Prévia do material em texto
AULA 2 CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Profª Marineusa Andreico Rodrigues 2 TEMA 1 – OBJETIVO DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL FINANCEIRA As demonstrações financeiras são um conjunto de relatórios financeiros elaborados com o objetivo de transmitir informações aos usuários de forma útil para a tomada de decisões e avaliações, porém não de forma específica para esse ou aquele grupo de usuários, pois a necessidade da informação não deve afetar a forma como são elaboradas essas demonstrações. De forma resumida, podemos dizer que o objetivo da informação contábil financeira é o de satisfazer as necessidades dos stakeholders na tomada de decisões. Segundo o CPC 00 – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro, as decisões dos investidores estão voltadas a: • Comprar, vender ou manter instrumento de patrimônio e de dívida; • Conceder ou liquidar empréstimos ou outras formas de crédito; • Exercer direitos de votar ou de outro modo influenciar os atos da administração que afetam o uso dos recursos econômicos da entidade. Já em relação aos credores, podemos afirmar que as decisões estão voltadas para oferecer ou não crédito e analisar a expectativa de pagamento do valor principal, dos juros e outras formas de retorno. Assim, esses usuários avaliarão a tempestividade e as incertezas associadas ao fluxo de caixa futuro, e para tanto, precisarão das informações contábeis financeiras para fazer estimativas de forma consistente. As demonstrações financeiras têm como foco principal os usuários primários, que são os credores e os investidores. Nesse sentido, veja que os relatórios contábeis-financeiros não focam no usuário gestor, pois este já possui acesso às informações e também o poder de controlá-las, e dessa forma não necessita de suporte. A estrutura conceitual baseia-se no regime de competência (accrual accounting). Por esse motivo as demonstrações contábeis-financeiras são elaboradas considerando o reconhecimento dos efeitos das transações e dos eventos quando eles efetivamente ocorrem, mesmo que ainda não tenham sido recebidos ou pagos. O regime de competência retrata os efeitos de transações e outros eventos ocorridos com a entidade no período em que eles ocorrem, o que vai ao inverso do regime de caixa. Isso é importante porque, dessa forma, os relatórios fornecem 3 uma base melhor e mais segura de avaliação de desempenho em relação ao passado e futuro da entidade, já que não estão tão sujeitos a oscilações como o regime de caixa. Contudo, é importante observar que as informações sobre o fluxo de caixa da entidade também podem ajudar os usuários com informações acerca da movimentação do caixa do período para, assim, prever fluxos de caixas futuros. Para resumir: O objetivo do relatório contábil-financeiro de propósito geral é fornecer informações contábil financeiras acerca da entidade que reporta essa informação (reporting entity) que sejam úteis a investidores existentes e em potencial, a credores por empréstimos e a outros credores, quando da tomada decisão ligada ao fornecimento de recursos para a entidade. Essas decisões envolvem comprar, vender ou manter participações em instrumentos patrimoniais e em instrumentos de dívida, e a oferecer ou disponibilizar empréstimos ou outras formas de crédito. 1.1 Treinamento A partir do objetivo acima resumido, você saberia responder quais são os potenciais usos dessa informação para os seus usuários? O próprio documento trata do “relatório contábil-financeiro” e “elaboração e divulgação de relatório contábil-financeiro” como sendo informações contábil- financeiras com propósito geral, ou seja, atendem à ampla maioria dos usuários dessa informação. As decisões de investidores existentes e em potencial estão relacionadas com a compra, venda ou manutenção dos instrumentos patrimoniais (participação no capital, como ações e quotas) e instrumentos de dívida (como títulos e debêntures), que dependem do retorno esperado dos investimentos como dividendos, do pagamento do principal acrescido dos juros ou dos acréscimos nos preços de negociação no mercado. De maneira semelhante, as decisões a serem tomadas por credores por empréstimos e por outros credores, sejam eles existentes ou em potencial, estão relacionadas a oferecer ou disponibilizar empréstimos ou outras formas de crédito, e sua análise depende da expectativa do pagamento do principal acrescido dos juros ou de outras formas de retorno. Assim, para tomar essas decisões econômicas, investidores e credores (por empréstimo ou outros) avaliam a entidade com base no montante envolvido, na tempestividade e incertezas associadas aos fluxos de caixa futuros. Para tal análise, esses investidores e credores necessitam de informação contábil- financeira para desenvolver suas estimativas de maneira consistente. 4 Saiba mais No vídeo a seguir, o professor Quintino traz algumas considerações sobre as demonstrações financeiras disponível em: . Acesso em: 27 jul. 2021. TEMA 2 – CARACTERÍSTICAS QUALITATIVAS DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL- FINANCEIRA Quando pensamos nas características qualitativas da informação contábil- financeira, pensamos quase que instantaneamente na sua utilidade, ou seja, ela precisa ser útil. Isso nos leva a entender que, para ser útil, ela precisa ser relevante e representar de forma fidedigna a realidade da entidade. Mas o que é uma informação relevante? 2.1 Informação relevante Uma informação relevante é uma informação que contém: • Previsão e confirmação das informações inter-relacionadas, como por exemplo, informações sobre o nível atual e a estrutura dos ativos que têm valor para os usuários na tentativa de prever a capacidade que a entidade tenha de aproveitar oportunidades e a sua capacidade de reagir a situações adversas; • Confirmações das previsões passadas, com seu valor confirmatório servindo de feedback ao processo. Falamos no primeiro parágrafo que a informação precisa ser útil, e para que a informação seja útil, ela precisa ser comparável, verificável, tempestiva e compreensível. Dessa forma, a estrutura conceitual divide as características qualitativas da informação contábil-financeira em: • Qualitativa fundamental: tem que ter relevância e ser apresentada de forma fidedigna; • Qualitativas de melhoria: Precisa ser comparável, verificável, tempestiva e compreensível. Por exemplo, a informação da receita de vendas é relevante porque, por meio dela, será possível projetar as entradas de fluxo de caixa no futuro, assim como também confirmar se o que havia sido previsto anteriormente efetivamente 5 aconteceu. Perceba que a relevância da informação está ligada à materialidade dela, ou seja, caso essa informação fosse omitida ou distorcida, isso poderia influenciar decisões que os usuários precisariam tomar; se isso ocorrer, significa que essa informação é material. 