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<p>© 2012 by Vitor da Fonseca</p><p>Gerente Editorial: Alan Kardec Pereira</p><p>Editor: Waldir Pedro</p><p>Revisão Gramatical: Lucíola Medeiros Brasil</p><p>Capa e Projeto Gráfico: 2ébom Design</p><p>Capa: Eduardo Cardoso</p><p>Diagramação: Flávio Lecorny</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>F742m</p><p>2.ed.</p><p>Fonseca, Vitor</p><p>Manual de observação psicomotora: significação psiconeurológica dos fatores psicomotores/</p><p>Vitor da Fonseca. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012. 328p. : 28cm</p><p>Inclui bibliografia</p><p>ISBN 978-85-7854-175-0</p><p>1. Psicomotricidade. 2. Capacidade motora. I. Título.</p><p>11.6164 CDD 152.3 CDU: 159.943</p><p>2012</p><p>Direitos desta edição reservados à Wak Editora Proibida a reprodução total e</p><p>parcial.</p><p>Os infratores serão processados na forma da lei.</p><p>WAK EDITORA</p><p>Av. N. Sra. de Copacabana 945 – sala 107 – Copacabana</p><p>Rio de Janeiro – CEP 22060-001 – RJ</p><p>Tels.: (21) 3208-6095 e 3208-6113</p><p>Fax (21) 3208-3918</p><p>mailto:wakeditora@uol.com.br</p><p>wakeditora@uol.com.br</p><p>www.wakeditora.com.br</p><p>mailto:wakeditora@uol.com.br</p><p>http://www.wakeditora.com.br/</p><p>Introdução</p><p>Capítulo 1</p><p>Apresentação do Problema</p><p>1.1. Breve revisão histórica da Psicomotricidade</p><p>1.2. Breve revisão histórica da Psiconeurologia</p><p>1.3.Alguns aspectos filogenéticos</p><p>1.4. Alguns aspectos ontogenéticos</p><p>Capítulo 2</p><p>Modelo de Organização Funcional do Cérebro Humano, segundo</p><p>Luria</p><p>2.1 Relações entre cérebro e comportamento</p><p>2.2. As três unidades funcionais do cérebro</p><p>2.2.1. Primeira unidade – de regulação tônica, de alerta e dos</p><p>estados mentai</p><p>2.2.2. Segunda unidade – de recepção, análise e</p><p>armazenamento da informação</p><p>2.2.3. Terceira unidade de programação – regulação e</p><p>verificação da atividade</p><p>2.3. Interação entre as três unidades funcionais</p><p>Capítulo 3</p><p>Fatores Psicomotores e sua Relação com as Três Unidades</p><p>Funcionais</p><p>3.1. Fundamentos psiconeurológicos da bateria psicomotora (BPM)</p><p>3.2. Apresentação, administração e cotação dos fatores</p><p>psicomotores (BPM)</p><p>3.2.1. Aspecto somático, desvios posturais e controle</p><p>respiratório</p><p>3.2.2. Tonicidade</p><p>3.2.3. Equilibração</p><p>3.2.4. Lateralização</p><p>3.2.5. Noção do corpo</p><p>3.2.6. Estruturação espaço-temporal</p><p>3.2.7. Praxia global</p><p>3.2.8. Praxia fina</p><p>3.3. Aspectos gerais da observação psicomotora</p><p>Capítulo 4</p><p>Psicomotricidade e Psiconeurologia</p><p>[Introdução ao Sistema Psicomotor Humano (SPMH)]</p><p>4.1. Introdução a uma abordagem filogenética</p><p>4.2. Introdução a uma abordagem ontogenética</p><p>4.3. Introdução ao sistema psicomotor humano</p><p>4.4. Propriedades do sistema psicomotor humano</p><p>4.5. Síntese de um ensaio experimental</p><p>(Fatores psicomotores à luz de A. R. Luria)</p><p>Capítulo 5</p><p>A Criança Dispráxica com Dificuldades de Aprendizagem</p><p>5.1. Algumas reflexões de síntese</p><p>Capítulo 6</p><p>Implicações da Observação na Reabilitação Psicomotora.</p><p>6.1. Parâmetros de reabilitação psicomotora</p><p>6.2.1 Parâmetros de reabilitação psicomotora</p><p>Conclusões</p><p>Referências</p><p>A apresentação deste livro encerra um ciclo da nossa atividade</p><p>clínico-terapêutica e científico-pedagógica, dedicada à</p><p>Psicomotricidade. Dessa mesma coleção, temos as obras:</p><p>— Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese,</p><p>publicado pela Wak Editora.</p><p>— Terapia Psicomotora; estudo de casos, pela Editora Vozes.</p><p>— Desenvolvimento Psicomotor da Aprendizagem, publicado pela</p><p>Editora Artmed.</p><p>Toda nossa obra em fundamentos antropológicos,</p><p>psiconeurológicos e psicobiológicos, até a presente obra, onde</p><p>procuramos essencialmente construir um dado corpo teórico e abordar</p><p>a sua problemática, as suas hipóteses, os seus axiomas e os princípios</p><p>em um ângulo transdisciplinar integrado, visando a uma busca</p><p>sistemática sobre o papel da motricidade no desenvolvimento</p><p>psicológico e no processo de aprendizagem, quer em crianças</p><p>“normais”, quer em crianças com deficiências ou dificuldades.</p><p>Neste livro, abrimos um novo paradigma, mais clínico que teórico,</p><p>com a abordagem psiconeurológica da observação psicomotora na</p><p>criança, com base na apresentação na bateria psicomotora (BPM),</p><p>instrumento original de observação psicoeducacional cuja construção</p><p>só foi possível ao longo de 20 anos de convivência dinâmica com</p><p>inúmeros casos clínicos. A BPM não é mais do que um conjunto de</p><p>situações ou tarefas que buscam analisar dinamicamente o perfil</p><p>psicomotor da criança (perfil intraindividual), procurando cobrir a sua</p><p>integração psiconeurológica, em concordância privilegiada com a</p><p>organização funcional do cérebro proposta pelo grande</p><p>psiconeurologista</p><p>A. R. Luria, além de equacionar a relação de tal perfil com o seu</p><p>potencial dinâmico e a sua propensão à aprendizagem.</p><p>A BPM consiste em uma série de simples tarefas distribuídas em</p><p>sete fatores psicomotores: tonicidade (T), equilibração (E), lateralização</p><p>(L), noção do corpo (NC), estruturação espaço-temporal (EET), praxia</p><p>global (PG) e praxia fina (PF), que serão apresentados em termos</p><p>protocolares e explorados, ao longo do livro, na sua significação</p><p>psiconeurológica.</p><p>Não se trata de um exame neurológico clássico, que, como se sabe,</p><p>foi desenvolvido em adultos com desordens neurológicas óbvias e,</p><p>como tal, não pode ser um instrumento adequado para avaliar a</p><p>integridade psiconeurológica de uma criança em desenvolvimento</p><p>(BAX, 1970) nem se trata de uma avaliação psicométrica tradicional,</p><p>pois o seu objetivo não é reduzir o potencial humano a uma escala</p><p>numérica.</p><p>A observação psicomotora, em certa medida, quebra regras das</p><p>observações neurológicas e psicológicas clássicas, uma vez que se</p><p>centra em uma interação intencional e recíproca entre o observador</p><p>(mediador) e o observado (criança), aqui entendido como um ser</p><p>humano único, holístico, sistêmico e evolutivo, capaz de</p><p>modificabilidade e de adaptabilidade.</p><p>A BPM não procura atingir um valor numérico ou um quociente</p><p>psicomotor imutável ou infalível; pelo contrário, procura avaliar</p><p>dinamicamente o potencial humano de aprendizagem que cada criança</p><p>transporta consigo como sua característica intrínseca. Não se trata de</p><p>uma avaliação convencional, mas sim dinâmica, visando à possibilidade</p><p>de modificar a capacidade psicomotora manifestada e evidenciada pela</p><p>criança.</p><p>O observador não se limita a uma atitude reservada, fria e neutra</p><p>com o observado. Na observação psicomotora, o observador envolve-se</p><p>em uma mediação intensa, criativa e mesmo lúdica, encorajando e</p><p>reforçando a criança a evidenciar o seu potencial como processo e não</p><p>como produto de comportamento. A BPM não procura medir o</p><p>produto motor, mas sim a qualidade dos processos psíquicos que estão</p><p>na origem da sua integração, programação, elaboração e regulação.</p><p>Não é, portanto, surpreendente que o diagnóstico psicomotor da</p><p>criança seja muitas vezes considerado como pouco rigoroso ou mesmo</p><p>não fidedigno.</p><p>A necessidade da observação psicomotora parece justificar-se</p><p>porque:</p><p>— existe uma grande abundância de trabalhos de investigação que</p><p>relacionam a integridade psicomotora com a aprendizagem</p><p>eficiente;</p><p>— reconhece-se a existência de dificuldades de aprendizagem e de</p><p>perturbações de comportamento em crianças que não podem ser</p><p>categorizadas como deficien tes (paradigma da criança em risco, da</p><p>criança paranormal ou parapatológica e da criança com disfunções</p><p>neurológicas mínimas – sofi neurological signs de Touwen e Prechtl,</p><p>1970);</p><p>— a prevenção, a compensação, a reeducação e a terapia de</p><p>disfunções psicomotoras podem impedir que um problema simples</p><p>se transforme em um problema mais sério.</p><p>A BPM não passa, portanto, de um instrumento de identificação</p><p>(screening tool) da integridade psicomotora e psiconeurológica da</p><p>criança, pois ela não fornece informação neurológica e patológica</p><p>muito detalhada. Por isso, não deve ser utilizada para diagnosticar</p><p>deficits neurológicos nem diagnosticar disfunções ou lesões cerebrais.</p><p>A observação psicomotora não substitui, consequentemente, os</p><p>exames neurológicos ou psicológicos estandartizados efetuados por</p><p>especialistas bem treinados. Todavia, qualquer pessoa com alguma</p><p>síndrome orgânico-cerebral (apraxias, agnosias, ataxias, assinergias,</p><p>assomatognosias etc.) não poderá realizar, ou realizará de forma</p><p>imperfeita e imprecisa, as tarefas</p><p>mechanisms).</p><p>Todas as vias ontogenéticas de interconexão no sistema nervoso</p><p>humano parecem confirmar o padrão filogenético hierarquizado</p><p>reduplicativo, daí que não se possa conceber hoje o desenvolvimento</p><p>da criança sem a sua contribuição.</p><p>Da mesma forma, a ontogênese parece ilustrar uma filogênese</p><p>inacabada e constantemente renovada. A revelação da filogênese no</p><p>decurso da ontogênese obedece, porém, a uma organização funcional</p><p>do cérebro, organização essa que decorre verticalmente, desde as</p><p>estruturas neurológicas mais simples até as estruturas mais complexas,</p><p>seguindo irreversivelmente a sua hierarquização estrutural herdada.</p><p>Quadro 1.4. – Sistema hierárquico dos mecanismos</p><p>inatos da libertação</p><p>Nível Centros Superiores Função e Comportamento</p><p>Arco 6</p><p>Arco 5</p><p>Arco 4</p><p>Neocórtex</p><p>Gângios basais e tálamo Cerebelo</p><p>e mesencéfalo</p><p>Controle voluntário e regulado.</p><p>Controle automático associativo.</p><p>Controle sinergético.</p><p>Controle oculomotor automático.</p><p>Arco 3</p><p>Arco 2</p><p>Cerebelo, bulbo e medula Vários</p><p>segmentos espinais atuando em</p><p>coordenação</p><p>Controle do equilíbrio. Reflexos</p><p>intersegmentares.</p><p>Arco 1 Só um segmento espinal Reflexo intrassegmentar.</p><p>Capítulo 2</p><p>MODELO DE ORGANIZAÇÃO</p><p>FUNCIONAL DO CÉREBRO HUMANO,</p><p>SEGUNDO LURIA</p><p>2.1. Relações entre cérebro e comportamento</p><p>2.2. As três unidades funcionais do cérebro</p><p>2.3. Interação entre as três unidades funcionais</p><p>2.1 Relações entre cérebro e comportamento</p><p>As relações entre as funções do cérebro e o comportamento</p><p>humano, segundo os dados de investigação correntes, têm dependido</p><p>essencialmente da investigação animal e da observação do</p><p>comportamento alterado em adultos com lesões cerebrais, localizadas</p><p>ou massivas, o que por si dificulta o objeto do nosso estudo, que trata</p><p>fundamentalmente do desenvolvimento psicomotor da criança e suas</p><p>correlações com a organização funcional do cérebro.</p><p>Muitas questões se têm levantado sobre a localização das funções</p><p>cerebrais, a sua perda por lesão ou acidente (afunção), a sua</p><p>reabilitação (disfunção), a sua apropriação (aprendizagem e</p><p>desenvolvimento) etc., e certamente no futuro outras irão levantar-se à</p><p>medida que vão desvendando-se os enigmas do órgão mais organizado</p><p>do organismo, ou melhor, do sistema físico mais complexo que se</p><p>conhece no cosmo.</p><p>Não é nosso propósito, em um trabalho desta natureza, levantar o</p><p>estudo atual sobre as inúmeras teorias que abordam a organização</p><p>funcional do cérebro humano. Estrutu ras neurológicas têm sido</p><p>descritas como o lugar ou o local de funções (FILSKOV, GRIMM e</p><p>LEWIS, 1981), como componentes equipotenciais de um sistema</p><p>(GOLDSTEIN, 1944, e LASHLEY, 1950), como regiões onde</p><p>componentes particulares ou níveis funcionais estão localizados</p><p>(GESCHWIND, 1965, 1970 e 1979, e BROWN, 1977) ou como</p><p>unidades funcionais, que têm a sua contribuição específica,</p><p>cotrabalham em uma função complexa independentemente da sua</p><p>distribuição por vários sistemas neuronais. (LURIA, 1973 e 1980)</p><p>Nem a visão de mosaico, que localiza a função em centros cerebrais</p><p>discretos e restritos, nem a segunda visão globalista e massiva</p><p>provaram ser suficientemente explicativas ou aceitáveis para se</p><p>compreenderem a atividade mental humana e a complexidade dos seus</p><p>sistemas funcionais.</p><p>Dentro de inúmeros modelos, três têm sido especialmente</p><p>apresentados para compreender as relações entre o cérebro e o</p><p>comportamento:</p><p>— o modelo conexional de Geschwind;</p><p>— o modelo estrutural de Brown;</p><p>— o modelo laboral de Luria.</p><p>Antes de abordarmos mais detalhadamente o modelo laboral de</p><p>Luria (1973) (Working Brain), analisemos esquematicamente os dois</p><p>primeiros, pois, com base nos seus pressupostos, o modelo luriano</p><p>ganha mais coerência estrutural e unidade funcional.</p><p>O modelo conexional de Geschwind (1965 e 1979) representa uma</p><p>extensão, ou melhor, uma elaboração requintada das posições</p><p>“localizacionistas”. De acordo com essa proposta, a função está</p><p>localizada em zonas, regiões ou áreas corticais interconectadas e</p><p>específicas. A informação, de acordo com Geschwind, processada em</p><p>uma região é posteriormente emitida para outra onde se opera um</p><p>processamento adicional, linear e sequencial. Para o mesmo autor,</p><p>algumas funções estão localizadas no hemisfério esquerdo (verbais e</p><p>simbólicas), enquanto outras são do domínio especializado do</p><p>hemisfério direito (não verbais, espaciais etc.). A capacidade da</p><p>linguagem, por exemplo, requer a cooperação de várias áreas do</p><p>córtex.</p><p>Quando se ouve uma palavra (linguagem falada receptiva), a</p><p>sensação vinda por meio dos ouvidos é recebida no córtex auditivo</p><p>primário, depois emitida linearmente para a área de Wernicke, onde é</p><p>processada e compreendida. Trata-se, como o próprio modelo sugere,</p><p>de uma transmissão de informação de umas áreas para outras.</p><p>Se a palavra tem de ser emitida (linguagem falada expressiva), a sua</p><p>representação é enviada por meio dos fascículos arcados, desde a área</p><p>de Wernicke até a área de Broca, onde se opera, de novo, outra</p><p>transdução ou processamento auditivo-motor, seguido de uma</p><p>programação de articulações que vão ser (re)enviadas ao córtex motor,</p><p>pondo em atividade os músculos dos lábios, da língua, da laringe e do</p><p>aparelho fonador para produzir articulemas.</p><p>Figura 2. 1. – Modelo de Geschwind da linguagem</p><p>falada.</p><p>Da mesma forma, a função da leitura (linguagem escrita receptiva)</p><p>envolve a recepção de grafemas na área do córtex visual primário, daí</p><p>sendo transmitida para o girus angular, onde é de novo reprocessada,</p><p>traduzindo-se os grafemas em fonemas, isto é, operando-se a</p><p>descodificação do segundo sistema simbólico (visório-motor) para o</p><p>primeiro sistema simbólico (audioverbal), dando lugar a uma conexão</p><p>correspondente entre modelos grafológicos e os seus equivalentes</p><p>fonológicos, correspondência essa que já se opera, entretanto, em</p><p>outra área adjacente, ou seja, a área de Wernicke. Se a leitura tem de</p><p>ser efetuada oralmente e não silenciosamente, então, segundo o</p><p>mesmo autor, as palavras a pronunciar seguem a mesma corrente de</p><p>informação que está a cargo da linguagem falada.</p><p>Figura 2.2. – Modelo de Geschwind da linguagem</p><p>escrita.</p><p>Geschwind advoga com esse modelo que a disfunção (dislexia) ou a</p><p>função (alexia) resultam da lesão de áreas corticais específicas ou da</p><p>interrupção da corrente de informação que se passa entre elas. A lesão</p><p>ou a disfunção de várias áreas corticais especializadas, como, por</p><p>exemplo, o girus angular, ou a das fibras que as ligam, servem para</p><p>ilustrar a desconexão das partes do sistema, provocando, por</p><p>consequência, a rotura ou o desvio da função normal.</p><p>A reabilitação nesse modelo é atribuída à forma como os tecidos</p><p>não lesados, e, portanto, disponíveis funcionalmente, podem reassumir</p><p>ou sustentar a função afetada, operando-se assim, nas palavras de</p><p>Geschwind, a ativação de vias até aí nunca utilizadas.</p><p>O mesmo processo pode resultar também da transferência da</p><p>função para outras regiões potencialmente predisponentes e</p><p>competentes, o que confirma, em parte, por exemplo, a reabilitação da</p><p>fala em crianças com lesões no hemisfério esquerdo, onde</p><p>efetivamente se verifica uma inversão da especialização hemisférica,</p><p>dando lugar à noção de que os dois hemisférios atuam, em períodos</p><p>ideais da ontogênese, em uma espécie de “compreensão cooperativa”.</p><p>(TREVARTHEN, 1982)</p><p>O modelo de Geschwind tem sido utilizado para identificar</p><p>conjuntos de sintomas que caracterizam tipos específicos de afasias,</p><p>alexias e apraxias. Todavia, segundo Kirk (1983), representa uma visão</p><p>restrita da utilização normal da linguagem, porque exatamente não</p><p>explica como é que um indivíduo se torna fluente na leitura e na</p><p>escrita, ou em outras funções cognitivas complexas, visto que o seu</p><p>enfoque se situa na rotura das aquisições aprendidas.</p><p>Não se visualisa, neste autor, a diferença entre a criança e o adulto,</p><p>não subsiste no seu modelo um substrato neurológico evolutivo.</p><p>(AARON, 1981)</p><p>O modelo não leva em consideração o processamento da</p><p>informação concorrente e simultânea que se sabe hoje ocorrer no</p><p>cérebro, quer em nível cortical, quer subcortical. Daí que</p><p>pouca</p><p>referência seja fornecida sobre as múltiplas e recíprocas conexões</p><p>corticocorticais ou corticossubcorticais, bem como sobre a redundância</p><p>que existe dentro do sistema nervoso, redundância essa transitória e</p><p>seletiva (CHANGEUX, 1983), de grande importância para se</p><p>compreender a atividade mental e a sua ontogênese, que, no fundo,</p><p>subentende uma complexa geometria sináptica, e não apenas a</p><p>transferência de informações de umas zonas para outras.</p><p>O modelo de Geschwind, todavia, é de grande importância e</p><p>utilidade, talvez mesmo pioneiro no âmbito do estudo do adulto. Pena</p><p>é que não nos forneça dados sobre como as crianças aprendem ou</p><p>apropriam-se de padrões funcionais, ou mesmo como se podem tornar</p><p>proficientes na utilização de aquisições complexas, quer psicomotoras,</p><p>quer simbólicas.</p><p>O modelo estrutural de Brown (1977), citado por Kirk (1983),</p><p>apresenta o cérebro como um longo processo de evolução – processo</p><p>de encefalização. Nesse processo, o autor caracteriza estágios, por</p><p>meio da emergência de novas e mais complexas estruturas, capazes de</p><p>servirem novos e mais complexos comportamentos.</p><p>Brown destaca quatro níveis estruturais no comportamento</p><p>humano. Três níveis de caráter filogenético: subcortical, límbico e</p><p>neocortical, correspondentes a três estágios de encefalização na</p><p>evolução “o cérebro dos três cérebros”, Triune brain, de McLean</p><p>(1978), de disposição simétrica; o quarto, também neocortical, mas</p><p>assimétrico, tendo como característica fundamental o seu</p><p>desenvolvimento ontogenético.</p><p>Nesse modelo, cada nível representa um novo nível de cognição,</p><p>derivando cada um de outro mais antigo, não de forma aditiva, mas</p><p>sim como o resultado de uma mudança progressiva e qualitativa, na</p><p>medida em que “a totalidade do sistema se encontra cada vez mais</p><p>diferenciada nas suas funções cognitivas”. (BROWN, 1977)</p><p>Para este autor, as mudanças neocorticais são primeiro refletidas na</p><p>elaboração das zonas centrais e temporal-parietais e,</p><p>subsequentemente, no aparecimento da dominância cerebral –</p><p>lateralização.</p><p>Segundo Brown, a “assimetria é um prolongamento da</p><p>encefalização no desenvolvimento ontogenético. A dominância</p><p>hemisférica é uma das expressões dessa assimetrização”. E</p><p>continuando: “Lateralização e localização são aspectos diferentes ou</p><p>fases de um único processo. De fato, lateralização ou dominância</p><p>cerebral são atingidas por meio da localização, como se verifica na</p><p>especificação intra-hemisférica esquerda da linguagem”.</p><p>Nesta perspectiva, a cognição não se reserva apenas a ideias; pelo</p><p>contrário, trata-se de uma constelação de elementos perceptivos,</p><p>motores, afetivos e linguísticos, que, no seu conjunto, constituem o ato</p><p>mental.</p><p>Brown argumenta que, durante o desenvolvimento, a cognição e os</p><p>seus elementos constituintes recapitulam as realizações ou as</p><p>aquisições próprias de cada nível filogenético e ontogenético. Estágios</p><p>sucessivos representam uma transformação de níveis prévios, de tal</p><p>modo que a cada estágio corresponde um novo nível de cognição.</p><p>De acordo com este autor, o efeito da lesão está em desorganizar o</p><p>sistema e, por esse fato, produzir uma mudança regressiva a um</p><p>estágio anterior de organização, que, em condições normais, seria o</p><p>estágio preliminar.</p><p>Seguindo este modelo, as funções psicológicas particulares não são</p><p>localizadas em mecanismos cerebrais específicos. Os estágios de</p><p>desenvolvimento cognitivo estão localizados, sim, mas em um nível</p><p>estrutural particular.</p><p>Esse modelo ajuda a compreender não só como é que uma</p><p>aquisição é aprendida por uma criança mas também como se dão</p><p>algumas pistas para se perceber como um adulto perde, por lesão, uma</p><p>aquisição adquirida.</p><p>Percebemos como os elementos se estruturam e como uma</p><p>atividade cognitiva é composta ou decomposta, assim como nos</p><p>proporciona algumas relações complexas entre a linguagem e o</p><p>pensamento.</p><p>Trata-se de um modelo original, porque, ao contrário do de</p><p>Geschwind, nos coloca em uma perspectiva filogenética e ontogenética</p><p>das estruturas da cognição. Porém, não nos elucida sobre a emergência</p><p>dos sistemas, não nos esclarece sobre o papel do envolvimento no</p><p>desenvolvimento da aprendizagem, nem como a reabilitação da função</p><p>se reestrutura. Paralelamente, não nos esclarece sobre os vários graus</p><p>de plasticidade que caracterizam os diferentes níveis do sistema em</p><p>diferentes estágios do desenvolvimento.</p><p>As mudanças estruturais que Brown nos apresenta são abruptas, do</p><p>tipo “tudo ou nada”, em vez de sugerir mudanças estruturais graduais.</p><p>Como consequência, os problemas que estão ligados ao</p><p>desenvolvimento desviante e atípico, ou à perda parcial de funções,</p><p>não são considerados. Daí que o seu modelo estrutural sirva para</p><p>perceber alguns problemas, mas não todos, principalmente os que</p><p>estão envolvidos na aquisição e na proficiência das funções cognitivas</p><p>mais complexas.</p><p>A análise dos modelos de Geschwind e de Brown fornecem-nos</p><p>alguns pressupostos de grande interesse para a compreensão da</p><p>organização funcional do cérebro. No entanto, em ambos, surgem</p><p>carências, às quais o modelo de Luria (1973 e 1980) procura responder,</p><p>não só no âmbito das aquisições simbólicas mas também no âmbito</p><p>das aquisições psicomotoras.</p><p>De uma forma global, o modelo de Luria representa uma</p><p>especificação das teorias de localização e da ação em massa (mass</p><p>action). Pribram (1973) considera Luria um dos pioneiros das ciências</p><p>do sistema nervoso, pois dedicou mais de 40 anos ao estudo de</p><p>pacientes com lesões cerebrais, publicou inúmeras obras sobre as</p><p>relações entre cérebro e comportamento, que revolucionaram os</p><p>conhecimentos da Neurologia e da Psicologia clássicas e que</p><p>originaram um novo ramo científico, a Psiconeurologia.</p><p>Luria sugere que estudando as relações entre cérebro e</p><p>comportamento e as relações entre corpo e cérebro talvez se possa</p><p>compreender melhor o que faz do homem um ser humano.</p><p>O estudo da atividade mental humana permite, segundo Luria,</p><p>perceber as suas capacidades únicas e peculiares.</p><p>Para atingir esse objetivo, nem a Neurologia clássica nem a</p><p>Psicologia clássica podem cobrir a complexidade estrutural e funcional</p><p>do comportamento humano. Os processos do comportamento humano</p><p>são estudados de forma reducionista e atomista: a linguagem, a</p><p>percepção, a memória, o pensamento etc. são elaborados com</p><p>reduzidos princípios e poucos processos orientadores.</p><p>As leis científicas que governam os processos psíquicos humanos,</p><p>os mecanismos cerebrais nos quais esses processos se baseiam, a</p><p>análise da estrutura interna de funcionamento que origina os</p><p>comportamentos, a identificação dos componentes do todo ato mental</p><p>etc. pouca atenção tiveram até o momento em que Luria inicia as suas</p><p>pesquisas.</p><p>A análise da atividade psicológica humana que está por detrás da</p><p>ação propriamente dita, a estrutura interna da atividade mental, a</p><p>organização dos diferentes componentes que contribuem para a</p><p>estrutura final da atividade mental, que se reflete na motricidade e na</p><p>linguagem humana, são os principais objetivos do estudo em Luria.</p><p>Com esse autor, entramos em um novo capítulo do estudo do</p><p>cérebro e da sua estrutura interna de funcionamento. A organização</p><p>funcional da atividade mental torna-se compreensível, quer do ponto</p><p>de vista filogenético, quer ontogenético.</p><p>O cérebro é apresentado como contendo sistemas individuais, que</p><p>fornecem as condições para se operacionalizar a atividade mental</p><p>superior que antecede toda a conduta consciente humana.</p><p>O cérebro como órgão da atividade mental é encarado como o</p><p>órgão da civilização, órgão que é capaz de refletir todas as</p><p>complexidades e intrincadas condições do mundo envolvente e todas</p><p>as manifestações superiores da atividade humana, materializadas no</p><p>movimento e na linguagem.</p><p>Como é que se constrói o cérebro? Que organização funcional</p><p>apresenta? Que estruturas do cérebro humano ou que sistemas</p><p>geraram necessidades complexas que distinguem o homem do animal?</p><p>Será que algumas estruturas têm uma origem filogenética? Como é</p><p>que os processos são organizados? Quais são os processos que</p><p>permitem captar informação do meio,</p><p>analisá-la, armazená-la e depois</p><p>expressá-la em movimento? Como é que os programas de ação se</p><p>elaboram e estruturam-se na ontogênese?</p><p>Muitas destas perguntas encontram respostas no modelo luriano,</p><p>mas, para tal, é necessário introduzir algumas concepções</p><p>fundamentais.</p><p>Luria (1973), de acordo com Vygotsky (1960), começa por abordar</p><p>a noção de função como um sistema complexo e plástico, realizando</p><p>uma tarefa adaptativa particular, composta por um grupo de</p><p>componentes permutáveis e altamente diferenciadas. Essa noção, que</p><p>cobre as funções elementares da digestão, da respiração e da</p><p>locomoção, cobre igualmente a função cerebral, como corolário da</p><p>organização funcional mais complexa que se conhece.</p><p>Com base nessa concepção, as funções psicológicas e os substratos</p><p>neurológicos que as servem e sustentam passam a ser encarados como</p><p>sistemas organizados dinâmicos e complexos.</p><p>Em nível cortical, as capacidades cognitivas passam a ser analisadas</p><p>e distribuídas por um sistema de zonas ou centros de trabalho</p><p>sincronizado, zonas essas diferenciadas anatomica e funcionalmente.</p><p>Cada zona tem, por consequência, uma contribuição única para a</p><p>organização geral, sugerindo que qualquer função cerebral tem uma</p><p>localização dinâmica e não uma localização restrita ou estática.</p><p>O comportamento humano, analisado de acordo com o modelo de</p><p>Luria, não pode ser encarado como uma atividade cortical isolada, na</p><p>medida em que estão subjacentes funções de centros subcorticais. A</p><p>unidade do sistema e sobretudo a sua coerência funcional já não se</p><p>baseiam segundo princípios de homogeneidade integrativa, mas sim</p><p>segundo heterogeneidades integrativas. (SPENCER, 1904; e ANOKHINE,</p><p>1975)</p><p>Qualquer que seja a tarefa, trata-se de uma atividade conjunta de</p><p>estruturas corticais e subcorticais em todos os níveis do cérebro, que</p><p>reciprocamente interagem por complicados circuitos de</p><p>retroalimentação e de reaferência, criando um sistema complexo de</p><p>processamento simultâneo e concorrente, que caracteriza o cérebro</p><p>operário.</p><p>Essa visão das relações entre cérebro e comportamento permite</p><p>encarar a lesão cerebral e a sua reabilitação de forma diferente da dos</p><p>dois modelos anteriores. Dado que a função é distribuída por várias</p><p>zonas do cérebro, porque a sua distribuição funcional é especialmente</p><p>dispersa (e é nisso que se fundamenta um sistema), quer em nível</p><p>cortical ou subcortical, a lesão, em qualquer dos níveis do sistema,</p><p>tende a produzir um efeito diferente no comportamento.</p><p>Esta noção de função como um sistema disperso pelo cérebro e</p><p>contendo vários níveis explica as seguintes questões:</p><p>— a ruptura de uma dada função como o resultado de uma lesão</p><p>focal em diferentes áreas do córtex;</p><p>— a rotura de um conjunto de funções não relacionadas</p><p>aparentemente, que se segue a uma lesão em áreas corticais</p><p>circunscritas.</p><p>Porque o efeito da lesão atua como elemento de desorganização do</p><p>sistema de trabalho das diferentes áreas dispersas e interativas. A</p><p>reabilitação da função, segundo Luria, não é atribuída à regressão a um</p><p>estádio anterior de organização (BROWN) nem à transferência de</p><p>função para um novo centro (GESCHWIND), mas sim a uma</p><p>reorganização estrutural, em um novo e dinâmico sistema, englobando</p><p>formações superiores e formações inferiores corticais e subcorticais.</p><p>(LURIA, 1980)</p><p>A irreversibilidade e a infalibilidade das lesões cerebrais passam a</p><p>pertencer a uma visão clássica do cérebro; a restauração de células</p><p>lesadas e a ativação de novas e intactas zonas cerebrais podem trazer</p><p>nova esperança ao problema.</p><p>Segundo Pavlov, “a lesão permite descobrir o que normalmente</p><p>está escondido, e por essa via pode-se analisar aquilo que</p><p>normalmente forma uma totalidade integral”. Essa perspectiva da lesão</p><p>cerebral é em si uma nova noção de função cerebral.</p><p>Para Luria, o estudo da desintegração funcional permite-nos</p><p>descobrir os componentes psicofisiológicos que entram na estruturação</p><p>de determinadas capacidades ou funções. O que é difícil de estudar em</p><p>atividades psíquicas normais torna-se acessível quando se estudam os</p><p>aspectos isolados da deterioração que resulta de uma lesão cerebral.</p><p>A patologia, portanto, é um elemento fundamental ao estudo da</p><p>função, e a sua reabilitação à condição inicial para restabelecer a</p><p>função, por meio da criação de novos e diferentes processos de</p><p>reestruturação funcional.</p><p>Quanto ao problema da lateralização, Luria não se limita, como</p><p>outros modelos já focados, à especialização hemisférica, ele procura</p><p>antes diferenciar a contribuição específica de cada hemisfério para a</p><p>realização de processos psíquicos superiores.</p><p>Quando surge uma alexia ou uma agrafia, Luria conclui que essas</p><p>funções não podem também ser localizadas em um único hemisfério</p><p>como tradicionalmente se assume. Pelo contrário, quando se trata de</p><p>uma capacidade psíquica superior, a interação funcional dos dois</p><p>hemisférios é indispensável, mas não deixa de argumentar que a lesão</p><p>em cada um dos hemisférios têm efeitos distintos, afetando</p><p>obviamente a função de forma diferente.</p><p>Luria é também, neste contexto, extremamente inovador, pois</p><p>defende que a dominância requer a inibição de um hemisfério, quando</p><p>o outro trabalha. A sua posição é paralela à de Lenneberg (1967),</p><p>aproximando-se, aqui, de Gazzaniga (1970) e Selnes (1974), em que a</p><p>equipotencialidade possui um substrato neurológico progressivamente</p><p>lateralizado, tornando dessa forma equivalentes a lateralização e a</p><p>localização.</p><p>O conceito de dominância não é tão simplista como se pretendia</p><p>inicialmente. Para Luria, os dois hemisfério e as regiões específicas de</p><p>cada um são componentes de um sistema dinâmico e diferenciado, que</p><p>constitui, mais uma vez, a noção do cérebro como o resultado de</p><p>múltiplos centros de trabalho.</p><p>A emergência de centros de trabalho a partir de sistemas neuronais</p><p>funcionais é uma noção-chave no pensamento luriano, quer no que</p><p>respeita ao desenvolvimento do cérebro, e, consequentemente, da</p><p>ontogênese, quer na perda de aquisições ou de aprendizagens</p><p>adquiridas por lesão, isto é, quando se dá uma desintegração de</p><p>sistemas.</p><p>A atividade cognitiva complexa, quer se trate de Psicomotricidade</p><p>ou de aprendizagens simbólicas, envolve sempre sistemas de zonas de</p><p>trabalho simultâneo, zonas essas inexistentes no momento do</p><p>nascimento e que se encadeiam estruturalmente durante o</p><p>desenvolvimento.</p><p>Para Luria, os sistemas de trabalho simultâneo estão na base da</p><p>ontogênese da cognição. Cada aquisição cognitiva da criança (postura</p><p>bípede, manipulação práxica, compreensão auditiva, fala, leitura e</p><p>escrita etc.) representa o resultado de uma constelação de centros de</p><p>trabalho dispersos geograficamente no cérebro, mas em permanente</p><p>interação.</p><p>É esta interação intracerebral que espelha outra interação entre a</p><p>criança e o seu envolvimento e, consequentemente, a sua</p><p>aprendizagem gradual de competências cognitivas complexas que têm</p><p>origem socio-histórica.</p><p>As atividades psíquicas superiores emergem de estádios sucessivos e</p><p>hierarquizados, exatamente porque cada estádio é caracterizado pela</p><p>consolidação progressiva de sistemas neuronais que refletem uma</p><p>organização interna que se liberta progressivamente das condições</p><p>externas.</p><p>A dependência das condições externas imediatas vai-se perdendo</p><p>progressivamente, mas, em contrapartida, vai-se ganhando uma</p><p>organização interna mais complexa.</p><p>A organização neurológica da motricidade e da linguagem muda</p><p>com a aprendizagem, isto é, a variação estrutural das funções mentais</p><p>superiores em diferentes períodos da ontogênese mostra que a</p><p>organização cortical muda com a idade, mostra que ela não se mantém</p><p>imóvel. Mas a mudança da organização cortical em diferentes estágios</p><p>do desenvolvimento explica que as mesmas funções passam a ser</p><p>realizadas por diferentes constelações de trabalho. (LURIA, 1980)</p><p>Assim, o desenvolvimento motor humano, nos primeiros meses,</p><p>envolve essencialmente a constelação de trabalho formada pelos</p><p>centros mesencefálicos que produzem os reflexos não condicionados e</p><p>integram-nos progressivamente em padrões mais diferenciados.</p><p>Aos oito</p><p>meses, a constelação talâmica, límbica e cerebelosa</p><p>encarrega-se de posturas antigravíticas e de condutas emocionais de</p><p>socialização. Aos 12 meses, outra constelação entra em jogo, a</p><p>constelação corticocerebelosa, que produz a postura bípede, grande</p><p>marco da antropogênese e da maturação cerebral.</p><p>Novos sistemas de retroalimentação e de reaferência organizam-se</p><p>e inter-relacionamse. Aos 24 meses, a constelação frontal programa já</p><p>ações sequencializadas e intencionais, engramas motores são</p><p>integrados em padrões de reação cada vez mais diferenciados e</p><p>humanizados.</p><p>No desenvolvimento da linguagem, constelações de constelações</p><p>tomam lugar em estruturas internas de uma organização</p><p>hierarquizada, obedecendo inexoravelmente a esses princípios e às leis</p><p>da organização funcional do cérebro, verdadeiro centro de trabalho da</p><p>aprendizagem humana.</p><p>O cérebro é para Luria um sistema de zonas de (co)laboração e</p><p>concentração, caracterizado pela consistência e estabilidade das suas</p><p>interações e pela variedade e plasticidade dos seus componentes, bem</p><p>como pelos diferentes estágios de desenvolvimento que assume no</p><p>tempo.</p><p>O padrão de organização cerebral muda com o tempo e com a</p><p>experiência; por esse fato, também o efeito da lesão será diferente em</p><p>diferentes estágios do desenvolvimento.</p><p>A mesma lesão é diferente na criança e no adulto, porque em</p><p>ambos se encontram integrados diferentes padrões de organização</p><p>interna e funcional.</p><p>Dado que os fundamentos dos processos mentais superiores têm a</p><p>sua gênese a partir de estruturas superiores do sistema nervoso, a lesão</p><p>precoce na criança tem repercussões de natureza diferente da lesão no</p><p>indivíduo maduro. Na criança, a lesão precoce vai alterar a emergência</p><p>de substratos neuronais e afetar obviamente os níveis de competência</p><p>funcional ulterior.</p><p>O cérebro, efetivamente, como órgão complexo, transforma-se no</p><p>tempo, ele é um sistema diferente no Australopiteco e no homem</p><p>atual, ele é diferente na criança e no adulto, ele é diferente no</p><p>indivíduo intacto e no indivíduo lesado.</p><p>As várias formas de que se reveste o comportamento humano e a</p><p>natureza das tarefas que ocorrem na criança e no adulto são diferentes</p><p>e representam formas de organização e de integração funcional</p><p>perfeitamente distintas.</p><p>A construção de uma função psicomotora ou simbólica, que é</p><p>efetivamente executada em zonas dispersamente distribuídas pelo</p><p>cérebro em termos neuroanatômicos e psicológicos, deve ser tomada</p><p>em consideração, quando ocorre uma lesão focal.</p><p>Com base nesse conceito, Luria introduziu a noção de organização</p><p>sistêmica, que ajuda a explicar a reabilitação da função,</p><p>preferencialmente na criança e nos jovens, confirmando-se, deste</p><p>modo, a noção de que o cérebro é um sistema em desenvolvimento</p><p>que contém uma neurogênese intrincada e intrínseca e, ao mesmo</p><p>tempo, plástica e disponível.</p><p>O cérebro como sistema total e totalizador opera segundo a</p><p>simultaneidade de várias unidades funcionais (subsistemas), unidades</p><p>essas que especificaremos mais à frente.</p><p>Efetivamente, com a cofunção dessas unidades funcionais</p><p>fundamentais, o ser humanos adquiriu, ao longo do seu processo</p><p>socio-histórico, uma percepção inteligente, uma atenção voluntária,</p><p>uma rememorização ativa e intermodal, um comportamento</p><p>voluntário, uma competência psicomotora na fabricação de utensílios,</p><p>uma linguagem gestual e posteriormente articulada, um pensamento</p><p>abstrato, uma história, uma civilização etc., funções essas nunca</p><p>contidas em um cérebro animal, mesmo que fosse mais pesado ou</p><p>mais volumoso.</p><p>Em Luria, como em Vygotsky, as formas superiores de atividade</p><p>mental têm a sua gênese em termos socio-históricos, em termos</p><p>culturais.</p><p>A percepção, a ação (a motricidade humana), a memória, a</p><p>simbolização etc. não são funções naturais nem propriedades da vida</p><p>mental, são antes características decorrentes da evolução biossocial</p><p>humana, assim como nos focou Wallon (1963).</p><p>É esta particularidade de “assimilação” (no sentido piagietano do</p><p>termo) do biológico e do social que caracteriza o cérebro humano, por</p><p>meio do qual o ser humano atingiu atributos peculiares em termos de</p><p>organização cerebral.</p><p>Não há, por conseguinte, funções isoladas, mas sim sistemas</p><p>funcionais complexos, formados no passado e alterados</p><p>perpetuamente no decurso do desenvolvimento.</p><p>A linguagem falada, por exemplo, não pode ser analisada em</p><p>termos separados, pois ela está intimamente relacionada com a</p><p>linguagem gestual, com a comunicação não verbal emocional e</p><p>mímica, com a atenção e a percepção, com a memória e o</p><p>pensamento.</p><p>A motricidade humana também não pode ser estudada de forma</p><p>isolada, ela é indissociável da organização do tônus de repouso e de</p><p>ação, do controle postural e da regulação vestibular gravítica e espacial,</p><p>da noção que o corpo ocupa em relação a esse mesmo espaço, da</p><p>memória e das aferências do meio, com o qual programa a sua ação</p><p>em uma rede complexa e sequencializada de engramas motores, só</p><p>posteriormente materializada sob a forma de ação propriamente dita.</p><p>Em termos humanos, os produtos finais (linguagem ou motricidade)</p><p>jogam com inúmeros e complexos processos internos que têm a sua</p><p>gênese e hierarquização funcional.</p><p>Daqui resulta que o cérebro só possa ser equacionado com um</p><p>sistema funcional complexo, móvel e em transformação, isto é, em</p><p>desenvolvimento filogenético e ontogenético.</p><p>A construção desse sistema, quer na criança, quer no adulto, quer</p><p>no passado, quer no futuro, contém a característica de</p><p>transformabilidade e da modificabilidade.</p><p>No ser humano, o cérebro reorganiza os seus comportamentos na</p><p>base de atividades objetivas, adquirindo novas relações com o exterior,</p><p>trabalhando, por esse fato, em novas formas de regulação da sua</p><p>conduta.</p><p>Com base nessas novas relações, o cérebro vai estabelecendo novos</p><p>sistemas funcionais, permitindo-lhe integrar novas formas de</p><p>percepção, de memória, de pensamento e, consequentemente, de</p><p>novos processos de organização das ações voluntárias.</p><p>Do Homo erectus ao Homo habilis, desse ao Homo sapiens, da</p><p>criança ao adolescente, e desse ao adulto, o cérebro desenvolve-se e</p><p>constrói-se de acordo com princípios de organização e de integração</p><p>dialética.</p><p>Vygotsky (1960) criticou as posições localizacionistas e</p><p>antilocalizacionistas como posições que vacilavam entre o “naturalismo</p><p>extremo” e o “espiritualismo extremo”, posições essas que perdiam de</p><p>vista a importância das zonas críticas de trabalho, zonas essas que</p><p>tomam parte efetiva nas atividades psíquicas superiores.</p><p>Esse mesmo autor, relembrado por Luria, apresentou a sua ideia de</p><p>“funções mentais” nos seguintes termos:</p><p>— são sociais na sua origem;</p><p>— são sistêmicas na sua estrutura;</p><p>— são dinâmicas no seu desenvolvimento.</p><p>Essa ideia continua válida, segundo Luria (1966), para ambos; as</p><p>funções mentais superiores não podem ser entendidas quando</p><p>representadas no córtex, como são representadas as funções</p><p>fisiológicas elementares. Há algo de cultural e de socio-histórico que</p><p>não pode ser negado.</p><p>O cérebro não deve ser encarado como uma totalidade</p><p>indiferenciada, mas sim como uma totalidade hiperdiferenciada, pois se</p><p>compõe de múltiplas estruturas funcionais que se encontram</p><p>sistemicamente integradas em três grandes unidades funcionais</p><p>fundamentais, que constituem o modelo de organização funcional</p><p>proposto por Luria (1973).</p><p>As funções psíquicas superiores e, consequentemente,</p><p>psicomotoras e simbólicas só podem ser entendidas em termos</p><p>cronogenéticos, isto é, pressupõem um desenvolvimento, uma</p><p>filogênese e uma ontogênese. (FONSECA, 1979 e 1982)</p><p>No processo de desenvolvimento, as constelações de trabalho</p><p>separadas e dispersas no cérebro constroem-se como um sistema de</p><p>elementos espalhados no “espaço cerebral” e no “tempo cerebral”</p><p>segundo “regras de interação”. (Von BERTALLANFEY, 1973)</p><p>São essas regras de interação que estabelecem uma geometria de</p><p>comunicações e uma sinalização coordenada, que dão expressão a uma</p><p>maturação e a uma mielogênese (RIGAL, 1979), que ocorre no cérebro,</p><p>segundo verdadeiros novos princípios de localização funcional.</p><p>O desenvolvimento mental da criança não é uma simples</p><p>maturação dos “instintos naturais” (VYGOTSKY, 1960); ele desdobra-se</p><p>no processo da atividade objetiva e na comunicação com os adultos,</p><p>onde estão contidas a práxis e a linguagem humana.</p><p>Sem tal atividade e sem essa mediação (FEUERSTEIN, 1980;</p><p>FONSECA, 1984), a criança não alarga os seus atributos humanos</p><p>potenciais e, consequentemente, não prolonga as suas funções</p><p>psíquicas superiores.</p><p>O cérebro encarado nessa hipótese não possui apenas lei</p><p>neurobiológicas que o expliquem; há no seu seio uma diversificação de</p><p>singulandades sistêmicas e funcionais que só podem ocorrer na</p><p>mediação socio-histórica e sociocultural.</p><p>A criança aprende a controlar os objetos que foram desenvolvidos</p><p>na história humana e aprende a utilizar meios externos e sinais, para vir</p><p>a organizar melhor o seu próprio comportamento. Não é só com as</p><p>disposições genéticas que o cérebro humano se diferencia</p><p>superiormente, na medida em que endogenamente não se encontra</p><p>programado para tal.</p><p>A apropriação de meios externos e de sinais não depende</p><p>exclusivamente de divisões, migrações e diferenciações de células</p><p>nervosas, mas sim de processos de corticalização e de encefalização de</p><p>origem social, onde o papel de transmissão cultural e da informação</p><p>mediada pelos adultos é de influência decisiva.</p><p>Para que o desenvolvimento do cérebro opere, não basta a simples</p><p>exposição a fontes de estímulo, é necessário a presença de um agente</p><p>de mediação. (FEUERSTEIN, 1989)</p><p>O ser humano tem uma característica peculiar e original no reino</p><p>animal, nasce com um cérebro imaturo e inconcluso. (FONSECA, 1984)</p><p>De fato, só alguns processos, como os reflexos, estão presentes à</p><p>nascença; os outros processos dependem da ajuda do exterior.</p><p>(AJURIAGUERRA, 1974 e 1981: e LURIA, 1964)</p><p>A maturação do cérebro, como um sistema dinâmico que é, forma-</p><p>se a partir da influência decisiva do meio envolvente. Sem essa</p><p>influência determinante, de onde decorre a mediação e a ontogênese</p><p>da linguagem, a criança não desenvolve o seu cérebro nas suas funções</p><p>psíquicas superiores. Sem essas funções, não se pode apropriar da</p><p>história humana, e, por isso, não organiza o seu comportamento nem</p><p>o seu cérebro, podendo mesmo vir a comportar-se como uma criança-</p><p>lobo.</p><p>Da linguagem social-exterior, a criança aprende uma linguagem</p><p>individual-interior, linguagem essa que se transforma em uma</p><p>ferramenta indispensável para organizar a sua conduta. Organização</p><p>da conduta que reflete uma organização psíquica interior, não</p><p>meramente dependente de estímulos do meio envolvente ou do corpo,</p><p>mas de sinais que a própria organização psíquica criou e aos quais ela</p><p>se submete para se unir em termos de atividade mental.</p><p>Sabe-se hoje que a criança dirige a sua atenção por meio da sua</p><p>própria linguagem, linguagem que, uma vez adquirida, assume a</p><p>função reguladora da atividade consciente. Por isso, no início do</p><p>desenvolvimento, a atividade da criança é regulada pela linguagem</p><p>exterior do adulto; mais tarde, é a própria linguagem interiorizada que</p><p>guia e organiza a sua atividade psíquica superior, isto é, a atividade do</p><p>seu próprio cérebro.</p><p>A linguagem é, por consequência, a organização mediada da</p><p>atividade psíquica superior (VYGOTSKY, 1960). A linguagem, ao</p><p>distanciar-se do envolvimento imediato e da ação, transforma-se no</p><p>processo que vai permitir, mais tarde, modificar o primeiro e regular a</p><p>segunda. A linguagem é, em suma, uma transformação da ação, um</p><p>produto de um desenvolvimento histórico complexo. (BRUNER, 1973)</p><p>A preparação da criança para a cultura humana envolve</p><p>metamorfoses da ação, uma espécie de sintaxe da ação (BRUNER,</p><p>1974), sem a qual seria impensável o acesso à linguagem.</p><p>Nem a motricidade nem a linguagem abandonadas a si próprias</p><p>podiam fazer do cérebro aquilo que é como órgão complexo.</p><p>Antes que o Homo habilis exibisse qualquer inteligência manual</p><p>(inteligência motora), foi necessário que se dessem várias libertações</p><p>anatomomorfológicas (CLARK, 1959; NAPIER, 1962; MONTAGU, 1964;</p><p>TOBIAS, 1966 E FONSECA, 1982), que conduziram à organização</p><p>interior do cérebro.</p><p>Tal direção evolutiva está na raiz da implementação da inteligência</p><p>humana, que demonstra a inseparabilidade da motricidade humana, da</p><p>linguagem humana.</p><p>A semelhança entre a estrutura da linguagem e a estrutura da</p><p>motricidade é concludente: “A estrutura inicial da linguagem e, de</p><p>fato, a estrutura universal da sua sintaxe são extensões da estrutura da</p><p>ação”. (BRUNER, 1974)</p><p>A ação ou a sua representação requerem agente, ação, objeto,</p><p>locação, atribuição, direção etc. A linguagem reclama igualmente a</p><p>estrutura ação-objeto, estrutura essa que envolve a sua aprendizagem</p><p>na criança.</p><p>É com base nessa perspectiva de desenvolvimento que temos de</p><p>encarar a filogênese e a ontogênese da linguagem. Efetivamente, só</p><p>quando há algo de distinto na motricidade da criança, algo de controle,</p><p>algo de domínio, algo de organização psíquica, é que aparece a</p><p>linguagem inicial, e quando a criança o faz referencia-se com</p><p>paráfrases de palavras ou frases previamente aprendidas. (SLOBIN,</p><p>1971)</p><p>Piaget (1967) é sucinto a esse propósito: “A linguagem não é</p><p>suficiente para explicar o pensamento, porque as estruturas que o</p><p>caracterizam têm as suas raízes na ação e nos mecanismos sensório-</p><p>motores”.</p><p>A linguagem advém da motricidade, da ação coordenada em</p><p>função de um fim a atingir, da cooperação humana, da coordenação</p><p>das atividades humanas correlacionadas entre si para a obtenção de</p><p>fins comuns e recíprocos. (DE LAGUNA, 1963)</p><p>A linguagem deixa de ser um fator imediato da ação para se</p><p>distanciar dela no espaço e no tempo, planificando-a, regulando-a,</p><p>inibindo-a, humanizando-a e socializando-a.</p><p>De fato, as relações entre a linguagem e a motricidade criam novos</p><p>sistemas dinâmicos no cérebro, novas estruturas, novas propriedades,</p><p>novas funções, isto é, novas sínteses.</p><p>A linguagem segue a motricidade, tem origem nela, só depois é</p><p>que a guia e regula. É neste contexto que temos de conceber a</p><p>integração da motricidade e o seu papel como sistema funcional</p><p>complexo. Um substantivo não nomeia um só objeto, mas igualmente</p><p>todas as ações (verbos) com os quais está em relação na experiência do</p><p>sujeito ou do indivíduo.</p><p>Há entre a linguagem humana e a motricidade humana uma</p><p>semelhança funcional a que não são estranhas a evolução e a</p><p>maturação do cérebro.</p><p>Nas várias tentativas de ensinar a linguagem a chipanzés</p><p>(GARDNER, 1971; PLOOG e MELNECHUK, 1971), deparamos com a</p><p>intrínseca dependência da linguagem e da ação. As suas gramáticas</p><p>estão perpetuamente dependentes da ação, não se libertam dela.</p><p>Ao contrário, no ser humano, a linguagem parte da ação, passa por</p><p>ela, mas libertase e distancia-se dela progressivamente, como vemos na</p><p>criança. (PIAGET, 1973; BRUNER, 1974; SLOBIN, 1971; e LURIA e</p><p>YUDOVICH, 1971)</p><p>Na evolução da linguagem, constatamos um progressivo</p><p>distanciamento das condições concretas nas quais ela é produzida ou</p><p>compreendida e do comportamento ou da ação que a acompanha,</p><p>como vemos na sua hierarquia, desde a linguagem gestual imediata à</p><p>linguagem falada e dessa à linguagem escrita. Nestas três</p><p>metamorfoses hierarquizadas (FONSECA, 1984) cuja organização se</p><p>perde na história da humanidade, verificamos a progressiva libertação e</p><p>independência da linguagem das condições da sua utilização.</p><p>É a partir daqui que se compreende a transformação da linguagem</p><p>em um poderoso instrumento da atenção seletiva dirigida para o</p><p>exterior, exterior que passa a ser cada vez mais representado por esse</p><p>mesmo instrumento.</p><p>É nessa perspectiva que Vygotsky (1960) refere-se ao</p><p>comportamento instrumental peculiar no ser humano e ausente no</p><p>animal, peculiaridade que permite assumir um novo princípio de</p><p>localização de processos mentais, distinto das formas de organização</p><p>cerebral exclusivamente neurobiológicas.</p><p>Tais conexões extracerebrais (VYGOTSKY, 1960), que são formadas</p><p>na atividade externa do ser humano, por meio do uso de ferramentas e</p><p>do uso de sinais externos, encarregamse da formação de novas funções</p><p>psíquicas</p><p>superiores.</p><p>Antropologicamente, o ser humano só atinge as funções psíquicas</p><p>superiores por efeitos da sua motricidade, ou melhor, da sua</p><p>psicomotricidade, que lhe permite atingir primeiro os sinais e</p><p>posteriormente as ferramentas, fatores esses que vão estar na gênese</p><p>da linguagem, instrumento mediado e transformado, e que é a</p><p>condição básica das atividades psíquicas superiores.</p><p>Assim como a motricidade humana (Psicomotricidade) é impossível</p><p>sem um objetivo, sem um fim, que a define como práxis, também o</p><p>pensamento verbal é impossível sem a linguagem e os seus dispositivos</p><p>externos (sons articulados, letras, construções lógicogramaticais etc.).</p><p>Em qualquer dos casos, todos estes dispositivos externos foram criados</p><p>no decurso da história social; por isso, a organização funcional do</p><p>cérebro é um produto do desenvolvimento social.</p><p>Como refere Leontiev (1959),</p><p>a história social dá os nós que produzem as novas correlações entre as</p><p>zonas corticais. O uso da linguagem e os seus códigos fonéticos fornecem</p><p>os dados para novas relações entre as áreas temporais (auditiva) e</p><p>quinestésicas (motossensoriais) como produto histórico-social, apoiando-</p><p>se em conexões extracerebrais e formando novos órgãos funcionais no</p><p>córtex cerebral.</p><p>Não se trata de defender que estas novas funções resultam de</p><p>novos grupos de células nervosas como avidamente foi pensado pelos</p><p>neurologistas do século XIX.</p><p>O desenvolvimento de novos órgãos funcionais ocorre por meio da</p><p>formação de novos sistemas funcionais com o mesmo número de</p><p>células, o que nunca ocorreu nos animais.</p><p>Graças a este princípio da formação de novos órgãos funcionais, o</p><p>cérebro humano transformou-se no próprio órgão da civilização, onde</p><p>estão implantadas as inúmeras possibilidades humanas, sem requerer</p><p>novas libertações anatomomorfológicas todas as vezes que a história</p><p>criasse a necessidade para uma nova função.