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Brasília-DF. A NeuropsicologiA Elaboração Amanda Marinho Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 5 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7 UNIDADE I CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS .................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 HISTÓRICO............................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 2 NEUROBIOLOGIA APLICADA À NEUROPSICOLOGIA ................................................................. 21 CAPÍTULO 3 GENÉTICA E NEUROCIÊNCIA .................................................................................................. 33 UNIDADE II NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES .............................................................................................. 36 CAPÍTULO 1 NEUROPSICOLOGIA: FORMAÇÃO E ATUAÇÃO PROFISSIONAL................................................. 36 CAPÍTULO 2 A ORGANIZAÇÃO CEREBRAL .................................................................................................. 41 CAPÍTULO 3 AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA ......................................................................................... 50 UNIDADE III DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO .......................................................................................... 58 CAPÍTULO 1 DA GESTAÇÃO À IDADE ADULTA ............................................................................................. 59 CAPÍTULO 2 NEUROPATOLOGIAS E SÍNDROMES NEUROLÓGICAS ............................................................... 64 CAPÍTULO 3 ALTERAÇÕES E ESTIMULAÇÃO................................................................................................. 71 UNIDADE IV NEUROPSICOLOGIA E A REABILITAÇÃO ................................................................................................ 75 CAPÍTULO 1 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA ...................................................................................... 75 CAPÍTULO 2 NOVAS TECNOLOGIAS EM REABILITAÇÃO ............................................................................... 79 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 82 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 Introdução A neuropsicologia é uma área de conhecimento que se encontra em constante e ativo crescimento em termos de pesquisa e aplicações. Nos capítulos que se seguem, trataremos de temas relacionados à neuropsicologia em diversos contextos. Na UNIDADE I, falaremos do histórico e desenvolvimento das iências eurológicas, bem como aprofundaremos as relações entre neurobiologia aplicada à neuropsicologia. Será demonstrada, no capítulo 3, a relação entre enética e neurociência, abordando algumas síndromes com fatores genéticos associados. Na UNIDADE II, o tema neuropsicologia e suas interfaces será abordado, adentrando na formação e atuação do profissional de neuropsicologia. Será demonstrada a organização cerebral e iniciaremos a falar de avaliação neuropsicológica. Na UNIDADE III, trataremos do assunto desenvolvimento neuropsicológico, focando desde o nascimento ao envelhecimento, passando pela fase adulta. Serão abordados ainda os temas neuropatologias e síndromes neurológicas onde serão exemplificadas algumas dessas síndromes. Falaremos também dos processos de estimulação. Finalizando, na UNIDADE IV, o tema é neuropsicologia e reabilitação, que abordará a reabilitação neuropsicológica e as novas tecnologias à disposição para o uso em tratamentos. Temos como finalidade o atingimento dos seguintes objetivos no estudo dessas unidades. Objetivos » Identificar as relações existentes entre as diversas áreas das neurociências. » Auxiliar a aplicação dos conhecimentos de neuropsicologia na experiência profissional. » Criar reflexão acerca dos conhecimentos adquiridos e como alavancar tais conhecimentos ligados à neuropsicologia. 9 UNIDADE ICIÊNCIAS NEUROLÓGICAS As ciências neurológicas compreendem as áreas de conhecimento que estudam as várias funções do cérebro, motoras, sensoriais, comportamentais, além de mecanismos de memória, aprendizagem e muitos outros. Um dos seus principais objetivos é compreender o funcionamento normal e patológico de áreas do cérebro fazendo interface com outras áreas de conhecimento como a psicologia, fisioterapia, psiquiatria, pedagogia e demais (VENTURA, 2010). Nesta perspectiva, abordaremos sua origem enquanto ciência, atualizando-nos quanto ao percurso de seu desenvolvimento e seu objeto de estudo. CAPÍTULO 1 Histórico O estudo do cérebro foi praticamente o último aser iniciado em termos de partes do corpo humano, tudo devido às complexidades anatômicas, ao fato de que as pessoas não entendiam para que servia o cérebro, além de que seu funcionamento não poderia ser observado a olho nu. A exploração mais acurada do cérebro se deu a partir de alguns anos com o advento de novas tecnologias de mapeamento e imagem (LURIA, 1981). Franz Joseph Gall Diante de tantas teorias e técnicas para tentar mensurar e entender o funcionamento do cérebro, é interessante fazer uma linha do tempo para termos uma pequena noção de como o conhecimento acerca do cérebro veio se transformando ao longo dos anos. Podemos iniciar com um dos grandes marcos da neurociência, os estudos do médico frenologista Franz Joseph Gall (1758-1828), que entendia que a personalidade do homem poderia ser compreendida medindo-se seu crânio. As partes consideradas mais fortes da personalidade seriam as mais protuberantes. 10 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Frenologia é o estudo das faculdades mentais, as quais se localizam em uma parte do córtex cerebral – parte mais externa do cérebro, e o tamanho de cada parte é diretamente proporcional ao desenvolvimento da faculdade correspondente (LURIA, 1981). Gall desenvolveu seu trabalho brilhantemente, durante muito tempo foi o conhecimento mais científico que se tinha sobre o funcionamento do cérebro, sendo depois classificada como uma teoria do localizacionismo cerebral. A teoria consistia na ideia de que eram inatas algumas faculdades mentais, como moral e intelecto, e dependeria de como o cérebro estava organizado para que o homem pudesse manifestá-las. A teoria também propunha que o cérebro era composto de subtipos de órgãos, responsáveis por diferentes funções. Conforme a pessoa se desenvolvesse, isso promoveria crescimento desses subtipos de órgãos. E para finalizar, Gall entendia que a parte externa do crânio refletia a forma interna e, de acordo com o desenvolvimento de cada um internamente, a parte externa também se modificaria, podendo identificar, dessa forma, problemas associados a cada parte que se mostrasse diferente (SABBATINI, 1997). Gall pensava que conseguiria relacionar algumas faculdades mentais com elevações e depressões na superfície do crânio, suas formas exteriores e dimensões relativas. Juntamente com seus seguidores, ele identificou 37 faculdades mentais e morais que entendia estarem localizadas na superfície do crânio. As faculdades mentais eram classificadas em várias esferas: amor, intelecto, percepção, energia mental etc. A maioria delas estava relacionada às personalidades abstratas, tais como espiritualidade, cautela, amabilidade, dentre outras. O principal resultado da teoria de Gall foi o tipo de gráfico frenológico que mapeava as áreas nas quais as protusões e depressões relacionadas às 37 faculdades poderiam ser identificadas, medidas e diagnosticadas (SABBATINI, 1997). Marie-Jean-Pierre Flourens Por sua vez, outros cientistas da época, em especial, o experimentalista francês Marie-Jean-Pierre Flourens (1794-1867), , tentaram provar que as ideias de Gall estavam erradas. Utilizando-se de experimentos com animais, Flourens tentou demonstrar que várias áreas do córtex também eram importantes, como a marcha e o voo em alguns animais, e não eram dependiam de uma região específica. Para esse cientista, o cérebro funcionava como um todo, não sendo possível prever nenhum efeito específico pela 11 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I região afetada. Sua teoria ficou conhecida como equipontencialidade, ou seja, todas as áreas do cérebro contribuiriam igualmente nas capacidades cerebrais. Dando continuidade, temos o caso Phineas Gage (1848), um trabalhador das ferrovias norte-americanas, considerado por todos uma pessoa tranquila e educada. Após um acidente em que uma barra de ferro atravessou seu crânio, passou a agir agressivamente e de forma desrespeitosa. As mudanças de personalidade e humor indicaram descobertas importantes sobre a localização e função de áreas do cérebro, a lesão na região ventromedial dos lobos frontais trouxe a Gage déficits no processo de decisão racional e controle das emoções (GIL, 2007). Figura 1. Crânio de Phineas Gage. Fonte: <https://diogenesii.wordpress.com/category/human-anatomy/>. Paul Broca e Carl Wernicke Outras descobertas importantes foram feitas pelo médico francês Paul Broca, em 1861, e pelo médico neurologista alemão Carl Wernicke, em 1876. Broca teve um paciente que só conseguia pronunciar a palavra “tan”, sendo chamado desta forma. Apenas após sua morte, foi possível identificar qual seria a possível causa desse problema. Broca descobriu que o paciente tinha uma lesão na região inferior do córtex frontal esquerdo. Pela importante descoberta, essa região passou a ser chamada como Área de Broca (GIL, 2007). 12 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Figura 2. Área de Broca. Fonte: <https://amenteemaravilhosa.com.br/area-de-broca-producao-da-linguagem/>. A linguagem está estritamente ligada à maturação cerebral e ao ambiente social e familiar. É preciso acrescentar que é necessária uma audição satisfatória, pois a criança constrói seus desempenhos fonológicos e fonéticos a partir de percepções audioverbais, provenientes das pessoas a sua volta (GIL, 2007). A organização da linguagem se distribui em torno de dois polos: » Polo receptivo, porta de entrada que comporta não só a audição e a compreensão da linguagem falada, como também a visão e a compreensão da linguagem escrita. » Polo expressivo, porta de saída que comporta não só a fonação ou articulação verbal, como também a escrita. Muitos estudos de neuroimagem funcional com pacientes neurologicamente saudáveis e com pacientes com danos neurológicos têm destacado a importância do hemisfério cerebral esquerdo para o processamento da linguagem, tanto oral como escrita. Neste sentido, verifica-se que os estudos de Paul Broca e Carl Wernicke, no século XIX, analisando pacientes que desenvolveram afasia de expressão e compreensão, relacionaram esses déficits aos casos pós-lesão nas regiões frontal e temporal, respectivamente (FUENTES, 2007). No entanto, hoje em dia, observa-se que nem sempre as dificuldades dos quadros afásicos estão relacionadas a locais de lesão específicos, conforme descreviam essas pesquisas. Assim, estudos baseados no modelo neurológico das afasias têm dado lugar aos que relacionam os déficits com prejuízo em um ou mais componentes da linguagem, uma vez que o localizacionismo não explica por que pacientes com um mesmo local de lesão manifestam características linguísticas diferentes. 13 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I Figura 3. Área de Wernicke. Fonte: <https://amenteemaravilhosa.com.br/area-de-wernicke-compreensao-linguagem/>. É importante perceber que Wernicke, em 1870, ao descrever o correlato posterior da afasia motora retratada por Broca – a afasia sensorial –, partiu de pressupostos conceituais bastante distintos dos de Broca. Wernicke assume aquelas mesmas noções em que as camadas corticais se distinguem por meio de dois grupos de fibras: as de projeção (conexão em pequenos centros) e as de associação (conexão de diferentes regiões do mesmo hemisfério). Partindo dessa concepção de funcionamento cerebral, Wernicke nega a exigência de uma área circunscrita tanto para as faculdades mentais como para a linguagem (FUENTES, 2007). Assim, para Wernicke, as faculdades mentais, por serem o produto da relação de diferentes regiões, não podem ser propriedades de regiões localizadas no cérebro. Desta maneira, o que Wernicke postula é a existência de imagens – sensoriais e motoras – que fazem conexão entre si e que resultam nas funções mentais superiores. Já em meados do século XIX, pesquisadores cientistas começaram a identificar que as estruturas do cérebro estavam relacionadas com funções específicas e não com todas as funções em geral. A frenologia tevepapel importante neste aspecto, embora não tenha sido sustentada no todo, a ideia de entender que algumas regiões estariam relacionadas a funções específicas era válida (GIL, 2007). No século XX, os pesquisadores já haviam concluído que o cérebro era um conjunto de regiões com funcionalidades específicas, responsáveis por funções altamente complexas como a fala, a visão e a motora. Karl Lashley Mais tarde, o psicólogo norte-americano Karl Lashley (1890-1958) afirmou que o córtex cerebral teria a mesma participação em todo cérebro. Essa teoria ficou conhecida como 14 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS a lei da ação das massas, bem diferente da ideia localizacionista, pois atribuía regiões cerebrais a funções específicas (GIL, 2007). Alexander Romanovich Luria Nessa mesma época, surgem as ideias de Alexander Romanovich Luria (1902-1977), neuropsicólogo russo, considerado o pai da neuropsicologia. Luria direcionou seus estudos para a compreensão das relações entre cérebro e comportamento. Foi possível praticar suas ideias com muitos soldados acidentados na guerra, buscando compreender as consequências das lesões e direcionar uma possível reabilitação (FUENTES, 2007). A proposta soviética, representada especificamente por Luria, leva em consideração tanto a organização dinâmica do cérebro como a incorporação da linguística em seus estudos e pesquisas (GANDOLFO, 2006). No início do século XX, motivada por críticas ao localizacionismo por parte de vários estudiosos do assunto, nasce então a neuropsicologia moderna, inspirada no funcionalismo biológico, conforme proposto também por Luria. Luria entendia que os sistemas funcionais se estruturam ao longo do desenvolvimento da criança até a vida adulta. O cérebro mantém sua estrutura e seus componentes de maneira dinâmica, ou seja, ao longo do desenvolvimento, as estruturas que compõem o sistema funcional se modificam. A concepção de funcionamento cerebral proposta por Luria parte do princípio de que o cérebro funciona dinamicamente por meio do trabalho conjunto de várias zonas, o que contribui para a realização das atividades cognitivas (GANDOLFO, 2006). Essa noção de cérebro como um sistema funcional parte do princípio de que a atividade mental humana se efetua pela combinação das estruturas cerebrais que trabalham conjuntamente, sendo que cada uma delas carrega sua própria especificidade, contribuindo para o sistema funcional como um todo (FUENTES, 2007). Isto significa, então, que uma lesão em uma determinada região, ou em alguma dessas estruturas, levará ao desequilíbrio de toda a dinâmica do funcionamento cerebral, ou, nos termos de Luria, do sistema funcional. Baseando-se nos postulados de Vygostsky, Luria entendia que os sistemas funcionais são também construídos ao longo do desenvolvimento da criança e mediados pelo seu ambiente social. Esta concepção de cérebro possibilita a existência de um cérebro dinâmico. 15 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I Figura 4. Alexander Romanovitch Luria. Fonte: <https://antoniocarlosocorrea.wordpress.com/2017/02/21/capitulo-2-historico/>. Já nos anos 90, com o advento de tecnologias avançadas, os cientistas puderam observar o cérebro funcionando. Tornando claro que o cérebro não é uniforme, que existem regiões e funções específicas que são ativadas. Tecnologias como o eletroencefalograma (EEG), a magnetoencefalograma (MEG), a ressonância magnética funcional (fRM), dentre outros, tornaram altas as possibilidades de investigação do funcionamento do cérebro. As técnicas de neuroimagem tiveram início com a tomografia computadorizada, mas outros modelos para investigar o cérebro ao vivo foram criados no intuito de estudar suas funções e estrutura (FUENTES, 2007). Neuroimagem e neuropsicologia têm caminhado lado a lado na busca de aumentar o conhecimento sobre as especificidades cerebrais envolvidas em transtornos neuropsiquiátricos, câncer, convulsões, impacto no uso e abuso de drogas, acidente vascular etc. É possível dividir o estudo da neuroimagem em duas grandes áreas: a funcional, que visa medir indiretamente a atividade neuronal, e a neuroimagem estrutural, que, por sua vez, é uma imagem independente de atividade cerebral. Os métodos utilizados para a avaliação estrutural do cérebro são a tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM). A ressonância magnética é atualmente o exame de maior resolução anatômica e o mais utilizado para essa finalidade. 16 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Conforme o avanço tecnológico, outras modalidades de obtenção de imagens funcionais foram possibilitadas, como a atividade eletromagnética (MEG), a atividade metabólica e o fluxo cerebral (PET e SPECT) e a oxigenação sanguínea regional (fMRI), estando envolvidas no fornecimento de medidas da atividade cerebral de diversas complexidades (FUENTES, 2007). As informações fornecidas pelo PET e pelo SPECT são de extrema utilidade nas situações clínicas a seguir enunciadas. Assim, essas tecnologias devem ser aplicadas nas seguintes situações clínicas: 1. Diagnóstico diferencial das demências, incluindo a depressão em idosos. 