2.2 Representação fidedigna Uma informação fidedigna é uma informação confiável, completa, neutra, livre de erros e sem viés. Dessa forma, ela se torna também uma informação útil. Por exemplo: digamos que o preço de um produto que a empresa comercializa tenha caído drasticamente o mercado a ponto de não conseguir recuperar os investimentos que foram feitos para a sua produção. Caso o gestor quisesse, ele poderia evitar divulgar toda essa informação manipulando a perda e fazendo projeções fora da realidade econômica. Isso é o que podemos chamar de representação não fidedigna, portanto, é uma informação relevante. Contudo, se não for divulgada de forma correta, não será uma informação confiável, podendo distorcer a realidade das demonstrações. 2.3 Comparabilidade A informação contábil/financeira precisa ser comparável. Issoprovisões, dos passivos contingentes e dos ativos contingentes, pois as informações de caráter qualitativo são tão ou mais importantes que o valor reconhecido no balanço patrimonial e o respectivo valor da perda na DRE, pois dão a dimensão da incerteza inerente a esses itens. Não é exigida informação comparativa. Essas informações visam mostrar a evolução do valor do “estoque” de provisões ao longo do período. 2.5 Estudo de caso As vendas da ProsClean Ltda., fabrica máquinas de lavar roupa, atingiram $900.000 no último mês de operações. Com base em sua experiência histórica de reclamações de garantia, ela estima gastos com consertos de produtos em garantia de 2% das receitas. Durante o mês seguinte, a ProsClean incorre em $6.000 de gastos com mão de obra e $4.500 de gastos com materiais para consertar máquinas na garantia que foram vendidas no mês anterior. Pede-se: a. avalie a necessidade de reconhecimento da provisão com garantia de um ano do fabricante e, caso necessário, faça a mensuração e a sua contabilização; b. como devem ser tratados os gastos com mão de obra e materiais no conserto das máquinas na garantia de um ano do fabricante? Apresente sua resolução contábil ao caso. Saiba mais O jornal Monitor Mercantil, em 22 de abril de 2016, trouxe a reportagem “Volkswagen registra prejuízo de 1,58 bi de euros em 2015”, que mostra o quão relevante pode ser uma provisão. Não apenas em função do montante, mas também em razão da informação que está a ela atrelada. Acesse o link a seguir e leia a reportagem na íntegra. VOLKSWAGEN registra prejuízo de 1,58 bi de euros em 2015. Monitor Mercantil, 22 abr. 2016. Disponível em: . Acesso em: 25 ago. 2021. 10 TEMA 3 – RECEITA E ESTOQUE Talvez isso possa não lhe ter passado pela cabeça, mas há uma pergunta interessante em relação à informação contábil: a empresa ganha mais vendendo o produto ao cliente ou concedendo o crédito a ele por meio de crediário? Veja que, se a empresa considerar o crediário como uma venda a prazo e não segregar o montante de juros obtidos com a venda, dificilmente conseguiríamos responder a essa pergunta. Poderíamos ir ainda além: a receita com juros foi reconhecida integralmente no momento da venda ou ao longo do tempo em que foi recebendo as parcelas do crediário? Essas são questões relacionadas com o tratamento contábil sobre receitas de vendas. Este tema trata das questões envolvendo o tratamento contábil dado a receitas e estoques de acordo com as normas IFRS/CPC. 3.1 Receita A legislação tributária estabelece como instrumento de controle a nota fiscal. Para fins fiscais, o reconhecimento da receita tributável ocorre em geral na emissão da nota fiscal de venda de um produto ou de prestação de serviço. Essa base pode não ser adequada quando se considera, por exemplo, a venda para entrega futura, pois isso abriria a possibilidade de o gestor reconhecer a receita antes que a sua obrigação de entregar o produto seja satisfeita, ou seja, antes de poder dizer que já ganhou de fato o dinheiro daquela receita. O CPC 47 fornece princípios para o reconhecimento de receitas com clientes (CPC, 2012). Os critérios são aplicáveis a cada contrato, porém é possível que uma única transação inclua a venda de produtos e a prestação de serviços ao longo de um período, por exemplo, a venda de celular e a prestação de serviços de telefonia ao longo de dois anos. Nesses casos, a transação deve ser separada nessas duas partes: a venda do produto tem sua receita reconhecida no primeiro momento, e a receita de serviços é reconhecida quando vierem a ser executados. No sentido contrário, é possível que duas ou mais transações tenham que ser consideradas conjuntamente para fins de reconhecimento de receitas. Por exemplo, se a entidade vende um ativo e, ao mesmo tempo, firma um contrato separado para recomprá-lo em data posterior, a receita não deve ser reconhecida, pois o segundo contrato descaracteriza a essência econômica de uma transação de venda do primeiro 11 A ideia geral é que a entidade deve reconhecer receitas de maneira que descreva a transferência de bens ou serviços prometidos e o valor que reflita a contraprestação à qual a entidade espera ter direito em troca desses bens ou serviços. Isso significa que o reconhecimento da receita deve ocorrer no momento em que os bens ou serviços prometidos sejam transferidos ao cliente, pelo valor esperado da contraprestação paga pelo cliente Existe um elemento fundamental para esse reconhecimento, que é a satisfação da obrigação de desempenho. Basicamente, a receita é reconhecida quando a transferência do bem ou serviço satisfaz a obrigação de desempenho. A norma sobre o reconhecimento está toda estruturada sobre esse elemento, mas separada em três partes, ou etapas: a. identificação do contrato; b. identificação de obrigação de desempenho; e c. satisfação de obrigação de desempenho. 