</p><p>É agora talvez mais clara a noção de que o cérebro não pode ser</p><p>considerado uma totalidade uniforme ou singular, ou um órgão</p><p>composto de localizações exacerbadas ou limitativas.</p><p>Nenhuma função pode ser entendida como decorrente de um</p><p>centro. Nem a linguagem, nem a motricidade, nem a percepção ou a</p><p>memória podem ser vistas como localizadas em zonas restritas do</p><p>cérebro. A localização funcional subentende uma dinâmica, uma</p><p>evolução.</p><p>Como defendeu Luria (1973), o cérebro é um sistema de centros</p><p>corticais altamente diferenciados, trabalhando simultaneamente e</p><p>realizando novas tarefas por meio de relações intercentros, operando</p><p>dinamicamente, por essa via, novas correlações. Daí que as mesmas</p><p>funções (linguagem ou motricidade) em estágios diferentes de</p><p>desenvolvimento, possam ser executadas por diferentes centros do</p><p>córtex, ao mesmo tempo que se vão dando entre eles novas interações.</p><p>Retomando Vygotsky (1960), a visão do cérebro nesses princípios</p><p>organizadores submete-nos a uma nova visão da ontogênese e das</p><p>funções psíquicas superiores. Para esse autor, a ontogênese baseia-se</p><p>em:</p><p>— processos elementares, que servem de base, daí que os conceitos</p><p>ou as aquisições complexas só possam ser desenvolvidos quando</p><p>existirem integradas percepções e subaquisições estáveis. Da mesma</p><p>forma, a rechamada voluntária (memorização ativa) não pode ser</p><p>formada, se não houver um estável substrato da memória imediata;</p><p>— processos compostos e complexos, que requerem a mudança</p><p>das relações entre os processos elementares e complexos. As formas</p><p>mais simples dos processos mentais (sensações, ações, reflexos etc.)</p><p>passam a ser organizadas debaixo da influência das atividades</p><p>psíquicas superiores.</p><p>Trata-se, segundo Vygotsky, do princípio da correlação inversa,</p><p>princípio fundamental para se conceber o desenvolvimento do cérebro.</p><p>Com base nesse princípio, o cérebro estrutura-se diferentemente</p><p>durante o desenvolvimento. Na criança, a formação dos centros</p><p>superiores depende da maturidade dos inferiores. No adulto (fase de</p><p>maturação), os centros superiores organizam-se e influenciam os</p><p>inferiores.</p><p>Isso significa que, no caso da lesão de uma área particular do</p><p>córtex, ela afeta a criança e o adulto de formas diferentes.</p><p>Precocemente, ela leva ao não desenvolvimento dos centros superiores</p><p>que são formados a partir dessa base.</p><p>Na maturidade, são os centros superiores dependentes dessas zonas</p><p>que são afetados pela lesão. A lesão de zonas gnósicas (perceptivas) na</p><p>criança leva à deficiência mental generalizada. A mesma lesão no</p><p>adulto leva a sintomas isolados de agnosia, que podem, dentro de</p><p>certos limites, ser compensados por sistemas superiores não lesados.</p><p>Com base nesses dados, a ontogênese, que envolve mudança das</p><p>relações entre os centros, representa também uma nova visão da</p><p>localização dinâmica das funções mentais, confirmando que o cérebro</p><p>tem uma organização funcional própria e complexa e, por isso, traduz-</p><p>se no órgão da consciência humana. (LURIA, 1966)</p><p>O cérebro é efetivamente um sistema que combina diferentes</p><p>partes do tecido nervoso, cujo trabalho conjunto não só tende a uma</p><p>análise e uma síntese extremamente complexas da realidade mas</p><p>também implica a regulação e a planificação das mais complexas</p><p>formas da atividade humana.</p><p>Cada vez mais, a Anatomofisiologia Contemporânea, a Psicologia, a</p><p>Neurologia, a Neuroquímica, a Neurocirurgia e outras ciências</p><p>associadas concebem o cérebro como um sistema complexo composto</p><p>de partes separadas (unidades ou blocos – LURIA, 1964), cuja atividade</p><p>sincronizada, plural e harmoniosa permite ao ser humano receber</p><p>informação do mundo exterior, criar uma autoimagem subjetiva da</p><p>realidade objetiva, predizer e antecipar o futuro, avaliar os resultados</p><p>das suas ações e regular e ajustar os seus comportamentos.</p><p>Vejamos em seguida os sistemas básicos, ou seja, as três unidades</p><p>funcionais fundamentais nas quais o trabalho do cérebro se edifica e</p><p>nas quais, evidentemente, baseamos o nosso trabalho experimental de</p><p>observação psicomotora.</p><p>2.2. As três unidades funcionais do cérebro</p><p>Os processos mentais humanos são, em Luria (1973), sistemas</p><p>funcionais complexos, que não podem ser concebidos como processos</p><p>localizados em zonas restritas e limitadas do cérebro. Embora decorram</p><p>no seu interior por meio da participação de grupos de estruturas</p><p>cerebrais que trabalham conjuntamente e harmoniosamente, a</p><p>dinâmica do trabalho reúne uma pluralização ou uma cofunção dos</p><p>componentes, cada um deles realizando a sua contribuição particular</p><p>para a organização global desse mesmo sistema funcional.</p><p>O cérebro humano é composto, segundo Luria, por unidades</p><p>funcionais básicas, cada uma delas possuindo uma função particular e</p><p>peculiar, no todo, que constitui a atividade mental humana nas suas</p><p>múltiplas e variadas formas.</p><p>Segundo dados concretos da patologia cerebral humana, há</p><p>condições suficientemente seguras para distinguir três unidades</p><p>fundamentais, cuja participação é necessária a qualquer tipo de</p><p>atividade mental, quer no movimento voluntário e na elaboração</p><p>práxica e psicomotora, quer na produção da linguagem falada ou</p><p>escrita.</p><p>De uma forma esquemática, as três unidades podem ser descritas</p><p>da seguinte forma:</p><p>— primeira unidade funcional, para regular o tônus cortical e a</p><p>função de vigilância;</p><p>— segunda unidade fundamental, para obter, captar, processar e</p><p>armazenar informação vinda do mundo exterior;</p><p>— terceira unidade fundamental, para programar, regular e verificar</p><p>a atividade mental.</p><p>A atividade mental do ser humano em geral e a sua atividade</p><p>consciente em particular têm lugar a partir da participação conjunta</p><p>das três unidades funcionais fundamentais, cada uma delas com a sua</p><p>função no processo mental total, realizando a sua contribuição</p><p>particular para a sua materialização em termos de comportamento</p><p>humano.</p><p>Cada uma das três unidades funcionais básicas apresenta uma</p><p>estrutura hierarquizada e consiste em, pelo menos, três zonas corticais,</p><p>organizadas verticalmente uma sobre as outras:</p><p>— a primeira, de projeção: recebe e emite os impulsos para a</p><p>periferia;</p><p>— a segunda, de projeção-associação: processa a informação</p><p>integrada e prepara os</p><p>programas;</p><p>— a terceira, de sobreposição: organiza as formas mais complexas</p><p>de atividade, exigindo a participação conjunta de muitas áreas</p><p>corticais, razão pela qual é a última estrutura a desenvolver-se em</p><p>termos filogenéticos e ontogenéticos.</p><p>O modelo de Luria, esquematicamente apresentado, baseia-se</p><p>igualmente em dados evolutivos, onde os novos níveis de</p><p>complexidade se sobrepõem em unidades funcionais individualizadas.</p><p>O seu modelo sustenta a organização e a integração de tais</p><p>unidades funcionais fundamentais em um único sistema mais</p><p>complexo.</p><p>As totalidades em um dado nível tornam-se partes de um nível mais</p><p>elevado de organização e de integração, edificando-se, assim, novos</p><p>sistemas, novas propriedades e nova atividade, que não podem ser</p><p>concebidas senão como funções de uma nova organização.</p><p>Como propõe Milner (1976), o ser humano também possui:</p><p>— medula espinal, como os pré-vertebrados;</p><p>— bulbo e protuberância, como os répteis;</p><p>— mesencéfalo, como os mamíferos;</p><p>— diencéfalo e telencéfalo, como os primatas.</p><p>No ser humano, a diferenciação estrutural de unidades funcionais</p><p>atinge graus de progressiva organização.</p><p>Comecemos, portanto, por abordar a organização estrutural e as</p><p>propriedades intrafuncionais de cada uma das três unidades básicas.</p><p>2.2.1. Primeira unidade</p><p>— de regulação tônica, de alerta e dos estados mentais</p><p>Para se desenvolver adequadamente qualquer atividade humana, o</p><p>estado de alerta e de vigilância (atenção) é fundamental.</p><p>Só em condições mínimas de alerta e de vigília, é possível receber e</p><p>integrar informação intracorporal e extracorporal. A condição de alerta,</p><p>que exige a mobilização de um certo tônus e de uma certa energia</p><p>cortical, é essencial para ativação dos sistemas seletivos de conexão,</p><p>sem os quais nenhuma atividade mental pode ser processada, mantida</p><p>ou organizada, nem corrigida ou recorrigida eficazmente.</p><p>A atenção seletiva não ocorre no sono, ou seja, não ocorre no</p><p>estado não vigilante. Alguma atividade que se possa registrar (sonho,</p><p>sonambulismo, mioclonias etc.) nunca pode atingir o caráter seletivo.</p><p>Em tais condições, a orientação e a direção da atividade mental é</p><p>difusa e desorganizada.</p><p>A clássica alternância vigilância-sono, governada por síntese</p><p>protéica que liberta serotonina e inibe a formação reticulada, é uma</p><p>manifestação superior e vital da atividade cortical. Não se sabe ao certo</p><p>por que se dorme, sabe-se que os invertebrados não dormem, pois não</p><p>dispõem de reguladores rítmicos complexos como os vertebrados.</p><p>Embora o sono seja fundamental para se operarem câmbios químicos</p><p>microestruturais e regenerarem-se e restaurarem-se circuitos</p><p>energéticos de comunicação sináptica, não restam dúvidas de que</p><p>nenhuma atividade consciente se pode dar nessas condições, visto que</p><p>se observa uma suspensão natural da consciência. (SARNAT e NETSKY,</p><p>1981)</p><p>A atividade intencional, e é essa que nos interessa abordar, exige a</p><p>manutenção de um certo nível de tônus cortical, de uma certa</p><p>modulação de tensão, de uma certa excitabilidade ideal (PAVLOV), para</p><p>que a atividade normal se desencadeie de forma organizada. Essa</p><p>excitabilidade, interrompida com o sono e despertada com a vigilância,</p><p>é permanentemente mobilizada em termos neurodinâmicos, quando o</p><p>ser humano realiza uma atividade consciencializada.</p><p>A função de alerta reclama a integração e a modulação de</p><p>estímulos, de forma que se possa selecionar o relevante do irrelevante,</p><p>estruturando-se na mobilização de processos neurológicos de</p><p>facilitação e inibição, que são imprescindíveis à atividade ou à mudança</p><p>de atividade.</p><p>Antes de qualquer atividade, é essencial que se verifique uma</p><p>otimização neurodinâmica, uma dinamogenia, uma certa capacidade</p><p>de mobilização e regulação energética físico-seletiva e preparatória</p><p>(PAILLARD, 1963), sem a qual é impossível organizar a atividade</p><p>mental, quer em termos psicomotores, quer simbólicos.</p><p>Luria aborda o problema do tônus cortical não se referindo ao</p><p>tônus postural, que é inseparável daquele, como demonstraram as</p><p>experiências de Magoun e Moruzzi (1949) e os vários trabalhos de</p><p>Wallon (1932 e 1950), Sherrington (1946), Ajuriaguerra (1953, 1964 e</p><p>1974), Stambak (1936) e tantos outros.</p><p>O que Luria quer evocar, e esse é um dado essencial, é que um</p><p>certo nível tônico cortical é indispensável a qualquer atividade mental,</p><p>da mesma forma que um certo nível tônicopostural é indispensável à</p><p>preparação de qualquer movimento voluntário.</p><p>Em termos anatômicos, quais são, então, as partes que controlam</p><p>essa função básica da atividade mental e humana?</p><p>Luria começa por afirmar que as estruturas que mantêm e regulam</p><p>o tônus cortical não se encontram no córtex. Tais estruturas estão</p><p>situadas no plano inferior, no subcórtex e no tronco cerebral. Tratam-se</p><p>de estruturas com um grande passado filogenético e com uma dupla</p><p>relação com o córtex, ambas influenciando o seu tônus, e elas próprias</p><p>experimentando a sua influência reguladora.</p><p>Figura 2.3. – A 1ª unidade de regulação tônica.</p><p>Magoun e Moruzzi (1949), Lindsley (1961), Pribram (1967 e 1971),</p><p>focados por Luria, demonstraram que existe uma formação nervosa no</p><p>cérebro que está especialmente adaptada, pela estrutura morfológica e</p><p>pelas propriedades funcionais que possui, para atuar como centro de</p><p>regulação do estado do córtex cerebral, mudando e alternando, ou</p><p>melhor, modulando o seu tônus e mantendo o estado de vigilância.</p><p>Trata-se da formação reticulada.</p><p>Diferente do córtex, essa formação não se compõe de neurônios</p><p>isolados com grandes axiônios; pelo contrário, compreende uma</p><p>complexa rede nervosa (nerve net), ao longo da qual se encontram</p><p>espalhadas e distribuídas as células nervosas conectadas entre si por</p><p>pequenos axiônios.</p><p>Ao contrário do córtex, a formação reticulada não trabalha segundo</p><p>a lei do tudo ou do nada, a sua excitação espalha-se por toda a rede,</p><p>originando, não uma transmissão rápida e específica, mas uma gradual</p><p>mudança do nível de excitabilidade, do tipo passo a passo, mais</p><p>consentânea com a modulação do estado global do cérebro.</p><p>Algumas fibras dessa formação são ascendentes e terminam nos</p><p>centros superiores: tálamo, núcleos caudados, arquicórtex e neocórtex.</p><p>Outras são descendentes, vão no sentido oposto, partem dos centros</p><p>superiores do neocórtex e do arquicórtex e dirigem-se para as</p><p>estruturas inferiores do mesencéfalo, do hipotálamo e do tronco</p><p>cerebral.</p><p>O sistema reticular de ativação ascendente (SRAA), que integra a</p><p>formação reticulada, o tálamo e o hipotálamo, é um subcircuito</p><p>funcional de grande importância, pois, além de funções de alerta,</p><p>desempenha funções de referência cortical e subcortical que participam</p><p>na elaboração da consciência e na regulação da atitude e da atenção.</p><p>Segundo Cobb (1956) e Magoun (1967), este circuito reticulado</p><p>inter-relaciona-se com outros subcircuitos de grande importância</p><p>funcional: o sistema centroencefálico (PIENFIELD, 1952) e o sistema</p><p>límbico, que exercem funções de regulação emocional e de</p><p>memorização de grande complexidade.</p><p>Todos esses sistemas estão estruturados segundo o princípio de</p><p>organização hierarquizada de todo o sistema nervoso e, por isso, estão</p><p>sujeitos às influências dos centros neocorticais superiores. É de notar</p><p>que estes subcircuitos funcionais só emergem durante o</p><p>desenvolvimento. Eles surgem em um momento dado e debaixo de</p><p>condições de maturação específica.</p><p>A integração sensorial, o controle fino das relações sensório-</p><p>motoras, a regulação econômica e harmoniosa de toda a atividade</p><p>mental, a interdependência dos circuitos corticais e subcorticais põem</p><p>em jogo toda urna organização cortical interna, em que participa a</p><p>primeira unidade funcional.</p><p>O sistema reticular descendente, também extremamente</p><p>importante, embora Luria não se refira tanto a ele, está mais ligado à</p><p>manutenção do tônus corporal por meio do sistema gama,</p><p>participando na regulação da atitude postural, integrando reaferência</p><p>proprioceptivas, vestibulares e cerebelosas de grande relevância para a</p><p>elaboração do movimento voluntário, como iremos ver adiante.</p><p>Figura 2.4. – A –</p><p>Fibras ascendentes (ver setas) partem</p><p>dos centros inferiores do arquicórtex. B – Fibras</p><p>descendentes (ver setas) partem dos centros superiores</p><p>do neocórtex.</p><p>A formação reticulada, ainda hoje não suficientemente conhecida,</p><p>compreende o sistema funcional, organizado verticalmente e</p><p>autorregulado, que está na base da primeira unidade funcional</p><p>fundamental do modelo humano.</p><p>A sua regulação e modulação, dependente dos centros neocorticais</p><p>e frontais, apresenta uma grande plasticidade adaptativa, pois é ela</p><p>que estabelece a relação entre as condições do envolvimento interno</p><p>(intracorporal) e as condições do envolvimento externo (extracorporal).</p><p>Foram necessários vários anos para estudar essa estrutura tão</p><p>profundamente localizada no cérebro. Embora mais antiga em termos</p><p>filogenéticos, foi menos estudada que o córtex por razões de</p><p>acessibilidade e de atitude investigativa.</p><p>Nos nossos dias, porém, não podemos separar os centros superiores</p><p>(neocorticais) dos centros inferiores (protocorticais e paleocorticais), na</p><p>medida em que, como afirma Herrik (1956), “o córtex cerebral nunca</p><p>trabalha independentemente das estruturas mais primitivas de onde</p><p>derivou”.</p><p>A formação reticulada é, efetivamente, como Magoun (1963)</p><p>denominou, o cérebro acordado (Walking Brain), e já Bremer (1935)</p><p>designara-a como cérebro isolado, porque não só regula a atenção</p><p>seletiva da atividade consciente mas também assegura, no estado de</p><p>sono, a regulação de todas as funções vitais do ser humano, pois se</p><p>trata do subsistema orientado internamente e intracorporalmente, cuja</p><p>herança apresenta sólidos alicerces filogenéticos.</p><p>Em suma, compreende uma área integrativa, que combina e</p><p>coordena toda a informação sensorial com a informação motora,</p><p>informação que é utilizada para o controle de muitos dos movimentos</p><p>involuntários. (SAGE, 1976)</p><p>Está localizada no tronco cerebral e funciona como uma espécie de</p><p>cérebro da atividade automática do ser humano, na medida em que as</p><p>funções gastrointestinal, respiratória, cardiovascular, postural e</p><p>locomotora são por ela mediadas.</p><p>Centros de controle, centros de automatismos vitais, centros de</p><p>regulação e centros de orientação e reorientação gravítica estão aqui</p><p>concentrados, verdadeiros servomecanismos que mantêm a operação</p><p>de acordo com programas predeterminados e que caracterizam a</p><p>herança biológica humana.</p><p>A primeira unidade funcional de Luria, em certa medida,</p><p>corresponde ao cérebro reptiliano de LcLean (1978), já focado quando</p><p>abordamos o modelo estrutural de Browm (1977).</p><p>O cérebro reptiliano, de acordo com o seu proponente, “constitui o</p><p>cérebro mais antigo que inclui as estruturas responsáveis pelos</p><p>comportamentos mais elementares, mas também mais vitais, como os</p><p>que medeiam a regulação das funções biológicas e as funções do sono,</p><p>vigilância, atenção e alerta”. Está também envolvido, de acordo com o</p><p>mesmo autor, nas respostas reflexas, que, como sabemos, sofrem uma</p><p>hierarquização progressiva dos invertebrados aos vertebrados e, dentro</p><p>destes, dos peixes ao homem. (FONSECA, 1982)</p><p>Voltando a Luria (1973), a formação reticulada modela a</p><p>excitabilidade, afina e precisa a sensibilidade, diminui o impulso</p><p>absoluto e diferencial da sensação (LINDSLEY, 1960) etc., exercendo,</p><p>portanto, um efeito modulador da ativação geral no córtex.</p><p>É, por conseguinte, um centro poderoso de manutenção do tônus</p><p>cortical e um mecanismo energético e protoquinético imprescindível de</p><p>regulação do estado funcional do cérebro, fator esse determinante em</p><p>qualquer atividade mental superior.</p><p>A sua lesão implica uma queda do tônus cortical, com sincronização</p><p>em nível do eletroencefalograma (EEG), apresentando uma espécie de</p><p>sono prolongado, semelhante algumas vezes ao coma, como</p><p>demonstrou Lindsley (1949).</p><p>Segundo Bourret e Louis (1983), a formação reticulada é uma vasta</p><p>formação de substância cinzenta, que vai do diencéfalo à medula,</p><p>ricamente interconectada, polissináptica, que lhe permite ter um papel</p><p>essencial de transmissão da informação do influxo nervoso, exercendo,</p><p>por esse fato, atividades muito complexas de facilitação e de inibição,</p><p>daí estar ligada a centros superiores e inferiores, assegurando a difusão</p><p>e a integração sensorial por todas as zonas corticais.</p><p>A formação reticulada pertence ao rombencéfalo, centro esse</p><p>caracterizado por neurônios multimodais, multissinápticos e</p><p>inespecíficos, onde a condução é aberta e difusa, com os seus</p><p>dendrites pequenos, e, por isso mesmo, aptos à captação de qualquer</p><p>tipo de mensagem sensorial ou motora.</p><p>Em todos os vertebrados, sem exceção, a formação reticulada</p><p>produz uma atividade básica do sistema nervoso, atividade essa já</p><p>enunciada por Ramon y Cajal (1909).</p><p>Segundo Sarnat e Netsky (1981), é a característica das conexões</p><p>multissinápticas inespecíficas e indiferenciadas que garante à formação</p><p>reticulada uma adaptabilidade e uma plasticidade de condução dos</p><p>múltiplos impulsos. Por esse fato, explica-se por que é que aquela</p><p>formação primitiva persiste ao longo da filogênese.</p><p>Não se trata de um sistema de condução rápida e específica como</p><p>os sistemas corticais, que são específicos. Pelo contrário, a sua função</p><p>inespecífica permite-lhe assegurar funções vitais em baixo nível</p><p>energético, poupando e modulando fontes energéticas para outros</p><p>propósitos, realizando, dessa forma, uma função integrativa de grande</p><p>relevo, dada a multiplicidade e a convergência de informação que aí</p><p>acorre.</p><p>Brodal (1957) e Scheibel (1958) não advogam esta concepção de</p><p>inespecificidade da formação reticulada; segundo eles, essa formação</p><p>apresenta funções específicas e diferenciadas, embora em caso algum</p><p>possam ser identificadas com funções análogas às funções primárias</p><p>dos órgãos sensoriais (LURIA, 1973). Para aqueles autores, a formação</p><p>reticulada tem também uma organização topográfica e um conjunto</p><p>básico de formas de ativação.</p><p>A ativação, por exemplo, exige fontes de energia, transformação</p><p>essa que é transferida para a primeira unidade funcional, por meio de</p><p>três fontes dinamogênicas: fonte metabólica, fonte do reflexo de</p><p>orientação e, por último, fonte da linguagem. Está aqui, no dizer de</p><p>Luria, a especificidade da não especificidade da formação reticulada.</p><p>A fonte metabólica compreende toda economia interna que</p><p>garante o equilíbrio interno do organismo, isto é, a homeostasia e as</p><p>suas formas mais simples, como a respiração, a digestão, a circulação</p><p>etc., reguladas fundamentalmente pelo hipotálamo.</p><p>O bulbo, o mesencéfalo e o hipotálamo garantem no homem e no</p><p>animal estas formas vitais de sobrevivência. Estão aqui programados</p><p>geneticamente os padrões instintivos e os reflexos incondicionados,</p><p>como memória e herança da espécie.</p><p>A procura da comida, o comportamento sexual e o complexo das</p><p>respostas primitivas são aqui engendradas e geridas com o fim de</p><p>satisfazerem as necessidades e restabelecerem a economia interna do</p><p>corpo.</p><p>No homem e no animal, para satisfazer estas formas complexas de</p><p>comportamento, é necessário que a formação reticulada ative</p><p>seletivamente os centros superiores, que, por sua vez, vão ser</p><p>responsáveis pelo desencadear de padrões de atividade que dependem</p><p>do mesencéfalo, do diencéfalo e de sistema límbico.</p><p>Na maioria dos vertebrados, muitos processos de facilitação e</p><p>inibição já estão organizados pelo arquicórtex e pelas estruturas do</p><p>tronco cerebral no momento do nascimento.</p><p>A fonte do reflexo de orientação tem uma origem diferente, pois</p><p>compreende a entrada dos estímulos que nascem do espaço</p><p>intracorporal.</p><p>Como sabemos, o ser humano está mergulhado em um mundo que</p><p>constantemente emite informação; informação essa tão importante</p><p>como a fonte metabólica orgânica, na medida em que joga com o</p><p>metabolismo cortical.</p><p>A privação sensorial no homem ou no animal deixa rastros no</p><p>desenvolvimento do cérebro, como provaram as investigações de Hebb</p><p>(1955) e de outros neurobiólogos.</p><p>A privação sensorial no ser humano pode levar a regressões no</p><p>comportamento e a alucinações de várias ordens (SCHILDER, 1968).</p><p>Sem um mínimo de integração sensorial, as formas de ativação</p><p>tônico-</p><p>cortical não se observam, e o cérebro ficará naturalmente coibido de</p><p>realizar as suas funções psicológicas superiores.</p><p>As sensações advindas do mundo envolvente são energias que</p><p>estimulam ou ativam as células nervosas e iniciam os processos</p><p>neurológicos básicos. Para que tal se observe, é indispensável que o</p><p>cérebro, por meio da formação reticulada, realize a integração dessas</p><p>fontes energéticas, integração que envolve uma convergência e uma</p><p>organização de várias partes em um todo.</p><p>O cérebro, e preferencialmente a formação reticulada, organiza</p><p>inúmeras fontes de informação sensorial em um todo integral, que</p><p>reflete, por assim dizer, a própria experiência. (AYRES, 1979)</p><p>O ser humano, por outro lado, vive em um envolvimento em</p><p>permanente mudança, e essas mudanças, segundo Luria, requerem</p><p>também um certo grau de alerta e de vigilância.</p><p>O aumento e a modulação da vigilância é uma condição de</p><p>sobrevivência em muitas situações. A preparação para o inesperado e o</p><p>imprevisível é uma condição de sobrevivência no nosso planeta vivo.</p><p>O organismo tem de ser mobilizado para possíveis surpresas e para</p><p>situações inéditas.</p><p>A este estado de vigilância, de alerta e de atenção, Pavlov chamou</p><p>reflexo de orientação, componente fundamental da atividade</p><p>investigativa, que é intrínseco a qualquer forma superior de atividade.</p><p>Com experiência em animais, Moruzii e Magoun (1949), Lindsley</p><p>(1949) e Sokolov (1958) e muitos outros demonstraram que o reflexo</p><p>de orientação resulta do trabalho conjunto e da ação conjugada entre</p><p>a formação reticulada, o sistema límbico e o núcleo talâmico</p><p>inespecífico, cuja significação filogenética é realçada por Herrick</p><p>(1948), sugerindo que a organização de atividades mais complexas nos</p><p>animais implicou a transformação do núcleo diencefálico inespecífico</p><p>em um núcleo talâmico mais diferenciado.</p><p>A adaptação e a superação de situações inesperadas requer, de</p><p>fato, uma grande mobilidade energética, que só é compatível com uma</p><p>grande modificação tônica, que obviamente está intrincada na</p><p>elaboração de respostas adaptativas, onde a participação da primeira</p><p>unidade funcional é indispensável. Sem uma modulação tônica, nem a</p><p>atividade mental nem a atividade corporal que lhe dá suporte podem</p><p>desenvolver-se.</p><p>A preparação da ação ou de qualquer resposta adaptativa exige a</p><p>mobilização de uma tensão ideal, quer em nível da atividade</p><p>neurológica mental, quer igualmente em nível da atividade motora ou</p><p>postural. Assim como a consistência dos músculos é fundamental para</p><p>manter as articulações em posições determinadas e necessárias para a</p><p>ação (SHERRINGTON, 1906), também um certo tônus cortical é</p><p>determinante para a organização interna que preside às atividades</p><p>psíquicas superiores. (LURIA, 1973)</p><p>Cada resposta a uma nova situação requer comparação do novo</p><p>estímulo com o anterior, comparação essa decisiva para a elaboração</p><p>da resposta, quer no homem, quer no animal, razão pela qual o</p><p>processo de habituação é a chave para a compreensão do reflexo de</p><p>orientação.</p><p>Qualquer mecanismo de orientação, para Luria (1973), exige</p><p>mecanismos de memória concomitantes, pois será da análise entre</p><p>ambos que emergirá a ativação global do córtex.</p><p>São, segundo o mesmo autor, os neurônios do hipocampo e dos</p><p>núcleos caudados que realizam a função de comparação, que, uma vez</p><p>mais, pede atenção, seleção, análise, concentração etc.</p><p>Entramos em uma espécie de processamento da informação, em</p><p>uma percepção difusa, ou melhor, em um esboço de percepção, visto</p><p>que a percepção seletiva mais complexa vai ter lugar nos centros</p><p>superiores da segunda unidade funcional fundamental.</p><p>Perante os estímulos, dá-se uma integração que joga com uma</p><p>grande modulação, ora facilitando, ora inibindo estímulos, de acordo</p><p>com as necessidades dos centros de programação.</p><p>De acordo com estas propriedades funcionais, Luria confere à</p><p>formação reticulada um papel muito importante na motivação e na</p><p>aprendizagem. Não é por acaso que a sua conexão em rede, com todos</p><p>os sistemas sensoriais e com muitos motoneurônios, permite-lhe</p><p>participar no processamento e na integração das atividades sensório-</p><p>motoras.</p><p>Em síntese, a formação reticulada exerce uma função vital de</p><p>modulação de todos os estados do córtex, estados que estão</p><p>associados aos reflexos de orientação, daí a sua evolução de</p><p>incondicionados a condicionados, daí também a complexidade e a</p><p>variedade dos “reflexos psíquicos” (LEONTIEV, 1959), que</p><p>compreendem a progressiva construção de uma imagem subjetiva da</p><p>realidade objetiva.</p><p>É com base nesta integração complexa de impulsos trazidos ao</p><p>cérebro, quer no próprio corpo, quer no envolvimento, que as</p><p>ativações bioquímicas se desencadeiam no seio da formação reticulada,</p><p>estabelecendo as relações de comunicação necessárias, que vão</p><p>transformar as sensações em significações.</p><p>E este poder de integração da formação reticulada e das suas</p><p>variadas conexões com os centros superiores que provavelmente</p><p>transforma as múltiplas sensações vindas de várias modalidades</p><p>sensoriais em uma percepção.</p><p>A última fonte de ativação, e certamente a mais complexa, é a</p><p>fonte da linguagem, que compreende as intenções, os planos e as</p><p>previsões formadas durante a vida consciente do indivíduo.</p><p>As intenções formuladas com base em uma motivação social e</p><p>resultantes da linguagem definem um fim e um objetivo a atingir. O</p><p>prosseguimento desse fim evoca um programa de ação, que se</p><p>desenrola com base na manutenção de uma certa energia regulada</p><p>pela formação reticulada. Novos esforços de mobilização serão</p><p>recrutados até atingir o objetivo determinado, tal é, em certa medida, o</p><p>percurso da espécie humana e da própria criança.</p><p>Estamos também aqui, segundo Luria, perante um princípio vertical</p><p>de construção de sistemas funcionais do cérebro, só que agora de</p><p>sentido inverso.</p><p>Os sistemas descendentes corticais vão exercer funções de</p><p>regulação como nos centros inferiores, daí que os sistemas funcionais</p><p>corticais tenham de recrutar os sistemas funcionais da formação</p><p>reticulada.</p><p>Os novos sistemas (neocórtex) apelam aos velhos sistemas</p><p>(protocórtex e paleocórtex) para concretizar os seus projetos. Esse</p><p>princípio de grande importância confirma-se em todas as atividades</p><p>psíquicas superiores.</p><p>As vias corticorreticulares, por exemplo, facilitam a emergência de</p><p>reflexos espinais que modificam a excitabilidade dos músculos por meio</p><p>da ativação do sistema gama da formação reticulada, sem o qual o</p><p>movimento não atinge harmonia e melodia quinestésica. (LURIA, 1973)</p><p>A maioria destas vias corticorreticulares vem de zonas corticais</p><p>primárias e secundárias, mas as mais influentes, segundo Luria, são as</p><p>que vêm da região frontal do córtex.</p><p>As vias descendentes vêm de zonas pré-frontais para o núcleo</p><p>talâmico e para o tronco cerebral, formando um sistema por meio do</p><p>qual os centros superiores recrutam os sistemas funcionais subcorticais</p><p>e subtalâmicos, adotando o princípio da organização vertical inverso</p><p>que caracteriza a atividade consciente humana.</p><p>As lesões nessa zona não causam agnosias ou apraxias, mas</p><p>distúrbios gerais no comportamento. As percepções não se alteram, e a</p><p>fala não perde propriedades fonéticas; todavia, surgem estados gerais</p><p>de astenia, fatigabilidade, bradicinesia, lentidão, indiferença,</p><p>ansiedade, desintegração afetiva etc.</p><p>São comuns, nesses casos, as perturbações da memória, da</p><p>consciência, da emoção, da orientação, da identificação, a</p><p>desorientação espacial-temporal, a fragmentação da experiência, as</p><p>confabulações e a perda de seletividade nos processos mentais. (LURIA,</p><p>HONSKAYA, BLINKOV e CRITCHLEY, 1967)</p><p>As lesões do hipocampo e das zonas circunvizinhas (circuito de</p><p>Papez) alteram as funções da memória, que em si refletem o</p><p>abaixamento do tônus cortical. Tais lesões tendem a provocar a</p><p>síndrome de Korsakov e outras perturbações associadas, como</p><p>provaram os trabalhos de Penfield e Milner (1958).</p><p>A rechamada das informações, a recoleção dos dados, a</p><p>sequencialização e a evocação estruturada e pormenorizada de</p><p>estímulos surgem, nestes casos, significativamente</p><p>afetadas,</p><p>subsistindo uma espécie de inércia patológica na evocação dos</p><p>estímulos; daí também a tendência à perseverança de ações, de</p><p>palavras e frases.</p><p>Em conclusão, os sistemas da primeira unidade funcional</p><p>fundamental do cérebro não só mantêm o tônus cortical (e o tônus</p><p>corporal) mas também experimentam as influências superiores do</p><p>córtex.</p><p>Efetivamente, a primeira unidade funcional do cérebro trabalha em</p><p>íntima relação e em colaboração estreita com os sistemas superiores</p><p>corticais em todas as manifestações da atividade consciente do ser</p><p>humano, quer se trate da programação de ações voluntárias, quer se</p><p>trate de processos de decodificação e de codificação simbólica.</p><p>2.2.2. Segunda unidade</p><p>— de recepção, análise e armazenamento da informação</p><p>A primeira unidade funcional que acabamos de abordar tem o</p><p>caráter da não especificidade, pois compreende uma rede nervosa que</p><p>realiza uma função de modificação gradual do estado da atividade</p><p>cerebral sem ter qualquer relação direta com a recepção ou o</p><p>processamento da informação externa, ou ainda com a formação de</p><p>intenções, planos e programas de comportamento.</p><p>A primeira unidade funcional, localizada no tronco cerebral, no</p><p>diencéfalo e nas regiões médias do córtex, difere da segunda unidade,</p><p>cuja função fundamental é a recepção, a análise e o armazenamento</p><p>da informação.</p><p>Essa unidade funcional está localizada nas regiões posteriores e</p><p>laterais no neocórtex, que representa a convexidade superficial dos</p><p>hemisférios cerebrais. (LURIA, 1973, 1980)</p><p>Figura 2.5. – A segunda unidade de integração gnósica.</p><p>Nas divisões posteriores e laterais dos hemisférios cerebrais, estão</p><p>projetadas as superfícies de recepção dos órgãos sensoriais ligados ao</p><p>mundo exterior, isto é, a visão, a audição e o tato (sensação cutânea), e</p><p>as superfícies dos órgãos do movimento (sentido quinestésico ou o</p><p>“analisador motor” de Pavlov).</p><p>A segunda unidade funcional fundamental ocupa,</p><p>consequentemente, as seguintes zonas nucleares (ou aéreas) de</p><p>integração complexa e diferenciada de estímulos:</p><p>— região occiptal (áreas 17, 18 e 19 de Brodmann), que projeta as</p><p>funções do analisador visual;</p><p>— região temporal superior (áreas 41, 42 e 22), que projeta as</p><p>funções do analisador auditivo;</p><p>— região pós-central parietal (áreas 3, 1 e 2), que projeta o</p><p>analisador tátil-quinestésico (cutaneous-kinesthetic analyser).</p><p>A sua estrutura histológica não é já uma rede contínua de nervos,</p><p>mas sim composta de infinitos neurônios isolados, que trabalham</p><p>segundo a lei do tudo ou nada, isto é, em condições perfeitamente</p><p>distintas das da primeira unidade funcional.</p><p>As suas propriedades funcionais estão adaptadas à recepção ou à</p><p>captação dos estímulos que circulam no cérebro, depois de serem</p><p>recebidos nos receptores periféricos (“analisadores sensoriais” – LURIA,</p><p>1980). Daqui são transmitidos a vários centros de subprocessamento</p><p>até a sua análise, em um grande número de elementos componentes e,</p><p>em seguida, combinados em estruturas funcionais dinâmicas, isto é,</p><p>até a sua síntese em sistemas funcionais globais. (LURIA, 1973)</p><p>Trata-se de uma unidade altamente específica em termos de</p><p>modalidade sensorial, cujas zonas nucleares componentes estão</p><p>adaptadas para receber informações visuais, auditivas, vestibulares e</p><p>tátil-quinestésicas. Incorpora também, como unidade funcional, os</p><p>sentidos do gosto e do olfato, embora no ser humano, e em termos</p><p>filogenéticos, não ocupem tanta importância como as anteriores em</p><p>termos de representação central. (FONSECA, 1982)</p><p>É uma unidade funcional especialmente estruturada para a</p><p>recepção de sistemas exteroceptivos superiores, recebendo estímulos</p><p>dos “objetos” a distância.</p><p>A organização estrutural desta unidade funcional compreende áreas</p><p>primárias, também designadas por áreas de projeção, que consistem</p><p>fundamentalmente de neurônios aferentes da camada IV (HUBEL e</p><p>WIESEL, 1963). As áreas primárias ocupam uma posição central nessas</p><p>zonas nucleares e aí encontram-se organizadas por colunas verticais,</p><p>em uma espécie de módulos e cristais (MOUNTCASTLE, 1978),</p><p>formando unidades repetidas e geometricamente definidas, que se</p><p>expandem perifericamente (áreas secundárias) até se sobreporem (áreas</p><p>terciárias, segundo Polyakov, 1966).</p><p>Figura 2.6. – Esquema de diferenciação das áreas</p><p>primárias, secundárias e terciárias nos insetívoros (A), nos</p><p>carnívoros (B) e nos primatas e no homem (C)</p><p>(POLYAKOV).</p><p>A elevada diferenciação das células nervosas dessa unidade</p><p>funcional, a julgar pela sua imagem citoarquitetural, conserva a sua</p><p>especificidade informática: por isso, e quase que virtualmente, as</p><p>células que respondem ao som não podem ser encontradas no córtex</p><p>visual primário, assim como não é possível encontrar células que</p><p>respondem aos estímulos visuais no córtex auditivo.</p><p>Cada zona nuclear responde de acordo com as suas propriedades</p><p>peculiares de projeção sensorial, abrangendo territórios específicos de</p><p>células específicas que organizam informação de forma específica.</p><p>À não especificidade da primeira unidade funcional, corresponde</p><p>uma hipercomplexa especificidade (projeção somatotópica) das áreas</p><p>primárias da segunda unidade funcional; e, para prová-lo, estão as</p><p>inúmeras observações clínicas de Luria em pacientes com lesões em</p><p>diferentes campos dos núcleos corticais de cada analisador sensorial,</p><p>bem como as experiências de estimulação elétrica levadas a efeito por</p><p>Penfield e Jaspers (1954).</p><p>Figura 2.7. – Esquemas de complexidade</p><p>interneurossensorial estão na base da encefalização, que</p><p>resulta de projeções e relações corticossubcorticais das</p><p>áreas primárias, secundárias e terciárias, com as quais o</p><p>movimento intencional se constrói, elabora e regula.</p><p>A organização das áreas primárias, ditas de projeção, obedece a</p><p>pontos somatotópicos bem demarcados, não em termos de imagem de</p><p>espelho, mas em termos de importância fisiológica e de representação</p><p>mental.</p><p>Assim, a fóvea da retina acusa nesse ponto maior acuidade visual,</p><p>da mesma forma que a integração tátil-quinestésica mais fina se</p><p>implanta nos dedos e na mão. É pelo menos claro e óbvio que as zonas</p><p>nucleares sensoriais da segunda unidade são altamente especializadas,</p><p>capazes de processarem diferenciações sensoriais mínimas para</p><p>exatamente garantirem uma percepção integrada, seletiva e complexa.</p><p>Pavlov designou estas zonas nucleares como os prolongamentos</p><p>corticais finais dos diferentes analisadores (cortical ends of separate</p><p>analyzers).</p><p>As áreas primárias da segunda unidade funcional representam a</p><p>base de organização dessa unidade, pois são rodeadas e envolvidas por</p><p>zonas corticais secundárias, as quais Luria designou de áreas gnósicas.</p><p>A estimulação elétrica das áreas primárias em pacientes origina</p><p>apenas fragmentos, pedaços, contorno ou segmento; porém, a</p><p>estimulação das secundárias leva já a alucinações, a tonalidades e a</p><p>eventos.</p><p>O cérebro dispõe nessa unidade funcional de áreas de</p><p>processamento especializado para cada modalidade sensorial,</p><p>funcionando nas áreas primárias em termos intraneurossensoriais,</p><p>passando progressivamente, à medida que as funções psicológicas se</p><p>encadeiam, a funcionar em termos interneurossensoriais nas áreas</p><p>secundárias. (FONSECA, 1984)</p><p>As áreas secundárias sobrepõem-se às primárias, ao mesmo tempo</p><p>que apresentam um menor grau de especificidade, na medida em que</p><p>incluem mais neurônios associativos com pequenos axônios,</p><p>naturalmente outorgando a combinação da informação para formar</p><p>padrões funcionais mais complexos.</p><p>O refinamento perceptivo toma assim lugar, por meio de uma</p><p>hierarquia estrutural, em que as áreas secundárias representam as</p><p>primárias em uma organização funcional coerente. (JACKSON, 1822)</p><p>Trata-se de um padrão reduplicativo, que tem efeito em uma</p><p>melhor coordenação funcional e, consequentemente, em uma</p><p>organização mais complexa de novos sistemas funcionais. (MILNER,</p><p>1976)</p><p>As áreas secundárias integram maior número de aferências</p><p>subcorticais vindas do núcleo pulvinar do tálamo, ao mesmo tempo em</p><p>que atingem mais zonas corticais, que lhes permitem, obviamente,</p><p>realizar um processo</p><p>componentes da BPM, uma vez que</p><p>as hipertonias ou as hipotonias, as paratonias, as adiadiococinesias, as</p><p>sincinesias, as desordens vestibulares, posturais e de equilibração, as</p><p>confusões de lateralização e direcionalidade, as assomatognosias, as</p><p>dismetrias, as dissincronias, as dispraxias e as perturbações da</p><p>sensibilidade e da motricidade são sintomas patológicos que se podem</p><p>manifestar em qualquer idade.</p><p>Quando é administrada cuidadosamente, a BPM tem demonstrado</p><p>a sua utilidade e a sua implicação educacional, como evocam as</p><p>aplicações já efetuadas por vários especialistas envolvidos nas nossas</p><p>ações de divulgação e sensibilização, tais como: psiquiatras, psicólogos,</p><p>terapeutas e reeducadores de Psicomotricidade, professores do ensino</p><p>especial, professores de Educação Física, enfermeiros de reabilitação,</p><p>fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc.</p><p>É óbvio que a BPM requer ainda muitos afinamentos, pois o seu</p><p>suporte clínico-científico, embora apresentando limitações, é promissor,</p><p>necessitando de mais esforços investigativos para demonstrar a sua</p><p>inquestionável utilidade, uma vez que, como modelo original de</p><p>observação dinâmica, procura continuamente aperfeiçoar-se em prol da</p><p>otimização do potencial de aprendizagem da criança.</p><p>A nossa experiência clínica e reeducativa ao longo de suas décadas,</p><p>em que observamos cerca de 3.000 casos, levou-nos a adquirir uma</p><p>rica e variada atividade de diagnóstico e prescrição com crianças e</p><p>jovens em vários centros de observação, consultórios e clínicas. Dos</p><p>fundamentos e dos processos de observação que fomos capazes de</p><p>concretizar, damos conta neste modesto manual de observação</p><p>psicomotora.</p><p>A aproximação, agora esboçada, entre a Psicomotricidade e a</p><p>Psiconeurologia justifica-se, na nossa ótica, por dois motivos. O</p><p>primeiro, por ser uma tentativa para aprofundar o estudo científico da</p><p>Psicomotricidade como ramo de conhecimento. O segundo, por tentar</p><p>introduzir uma ciência que estuda as relações entre o comportamento</p><p>humano e as funções do seu sistema nervoso – a Psiconeurologia –,</p><p>ramo de conhecimento fundamental para o desenvolvimento não só da</p><p>Psicomotricidade mas também da aprendizagem e da educação.</p><p>Dizemos Psiconeurologia e não Neuropsicologia, porque o primeiro</p><p>termo designa uma área de estudo que respeita às desordens de</p><p>comportamento associadas com disfunções cerebrais nos seres</p><p>humanos, termo distinto do segundo, que respeita as relações entre o</p><p>comportamento e o sistema nervoso em organismos normais,</p><p>usualmente associado a modelos experimentais em animais.</p><p>Psiconeurologia (e/ou significação psiconeurológica) compreende,</p><p>portanto, o estudo das disfunções de comportamento e de</p><p>aprendizagem que têm uma base neurológica, isto é, desordens,</p><p>dificuldades ou desvios de comportamento que encerram um problema</p><p>de aprendizagem (por exemplo: disgnosia, dispraxias, dislexia etc.) e</p><p>não um problema de incapacidade de aprendizagem (por exemplo:</p><p>agnosia, afasia, apraxia, alexia etc.).</p><p>Postos estes pressupostos, que consideramos relevantes, o manual</p><p>que agora apresentamos aborda, no primeiro capítulo, breves revisões</p><p>históricas da Psicomotricidade e da Psiconeurologia, com alguns</p><p>complementos filogenéticos e ontogenéticos da motricidade e da</p><p>maturação do sistema nervoso.</p><p>O segundo capítulo analisa alguns modelos da relação cérebro-</p><p>comportamento e apresenta o modelo de A. R. Luria sobre a</p><p>organização funcional do cérebro humano.</p><p>O terceiro capítulo apresenta os fundamentos psiconeurológicos da</p><p>bateria psicomotora que integra a apresentação, o protocolo de</p><p>observação, a cotação e a significação psiconeurológica dos sete</p><p>fatores: tonicidade e equilibração (primeira unidade funcional luriana);</p><p>lateralização, noção do corpo e estruturação espaço-temporal (segunda</p><p>unidade funcional luriana); praxia global e praxia fina (terceira unidade</p><p>funcional luriana).</p><p>No quarto capítulo, são levantadas algumas sínteses entre a</p><p>Psicomotricidade e a Psiconeurologia, com a revisão dos paradigmas e</p><p>subparadigmas filogenéticos e ontogenéticos, culminando com a</p><p>apresentação do Sistema Psicomotor Humano (SPMH) e das suas</p><p>propriedades sistêmicas.</p><p>O quinto capítulo termina com algumas implicações da observação</p><p>na reeducação e na reabilitação psicomotora de crianças com</p><p>dificuldades de aprendizagem e de comportamento, com a introdução</p><p>de estratégias de interação e de intervenção.</p><p>Para a concretização deste manual de observação, vários</p><p>agradecimentos teremos de realçar. Dentre eles, queremos destacar os</p><p>incomensuráveis apoios de Melo Barreiros, Vítor Soares e Clementina</p><p>Dinis. Neste âmbito, não podemos esquecer o encorajamento de</p><p>Baptista Lopes e de Virgínia Caldeira, que muito nos ajudaram a</p><p>materializar este trabalho. Não podemos também esquecer todos os</p><p>colegas e os alunos do Departamento de Educação Especial e</p><p>Reabilitação da Faculdade de Motricidade Humana, que nos têm dado</p><p>o reforço necessário para prosseguir nesta atividade de produção</p><p>teórico-prática.</p><p>Um especial e final agradecimento cabe aqui a todas as crianças e</p><p>os jovens que observamos no nosso percurso clínico, uma vez que elas</p><p>nos têm ensinado muito por meio dos seus comportamentos e</p><p>interações. As crianças e os jovens são o recurso mais precioso de uma</p><p>sociedade. Por esse fato histórico-social, nenhuma parte dos seus</p><p>potenciais humanos deve ser desperdiçada ou minimizada.</p><p>No fundo, a observação psicomotora que tentamos aqui</p><p>perspectivar procura deslumbrar para cada caso algumas vias para a</p><p>modificação máxima da sua disponibilidade psicomotora.</p><p>Capítulo 1</p><p>APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA</p><p>1.1. Breve revisão histórica da Psicomotricidade</p><p>1.2. Breve revisão histórica da Psiconeurologia</p><p>1.3. Alguns aspectos filogenéticos</p><p>1.4. Alguns aspectos ontogenéticos</p><p>1.1. Breve revisão histórica da Psicomotricidade</p><p>Abordar em uma breve revisão histórica a origem e a evolução do</p><p>conceito da Psicomotricidade é, de alguma forma, estudar a</p><p>significação do corpo ao longo da civilização humana.</p><p>Da civilização oriental à civilização ocidental, e dentro desta, desde</p><p>a civilização grega, passando pela Idade Média, até os nossos dias, a</p><p>significação do corpo sofreu inúmeras transformações. Desde</p><p>Aristóteles, passando pelo Cristianismo, o corpo é, de certo modo,</p><p>negligenciado em função do espírito. Descartes, e toda a influência do</p><p>seu pensamento na evolução científica, levou a considerar o corpo</p><p>como objeto e fragmento do espaço visível separado do “sujeito</p><p>conhecedor”.</p><p>Só em pleno século XIX, o corpo começa a ser estudado, em</p><p>primeiro lugar, por neurologistas, por necessidade de compreensão das</p><p>estruturas cerebrais, e posteriormente por psiquiatras, para clarificação</p><p>de fatores patológicos.</p><p>Krishaber, Von Monakow, Bonnier, Mayer Gross, Wier-Mitchell,</p><p>Wernicke, Foerster, Peisse, Head, Leipmann, H. Jackson, Gertsmann,</p><p>Babinski, Lhermitte, Lunn, Meerovitch, Schilder, Nielsen e tantos outros</p><p>são alguns dos pioneiros no campo neurológico, psiquiátrico e</p><p>neuropsiquiátrico a conferirem ao corpo significações psicológicas</p><p>superiores, quer no âmbito do estudo das assomatognosias, quer ainda</p><p>das anossognosias, apraxias ideatórias, ideomotoras, construtivas,</p><p>apractognosias etc.</p><p>No campo patológico, parece dever-se a Dupré (1909) o termo</p><p>“Psicomotricidade”, quando introduz os primeiros estudos sobre a</p><p>debilidade motora nos débeis mentais (La débilité motrice dans ces</p><p>rapports avec la débilité mentale e pathologie de l’imagination et de</p><p>lémotivité).</p><p>Henri Wallon é, provavelmente, o grande pioneiro da</p><p>Psicomotricidade, vista como campo científico. Em 1925, ao publicar</p><p>L’Enjant Turbulent e, em 1934, Les Origines du Caractèr Chez l’Enfant,</p><p>Wallon inicia uma das obras mais relevantes no campo do</p><p>desenvolvimento psicológico da criança.</p><p>Médico, psicólogo e pedagogo, impulsiona as primeiras tentativas</p><p>de estudo da reeducação psicomotora, de onde sobressai Guilmain,</p><p>que, em 1935, publica uma obra clássica de grande impacto: Fonctions</p><p>Psychomotrices et Troubles du Comportement.</p><p>A sua concepção de testes, os tipos de ação reeducativa e as</p><p>primeiras</p><p>mais complexo de atividade coordenada.</p><p>A característica intraestrutural dessa unidade funcional apresenta</p><p>uma organização horizontal por camadas, cada uma delas distinta das</p><p>outras pelas suas características celulares. Este padrão de camadas</p><p>múltiplas obedece ao princípio de hierarquização estrutural de Jackson,</p><p>de tal forma que cada camada representa a imediatamente inferior.</p><p>Cada camada tem, de acordo com Ruch e Fulton (1960), uma história</p><p>filogenética e embriológica: trata-se de seis camadas cujo crescimento</p><p>obedece à organização vertical de baixo para cima, isto é, da camada</p><p>VI à camada I, sendo aquela a que representa os níveis subcorticais e</p><p>esta a que representa todas as camadas abaixo de si.</p><p>Estamos, assim, perante uma sobreposição funcional, onde as</p><p>camadas supragranulares VI, V e IV, de origem filogenética,</p><p>consubstanciam a herança mamífera do córtex humano, enquanto as</p><p>camadas III, II e I são de origem ontogenética e exclusivamente</p><p>humanas.</p><p>Este padrão por camadas sobrepostas permite não só antever o</p><p>desenvolvimento neurológico global como compreender o processo de</p><p>organização da segunda unidade funcional do cérebro, desde as áreas</p><p>primárias até as secundárias e, por último, até as áreas de sobreposição</p><p>terciárias, que permitiriam o acesso aos órgãos corticais funcionais de</p><p>que fala Leontiev (1959), e que são necessários para desenvolver as</p><p>funções superiores específicas.</p><p>Figura 2.8. – A hierarquização estrutural das seis</p><p>camadas obedece a uma organização vertical de baixo</p><p>para cima que ilustra o desenvolvimento ontogenético.</p><p>Esta disposição por camadas lança tentadoras hipóteses para a</p><p>compreensão do desenvolvimento psicomotor e do desenvolvimento</p><p>cognitivo da criança: as camadas inferiores, mais relacionadas com os</p><p>sistemas sensório-motores; as intermédias, com os sistemas perceptivo-</p><p>motores e operacionais; as superiores, com as funções simbólicas e</p><p>cognitivas mais estruturadas.</p><p>Compreendemos agora, para de novo retormar Luria (1973 e</p><p>1980), que a camada IV assume uma função analítica mais</p><p>intraneurossensorial, porque tem células nervosas com longos axônios,</p><p>enquanto a III e a II asseguram as funções interneurossensoriais por</p><p>possuírem células com pequenos axiônios e, por isso, mais</p><p>predisponentes a funções de associação e combinação, resultando,</p><p>consequentemente, em uma função de síntese.</p><p>A dinâmica desses sistemas, só possível sob o efeito do tônus</p><p>cortical fornecido pela primeira unidade fundamental, inclui igualmente</p><p>a função de armazenamento de “curtotermo” e de “longo termo”,</p><p>condição imprescindível à compreensão e à elaboração de qualquer</p><p>atividade psíquica superior.</p><p>Em toda a segunda unidade funcional, confirmam-se uma estrutura</p><p>hierarquizada e uma organização vertical, justificando a organização</p><p>vertical e horizontal proposta já por Conel (1967).</p><p>Recorrendo às suas palavras,</p><p>o estudo cuidadoso não revelou nenhum contato entre as fibras exógenas</p><p>e os dendrites dos neurônios ou mesmo entre fibras. Os arranjos dos</p><p>dendrites apicais, as fibras exógenas verticais e as fibras subcorticais</p><p>associativas, tangenciais e horizontais por todo o córtex, são,</p><p>efetivamente, a manifestação estrutural de alguma função. As relações</p><p>em ângulo reto não conectadas entre os elementos verticais e horizontais</p><p>por todo o córtex sugerem um campo eletromagnético. As fibras</p><p>exógenas são, sem dúvida, axônios que transmitem impulsos. A ausência</p><p>de ramos colaterais e terminais e a ausência de contato entre uma fibra e</p><p>outra, ou entre fibras e dendrites, sugere que há uma transmissão elétrica</p><p>ou eletrônica de impulsos no córtex em adição às sinapses axodendríticas</p><p>e axossomáticas.</p><p>Esta espantosa organização celular permite perceber como o córtex</p><p>envia e recebe impulsos, como as áreas primárias (específicas e</p><p>unimodais) comunicam com as secundárias (associativas e bimodais) e</p><p>essas com as terciárias (áreas associativas multimodais das áreas</p><p>associativas).