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A energia em trânsito: o calor Apresentação Nesta unidade, vamos abordar o calor, como uma das formas de transferência de energia entre regiões ou corpos próximos, devido a uma diferença de temperatura. Para tanto, vamos utilizar diagramas e esquemas termodinãmicos para representar um processo em estudo, em termos de sistema, vizinhança e fronteira. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o calor como uma forma de energia térmica entre corpos.• Diferenciar sistema, vizinhança e fronteira em processos de troca de calor.• Reconhecer e diferenciar os mecanismos de transferência de calor.• Desafio Condições adequadas de temperatura são essenciais para a propagação da vida em um meio qualquer, entretanto, uma pequena modificação nestas condições é suficiente para causar desde um desconforto até a morte de seres vivos. Para um funcionamento adequado das funções vitais do corpo humano, há a necessidade de manter equilibrada a temperatura interna em aproximadamente 37oC, entretanto, as intensas trocas de calor entre nosso corpo e o meio em que o mesmo se encontra faz sentir as sensações de frio e calor. Diante de tal contexto, você foi desafiado a explicar o problema térmico do quarto da Mariana. Infográfico O esquema a seguir mostra as trocas de calor envolvidas entre sistema e vizinhança. Conteúdo do livro O calor é uma forma de transferência de energia entre sistema e vizinhança presente em todos os momentos da nossa vida cotidiana, sua compreensão, portanto, é fundamental para entender desde os processos biológicos até industriais. Acompanhe um trecho do nosso livro texto "Termodinâmica", de Çengel e Boles". O livro está em sua 7a edição e serve como base teórica para esta unidade de aprendizagem. Inicie a sua leitura a partir do item "Formas de Energia". Boa leitura. Yunus A. Çengel Michael A. Boles Termodinâmica 7a Edição Inclui CD Com versão educacional do programa EES para resolução de problemas Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052 Ç99t Çengel, Yunus A. Termodinâmica / Yunus A. Çengel, Michael A. Boles ; tradução: Paulo Maurício Costa Gomes ; revisão técnica: Antonio Pertence Júnior. – 7. ed. – Porto Alegre : AMGH, 2013. xxviii, 1018 p. : il. ; 28 cm. ISBN 978-85-8055-200-3 1. Engenharia. 2. Termodinâmica. 3. Física – Calor. I. Boles, Michael A. II. Título. CDU 621.43.016:536 Capítulo 2 Energia, Transferência de Energia e Análise Geral da Energia 53 à operação de um refrigerador, ainda podemos ter dificuldades em responder, porque tudo o que vemos é a energia elétrica entrando no refrigerador e o calor dissipado do refrigerador para o ar da sala. Obviamente, existe a necessidade de estudarmos primeiro as diversas formas de energia. É exatamente isso o que faremos agora, prosseguindo depois com um estudo dos mecanismos da transfe- rência da energia. 2–2 FORMAS DE ENERGIA A energia pode existir em inúmeras formas; ela pode ser térmica, mecânica, ciné- tica, potencial, elétrica, magnética, química e nuclear, e a soma delas constitui a energia total E de um sistema. A energia total de um sistema com base em uma unidade de massa é indicada por e. Ela pode ser expressa como (2–1) A termodinâmica nada afirma sobre o valor absoluto da energia total. Ela trata apenas da variação da energia total, que é o mais importante para os problemas de engenharia. Assim, é possível atribuir um valor zero (E � 0) à energia total de um sistema em algum ponto de referência conveniente. A variação da energia total de um sistema não depende do ponto de referência escolhido. A diminuição da ener- gia potencial de uma pedra em queda livre, por exemplo, só depende da diferença de altura, e não do referencial escolhido. Em uma análise termodinâmica, normalmente é útil considerar as diversas formas de energia que constituem a energia total de um sistema em dois grupos: macroscópico e microscópico. As formas macroscópicas de energia são aquelas que um sistema possui como um todo, com relação a algum referencial