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AULA 6 COACHING E LIDERANÇA COACHING Prof. Raphael Jorge Simão 2 INTRODUÇÃO Nesta etapa, vamos conhecer alguns modelos e ferramentas dedicados ao processo de liderança coaching. Assim como os demais modelos e ferramentas de coaching que apresentamos ao longo de nossos estudos, eles também cumprem o papel de auxiliares na definição e exploração das fases gerais de coaching que já abordamos neste estudo (estado atual, estado desejado e plano de ação). Vamos apresentar, a exemplo do que fizemos anteriormente, ferramentas para todas as fases. Antes, porém, precisamos abordar uma poderosa técnica que serve de base para todo tipo e processo de coaching, incluindo a liderança coaching: as perguntas eficazes ou perguntas poderosas. TEMA 1 –PERGUNTAS EFICAZES OU PODEROSAS Afirmamos algumas vezes ao longo de nossos estudos que o coach não ensina nada de antemão ao coachee, mas, em vez disso, estimula e orienta o cliente no caminho do desbloqueio dos seus potenciais, da autoconsciência, da responsabilização, da visualização de um estado futuro e da transformação planejada. Isso significa dizer que o coach não dá ordens nem conselhos ou recomendações prontas, e que deve conduzir as sessões por meio de perguntas. As perguntas são, portanto, a forma mais básica de comunicação entre o coach e o coachee. Do mesmo modo, o estilo de liderança coach deve adotar essa forma fundamental de comunicação na abordagem com os colaboradores. A seguir, vamos tentar responder algumas questões básicas que facilitam o entendimento sobre o conceito e uso das perguntas poderosas. Esse exercício seguramente tem mais valor do que simplesmente apresentarmos aqui uma lista de perguntas prontas. Por que fazer perguntas? Se temos como foco a promoção da autoconsciência e da responsabilização, precisamos entender que as ordens ou as recomendações prontas não necessariamente nos conduzem a assumir responsabilidade ou a ampliar nossa consciência sobre as coisas, pois nem sempre estimulam o nosso pensamento, atenção e observação do real. Quando cumprimos ordens, tendemos a agir de forma automática. Outro efeito colateral ainda pior de uma ordem ou uma recomendação pronta é fazer com que as pessoas criem resistência a ela, colocando-as em uma posição defensiva que vai na direção oposta à dos objetivos do coaching. Uma das funções primordiais das 3 perguntas é justamente estimular a atenção e observação para que tenhamos mais clareza sobre os temas trabalhados e as alternativas para o sucesso, para que tomemos decisões mais conscientes e assertivas sobre o que vamos fazer e para que construamos planos de ação mais eficazes. Podemos fazer qualquer tipo de pergunta? Basicamente existem dois tipos de perguntas: abertas e fechadas. As perguntas fechadas até podem ser úteis em algumas circunstâncias do processo de coaching, mas no geral elas tendem a promover um tipo de resposta mais objetiva, caminhando – no limite – para respostas do tipo “sim” e “não”. Isso pouco interessa ao processo de coaching, uma vez que precisamos avançar no entendimento amplo e detalhado de um tema, ampliando a consciência do coachee, favorecendo a inspiração e criatividade e facilitando a tomada de decisão. Nesse sentido, as perguntas abertas são por natureza mais eficazes. Qualquer pergunta aberta vale? Não, as perguntas precisam cumprir alguns requisitos para serem consideradas perguntas poderosas ou eficazes. Basicamente, o coach precisa saber qual é o efeito desejado das perguntas e, por meio da escuta ativa, identificar se o objetivo foi atingido ou não. Na visão de Whitmore (2020), quatro efeitos fundamentais precisam ser observados após a realização das perguntas poderosas: 1) elas devem fazer o coachee prestar atenção ao tema; 2) devem elevar o grau de atenção e concentração dele no tema e exigir precisão na resposta; 3) devem promover respostas descritivas em detrimento das opinativas; 4) devem possibilitar ao coach avaliar o nível de precisão da resposta e também o grau de concentração do coachee. Já Arnaldo Marion (2017) nos ensina que as perguntas eficazes devem promover ao menos um destes cinco efeitos: “autoconsciência, autorresponsabilidade, ação ou atitude, visão de futuro e solução de um problema” (Marion, 2017, p. 55). Como podemos estruturar as perguntas