</p><p>Todas as áreas corticais posterolaterais da segunda unidade</p><p>funcional são organizadas de acordo com o princípio da organização</p><p>hierárquica proposto por Jackson nos fins do século XIX.</p><p>A segunda unidade funcional é, seguramente, o grande sistema de</p><p>recepção (input), de análise, de armazenamento da informação vinda</p><p>do mundo exterior (extracorporal) e do mundo interior (intracorporal),</p><p>reunindo um mecanismo sensorial específico dos processos gnósicos</p><p>(instrumentos perceptivos – LURIA, 1964).</p><p>Como sabemos, e Luria refere-o sistematicamente, a atividade</p><p>gnósica humana é um sistema funcional complexo, não apenas</p><p>dependente de uma única modalidade sensorial, mas resultando de</p><p>uma construção dinâmica e complexa, como é a percepção. A</p><p>percepção humana resulta de uma realidade que se constrói na mente</p><p>humana por meio de representações de objetos em que</p><p>necessariamente está envolvida uma atividade polimodal coordenada.</p><p>A percepção, orginalmente difusa e expansiva, torna-se finalmente</p><p>concentrada e condensada em uma construção seletiva e estruturada,</p><p>logo dependente de um trabalho combinado, intersensorial e complexo</p><p>das áreas secundárias da segunda unidade funcional.</p><p>As áreas terciárias dessa unidade funcional são zonas de</p><p>sobreposição, de recomplemento, que contêm centros de cotrabalho</p><p>dos vários analisadores sensoriais. São zonas de fronteira do córtex</p><p>occipital, temporal e parietal, a maioria das quais formada na região</p><p>parietal inferior, região que, no ser humano, atingiu um salto quântico</p><p>de expansão, ocupando, segundo Luria, cerca de um quarto da área da</p><p>segunda unidade funcional.</p><p>As áreas terciárias constituem verdadeiras formações corticais</p><p>(LURIA, 1979) associadas às formas mais complexas de integração da</p><p>atividade conjunta dos analisadores visuais, auditivos e tátil-</p><p>quinestésicos, daí que a sua lesão ou estimulação não produza efeitos</p><p>significativos nas funções específicas dos analisadores.</p><p>Flechsig denominou essa área como o centro associativo posterior e</p><p>como específico da espécie humana, centro esse quase composto de</p><p>células associativas das camadas II e III e, por isso, responsáveis pelas</p><p>funções de integração das informações vindas de diferentes</p><p>analisadores sensoriais. A sua composição de neurônios multimodais e</p><p>multilateralizados com propriedades de combinação e equivalência</p><p>sensorial (extremamente complexas) incluem as áreas 5, 7, 39 e 40 de</p><p>Brodmann, a área 21 (zona temporal) e as áreas 37 e 39 da região</p><p>temporal-occipital.</p><p>Cabe a estas áreas terciárias uma organização espacial dos</p><p>estímulos sucessivos em grupos de processamento simultâneo,</p><p>envolvendo sequencialização e simultaneidade da informação que é</p><p>resultada no caráter sintético da percepção. (LURIA, 1970)</p><p>Nessas zonas, procede-se à integração da informação, não só direta</p><p>mas também simbólica, por meio de processos de transdução e</p><p>transição como os que se verificam nas estruturas espaço-temporais</p><p>mais complexas da leitura (FONSECA, 1984) ou nas operações</p><p>aritméticas e abstratas.</p><p>Funciona como um complexo centro de conversão, de equivalência</p><p>e de interação funcional dos vários analisadores, o que proporciona</p><p>rapidamente a evolução de processos concretos e abstratos e vice-</p><p>versa, transdução garantida por esquemas internos de memorização de</p><p>experiências organizadas e que subentendem complexos subsistemas</p><p>de recepção, decodificação, codificação e armazenamento plurimodal,</p><p>operando em constelações de trabalho, a que correspondem as</p><p>funções mentais mais elevadas.</p><p>Três leis básicas fundamentais presidem à organização estrutural das</p><p>áreas da segunda unidade funcional:</p><p>— a lei da estrutura hierárquica das zonas corticais;</p><p>— a lei da diminuição progressiva da especificidade sensorial;</p><p>— a lei da progressiva lateralização das funções.</p><p>A lei da estrutura hierárquica das zonas corticais confirma que as</p><p>relações entre as áreas primárias, secundárias e terciárias aumentam de</p><p>complexidade nos processos de síntese, demonstrando uma</p><p>hierarquização funcional, que se reflete inclusive na filogênese e na</p><p>ontogênese.</p><p>A formação adequada das áreas secundárias só tem lugar</p><p>depois da</p><p>formação das áreas primárias, que se traduzem exatamente no seu</p><p>material de construção. Da mesma forma, o trabalho das áreas</p><p>terciárias só pode ser atingido depois da maturação das estruturas</p><p>gnósicas que as alimentam. Daí a hierarquia da experiência, desde a</p><p>sensação à conceitualização, passando pela percepção, a imagem e a</p><p>simbolização. (FONSECA, 1984)</p><p>A hierarquização funcional subentende a complexidade da</p><p>comunicação e da interação das diferentes áreas ou centros de</p><p>trabalho até se atingirem os verdadeiros objetos mentais</p><p>(CHANGEAUX, 1983), isto é, a síntese cognitiva.</p><p>Essa hierarquização está igualmente patente na ontogênese dos</p><p>processos psíquicos, na medida em que a síntese cognitiva só pode ser</p><p>atingida na criança depois de nela se terem integrado sínteses</p><p>perceptivas diferenciadas; sínteses essas que resultam, por sua vez, de</p><p>processos ou “esquemas sensório-motores” mais elementares. (PIAGET,</p><p>1964 e 1973; KILLEN, 1975; e MYKLEBUST, 1975 e 1978)</p><p>Fica compreensível agora a implicação das lesões cerebrais na</p><p>criança, na medida em que, se elas ocorrem nas áreas primárias,</p><p>tendem a repercutir no desenvolvimento incompleto das áreas corticais</p><p>superiores, dado que as relações e as interações se dão, segundo</p><p>Vygotsky (1960), de baixo para cima. Está provavelmente nessa</p><p>perspectiva a compreensão dos problemas das crianças com</p><p>dificuldades de aprendizagem, quer se trate de severas ou moderadas,</p><p>quer ligeiras ou específicas.</p><p>Em contrapartida, as lesões no adulto têm efeitos diferentes, na</p><p>medida em que as funções já se encontram formadas, e, por esse fato,</p><p>as funções terciárias assumem a dominância das secundárias e das</p><p>primárias. As secundárias estão subordinadas às terciárias, objetivando-</p><p>se aqui, mais uma vez, o princípio da dominância hierárquica, que</p><p>consiste, no fundo, em afirmar que, à medida que novas estruturas são</p><p>adicionadas, elas passam a assumir progressivamente uma dominância</p><p>funcional. Tal dominância funcional exerce-se também das áreas</p><p>terciárias para as secundárias, independentemente de serem as últimas</p><p>áreas a desenvolver-se ontogeneticamente. Da mesma forma, a</p><p>segunda unidade funcional, embora leve mais tempo a evoluir, exerce</p><p>influência dominante sobre a primeira unidade e ficará mais tarde</p><p>dependente da terceira unidade funcional.</p><p>O adulto, representante de uma certa cultura, codifica o mundo em</p><p>sistemas lógicos e adapta-os a certos esquemas e, por isso, a evolução</p><p>é vertical. Da criança para o adulto, a evolução envolve a hierarquia das</p><p>áreas primárias às secundárias e às terciárias; para o idoso adulto, a</p><p>involução vai das terciárias às secundárias e, finalmente, às primárias.</p><p>A evolução das estruturas sugere uma hierarquia do mais simples</p><p>ao mais complexo, mas dialeticamente parte do mais organizado</p><p>(filogeneticamente) ao menos organizado (ontogeneticamente),</p><p>dialética que se repete em termos de gerontologia, pois aqui as últimas</p><p>aprendizagens são certamente as primeiras a desintegrarem-se.</p><p>(OPPENHEIM, 1981; e LEVINSON, 1978)</p><p>De novo, confirma-se a hipótese de Vygotsky (1970): no último</p><p>estágio da ontogênese, a linha de interação fundamental é inversa, vai</p><p>de cima para baixo.</p><p>Reconceitualizando o pensamento de Wallon (1963 e 1966) na</p><p>criança, a transição vai do ato ao pensamento; no adulto, vai do</p><p>pensamento ao ato. No primeiro caso, o cérebro trabalha na</p><p>dependência de centros superiores (de baixo para cima); no segundo</p><p>caso, o cérebro trabalha na dependência de centros inferiores (de cima</p><p>para baixo).</p><p>É segundo este princípio hierarquizado de trabalho, no qual o</p><p>cérebro, na sua totalidade, integra-se, que a segunda área funcional se</p><p>organiza estruturalmente. Trata-se de um “plano único e geral” do</p><p>cérebro, também no qual a segunda unidade se dimensiona como que</p><p>seguindo diferentes voltas de uma mesma espiral ascendente.</p><p>As zonas nucleares individualizadas visuais, auditivas e tátil-</p><p>quinestésicas submetêmse ao princípio geral da dominância</p><p>hierárquica, princípio que, em si, ilustra a sua forma de trabalho e de</p><p>organização.</p><p>A lei da diminuição progressiva da especificidade revela-nos os</p><p>fatores de transição estrutural e funcional que se observam das áreas</p><p>primárias às terciárias.</p><p>As áreas primárias são altamente específicas (interneurossensoriais)</p><p>em termos de modalidade sensorial, quer no córtex visual e auditivo,</p><p>quer no córtex tátil-quinestésico, e, por isso têm uma grande</p><p>quantidade de neurônios altamente diferenciados.</p><p>As áreas secundárias possuem essa especificidade, mas em um nível</p><p>mais baixo; já não se trata de áreas exclusivas de projeção, mas sim de</p><p>projeção-associação (POLIAKOV, 1966), cuja função gnósica</p><p>(interneurossensorial) as caracteriza. Daí também certas mudanças</p><p>estruturais nas células nervosas, que apresentam axiônios mais curtos,</p><p>sugerindo obviamente interações multimodais: visório-auditivas,</p><p>auditivo-visuais, visório-tátil-quinestésicas, auditivo-tátil-quinestésicas,</p><p>tátil-quinestésico-visuais etc. (FONSECA, 1984)</p><p>As áreas secundárias são designadas por Luria (1973 e 1980) por</p><p>áreas de conversão da projeção somatotópica em organização</p><p>funcional. Para exercer essas funções, as células das áreas secundárias</p><p>vão perdendo a sua especifidade para assumirem progressivamente</p><p>funções de correspondência funcional, cuja transição, no fundo, é</p><p>crucial para a evolução da civilização, pois o acesso ao símbolo decorre</p><p>desta capacidade de substituição e de conversão das informações</p><p>sensoriais como verdadeiras re-representações da experiência</p><p>(JACKSON, 1822), cuja origem socio-histórica é inegável.</p><p>Ao perder-se a especificidade sensorial e ao evoluir-se das funções</p><p>intraneurossensoriais para funções interneurossensoriais, a transição de</p><p>áreas primárias para secundárias, e dessas para terciárias, leva,</p><p>consequentemente, a uma integração extremamente mais complexa.</p><p>As cadeias de projeção, projeção-associação e de associação-associação</p><p>transformam-se em verdadeiros órgão funcionais capazes de produzir</p><p>funções superiores únicas e peculiares do ser humano, como as que</p><p>estão contidas na “criação” do símbolo.</p><p>As áreas terciárias ou as áreas de intercepção e de sobreposição,</p><p>fins últimos dos analisadores periféricos sensoriais, constituem-se como</p><p>sistemas complexos combinados e transmodais, cuja transformação em</p><p>sistemas de síntese espacial simultânea está na base da criação do</p><p>primeiro sistema simbólico, segundo Pavlov.</p><p>A hierarquia equivale, portanto, a uma transformação inespecífica</p><p>mais complexa, daí o salto para a generalização e a conceitualização,</p><p>cuja importância antropológica é incomensurável.</p><p>A segunda unidade funcional decodifica a informação sensorial em</p><p>informação simbólica e vice-versa. A simples projeção de um estímulo</p><p>visual (grafema) leva a uma integração e a uma reflexão integrada mais</p><p>global e mais abstrata do mundo exterior (leitura).</p><p>As áreas secundárias e terciárias, embora menos específicas,</p><p>realizam funções de nível mais complexo, independentemente de não</p><p>terem relações diretas com a periferia. É esta característica de</p><p>independência que garante o acesso às funções psíquicas superiores e</p><p>a propriedades funcionais nunca atingidas pelo animal.</p><p>A dialética da evolução é mais uma vez verificada por esta</p><p>peculiaridade do cérebro humano, a perda da especificidade traduziu-</p><p>se no ganho de um maior poder de organização e de integração.</p><p>A organização das áreas primárias em áreas secundárias e dessas</p><p>em áreas terciárias permitiu atingir novas propriedades de integração</p><p>cuja transformação foi de enorme importância para o ser humano e</p><p>para a sua história.</p><p>Os processos gnósicos cada vez mais diferenciados foram</p><p>permitindo, progressivamente, o conhecimento, o controle e a</p><p>transformação do mundo envolvente. Os processos gnósicos deram</p><p>lugar aos processos cognitivos, de um órgão da ação e da percepção, o</p><p>cérebro transformou-se no órgão da civilização.</p><p>A lei da progressiva lateralização das funções prolonga, de alguma</p><p>forma, os princípios de organização que abordamos na lei da</p><p>diminuição da especificidade. Assim, no hemisfério</p><p>esquerdo e no</p><p>hemisfério direito, as áreas primárias não apresentam qualquer</p><p>diferença estrutural e exatamente por esse fato realizam as mesmas</p><p>funções (LURIA, 1973). Em ambos os hemisfério, as áreas de projeção</p><p>das superfícies receptoras são contralaterais e idênticas, podendo</p><p>afirmar-se que as áreas primárias não estão sujeitas à lateralização</p><p>progressiva das funções.</p><p>Algo se passa de muito distinto quanto às áreas secundárias, e</p><p>fundamentalmente nas áreas terciárias, que são as mais lateralizadas.</p><p>A dominância cerebral (especialização hemisférica) no ser humano</p><p>está obviamente relacionada com a evolução do trabalho humano.</p><p>Segundo Annett (1981), as preferências entre as extremidades</p><p>apresentam as mesmas diferenças entre os animais e os seres humanos,</p><p>só que subsistem proporções muito diferentes a privilegiar nitidamente</p><p>a lateralidade manual direita humana em 60% e a do animal em 25%.</p><p>A superioridade da lateralidade mista no animal suporta a ideia de</p><p>que esses realizam as suas tarefas de adaptação ora à direita, ora à</p><p>esquerda, parecendo justificar que nos animais subsistem</p><p>essencialmente áreas primárias.</p><p>Seguindo o mesmo autor, no ser humano, a preferência pela</p><p>lateralidade manual direita é superior à mista em 33%, e essa é</p><p>superior à manual esquerda em 26%.</p><p>Que querem dizer essas incidências em termos de filogênese da</p><p>lateralidade? Em primeiro lugar, que o peso dos fatores genéticos é</p><p>variável dos animais aos humanos. Em segundo lugar, que a influência</p><p>dos fatores evolutivos antropológicos e bioculturais, como a caça, a</p><p>produção e a utilização de instrumentos, a guerra, a evolução</p><p>tecnológica, essencialmente a invenção de códigos de comunicação e a</p><p>linguagem, marca a sua influência determinante quanto à preferência</p><p>manual e à coordenação bimanual. Em terceiro lugar, que a</p><p>lateralidade pode ser causada por diferenças acidentais que ocorrem no</p><p>desenvolvimento embriológico dos dois lados do corpo e, por esse fato,</p><p>pode surgir como resultado do acaso.</p><p>O fato de a distribuição humana pender para a direita reflete uma</p><p>influência sistemática de algo mais importante que a teoria do acaso,</p><p>que leva os seres humanos a uma especialização hemisférica, induzindo</p><p>a uma realização de tarefas mais eficazmente por cada um dos lados</p><p>do cérebro: o hemisfério direito mais eficaz no processamento de</p><p>padrões espaciais e rítmicos; o hemisfério esquerdo mais eficaz no</p><p>processamento de padrões verbais e lógicos.</p><p>Os dois hemisférios não fazem exatamente as mesmas coisas nem</p><p>sequer fazem-nas da mesma forma ou com a mesma estratégia.</p><p>Não se trata de hemisférios-cópia tampouco de hemisfério em</p><p>espelho. Não se pode sequer conceitualizar em termos de dominante-</p><p>subordinado. (ZANGWILL, 1975)</p><p>A especialização hemisférica é o resultado da maturação adequada</p><p>do cérebro e o produto socio-histórico da sua atividade psíquica</p><p>superior, que abrange fundamentalmente as áreas secundárias e</p><p>terciárias.</p><p>Ter uma preferência manual direita na civilização tem a ver com o</p><p>trabalho, que surgiu nos estágios mais precoces da história humana,</p><p>em que a cooperação bimanual e a destralidade são indispensáveis.</p><p>Mais tarde, surge a linguagem, que está na origem da lateralização</p><p>das funções, algo que não ocorre nos animais, mas que, no ser</p><p>humano, revolucionou a organização funcional do seu cérebro, isto é,</p><p>(re)organizou-o de forma ainda mais complexa.</p><p>A patologia do hemisfério esquerdo e a do hemisfério direito</p><p>confirmam, sem margem para dúvidas, a progressiva lateralização das</p><p>funções psíquicas superiores.</p><p>A síndrome afásica é dominante na patologia do hemisfério</p><p>esquerdo e a síndrome da “negligência espacial” é dominante na</p><p>patologia do hemisfério direito.</p><p>Os dois hemisférios realizam um diálogo cruzado e uma cofunção</p><p>muito comple xa (GAZZANIGA, 1974, GESCHWIND, 1968; SPERRY,</p><p>1970; ZANGWILL, 1960; FONSECA, 1984). As suas atividades psíquicas</p><p>superiores sugerem, conforme assegura Luria (1973), um novo</p><p>princípio de organização funcional no córtex cerebral.</p><p>O hemisfério esquerdo passa a assumir um papel determinante na</p><p>organização da fala e dos processos cognitivos conectados com a</p><p>linguagem, como, por exemplo, a percepção organizada em esquemas</p><p>lógicos, a memória verbal ativa, o pensamento lógico, a categorização</p><p>etc.</p><p>O hemisfério direito assume o papel preponderante no pensamento</p><p>espacial, na orientação visório-perceptiva, na memória não verbal etc.</p><p>É exatamente nas áreas secundárias e terciárias que se dão as</p><p>condições para uma lateralização progressiva, por estarem exatamente</p><p>predisponentes a processos de organização multissensorial, que</p><p>culminam na codificação da informação; codificação essa realizada por</p><p>meio da linguagem.</p><p>As áreas secundárias e terciárias realizam funções intra-hemisféricas</p><p>e interhemisféricas de grande complexidade (FONSECA, 1984), inibem-</p><p>se e organizam-se reciprocamente, otimizando os seus centros de</p><p>trabalho em uma ação conjunta sem paralelo no universo.</p><p>A grande diferença de organização cerebral entre os dois</p><p>hemisférios permite acesso à assimetria funcional e à especialização</p><p>hemisférica, sem a qual o ser humano não atingiria o domínio do</p><p>envolvimento.</p><p>A hemisfericidade individual está submetida a uma hemisfericidade</p><p>cultural, dando lugar ao conceito de que o cérebro trabalha de formas</p><p>diferentes durante o processo de aquisição da aprendizagem.</p><p>Em qualquer momento de aprendizagem, o hemisfério direito</p><p>(pictorial-espacial) atua primeiro e mais rápido, como que captando</p><p>holisticamente a informação, transferindo progressivamente o</p><p>tratamento dessa informação para o hemisfério esquerdo (verbal-</p><p>linguístico).</p><p>Filogenética e ontogeneticamente, a progressiva lateralização das</p><p>funções obedece à progressiva organização interna de processos de</p><p>informação mais complexos.</p><p>De acordo com o estímulo, de acordo com a tarefa e de acordo</p><p>com a maturação, cada um dos hemisfério põe em jogo as suas</p><p>estratégias cognitivas diferenciadas.</p><p>Em resumo, a segunda unidade funcional, que compreende funções</p><p>de recepção, codificação e armazenamento da informação, está</p><p>localizada nas divisões posteriores dos hemisférios e incorpora o lóbulo</p><p>occipital (visão), o lóbulo parietal (tátil-quinestésico) e o lóbulo</p><p>temporal (audição).</p><p>A sua organização é hierarquizada e subdividida em zonas</p><p>nucleares primárias (projetivas, recebendo aferências dos analisadores</p><p>específicos), secundárias (projetivo-associativas responsáveis pela</p><p>codificação e síntese, convertendo a informação sensorial somatotópica</p><p>em sistemas funcionais) e terciárias (associativas, responsáveis pelo</p><p>cotrabalho dos vários analisadores de sistemas supramodais –</p><p>simbólicos – básicos para as atividades gnósicas e cognitivas).</p><p>Tais zonas hierarquicamente organizadas desenvolvem-se no</p><p>sentido de uma progressiva diminuição de especificidade sensorial e de</p><p>uma progressiva lateralização funcional. Tal condição, inerente a toda a</p><p>atividade cognitiva humana, está ligada, na sua origem, com o trabalho</p><p>(praxis) e é estruturada com a participação da linguagem.</p><p>2.2.3. Terceira unidade de programação</p><p>— regulação e verificação da atividade</p><p>A recepção, a codificação e o armazenamento da informação</p><p>constituem um dos comportamentos essenciais de todo e qualquer</p><p>processo cognitivo, e esse corresponde à função da segunda unidade</p><p>funcional.</p><p>O outro aspecto do processo cognitivo envolve a organização da</p><p>atividade consciente, função essa que implica a terceira unidade</p><p>funcional fundamental no modelo de organização cerebral de Luria</p><p>(1973, 1980).</p><p>A terceira unidade funcional é, portanto, responsável por</p><p>programação, regulação e verificação da atividade e está localizada nas</p><p>regiões anteriores do córtex, exatamente à frente do sulco central,</p><p>formando os lóbulos frontais.</p><p>Figura 2.9. – Terceira unidade de planificação motora.</p><p>A terceira unidade inclui a região pré-central e a região frontal,</p><p>regiões essas compostas e estruturadas de forma distinta das da</p><p>segunda unidade posterior.</p><p>Nela há de se destacar a região pré-central, designada desde Fritsch</p><p>e Hitzig (1870) como a zona</p><p>motora do córtex, a que corresponde a</p><p>área 4 de Brodmann e de onde partem as células piramidais de Betz</p><p>(áreas primárias frontais), e mais anteriormente as zonas prémotoras,</p><p>ou psicomotoras em Chailey Bert (1980), a que correspondem as áreas</p><p>6 e 8 (áreas secundárias frontais).</p><p>As características estruturais e funcionais dessas zonas sugerem</p><p>conexões muito estreitas com as zonas subcorticais, zonas essas que,</p><p>por essa característica, assemelham-se mais com as áreas posteriores,</p><p>no entanto, distintas pela sua função de coordenação e preparação das</p><p>atividades dirigidas para um fim.</p><p>A área 4 apresenta fundamentalmente células piramidais gigantes</p><p>especialmente implantadas na camada V, sendo nela pouco relevante a</p><p>camada IV, daí a sua relação com o sistema piramidal (ideocinético),</p><p>que regula os movimentos voluntários desde os motoneurônios</p><p>superiores até os medulares, apresentando condições especiais de</p><p>condução rápida desde o córtex até a periferia. Por esse fato, apresenta</p><p>um alto grau de diferenciação motora, até o nível muscular</p><p>individualizado (o “homúnculo invertido” de Penfield e Rasmussen,</p><p>1950).</p><p>Figura 2.10. – Áreas motoras e sensitivo-motoras no</p><p>homem têm uma maturação psiconeurológica gêmea.</p><p>A área 6 tem como principal função a realização e a automatização</p><p>dos movimentos coordenados mais complexos, aqueles que se</p><p>desenrolam em um certo período de tempo e que exigem a atividade</p><p>conjunta de vários grupos musculares. A sua citoarquitetura é</p><p>caracterizada pela ausência de células de Betz e composta por células</p><p>piramidais mais pequenas, profundamente localizadas na camada III. As</p><p>suas conexões com os núcleos subcorticais constituem uma parte</p><p>importante dos sistemas parapiramidais e extrapiramidais</p><p>(teleocinéticos), que, em contraste com o sistema piramidal, atingem os</p><p>motoneurônios terminais, por meio de uma série de estações e centros</p><p>subcorticais.</p><p>A área 8, nos quais os movimentos dos olhos estão representados e</p><p>de onde partem igualmente conexões do sistema extrapiramidal,</p><p>compreende uma divisão secundária do córtex motor, a que está</p><p>adstrita a função de coordenação dos movimentos dos olhos durante a</p><p>fixação da atenção, bem como todas as manipulações de objetos que</p><p>exijam controle visual.</p><p>Os campos desta terceira unidade fundamental, ou seja, as regiões</p><p>motora e prémotora, formam, segundo Luria, um complexo</p><p>quinestésico único no córtex (single kinesthetic complex in the cortex),</p><p>ao mesmo tempo em que possuem um sistema aferente de projeção e</p><p>associação com todas as outras regiões do córtex e do subcórtex. Este</p><p>complexo único é certamente responsável pelos sistemas de</p><p>retroalimentação e da reaferência dos sistemas extrapiramidais corticais</p><p>e subcorticais, e igualmente dos sistemas cerebelo-córticocerebelosos,</p><p>cuja função subentende os múltiplos sistemas e subsistemas de</p><p>programação, regulação e verificação da atividades humana.</p><p>O ser humano dispõe, assim, da capacidade de reagir ativamente à</p><p>informação recebida e, simultaneamente, da capacidade de criar</p><p>intenções, formar planos e estratégias e programar as suas ações,</p><p>inspecionando a sua realização e, consequentemente, regulando o seu</p><p>comportamento de forma que esteja de acordo com os fins para que</p><p>foi estruturado e organizado.</p><p>Depois de regular a ação, o ser humano necessita verificar a sua</p><p>atividade consciente, comparar os efeitos das suas ações com as</p><p>intenções originais e corrigir qualquer erro que tivesse sido cometido,</p><p>reprogramando tudo de novo como se se tratasse de um processo em</p><p>espiral.</p><p>Todos esses processos requerem, evidentemente, diferentes</p><p>sistemas cerebrais, abrangendo as unidades funcionais anteriormente</p><p>analisadas, bem como os complexos sistemas aferentes e eferentes,</p><p>centrípetos e centrífugos em retroalimentação permanente, em</p><p>analogia com um hipercomplexo servomecanismo.</p><p>São exatamente estas estruturas neuronais especiais encarregadas</p><p>da regulação da atividade consciente que constituem a terceira unidade</p><p>funcional, cuja estrutura efetivadora principal se concentra no córtex</p><p>motor (“os cornos anteriores do cérebro”, segundo Bernstein, 1967).</p><p>A construção dos movimentos que são enviados para a periferia</p><p>exige uma preparação de componentes postural-motores e tônico-</p><p>posturais que devem ser incorporados em programas de ação. Só</p><p>depois da preparação, os comandos podem ser enviados pela área 4 e</p><p>originar os movimentos necessários.</p><p>A programação e a planificação, como vimos atrás, está a cargo das</p><p>áreas 6 e 8, áreas suplementares do córtex motor, verdadeiras áreas</p><p>secundárias que antecipam o movimento, planificando sub-rotinas</p><p>motoras indispensáveis. A esse fenômeno, Pribam (1966) chamou de</p><p>antecipação ativa, como estrutura orientadora da ação consciente.</p><p>As experiências de Kornhuber (1974) sobre este fenômeno de</p><p>antecipação do movimento voluntário consciente readiness potential</p><p>demonstram que as áreas 6 e 8 entram em atividade muito antes da</p><p>área 4, ilustrando um tipo de relação semelhante à do pianista com o</p><p>piano.</p><p>Efetivamente, a função de comando voluntário gera descargas</p><p>neuronais que mobilizam os inúmeros recursos bilaterais que vão ser</p><p>necessários à ação propriamente dita. Não se trata apenas do</p><p>envolvimento do hemisfério dominante (ECCLES, 1977), mas sim de</p><p>um imenso sistema de associação onde entram em jogo as fibras do</p><p>corpo caloso e a incontável rede internacional de circuitos</p><p>corticossubcorticais que programam os movimentos.</p><p>A esse propósito, Bernstein (1967) reafirma que qualquer</p><p>movimento se organiza para responder a um fim e daí a natural</p><p>necessidade da programação e regulação antecipada da ação, onde</p><p>obviamente a participação da linguagem está incluída.</p><p>O jogo comando-controle-ação está na origem do pensamento</p><p>reflexivo, que se situa exatamente na antecipação do fim a atingir.</p><p>(FONSECA, 1977 e 1982)</p><p>A ação por um lado (área 4) e a coordenação por outro (áreas 6 e 8)</p><p>constituem as duas unidades dialéticas e funcionais da terceira unidade</p><p>funcional no modelo luriano.</p><p>A coordenação de movimentos é uma organização de ações</p><p>motoras em função de um objetivo antecipado, o que pressupõe uma</p><p>inter-relação de consciência e ação.</p><p>É dentro deste conjunto de relações de ordem que se concebe um</p><p>plano; plano esse que inclui complicados comandos eferentes e</p><p>complexas reaferências do tipo cibernético (FONSECA, 1977), ou seja,</p><p>uma complicada análise e uma diferenciada atividade integrativa.</p><p>(LURIA, 1980)</p><p>As subdivisões entre as áreas motoras e as áreas pré-motoras</p><p>(psicomotoras) foi o resultado filogenético de uma progressiva</p><p>diferenciação estrutural que permitiu ao ser humano dispor de um</p><p>maior e mais versátil repertório de movimentos coordenados e</p><p>corticalizados.</p><p>As áreas pré-motoras responsáveis pela programação contêm,</p><p>essencialmente, células das camadas I e II e substância cinzenta</p><p>extracelular, composta de elementos dendríticos e de células gliais,</p><p>certamente reunindo funções integrativas muito complexas.</p><p>Bonin (1948) evocou que a percentagem desta massa cinzenta nas</p><p>áreas pré-motoras cresceu rapidamente durante a evolução, sendo no</p><p>ser humano duas vezes superior a do primata.</p><p>O desenvolvimento da motricidade humana e a sua perfeição está</p><p>associado com a formação de áreas terciárias do córtex frontal. Estes</p><p>campos ocupam, segundo Luria (1980), cerca de um quarto de toda a</p><p>superfície do córtex e pertencem às divisões filogenéticas mais recentes</p><p>do neocórtex. Ao neocórtex corresponde, efetivamente, uma</p><p>neomotricidade (neoquinética).</p><p>Talvez estejam aqui os fundamentos da motricidade humana, ou</p><p>melhor, as bases psiconeurológicas da Psicomotricidade, cujo enfoque</p><p>não se esgota apenas nas funções de execução ou expressão, mas</p><p>simultaneamente nas funções que programam, regulam, verificam e</p><p>integram a motricidade.</p><p>Do primata ao ser humano, assiste-se a um progressivo controle dos</p><p>impulsos gerados pelas células piramidais gigantes. Esse controle</p><p>traduz-se em sistemas complexos que têm uma base estrutural distinta</p><p>na substância cinzenta extracelular e nas células gliais. Cabe a essas</p><p>estruturas, provavelmente,</p><p>a conservação de engramas motores e</p><p>padrões de movimento, que alimentam a área 4 para atuar como</p><p>verdadeiro aparelho efetor do córtex.</p><p>Figura 2.11. – O movimento requer a participação do</p><p>córtex de associação (ASSN CX), do cerebelo lateral</p><p>(CBM lar.), do tálamo ventral anterior e externo (VA</p><p>VLTHAL), que, respectivamente, contribuem com a noção</p><p>do corpo e a estrutura espaço-temporal, com a</p><p>equilibração e com a lateralização. As setas evocam as</p><p>múltiplas interações da cibernética psicomotora.</p><p>A área motora (área 4), ao atuar como efetivadora, necessita</p><p>recolher muita informação aferente, condição essa indispensável à</p><p>programação da ação, programação que é aberta e plástica e não fixa</p><p>ou imutável.</p><p>Como função aberta (BERNSTEIN, 1967), a programação tem de</p><p>conter reaferências e recorrências, isto é, tem de abrigar uma maior</p><p>síntese dos vários mecanismos neuronais relacionados com o controle</p><p>do movimento voluntário, quer em nível das estruturas cerebelosas e</p><p>das estruturas dos gânglios da base, quer ainda em nível das áreas</p><p>associativas do lóbulo parietal, como demonstraram os estudos de</p><p>Allen e Tsukahara (1974) e Mountcastle (1975).</p><p>A área motora (área 4) dispara os comandos muito depois de se</p><p>darem interações entre áreas secundárias frontais (áreas 6 e 8) e áreas</p><p>secundárias parietais (áreas 5 e 7). O movimento humano contém em si</p><p>duas bases dialeticamente complementares: a planificação e a</p><p>execução.</p><p>É interessante notar que as áreas secundárias frontais estão</p><p>também estruturadas hierarquicamente, embora em analogia com as</p><p>áreas secundárias posteriores (sentido vertical ascendente). Da mesma</p><p>forma, repete-se nessas áreas o princípio da perda progressiva da</p><p>especificidade.</p><p>As áreas primárias frontais (área 4) são altamente diferenciadas</p><p>pelas suas características de projeção somatotópica, as áreas</p><p>secundárias menos específicas, enquanto as áreas terciárias,</p><p>constituídas só por células granulares, não apresentam ramificações</p><p>projetivas descendentes. Nessas áreas, são elicitados grupos</p><p>sistemáticos de movimentos organizados e determinadas cinergias</p><p>complexas. A formulação de Jackson continua válida cem anos depois</p><p>– “os lóbulos frontais são as partes mais elevadas e menos</p><p>diferenciadas do córtex humano”.</p><p>A terceira unidade funcional obedece aos mesmos princípios</p><p>estruturais que a segunda unidade, quer quanto à hierarquização, quer</p><p>quanto à diminuição da especificidade, porém distintas funcionalmente</p><p>e no sentido da sua organização vertical.</p><p>Na segunda unidade, que governa as funções de recepção, isto é,</p><p>os sistemas sensoriais-aferentes, o sentido de organização vertical é</p><p>ascendente, por isso, parte das primárias às secundárias e atinge por</p><p>último as terciárias. Na terceira unidade, que governa as funções de</p><p>expressão, isto é, os sistemas motores-eferentes, o sentido de</p><p>organização vertical é descendente e, por isso, faz parte das terciárias</p><p>às secundárias, e, por último, atinge as primárias, de onde parte o</p><p>comando desde o motoneurônio superior até o inferior e desse</p><p>diretamente aos músculos.</p><p>A terceira unidade constitui-se como unidade efetivadora</p><p>privilegiada do córtex, mas embora sendo efetiva, ela está em interação</p><p>constante com a unidade receptora posterior. O papel dos sistemas</p><p>aferentes na construção dos movimentos é, portanto, decisivo; sem</p><p>eles, o movimento não se adapta às condições e aos efeitos que o</p><p>objetivam.</p><p>As ações humanas como as dos animais são deliberadas, isto é,</p><p>dirigidas para certos fins específicos. No animal, as ações são</p><p>determinadas por necessidades biológicas, enquanto no ser humano</p><p>são guiadas pela consciência, por intenções e por motivações</p><p>individuais e sociais complexas.</p><p>Mas, para manter essa intenção, é necessário:</p><p>— programar, em primeiro lugar, o comportamento, ou seja,</p><p>estabelecer uma relação inteligível entre a ação e a situação (relação</p><p>essa normalmente formulada pela linguagem exterior ou interior),</p><p>fixar a finalidade na memória e dirigir o decurso da ação;</p><p>— analisar, posteriormente, os efeitos e relacioná-los com as</p><p>intenções iniciais.</p><p>Se os efeitos satisfizerem as intenções, os tônus cortical e postural</p><p>baixam e a atividade cessa. Se os efeitos não concordarem com as</p><p>intenções, os tônus cortical e corporal aumentam para continuar a</p><p>ação até atingir o objetivo previsto.</p><p>É dentro desse contexto que Anokhine (1975) introduz o</p><p>mecanismo receptor da ação (action aceptor), que, segundo ele,</p><p>exemplifica o aspecto de autorregulação do comportamento humano</p><p>que estamos abordando.</p><p>Em síntese, a realização do movimento voluntário envolve um</p><p>projeto e um plano conscientizado, que resulta de uma imaginação</p><p>interior (ROLAND, 1981), onde a informação acerca das partes do</p><p>corpo a mover, a direção dos movimentos, a sua natureza balística e o</p><p>número de movimentos isolados devem ser armazenados em uma</p><p>memória prévia. Esta memória prévia de dados corporais</p><p>(intracorporais) deve interagir em termos de programa interior com os</p><p>dados espaciais (extracorporais), ao mesmo tempo que tem de integrar</p><p>uma sequencialização e uma ordenação temporal de comandos</p><p>motores.</p><p>É dentro dessa linha que Ajuriaguerra e Hecaen (1952) introduzem</p><p>as noções de somatograma (informação de dados do corpo dada pelo</p><p>lóbulo parietal) e opticograma (informações dos dados especiais dadas</p><p>pelo lóbulo occipital).</p><p>O papel principal das áreas secundárias da terceira unidade</p><p>funcional de Luria é jogado pelas áreas pré-motoras (psicomotoras) da</p><p>região frontal, que demonstram, efetivamente, um papel integrativo na</p><p>organização do movimento.</p><p>As experiências de estimulação elétrica no córtex pré-frontal,</p><p>efetuadas por McCullock (1943) e Pribram (1966), provaram também a</p><p>estrita conexão dessa área com pontos muito distantes em outras áreas</p><p>posteriores, nomeadamente no lóbulo parietal (áreas 5 e 7 de</p><p>Brodmann).</p><p>Todos esses dados provam, segundo Luria, que as área pré-motoras</p><p>do cérebro humano são estruturas extremamente conectadas com o</p><p>córtex aferente, córtex esse que se encontra bastante afastado de si</p><p>próprio, confirmando a íntima relação dialética entre as várias unidades</p><p>funcionais e a inseparabilidade cortical das áreas sensoriais.</p><p>O córtex pré-motor pode ser concebido como uma área secundária</p><p>do cérebro e, por esse fato, ser considerado como um centro de</p><p>organização com respeito ao movimento, em analogia com as áreas</p><p>secundárias posteriores, que codificam informações somatotópicas em</p><p>sistemas e subsistemas de organização funcional.</p><p>O córtex pré-motor traduz os dados aferentes e integra-os em sub-</p><p>rotinas programadas, operando, por essa via, um complexo processo</p><p>de elaboração e organização de sistemas funcionais. A prová-lo, estão</p><p>a intensa atividade sináptica aferente e a intensa atividade sináptica</p><p>intrínseca dessa área, não correspondendo, como seria de admitir, a</p><p>uma intensa atividade aferente, como provaram os interessantes</p><p>trabalhos de Kennedy (1976), Mata (1980) e colaboradores.</p><p>O córtex frontal granular, assim chamado por não conter células</p><p>piramidais, reine as áreas terciárias do córtex frontal, cuja função</p><p>decisiva e preferencial subentende a formação de intenções e de</p><p>programas e, paralelamente, as funções de regulação e verificação das</p><p>atividades humanas mais complexas.</p><p>Trata-se, segundo Damásio (1979), de um sistema extremamente</p><p>rico de conexões, estabelecendo contato (superior e inferior) com</p><p>quase todo o córtex, parecendo demonstrar que o seu centro de</p><p>decisão fundamental precisa estar em permanente contato com todas</p><p>as fontes de informação.</p><p>Só assim se pode aceitar que as ações conscientes humanas</p><p>reclamem estados de atenção seletiva permanente, que obviamente</p><p>requerem mobilizações energéticas significativas. Esta propriedade de</p><p>regulação que antecede a decisão reclama a síntese de todos os</p><p>impulsos aferentes oriundos de todas as partes do cérebro,</p><p>especialmente das áreas posteriores (segunda unidade).</p><p>Com base nessa síntese, a elaboração interna dos impulsos</p><p>eferentes é então processada.</p><p>O cérebro transforma, assim, intenção, volições e a própria</p><p>linguagem em comando</p><p>motores.</p><p>Outras conexões ligam estas áreas terciárias da terceira unidade</p><p>funcional à primeira unidade funcional, especialmente à formação</p><p>reticulada e ao sistema nervoso automático, que têm a finalidade de</p><p>carregar tonicamente essa unidade a fim de que ela possa realizar o</p><p>seu trabalho adequadamente.</p><p>As conexões com a segunda unidade funcional encarregam-se de</p><p>fornecer os dados extracorporais, enquanto as conexões com a</p><p>primeira unidade funcional fornecem os dados intracorporais, além de</p><p>fornecerem os dispositivos de modulação e de atenção, que são</p><p>indispensáveis à adequação dinâmica dos planos que são formados no</p><p>córtex frontal.</p><p>Muitas das funções inibidoras e vigilantes frontais atuam por meio</p><p>destas conexões subcorticais e subtalâmicas, emprestando à ação a</p><p>unidade e a coerência funcional que fazem dela a forma privilegiada de</p><p>materializar a consciência.</p><p>Outras conexões do córtex frontal envolvem as funções da</p><p>linguagem (instruções verbais) e as funções associativas, onde estão</p><p>enraizadas as funções cognitivas superiores: formação de conceito,</p><p>organização de dados e sua sequencialização lógica e estratégias</p><p>perceptivas complexas, observação ativa, pesquisa temática, resolução</p><p>de problemas, rechamada de informações etc.</p><p>Os lóbulos frontais são para Luria os que apresentam uma estrutura</p><p>mais intrincada em comparação com os restantes; por essa mesma</p><p>razão, também são um dos aparelhos mais recentes do córtex cerebral.</p><p>As lesões nos lóbulos frontais põem em relevo a lentidão, a falta de</p><p>seletividade e espontaneidade, a falta de avaliação dos efeitos, a</p><p>ausência da reatualização dos programas de ação na presença de</p><p>outros, a falta de iniciativa, a apatia, a perseveração motora etc.</p><p>(DAMÁSIO, 1979)</p><p>O suporte (background) do comportamento desintegra-se, e a</p><p>atividade perde o caráter de intencionalidade que lhe é próprio. Os</p><p>pacientes ouvem, veem e sentem o corpo, podem mesmo falar,</p><p>escrever e ler, não perdem sequer a memória, mas os seus</p><p>comportamentos como totalidades ficam profundamente perturbados.</p><p>Não criam nem mantêm complexos programas, não têm fins ou</p><p>propósitos a atingir e são facilmente distraídos pela presença ou por</p><p>irritações mínimas.</p><p>Luria (1969) designou esse estado de inércia patológica, que se</p><p>reveste de grande interesse para se compreender a função desta</p><p>terceira unidade funcional.</p><p>O córtex pré-frontal faz a mediação e a codificação verbal das ações</p><p>complexas, pois, por meio desse mecanismo, a linguagem interior</p><p>exerce a sua função reguladora dos estados ativo corticais, daí que a</p><p>sua maturação estrutural surja por volta dos sete anos, a que</p><p>corresponde a entrada no período da inteligência operacional em</p><p>Piaget.</p><p>É interessante referir que é exatamente mais ou menos nesse</p><p>período que se dão as primeiras aquisições de controle consciente e as</p><p>primeiras manifestações de atividade psíquica superior.</p><p>A dinâmica do desenvolvimento do córtex pré-frontal, segundo</p><p>Luria (1969), tem um primeiro salto dos 3,5 anos para os quatro e um</p><p>segundo salto dos sete para os oito anos, período certamente essencial</p><p>na ontogênese psicomotora. (FONSECA, 1985)</p><p>Em termos filogenéticos, o ser humano possui a vantagem do seu</p><p>desenvolvimento psiconeurológico com lóbulos frontais, que</p><p>representam um quarto da massa total do cérebro. Não restam dúvidas</p><p>de que os lóbulos frontais têm um papel muito importante na</p><p>organização do controle consciente do comportamento e que a sua</p><p>lesão afeta profundamente as mais altas formas de atividade</p><p>autorregulada. A terceira unidade funcional tem, portanto, funções</p><p>muito importantes na organização da atividade humana.</p><p>Em analogia com as divisões posteriores, os lóbulos frontais</p><p>também possuem um centro associativo anterior, que guia, como</p><p>superestrutura que é, todas as partes do cérebro, realizando a função</p><p>universal de regulação geral do comportamento.</p><p>A síntese dos movimentos intencionais, as estratégias de ações</p><p>sucessivas e consecutivas superiormente planificadas com complexos</p><p>códigos interiores, a avaliação seletiva das impressões do meio externo</p><p>etc. dão a aferência preliminar e iniciadora de qualquer</p><p>comportamento. (ANOKHINE, 1975)</p><p>Toda essa regulação está contida na terceira unidade funcional, que</p><p>não trata apenas de elaborar respostas ou ações, ela tem ainda em</p><p>conta a influência inversa que tem os seus efeitos, sem a qual o</p><p>processo de encefalização não seria possível.</p><p>Esta aferência de retorno ou recepção da ação (action aceptor, de</p><p>ANOKHINE) é um elemento essencial à arquitetura da ação consciente</p><p>e, consequentemente, de todas as funções específicas superiores.</p><p>É esta síntese aferente provocada pela motricidade que confere ao</p><p>cérebro o papel dinâmico da integração sensorial, que a transforma</p><p>progressivamente em Psicomotricidade.</p><p>O “receptor da ação”, de Anokhine, é uma característica dos</p><p>lóbulos frontais, pois, dessa forma, não só produzem ações mas</p><p>também realizam novas sínteses dos estímulos externos, ou seja, novas</p><p>reaferências indispensáveis à programação, desprogramação e</p><p>reprogramação de novas ações, analisando os seus efeitos, verificando</p><p>se estão de acordo ou não com as intenções que previamente os</p><p>desencadearam. Esta condição de avaliação da ação, e concomitante</p><p>correção, é básica para a organização intencional das ações.</p><p>O desenvolvimento desta terceira unidade funcional está</p><p>naturalmente, pelas razões apresentadas, associado à progressiva</p><p>corticalização das funções de programação, regulação e verificação das</p><p>atividades conscientes, funções essas inseparáveis do instrumento</p><p>fundamental da linguagem, que se tornou no “maior regulador do</p><p>comportamento humano”. (LURIA, 1969)</p><p>Esta complexa atividade cortical não atua nos movimentos reflexos</p><p>nem nos automáticos, mas sim nos movimentos voluntários, ou seja,</p><p>na presença de funções psíquicas superiores e em processos mentais</p><p>humanos, que são formados, elaborados e materializados com base na</p><p>atividade da linguagem.</p><p>O córtex frontal participa da preparação dos processos de ativação</p><p>que surgem com as formas mais complexas de atividade consciente.</p><p>Com as suas múltiplas conexões, a terceira unidade funcional</p><p>participa do estado de ativação crescente que acompanha todas as</p><p>formas de atividade consciente.</p><p>Programar, regular e verificar a atividade consciente pressupõe a</p><p>participação dos lóbulos frontais, como prova a distribuição</p><p>hiperfrontal do débito sanguíneo, quando o ser humano autocontrola</p><p>as suas ações. (CHANGEUX, 1983)</p><p>2.3. Interação entre as três unidades funcionais</p><p>Depois de abordarmos a organização intrafuncional e dinâmica de</p><p>uma das três unidades funcionais fundamentais do modelo de Luria,</p><p>vejamos agora a sua organização interfuncional na atividade mental</p><p>humana encarada como um todo.</p><p>Luria insiste que as três unidades funcionais não trabalham</p><p>isoladamente, não sendo possível encarar a percepção ou a memória</p><p>como sendo exclusivamente organizadas na segunda unidade, nem a</p><p>organização da motricidade apenas na terceira unidade.</p><p>Para a estrutura sistêmica dos processos psicológicos complexos, as</p><p>três unidades funcionais trabalham em conjunto e em integração</p><p>harmônica de forma organizada e não aleatória, daí que a sua própria</p><p>disposição espacial-vertical também tenha de ser encarada nessa</p><p>perspectiva, quer em termos filogenéticos, quer ontogenéticos.</p><p>Como Luria afirma,</p><p>é fácil ver a significação de cada um dos três sistemas do cérebro: o</p><p>primeiro mantém o tônus necessário do córtex (e do corpo); o segundo</p><p>recebe e processa a informação entrada; o terceiro atua como o</p><p>mecanismo de programação e de verificação para assegurar a natureza</p><p>intencional do comportamento.</p><p>As três unidades funcionais (ou sistemas básicos) trabalham em</p><p>conjunto; uma sem as outras não funciona convenientemente. Trata-se</p><p>de um sistema de comunicação e de uma inter-relação dinâmica em</p><p>que a mudança ou a organização de uma unidade interfere com a</p><p>mudança ou a organização das outras unidades.</p><p>Têm como sistemas plásticos uma evolução diferenciada no tempo:</p><p>a primeira unidade entra em atividade já no desenvolvimento</p><p>intrauterino e desempenha um papel decisivo no parto e nos primeiros</p><p>processos de maturação motora antigravítica e no conforto tátil-</p><p>vinculativo; a segunda unidade entra em jogo mais tarde, já em termos</p><p>do desenvolvimento extrauterino, desempenhando um papel de</p><p>transação entre o organismo e o meio, entre o espaço intracorporal e o</p><p>espaço extracorporal; a terceira unidade dependente das duas</p><p>primeiras vai atuar posteriormente, reunificando-as em termos de</p><p>planificação de condutas cada vez mais conscientizadas e</p><p>corticalizadas.</p><p>As três unidades apresentam uma atividade estruturada em termos</p><p>hierarquizados, mas dialeticamente recíproca, pondo em prática a</p><p>atividade de uma unidade em interação com as outras.</p><p>A atividade mental passa a ser compreendida com base em sistemas</p><p>funcionais concretos e em fatores dinâmicos separados, exercendo</p><p>cada um deles a sua contribuição particular na atividade mental global.</p><p>Os processos mentais apresentam substratos neurológicos</p><p>específicos, e não se trata de meros atributos ou habilidades imateriais,</p><p>mas de sistemas funcionais totais, que resultam da atividade</p><p>cooperativa das unidades funcionais, cada uma com os seus papéis</p><p>específicos, em uma espécie de constelação de centros de trabalho.</p><p>O cérebro como um sistema funcional complexo é um conjunto</p><p>dialético de outras complexidades, é uma complexidade que resulta de</p><p>outras complexidades, como funções englobantes interagindo não só</p><p>como centros isolados ou limitativos mas também como uma</p><p>“assembleia de centros” coordenados em função de necessidades e</p><p>intenções autorreguladoras.</p><p>Assim, por exemplo, para se realizar um movimento voluntário, que</p><p>traduz no fundo uma constelação psicomotora de trabalho, é</p><p>imperativo que se crie uma matriz espacial, na qual o movimento se</p><p>desenrola.</p><p>Essa necessidade, de acordo com o modelo luriano, é garantida</p><p>pela segunda unidade funcional, fundamentalmente pelas zonas</p><p>secundárias e terciárias occipitoparietais, que são, como vimos, as</p><p>terminações corticais dos analisadores visuais.</p><p>Se eventualmente essas áreas se encontrarem desintegradas ou</p><p>destruídas, o esquema espacial do movimento perde-se, e, como</p><p>consequência, o movimento não atingirá o fim previsto.</p><p>Mas, para que o movimento se desenrole adequadamente, não</p><p>basta contar com um “esquema espacial” ou com uma estruturação</p><p>espacial; é igualmente necessário contar com os impulsos constantes</p><p>que vêm dos órgãos do movimento, ou seja, as aferências</p><p>proprioceptivas, vestibulares e posturais, que indicam a posição do</p><p>corpo e a relação que ocupam as suas extremidades no espaço, sem as</p><p>quais o movimento não pode ser coordenado.</p><p>A recepção da informação, que parte dos fusos musculares, dos</p><p>músculos, dos tendões e das articulações, que é recebida no cérebro,</p><p>depois de ter sido subprocessada no cerebelo (subcérebro do</p><p>movimento), e que atinge essencialmente as zonas parietais (zonas que</p><p>Luria designa por aparelho cortical da sensibilidade músculo-articular),</p><p>é crucial à planificação do movimento.</p><p>Se estas zonas do córtex estiverem lesadas, não só se verifica uma</p><p>perda da sensibilidade da noção e da posição do corpo (somatognosia),</p><p>como se alteram os fatores de precisão e perfeição do movimento.</p><p>Mas, mesmo assim, esses dados são insuficientes para organizar os</p><p>movimentos voluntários conscientizados e controlados.</p><p>É ainda necessária a cooperação de outros centros de trabalho que</p><p>fornecem a ligação de um movimento a outro, assegurando a</p><p>formulação de um plano sucessivo de movimentos que se integram em</p><p>um padrão motor.</p><p>Essa função tem de ser exercida pelo córtex pré-motor (terceira</p><p>unidade funcional), que, por sua vez, está intimamente conectado com</p><p>as estruturas subcorticais. Se porventura essas seções estão</p><p>disfuncionais ou lesadas, torna-se mais difícil obter uma coordenação</p><p>de movimentos, surgindo apenas fragmentos motores isolados e</p><p>desintegrados; a melodia cinestésica não é, consequentemente, obtida,</p><p>e o movimento resulta dismétrico e inadequado.</p><p>A sequencialização do movimento está subordinada a um programa</p><p>correspondente, que regula a ordem dos atos motores, impedindo a</p><p>intrusão de outros atos ou sub-rotinas irrelevantes.</p><p>A formulação e o armazenamento de tal programa e a intrínseca</p><p>ligação com os concomitantes efeitos são funções do córtex frontal,</p><p>outro componente sistêmico básico do movimento voluntário. A lesão</p><p>dessa unidade funcional altera as intenções e os planos de</p><p>autorregulação, surgindo consequentemente ações acidentais e</p><p>movimentos destituídos de significação psicológica.</p><p>Por este exemplo do movimento voluntário, podemos constatar a</p><p>interação das três unidades funcionais e, ao mesmo tempo, confirmar a</p><p>complexidade sistêmica e funcional que traduzem as suas atividades</p><p>cooperacionais, as suas intrincadas combinações e as suas</p><p>coinstrumentalidades corticais, como iremos tentar demonstrar com o</p><p>nosso estudo experimental da observação de fatores psicomotores.</p><p>Estamos assim em condições de reconhecer e identificar os fatores</p><p>que estão na base das diferentes formas da atividade mental e,</p><p>simultaneamente, perceber o efeito de desintegração que cada uma</p><p>das unidades funcionais implica.</p><p>Cada forma de atividade consciente é sempre, como afirma Luria,</p><p>um sistema funcional complexo, que se desenrola e move-se de acordo</p><p>com o trabalho combinado de todas as três unidades funcionais do</p><p>cérebro, cada uma delas desempenhando a sua contribuição peculiar.</p><p>Não há mais lugar para pensar em processos mentais em termos de</p><p>faculdades isoladas suscetíveis de estarem localizadas em certas partes</p><p>do cérebro.</p><p>Não podemos visualizar o movimento voluntário com base em um</p><p>puro arco reflexo ou como o resultado da entrada em ação da massa</p><p>total do encéfalo, apenas lhe conferindo o seu caráter exclusivamente</p><p>eferente.</p><p>Não é possível discriminar, neste caso, o aspecto eferente do</p><p>movimento (output) e, do outro, o aspecto aferente da sensação ou da</p><p>percepção (input). Entre ambos os aspectos, não há noção clássica de</p><p>arco, quando muito emerge a nova noção de anel, anel que é</p><p>autorregulado, em que cada componente integra simultaneamente o</p><p>elemento eferente e aferente, em uma totalidade que consubstancia o</p><p>papel ativo e complexo de qualquer função psíquica superior.