exter- no, como as energias cinética e potencial (Fig. 2–3). As formas microscópicas de energia são aquelas relacionadas à estrutura molecular de um sistema e ao grau de atividade molecular e são independentes de referenciais externos. A soma de todas as formas microscópicas de energia é chamada de energia interna de um sistema e é indicada por U. O termo energia foi criado em 1807 por Thomas Young, e seu uso na ter- modinâmica foi proposto em 1852 por Lord Kelvin. O termo energia interna e seu símbolo U apareceram pela primeira vez nos trabalhos de Rudolph Clausius e William Rankine na segunda metade do século XIX, e com o passar do tempo substituíram os termos alternativos trabalho interior, trabalho interno e energia intrínseca usados na época. A energia macroscópica de um sistema está relacionada ao movimento e à influência de alguns efeitos externos como gravidade, magnetismo, eletricidade e tensão superficial. A energia que um sistema possui como resultado de seu movi- mento relativo a algum referencial é chamada de energia cinética (EC). Quando todas as partes de um sistema se movem com a mesma velocidade, a energia ciné- tica é expressa como (2–2) FIGURA 2–3 A energia macroscópica de um objeto muda com a velocidade e a altura. 54 Termodinâmica ou, por unidade de massa ec (2–3) onde V indica a velocidade do sistema com relação a um referencial fixo. A energia cinética de um corpo sólido em rotação é dada por Iv2, onde I é o momento de inércia do corpo e v é a velocidade angular. A energia que um sistema possui como resultado de sua altura em um campo gravitacional é chamada de energia potencial (EP), e é expressa como (2–4) ou por unidade de massa (2–5) onde g é a aceleração gravitacional e z é a elevação do centro de gravidade do sis- tema com relação a algum nível de referência escolhido arbitrariamente. Os efeitos magnéticos, elétricos e de tensão superficial são significativos ape- nas em alguns casos específicos e, geralmente, ignorados. Na falta de tais efeitos, a energia total de um sistema consiste nas energias cinética, potencial e interna, e é expressa como (2–6) ou por unidade de massa (2–7) A maioria dos sistemas fechados permanece estacionário durante um processo e, assim, não sofre nenhuma variação em suas energias cinética e potencial. Os sistemas fechados cuja velocidade e posição do centro da gravidade permanecem constantes durante um processo são chamados de sistemas estacionários. A va- riação da energia total �E de um sistema estacionário é idêntica à variação de sua energia interna �U. Este livro pressupõe que um sistema fechado é também esta- cionário, a menos que seja informado o contrário. Tipicamente, volumes de controle envolvem o escoamento de fluidos por lon- gos períodos, sendo conveniente expressar o fluxo de energia associado a uma corrente de fluido na forma de taxa. Isso é feito incorporando o fluxo de massa , que é a quantidade de massa que escoa através de uma seção transversal por unidade de tempo. Ela está relacionada à vazão volumétrica , que é o volume de fluido que escoa através de uma seção transversal por unidade de tempo, por Fluxo de massa: (kg/s) (2–8) que é análoga a m � rV. Aqui, r é a densidade do fluido, Ac é a seção transversal do escoamento e Vmed é a velocidade média do escoamento normal a Ac. Em todo o livro, o ponto sobre um símbolo indica por unidade de tempo. Assim, o fluxo de energia associado a um fluxo de massa é (Fig. 2–4) Fluxo de energia: (kJ/s ou kW) (2–9) no qual é análogo a E � me. D Vapor Vmed Ac � pD2/4 m � rAcVmed E � me • • • FIGURA 2–4 Fluxos de massa e energia associados ao escoamento de vapor em um duto de diâmetro interno D com velocidade média Vmed. Capítulo 2 Energia, Transferência de Energia e Análise Geral da Energia 55 Uma interpretação física paraa energia interna A energia interna foi definida anteriormente como a soma de todas as formas mi- croscópicas de energia em um sistema. Ela está relacionada à estrutura molecular e ao grau de atividade molecular e pode ser vista como a soma das