2. Avaliação pré-cirúrgica de doentes com epilepsia focal. 3. Avaliação da extensão e gravidade dos insultos vasculares (na ausência de RM de emergência com sequências de difusão e perfusão) e no estabelecimento de parâmetros prognósticos. 4. Confirmação de morte cerebral, particularmente em casos difíceis, como, por exemplo, no coma da intoxicação por barbitúricos. 5. Avaliação das sequelas neuropsiquiátricas após traumatismos encefálicos. 6. Diagnóstico diferencial entre doença de Parkinson e tremor benigno. 7. Diagnóstico diferencial entre doença de Parkinson e parkinsonismo induzido por fármacos. 8. Diagnóstico diferencial entre doença de Alzheimer e demência por corpos de Lewis. 9. Diagnóstico diferencial entre recorrência tumoral intracerebral e necrose pós-radiação ou pós-cirurgia. 10. Diagnóstico diferencial entre linfoma do sistema nervoso central e granuloma por toxoplasma ou tuberculose em doentes com síndrome de imunodeficiência adquirida. Tomografia Computadorizada (TC) A tomografia computadorizada (TC) foi a primeira técnica radiológica desenvolvida a partir do princípio usado na técnica de raios-X (RX) (COVOLAN, 2004). As imagens 17 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I obtidas fornecem a diferença de absorção de RX em cada tecido, em uma escala da cor cinza. Quanto mais denso, maior absorção. Das vantagens ao se utilizar a TC: » A avaliação não é invasiva às estruturas encefálicas. » Sua realização dura poucos minutos. » Atualmente há novos aparelhos com técnicas que permitem a realização de exames em poucos segundos e reconstruções em três dimensões. Porém, há também desvantagens: » A produção de imagens com limitada diferenciação da substância cinzenta (mais densa) e branca (menos densa) apenas no plano axial. » O material não permite o estudo adequado de alterações estruturais de pequenas dimensões. » Limitado número de repetições do exame pelos riscos da exposição à radiação ionizante. A grande característica da tomografia computadorizada está nas radiografias de caráter transversais. Ou seja, a cada registro realizado, as imagens são migradas para um computador que processa as informações capturadas com o objetivo de criar sequências fotográficas que revelam ainda mais detalhes daquilo que está sendo observado pelo corpo clínico de seu laboratório (COVOLAN, 2004). Alguns exemplos de investigações possibilitadas: » Identificação de tumores. » Diagnósticos de vasos pulmonares. » Identificação de nódulos no corpo humano. » Pesquisas e estudos referentes ao cérebro humano. » Detecção de fraturas e obstruções circulatórias. » Identificação de alterações nas estruturas orgânicas. 18 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Figura 5. Tomografia computadorizada. Fonte: <http://santacasassp.com.br/exames-por-imagem/32162/tomografia-computadorizada>.Ressonância Nuclear Magnética (RM) A ressonância nuclear magnética (RM) permite a realização de estudos (axial, coronal e sagital), assim como a geração de imagens com alta definição anatômica. A espessura reduzida de seus cortes possibilita a visualização de lesões estruturais milimétricas (COVOLAN, 2004). Quanto maior o campo magnético, melhor a definição das imagens e as possibilidades de uso de outros softwares complementares. Magnetoencefalografia (MEG) Diferentemente da eletroencefalografia (EEG) que mensura a atividade elétrica neuronal, a MEG capta as alterações do campo eletromagnético oriundas da atividade elétrica dos neurônios, ou seja, refere-se aos campos magnéticos produzidos pelo cérebro (MARCUCCI; FILHO, 2006). Esses campos aparecem devido à atividade elétrica neuronal, que é caracterizada pela passagem de corrente elétrica ao longo da estrutura dos neurônios. Mede, de forma não invasiva, a propagação de um estímulo nervoso no cérebro (COVOLAN, 2004). A MEG vem sofrendo avanços constantes na detecção de sinais cerebrais, com o desenvolvimento de novas tecnologias que possibilitaram a construção de sistemas altamente eficientes. Uma importante aplicação da MEG se dá naqueles pacientes que serão submetidos à cirurgia. O mapeamento pré-cirúrgico de regiões corticais eloquentes, como áreas motoras, somato-sensoriais e de linguagem, é imprescindível na busca por manter a integridade funcional de regiões subjacentes e adjacentes àquelas que serão cirurgicamente removidas. 19 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I Algumas patologias, como é o caso de distúrbios epilépticos, que estão associadas a descargas nervosas anormais, resultando em anomalias funcionais transitórias, também podem ser investigadas por MEG. Essas irregularidades observadas nos sinais cerebrais em epilepsia são descargas recorrentes, síncronas, de uma porção relativamente extensa do cérebro (MARCUCCI; FILHO, 2006). Juntamente com a EEG, a MEG constitui uma das únicas técnicas de neuroimagem capazes de medir a atividade elétrica cerebral diretamente. A maior vantagem da MEG sobre a EEG refere-se ao seu poder de localização das fontes, bastante restrito no caso da EEG, bem como à sua capacidade de detectar sinais cerebrais que durem menos que 10 ms. Nos dois métodos, os sinais medidos são gerados pela atividade neuronal, tendo ambos a capacidade de mapear essa atividade com a precisão de milisegundos. Contudo, diferenças importantes entre as duas técnicas são destacadas: » Enquanto a atividade registrada pelo EEG envolve uma mistura de componentes radiais e tangenciais ao detector, a MEG mede, quase que exclusivamente, fontes tangenciais e, por conseguinte, é mais sensível à atividade proveniente de sulcos e fissuras cerebrais. » Uma das grandes vantagens da MEG sobre a EEG é a precisão na localização de fontes de atividade cerebral, já que distorções referentes à caixa craniana ou demais tecidos extracerebrais podem ser negligenciadas no caso da MEG. Os erros de localização de fontes corticais usando a EEG (de 10 a 30 mm), são bem maiores que aqueles provenientes da MEG (de 1 a 5 mm). Mesmo assim, é importante notar que a MEG é menos sensível a localizações de fontes profundas que a EEG, podendo acarretar um erro superior ao desta. » Os equipamentos necessários para a EEG, em comparação com aqueles de MEG, são bem mais acessíveis. Um dos principais problemas da MEG é seu alto custo. Por um longo período, estudos sobre as vantagens e desvantagens das duas técnicas foram publicados. Hoje em dia, existe certo consenso sobre a complementaridade de uma e de outra (COVOLAN, 2004). As vantagens de localização de regiões ativas por meio da MEG são inquestionáveis, já que a MEG oferece uma visão mais sensível de fontes tangenciais. Um estudo de processos cognitivos pela utilização de ambas as técnicas é, sem dúvida, a maneira mais completa de avaliação, dentro de uma perspectiva neurofisiológica. 20 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Ressonância Magnética Funcional (fMRI) A ressonância magnética funcional permite detectar pequenas alterações hemodinâmicas localizadas naquelas regiões predominantemente envolvidas com determinadas funções cerebrais e, assim, produzirem imagens funcionais do cérebro. Dentre as técnicas utilizadas em RMf, a mais empregada atualmente baseia-se no chamado efeito Bold. O termo Bold é uma sigla para Blood Oxygenation Level Dependent effect, isso porque esse método baseia-se no nível de oxigenação do sangue (MARCUCCI; FILHO, 2006). O uso da técnica Bold é tão difundido atualmente que sempre que se fala em RMf, considera-se que o método seja esse, a menos que um outro seja especificado. A fMRI tem sido aplicada a uma grande variedade de estudos funcionais, investigações neuropsicológicas envolvendo reações emocionais e julgamentos morais, passando por estudos ligados a funções cognitivas como linguagem e memória (COVOLAN, 2004). A possibilidade de se realizar estudos dessa natureza, de forma não invasiva e livre de riscos com material radioativo, abre a perspectiva de serem criados novos padrões para se avaliar pessoas com disfunções neuropsiquiátricas e pacientes neurológicos, sobretudo aqueles passíveis de serem submetidos a intervenções cirúrgicas. Um dos aspectos tem sido a avaliação de seu potencial em planejamento cirúrgico. Os pacientes submetidos à neurocirurgia realizam testes por meio de RMf, no intuito de identificar regiões cerebrais responsáveis por funções primárias sensório-motoras ou pela linguagem, memória ou outras funções, para assim, minimizar os riscos de déficits funcionais pós-operatórios (MARCUCCI; FILHO, 2006). Fizemos até aqui um apanhado das ideias mais importantes relacionadas ao histórico da neuropsicologia como ciência estudada em diferentes períodos da história. Como esses conhecimentos vieram se modificando ao longo do tempo, isso possibilitou o avanço nas pesquisas e conceitos dos pesquisadores envolvidos em cada estudo e que se tornaram referências nessas áreas de conhecimento. Além das tecnologias envolvidas em exames de neuroimagem que possibilitam diagnósticos e intervenções cada vez mais acuradas e eficientes. Leitura que não pode faltar: Fundamentos da Neuropsicologia – Editora: LTC. Ano: 1981. R. Luria 21 CAPÍTULO 2 Neurobiologia aplicada à neuropsicologia A neurobiologia aplicada à neuropsicologia visa estudar as estruturas envolvidas no funcionamento cerebral que estão relacionadas às funções do organismo como um todo, mas principalmente às funções cerebrais. Faz-se necessário entendermos como e por que dificuldades de aprendizagem, transtornos e síndromes neurológicas, por exemplo, influenciam o comportamento das pessoas, desta forma, é possível se pensar em intervenções cada vez mais estratégicas para ajudar no tratamento das dificuldades apresentadas. Avanços para a compreensão dos fenômenos neurobiológicos relacionados, por exemplo, à emoção, foram alcançados por Joseph Papez (1937), que partiu de uma perspectiva de centros emocionais para a ideia de sistema. No início, acreditava-se que o lobo límbico descrito por Broca estaria relacionado ao olfato, mas Papez demonstrou que suas diferentes porções estavam unidas e coordenadas entre si, formando um circuito, o qual incluía o córtex cingulado, o hipocampo, o hipotálamo e os núcleos anteriores do tálamo. Outras experiências provaram a revisão das estruturas pertencentes ao circuito proposto por Papez, trazendo à tona o conceito de sistema límbico (GIL, 2007). Embora a denominação do sistema límbico ainda seja usada para designar os componentes pertencentes aos circuitos cerebrais das emoções, tal categorização vem sofrendo críticas em diversos graus. No intuito de simplificar a compreensão, vamos tratar das estruturas reconhecidas pelos diferentes autores, bem como aquelas que se relacionam diretamente às emoções. As emoções básicas estudadas com a finalidadede estabelecer suas relações com o funcionamento cerebral são a sensação de recompensa (prazer, satisfação) e de punição (aversão, desgosto). Para cada uma dessas emoções, identificou-se um circuito específico. O conhecido centro de recompensa está relacionado, principalmente, ao feixe prosencefálico medial – nos núcleos lateral e ventromedial do hipotálamo –, havendo conexões com o septo, a amígdala, algumas áreas do tálamo e os gânglios da base. Por outro lado, o centro de punição estaria localizado na área cinzenta central que rodeia o aqueduto cerebral de Sylvius, no mesencéfalo, estendendo-se às zonas periventriculares do hipotálamo e tálamo, estando relacionado à amígdala e ao hipocampo e, também, às porções mediais do hipotálamo e às porções laterais da área tegmental do mesencéfalo (KANDELL,2000). 22 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Em 1937, o neuroanatomista James Papez conseguiu demonstrar que a emoção não é função de centros cerebrais específicos, e sim de um circuito que envolve estruturas básicas, interconectadas por feixes nervosos: o hipotálamo com seus corpos mamilares, o núcleo anterior do tálamo, o giro cingulado e o hipocampo, outras estruturas foram agregadas posteriormente. Esse circuito, foi denominado circuito de Papez, responsável pela elaboração das funções das emoçõesPaul MacLean (1903-2007) ao considerar, inicialmente, a proposta de Papez correta em sua essência, a ampliou para o que seria o sistema límbico, acrescentando novas estruturas ao sistema: a área pré-frontal, a amigdala, núcleo mediano do tálamo, área septal, núcleos basais do prosencéfalo e formações do tronco cerebral. MacLean apresentou, em 1970, a teoria do cérebro trino ou triuno, em que a divisão do cérebro em três camadas explicaria o funcionamento do cérebro humano a partir dessas divisões. Seriam elas: 1. O cérebro reptiliano: eixo mais básico do sistema nervoso, composto de medula espinhal, tronco cerebral, cerebelo, diencéfalo e gânglios basais, responsáveis por comportamentos estereotipados geneticamente determinados e funções parassimpáticas (involuntárias). 2. O cérebro paleomamífero: composto pelo sistema límbico (hipocampo, amídala, giro cingulado, giro parahipocampal, tálamo, hipotálamo e fórnix), reponsável pela regulação de emoções, motivações bem como algumas funções instintivas. Memória e aprendizado também fazem parte das funções mais sofisticadas do sistema límbico. 3. O cérebro neomamífero: (córtex cerebral) responsável por análise complexa de estímulos internos e externos, racionalidade, linguagem, resolução de tarefas e controle de comportamento flexível. MacLean, além de desenvolver a Teoria do Cérebro Trino, fez também importantes alterações no Circuito de Papez, destacando a importância do hipotálamo na expressão das emoções, criando posteriormente a ideia de sistema límbico. Algumas importantes estruturas não incluídas no Circuito de Papez foram incluídas no sistema límbico. A seguir suas principais características e funções. Amigdala: pequena estrutura em forma de amêndoa, situada na região anteroinferior do lobo temporal, interconecta-se com o hipocampo, os núcleos septais, a área pré-frontal e o núcleo dorsomedial do tálamo. Essas conexões garantem seu importante desempenho na mediação e controle das atividades emocionais de ordem maior, como amizade, amor e afeição, nas exteriorizações do humor e, principalmente, nos estados de medo e ira e na agressividade (GIL, 2007). A amigdala é considerada de fundamental importância para a autopreservação, 23 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I por ser o centro identificador do perigo, gerando medo e ansiedade e colocando-nos em estado de alerta, aprontando-se para fugir ou lutar. Figura 6. Amígdala. Fonte: <http://www.nanocell.org.br/amigdala-e-o-portal-do-medo-ou-da-recompensa-circuito-cerebral-que-conduz- comportamentos-indutores-de-prazer/>. Nos humanos, alguma lesão na amígdala faria com que o indivíduo perdesse o sentido afetivo da percepção de uma informação vinda de fora, como a visão de uma pessoa conhecida. A pessoa saberia quem está vendo, mas não saberia distinguir se gosta ou não da pessoa. Hipocampo: encontra-se envolvido diretamente com a memória, em especial, com a formação da chamada memória de longa duração. O hipocampo preservado nos possibilita comparar as condições de uma ameaça com experiências passadas e, assim, escolher qual a melhor opção a ser tomada para garantir sua preservação. Figura 7. Hipocampo. Fonte: <http://www.ultimatescience.org/descoberto-novo-papel-para-o-hipocampo-cerebro/>. 24 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Tálamo: a importância dos núcleos (dorsomedial e anteriores do tálamo) está na regulação do comportamento emocional que parece decorrer não de uma atividade própria, mas das conexões com outras estruturas do sistema límbico. Figura 8. Tálamo. Fonte: <https://okdiario.com/curiosidades/2017/07/06/talamo-partes-mas-importantes-del-cerebro-1135984>. Hipotálamo: possui conexões com as demais áreas do prosencéfalo e com o mesencéfalo. Entende-se que o hipotálamo desempenha papel nas emoções relacionadas ao prazer e à raiva e uma certa tendência ao riso incontrolável. Ainda assim, sua participação é menor na origem do que na expressão propriamente dita das emoções. Quando os sintomas físicos da emoção surgem, a ameaça que produzem retorna, via hipotálamo, aos centros límbicos, e destes aos núcleos pré-frontais, aumentando, por um mecanismo de feedback negativo, a ansiedade, podendo até chegar a gerar um estado de pânico (GIL, 2007). Essa informação é de importante utilidade do ponto de vista clínico e terapêutico. Figura 9. Hipotálamo. Fonte: <https://biologianet.uol.com.br/anatomia-fisiologia-animal/hipotalamo.htm>. 25 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I Giro do cíngulo: ainda necessitamos de muitos estudos a respeito desse giro, mas sabe-se que a sua porção frontal coordena odores e visões com memórias agradáveis de emoções anteriores. Esta região participa, ainda, da reação emocional à dor e da regulação do comportamento agressivo. Figura 10. Giro do cíngulo. Fonte: <http://www.centrocienciajunior.com/novidades/novidade.asp?id=2529>. Tronco cerebral: região responsável pelas respostas dos reflexos emocionais. As estruturas envolvidas são a formação reticular e o locus ceruleus , uma massa concentrada de neurônios secretores de norepinefrina (GIL, 2007). É importante assinalar que, até mesmo em humanos, essas primitivas estruturas continuam participando não só dos mecanismos de alerta, vitais para a sobrevivência, mas também da manutenção do ciclo vigília-sono. Figura 11. Tronco cerebral. Fonte: <http://psicoativo.com/2016/01/tronco-cerebral.html>. 