</p><p>Os dados da investigação provam que a sensação dispõe, ela</p><p>própria, de elementos motores. Nenhuma função perceptiva (portanto,</p><p>receptiva) assume o caráter integrativo de forma passiva. E o seu</p><p>caráter ativo, eminentemente ligado à motricidade, que lhe confere a</p><p>capacidade de reunir e convergir dados aferentes e eferentes, em uma</p><p>unidade funcional que é construída no cérebro e nele armazenada.</p><p>As sensações, como verdadeiras informações, são ativas na sua</p><p>natureza e, por esse fato, incorporam-se seletivamente no córtex por</p><p>meio da codificação ativa da linguagem.</p><p>A percepção de qualquer objeto (bola, por exemplo) é</p><p>polirreceptora no seu caráter. A visão, o tato, o sentido quinestésico, as</p><p>reaferências nascidas da sua utilização práxica etc. trabalham</p><p>convergentemente em termos de análise e de síntese, ao mesmo</p><p>tempo em que se estruturam e organizam por componentes motores</p><p>ativos, que implicam, consequentemente, a sua incorporação como</p><p>“objeto mental”.</p><p>Não se trata de um simples trabalho ordenador, concebendo o</p><p>cérebro como “máquina cibernética” que executa qualquer programa</p><p>que é introduzido pelos órgãos dos sentidos.</p><p>O cérebro humano constrói realidades autonomamente e</p><p>desenvolve estratégias autoorganizadas e complexas, obviamente por</p><p>meio de códigos internos, quer topológicos, quer químicos, que</p><p>reúnem inequivocamente o anel dialético dos processos transacionais</p><p>eferentes a aferentes.</p><p>O sistema visual estático é incapaz de organizar percepções; para</p><p>essa construção decisiva, é necessário movimento. A percepção está</p><p>inexoravelmente baseada no movimento, é aí que reside o papel</p><p>integrador de todo o sistema nervoso, processo ativo de procura e de</p><p>captação de qualidade e de atributos, que emprestam à sensação e à</p><p>ação a complexidade de um sistema funcional.</p><p>A percepção tem lugar</p><p>por meio da ação (PIAGET, 1956:</p><p>ZAPOROZHETS e ELKONIN, 1971), mas a ação combinada das três</p><p>unidades funcionais, cuja organização e cofunção permite atingir as</p><p>mais complicadas formas de atividade psíquica superior.</p><p>Em resumo, todas as três unidades funcionais trabalham</p><p>conjuntamente por meio de processos de interação, em que cada uma</p><p>fornece a sua contribuição específica ao todo complexo da atividade</p><p>mental.</p><p>Só estudando-as na sua dinâmica peculiar e na sua pluri-interação,</p><p>podemos atingir algum conhecimento sobre a natureza dos seus</p><p>mecanismos cerebrais, quer na elaboração das funções específicas</p><p>superiores, quer ainda na organização da Psicomotricidade.</p><p>O modelo de Luria oferece, efetivamente, condições para analisar a</p><p>estrutura dos processos mentais, ao mesmo tempo que permite a</p><p>análise dos fatores e a composição interna dos processos mentais</p><p>complexos.</p><p>É dentro dessa perspectiva que tentaremos em seguida analisar a</p><p>estrutura dos processos psicomotores, ao mesmo tempo em que</p><p>iremos analisar os fatores e a composição interna dos processos</p><p>psicomotores na criança, recorrendo, para o efeito, a uma bateria</p><p>psicomotora (BPM), que resulta de uma experiência psicopedagógica</p><p>com várias centenas de casos clínicos.</p><p>A bateria psicomotora (FONSECA, 1976 e 1981) compõe-se de sete</p><p>fatores psicomotores distribuídos pelas três unidades fundamentais de</p><p>Luria (1977) da seguinte forma:</p><p>Figura 2.12. – Três unidades fundamentais de Luria.</p><p>A adaptação original do modelo psiconeurológico de Luria, que se</p><p>aplica a todas as funções mentais superiores para o campo específico</p><p>da Psicomotricidade, é o objetivo fundamental do próximo capítulo,</p><p>onde iremos apresentar os fatores e os subfatores psicomotores, além</p><p>dos fundamentos metodológicos da observação psicomotora (OPM).</p><p>Capítulo 3</p><p>FATORES PSICOMOTORES E SUA</p><p>RELAÇÃO COM AS TRÊS UNIDADES</p><p>FUNCIONAIS</p><p>3.1. Fundamentos psiconeurológicos da bateria psicomotora</p><p>(BPM)</p><p>3.2. Apresentação, administração e cotação dos fatores</p><p>psicomotores (BPM)</p><p>3.3. Aspectos gerais da observação psicomotora</p><p>3.1. Fundamentos psiconeurológicos da bateria psicomotora</p><p>(BPM)</p><p>A adaptação original do modelo psiconeurológico de Luria,</p><p>constituído essencialmente a partir de lesões em adultos, para o campo</p><p>específico da Psicomotricidade na criança, não pode ser considerada</p><p>escrupulosamente fidedigna.</p><p>O exame neurológico clássico, desenvolvido a partir fundamentalmente</p><p>de adultos com desordens neurológicas óbvias, não é devidamente</p><p>adequado para avaliar o sistema nervoso de uma criança em</p><p>desenvolvimento. (BAX, 1970)</p><p>Efetivamente, como já analisamos atrás, o cérebro da criança e o</p><p>cérebro do adulto são órgãos diferenciados. A herança neurobiológica,</p><p>expressa em forma de funcionamento e desenvolvimento, apresenta</p><p>um quadro ontogenético complexo que não pode ser identificado com</p><p>um cérebro maturo. Fazer um exame neurológico na criança com as</p><p>mesmas técnicas dos adultos não torna, segundo Bax (1970), esse</p><p>exame eficaz ou significativo.</p><p>Paralelamente, o exame psicológico clássico, com os seus testes</p><p>psicométricos, não tentou ainda valorizar as funções psiconeurológicas</p><p>que sustentam os processos verbais e não verbais (FEUERSTEIN, 1979).</p><p>Daí, portanto, a dupla dificuldade que se oferece em elaborar tal</p><p>adaptação entre a Psiconeurologia e a Psicomotricidade na criança.</p><p>Desenvolver uma nova metodologia e abordar</p><p>psiconeurologicamente a Psicomotricidade que é em si uma tarefa</p><p>difícil e complexa. A nossa tentativa vai apenas no sentido de relacionar</p><p>e justificar os vários fatores e subfatores psicomotores com as três</p><p>unidades funcionais do cérebro, segundo o modelo luriano.</p><p>Apresentar um conjunto de tarefas que sejam significativas para tal</p><p>objetivo, que não sejam totalmente desprovidas de quantificação e que</p><p>não caiam em padronizações restritas, ao mesmo tempo que permitem</p><p>a detecção qualitativa de sinais funcionais desviantes e a análise dos</p><p>fatores psiconeurológicos subjacentes, é tentar contribuir para a</p><p>compreensão dos problemas de aprendizagem e de desenvolvimento</p><p>na criança. Foi dentro deste quadro de perspectivação clínica e</p><p>psicopedagógica que nasceu a bateria psicomotora (BPM).</p><p>A BPM é um dispositivo diferente das escalas de desenvolvimento</p><p>motor. Trata-se de um instrumento baseado em um conjunto de tarefas</p><p>que permite detectar deficits funcionais (ou substanciar a sua ausência)</p><p>em termos psicomotores, cobrindo a integração sensorial e perceptiva</p><p>que se relaciona com o potencial de aprendizagem da criança. Não</p><p>estabelecemos ainda normas precisas com a BPM, mas dela retiramos</p><p>dados sistemáticos de grande interesse para a identificação qualitativa</p><p>de problemas psicomotores e de aprendizagem.</p><p>Ao longo de dez anos de experiência clínica, a BPM sofreu inúmeras</p><p>adaptações, resultando de alguma forma de muitas centenas de</p><p>observações psicopedagógicas efetuadas em crianças com problemas</p><p>de desenvolvimento, de comportamento e de aprendizagem. Tem</p><p>respondido a várias necessidades, nomeadamente na identificação de</p><p>sinais atípicos ou desviantes, na detecção de problemas de</p><p>aprendizagem e na prescrição reeducacional e reabilitacional de muitas</p><p>crianças e jovens.</p><p>Embora seguramente com muitas limitações, a BPM tem</p><p>demonstrado a sua utilidade como um instrumento de observação do</p><p>perfil psicomotor e como um dispositivo clínico que pode ajudar à</p><p>compreensão dos problemas de comportamento e de aprendizagem</p><p>evidenciados pelas crianças e pelos jovens dos 4 aos 12 anos. E um</p><p>instrumento de identificação de sinais psicomotores, e não um exame</p><p>neurológico, porque não possui informação pormenorizada para apurar</p><p>um diagnóstico neurológico específico. Não é também um instrumento</p><p>que visa substituir os exames neurológicos ou psicológicos</p><p>padronizados: trata-se de um instrumento de observação que procura</p><p>captar a personalidade psicomotora da criança (FONSECA, 1976) e, ao</p><p>mesmo tempo, o grau de integridade dos sistemas funcionais</p><p>complexos, segundo o modelo de organização cerebral apresentado</p><p>por Luria (1973 e 1980).</p><p>Como advogam Touwen e Prechtl (1970), “não há testes</p><p>neurológicos infalíveis para identificar ou indicar quando é que o</p><p>cérebro funciona normalmente ou anormalmente”. As observações das</p><p>relações entre cérebro e aprendizagem não são simples, nem estão</p><p>totalmente esclarecidas, pois convém não esquecer que se trata da</p><p>observação funcional do órgão mais complexo do organismo. As</p><p>técnicas neurológicas tradicionais, segundo os mesmos autores, são</p><p>insuficientes para detectar sinais disfuncionais nas crianças sem lesão</p><p>cerebral. No futuro, pode ser possível identificar os sinais mais</p><p>significativos do exame neurológico, mas isto não é possível no</p><p>presente, pois escapam àquele muitos fatores psicológicos e cognitivos</p><p>que não nos permitem avaliar as funções psíquicas superiores. (LURIA,</p><p>1972)</p><p>Por outro lado, a informação que se pode obter da maioria dos</p><p>exames psicométricos não é suficientemente útil para localizar</p><p>disfunções psiconeurológicas, pois os seus dados quantificativos não</p><p>proporcionam a análise da estrutura e da composição interna dos</p><p>processos mentais tampouco a análise dos fatores que os compõem.</p><p>A BPM, pelo contrário, procura analisar qualitativamente os sinais</p><p>psicomotores, comparando-os com as funções dos sistemas básicos do</p><p>cérebro, subtraindo da sua aplicação clínica, consequentemente,</p><p>significações funcionais que possam explicar o potencial de</p><p>aprendizagem da criança observada.</p><p>A BPM não se situa na observação de sensações, reflexos ou</p><p>movimentos simples, mas na observação de funções que envolvem as</p><p>três unidades fundamentais do cérebro. A designação de fatores</p><p>psicomotores é aqui equivalente à noção de funções, e, por isso, os</p><p>fatores que compõem a BPM traduzem atividades complexas</p><p>adaptativas, com contribuições específicas no todo funcional, que</p><p>compreende a atividade mental expressa na Psicomotricidade.</p><p>Os fatores psicomotores distribuídos pelas três unidades funcionais</p><p>são apresentados como circuitos dinâmicos autorregulados, construídos</p><p>segundo o princípio da organização</p><p>vertical das estruturas do cérebro e</p><p>dependentes de uma hierarquização funcional, que ocorre no</p><p>desenvolvimento da criança. Os fatores psicomotores reunidos</p><p>funcionalmente compreendem uma constelação psicomotora, pois</p><p>cada um contribui particularmente para a organização global do</p><p>sistema funcional psicomotor.</p><p>Em suma, a BPM procura analisar qualitativamente a disfunção</p><p>psicomotora ou a integridade psicomotora que caracteriza a</p><p>aprendizagem da criança, tentando atingir uma compreensão</p><p>aproximada do modo como trabalha o cérebro e, simultaneamente,</p><p>dos mecanismos que constituem a base dos processos mentais da</p><p>Psicomotricidade.</p><p>Para poder levar a cabo esta qualificação da disfunção, é necessário</p><p>estabelecer uma relação detalhada entre os fatores psicomotores e as</p><p>unidades funcionais de Luria e, ao mesmo tempo, situar os sistemas</p><p>funcionais e respectivos substratos anatômicos, conforme o Quadro</p><p>3.1.</p><p>Pelo Quadro 3.1, verificamos que, a cada unidade funcional,</p><p>correspondem vários fatores psicomotores, que procuram demonstrar a</p><p>relação entre o modelo psiconeurológico de Luria e a BPM.</p><p>Assim, a primeira unidade funcional compreende a tonicidade e o</p><p>equilíbrio.</p><p>Unidade Funcional Fatores psicomotores Sistemas Substratos anatômicos</p><p>(1ª unidade) Regulação</p><p>tônica de alerta e dos</p><p>estados mentais:</p><p>Atenção. Sono. Seleção</p><p>da informação.</p><p>Regulação e ativação.</p><p>Vigilância-tonicidade.</p><p>Facilitação-inibição.</p><p>Modulação neurotônica.</p><p>Integração intersentorial.</p><p>Tonicidade Equilibração Formação reticulada.</p><p>Sistemas vestibulares e</p><p>proprioceptivos.</p><p>Medula. Tronco cerebral.</p><p>Cerebelo.</p><p>Estruturas subtalâmicas e</p><p>talâmicas.</p><p>(2ª unidade)</p><p>Recepção, análise e</p><p>armazenamento da</p><p>informação: Recepção,</p><p>análise e síntese</p><p>sensorial.</p><p>Organização espacial e</p><p>temporal. Simbolização</p><p>esquemática.</p><p>Decodificação e</p><p>codificação.</p><p>Processamento.</p><p>Armazenamento.</p><p>Integração perceptiva</p><p>dos proprioceptores e</p><p>dos telerreceptores.</p><p>Elaboração gnósica.</p><p>Lateralização Noção do</p><p>corpo.</p><p>Estruturação espacial-</p><p>temporal</p><p>Áreas associativas</p><p>corticais (secundárias e</p><p>terciárias).</p><p>Centro associativo</p><p>posterior.</p><p>Córtex cerebral.</p><p>Hemisfério esquerdo e</p><p>direito.</p><p>Lóbulo parietal</p><p>(tátilquinestésico).</p><p>Lóbulo occipital (visual).</p><p>Lóbulo temporal</p><p>(auditivo).</p><p>(3ª unidade)</p><p>Programação, regulação</p><p>e verificação da</p><p>atividade: Intenções.</p><p>Planificação motora.</p><p>Elaboração práxica.</p><p>Execução. Correção.</p><p>Sequencialização das</p><p>operações cognitivas.</p><p>Praxia global Praxia fina</p><p>Sistema piramidal</p><p>ideocinético. Áreas pré-</p><p>frontais (áreas 6 e 8).</p><p>Centro associativo</p><p>anterior.</p><p>Córtex motor.</p><p>Córtex pré(psico)motor.</p><p>Lóbulos frontais.</p><p>Quadro 3.1. – Relação entre os fatores psicomotores e as</p><p>unidades funcionais.</p><p>A tonicidade em Luria é equacionada com a função de alerta e de</p><p>vigilância que exige a mobilização de uma certa energia essencial à</p><p>ativação dos sistemas seletivos de conexão, sem os quais nenhuma</p><p>atividade mental pode ser processada, mantida ou organizada. A</p><p>tonicidade da BPM é definida essencialmente na sua componente</p><p>corporal, isto é, na tensão ativa em que se encontram os músculos,</p><p>quando a inervação e a vascularização estão intactas, processando a</p><p>ativação dos reflexos intrassegmentar, intersegmentar e</p><p>suprassegmentar que asseguram as acomodações adaptativas</p><p>posturais. Trata-se da estrutura básica que prepara e guia a atividade</p><p>osteomotora, controlando a modelação articular e garantindo o</p><p>ajustamento plástico e integrativo da amplitude dos movimentos. O</p><p>substrato neuroanatômico e o sistema funcional que compreende é a</p><p>formação reticulada centro integrador sensóriomotor básico,</p><p>perspectivada, quer nos seus sistemas ascendentes, quer descendentes.</p><p>A equilibração não é focada no modelo de Luria, mesmo quando se</p><p>refere à análise do movimento voluntário. Na BPM, a equilibração é</p><p>uma função determinante na construção do movimento voluntário,</p><p>condição indispensável de ajustamento postural e gravitacional, sem o</p><p>qual nenhum movimento intencional pode ser atingido. Movimento e</p><p>postura são indissociáveis, só coordenados e organizados corticalmente</p><p>se podem conceber em termos filogenéticos e ontogenéticos. De</p><p>acordo com inúmeras investigações, o centro regulador da equilibração</p><p>e o seu substrato anatômico fundamental é o cerebelo (essencialmente,</p><p>o neocerebelo, coadjuvado pelo núcleo vestibular do tronco cerebral e</p><p>igualmente por muitos outros núcleos mesencefálicos de integração</p><p>motora, postural e proprioceptiva.</p><p>Embora Luria não se refira ao fator equilibração como integrado na</p><p>primeira unidade funcional nem propriamente ao sistema cerebeloso</p><p>como um componente fundamental do cérebro, isto é, como centro de</p><p>estratégias postural-motoras, não restam dúvidas de que o cerebelo</p><p>está associado ao núcleo vestibular e ao mesencéfalo em termos</p><p>filogenéticos, e, por esse fato, estruturalmente integrado no tronco</p><p>cerebral, ao qual está fortemente conectado por complexos sistemas</p><p>interneuronais.</p><p>Em resumo, a primeira unidade funcional de Luria comporta, em</p><p>termos de fatores psicomotores da BPM, a tonicidade e a equilibração,</p><p>fatores de grande complexidade intraestrutural e com inúmeras</p><p>conexões interestruturais, ambos participando nas primeiras conquistas</p><p>antigravíticas do desenvolvimento humano e nas formas básicas de</p><p>integração sensorial. Cabe a esses dois fatores a organização</p><p>protomotora e arquimotora, pois entre ambos opera-se uma</p><p>complicada interação e cofunção, que constitui o alicerce fundamental</p><p>da organização funcional da Psicomotricidade.</p><p>A segunda unidade funcional compreende os seguintes fatores</p><p>psicomotores da BPM: lateralização, noção do corpo e estruturação</p><p>espaço-temporal.</p><p>A lateralização no modelo luriano respeita a progressiva</p><p>especialização dos dois hemisférios como o resultado das funções</p><p>socio-históricas do trabalho e da linguagem, tendo adotado inclusive a</p><p>designação de hemisfério “dominante” para o esquerdo e de</p><p>“subdominante” para o direito. Para Luria, o hemisfério esquerdo</p><p>passa a assumir um papel determinante nos processos psíquicos</p><p>superiores, enquanto o hemisfério direito se toma um instrumento</p><p>básico do pensamento espacial e da orientação visório-perceptiva. Na</p><p>BPM, a lateralização retrata a organização inter-hemisférica em termos</p><p>de dominância: telerreceptora (ocular e auditiva), proprioceptora</p><p>(manual e pedal) e evolutiva (inata e adquirida). A identificação da</p><p>predominância seletiva de um dos lados do corpo reflete a qualidade</p><p>da integração sensorial, quer intracorporal (vestibular e tátil-</p><p>quinestésica), quer extracorporal (visual e auditiva), daí a sua</p><p>importância na organização funcional da Psicomotricidade e na</p><p>atividade mental superior. Efetivamente, a assimetria funcional intra-</p><p>hemisférica é uma condição da encefalização e só se conquista ao</p><p>longo do desenvolvimento ontogenético.</p><p>No ser humano, a especialização hemisférica está relacionada com a</p><p>evolução das praxias unilaterais e, consequentemente, com o</p><p>desenvolvimento das aquisições linguísticas, daí a importância da</p><p>integração bilateral do corpo, cujo subtrato neuroanatômico inclui as</p><p>conexões inter-hemisféricas do corpo caloso e, complementarmente, as</p><p>subestruturas neuronais do sistema límbico, que integram os grandes</p><p>centros do comportamento emocional e da organização paleomotora.</p><p>A lateralização é consequentemente um produto final da organização</p><p>sensorial e um processo central psicomotor, na medida em que o</p><p>cérebro tem de processar primeiro cinco sensações, antes de processar</p><p>informações mais complexas (símbolos), de onde podem resultar</p><p>problemas de organização aferente e eferente que se implicam na</p><p>aprendizagem.</p><p>A noção do corpo no modelo de Luria ocupa o lóbulo parietal como</p><p>unidade especializada na integração das informações “sensoriais</p><p>globais e vestibulares”, evocando mesmo uma espécie de “promoção</p><p>de proprioceptividade” em nível dos hemisférios corticais. A designação</p><p>original de “zona cutâneo-quinestésica” é limitada anteriormente pelas</p><p>regiões pós-centrais, onde os membros inferiores e o tronco estão</p><p>representados superiormente, e os membros superiores e a face estão</p><p>representados</p><p>inferiormente, como ilustra o “homúnculo invertido”.</p><p>Para Luria, esta é uma região particularmente importante para a</p><p>integração dos movimentos globais associados ao espaço e à formação</p><p>da imagem do corpo. Na BPM, a noção do corpo (somatognosia)</p><p>ajusta-se perfeitamente à noção pavloviana de analisador motor, onde</p><p>são projetadas somatotopicamente as informações intracorporais, cujo</p><p>substrato neuroanatômico compreende os lóbulos parietais.</p><p>A estruturação espaço-temporal, de acordo com Luria, ocupa as</p><p>áreas primárias, secundárias e terciárias dos analisadores visuais e</p><p>auditivos, respectivamente projetados somatotopicamente nos lóbulos</p><p>occipitais e nos lóbulos temporais. Na BPM, a estruturação espacial</p><p>envolve funções de recepção, processamento e armazenamento (curto-</p><p>termo) espacial, que requerem uma estruturação perceptivo-visual, que</p><p>envolve as áreas visuais do córtex occipital. A estruturação temporal</p><p>põe em jogo, da mesma forma, a recepção, o processamento e o</p><p>armazenamento (curto-termo) rítmico, naturalmente dependentes da</p><p>integração das zonas nucleares auditivas do córtex temporal.</p><p>Muitas das tarefas da BPM implicam processos gnósicos de</p><p>decodificação e de codificação visual e tátil-quinestésica, quer em</p><p>termos interneurossensoriais (áreas secundárias), quer integrativos</p><p>(áreas terciárias) e, por isso, as características fundamentais da segunda</p><p>unidade funcional são postas em atividade.</p><p>A terceira unidade funcional integra os dois últimos fatores</p><p>psicomotores da BPM: praxia global e praxia final.</p><p>A praxia global no modelo de Luria compreende, como o próprio</p><p>nome sugere, as áreas pré-motoras mais relacionadas com a área 6,</p><p>visto compreender tarefas motoras sequenciais globais, onde está em</p><p>causa a participação de grandes grupos musculares. A praxia fina, por</p><p>constar de tarefas de dissociação digital e de preensão construtiva com</p><p>significativa participação de movimentos dos olhos e da coordenação</p><p>oculomanual e da fixação da atenção visual, está mais relacionada com</p><p>a área 8 no modelo luriano. Em ambas as tarefas práxicas da BPM, a</p><p>programação, a regulação e a verificação da atividade entram em jogo,</p><p>daí o envolvimento das regiões pré-frontais e, posteriormente, do</p><p>córtex motor (área 4).</p><p>Tomando como referência o modelo de Luria, os sete fatores</p><p>psicomotores da BPM constituem uma verdadeira constelação</p><p>psicomotora, trabalhando em conjunto de forma integrada e</p><p>harmoniosa, cada um dos quais realizando a sua própria contribuição</p><p>para a organização psicomotora global.</p><p>A analogia entre o modelo psiconeurológico de Luria e os fatores</p><p>psicomotores da BPM está próxima, podendo distinguir-se as três</p><p>unidades principais, cuja participação é necessária a qualquer tipo de</p><p>atividade psicomotora.</p><p>A primeira unidade regula o tônus e o ajustamento postural. A</p><p>segunda unidade assegura o processamento da informação</p><p>proprioceptiva (noção do corpo) e exteroceptiva (estruturação espaço-</p><p>temporal). Finalmente, a terceira programa, regula e verifica a atividade</p><p>práxica.</p><p>Em termos ontogenéticos, a organização destes sete fatores</p><p>também confirma a hierarquização vertical do modelo luriano:</p><p>— tonicidade: aquisições neuromusculares, conforto tátil e</p><p>integração de padrões motores antigravíticos (do nascimento aos</p><p>12 meses);</p><p>— equilibração: aquisição da postura bípede, segurança</p><p>gravitacional, desenvolvimento dos padrões locomotores (dos 12</p><p>meses aos 2 anos);</p><p>— lateralização: integração sensorial, investimento emocional,</p><p>desenvolvimento das percepções difusas e dos sistemas aferentes e</p><p>eferentes (dos 2 aos 3 anos);</p><p>— noção do corpo: noção do Eu, consciencialização corporal,</p><p>percepção corporal, condutas de imitação (dos 3 aos 4 anos);</p><p>— estruturação espaço-temporal: desenvolvimento da atenção</p><p>seletiva, do processamento da informação, coordenação espaço-</p><p>corpo, proficiência da linguagem (dos 4 aos 5 anos);</p><p>— praxia global: coordenação oculomanual e oculopedal,</p><p>planificação motora, integração rítmica (dos 5 aos 6 anos);</p><p>— praxia fina: concentração, organização, especialização</p><p>hemisférica (dos 6 aos 7 anos).</p><p>Trata-se naturalmente de uma perspectiva ontogenética</p><p>simplificada, contudo confirmadora do modelo de organização</p><p>funcional de Luria e do modelo de hierarquização de muitos outros</p><p>autores. (VYGOTSKY, 1960; JACKSON, 1834: WALLON, 1925 E 1949; E</p><p>AYRES, 1982)</p><p>A apresentação global da BPM está assim feita, quer não só na sua</p><p>adaptação original ao modelo de organização do cérebro de Luria mas</p><p>também nos respectivos substratos neuroanatômicos e concomitantes</p><p>sistemas funcionais.</p><p>Passemos então à administração e à cotação de cada um dos sete</p><p>fatores que constituem a BPM. Cada fator será definido em termos</p><p>psiconeurológicos e subdividido nos seus subfatores, conforme a ficha</p><p>de registro da BPM. As condições que evocam a resposta da criança</p><p>serão descritas, as formas de registro e de cotação definidas em termos</p><p>comportamentais, e algumas considerações serão apresentadas sobre a</p><p>significação psiconeurológica e funcional dos sinais detectados.</p><p>Em todos os fatores e os subfatores, o nível de realização é medido</p><p>numericamente da seguinte forma:</p><p>— cotação 1 ponto (apraxia): ausência de resposta, realização</p><p>imperfeita, incompleta, inadequada e descoordenada (muito fraco e</p><p>fraco; disfunções evidentes e óbvias, objetivando dificuldades de</p><p>aprendizagem significativas);</p><p>— cotação 2 pontos (dispraxia): realização fraca com dificuldade de</p><p>controle e sinais desviantes (fraco, insatisfatório; disfunções ligeiras,</p><p>objetivando dificuldades de aprendizagem);</p><p>— cotação 3 pontos (eupraxia): realização completa, adequada e</p><p>controlada (bom; disfunções indiscerníveis, não objetivando</p><p>dificuldades de aprendizagem);</p><p>— cotação 4 pontos (hiperpraxia): realização perfeita, precisa,</p><p>econômica e com facilidades de controle (excelente, ótimo;</p><p>objetivando facilidades de aprendizagem).</p><p>Trata-se de um critério de cotação que não é original, pois é</p><p>igualmente praticado por vários autores, como, por exemplo, Touwen e</p><p>Prechtl (1970) (The Neurological Examination of the Child with Minor</p><p>Nervous Dysfunction); Roach e Kephart (1966) (The Purdue Perceptual</p><p>Motor Survey); Mutti, Sterling e Spalding (1978) (Quick Neurological</p><p>Screening Test). Cada subfator é consequentemente cotado de acordo</p><p>com este critério, sendo a cotação média arredondada e</p><p>posteriormente transferida para o perfil que se encontra na primeira</p><p>página da ficha de registro da BPM (em anexo). O perfil psicomotor é</p><p>assim apurado, estabelecendo-se então a inter-relação dos sinais e a</p><p>sua coesão com o modelo psiconeurológico luriano. A significação</p><p>clínica dos sinais reveste-se agora mais relevante, pois permite analisar</p><p>a estrutura dos fatores psicomotores e a composição interna dos</p><p>processos psicomotores mais complexos.</p><p>3.2. Apresentação, administração e cotação dos fatores</p><p>psicomotores (BPM)</p><p>O desenvolvimento psicomotor já há muito foi reconhecido por</p><p>inúmeros especialistas em diversas culturas como um componente vital</p><p>do desenvolvimento global da criança. (DUPRÉ, 1907; VERMEYLEN,</p><p>1923; WALLON, 1925; OZERETSKI, 1931; GESELL, 1941; GUILMAIN,</p><p>1948; PIAGET, 1956; AJURIAGUERRA, 1950, 1959, 1960, 1961 E</p><p>1974; KEPHART, 1960; GUBBAY, 1965; ABERCROMBIE, 1968; AYRES,</p><p>1977 E 1982; CRATTY, 1966, 1969 e 1973; e BENTON, 1979)</p><p>Muitos autores nas áreas da Neurologia, da Psicologia e da</p><p>Educação têm insistentemente reforçado a importância das relações</p><p>entre o desenvolvimento psicomotor e a aprendizagem. Harlow e</p><p>Bromer (1942) demonstraram que o córtex motor exerce uma função</p><p>determinante em todas as funções de aprendizagem, quer não</p><p>simbólicas, quer simbólicas. Penfield e Roberts (1959), Hebb (1949),</p><p>Illingworth (1960) e muitos outros trouxeram contribuições históricas</p><p>sobre as multirrelações entre os componentes sensoriais e motores da</p><p>atividade cerebral, confirmando que qualquer estímulo que atinja o</p><p>córtex cerebral produz uma ativação motora concomitante.</p><p>A integração psicomotora na criança ilustra e materializa,</p><p>consequentemente, a totalidade dos padrões da sua aprendizagem.</p><p>orientações metodológicas sobre reeducação psicomotora</p><p>nascem de um efeito estimulador da grande obra de Wallon.</p><p>Guilmain definiu da seguinte forma os objetivos da reeducação</p><p>psicomotora:</p><p>Seguindo em todas as crianças a organização das funções do sistema</p><p>nervoso à medida que se opera a maturação, podemos reabilitar as</p><p>manifestações próprias das suas funções em causa.</p><p>O papel da função tônica (sobre a qual repousam as atitudes e os</p><p>alicerces da vida mental) e da emoção (como meio de ação sobre o e</p><p>pelo outro) nos progressos da atividade de relação são encarados, de</p><p>acordo com WalIon, como processos básicos da intervenção</p><p>psicomotora. A importância da atividade postural e da atividade</p><p>sensório-motora com pontos de partida da atividade intelectual são</p><p>eminentemente defendidos na perspectiva do desenvolvimento da</p><p>criança com os célebres estágios wallonianos: impulsivo,</p><p>tônicoemocional, sensório-motor, projetivo e personalístico. Os estudos</p><p>clínicos sobre a síndrome psicomotora, como infantilismo motor,</p><p>assinergia, extrapiramidal inferior, extrapiramidal médio, extrapiramidal</p><p>superior, cerebeloso, hipertonia, automatismo emotivo-motor e de</p><p>insuficiência frontal, são outro avanço significativo no estudo das</p><p>relações entre a Psicomotricidade, a inteligência, a afetividade e a</p><p>sociabilidade, como sublinha parte da obra de Ajuriaguerra.</p><p>A obra de Wallon continuou durante décadas a influenciar a</p><p>investigação sobre crianças instáveis, impulsivas, emotivas, obsessivas,</p><p>apáticas, delinquentes etc. A influência da sua obra alastrou-se a vários</p><p>campos de formação, quer psiquiátrica, quer psicológica e pedagógica.</p><p>Correntes médico-pedagógicas (DESCOEUDRES) e de educação física</p><p>(DEMENY, HÉBERT, DALCROZE etc.) são igualmente influenciadas pelo</p><p>pensamento original de Wallon, sendo o principal responsável pelo</p><p>nascimento do movimento de reeducação psicomotora, superiormente</p><p>conduzido, anos mais tarde, pela mão de Ajuriaguerra e Soubiran.</p><p>Independentemente de Wallon ter defendido, de acordo com o</p><p>conhecimento neurológico da época, uma perspectiva localizacionista</p><p>(AJURIAGUERRA, 1974), os seus trabalhos são comparados aos de</p><p>Homburger e Gourevitch, ao mesmo tempo em que tendem a</p><p>perspectivar, sobretudo, uma nova visão da Psicologia da criança (Do</p><p>Ato ao Pensamento).</p><p>Para WaIlon (1925), o movimento é a única expressão e o primeiro</p><p>instrumento do psiquismo. O alcance desta dimensão do movimento e</p><p>do corpo da criança permite a este célebre autor francês apresentar</p><p>uma concepção original da evolução mental. Wallon advoga , em</p><p>1929, que o desenvolvimento psicológico da criança é o resultado da</p><p>oposição e da substituição de atividades que precedem umas às outras.</p><p>Esta concepção hierárquica e dialética é amplamente defendida por</p><p>muitos autores atuais em vários quadrantes do mundo. (AUSUBEL,</p><p>1970; BRUNER, 1970; ZAPOROZHETS e ELKONIN, 1971; ERICKSON,</p><p>1963 etc.)</p><p>Wallon, ao longo da sua obra, esforçou-se por demonstrar a ação</p><p>recíproca entre funções mentais e funções motoras (“habilidade</p><p>manual”), tentando argumentar que a vida mental não resulta de</p><p>relações unívocas ou de determinismos mecanicistas. Quando muito,</p><p>para Wallon, a vida mental está sujeita, sim, ao determinismo dialético</p><p>de ambas as funções. Nos anos 60, a Universidade da Salpêtrière</p><p>confere o certificado de capacidade em reeducação da</p><p>Psicomotricidade (fevereiro de 1963), de novo sob a ação científica de</p><p>Wallon, que cria a importante revista psicológica “Enfance”, onde faz</p><p>publicar obras de grande relevo científico (“Kinesthésie e Image Visuelle</p><p>de Corps Propre”, “Espace Postural e Espace Environnant” etc.).</p><p>Citando os neurologistas Rybot, Bonnier, Pick, Head, Schilder etc.,</p><p>Wallon, por meio do conceito do esquema corporal, introduz,</p><p>provavelmente, dados neurológicos nas suas concepções psicológicas,</p><p>motivo esse que o distingue de outro grande vulto da Psicologia,</p><p>Piaget, que muito influenciou também a teoria e a prática da</p><p>Psicomotricidade. (FONSECA, 1978)</p><p>Wallon refere-se ao esquema corporal não como uma unidade</p><p>biológica ou psíquica, mas como uma construção, elemento de base</p><p>para o desenvolvimento da personalidade da criança.</p><p>De novo, a influência direta ou indireta deste autor se faz sentir: daí</p><p>resultam, na década de 70, os trabalhos na esfera da educação de Picq</p><p>e Vayer, le Boulch, Lapierre e Aucouturier, Defontaine etc.</p><p>Paralelamente, estimula os trabalhos psicológicos da escola de</p><p>Zazzo (Laboratório de Psicologia da Criança), principalmente sobre as</p><p>pesquisas da imagem especular. Os seus conceitos são reexaminados</p><p>por Ajuriaguerra, Stambak, N. Galifret-Granjon e Bergés no Hospital</p><p>Henri-Rousselle, aí tendo marcado influência na formação de</p><p>terapeutas, além de ter tido implicações extraordinárias em outras</p><p>áreas, nomeadamente na da Pedopsiquiatria (BERGERON, HEUYER,</p><p>KOUPERNIK etc.) e na da Psicologia do Desenvolvimento (MALRIEU,</p><p>LURÇAT, LEZINE, TRAN-THONG etc.).</p><p>Depois de sair do Hospital Henri-Rousselle, Ajuriaguerra, ao dirigir a</p><p>clínica Bel-Aire, em Genebra, continua a ser o líder da escola</p><p>francófona de Psicomotricidade. Aí desenvolve intensa atividade</p><p>científica, prosseguindo e continuando a obra de Wallon. Ao publicar</p><p>trabalhos sobre o tônus e ao desenvolver métodos de relaxamento,</p><p>além de se tornar um notável psiquiatra infantil de renome mundial,</p><p>Ajuriaguerra vai consolidando os princípios e as bases da</p><p>Psicomotricidade. Com Hécaen, publica obras de grande profundidade</p><p>científica (Méconnaissances e Hallucinations Corporelles e Le Cortex</p><p>Cérébral), que ajudam a aclarar o conceito de Psicomotricidade.</p><p>No campo educacional, Le Boulch (psicocinética) e Ramain</p><p>(educação das atitudes) divulgam as obras de Wallon e Ajuriaguerra.</p><p>No campo terapêutico, Soubiran e Mazo desenvolvem pesquisas em</p><p>muitos domínios lançados por aqueles pioneiros. A Sociedade Francesa</p><p>de Educação e Reeducação Psicomotora, criada em 1968 por Vayer,</p><p>Lapierre e Aucoutrier, transforma os conceitos de “ginástica corretiva”</p><p>e influencia a maioria das escolas francesas, belgas, suíças e italianas.</p><p>Na mesma época, surgem os métodos de Borel-Maisonny e o “Bon</p><p>Départ”, que igualmente sofrem a sua evolução.</p><p>WaIlon, como pai das “técnicas do corpo” (CAMUS, 1981),</p><p>continua a influenciar o pensamento psicológico da década de 70. Os</p><p>estudos da comunicação afetiva, da sociabilização, das emoções etc.</p><p>estão dentro das linhas por ele traçadas. Wallon é, de fato, a pedra</p><p>angular do edifício da Psicomotricidade, onde não se pode negligenciar</p><p>obviamente o papel das obras de Piaget, Freud e de Ajuriaguerra.</p><p>A fecundidade do pensamento de Wallon continua em permanente</p><p>atualização, uma vez que perspectiva o estudo da criança na sua</p><p>totalidade e renuncia às abordagens unidimensionais ou setoriais.</p><p>A Psicomotricidade, à luz de Wallon e de Ajuriaguerra, concebe os</p><p>determinantes biológicos e culturais do desenvolvimento da criança</p><p>como dialéticos e não como redutíveis uns aos outros. Daí a sua</p><p>importância para elaborar uma teoria psicológica que estabeleça</p><p>relações entre o comportamento e o desenvolvimento da criança e a</p><p>maturação do seu sistema nervoso, pois, só nessa medida, se podem</p><p>construir estratégias educativas, terapêuticas e reabilitativas adequadas</p><p>às suas necessidades específicas.</p><p>O conceito de Psicomotricidade ganhou assim uma expressão</p><p>significativa, uma vez que traduz a solidariedade profunda e original</p><p>entre a atividade psíquica e a atividade motora. O movimento é</p><p>equacionado como parte integrante do comportamento. A</p><p>Psicomotricidade é hoje concebida como a integração superior da</p><p>motricidade, produto de uma relação inteligível entre a criança e o</p><p>meio, e tem instrumento privilegiado por meio do qual a consciência se</p><p>forma e materializa-se.</p><p>Paralelamente, os autores americanos, partindo de concepções</p><p>perceptivo-motoras baseadas em ações experimentais, colocaram o</p><p>desenvolvimento da percepção e do movimento em termos de</p><p>interdependência e não de mútua exclusão. Strauss, Werner, Hebb e</p><p>Gesell, posteriormente Bruner e Piaget, influenciam tais correntes de</p><p>pensamento, onde</p><p>Os</p><p>trabalhos de Gesell e Amatruda (1941) e seus continuadores (1984)</p><p>não deixam dúvidas sobre o papel das experiências sensório-motoras e</p><p>perceptivo-motoras no desenvolvimento das competências de</p><p>aprendizagem. As relações entre psicomotricidade e aprendizagem</p><p>estão efetivamente inter-relacionadas em termos de desenvolvimento</p><p>psiconeurológico.</p><p>A qualidade do perfil psicomotor da criança, porque reflete o grau</p><p>de organização neurológica das três principais unidades, segundo Luria,</p><p>está indubitavelmente associada ao seu potencial de aprendizagem,</p><p>quer em termos de integridade, quer fundamentalmente em termos de</p><p>dificuldade. Foi das experiências com crianças com dificuldades de</p><p>aprendizagem (FONSECA, 1976) que resultou a BPM, na medida em</p><p>que o trabalho com essas crianças permite visualizar, detectar e isolar</p><p>muitas dimensões do processo de aprendizagem, exatamente porque</p><p>ele aí decorre de forma mais lenta e de forma mais atípica e desviante.</p><p>A BPM construiu-se com base nesta ideia fundamental, pois a sua</p><p>finalidade essencial é detectar, identificar crianças com dificuldades de</p><p>aprendizagem. O reconhecimento precoce de uma dificuldade de</p><p>aprendizagem é, por outro lado, um objetivo fundamental de todo o</p><p>educador, por isso, a BPM não passa de um instrumento</p><p>psicopedagógico, porque pode ser usado com tais intenções. Identificar</p><p>crianças que não possuem as competências psicomotoras necessárias à</p><p>sua aprendizagem e ao seu desenvolvimento é, pois, o objetivo e o</p><p>propósito da BPM. Objetivo que não se esgota apenas na identificação</p><p>do perfil psicomotor, na medida em que está nela subjacente a</p><p>edificação de estratégias habilitativas e reabilitativas.</p><p>A BPM não é um teste no sentido tradicional, é uma bateria de</p><p>observação que permite ao prático (educador, professor, psicólogo,</p><p>terapeuta etc.) observar vários componentes do comportamento</p><p>psicomotor da criança de uma forma estruturada e não estereotipada.</p><p>A BPM compõe-se de sete fatores psicomotores: tonicidade,</p><p>equilibração, lateralização, noção do corpo, estruturação espaço-</p><p>temporal, praxia global e praxia fina, subdivididos em 26 subfatores.</p><p>Os fatores e os subfatores, que, no fundo, resumem as tarefas da</p><p>BPM, foram adaptados de muitos estudos e experiências, quer de</p><p>exames psiconeurológicos, como ainda de escalas de desenvolvimento</p><p>e de vários exames de neurologia pediátrica.</p><p>De todos eles, temos de salientar:</p><p>— quanto à observação psicomotora global: Ajuriaguerra (1959,</p><p>1960 e 1962); Touwen e Prechtl (1970); Roach e Kephart (1966);</p><p>Mutti, Sterling e Staloing (1978); Christensen (1974) etc.;</p><p>— quanto à observação da tonicidade: Stambak (1973); Saint-Anne</p><p>Dargassies (1968); Bobath (1966) etc.;</p><p>— quanto à observação da equilibração: Wallon (1958); Ayres</p><p>(1977 e 1982) etc.;</p><p>— quanto à lateralização: Ajuriaguerra e Hécaen (1960); Benton</p><p>(1959); Guilmain (1948) etc.;</p><p>— quanto à noção do corpo: Wintsch (1935); Goodnough (1957);</p><p>Bergés e Lézine (1965) etc.;</p><p>— quanto à estruturação espaço-temporal: Soubiran e Mazo</p><p>(1965); Stamback (1964);</p><p>— quanto às praxias: Bergés (1968); Ozeretski (1936); Ayres (1977);</p><p>McCarron (1976) etc.</p><p>A BPM é também o resultado de microdescobertas, de iluminações</p><p>isoladas e inabituais de arranjos particulares e originais que nasceram</p><p>de uma prática clínica e reeducativa com muitas crianças com</p><p>dificuldades de aprendizagem, sem as quais não seria possível</p><p>construíla com um mínimo de coerência e de utilidade.</p><p>As tarefas que compõem a BPM dão oportunidade suficiente para</p><p>identificar o grau de maturidade psicomotora da criança e detectar</p><p>sinais desviantes, que podem nos ajudar a compreender as</p><p>discrepâncias evolutivas de muitas crianças em situação de</p><p>aprendizagem escolar pré-primária e primária.</p><p>Podem-se observar as estruturas tônico-musculares das articulações</p><p>proximais e distais, o controle vestibular e proprioceptivo postural, a</p><p>segurança gravitacional, o domínio do equilíbrio estático e dinâmico, a</p><p>dominância manual e telerreceptiva, a somatognosia e o grau de</p><p>organização tátil-quinestésica do corpo, a orientação e a organização</p><p>espacial, a recepção e a memorização do ritmo, a dissociação, a</p><p>planificação e a sequencialização dos movimentos, a preensão e a</p><p>proficiência da motricidade fina etc.</p><p>Paralelamente, a BPM dá oportunidade para observar as desordens</p><p>da atenção, as aquisições de processamento da informação visual e</p><p>auditiva, a competência linguística, a orientação espacial e temporal, a</p><p>estrutura cognitiva da criança, o comportamento emocional etc.</p><p>A BPM é útil para fins de identificação e de ratificação de</p><p>dificulçiades de aprendizagem e de psicomotricidade; todavia, não foi</p><p>construída para identificar ou classificar um deficit neurológico</p><p>tampouco serve para diagnosticar uma disfunção cerebral, nem uma</p><p>lesão cerebral. Quando muito, fornece alguns dados que nos permitem</p><p>chegar a uma disfunção psiconeurológica de aprendizagem ou a uma</p><p>disfunção psicomotora (dispraxias).</p><p>A BPM apresenta condições e oportunidades para estudar a</p><p>Psicomotricidade atípica, podendo no seu todo ou em alguns fatores</p><p>ser utilizada para estudar a Psicomotricidade em deficientes visuais,</p><p>deficientes da comunicação, deficientes socioemocionais etc. Como</p><p>ensaio experimental, já foi aplicada em um estudo da equilibração em</p><p>deficientes auditivos (FONSECA, 1984) e aplicada na globalidade em</p><p>pessoas idosas (FONSECA, MARIA e HENRIQUES, 1 984), tendo</p><p>provado alguma utilidade como instrumento de detecção de sinais</p><p>disfuncionais. Outras se seguirão nesta linha de pesquisa entre a</p><p>Psicomotricidade e a educação especial e reabilitação.</p><p>O resultado total da BPM é obtido cotando nos quatro parâmetros</p><p>já apresentados todos os subfatores, sendo a cotação média de cada</p><p>fator arredondada. A cotação assim obtida traduz de forma global cada</p><p>fator, cotação essa que será transferida para a primeira página onde se</p><p>encontra o respectivo perfil psicomotor.</p><p>A cotação máxima da prova é de 28 pontos (4 x 7 fatores), a</p><p>mínima é de 7 pontos (1 x 7) e a média é de 14 pontos.</p><p>Com base nos respectivos intervalos pontuais, pode construir-se</p><p>uma “escala”, que aponta para os seguintes valores:</p><p>Pontos da BPM Tipo de perfil psicomotor Dificuldades de aprendizagem</p><p>27-28................</p><p>22-26................</p><p>14-21................</p><p>9-13 ................</p><p>7-8 ...................</p><p>Superior</p><p>Bom</p><p>Normal</p><p>Dispráxico</p><p>Deficitário</p><p>—</p><p>—</p><p>—</p><p>Ligeiras (específicas)</p><p>Significativas</p><p>(moderadas ou severas</p><p>Quadro 3.2. – Escala de pontos da BPM</p><p>Os perfis psicomotor superior e bom (perfil hiperpráxico) são</p><p>obtidos por crianças que não apresentam dificuldades de</p><p>aprendizagem específica e, por isso, apresentam uma organização</p><p>psiconeurológica normal. Estes perfis não deverão apresentar em</p><p>nenhum fator (e não subfator) uma pontuação inferior a 3. Nesse caso,</p><p>o perfil apresenta um fator cujo nível de realização, fraco e com sinais</p><p>desviantes, sugere um outro tipo de análise.</p><p>O perfil psicomotor normal (perfil eupráxico) é obtido por crianças</p><p>sem dificuldades de aprendizagem, podendo, no entanto, apresentar</p><p>fatores psicomotores já mais variados e diferenciados. O nível de</p><p>realização é completo, adequado e controlado na maioria dos fatores,</p><p>podendo surgir um ou outro subfator que revela imaturidade ou</p><p>imprecisão de controle. Trata-se de crianças sem problemas</p><p>psicomotores, visto não se detectarem sinais desviantes. Identificar</p><p>crianças sem problemas é em si algo que tem implicações importantes</p><p>no campo médico e no campo psicopedagógico. A BPM tem condições</p><p>para exercer esta função de identificação, cuja significação é óbvia por</p><p>várias razões. É pouco provável que as crianças com perfil normal</p><p>tenham dificuldades de aprendizagem significativas ou apresentem</p><p>sinais de disfunção cerebral mínima. Essa condição, porém, não é</p><p>exclusiva.</p><p>O perfil psicomotor dispráxico (perfil dispráxico) identifica a criança</p><p>com dificuldades de aprendizagem ligeiras, traduzindo já a presença de</p><p>um ou mais sinais desviantes, que assumem significação</p><p>neuroevolutiva, consoante à idade e à severidade do sintoma que</p><p>apresenta a criança. Trata-se de crianças que realizam as tarefas com</p><p>dificuldades de controle e com combinações de sinais desviantes, que</p><p>se espalham pelos vários fatores da BPM. É fácil identificar problemas</p><p>de equilíbrio, a que estão associados problemas vestibulares e</p><p>consequentes sinais de desatenção e impulsividade; problemas de</p><p>lateralização; problemas de integração sensorial, não captando,</p><p>elaborando ou expressando informações convenientemente; problemas</p><p>práxicos em movimentos globais ou finos etc. A emergência do padrão</p><p>dispráxico revela que vários fatores se encontram, em termos</p><p>psiconeurológicos, hesitantemente integrados e organizados,</p><p>suspeitando-se de uma disfunção psiconeurológica dos dados táteis,</p><p>vestibulares e proprioceptivos que interferem com a capacidade de</p><p>planificar ações, daí a sua repercussão na aprendizagem. E um</p><p>conjunto de manifestações motoras (produtos finais) que encerram</p><p>problemas e processos de integração e de elaboração, ou seja, revelam,</p><p>em certa medida, a forma como o cérebro processa e integra</p><p>informações sensoriais.</p><p>O perfil psicomotor deficitário (perfil apráxico) é obtido por crianças</p><p>com dificuldades de aprendizagem significativas do tipo moderado ou</p><p>severo. Trata-se de crianças que obviamente apresentam sinais</p><p>disfuncionais evidentes, equivalentes a disfunções psiconeurológicas,</p><p>cujo potencial de aprendizagem se caracteriza por uma lenta, ou muito</p><p>lenta, modificabilidade. As crianças que obtenham esse perfil não</p><p>realizam ou realizam de forma imperfeita e incompleta a maioria das</p><p>tarefas da BPM.</p><p>A obtenção dos perfis permite ao observador considerações</p><p>pertinentes e relevantes, não só quanto à sua relação com as três</p><p>unidades funcionais de Luria, objetivando e isolando os sinais de forma</p><p>mais coerente, mas também ao encaminhamento a dar ao caso e</p><p>quanto às estrátégias reabilitativas a implementar.</p><p>A interpretação dos resultados da BPM deve levar em conta que</p><p>— não é um teste nem permite a localização da disfunção; quando</p><p>muito, situa-a clínica e funcionalmente dentro de cada uma das três</p><p>unidades funcionais lurianas;</p><p>— uma criança neurologicamente intacta deve ter pouca</p><p>dificuldade com qualquer das tarefas depois dos oito anos de idade;</p><p>— uma pessoa (criança, adulto ou pessoa idosa) com uma síndrome</p><p>cerebral orgânica falha em muitas tarefas da bateria. Problemas de</p><p>tremor, desorientação espacial, assomatgnosias, apraxias e agnosias</p><p>são efetivamente sintomas patológicos que ocorrem em qualquer</p><p>idade.</p><p>A administração da BPM é relativamente simples. Os materiais que</p><p>requer são extremamente econômicos e destituídos de qualquer</p><p>sofisticação.</p><p>A BPM em si pode levar cerca de 30 a 40 minutos para um</p><p>observador experimentado e treinado. Tempo adicional deverá ser</p><p>equacionado para o contato com os pais ou com os professores e para</p><p>a anamnese.</p><p>A folha de registro fornece os parâmetros para serem avaliadas as</p><p>tarefas da BPM, apresentando vários espaços para registrar o estilo</p><p>psicomotor da criança e todos os sinais relevantes do seu</p><p>comportamento.</p><p>O observador deve seguir as direções de cada prova segundo as</p><p>condições que definem cada tarefa e ter uma experiência adequada a</p><p>fim de administrar a BPM com um mínimo de eficiência. Ao fim de 20</p><p>casos, pode considerar-se que o treino do observador inicial está</p><p>concluído. Só depois de uma certa experiência, deve-se realizar a BPM</p><p>independentemente. A avaliação subjetiva das tarefas, as relações dos</p><p>sinais e as suas constelações disfuncionais só se obtêm após um</p><p>mínimo de prática. A comparação de casos, o seu estudo e a sua inter-</p><p>relação necessitam de um mínimo de experiência de observação.</p><p>Aprender a observar em Psicomotricidade é uma experiência que</p><p>envolve uma certa maturidade, que só se adquire com a prática, estudo</p><p>e reflexão. É recomendável que o observador, antes de passar por essa</p><p>experiência, experimente em simulacro formativo a situação de</p><p>observado, com a finalidade de mais tarde compreender a situação da</p><p>criança. É recomendável também que o observador inicie a experiência</p><p>com outro colega antes de o fazer isoladamente, coobservando,</p><p>corregistrando e cointerpretando os comportamentos psicomotores das</p><p>crianças inicialmente observadas.</p><p>Algumas sugestões globais são fundamentais para a BPM com</p><p>crianças em idade préprimária (quatro, cinco e seis anos), que diferem</p><p>naturalmente das crianças em idade primária e do ciclo (6 até 12 anos).</p><p>Nas crianças em idade pré-primária, a abordagem deve ser</p><p>preferencialmente lúdica, mantendo a atenção em condições</p><p>motivacionais adequadas, estruturando o envolvimento de forma que</p><p>não se dê origem a dispersões da atenção. O recurso à demonstração e</p><p>à imitação é mais utilizado.</p><p>Nas crianças em idade primária, a abordagem pode ser mais</p><p>sistemática e sequencializada. A colocação das situações aqui é</p><p>usualmente baseada em enunciados verbais, que a criança deve</p><p>descodificar.</p><p>De alguma forma, a BPM contém tarefas que são intrinsecamente</p><p>motivadoras; por essas características, torna-se normalmente uma</p><p>experiência muito agradável para as crianças e para os jovens.</p><p>Passemos então à apresentação específica de cada um dos fatores</p><p>da BPM. Em termos metodológicos, cada fator psicomotor será</p><p>abordado nos seguintes aspectos: considerações gerais, descrição das</p><p>tarefas e procedimentos, cotação e registro e, finalmente, significação</p><p>psiconeurológica.</p><p>3.2.1. Aspecto somático, desvios posturais e controle</p><p>respiratório</p><p>Embora a BPM não tenha por objetivo a avaliação dos aspectos</p><p>somáticos e morfológicos, por não entrarem na apuração do perfil</p><p>psicomotor, algumas particularidades devem ser registradas para</p><p>comparação com os perfis psicomotores.</p><p>Estão nesse caso os aspectos tipológicos, propostos por Sheldon</p><p>(1969), com base na evolução dos três fascículos do embrião; o</p><p>fascículo externo ou ectoderme, que formará o sistema nervoso</p><p>periférico e central, a retina, a córnea, o cristalo, o nervo óptico, a</p><p>hipófise, a pele etc.; fascículo intermédio ou mesoderme, que formará</p><p>os músculos, os ossos, o miocárdio, artérias, veias, órgãos genitais, rins</p><p>etc.; e, por último, o fascículo interno ou endoderme, que formará o</p><p>tubo disgestivo, o epitélio respiratório, a bexiga, a tiroide, o timo etc.</p><p>Aquele autor, partindo destas camadas embriológicas, classificou os</p><p>indivíduos em três componentes, e são esses que devem ser assinalados</p><p>na ficha de registro. O ectomorfismo, caracterizado pela linearidade e</p><p>magreza corporal, com tronco reduzido e membros compridos; o</p><p>mesomorfismo, caracterizado pela estrutura muscular e atlética do</p><p>corpo, e o endomorfismo, essencialmente caracterizado pelo aspecto</p><p>arredondado e amolecido do corpo, geralmente gordos com o tronco</p><p>extenso e os membros curtos. Apenas interessa assinalar vagamente na</p><p>caixa respectiva o tipo morfológico, tentando tirar algumas ilações e</p><p>correlações quando se apurar o perfil psicomotor, e fundamentalmente</p><p>quando se avaliar a estrutura tônica da criança observada. A</p><p>arquitetura mioarticular, integrada na expressão dos comportamentos</p><p>motores e psicomotores, oferece pontos de convergência biotipológica</p><p>de algum interesse clínico para a BPM, daí a sua inclusão introdutória e</p><p>informal.</p><p>Os desvios posturais, como lordoses, cifoses, escolioses etc. devem</p><p>igualmente ser registrados, assim como sinais de raquitismo, distonias,</p><p>hiperlaxidez tendinosa, pés planos, joelho recurvado etc. Uma</p><p>exploração informal desses aspectos, coadjuvados com a anamnese,</p><p>podem esclarecer muito do que poderá ocorrer na BPM que se segue:</p><p>O controle respiratório é também um dos passos do primeiro</p><p>contato com a criança. Verificar a amplitude toráxica, a coordenação</p><p>torácico-abdominal, o ritmo respiratório, sinais de fadiga ou</p><p>manifestações asmáticas etc. são outros dados a registrar, quer de</p><p>início, quer ao longo da observação. O controle respiratório reflexo é</p><p>um dos processos vitais que envolve inspirações e expirações cíclicas,</p><p>em que participam os músculos intercostais e o diafragma,</p><p>superiormente regulados pelo centro bulbar por meio de uma</p><p>sincronização e um ritmo</p><p>automático extremanente complexo. O</p><p>controle respiratório, porém, pode ser realizado conscientemente, e é</p><p>esse, essencialmente, que se procura analisar em termos lúdicos por</p><p>meio de situações de inspiração, expiração e apneia.