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Teste do álcool e do alizarol: primeiro passo para seleção do leite LIPA/UFV, EM 29/09/2021 Análises de controle de qualidade do leite A seleção e a classificação do leite, isto é, a qualidade da matéria-prima desde a obtenção na propriedade rural até a recepção nos laticínios é determinada por meio de análises de controle de qualidade. Dentre as principais análises destacam: • Prova do álcool e do alizarol; • Determinação da acidez titulável; • pH; • Densidade à 15°C; • Crioscopia; • Teor de gordura; • Extrato seco total e desengordurado, dentre outras. Incialmente, de acordo com as legislações vigentes, Instruções Normativas nº76 e nº77 de 2018 do MAPA (BRASIL, 2018a,b), a seleção da matéria-prima na granja leiteira é determinada por meio da medição do volume (ou pesagem) do leite e a realização do teste do Álcool/Alizarol (com concentração mínima de 72% v/v). Neste contexto, para estimar, ou seja, avaliar indiretamente a estabilidade térmica das proteínas do leite, é utilizado o teste do álcool e do alizarol. Além disso, o teste do alizarol pode ser utilizado para avaliar de forma indireta a acidez da matéria-prima. Portanto, neste artigo preocuparemos em elucidar as definições, diferenças e aplicações dos testes do álcool e do alizarol no leite. Teste do álcool no leite Após a ordenha e posterior resfriamento do leite, o teste do álcool ou do alizarol é primeira análise a ser realizada para averiguar a qualidade da matéria-prima. Este teste é realizado nas propriedades rurais antes da coleta do leite pelo transportador e novamente realizado na plataforma de recebimento do leite na indústria de beneficiamento. A estabilidade do leite ao teste do álcool é utilizada para avaliação indireta da estabilidade térmica das proteínas do leite, o que está correlacionado com qualidade microbiológica do leite. Este teste verifica a estabilidade das caseínas (principal proteína do leite) em uma solução alcoólica, que simula o efeito do aquecimento durante o processamento térmico. A adição de álcool ao leite induz várias alterações nas micelas de caseína, como o colapso da camada de κ-caseína, a redução na carga micelar e a https://www.milkpoint.com.br/colunas/lipaufv/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/controle-vs-garantia-da-qualidade-nos-laticinios-224630/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/entendendo-as-analises-de-composicao-do-leite-102896n.aspx https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/densidade-do-leite-definicao-fatores-de-alteracao-e-analises-226505/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/crioscopia-do-leite-para-que-serve-e-o-que-ela-indica-224870/ https://www.milkpoint.com.br/colunas/clinica-do-leite/como-monitorar-e-melhorar-o-teor-de-gordura-do-leite-206929/ https://www.milkpoint.com.br/colunas/rafael-fagnani/resumao-das-ins-76-e-77-elas-estao-chegando-212785/ https://www.milkpoint.com.br/colunas/rafael-fagnani/resumao-das-ins-76-e-77-elas-estao-chegando-212785/ https://www.milkpoint.com.br/colunas/clinica-do-leite/como-a-dieta-pode-alterar-a-concentracao-de-proteina-no-leite-207730/ https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/higiene-de-ordenha-e-qualidade-do-leite-51892n.aspx https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/a-importancia-do-resfriamento-do-leite-na-fazenda-16161n.aspx https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/conceitos-basicos-sobre-a-qualidade-microbiologica-do-leite-16153n.aspx https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/conceitos-basicos-sobre-a-qualidade-microbiologica-do-leite-16153n.aspx https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/tratamentos-termicos-na-industria-de-laticinios-226430/ precipitação do fosfato de cálcio, que colaboram para a redução da estabilidade deste componente (O’CONNELL et al., 2001). Neste contexto, um leite de baixa qualidade com alta contaminação bacteriana reduz a estabilidade das caseínas. Desta forma, essa matéria-prima provavelmente não resistirá ao teste do álcool, resultando em uma precipitação proteica durante a realização do teste conforme ilustrado na Figura 1B. Já um leite de boa qualidade resiste ao teste do álcool sem apresentar a formação de grumos (Figura 1A). No setor de controle de qualidade de fábricas que produzem leite pasteurizado, esterilizado pelo método UHT, concentrado ou desidratado, esse teste é muito útil para identificação de leite parcialmente acidificado, colostro, leite com desbalanceamento mineral e leite proteolizado. O leite instável ao álcool é rejeitado pelo laticínio, pois sendo a caseína instável, o aumento da temperatura durante o processamento térmico promove a precipitação destas proteínas. Essa precipitação proteica dá origem a formação de uma película nos trocadores de calor de difícil remoção, a qual atua como isolante térmico e acentua o sabor de cozido do leite (Silva et al., 2012). Além disso, há uma redução da eficiência do tratamento térmico e uma limitação do processo de higienização o que favorece o desenvolvimento microbiano e a formação de biofilmes. Segundo a IN 76 (BRASIL, 2018a), para realização do teste do álcool, a concentração alcoólica mínima da solução deve ser de 72% v/v (setenta e dois por cento volume/volume). Entretanto, há uma tendência no aumento desta concentração (aproximandamente 80% v/v) pelos laticínios para garantir a seleção de uma matéria-prima de melhor qualidade e maior resistência ao processamento. O que é o teste de alizarol no leite? https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/pasteurizacao-qual-a-importancia-deste-processo-para-o-leite-94246n.aspx https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/defeitos-no-leite-uht-e-suas-causas-91757n.aspx https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/importancia-do-fornecimento-do-colostro-16622n.aspx