3.2 Estoque Em relação aos custos, a legislação tributária evita que haja reduções nos valores dos estoques, como a do valor realizável líquido, antes que o produto seja vendido, pois isso implicaria uma dedução no lucro tributável com base em uma estimativa, o que não interessa ao fisco. Isso é exatamente o contrário dos mecanismos que precisam ser adotados pela norma contábil para proteger acionistas e credores. O CPC 16 não traz princípios de reconhecimento de estoques, o que remete ao princípio geral dado pelo CPC 00 Estrutura Conceitual. O item deve ser reconhecido se: a. For provável que algum benefício econômico futuro associado ao item flua para a entidade ou flua da entidade; e b. O item tiver custo ou valor que possa ser mensurado com confiabilidade (CPC, 2019). O reconhecimento de estoques normalmente não é cercado de grandes problemas, pois em geral ocorre com a sua aquisição. Ao adquirir um item de estoque, o gestor tomou a decisão de compra considerando que é provável a obtenção de benefícios econômicos futuros, inclusive em valor maior que o da aquisição. Por conta disso, o custo é uma boa forma de representação dos fluxos 12 de caixa futuros que serão obtidos pela venda, já que provavelmente estes não serão menores que o custo. Além disso, o custo pode ser mensurado com confiabilidade. Assim, a aquisição permite o reconhecimento do estoque. O problema maior está na mensuração dos estoques. De acordo com o CPC 16 – item 10, “o valor de custo do estoque deve incluir todos os custos de aquisição e de transformação, bem como outros custos incorridos para trazer os estoques à sua condição e localização atuais” (CPC, 2009a). Esse princípio precisa ser desmembrado em várias partes para clarificar o que de fato representa. Em primeiro lugar, o custo de aquisição dos estoques é aplicável a mercadorias, matérias-primas e outros materiais adquiridos. O custo de aquisição compreende o preço de compra, os impostos de importação e outros tributos não recuperáveis, assim como os custos de transporte, seguro, manuseio e outros diretamente atribuíveis à aquisição. A ideia é que todo o gasto que foi efetuado para colocar os estoques na condição e localização atuais seja incorporado aos seus custos. 3.3 Treinamento De acordo com os critérios de reconhecimento de receitas, por que uma transação de venda consignada pode não ter sua receita reconhecida no momento da transferência da mercadoria para o cliente? TEMA 4 – DERIVATIVOS E INSTRUMENTOS FINANCEIROS Esse assunto é, certamente, o mais complexo no conjunto das atuais normas de contabilidade e é tratado em três Pronunciamentos Técnicos (CPC 39 – Instrumentos Financeiros: Apresentação, CPC 40 – Instrumentos Financeiros: Evidenciação e CPC 48 – Instrumentos Financeiros) Vamos começar analisando alguns conceitos:1. Instrumento financeiro é quando uma empresa compra ações, debêntures, participação em outras empresas, ou seja, trata-se de investimentos; 2. Derivativos são contratos que derivam a maior parte de seu valor de um ativo subjacente, taxa de referência ou índice. O ativo subjacente pode ser físico (café, ouro etc.) ou financeiro (ações, taxas de juros etc.), negociado 13 no mercado à vista ou não (é possível construir um derivativo sobre outro derivativo). Os derivativos podem classificados em contratos a termo, contratos futuros, opções de compra e venda, operações de swaps, entre outros, cada qual com suas características. Instrumentos Financeiros, direitos e títulos de crédito, inclusive derivativos classificados no Circulante ou no Realizável a Longo Prazo são avaliados: 1. Pelo valor justo quando destinadas a negociação, ou disponíveis para venda; 2. Pelo custo de aquisição menos as perdas prováveis para as demais aplicações, e direitos e títulos de crédito Os instrumentos financeiros são classificados em quatro grupos: 1. Empréstimos normais e recebíveis normais de transações comuns: Como por exemplo o Contas a Receber, que fica registrado pelo valor original menos as perdas prováveis ou Ajuste a Valor Presente; 2. Custo Amortizado: é um ativo financeiro que foi feito para receber fluxo de caixa contratual. Os termos contratuais preveem o pagamento em alguma data do principal acrescido dos juros. É o título comprado que é mantido até o vencimento para receber juros não para venda nem negociação. Não é ajustado ao Valor Justo. É avaliado pelo valor do principal mais juros; 3. Valor Justo por meio de outros resultados abrangentes: para receber juros ou para venda. Nesse caso em específico, o valor dos juros vai para o Resultado e o Valor Justo vai para uma conta de Ajuste de Avaliação Patrimonial no PL; 4. Valor Justo por meio de resultado residual: nesse caso, tanto o Juros quanto o AVJ irão para o Resultado. A ideia principal é que os usuários das demonstrações contábeis possam analisar e conhecer os riscos a que a empresa está exposta. É obrigatório que as empresas divulguem informações que possam auxiliar na avaliação dos instrumentos financeiros derivativos, considerando-se, no mínimo, a política de utilização, os objetivos e estratégias de gerenciamentos de riscos e os riscos associados a cada estratégia, entre outras. 14 4.1 Treinamento Suponha-se que uma entidade possua carteiras de recebíveis, os quais decorrem de sua operação e não de aquisição, e mantenha-os para fins de monetizá-los por meio do recebimento dos valores. Qual seria a relevância da informação a valor justo para uma entidade com esse fim? Saiba mais Acesse o link a seguir e assista ao vídeo da professora Mariana Campagnoni sobre instrumentos financeiros e se aprofunde mais no assunto deste tema. INSTRUMENTOS financeiros: introdução (parte 1/2). Profª Mariana Campagnoni, 27 set. 2020. Disponível em: . Acesso em: 25 ago. 2021. TEMA 5 – OPERAÇÕES DE ARRENDAMENTO E CUSTO DE EMPRÉSTIMO Este capítulo trata das questões envolvendo a contabilização e apresentação de contratos de arrendamento e o tratamento de custos de empréstimos de acordo com as normas IFRS/CPC. A IFRS 16 – Leases, publicada em 2016 e efetiva a partir de 1º. de janeiro de 2019, promoveu uma série de mudanças na contabilidade dos contratos de arrendamento. A principal mudança é que todos os arrendamentos, com limitadas exceções, são reconhecidos no balanço patrimonial. A classificação em financeiro ou operacional foi eliminada. Com isso, os ativos arrendados têm que ser reconhecidos pelo arrendatário como ativos de direito de uso e em contrapartida os passivos (IFRS, 2016). As exceções ficam para os arrendamentos de curto prazo e de pequeno valor. Com isso, grande parte dos arrendamentos classificados como operacional passam a ser reconhecidos no balanço patrimonial, afetando principalmente a posição de endividamento e de liquidez corrente das empresas. Essa mudança procura evitar que financiamentos por meio de arrendamento fiquem de fora do balanço e foi justificada na própria norma pela estimativa de que, em 2005, US$1,25 trilhão em arrendamentos de empresas norte-americanas estavam fora do balanço. Essas mudanças promovidas pela IFRS 16 procuram tornar as demonstrações financeiras mais transparentes. 