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<p>- -1</p><p>Transações que não Envolvem</p><p>Caixa</p><p>Rodrigo Malta Meurer</p><p>Introdução</p><p>Para a elaboração das Demonstrações de Fluxo de Caixa – DFC, é necessário classificar as atividades das</p><p>empresas em operacionais, de investimentos e financiamentos. Entretanto, existem algumas transações, as quais</p><p>não afetam o caixa da empresa, consequentemente não afetando a DFC.</p><p>Por sua vez, é necessário entendermos quais movimentações das atividades de investimentos e financiamentos</p><p>não envolvem o caixa. Elas afetam a empresa, no que tange a sua estrutura? Essas transações devem ser</p><p>integradas na DFC? Qual o tratamento que deve ser dado a elas pelas empresas?</p><p>Ao final desta aula, você será capaz de:</p><p>• Identificar as transações que não afetam o caixa, visando a elaboração desse quadro.</p><p>Investimentos e financiamentos que não</p><p>envolvem caixa</p><p>As movimentações oriundas das transações de investimentos e financiamentos nem sempre fazem parte da</p><p>Demonstração do Fluxo de Caixa – DFC, ou seja, existem transações que devem ser excluídas desses relatórios.</p><p>Conforme o CPC 00R1 (2011), no item 43, “ativos e passivos podem ser classificados por sua natureza ou função</p><p>nos negócios da entidade, a fim de mostrar as informações da maneira mais útil aos usuários para fins de tomada</p><p>de decisões econômicas”.</p><p>Portanto, ao elaborar a DFC, a mesma tem como critério atividades operacionais, de investimentos e</p><p>financiamentos, que envolvem o caixa e equivalente de caixa.</p><p>Ainda sobre essas atividades de investimentos e financiamentos, o CPC 03 03R2 (2010) expõe, em seus itens 43</p><p>e 44, que muitas dessas transações que</p><p>não envolvem o uso de caixa ou equivalentes de caixa devem ser excluídas da demonstração dos fluxos de caixa</p><p>FIQUE ATENTO</p><p>Quanto às transações de investimentos e financiamentos, as movimentações oriundas dessas</p><p>atividades nem sempre fazem parte da DFC.</p><p>- -2</p><p>e 44, que muitas dessas transações que</p><p>não envolvem o uso de caixa ou equivalentes de caixa devem ser excluídas da demonstração dos fluxos de caixa</p><p>[...], não têm impacto direto sobre os fluxos de caixa correntes, muito embora afetem a estrutura de capital e de</p><p>ativos da entidade. (CPC, 2010, pp. 13 e 14)</p><p>Figura 1 - Estrutura da Empresa</p><p>Fonte: Elaborado pelo autor, 2019</p><p>O fato das movimentações relacionadas a essas atividades serem excluídas não quer dizer que as mesmas não</p><p>possuem impacto na estrutura de capital da empresa, como nos lembram as definições do CPC 00, em que se</p><p>observa que essas transações não deixam de impactar no ativo, passivo e patrimônio da entidade.</p><p>Sobre essas transações que não envolvem caixa, conforme o CPC 03R2 (2010), item 43, temos o seguinte: “Tais</p><p>transações devem ser divulgadas nas notas explicativas às demonstrações contábeis, de modo que forneçam</p><p>todas as informações relevantes sobre essas atividades de investimento e de financiamento”.</p><p>São exemplos de transações que não envolvem caixa, conforme CPC 00R2 (2010), item 44:</p><p>· Aquisição de ativos, quer seja pela assunção direta do passivo respectivo, quer seja por meio de arrendamento</p><p>mercantil;</p><p>· A aquisição de entidade por meio de emissão de instrumentos patrimoniais;</p><p>· A conversão de dívida em instrumentos patrimoniais.</p><p>Abaixo, têm-se um quadro que demonstra novamente a estrutura de uma empresa.</p><p>Figura 2 - Movimentações na empresa</p><p>Fonte: Elaborado pelo autor, 2019</p><p>A partir do quadro, podemos observar as transações que não envolvem o caixa, porém afetam a estrutura da</p><p>empresa, além das atividades que, se usam o caixa, devem ser demonstradas na DFC. Podemos ver, então, que as</p><p>transações em uma empresa, quaisquer que sejam, afetam sua estrutura, pois essa engloba todas as</p><p>movimentações.</p><p>Gelbcke (2018, p. 1888) ressalta como transações que não envolvem caixa:et al.