26 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS Anterior ao tálamo, situa-se a área septal, onde estão localizados os centros do orgasmo (quatro para a mulher e um para o homem). Certamente por isto, esta região se relaciona com as sensações de prazer, mormente aquelas associadas às experiências sexuais. A área pré-frontal compreende toda a região anterior não motora do lobo frontal. É uma área que muito se desenvolveu durante a evolução das espécies, porém não faz parte do circuito límbico tradicional. Entende-se que suas intensas conexões bidirecionais com o tálamo, amigdala e outras estruturas subcorticais seriam o motivo de seu importante papel na origem da expressão das emoções. Quadro 1. Estruturas do circuito de Papez. Estrutura Observações Giro do cíngulo Intimamente relacionado à depressão, à ansiedade e à agressividade, observando-se, em humanos, lentidão mental em casos de lesão dessa estrutura. Auxilia na determinação dos conteúdos da memória, observando-se significativo aumento de sua atividade quando as pessoas recorrem à mentira. Giro para-hipocampal Intimamente relacionado ao armazenamento da memória; processos lesivos nessa localização produz amnésia retrógrada isolada, com preservação da capacidade de armazenarnovas memórias explícitas. Hipotálamo Consiste em segmento central do sistema límbico, relacionando-se às diversas áreas límbicas e encefálicas. Tanto a estimulação quanto a inibição hipotalâmica têm, frequentemente, efeitos profundos sobre o comportamento e as emoções de animais, incluindo o Homo sapiens sapiens. A estimulação do hipotálamo lateral induz a sede, fome e aumenta o nível geral de atividade do animal, algumas vezes levando-o à fúria e/ou à luta. Já a estimulação do núcleo ventromedial provoca situação contrária, ou seja, sensação de saciedade, redução da ingestão alimentar e tranquilidade. A estimulação dos núcleos periventriculares costuma acarretar medo e reações de punição. O impulso sexual pode ser estimulado principalmente nas porções mais anteriores e posteriores do hipotálamo. As lesões hipotalâmicas geralmente causam efeitos opostos aos causados pelos estímulos. Tálamo As funções mais conhecidas relacionam-se com sensibilidade, motricidade, comportamento emocional e ativação do córtex cerebral. Hipocampo Exerce importantes funções relacionadas ao comportamento e à memória. Pessoas submetidas à remoção bilateral dos hipocampos conseguem acessar a memória aprendida, mas não conseguem aprender qualquer informação nova. Essa área também está integrada à tomada de decisões, pois quando o hipocampo interpreta um sinal neuronal como importante, provavelmente essa informação será armazenada na memória. Recentemente demonstrou-se a relação do hipocampo com o sistema imunológico, identificando que sua integridade é fundamental para a normalidade da resposta imune. O hipocampo não é, atualmente, considerado parte crucial dos sistemas neurobiológicos das emoções. Fonte: Baseado no Quadro das estruturas do circuito de Papez 1937 – (LENT, 2001). Estudos posteriores identificaram outras estruturas do sistema límbico envolvidas com as emoções, são elas: » Amígdala – é ativada em situações com marcante significado emocional, como encontros agressivos ou de natureza sexual; está também relacionada aos aprendizados emocionais e ao armazenamento de memórias afetivas. Ademais, a amígdala é responsável pela formação da associação entre estímulos e recompensas. Concluindo, a amigdala regula a expressão do medo e agressão diante dos estímulos ambientais. Funciona como um botão de disparo das emoções. » Septo – relaciona-se à raiva, ao prazer e ao controle neurovegetativo. 27 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I Medo Amígdala e hipotálamo estão diretamente ligados às relações de sensação de raiva e medo. Sendo a amígdala responsável por detectar, gerar e manter as emoções relacionadas ao medo, bem como por reconhecer expressões faciais de medo e ainda coordenar as respostas apropriadas ao perigo. Desde as descrições iniciais do sistema límbico, acreditava-se que o hipotálamo exercia papel crucial entre as estruturas subcorticais envolvidas no processamento das emoções (KANDELL, 2000). Atualmente se reconhece que projeções da amígdala para o córtex contribuem também para o reconhecimento da experiência do medo e outros aspectos cognitivos do processo emocional. Figura 12. Medo. Fonte: <https://psico.online/blog/o-medo-de-dar-errado-ou-de-dar-certo/>. Alegria A expressão de alegria provoca a ativação dos gânglios basais, incluindo o estriado ventral e o putâmen. Além disso, os gânglios basais recebem inervação de neurônios dopaminérgicos do sistema mesolímbico, neurônios relacionados à geração do prazer. A dopamina age de modo independente e está relacionada a estados afetivos como sensação de prazer. Por outro lado, os neuropeptídeos estão envolvidos na geração da sensação de satisfação por meio de mecanismos homeostáticos (KANDELL, 2000). Os gânglios basais também estão relacionados ao desgosto, sensação comum na depressão. Em razão de suas funções motoras, os gânglios basais parecem também 28 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS estar envolvidos na coordenação de respostas apropriadas ao estímulo original, ou seja, a adoção de comportamento de aproximação ou de retraimento (KANDELL, 2000). Figura 13. Alegria. Fonte: <http://mundodapsi.com/um-dia-sem-sorrir-e-um-dia-desperdicado-o-mundo-dos-doutores-da-alegria/. Raiva Uma das primeiras estruturas associadas à raiva foi o hipotálamo, em decorrência de estudos realizados na década de 1920, nos quais se descreveram manifestações de raiva em situações não condizentes, após a remoção total do telencéfalo (GIL, 2007). A raiva é manifestada basicamente por comportamentos agressivos, os quais dependem do envolvimento de diversas estruturas e sistemas orgânicos para serem expressos. A raiva, assim como o medo, é uma emoção relacionada às funções da amígdala, em decorrência de conexões com o hipotálamo e outras estruturas (LENT, 2001). Figura 14. Raiva. Fonte: <https://oimparcial.com.br/saude/2017/06/sindrome-do-hulk-o-superpoder-perigoso/>. 29 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I Reações luta-fuga Hans Selye (1907-1982), em 1959, definiu estresse partindo de uma concepção biológica. Ele definiu estresse como sendo um elemento inerente a toda doença, que produz certas modificações na estrutura e na composição química do corpo, as quais podem ser observadas e mensuradas (FILGUEIRAS; HIPPERT, 1999). O estresse é o estado que se manifesta por meio da síndrome geral de adaptação (SGA). Tal síndrome é compreendida pela dilatação do córtex da suprarrenal, atrofia dos órgãos linfáticos e úlceras gastrointestinais, além de perda de peso e outras alterações, sendo considerada um conjunto de respostas não específicas a uma lesão que se desenvolve em três fases: 1. Fase de alarme: manifestações agudas, o organismo reconhece o estímulo estressor e ativa o sistema nervoso e neuroendócrino como forma de reação e tentativa de enfrentar o agente causador. 2. Fase de resistência: continuação da reação de alarme e tentativa de adaptação do corpo à situação nova, tônus aumentado do HPA e do SNA simpático. 3. Fase de exaustão: o estímulo estressante perdura e não há mais adaptação, mas falhas na reação, podendo levar o organismo a um colapso. Selye afirma que as manifestações do estresse podem surgir em qualquer uma das fases, sendo manifestações diferentes ao longo do tempo (FILGUEIRAS; HIPPERT, 1999). Além disso, não é necessário que as três fases se desenvolvam para haver o registro da síndrome. Outras formas de conceituar estresse surgiram, utilizam-se também os termos estresse agudo, que seria a reação de lutar ou fugir, permeada pela ativação simpática e neuroendócrina e o estresse crônico, desencadeado pela manutenção do estímulo de alerta ou pela sua repetição, levando a supressão da resposta imunizante. O conhecido sistema límbico possui como função a avaliação afetiva dos acontecimentos da vida, além de realizar a integração dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico e organizar uma reação adequada. A qualidade da avaliação afetiva depende da experiência vivida e das normas culturais, dentre outros fatores. A conexão direta entre o hipotálamo e o sistema nervoso autônomo se dá, possivelmente, mediante projeções hipotalâmicas para regiões do tronco encefálico, destacando-se o núcleo do trato solitário (LENT, 2001). Além dessas vias eferentes, o nervo vago, um dos principais elementos do sistema nervoso autônomo, representa ainda um importante componente aferente, ativando áreas cerebrais superiores: suas 30 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS projeções aferentes ascendem ao prosencéfalo por meio do núcleo parabraquial e locus ceruleus, conectando-se diretamente com todos os níveis do prosencéfalo (hipotálamo, amígdala e regiões talâmicas que controlam a ínsula e o córtex orbitofrontal e pré-frontal) (GIL, 2007). O sistema nervoso autônomo está diretamente envolvido nas denominadas situações de luta e/ou fuga e imobilização. Tais ocorrências estão relacionadas a um mecanismo de neuropercepção, que se caracteriza pela capacidade de o indivíduoagir conforme sua percepção de segurança ou ameaça a respeito do meio no qual se encontra (GIL, 2007). Essa percepção pode ser dada, por exemplo, pelo tom da voz ou pelos movimentos e expressões faciais da pessoa ou do animal com quem ele se comunica. Toda vez que a pessoa percebe o meio ambiente como seguro, ela dispõe de mecanismos inibitórios que atuam sobre as estruturas límbicas que controlam comportamentos de luta-fuga, como as regiões lateral e dorsomedial da substância cinzenta periaquedutal. Dessa forma, a amígdala não exerce seu papel normal, ou seja, a estimulação dessas vias na substância cinzenta periaquedutal. Concomitantemente, após o processamento de todas as informações, o córtex motor (destacam-se as áreas frontais) comanda a ativação de vias corticobulbares na medula, que ativam os componentes somatomotor (músculos da face e da cabeça) e visceromotor (coração, árvore brônquica) dos mecanismos fisiológicos para o contato social (LENT, 2001). Ao contrário, toda vez que a pessoa percebe o meio ambiente como ameaçador, a amígdala estará livre para desencadear estímulos excitatórios sobre a região lateral e dorsolateral da substância cinzenta periaquedutal, que, então, estimula as vias do trato piramidal, produzindo respostas de luta e/ou fuga. Além disso, há casos em que a pessoa responde a tais situações como se estivesse paralisada; essa resposta decorre da estimulação da região ventrolateral ao aqueduto cerebral (ou aqueduto de Sylvius), que também estimula as vias neurais do trato corticoespinal lateral (piramidal) (LENT, 2001). É interessante ressaltar que essas reações ocorrem em paralelo a uma resposta autonômica simpática, permitindo, assim, a inervação de vasos sanguíneos e musculatura lisa de órgãos de diferentes sistemas em todo o organismo. Em situações de luta-fuga, ocorre elevação da frequência cardíaca e da pressão arterial, ao contrário, nas situações de imobilização, ocorre intensa bradicardia e queda da pressão arterial. 31 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I Figura 15. Luta ou fuga. Fonte: <http://www.verbal-aikido.com/wp-content/uploads/2013/05/aikido.verbal.img03.jpg>. Tristeza É cada vez mais frequente a descrição da correlação entre disfunções emocionais e prejuízos das funções neurocognitivas (GIL, 2007). A depressão, como significante de tristeza patológica, está relacionada a déficits em áreas estratégicas do cérebro, incluindo regiões límbicas. Havendo ainda vários determinantes biológicos implicados no seu desenvolvimento, é possível observar alterações ocorridas no sistema imunológico, por exemplo. Figura 16. Tristeza. Fonte: <http://pensamentoliquido.com.br/o-que-eu-gostaria-que-as-pessoas-entendessem-sobre-tristeza/>. As imagens certamente provocam, em sua maioria, ativação do córtex visual occipital (giro occipital e giro fusiforme), porém a amígdala também recebe quantidade substancial de estímulos provenientes das áreas temporais associadas à visão, participando na formação de memórias por meio dos circuitos hipocampais ou dos 32 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS circuitos estriatais (GIL, 2007). Tal fato decorre do papel especializado da amígdala no processamento de insinuações emocionais visualmente relevantes, sinalização do medo e aversão ou outras evidências. A ativação da amígdala pode estar primariamente envolvida na emissão de um alerta para ameaças provenientes da percepção obtida pelo córtex occipital. Outra estrutura importante na integração emoção-razão é a ínsula, a qual é ativada durante a indução de recordações de momentos vividos por um indivíduo, provocando uma sensação específica, seja de felicidade, tristeza, prazer, raiva ou qualquer outra (GIL, 2007). Baseado no que já foi dito, pode-se considerar que a tomada de decisões se torna diretamente dependente da associação emocional realizada pelo indivíduo ao vivenciar determinadas situações cotidianas. Além disso, o emprego de tal informação adquirida depende de respostas motoras – como, por exemplo, correr, sorrir ou comer – e de respostas autonômicas, como elevação ou redução da frequência cardíaca. Tais respostas autonômicas são diretamente influenciadas pelo hipotálamo, e este, por sua vez, age mediante o processamento de todas as informações que chegam ao cérebro. Leitura que não pode faltar: LENT, Robert. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de Neurociência. Cidade: Rio de Janeiro. Editora Atheneu, 2001. O filme Divertidamente, além de superdivertido, traz reflexão sobre como as emoções agem no nosso corpo. Vale a pena conferir. 33 CAPÍTULO 3 Genética e neurociência A neuropsicologia é uma área de conhecimento interdisciplinar com interfaces entre psicologia e neurologia, dentre outras. Procura-se pesquisar as relações existentes entre comportamento humano, SNC, funções cognitivas, relacionando o funcionamento normal e o patológico. No âmbito da genética, preocupa-se com a identificação de genes responsáveis por alterações específicas relacionadas ao funcionamento do organismo. Muitas teorias foram desenvolvidas e modificadas no decorrer da evolução de pesquisas envolvendo as neurociências. Com o avanço da tecnologia, cada vez mais tem sido possível acessar áreas do cérebro e identificar problemas e ou promover soluções via intervenções. Anteriormente, defendia-se a ideia de que o ambiente definia o comportamento, opondo-se, desta forma, à ideia de que os genes eram então os definidores de aspectos da personalidade e do comportamento (DAL-FARRA; PRATES, 2004). O que é mais aceito hoje, portanto, é que os genes não são de fato determinantes de um comportamento, mas podem ser explicados em termos de tendência ou probabilidade. Havendo também participação das experiências individuais no resultado desse comportamento. Os estudos direcionados para esses achados utilizam-se das síndromes genéticas para identificar alterações que possam interferir no funcionamento do sistema nervoso. Figura 17. Genética e neurociências. Fonte: <https://apaebrasil.org.br/noticia/mais-de-duas-mil-doencas-hereditarias-podem-ser-detectadas-atraves-de-analise- genetica>. Assim, pesquisas sobre comportamento humano levam em consideração uma enorme variedade de fatores, temperamento, cultura, fatores biológicos etc. A natureza múltipla dos fatores envolvidos no resultado-comportamento indica a complexidade 34 UNIDADE I │ CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS em detrimento de ideias simplistas. Uma forma de entender o comportamento mais facilmente seria concebê-lo como produto resultante de um processo complexo no qual genes e ambiente se complementam. As pesquisas na área neuropsicológica têm demonstrado que os genes atuam como fechaduras para as quais os fatores ambientais seriam as chaves, e essa complexa relação seria responsável pelo desenvolvimento de uma vulnerabilidade a manifestações clínicas significativas (GORENSTEIN; WANG, 2014)). Associando-se medidas, tenta-se compreender a existência de alguma relação significativa entre os fatores de vulnerabilidade genética e fatores neuropsicológicos. Fatores mediadores, chamados de endofenótipos, são relacionados a fatores biológicos e associados à manifestação de alterações cognitivas e comportamentais (GORENSTEIN; WANG, 2014). O diagnóstico e tratamento de algumas psicopatologias têm se beneficiado dessas pesquisas na clínica. Uma das grandes dificuldades com as pesquisas sobre patologias relacionadas à genética se encontra no modo de separar os sujeitos normais e os afetados. Pois mesmo havendo sujeitos diagnosticados como esquizofrênicos, não há certeza em separar os que são afetados do restante da população. A neurociência se dedica também às pesquisas de doenças do sistema nervoso e as consequências sobre as funções do sujeito, no intuito de desenvolver métodos de identificação, estudo, prevenção e tratamento dessas doenças. O investimento em pesquisas ajuda a promover avanços nas descobertas e, consequentemente,novas possibilidades de atuação na área da saúde em geral (VENTURA, 2010). Em relação à genética, fala-se do descobrimento de genes não só para doenças como câncer de mama, mas também para comportamentos ou situações sociais, tais como homossexualidade, alcoolismo, criminalidade e até problemas sociais muito complexos, como a falta de moradia (DAL-FARRA, 2014). As explicações reducionistas/deterministas geralmente se aplicam às funções cerebrais, regiões do cérebro, neurotransmissores, neurônios e genes, mas essa não é a única forma de explicação reducionista encontrada nesses discursos. Alguns autores afirmam que a vida e as ações humanas são consequências indissociáveis das propriedades bioquímicas das células que constituem o indivíduo e, portanto, tais características estão determinadas, por sua vez, pelos constituintes dos genes que cada indivíduo possui. 