unabomber, (2017-2020), sobre como
um agente do FBI ajudou a caçar o terrorista Unabomber Ted Kaczynski.
 
Assista também à mesa-redonda Linguística forense: possibilidades de estudo e aplicação, no canal da
Abralin, que apresenta a área e introduz a interface entre estudos linguísticos e direito, bem como aborda
possibilidades de estudo e aplicação.
 
Para entender mais sobre fonética, acesse o site Fonética e Fonologia. Nele, você aprende e pratica os
fundamentos dos sons da fala.
 
Na revista Language and Law, você encontra artigos de renomados especialistas nas áreas de interface entre
os estudos linguísticos e jurídicos.
Referências
ALMEIDA, D. C. Atribuição de Autoria Textual: visão geral. In: ALMEIDA, D. C.; COULTHARD, M.; SOUSA-SILVA,
R. (Orgs.). Perspectivas em linguística forense. Campinas: Unicamp/Publicações IEL, 2020.
 
BRAID, A. C. M. Fonética Forense. 2. ed. Campinas: Millenium, 2003.
 
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
 
BRASIL. Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Marcas. Brasília, DF: Ministério do Desenvolvimento, 13
maio 2020.
 
BRASIL. Lei nº 10.695, de 1º de julho de 2003. Brasília, DF: Presidência da República, 2003.
 
BUTTERS, R. Trademark linguistics: Trademarks: language that one owns. In: CÂMARA JR., J. M. Contribuições
à estilística portuguesa. Rio de Janeiro, Simões: 1953.
 
COULTHARD, M. Algumas aplicações forenses da Linguística Descritiva. In: COLARES, V. (Org.). Linguagem &
Direito: caminhos para linguística forense. São Paulo: Cortez, 2016.
 
COULTHARD, M.; JOHNSON, A. An Introduction to Forensic Linguistics: Language in Evidence. New York:
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COULTHARD, M.; JOHNSON, A. The Routledge Handbook of Forensic Linguistics. 1. ed. New York: Routledge,
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MCMENAMIN, G. R. Introducción a la Lingüistica Forense: um libro de curso. Fresno: The Press at California
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QUERALT, S. Pegos pela língua: 50 casos resolvidos pela linguística forense. Trad. Fabiana Teixeira Lima. Belo
Horizonte: Sete Autores, 2021.
SHUY, R. Language crimes: the use and abuse of language evidence in the Courtroom. New Jersey: Blackwell,
1996.
 
SILVA, T. C. Fonética e Fonologia do Português: roteiro de estudos e guia de exercícios. 9. ed. São Paulo:
Contexto, 2008.
 
SVARTVIK, J. The Evans Statements: A Case for Forensic Linguistics. University of Gothenburg, 1968.
	Linguística forense
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Preparação
	Objetivos
	Introdução
	1. Campo da linguística forense
	Constituição da linguística forense a partir da linguística aplicada
	Conteúdo interativo
	Breve histórico da linguística forense
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Métodos da linguística em contextos legais e investigativos
	Conteúdo interativo
	Sociolinguística
	Análise do discurso
	Frequência lexical
	Escolhas lexicais
	Comprimento das frases
	Sinais de pontuação
	Desvios ortográficos e gramaticais
	Marcas sociolinguísticas
	Linguagem e direito
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Verificando o aprendizado
	2. Linguagem e disputas judiciais
	Determinação de significado
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Semântica
	Pragmática
	Demandas sobre marcas registradas
	Conteúdo interativo
	Detecção de plágio
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Verificando o aprendizado
	3. Investigação e perícia em linguística
	Perfilamento linguístico
	Conteúdo interativo
	Procedência geográfica do autor
	Grau de letramento
	Uso de termos técnicos
	Idade
	Gênero/sexo
	Atribuição de autoria
	Conteúdo interativo
	Autoria
	Estilo
	Frequência lexical
	Comprimento das frases
	Escolhas lexicais
	Desvios ortográficos e gramaticais
	Estudo de caso: o Unabomber
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	A fonética forense
	Conteúdo interativo
	Curiosidade
	Exemplo
	Falante do português do Oeste de São Paulo
	Falante de algumas regiões do Rio de Janeiro
	Verificando o aprendizado
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Explore +
	Referências

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