15 A primeira definição importante é a de um contrato de arrendamento. Segundo a IFRS 16 (IFRS, 2016), “um contrato, ou parte de um contrato, que prevê o direito de uso de um ativo (o ativo subjacente) por um período de tempo em troca de compensação”. O que está por trás do tratamento contábil do arrendamento é um conceito muito importante em contabilidade – o endividamento. A identificação de um arrendamento leva ao reconhecimento de um ativo e de um passivo simultaneamente. Deve-se debitar o ativo e creditar o passivo. Perceba que nenhum resultado é reconhecido neste momento, o que poderia parecer ser uma informação que não faz diferença. Portanto em relação ao arrendamento é necessário: 1. Identificar se existe um contrato: Um contrato é de ou contém um arrendamento se o contrato prevê o direito de controlar o uso de um ativo identificado por um período de tempo em troca de compensação. Exemplo: uma empresa realiza a colheita de grãos para seus clientes, produtores rurais. Para isso, fechou um contrato com uma indústria de colheitadeiras, que aluga as máquinas por um período de 5 anos, fornecendo serviço de manutenção e frota de peças, ou até a troca temporária de máquina com defeito. Ao final dos 5 anos, a empresa tem a opção de adquirir a máquina por um preço próximo ao seu valor de mercado. Nesse caso, a empresa não controla o ativo em si, pois os riscos inerentes à propriedade dos bens permanecem com a indústria. Porém, a empresa possui o direito de uso, o que indica a existência de um arrendamento. 2. Identificar o prazo do arrendamento: o direito de uso se limita ao período contratado, pois ao seu final, o ativo subjacente volta a ficar sob direito de uso do arrendador. Assim, o prazo do arrendamento determina o tempo de obtenção de benefícios econômicos do direito de uso. O CPC 20 (Custos de Empréstimos) traz algumas definições importantes para fins de determinação de se os custos de empréstimos devem ser capitalizados no ativo ou não. Basicamente, esses custos podem ser capitalizados se o ativo é qualificável. De acordo com o CPC 20, um ativo qualificável é um ativo que, necessariamente, demanda um período de tempo substancial para ficar pronto para seu uso ou venda pretendidos (CPC, 2011). A norma não especifica quanto é um período de tempo substancial, se são seis meses ou 5 anos, por exemplo. 16 Como é um ativo que demora ficar pronto, ativos financeiros ou ativos que estão prontos para seu uso ou venda quando adquiridos, por exemplo, não podem ser entendidos como ativos qualificáveis. Por exemplo, se a entidade adquirir uma máquina já pronta por meio de um financiamento, não é possível capitalizar os juros 5.1 Treinamento Uma empresa realizou uma operação de arrendamento para obtenção de uma máquina. À vista, ela custa $35.000. O valor será pago em 36 parcelas mensais de $1.360, com o valor residual já diluído ao longo das parcelas. A taxa de juros explicitada no contrato é de 1,9% a.m. Faça o lançamento de contabilização no momento do reconhecimento do ativo e os devidos lançamentos ao final do primeiro mês. Saiba mais A GOL Linhas Aéreas Inteligentes S/A revelava em seu Relatório da Administração das Demonstrações Financeiras de 2016 informações a respeito de suas aeronaves Perceba que a entidade possuía contratos de arrendamento de aeronaves de dois tipos: financeiro e operacional. O valor líquido dessas aeronavesno Imobilizado, considerando apenas as que estão sob contrato de arrendamento financeiro, é de mais de R$ 2,8 bilhões em 2016, o que representa por volta de 17% do Ativo total da companhia, sem contar sobressalentes e demais ativos relacionados. Isso revela que a gestão e o controle do arrendamento pode ser bastante relevante para muitas empresas e possui como principais pontos a essência da operação e o tratamento contábil dos arrendamentos mercantis em financeiro e operacional. Para saber mais, acesse o link a seguir: GOL Linhas Aéreas S.A. Demonstrações financeiras individuais e consolidadas. Gol Linhas Aéreas, 31 dez. 2016. Disponível em: . Acesso em: 25 ago. 2021. 17 REFERÊNCIAS COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS. Pronunciamento técnico CPC 00 (R1) – Estrutura conceitual relatório financeiro. CVM Del. 835, 10 dez. 2019. Disponível em . _____. Pronunciamento técnico CPC 01 (R1) – Redução ao valor recuperável de ativos. IAS 36, 7 out. 2010. _____. Pronunciamento técnico CPC 16 (R1) – Estoques – Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade IAS 2, 8 set., 2009a. _____. Pronunciamento técnico CPC 20 (R1) – Custos de empréstimos – Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade – IAS 23, 20 nov. 2011. _____. Pronunciamento técnico CPC 25 – Provisões, passivos contingentes e ativos contingentes. IAS 37, 16 set. 2009b. _____. Pronunciamento técnico CPC 47 – Receitas. IAS 18, 2012. IFRS – International Financial Reporting Standard. Effects Analysis. IFRS 16 Leases, jan. 2016. Disponível em: . Acesso em: 25 ago. 2021. PETROBRAS. Divulgamos nossas demonstrações contábeis auditadas. Fatos e Dados, 22 abr. 2015. Disponível em: . Acesso em: 25 ago. 2021. 18 Gabarito Tema 1 Equipamentos 600.000 (-) Depreciação Acumulada (390.000) (=) 210.000 Valor Justo 100.000 Fluxos de Caixa 30.000 Anos 7 Taxa Juros 12% Valor em Uso 136.913 Valor Recuperável 136.913 Perda por Impairment 73.087 Tema 2 a. É necessário o reconhecimento da provisão, pois existe uma obrigação presente no momento da venda do produto e é provável a saída de recursos para liquidar a obrigação. O valor é de 2% da receita de $900.000 = $18.000. Débito Crédito Despesa com Garantia $ 18.000 Provisão p/Garantia $ 18.000 b. Ambos os custos são deduzidos na provisão para garantia com os seguintes lançamentos: Débito Crédito Provisão p/ Garantia $ 6.000 Caixa $6.000 Pelo pagamento do gasto com mão de obra Débito Crédito Provisão p/Garantia $ 4.500 Caixa $ 4.500 Pelo pagamento do gasto com materiais Mesmo que uma parte dos gastos estimados com conserto de produtos em garantia no momento da venda já foi realizada neste mês seguinte, a empresa não deve reconstituir a provisão para que volte a representar 2% das receitas de $900.000 ao final deste mês seguinte, conforme previsto inicialmente, debitando 19 Despesa com Garantia novamente. Entretanto, é possível que a empresa tenha que revisar suas estimativas para o futuro e, eventualmente, modificar o valor da provisão e reconhecer mais uma despesa (ou uma receita). Tema 3 Conforme o CPC 47, a entidade não deve reconhecer a receita enquanto não satisfizer a sua obrigação de desempenho ao transferir o bem prometido ao cliente e é considerado transferido quando o cliente obtiver o controle desse ativo (CPC, 2012). No