35 CIÊNCIAS NEUROLÓGICAS │ UNIDADE I A plasticidade neural precisa ser considerada como fator importante do desenvolvimento. Trata-se de uma propriedade resultante das alterações ocorridas nos processos mentais conforme a utilização das funções cerebrais pelo sujeito. A partir da maturação cerebral, ocorre um processo de seleção neural que pode resultar na eliminação dos neurônios ou junções neuronais. A possibilidade de conexões entre neurônios no início do desenvolvimento do cérebro é muito grande, mas diminui drasticamente após a sua maturação. O interessante é que a plasticidade neural permanece em menor grau no órgão maduro devido à formação de novas conexões e também pelo reforçamento dado aos percursos neuronais utilizados com maior frequência. Esses processos estão altamente ligados aos fatores ambientais os quais os sujeitos vivenciam ((DAL-FARRA, 2014)). Desta forma, mesmo considerando a participação importante dos fatores genéticos sobre algumas características ((DAL-FARRA, 2014)), a educação, cultura e os demais estímulos recebidos desde os primeiros momentos de vida têm expressiva influência sobre o comportamento de qualquer pessoa. Assim, devemos deixar claro que a busca por diferenças não pode significar exclusão, mas, sim, auxiliar cada pessoa com base no conhecimento que possuímos sobre o homem como ser biopsicossocial, ou seja, os fatores ambientais (não genéticos) são fundamentais para a estruturação e o desenvolvimento do ser humano. Neuroplasticidade – é a capacidade adaptativa do cérebro em desenvolver novas conexões entre os neurônios a partir da experiência e do comportamento do sujeito. A depender de determinados estímulos, mudanças na organização e na localização do processo de informação podem ocorrer. Muitos dos processos cognitivos dependem dessa propriedade. 36 UNIDADE IINEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES A ciência psicológica nas últimas décadas tem se expandido muito em decorrência da necessidade de explicação de fenômenos ainda complexos a nossa compreensão, numa tentativa também de não incorrer em reducionismos simplistas como respostas ao vasto campo de propostas científicas que envolve o estudo do ser humano. Temos visto que as neurociências têm possibilitado novos horizontes no tocante à compreensão de fenômenos relacionados ao homem, seu desenvolvimento e relações, dessa forma, surgem novos campos de pesquisa interdisciplinares. Aproveitando-se desse cenário, as interfaces surgem como novas e mais acuradas respostas às questões problemáticas complexas (COSENZA, 2011). Na área da psicologia, as pesquisas e práticas têm se unido na busca de formas de compreender complexidades de formas mais amplas, abarcando conhecimentos de outras áreas ou até mesmo criando outros campos de pesquisa. A neuropsicologia é uma dessas vertentes que emerge da psicologia, preocupa-se em investigar os aspectos, buscando correlacionar processos superiores com comportamentos percebidos. CAPÍTULO 1 Neuropsicologia: formação e atuação profissional A neuropsicologia é uma disciplina de base científica que estuda as relações entre o cérebro, o comportamento e os processos mentais. Considerando a complexidade da natureza de seu objeto de estudo, é uma área que conta com a contribuição de profissionais de vários campos de conhecimento. 37 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II Ao longo do último século, a neuropsicologia muito tem avançado em termos de produção de conhecimento e desenvolvimento de estratégias clínicas (de diagnóstico e de atamento). A crescente produção de conhecimento em neuropsicologia e a demanda por atividades nessa área possibilitaram o surgimento de instituições nacionais e internacionais com o objetivo de congregar profissionais de diversas áreas de interesse bem como divulgar as atividades de diferentes centros internacionais de pesquisa e intervenção (HAASE, 2012). No Brasil, o desenvolvimento da neuropsicologia veio a ocorreu de forma mais significativa a partir das duas últimas décadas do século passado. No ano de 1988, destaca-se a fundação da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia juntamente com a criação de laboratórios e grupos de pesquisa de grandes universidades brasileiras, reconhecidos como referências na área. Figura 18. Neuropsicólogo. Fonte: <https://blog.ipog.edu.br/saude/avaliacao-neuropsicologica-infantil/>. Os cursos de formação em neuropsicologia foram surgindo pelo país, indicando o grande interesse de profissionais da área de saúde e educação, principalmente, no intuito de pesquisar a prática da neuropsicologia e sua atuação na clínica. Para o reconhecimento e certificação de profissionais, o Conselho Federal de Psicologia reconhece a neuropsicologia com especialidade em psicologia para a finalidade de concessão e registro do título de especialista (Resolução CFP No 002/2004). No mesmo sentido de reconhecer e certificar profissionais devidamente capacitados para atuação na área multidisciplinar de neuropsicologia, foi apresentada, no ano de 2013, a proposta de criação do Certificado de Neuropsicologia da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia – SBNp. O certificado não equivale e nem substitui os títulos de especialista fornecidos pelos conselhos, pois está relacionado à necessidade de certificação de qualidade da formação do profissional envolvido na área. 38 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES Ressaltamos, ainda, que tal iniciativa de processos de certificação também foi proposta por outras áreas do conhecimento e é utilizada como instrumento de controle de qualidade dos serviços e pesquisas que são oferecidos. A neuropsicologia é uma área interdisciplinar de conhecimento e atuação, integrando modelos teóricos, pesquisas, conhecimentos, métodos e instrumentos com várias outras áreas correlatas, como a psicologia, a neurologia, áreas da medicina como psiquiatria, a linguística, a neurolinguística, a fonoaudiologia, a farmacologia, a fisioterapia, a terapia ocupacional, a educação, a biologia, entre outras (HAASE, 2012). As interfaces são entendidas como um ponto de entrelaçamento entre atividades (disciplinares e interdisciplinares) com compreensões diferentes. O neuropsicólogo é o profissional que busca compreender a relação entre cérebro e funções cognitivas. As sociedades de classe na área de neuropsicologia, no Brasil e no exterior, são compostas por profissionais de diversas áreas e produzem conhecimentos advindos da pesquisa básica e aplicada com saberes interdisciplinares (HAASE, 2012). Reconhece-se que a neuropsicologia é uma linha da psicologia que se aproxima e conversa com as neurociências e, dentro da psicologia, a escola que fundamenta e embasa a prática neuropsicológica é a psicologia cognitiva. Entende-se que hoje a base da neuropsicologia é influenciada diretamente pela psicologia cognitiva, que, por sua vez, estuda os processos mentais, incluindo funções cognitivas, pensamento, linguagem, memória e percepção (GIL, 2007). Figura 19. Neuropsicologia. Fonte: <http://www.irflasalle.es/servicios/neuropsicologia/>.39 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II A prática do profissional da neuropsicologia normalmente pode ser compreendida em três modalidades. A primeira encontra-se no estudo teórico, envolvendo pesquisa científica. Outra modalidade seria a área clínica, que contemplaria a avaliação neuropsicológica e também a terceira modalidade, a reabilitação (COSENZA et al., 2008). Novamente, deixamos claro que todas as atuações envolvem um trabalho multidisciplinar aplicável a diversas esferas, como educação, saúde, jurídica etc. A avaliação neuropsicológica contempla o exame baseado em testes, escalas, os quais visam descrever o funcionamento cognitivo e emocional, identificando as capacidades preservadas e aquelas que estão em prejuízo. A reabilitação como atividade clínica compreende uma intervenção que visa à adaptação do indivíduo após o processo de avaliação neuropsicológica, na qual se identificou déficits decorrentes de uma lesão ou algum tipo de transtorno. Conforme Haase (2014), a definição da reabilitação compreende o ensino de estratégias alternativas para o desenvolvimento de novas habilidades e a adaptação aos déficits, almejando garantir qualidade de vida ao paciente. O neuropsicólogo pode atuar na intervenção de diversas disfunções, tais como: autismo, deficiências físicas e mentais, dislexia, esquizofrenia, demências, ansiedade, epilepsia e quadros de transtornos adquiridos (COSENZA et al., 2008). A reabilitação neuropsicológica teve provavelmente seu início na Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial, tendo surgido com o objetivo de auxiliar a recuperação de soldados sobreviventes de lesões cerebrais. Já durante a Segunda Guerra Mundial, na União Soviética, Luria (1981) desempenhou o importante papel na reabilitação neuropsicológica de soldados com lesões cerebrais. O objetivo da reabilitação é melhorar a qualidade de vida dos pacientes e familiares, o funcionamento das funções cerebrais, ensino de habilidades e adaptação à nova realidade do paciente (FUENTES et al, 2007). O processo de reabilitação possibilita ao paciente e familiares envolvidos uma reflexão acerca de suas atuais possibilidades de ação, promovendo, assim, aceitação e atitude positiva. Figura 20. Reabilitação cognitiva. Fonte: <https://psicologosepsicologias.wordpress.com/2013/08/27/curso-pratico-em-reabilitacao-neuropsicologica-em- doentes-com-acidente-vascular-cerebral/>. 40 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES Existe uma diferença entre a reabilitação cognitiva e a reabilitação neuropsicológica. A neuropsicológica seria mais abrangente, envolvendo a reabilitação cognitiva, que visa, em termos mais simples, o melhor meio de lidar com as deficiências cognitivas geralmente resultantes de lesão neurológica. Enquanto a reabilitação neuropsicológica, além de trabalhar questões cognitivas, visa tratar alterações outras de comportamento ou emocionais, buscando melhor qualidade de vida dos pacientes. É importante salientar para o cliente que nem sempre é possível restaurar a função cognitiva prejudicada, mas é possível compensá-la, encontrando maneiras de minimizar os problemas cotidianos. Leitura que não pode faltar: FUENTES, D., MALLOY-DINIZ, L., F., DE CAMARGO, C.H.P. COSENZA, R. M. Neuropsicologia: teoria e prática.. Editora Artmed. 2014. 41 CAPÍTULO 2 A organização cerebral Nosso cérebro é formado por células separadas, neurônios e outras, que são, em termos de estrutura e funcionamento, independentes. Sendo o neurônio a unidade funcional básica do SNC – sistema nervoso central (GIL, 2007). Qualquer informação que chega ao cérebro é passada de neurônio para neurônio por meio de sinapses, regiões próximas ou de contato entre os neurônios. A principal característica dos neurônios é que eles são especialistas na comunicação intercelular. Neurônios Neurônios podem ser classificados de diversas formas, anatomicamente, podem ser divididos por seu tamanho e forma, que interferem em como transmitem a informação ou em como as processam. Mas eles não só transmitem informações, eles as recebem, transformam e geram sinais que serão enviados a outros neurônios. Anatomicamente, podemos classificar os neurônios em três tipos (GIL, 2007): » Multipolares – possuem muitos dendritos e um único axônio; » Bipolares – possuem um único dendrito de um lado e do outro lado um axônio; » Monopolares – possuem um único ramo, geralmente axônio. Figura 21. Anatomia do neurônio. 1. Dendrito. 2. Axônio. 3. Nódulos de Ranvier. 4. Terminal do axônio. 5. Bainha de mielina. 6. Corpo celular. 7. Núcleo. Fonte: <http://hanslodge.com/clipart/LTdozEjXc.htm>. 42 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES Gil (2007) explica que os dendritos são os responsáveis por receber as informações (estímulos), conduzindo os impulsos até o corpo celular (aferentes). Os neurônios também são classificados de acordo com sua função, podendo ser de três tipos: sensoriais, motores e interneurônios. Os neurônios sensoriais levam as mensagens recebidas por seus receptores sensoriais para o sistema nervoso central – SNC. Já os neurônios motores enviam as mensagens do sistema nervoso central – SNC para nossos músculos ou glândulas. Os interneurônios conectam neurônios entre si, ocorrendo apenas no próprio sistema nervoso central – SNC. Circuitos cerebrais São os sistemas que processam as informações, podendo ser do tipo processamento feedforward ou recorrente. O processamento feedforward é a forma mais clássica em que a informação entra e segue seu caminho sem retroalimentação (feedback). No processamento recorrente, haverá uma via de feedback ao menos. Sinapses É uma região mais especializada onde a célula pré-sináptica faz contato com outra célula, a pós-sináptica. Esse contato poderá ser elétrico ou químico. Figura 22. Sinapse. Fonte: <https://alzheimersnewstoday.com/2018/01/22/saving-brain-connections-by-targeting-synaptic-proteins-may-treat- alzheimers>. 43 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II Considerando nossas experiências, algumas conexões se fortalecem, atuando de forma mais independente diante dos outros circuitos. Essas conexões são chamadas de unidades funcionais básicas do cérebro, segundo o psicólogo canadense Donald Hebb (1904-1985). Na sua visão, Hebb considerava que esse seria um conjunto neuronal complexo capaz de manter a atividade cerebral de forma autônoma mesmo sem estímulos externos. Essa visão tornou-se uma maneira de explicar como as memórias humanas se formam e são mantidas por longos períodos de tempo (YALE, 2008). A palavra sinapse foi cunhada pelo neurocientista inglês Sir Charles S. Sherrington em 1897. Ela é uma combinação das palavras gregas syn (junto) e haptein (apertar). Essas modificações de vários tipos na eficiência da sinapse recebe o nome de plasticidade sináptica, tanto no fortalecimento como no enfraquecimento. Podendo ser uma plasticidade sináptica de curta duração, durando alguns minutos, ou ainda uma plasticidade de longa duração, durando dias ou a vida inteira (GIL, 2007). A sinapse química pode ser modificada de várias maneiras. Em termos de fortalecimento sináptico, as maneiras pelas quais uma sinapse química pode se fortalecer são as seguintes: » Quando há o aumento de neurotransmissores liberados pelo neurônio pré-sináptico; » Quando há o aumento do número de receptores no neurônio pós-sináptico; » Quando há ativação de tipos especiais de receptores pós-sinápticos que só se tornam ativos quando ocorre o fortalecimento sináptico; » E quando há redução no número de neurotransmissores absorvidos por outras células. Este tem sido um dos assuntos mais importantes nas últimas décadas, a neurociência tem buscado mecanismos bioquímicos e biofísicos que possam provocar essas modificações sinápticas. Sistema nervoso O nosso sistema nervoso é composto por sistema nervoso central (SNC) e sistema nervoso periférico. 44 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES O sistemanervoso central (SNC) é constituído pelo cérebro e outros componentes e pela medula espinhal. O sistema nervoso periférico é a parte do sistema nervoso que se encontra fora do sistema nervoso central, ele é constituído por fibras (nervos) e órgãos terminais. Esse sistema faz a conexão entre o SNC e outras partes do nosso corpo. Sistema nervoso central Figura 23. Cérebro. Fonte: <https://www.thoughtco.com/central-nervous-system-373578>. O cérebro é a parte mais volumosa e desenvolvida do encéfalo. É dividido em dois hemisférios que são conectados pelo corpo caloso. É possível identificar duas substâncias em sua constituição interna, uma massa cinzenta que forma o córtex cerebral e uma massa branca que fica no centro. É no córtex que estão agrupados os neurônios. É uma fina camada que cobre o cérebro, em dobras que formam fissuras e sulcos. Figura 24. Córtex cerebral. Fonte: https://psych-brain-trust.wikispaces.com/Cerebral+Cortex. 45 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II É dividido em quatro lóbulos: frontal, parietal, occipital e temporal, assemelhando-se a um mosaico onde diferentes regiões têm diferentes conexões e funções. Existe uma especialização funcional das áreas do córtex, mas não em termos absolutos, pois diferentes áreas contribuem para a realização de uma mesma função. Suas diferentes regiões estão envolvidas em diferentes funções cognitivas e comportamentais. Desta forma, fala-se em sistemas funcionais e não em centros. Figura 25. Lobos cerebrais. Fonte: <https://www.verywellmind.com/the-anatomy-of-the-brain-2794895>. O cérebro é composto por bilhões de células nervosas, interligadas e responsáveis pelo controle das funções mentais. Além dos neurônios, o cérebro contém outras células como as da glia (células de sustentação), os vasos sanguíneos e órgãos secretores (LURIA, 1981). Possui três componentes em sua estrutura: os hemisférios cerebrais acima, o cerebelo, menor e com formato meio esférico, abaixo à direita, e o tronco cerebral no centro. No tronco cerebral, temos a medula alongada ou bulbo raquiano (o alargamento central) e o tálamo (entre a medula e os hemisférios cerebrais). O cérebro é uma estrutura bastante complexa, e sua superfície é dividida em lobos que estão relacionados às funções desempenhadas pelo nosso corpo. Lobo frontal: localizado na parte da frente do cérebro (testa), é a região onde acontece o planejamento de ações e movimento, bem como o pensamento abstrato. Incluídos no lobo frontal, estão o córtex motor e o córtex pré-frontal. O córtex motor controla e coordena a motricidade voluntária, sendo que o córtex motor do hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo do indivíduo, enquanto que o do hemisfério esquerdo controla o lado direito. A aprendizagem motora e os movimentos de precisão são executados pelo córtex pré-motor. A decisão de quais sequências de movimento usar e sua ordem é feita pelo córtex-frontal, localizado na parte da frente do lobo frontal. 