energias ciné- tica e potencial das moléculas. Para melhor compreendermos a energia interna, examinemos um sistema no nível molecular. As moléculas de um gás se movem pelo espaço com uma certa velocidade e, portanto, possuem alguma energia cinética. Isso é conhecido como energia de translação. Os átomos das moléculas poliatômicas giram ao redor de um eixo, e a energia associada a essa rotação é a energia cinética de rotação. Os átomos de uma molécula poliatômica também podem vibrar com relação ao centro de massa comum, e a energia associada a esse movimento de vai-e-volta é a ener- gia cinética de vibração. Para os gases, a energia cinética se deve principalmente aos movimentos de translação e rotação, e o movimento vibracional é significativo apenas a altas temperaturas. Os elétrons de um átomo giram ao redor do núcleo e, portanto, possuem ener- gia cinética de rotação. Elétrons das órbitas mais externas têm energia cinética maior. Os elétrons também giram ao redor de seus eixos, e a energia associada a esse movimento é a energia de spin. Outras partículas do núcleo de um átomo tam- bém possuem energia de spin. A parte da energia interna de um sistema associada às energias cinéticas das moléculas é chamada de energia sensível (Fig. 2–5). A velocidade média e o grau de atividade das moléculas são proporcionais à tempe- ratura do gás. A temperaturas mais altas, as moléculas possuem energias cinéticas mais altas, e como resultado o sistema tem uma energia interna mais alta. A energia interna também está associada às diversas forças de ligação entre moléculas de uma substância, entre átomos dentro de uma molécula e entre partí- culas dentro de um átomo e seu núcleo. As forças que ligam as moléculas entre si são, como seria de se esperar, mais fortes nos sólidos e mais fracas nos gases. Se for adicionada energia suficiente às moléculas de um sólido ou de um líquido, elas superam essas forças moleculares, transformando a substância em um gás. Esse é um processo de mudança de fase. Devido a essa energia adicional, um sistema na fase gasosa está em um nível de energia interna mais alto do que na fase sólida ou líquida. A energia interna associada à fase de um sistema é chamada de energia latente. O processo de mudança de fase pode ocorrer sem modificação na com- posição química de um sistema. A maioria dos problemas práticos se classifica nessa categoria, e não é preciso considerar as forças que ligam os átomos de uma molécula. Um átomo é composto por um núcleo de nêutrons (carga neutra) e prótons (carga positiva) ligados por intensas forças nucleares, e por elétrons (carga negati- va) que orbitam ao seu redor. A energia interna associada às ligações atômicas de uma molécula é chamada de energia química. Durante uma reação química, como no processo de combustão, algumas ligações químicas são destruídas enquanto outras são formadas. Como resultado, a energia interna muda. As forças nucleares são muito maiores que aquelas que ligam os elétrons ao núcleo. A incrível quan- tidade de energia associada às fortes ligações existentes no interior do núcleo do átomo propriamente dito é chamada de energia nuclear (Fig. 2–6). Obviamente, não precisamos nos preocupar com a energia nuclear na termodinâmica, a menos, é claro, que lidemos com reações de fusão ou fissão. Uma reação química envolve alterações na estrutura dos elétrons dos átomos, mas uma reação nuclear envolve alterações no centro ou núcleo. Assim, um átomo preserva sua identidade durante uma reação química, mas a perde durante uma reação nuclear. Os átomos tam- bém podem possuir energias de momento de dipolo elétrico e magnético quando Energia nuclear Energia química Energias sensível e latente FIGURA 2–6 A energia interna de um sistema é a soma de todas as formas microscópicas de energia. + – +– Translação molecular Rotação molecular Translação do elétron Vibração molecular Spin do elétron Spin do núcleo FIGURA 2–5 As diversas formas microscópicas de energia que constituem a energia sensível. 