caso da transação de consignação, o vendedor mantém o controle sobre o estoque que foi transferido fisicamente para o cliente, pois ele mantém a prerrogativa de retirar a mercadoria que está no cliente caso seja de sua conveniência. Tema 4 A alteração no valor justo de tais recebíveis em nada impactaria o modelo de negócio da companhia que permanece na espera do recebimento desses saldos. Muito mais relevante para uma entidade nesse escopo é saber se houve incrementos no risco de que esses montantes não sejam devidamente convertidos em caixa ou equivalentes nas datas esperadas. Tema 5 No reconhecimento inicial: Valor Justo = 35.000 Valor Presente das parcelas = 1.360 [(1 – (1/ (1 + 0,019) ^36)) / 0,019] = 35.228 O ativo deve ser mensurado pelo valor do passivo, considerando que não há custos adicionais: D – Direitos de Uso 35.228 C – Arrendamento a Pagar (Passivo) 35.228 Ao final do primeiro mês: Valor Presente das parcelas = 1.360 [(1 – (1/ (1 + 0,019) ^35)) / 0,019] = 34.537 Amortização da dívida de arrendamento: 35.000 – 34.537 = 463 Despesa Financeira: $1.360 – 463 = 897 D – Arrendamento a Pagar (Passivo) 463 D – Despesa Financeira 897 C – Caixa 1.360 20 Como o ativo será transferido à arrendatária e o ativo será utilizado ao longo de 60 meses, a depreciação é calculada a partir desse período. Assim, o ativo de $35.228 será depreciado por 60 meses, resultando em uma despesa de depreciação mensal de $587: D – Despesa de Depreciação 587 D – Depreciação Acumulada 587 AULA 5 CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Profª Marineusa Andreico Rodrigues 2 INTRODUÇÃO Este tema trata das questões envolvendo a tributação brasileira sobre o lucro, mais particularmente os aspectos que possuem maior relação com a contabilidade para fins de divulgação. A Lei n. 11.638/07 trouxe a neutralidade tributária, o que foi definitivamente confirmada com a Lei n. 12.973/14, após um período sob o Regime Tributário de Transição (RTT). A neutralidade tributária assegura que a aplicação de métodos e critérios contábeis para fins de divulgação não tem impacto tributário. Assim, é possível, por exemplo, adotar vidas úteis mais extensas de ativo imobilizado do que as previstas pela legislação tributária e mesmo assim deduzir da base de cálculo do IR à depreciação conforme a taxa prevista na regra tributária. TEMA 1 – TRIBUTAÇÃO SOBRE O LUCRO NO BRASIL No Brasil, há dois tributos em específico que incidem sobre o lucro: Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro. A apuração desses tributos depende do regime de tributação que a empresa está enquadrada. Há quatro regimes de tributação federal envolvendo a tributação sobre o Lucro: Lucro Real, Lucro Presumido, Lucro Arbitrado e Simples Nacional O Simples Nacional é voltado para microempresas e empresas de pequeno porte. Assim, a opção por esse regime tributário só pode ser exercida se a empresa se enquadrar nos critérios exigidos pelo governo, que inclui o seu tamanho, medido pela receita bruta: até R$4,8 milhões por ano. Nessa opção, a empresa paga sobre uma alíquota única sobre a receita mensal, alíquota essa que é definida conforme a sua atividade (comércio, indústria ou prestação de serviços) e seu nível de receitas nos últimos 12 meses. Essa alíquota inclui, além de Imposto de Renda e Contribuição Social, PIS, COFINS, Contribuição Previdenciária Patronal e ICMS. A opção do Lucro Presumido é voltada para empresas pequenas e médias, que faturam até R$ 78 milhões por ano, com menores restrições para a sua opção do que para a do Simples Nacional. A opção ocorre para Imposto de Renda, mas na verdade ela é feita para um "pacote" de tributação, envolvendo vários tributos. ISS, PIS, COFINS, IR e CSL são preponderantemente incidentes sobre a receita bruta, e IPI e ICMS são incidentes sobre o valor agregado da empresa. PIS e COFINS são calculados sobre a receita bruta com alíquota combinada de 3,65%. 3 O IR é calculado sobre um percentual que o fisco presume ser de margem de lucro, somado a outras receitas, como as financeiras. Por exemplo,se a receita de um trimestre de uma empresa comercial é de R$ 100.000, o fisco presume um percentual de lucro de 8%. Com alíquota de 15% de IR, o valor do tributo é de R$ 1.200 [100.000 x 0,08 x 0,15], independentemente de qual foi o valor do lucro que a empresa obteve de fato. A Contribuição Social segue a mesma lógica, mas com percentuais de presunção do lucro diferentes. O lucro arbitrado é faculdade do fisco e pode ser aplicado nos casos em que a pessoa jurídica não mantém escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, com escrituração desclassificada pela fiscalização, que optou indevidamente pela tributação no lucro presumido ou que não mantém arquivo de documentos. A opção do Lucro Real pode ser feita para por qualquer empresa, mesmo por uma microempresa, mas também implica na "aquisição de um pacote tributário". ISS é incidente sobre a receita de serviços, mas PIS e COFINS são incidentes sobre o valor agregado, tal como IPI e ICMS. IR e CSL são incidentes sobre o lucro realmente apurado com base nos lançamentos contábeis. O chamado Lucro Real é calculado no Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR) a partir de ajustes de adições, exclusões e compensações sobre o Lucro antes do IR/CSL, apurado contabilmente. As adições são ajustes que aumentam o lucro tributável em função, por exemplo, de despesas que sejam indedutíveis. As exclusões são ajustes que reduzem o lucro tributável, por exemplo, por receitas que sejam não tributáveis e por despesas que passaram a ser dedutíveis. As compensações ocorrem em função da existência de prejuízos fiscais anteriores, reduzindo o valor do lucro tributável. As compensações podem ocorrer em até 30% do Lucro antes das Compensações, mas não há prazo para expiração dos prejuízos fiscais acumulados. Os ajustes de adições, exclusões e compensações de cada período de apuração são feitos na Parte A do LALUR. A Parte B do LALUR é utilizada para controlar os saldos que ficam para frente, como o valor dos prejuízos fiscais que serão compensados no futuro ou as despesas que são indedutíveis apenas temporariamente, como é o caso das provisões. IR e CSL são apurados no tempo, segundo duas opções que o contribuinte pode fazer: apuração trimestral ou apuração anual. Na opção da apuração trimestral, o pagamento dos tributos é feito trimestralmente, mas o período 4 considerado para fins de compensação de prejuízos fiscais também é trimestral, passando pela regra de compensação de até 30% do lucro do trimestre. Na opção de apuração anual, o pagamento dos tributos é feito mensalmente, pela sistemática de adiantamentos mensais por estimativa ou por balancetes de suspensão/redução. Nessa sistemática, são feitos adiantamentos mensais calculados com base nos percentuais do Lucro Presumido, podendo ser reduzidos ou suspensos caso se comprove, por meio do levantamento de balancetes mensais e da apuração do Lucro Real, que o valor pago no ano é maior do que o devido. 