</p><p>Na inspiração e na expiração, é sugerido à criança que realize</p><p>quatro inspirações ou expirações simples: uma pelo nariz, outra pela</p><p>boca, uma rápida e outra lenta. O procedimento envolve uma direção</p><p>verbal ou uma demonstração.</p><p>A cotação em ambas será a seguinte:</p><p>4, se a criança realizou as quatro inspirações ou expirações correta e</p><p>controladamente;</p><p>3, se a criança realizou as quatro inspirações ou expirações</p><p>completas;</p><p>2, se a criança realizou as quatro inspirações ou expirações sem</p><p>controle e com fraca amplitude ou com sinais de desatenção;</p><p>1, se a criança não realizou as quatro inspirações ou expirações, ou</p><p>se as realizou de forma incompleta e inadequada, sugerindo</p><p>descontrole tônico-respiratório.</p><p>Na apneia, é sugerido à criança que se mantenha em bloqueio</p><p>torácico durante o máximo de tempo possível. O procedimento envolve</p><p>a utilização do cronômetro e o registro de acordo com o seguinte</p><p>critério.</p><p>A cotação será a seguinte:</p><p>4, se a criança se mantém em bloqueio torácico acima de 30</p><p>segundos sem sinais de fadiga;</p><p>3, se a criança se mantém entre 20 e 30 segundos sem sinais de</p><p>fadiga ou de descontrole;</p><p>2, se a criança se mantém entre 10 e 20 segundos com sinais</p><p>evidentes de fadiga ou de descontrole;</p><p>1, se a criança não ultrapassa os 10 segundos, ou se não realiza a</p><p>tarefa.</p><p>A duração da apneia deve ser registrada e, ao mesmo tempo,</p><p>anotados os tipos de sinais de comportamento: atenção, regulação,</p><p>mímicas, hipercontrole, instabilidade, sorrisos, mioclonias etc.</p><p>A fadiga traduz a impressão geral que o observador retira da</p><p>criança observada durante toda a BPM, traduzindo igualmente o grau</p><p>de atenção e de motivação mantido durante a sua realização.</p><p>A cotação a utilizar será a seguinte:</p><p>4, se a criança não evidenciou nenhum sinal de fadiga, mantendo-</p><p>se motivada e atenta durante todas as tarefas;</p><p>3, se a criança revelou alguns sinais de fadiga sem significado</p><p>clínico;</p><p>2, se a criança revelou sinais de fadiga em várias tarefas,</p><p>demonstrando desatenção e desmotivação;</p><p>1, se a criança resistiu às tarefas, manifestando frequentes sinais de</p><p>fadiga e de labilidade das funções de alerta e de atenção.</p><p>Figura 3. 1. – Controle respiratório. A – Avaliação de</p><p>inspirações e expirações rápidas e lentas pelo nariz B –</p><p>Avaliação de inspirações e expirações rápidas e lentas</p><p>pela boca.</p><p>Os dados que acabamos de descrever compreendem apenas</p><p>aspectos de caracterização global, não devendo ser confundidos com</p><p>qualquer subfator da BPM. Não são tratados com mais rigor, porque</p><p>cabem dentro do âmbito da observação indireta. Todavia, se se</p><p>registrarem frequentes sinais, é recomendável sugerir uma observação</p><p>mais específica.</p><p>Os fatores e os subfatores da observação direta mais sistemática</p><p>vão-se seguir de acordo com a lógica da hierarquia dos fatores</p><p>psicomotores e de acordo também com a organização vertical</p><p>ascendente das três unidades funcionais do modelo psiconeurológico</p><p>de Luria. Começaremos pelo fator da tonicidade e respectivos</p><p>subfatores.</p><p>3.2.2. Tonicidade</p><p>Considerações gerais</p><p>O primeiro fator da BPM está, de acordo com o modelo</p><p>psiconeurológico de Luria, integrado na primeira unidade funcional do</p><p>cérebro, cuja função primordial de alerta e de vigilância assegura as</p><p>condições genéticas e seletivas, sem as quais nenhuma atividade</p><p>mental pode ser realizada.</p><p>No âmbito da organização da Psicomotricidade, o fator da</p><p>tonicidade é o seu alicerce fundamental. A tonicidade garante, por</p><p>consequência, as atitudes, as posturas, as mímicas, as emoções etc., de</p><p>onde emergem todas as atividades motoras humanas. A tonicidade</p><p>tem um papel fundamental no desenvolvimento motor – e igualmente</p><p>no desenvolvimento psicológico, como asseguram os trabalho de</p><p>Wallon (1932, 1956, 1966 e 1970), Ajuriaguerra (1950, 1955, 1961 e</p><p>1974), André-Thomas e Ajuriaguerra (1949), Stamback (1963) e muitos</p><p>outros.</p><p>WalIon (1966) referiu-se à dupla função do músculo: a clônica (ou</p><p>fásica), de características cinéticas (encurtamento e alongamento das</p><p>miofibrilas), e a tônica, de características de suporte (manutenção de</p><p>uma certa tensão de apoio que caracteriza o músculo esquelético em</p><p>estado de repouso), ambas dependentes de uma relação</p><p>hipercomplexa, quer em nível inferior medular, quer em nível superior</p><p>reticular e cortical.</p><p>André-Thomas e Ajuriaguerra (1949) e Saint-Anne Dargassies</p><p>(1968) referem duas formas de tonicidade: a de repouso (ou de fundo)</p><p>e a de atividade. A primeira, de caráter permanente; a segunda, de</p><p>características de ruptura da atitude, exercendo-se entre elas uma</p><p>interação recíproca com complicados sistemas de reaferência, que se</p><p>traduz na complementaridade sensório-motora, que está na base da</p><p>integração da Psicomotricidade em níveis mais hierarquizados do</p><p>cérebro. A tonicidade assegura a preparação da musculatura</p><p>(PAILLARD, 1963) para as múltiplas e variadas formas de atividade</p><p>postural e práxica.</p><p>Envolve planos de organização fisiológica, como os do reflexo</p><p>miotático (SHERRINGTON, 1909) e muitos outros reflexos posturais, do</p><p>qual depende a organização da postura bípede humana, como envolve</p><p>a preparação dos estados de representação mental que Luria (1973)</p><p>refere sob a forma de tônus cortical.</p><p>Sherrington (1909) refere-se à tonicidade como uma função</p><p>integrada do sistema nervoso, pois no seu pensamento “é a atividade</p><p>postural dos músculos que fixa as articulações em posições</p><p>determinadas, solidárias umas com as outras, que no seu conjunto</p><p>compõem a atitude”. Mamo e Laget (1964) e Paillard (1963) referem-</p><p>se à tonicidade também como uma atividade geral de vigilância entre</p><p>os motoneurônios do sistema efetivador e o tônus dinamogênico</p><p>cerebral, onde efetivamente o somático atinge os territórios do</p><p>psíquico. Walshe (1921), Kabat (1948), Fulton (1951), Granit e Eccles</p><p>(1957), Bobath e Bobath (1962 e 1964) demonstraram que a regulação</p><p>da tonicidade se dá essencialmente na formação reticulada, um centro</p><p>integrador da primeira unidade funcional do cérebro, que</p><p>posicionalmente e estruturalmente se encontra em condições ótimas</p><p>para combinar e coordenar todas as informações sensoriais com as</p><p>informações motoras. A formação reticulada, por meio de suas fibras</p><p>retículo-espinais, exerce uma modulação nos padrões reflexos que</p><p>preparam a atividade postural e cinética, comandada do córtex ou</p><p>relacionada com os centros extrapiramidais. A sua função de</p><p>ajustamento e de plasticidade, de vigilância e de integração, atua</p><p>permanentemente na postura e na praxia, facilitando ou inibindo a</p><p>atividade dos motoneurônios alfa e gama, quer em nível</p><p>intersegmentar, quer em nível suprassegmentar.</p><p>A tonicidade, efetivamente, dependente da atividade dos fusos</p><p>musculares (FONSECA, 1971), confere ao músculo um componente</p><p>sensorial de inexcedível importância, na medida em que lhe oferece</p><p>uma qualidade aferente, só muito tarde reconhecida pela fisiologia</p><p>clássica. É esta “nova” qualidade aferente que subentende o anel</p><p>gama, que caracteriza a intervenção da consciência e a coativação dos</p><p>motoneurônios alfa e gama, que, no fundo, refletem um complexo</p><p>servomecanismo postural-cinético humano.</p><p>A tonicidade abrange todos os músculos responsáveis pelas funções</p><p>biológicas e psicológicas, além de toda e qualquer forma de relação e</p><p>comunicação social não verbal, tendo como característica essencial o</p><p>seu baixo nível energético, que permite ao ser humano manter-se de</p><p>pé por grandes períodos de tempo sem a manifestação de sinais de</p><p>fadiga. Como consequência, a tonicidade envolve também a</p><p>apreciação do poder muscular, visto que é neurologicamente</p><p>indissociável dele.</p><p>Toda a motricidade necessita do suporte da tonicidade, isto é, de</p><p>um estado de tensão ativa e permanente, e, por isso, a organização</p><p>muscular humana está estruturada em três camadas: a da superfície, a</p><p>intermédia e a da profundidade. A da superfície, destinada à função</p><p>motora, altamente energética, é basicamente composta de músculos</p><p>poliarticulares; a da profundidade, destinada à função tônica, de fraca</p><p>mobilização energética e fundamentalmente composta de músculos</p><p>monoarticulares. Também aqui se dá o princípio da hierarquia</p><p>dominante, na medida em que a organização tônico-motora se exerce</p><p>das camadas da profundidade para as da superfície, sendo nessas que</p><p>se vão organizar os movimentos voluntários mais complexos, que</p><p>obviamente guiarão os movimentos mais simples, que lhe dão suporte</p><p>e apoio.</p><p>A tonicidade está contida em todas as manifestações da</p><p>motricidade, como se se tratasse de uma antimotricidade. O reflexo</p><p>miotático não é mais do que a prova desta organização tônico-</p><p>muscular, pois é necessário que os músculos monoarticulares garantam</p><p>e forneçam as condições de suporte aos músculos poliarticulares para</p><p>que esses produzam o movimento voluntário consciente.</p><p>De fato, é impossível separar a motricidade da tonicidade, como</p><p>não é possível separar a postura e a atitude do movimento voluntário.</p><p>Toda motricidade parte de uma tonicidade, tonicidade que a segue</p><p>como uma sombra, preparando-a, apoiando-a e inibindo-a, isto é,</p><p>autorregulando-a. Assim como a linha reta é composta por uma</p><p>sucessão de pontos no espaço, também a motricidade é composta por</p><p>uma sucessão de tonicidades, que, no seu todo, materializam a</p><p>equilibração humana.</p><p>Em resumo, qualquer estudo sobre a motricidade humana, e como</p><p>tal sobre a Psicomotricidade, não pode deixar de focar a tonicidade,</p><p>fator de suporte essencial sem o qual aquela forma de expressão não</p><p>pode ser obtida. Daí a inclusão na BPM como o primeiro fator de</p><p>observação.</p><p>Segundo André-Thomas e Ajuriaguerra (1949) e Stambak (1963), o</p><p>estudo do tônus põe problemas múltiplos, na medida em que é</p><p>extremamente difícil distinguir a partir de que movimento o</p><p>deslocamento de um segmento corporal, sobre o qual agem os</p><p>músculos, corresponde a uma simples variação tônica ou a um</p><p>movimento oral. É completamente impossível, segundo os mesmos</p><p>autores, pensar que a ação resulta de um músculo isolado; ela é, sim,</p><p>dependente das condições da situação e de fatores espaço-temporais</p><p>implícitos à própria ação, como vimos nos capítulos anteriores.</p><p>Trata-se de uma complexidade inerente ao estudo do tônus; por</p><p>esse fato, pode ser estudada em termos de consistência,</p><p>extensibilidade, balanço e passividade, e são essas características que</p><p>vão constituir o objeto de estudo do fator da tonicidade na BPM.</p><p>A tonicidade está, consequentemente, relacionada com as repostas</p><p>adaptativas à gravidade e com todas as aquisições antigravíticas que</p><p>postulam o desenvolvimento da protomotricidade e da</p><p>paleomotricidade, onde se incluem os padrões hierarquizados do</p><p>controle da cabeça ao controle da postura de sentado, da quadrupedia,</p><p>da braquiação e da conquista definitiva da postura bípede. Toda a sua</p><p>complexa maturação neurológica reflete a expressão de duas leis</p><p>invariáveis do desenvolvimento nos vertebrados: a lei cefalocaudal e a</p><p>lei próximo-distal; a primeira relacionada com o esqueleto axial, isto é,</p><p>com a maturação neuromuscular da coluna; a segunda associada com</p><p>o esqueleto apendicular, portanto, relacionada com a maturação</p><p>neuromuscular das extremidades, pés e mãos.</p><p>A amplitude dos movimentos, o grau de aproximação e de</p><p>afastamento máximo de um músculo, o nível de resistência ao</p><p>movimento passivo, a atividade flexora e extensora peculiar dos</p><p>diferentes músculos etc. permitem objetivar o grau de organização</p><p>tônica de um músculo, segundo Ajuriaguerra. Esse autor sugere o</p><p>estudo do tônus de suporte com base na extensibilidade e na</p><p>passividade, condições tais que permitem definir a propensão à</p><p>hipotonia ou à hipertonia, cuja significação psiconeurológica é,</p><p>efetivamente, de grande importância.</p><p>A criança hipotônica é mais extensível, calma em termos de</p><p>atividade, o seu desenvolvimento postural é normalmente mais lento</p><p>que o das crianças hipertônicas, a sua predisposição motora centra-se</p><p>mais frequentemente na preensão e nas praxias finas e,</p><p>consequentemente, as suas atividades mentais surgem mais</p><p>elaboradas, reflexivas e controladas. Um perfil adequado de</p><p>extensibilidade e hipotonia surge mais frequentemente no sexo</p><p>feminino.</p><p>Com perfil disfuncional, a hipotonia é sinônimo de</p><p>hiperextensibilidade, característica da astenia, da passividade, da</p><p>hipoatividade, da bradicinesia, da descoordenação, da flacidez, da</p><p>moleza, da ataxias etc. No caso extremo da hipotonia e da</p><p>hiperexcitabilidade, temos as crianças atetósicas com paralisia cerebral,</p><p>que, segundo Bobath (1966), apresentam um tônus postural flutuante</p><p>de fraca resposta à estimulação gravítica e envolvimental. Trata-se de</p><p>uma resposta lenta ao estiramento do músculo e, por consequência, de</p><p>maior acumulação de movimentos passivos com um tônus postural</p><p>insuficiente para compensar a ação da gravidade, daí as flutuações</p><p>tônico-posturais intermitentes e a excessiva atividade dos extensores,</p><p>que caracterizam estas crianças deficientes motoras.</p><p>A criança hipertônica é menos extensível, ativa, com um</p><p>desenvolvimento postural mais precoce, daí a sua predisposição para a</p><p>marcha e para a exploração do espaço envolvente. Consequentemente,</p><p>as suas atividades mentais surgem mais impulsivas, dinâmicas e, por</p><p>esse fato também, mais descoordenadas e inadequadas.</p><p>Com o perfil adequado de extensibilidade, a hipertonia é mais</p><p>característica do sexo masculino. Com o perfil disfuncional, a</p><p>hipertonia é sinônimo de hipoextensibilidade, característica da</p><p>hiperatividade, impulsividade, instabilidade, distratibilidade, imprecisão</p><p>na aplicação da força, velocidade e controle dos movimentos, dispraxia</p><p>etc.</p><p>No caso extremo da hipertonia e da hipoextensibilidade, temos as</p><p>crianças espásticas com paralisia cerebral (BOBATH, 1966). Nesse caso,</p><p>a espasticidade, a inflexibilidade e a rigidez são típicas, a função do</p><p>anel gama não é superiormente inibida, os reflexos de estiramento são</p><p>exagerados e a modulação e a plasticidade tônica deixam de operar,</p><p>daí a concentração de resistência que os músculos oferecem aos</p><p>movimentos passivos.</p><p>A cocontração e a inervação recíproca em nível medular dependem</p><p>obviamente do jogo agonista-antagonista, que resulta da integração</p><p>tônica, que garante toda a realização postural e práxica</p><p>(SHERRINGTON, 1913). Daí a importância desse fator e respectivos</p><p>subfatores na BPM.</p><p>É com base nesses pressupostos sobre hipotonia e hipertonia que</p><p>uma das caixas que está indicada na ficha de registro deve ser</p><p>assinalada no caso de todos os subfatores avaliados sugerirem um ou</p><p>outro perfil tônico. A não evidência significativa de qualquer um dos</p><p>estudos reflete a eutonia (GERDA ALEXANDER, 1966), isto é, o estado</p><p>tônico apropriado a cada situação postural ou práxica.</p><p>O fator da tonicidade na BPM compreende o estudo do tônus de</p><p>suporte e do tônus de ação. O tônus de suporte compreende os</p><p>subfatores da extensibilidade, da passividade e da parotonia. O tônus</p><p>de ação compreende os subfatores das diadococinesias e das</p><p>sincinesias.</p><p>Descrição dos subfatores e cotação</p><p>Extensibilidade</p><p>A extensibilidade é definida por Ajuriaguerra como o maior</p><p>comprimento possível que podemos imprimir a um músculo afastando</p><p>as suas inserções.</p><p>Por meio da sua observação, podemos constatar o grau de</p><p>mobilização e de amplitude que uma dada articulação atinge, ou seja,</p><p>avaliar o ângulo que estabelecem dois segmentos ósseos unidos pela</p><p>mesma articulação, isto é, amplitude entre uma aproximação e um</p><p>afastamento máximos. A distância que separa as duas extremidades</p><p>representa o grau de extensibilidade do músculo considerado.</p><p>Com a mobilização angular e articular, podemos avaliar o grau de</p><p>resistência tônica e, em função disso, considerá-la hipoextensa e</p><p>hiperextensa. Segundo Stambak (1963), as crianças hiperextensas são</p><p>hipotônicas, enquanto as hipoextensas são hipertônicas. Até certos</p><p>limites, essas condições são perfeitamente adequadas; só em casos</p><p>extremos, tais perfis tônicos são sinônimo de sinais desviantes em</p><p>termos de organização tônicomuscular</p><p>e de limitação ou não de</p><p>movimentos à volta das articulações. Ajuriaguerra (1955, 1956 e 1962)</p><p>evoca que o estudo da extensibilidade pode determinar igualmente a</p><p>dominância lateral, na medida em que os membros dominantes</p><p>apresentam mais resistência e menos extensibilidade, por se verificar,</p><p>pela habituação, uma organização tônicomuscular e tônico-postural</p><p>mais integrada. Esse aspecto é de maior relevância quando se tratar do</p><p>tônus, ao mesmo tempo que confere aos fatores da tonicidade e de</p><p>lateralização uma inter-relação sensorial e motora de grande</p><p>importância na progressiva organização psiconeurológica da criança.</p><p>Para se avaliar consequentemente a extensibilidade, é necessário ter</p><p>em conta que a resistência ao alongamento, isto é, ao afastamento de</p><p>dois segmentos ósseos unidos pela mesma articulação, é maior nos</p><p>músculos flexores do que nos extensores. Assim, por exemplo, quando</p><p>se observa a extensibilidade entre o braço e o antebraço, unidos pela</p><p>mesma articulação do cotovelo, a resistência é sentida mais nos</p><p>flexores (bicípete, braquial anterior etc.) do que nos extensores</p><p>(tricípete etc.) – os primeiros mais rápidos e muito energéticos, os</p><p>segundos mais lentos e pouco energéticos. É fácil verificar que uma</p><p>criança musculada apresenta um perfil mais hipoextenso que uma</p><p>criança astênica ou hipotônica, da mesma forma que uma criança com</p><p>dominância lateral direita apresenta uma maior extensibilidade no</p><p>membro contralateral. Tal situação é similar, porém inversa, nas crianças</p><p>com dominância lateral esquerda.</p><p>Na BPM, explora-se a extensibilidade nos membros inferiores e nos</p><p>membros superiores, desde as articulações proximais até as distais,</p><p>passando pelas intermédias, abrangendo a exploração da musculatura</p><p>proximal e distal.</p><p>Nos membros inferiores mais relacionados com o desenvolvimento</p><p>postural, explora-se a extensibilidade dos seguintes músculos: adutores,</p><p>extensores da coxa e quadricípete femural.</p><p>Nos membros superiores, mais relacionados com o desenvolvimento</p><p>da preensão, explora-se a extensibilidade dos seguintes músculos:</p><p>deltoides anteriores e peitorais, flexores do antebraço e extensores do</p><p>punho.</p><p>Na exploração dos membros inferiores, é necessário como material</p><p>um colchão e uma fita métrica.</p><p>O procedimento na exploração dos membros inferiores deve iniciar-</p><p>se pela observação dos adutores, a fim de transmitir segurança. A</p><p>criança deve manter-se sentada calmamente, após diálogo tônico com</p><p>o observador, com apoio póstero-lateral das mãos, afastando</p><p>lateralmente as pernas, estendidas ao máximo possível. Deve ser</p><p>analisada a amplitude do afastamento de ambas as pernas e o grau de</p><p>resistência por simples e suave palpação. O observador deve manter-se</p><p>em permanente diálogo tônico com a criança, a fim de detectar a sua</p><p>realização.</p><p>A observação dos extensores da coxa avalia a extensibilidade do</p><p>ângulo poplíteo. O procedimento nessa situação requer que a criança</p><p>se deite dorsalmente e eleve as pernas até fletir as coxas sobre a bacia,</p><p>ao mesmo tempo que o observador assiste à criança a realizar a</p><p>extensão máxima das pernas. Devem ser analisados a amplitude da</p><p>extensão das pernas e, de novo, o grau de resistência e de consistência</p><p>dos músculos posteriores da coxa e da perna.</p><p>A observação do quadricípete femural avalia o ângulo formado pela</p><p>perna e pela coxa e a altura em que se situam os bordos externos dos</p><p>pés em relação ao solo, por meio de um movimento de afastamento</p><p>lateral e exterior de ambas as pernas fletidas, que deve ser assistido</p><p>pelo abservador. O procedimento nessa situação requer que a criança</p><p>se deite ventralmente e flita apenas as pernas até à vertical. Entende-se</p><p>que, nessa posição, o observador deve afastar lateral e exteriormente</p><p>ambos os pés, certificando-se em que altura se encontram os bordos</p><p>externos dos pés do solo, bem como o afastamento máximo que</p><p>apresentam entre si e, também, a distância entre a linha média dos</p><p>glúteos e o calcanhar de cada pé.</p><p>Figura 3.2. – Observação dos adutores – afastamento</p><p>máximo de ambas as pernas.</p><p>Figura 3.3. – Observação dos extensores da coxa (ângulo</p><p>poplíteo).</p><p>Figura 3.4. – Observação do quadricípete femural.</p><p>A cotação a atribuir é naturalmente diferenciada para cada um dos</p><p>grupos musculares e deve basear-se em critérios de apreciação do</p><p>afastamento ou do ângulo, e simultaneamente do grau de resistência e</p><p>consistência, que os músculos apresentam no máximo da sua</p><p>extensibilidade. De acordo com essa apreciação clínica, a cotação a</p><p>utilizar deverá ser a seguinte:</p><p>4, se a criança atinge um afastamento dos segmentos</p><p>aproximadamente entre 140º e 180º nos adutores e nos extensores</p><p>da coxa e um afastamento dos calcanhares da linha média dos</p><p>glúteos superior de 20cm a 25cm nos quadricípetes femurais; a</p><p>resistência não deve ser a máxima, a palpação deve sugerir reserva</p><p>de extensibilidade muscular e de flexibilidade ligamentar;</p><p>3, se a criança atinge entre 100º e 140° de afastamento, quer nos</p><p>adutores e nos extensores da coxa e um afastamento de 15cm a</p><p>20cm nos quadricíptes femurais; a resistência é máxima, não se</p><p>identificando sinais tônicos disfuncionais;</p><p>2, se a criança atinge entre 60° e 100° de afastamento, quer nos</p><p>adutores e nos extensores da coxa e um afastamento de 10cm a</p><p>15cm nos quadricípetes femurais; a resistência é óbvia e os sinais de</p><p>contrabilidade e de esforço são visíveis; nessa cotação, cabem</p><p>igualmente a hiperextensibilidade, característica de hipotonia, e o</p><p>jogo hipoextensibilidade-hipertonia, em todas as manobras</p><p>efetuadas. Sinais distônicos óbvios;</p><p>1, se a criança revela valores inferiores aos anteriores com a</p><p>evidência clara e inequívoca de sinais de hipotonia e hipertonia, de</p><p>hiperextensibilidade ou hipoextensibilidade, de limitação ou</p><p>hiperamplitude (lassidão), de espasticidade ou atetose, a sugerir um</p><p>perfil tônico desviante e atípico, compatível com uma disfunção</p><p>tônica (exemplo: hemiparesia, distonia, hiperextensibilidade ou</p><p>hipoextensibilidade, hiper-reflexibilidade; espasticidade, rigidez,</p><p>atetose, ataxia, debilidade motora, traços nítidos de instabilidade</p><p>ou impulsividade, hiper-reação emocional, paresia, hemiparesia,</p><p>dissinergias etc.).</p><p>A cotação obtida deve ser então devidamente registrada na BPM,</p><p>com um círculo ou com uma cruz no número que corresponde à</p><p>avaliação clínica.</p><p>Na exploração dos membros superiores, é necessário como material</p><p>apenas uma fita métrica. A extensibilidade a observar inclui os</p><p>deltoides anteriores e peitorais, os flexores do antebraço e os</p><p>extensores do punho.</p><p>Na observação dos deltoides anteriores e peitorais, o procedimento</p><p>deve ser o seguinte: a criança mantém-se na posição de pé, com os</p><p>braços pendentes e descontraídos. O observador deve assistir à</p><p>aproximação máxima dos cotovelos atrás das costas. Deve ser</p><p>observado se os cotovelos se tocam ou medir a distância a que ficam</p><p>um do outro. O diálogo tônico entre o observador e a criança deverá</p><p>ser mantido em termos ideais.</p><p>Figura 3.5. – Observação dos deltoides anteriores e</p><p>peitorais – aproximação máxima dos cotovelos atrás das</p><p>costas.</p><p>A observação dos flexores do antebraço avalia o ângulo formado</p><p>pelo antebraço e pelo braço após extensão máxima do antebraço</p><p>(ângulo posterior do cotovelo) e a amplitude de supinação da mão, que</p><p>deve ser assistida pelo observador.</p><p>A observação dos extensores do punho inclui a flexão máxima da</p><p>mão sobre o antebraço (ângulo do punho). O observador deve assitir à</p><p>flexão da mão, pressionando suavemente o polegar. Deve-se verificar</p><p>se o polegar toca no antebraço ou medir a distância a que fica da sua</p><p>superfície anterior.</p><p>O procedimento que caracteriza a avaliação da extensibilidade é,</p><p>como advoga Stambak (1963), essencialmente clínico. As cotações</p><p>obtidas não correspondem a medidas rigorosas, na medida em que a</p><p>grandeza dos ângulos e a avaliação das amplitudes dependem da força</p><p>que o observador aplica nas manobras de exploração, bem como da</p><p>sensibilidade tátil que possui para avaliar a consistência tônica dos</p><p>músculos envolvidos.</p><p>Figura 3.6. – Observação dos flexores do antebraço</p><p>–</p><p>extensão máxima do antebraço (ângulo posterior do</p><p>cotovelo).</p><p>Figura 3.7. – Observação dos extensores do punho –</p><p>flexão máxima da mão sobre o antebraço (ângulo do</p><p>punho).</p><p>A cotação a atribuir segue a mesma metodologia da exploração dos</p><p>membros inferiores e deverá ser a seguinte:</p><p>4, se a criança toca com os cotovelos na exploração dos deltoides</p><p>anteriores e peitorais, se realiza a extensão total do antebraço e a</p><p>máxima supinação da mão nos flexores do antebraço e se toca com</p><p>o polegar na superfície anterior do antebraço nos extensores do</p><p>punho; a resistência atingida não deverá ser máxima, e a</p><p>mobilização assitida deve sugerir flexibilidade por um lado e</p><p>consistência por outro. Nenhum sinal de esforço deve ser</p><p>reconhecido; a realização é feita com disponibilidade e flexibilidade;</p><p>3, se a criança obtém a mesma realização descrita na cotação</p><p>anterior, mas com uma maior resistência e uma mobilização mais</p><p>assistida e forçada. Alguns sinais de esforço devem ser</p><p>reconhecíveis;</p><p>2, se a criança não toca com os cotovelos nem com o polegar nas</p><p>respectivas explorações, acusando resistência e rigidez na</p><p>mobilização dos segmentos observados. Sinais frequentes de</p><p>esforço; detectam-se sinais de hipoextensibilidade ou de</p><p>hiperextensibilidade. Sinais distônicos evidentes;</p><p>1, se a criança revela sinais óbvios de resistência ou lassidez, com</p><p>sinais claros de hipertonia ou hipotonia a sugerir um perfil tônico</p><p>desviante e atípico atinente a uma disfunção.</p><p>A cotação deve ser igualmente registrada na respectiva ficha,</p><p>concluindo-se assim a observação do subfator da extensibilidade.</p><p>Passividade</p><p>A passividade compreende um outro componente do tônus de</p><p>suporte que se observa na BPM. A passividade é definida por</p><p>Ajuriaguerra e Stambak (1955), como a capacidade de relaxamento</p><p>passivo dos membros e suas extremidades distais (mãos e pés) perante</p><p>mobilizações, oscilações e balanços ativos e bruscos introduzidos</p><p>exteriormente pelo observador.</p><p>A passividade é analisada em função dos movimentos introduzidos</p><p>do exterior, por meio de deslocamentos exógenos assistidos pelo</p><p>observador, que visam provocar a sensibilidade do peso dos membros e</p><p>dos movimentos passivos nas extremidades distais da criança</p><p>observada. Por meio de tais balanços e oscilações exógenas, os</p><p>movimentos passivos vão naturalmente evidenciar sinergias onerosas,</p><p>movimentos coreiformes, coreicos ou atetoides, crispações, paratonias</p><p>etc., ou, em contrapartida, movimentos livres, não resistentes,</p><p>pendulares, harmoniosos e passivos, traduzindo a capacidade de</p><p>autorrelaxamento, de descontração da criança. A exploração desse</p><p>subfator envolve a mobilização dos quatro membros e das suas</p><p>respectivas extremidades.</p><p>Na exploração dos membros inferiores, o procedimento requer que</p><p>a criança seja sentada em uma cadeira ou mesa, suficientemente alta</p><p>para que os pés fiquem suspensos, fora do contato com o solo.</p><p>Devem-se mobilizar as pernas com apoio no terço inferior da perna, de</p><p>forma que a articulação do pé fique livre. As mobilizações deverão ser</p><p>efetuadas no sentido anteroposterior, apreciando-se, ao mesmo tempo,</p><p>a oscilação pendular das pernas. Subsequentemente, deve-se mobilizar</p><p>o pé até provocar uma rotação interna assistida e rapidamente</p><p>interrompida, apreciando, paralelamente, a amplitude e a frequência</p><p>dos movimentos passivos, a resistência ou a rigidez e as contrações ou</p><p>as torções dos pés. Em ambas as explorações, o observador deve estar</p><p>atento às reações emocionais inerentes a estas situações da observação</p><p>da tonicidade.</p><p>Na exploração dos membros superiores, deverá proceder-se da</p><p>seguinte forma: a criança deve manter-se de pé, com os braços</p><p>pendentes e descontraídos (“mortos”), ao mesmo tempo que o</p><p>observador introduz deslocamentos anteriores, balanços e oscilações</p><p>em ambos os braços e mãos, por mobilização anteroposterior do terço</p><p>inferior do antebraço, isto é, ligeiramente acima da articulação do</p><p>punho. Devem-se mobilizar pendularmente ambos os braços desde a</p><p>posição de extensão anterior, simultanea e alternadamente, apreciando</p><p>ao mesmo tempo a amplitude, a frequência, a rigidez e a resistência, as</p><p>contrações ou as torções dos movimentos passivos. Em seguida,</p><p>mobilizar bruscamente as mãos e apreciar o grau de libertação e</p><p>abandono das extremidades.</p><p>Figura 3.8. – Observação dos movimentos pendulares e</p><p>passivos das pernas e dos pés.</p><p>Figura 3.9. – Observação dos movimentos pendulares e</p><p>passivos dos braços e das mãos.</p><p>A cotação a atribuir deverá ser a seguinte:</p><p>4, se a criança apresenta nos membros e nas respectivas</p><p>extremidades distais movimentos passivos, sinergéticos,</p><p>harmoniosos e de regular pendularidade, objetivando facilidades de</p><p>descontração na musculatura proximal e distal e sensibilidade do</p><p>peso dos membros; ausência de quaisquer manifestações</p><p>emocionais;</p><p>3, se a criança revela descontração muscular e ligeira insensibilidade</p><p>no peso dos membros, provocando pequenos movimentos</p><p>voluntários de oscilação ou pendularidade; ligeiras manifestações</p><p>emocionais nas ausências de sinais de resistência ou bloqueio, sem</p><p>evidência de movimentos coreiformes ou atetotiformes;</p><p>2, se a criança apresenta insensibilidade ao peso dos membros, não</p><p>os descontraindo nem realizando os movimentos passivos e</p><p>pendulares provocados exogenamente; sinais de distonia,</p><p>movimentos involuntários nas extremidades, movimentos abruptos</p><p>e dissinérgicos; detecção de movimentos coreiformes (contrações</p><p>de pequena amplitude) e de movimentos atetotiformes (lentas</p><p>torções e regulares) nas extremidades; frequentes manifestações</p><p>emocionais;</p><p>1, se a criança não realiza a prova ou se a realiza de forma</p><p>incompleta e inadequada; total insensibilidade ao peso dos</p><p>membros e dificuldade de descontração muscular; além dos sinais</p><p>anteriores, revela movimentos abruptos, convulsivos, irregulares e</p><p>titubeantes; detecção de movimentos coreicos ou coreáticos</p><p>(explosão de movimentos descoordenados) e de movimentos</p><p>atetoides (movimentos de torção mais amplos e contínuos);</p><p>presença exagerada de manifestações emocionais atípicas (sorrisos,</p><p>distonias faciais, gesticulações, atividade caricatural ilógica,</p><p>desbloqueios emocionais, disquinesias, agitação, instabilidade etc.).</p><p>Paratonia</p><p>A paratonia definida por Ajuriaguerra (1974) traduz a incapacidade</p><p>ou a impossibilidade de descontração voluntária.</p><p>Dupré (1911) caracteriza-a, dentro do seu conceito de debilidade</p><p>motora, “como um estado patológico, revelado pelo exagero dos</p><p>reflexos tendinosos, por perturbações nos reflexos plantares, sincinesias</p><p>e descoordenação dos movimentos intencionais, impossibilitando a</p><p>realização voluntária da resolução motora”. A paratonia é aqui definida</p><p>como uma constelação de sinais que transcendem a esfera da</p><p>tonicidade (BERGÉS e BOUNES, 1974). Na BPM, a paratonia</p><p>compreende um dos subfatores da tonicidade. Em vez de uma</p><p>modulação tônica, instalam-se uma contratura, um bloqueio e um</p><p>aumento do tônus que impede a autodescontração necessária ao</p><p>movimento harmonioso. Por falta dessa tal modulação tônica, os</p><p>movimentos tendem a ser produzidos como uma reação ou uma</p><p>descarga em massa, afetando a sua adequação, plasticidade e melodia.</p><p>A paratonia revela a existência, ou não, de liberdades motoras em</p><p>nível articular e a presença, ou não, de uma organização tônico-motora</p><p>de base, sobre a qual se estabelece a organização da</p><p>proprioceptividade propriamente dita. Capacidade de pôr em repouso</p><p>ou de abandonar o membro e seus componentes musculares é uma</p><p>das características do movimento adequado e preciso. A persistência de</p><p>bloqueios ou de contrações impede a resolução motora, altera a</p><p>integração sensorial aferente e quinestésica concomitante e põe em</p><p>relevo uma incapacidade volitiva de autodescontração. A presença de</p><p>paratonias tira consequentemente a precisão, perfeição, harmonia,</p><p>ritmo, regularidade e melodia cinestésica ao movimento, daí que a sua</p><p>detecção seja fundamental na BPM. A paratonia atua como frenagem</p><p>tônica, impedindo o relaxamento muscular, exatamente porque certas</p><p>tensões e contrações se conservam à volta das articulações</p><p>distais e</p><p>proximais, desenvolvendo sinergias onerosas que prejudicam a</p><p>realização do movimento.</p><p>A resolução motora envolve, em certa medida, uma resolução</p><p>tônica, na medida em que ambas se completam funcionalmente. A</p><p>resolução motora implica a componente fásica, isto é, a passagem da</p><p>função tônica à função clônica. A resolução clônica implica o processo</p><p>dialeticamente oposto, ou seja, a passagem da função clônica à função</p><p>tônica. Se as paratonias emergirem nessa fase, a capacidade voluntária</p><p>de descontração pode não acionar os mecanismos centrais e periféricos</p><p>que coordenam a função tônico-muscular no seu conjunto. A evolução</p><p>do tônus de repouso ao tônus de ação é tão fundamental como a</p><p>passagem do tônus de ação ao tônus de repouso, daí a importância</p><p>das técnicas de relaxamento e o seu enorme impacto terapêutico.</p><p>(SCHULTZ, 1965; JACOBSON, 1948; STOKVIS, 1960; VITTOZ, 1954)</p><p>A função tônica requer uma flutuação oscilante entre os estados de</p><p>repouso e os estados de atividade; qualquer tensão residual que</p><p>impeça essa permanente interação dos dois estados tem claramente</p><p>efeitos na postura e na ação e, conjuntamente, nas funções emocionais</p><p>de atenção e de alerta, confirmando a sua integração na primeira</p><p>unidade funcional de Luria.</p><p>Para observar as paratonias na BPM, deve-se recorrer a um colchão</p><p>e proceder da seguinte forma: a criança deve ser observada em</p><p>decúbito dorsal, na postura tradicional da maioria das técnicas de</p><p>relaxamento. Devem-se anotar informalmente algumas assimetrias na</p><p>postura das pernas e dos pés e inspecionar-se se se verifica alguma</p><p>alteração na coluna e na bacia. A criança deve manter-se segura, calma</p><p>e descontraída, persistindo o observador em um diálogo tônico e em</p><p>um conforto tátil, tendo muito cuidado com todas as suas</p><p>mobilizações, manipulações ou palpações, que podem gerar eclosões</p><p>terminais ou provocar maior defensividade na “armadura tônica” da</p><p>criança. As reações tônico-emocionais incontroláveis, como os sorrisos,</p><p>as mímicas, as gesticulações, a rigidez corporal, os bloqueios</p><p>respiratórios, as reações de sobressalto, os sinais de impulsividade e</p><p>instabilidade etc. devem ser minimizados, para que a realização das</p><p>mobilizações possa ser efetuada sem efeitos secundários.</p><p>As paratonias são observadas, quer nos membros superiores, quer</p><p>nos inferiores, por meio de mobilizações passivas e de quedas.</p><p>Deve-se sugerir à criança que se descontraia ao máximo, à medida</p><p>que o observador vai adquirindo maior sensibilidade ao peso dos seus</p><p>membros, mobilizando-os passiva e calmamente. Verificar se a criança</p><p>abandona (relaxa) parcial ou totalmente os membros e, em seguida,</p><p>deixar cair os membros no colchão e certificar-se do grau de</p><p>descontração nas extremidades.</p><p>Na exploração dos membros superiores, a mobilização simultânea e</p><p>alternada dos braços descontraídos deve ser efetuada até a vertical,</p><p>onde os membros atingem maior liberdade antigravítica. Nessa</p><p>posição, realizar pequenos movimentos à volta da articulação do</p><p>ombro unidirecional e pluridirecionalmente e certificar-se de resistências</p><p>ou tensões proximais, distais, globais ou residuais. Após a exploração</p><p>da articulação do ombro, evoluir para a exploração das quedas dos</p><p>ombros, observando o grau de abandono e liberdade tônica de cada</p><p>membro. Proceder com as mesmas manípulações de peso e</p><p>relaxamento no antebraço com apoio do cotovelo e na mão,</p><p>descontraidamente apoiada no solo.</p><p>Na exploração dos membros inferiores, o observador deve realizar a</p><p>mesma manobra antigravítica e passiva, certificando-se do peso dos</p><p>membros estendidos e do seu abandono. As explorações de</p><p>movimentos unidirecionais e pluridirecionais, de abdução e adução, de</p><p>exorrotação e endorrotação devem ser realizadas com ambos os</p><p>membros, quer simultaneamente, quer alternadamente, devendo o</p><p>observador certificar-se de resistências, bloqueios ou tensões proximais,</p><p>distais, globais ou residuais. Após a exploração dos membros em</p><p>extensão, fletir as pernas pelos joelhos e explorar em seguida a</p><p>articulação da anca, por meio de abduções, aduções, rotações etc. Por</p><p>último, explorar o abandono do pé, contrariando e mobilizando a</p><p>posição normal de repouso do pé.</p><p>A observação das paratonias está naturalmente associada à</p><p>observação da tonicidade de repouso, bem como à lateralização, visto</p><p>que os membros dominantes acusam menos extensibilidade e, por</p><p>consequência, tendem a apresentar maior resistência nas manobras e</p><p>nas manipulações.</p><p>Figura 3.10. – Observação do grau de liberdade motora</p><p>e de descontração voluntária dos braços, antebraços e</p><p>mãos provocados por mobilizações passivas e por</p><p>quedas.</p><p>Figura 3.11. – Observação do grau de liberdade motora</p><p>e de descontração voluntária das pernas, dos joelhos e</p><p>do pé, provocadas por mobilizações passivas e por</p><p>quedas.</p><p>A cotação a atribuir deverá ser a seguinte:</p><p>4, se a criança não revela tensões ou resistências em qualquer das</p><p>manipulações dos quatro membros; identificação de uma</p><p>capacidade de abandono, de autorrelaxamento e de</p><p>autodescontração perfeita, precisa e com facilidade de controle;</p><p>ausência total de manifestações emocionais;</p><p>3, se a criança revela tensões ligeiras e resistências muito fracas em</p><p>qualquer das manipulações; identificação de uma capacidade de</p><p>abandono, de autorrelaxamento e de autodescontração completa e</p><p>adequada; ligeiras manifestações emocionais;</p><p>2, se a criança revela tensões, bloqueios, resistências moderadas e</p><p>frequentes em qualquer das manipulações; identificação óbvia de</p><p>paratonias de contrações proximais e distais; emergência de</p><p>frequentes manifestações emocionais;</p><p>1, se a criança revela tensões, bloqueios e resistências muito fortes;</p><p>identificação de incapacidade e impulsividade de descontração</p><p>voluntária; eclosão abrupta e descontrolada de manifestações</p><p>emocionais; ausência de resposta, recusa por defensividade tátil</p><p>global; conservação de posições atípicas.</p><p>Conclui-se, assim, a observação dos subfatores da tonicidade que</p><p>dizem respeito ao tônus de suporte; passemos agora a descrever os</p><p>subfatores do tônus de ação: diadocodinesias e as sincinesias.</p><p>Diadococinesias</p><p>As diadococinesias compreendem, segundo Quirós e Schrager</p><p>(1978), a função motora que permite a realização de movimentos</p><p>vivos, simultâneos e alternados.</p><p>Trata-se de uma realização coordenada, sucessiva e antagônica de</p><p>movimentos com ambas as mãos, que põe em jogo a coordenação</p><p>cerebelosa. A realização rápida de movimentos de pronação e</p><p>supinação em ambas as extremidades superiores reflete a integração</p><p>inter-hemisférica da tonicidade de ação. A prova das diadococinesias</p><p>permite detectar movimentos associados fragmentados e dismétricos</p><p>(diadococinesias), que são o resultado de uma imaturidade na inibição</p><p>psicomotora.</p><p>A observação das diadococinesias na BPM inclui o seguinte</p><p>procedimento. A criança deve manter-se sentada confortavelmente,</p><p>com os antebraços fletidos sobre o braço, com os cotovelos em apoio</p><p>em cima da mesa e com os braços em extensão anterior sem apoio.</p><p>Nessa posição, realiza a prova clássica das marionetes, com</p><p>movimentos rápidos de pronação e supinação, simultâneos e</p><p>alternados em ambas as mãos. A criança deverá efetuar várias</p><p>experiências com e sem apoio dos cotovelos.</p><p>Deve-se verificar o jogo agonistas-antagonistas; as resistências</p><p>tônicas, proximais e distais; a amplitude, o ritmo, a velocidade e a</p><p>duração dos movimentos de pronação e supinação; as diadococinesias,</p><p>as crispações dos dedos, as reações arrítmicas decorrentes da</p><p>simultaneidade e alternância dos movimentos rápidos e vivos das</p><p>extremidades; a presença dos movimentos associados involuntários; a</p><p>discrepância dos movimentos da mão direita e da mão esquerda e,</p><p>entre elas, a que possui mais velocidade e regularidade na amplitude</p><p>etc., ao mesmo tempo que se devem registrar as reações tônico-</p><p>emocionais emergidas e as sincinesias contralaterais e linguais</p><p>concomitantes.</p><p>Figura 3.12. – Observação de movimentos rápidos de</p><p>pronação e supinação, simultâneos e alternados, em</p><p>ambas as mãos.</p><p>A cotação a atribuir é estabelecida em simultâneo para</p><p>ambas as</p><p>mãos, devendo ser evocada a mão dominante, que, a princípio, será a</p><p>que revela mais velocidade e regularidade nos movimentos rápidos de</p><p>pronação e supinação. Dessa forma, a cotação será a seguinte:</p><p>4, se a criança realiza os movimentos de pronação e supinação</p><p>corretamente, com precisão e amplitude adequada, de forma</p><p>coordenada e harmoniosa; ausência de qualquer reação tônico-</p><p>emocional; evidência de diadococinesias intregradas inter-</p><p>hemisfericamente;</p><p>3; se a criança realiza os movimentos de pronação e supinação com</p><p>ligeiro desvio do eixo do antebraço com ligeiro afastamento do</p><p>cotovelo; se a mão esquerda realiza ligeiros movimentos em</p><p>espelho, quando a mão direita realiza a tarefa ou vice-versa; se</p><p>surgem ligeiras alterações de ritmo na realização simultânea;</p><p>presença de algumas reações tônico-emocionais;</p><p>2, se a criança realiza os movimentos de pronação e supinação</p><p>descoordenadamente e dismetricamente, sem amplitude ou</p><p>arritmicamente, desajeitadamente e embaraçadamente</p><p>(disdiadocosinesias), se a mão esquerda realiza nítidos movimentos</p><p>em espelho, quando a mão direita realiza a tarefa e vice-versa; se</p><p>sugem reações tônico-emocionais que interferem com a realização</p><p>da tarefa;</p><p>1, se a criança não realiza os movimentos de pronação e supinação,</p><p>ou movimentos associados involuntários bem marcados e nítidos;</p><p>perda de amplitude e ritmo; movimentos em espelho permanentes;</p><p>reações tônico-emocionais bem visíveis (sorrisos, tensões proximais,</p><p>distais, crispação dos dedos e da face, sincinesias, abdução e</p><p>adução do braço, afastamento do cotovelo etc.).</p><p>Sincinesias</p><p>As sincinesias traduzem, segundo Ajuriaguerra e Soubiran (1959),</p><p>reações parasitas de imitação dos movimentos contralaterais e de</p><p>movimentos peribucais ou linguais.</p><p>Trata-se efetivamente de movimentos não intencionais,</p><p>desnecessários, cuja eliminação exige inibição tônico-sinética. De</p><p>alguma forma, caracterizam sinais de incontinência do tônus (WALLON,</p><p>1946), cuja insuficiente inibição e regulação tônica produz, por</p><p>concentração hipertônica, movimentos bizarros e difusos nos membros</p><p>opostos aos que participam no movimento.</p><p>Ajuriaguerra e Stambak (1955) evocam que as sincinesias são</p><p>frequentes nas crianças de seis, sete e oito anos e que tendem a</p><p>desaparecer totalmente a partir dos 10 a 12 anos, por representarem</p><p>um aspecto fundamental da maturação neurológica.</p><p>De alguma forma, as sincinesias traduzem movimentos associados</p><p>que acompanham a realização no movimento intencional, prejudicando</p><p>a sua precisão e eficácia. Podem resultar da falta de informação dos</p><p>fusos neuromusculares que não registram devidamente as variações da</p><p>atividade motora e tônico-sinética, afetando a segmentação</p><p>progressiva do próprio movimento. A intensidade das sincinesias e a</p><p>sua duração podem afetar a coordenação dos movimentos, além de</p><p>fornecerem dados valiosos para determinar a lateralidade tônico-</p><p>motora da criança. As sincinesias servem ainda para despistar aspectos</p><p>da tonicidade induzida e problemas de ordem tônico-emocional.</p><p>A observação das sincinesias na BPM, além da tarefa das</p><p>diadococinesias, requer o seguinte procedimento. A criança deverá</p><p>manter-se sentada com ambas as mãos em cima da mesa, realizando</p><p>uma contração máxima da mão dominante com uma bola de espuma</p><p>compacta de 5cm de diâmetro (uma bola de tênis usada também é</p><p>adequada). Ao mesmo tempo que a criança realiza a tarefa, observar</p><p>os movimentos de imitação ou crispação, quer nos membros</p><p>contralaterais, quer peribucais, ou mesmo linguais, visando à detecção</p><p>de sincinesias bucais ou contralaterais.</p><p>Figura 3.13. – Observação dos movimentos</p><p>contralaterais, peribucais ou linguais.</p><p>A cotação a atribuir deve ter em conta as características de</p><p>realização já consideradas na tarefa das diadococinesias, podendo a</p><p>sua observação fornecer também dados significativos para a</p><p>identificação de sincinesias contralaterais e bucais. Tendo este aspecto</p><p>em consideração, a cotação conjunta deve ser a seguinte:</p><p>4, se a criança realiza as tarefas sem qualquer vestígio de sincinesias</p><p>bucais ou contralaterais, movimento de contração da mão</p><p>perfeitamente isolado e controlado, ausência total de movimentos</p><p>associados;</p><p>3, se a criança realiza as tarefas com sincinesias contralaterais</p><p>pouco óbvias e discerníveis, quase imperceptíveis; realização</p><p>adequada e controlada; detecção de ligeiros movimentos ou</p><p>contrações tônicas associadas;</p><p>2, se a criança realiza a tarefa com sincinesias bucais e</p><p>contralaterais marcadas e óbvias; realização com sinais desviantes;</p><p>presença de movimentos associados não inibidos;</p><p>1, se a criança realiza a tarefa com sincinesias evidentes, com flexão</p><p>do cotovelo, crispação dos dedos da mão contralateral, tensões</p><p>tônico-faciais e sincinesias linguais; movimentos associados difusos</p><p>e reações de sobressalto involuntárias, tremores.</p><p>A cotação das sincinesias conclui a descrição e a cotação do</p><p>primeiro fator da BPM – a tonicidade –, que está integrado na primeira</p><p>unidade funcional do modelo de organização neurológica de Luria, cuja</p><p>significação psiconeurológica passamos a equacionar. A média das</p><p>cotações dos vários subfatores deve ser apurada e lançada no perfil da</p><p>BPM.</p><p>Significação psiconeurológica</p><p>Os sinais captados com a observação do fator tonicidade são</p><p>inúmeros e complexos, difíceis mesmo de objetivar ou estandardizar,</p><p>exatamente porque cada sinal pode representar diferentes tipos de</p><p>significação psiconeurológica.</p><p>Os subfatores no seu conjunto, quer os do tônus de suporte, quer</p><p>os do tônus de ação, refletem de alguma forma o estado geral da</p><p>postura, a organização motora de base, a estruturação tônico-</p><p>muscular, a organização proprioceptiva, bem como o nível geral de</p><p>reação tônico-emocional e o estado de atenção e de integração</p><p>sensorial.</p><p>A organização motora de base é o primeiro alicerce fundamental do</p><p>sistema funcional complexo, que compreende a Psicomotricidade. Sem</p><p>a organização tônica e o suporte, a atividade motora não se</p><p>desencadeia nem a estruturação psicomotora se desenvolve. A</p><p>tonicidade requer não só uma hipercomplexa organização de padrões,</p><p>reflexos a todo o nível do neuroeixo, como subentende toda a</p><p>integração sensorial subcortical e cortical.</p><p>A tonicidade reflete, por consequência, o primeiro degrau de</p><p>maturidade neurológica do ser humano, suportando os padrões</p><p>antigravíticos e preparando a sequência ordenada das aquisições do</p><p>desenvolvimento postural e do desenvolvimento da preensão.</p><p>A tonicidade envolve uma integração progressiva de reflexos que se</p><p>organizam de forma hierarquizada, traduzindo uma transição gradual</p><p>do controle reflexo ao controle voluntário. (ZELAZZO, 1976)</p><p>Esta organização hierarquizada dos reflexos tônico-posturais</p><p>corresponde à função de modulação da formação reticulada, que</p><p>essencialmente fornece os elementos básicos com os quais o</p><p>movimento voluntário se constrói e regula.</p><p>A maturidade do sistema nervoso edifica-se a partir da organização</p><p>tônica, daí a significação psiconeurológica dos sinais que podem ser</p><p>captados pela BPM, não só no que compreende o perfil hipotônico ou</p><p>hipertônico mas também no que respeita à detecção de paratonias,</p><p>bloqueios, movimentos involuntários coreiformes e atetotiformes etc.</p><p>As respostas exageradas (hipoextensibilidade ou</p><p>hiperextensibilidade) podem ser logo um sinal de imaturidade, que</p><p>tendem a ser confirmadas nas tarefas subsequentes da BPM. A fraca</p><p>tensão (hipotonia) ou a tensão exagerada (hipertonia) evocam</p><p>predisposições de comportamento que se refletem na quantidade e na</p><p>qualidade da atividade da criança. Hiperatividade ou hipoatividade</p><p>estão normalmente associadas a tipos de personalidade diferentes, que</p><p>sugerem, normalmente, estilos cognitivos específicos impulsivos ou</p><p>inibidos. Casos extremos de espastividade ou de atetose traduzem</p><p>sempre uma frágil e vulnerável organização tônica, que repercute em</p><p>todas as atividades da criança, quer psicomotoras, quer simbólicas.</p><p>A hipoextensibilidade ou a hiperextensibilidade do tronco em</p><p>relação aos membros inferiores, ou a presença de paratonias pode</p><p>evocar</p><p>problemas posturais e desenvolvimento das aquisições (skills) de</p><p>locomoção. A deteção de distonias, disquinesias, mioclonias ou</p><p>sinergias onerosas pode ser sinais de ligeiras alterações maturacionais</p><p>da lei cefalocaudal. A frequência de tais sinais e as suas assimetrias</p><p>podem refletir-se ao nível da lateralização e igualmente ao nível da</p><p>praxia global. As dismetrias e os movimentos abruptos, convulsivos e</p><p>mal controlados que estão contidos neste fator da BPM têm muitas</p><p>vezes relações com a detecção de sinais tônicos desviantes.</p><p>Do mesmo modo, a hipoextensibilidade ou a hiperextensibilidade</p><p>nos membros superiores, a justificar a presença de sinais tônicos</p><p>atípicos, paratonias, disdiadococinesias, sincinesias etc., provavelmente</p><p>revelam ligeiras alterações maturacionais na lei próximo-distal, que</p><p>tende a implicar problemas de desenvolvimento da preensão. Nesse</p><p>caso, são muito mais visíveis e óbvias as assimetrias, que traduzem a</p><p>função de dominância em nível da lateralização. Muitos dos sinais</p><p>tônicos dos membros superiores refletem-se também na praxia fina,</p><p>pela importância que desempenha na organização psicomotora a</p><p>preferência manual nas atividades mais diferenciadas.</p><p>A persistência de reações tônico-emocionais, como movimentos</p><p>faciais, gesticulações, sorrisos, disquinesias, mioclonias, bloqueios</p><p>respiratórios, tiques, hiperemotividade, instabilidade e impulsividade,</p><p>defensibilidade tátil etc., traduz igualmente uma disfunção tônica não</p><p>só revelada nos fatores psicomotores mas também no nível geral de</p><p>atividade evidenciado pela criança.</p><p>A atenção seletiva, a vigilância perante as situações, o controle de</p><p>ativação, o tônus cortical, a motivação e a excitabilidade, ideal</p><p>relacional, implícita nas relações entre observador e observado, são</p><p>também perceptíveis a partir das tarefas da tonicidade.</p><p>A tonicidade subentende o nível mais baixo da organização</p><p>psicomotora da criança e está integrada na primeira unidade funcional</p><p>luriaria, sendo basicamente responsável pelas funções de atenção, de</p><p>alerta e de ativação dos estados mentais globais. Por essa razão, está</p><p>integrada, como já referimos, na formação reticulada, uma das</p><p>estruturas filogenéticas mais antigas do sistema nervoso e a estrutura</p><p>que ontogeneticamente apresenta uma maturação mais precoce.