para garantir os efeitos e características anteriormente citados? Lembram-se do 5W2H? Pois bem, agora ficará um pouco mais claro o porquê dessa ferramenta combinar tanto com o coaching. O primeiro passo é procurar iniciar a frase com pronomes que favoreçam a descrição e a quantificação dos fatos. Whitmore (2020) e Arnaldo Marion (2017) recomendam o uso dos pronomes o quê, quando, quem e quanto. Existem algumas restrições com o por que, conforme já estudamos, uma vez que ele pode evocar o estado originário (EO) e também favorecer o surgimento de 4 críticas e justificativas em detrimento da descrição dos fatos, da responsabilização e da visão de futuro que se deseja construir. Todavia, ele pode ser útil em algumas circunstâncias. Além do foco na descrição, algo muito importante que precisa ser lembrado quando falamos na estruturação das perguntas é a sua pluralidade e, portanto, pensamos sempre em um conjunto de questões para um mesmo tema, conforme a necessidade identificada e a disposição do cliente. Whitmore (2020) faz, nesse sentido, uma recomendação muito interessante para estruturá-las que poderíamos ousar traduzi-la como uma espécie de “funil” “de perguntas. Na visão do autor, as perguntas devem começar mais amplas e de forma gradual focarem cada vez mais nos detalhes. Isso favorece tanto o interesse do coachee quanto o aprofundamento no tema que está sendo trabalhado. Outro aspecto que precisa ser respeitado na visão de Whitmore (2020, p. 88) é que “as perguntas deve seguir o interesse e a cadeia de pensamento do coachee, e não do coach”, sob pena de comprometer o processo de responsabilização e até de interesse e confiança do coachee. As respostas anteriores do coachee definem as próximas perguntas e não o contrário. O coach deve evitar a tentação de direcionar o coachee com as perguntas e facilitar que eles explorem seus temas de interesse, pois isso favorece a concentração, o aprofundamento e o compromisso do cliente com o tema que está sendo trabalhado. Todos esses elementos e nuances compõem as perguntas poderosas, diferenciando-as de perguntas comuns e favorecendo o processo de coaching em todas as fases. Evidentemente, o progresso e a eficácia da aplicação das perguntas dependem de outras habilidades do coach, tais como a escuta ativa, a presença integral e a forma como isso é refletido e comunicado de volta ao coachee. A aplicação das perguntas eficazes ou poderosas é fundamental e universal no coaching, mas, para fins do direcionamento de nossos estudos, vamos apresentar a seguir alguns exemplos de perguntas poderosas que podem ser mais úteis ao universo da liderança. Arnaldo Marion (2017) classifica as perguntas poderosas em diferentes categorias. Elencamos algumas delas no quadro a seguir que apresentam maior relação com o processo de gestão e liderança. 5 Fonte: elaborado com base em Marion, 2017, p. 62. Outra lista interessante é apresentada por Kate Burton (2014). Da mesma forma, selecionamos as categorias mais próximas e úteis para o processo de liderança. Fonte: elaborado com base em Burton, 2014, p. 106. As listas e categorias de Whitmore (2020) também são extensas. Selecionamos algumas da categoria acordos conscientes de trabalho. Fonte: elaborado com base em Whitmore, 2020, p. 281. A aplicação das perguntas eficazes é uma prática que deve evoluir com o tempo e com a experiência. Alguns autores recomendam queo coach crie sua própria lista inicial de perguntas poderosas separadas por categorias para facilitar a abordagem. Isso pode ser útil no começo, mas o mais importante é o foco do coach sobre os efeitos das perguntas que faz e na cadeia de pensamentos do coachee. A confirmação de que se está fazendo perguntas poderosas e no momento adequado se dá pela constatação de aumento no interesse do coachee pelos temas, pela sua responsabilização na busca de ações, alternativas e soluções, pela ampliação da sua consciência em relação aos temas abordados, pela liberação da sua criatividade e pelo desbloqueio dos potenciais e aumento das possibilidades que se faziam presentes antes do processo de coaching ter início. • APRENDIZADO: o que você aprendeu com isso? • AUTORRESPONSABILIDADE: como você vai assumir o controle da situação? • DEFINIÇÃO DE PROBLEMA: o que está acontecendo hoje que parece fora de controle? • DESAFIO: qual é a parte mais difícil e desafiadora nisso pra você? • DESENVOLVIMENTO PESSOAL: qual o próximo nível que gostaria de desenvolver? • FEEDBACK: o que as pessoas sinceras têm dito para você sobre isso? • MOTIVAÇÃO: O QUANTO ESTÁ DISPOSTO A INVESTIR PARA QUE ISSO ACONTEÇA? • Ação: o que vem agora? Qual é o primeiro passo? • Brainstorm: o que você faria se não houvesse limites? • Resultados: o que seria um bom resultado para você? • O que está funcionando / não está funcionando? • Quais atitudes você e eu queremos trazer para esta conversa? • O que precisamos mudar para tornar o relacionamento mais produtivo/positivo? 