46 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES Suas funções incluem o pensamento abstrato e criativo, a fluência do pensamento e da linguagem, respostas afetivas e capacidade para ligações emocionais, julgamento social, vontade e determinação para ação e atenção seletiva. Figura 26. Lobo frontal. Fonte: <https://pt.lifeder.com/cerebro-humano-funcoes-partes/>. Lobo parietal: localizado na região superior do cérebro, é constituído por duas subdivisões, a anterior e a posterior. A primeira, também chamada de córtex somatossensorial, possibilita a percepção de sensações como o tato, a dor e o calor. Por ser a área responsável por receber os estímulos obtidos do ambiente exterior, representa todas as áreas do corpo humano. É a zona mais sensível, logo, ocupa mais espaço do que a zona posterior. A zona posterior é uma área secundária e analisa, interpreta e integra as informações recebidas pela anterior, que é a zona primária, permitindo ao indivíduo localizar-se no espaço, reconhecer objetos pelo tato, dentre outros. Figura 27. Lobo parietal. Fonte: <https://pt.lifeder.com/cerebro-humano-funcoes-partes/>. Lobo temporal: encontra-se localizado na parte acima das orelhas e com a função principal de processar os estímulos auditivos. Suas informações são processadas por 47 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II associação. Quando a área auditiva primária é estimulada, os sons são produzidos e enviados à área auditiva secundária, que interage com outras zonas do cérebro, atribuindo um significado e, assim, permitindo ao indivíduo reconhecer o que está ouvindo. Figura 28. Lobo temporal. Fonte: <https://pt.lifeder.com/cerebro-humano-funcoes-partes/>. Lobo occipital: está localizado na parte inferior do cérebro, coberto pelo córtex cerebral, tem como função processar os estímulos visuais, sendo conhecidos por córtex visual. Possui várias subáreas que processam os dados visuais recebidos do exterior, depois de terem passado pelo tálamo, uma vez que há zonas especializadas para a visão da cor, do movimento, da profundidade, da distância e assim por diante. Depois essas informações são direcionadas para a área de visão secundária, onde são comparadas com dados anteriores, permitindo, assim, ao indivíduo identificá-las. O significado do que vemos é dado, porém, por outras áreas do cérebro, que se comunicam com a área visual, considerando as experiências passadas e nossas expectativas. Isso faz com que o mesmo objeto não seja percepcionado da mesma forma por diferentes indivíduos. Figura 29. Lobo occipital. Fonte: <https://pt.lifeder.com/cerebro-humano-funcoes-partes/>. 48 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES As áreas do cérebro, portanto, estão relacionadas a funções do nosso corpo. De forma reduzida, seriam basicamente essas relações: Áreas sensório-motoras: » Função relacionada à visão: lobo occipital. » Função relacionada à audição: lobo temporal. » Funções somestésicas: lobo parietal. » E função motora: lobo frontal. O encéfalo possui outros componentes: Gânglios (ou núcleos) da base: ficam na base do encéfalo, conectados ao córtex, ao tálamo e a outras áreas. Estão associados a várias funções, como a motora e funções de aprendizagem (GIL, 2007). O diencéfalo é formado pelo tálamo, que é constituído por núcleos. É o principal transmissor de sinais sensoriais entre os receptores e o córtex. O diencéfalo também é formado pelo hipotálamo, que é responsável por controlar diversas funções internas do corpo, como a nossa temperatura, fome, sede etc. O sistema límbico é formado pela amígdala, responsável pelas emoções, e pelo hipocampo, responsável pela memória de curta duração (LURIA, 1981). A medula espinhal é quem conduz as vias nervosas no encéfalo e também possui a função de coordenar algumas atividades reflexas. Sistema nervoso periférico O sistema nervoso periférico é uma malha ramificada de fibras nervosas: as aferentes e eferentes. As aferentes são as que transmitem informações sensoriais para a medula espinhal, e as eferentes são as que transmitem os sinais motores do SNC para a periferia. 49 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II Figura 30. Processamento SNC. SISTEMA NERVOSO CENTRAL – SNC VIA AFERENTE (FIBRA AFERENTE OU SENSITIVA) VIA EFERENTE (FIBRA EFERENTE OU MOTORA) RECEPTOR EFETOR Fonte: Própria Autora. 50 CAPÍTULO 3 Avaliação neuropsicológica A avaliação neuropsicológica tem por objetivo a identificação de distúrbios das funções superiores, produzidos por alterações cerebrais que desencadeiam respostas comportamentais. Esta modalidade de avaliação procura esclarecer a existência de alguma patologia orgânica que possa estar desencadeando a sintomatologia de um quadro específico e investigar também as alterações funcionais e estruturais das funções cognitivas acarretadas por patologias psiquiátricas. Abrangendo, deste modo, objetivos como o diagnóstico diferencial, a identificação do comprometimentodas funções cognitivas e a avaliação do grau de deterioro apresentado pelo portador de doença mental (BARDAGI, et al., 2015). A avaliação neuropsicológica engloba a investigação da capacidade intelectiva do paciente, com o intuito de mensurar as funções cognitivas e o impacto de problemas psicopatológicos sobre o funcionamento cognitivo. As escalas e testes utilizados nas avaliações neuropsicológicas são determinados por alguns aspectos como a função a ser avaliada, idade da pessoa, objetivo da avaliação, dentre outros. Em caso de dúvida quanto aos principais requisitos técnicos dos testes psicológicos, oriente-se pelas Resoluções CFP No 25/2001 e CFP No 012/2002, editadas pelo Conselho Federal de Psicologia, bem como suas atualizações (Conselho Federal de Psicologia <https://site.cfp.org.br/legislacao/resolucoes-do-cfp/>). Figura 31. Avaliação neuropsicológica. Fonte: <http://www.avaliacaopsicologica.com/?attachment_id=2479>. 51 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II A avaliação neuropsicológica contribui para planejamento do tratamento e acompanhamento da evolução do quadro do paciente em relação aos tratamentos medicamentoso, cirúrgico e reabilitação. Em termos de instrumentos auxiliares de investigação utilizados nesse processo, citaremos alguns exemplos mais utilizados, sua função e seu público-alvo. Utilizamos testes psicométricos e neuropsicológicos organizados em baterias fixas ou flexíveis. As baterias fixas são aplicáveis em pesquisas, em protocolos específicos para investigação de uma população particular. As baterias flexíveis são mais apropriadas para a investigação clínica, pois estão mais voltadas para as dificuldades específicas do paciente. Considerando a variação dos testes neuropsicológicos, tempo de aplicação e indicação, recomendamos organizar um protocolo básico com a possibilidade de complementar a avaliação com outros testes sobre as funções mais comprometidas, a fim de realizar um exame mais detalhado (BARDAGI, et al., 2015). A sensibilidade e a especificidade dos testes para as funções a serem examinadas devem ser uma escolha cuidadosa e pensada. É necessário que o profissional interessado nessa área esteja ciente da complexidade de cada função e das formas de avaliá-las por meio de testes e aprofundar seus estudos sobre o funcionamento cerebral e as diversas patologias do SNC. Mais além, estudos sobre as epilepsias e as demências têm muito contribuído para a investigação da sensibilidade e especificidade dos testes neuropsicológicos. Para que o neuropsicólogo compreenda e interprete os distúrbios das atividades nervosas superiores, é necessário conhecer as concepções atuais sobre localização de funções no sistema nervoso central. Segundo o conceito de sistema funcional completo empregado por Luria (1981), as atividades nervosas complexas dependem do desempenho integrado de diversas áreas corticais e subcorticais do cérebro. A contribuição de cada região é específica, de modo que sua lesão provocará alteração específica da atividade nervosa em estudo. Como uma mesma região pode estar integrada a diversos sistemas funcionais, a lesão interferirá em várias atividades nervosas, afetando-as de uma maneira peculiar. A investigação neuropsicológica abrange grande variedade de itens relativos à atividade nervosa superior. Luria (1981) salienta que cada área cerebral traz uma contribuição altamente especializada que assegura o desempenho de todo sistema funcional. Abaixo temos uma breve sistematização do exame neuropsicológico de avaliação das funções entendidas como superiores: 1. Entrevista: analisa-se o estado de alerta, a atenção, a orientação no espaço e no tempo, a ideia sobre seu estado de saúde, a presença de perseveraçâo, fatigabilidade e o comportamento do paciente. Desorientação no tempo 52 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES e no espaço acompanham distúrbios do nível de consciência de pouca intensidade e ocorrem também nas lesões corticais difusas, sendo sinais iniciais das demências corticais. Dentre as lesões corticais focais, a desorientação é frequente em lesões dos lobos frontais. 2. Avaliação da dominância hemisférica: mecanismos genéticos determinam que uma parcela das pessoas seja destra enquanto uma minoria é sinistra (canhota). 3. Avaliação da função motora: distúrbios na organização dinâmica geralmente refletem lesões das divisões corticais anteriores. 4. Avaliação da organização acústico motora: distingue altura dos sons, repetindo-os ou sinalizando-os, identifica melodias simples. Dificuldade em discernir altura dos sons ocorre em lesões das regiões temporais. 5. Avaliação das funções sensitivas: análise de alguns testes que permitem identificar distúrbios de funções sensitivas que ocorrem em lesões encefálicas. 6. Avaliação da percepção visual: inicia-se pela análise neuro-oftalmológica para que distúrbios dos aspectos mais elementares da função visual não prejudiquem ou invalidem as conclusões da avaliação neuropsicológica. 7. Avaliação da fala receptiva: lesão das áreas secundárias do córtex auditivo, no lobo temporal esquerdo, reduz a capacidade de discriminação de fonemas acusticamente semelhantes. 8. Avaliação da fala expressiva: observa a pronúncia, clareza e a intensidade dos sons. Quando houver dificuldade, o paciente pode tentar com um espelho. Ao auxiliar o paciente a articular melhor, o examinador tem oportunidade de descobrir quais os distúrbios articulatórios predominantes. 9. Avaliação da escrita e da leitura: a análise é muito comprometida em lesões temporais pela impossibilidade de discriminação auditiva correta dos fonemas. O paciente não consegue determinar sequer o número de letras das palavras. 10. Avaliação das habilidades de cálculo aritmético: reconhecer símbolos numéricos. Escreve e lê algarismos arábicos e romanos. Diz o número de objetos que lhe foram apresentados. 53 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II 11. Avaliação do processo mnéstico: repetição de conjunto de palavras. Informa que, como serão muitas palavras, recordar-se delas será difícil na primeira vez. A reprodução imediata encontra-se bastante alterada quando o paciente está sonolento ou confuso, refletindo comprometimento funcional ou orgânico das estruturas responsáveis pela manutenção do tono cortical. 12. Avaliação do processo intelectual: descreve uma gravura. Forma uma estória em quadrinhos na sua sequência lógica. Em lesões cerebrais generalizadas, como na demência de Alzheimer. No tocante aos distúrbios de aprendizagem, como existem diversos tipos de distúrbios, nos concentraremos neste momento nas afasias. Afasia é uma perturbação da linguagem resultante de lesão ou disfunção cerebral. Muitos autores, em função da variabilidade, da complexidade e do número incontável de sistemas para classificar as funções, adotam uma dicotomia para facilitar a classificação, como é o caso das afasias. 1. Afasia expressiva ou motora. 2. Afasia receptiva ou sensorial. Portanto, no processo da linguagem, consideramos os seguintes aspectos: » Fonética: responsável pelo processo que governa a produção e percepção dos sons falados. » Fonologia: permite a construção de palavras, é um conjunto de regras específicas da linguagem pelas quais os sons são representados, permitindo a construção de palavras. » Semântica: permite atribuir um significado às palavras ou nomes. » Sintaxe: permite utilizar as palavras, já com um conhecimento do seu significado e, assim, construir frases. Quadro 2. Tipos de afasias. PARÁFRASE Substitui uma palavra por uma frase. PARAFASIA FONÉTICA Distorção na produção de fonemas. PARAFASIA FONÊMICA Trocas, omissões e acréscimos de fonemas. PARAFASIA MORFÊMICA Trocas de morfemas gramaticais das palavras. PARAFASIA FORMAL Troca que gera outras palavras na língua. PARAFASIA VERBAL Não há relação entre as trocas. PARAFASIA SEMÂNTICA Troca de vocábulo por outro dentro da mesma relação semântica.54 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES PARÁFRASE Substitui uma palavra por uma frase. CIRCUNLÓQUIO Dificuldade em acessar o tema principal. AGRAMATISMO Omissão de elementos da frase, alteração sintática. NEOLOGISMO São sequências fonêmicas que obedecem às regras da língua, mas não fazem sentido. ESTEREOTIPIA Repetições involuntárias perseverativas de determinada palavra ou expressão. PERSEVERAÇÃO Manter a resposta anterior para estímulos distintos. SUPRESSÃO Ausência total da comunicação oral e gráfica. Fonte: Adaptado pela autora (GIL, 2007). Já no caso das demências, a avaliação neuropsicológica tem por objetivo colaborar no diagnóstico diferencial entre demências, depressão e deficiência de memória associada à idade. Por meioda avaliação, é possível determinar o nível atual de funcionamento, as características predominantes dos quadros demenciais (MADER, 1996). Demências consistem em distúrbios cognitivos, sensório-motores, das funções motoras e personalidade, suficientemente importantes para comprometer o funcionamento social e laboral do paciente. O diagnóstico é principalmente sintomatológico, e a neuropsicologia tem uma participação importante neste. Dentre os testes mais sensíveis para detectar alterações precoces, estão: » Aprendizagem de listas de palavras. » Figura de Rey (cópia e memória). » Trail Making, Weigl Color Form Sorting Test. » Fluência verbal (semântica e categorias). » Semelhanças do WAIS R. As alterações das funções cognitivas relacionadas às epilepsias motivaram investigações das características mais predominantes (VIEIRA; FAY; NEIVA-SILVA, 2007). Atualmente temos poucos testes neuropsicológicos traduzidos e publicados no Brasil. A elaboração de um material próprio para nossa realidade pode ser bastante útil para a compreensão dos problemas específicos da população brasileira, mas dificultaria a análise desses resultados com base na literatura internacional. Quando o objetivo é o diagnóstico na clínica, é mais adequado utilizar técnicas bem respaldadas na literatura, mesmo que estrangeira, até que estejam disponíveis padronizações mais apropriadas. Como protocolo básico, é indicada uma composição de testes de orientação, atenção, percepção, inteligência geral, raciocínio, memória verbal e visual, de curto e longo prazo, testes de flexibilidade mental, linguagem e organização visuoespacial. Tal protocolo deve oferecer ao profissional um cenário amplo do funcionamento 55 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II cognitivo do paciente para, posteriormente, aprofundar sua avaliação com testes complementares. O resultado deve fornecer um perfil neuropsicológico do paciente, que, combinado à avaliação dos aspectos neurológicos, psicológicos e sociais, permitirá a orientação do paciente ou da família sobre o melhor aproveitamento de suas potencialidades (VIEIRA; FAY; NEIVA-SILVA, 2007). Conforme observamos no decorrer da história da neuropsicologia, os métodos utilizados variam de acordo com a formação de base do profissional e os locais de treinamento. Os materiais disponíveis, na maioria em língua inglesa, abrem um amplo espectro e devem ser selecionados de acordo com as necessidades do examinador. Este também deve observar as particularidades de cada teste quanto a sua sensibilidade e especificidade, considerar os aspectos culturais e limitações do método utilizado. Em termos gerais, compreendemos que não existem testes especificamente neuropsicológicos, mas o método de elaborar hipóteses e inferências sobre os testes é que é neuropsicológico. Partindo desta ideia, conclui-se que o mais importante é avaliar e como avaliar. A avaliação neuropsicológica não é uma mera aplicação de testes, ela é a a interpretação cuidadosa dos resultados associada à análise da situação atual do sujeito e contexto em que vive, com base nisso, é possível sugerir um diagnóstico e elaborar um tratamento (VIEIRA; FAY; NEIVA-SILVA, 2007). Alguns testes comumente utilizados serão descritos abaixo, bem como sua indicação clínica: » Escalas Weschler – para avaliação geral de inteligência, possibilitam a obtenção de três medidas: quociente intelectual total (nível geral da capacidade cognitiva e de adaptação do indivíduo), quociente verbal e quociente de execução, que representam as modalidades de raciocínio e expressão de caracteres verbais e não verbais. » A escala de inteligência Wechsler para crianças (WISC III) – indicada para avaliação intelectual de pessoas na