56 Termodinâmica sujeitos a campos magnéticos e elétricos externos, devido à inversão dos dipolos magnéticos produzida pelas pequenas correntes elétricas associadas aos elétrons em órbita. As formas de energia já discutidas, que constituem a energia total de um sis- tema, podem estar contidas ou armazenadas em um sistema e, portanto, podem ser vistas como formas estáticas de energia. Os tipos de energia não armazena- dos em um sistema podem ser visualizados como formas dinâmicas de energia ou como interações de energia. As formas dinâmicas de energia são identificadas na fronteira do sistema à medida que a atravessam e representam a energia ganha ou perdida por um sistema durante um processo. As duas únicas formas de interação de energia associadas a um sistema fechado são transferência de calor e traba- lho. Uma interação de energia é transferência de calor se sua força motriz for uma diferença de temperatura. Caso contrário, ela é trabalho, como explica a próxima seção. Um volume de controle também pode trocar energia por meio de transfe- rência de massa, pois sempre que massa é transportada para dentro ou para fora de um sistema, a quantidade de energia associada à massa também é transportada com ela. No dia a dia, com frequência nos referimos às formas sensíveis e latentes de energia interna como calor, e falamos sobre o calor contido nos corpos. Em ter- modinâmica, porém, geralmente nos referimos àquelas formas de energia como energia térmica para evitar qualquer confusão com transferência de calor. É preciso distinguir entre a energia cinética macroscópica de um objeto como um todo e as energias cinéticas microscópicas de suas moléculas, que constituem a energia interna sensível do objeto (Fig. 2–7). A energia cinética de um objeto é uma forma organizada de energia associada ao movimento ordenado de todas as moléculas em uma determinada direção ou ao redor de um eixo. Já as energias ci- néticas das moléculas são completamente aleatórias e altamente desorganizadas. Como você verá em outros capítulos, a energia organizada é muito mais valiosa do que a energia desorganizada, e uma grande área de aplicação da termodinâmica é a conversão de energia desorganizada (calor) em energia organizada (trabalho). Você também verá que a energia organizada pode ser completamente convertida em energia desorganizada, mas apenas uma fração da energia desorganizada pode ser convertida em energia organizada, por meio de dispositivos especiais chamados de máquinas térmicas (como os motores dos automóveis e das usinas de potência). Um argumento semelhante pode ser usado para a energia potencial macroscópica de um objeto como um todo e para as energias potenciais microscópicas das moléculas. Mais informações sobre a energia nuclear A reação de fissão mais bem conhecida envolve a divisão do átomo de urânio (o isótopo U-235) em outros elementos. Normalmente, ela é usada para gerar eletri- cidade em usinas nucleares (em 2004, havia 440 delas no mundo todo, gerando 363.000 MW) e abastecer submarinos nucleares e naves espaciais, além de tam- bém ser utilizada na construção de bombas nucleares. A porcentagem de eletricidade produzida pela energia nuclear corresponde a 78% na França, 25% no Japão, 28% na Alemanha e 20% nos Estados Unidos. A primeira reação nuclear em cadeia foi realizada por Enrico Fermi em 1942, e os primeiros reatores nucleares de grande porte foram construídos em 1944, com a finalidade de produzir material para armas nucleares. Quando um átomo de urâ- nio-235 absorve um nêutron e se divide durante um processo de fissão, ele produz um átomo de césio-140, um átomo de rubídio-93, três nêutrons e 3,2 � 10�11 J de Água Represa Energiacinética macroscópica (faz a roda girar) Energia cinética microscópica das moléculas (não faz a roda girar) FIGURA 2–7 A energia cinética macroscópica é uma forma organizada de energia, e é muito mais útil que as desorganizadas energias cinéticas microscópicas das moléculas. 