1.1 Incentivos fiscais Na tributação sobre o lucro no Brasil, há duas formas de funcionamento dos incentivos fiscais: por meio de redução de base de cálculo dos tributos ou por redução do valor dos tributos devidos. A redução da base de cálculo pode ocorrer por exclusão definitiva no LALUR, como a que ocorre com o incentivo fiscal por inovação tecnológica, mas também pode ocorrer por exclusão temporária, como é o caso da depreciação acelerada, em que posteriormente ocorrem adições para ajustar a despesa de depreciação ao montante dedutível. Existem diversos incentivos fiscais concedidos pelo governo federal na tributação sobre o lucro: inovação tecnológica, PROUNI, PAT, atividades culturais, doações ao Fundo da Criança e Adolescente, incentivo aos esportes e incentivos regionais. Cada um deles possui uma forma diferente de se calcular. Por exemplo, no incentivo à inovação tecnológica, as despesas operacionais são dedutíveis de IR e CSL, com o incentivo de depreciação e amortização acelerada integral. Assim, na aquisição de imobilizado ou intangível ligado à inovação tecnológica é feita uma exclusão do valor investido. Posteriormente, quando a despesa de depreciação ou amortização efetivamente ocorre, deve ser adicionada, pois todo o investimento já havia sido deduzido. Além disso, é possível excluir do IR e da CSL até 60% dos dispêndios realizados no período, podendo chegar a 80% em função do número de empregados pesquisadores e mais 20% se houver patente concedida. No caso do incentivo à cultura, por meio da Lei Rouanet, com projetos aprovados de acordo com o Pronac, as despesas com doações e patrocínios são dedutíveis do IR. Depois de calculado o valor do IR sobre o Lucro Real, o incentivo 5 fiscal ocorre por meio da dedução do valor devido. É possível deduzir do valor devido até 40% do valor da doação ou até 30% do valor do patrocínio, limitado a 4% do imposto devido. 1.2 Treinamento Cite as vantagens e desvantagens da tributação pelo Lucro Real. Saiba mais Assista o vídeo abaixo do professor Quintino sobre a tributação no lucro real e fique por dentro do assunto. Disponível em: . Acesso: 16 jul. 2021. TEMA 2 – LUCRO NA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA BRASILEIRA A legislação tributária estabelece uma série de regras envolvendo a definição dos componentes do lucro. Por vezes, o texto da lei dá a impressão de que está tratando da definição dos componentes do lucro contábil; outras vezes, dá a impressão de que está definindo se a receita é tributável ou se a despesa é dedutível. Provavelmente, é uma mistura das duas coisas: afinal, antes da Lei n. 11.638/2007, havia uma forte influência da legislação tributária sobre a prática contábil. Com isso, há definições de receitas, custos e despesas, mas há também a definição de resultados tributáveis e dedutíveis. É importante ver essas definições do ponto de vista do fisco, que visa proteger seus interesses de arrecadação dos tributos. 2.1 Receitas De acordo com o art. 12 do Decreto Lei n. 1.598/1977, alterada pela Lei n. 12.973/2014, a receita bruta compreende: I. O produto da venda de bens nas operações de conta própria; II. O preço da prestação de serviços em geral; III. O resultado auferido nas operações de conta alheia; e IV. As receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. 6 Ainda de acordo com o Decreto-Lei n. 1.598/1977, a receita líquida será a receita bruta diminuída de: I. Devoluções e vendas canceladas; II. Descontos concedidos incondicionalmente; III. Tributos sobre ela incidentes; e IV. Valores decorrentes do ajuste a valor presente em operações de longo prazo ou quando houver efeito relevante do desconto dos juros. Cabe destacar que a Receita de Vendas apresentada na DRE para divulgação corresponde à definição de receita líquida da legislação tributária. Como se pode perceber, a legislação tributária, por meio da Lei n. 12.973/2014, ajustou a composição da receita líquida, incluindo o ajuste a valor presente que não existia antes da adoção de IFRS no Brasil. 2.2 Custos De acordo com o Art. 13 do Decreto-Lei n. 1.598/1977, o custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte e os tributos devidos na aquisição ou importação. Essa definição remete à avaliação dos estoques, que quando baixados devem compor o custo da mercadoria vendida. Essa definição de custo de aquisição corresponde aos critérios de mensuração de estoques definidos no CPC 16 sobre custos de aquisição de mercadorias, o que não deve gerar diferenças materiais em relação ao custo das mercadorias vendidas para fins tributários. O pronunciamento CPC 16 estabelece que os estoques devem ser mensurados a custo ou ao seu valor realizável líquido, dos doiso menor. Entretanto, essas reduções no valor dos estoques não são permitidas pela legislação tributária. Assim, essas perdas seriam reconhecidas apenas na efetiva venda do produto que sofreu redução de valor, gerando uma diferença entre o lucro contábil e o lucro tributável. O referido Decreto-Lei também estabelece que a aquisição de bens de consumo eventual, cujo valor não exceda de 5% do custo total dos produtos vendidos no exercício social anterior, poderá ser registrada diretamente como custo. Essa regra de materialidade não existe desta forma em IFRS, o que pode gerar diferenças na mensuração dos estoques e do custo dos produtos vendidos. 