</p><p>Por último, a tonicidade compreende a modulação (facilitação-</p><p>inibição) de todos os impulsos aferentes e eferentes e, por isso, assume</p><p>uma função de integração sensorial de grande significação</p><p>psiconeurológica. Processos reflexos, automáticos e volitivos passam</p><p>pela formação reticulada como via final comum, na medida em que</p><p>todas as manifestações dos centros superiores corticais estão sujeitos à</p><p>sua modulação por meio dos sistemas ascendentes e descendentes.</p><p>Dados táteis, quinestésicos, vestibulares, proprioceptivos e</p><p>exteroceptivos são aqui modulados em termos tônicos, daí que o</p><p>estado tônico em que se espelhe e retrate o estado mental geral.</p><p>A vigilância ou a atenção contida na interação entre organismo e</p><p>meio é superiormente modulada no tronco cerebral, desde o peixe ao</p><p>homem e desde a criança ao adulto.</p><p>É uma função primitiva de sobrevivência, uma função vital. Sem a</p><p>sua participação, a evolução não ocorreria; sem a sua modulação, a</p><p>maturação neurológica na criança surgiria afetada.</p><p>A tonicidade compreende o grau de funcionalidade do tronco</p><p>cerebral (tálamo incluído), ou seja, a primeira unidade funcional do</p><p>modelo de Luria.</p><p>Porque todas as sensações, para serem integradas, necessitam de</p><p>um tônus ideal (eutonia), a observação de sinais tônicos atípicos pode</p><p>ajudar a compreender vários problemas de desenvolvimento</p><p>psiconeurológico na criança, uns mais implicados com a</p><p>Psicomotricidade, outros mais implicados com as aprendizagens</p><p>simbólicas.</p><p>A multiplicidade, a convergência e a integração de dados (input)</p><p>sensoriais reclamam a integridade da função tônica. Sem a função</p><p>tônica integradora, todas as informações provenientes de diferentes</p><p>modalidades sensoriais se perdiam no universo do córtex.</p><p>A influência que a formação reticulada tem em todo o córtex</p><p>confere-lhe um papel imprescindível em todas as atividades humanas.</p><p>Conseguir, por meio de tarefas de exploração e de manipulação,</p><p>detectar sinais tônicos atípicos pode fornecer dados de grande</p><p>relevância para avaliarmos o nível de controle, de alerta, de focagem e</p><p>de atenção que dispõe uma criança.</p><p>A tonicidade contém, em certa medida, o poder discriminativo e</p><p>diferenciador da informação que circula no córtex, quer de origem</p><p>intracorporal, quer de origem extracorporal, daí que a sua função seja</p><p>relevante para todo o processamento da informação (decodificação-</p><p>codificação), desde a mais simples até a mais complexa, exercendo,</p><p>mesmo assim, em todos os tipos de informação uma permanente</p><p>influência recíproca.</p><p>A atenção, a orientação, o controle, a adaptação etc. reclamam a</p><p>participação da tonicidade, função de transição entre o corpo e o</p><p>cérebro e entre esse e o meio.</p><p>Ela está na base da organização de toda a informação sensorial,</p><p>inibindo-a, facilitando-a, retendo-a, analisando-a e sintetizando-a, em</p><p>uma palavra, assistindo-a, para que sirva de base às funções mais</p><p>hierarquizadas.</p><p>A função tônica, por meio da função moduladora e integradora da</p><p>formação reticulada, assegura a transdução dos impulsos sensoriais em</p><p>informação de maior complexidade, cuja significação psiconeurológica,</p><p>em termos de psicomotricidade ou de aprendizagem, parece-nos óbvia.</p><p>Sinais de hiperatividade e distratibilidade ou de hipoatividadee</p><p>bradicinesia são casos extremos que objetivam as implicações da</p><p>tonicidade em termos de comportamento e de aprendizagem.</p><p>3.2.3. Equilibração</p><p>Considerações gerais</p><p>O segundo fator da BPM está também incluído na primeira unidade</p><p>funcional do modelo psiconeurológico de Luria, cuja função</p><p>fundamental, como já foi apontado, compreende a função de</p><p>vigilância, de alerta e de atenção.</p><p>A equilibração não é focada detalhadamente no modelo luriano,</p><p>mesmo quando disseca os múltiplos fatores integradores do</p><p>movimento voluntário. Na BPM, porém, a equilibração é uma condição</p><p>básica da organização psicomotora, visto que envolve uma</p><p>multiplicidade de ajustamentos posturais antigravíticos, que dão</p><p>suporte a qualquer resposta motora. A equilibração reflete,</p><p>consequentemente, a resposta motora vigilante e integrada, em face</p><p>da força gravitacional que atua permanentemente sobre o indivíduo.</p><p>A equilibração reúne um conjunto de aptidões estáticas e</p><p>dinâmicas, abrangendo o controle postural e o desenvolvimento das</p><p>aquisições de locomoção.</p><p>A postura humana tem intrigado muitos investigadores em muitos</p><p>espaços científicos, nomeadamente anatomistas, fisiologistas,</p><p>antropologistas, ortopedistas, fisiatras, psiquiatras, biólogos,</p><p>cinesiólogos etc.</p><p>As perspectivas antropológicas centram-se em uma perspectiva</p><p>evolutiva, que envolve mudanças morfológicas progressivas, cujas</p><p>características exclusivas da espécie humana permitiram atingir a</p><p>postura bípede. Muitos antropologistas, como Tobias (1966), Montagu</p><p>(1964), Simons (1972), Simpson (1940), Clark (1972) e muitos outros,</p><p>têm assumido que foi a adaptação arborial e a concomitante</p><p>braquiação que conduziu à postura vertical humana. (FONSECA, 1982)</p><p>As perspectivas cinesiológicas dedicam-se mais preferencialmente</p><p>ao critério de “postura correta”, que em si implica outros tipos de</p><p>análise, quer do ponto de vista biomecânico, quer estético ou cultural.</p><p>A postura nessa dimensão não compreende apenas aspectos</p><p>anatômicos e mecânicos nem se define unicamente pelo alinhamento</p><p>vertical do centro de gravidade da cabeça, do tronco e dos membros</p><p>inferiores. (RASH e BURKE, 1974)</p><p>A análise cinesiológica da postura visa antes ao estudo energético e</p><p>às vantagens biomecânicas apropriadas para o uso do movimento nos</p><p>desportos, na ergonomia, na cinesioterapia e a reabilitação. Os desvios</p><p>posturais estruturais e funcionais (lordoses, cifoses, escolioses etc.) são</p><p>nela encarados como problemas mecânicos que levam a um maior</p><p>desgaste energético dos músculos antigravíticos.</p><p>(GRIBENSKI e</p><p>CASTON, 1973)</p><p>As perspectivas neurológicas advogam, por outro lado, que o corpo</p><p>humano é mantido em uma posição apropriada por meio do controle</p><p>automático dos sistemas para e extrapiramidais ou do controle</p><p>voluntário dos sistemas piramidais.</p><p>Tais sistemas, que resultam de uma ontogênese específica e</p><p>complexa, garantem uma contração permanente (tônica) com baixo</p><p>nível energético, cuja função primordial visa compensar o efeito da</p><p>força gravitacional.</p><p>A postura ereta é, por consequência, mantida pelo jogo</p><p>coordenado de órgãos especiais (órgãos tendinosos e fusos</p><p>neuromusculares), que, por meio do reflexo miotático modulado,</p><p>produzem uma interação neuromuscular, onde participam vários</p><p>centros subcorticais, corticais e cerebelosos.</p><p>Sherrington (1906) evocou que a postura acompanha o movimento</p><p>como uma sombra, tendo referido, igualmente que todo o movimento</p><p>começa em uma postura e termina em outra.</p><p>Movimento e postura são, de fato, inseparáveis em termos de</p><p>controle motor. O movimento tende a deslocar uns segmentos</p><p>corporais em relação a outros, ou a totalidade do corpo em relação ao</p><p>solo (MASSION, 1984). A postura, ou seja, a sua manutenção, é um</p><p>processo ativo regulado por uma grande variedade de inputs sensoriais</p><p>e centrais, que previnem a mudança de qualquer posição.</p><p>De alguma forma, os sistemas de controle do movimento e da</p><p>postura coatuam e coajustam-se ao mesmo tempo, isto é, são</p><p>coordenados sinergeticamente, a fim de manterem uma ação</p><p>integrada.</p><p>A postura é o resultado de vários mecanismos básicos já referidos</p><p>quando tratamos do primeiro fator da BPM. Primeiro, exige o tônus</p><p>muscular, que confere aos músculos a capacidade de aumentar as</p><p>articulações em posições apropriadas. Segundo, reclama um tônus</p><p>adicional nos músculos extensores, que contrariam adaptativamente a</p><p>gravidade. A cocontração de músculos antagonistas é essencial para</p><p>permitir as várias fixações (pescoço, ombro e membros), que suportam</p><p>o peso do corpo e dão à postura a faceta de um sistema funcional</p><p>complexo. (LURIA, 1973)</p><p>A postura ereta em condições normais envolve a interação não só</p><p>de várias estruturas neurofisiológicas mas também de vários sentidos e</p><p>sistemas funcionais. Só o esforço combinado de simples reflexos</p><p>(reflexos tônicos e reflexo miotático) da informação proprioceptiva, da</p><p>integração vestibular (enviada ao cerebelo e depois ao cérebro), da</p><p>ativação da formação reticulada (sistema gama), da informação visual e</p><p>dos movimentos voluntários, coadjuvado com as leis físicas do</p><p>equilíbrio, pode materializar a função de equilibração. (MAGNUS e</p><p>KLEIJN, 1924)</p><p>A equilibração compreende, em termos psicomotores, a integração</p><p>da postura em um sistema funcional complexo, que combina a função</p><p>tônica e a proprioceptividade nas inúmeras relações com o espaço</p><p>envolvente. (QUEIRÓS e SCHRAGER, 1978)</p><p>O segundo fator psicomotor da BPM não se esgota no controle do</p><p>universo intracorporal; ele se encontra em permanente interação com o</p><p>universo extracorporal, coordenando informações internas e externas,</p><p>indispensáveis a qualquer atividade motora ou de aprendizagem.</p><p>A equilibração assume dentro desses parâmetros uma</p><p>potencialidade corporal, que serve de base para estruturar qualquer</p><p>processo humano de aprendizagem.</p><p>A equilibração traduz a exclusividade da postura bípede humana de</p><p>onde partem orientações extrabiológicas únicas e peculiares. A</p><p>complexa integração sensorial que está na base da equilibração é</p><p>especificamente humana. Dela partem as orientações simbólicas</p><p>definitivas da humanidade.</p><p>A apropriação da postura bípede, que se encontra dependente da</p><p>mielinização, é uma construção do cérebro distinta no homem e no</p><p>animal. A ação coordenada e simultânea da proprioceptividade, da</p><p>tonicidade e da exteroceptividade, transformadas no sistema complexo</p><p>que traduz a equilibração, é, sem margem para dúvidas, uma</p><p>combinação básica de qualquer processo de aprendizagem, daí a sua</p><p>importância e inclusão na BPM.</p><p>A equilibração é um passo essencial do desenvolvimento</p><p>psiconeurológico da criança, logo um passo-chave para todas as ações</p><p>coordenadas e intencionais, que, no fundo, são os alicerces dos</p><p>processos humanos de aprendizagem.</p><p>Se a equilibração, que está integrada na primeira unidade funcional</p><p>do modelo de Luria, não é suficientemente integrada e controlada</p><p>pelos sistemas funcionais que a constituem, a intervenção das outras</p><p>unidades e respectivos centros superiores será reclamada. Quando, de</p><p>fato, os centros superiores são forçados a entrar em ação para manter</p><p>a postura, é claro que as potencialidades de aprendizagem diminuem.</p><p>Quando os centros superiores são forçados a atuar em nível das</p><p>funções de equilíbrio, o potencial psicomotor e as capacidades</p><p>psíquicas superiores falham ou reduzem a sua adaptabilidade.</p><p>O cérebro, para estar mais apto a aquisições complexas, tem</p><p>necessidade de transferir as funções motoras mais simples para centros</p><p>automáticos; daí a repercussão dos problemas posturais em todas as</p><p>funções de aprendizagem, sejam psicomotoras ou psicolinguísticas.</p><p>A resposta à gravidade expressa em competências antigravíticas é</p><p>uma das adaptações filogenéticas mais antigas, pois serve de substrato</p><p>a todas as aquisições sensório-motoras ulteriores (AYRES, 1977). A</p><p>gravidade é, em última análise, uma fonte de estimulação sensorial em</p><p>nível do sistema vestibular e uma condição básica à percepção do peso</p><p>do corpo, sem as quais não é possível uma locomoção espacial</p><p>coerente. A locomoção, em todos os vertebrados, é a base da procura</p><p>da nutrição e da sobrevivência; ela está certamente implicada na</p><p>evolução dos seus sistemas nervosos. (FONSECA, 1982)</p><p>Locomoção e equilibração surgem, em termos evolutivos,</p><p>intimamente associadas, quer na postura quadrúpede, quer na postura</p><p>bípede, pois ambas contêm em si uma característica complexa de</p><p>automaticidade. Automaticidade que se revela diferenciadamente nos</p><p>animais e no homem, visto que a superação da “escravatura gravítica”</p><p>assume no bebê humano uma longa maturação neurotônica, desde os</p><p>reflexos de endireitamento à postura da cabeça e à postura de sentado</p><p>até atingir a segurança gravitacional bípede.</p><p>O nível de organização neurológica da equilibração envolve</p><p>essencialmente o tronco cerebral, o cerebelo e os gânglios da base,</p><p>estruturas que cabem dentro da primeira unidade funcional do modelo</p><p>de Luria.</p><p>Os ajustamentos posturais no ser humano são integrados, na sua</p><p>maioria, por estruturas subcorticais de significação funcional</p><p>filogenética, que se assumem como inatas e, portanto, como</p><p>evolutivamente garantidas. Não se tem dado, por essa razão, muita</p><p>importância a disfunções dos mecanismos posturais, quando muito</p><p>frequentemente os problemas perceptivos ou de aprendizagem têm a</p><p>sua origem em uma fraca integração proprioceptiva e vestibular,</p><p>sugerindo de alguma forma problemas de modulação tônica em nível</p><p>do tronco cerebral.</p><p>Denny-Brown (1962), por exemplo, atribuiu ao mesencéfalo os</p><p>mecanismos que integram os reflexos tônicos do pescoço, os reflexos</p><p>tônico-labirínticos, os reflexos oculares, os reflexos de endireitamento e,</p><p>até mesmo, os padrões motores de sentar, levantar, andar e trepar. O</p><p>subtrato para criar reações de comportamento mais elaboradas e para</p><p>gerar padrões adaptativos tem certamente no tronco cerebral e no</p><p>mesencéfalo estruturas de suporte muito importantes, estruturas essas</p><p>que governam e regulam as respostas adaptativas básicas, como a</p><p>equilibração.</p><p>Para Trevarthen (1968), a influência do mesencéfalo tem mais a ver</p><p>com as funções visuais e auditivas subtalâmicas e com a integração</p><p>inter-hemisférica do que com as funções posturais propriamente ditas,</p><p>sugerindo já este autor uma implicação superior das funções posturais.</p><p>Desde o momento em que a criança de quatro meses levanta a</p><p>cabeça, como uma reação antigravítica essencial à sua maturação</p><p>neurológica, o cérebro não para de integrar a função da gravidade. A</p><p>inibição (integração) dos reflexos tônicos do pescoço e dos reflexos</p><p>tônico-labirínticos resulta em um sistema sensório-motor cada vez mais</p><p>hierarquizado</p><p>sobressaem os trabalhos de Kephart, Barsch,</p><p>Frostig, Getman, Cruickshank, Doman e Delacato, e fundamentalmente</p><p>de Cratty e Ayres, trabalhos muito pouco conhecidos pelos</p><p>continuadores de Wallon e Ajuriaguerra.</p><p>Em outra direção, e lamentavelmente pouco referidos nos</p><p>trabalhos, quer de autores americanos, quer de autores europeus,</p><p>surgem os estudos dos autores soviéticos, de onde teremos de destacar</p><p>na área da Psiconeurologia do movimento os nomes de Ozeretsky</p><p>(divulgado muito antes por Guilmain), Vygotsky, Bernstein,</p><p>Zaporozhets, Elkonin, Galperin e Luria.</p><p>Cabe aos autores soviéticos a introdução em Psicologia do conceito</p><p>de que a origem de todo o movimento e de toda a ação voluntária não</p><p>se faz dentro do organismo, mas sim a partir da história social do</p><p>homem. O movimento assim encarado depende, primeiro, da função</p><p>de comunicação e, mais tarde, do analisador verbal, ou seja, das</p><p>sínteses aferentes.</p><p>Com base nestes novos dados, a Psicomotricidade tende</p><p>atualmente a ser reconceitualizada, não só pela “intrusão” de fatores</p><p>antropológicos, filogenéticos, ontogenéticos, paralinguísticos, como</p><p>essencialmente cibernéticos e psiconeurológicos. É na integração</p><p>transdisciplinar destas áreas do saber que provavelmente se colocará no</p><p>futuro a evolução e a atualização do conceito de Psicomotricidade e é,</p><p>de alguma forma, dentro desta ótica que iremos desenvolver nossa</p><p>pesquisa.</p><p>1.2. Breve revisão histórica da Psiconeurologia</p><p>A história da Psiconeurologia remonta aos primórdios da civilização.</p><p>Aristóteles julgou que a mente pensante não tinha nenhuma relação</p><p>com o corpo ou com os sentidos, e, por esse fato, não poderia ser</p><p>destruída.</p><p>No século V a.C., Hipócrates afirma que o cérebro era o órgão do</p><p>intelecto e o coração o órgão dos sentidos. Herófilo, no século III a.C.,</p><p>estuda o cérebro e defende-o como o lugar da inteligência, pensava</p><p>que o ventrículo médio era o responsável pela faculdade da cognição e</p><p>o ventrículo posterior pela memória. (HEILMAN e VALENSTEIN, 1979)</p><p>Craniotomias são realizadas pelos Incas 3.000 anos a.C.,</p><p>provalmente com a finalidade da libertação de demônios e não</p><p>especificamente como tratamento de doenças mentais.</p><p>Galeno, no século II a.C., pensou que as atividades de cérebro eram</p><p>realizadas mais pela substância do cérebro do que pelos ventrículos. Só</p><p>com Vesalius, no século XVI, esta afirmação foi confirmada,</p><p>independentemente de este mesmo anatomista considerar que os</p><p>cérebros do homem, dos mamíferos e dos pássaros eram similares e</p><p>apenas variavam no tamanho. Leonardo da Vinci defendeu também a</p><p>teoria ventricular.</p><p>Mais tarde, a tentativa de localizar a alma (psyke) radicada na</p><p>cultura grega interessou inúmeros pensadores durante muitos anos, até</p><p>que Descartes, no século XVII, localizou-a na glândula pineal. A sua</p><p>posição central em relação aos ventrículos levou-o a pensar que tudo</p><p>emanava dela.</p><p>Gall, nos finais do século XVIII, introduz a frenologia, ciência que</p><p>visava localizar as várias faculdades humanas em vários centros do</p><p>cérebro. Com o seu discípulo Spurzheim, publica um volume sobre a</p><p>anatomia e a fisiologia do sistema nervoso, defendendo que a mente</p><p>era dependente da estrutura do cérebro e que o córtex cerebral era o</p><p>órgão da mente. Para GaIl, a linguagem estava localizada nos lóbulos</p><p>anteriores do cérebro, além de ter localizado várias faculdades no</p><p>cérebro (instinto de propagação, agressividade, memória verbal, amor</p><p>da glória, talento poético etc.). Ao contrário de Descartes, Gall</p><p>concebia o cérebro em estruturas que apresentaram um</p><p>desenvolvimento sucessivo. Propôs que as forças vitais se concentravam</p><p>no tronco cerebral e que as capacidades intelectuais se encontravam</p><p>situadas em várias partes dos dois hemisférios. No seu modelo</p><p>estrutural (three story house), Gall colocou no nível inferior os instintos,</p><p>no nível médio as propensões animais e no nível superior a razão. Para</p><p>este autor, a medida do crânio era também uma condição fundamental</p><p>para deduzir as características morais e intelectuais da pessoa, por</p><p>pensar que a forma do crânio era modificada pelo cérebro colocado em</p><p>seu interior. Independentemente das suas concepções originais terem</p><p>tido grande popularidade, o tempo veio a provar a sua inconsistência.</p><p>Combatido pela Igreja, detestado por Napoleão I (CHANGEUX, 1983),</p><p>o seu ensino, todavia, foi o fundamento da moderna Psiconeurologia.</p><p>(HEILMAN e VALENSTEIN, 1979)</p><p>Bouillaud, discípulo de Gall, comparou-o a Copérnico, Galileu e</p><p>Newton, tendo-o considerado como um dos “grandes messias da</p><p>ciência”. Ao contrário do seu mestre, reuniu muitos casos autopsiados,</p><p>assegurando que a perda da linguagem estava relacionada com lesões</p><p>dos lóbulos frontais anteriores. O seu genro Aurburtin, que continuou</p><p>os seus estudos sobre a “sede da faculdade da linguagem”, proferiu,</p><p>em 1861, uma célebre conferência na Sociedade Parisiense de</p><p>Antropologia, a que, por sinal, assistiu Broca, onde afirmou: “Quando</p><p>um dos doentes afásicos morrer e eu não encontrar qualquer lesão nos</p><p>lóbulos frontais, eu renunciarei às minhas ideias”. Por coincidência,</p><p>passado algum tempo, Broca recebe um doente hemiplégico direito</p><p>com concomitante perda da fala e da escrita. Dois dias depois, o</p><p>paciente morre, tendo Broca convidado Aurburtin para a autópsia,</p><p>onde efetivamente se confirmou a lesão – é o caso Leborgne, que se</p><p>tornou histórico nos estudos de afasia.</p><p>Broca denominou por afemia o defeito de linguagem resultante da</p><p>lesão do lóbulo frontal e situou-o exatamente na terceira circunvolução</p><p>frontal. O seu segundo caso famoso (caso Lelong), após autópsia,</p><p>confirma uma velha hemorragia na segunda e na terceira circunvolução</p><p>frontal. Trousseau contrapôs ao termo “afemia” o termo “afasia”,</p><p>termo esse discutidíssimo na época por Broca, mas posteriormente</p><p>adotado. O centro motor da fala (área 44 de Brodmann) passa a ser,</p><p>desde então, designado por área de Broca.</p><p>Broca também é responsável por localizar as lesões que interferem</p><p>com a capacidade da fala no hemisfério esquerdo. Dax (pai), porém,</p><p>ignorado durante algum tempo, confirmou 30 anos antes as mesmas</p><p>lesões no hemisfério esquerdo. Entra-se no advento das cartas e dos</p><p>mapas cerebrais e o “localizacionismo” foi então levado ao extremo.</p><p>Wernicke (1848-1904) surge, entretanto, sugerindo uma nova</p><p>concepção do cérebro, tendo-o dividido em duas partes: uma anterior,</p><p>motora, e outra posterior, sensorial, clarificando, em certa medida, os</p><p>dois componentes da linguagem, a receptiva e a expressiva. Para</p><p>Wernicke, a afasia de Broca (afemia) era uma perda da imagem motora</p><p>das palavras, defendendo a ideia de que o córtex motor continha</p><p>conceitos de movimentos, perspectiva original que se enquadra</p><p>perfeitamente na Psicomotricidade. O mesmo au tor define quatro</p><p>tipos de afasia: motora, de condução, sensorial e total. Um modelo de</p><p>linguagem é sugerido, modelo este que encontra confirmação em</p><p>autores mais recentes como Penfield e Geschwind, mesmo que tivesse</p><p>sido criticado por Head. Wernicke notou que as lesões da região</p><p>temporal posterior e superior causavam afasia, preferencialmente em</p><p>nível da compreensão. O mesmo autor situou no centro auditivo as</p><p>imagens sonoras, enquanto a área de Broca continha imagens para o</p><p>movimento, defendendo ainda que entre ambas existiam comissuras</p><p>que as ligavam.</p><p>Na mesma linha “localizacionista”, surgem, ainda, Henschen, que</p><p>se torna original com os estudos das projeções da retina e da atividade</p><p>do hemisfério não dominante, embora assumindo uma visão</p><p>estritamente localizacionista nas “desordens sensórias da fala”, e</p><p>Liepmann, que publica, em 1900, um trabalho sobre apraxia,</p><p>naturalmente de grande importância para os estudos da</p><p>Psicomotricidade. Esse autor chegou a defender a separação dos atos</p><p>motores apreendidos dos processos psicológicos que os iniciam, fator</p><p>esse ainda hoje de grande importância, quando o quadro afásico se</p><p>complica com a presença de apraxias.</p><p>As críticas ao localizacionismo, entretanto, começam a desenvolver-</p><p>se. Head (18611940) critica severamente a opção de centros (Broca,</p><p>Wernicke, Lichthein, Exner etc.),</p><p>e organizado e de onde partem, efetivamente, os</p><p>sucessivos estádios na apropriação da postura. (BOBATH,1966)</p><p>O domínio postural é um domínio da gravidade adquirida à custa</p><p>da cocontração tônica dos músculos da profundidade, ação de suporte</p><p>que estabiliza as estruturas articulares onde a cocontração básica dos</p><p>músculos da superfície se desenrola adequadamente.</p><p>Se as reações tônicas dos músculos das articulações forem</p><p>ineficazes ou fracas, a estabilização de tais articulações não se dá e,</p><p>consequentemente, os músculos das articulações distais deixam de</p><p>atuar convenienternente. As constelações de contrações musculares</p><p>que implicam o movimento voluntário humano têm na sua retaguarda</p><p>outras constelações de contrações, cuja natureza é essencialmente</p><p>tônica. A modulação tônica, por conseguinte, é vital a qualquer reação</p><p>postura!.</p><p>A modulação tônica que encerra o domínio da equilibração é</p><p>dependente do mecanismo de integração sensorial dos fusos</p><p>neuromusculares. Os fusos neuromusculares, com dois tipos de</p><p>receptores sensoriais (FONSECA, 1 971), associados a fibras-gama</p><p>eferentes diferentes, atuam tonicamente como mecanismos de</p><p>feedback sensorial em estreita comunicação com o sistema nervoso</p><p>central. De um lado, a contração tônica associa-se com as terminações</p><p>aferentes secundárias; do outro, a contração fásica associa-se com as</p><p>terminações aferentes primárias, daí resultando funções estáticas e</p><p>fásicas interdependentes. E a informação “tônica” aferente oriunda</p><p>dos fusos neuromusculares que assegura os múltiplos circuitos</p><p>posturais, não só em nível do tronco cerebral mas também em nível do</p><p>neocerebelo, produzindo por esse servomecanismo as necessárias</p><p>cocontrações e sinergias próximo-distais.</p><p>É agora fácil perceber por que é que o sistema vestibular participa</p><p>na equilibração de forma tão relevante. O sistema vestibular está</p><p>estritamente associado com as terminações aferentes secundárias dos</p><p>fusos neuromusculares, pois cabe-lhe a coordenação das contrações</p><p>tônicas e fásicas dos diferentes grupos musculares, realizando por esse</p><p>mecanismo uma complexa integração sensorial de grande importância</p><p>na organização da equilibração e na orientação espacial da</p><p>motricidade. (AYRES, 1977; e FONSECA, 1984)</p><p>Para uma orientação espacial bem-sucedida, é necessário uma</p><p>adequada informação sobre o corpo e os seus movimentos; por</p><p>conseguinte, a informação acerca do grau da tensão muscular dada</p><p>aferentemente pelos fusos neuromusculares é crucial. Tal detecção de</p><p>tensões e de deslocamentos, de aceleração e desacelerações (angulares</p><p>ou lineares), é superiormente integrada pelo sistema vestibular; daí a</p><p>sua interfuncionalidade com a tonicidade e a equilibração.</p><p>A função do fuso neuromuscular é a chave para a manutenção do</p><p>tônus muscular, e esta é fundamental para a regulação da equilibração.</p><p>A sua disfunção é, em certa medida, sinônimo de inadequada</p><p>informação sensorial. A disfunção tônica sugere uma reduzida</p><p>aferência neuromuscular, que tende a produzir efeitos em nível da</p><p>integração proprioceptiva e vestibular. A inadequada integração</p><p>vestibular e proprioceptiva daí resultante reduz a atividade dos fusos</p><p>neuromusculares, que, por sua vez, tornam-se menos eficientes, pondo</p><p>em risco a implementação de qualquer reação motora, incluindo os</p><p>reflexos posturais e os movimentos voluntários. A tonicidade está assim</p><p>relacionada com a integração sensorial e está inexoravelmente</p><p>dependente da organização da equilibração.</p><p>O sistema vestibular como um órgão especializado da equilibração</p><p>compreende um componente funcional periférico em nível do ouvido</p><p>interno e um componente funcional interno situado nos núcleos</p><p>nervosos do tronco cerebral.</p><p>Com uma grande idade filogenética, e o primeiro sistema sensorial</p><p>a mielinizar-se, esse sistema desempenha duas funções sensório-</p><p>motoras vitais à sobrevivência das espécies: a detecção do movimento e</p><p>a detecção da gravidade. Com base nessas funções, o sistema</p><p>vestibular ajuda o cérebro, desde a vida intrauterina, a conhecer</p><p>quando qualquer sistema sensorial está ligado à motricidade.</p><p>O sistema vestibular entra em atividade quando a interação com o</p><p>envolvimento se produz, interação essa só possível de ser gerada,</p><p>quando subsiste a integridade desse sistema de integração</p><p>proprioceptiva.</p><p>Segundo Ayres (1977 e 1981), o movimento é integrado pelos</p><p>canais semicirculares, enquanto paralelamente a gravidade é integrada</p><p>pelo sáculo e pelo utrículo. Qualquer lesão em um dos dois sistemas</p><p>vestibulares altera radicalmente as funções de equilibração e de</p><p>motricidade.</p><p>O sistema vestibular é seguramente um dos processos básicos de</p><p>convergência polissensorial, indispensável à interação com a superfície</p><p>terrestre, onde atua a força gravitacional. Tal interação, primária e vital,</p><p>contida na equilibração só pode gerar outras relações mais complexas,</p><p>quando esta resulta verdadeiramente integrada.</p><p>As suas interações neurofuncionais descendentes estão em relação</p><p>com os núcleos motores subcorticais no tronco cerebral e da medula,</p><p>atuando em nível dos motoneurônios alfa e gama, regulando o tônus</p><p>postural, provocando, em concomitância, os reflexos tônicocervicais, de</p><p>onde emergem modulações tônicas para o tronco e para os membros.</p><p>As ascendentes atuam em nível do cerebelo da protuberância, dos</p><p>núcleos vermelhos e do córtex, produzindo coordenações visório-</p><p>vestibulares e modulações tônicas facilitadoras e inibidoras</p><p>fundamentais à função de equilibração e igualmente a outros fatores</p><p>psicomotores, como a noção do corpo, a estruturação espaço-temporal</p><p>e as praxias.</p><p>O sistema vestibular, verdadeiro analisador estático-dinâmico</p><p>multissensorial (FONSECA, 1984), não só responde pela postura mas</p><p>também pela orientação espacial, dada a sua inter-relação com outros</p><p>receptores somáticos e visuais, bem como responde pela organização</p><p>perceptiva e pelo potencial de aprendizagem.</p><p>Porque a gravidade é a força universal mais constante do nosso</p><p>planeta, nenhum ser vivo pode subsistir sem se relacionar com ela,</p><p>razão pela qual a sua superação e domínio culmina em uma das</p><p>aquisições mais significativas da espécie humana – a postura bípede,</p><p>verdadeiro marco da hominização, em que obviamente está integrada</p><p>a evolução do sistema vestibular e o seu papel em todo o</p><p>desenvolvimento perceptivo e cognitivo.</p><p>O sistema vestibular tem inúmeras conexões e, por isso, repercute</p><p>em toda a organização psicomotora. As sensações provocadas pela</p><p>gravidade são uma referência básica a todas as outras informações</p><p>sensoriais e perceptivas, daí a sua implicação no desenvolvimento das</p><p>funções visuais e auditivas, e certamente, a sua repercussão no</p><p>desenvolvimento da aprendizagem.</p><p>O núcleo vestibular do tronco cerebral, além de processar</p><p>informação dos músculos, das articulações, dos tendões e da pele,</p><p>processa ainda informação dos receptores visuais e auditivos. Organiza</p><p>em suplemento outros impulsos, que advêm do tronco cerebral, do</p><p>cerebelo e de muitas outras partes do córtex, especialmente do lóbulo</p><p>parietal, garantindo a ligação da informação propriocepiva com a</p><p>exteroceptiva, fornecendo as condições básicas da organização</p><p>perceptiva da visão e da audição, daí, consequentemente, a sua</p><p>influência no desenvolvimento psicomotor e emocional.</p><p>Por razões óbvias, influencia a visão, visto que está associado aos</p><p>centros que regulam os músculos dos olhos, e a audição na medida em</p><p>que está ligado em termos anatômicos no ouvido interno e associado</p><p>aos músculos do pescoço, que orientam a cabeça para as fontes de</p><p>estimulação sonora. Coordena todas as informações visuais e auditivas</p><p>com a cabeça e o corpo para lhes induzir a significação da informação,</p><p>na medida em que só um campo perceptivo estável (visual e auditivo) o</p><p>pode garantir.</p><p>Sem um sistema vestibular funcional, os olhos e a cabeça não</p><p>podem estabilizar as condições posturais que estão na base da</p><p>captação e do processamento da informação sensorial.</p><p>A produção de contrações musculares reflexas nos olhos</p><p>(nistagmos), após estimulação vestibular, é uma simples prova de</p><p>inúmeras relações funcionais</p><p>do sistema vestibular com os outros</p><p>sentidos. Provavelmente, sem essa condição básica, os outros sentidos</p><p>não podem interagir, prejudicando a formação dos processos gnósicos</p><p>indispensáveis às aprendizagens mais complexas.</p><p>A informação vestibular processada proprioceptivamente é</p><p>indispensável à visão para se relacionar com o espaço, quer para o</p><p>movimento global, quer para as manipulações dos objetos.</p><p>A visualização espacial joga indubitavelmente com o sistema</p><p>vestibular, verdadeiro giroscópio do corpo. A informação visual só é útil</p><p>quando relacionada com alguma referência postural. Tal referência é</p><p>desempenhada no corpo humano pelos canais semicirculares do</p><p>sistema vestibular, verdadeiro radar endopsíquico, que interfere</p><p>naturalmente com a noção do corpo (somatognosia).</p><p>O sistema vestibular influencia também as funções emocionais e o</p><p>comportamento, dadas as suas intrincadas conexões com o sistema</p><p>límbico, que só pode funcionar adequadamente desde que seja</p><p>modulada pelos outros sentidos. A ausência de estimulação vestibular</p><p>pode provocar reações de agressividade ou de isolamento; muitas</p><p>experiências animais obtêm aprovação (HARLOW, 1958 e 1971), e no</p><p>ser humano, fundamentalmente na criança, os seus efeitos emocionais</p><p>são concludentes em termos de manifestações afetivas. A relação com</p><p>o campo gravitacional certamente precoce em termos de relação entre</p><p>mãe e filho é uma condição do desenvolvimento global da criança.</p><p>A segurança gravitacional está na base do controle postural e da</p><p>equilibração, na medida em que traduz a integridade do sistema</p><p>vestibular. A insegurança postural ou gravitacional gera naturalmente</p><p>instabilidade emocional, hiperatividade, ansiedade, distratibilidade etc.,</p><p>alterando todas as condições necessárias ao processamento da</p><p>informação. Debaixo de uma insegurança gravitacional, não se pode</p><p>integrar informação sensorial nem organizar percepções ou associações</p><p>de nível superior.</p><p>Com insegurança gravitacional, a equilibração não se realiza</p><p>apropriadamente, toda a instabilidade emocional se desencadeia, e</p><p>nenhuma atenção seletiva ou controle é possível. O desenvolvimento</p><p>emocional e psicomotor estão comprometidos, e as dificuldades de</p><p>aprendizagem tendem a eclodir.</p><p>O sistema vestibular organiza e participa na elaboração de respostas</p><p>posturais e adaptações de equilibração, está necessariamente envolvido</p><p>nas funções de vigilância, de alerta e de atenção, condições inerentes à</p><p>primeira unidade funcional de Luria e envolvidas em todas as funções</p><p>de processamento da informação. A sua função opera-se muito antes</p><p>dos sistemas proprioceptivos e exteroceptivos; daí a sua marcada</p><p>influência na evolução de outros sistemas funcionais mais complexos e</p><p>hierarquizados.</p><p>As funções vestibulares e reticulares operaram em termos</p><p>filogenéticos e operam em termos ontogenéticos, muito antes dos</p><p>sistemas tátil-quinestésicos, visuais e auditivos. Estes novos sistemas</p><p>emergidos na formação reticulada estruturaram-se e estruturam-se a</p><p>partir do sistema vestibular ao longo de toda a evolução, razão pela</p><p>qual a detecção de sinais vestibulares é tão importante na observação</p><p>de crianças com problemas psicomotores ou de aprendizagem.</p><p>Da observação do fator da equilibração, ressaltam, como podemos</p><p>prever por estes dados, inúmeros sinais que nos possibilitam avaliar até</p><p>certo ponto como o cérebro processa a informação.</p><p>As disfunções vestibulares detectadas nas tarefas da BPM</p><p>permitem-nos ir além do fator motor da equilibração, na medida em</p><p>que elas nos fornecem sinais atípicos de desintegração sensorial e</p><p>psicomotora. Não só se avalia a qualidade da organização tônica e</p><p>reflexivo-postural, como se captam dados de natureza proprioceptiva</p><p>que revelam o funcionamento dos fusos neuromusculares, dos órgãos</p><p>neurotendinosos e de células de Renshaw, que consequentemente</p><p>definem toda uma integração postural e motora. As alterações da</p><p>inervação recíproca, as modificações do sistema gama, as lentas</p><p>aferências tônicas, vão obviamente produzir reações posturais</p><p>compensatórias mais explosivas e reequilibrações mais abruptas e</p><p>descontroladas.</p><p>A presença de movimento na cabeça mais incessantes e menos</p><p>inibidos, sinais de dismetria e de discronometria, perturbações de</p><p>coordenação nos diversos componentes da equilibração, assinergias</p><p>coadjuvadas com hipercorreções exageradas e imprecisas, perda de</p><p>direção e de orientação postural-espacial, marcha controlada pesada,</p><p>rígida e titubeante, alargamento da base de sustentação, movimentos</p><p>de compensação dos braços mais amplos, equilíbrios e reequilíbrios</p><p>mais vigiados etc. revelam certamente sinais disfuncionais, vestíbulo-</p><p>cerebelosos que, no seu todo, demonstram uma equilibração mais</p><p>precária, com inequívocas repercussões na capacidade de o córtex</p><p>processar informação mais complexa.</p><p>É com base na pesquisa destes sinais disfuncionais posturais que o</p><p>fator de equilibração na BPM compreende o estudo dos subfatores da</p><p>imobilidade, do equilíbrio estático e do equilíbrio dinâmico, que</p><p>passamos desde já a descrever.</p><p>As instruções a dar à criança devem ser transmitidas verbalmente,</p><p>de forma que se observe a sua capacidade em traduzir a estrutura</p><p>simbólica em movimentos concretos. Só em último recurso, recorre-se à</p><p>imitação ou à realização motora assistida.</p><p>Descrição dos subfatores e cotação</p><p>Imobilidade</p><p>A imobilidade é definida por Guilmain (1971) como a capacidade</p><p>de inibir voluntariamente todo e qualquer movimento durante um</p><p>curto lapso de tempo.</p><p>Por meio da sua observação, podemos avaliar a capacidade da</p><p>criança em conservar o equilíbrio com os olhos fechados, os</p><p>ajustamentos posturais, as reações tônico-emocionais (ansiedade,</p><p>turbulância, instabilidade etc.), os movimentos faciais, os movimentos</p><p>involuntários, como gesticulações, sorrisos, oscilações multidirecionais e</p><p>unidirecionais, distonias, os movimentos coreiformes e atetotiformes</p><p>etc., isto é, apreciar o grau de controle vestibular e cerebeloso da</p><p>postura.</p><p>A rigidez corporal, os desvios de simetria, a observação dos pés, dos</p><p>joelhos, do tronco e dos braços e das mãos, embora indiretos, podem</p><p>clarificar outros sinais relevantes nessa tarefa.</p><p>A criança inibida apresenta normalmente uma blocagem tônico-</p><p>respiratória, crispações peribucais e periorbitais, mímicas de</p><p>hipercontrole, insegurança geral etc.</p><p>A criança instável, em contrapartida, apresenta outro tipo de sinais,</p><p>como a instabilidade, oscilações variadas, reequilibrações abruptas,</p><p>descontrole, sorrisos, gesticulações múltiplas etc.</p><p>Ver se imobilidade é assegurada pelos músculos da superfície, como</p><p>o reto abdominal e a quadricípite femural, e apreciar o grau de</p><p>disponibilidade tônica são fatores importantes a ter em conta.</p><p>Turbulência, agitação, compensações exageradas, hiperextensões,</p><p>tremulações e flutuações são outros sinais difusos significativos que</p><p>caracterizam a realização deste subfator da equilibração.</p><p>Dentro dos sinais difusos que traduzem disfunções vestibulares e</p><p>cerebelosas, temos a referir essencialmente os seguintes:</p><p>— movimentos faciais: movimentos involuntários da cabeça –</p><p>rotações e inclinações esporádicas; distonias periorais e</p><p>perioculares; movimentos irregulares da boca, dos lábios e da</p><p>língua; foações e deglutinações; movimentos bruscos</p><p>descontrolados, crispações faciais localizadas etc.;</p><p>— gesticulações: movimentos involuntários do tronco; desvios</p><p>simétricos e assimétricos; movimentos abruptos e explosivos dos</p><p>braços – endorrotações e exorrotações; flexões e extensões;</p><p>abduções e aduções; desalinhamentos incessantes da cabeça do</p><p>tronco e da bacia; disquinesias, contorções bizarras; movimentos</p><p>pseudocoreiformes proximais (ombros) e distais (dedos);</p><p>movimentos intempestivos pouco econômicos; movimentos coreico-</p><p>atetósicos; movimentos coreáticos grosseiros e amplos; movimentos</p><p>atetoides lentos e irregulares dos dedos etc.;</p><p>— sorrisos: expressões mímicas inadequadas, atividade caricatural</p><p>desordenada e sem relação com a tarefa; desbloqueios tônico-</p><p>emocionais; manifestações emocionais transitórias; sorrisos</p><p>mioclônicos breves e em</p><p>descarga etc.;</p><p>— oscilações: flutuações ligeiras da postura, oscilações rítmicas,</p><p>mioclonias involuntárias e bruscas, reequilibrações do deslocamento</p><p>do centro de gravidade direita-esquerda e frente-trás; oscilações</p><p>unidirecionais seguidas de reequilibrações explosivas abruptas e mal</p><p>controladas; oscilações multidirecionais irregulares, disarmônicas e</p><p>hesistantes; desequilíbrio unidirecional e multidirecional mal</p><p>compensado e inibido;</p><p>— rigidez corporal: distonias, disquinesias cervicais, defeitos</p><p>estáticos, contrações incessantes dos tendões do tibial anterior e</p><p>dos extensores; anteflexões e retroflexões do tronco; inibição</p><p>postural com hipertonia; mioclonias não sinergéticas; hiperextensão</p><p>do punho e dos dedos; flexão dos ombros; pronação excessiva da</p><p>mão; abdução do punho; pressão e alteração da estabilidade do</p><p>arco da superfície plantar; bloqueio respiratório; espamos diversos;</p><p>— tiques: movimentos rítmicos localizados, movimentos parasitas,</p><p>sacudidelas, fasciculações, movimentos palpebrais constantes</p><p>acompanhados de nistagmos, assinergia dos globos oculares;</p><p>tremulações etc.;</p><p>— hiperemotividade: agitação, instabilidade, movimentos</p><p>assíncronos dos braços e dos dedos, ansiedade; movimentos</p><p>atetósicos, imobilidade anárquica incessante etc.</p><p>Trata-se, evidentemente, de uma miríade de sinais, difíceis de</p><p>registrar pela variedade e certamente pela significação. Apresentamo-</p><p>los neste subfator, mas eles também caracterizam os outros dois</p><p>subfatores seguintes.</p><p>Figura 3.14. – Observação da imobilidade – controle</p><p>postural durante 60 segundos com os olhos fechados</p><p>Na BPM, a imobilidade compreende o seguinte procedimento: a</p><p>criança deverá manter-se na posição ortoestática durante 60 segundos</p><p>com os olhos fechados e os braços pendentes ao lado do corpo, com</p><p>apoio palmar das mãos e dos dedos na face lateral da coxa, pés juntos,</p><p>simétricos e paralelos.</p><p>O observador deve manter na preparação da posição um contato</p><p>com a criança, transmitindo-lhe confiança e segurança. Os sinais</p><p>disfuncionais devem ser registrados tendo em consideração a sua</p><p>sequência temporal.</p><p>A cotação a atribuir deverá ser a seguinte:</p><p>4, se a criança se mantém imóvel durante os 60 segundos,</p><p>evidenciando um controle postural perfeito, preciso e com</p><p>disponibilidade e segurança gravitacional; nenhum sinal difuso deve</p><p>ser identificado;</p><p>3, se a criança se mantém imóvel entre 45 e 60 segundos,</p><p>revelando ligeiros movimentos faciais, gesticulações, sorrisos,</p><p>oscilações, rigidez corporal, tiques, emotividade etc.; realização</p><p>completa adequada e controlada;</p><p>2, se a criança se mantém imóvel entre 30 e 45 segundos,</p><p>revelando sinais disfuncionais vestibulares e cerebelosos óbvios,</p><p>insegurança gravitacional;</p><p>1, se a criança se mantém imóvel pelo menos 30 segundos, com</p><p>sinais disfuncionais bem marcados, reequilibrações abruptas,</p><p>quedas, hiperatividade estática etc.; insegurança gravitacional</p><p>significativa.</p><p>A cotação obtida deve ser então registrada na ficha da BPM,</p><p>assinalando o número correspondente.</p><p>Equilíbrio estático</p><p>O equilíbrio estático requer as mesmas capacidades da imobilidade</p><p>e, no fundo, reveste-se exatamente das mesmas características e</p><p>significações nela descritas.</p><p>O subfator do equilíbrio estático consta de três provas de duração</p><p>de 20 segundos, efetuadas em duas tentativas possíveis. Para as</p><p>crianças em idade pré-primária (4 a 5 anos), as provas devem ser</p><p>realzadas com os olhos abertos; a partir dos seis anos, as provas são</p><p>efetuadas com os olhos fechados. As mãos devem apoiar-se nos</p><p>quadris, com a finalidade de evitar movimentos compensatórios dos</p><p>braços.</p><p>As três provas são as seguintes: apoio retilíneo, manutenção do</p><p>equilíbrio na ponta dos pés e apoio unipedal.</p><p>O procedimento para cada uma das tarefas deverá ser o seguinte:</p><p>No apoio retilíneo, a criança deve colocar um pé no prolongamento</p><p>exato do outro, estabelecendo o contato do calcanhar de um pé com a</p><p>ponta do pé contrário, permanecendo assim durante 20 segundos.</p><p>Cabe igualmente nessa tarefa e nas duas seguintes avaliar as</p><p>mesmas funções do controle postural e da equilibração. A detecção</p><p>dos sinais disfuncionais vestibulares e cerebelosos segue as mesmas</p><p>disposições da tarefa da imobilidade.</p><p>A cotação a atribuir deverá ser a seguinte:</p><p>4. se a criança se mantém em equilíbrio estático durante 20</p><p>segundos sem abrir os olhos, revelando um controle postural</p><p>perfeito e preciso; admitem-se ajustamentos posturais quase</p><p>imperceptíveis; as mãos não devem sair da sua posição nos quadris;</p><p>3, se a criança se mantém em equilíbrio entre 15 e 20 segundos</p><p>sem abrir os olhos, revelando um controle postural adequado, com</p><p>pequenos e pouco discerníveis ajustamentos posturais e ligeiros</p><p>movimentos faciais, gesticulações, oscilações etc.;</p><p>2, se a criança se mantém em equilíbrio entre 10 e 15 segundos</p><p>sem abrir os olhos, revelando dificuldades de controle e disfunções</p><p>vertibulares e cerebelosas; frequentes movimentos associados;</p><p>1, se a criança se mantém em equilíbrio menos de 10 segundos</p><p>sem abrir os olhos, ou se a criança não realiza tentativas; sinais</p><p>disfuncionais vestibulares e cerebelosos bem marcados,</p><p>permanentes reequilibrações, quedas; movimentos de compensação</p><p>das mãos contínuos etc.</p><p>Figura 3.15. – Observação do equilíbrio estático.</p><p>Manutenção do equilíbrio durante 20 segundos.</p><p>A cotação obtida deve, em seguida, ser apontada na ficha da BPM.</p><p>Na manutenção do equilíbrio na ponta dos pés, a criança deve</p><p>colocar os pés juntos e manter-se em equilíbrio no terço anterior dos</p><p>mesmos e nas mesmas condições já descritas para o apoio retilíneo.</p><p>As condições de procedimento e os critérios de cotação são os</p><p>mesmos das tarefas anteriores.</p><p>No apoio unipedal, a criança nas mesmas condições das tarefas</p><p>anteriores deve apoiarse em um único pé, fletindo a perna contrária</p><p>pelo joelho, efetuando com ela, rigorosamente, um ângulo reto.</p><p>Na ficha BPM, surgem duas caixas, uma com E, referente ao pé</p><p>esquerdo quando esse é escolhido pela criança, e a outra com D,</p><p>referente ao pé direito, quando esse é escolhido para o pé de apoio,</p><p>assinalando-se, desta forma, o pé dominante na função de</p><p>equilibração.</p><p>As condições de procedimento e os critérios de cotação repetem-se</p><p>em relação às tarefas anteriores.</p><p>Equilíbrio dinâmico</p><p>O equilíbrio dinâmico exige, ao contrário do estático, uma</p><p>orientação controlada do corpo em situações de deslocamento no</p><p>espaço com os olhos abertos.</p><p>Não se trata só da pesquisa de funções vestibulares ou cerebelosas</p><p>mas também da própria atividade piramidal.</p><p>Nessas tarefas, são adaptadas as provas de Ozeretsky, Wallon</p><p>(1958); Roach e Kephart (1966); Orpet e Frostig (1972) e de muitos</p><p>outros autores.</p><p>A observação deve captar sinais quanto à precisão, à economia e à</p><p>melodia dos movimentos, quanto ao seu controle em termos</p><p>quantitativos e qualitativos e quanto ao grau de facilidade ou</p><p>dificuldade relevado nas várias tarefas.</p><p>Especial atenção às reequilibrações abruptas, às condições de</p><p>manutenção e de reaquisição do equilíbrio, às quedas unilaterais, ao</p><p>descontrole postural, à frequência de movimentos compensatórios das</p><p>mãos, ao nível de integração dos reflexos posturais e à qualidade de</p><p>inibição de movimentos involuntários, às dismetrias, às discronometrias,</p><p>às arritmias, às reequilibradoras etc. A leitura de assimetrias é também</p><p>fundamental, quer quanto aos pés de apoio, às mudanças de direção e</p><p>de orientação espacial, quer quanto às relações espaciais que a tarefa</p><p>em si coloca. Registrar algo de bizarro quanto à ocorrência de</p><p>disfunções vestibulares e cerebelosas ou inclusive de disfunções tônicas,</p><p>agora naturalmente mais evidentes em situações dinâmicas. Anomalias</p><p>nos pés (endorrotações ou flexões dorsais e plantares exageradas),</p><p>laxidez nos tendões, colocação da bacia verticalização do tronco e da</p><p>cabeça devem ser igualmente analisadas, especialmente quando na</p><p>presença de crianças que apresentam outros problemas atípicos</p><p>(hemiparesias, hipotonia, longos períodos de correção com botas</p><p>ortopédicas, acidentes, problemas musculares, luxações ou subluxações</p><p>precoces,</p><p>atrasos da marcha etc.).</p><p>As tarefas do subfator do equilíbrio dinâmico incluem: marcha</p><p>controlada, evolução na trave (frente, trás, direita e esquerda), saltos</p><p>com apoio unipedal (pé coxinho esquerdo e direito), saltos com os pés</p><p>juntos (frente, trás e com os olhos fechados).</p><p>Na tarefa da marcha controlada, deve proceder-se da seguinte</p><p>forma: a criança deverá evoluir no solo em cima de uma linha reta com</p><p>3m de comprimentos, de modo que o calcanhar de um pé toque na</p><p>ponta do pé contrário, permanecendo sempre com as mãos nos</p><p>quadris.</p><p>A cotação a atribuir na realização dessa tarefa, de novo, deve ter</p><p>em conta os sinais difusos que traduzem as disfunções vestibulares e</p><p>cerebelosas já apontadas na imobilidade. O critério a adotar deverá ser</p><p>o seguinte:</p><p>4, se a criança realiza a marcha controlada em perfeito controle</p><p>dinâmico, sem qualquer reequilibração compensatória; realização</p><p>perfeita, matura, econômica e melódica;</p><p>3, se a criança realiza a marcha controlada com ocasionais e ligeira</p><p>reequilibrações, com ligeiros sinais difusos, sem apresentar qualquer</p><p>desvio;</p><p>2, se a criança realiza a marcha controlada com pausas frequentes,</p><p>reequilibrações exageradas, quedas e frequentes sinais vestibulares</p><p>e cerebelosos; movimentos involuntários, frequentes desvios,</p><p>sincinesias, gesticulações clônicas e frequentes reajustamentos das</p><p>mãos nos quadris, movimentos coreiformes e atetotiformes, sinais</p><p>de insegurança gravitacional dinâmica;</p><p>1, se a criança não realiza a tarefa ou se a realiza de forma</p><p>incompleta e imperfeita, com sinais disfuncionais óbvios e</p><p>movimentos coreáticos ou atetoides.</p><p>Nas tarefas de evolução na trave (de 3m de comprimento, 5cm de</p><p>altura e 8cm de largura, ou composta de dez blocos de 30cm de</p><p>comprimento cada um), a criança deve proceder da mesma forma que</p><p>na tarefa anterior, só que realiza uma marcha normal em cima da trave</p><p>em quatro subtarefas diferentes (para a frente, para trás, para o lado</p><p>direito e para o lado esquerdo), permanecendo sempre com as mãos</p><p>nos quadris.</p><p>A cotação a atribuir nessa tarefa deve ser feita separadamente nas</p><p>suas quatro subtarefas. O critério a adotar é o seguinte:</p><p>4, se a criança realiza as subtarefas da evolução na trave sem</p><p>qualquer reequilibração, revelando um perfeito controle do equilíbrio</p><p>dinâmico;</p><p>3, se a criança realiza o equilíbrio na trave com ligeiras</p><p>reequilibrações, mas sem quedas e sem nenhum sinal disfuncional;</p><p>2, se a criança realiza as tarefas com pausas frequentes,</p><p>reequilibrações e dismetrias exageradas, sinais disfuncionais</p><p>vestibulares frequentes, uma a três quedas por subtarefa, com</p><p>insegurança gravitacional dinâmica;</p><p>1, se a criança não realiza as subtarefas ou se apresenta mais de</p><p>três quedas por cada percurso, evidenciando sinais disfuncionais</p><p>óbvios.</p><p>As restantes tarefas incluem os saltos, isto é, a evolução com salto</p><p>em apoio unipedal e com os dois pés.</p><p>A apreciação nestas tarefas mais dinâmicas inclui a qualidade dos</p><p>saltos, a sua amplitude e coordenação, a sua precisão e economia, a</p><p>sua fragmentação ou a sua melodia cinestésica, confundindo-se com</p><p>alguns aspectos que iremos observar na praxia global.</p><p>Os desvios e as desorientações espaciais devem ser registrados,</p><p>assim como as gesticulações, as reequilibrações bruscas, em especial na</p><p>cabeça, os bloqueios, as paragens, a pressão dos pés, as sincinesias, as</p><p>dismetrias, as impulsividades etc.</p><p>A harmonia, a regularidade, a composição e a melodia espaço-</p><p>temporal devem ser especialmente observadas em termos de</p><p>apreciação qualitativa do grau de controle e de plasticidade do</p><p>equilíbrio dinâmico.</p><p>Na tarefa dos saltos com apoio unipedal (pé coxinho esquerdo e</p><p>direito), não se deve condicionar a criança quanto à ordem de</p><p>realização das suas subtarefas com a finalidade de identificar o pé</p><p>dominante para o equilíbrio dinâmico, não porque forneça a indicação</p><p>do pé dominante para a coordenação oculopedal, mas para apreciar o</p><p>tipo de integração bilateral proprioceptiva que ela possui.</p><p>Nesta tarefa, deve proceder-se da seguinte forma: a criança deverá</p><p>cobrir a distância de 3m em saltos com apoio unipedal, registrando o</p><p>pé espontaneamente escolhido (normalmente o que permite uma</p><p>localização mais coordenada, aumétrica e equilibrada), mantendo</p><p>sempre as mãos nos quadris. Uma vez terminada a primeira tarefa, a</p><p>criança deverá concluir outro trajeto idêntico com o pé contrário.