6 TEMA 2 – MODELO 3S-P O modelo 3S-P é uma forma de se fazer gestão de desempenho baseada em um tripé sem o qual não é possível que o desempenho ocorra. Os “3S” são, respectivamente, os Pontos fortes (strengths), a Situação ou Contexto (situation) e a Estratégia (strategy). O “P”, entendido como resultante desses três fatores, significa desempenho (performance). A análise e entendimento desse tripé de forma indissociável é o principal fundamento do 3S-P. O grande foco desse modelo é no processo de desenvolvimento de profissionais de alto potencial (Hi- Po). Ele pode ser útil como uma ferramenta cross, que abrange as três fases do processo de coaching (EA, ED e PA), e também pode ser usado tanto como ferramenta para gestão por parte do líder quanto para a própria capacitação e desenvolvimento da liderança. Na visão de P. Alex Linley e Nice Garcea (2018), o entendimento dos pontos fortes, da situação e da estratégia acontece de forma indissociável porque há uma relação de interdependência entre eles. Para os autores, apenas uma visão de pontos fortes sem estratégia e entendimento do contexto é somente um “passatempo”. Da mesma forma, quando temos o entendimento claro da situação, mas não sabemos qual direção tomar (estratégia) nem a força que temos, ficamos restritos a uma análise de cenário, a uma fotografia da realidade. Por fim, a estratégia sem conhecimento do contexto é vista por eles como apenas um “desejo”, uma espécie de sonho que não encontra as vias para realização. “Contudo, esses três fatores se reúnem, e, na sua interseção, encontramos os fundamentos necessários e a competência suficiente para que o desempenho ocorra […]” (Linley; Garcea, 2018, p. 273). Do mesmo modo que os demais modelos que já apresentamos ao longo de nossos estudos, a forma primordial de aplicação das ferramentas e de comunicação do coaching se dá por meio de respostas às perguntas eficazes ou poderosas. Não seria diferente com o 3S-P. Portanto, a seguir vamos listar algumas das principais perguntas que precisam ser respondidas durante o entendimento de cada um dos três fatores. É por intermédio do entendimento combinado e aprofundado desses três fatores que surge uma visão mais clara acerca do desempenho desejado, possível e necessário. 7 Fonte: elaborado com base em Goldsmith; Lyons; McArthur, 2018, p. 274. Gostaríamos de chamar a atenção para quatro aspectos do quadro anterior. Primeiramente, é importante refletirmos sobre o quanto essas perguntas se assemelham com as perguntas dos demais modelos e ferramentas que estudamos ao longo de nossos estudos. Notemos, por exemplo, que as perguntas que avaliam a situação respondem à pergunta geral da fase de Realidade do modelo GROW – “Onde você está agora?”. Do mesmo modo, as perguntas da Estratégia podem ser relacionadas à pergunta geral da fase de Opções – “O que você poderia fazer?”. Outro aspecto que chama a atenção é o uso do “por que”. Em nenhum momento o uso do “por que” está evocando a crítica nem as justificativas subjetivas. Ao contrário, está evocando a responsabilização e a consciência. O terceiro aspecto interessante do modelo é o seu foco nos pontos fortes. A gestão pela via positiva é um dos fundamentos do coaching. Quando as pessoas passam a agir com foco na ampliação da consciência sobre os seus pontos fortes e potenciais, elas tendem a ter um melhor resultado. Por fim, vale ressaltar que as perguntas trazidas pelos autores é uma referência, e podemos e devemos adaptá-las às nossas necessidades como gestores. O mais importante aqui é o entendimento do conceito e do propósito de cada um dos fatores. Da mesma forma, a necessidade de nos aprofundarmos em cada um dos fatores com mais perguntas vai depender da dinâmica das sessões. Na Figura 1, notemos que o desempenho acontece na interseção e na interdependência dos três fatores. 