faixa etária entre 6 e 16 anos, recebeu parecer favorável do CFP. Da mesma forma, a escala Wechsler para adultos (WAIS III) também teve avaliação favorável. » BPR-5, R1 e G-36 – para avaliações de níveis de inteligência. R1 e G-36 são utilizados para a avaliação não verbal da inteligência e também para pessoas com baixo nível de escolaridade. » Teste D-2 – avaliação de outras funções cognitivas, específicas de atenção e concentração, como o que obteve parecer favorável para sua aplicação 56 UNIDADE II │ NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES pelo Conselho Federal de Psicologia (2004). Mostra-se bastante confiável e, segundo as informações contidas no manual do teste, pode ser utilizado entre a faixa etária de 9 a 52 anos. » Teste de Wisconsin – avaliação do comportamento executivo, especificamente flexibilidade e planejamento. Este teste, mais recentemente, recebeu parecer favorável do CFP. » Teste BPR-5 (bateria de provas de raciocínio) – forma A e forma B, composto por uma bateria de provas de raciocínio que teve sua primeira edição em 2000. Cabe ressaltar a sua utilidade na estimativa do funcionamento cognitivo geral e das habilidades do sujeito em cinco áreas específicas: raciocínio abstrato, verbal, mecânico, espacial e numérico. Sua faixa de aplicação concentra-se em estudantes de sexta a oitava séries do ensino fundamental para a forma A, e ensino médio e superior para a forma B. » Teste R-1 – caracteriza-se por ser um teste não verbal de inteligência, de investigação do raciocínio abstrato, atualmente tendo o seu uso expandido para a população em geral. Este teste abrange uma ampla faixa etária, sendo indicado para analfabetos e escolares até o ensino médio. » Teste G-36 – avalia também a inteligência não verbal. Assim como o teste R1, o G-36 mede o raciocínio abstrato e oferece mais uma alternativa no uso com pessoas a partir da quinta série do ensino fundamental até o nível universitário. » Teste dos relógios – avalia o fator geral de inteligência e dispõe de duas formas, B e C. A forma B é destinada para pessoas até a quinta série do ensino fundamental, incluindo aquelas analfabetas. Já a forma C é dirigida para pessoa a partir da sexta série do ensino fundamental até curso superior completo. Tal instrumento também está sendo utilizado por alguns profissionais para a investigação de funções específicas como a memória visual e imediata. Destaca-se como um teste de inteligência que pode ser utilizado com pessoas analfabetas. » Teste de atenção concentrada (AC) – também se encontra validado para a população brasileira, tendo recebido parecer favorável pelo Conselho Federal de Psicologia (2003). Além disso, na avaliação neuropsicológica, principalmente nos casos em que existe suspeita de quadros demenciais, estão sendo empregadas tarefas cognitivas como o digit span, em que 57 NEUROPSICOLOGIA E SUAS INTERFACES │ UNIDADE II são verbalizados ao paciente vários números e, após alguns segundos, solicitado que os repita. Outra versão conhecida é a tarefa de usar palavras no lugar de números. Outras técnicas são empregadas na investigação das funções intelectivas, principalmente para o diagnóstico de demência, a Escala de Avaliação Cognitiva Minimental (Mini Exame do Estado Mental – MMSE). Dois instrumentos utilizados para avaliação e diagnóstico de demências na área de saúde mental foram traduzidos e validados, a seguir: 1. Avaliação das atividades de vida diária – Índicede Katz, que mede a capacidade e prejuízo funcional nas atividades do dia a dia; e 2. RMBPC – Revised Memory and Behavior Problems Checklist – para investigação de memória e comportamento. Ambos são associados a outras técnicas científicas, como a neuroimagem, no intuito de auxiliar na avaliação do tipo de assistência e tratamento que o paciente necessita, bem como a presença de distúrbios do comportamento e o impacto destes aos cuidadores do paciente, ou seja, um diagnóstico mais preciso e intervenções eficazes. Leitura que não pode faltar: DE SALLES, J,F, HAASE, V, G, MALLOY-DINIZ, L, F. (Org). Neuropsicologia do Desenvolvimento: Infância e Adolescência. Editora Artmed. 2015. 58 UNIDADE IIIDESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO O estudo da neuropsicologia do desenvolvimento constitui-se um amplo campo de pesquisa clínica e teórica que visa à compreensão das relações entre o cérebro e o desenvolvimento. Nos últimos anos, particularmente na última década, houve um grande avanço no conhecimento da relação entre o cérebro e as funções mentais, impulsionado pelo avanço das técnicas de neuroimagem e do refinamento da avaliação neuropsicológica. Com a neuroimagem, ampliou-se a possibilidade de obtenção de imagens funcionais do cérebro, por meio da Ressonância Nuclear Magnética Funcional (RNMf), de detecção de mudanças metabólicas cerebrais, da Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET), das mudanças do fluxo sanguíneo cerebral, da Tomografia por Emissão de Fóton Único (SPECT), e na delimitação de quais regiões são ativadas com diferentes tarefas cognitivas e mesmo da flutuação da atividade elétrica cerebral mediante tarefas de natureza cognitiva e comportamental simultaneamente a registros neurofisiológicos com técnicas como os Potenciais Evocados Cognitivos (VIEIRA; FAY; NEIVA-SILVA, 2007). As técnicas são instrumentos também limitados, pois alguns aspectos, como a memória, tornam sua avaliação dificultada. Neste contexto, os conhecimentos da neuropsicologia do desenvolvimento aliam-se às avaliações qualitativas: entrevistas, baterias, testes neuropsicológicos, questionários e, sobretudo, depende do trabalho multidisciplinar entre médicos, psicólogos, fisioterapeutas e outros. É importante, ainda, ressaltar que o estudo neuropsicológico sofre interferências de variáveis múltiplas, muitas dessas que estão além da natureza neurobiológica, incluindo fatores sociais e culturais, variáveis estas que, embora múltiplas, podem ser determinantes na modificação das respostas cerebrais nas várias fases do ciclo do desenvolvimento infantil. A neuropsicologia insere-se em uma perspectiva evolutiva maturacional, na qual a expressão clínica de lesões e disfunções difere de acordo com as fases do crescimento neuronal, mielinização e maturação sequencial das várias regiões cerebrais. 59 CAPÍTULO 1 Da gestação à idade adulta Muitas mudanças ocorrem na pessoa em termos de desenvolvimento neuropsicológico desde o nascimento até a fase adulta e envelhecimento. Cada ciclo da vida tem suas particularidades. Geralmente, quando os pais percebem alguma diferença no desenvolvimento dos seus filhos, como dificuldades escolares, mudança de comportamento e dificuldade de interação social, logo tendem a procurar um profissional que possa ajudar a entender o que está acontecendo com o filho para que se desenvolva da melhor forma. É preciso entender de antemão que cada criança tem sua particularidade e ritmo, mas que existe também uma expectativa média a qual devemos “cumprir” em termos evolutivos de desenvolvimento em cada fase de vida. Em crianças, recebe o nome de desenvolvimento neuropsicomotor. Vários autores e teorias já foram desenvolvidas explicando este funcionamento. Não apenas informações do parto são importantes, mas as gestacionais, familiares e genéticas também. Tudo influencia. É comum, na infância, que os pais sejam as principais referências que procuram por atendimento para os filhos com alguma dificuldade apresentada. A escola também é um colaborador neste momento. As síndromes genéticas podem ser evidentes nas primeiras fases da vida. Porém, outras patologias só são passiveis de observação após a aquisição da fala e da marcha, quando os atrasos e dificuldades podem ser percebidos. Vale lembrar que a aprendizagem está diretamente relacionada à estimulação, partindo do pressuposto de que as crianças aprendem por imitação (SALLES; HAASE; MALLOY-DINIZ, 2015). Portanto, crianças que ficam muito sozinhas e interagem pouco com outras crianças ou adultos podem apresentar comprometimentos importantes na aprendizagem e na funcionalidade. O propósito da avaliação é buscar formas de ajudar o desenvolvimento da criança que apresenta dificuldades, não apenas identificar qual é a dificuldade. Pensar em alternativas estratégicas e desenvolver um modelo que seja adequado às necessidades apresentadas. Por isso é de suma importância que os pais, a escola e os profissionais estejam envolvidos no cuidado dessa criança. 60 UNIDADE III │ DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO É necessário também deixar claro que cada caso é um caso, vai demandar uma avaliação acurada e estabelecer o que poderá ser feito e melhorado, pois sabemos que, até os 18 anos, nós dispomos de uma plasticidade cerebral, cujo prognóstico em relação à evolução da dificuldade pode ser positivo. Plasticidade cerebral ou neuroplasticidade é a nossa capacidade de flexibilizar, remodelar e adaptar formas de pensamento, tanto em nível estrutural quanto funcional, de acordo com as diferentes demandas do ambiente (SALLES; HAASE; MALLOY-DINIZ, 2015). Já em termos neuroquímicos, são as possibilidades de se criar novas sinapses, obtendo, assim, novos conhecimentos e memórias. Por isso a estimulação neuropsicológica é sempre recomendada, mesmo entendendo que as respostas ao tratamento sejam individuais, variando de pessoa para pessoa. Os determinantes de disfunção neuropsicológica na infância sofrem influência de fatores genéticos e estruturais, áreas cerebrais envolvidas com o comportamento, a extensão das disfunções, fatores de neuroplasticidade e os relacionados ao paradigma da especialização hemisférica (SALLES; HAASE; MALLOY-DINIZ, 2014). O desenvolvimento não corresponderia apenas à maturação do sistema nervoso, mas possibilitaria responder ao meio, com potencial para assimilar e estruturar novas informações. Dessa forma, no recém-nascido, as estruturas cerebrais do sistema nervoso central mais envolvidas nos padrões de comportamento não estão localizadas nos hemisférios cerebrais, mas nas estruturas subcorticais. A atividade motora no período neonatal encontra-se organizada em sequências de ativação dos neurônios, definindo a conduta motora de acordo com as respostas reflexas filogenéticas (SALLES; HAASE; MALLOY-DINIZ, 2015). Estes reflexos incluem o reflexo de Moro, o de sucção, preensões e marcha reflexa. À medida que a criança vai se desenvolvendo, padrões mais organizados de atividade motora vão se sobrepondo aos anteriores. Por volta do 6o mês de vida, a criança se desenvolve mais em termos motores, principalmente em relação à preensão manual e ao equilíbrio estático, maior integração associativa entre os estímulos visuais, auditivos e somestésicos. Só a partir dos quatro anos, com a maturação da região pré-frontal, a criança é capaz de programar as atividades com maior precisão. Nessa fase, há outro grande salto no desenvolvimento das áreas associativas específicas e das conexões inter-hemisféricas do córtex motor e sensorial, mas é a partir do décimo ano de vida, que se observa o predomínio das funções simbólicas sobre as funções motoras, e o pensamento abstrato torna-se independente de uma referência física ou concreta da experiência (SALLES; HAASE; MALLOY-DINIZ, 205). 61 DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO │ UNIDADE III Figura 32. Desenvolvimento infantil. Fonte: <http://mundodapsi.com/fatores-importantes-da-primeira-infancia/>. Em relação aodesenvolvimento da especialização hemisférica, observou-se que a lateralidade de função no cérebro se desenvolve com o tempo e parece ser totalmente estabelecida na adolescência. Pesquisas para o desenvolvimento de entrevistas diagnósticas têm possibilitado a padronização da coleta de informações, tanto no que se refere aos dados colhidos quanto à maneira de se fazer, no intuito de eliminar vieses de uma investigação não sistemática (GORENSTEIN; WANG; HUNGERBUHLER, 2016). A maioria das entrevistas diagnósticas de uso na infância e adolescência foi desenvolvida para utilização em estudos epidemiológicos específicos, e algumas bastante importantes não apresentam versão em português, porém as duas entrevistas mais utilizadas traduzidas para o português e com estudos de validação são o K-SADS (Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia for School-Aged Children) e o DAWBA (Development and Well-Being Assessment). A versão traduzida para o português da K-SADS-PL pode ser obtida por e-mail com a responsável por sua tradução e validação (Heloísa Brasil: heloisahelenabrasil@ gmail.com). Hoje há consenso na literatura de que o cérebro em desenvolvimento é plástico, ou seja, durante o desenvolvimento do cérebro, é possível haver uma reorganização de padrões e sistemas de conexões em vias que o cérebro maduro não pode, havendo assim uma consequência importante, ou seja, a de que o cérebro em desenvolvimento é menos vulnerável aos efeitos da lesão. Entretanto, essa capacidade de organização declina com a maturação, havendo perda na flexibilidade e na capacidade de o sistema se reorganizar. 62 UNIDADE III │ DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO Figura 33. Desenvolvimento nos ciclos de vida. Fonte: <http://mundodapsi.com/desenvolvimento-saudavel/>. Neste sentido, entende-se que os avanços da medicina e a melhoria na qualidade de vida das pessoas têm levado ao aumento do número de pessoas idosas no mundo. Assim, o estudo dos fatores envolvidos no processo de envelhecimento vem recebendo maior atenção dos pesquisadores de diversas áreas da saúde. A neuropsicologia tem contribuído de modo significativo, trazendo importantes contribuições para compreensão da cognição humana no contexto do envelhecimento normal e dos distúrbios neuropsicológicos correlacionados com esta faixa etária. As pesquisas em neuropsicologia na área do envelhecimento buscam estabelecer os critérios para diferenciar o envelhecimento cognitivo saudável das neuropatologias prevalentes em idosos. Exames conseguem atualmente demonstrar que existe redução considerável do volume do encéfalo com a idade. No passado, atribuía-se a redução de volume à diminuição do número de neurônios, mas já se sabe que, ao longo do envelhecimento, o número de neurônios é praticamente constante e que, portanto, esse não é o principal responsável pela redução de volume do encéfalo, para a qual a diminuição do volume da substância branca contribui bastante (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014). A memória operacional e a memória recente são afetadas com o envelhecimento, mas também são comprometidas por doenças como a de Alzheimer e outras neurodegenerativas e pelo estresse, embora o modo de comprometimento seja diferente. São sistemas com grande plasticidade, com intenso consumo de energia e, talvez, por esses motivos sejam vulneráveis a vários fatores que se sobrepõem com o passar dos anos. 63 DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO │ UNIDADE III Na nossa prática clínica, é extremamente importante que os pacientes e familiares sejam devidamente informados do seu atual quadro e da existência de declínio com o envelhecimento. Contudo, qualquer distúrbio deve ser avaliado cuidadosamente. O aumento de informação deverá tornar possível a distinção cada vez mais acurada entre o fisiológico e o patológico e, muito provavelmente, a atuação terapêutica sobre ambos os mecanismos. 64 CAPÍTULO 2 Neuropatologias e síndromes neurológicas Os avanços nas pesquisas envolvendo genética têm trazido novas perspectivas em termos de conhecimento, desenvolvimento e intervenções relacionadas às doenças com fatores genéticos associados. Os resultados têm permitido encontrar associação entre genes específicos e psicopatologias, mesmo que, em muitos casos, os resultados obtidos em um determinado grupo de pessoas não tenham sido repetidos em outros grupos de indivíduos, dificultando a sua generalização (ROSSANO, 2004). A ideia tem caminhado no sentido de encontrar genes que possam contribuir para a variância genética em características quantitativas, neste aspecto, utiliza-se de predisposições em termos de probabilidade de ocorrência e deixa-se de lado a ideia de determinação comportamental. A técnica utilizada nessas pesquisas que relacionam genes com características utiliza-se de marcadores genômicos, ou seja, são indicadores dos genes relacionados às características pesquisadas. Atualmente, os resultados de pesquisas tendem a não ser mais deterministas, em contrapartida ao que era feito anteriormente, quando se acreditava estar encontrando os genes para cada aspecto ou problema pesquisado, como o gene do alcoolismo. Hoje fala-se em tendência, predisposição no que se refere a estes aspectos, são pesquisas que relatam genes associados às características. Neste sentido, apontaremos algumas patologias e síndromes que têm em sua etiologia alguma relação com a genética. As mortes relativas a demências mais do que duplicaram entre 2000 e 2016, tornando-se a quinta causa principal de mortes globais em 2016, em comparação com 2000, quando era a 14ª. (Organização Mundial de Saúde). Entre as 10 maiores causas de morte no mundo estão incluídas a doença de Alzheimer e outras demências (WHO, 2018). <http://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/the-top-10-causes-of- death>. 