</p><p>Os desvios de direção, o domínio do equilíbrio dinâmico, as</p><p>reequilibrações, os tremores, a presença de dismetrias ou de disfunções</p><p>vestibulares e cerebelosas devem ser cuidadosamente registrados, à</p><p>medida que a criança realiza as duas subtarefas. Movimentos</p><p>involuntários devem ser detectados com cuidado, especialmente</p><p>quando se verificar uma grande discrepância na realização com um dos</p><p>pés, pois tal circunstância pode ser relevante quando se está em</p><p>presença de uma lateralidade contrariada ou quando a anamnese</p><p>sugere disfunções cerebrais mínimas, pois, neste caso, podemos</p><p>identificar uma hemissíndrome, visto que o domínio dessa prova deve</p><p>revelar uma capacidade similar em ambos os pés.</p><p>A cotação a atribuir deverá ser objetivada nas duas subtarefas, isto</p><p>é, com um pé e com o outro. O critério a utilizar é o seguinte:</p><p>4, se a criança realiza os saltos facilmente, sem reequilibrações, nem</p><p>desvios de direção, evidenciando um controle dinâmico perfeito,</p><p>rítmico e preciso;</p><p>3, se a criança realiza os saltos com ligeiras reequilibrações e</p><p>pequenos desvios de direção, sem demonstrar sinais disfuncionais,</p><p>revelando um controle dinâmico adequado;</p><p>2, se a criança realiza os saltos com dismetrias, reequilibrações das</p><p>mãos, desvios direcionais, alterações de amplitude, irregularidade</p><p>rítmica, sincinesias, hipotonia generalizada etc.;</p><p>1, se a criança não completa os saltos a distância, revelando</p><p>insegurança gravitacional, frequentes sincinesias, reequilibrações</p><p>bruscas, rápidas e descontroladas, excessivos movimentos</p><p>associados, sinais óbvios de disfunção vestibular e cerebelosa etc.</p><p>Por último, o subfator do equilíbrio dinâmico: conclui-se com a</p><p>observação dos saltos com os pés juntos nas suas três subtarefas, para</p><p>a frente, para trás e com os olhos fechados. A distância e o</p><p>procedimento são exatamente os mesmos da tarefa anterior.</p><p>Os mesmos aspectos e os mesmos sinais já levantados nas tarefas</p><p>anteriores voltam a revelar-se nessas tarefas, fundamentalmente nas</p><p>realizações com os olhos abertos, e, por isso, o critério de cotação da</p><p>prova anterior é adaptado.</p><p>Apenas a última subtarefa, que reclama a realização dos saltos com</p><p>os olhos fechados, apresenta características próprias, que, no entanto,</p><p>são similares a tarefas do equilíbrio estático.</p><p>Nesta subtarefa, deve ter-se em atenção a colocação dos pés, da</p><p>bacia, do tronco e da cabeça, observando paralelamente o restante do</p><p>conjunto corporal, quais sejam, os sinais globais de hipotonia ou</p><p>hipertonia, bloqueios, dismetrias, desvios direcionais, pressões no solo,</p><p>tipo de apoio plantar, pausas e alterações rítmicas, sincinesias bucais,</p><p>crispações da face, verbalizações, risos etc.</p><p>A cotação a adotar deverá ser:</p><p>4, se a criança realiza a tarefa sem abrir os olhos, revelando uma</p><p>realização dinâmica, regular rítmica perfeita e precisa;</p><p>3, se a criança realiza os saltos moderamente, vigiados e</p><p>controlados com alguns sinais de reequilibração, de blocagem e de</p><p>decomposição, pondo em realce algumas desmelodias cinestésicas;</p><p>2, se a criança cobre mais de 2m sem abrir os olhos, demonstrando</p><p>paragens frequentes, hipercontrole e rigidez corporal generalizada,</p><p>sugerindo a presença de vários sinais difusos; confirmação de</p><p>insegurança gravitacional;</p><p>1, se a criança não realiza a tarefa com os olhos fechados,</p><p>apresentando quedas, reequilibrações bruscas e bizarras, grandes</p><p>desvios direcionais, fortes pressões plantares, desarmonias posturais</p><p>globais e sincinesias, confirmando a presença de disfunções</p><p>vestibulares e cerebelosas.</p><p>Figura 3.16. – Observação do equilíbrio dinâmico.</p><p>Deslocamentos controlados do corpo em uma distância</p><p>de 3 metros</p><p>Figura 3.17. – Observação</p><p>do equilíbrio dinâmico.</p><p>Deslocamentos controlados do corpo em situações de</p><p>deslocamento no espaço de 3 metros.</p><p>A cotação deve ser registrada na linha respectiva, concluindo-se,</p><p>assim, a observação do segundo fator da BPM, que abrange a primeira</p><p>unidade funcional do modelo de organização cerebral de Luria. De</p><p>imediato, passamos à abordagem dos fatores psicomotores</p><p>pertencentes à segunda unidade funcional, cuja função principal</p><p>integra a recepção, a análise e o armazenamento da informação.</p><p>A medida da cotação dos subfatores deve ser apurada e transferida</p><p>para o perfil da BPM.</p><p>Significação psiconeurológica</p><p>A significação psiconeurológica do segundo fator psicomotor da</p><p>BPM é, inegavelmente, extremamente relevante, quer no domínio da</p><p>motricidade, quer no âmbito da aprendizagem.</p><p>A equilibração, abrangendo o controle postural, revela o nível de</p><p>integridade de importantes centros e circuitos neurológicos, sem os</p><p>quais nenhuma atividade pode ser realizada. Porque se trata de</p><p>estruturas básicas do cérebro, como o tronco cerebral e o cerebelo, as</p><p>suas funções de grande passado filogenético preparam as primeiras</p><p>aquisições, sobre as quais se irão constituir os sistemas funcionais mais</p><p>complexos.</p><p>De forma esquemática, a equilibração envolve vários centros de</p><p>trabalho, quer em nível inferior, quer intermédio e superior. Os níveis</p><p>mais baixos, ou seja, os inferiores e os intermédios, são exatamente</p><p>aqueles que se tenta estudar com o fator da equilibração, pois são eles</p><p>que mantêm a postura e a tonicidade, que, no desenvolvimento da</p><p>criança, assumem as primeiras aquisições e, mais tarde, preparam e</p><p>facilitam os processos de aprendizagem mais complexos.</p><p>Se a equilibração não é garantida economicamente por tais centros,</p><p>a intervenção dos centros superiores vai necessariamente entrar em</p><p>jogo, impedindo o acesso a funções hierarquizadas mais complexas. Se</p><p>os centros superiores participam no controle da equilibração, as</p><p>funções psicomotoras mais elaboradas, como a noção do corpo, a</p><p>estruturação espaçotemporal e as praxias, perdem em harmonia,</p><p>precisão e eficácia.</p><p>Sem um sistema postural integrado nos centros da primeira unidade</p><p>funcional de</p><p>Luria, os centros superiores não se libertam para processos de</p><p>aprendizagem mais seletivos e diferenciados.</p><p>A equilibração reflete, por conseguinte, a integridade do sistema</p><p>vestibular, proprioceptivo e cerebeloso, além de interferir com os</p><p>gânglios da base (ou núcleos cinzentos da base) e com as estruturas do</p><p>sistema límbico.</p><p>Todos estes centros inferiores e intermédios se organizam de acordo</p><p>com o princípio da organização vertical do cérebro, e, por isso, as suas</p><p>disfunções repercutem-se em todos os aspectos da maturação</p><p>neurológica.</p><p>A informação que se retira das tarefas e das subtarefas do fator da</p><p>equilibração traduz, em certa medida, a integração vestibular e</p><p>proprioceptiva que preside a todos os estados de vigilância, de alerta e</p><p>de atenção, sem os quais a atividade psíquica não funciona. Porque o</p><p>controle postural envolve a participação de centros inferiores</p><p>(medulares), intermédios (tronco cerebral e cerebelo) e superiores</p><p>(córtex), a sua disfunção interfere com todo o tipo de atividade mental,</p><p>não exclusivamente motora, mas emocional, perceptiva, cognitiva,</p><p>social, simbólica etc.</p><p>Desde o reflexo miotático até a modulação tônica, da coativação</p><p>alfa-gama até a segurança gravitacional, a equilibração consubstancia</p><p>um servomecanismo indispensável ao sistema nervoso central.</p><p>Para que este organismo aprenda, ele tem primeiro de ser capaz,</p><p>por meio de uma adequação energética própria, de ampliar e inibir</p><p>estímulos, processar informações e agir. Sem o domínio postural, o</p><p>cérebro não aprende, a motricidade não se desenvolve e a atividade</p><p>simbólica fica inequivocamente afetada.</p><p>O cérebro precisa automatizar as suas funções antigravíticas antes</p><p>de poder processar informações simbólicas. As aquisições posturais são</p><p>os pré-requisitos das aquisições especificamente humanas, daí a sua</p><p>incomensurável importância no desenvolvimento cognitivo.</p><p>A primeira fonte de conhecimento humano reclama a experiência</p><p>motora pessoal e essa só é viável debaixo de determinadas condições</p><p>de estabilidade postural.</p><p>Com instabilidade postural, nenhum conhecimento é apropriável,</p><p>na medida em que se perdem todas as referências para que o cérebro</p><p>processe a informação.</p><p>Na criança, o conhecimento começa a partir das atividades motoras</p><p>e só possível de alcançar depois da segurança gravitacional.</p><p>A transformação do conhecimento em ações mentais requer, antes</p><p>de tudo, a organização de unidades funcionais preexistentes, nas quais</p><p>a equilibração é sempre o ponto de partida e de chegada para as</p><p>combinar em novas unidades de trabalho.</p><p>Quando as atividades motoras posturais podem ser suportadas por</p><p>centros subcorticais, os centros corticais podem ser usados para outras</p><p>atividades motoras ou não motoras, mais complexas.</p><p>Como afirmam Queirós e Schrager (1978), quando as atividades</p><p>motoras automáticas podem ser satisfatoriamente produzidas, os</p><p>processos de conhecimento têm melhores e maiores possibilidades de</p><p>desenvolvimento.</p><p>A significação psiconeurológica deste fator psicomotor parece</p><p>agora mais compreensível, na medida em que joga com a maturação</p><p>de todo o sistema nervoso e, portanto, com todas as suas capacidades</p><p>de conhecimento.</p><p>Não se trata de afirmar que o controle postural é indispensável</p><p>apenas para o desenvolvimento motor ou psicomotor. A ótica é mais</p><p>dentro dos conceitos de Wallon, Rey e Piaget, pois todos eles se</p><p>referem à postura e à motricidade como relevantes para o</p><p>desenvolvimento do conhecimento. Conhecimento que, uma vez</p><p>estabelecido, é ele próprio utilizado para obter novos conhecimentos.</p><p>As atividades posturais e motoras precedem as atividades mentais e,</p><p>depois, atuam conjuntamente, assistindo-se mutuamente, até que,</p><p>mais tarde, a atividade motora se subordina à atividade mental, do ato</p><p>ao pensamento e, depois, do pensamento ao ato, da motricidade à</p><p>psicomotricidade e, finalmente, da psicomotricidade à motricidade.</p><p>A equilibração ilustra a integração das sinergias posturais e motoras</p><p>que são reguladas pelo cerebelo, quer pelas suas áreas mais antigas</p><p>(arquicerebelo), quer pelas mais recentes (neocerebelo).</p><p>Não é, certamente, por acaso que o cerebelo apresenta, em termos</p><p>de evolução, o mesmo salto quântico de expansão nos seus lóbulos</p><p>que o córtex obteve nas suas áreas associativas. Também não será por</p><p>acaso que a equilibração desempenha um papel fundamental na</p><p>organização de todas as atividades cerebrais (motoras, psicomotoras,</p><p>simbólicas etc.).</p><p>Cerebelo, sistema vestibular e formação reticulada estão</p><p>intimamente associados ao longo da filogênese e da ontogênese não</p><p>só produzindo complexos circuitos de retroativação e de reaferência</p><p>mas também guiando e modulando a tonicidade e a equilibração para</p><p>serem integradas em movimentos mais complexos, precisos e</p><p>sequencializados, oferecendo as condições indispensáveis de</p><p>plasticidade e de adaptabilidade que os caracterizam.</p><p>A harmonia, a economia e a melodia dos movimentos que</p><p>requerem as tarefas e as subtarefas da equilibração não só fornecem</p><p>dados funcionais vestibulares e cerebelosos mas também talâmicos,</p><p>límbicos e reticulares, visto que, em termos sistêmicos, é impossível</p><p>separar o cerebelo do tálamo, da formação reticulada e do núcleo</p><p>vermelho, bem como do sistema límbico.</p><p>É possivelmente com base nestas interconexões e servomecanismos</p><p>que ocorrem nestas tarefas tantos sinais de descontrole emocional,</p><p>como as mímicas faciais, as oscilações, os sorrisos, as gesticulações, as</p><p>mioclonias, as disquinesias, as distonias etc. De acordo com Wallon</p><p>(1949), a vida emocional interage com as reações tônicas, a emoção e</p><p>a motricidade e influenciam-se intimamente em termos de</p><p>desenvolvimento afetivo, daí a significação psiconeurológica dos dados</p><p>obtidos com este fator da BPM.</p><p>As disfunções posturais, dadas as múltiplas inter-relações do</p><p>cerebelo com os centros límbicos, talâmicos e subtalâmicos, podem</p><p>causar distúrbios de ordem</p><p>perceptiva e de memória, uma vez que</p><p>aqueles centros assumem funções de integração sensório-motora e de</p><p>convergência multissensorial. (AYRES, 1977, KRAUTHAMER e ALBE-</p><p>FESSARO, 1964)</p><p>Além dessas repercussões e dados, os circuitos interfuncionais e de</p><p>servoassistências com os gânglios da base (basal ganglia), as disfunções</p><p>posturais vestíbulo-cerebelosas implicam-se na integração de atos</p><p>motores complexos, afetando inevitavelmente a realização das praxias.</p><p>As reequilibrações abruptas e exageradas, as dismetrias, as sincinesias</p><p>etc. traduzem provavelmente alterações nas instruções corretivas que</p><p>são introduzidas fora do tempo, prejudicando não só a programação</p><p>mas também a atualização que o movimento voluntário exige em face</p><p>das novas circunstâncias envolvimentais.</p><p>As inibições pré-motoras e antecipativas nos músculos antagonistas,</p><p>seguidas de acelerações e desacelerações apropriadas para o jogo</p><p>dialético da postura e do movimento (início e fim), interferem com as</p><p>múltiplas informações proprioceptivas recebidas pelo cerebelo e pelo</p><p>sistema vestibular.</p><p>Toda esta complexa ativação se transforma em uma segurança</p><p>gravitacional, em uma independência motora, em uma capacidade de</p><p>controle emocional, em uma capacidade de atenção e de alerta e em</p><p>uma apreensão espacial, que em si consubstanciam o cerebelo como</p><p>um centro de estratégias posturais e motoras, perfeitamente integrada</p><p>na primeira unidade funcional de Luria.</p><p>Em resumo, atingir segurança gravitacional é sinônimo de</p><p>desenvolvimento da atenção seletiva e de manutenção dessa função</p><p>primoridial do cérebro, por meio do qual os exteroceptores</p><p>(particularmente a audição e a visão) se abrem ao mundo envolvente, a</p><p>fim de se organizarem as funções psíquicas superiores.</p><p>A equilibração conjuntamente com a tonicidade constituem a</p><p>organização motora de base que prepara a organização psicomotora</p><p>superior: lateralidade, somatognosia, estruturação espaço-temporal e</p><p>praxias. A motricidade antecipa a Psicomotricidade em termos</p><p>filogenéticos e ontogenéticos. Só mais tarde, a atividade mental</p><p>superior absorve a motricidade, transformando-a em Psicomotricidade,</p><p>razão pela qual a Psicomotricidade traduz a organização</p><p>psiconeurológica que serve de suporte a todas as aprendizagens</p><p>humanas.</p><p>A organização psicomotora é em certa medida o resultado da</p><p>integração dos dados proprioceptivos (tônicos, vestibulares, posturais,</p><p>motores e cinestésicos) e dos dados exteroceptivos (táteis, auditivos,</p><p>rítmicos, visuais, espaciais, temporais etc.), um sistema funcional</p><p>complexo para adotar a expressão de Luria.</p><p>É efetivamente essa complexidade que transforma a motricidade</p><p>em um projeto psíquico intrínseco. A motricidade, libertando-se da sua</p><p>própria esfera de atividade, transforma-se em Psicomotricidade, isto é,</p><p>em uma relação inteligível entre múltiplos dados internos e externos,</p><p>que vão estar na sua elaboração, planificação, regulação, verificação e</p><p>execução.</p><p>É com base nesta transformabilidade e modificabilidade da</p><p>motricidade que a tonicidade e a equilibração (da primeira unidade</p><p>funcional luriana) interferem na elaboração dos fatores psicomotores</p><p>mais complexos, como a lateralização, a noção do corpo e a</p><p>estruturação espaço-temporal (da segunda unidade funcional luriana),</p><p>fatores esses que serão em seguida abordados.</p><p>3.2.4. Lateralização</p><p>Considerações gerais</p><p>A lateralização, que constitui o terceiro fator psicomotor da BPM,</p><p>está integrada na segunda unidade funcional de Luria, cuja função</p><p>fundamental compreende a recepção, a análise e o armazenamento da</p><p>informação.</p><p>De acordo com este autor, a lateralização humana respeita a</p><p>progressiva especialização dos dois hemisférios que resultaram das</p><p>funções socio-históricas da motricidade laboral e da linguagem</p><p>(motricidade colaboral).</p><p>De fato, muitas diferenças entre a motricidade animal e a</p><p>motricidade humana (Psicomotricidade) emergem do papel da</p><p>lateralização na organização e na hierarquização funcional dos dois</p><p>hemisférios cerebrais.</p><p>A lateralização como o resultado da integração bilateral e postural</p><p>do corpo é peculiar no ser humano e está implicitamente relacionada</p><p>com a evolução e a utilização dos instrumentos (motricidade</p><p>instrumental – Psicomotricidade), isto é, com integrações sensoriais</p><p>complexas e com aquisições motoras unilaterais muito especializadas,</p><p>dinâmicas e de origem social.</p><p>A lateralização basicamente inata (ZANGWILL, 1975) é governada</p><p>por fatores genéticos, embora a treinabilidade e os fatores de pressão</p><p>social a possam influenciar. Razão por que é muito importante</p><p>pesquisar os antecedentes da preferência manual, principalmente</p><p>quando em presença de crianças com preferência manual esquerda.</p><p>A lateralização manual surge no fim do primeiro ano, mas só se</p><p>estabelece fisicamente por volta dos 4 a 5 anos, independentemente</p><p>de muitas crianças atravessarem a ambilateralidade e vários episódios</p><p>de flutuação, antes de obterem a lateralização direita ou esquerda. No</p><p>nascimento, os dois hemisférios são equipotenciais funcionalmente</p><p>(não anatomicamente), como provam os estudos de crianças com</p><p>lesões no hemisfério esquerdo que posteriormente desenvolvem a</p><p>linguagem no direito, fenômeno esse observável em um cérebro</p><p>maturo.</p><p>Os dois hemisférios cooperam ao longo da ontogênese, mas</p><p>progressivamente, com a idade e com a acumulação da experiência,</p><p>especializam-se funcionalmente um nos conteúdos não simbólicos e o</p><p>outro nos simbólicos (FONSECA, 1948). Efetivamente, ao abordar a</p><p>lateralização humana, temos necessariamente de relacioná-la com dois</p><p>outros parâmetros com ela inter-relacionados: a preferência manual e a</p><p>especialização hemisférica.</p><p>A simetria anatônica da maioria dos vertebrados, também</p><p>característica do ser humano, não é sinônimo de simetria funcional.</p><p>A tendência para realizar tarefas mais eficazmente com a</p><p>extremidade de um dos membros (anteriores e superiores) verifica-se</p><p>em muitos animais, só que a distribuição nos seres humanos se</p><p>desloca, como um todo, para a direita, segundo Annett (1981).</p><p>As preferências entre as extremidades apresentam as mesmas</p><p>diferenças entre os animais e os seres humanos, só que subsistem</p><p>proporções muito diferentes, a privilegiar nitidamente a lateralidade</p><p>direita e humana em 66% em comparação com a lateralidade animal</p><p>em 25%.</p><p>A superioridade da lateralidade mista no animal suporta a ideia que</p><p>esses realizam as tarefas da sua adaptação ao meio ora à direita, ora à</p><p>esquerda. No ser humano, a preferência pela lateralidade manual à</p><p>direita é superior à mista em 36%, e essa é superior à manual esquerda</p><p>em 26%.</p><p>Que querem dizer estas incidências em termos da filogênese da</p><p>lateralização? Em primeiro lugar, o peso dos fatores genéticos é variável</p><p>dos animais para os humanos, como sugerem os trabalhos de Peterson</p><p>(1934). Em segundo lugar, a influência dos fatores evolutivos</p><p>antropológicos e bioculturais, como a caça, a produção e a utilização</p><p>de instrumentos, a guerra, a evolução tecnológica e,</p><p>fundamentalmente, a invenção de códigos de comunicação e a</p><p>linguagem, marca a sua influência determinante quanto à preferência</p><p>manual e à coordenação bimanual. Em terceiro lugar, a lateralização</p><p>pode ser causada por diferenças acidentais que ocorrem no</p><p>desenvolvimento embriológico dos dois lados do corpo e, por</p><p>conseguinte, surgir como resultado do acaso. (ANNETT, 1981)</p><p>O fato de a distribuição humana pender para a direita reflete uma</p><p>influência sistemática de algo mais importante que a teoria do acaso.</p><p>Em si, o termo lateralização, que vem do Latim e que quer dizer</p><p>“lado”, tem sido tema de estudo de muitos autores, nomeadamente</p><p>dos que se dedicam ao estudo da Psicomotricidade, da linguagem e</p><p>das dificuldades de aprendizagem. O seu papel, porém, nem está</p><p>esclarecido nem encontrou ainda consenso.</p><p>Em termos históricos, vamos encontrar aspectos interessantíssimos,</p><p>que refletem várias teorias. (FONSECA, 1976, 1982 e 1984)</p><p>Desde o privilégio “sagrado” da mão direita como imperativo moral</p><p>à rejeição da mão esquerda como “profana”, “tenebrosa” e “oculta”</p><p>até as transcendências mitológicas</p><p>e bíblicas, “o universo tem um lado</p><p>bom, forte e nobre e um lado mau, fraco e reles”, “um lado ativo e</p><p>másculo e outro passivo e fêmeo” etc., as dicotomias e as</p><p>incompatibilidades não param de surgir em inúmeras fontes</p><p>bibliográficas.</p><p>Muita gente não integra que vive em um mundo orientado para a</p><p>direita. A mão sempre foi sinônimo de supremacia e conservação,</p><p>ligada desde sempre aos fatores de criação. Em todas as raças, em</p><p>diferentes culturas e em diferentes países, os seres humanos em grande</p><p>porcentagem usam a mão direita para realizar as tarefas mais</p><p>“precisas” e mais “nobres”. No Inglês antigo, por exemplo, a mão</p><p>direita é denominada como strong hand. O termo right em Inglês é</p><p>sinônimo de correto e de bom.</p><p>Em Espanhol, Alemão, Francês e Eslavo, o mesmo ocorre. Em</p><p>Espanhol, o termo derecha quer dizer destra, que significa decente e</p><p>conveniente.</p><p>Uma significação bem diferente tem o termo esquerda. Sinister</p><p>hand, em Inglês, por exemplo, que, em Espanhol, se designa por zurda,</p><p>significa não ser inteligente. Em Latim ou Italiano, o termo sinistra quer</p><p>eufemisticamente dizer ameaçadora, demoníaca, desleal,</p><p>desafortunada e descoordenada.</p><p>Em Basco, escuerdi (esquerda) quer dizer “metade de uma mão”.</p><p>Em muitas línguas, o termos “esquerda” originalmente significa</p><p>oblíquo, virado, torcido, sujo, fraco ou mau. Nas culturas indo-</p><p>europeias e greco-latinas, a significação da direita e da esquerda</p><p>atravessam esta dicotomia, que reflete o dualismo tradicional (bem-</p><p>mal, corpo-espírito, motor-psíquico, instinto-intelecto, arte-ciência,</p><p>mistério-lógica, magia-religião, emocional-racional etc.).</p><p>Lemay (1982), com estudos radiológicos, descreveu assimetrias</p><p>anatômicas do cérebro já visíveis nas crianças. Galaburda (1980)</p><p>descobriu também que as células nervosas apresentam padrões</p><p>particulares e tamanhos diferentes nos dois hemisférios. Orton (1937)</p><p>evocou que o estudo do SNC poderia levar à compreensão da</p><p>dominância cerebral e da dislexia.</p><p>Dax (1836) e Broca (1861) descobrem a relação entre linguagem e</p><p>dominância cerebral, tema esse ainda por esclarecer (BONIN, 1962),</p><p>após cem anos de estudos e investigações.</p><p>Geschwind e Levitsky (1968) estabeleceram assimetrias no planum</p><p>temporal na superfície superior do lóbulo temporal, visível a olho</p><p>aberto em cérebros post mortem.</p><p>Geschwind (1972) verificou ainda que o planum temporal do</p><p>hemisfério esquerdo era superior ao do hemisfério direito em média</p><p>cerca de um terço (65% HE>HD, 24% HE=HD e 11% HD>HE),</p><p>confirmação essa estabelecida também por Wada (1969), Teszner</p><p>(1972) e outros.</p><p>Chi, Dooling e Gilles (1977) encontraram no feto e no recém-</p><p>nascido assimetrias no cérebro, mostrando que aquela não é fruto da</p><p>experiência extrauterina.</p><p>Muitos dados suportam, portanto, a existência de assimetrias</p><p>anatômicas cerebrais que obviamente podem integrar áreas, cuja</p><p>estrutura e arquitetura celular sejam particulares e específicas.</p><p>Estudos de cérebros de disléxicos, por exemplo, apresentam menos</p><p>diferenciação celular nas zonas fundamentais do processamento da</p><p>linguagem, pondo em relevo, naqueles casos, a imaturidade da</p><p>assimetria funcional. (FONSECA, 1984)</p><p>É óbvio que estas convicções influenciam o estudo da lateralização</p><p>humana e demonstram bem vários aspectos da nossa experiência</p><p>socio-histórica, desde os rituais religiosos até as confrontações de</p><p>guerra, a colocação dos talheres, as normais de etiqueta e de</p><p>diplomacia, as cerimônias e pressões sociais, as formações políticas, as</p><p>formas de aprendizagem da escrita etc.</p><p>Pais e professores não se dão conta, muitas vezes, dessas situações</p><p>e continuam, como agentes de tradição, a impor o uso da mão direita</p><p>em muitas crianças. Muitas crianças com tendência para a ambidestria</p><p>ou para a mão esquerda na idade pré-escolar acabam por ser moldadas</p><p>pelas aprendizagens escolares para a preferência manual direita, muitas</p><p>vezes à custa de perfil psicomotor desviante, quando não à custa de</p><p>um potencial de aprendizagem atípico.</p><p>Desde a pré-história que essas convicções se fazem sentir. Desenhos</p><p>rupestres e egípcios são férteis em evocar o uso da mão direita. A</p><p>análise de ferramentas e armas paleolíticas já sugerem que foram feitas</p><p>por e para a mão direta. A análise de fósseis e a localização de fraturas</p><p>sugerem essa tendência inexorável.</p><p>Lemay (1982) descobriu assimetrias nos crânios dos Homens do</p><p>Neandertal e no Homem de Pequim, estudando os endocastos</p><p>provocados pelas artérias cerebrais.</p><p>Muitas teorias do século passado relacionaram a lateralização com a</p><p>distribuição das vísceras, com a proteção do coração e as manobras de</p><p>ataque nas guerras e no corpo a corpo, com a proeminência do</p><p>cérebro esquerdo transmitida hereditariamente.</p><p>Mais recentemente, a preferência manual é vista em termos de</p><p>assimetria cerebral, suportada por fatores biológicos.</p><p>A radiografia computadorizada tem demonstrado (LEMAY, 1982)</p><p>que se detectam assimetrias que se distinguem entre os indivíduos</p><p>direitos ou esquerdos. Mas, a configuração da fissura de Sylvius é</p><p>também diferente em ambos os hemisférios, o que certamente tem</p><p>muita importância em relação às áreas da linguagem que a rodeiam.</p><p>Nos indivíduos direitos, aquela fissura é mais angularizada</p><p>verticalmente no hemisfério direito e mais horizontalizada no</p><p>hemisfério esquerdo. Arteriogramas provaram que a artéria cerebral</p><p>média percorre a fissura de Sylvius segundo orientações diferentes nos</p><p>direitos e nos esquerdos (canhotos).</p><p>Várias investigações confirmam assimetrias cerebrais (LEVY, 1980),</p><p>que naturalmente precedem toda a educação e se refletem na sua</p><p>organização e no seu desenvolvimento, quer em termos motores, quer</p><p>em termos não motores, cuja complexidade peculiar no ser humano</p><p>está implícita na organização psicomotora e no potencial de</p><p>aprendizagem.</p><p>A integração bilateral dos dois lados do corpo é uma condição</p><p>básica da motricidade humana decorrente dos dois fatores</p><p>psicomotores anteriormente abordados.</p><p>A integração bilateral é indispensável ao controle postural (universo</p><p>intracorporalproprioceptivo) e ao controle perceptivo-visual (universo</p><p>extracorporal-exteroceptivo). Sem esses dois dados, a lateralização</p><p>como sistema funcional complexo não se diferencia e,</p><p>consequentemente, produz os seus efeitos na Psicomotricidade e na</p><p>aprendizagem.</p><p>A integração bilateral do corpo depende da integração vestibular e</p><p>proprioceptiva inerente à experiência tônica e postural. Quando a</p><p>atividade proprioceptiva aumenta de um lado do corpo, as reações</p><p>vestibulares também aumentam desse mesmo lado; inversamente,</p><p>quando a ação vestibular aumenta de um lado, reciprocamente a</p><p>reação proprioceptiva também aumenta. Com base neste processo de</p><p>organização, a integração bilateral do corpo vai-se “promovendo” em</p><p>níveis corticais mais diferenciados, aí produzindo funções cada vez mais</p><p>complexas, como a somatognosia e a estruturação espaço-temporal.</p><p>A desintegração bilateral do corpo está normalmente associada à</p><p>pobre evocação de reflexos posturais, a uma equilibração estática e</p><p>dinâmica pouco disponível, a um fraco controle visual, a permanentes</p><p>confusões espaciais e direcionais e a hesitações múltiplas que</p><p>prejudicam as relações com o envolvimento.</p><p>O controle do equilíbrio e, consequentemente, das praxias tende a</p><p>ser afetado, e paralelamente a organização perceptivo-espacial, de</p><p>onde podem emergir vários problemas de orientação, discriminação e</p><p>exploração.</p><p>A descoordenação instala-se, os movimentos globais perdem a</p><p>precisão e a eficácia, a orientação espacial torna-se confusa,</p><p>principalmente na manipulação de instrumentos. A sensibilidade do</p><p>peso do corpo surge tênue e vulnerável e, como consequência, a</p><p>conscientização das posições no espaço ou as suas mudanças</p><p>necessárias perdem plasticidade e adaptabilidade.</p><p>As grandes discrepâncias nas realizações das tarefas da equilibração</p><p>servem já para antever a complexidade desses problemas, ao mesmo</p><p>tempo em que podem condicionar o desenvolvimento psicomotor e a</p><p>organização psiconeurológica dos processos de aprendizagem.</p><p>A noção da linha média do corpo, que depende da integração</p><p>bilateral, é uma aquisição básica à orientação no espaço e um</p><p>instrumento fundamental para a organização diferenciada de ações</p><p>complexas, de onde emergem as grandes aprendizagens humanas. A</p><p>discriminação somatossensorial inerente à atividade motora põe em</p><p>jogo também, como se sabe, uma inervação contralateral, da qual se</p><p>estrutura a noção do corpo também designada por somatognosia,</p><p>imagem do corpo ou esquema corporal. (SCHILDER, 1951)</p><p>Da integração vestibular e proprioceptiva à noção do corpo, decorre</p><p>a integração bilateral sensório-motora, cuja preferência lateral vai</p><p>produzindo necessariamente efeitos de especialização funcional, que</p><p>traduzem posteriormente as diferentes capacidades de processamento</p><p>da informação dos dois hemisférios.</p><p>Para chegar a este nível de integração, é necessário, porém, que o</p><p>corpo possa funcionar como duas metades sensório-motoras</p><p>integradas. Só depois, esta integração intrahemisférica básica torna</p><p>mais fácil a diferenciação das suas partes, atingindo-se então uma</p><p>coordenação entre ambas, da qual resulta a integração inter-</p><p>hemisférica única da espécie humana. (FONSECA, 1984)</p><p>Em Kephart (1960), a lateralização é aprendida pelo movimento dos</p><p>dois lados do corpo e pelas concomitantes impressões sensoriais, que,</p><p>em conjunto, produzem uma espécie de conscientização interna de</p><p>onde parte a conscientização das direções no espaço envolvente.</p><p>A disfunção da integração bilateral pode, segundo Ayres (1971),</p><p>comprometer o desenvolvimento da dominância manual. Quando uma</p><p>criança não atinge a dominância manual em uma idade adequada, a</p><p>presença de sinais disfuncionais intra-hemisféricos ou inter-hemisféricos</p><p>pode interferir com o desenvolvimento psicomotor e com o potencial</p><p>cognitivo.</p><p>A integração bilateral, que compreende as tarefas da BPM, quer em</p><p>nível sensorial (visão e audição), quer em nível motor (mão e pé) visa,</p><p>no fundo, detectar discordâncias inter-hemisféricas e avaliar o grau de</p><p>integração dos dois lados do corpo, onde entram em jogo o tronco</p><p>cerebral, o mesencéfalo e, provavelmente, o sistema centro-científico,</p><p>na medida em que os mecanismos posturais se projetam nos</p><p>mecanismos integrativos inter-hemisféricos.</p><p>A razão de a evolução dotar os vertebrados com dois hemisférios</p><p>tem necessariamente razões de sobrevivência, na medida em que</p><p>resulta uma coordenação mais eficaz dos dois lados do corpo, motivo</p><p>pelo qual as estruturas do corpo caloso sofrem grandes transformações</p><p>na ontogênese, período onde ocorrem as atividades psíquicas</p><p>superiores inerentes à especialização hemisférica.</p><p>Em resumo, a lateralização traduz a capacidade de integração</p><p>sensório-motora dos dois lados do corpo, transformando-se em uma</p><p>espécie de radar endopsíquico de relação e de orientação com e no</p><p>mundo exterior. Em termos de motricidade, retrata uma competência</p><p>operacional, que preside a todas as formas de orientação do indivíduo.</p><p>Compreende uma conscientização integrada da experiência</p><p>sensorial e motora, um mecanismo de orientação intracorporal</p><p>(proprioceptiva) e extracorporal (exteroceptiva).</p><p>A lateralização como função complexa subentende diferentes níveis</p><p>de complexidade: identificação das partes do corpo; identificação dupla</p><p>e homolateral; identificação dupla e contralateral, identificação de</p><p>partes do corpo no outro e identificação de partes do corpo no outro e</p><p>no próprio (BENTON, 1979). A nossa perspectiva na BPM é, porém,</p><p>essencialmente mais simples, na medida em que está mais associada à</p><p>integração bilateral proposta por Ayres (1977).</p><p>Vários componentes integram a lateralização: motora, sensorial,</p><p>perceptiva, conceitual, simbólica, social etc. Na BPM, as tarefas que</p><p>observa são reduzidas às dimensões sensoriais e motoras, pois situam</p><p>apenas as preferências em nível dos telerreceptores e dos</p><p>proprioceptores.</p><p>As provas selecionadas constituem simples adaptações das provas</p><p>de Subirana (1952), Roudinesco e Thyss (1948) e de Hécaen e</p><p>Ajuriaguerra (1963). Trata-se de dispositivos clínicos muito simples que</p><p>não podem ser comparados às técnicas mais atualizadas, como a</p><p>audição dicótica e os testes taquitoscópicos.</p><p>Descrição dos subfatores e cotação</p><p>As tarefas da BPM visam fundamentalmente determinar a</p><p>consistência da preferência dos telerreceptores (visão e audição) e dos</p><p>proprioefetores (mão e pé). Seis situações são sugeridas à criança, mas</p><p>apenas quatro envolvem duas experiências cada uma.</p><p>O procedimento por cada subtarefa é o seguinte:</p><p>Lateralização ocular: para avaliar o olho preferencial, pede-se à</p><p>criança que olhe primeiro através de um tubo ou canudo de papel e,</p><p>depois, de um buraco feito no centro de uma folha de papel normal.</p><p>A apresentação do tubo deve ser feita exatamente na linha média</p><p>do corpo da criança, para não condicionar o uso da mão do lado por</p><p>onde foi apresentado o material. Mão que agarra o tubo normalmente</p><p>é a mão dominante.</p><p>A apresentação da folha de papel deve ser feita de modo que a</p><p>criança a agarre com ambas as mãos, orientando-se em seguida de</p><p>forma a espreitar pelo buraco com o olho preferencial.</p><p>Em ambas as tarefas, e para confirmar a preferência, a criança,</p><p>depois de fixar o olhar, deve perseguir no espaço alguns movimentos</p><p>feitos pelo indicador do observador. Em face das duas tarefas, uma das</p><p>duas caixas, E (esquerdo) ou D (direito), deve ser assinalada.</p><p>Lateralização auditiva: para avaliar o ouvido preferencial, pede-se à</p><p>criança primeiro que ausculte um relógio de corda e, em seguida,</p><p>simule o atendimento do telefone.</p><p>A apresentação do relógio deve ser idêntica à do tubo, para não</p><p>condicionar o uso da mão não dominante. A situação de simulacro</p><p>exige da parte da criança a evocação do objeto e dos respectivos gestos</p><p>e mímicas inerentes.</p><p>Em ambas as tarefas, e para confirmar a preferência, sugere-se à</p><p>criança respostas verbais, uma reproduzindo o ritmo da corda do</p><p>relógio, outra simulando o início de uma conversa telefônica. Em face</p><p>das tarefas, uma das duas caixas deve ser assinalada.</p><p>Lateralização manual: para avaliar a mão preferencial (a observação</p><p>indireta já permite detectá-la com certa segurança, não esquecendo</p><p>que ela se confirmará nas tarefas de coordenação oculomanual da</p><p>praxia global e final), sugere-se à criança que primeiro simule escrever</p><p>e, depois, simule cortar um papel com a tesoura. O registro da</p><p>preferência deve seguir o mesmo procedimento das tarefas anteriores.</p><p>Lateralização pedal: para avaliar o pé preferencial (a observação do</p><p>equilíbrio estático e dinâmico já fornece dados, não esquecendo que</p><p>ela se confirmará nas tarefas de coordenação oculomanual), sugere-se</p><p>à criança que primeiro dê um passo a gigante, partindo da posição de</p><p>pés paralelos, e, depois, simule enfiar as calças, registrando-se o</p><p>primeiro pé. O registro da preferência deve ser o mesmo das situações</p><p>anteriores.</p><p>Figura 3.18. – Observação da lateralização ocular (olho</p><p>preferencial).</p><p>Figura 3.19. – Observação da lateralização auditiva.</p><p>Figura 3.20. – Observação da mão preferencial.</p><p>Figura 3.21. – Observação da lateralização pedal (pé</p><p>preferencial).</p><p>A cotação a atribuir tem como finalidade registrar a consistência</p><p>das preferências nas quatro tarefas, servindo a lateralização inata ou</p><p>adquirida para as confirmar ou negar. O critério de adotar é o seguinte:</p><p>4, se a criança realiza todas as tarefas espontaneamente, sem</p><p>hesitações e com proficiência, podendo obter-se um perfil DDDD no</p><p>caso da criança de preferência direita, ou um perfil EEEE no caso de</p><p>criança de preferência esquerda, nenhum sinal difuso ou bizarro</p><p>deve ser perceptível; realização precisa, econômica e perfeita;</p><p>3, se a criança realiza as tarefas com ligeiras hesitações e</p><p>perturbações psicotônicas e com perfis discrepantes entre os</p><p>telerreceptores e os proprioefetores (por exemplo: DDEE; EEDD;</p><p>DEDE etc.), sem, no entanto, revelar confusão; realização completa,</p><p>adequada e controlada;</p><p>2, se a criança realiza as tarefas com permanentes hesitações e</p><p>perturbações psicotônicas com perfis inconsistentes e na presença</p><p>de sinais de ambidestria; presença de sinais disfusos mal-integrados</p><p>bilateralmente; incompatibilidade entre lateralidade inata e</p><p>adquirida; lateralidade auditiva esquerda;</p><p>1, se a criança não realiza as tarefas evocando ambidestria nítida,</p><p>lateralidade mista mal-integrada ou lateralidade contrariada.</p><p>A cotação deve ser efetuada e transferida para o pefil da BPM.</p><p>Significação psiconeurológica</p><p>As tarefas que constituem a lateralização na BPM são pouco</p><p>significativas em termos psiconeurológicos. A edição mais recente da</p><p>BPM inclui já outras tarefas de nível simbólico que integram a avaliação</p><p>da lateralização em três orientações: homolateral (primária); dupla</p><p>contralateral (secundária) e reversível (terciária), orientações essas</p><p>contidas no subfator do reconhecimento direita-esquerda da noção do</p><p>corpo. Com a transferência daquele subfator, o fator lateralização</p><p>assumirá outra relevância e termos psiconeurológicos, relevância essa</p><p>que não foi possível adotar no primeiro ensaio experimental, que mais</p><p>à frente iremos apresentar.</p><p>Em casos de crianças ambidestras indefinidas, pensamos que a</p><p>avaliação da lateralização deve envolver um (re)exame da tonicidade e</p><p>a aplicação de provas de velocidade e precisão práxica em ambas as</p><p>mãos, a fim de tentar determinar mais objetivamente a lateralização</p><p>(inata ou adquirida) da criança.</p><p>A significação psiconeurológica da lateralização envolve, como Luria</p><p>afirma, a organização progressiva do cérebro como órgão de trabalho e</p><p>órgão de comunicação. O cérebro tem de organizar primeiro as</p><p>sensações e os movimentos, antes de organizar símbolos; por essa</p><p>razão, a integração bilateral antecede a especialização hemisférica.</p><p>A lateralização está, sem dúvida, ligada à preferência manual do</p><p>membro superior que constitui o membro de maior especialização e</p><p>dissociação motora do ser humano, ao mesmo tempo que se torna o</p><p>membro mais frequentemente utilizado no contato com o mundo</p><p>exterior.</p><p>Lateralização é, por consequência, sinônimo de diferenciação e de</p><p>organização. O hemisfério esquerdo controla o lado direito do corpo,</p><p>enquanto o hemisfério direito controla o lado esquerdo. Primeiro, em</p><p>termos sensório-motores, posteriormente, em termos perceptivos e</p><p>simbólicos. A especialização hemisférica das funções é efetivamente</p><p>necessária para a eficiência dos processos cerebrais. Uma boa</p><p>lateralização é o produto final de uma ótima maturação.</p><p>Com Hécaen e Ajuriaguerra (1964), Dimond (1973), Penfield e</p><p>Roberts (1959), Kimura (1961), Benton (1979) e, principalmente Sperry</p><p>(1969) (split-brain) e muitos outros autores, os dois hemisférios acusam</p><p>cada um uma constelação de especializações, sendo por meio delas</p><p>que o ser humano assume funções psíquicas superiores conforme</p><p>Quadro</p><p>(FONSECA, 1984)</p><p>A organização espacial, a elaboração de praxias, a fala e a escrita</p><p>como pensamento cognitivo, requerem operações muito precisas e</p><p>complexas dos dois hemisférios, mas os dois hemisférios só estão aptos</p><p>a cooperar e a trabalhar conjuntamente quando o tronco cerebral</p><p>trabalha apropriadamente.</p><p>É no tronco cerebral que se estabelecem os centros de integração</p><p>bilateral do corpo, integração essa que decorre na ontogênese e</p><p>estrutura-se automaticamente. Quando não está assegurada por tais</p><p>centros, ela interfere na aprendizagem e no comportamento, alterando</p><p>a qualidade das relações e das interações entre as várias unidades</p><p>funcionais.</p><p>A lateralização, nos seus vários componentes funcionais, ocular,</p><p>auditiva, manual e pedal, promove a estabilidade do universo vivido, do</p><p>qual partem todas as relações essenciais entre o indivíduo e o seu</p><p>envolvimento (FONSECA, 1976). A não estabilização no universo vivido,</p><p>ou seja, do sistema postural peculiar do indivíduo (radar do Eu), tende</p><p>a alterar todas as relações de interação com o meio exterior, afetando a</p><p>organização dos fatores tônicos e posturais e desintegrando os</p><p>componentes da organização práxica.</p><p>A automatização da tonicidade e da equilibração é básica para a</p><p>aquisição de muitas funções psíquicas superiores, como a linguagem, a</p><p>leitura e a escrita, daí também a importância que assume a</p><p>lateralização em toda a organização das funções psíquicas superiores.</p><p>Para Quirós e Schrager (1975), a especialização hemisférica</p><p>desenvolve-se até o ponto do hemisfério direito ser responsável pela</p><p>integração motora, libertando o hemisfério esquerdo para assumir</p><p>outras funções, nomeadamente as funções cognitivas e a linguagem.</p><p>Não há, portanto, duplicação funcional, mas sim uma</p><p>intercomunicação cooperativa, que se traduz obviamente em um maior</p><p>poder cognitivo.</p><p>Para ascender a funções superiores, o cérebro tem de lidar com</p><p>toda a complexa integração postural, produzindo modulações tônicas,</p><p>modificações intersegmentares reflexas, interações com o espaço</p><p>envolvente, integrando posições, exprimindo atitudes, coativando</p><p>padrões antigravíticos etc. O cérebro está apto para processar</p><p>informações, quando é capaz de controlar a postura. Se o equilíbrio</p><p>não for mantido e se verificar-se uma insegurança gravitacional, não só</p><p>falharam as atitudes mas também todo o controle voluntário que</p><p>obedece à função de integração bilateral do corpo.</p><p>Hemisfério Esquerdo Hemisfério Direito</p><p>GLOBAL – Sequencialização da informação</p><p>– Organização e seriação</p><p>– Simultaneidade da informação</p><p>– Organização “gestáltica”</p><p>– Análise</p><p>– Funções tudo ou nada</p><p>– Processo elaborativo</p><p>– Processo conceitual</p><p>– Categorização das alterações do</p><p>– envolvimento</p><p>– Vigilância primária</p><p>– Atenção auditiva</p><p>– Ritmo</p><p>– Organização volitiva e consciente</p><p>– Síntese</p><p>– Funções difusas e graduadas</p><p>– Processo imediato e emocional</p><p>– Processo perceptivo</p><p>– Sustentação da situação do</p><p>envolvimento</p><p>– Vigilância secundária</p><p>– Atenção visual</p><p>– Música</p><p>– Organização involitiva e</p><p>automática</p><p>LÓBULO FRONTAL</p><p>– Fluência verbal</p><p>– Regulação do comportamento pela</p><p>fala</p><p>– Praxias</p><p>– Escrever</p><p>– Conscientização</p><p>– Julgamento verbais</p><p>– Detecção de erros</p><p>– Consciência social</p><p>– Julgamentos recentes do tipo</p><p>visual</p><p>LÓBULO TEMPORAL</p><p>– Raciocínio verbal</p><p>– Memória verbal auditiva</p><p>– Vocabulário</p><p>– Padrões de ritmo</p><p>– Memória visual de longo-termo</p><p>– -Memória auditiva não verbal</p><p>LÓBULO PARIETAL E</p><p>OCCIPITAL</p><p>– Cálculo</p><p>– Leitura</p><p>– Escrita</p><p>– Praxias construtuvas</p><p>– Praxias ideacionais</p><p>– Síntese, percepção da forma</p><p>– Aquisições associativas</p><p>– Apreensão de sequencias</p><p>– Memória para faces</p><p>– Percepção do espaço</p><p>– Percepção de fundo</p><p>– Discriminação</p><p>– Praxia construtiva espacial</p><p>– Memória visual de curto-termo</p><p>– Reconhecimento visual de</p><p>objetos e figuras</p><p>Quadro 3.3. – Distribuição das funções corticais</p><p>superiores pelos dois hemisférios</p><p>A consciência humana para atingir a informação simbólica tem de</p><p>eliminar informação intracorporal, tem de poder inibir, ou melhor,</p><p>modular a informação proprioceptiva, a fim de poder lidar com</p><p>informação mais complexa. É aqui que a lateralização atinge um papel</p><p>crucial: ela submete o sistema postural a outras funções mais</p><p>diferenciadas, como as praxias e a aprendizagem.</p><p>A equilibração e a lateralização no ser humano permitem o acesso à</p><p>orientação simbólica e de um dos hemisférios, normalmente o</p><p>esquerdo, que cada vez mais se liberta da informação somática e</p><p>torna-se apto a lidar com informação extrassomática de origem social.</p><p>Em qualquer processo de aprendizagem, o hemisfério direito é mais</p><p>rápido que o hemisfério esquerdo; precede-o para depois se submeter</p><p>ao seu controle. O princípio da hierarquização funcional está de novo</p><p>presente.</p><p>O acesso à linguagem no ser humano requer uma equilibração</p><p>altamente complexa, superiormente governada por um hemisfério.</p><p>Para lidar com sinais e símbolos, o cérebro tem de se organizar primeiro</p><p>para lidar com informações tônicas, táteis e quinestésicas (haptic</p><p>system). A postura abre o caminho à linguagem por meio da função de</p><p>lateralização, transformando o cérebro em um órgão capaz de</p><p>processar informação que tem origem fora do seu corpo.</p><p>Se a equilibração ou a lateralização falharem, a sensibilidade</p><p>proprioceptiva, o sistema vestibular e todas as funções da primeira</p><p>unidade funcional de Luria não permitirão que as outras unidade mais</p><p>complexas atuem apropriadamente.</p><p>A significação psiconeurológica da lateralização assume mais relevo</p><p>quando abordamos as lesões hemisféricas. Muitos estudos lesionais em</p><p>adultos têm demonstrado que as lesões direitas afetam</p><p>preferencialmente a noção do corpo e as relações espaciais (fenômeno</p><p>de Neglet), enquanto as lesões esquerdas afetam outro quadro clínico</p><p>mais relacionado com as afasias. Nas crianças, esses quadros não são</p><p>tão nítidos exatamente porque as crianças ainda não possuem</p><p>dominância hemisférica, daí a importância deste fator psicomotor em</p><p>termos de potencial de aprendizagem.</p><p>Para aprender as funções simbólicas, o hemisfério esquerdo</p><p>(hemisfério simbólico em Quirós e Schrager, 1975) transfere as suas</p><p>informações corporais e espaciais para o hemisfério direito (hemisfério</p><p>postural para os mesmos autores).</p><p>Se a informação corporal e espacial não for convenientemente</p><p>transferida (ou excluída), é óbvio que o hemisfério esquerdo tem de</p><p>passar mais tempo a processá-la e, ao investir nessa atividade, não</p><p>pode estar apto para processar a informação para a qual está mais</p><p>dotado. Por alguma razão, a presença de crianças preferencialmente</p><p>esquerdas ou com ambidestria mal-integradas é frequentemente nas</p><p>populações de crianças deficientes ou de crianças com dificuldades na</p><p>fala ou na aprendizagem.</p><p>Em termos cibernéticos, isso quer dizer que os circuitos disponíveis</p><p>para um programa simples não processam informação; por</p><p>consequência, os circuitos normalmente utilizados para programas mais</p><p>complexos têm de entrar em atividade, pondo em risco as suas próprias</p><p>funções.</p><p>Aqui está talvez uma das razões que explica por que a linguagem</p><p>não se desenvolve convenientemente enquanto os “programas” da</p><p>tonicidade, da equilibração e da lateralização não estão devidamente</p><p>integrados e automatizados. Razão paralela encontra-se em crianças</p><p>disléxicas em que se detectam frequentes sinais disfuncionais</p><p>vestibulares e proprioceptivos; daí, consequentemente, a significação</p><p>psiconeurológica dos sinais detectados no fator psicomotor da</p><p>lateralização.</p><p>3.2.5. Noção do corpo</p><p>Considerações gerais</p><p>A noção do corpo, que constitui o quarto fator da BPM, está</p><p>também integrada na segunda unidade funcional de Luria, cuja função</p><p>primordial é a recepção, a análise e o armazenamento da informação.</p><p>No caso particular da noção do corpo (somatognosia), ela</p><p>compreende a recepção, a análise e o armazenamento das informações</p><p>vindas do corpo, reunidas sobre a forma de uma tomada de</p><p>consciência estruturada e armazenada somatotopicamente.</p><p>A noção do corpo em termos psicomotores encerra o conceito</p><p>pavloviano de analisador motor, cujas projeções corticais se concentram</p><p>no lóbulo parietal. As múltiplas informações proprioceptivas pré-</p><p>selecionadas no tronco cerebral e nas estruturas talâmicas ascendem ao</p><p>córtex para aí criarem uma conscientização específica do corpo,</p><p>conscientização essa ontogenética e apreendida por meio da</p><p>experiência motora e da mediação social.</p><p>Em Ajuriaguerra (1972), a evolução da criança é sinônimo de</p><p>conscientização e conhecimento cada vez mais profundo do seu corpo,</p><p>a criança é o seu corpo, pois é por meio dele que a criança elabora</p><p>todas as suas experiências vitais e organiza toda a sua personalidade.</p><p>A noção do corpo, noção crítica, singular e plural, assume um</p><p>invariante tátil-quinestésico da postura, em que convergem</p><p>sinultaneamente, mas com uma contribuição particular, os anteriores</p><p>fatores psicomotores da tonicidade, da equilibração e da lateralização.</p><p>Trata-se de uma construção polifatorial que envolve a relação inevitável</p><p>com o outro e a dimensão geocêntrica da linguagem. Noção primeiro</p><p>intuitiva, da qual decorre uma autoimagem sensorial interior, passa</p><p>posteriormente a uma noção especializada linguisticamente.</p><p>Decorrendo da reprojeção aferente de todos os músculos, os</p><p>tendões e as articulações, do tato e do sentido quinestésico (haptic</p><p>systein), a noção ou a imagem do corpo estruturase a partir dos</p><p>estímulos periféricos e das preferências do movimento corporal,</p><p>resultando em processos de transdução e de análise, desde as</p><p>informações táteis até as quinestésicas, cujo produto final resulta na</p><p>síntese e no armazenamento de posturas corporais, de padrões de</p><p>movimento, de direcionalização objetal e envolvimental etc.,</p><p>dependentes da experiência cultural e da aprendizagem.</p><p>Em suma, em termos lurianos, a noção do corpo resulta das</p><p>projeções específicas das áreas primárias, mas elabora-se e armazena-</p><p>se como construção gnósica corporal (somatognosia) nas áreas</p><p>parietais secundárias (áreas 5 e 7 de Brodmann).</p><p>A noção do corpo refinada pela ontogênese obedece a uma</p><p>hierarquia estrutural. De uma referência sensorial interiorizada e</p><p>adaptativa, dependente dos sinergismos básicos espelhados no</p><p>desenvolvimento da locomoção, a noção do corpo semiotiza-se por</p><p>meio da experiência cultural, integrando o emocional e o afetivo, o</p><p>mágico e o fantástico, a unidade e a diferenciação, a instrumentalidade</p><p>e a identidade, o objetivo e o subjetivo etc. Em uma palavra, a noção</p><p>do corpo envolve a noção do psíquico, é o psíquico.</p><p>A noção do corpo é um sistema funcional complexo em termos</p><p>lurianos, na medida em que resulta da organização e da estruturação</p><p>de percepções simples em constelações mais complexas, como</p><p>(re)representações do corpo, verdadeiras transformações corticais de</p><p>memórias neuronais que dão ao corpo uma singularidade própria e</p><p>uma localização subjetiva intrínseca.</p><p>Com base nesses dados, o corpo transforma-se em um instrumento</p><p>do pensamento e da comunicação. É nele e com ele que nos</p><p>reconhecemos no que somos. O corpo é em síntese um objeto</p><p>psicológico e um constructo psicológico. (FISCHER e CLEVELAND,</p><p>1968)</p><p>A noção do corpo em Psicomotricidade não avalia a sua forma ou</p><p>as suas realizações motoras, procura outra via de análise que se centra</p><p>mais no estudo da sua representação psicológica e linguística e nas</p><p>suas relações inseparáveis com o potencial de aprendizagem. A noção</p><p>do corpo como noção construída pela própria criança adquire um</p><p>sentido e uma significação cuja integração está na base das funções</p><p>psíquicas superiores.</p><p>A noção do corpo (body percept nos autores americanos) não se</p><p>esgota nas dimensões neurológicas, uma vez que transcende as suas</p><p>fronteiras nos vários processos de comunicação. Desde a comunicação</p><p>básica, primitiva e vital, que subentende o inesgotável diálogo tônico-</p><p>afetivo entre mãe e filho, até o conforto tátil, que retrata a vinculação</p><p>essencial do ser humano a outros seres humanos, passando pela</p><p>imitação e pela comunicação não verbal universal, o corpo, sede da</p><p>consciência, é nem mais nem menos o habitáculo emocional e racional</p><p>da inteligência.