https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/proteolise-parte-1-204786n.aspx https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/higiene-em-laticinios-como-reduzir-custos-sem-afetar-a-qualidade-225475/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/a-importancia-da-higienizacao-no-controle-de-biofilmes-93563n.aspx A prova do alizarol é uma das análises físico-químicas mais rápidas aplicadas no controle de qualidade do leite. Como é feito o teste de alizarol no leite? Essa análise consiste em adicionar partes iguais da amostra de leite no qual será analisada a solução de alizarol. A IN nº 76 estabelece que o leite cru deve ser estável ao teste do alizarol na concentração mínima de 72% v/v (BRASIL, 2018a). O que é alizarol? Alizarol é uma solução de álcool etílico com graduação alcoólica mínima de 72% v/v neutralizado, contendo um indicador de pH conhecido como alizarina (1,2 dihidroxiantraquinona). O princípio do teste do alizarol é o mesmo do teste do álcool, ou seja, avaliar de forma indireta a estabilidade térmica do leite, mais precisamente das caseínas. Além disso, no teste do alizarol é possível saber em qual faixa de acidez/pH a amostra de leite se encontra. Como interpretar os resultados do teste de alizarol no leite? De acordo com a IN nº77 (BRASIL, 2018b) para este teste devem ser considerados os seguintes resultados: • I - Coloração vermelha tijolo sem grumos ou com poucos grumos muito finos: leite com acidez normal e estabilidade ao álcool 72% v/v; • II - Coloração amarela ou marrom claro, ambas com grumos: leite com acidez elevada e não estável ao álcool 72% v/v; • III - Coloração lilás a violeta: leite com reação alcalina sugerindo a presença de mastite ou de neutralizantes. (BRASIL, 2018b) Para melhor visualização dos resultados, a Figura 2 é apresentada. https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/principais-parametros-de-qualidade-do-leite-cru-refrigerado-224559/Dessa forma, leite cru que apresenta a formação de grumos e coloração amarela ou violeta deve ser rejeitado e não deve ser beneficiado. O teste de alizarol deve ser realizado no leite de cada produtor, em caso de tanques comunitários e na recepção do leite nos laticínios. Leite LINA e teste do alizarol Quando a perda da estabilidade não está associada à contaminação bacteriana e não é causada pela acidez elevada, pode ser considerado que seja um leite instável e não ácido (LINA). Esse leite apresenta no teste de alizarol uma coloração vermelho-tijolo, porém com formação de grumos. A ocorrência de leite LINA se deve principalmente devido a um desbalanceamento salino, provocado, por exemplo, por uma modificação drástica na alimentação animal (situações de enchente, perda da pastagem, dentre outros motivos) com consequente precipitação do leite nos testes de álcool e alizarol. Dessa forma, caso o resultado no teste do alizarol apresente a formação de grumos com coloração duvidosa (vermelho-tijolo), o leite é submetido ao teste da fervura. Não sendo observado a formação de grumos neste teste, é indicativo de leite LINA, o que pode ser confirmado na análise de acidez. Caso haja a formação de grumos no teste da fervura, é um indicativo de leite ácido, o que também pode ser ratificado pela determinação da acidez do leite. O Quadro 1 apresenta uma relação entre a análise de acidez e o teste do álcool. Conforme apresentado no Quadro 1, além da presença do leite LINA, há também a ocorrência do leite SILA (síndrome do leite anormal, leite de baixa acidez e formação de grumos no teste do álcool) que representa uma pequena fração do leite LINA. https://www.milkpoint.com.br/colunas/clinica-do-leite/contagem-bacteriana-total-entendendo-o-processo-de-analise-205260n.aspx#:~:text=Um%20dos%20m%C3%A9todos%20mais%20utilizados,o%20m%C3%A9todo%20de%20%E2%80%9Crefer%C3%AAncia%E2%80%9D. https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/leite-lina-226266/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/fontes-alternativas-de-energia-para-bovinos-leiteiros-224473/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/fontes-alternativas-de-energia-para-bovinos-leiteiros-224473/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/subestimamos-o-potencial-dos-pastos-de-inverno-221094/ Desta forma, essas análises são básicas e fundamentais para uma avaliação rápida, prática e assertiva da qualidade da matéria-prima com impacto direto na qualidade do produto final. Por exemplo, para uma agroindústria que realiza processamento de queijos, esses dois testes supracitados são de extrema importância, visto que a caseína é o principal componente envolvido em diversas etapas da fabricação e sua estabilidade é afetada pelas variações de pH/acidez, temperatura e outros. Considerações finais A produção de leite e derivados é fundamental no âmbito social e econômico no Brasil. A falta das boas práticas de ordenha, bem com ações fraudulentas e as más condições de higiene durante o armazenamento, coleta e transporte do leite aumentam o desafio da obtenção de uma matéria-prima de alta qualidade. Dessa forma, o teste do álcool/alizarol faz parte de uma série de análises que são essenciais para os laticínios avaliarem esses problemas e classificarem o leite como apto para o processamento, evitando prejuízos e ofertando produtos inócuos a saúde do consumidor. https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/quais-fatores-afetam-o-rendimento-na-fabricacao-de-queijos-224962/ https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/ https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/boas-praticas-de-producao-associadas-a-higiene-de-ordenha-e-qualidade-do-leite-parte-1-38549n.aspx https://www.milkpoint.com.br/colunas/rafael-fagnani/principais-fraudes-em-leite-100551n.aspx https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/transporte-de-leite-quais-sao-os-principais-desafios-225345/