1) Pontos fortes: • Quais pontos fortes que você pode usar para atingir seus objetivos? • Como seus pontos fortes são percebidos na empresa? • Quais os pontos fortes que você precisa intensificar ou restringir? 2) Estratégia: • O que você está tentando alcançar e por quê? • Quais os principais impactos que o ajudarão ou dificultarão sua conquista? • Por que isto deve ser feito para a empresa? Como você pode garantir que ajudará a empresa a atingir a missão e o propósito? 3) Situação: • Qual o contexto atual e qual o impacto que produz em você? • O que está acontecendo no mundo que influenciará suas decisões? • Existe um elo entre seus pontos fortes e estratégia e a situação? Em caso negativo, o que pode ser feito? 8 Figura 1 – Três fatores Fonte: elaborado com base em Goldsmith; Lyons; McArthur, 2018, p. 274. TEMA 3 – MODELO REALISE2 4M O modelo Realise2 4M é pensado para ajudar no desenvolvimento dos colaboradores de alto potencial (HI-Po). Veremos que ele se caracteriza como uma ferramenta de mapeamento do estado atual (EA), baseada na identificação de pontos fortes, fracos e comportamentos aprendidos. Em contrapartida, ele pode ser entendido como uma ferramenta de melhoria contínua, que é dinâmica e requer avaliação e atualização periódica do coachee à medida que ele evolui no processo. No tópico anterior, chamamos a atenção para um aspecto do modelo 3S-P muito relevante: o seu foco nos pontos fortes. De fato, um dos fundamentos da liderança coaching é a gestão pelo positivo, pelo desbloqueio e fortalecimento dos potenciais, e encontramos essa premissa em muitos modelos e ferramentas da liderança coaching. Agora, se faz necessário aprofundarmos nosso entendimento sobre a constituição dos pontos fortes para que o estudo do modelo Realise2 4M seja mais profícuo. Para P. Alex Linley e Nice Garcea (2018), os pontos fortes precisam ser definidos e entendidos em três aspectos: 1) desempenho, que se traduz por aquilo em que o coachee é bom e sabe fazer bem; 2) energia: que tem relação com a PONTOS FORTES SITUAÇÃO ESTRATÉGIA DESEMPENHO 9 experiência de satisfação ao se exercer um ponto forte e sobre como isso gera mais energia para o coachee; 3) uso: que é a prática propriamente dita, a saída do campo da potência para o campo do ato, da realização. São precisamente essas três dimensões combinadas que constituem os quatroquadrantes do modelo Realise2 4M. Vejamos o que isso significa. Os quatro quadrantes são definidos como pontos fortes percebidos, pontos fortes não percebidos, comportamentos aprendidos e pontos fracos. O ponto forte percebido é caracterizado pelos autores como o quadrante em que há alto índice de desempenho, energia e uso. Para os demais quadrantes, necessariamente haverá perda quanto a uma ou mais dimensões. Mas, independentemente de essa perda não se observar de saída nos pontos fortes percebidos, todos os quadrantes precisam ser trabalhados. Portanto, há uma recomendação de ação necessária para cada um deles. Na Figura 2 a seguir, ilustramos bem cada quadrante e suas características em relação às três dimensões, e também apresentamos as ações necessárias para cada situação. As ações previstas para cada quadrante são exatamente a tradução dos 4Ms que compõem o nome do modelo: mobilizar, moderar, minimizar e maximizar. Figura 2 – Quadrantes Fonte: elaborado com base em Goldsmith; Lyons; McArthur, 2018, p. 271. ▪Bom desempenho ▪ Desenergização ▪ Uso variável ▪ 4M: Moderar ▪Mau desempenho ▪ Desenergização ▪ Uso variável ▪ 4M: Minimizar ▪Bom desempenho ▪ Energia ▪ Alta utilização ▪ 4M: Mobilizar ▪Bom desempenho ▪ Energia ▪ Baixa utilização ▪4M: Maximizar Pontos fortes não percebidos Pontos fortes percebidos Comportamentos aprendidos Pontos fracos 10 Os 4Ms cumprem o papel de mitigar riscos, variação e impacto no desempenho, energia e uso em cada um dos quadrantes. Para os pontos fortes percebidos, mobilizar significa não apenas garantir a conscientização e manutenção dos pontos fortes, mas também que o coachee “utilize-os adequadamente de acordo com a situação e o contexto” (Linley; Garcea, 2018, p. 271). Em paralelo, é preciso maximizar os pontos fortes não percebidos, encontrando as oportunidades para colocá-los em