</p><p>O corpo, filogenética e ontogeneticamente, apropria-se das</p><p>emoções e das representações, é o lugar por onde a comunicação se</p><p>estabelece. É estruturalmente o centro da linguagem emocional e</p><p>interior que antecede a apropriação da própria linguagem falada.</p><p>A noção do corpo resume dialeticamente a totalidade do potencial</p><p>de aprendizagem, não só por envolver um processo perceptivo</p><p>polissensorial complexo mas também por integrar e reter a síntese das</p><p>atitudes afetivas vividas e experimentadas significativamente.</p><p>Encarada nesta perspectiva, a noção do corpo torna-se um</p><p>dispositivo essencial ao desenvolvimento da aprendizagem e,</p><p>consequentemente, da personalidade, na medida em que ela tem para</p><p>a criança uma significação experimental subjetiva e peculiar. É uma</p><p>matriz psicológica que se introduz em todas as formas de</p><p>comportamento. A estrutura do corpo e a variedade dos traços de</p><p>personalidade são objeto de estudo de inesgotáveis recursos para</p><p>compreender as relações entre corpo e personalidade, como provaram,</p><p>por exemplo, Kretchmern (1923), Sheldon (1942) etc.</p><p>Inúmeras perspectivas sobre o estudo da noção do corpo têm sido</p><p>avançadas, desde as filosóficas (KANT, KIERKEGAARD, DESCARTES</p><p>etc.), as fenomenologistas (PONTY, HUSSEL, CASSIERE, CHIRPAZ etc.),</p><p>as existencialistas (SARTRE, CAMUS etc.), a psicanalítica (FREUD, SPIZ,</p><p>KLEIN, ADLER, JUNG, RANK, REICH, SCHILDER etc.), as</p><p>a que se seguem P. Marie, H. Jackson,</p><p>Kussmaul, Déjérine, Von Monakow, Pick, Freud e outros.</p><p>P. Marie (1853-1940) depois de se licenciar em Direito, torna-se</p><p>médico, assumindo posições iconoclásticas, como, por exemplo, ter</p><p>afirmado que a terceira circunvolução frontal esquerda não tinha um</p><p>papel especial na afasia.</p><p>H. Jackson (1835-1911) considerado o pai da Neurologia inglesa,</p><p>independentemente de ter sido esquecido durante muito tempo,</p><p>publica extensos trabalhos, sendo famoso pelos seus conceitos de</p><p>assimetria funcional e de hierarquia representacional dos fenômenos</p><p>psíquicos, de extremo interesse para a compreensão da integração de</p><p>aquisições psicomotoras sobre aquisições sensório-motoras mais</p><p>simples. Os seus estudos sobre imperceptibilidade, linguagem</p><p>proposicional e não proposicional, linguagem emocional e intelectual,</p><p>linguagem interior e organização hierárquica funcional do cérebro são</p><p>ainda reconhecidos como importantes para o estudo da</p><p>Neurolinguística e da Psiconeurologia do desenvolvimento.</p><p>Kussmaul (1822-1902), conhecido por introduzir as noções originais</p><p>de cegueira e surdez para as palavras, é ao mesmo tempo um defensor</p><p>de uma posição “antilocalizacionista” da linguagem, não esquecendo a</p><p>sua contribuição sobre as desordens da linguagem escrita. Déjérine e</p><p>Von Monakow (1853-1930) e Pick (1850-1924) distinguem-se pelos</p><p>seus trabalhos no âmbito da somatognosia e da linguagem, e Freud</p><p>(1956-1939) sugere concepções sobre a afasia de condução, ainda hoje</p><p>reconhecidas.</p><p>As relações entre cérebro e comportamento, entretanto, perderam</p><p>a popularidade, as teorias psicodinâmicas, o gestaltismo e o</p><p>behaviorismo estagnaram, de certa forma, o estudo do cérebro. As</p><p>influências sociais, políticas e filosóficas fizeram-se sentir. Kant, por um</p><p>lado, defendendo o inatismo, e Locke, por outro, advogando a filosofia</p><p>da tábua rasa, introduziram um certo interregno no âmbito das</p><p>relações entre cérebro e comportamento.</p><p>Durante esse período, alguns nomes, entretanto, surgem: Goldstein</p><p>(1879-1965), que se distingue na sua perspectiva holística do sistema</p><p>nervoso, e Kleisst, que desenvolve interessantes estudos no âmbito das</p><p>afasias e das apraxias. Ambos são dos últimos intervenientes na</p><p>discussão que marcou nos fins do século XIX e princípios do século XX</p><p>os estudos da Psiconeurologia. Com reconhecimento internacional,</p><p>surge também a leucotomia pré-frontal de Egas Moniz, que abriu</p><p>perspectivas novas ao conhecimento da função cerebral.</p><p>A época dos modernos investigadores surge com neurologistas,</p><p>psicólogos, patologistas, linguistas, psiconeurologistas etc. Neles cabem</p><p>R. Brain, Critchley, Penfield, Geschwind, Luria, Eisenson, Schuell,</p><p>Wepman, Benton, Damásio, Benson, Denckla, Ajuriaguerra, Hécaen,</p><p>Trevarthen, Pribram, Kinsbourne, Ojeman, Chalfant, Sperry, Eccles,</p><p>Gaddes, Galaburda, Myklebust e muitos outros, a que faremos</p><p>referência ao longo do trabalho, especialmente nas relações entre</p><p>Psiconeurologia e Psicomotricidade.</p><p>O futuro da Psiconeurologia é deveras promissor: novas técnicas</p><p>(audição dicótica, visão bilateral, fluxo sanguíneo etc.), novos estudos</p><p>anatômicos com conexões mais bem desenhadas, novos avanços na</p><p>Neuroquímica e Neurofarmacologia, lobectomias e calosotomias,</p><p>estudos eletrofisiológicos, experimentação animal, estudos de casos,</p><p>tomografia axial computadorizada, ressonância magnética nuclear etc.</p><p>irão certamente influenciar o diagnóstico e o tratamento de muitos</p><p>pacientes, uma vez que as relações entre cérebro e comportamento</p><p>vão-se desvendando à luz dos dados da investigação.</p><p>A nossa visão, bem mais modesta, está em transferir e adaptar os</p><p>conhecimentos da Psiconeurologia para a educação e para a</p><p>reabilitação de crianças com necessidades especiais, pois, com o</p><p>conhecimento das relações entre cérebro e comportamento, estaremos,</p><p>certamente, mais perto da otimização e da maximização dos seus</p><p>potenciais de aprendizagem, e é dentro dessa dimensão que</p><p>procuraremos com a presente pesquisa uma aproximação entre a</p><p>Psiconeurologia e a Psicomotricidade.</p><p>1.3.Alguns aspectos filogenéticos</p><p>Ao abordarmos alguns aspectos filogenéticos da evolução do</p><p>cérebro, queremos apenas situar, de forma esquemática e introdutória,</p><p>algumas relações entre a evolução e a maturação do sistema nervoso e</p><p>a significação de alguns dos principais vetores da sua filogênese.</p><p>A evolução tem sido encarada normalmente como mudança, como</p><p>adaptabilidade; mas então por que é que algumas estruturas no</p><p>cérebro humano não evoluíram ou, caso se modificaram estrutural e</p><p>funcionalmente, foi muito pouco? Por que razão algumas estruturas do</p><p>sistema nervoso (SN) dos vertebrados mudaram pouco? Por que razão</p><p>outras estruturas tiveram um salto quântico? O que é que isto</p><p>significa?</p><p>Será que a observação de simples vertebrados nos permite olhar</p><p>para o cérebro humano e perceber a sua origem e a sua evolução?</p><p>Estudando o SN de várias espécies, as suas funções e comportamentos,</p><p>podemos compreender e apreciar as suas limitações e capacidades e,</p><p>por essa via, analisar as suas semelhanças e dessemelhanças</p><p>adaptativas em comparação com a espécie humana.</p><p>Em uma primeira análise, podemos adiantar que as semelhanças</p><p>são muito maiores que as diferenças. A neurologia comparativa, a</p><p>homologia e a histoquímica revelam-nos a flexibilidade da organização</p><p>cerebral que foi necessária para a evolução, revelam-nos como cada</p><p>vertebrado possui as características neuroanatômicas expressas na sua</p><p>relação com o envolvimento e na sua capacidade de utilização dos</p><p>recursos ecológicos.</p><p>Pensa-se muitas vezes que a inteligência superior da nossa espécie é</p><p>sinônimo de superioridade “as vantagens evolutivas de sermos</p><p>estúpidos”, como disse Robin (1973), mas verificamos e constatamos</p><p>que a Natureza, em algumas circunstâncias, optou por uma pequena</p><p>massa cerebral em vez de uma muito grande. A tartaruga, por</p><p>exemplo, requer muito menos energia que o ser humano e é capaz de</p><p>funcionar com tensões de oxigênio no sangue iguais a zero,</p><p>satisfazendo as suas necessidades adaptativas por meio de glicólise</p><p>anaeróbica. Ela tem sobrevivido há mais de 200 milhões de anos</p><p>conforme dados recolhidos de fósseis. Não se pode dizer que ela tem</p><p>sido malsucedida em termos adaptativos. Se o fornecimento do</p><p>oxigênio rarear na atmosfera, a tartaruga, com seu pequeno cérebro,</p><p>com o seu lento funcionamento, provavelmente, sobreviverá mais</p><p>tempo do que nós.</p><p>Efetivamente, a linha de evolução que leva ao Homo Sapiens não</p><p>pode ser considerada a melhor de todas. Como os dinossauros, o</p><p>homem tem a alternativa da sua potencial extinção.</p><p>Tem sido o estudo comparativo das estruturas esqueléticas das</p><p>espécies fósseis e das espécies vivas aquele que tem fornecido</p><p>inferências para a compreensão do desenvolvimento filogenético</p><p>progressivo. Por condições óbvias, o cérebro foi o menos estudado, só</p><p>recentemente foi abordado no sentido de poder confirmar a sequência</p><p>da evolução, não só pela complexidade do órgão que é, mesmo nas</p><p>espécies mais simples, mas também porque o cérebro é o órgão que</p><p>apresenta maior divergência e variação estrutural. Como órgão, o</p><p>cérebro não tem paralelo com qualquer outro sistema orgânico. É o</p><p>órgão mais organizado do organismo e, provavelmente, do cosmo:</p><p>trata-se do sistema físico mais complexo até hoje conhecido.</p><p>Muitas discussões têm havido e teremos sobre as relações</p><p>filogenéticas das várias espécies de vertebrados. Muito menos</p><p>concordância se verifica na grande questão da origem dos vertebrados</p><p>a partir de um invertebrado ancestral. Trata-se de um enigma que se</p><p>coloca atrás do outro que é a origem da vida. Hipóteses há que vão</p><p>desde o puro idealismo até as inferências mais ou menos plausíveis.</p><p>Uma coisa é certa: nenhuma teoria até hoje conseguiu explicar todas as</p><p>características da evolução.</p><p>Na evolução, temos de reconhecer a grande versatilidade do</p><p>cérebro em se adaptar a novas necessidades, alterando e modificando</p><p>a função de sistemas antigos, desenvolvendo e transformando sistemas</p><p>novos.</p><p>Na evolução, novos sistemas e novos níveis de complexidade são</p><p>superimpostos</p><p>psicológicas</p><p>clássicas (LOTZE, WUNDT, TICHENER, WASHBURN etc.), as psicológicas</p><p>contemporâneas (WALLON, PIAGET, BENTON, FISCHER E CLEVELAND</p><p>etc.), as neurológicas (PICK, HEAD, WERNICKE, GOLDSTEIN, HÉCAEN,</p><p>AJURIAGUERRA etc.) até as outras perspectivas mais interdisciplinares e</p><p>transdisciplinares, cujo tratamento seria exaustivo em um trabalho</p><p>desta natureza.</p><p>De alguma forma, em termos de síntese, todas elas pretendem</p><p>transcender a noção física do corpo, conferindo-lhe em contrapartida</p><p>outros atributos: o mundo das sensações e das emoções; o mundo das</p><p>ações e das construções; o mundo dos afetos e dos sentimentos etc.</p><p>Daqui também as várias designações: esquema postural (HEAD);</p><p>esquema corporal (BONNIER); imagem de si (VAN BOGAERT);</p><p>somatopsiquíco (JANET): imagem do eu corporal (M. PONTY); imagem</p><p>do corpo (SCHILDER); imagem espacial do corpo (PICQ); imagem do</p><p>nosso corpo (LHERMITTE) etc. (FONSECA, 1977). Todas elas,</p><p>invariavelmente, são de grande riqueza para a compreensão da</p><p>significação psiconeurológica da noção do corpo.</p><p>Em termos de observação psicomotora, a noção do corpo deve ser</p><p>reconhecida como resultante da organização do input sensorial (tátil-</p><p>cinestésico, vestibular e proprioceptivo) em uma imagem interiorizada e</p><p>estruturada, de onde emerge uma representação mental, que em si,</p><p>constitui-se em um marco de referência interna que precede todas as</p><p>relações com o exterior.</p><p>Ao longo da experiência, o cérebro organiza uma imagem sensorial</p><p>interna a partir da atividade motora, imagem essa que se refina e</p><p>precisa, estrutura e atualiza, armazena e se reutiliza.</p><p>A noção do corpo organiza-se desde as re-representações dos</p><p>modelos neuronais da tonicidade, da equilibração e da lateralização</p><p>que se sobrepõem em um verdadeiro órgão cortical e funcional.</p><p>Dessa forma, a noção do corpo constitui uma integração superior,</p><p>onde se encontram dados intraneurossensoriais e interneurossensoriais,</p><p>que mobilizam memórias neuronais indispensáveis ao desenvolvimento</p><p>das aquisições de aprendizagem psicomotora e simbólica.</p><p>A noção do corpo é o alfabeto e o atlas do corpo, mapa semântico</p><p>com equivalentes visuais, táteis, quinestésicos e auditivos (linguísticos),</p><p>verdadeira composição de memórias de todas as partes do corpo e de</p><p>todas as suas experiências. Em outros termos, é uma síntese perceptiva</p><p>que tem lugar na segunda unidade funcional do modelo de</p><p>organização cerebral de Luria, mais exatamente nas áreas secundárias e</p><p>terciárias do lóbulo parietal.</p><p>Como mapa, a noção do corpo é indispensável para “navegar” no</p><p>espaço; como alfabeto, é indispensávvel para comunicar e aprender.</p><p>Ponto de referência espacial, instrumento de realização e de criação,</p><p>alicerce da estrutura do Eu etc., o corpo é uma construção</p><p>biopsicossocial, um produto final das experiências agradáveis e</p><p>desagradáveis da vida.</p><p>A noção do corpo joga com a noção de tamanho e de peso, com a</p><p>informação do envolvimento, dos objetos e dos outros, com a</p><p>informação da gravidade, com a lateralização relativa da situação, com</p><p>os movimentos anteriores (engramas) armazenados, em uma palavra,</p><p>com todas as informações necessárias para produzir ações intencionais.</p><p>O cérebro, por meio da noção do corpo, está apto a conhecer as</p><p>condições em que vai ser elaborada e programada a atividade que tem</p><p>de regular e de verificar.</p><p>A discriminação, a identificação e a localização tátil do corpo é, por</p><p>consequência, determinante para a organização da noção do corpo.</p><p>Qualquer disfunção em integrar essa informação sensorial implica</p><p>disgnosias ou agnosias, isto é, a dificuldade em localizar precisamente</p><p>as partes do corpo envolvidas ou, por extensão, a dificuldade em</p><p>identificar objetos por palpação ou manipulação. Dar significação às</p><p>informações táteis, quinestésicas, vestibulares e proprioceptivas é a</p><p>base neuronal com a qual se constrói a noção do corpo.</p><p>As perturbações da somatognosia traduzem um fraco</p><p>conhecimento do corpo, a que se juntam ambiguidades sensoriais,</p><p>desintegração dos componentes proprioceptivos, alterações de</p><p>representação óptica da própria imagem do corpo, desorientação na</p><p>localização das sensações táteis, sensações de mudança, de dimensãõ e</p><p>de peso dos membros do corpo, sensações de rejeição e de</p><p>negligência, modificações vestibulares e tônicas, sensações de</p><p>desaparecimento dos membros do corpo, sensações de imobilização</p><p>etc.</p><p>Um número infindável de termos tem sido introduzido nas</p><p>perturbações psicopatológicas da noção do corpo (HÉCAEN e</p><p>AJURIAGUERRA, 1952) dos quais destacamos, pelo seu interesse, os</p><p>seguintes: anosognosia (os pacientes ignoram a sua hemiplegia),</p><p>anosodiaforia (indiferença sistemática à paralisia), hemissomatognosia</p><p>(desconhecimento de metade do corpo), autotopoagnosia</p><p>(perturbações nas relações entre esquerda e direita), agnosia digital</p><p>(não localização dos dedos da mão), assomatognosia (incapacidade de</p><p>distinção das partes do corpo, perda de consciência do corpo),</p><p>aloestesia (transferência simétrica de estímulos), alucinações</p><p>sinestésicas (simulação de movimentos nos membros paralisados),</p><p>síndrome de Gertsmann (agnosia digital, indistinção direita-esquerda,</p><p>acalculia e agrafia pura), sentimento de ausência de membros</p><p>(fenômeno do membro fantasma), assimbolia à dor (reação incompleta</p><p>ou insuficiente à dor) etc.</p><p>Por meio de múltiplas perturbações da noção do corpo, somos</p><p>levados a reconhecer a importância desse fator em termos de</p><p>desenvolvimento psicomotor, ou em termos de potencial de</p><p>aprendizagem.</p><p>Na criança, não podemos falar de perturbações da somatognosia,</p><p>na medida em que ela não está ainda constituída como sistema</p><p>funcional complexo; por esse fato, as sensações de membro-fantasma</p><p>em crianças amputadas com menos de seis anos não são manifestadas.</p><p>(HÉCAEN e AJURIAGUERRA, 1952; e TOLON, 1982)</p><p>A noção do corpo, por conseguinte, compreende uma</p><p>representação mais ou menos consciente do nosso corpo, dinâmica e</p><p>postural, posicional e espacial, que encerra o revestimento cutâneo que</p><p>nos põe em contato com o mundo exterior. Encerra a formação de um</p><p>processo psicológico cujo substrato neurológico advém dos dados</p><p>sensoriais, que da superfície e da periferia viajem até ao cérebro e aí se</p><p>organizam em um modelo plástico integrado no córtex parietal.</p><p>Nem todas as informações do corpo ascendem ao nível cortical</p><p>parietal; normalmente, são processadas automaticamente pelo tronco</p><p>cerebral, como as sensações táteis da roupa, da pressão atmosférica,</p><p>de móveis em que estamos sentados etc. A maioria delas passa-nos</p><p>despercebida. Para atingir níveis de integração elevados, a</p><p>conscientização da informação tátil reclama funções de atenção</p><p>localizada, funções essas que são o objetivo da pesquisa nas tarefas dos</p><p>subfatores da BPM.</p><p>É basicamente sobre este ponto em que o fator da noção do corpo</p><p>interfere com o potencial de aprendizagem que nos interessa encarar o</p><p>seu estudo.</p><p>As informações visuais, táteis, quinestésicas e vestibulares reunidas</p><p>na imagem do corpo são um alimento indispensável do cérebro, pois,</p><p>privando-o dessa multiestimulação, ele pode desorganizar-se e</p><p>manifestar desordens de processamento da informação ou mesmo</p><p>desordens de comportamento. As experiências de Harlow (1958 e</p><p>1959) sobre esta matéria são de grande importância para a</p><p>compreensão da noção do corpo nos processos emocionais e</p><p>psicológicos. Os estudos de Spitz (1958) sobre hospitalismo não estão</p><p>longe, também, destas implicações globais que estamos abordando.</p><p>Grande parte da informação tátil é inespecífïca, sendo modulada</p><p>por processos de facilitação-inibição pelo sistema nervoso central,</p><p>especialmente na primeira unidade funcional do modelo luriano, em</p><p>que é basicamente convertida em termos energéticos, permitindo que</p><p>o cérebro funcione harmoniosamente. Mas tal informação inespecífica</p><p>não esgota o papel da informação tátil, visto que as informações de</p><p>algumas partes do corpo são altamente específicas, como é o caso das</p><p>informações das mãos, dos dedos, da boca, dos mamilos, dos órgãos</p><p>sexuais etc. E este caráter de especificidade, de localização, de</p><p>identificação</p><p>sobre unidades funcionais pela progressiva organização</p><p>e integração de tais unidades em um só e</p><p>único sistema. Os que foram totalidades a um certo nível tornaram-</p><p>se partes de uma totalidade superior.</p><p>Ao longo da evolução, damos conta que cada nível da organização</p><p>possui propriedades únicas de estruturação e de comportamento, que,</p><p>por sua vez, são dependentes das próprias propriedades dos elementos</p><p>constituintes, elementos esses que só aparecem na evolução, quando</p><p>combinados em novos sistemas.</p><p>O conhecimento dos processos e dos vetores de desenvolvimento</p><p>dos níveis inferiores, como a medula e o tronco cerebral, podem ser de</p><p>uma importância significativa para o melhor conhecimento dos níveis</p><p>superiores, como o córtex; daí, em certa medida, o interesse de uma</p><p>abordagem filogenética.</p><p>As novas relações organizacionais e as novas relações recíprocas das</p><p>unidades elementares entre si e com todo o sistema vão-se traduzir em</p><p>processos evolutivos novos (NOVIKOFF, 1945). A evolução encarada</p><p>nesta perspectiva é sinônimo da edificação de novos sistemas com</p><p>novas propriedades, propriedades tais que não se podem conceber</p><p>como acrescentadas ou adicionadas do exterior, mas sim como</p><p>resultantes de novos sistemas internos de organização.</p><p>O aparecimento do sistema piramidal, por exemplo, não pode ser</p><p>encarado como um sistema exteriormente, ou miraculosamente,</p><p>introduzido no cérebro dos mamíferos superiores, O sistema piramidal,</p><p>como novo sistema, trouxe novas propriedades e novas funções à</p><p>motricidade, transformando-a em termos organizacionais tais que, no</p><p>Homo Sapiens, causaram a maior mudança do planeta Terra em apenas</p><p>10.000 anos, quando a existência de seres vivos é reconhecida há cerca</p><p>de 3 bilhões de anos. Por que é que, em tão pouco tempo, os seres</p><p>humanos causaram tanta transformação no nosso planeta em</p><p>comparação com outros seres vivos?</p><p>Esta impressionante dominância está inexoravelmente relacionada</p><p>com o desenvolvimento do cérebro, desde um cérebro diminuto de</p><p>animais simples até um órgão complexo de cerca de 1.350g no</p><p>homem. Esta capacidade de transformar o transformável é, de certa</p><p>maneira, a característica de uma nova organização do cérebro, isto é, a</p><p>sua transformabilidade e a sua modificabilidade, novas funções que</p><p>atingiram uma especificidade única na nossa espécie.</p><p>Só se reconhecem os grandes traços da evolução, os pormenores</p><p>estão longe de ser conhecidos e, de certa forma, mudam à medida que</p><p>novas informações vão-se obtendo e descobrindo.</p><p>A exata sucessão de acontecimentos evolutivos é impossível de</p><p>reconstituir, porque os dados são incompletos e porque continuam</p><p>sujeitos a várias interpretações.</p><p>Haverão novas descobertas e são essas necessariamente que</p><p>levarão a outras interpretações, interpretações que não se afastarão</p><p>muito daquilo que hoje se equaciona em termos de evolução.</p><p>Tradicionalmente, o tamanho do cérebro é encarado como uma</p><p>medida aproximada de inteligência, indicador esse que foi adaptado</p><p>em termos de comparação homóloga anatomofuncional com outras</p><p>espécies. Evidentemente que o tamanho do cérebro em si não explica o</p><p>que é inteligência, isto é, a capacidade de transformabilidade e de</p><p>modificabilidade a que antes nos referimos; caso contrário, outras</p><p>espécies (por exemplo: elefante, baleia-azul etc.) exerceriam o domínio</p><p>adaptativo no nosso planeta.</p><p>Desde que foi considerado o órgão da alma até ser considerado o</p><p>órgão da civilização (VYGOTSKY, 1960; e LURIA, 1980), o cérebro,</p><p>como órgão mais organizado da evolução, apresenta outros fatores</p><p>funcionais, além do seu tamanho, dos quais se destacam</p><p>fundamentalmente os seguintes:</p><p>— complexidade dos circuitos internos;</p><p>— conexões sinápticas;</p><p>— organização das regiões corticais e subcorticais.</p><p>O tamanho do cérebro está naturalmente relacionado com o</p><p>tamanho do corpo, uma vez que os órgãos adicionais e os grupos</p><p>musculares requerem mais mecanismos de controle. Mas o que é</p><p>importante reconhecer é a capacidade do cérebro de se transformar</p><p>em uma unidade diferenciada e em uma unidade funcional mais</p><p>organizada e complexa. Não basta, pois, encarar o binômio tamanho</p><p>do cérebro-tamanho do corpo, é necessário colocar outros problemas.</p><p>(SARNAT e NETSKY, 1981)</p><p>Os cérebros pequenos, como nos vertebrados inferiores, são moles</p><p>e tubulares; nos vertebrados superiores, eles adquirem muitas</p><p>circunvoluções. O cérebro torna-se esférico e alarga-se para alojar o</p><p>cerebelo, centro de estratégias motoras, ao mesmo tempo que o</p><p>prognatismo se reduz relativamente ao cérebro. (FONSECA, 1982)</p><p>Segundo Jerison (1973), o cérebro no homem alargou-se dois</p><p>terços mais do que o corpo. Como é que o cérebro do homem atingiu</p><p>tal tamanho e como é que o ser humano, ao contrário de outras</p><p>espécies, conseguiu atingir a capacidade de modificar a natureza?</p><p>O cérebro largo do homem desenvolveu-se pela cooperação de</p><p>muitos fatores, além do tamanho do corpo.</p><p>De um lado, a evolução biológica, dependente dos genes, e por</p><p>conseguinte inata, de onde emergem as características do tamanho do</p><p>corpo, dos órgãos sensoriais, do desenvolvimento muscular, das</p><p>libertações esqueléticas etc.</p><p>Do outro, a evolução cultural, dependente do envolvimento, de</p><p>onde emergem a postura bípede, a manipulação tecnológica, a caça, a</p><p>linguagem e a organização social, que traduzem os comportamentos a</p><p>aprender, onde, de fato, a motricidade e a Psicomotricidade assumem</p><p>funções verdadeiramente transcendentes. (FONSECA, 1982)</p><p>As interações sistêmicas, as novas propriedades, as funções e as</p><p>organizações decorrentes destes fatores permitiram novas capacidades</p><p>de informação, formação e transformação, de onde emerge a</p><p>Antropogênese.</p><p>Agricultura, domesticação de animais, armazenamento de água e</p><p>comida, transporte e vestuário, habitação, domínio do fogo, arte,</p><p>normas e regras, proteção e mediação das gerações mais novas pelas</p><p>mais velhas etc. tornam o cérebro um órgão propenso à construção de</p><p>novos sistemas funcionais cada vez mais estruturados e hierarquizados.</p><p>A síntese biocultural e biossocial traduziu-se em um órgão versátil e</p><p>plástico, capaz de controlar e transformar a natureza pelo trabalho e de</p><p>inventar o símbolo, fator esse que o conduziu a capacidades de</p><p>comunicação e de aprendizagens verdadeiramente ímpares ao longo</p><p>da evolução.</p><p>O cérebro alarga-se para poder reagir às mudanças sensoriais, e o</p><p>seu crescimento depende da complexidade da integração sensorial, a</p><p>que paralelamente se ajusta uma concomitante complexidade da</p><p>elaboração e da regulação motora. Quer o componente sensorial, quer</p><p>o componente motor, ambos exercem pressão em termos evolutivos</p><p>para um cérebro ainda maior.</p><p>A evolução progressiva dos mamíferos, como os vertebrados mais</p><p>bem-sucedidos na Terra, nos quais se inclui o homem, está</p><p>naturalmente ligada à inteligência, ao desenvolvimento de novas</p><p>capacidades sensoriais e motoras e, evidentemente, aos produtos da</p><p>sua atividade cerebral.</p><p>Por que é que o cérebro do homem como vertebrado dominante se</p><p>desenvolveu e alargou tanto? Por que é que o cérebro humano se</p><p>desenvolveu tal como é?</p><p>As respostas são difíceis, complexas e, certamente, envolvem muitas</p><p>interações entre o organismo e o envolvimento, interações essas que</p><p>terão de ser primeiramente enquadradas em termos filogenéticos.</p><p>A perspectiva filogenética do ser humano coloca, segundo Milner</p><p>(1976), três tipos de comportamento:</p><p>— comportamentos não aprendidos, ditos inatos, que repartimos</p><p>com os mamíferos inferiores. Neles se integram as funções</p><p>fisiológicas básicas: respirar, sugar, mastigar, deglutir, digerir, tossir,</p><p>sentir fome e sede, urinar, defecar, tensão sexual, cólera, dor, raiva,</p><p>medo, saborear, ouvir, tocar, vocalizar, distinguir graduações de luz,</p><p>orientar, explorar etc.;</p><p>— comportamentos aprendidos, que também repartimos com</p><p>outros mamíferos, nomeadamente os primatas. Neles se integram a</p><p>forma como vemos (ou percebemos) o mundo físico à nossa volta,</p><p>reconhecimento básico das significações do que se vê, ouve, cheira,</p><p>toca, saboreia etc.;</p><p>— comportamentos aprendidos que não repartimos com mais</p><p>nenhuma outra</p><p>forma de vida. Neles se integram as praxias, o</p><p>trabalho, a linguagem falada e escrita, a autoconsciência, o</p><p>autojulgamento, o pensamento abstrato, os valores, a ética etc.</p><p>Esta perspectiva filogenética de Milner conjuga-se perfeitamente</p><p>com a perspectiva dos três cérebros de McLean (1970) (reptiliano,</p><p>paleomamífero e neomamífero), bem como com as perspectivas de</p><p>desenvolvimento psicológico de Wallon (1973) (dados interoceptivos,</p><p>proprioceptivos e exteroceptivos). É de notar, todavia, que estes</p><p>comportamentos surgem antes, no e depois do nascimento, isto é</p><p>subentendem um desenvolvimento intrauterino e outro extrauterino,</p><p>ou seja, logo que determinado número de cuidados socioafetivos e</p><p>condições envolvimentais sejam fornecidos.</p><p>De acordo com esta perspectiva, de grande relevância para o nosso</p><p>estudo, as aprendizagens e as funções psíquicas superiores são</p><p>modificações secundárias dos mecanismo inatos. Tinbergen (1951),</p><p>dentro da mesma visão, afirmou: “Os estudos dos processos humanos</p><p>superiores terão que ser inexoravelmente precedidos pelo estudo dos</p><p>alicerces inatos do comportamento”.</p><p>O aspecto de aprendermos comportamentos que não repartimos</p><p>com mais nenhuma espécie é o ponto de partida para</p><p>compreendermos o desenvolvimento da criança, mas, para o</p><p>atingirmos, necessitamos perspectivar os padrões de desenvolvimento e</p><p>a organização funcional do cérebro.</p><p>O desenvolvimento neurológico coloca em questão o problema da</p><p>ontogênese e da filogênese. A ontogênese recapitula, revela ou</p><p>converte a filogênese? Até que ponto a filogênese neurológica servirá</p><p>de algo? Haverá uma lei de antecipação do desenvolvimento</p><p>neurológico? O que é que traduz a significativa diferença entre o</p><p>sistema nervoso do recémnascido e do adulto? O que é que se passa</p><p>entre a imaturidade e a maturidade neurológica? O que se passa entre</p><p>os dois eventos evolutivos esclarece-nos sobre o problema?</p><p>Para se responder a estas questões, é óbvio que o estudo da</p><p>herança psiconeurológica da nossa espécie é fundamental. Os estudos</p><p>tradicionais do desenvolvimento psicológico da criança não têm</p><p>equacionado devidamente a importância da filogênse neurológica, uma</p><p>vez que descrevem e interpretam funções psicológicas das crianças sem</p><p>muitas vezes arriscarem alicerces e substratos neurológicos.</p><p>Para se compreender o desenvolvimento psiconeurológico da</p><p>criança, parece-nos essencial o estudo da herança estrutural e funcional</p><p>dos estágios envolutivos prévios, na medida em que a herança</p><p>psiconeurológica humana é expressa em forma, funcionamento e</p><p>desenvolvimento.</p><p>Para se compreender o processo envolutivo das estruturas primitivas</p><p>do sistema nervoso humano, que consubstancia a herança</p><p>psiconeurológica, temos efetivamente de recorrer a vários axiomas</p><p>filogenéticos.</p><p>Apenas dentro de uma perspectiva esquemática e introdutória,</p><p>iremos apresentar alguns axiomas filogenéticos que julgamos</p><p>fundamentais para a compreensão do desenvolvimento</p><p>psiconeurológico e psicomotor da criança. Deles, certamente, emergem</p><p>inúmeros dados que ajudarão a compreender o objetivo do presente</p><p>trabalho e os resultados obtidos no respectivo ensaio experimental:</p><p>— medula espinal: o ser humano reparte com os pré-vertebrados a</p><p>estrutura básica da medula espinal;</p><p>— condução do impulso nervoso: todas as formas características de</p><p>condução no neurônio e concomitantes propriedades do impulso</p><p>nervoso estão presentes desde os pré-vertebrados ao ser humano</p><p>(BISHOP, 1956);</p><p>— processos de condução: subsiste uma retenção filogenética das</p><p>redes corticais e das estruturas dos neurônios especializados, que</p><p>obviamente determinam várias funções (hipótese de Herrick, 1956).</p><p>Tais estruturas caracterizam processos de condução lenta, que</p><p>explicam um funcionamento elétrico difuso, graduado e por</p><p>campos de força, bem como processos de condução rápida, que</p><p>explicam vias de especialização parcialmente padronizadas e</p><p>preferencialmente localizadas e que equivalem a funções analíticas</p><p>(sensoriais, correlacionais e motoras). Complementaridade dos dois</p><p>sistemas: sintético-integrativo e analítico-seletivo, que são</p><p>componentes dos sistemas de ação dos animais desde o mais</p><p>elementar ao mais complexo;</p><p>— dualidade visceral-somática: a dualidade visceral-somática da</p><p>estrutura neuronal subsiste em todos os cordatos (ROMER, 1958);</p><p>— tendências filogenéticas: as tendências filogenéticas</p><p>subentendem diferenciação estrutural crescente das partes,</p><p>especialização de funções, independência das partes do todo e</p><p>níveis de organização crescente;</p><p>— encefalização estrutural e funcional: cada nova estrutura decorre</p><p>de uma transferência de funções das estruturas anteriores</p><p>(protoestruturas e paleoestruturas). Daqui decorre o princípio da</p><p>encefalização, que se subdivide em dois outros princípios: Princípio</p><p>da duplicação sucessiva de centros inferiores e Princípio da</p><p>dominância hierarquizada;</p><p>— reduplicação: cada nova estrutura cefálica é adicionada às</p><p>estruturas filogeneticamente mais antigas, originando uma</p><p>organização segmentar tipológica. São centros primários</p><p>reduplicados em secundários. Desde a medula, os centros motores</p><p>são reduplicados no tronco cerebral, no cerebelo, nos gânglios da</p><p>base etc. Princípio de associação das áreas associativas, que em si</p><p>reflete a diferenciação filogenética;</p><p>— dominância funcional: à medida que as novas estruturas são</p><p>adicionadas à extremidade cefálica, elas assumem progressivamente</p><p>uma dominância hierarquizada e funcional: paleo sobre proto; arqui</p><p>sobre paleo; neo sobre arqui;</p><p>— avanço do córtex associativo: as novas áreas tendem a ser mais</p><p>vulneráveis às influências externas. O telencéfalo atinge o maior</p><p>avanço, enquanto o mesencéfalo apresenta o inverso.</p><p>Salto quântico do neocórtex (EISELEY, 1955): seção pré-frontal; área</p><p>associativa; camada supragranular (estratificação e complexidade</p><p>celular):</p><p>— reversibilidade na proporção dos sistemas cerebrais intrínsecos e</p><p>extrínsecos;</p><p>— mudanças funcionais acompanharam a encefalização:</p><p>Quadro 1.1. – Avanços do córtex associativo</p><p>Animal Córtex sensorial</p><p>Percentagem</p><p>Córtex associativo</p><p>Percentagem</p><p>Roedor 90% 10%</p><p>Carnívoro 70% 30%</p><p>Primata 40% 60%</p><p>Homo sapiens 15% 85%</p><p>• sistemas viscerais e olfativo antecedem os outros sistemas. A pele</p><p>e a proprioceptividade seguem-se e, depois, os receptores a</p><p>distância e o sentido quinestésico. Os sistemas tátil-quinestésicos,</p><p>auditivos e visuais assumem cada vez mais importância nos</p><p>mamíferos (sistemogênese – ANNOKINE, 1972);</p><p>• precisão do movimento, em paralelo com uma exata recepção e</p><p>localização sensorial. Cada animal tem a motricidade que a sua</p><p>organização cerebral e sensorial lhe faculta. No ser humano, a</p><p>motricidade decorre da adaptação arborial dos hominídeos</p><p>ancestrais de onde emergem as seguintes características</p><p>antropomórficas: desenvolvimento dos membros como órgãos de</p><p>preensão; desenvolvimento dos membros anteriores como órgãos</p><p>de exploração e de manipulação; desenvolvimento dos sistemas</p><p>herbívoro e carnívoro de digestão e consequente estrutura</p><p>craniodental; redução do sentido olfativo; desenvolvimento da</p><p>atividade visual; mudanças no esqueleto póscraniano;</p><p>desenvolvimento do cérebro por aprendizagem, linguagem e</p><p>fabricação de instrumentos (FONSECA, 1982);</p><p>• emancipação dos estímulos químicos (hormonais) e dos estímulos</p><p>do envolvimento que dominam o comportamento. Mais interação</p><p>como meio, maior ativação bioquímica e maior desenvolvimento</p><p>dos sentidos de orientação espaço-temporal;</p><p>• os fatores inatos diminuíram relativamente à experiência</p><p>individual e à aprendizagem. Da evolução biológica à evolução</p><p>cultural;</p><p>— período de dependência: a imaturidade e a dependência dos</p><p>mais velhos aumentam significativamente na escala filogenética e</p><p>dão um grande salto dos primatas inferiores ao homem.</p><p>Importância do componente social (VYGOTSKY, 1968);</p><p>— aumento da capacidade adaptativa: a capacidade de adaptação</p><p>a uma variada quantidade de situações externas aumenta na escala</p><p>filogenética, sendo acompanhada de um repertório mais</p><p>diferenciado de respostas adaptativas. Variedade, complexidade,</p><p>flexibilidade</p><p>e modificação. Nível de controle individual (NISSEN,</p><p>1951);</p><p>— atraso da resposta: a elaboração da resposta é cada vez mais</p><p>complexa na escala filogenética, daí a evolução das condutas</p><p>“metassensoriais” e “metamotoras”. O produto final leva mais</p><p>tempo a ser processado, implicando uma duração e um tratamento</p><p>do estímulo externo, daí o acesso ao pensamento simbólico e à</p><p>generalização, à discriminação sensorial, à transformação do</p><p>envolvimento, à expansão espacial e temporal da ação, à</p><p>capacidade comparativa, à complexidade perceptiva etc.;</p><p>— complexidade: a complexidade do que pode ser aprendido, o</p><p>potencial de treino e de modificação e a capacidade para formar</p><p>hábitos complexos, todos evoluem na escala filogenética;</p><p>— necessidades: o número de necessidades, a sua variedade e</p><p>diferenciação, aumenta na escala filogenética. Necessidades</p><p>psicogenéticas: curiosidade, exploração, jogo, antecipação,</p><p>previsão, orientação para fins remotos. Necessidades éticas,</p><p>altruístas e estéticas aumentam na escala, sendo as duas últimas</p><p>exclusivas do homem;</p><p>— a incidência de conflitos, as frustrações e a culpabilidade</p><p>aumentam extraordinariamente no homem, bem como a</p><p>vulnerabilidade dos comportamentos superiores;</p><p>Exclusivos do ser humano</p><p>— a herança hereditária do ser humano inclui estruturas</p><p>neurológicas únicas, aparentemente superimpostas sobre as</p><p>estruturas básicas dos mamíferos;</p><p>— no ser humano, é só depois do nascimento que tais centros</p><p>neuronais, que medeiam os comportamentos humanos exclusivos,</p><p>começam a funcionar. A herança genética está presente apenas</p><p>como potencial no momento do nascimento. Desenvolvimento em</p><p>um envolvimento estável e fisiologicamente regulável e,</p><p>posteriormente, em um meio social complexo, progressivamente</p><p>mais variável. Oportunidades de experiência mediada;</p><p>— autoconscientização: capacidade para ser um objeto dentro do</p><p>campo perceptivo do próprio indivíduo. Autorreferência</p><p>(somatognosia);</p><p>— produção de um mundo sociocultural. Noção de “envolvimento</p><p>invisível” (“segundo envolvimento”). Envolvimento complexo da</p><p>aprendizagem. Comunicação interpessoal. Necessidade gregária.</p><p>Relação entre mãe e filho. Conforto tátil. Emoção. Imitação.</p><p>Linguagem falada. Escrita. Civilização.</p><p>A grande inovação da herança psiconeurológica humana está talvez</p><p>neste último axioma, pois muito do comportamento humano é</p><p>influenciado por este novo envolvimento criado pela civilização e pela</p><p>história social. Entre o homem e o animal, há certamente homologias,</p><p>essencialmente as de caráter biológico; porém, no campo social e</p><p>cultural, as diferenças são incomparáveis. Devido ao novo envolvimento</p><p>criado pela ação consciente do ser humano, a criança ascende à sua</p><p>autoconscientização (somatognosia), e daí à simbolização,</p><p>mergulhando em um envolvimento emocional, moral e semiótico cada</p><p>vez mais complexo. A mediação na aprendizagem passa a ser uma</p><p>condição de sobrevivência a que nenhuma nova geração pode escapar.</p><p>O envolvimento complexo de aprendizagens, a riqueza da</p><p>comunicação interpessoal, as necessidades gregárias, o imprinting</p><p>social, a vinculação interativa entre mãe e filho (por redução do</p><p>número de descendentes por nascimento), o conforto tátil, a</p><p>estabilidade emocional, o diálogo tônico e a segurança gravitacional,</p><p>que estão na base de um processo único de comunicação, emprestam</p><p>ao ser humano uma grande diferença em termos de herança</p><p>psiconeurológica, quer filogenética, quer ontogeneticamente.</p><p>O estudo do comportamento humano e, por conseguinte, do</p><p>desenvolvimento psiconeurológico exige cada vez mais a integração de</p><p>dados evolutivos filogenéticos, pois, dessa forma, a evolução</p><p>ontogenética resulta mais integrada e coerente.</p><p>Quadro 1.2. – Filogênese estrutural do neocórtex</p><p>mamífero</p><p>Índices Filogenélicos Tendências Gerais Mamíferos Inferiores Mamíferos Primatas HOMEM</p><p>Tamanho dos</p><p>quatro lóbulos (T-O-</p><p>P-F)</p><p>Quanto mais</p><p>elevado for o</p><p>animal, maior serão</p><p>os neocórtex</p><p>frontal e pré-</p><p>frontal. Áreas</p><p>associativas acusam</p><p>maior</p><p>tamanho</p><p>Rato: proporção da</p><p>área préfrontal</p><p>34%</p><p>Cão: proporção da</p><p>área préfrontal 7%</p><p>Macaco: 11%</p><p>Chipanzé: 17%</p><p>HOMEM: 29%</p><p>(3/4 lob. frontais)</p><p>Número de áreas</p><p>celulares distintas</p><p>Aumento</p><p>progressivo até a</p><p>escala dos</p><p>mamíferos</p><p>Rato albino: 13</p><p>áreas neocorticais</p><p>Gato:</p><p>36 áreas</p><p>neocorticais</p><p>HOMEM:</p><p>52 áreas</p><p>neocorticais</p><p>Localização e Idem Rato: maior grau Macaco: reduz grau</p><p>especialização das</p><p>funções sensoriais e</p><p>motoras</p><p>de sobreposição</p><p>nas duas áreas</p><p>somatossensoriais</p><p>(menor</p><p>diferenciação</p><p>cortical)</p><p>de sobreposição.</p><p>HOMEM: a</p><p>destruição das</p><p>áreas corticais não</p><p>permite</p><p>sobreposição (maior</p><p>diferenciação</p><p>cortical)</p><p>Proporção de</p><p>córtex associativo</p><p>Idem</p><p>Roedores: 90%</p><p>sensório-motor,</p><p>10% associativo.</p><p>Gatos: 70%</p><p>sensóriomotor</p><p>30% associativo</p><p>Macacos: 40%</p><p>sensório-motor.</p><p>60% associativo.</p><p>HOMEM: 15%</p><p>sensório-motor</p><p>85% associativo.</p><p>Número de</p><p>camadas</p><p>neocorticais</p><p>(densidade)</p><p>Densidade</p><p>aumenta e também</p><p>as camadas.</p><p>Campos. Celular</p><p>fica complexa na</p><p>escala</p><p>Camada</p><p>supragranular,</p><p>sobrepõe-se ao</p><p>arquicórtex. O</p><p>mesocórtex e</p><p>paleocórtex</p><p>também</p><p>Maior densidade</p><p>supragranular.</p><p>Camada</p><p>subgranular</p><p>mantém-se</p><p>No HOMEM, as três</p><p>camadas superiores</p><p>das seis do</p><p>neocórtex</p><p>diferenciam-se.</p><p>Aumento da</p><p>densidade da</p><p>camada quatro</p><p>Padrão de</p><p>fissuração</p><p>Quanto mais</p><p>elevado na escala,</p><p>maior é o número</p><p>de</p><p>fissuras corticais</p><p>Todo os mamíferos</p><p>possuem pelo</p><p>menos três fissuras</p><p>Girus fusiformes</p><p>emergem no lóbulo</p><p>occipital. Aumento</p><p>dos sulcos 2º e</p><p>3º, devido ao</p><p>aumento das áreas</p><p>associativas</p><p>Número de áreas</p><p>não mielinizadas no</p><p>nascimento</p><p>Aumento à medida</p><p>que se ascende na</p><p>escala</p><p>No HOMEM,</p><p>nenhuma área</p><p>cortical se encontra</p><p>mielinizada no</p><p>nascimento</p><p>1.4. Alguns aspectos ontogenéticos</p><p>Segundo Schneirla (1957), as tendências filogenéticas do</p><p>desenvolvimento confirmamse, não são uma utopia.</p><p>O desenvolvimento do comportamento em qualquer nível filogenético</p><p>não é apenas um retraçar dos estádios e dos níveis das formas ancestrais</p><p>sucessivas, mas sim uma nova totalidade, que tende a um novo padrão</p><p>distinto.</p><p>Como afirma Prechtl (1981), o desenvolvimento ontogênico não é</p><p>apenas a recapitulação da filogênese (HAECKEL, 1866), é muito mais</p><p>do que uma recapitulação, trata-se de uma nova combinação e de uma</p><p>nova tonalidade. Os resíduos filogenéticos, para usar um termo do</p><p>mesmo autor, são estruturas de transição (transient structures) que</p><p>estão presentes durante períodos particulares da ontogênese, para</p><p>equipar o sistema nervoso com certas propriedades que lhe permitem</p><p>satisfazer determinadas exigências do desenvolvimento.</p><p>De alguma forma, os axiomas filogenéticos traduzem-se na</p><p>ontogênese neurológica pré-natal, como asseguram Arey (1954),</p><p>Carmichael (1951) e Zubek e Solberg (1954). Todos eles assumindo que</p><p>os centros do neuroeixo têm uma perspectiva horizontal (de cada</p><p>centro) e vertical (dos vários centros) do seu desenvolvimento.</p><p>Segundo aqueles autores, a ontogênese do neuroeixo segue</p><p>aproximadamente a seguinte evolução:</p><p>— em cinco semanas, formam-se os gânglios espinais, surge a</p><p>flexura da protuberância (ponte) e emergem os nervos espinais;</p><p>— em seis semanas, aparecem os elementos que constituem o arco</p><p>reflexo, ao mesmo tempo que o hipotálamo se evidencia no</p><p>diencéfalo, e os dois hemisférios começam a diferenciar-se;</p><p>— em sete semanas, os reflexos espinais estão aptos a funcionar, e,</p><p>alguns dias depois, surgem o tálamo, o hipocampo e os gânglios da</p><p>base;</p><p>— em 10 semanas, a medula espinal termina a sua estrutura</p><p>interna com a manifestação dos primeiros movimentos fetais,</p><p>quando simultanearnente surge a diferenciação do neocórtex;</p><p>— em 14 semanas, aparecem as vias sensoriais intersegmentares do</p><p>cerebelo;</p><p>— em quatro meses, a função motora surge ao mesmo tempo que</p><p>o arquicerebelo e os tubérculos quadrigêmeos; neste momento, os</p><p>receptores protoquinéticos (básicos de todos os pré-vertebrados e</p><p>vertebrados inferiores) estão em funcionamento, daí emergindo a</p><p>motricidade fetal. Surgem também o mesencéfalo e as primeiras</p><p>camadas neocorticais, com demarcação da fissura central,</p><p>diferenciando os territórios frontais dos</p><p>parietais;</p><p>— em cinco meses, a mielinização das vias espinais dorsais começa</p><p>a desenrolar-se simultaneamente com a via piramidal a partir do</p><p>córtex, seguindo a lei cefalocaudal;</p><p>— em seis meses, os nervos cranianos começam a sua mielinização,</p><p>ao mesmo tempo que se opera o complemento das comissuras</p><p>hemisféricas;</p><p>— em sete meses, a mielinização espinocerebelosa e</p><p>mesencefalicotalâmica e a configuração do cerebelo, assim como o</p><p>aparecimento das fissuras e das convoluções neocorticais, começam</p><p>a estabelecer-se. Neste momento, o choro é possível, e imensos</p><p>padrões reflexos podem ser evocados, como se verifica nos próprios</p><p>prematuros.</p><p>Esta embriogênese, paralela com os axiomas filogenéticos e</p><p>superiormente governada pelo plano mestre do DNA, retrata, de</p><p>alguma forma, os padrões do desenvolvimento ontongenético</p><p>intrauterino, que em si demonstram a continuação das tendências</p><p>filogenéticas já abordadas, que consubstanciam os princípios</p><p>organizacionais filogenéticos. (MILNER, 1976)</p><p>Figura 1. 1. Ontogênese embrionária e fetal do sistema</p><p>nervoso</p><p>Quadro 1.3. – Neurogênese embriológica – sequência</p><p>do desenvolvimento do sistema nervoso central</p><p>(MILNER, 1983)</p><p>Dentro dos padrões de desenvolvimento ontogenético pré-natal,</p><p>devemos destacar, em termos esquemáticos, os seguintes:</p><p>— a emergência embriológica é paralela à emergência filogenética.</p><p>Os centros inferiores diferenciam-se antes dos superiores; aqui a</p><p>ontogênese recapitula a filogênese neurológica;</p><p>— a maturação do neuroeixo é vertical, de baixo para cima, da</p><p>cauda para a cabeça;</p><p>— o crescimento estrutural prefigura o padrão do funcionamento</p><p>espontâneo do sistema nervoso, quer em termos pré-natais, quer</p><p>pós-natais;</p><p>— a medula desenvolve-se funcionalmente em uma direção</p><p>cefalocaudal, padrão esse também seguido pelo desenvolvimento</p><p>da motricidade e evidentemente dependente da mielinização;</p><p>paralelamente, os motoceurônios medulares tornam-se funcionais</p><p>antes dos neurônios sensoriais (padrão de crescimento em</p><p>dualidade, denominado pela controvérsia Coghil-Windle);</p><p>— a organização do sistema nervoso é hierárquica com uma</p><p>sequência de aparecimento irreversível, traduzindo o</p><p>desenvolvimento antecipado dos níveis inferiores em relação aos</p><p>superiores;</p><p>— a hierarquia funcional e a maturação do sistema nervoso,</p><p>confirmando o princípio de H. Jackson da “redução contínua da</p><p>sucessão de estruturas nervosas a estruturas coexistentes” –</p><p>continuous reduction of sucessions to coexistences;</p><p>— o funcionamento coerente do sistema nervoso central é o</p><p>produto final da incorporação progressiva de padrões funcionais</p><p>organizados, que se desenvolvem em uma sequência ontogênica</p><p>hierárquica e vertical; a evolução ontogênica pressupõe a transição</p><p>dos centros protocorticais e arquicorticais para os centros</p><p>paleocorticais e neocorticais; os círculos coordenados entre o</p><p>prosencéfalo e o robencéfalo não estão ainda estabelecidos,</p><p>especialmente os que compreendem as seguintes função:</p><p>integração, reforço, inibição, controle, estabilização etc.; a</p><p>intervenção dos centros superiores intratelecefálicos, talâmicos,</p><p>hipotalâmicos, arquicorticais dos gânglios da base e do neocórtex</p><p>estão inconclusos à nascença, é necessário que subsequentemente</p><p>surja o padrão ontogenético seguinte;</p><p>— no nascimento, a herança mamífera do desenvolvimento</p><p>humano, com as suas estruturas neurológicas únicas, está presente</p><p>apenas como potencial, sendo que aqui entra em jogo o fator</p><p>extrafilogenético, um novo princípio exclusivo da espécie humana e</p><p>que influencia certamente os seguintes padrões neurogenéticos,</p><p>isto é, a dimensão biossocial que caracteriza o desenvolvimento</p><p>psiconeurológico da criança.</p><p>A evolução do cérebro, consequentemente, integra uma</p><p>organização funcional de padrões filogenéticos e ontogenéticos</p><p>(FONSECA, 1982 e 1985) que parte do mais organizado (medula) para</p><p>o menos organizado (córtex) dos centros inferiores para os centros</p><p>superiores, do mais simples ao mais complexo, do mais automático</p><p>para o mais voluntário.</p><p>Para se atingir a maturidade, ou seja, os centros menos</p><p>organizados, mas mais complexos e voluntários, é necessário que</p><p>surjam novos padrões ontogenéticos, dependentes, obviamente, dos</p><p>padrões filogenéticos herdados.</p><p>O sistema nervoso está efetivamente organizado em um complexo</p><p>modelo de reduplicação dos centros inferiores, com os centros</p><p>superiores funcionalmente dominantes sobre aqueles, como confirmam</p><p>Weiss, Tinbergen, Fulton e Himwich, focados em Milner (1979).</p><p>As unidades filogenéticas e ontogenéticas mais antigas são também</p><p>as que ocupam os níveis mais baixos da hierarquia funcional. Em cada</p><p>nível, estão reduplicadas e representadas sucessivamente, obedecendo</p><p>a uma verticalização estrutural. Tal arranjo anatômico, do inferior ao</p><p>superior, permite uma perfeita coordenação funcional, que está na</p><p>base do aparecimento de novos sistemas funcionais. Esse padrão</p><p>traduz a hierarquia da experiência humana (FONSECA, 1984) e a</p><p>evolução das competências da criança, desde as mais simples às mais</p><p>complexas. A complexidade do desenvolvimento psiconeurológico da</p><p>criança, provavelmente, só pode ser equacionada nesta perspectiva</p><p>hierarquizada da ontogênese da aprendizagem, que, em certa medida,</p><p>parece traduzir uma espiral evolutiva.</p><p>H. Jackson, em 1822, afirmou:</p><p>Quanto mais alto é o centro, mais numerosos, diferenciados, complexos e</p><p>especiais movimentos ele representa, e quanto maior a região que ele</p><p>representa, mais justifica a evolução. Os centros superiores representam</p><p>os movimentos mais inumeráveis, complexos e especiais de todo o</p><p>organismo, ao mesmo tempo que cada unidade deles representa o</p><p>organismo total de uma forma diferente.</p><p>Dessa forma, os arranjos dos centros superiores inibem, controlam e</p><p>organizam os centros inferiores, e, como consequência, quando o</p><p>superior está disfuncional, eleva a sua atividade, como se verifica em</p><p>muitas situações patológicas.</p><p>Os centros inferiores, todavia, fazem parte da coordenação</p><p>composta que traduz qualquer movimento voluntário, como iremos</p><p>ver, quando abordarmos a organização funcional do cérebro e os</p><p>fatores psicomotores.</p><p>As suas funções estão posteriormente representadas em outros</p><p>centros motores médios, onde se representam consequentemente as</p><p>coordenações simples. Os centros médios, por sua vez, re-representam</p><p>os centros inferiores, onde já se estabelecem coordenações compostas.</p><p>A soma destas representações é já uma dupla e indireta representação</p><p>da totalidade do organismo. Por último, os centros superiores são re-re-</p><p>representações, pois representam triplamente os outros centros,</p><p>realizando por esse processo de transferência funcional as</p><p>coordenações complexas.</p><p>Em cada centro, surge, portanto, um aumento de complexidade de</p><p>representação das partes componentes, daí o aumento da</p><p>especialidade da representação, como focou Jackson (1822).</p><p>O desenvolvimento psiconeurológico e psicomotor à luz de Jackson</p><p>esclarece-nos, em certa medida, as perspectivas de Wallon, Piaget e</p><p>Luria. A evolução e a dissolução parecem aqui em contraste dialético,</p><p>pois, por meio deste padrão filogenético-ontogenético, percebemos a</p><p>evolução da criança do reflexo à reflexão, do ato ao pensamento e do</p><p>gesto à palavra, como por meio dele percebemos o reflexo das</p><p>dificuldades ou das incapacidades de aprendizagem.</p><p>A ontogênese psiconeurológica e psicomotora parece traduzir várias</p><p>metamorfoses, que vão desde as representações às re-representações,</p><p>até culminarem nas re-re-representações. Dos movimentos reflexos</p><p>(representações) aos hábitos motores (re-representações) e desses às</p><p>aquisições motoras voluntárias, isto é, praxias (re-re-representações).</p><p>Da mesma forma, a evolução da linguagem, segundo Slobin (1971)</p><p>e Myklebust (1974, 1975 e 1977), parte da linguagem gestual</p><p>(representações) à linguagem falada (rerepresentações) e atinge a</p><p>linguagem escrita (re-re-representações).</p><p>Patten (1953), na mesma linha ontogenética de Tinbergen (1951),</p><p>postula o sistema somático-motor humano no sistema hierárquico dos</p><p>mecanismos inatos de libertação (innate releasing</p>

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