60 Termodinâmica 2–3 TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA POR CALOR A energia pode cruzar a fronteira de um sistema fechado em duas formas diferen- tes: calor e trabalho (Fig. 2–13). É importante diferenciar essas duas formas de energia, e por isso ambas serão discutidas a seguir, para que se forme uma base sólida para o desenvolvimento das leis da termodinâmica. Nossa experiência mos- tra que uma lata de refrigerante gelado deixada sobre uma mesa se aquece após um certo tempo, da mesma forma que uma batata assada colocada sobre a mesma mesa se esfria. Quando um corpo é deixado em um meio que está a uma tempe- ratura diferente, a transferência de energia ocorre entre o corpo e o meio até que o equilíbrio térmico seja estabelecido, ou seja, até que o corpo e o meio atinjam a mesma temperatura. A direção da transferência de energia sempre é do corpo com temperatura mais alta para aquele com temperatura mais baixa. Depois de estabe- lecida a igualdade de temperaturas, a transferência de energia para. Nos processos descritos nesse parágrafo, diz-se que a energia é transferida sob a forma de calor. Calor é definido como a forma de energia transferida entre dois sistemas (ou entre um sistema e sua vizinhança) em virtude da diferença de temperaturas (Fig. 2–14). Ou seja, uma interação de energia só é calor se ocorrer devido a uma diferença de temperatura. Dessa forma, não pode haver qualquer transferência de calor entre dois sistemas que estejam à mesma temperatura. Várias frases de uso corrente hoje – como fluxo de calor, adição de calor, rejeição de calor, absorção de calor, remoção de calor, ganho de calor, perda de calor, armazenamento de calor, geração de calor, calor de reação, liberação de calor, calor específico, calor sensível, calor latente, calor perdido, calor do cor- po, calor do processo, sumidouro de calor e fonte de calor – não são consistentes com o significado termodinâmico rigoroso do termo calor, o qual limita seu uso à transferência da energia térmica durante um processo. Entretanto, essas expressões estão profundamente enraizadas em nosso vocabulário, sendo utili- zadas por leigos e cientistas sem causar nenhum mal-entendido, já que em geral são interpretadas adequadamente e não literalmente. (Além disso, não existe nenhuma alternativa aceitável para algumas dessas expressões.) Por exemplo, a frase calor do corpo é entendida como o conteúdo de energia térmica de um corpo. Da mesma forma, fluxo de calor é entendido como a transferência de energia térmica, e não o escoamento de uma substância fluida chamada de ca- lor, embora esta última interpretação incorreta, que se baseia na teoria calórica, seja a origem dessa frase. A transferência de calor para um sistema também é chamada de adição ou fornecimento de calor, e a transferência de calor para fora de um sistema é chamada de rejeição de calor. Talvez existam motivos termodinâmicos para relutar tanto em substituir calor por energia térmica: é preciso menos tempo e energia para dizer, escrever e compreender calor do que energia térmica. O calor é a energia em trânsito. Ele só é reconhecido ao cruzar a fronteira de um sistema. Considere mais uma vez o exemplo da batata assada. A batata con- tém energia, mas essa energia é transferência de calor apenas quando ela passa através da casca da batata (a fronteira do sistema) para alcançar o ar, como mostra a Fig. 2–15. Depois que está na vizinhança, o calor transferido torna-se parte da energia interna dessa vizinhança. Assim, em termodinâmica, o termo calor sim- plesmente significa transferência de calor. Um processo durante o qual não há transferência de calor é chamado de proces- so adiabático (Fig. 2–16). A palavra adiabático vem do grego adiabatos, que signi- Trabalho Sistema fechado (m � constante) Calor Fronteira do sistema FIGURA 2–13 A energia pode atravessar as fronteiras de um sistema fechado na forma de calor ou trabalho. Ar da sala 25 °CSem transferência de calor Calor Calor 25 °C 5 °C 8 J/s 16 J/s 15 °C FIGURA 2–14 A diferença de temperatura é a força motriz da transferência de calor. Quanto maior a diferença de temperatura, maior a taxa de transferência de calor. 