prática mais vezes para que garantam a melhoria no desempenho e sejam inseridos gradativamente no campo da alta utilização. Já os pontos fracos precisam de dois direcionamentos: ser minimizados para evitar o impacto negativo no desempenho, e, em contrapartida, ser desenvolvidos para que se tornem melhores e se fortaleçam. Por fim, os comportamentos aprendidos precisam encontrar equilíbrio na sua utilização, por isso a palavra de ordem é moderar. O modelo Relise2 4M deixa de ser um instrumento de mapeamento do estado atual à medida que é revisitado e reavaliado periodicamente. A dinâmica dos pontos fortes percebidos e não percebidos e a evolução dos pontos fracos transformam a ferramenta em um documento vivo e em um processo de melhoria contínua, em que se avalia continuamente o que mudou, o que precisa ser mudado e o que precisa ser mantido para que se possa garantir o melhor desempenho. TEMA 4 – FEEDBACK E FEEDFORWARD O processo de feedback é universal e contínuo no coaching. Ao longo de nossos estudos, tivemos a oportunidade de analisar inúmeros modelos de trabalho e perceber a necessidade de se avaliar continuamente o que está dando certo e precisa ser mantido e o que não está e precisa ser mudado. No modelo GROW, por exemplo, vimos que na etapa Realidade está prevista a revisão dos objetivos e que na etapa Vontade está previsto o momento de acompanhamento e feedback. Do mesmo modo, quando estudamos a etapa de Efeitos no modelo SCORE, pudemos identificar que também há uma previsão para a avaliação e revisão das metas por meio da análise dos possíveis efeitos visualizados. Tomando como base apenas esses dois modelos, constatamos um ponto em comum entre eles: ambos usam o feedback para criar uma visão de futuro e não apenas do passado. No modelo GROW, um dos objetivos do feedback é gerar energia para seguir em frente com base no que deu certo. No modelo SCORE 11 temos o foco em revisar as metas, mas por meio daquilo que se entende como seus efeitos futuros e não apenas com base no que já aconteceu. É importante lembrar que o coaching tem por objetivo a transformação planejada e a realização de um estado desejado e, portanto, futuro. Assim sendo, modelos, ferramentas e técnicas devem sempre favorecer esse mote. No entanto, apesar dessa orientação para o futuro que o coaching nos traz, os feedbacks, por definição e de modo geral, tendem a concentrar o seu foco no passado, independentemente do modelo e técnica de feedback escolhidos e, principalmente, quando não se tem um modelo de gestão bem fundamentado no coaching. Isso pode ser um problema para a liderança ou, no mínimo, uma limitação. Goldsmith, Lyons e McArthur (2018) nos apresentam o conceito de feedforward como uma alternativa ao feedback e também como uma forma de se mitigar o eventual risco de concentrar a atenção no passado, que é contraproducente para o processo de coaching. Os autores justificam seu uso e benefícios por meio de um exercício prático sugerido por eles no qual são elencados onze razões para se escolher o feedforward como forma de acompanhamento na liderança coaching. A premissa do feedforward é muito simples, pois a principal restrição é que não se pode olhar para o passado, mas tão somente para o futuro. A ideia central é partir do estado atual e construir – em conjunto com os demais participantes do exercício – uma lista de sugestões de ações para a mudança de comportamento. Vejamos como isso funciona no exercício proposto por Goldsmith, Lyons e McArthur (2018). O experimento consiste em solicitar aos participantes que se coloquem em dois papéis distintos: no primeiro papel, eles “devem fornecer feedforward, isto é, dar a alguém sugestões para o futuro e o máximo de apoio” (Goldsmith; Lyons; McArthur, 2018, p. 263, grifo dos autores). Já no segundo papel, a ordem deve ser invertida e o participante deve “aceitar o feedforward, isto é, ouvir sugestões para o futuro e aprender o máximo possível.” (Goldsmith; Lyons; McArthur, 2018, p. 263, grifo dos autores). Na Figura 3 a seguir, resumimos a relação das regras e solicitações feitas pelo autor aos participantes durante o exercício de feedforward. Estes critérios e solicitações podem ser entendidos como a própria técnica de aplicação do feedforward. 