7 2.3 Despesas operacionais A legislação tributária estabelece uma definição para as despesas operacionais. É importante lembrar a motivação para a existência dessa definição: evitar manipulação para reduzir o lucro tributável. A legislação define que "são operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora" (Lei n. 4.506/1964, art. 47). É uma definição que exige interpretação, pois o que se pode considerar como despesas necessárias? O texto da lei prossegue: "são necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa" e "as despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa". O que se pode depreender é que essas definições procuram estabelecer limites para o que pode ser considerado como despesa da própria entidade, afastando as despesas que não sejam dela. Por exemplo, um dono de uma empresa poderia ter a ideia de considerar os gastos com supermercado para sua família como despesas da empresa para reduzir o lucro tributável, mas essa ideia ficaria afastada por meio dessa definição, pois não há como justificar que esses gastos com supermercado sejam necessários para a operação da empresa Assim, podem ser consideradas como despesas operacionais as despesas com vendas e administrativas da empresa, compreendendo gastos com pessoal, materiais, depreciação etc A definição de despesas operacionais não implica necessariamente que elas são dedutíveis. É possível que uma determinada despesa seja considerada operacional, como a decorrente do reconhecimento de uma provisão no passivo, mas que é indedutível no momento em que é reconhecida 2.4 Depreciação, amortização e exaustão A legislação tributária define depreciação como a importância correspondente à diminuição do valor dos bens do ativo resultante do desgaste pelo uso, ação da natureza e obsolescência normal. Ela permite deduzir o custo ou despesa de depreciação a partir da época em que o bem é instalado, posto em serviço ou em condições de produzir, não podendo ultrapassar o custo de aquisição do bem 8 Apesar de definir que a taxa anual de depreciação será fixada em função do prazo durante o qual se possa esperar utilização econômica do bem pelo contribuinte, a legislação atribui à Receita Federal do Brasil a incumbência de estabelecer o prazo de vida útil admissível, em condições normais ou médias, para cada espécie de bem. Do ponto de vista do fisco, o prazo de vida útil admissível é o prazo mínimo que o contribuinte tem para depreciar o ativo, pois o seu interesse seria o de computar a despesa dedutível o mais rápido possível. Com isso, a RFB utiliza a Nomenclatura Comum do Mercosul para estabelecer os prazos de vida útil admissível, fixando assim as taxas de depreciação anuais Com isso, a depreciação dedutível pode ser diferente da depreciação contábil reconhecida em função da vida útil econômica do ativo em conformidade com o pronunciamento CPC 27. Por exemplo, se um ativo foi adquirido por $ 100.000 e a vida útil é de 5 anos, mas a taxa de depreciação dedutível é de 25%, a despesa contábil anual reconhecida seria de $ 20.000, mas o valor dedutível seria de $ 25.000. Isso geraria um ajuste de exclusão no LALUR de $ 5.000 nos primeiros 4 anos. No 5º ano não haverá mais despesa de depreciação dedutível, pois todo o ativo já terá depreciado para fins fiscais. Com isso, a despesa de depreciação precisa ser ajustada no LALUR, por meio de uma adição de $20.000. 2.5 Treinamento A empresa Great possui as atividades de comércio e prestação de serviços simultaneamente e apresentou os seguintes dados no primeiro trimestre de X1: a) Receita bruta das atividades de vendas de produtos da empresa: R$ 5.171.690,00 b) Receita das atividades de prestação de serviços da empresa: R$ 2.245.310,00 c) Impostos incidentes sobre vendas não recuperáveis perante o fisco: R$ 609.749,00 d) Devoluções de Vendas: R$ 240.995,00 e) Cancelamento de Vendas: R$ 110.990,00 Neste período ela efetuou a venda de um ativo imobilizado da empresa onde seu custo de aquisição foi de R$ 100.000,00 e sua depreciação até o 9 momento foi de R$ 70.000,00. O valor da venda do imobilizado foi de R$ 40.000,00. Também neste período ela recebeu uma doação no valor de R$ 25.000,00 Esta empresa possui aplicações financeiras de curto prazo e efetuou um resgate das suas aplicações na qual obteve um rendimento no valor de R$ 15.250,00 e um IRRF retido no valor de R$ 2.287,50. Pede-se: Calcule o IRPJ e a CSLL a ser paga pela empresa Great no primeiro trimestre. Saiba mais Acesse o link abaixo e leia o trabalho publicado na revista de administração IMED “Planejamento tributário: estudo do regime tributário menos oneroso para indústria”. Disponível em: . Acesso: 16 jul. 2021. TEMA 3 – DEMONSTRAÇÃO DE FLUXO DE CAIXA (DFC) A Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) indica a origem dos recursos financeiros que entraram no caixa, bem como a aplicação de todos os recursos financeiros que saíram do caixa em determinado período para uma entidade, sendo também uma demonstração dinâmica, pois indica a variação do saldo de Caixa e Equivalentes de Caixa de um período para outro. Enquanto a DRE demonstra a composição do lucro e a DMPL demonstra a variação das contas do Patrimônio Líquido, a DFC foca na especificamente na variação do caixa, ou de maneira mais ampla, das disponibilidades e outros equivalentes de caixa, formados pelos recursos que estão imediatamente disponíveis. É interessante notar que a DFC apresenta os fluxos de caixa realizados no período, o que permite projetar fluxos de caixa futuros, que é uma necessidade para todos os usuários que precisam tomar decisões a partir das informações contábeis. Entretanto, as pesquisas científicas mostram que as projeções são mais acuradas quando feitas a partir da Demonstração de Resultados. Por exemplo, em vez de projetar recebimentos futuros de clientes com base nos recebimentos demonstrados na DFC, deve-se projetar recebimentos futuros com base nas receitas de vendas da DRE, para se ter uma projeção mais acurada. Isso ocorre 10 porque a DRE faz uma melhor alocação dos fluxos de caixa no tempo em base competência (accrual accounting). A DFC traz informações que não existem em outras demonstrações financeiras, como o valor captado e pago de dívidas no período, o que permite avaliar a capacidade de obtenção de crédito que a empresa tem. Assim, é importante entender a estrutura da DFC, para que se possa extrair informações relevantes para a tomada de decisões. O fluxo de caixa tem como objetivo demonstrar as entradas e saídas de recursos monetários resultantes dos recebimentos e pagamentos, diferentemente do lucro na DRE que utiliza o conceito de competência, a DFC só considera as operações que tiveram impacto no caixa. Para facilitar a análise do efeito caixa a DFC é dividida em 3 partes: 1) Fluxo de caixa operacional (FCO): que corresponde aos recebimentos e pagamentos no cursonormal das atividades da empresa, privilegiando uma análise da capacidade de geração de caixa em sua atividade operacional; 2) Fluxo de caixa de investimento (FCI): são as saídas ocasionadas pela aquisição de investimentos, como compras de imobilizado, intangível e investimentos de longo prazo (não circulante), bem como as entradas de caixa pela venda desses investimentos (também tratadas por desinvestimento); e 3) Fluxo de caixa de financiamento (FCF): entradas de caixa provenientes da captação de investimentos por parte de capital (investidores) e dívida (credores) e saídas com o pagamento dessas dívidas (principal e juros) ou da distribuição de lucros e redução do capital para investidores. Notem que movimentações “virtuais” de caixa, como aumento de capital com estoques, não transitam pela DFC, pois ela deve contemplar apenas as movimentações com efeito caixa. Assim, conforme o CPC 03 (R2) de 2010, temos: • Caixa compreende numerário em espécie e depósitos bancários disponíveis; • Equivalentes de caixa são aplicações financeiras de curto prazo, de alta liquidez, que são prontamente conversíveis em montante conhecido de caixa e que estão sujeitas a um insignificante risco de mudança de valor. 