8,5 m/s FIGURA 2–12 Potencial local para uma estação eólica, como discutido no Exemplo 2–2. © Vol. 36/ PhotoDisc/Getty RF. Capítulo 2 Energia, Transferência de Energia e Análise Geral da Energia 61 fica intransponível. Um processo pode ser considerado adiabático de duas formas: quando o sistema está bem isolado, de modo que apenas uma quantidade desprezível de calor passe através da fronteira, ou quando o sistema e a vizinhança estejam à mesma temperatura e, portanto, não haja força motriz (diferença de temperatura) para a transferência de calor. Um processo adiabático não deve ser confundido com um processo isotérmico. Embora não exista transferência de calor durante um pro- cesso adiabático, o conteúdo de energia (e, consequentemente, a temperatura de um sistema) ainda pode ser alterada por outros meios como o trabalho. Como uma forma de energia, o calor tem unidades também de energia, e kJ é a mais comum. A quantidade de calor transferida durante um processo entre dois estados (estados 1 e 2) é indicada por Q12 ou apenas Q. A transferência de calor por unidade de massa de um sistema é indicada por q e é determinada por (2–14) Às vezes, é desejável conhecer a taxa de transferência do calor (a quantidade de calor transferida por unidade de tempo), em vez do calor total transferido ao longo de um intervalo de tempo (Fig. 2–17). A taxa de transferência de calor é indicada por , onde o ponto significa a derivada com relação ao tempo, ou “por unidade de tempo”. A taxa de transferência de calor , tem a unidade kJ/s, que equivale a kW. Quando varia com o tempo, o calor total transferido durante um processo é determinado pela integração de no intervalo de tempo do processo: (2–15) Quando permanece constante durante um processo, essa relação se reduz a (2–16) onde t � t2 � t1 é o intervalo de tempo durante o qual o processo ocorre. Calor: contexto histórico O calor sempre foi percebido como algo que produz em nós uma sensação de aquecimento, e é possível pensar que a natureza do calor é uma das primeiras coisas percebidas pela humanidade. Entretanto, apenas na metade do século XIX tivemos uma verdadeira compreensão física da natureza do calor, graças ao de- senvolvimento da teoria cinética, que trata moléculas como pequenas esferas que estão em movimento e, portanto, possuem energia cinética. Assim, o calor é de- finido como a energia associada ao movimento aleatório de átomos e moléculas. Embora tenha sido sugerido no século XVIII e no início do século XIX que o calor é a manifestação do movimento no nível molecular (a chamada força viva), a visão do calor que prevaleceu até a metade do século XIX tinha por base a teoria calórica proposta pelo químico francês Antoine Lavoisier (1744-1794) em 1789. A teoria calórica afirma que o calor é uma substância chamada de calórico, semelhante a um fluido, que não tem massa, cor, odor e gosto, e pode ser passada de um corpo para outro (Fig. 2–18). Quando o calórico era adicionado a um corpo, sua tempe- ratura aumentava; e quando o calórico era retirado de um corpo, sua temperatura diminuía. Quando um corpo não podia mais conter calórico, da mesma forma que Q � 0 Isolamento Sistema adiabático FIGURA 2–16 Durante um processo adiabático, um sistema não troca calor com sua vizinhança. Q � 30 kJ m � 2 kg t � 5 s� Q � 6 kW q � 15 kJ/kg 30 kJ calor FIGURA 2–17 As relações entre q, Q e . Ar da vizinhança Batata assada Fronteira do sistema Calor 2 kJ energia térmica 2 kJ energia térmica 2 kJcalor FIGURA 2–15 A energia é somente reconhecida como calor transferido quando atravessa a fronteira do sistema. 