12 Figura 3 – Feedforward Fonte: elaborado com base em Goldsmith; Lyons; McArthur, 2018. p. 263. O exercício ganha mais força com vários participantes, mas nada impede que o líder adote essa prática no seu cotidiano com menos pessoas e até em reuniões individuais. Outro ponto que desperta atenção no exercício é que é o participante quem escolhe o comportamento que deseja mudar, ao contrário do que frequentemente acontece nos feedbacks tradicionais. Em seguida, Goldsmith, Lyons e McArthur nos apresentam onze razões para utilizar o feedforward. Essas razões podem ser, além da defesa da ferramenta, os próprios critérios que devemos seguir para escolher aplicar o feedforward em determinadas situações. Resumimos as onze razões na Figura 4 a seguir. Figura 4 – Razões para utilizar Fonte: elaborado com base em Goldsmith; Lyons; McArthur, 2018, p. 264. 1) “Escolha um comportamento que gostaria de mudar. A mudança deve ser significativa e positiva”. 2) “Descreva esse comportamento para os demais participantes”. 3) “Solicite feedforward para duas sugestões para o futuro que irá ajudá-lo a atingir uma mudança positiva no comportamento selecionado”. Aqui o autor reforça que não se pode fazer qualquer referência ao passado, apenas ao futuro. 4) “Escute com atenção as sugestões e faça anotações”. Aqui o autor sinaliza que os participantes não podem comentar ou criticar as sugestões. 5) “Agradeça aos outros participantes por suas sugestões”. 6) “Pergunte às outras pessoas o que gostariam de mudar”. 7) “Forneça feedforward para duas sugestões com o objetivo de ajudar a outra pessoa a mudar”. 8) “Diga “por nada” quando agradecem as sugestões”.9) “Encontre outro participante e repita o processo até que o exercício termine”. 1) “Podemos mudar o futuro. Não podemos mudar o passado”. 2) “Pode ser mais produtivo ajudar as pessoas a serem ‘corretas’ que provar que estavam ‘erradas’”. 3) “O feedforward se aplica, especialmente, a pessoas bem-sucedidas”. 4) “O feedforward pode se originar de qualquer pessoa que tenha conhecimento sobre a tarefa, não requer experiência pessoal com o indivíduo”. 5) “As pessoas não levam o feedforward para o lado pessoal tanto quanto o feedback”. 6) “O feedback pode reforçar o estereótipo pessoal e levar ao cumprimento de profecias pessoais negativas”. 7) “A maioria das pessoas odeia receber ou dar feedback negativo”. 8) “O feedforward pode abranger quase o mesmo ‘material’ que o feedback”. 9) “O feedforward tende a ser muito mais rápido e eficiente que o feedback”. 10) “O feedforward pode ser uma ferramenta útil para ser utilizada com gerentes, pares e equipes”. 11) “As pessoas tendem a escutar com maior atenção o feedforward que o feedback”. 13 A exposição anterior não tem por objetivo desestimular o uso do feedback. Como bem dissemos, sua aplicação é perene no processo de coaching. A ideia aqui é tão somente apresentar uma ferramenta e técnica alternativa que naturalmente está mais alinhada com a visão de futuro que o coaching precisa produzir. TEMA 5 – AGENDA DE COACHING (AGENDA PERFEITA) Todas as ferramentas de coaching que estudamos caminham na direção de um plano de ação com o objetivo de promover a transformação planejada. Independentemente do modelo e das ferramentas utilizadas, esse será sempre o mote. No entanto, um plano de ação também requer um segundo nível de organização que dê conta de segmentar e organizar as ações concretas em semanas e dias. Podemos ter algum nível de detalhe no 5W2H sobre “como” e “quando” executará uma determinada ação para atingir um objetivo, mas não necessariamente ter o detalhe sobre o que será feito e quanto tempo gastará com o tema especificamente na próxima segunda-feira. Esse é um dos papéis que uma agenda de coaching cumpre. A agenda perfeita é, na realidade, uma ferramenta de gestão do tempo. É uma forma eficaz de transformar os temas que são explorados no processo de coaching em uma sequência de ações tangíveis, organizadas em uma linha do tempo e que nos dão clareza sobre como e onde vamos investir nossa energia e nosso tempo para alcançarmos o que definimos como alvo. Porém, para que possamos construí-la de modo eficiente, precisamos ter uma visão clara sobre nosso estado atual, sobre como e onde estamos gastando nosso tempo e energia atualmente, sobre o que precisa ser mantido e o que precisa ser mudado para que o alcance dos objetivos seja viável. Arnaldo Marion (2017) estabelece