65 DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO │ UNIDADE III Segue um quadro resumindo os critérios diagnósticos para a demência, de acordo com a CID 10: Quadro 3. Critérios diagnósticos para demência – CID10. Critérios da CID 10 para diagnóstico de Demência A – Evidência de demência, de um nível especificado de gravidade, baseado em: A1 – Prejuízo de memória A2 – Declínio de habilidades intelectuais (pensamento, raciocínio, fluxo de ideias) A1 e A2 causam prejuízo no funcionamento das atividades diárias B – Ausência de distúrbio de consciência C – Deterioração no controle emocional, no comportamento social ou não motivação D – A1 e A2 estão presentes por 6 meses Fonte: Classificação Internacional de Doenças – CID10. Alzheimer A doença de Alzheimer é uma patologia neurodegenerativa muito frequentemente associada à velhice, apresentando-se por meio de sintomas cognitivos e neuropsiquiátricos. Tais sintomas evidenciam deficiência progressiva e incapacitação. Geralmente, as primeiras deficiências aparecem em relação à memória recente, mas as memórias mais remotas costumam permanecer preservadas, dependendo do estágio da doença. Envolvendo ainda dificuldades na atenção, funções cognitivas, fluência verbal, lucidez, fraqueza motora e outras funções que vão sendo comprometidas conforme o avanço do quadro. Figura 34. Alzheimer e memória. Fonte: <https://neurologiamt.com.br/blog/2017/06/13/doenca-de-alzheimer/>. 66 UNIDADE III │ DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO São percebidos sintomas de alucinação, irritabilidade, depressão, hiperatividade e agressividade, tais sintomas costumam afetar uma porcentagem considerável de indivíduos que desenvolvem a doença. A associação da doença de Alzheimer e a síndrome de Down possibilitou uma descoberta importante sobre um dos genes envolvidos, o primeiro gene de Alzheimer no cromossomo 21, outro cromossomo participante da síndrome de Down. Os indivíduos com síndrome de Down apresentam um envelhecimento precoce e quase todos desenvolvem a doença de Alzheimer. Quadro 4. Principais características neuropsicológicas da doença de Alzheimer. Aspectosqualitativos da testagem Paciente colaborativo. Tenta, mas erra. Esquece que esquece. Repete comentários. Inteligência geral (QI) Queda no QI em relação ao QI pré-mórbido; QI de performance mais comprometido do que o QI verbal. Memória Principal característica da doença: comprometimento da memória episódica (codificação, armazenamento) com gradiente temporal; comprometimento moderado da memória semântica (fluência verbal para categorias). Atenção Atenção dividida comprometida. Fôlego atencional geralmente baixo. Funções executivas Pode haver comprometimentos precoces no julgamento, tomadas de decisão, raciocínio abstrato, resolução de problemas. Linguagem Erros de nomeação semântica, circunlóquios; fonologia e sintaxe relativamente preservadas; apresentações afásicas são raras. Percepção Pode haver apresentações com agnosia (ACP): síndrome de Balint, agnosia topográfica, apraxia de se vestir, agnosia visual, alexia pura, prosopagnosia. Praxia Apraxia ideomotora e ideacional não são tão comuns; apresentações apráxicas são raras. Fonte: Caixeta & Teixeira 2014. Pesquisas no intuito de entender e definir o melhor tratamento em termos de eficiência têm sido realizadas constantemente, porém encontramos redução do progresso da doença e de sintomas em torno de 40% em estágios leves e moderados. É importante salientar que a doença de Alzheimer atualmente acomete em torno de 50% a 60% da população idosa mundial sendo a causa mais provável de perda de memória. A ONU informa que pelo menos 75% dos acometidos não sabem que sofrem de Alzheimer, pois associam os sintomas a outras causas ou ao próprio envelhecimento normal. Ainda não existe um diagnóstico definitivo, utiliza-se diagnóstico de exclusão. Exclui-se qualquer outra doença para então diagnosticar o Alzheimer. A Escala de Avaliação da Doença de Alzheimer (ADAS) foi desenvolvida e publicada em 1984, seu objetivo inicial era avaliar a intensidade das alterações cognitivas e não cognitivas características dessa doença. É constituída por duas partes, uma cognitiva (ADAS-Cog) e outra não cognitiva, para avaliar os distúrbios de comportamento (GORENSTEIN; WANG; HUNGERBUHLER, 2016). Embora não tenha sido desenvolvido com o intuito de ser um instrumento diagnóstico, a escala se mostra 67 DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO │ UNIDADE III muito útil como teste para discriminar pacientes dementes de não dementes. Porém ainda não é considerada útil para diferenciação das diversas formas de demência, entendendo que alguns tipos de demência se apresentam com o mesmo padrão. Ainda assim e apesar de ser desenvolvida para avaliar os diferentes distúrbios relacionados à Doença de Alzheimer, a escala ADAS-Cog não permite distinguir as diferentes formas de demência. A ADAS-Cog é um instrumento de domínio público, devidamente publicado e acessível via bibliotecas virtuais disponíveis. A Escala de Avaliação Clínica da Demência (Clinical Dementia Rating – CDR) é a escala de gravidade mais empregada no mundo nos estudos clínicos e na prática clínica em demência e é um critério padrão em ensaios clínicos multicêntricos em doença de Alzheimer, tendo sido traduzida para 14 idiomas. Atualmente, no Brasil, a escala é muito utilizada e faz parte do protocolo do Ministério da Saúde para dispensação das medicações especiais para doença de Alzheimer (MS-PCDT). (GORENSTEIN; WANG; HUNGERBUHLER, 2016). A CDR é um instrumento de domínio público, podendo ser adquirido em sites específicos. Existem diversas etiologias para as demências. Algumas demências são reversíveis como as causadas por: toxidade medicamentosa, depressão, infecção do sistema nervoso, hematomas subdurais, tumores cerebrais primários, hidrocefalia de pressão normal, envenenamento orgânico e metálico, disfunções da tireóide e paratireóide, e deficiências nutricionais como B12, B6, tiamina e ácido fólico. Algumas são irreversíveis, dentre estas, as quatro causas mais frequentes são: doença de Alzheimer, demência com corpos de Lewy, as demências frontotemporais e demência vascular (CAIXETA & TEIXEIRA, 2014). Abordaremos a doença de Alzheimer, a demência com corpos de Lewy e a demência frontotemporal. Demência frontotemporal Os elementos centrais da demência frontotemporal são a mudança da personalidade de forma polarizada para a desinibição ou para a apatia e mudanças no comportamento, apresentando declínios no desempenho na conduta social interpessoal, atitudes inadequadas e na regulação de conduta pessoal, com negligência da higiene pessoal, embotamento emocional e perda de insight (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014). 68 UNIDADE III │ DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO Existem erros verificados no decorrer da avaliação, como, por exemplo, alguns erros que podem diferenciar essa demência da de Alzheimer, erros de organização pobre, concretismo, confabulações, superficialidade, dentre outros. A síndrome disexecutiva constitui uma das principais alterações neuropsicológicas da demência frontotemporal, manifestando sintomas que podem incluir: dificuldade nas tomadas de decisão e na resolução de problemas, prejuízo do insight e no controle mental, déficits de planejamento, julgamento, antecipação, abstração e organização de tarefas dirigidas a uma meta, bem como na memória de trabalho (working memory) (CAIXETA, 2010). Há queda importante no desempenho em testes que são sensíveis à disfunção do lobo frontal. A clássica alteração de memória que pode ser observada na demência frontotemporal é uma amnésia do tipo frontal, com característica de dificuldade de evocação com reconhecimento preservado, beneficiando-se de pistas. O diagnóstico da demência frontotemporal ainda é um desafio, devido ao fato de diferentes subtipos partilharem alguns sintomas com outros quadros clínicos de demência. O diagnóstico acaba dependendo de critérios clínicos (TEIXEIRA-JR; SALGADO, 2006). Os exames de imagem constituem os principais exames complementares que podem reforçar o diagnóstico. Em todo caso, para indicar tal diagnóstico, devem ser considerados os seguintes sintomas: » Início insidioso e progressão gradual. » Transtorno precoce de conduta social e de relacionamento interpessoal. » Precoce alteração da capacidade de autorregulação da conduta pessoal. » Indiferença emocional precoce. » Anosognosia precoce. Outros indicadores reforçam este diagnóstico, como seu começo antes dos 65 anos de idade, histórico familiar de demência ou antecedente de transtorno similar em algum familiar de primeiro grau, transtorno de conduta, alterações da fala e linguagem, sinais físicos de desinibição cortical – incontinência urinária, acinesia, rigidez, tremores, pressão arterial baixa e lábil, paralisia bulbar, debilidade e atrofia muscular e fasciculações – (na doença do neurônio motor) (TEIXEIRA-JR; SALGADO, 2006). Avaliações complementares que podem ajudar no diagnóstico envolvem a análise com avaliação neuropsicológica, em que podem aparecer fortes alterações em provas exploratórias de funções frontais em ausência de transtorno notável de memória, 69 DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO │ UNIDADE III linguagem e percepção espacial. O eletroencefalograma costuma apresentar-se normal, em casos com demência evidente e em estudos de neuroimagem cerebral, estruturais ou funcionais, o lobo temporal anterior apresenta-se predominantemente anormal. Demência com Corpos de Lewy Estado de alerta flutuante, clinicamente distinguível de delirium, é uma das principais características da DCL, incluída nos seus critérios diagnósticos. O diagnóstico clínico de consciência flutuante é correlacionado com medidas psicofisiológicas de desempenho atencional variável. Essa plataforma atencional instável pode ser responsabilizada pelos comprometimentos nas funções atencionais, mnemônicas e executivas (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014). Nesse tipo de demência, os déficits de memória episódica são menos graves que aqueles em pacientes com doença de Alzheimer comum grau equivalente de demência, devido a uma melhor memória de retenção e reconhecimento, apesar de o aprendizado e o resgate tardio em testes com paradigma de evocação livre mostrarem grave comprometimento. O comprometimento visioperceptivo e visioespacial é evidente em testes de identificação de letras fragmentadas e de superposição de figuras, no julgamento da orientação de linhas, no desenho de figuras simples e complexas e em testes de procura visual. Quadro 5. Demência com corpos de Lewy. Critérios para diagnóstico clínico de demência com corpos de Lewy possível e provável 1. O sinal cardinal da DCL é o declínio cognitivo de magnitude suficiente para interferir na função social e profissional do doente. Uma perda proeminente e persistente da memória não ocorre necessariamente nas fases iniciais da doença, embora se torne evidente com a evolução. Defeitos da atenção, das perícias subcorticais e da capacidade visoespacial são evidentes. 2. Dois dos seguintes aspectos são necessários para o diagnóstico de doença provável e um para o diagnóstico de doença possível: a) flutuações das capacidades cognitivas, com variações pronunciadas da atenção e da vigilância; b) alucinações visuais recorrentes que são tipicamente bem formadas e detalhadas; c) parkinsonismo espontâneo. 3. Características que apoiam o diagnóstico: a) quedas repetidas; b) síncope; c) perdas transitórias de consciência; d) sensibilidade aos neurolépticos; e) ilusões sistematizadas; f) alucinações em outras modalidades. 4. O diagnóstico de DCL é menos comum na presença de: a) doença isquêmica evidente através de sinais neurológicos focais ou por evidências em neuroimagem; b) evidência no exame físico de outra doença sistêmica ou neurológica que justifique o quadro. Fonte: Adaptado de Tavares e Azeredo, 2002. 70 UNIDADE III │ DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO Dia 21 de setembro é o Dia Mundial da Conscientização sobre a Doença de Alzheimer. No ano de 2017, foram promovidas ações em todo o mundo, especialmente no dia 21, com o objetivo de destacar a importância da detecção precoce dessa patologia. O tema da Campanha Mundial de Conscientização sobre o Alzheimer foi “Lembre-se de mim” (Remember Me, na versão original em inglês). O tema foi escolhido porque menos de 50% dos portadores de Alzheimer recebem esse diagnóstico e têm acesso aos tratamentos disponíveis. Fonte: Academia Brasileira de Neurologia <http://www.abneuro.org.br>. 71 CAPÍTULO 3 Alterações e estimulação A estimulação cognitiva compreende atividades sistematizadas de treino com o objetivo de manutenção e melhora dos processos mentais que compõem os domínios cognitivos como memória, funções executivas, atenção, linguagem e percepção. Em processos de reabilitação, esse procedimento geralmente é associado a estratégias complementares. Danos nas funções executivas, por exemplo, comprometem a capacidade de organização e a habilidade de desempenhar diferentes atividades simultâneas (OLIVEIRA; SILVA; CONFORT, 2017). Pacientes nessas condições, e que precisam se preparar para situações como uma reunião no trabalho ou mesmo atividades diárias, como preparo de uma refeição, enfrentam dificuldades. Nesses casos, o profissional de reabilitação pode propor atividades de estimulação e elaborar esquemas com passos a serem seguidos e a ordem de execução para a realização das atividades. Protocolos de estimulação cognitiva podem ser delineados para aplicação individual ou em grupo. Já programas de estimulação cognitiva individual são personalizados e ajustados às necessidades e às dificuldades cognitivas apresentadas e que interferem no funcionamento diário. Os objetivos e as atividades são definidos em colaboração com o paciente e mediante os resultados de uma avaliação neuropsicológica prévia. Programas de estimulação cognitivo também podem ser aplicados em grupos de pessoas com alguma dificuldade ou perda cognitiva comum, sendo esse tipo de aplicação geralmente utilizado para a estimulação de componentes específicos de memória. Figura 35. Estimulação. Fonte: <http://mindmatters.com.au/neurotherapy/transcranial-direct-current-stimulation-tdcs/>. 72 UNIDADE III │ DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO Em idosos, o cuidado com o diagnóstico diferencial, a aplicação e o controle dos objetivos alcançados devem ser mais rígidos e baseados em evidências, em decorrência de maior suscetibilidade a declínio cognitivo nessa faixa etária (OLIVEIRA; SILVA; CONFORT, 2017). Com o passar dos anos, o declínio do nosso organismo começa a apresentar reflexos no corpo, que passa a experimentar limitações nas suas capacidades, no desempenho das atividades cotidianas e consequentemente nas interações sociais do idoso. O envelhecimento do cérebro é um processo inevitável, porém postergável, por meio de exercícios físicos e mentais, além de hábitos saudáveis (como já comprovado por diversos estudos). Hoje é possível apontar uma série de fatores que parece influenciar o grau de alteração cognitiva nos idosos (SOCCODATO, 2015). Vamos a eles: » Os fatores genéticos correspondem a cerca de 50% da variabilidade cognitiva em idosos. » Saúde geral – boa saúde apresenta melhores resultados nos testes cognitivos dos que possuem doenças diagnosticadas. » Nível de instrução – grau de instrução explica até 30% da variabilidade cognitiva na terceira idade. » A atividade mental – contato com atividades mentalmente estimulantes está relacionado com melhora no desempenho e menor declínio ao longo da vida. » Treino cognitivo – idosos que exercitam seu cérebro podem se beneficiar treinando capacidades cognitivas específicas. O processo de envelhecimento cerebral é gradual e progressivo, e apresenta um ritmo individual para cada sujeito. Existem fatores que auxiliam no retardamento do processo, assim como há fatores que contribuem para o aceleramento da perda cognitiva (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014). Dentre os fatores que auxiliam, estão as atividades intelectuais: quanto mais o cérebro for utilizado em atividades intelectuais mais tempo demorará para perder suas conexões e, consequentemente, para apresentar os sintomas dessas perdas. Já dentre os fatores que contribuem para o agravamento da perda cognitiva, destacamos o sedentarismo. As alterações características do envelhecimento acarretam déficits cognitivos entendidos como naturais desse processo, como o esquecimento de fatos recentes, dificuldades de cálculo e alterações na atenção (SOCCODATO, 2015). E muitas vezes o déficit só é percebido quando a perda é maior, quando a pessoa requer mais de sua 73 DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO │ UNIDADE III memória que o normal, por exemplo, quando acontecem mudanças na rotina diária da pessoa. Diversas causas podem levar à perda cognitiva e, no caso das demências, com o desenvolvimento cada vez maior das neurociências, o que mais se discute a respeito da perda cognitiva são as demências e, em especial, um quadro transicional entre o envelhecimento fisiológico e a perda cognitiva patológica, a chamada alteração cognitiva leve ou ACL (OLIVEIRA; SILVA; ONFORT, 2017). A avaliação minuciosa e correta da perda cognitiva é extremamente importante para que a pessoa e sua família sejam orientadas nas ações que auxiliarão no retardamento da progressão da perda cognitiva, bem como para que o profissional possa prescrever o melhor tratamento. O desenvolvimento de programas neuropsicológicos para adultos idosos, para prevenção de declínios cognitivos, principalmente de sistemas de memória, pode contribuir na redução de problemas de saúde mental dessa população (GOLINO, 2016). Também pode promover independência funcional e autonomia para que esses idosos possam continuar a realizar suas atividades da vida diária e terem uma melhor qualidade de vida. Em relação aos diversos tipos de intervenção cognitiva para faixa etária de idosos, o campo sofre com uma confusão no uso dos termos comumente utilizadospara defini-los. A literatura utiliza diversos termos para descrever as técnicas de intervenção, sendo que os mais comumente utilizados são: estimulação cognitiva, treino cognitivo e reabilitação cognitiva (GOLINO, 2016). Vamos a elas: Estimulação cognitiva: conhecida como brain training, compreende a realização repetida de tarefas padronizadas, sendo muito comum o seu formato informatizado. Uma de suas características é a ausência de uma situação de aprendizagem estruturada e direcionada, já que esse tipo de intervenção tem como objetivo envolver o indivíduo em uma situação de esforço mental por meio da prática e repetição de tarefas (OLIVEIRA; SILVA; CONFORT, 2017). Como demanda pouco esforço de aprendizagem de estratégias, a estimulação mental vem sendo uma ferramenta bastante utilizada para intervenção. Treino cognitivo: é um tipo de prática guiada de um conjunto de tarefas padronizadas que refletem determinadas funções cognitivas, tais como memória, atenção, resolução de problemas, raciocínio, velocidade de processamento dentre outras. Pode ser voltado para o treino de uma habilidade específica ou voltado para o treino de várias habilidades cognitivas. É comum a inclusão de atividades da vida diária. Podendo ser realizado individualmente ou em grupo. 