62 Termodinâmica não se pode mais dissolver sal ou açúcar em um copo d’água, dizia-se que o corpo estava saturado com calórico. Essa interpretação deu origem aos termos líquido saturado e vapor saturado, ainda usados nos dias de hoje. A teoria do calórico foi questionada logo após sua apresentação. Ela pro- punha que o calor era uma substância que não podia ser criada ou destruída. Entretanto, sabia-se que o calor podia ser gerado indefinidamente esfregando as mãos ou esfregando dois pedaços de madeira. Em 1798, o norte-americano Benjamin Thompson, também conhecido como Conde Rumford (1754-1814), mostrou em seus trabalhos que o calor pode ser gerado continuamente por meio do atrito. A validade da teoria do calórico também foi desafiada por vários ou- tros cientistas. Entretanto, foram os cuidadosos experimentos que o inglês Ja- mes P. Joule (1818-1889) publicou em 1843 que finalmente convenceram os céticos de que o calor não era uma substância, colocando assim a teoria do calórico de lado. Embora a teoria do calórico tenha sido totalmente abandonada na metade do século XIX, ela contribuiu bastante para o desenvolvimento da termodinâmica e da transferência de calor. Calor é transferido por meio de três mecanismos: condução, convecção e ra- diação. A condução é a transferência de energia das partículas mais energéticas de uma substância para as partículas menos energéticas como resultado da interação entre as partículas. A convecção é a transferência de energia entre uma superfície sólida e o fluido adjacente que está em movimento, e envolve os efeitos combina- dos da condução e do movimento do fluido. A radiação é a transferência de ener- gia devido à emissão de ondas eletromagnéticas (ou fótons). Uma visão geral dos três mecanismos da transferência de calor é dada no final deste capítulo no quadro Tópico de Interesse Especial. 2–4 TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA POR TRABALHO O trabalho, assim como o calor, é uma interação de energia entre um sistema e sua vizinhança. Como já foi mencionado, a energia pode atravessar a fronteira de um sistema fechado na forma de calor ou de trabalho. Assim, se a energia que cruza a fronteira de um sistema fechado não é calor, ela deve ser trabalho. O calor é fácil de reconhecer: sua força motriz é uma diferença de temperatura entre o sistema e sua vizinhança. Podemos simplesmente dizer que o trabalho é uma interação de energia que não é causada por uma diferença de temperatura entre um sistema e sua vizinhança. Mais especificamente, o trabalho é a transferência de energia as- sociada a uma força que age ao longo de uma distância. Um pistão em ascensão, um eixo em rotação e um fio elétrico que atravessa as fronteiras do sistema estão associados a interações de trabalho. Como o calor, o trabalho é uma forma de transferência de energia e, portanto, possui unidades de energia, como o kJ. O trabalho realizado durante um processo entre os estados 1 e 2 é indicado por W12, ou simplesmente W. O trabalho realizado por unidade de massa de um sistema é indicado por w e expresso como (2–17) O trabalho realizado por unidade de tempo é chamado de potência e é indicado por (Fig. 2–19). A unidade de potência é kJ/s ou kW. W � 30 kJ m � 2 kg W � 6 kW w � 15 kJ/kg 30 kJ trabalho �t � 5 s FIGURA 2–19 As relações entre w, W e . Corpo quente Corpo frio Superfície de contato Calórico FIGURA 2–18 No início do século XIX, pensava-se que o calor era um fluido invisível, chamado de calórico, que escoava dos corpos mais quentes para os corpos mais frios. Dica do professor O vídeo mostrará como trabalhar com a transferência de calor entre sistema e vizinhança e as formas de transferência de calor. Aponte a câmera para o código e acesse o link do vídeo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/107cff60736b6578db617179d3ac054c Exercícios 1) Considere um automóvel viajando a uma velocidade constante ao longo de uma estrada. Determine os sentidos de trânsito de calor, respectivamente, considerando os seguintes sistemas: o radiador do carro, o motor do carro e as rodas do carro. A) Entrando no sistema; entrando no sistema; entrando no sistema. B) Entrando no sistema; saindo do sistema; entrando na vizinhança. C) Saindo do sistema; saindo do sistema; entrando no sistema. D) Saindo do sistema; saindo da vizinhança; entrando no sistema. E) Saindo na vizinhança; saindo na vizinhança; entrando na vizinhança. 