</p><p>· Dívidas convertidas em aumento de capital;</p><p>· Aquisição de imobilizado via assunção de passivo específico (letra hipotecária, contrato de alienação fiduciária</p><p>- -3</p><p>· Aquisição de imobilizado via assunção de passivo específico (letra hipotecária, contrato de alienação fiduciária</p><p>etc.);</p><p>· Aquisição de imobilizado via contrato de arrendamento mercantil;</p><p>· Bem obtido por doação (que não seja dinheiro);</p><p>· Troca de ativos e passivos não caixa por outros ativos e passivos não caixa.</p><p>Instrumentos Patrimoniais</p><p>Para entendermos um pouco mais dos tópicos que serão abordados, os quais não envolvem caixa e equivalente</p><p>de caixa, é bom sabermos mais sobre os instrumentos patrimoniais. Esses por sua vez, conforme CPC 39 (2009,</p><p>p. 6), em seu item 11, são apresentados como sendo “qualquer contrato que evidencie uma participação nos</p><p>ativos de uma entidade após a dedução de todos os seus passivos”.</p><p>O CPC 39 (2009) ainda ressalta em seu item 16, que o objeto é um instrumento patrimonial se estiver de acordo</p><p>com as seguintes condições:</p><p>• O instrumento não possuir obrigação contratual, ou seja, de entregar caixa ou outro ativo financeiro à</p><p>outra entidade, trocar ativos financeiros ou passivos financeiros com outra entidade sob condições</p><p>potencialmente desfavoráveis ao emissor.</p><p>• Se o instrumento será ou poderá ser liquidado por instrumentos patrimoniais do próprio emitente, ou</p><p>seja, é um não derivativo que não inclui obrigação contratual para o emitente de entregar número</p><p>variável de seus próprios instrumentos patrimoniais, ou um derivativo que será liquidado somente pelo</p><p>emitente por meio da troca de um montante fixo de caixa ou outro ativo financeiro por número fixo de</p><p>seus instrumentos patrimoniais.</p><p>Aquisição de entidade por meio de emissão de</p><p>instrumentos patrimoniais</p><p>A aquisição por meio de instrumentos patrimoniais pode se dar de diferentes formas em relação a uma atividade</p><p>de investimento.Um exemplo desse tipo de transação, a qual não envolve caixa, são as ações da empresa, isto é, é</p><p>possível adquiri-las por meio das próprias ações, em que a devida transação não envolverá caixa.</p><p>•</p><p>•</p><p>- -4</p><p>Figura 3 - Valores</p><p>Fonte: MicroStockHub, iStock, 2019</p><p>Portanto, ao colocarmos uma empresa com referidas intenções de aquisição por ações, a mesma pode adquirir</p><p>outra empresa. Dessa forma, a empresa, por meio de suas ações, paga os controladores de outra empresa com</p><p>suas próprias ações. Consequentemente, a referida transação não envolverá caixa, deixando essa movimentação</p><p>de ser integrada na DFC, aparecendo somente em notas explicativas.</p><p>Figura 4 - Conformidade</p><p>Fonte: docstockmedia, Shutterstock, 2019</p><p>Entretanto, esse tipo de transação funciona mais como um acordo interno entre ambas as empresas.</p><p>- -5</p><p>Conversão da dívida em instrumentos</p><p>patrimoniais</p><p>Conforme o CPC 00 (2011), a liquidação de uma obrigação pode ser feita de várias formas.Desse modo, um dos</p><p>pontos que se destaca é a conversão da obrigação em um item do patrimônio líquido.</p><p>Um dos casos nessa situação ocorre quando existe um empréstimo que a empresa deve pagar,no entanto, no</p><p>vencimento deste, a empresa não possui o montante que é devido.Assim, ela pode fornecer uma proposta ao</p><p>fornecedor ou entidade financeira de participação no capital da entidade, oferecendo uma sociedade com o</p><p>mesmo, substituindo uma obrigação pela participação em seu patrimônio líquido.</p><p>Outro ponto importante é o pagamento de funcionários baseado nas ações da empresa, dando a ele um maior</p><p>incentivo.</p><p>Aquisição de ativos, quer seja pela assunção</p><p>direta do passivo respectivo, quer seja por meio</p><p>de arrendamento financeiro</p><p>A aquisição de ativos pela assunção do passivo pode ser dada pela alienação fiduciária, quando um comprador</p><p>não possui dinheiro ao adquirir um imobilizado, sendo esse o devedor.Com isso, surge a instituição financeira</p><p>que concederá o financiamento, sendo essa a credora. O dinheiro não passará pelo caixa do comprador, ou seja,</p><p>quem está fazendo o pagamento é a instituição financeira, e esse dinheiro vai diretamente para a entidade</p><p>vendedora.