74 UNIDADE III │ DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOLÓGICO Reabilitação cognitiva: intervenção destinada a grupos clínicos. Caracteriza- se tipicamente por envolver o paciente em uma gama de atividades gerais e discussões, visando à melhoria geral do funcionamento cotidiano, cognitivo e social. A reabilitação tem como objetivo principal ajudar pacientes com demência em estágio inicial e moderada a aproveitarem suas capacidades mesmo com as dificuldades apresentadas. 75 UNIDADE IVNEUROPSICOLOGIA E A REABILITAÇÃO A expansão da utilização dos computadores para realização de intervenções e avaliações pela neuropsicologia parece ser o grande desafio desses tempos, pois colocar os novos recursos a serviço dos indivíduos é evidenciar outra face da tecnologia, melhorando a qualidade de vida dos pacientes, familiares e cuidadores. Por isso, faz-se necessária a promoção de uma nova geração de cientistas treinados com habilidades interdisciplinares, que façam uso das neurociências e das ciências computacionais para o progresso das atividades de reabilitação. Paralelamente a esse aumento de trabalhos envolvendo a reabilitação cognitiva, as tecnologias da informática estavam sendo vistas como uma potente ferramenta para o auxílio no tratamento de saúde, surgindo técnicas de diagnóstico por imagens muito mais acuradas e rápidas. Percebendo esse potencial, foi desenvolvida uma série de pesquisas apresentando as vantagens da utilização do computador para a reabilitação cognitiva, dando ênfase às ilimitadas possibilidades oferecidas pelo ambiente virtual. Desse modo, parecia claro que o futuro da reabilitação de funções cognitivas e comportamentais dependia da junção de conhecimentos relativos às injúrias e da adequação da tecnologia digital para esse fim. O modelo neuropsicológico permite explicar as alterações comportamentais e cognitivas de cada novo paciente, constituindo um diagnóstico cientificamente fundamentado que constitui, por sua vez, uma contribuição valiosa para o diagnóstico neurológico. Além disso, permite estabelecer sobre bases científicas um programa de reabilitação fundado na identificação do componente do sistema que apresenta o déficit e o estado dos demais componentes do sistema suscetíveis a participar do processo de reabilitação. CAPÍTULO 1 Reabilitação neuropsicológica Reabilitação neuropsicológica pode ser definida como o conjunto de intervenções que objetiva melhorar os problemas cognitivos, emocionais e sociais decorrentes de uma lesão encefálica, auxiliando a pessoa a alcançar maior independência e qualidade de vida. 76 UNIDADE IV │ NEUROPSICOLOGIA E A REABILITAÇÃO Alexander Luria (data_ foi um dos primeiros autores a relatar seus esforços sistemáticos para reabilitação de pessoas com lesão encefálica após a Segunda Guerra Mundial e outros trabalhos com pacientes com acidente vascular encefálico que apresentavam problemas com escaneamento visual, propiciando o desenvolvimento de programas de treinamento específicos que representam outro marco na história da reabilitação neuropsicológica (HAMDAN; PEREIRA; RIECHI, 2011). A reabilitação cognitiva veio a se tornar mais conhecida no final da década de 1980. Seu progresso veio com a Segunda Guerra Mundial, mas a neuropsicologia atualmente foca em temas mais clássicos da psicologia como a atenção, aprendizagem, percepção e memória, utilizando métodos da psicologia experimental e do campo da psicometria para a construção dos testes. As tecnologias empregadas nas avaliações (eletroencefalograma, tomografia computadorizada, ressonância magnética funcional) têm demonstrado a importância da avaliação neuropsicológica na localização das funções mentais. A discussão fica em torno de uma nova concepção, o funcionalismo ou o cognitivismo, isso tem sido essencialmente importante para a avaliação neuropsicológica e para a construção dos testes psicológicos (HAMDAN; PEREIRA; RIECHI, 2011). As técnicas tradicionais de avaliação neuropsicológica são ainda de uma tradição funcionalista que considera que a predição do desempenho do indivíduo é o objetivo primário da avaliação e o construto psicológico seria secundário. Porém, os testes construídos na tradição cognitivista enfatizam primariamente o construto psicológico e a predição clínica como um objetivo secundário. O que está em jogo atualmente são as questões metodológicas e interpretativas resultantes dos processos de avaliação neuropsicológica. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2000), as doenças ligadas ao funcionamento cerebral constituem a maior causa de deficiências no mundo. A demanda por serviços de reabilitação neuropsicológica tem crescido consideravelmente devido ao aumento dos recursos médicos oferecidos à população. No Brasil, temos diversas dificuldades nesta área, por exemplo: poucas instituições de ensino que oferecem capacitação na área de neuropsicologia, delimitação de protocolos baseados em evidências, a grande necessidade de adaptação de estratégias de reabilitação, considerando contextos socioculturais da nossa realidade. Há pouco consenso no âmbito da neuropsicologia quanto a teorias que subsidiam o conhecimento aplicado das funções neuropsicológicas que se desenvolvem e se organizam no contexto da população geral. Desta forma, as estratégias em reabilitação nem sempre estão fundamentadas no conhecimento teórico que se tem sobre determinada função ou patologia. As diferenças culturais afetam diretamente as metas estabelecidas nos diferentes programas de reabilitação, o que dificulta a avaliação dos programas de 77 NEUROPSICOLOGIA E A REABILITAÇÃO │ UNIDADE IV reabilitação por meio da comparação com resultados de outros programas no mundo. Consequentemente, o estabelecimento de parâmetros internacionais que priorizem determinados resultados comuns a todos se torna inviável muitas vezes (VIEIRA; FAY; NEIVA-SILVA, 2007). Figura 36. Reabilitação. Fonte: <https://www.ipaneuro.com.br/rehabneuro>. Durante as últimas décadas, muitos pesquisadores da área publicaram seus achados no intuito de compilar o conhecimento cientifico de uma forma mais organizada (CHRISTENSEN; UZZELL, 2000; ESLINGER, 2002; JOHNSTONE; STONNINGTON, 2001 apud HAMDAN; PEREIRA; RIECHI, 2011), trazendo mais facilidade tanto para o ensino quanto para a pesquisa em reabilitação, bem como para sua prática. Wilson (2003 apud HAMDAN; PEREIRA; RIECHI, 2011) idealizou uma sequência de diretrizes na intenção de nortear as práticas em reabilitação neuropsicológica, sendo elas: 1. Parceria no processo de reabilitação, envolvendo necessariamente profissionais e a família. 2. Delineamento do plano de reabilitação, criação de objetivos. 3. A conexão entreos déficits cognitivos, emocionais e psicossociais e todos devem ser considerados durante os programas terapêuticos. 4. Utilização de tecnologia disponível para auxílio na compreensão da lesão e na compensação das dificuldades apresentadas por este grupo. 5. Reabilitação tem começado durante a terapia intensiva antes mesmo da estabilização das condições médicas do paciente. 78 UNIDADE IV │ NEUROPSICOLOGIA E A REABILITAÇÃO 6. A compreensão do processo de reabilitação cognitiva como uma área de atuação que necessita de base teórica que incorpore diferentes modelos e metodologias derivadas de diversos campos da psicologia e neurociências. Vários procedimentos têm sido sugeridos como eficazes na reabilitação neuropsicológica. A imaginação motora, ou seja, a simulação imaginada de movimentos e a observação de movimentos têm sido estudadas em pacientes após acidente vascular encefálico (HAMDAN; PEREIRA; RIECHI, 2011). Precisamos ter em mente que uma escala de avaliação a ser usada em saúde mental é um instrumento padronizado composto por um conjunto de itens que permite quantificar características psíquicas, psicológicas ou comportamentais que nem sempre são observáveis. Desta forma, indicar a presença de um sintoma passa, necessariamente, pela subjetividade do paciente e/ou do profissional avaliador. Esses instrumentos são desenvolvidos para dar uma estimativa sobre a intensidade, a frequência ou mudanças de sintomas, porém não servem para fazer um diagnóstico clínico sozinhos, sendo esta função das entrevistas clínicas diagnósticas. A funcionalidade das escalas está associada à possível intervenção do profissional, que se utiliza de todos os recursos disponíveis para delimitar o melhor tratamento, acompanhamento ou intervenção. Além de auxiliar no diagnóstico, o instrumento de avaliação identifica características clínicas de uma determinada doença, sua gravidade e o nível de cuidado que se deve tomar. Como foi dito, nas últimas décadas, vários instrumentos de avaliação foram traduzidos, reformulados, validados e publicados na literatura científica nacional. Um número crescente dessas escalas foi incorporado ao uso clínico e em pesquisa no Brasil. Esse aparente cenário favorável reflete a necessidade de estabelecer critérios que direcionem a escolha do instrumento mais adequado para cada finalidade. A existência de informações psicométricas apropriadas e o objetivo da pesquisa direcionado ao contexto da escala são fundamentais para escolha (GORENSTEIN; WANG; HUNGERBUHLER, 2016). É importante também saber exatamente como utilizar, interpretar os resultados e evitar os erros oriundos de fatores que interferem na medida. 79 CAPÍTULO 2 Novas tecnologias em reabilitação A reabilitação cognitiva é uma área clínica de atuação interdisciplinar que busca tanto a recuperação quanto a compensação de funções cognitivas alteradas decorrentes de dano encefálico. Nesse sentido, várias tecnologias têm sido estudadas como forma de propiciar um efetivo tratamento em termos de reabilitação. Os métodos e estratégias utilizados para recuperação têm focado na reabilitação de domínios cognitivos, tais como memória, motricidade, linguagem e funções executivas. Por outro lado, os procedimentos de treinos compensatórios têm geralmente seu foco na realização de adaptações e mudanças ambientais, no intuito de possibilitar mais autonomia ao paciente. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (1998), os programas de reabilitação cognitiva efetivos são os que conseguem contemplar tanto a recuperação quanto a compensação a partir de uma abordagem integrada e interdisciplinar. O avanço tecnológico observado nas últimas décadas tem possibilitado uma variedade de condições mais propícias, inclusive para os programas de reabilitação. Duas importantes tecnologias têm sido utilizadas com sucesso: a estimulação cerebral não invasiva e os sistemas de controle do ambiente por acionamento ocular, contemplando tanto a recuperação quanto a compensação de alterações cognitivas. Tais avanços vêm possibilitando uma vida melhor para vítimas de diferentes lesões neurológicas, bem como reduções significativas nos déficits cognitivos e/ou comportamentais. A reabilitação cognitiva é entendida como um processo que corrige ou minimiza efeitos genéricos de déficits, de forma que sejam encontrados os meios adequados para alcançar metas funcionais específicas (BERNARDES, RAYMUNDO; SANTANA, 2014). Estudos têm nos trazido, cada vez mais, conclusões de que a melhora atribuída à reabilitação pode ser separada do progresso no funcionamento que ocorre espontaneamente, ou seja, é possível acelerar a reabilitação em duas frentes. Com o uso das tecnologias da informática, se superando, alternativas para os tratamentos são investigadas e testadas frequentemente, passando a ser um auxílio no tratamento de saúde, com uso de técnicas de diagnóstico por imagens muito mais acuradas e rápidas num curto espaço de tempo. 80 UNIDADE IV │ NEUROPSICOLOGIA E A REABILITAÇÃO Enxergando as possibilidades do uso da informática como potenciais auxiliares nos tratamentos, várias pesquisas foram e vêm sendo feitas, apresentando as vantagens da utilização do computador para a reabilitação cognitiva, dando ênfase às ilimitadas possibilidades oferecidas pelo ambiente virtual. Figura 37. Tecnologias em reabilitação. Fonte: <https://www.allied-services.org/>. A reabilitação cognitiva passou, nos últimos anos, por uma evolução no que concerne ao paradigma da intervenção, chegando ao modelo-padrão de tratamento da década de 1980, no qual o terapeuta atuava individualmente fazendo avaliação cognitiva e treinamento de remediação cognitiva para uma intervenção mais abrangente e compreensiva: a reabilitação neuropsicológica. A reabilitação cognitiva envolve a reaprendizagem de habilidades cognitivas e a elaboração de estratégias de tratamento (BERNARDES; RAYMUNDO; SANTANA, 2014). Comumente, após uma lesão no sistema nervoso central, com sequelas moderadas ou graves estão presentes comprometimentos das funções cognitivas, que podem levar a algum prejuízo ou à total dependência funcional. É nesse cenário que os recursos informatizados para a prática de reabilitação têm ganhado força, desde o final do século XX, apresentando bons resultados. A vantagem da utilização desse recurso se dá em razão de que o computador permite construir e apresentar itens que não são acessíveis no formato impresso, estruturando situações 81 NEUROPSICOLOGIA E A REABILITAÇÃO │ UNIDADE IV que se assemelham à vida cotidiana. Um software desenvolvido para criar situações de estimulação, como imagens em movimento e interativas, pode facilitar a construção de instruções de grande qualidade para aumentar a compreensão da tarefa e a motivação do sujeito (DORES, 2012). Outra vantagem para a utilização dos sistemas computacionais é a capacidade adaptativa do instrumento, que permite ao terapeuta aplicar tarefas de dificuldade correspondente ao nível de aptidão do sujeito. A utilização de sistemas informatizados na reabilitação abre caminhos para uma nova interação do ser humano com o computador, com o virtual, colocando o computador como um instrumento participativo para formação e aplicação de técnicas de reabilitação. A tecnologia de realidade virtual apresenta-se como uma alternativa viável e promissora de aproximação ao real. Características como a possibilidade de imersão do paciente, por exemplo, num mundo criado por computador, a interação com o ambiente em tempo real e o envolvimento do paciente com a tarefa podem aumentar significativamente sua motivação para o tratamento. A sua aplicação à reabilitação neurocognitiva possibilita, atualmente, a criação de novos programas que forneçam um ambiente protegido aos pacientes e que, ao mesmo tempo, favoreçam vivenciar algumas dificuldades do contexto real de forma mais efetiva (BERNARDES; RAYMUNDO; SANTANA, 2014). Entende-se que a aproximaçãodas tecnologias em realidade virtual possa contribuir para o aumento do grau de generalização das competências desenvolvidas no âmbito de um programa, para situações da vida real, ou seja, o paciente pode se tornar mais hábil na vida real a partir dos treinos que vier realizando virtualmente, lembrando que tal grau de generalização é analisado como baixo em programas de reabilitação tradicionais. Outra vantagem bastante eficiente para o tratamento é que esse tipo de programa pode ainda permitir o autotreinamento, no qual as atividades podem ser programadas transcorrendo níveis de dificuldades estipulados e ainda servir de intervenção a distância. Para desenvolver programas inovadores de reabilitação neurocognitiva e conhecer o substrato neuronal implicado neste processo, faz-se necessário o uso de recursos tecnológicos ainda pouco explorados ou em fase de exploração, como a realidade virtual (DORES, 2012). Tais recursos representam contribuições significativas para a investigação e para a prática na área da saúde, especificamente, a reabilitação neurocognitiva. São parceiros e devem caminhar lado a lado o melhor conhecimento do funcionamento cerebral e essa tecnologia envolvida nos programas computacionais, contribuindo para melhorar os programas de intervenção em reabilitação. 82 Referências BARDAGI, Marucia Patta et al . Ensino da avaliação psicológica no Brasil: levantamento com docentes de diferentes regiões. Aval. psicol., Itatiba , v. 14, no 2, pp. 253-260, ago. 2015. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid= S1677712015000200011&lng=pt&nrm=iso>. Acessos em: 26 maio 2018. BEARDENA, C. E.; WOODIN, M. F.; WANG, P. P.; MOSS, E. et al. (2001). The neurocognitive phenotype of the 22q11.2 deletion syndrome: selective deficit in visual-spatial memory. J Clin Exp Neuropsychol. 2001 Aug;23(4):447-64. BERNARDES, M. S., RAYMUNDO, T. M. e SANTANA, C. S. 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