2) O transporte de pessoas e mercadorias por via férrea é muito empregado mundialmente, entretanto, deve-ser atentar para países que apresentam invernos com temperaturas muito baixas, pois pode ocasionar o descarrilamento dos mesmos. Este fenômeno pode ser explicado corretamente em: A) Ocorrerá uma dilatação positiva dos trilhos, o que ocasiona uma aumento da distância entre os mesmos. B) Os trilhos são contraídos devido à perda de calor para o ambiente muito frio. C) Ocorrerá um aumento de volume dos trilhos devido à absorção de calor pelos mesmos. D) Se os trilhos forem considerados, a vizinhança e o ambiente o sistema, os trilhos serão contraídos devido ao trânsito de calor do sistema para a vizinhança. E) Se os trilhos forem considerados, o sistema e o ambiente a vizinhança, os trilhos serão expandidos devido ao trânsito de calor do sistema para a vizinhança. 3) Considere um refrigerador elétrico contido dentro de uma sala. Marque a alternativa correta quanto às interações de calor, respectivamente, para os seguintes sistemas: o conteúdo do refrigerador, todas as partes do refrigerador (porta aberta) e tudo contido dentro da sala durante um dia de inverno. A) Saindo do sistema; entrando no sistema; saindo do sistema. B) Entrando no sistema; saindo do sistema; entrando no sistema. C) Saindo do sistema; entrando na vizinhança; saindo do sistema. D) Saindo da vizinhança; entrando na vizinhança; saindo da vizinhança. E) Entrando na vizinhança; saindo da vizinhança; saindo da vizinhança. 4) Quando um ônibus espacial retorna à Terra, sua superfície torna-se muito quente, ficando incandescente ao atravessar a atmosfera em alta velocidade. O ônibus torna-se quente e incandescente porque: A) O ar atmosférico, sendo a vizinhança, está a uma temperatura maior que o ônibus, que é o sistema, ocorrendo a transferência de calor da vizinhança para o sistema. B) O ônibus está muito quente e transfere calor para as partículas de ar, queimando as mesmas. C) O ônibus espacial apresenta uma energia potencial muito grande em relação à superfície terrestre. D) Transferência de energia da terra para o ônibus, por meio de radiação. E) O atrito como ar atmosférico gera muita energia, que na forma de calor aquece o ônibus e torna-o incandescente. 5) Ao dirigir um veículo em dias de chuva, os motoristas enfrentam um problema comum, os vidros do carro embaçam e tornam-se translúcidos, dificultando a visão e ocasionando riscos iminentes de acidentes. Isto ocorre devido: A) Ao comportamento próprio do vidro, que emite partículas de água quando encontra-se em baixas temperaturas. B) O para-brisa do carro transfere energia na forma de calor para as partículas de ar do interior do veículo, embaçando os vidros. C) A água do lado de fora penetra pelo vidro e troca calor com as partículas internas, condensando-as nos vidros do carro. D) O ar no interior do veículo está a uma temperatura maior do que o ar do lado de fora, que ao chocar-se contra o para-brisa condensam-se e ocasiona o embaçamento. E) As partículas do lado de dentro transferem energia unicamente via radiação para as partículas do lado de fora, condensando-se no para-brisa. Na prática Trocas de calor comuns no cotidiano. O calor é uma forma de transferência de energia muito comum em nosso dia-a-dia. Vamos analisar a importância do calor naparte mais gostosa das nossas residências, a cozinha. A geladeira e o fogão são equipamentos fundamentais na cozinha, pois neles podemos, respectivamente, acondicionar de forma adequada os nossos alimentos e cozinhá-los posteriormente para saciar a nossa fome. Veja a seguir alguns processos típicos de troca de calor nestes equipamentos para a carne (sempre será o sistema). Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Termodinâmica Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Física - V1 - Uma Abordagem Estratégica - Mecânica Newtoniana, Gravitação, Oscilações e Ondas Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Tranferência de Calor e Massa - Uma Abordagem Prática Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!