quatro passos para a estruturação da agenda perfeita. A organização da agenda com base nesses quatro passos pode ser perfeitamente utilizada como ferramenta de gestão e ajudar o seu liderado a organizar seus dias e semanas para que as metas materializadas no plano de ação sejam cumpridas. O primeiro passo do processo é definir o alvo do tempo, ou seja, visualizar onde é realmente importante alocarmos nosso tempo e energia. Para tanto, precisamos considerar a distribuição do nosso tempo em quatro dimensões: distração, desilusão, demanda e realização. A dimensão da distração é 14 classificada pelo autor como “não importante e não urgente”, pois frequentemente são atividades que atuam como refúgios do nosso estresse e que não exigem esforço mental. A dimensão da demanda é “urgente e importante”, pois são externas ao nosso plano e precisam ser realmente atendidas por algum motivo. A dimensão da desilusão muitas vezes surge de necessidades externas que também impactam o nosso plano de ação, mas a diferença aqui é que elas não são importantes como as ocorrências da dimensão das demandas. A dimensão da realização é entendida pelo autor como “importante, mas não urgente”. É nessa dimensão que a maior parte da nossa energia e do nosso tempo precisam ser alocados. Ela deve conter o alvo do nosso tempo e os eventos que realmente fazem sentido para a execução do nosso plano de ação e realização de vida. O segundo passo consiste justamente na avaliação do nosso estado atual, ou seja, na visualização do quanto estamos alocando o nosso tempo em cada uma das dimensões. A recomendação aqui é a de que o tempo de alocação para dimensão da realização deve estar entre 40 e 70%. Quando o cenário está abaixo disso, frequentemente estamos no limite do estresse com a alocação do tempo em demandas externas ao nosso plano e alvo. No entanto, nem sempre essa realocação do nosso tempo é uma tarefa simples. Por esse motivo, o terceiro passo da construção da agenda perfeita é justamente o trabalho de tentar equilibrar a distribuição do tempo de modo a concentrar o que for possível na dimensão da realização. O processo apresentado pelo autor consiste em dois passos fundamentais: 1) encontrar uma forma de eliminar algumas horas das dimensões de distração e desilusão e realocar esse tempo na dimensão da realização; 2) definir a quantidade de horas que vamos alocar em cada dimensão e respeitar essa distribuição quando for elaborar a agenda. Por fim, o quarto e ultimo passo é justamente a materialização da agenda. Para cumprir esse objetivo, Arnaldo Marion (2017) nos apresenta mais duas dicas para tornar a agenda ainda mais eficaz e valiosa: a avaliação do valor do nosso tempo e dos sinais que nos ajudam a equilibrar a agenda. A análise do tempo é muito simples e consiste em dividir nosso compromisso de ganho anual pela quantidade de horas a serem trabalhadas. Com esse cálculo simples, chegamos ao nosso valor/hora. O objetivo de termos consciência do quanto vale nossa hora trabalhada é mais um recurso para nos 15 ajudar a priorizar as atividades que realmente têm valor e reduzirmos ou eliminarmos as tarefas que não geram valor ao nosso plano. Já os sinais que favorecem o equilíbrio da nossa agenda são 4: growth, in, on e off. Eles representam, respectivamente, o tempo dedicado ao crescimento, à resolução de problemas, ao planejamento e ao descanso. Esse recurso pode ser usado como uma importante legenda para as nossas atividades e, dessa forma, nos ajudar a encontrar o equilíbrio na distribuição de tarefas e ações da agenda perfeita. 16 REFERÊNCIAS BURTON, K. Coaching com PNL para leigos. Rio de Janeiro: Altabooks, 2014. GOLDSMITH, M.; LYONS, l. S.; MCARTHUR, S. Coaching: o exercício da liderança. Rio de Janeiro: Altabooks, 2018. LINLEY, P. A.; GARCEA, N. Três tipos de Hi-Pos e o Modelo Realise2 4M: coaching na interseção de pontos fortes, estratégia e situação. In: GOLDSMITH, M.; LYONS, L.; MCARTHUR, S. (Org.). Coaching: o exercício da liderança. Tradução de Clarisse Cardoso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. p. 267-273. MARION, A. Manual de coaching: guia prático de formação profissional. São Paulo: Atlas, 2017. WHITMORE, J. Coaching para performance: os princípios e práticas de coaching e liderança. 5. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2020.