</p><p>FIQUE ATENTO</p><p>O instrumento não possui obrigação contratual de entregar caixa ou outro ativo financeiro a</p><p>outra entidade.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Para entender melhor o assunto, recomendamos a leitura de DE MATOS, E.; MURCIA, F.</p><p>- -6</p><p>O mesmo ocorre</p><p>com o arrendamento mercantil, leasing, em que o arrendatário tem a opção de escolher o bem,</p><p>como um veículo.Nesse contexto, entra em ação a companhia leasing (arrendador), a qual efetuará o pagamento</p><p>à vista, ficando o bem sobre seus direitos, porém de utilização do arrendatário. Desta forma, o dinheiro não</p><p>passará pelo caixa do arrendatário, e sim do fornecedor.</p><p>Para entender melhor o assunto, recomendamos a leitura de DE MATOS, E.; MURCIA, F.</p><p>Contabilidade e Arrendamento Mercantil/Leasing: Revisão da Literatura Nacional e</p><p>Internacional (2000-2018). , v.Revista de Educação e Pesquisa em Contabilidade (REPeC)</p><p>13, n. 1, 2019.</p><p>EXEMPLO</p><p>Aquisição de imobilizado em 01/01/2018:</p><p>Parcelado em 36 meses;</p><p>Valor do bem: R$20.000;</p><p>Total a pagar a financeira: R$25.000;</p><p>Total de juros: R$5.000;</p><p>Vencimento da primeira parcela em 01/02/2018:</p><p>Valor de cada parcela fixa mensal: R$555,55;</p><p>Valor de cada parcela fixa e mensal dos juros: R$138,88;</p><p>Contabilização</p><p>Débito</p><p>Crédito</p><p>Imobilizado (não circulante)</p><p>R$20.000,00</p><p>Juros a transcorrer (passivo circulante)</p><p>R$ 1.666,56</p><p>Juros a transcorrer (não circulante)</p><p>R$ 3.333,12</p><p>Financiamento a pagar (passivo circulante)</p><p>R$ 8.333,16</p><p>Financiamento a pagar (não circulante)</p><p>R$16.666,32</p><p>Pelo pagamento das prestações mensais</p><p>Financiamento a pagar (passivo circulante)</p><p>R$ 555,55</p><p>Caixa/ bancos (ativo circulante)</p><p>R$ 555,55</p><p>- -7</p><p>É importante lembrar que no momento do pagamento à vista do bem, é a instituição que realiza o referido ato,</p><p>sendo o mesmo à vista, ou seja, o valor é diretamente passado ao fornecedor, sendo o adquirente responsável</p><p>pelo pagamento do referido valor para a instituição que adquiriu o bem em forma de prestações.</p><p>Fechamento</p><p>Conseguimos identificar as transações que não devem compor a DFC, entretanto as mesmas devem ser</p><p>evidenciadas em notas explicativas, pois impactam na estrutura da empresa. Tais transações desse caráter foram</p><p>discutidas, afim de compreendermos do que se tratam e que transações se enquadram neste termo.</p><p>Identificamos, então, que nem todas as atividades de investimentos e financiamentos compõem a DFC, tais como</p><p>aquisição de ativos, quer seja pela assunção direta do passivo respectivo, quer seja por meio de arrendamento</p><p>financeiro; aquisição de entidade por meio de emissão de instrumentos patrimoniais e conversão da dívida em</p><p>instrumentos patrimoniais.</p><p>Referências</p><p>COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC). Pronunciamento técnico CPC 03 R2: demonstração dos</p><p>. 2010.fluxos de caixa</p><p>COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC). Pronunciamento técnico CPC 00 R1: Estrutura</p><p>Contábil-Financeiro. Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório 2011.</p><p>COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC). Pronunciamento técnico CPC 39: Instrumentos</p><p>Financeiros: Apresentação. 2009.</p><p>GELBCKE, E. R. et al. Manual de contabilidade societária: aplicável a todas as sociedades, de acordo com as</p><p>. 3 ed. Atlas, 2018.normas internacionais e do CPC</p><p>R$ 555,55</p><p>Pela apropriação mensal dos juros</p><p>Juros passivos (resultado)</p><p>R$ 138,88</p><p>Juros a transcorrer (passivo circulante)</p><p>R$ 138,88</p><p>Fonte:Elaborado pelo autor, 2019</p><p>Introdução</p><p>Investimentos e financiamentos que não envolvem caixa</p><p>Estrutura da Empresa</p><p>Movimentações na empresa</p><p>Instrumentos Patrimoniais</p><p>Aquisição de entidade por meio de emissão de instrumentos patrimoniais</p><p>Valores</p><p>Conformidade</p><p>Conversão da dívida em instrumentos patrimoniais</p><p>Aquisição de ativos, quer seja pela assunção direta do passivo respectivo, quer seja por meio de arrendamento financeiro</p><p>Fechamento</p><p>Referências</p>