11 Antes de compreender a estrutura da DFC é importante que entendamos quais as principais transações que afetam o caixa: a) Existem transações que aumentam o Caixa e seus equivalentes, como por exemplo, a integralização de capital, empréstimos bancários e financiamentos, vendas de bens de ativos imobilizados, entre outras. b) Existem transações que diminuem o caixa e seus equivalentes, como por exemplo: Pagamento de dividendos, pagamento de juros, compras de estoques à vista e pagamento de fornecedores, que são as saídas de numerários referentes à matéria-prima, materiais e mercadorias; c) E existem transações que não afetam o caixa e seus equivalentes, como por exemplo: Depreciação, amortização, perdas esperadas com créditos de liquidação duvidosa, entre outros. A norma permite a utilização de dois modelos para que as entidades divulguem os fluxos de caixa das atividades operacionais: 1) O método direto, segundo o qual as principais classes de recebimentos brutos e pagamentos brutos são divulgadas; ou 2) O método indireto, segundo o qual o lucro líquido ou prejuízo é ajustado pelos efeitos: a. Das transações que não envolvem caixa; b. De quaisquer diferimentos ou outras apropriações por competência c. Sobre recebimentos ou pagamentos operacionais passados ou futuros; e d. De itens de receita ou despesa associados com fluxos de caixa das atividades de investimento ou de financiamento. 3.1 Treinamento Para esta atividade, com relação às demonstrações abaixo, pede-se: Elaborar o fluxo de caixa pelo método indireto para o ano de 2013 (conforme CPC 03); e elaborar o fluxo de caixa pelo método direto para o ano de 2013 (conforme CPC 03); 12 ATIVO 12/31/2012 12/31/2013 Caixa 5 50 Contas a receber 50 60 Estoques 35 40 Ativo Circulante 90 150 Recebíveis 30 30 Máquinas 200 230 Depreciação Acumulada (60) (80) Ativo Não Circulante 170 180 Ativo Total 260 330 PASSIVO 12/31/2012 12/31/2013 Fornecedores 40 30 Despesas a pagar 10 5 Empréstimos 40 20 Passivo Circulante 90 55 Financiamentos 80 95 Passivo Não Circulante 80 95 Patrimônio Líquido 90 180 Capital 60 60 Reserva de Lucros 30 120 Passivo Total 260 330 Notas explicativas: Carência de três anos para pagamento de juros dos financiamentos; houve pagamento de dividendos; recebíveis não correntes tratados como investimento; Saldo inicial de Máquinas adquirido a vista em (t-2); Compra de máquinas no período a vista; f) Depreciação de compras do período5. Saiba mais Assista os vídeos abaixo do professor Quintino sobre como elaborar a demonstração do Fluxo de Caixa pelo método direto e indireto e fique por dentro. Disponível em: . Acesso: 16 jul. 2021. /. Acesso: 16 jul. 2021. TEMA 4 – DEMONSTRAÇÃO DAS MUTAÇÕES DO PATRIMÔNIO LÍQUIDO (DMPL) A demonstração das mutações do patrimônio líquido evidencia as variações ocorridas em cada uma das contas integrantes do patrimônio líquido da empresa em determinado período. DRE do Período - 2013 Receita de Vendas 500 Custo da Mercadoria Vendida (275) Lucro Bruto 225 Despesas de Depreciação (20) Despesas Administrativas (15) Resultado Antes das Receitas e Despesas Financeiras 190 Despesas Financeiras (Circ.) (10) Despesas Financeiras (Não Circ.) (15) Resultado Financeiro (25) Resultado Líquido 165 13 O patrimônio líquido deve apresentar o capital social, os ajustes de avaliações patrimoniais, as reservas de lucros, as ações ou quotas em tesouraria, os prejuízos acumulados, se legalmente admitidos os lucros acumulados e as demais contas exigidas pelos pronunciamentos técnicos emitidos pelo CFC. As contas que forma o patrimônio líquido podem sofrer variações diversas como por exemplo, um acréscimo pelo lucro ou redução pelo prejuízo líquido do exercício; redução por dividendos; entre outros. Assim a entidade deve apresentar todas as modificações que impactaram o patrimônio líquido na DMPL. Quadro 3 – Representação Gráfica da DMPL Patrimônio Líquido Capital Social Reserva de lucro Lucros Acumulados Total Expansão Legal Estatutária Saldo em 31/12/2019 10.000 1.000 2.000 13.000 Lucro do Período 1.000 1.000 Reserva Expansão 550 (550) Reserva Legal 100 (100) Reserva Estatutária 150 (150) Dividendos (200) (200) Saldo em 31/12/2018 10.000 550 1.100 2.150 - 13.800 Fonte: Iudícibus, 2020, p. 22. 4.1 Treinamento A demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL) tem como objetivo fundamental apresentar as variações ocorridas nas contas que transitam pelo patrimônio líquido. No contexto das variações do patrimônio líquido, uma variação evidenciada na DMPL que reduz a capacidade operacional da empresa é a: a. Destinação de lucros para remuneração dos acionistas; b. Incorporação do lucro líquido do exercício social; 14 c. Nova reserva constituída pela alienação de bônus de subscrição; d. Subscrição e integralização de capital em bens: Saiba mais Assista o vídeo abaixo sobre a DMPL do professor Quitino e fique por dentro do assunto: . Acesso: 16 jul. 2021. TEMA 5 – DEMONSTRAÇÃO DO VALOR ADICIONADO (DVA) A partir da alteração proporcionada pela Lei n. 11.638/2007, a Demonstração do Valor Adicionado (DVA) passou a ser obrigatória a partir de 2008 para as sociedades anônimas e empresas de grande porte. Por meio da Demonstração do Valor Adicionado, a entidade divulga: (1) o valor da riqueza gerada pela companhia e; (2) a sua distribuição entre os elementos que contribuíram para a geração dessa riqueza, tais como empregados, financiadores, acionistas, governo e outros, bem como a parcela da riqueza não distribuída. A Demonstração do Valor Adicionado (DVA) procura evidenciar para quem a empresa está direcionando a renda obtida. Tendo um caráter profundamente social, esta demonstração indica as formas de adição de valor pela organização, bem como, as destinações que são dadas a este valor adicionado. Assim, a DVA não deve ser confundida com a DRE, pois esta tem suas informações voltadas quase que exclusivamente para os sócios e acionistas, enquanto a DVA está dirigida para a geração de riquezas e sua respectiva distribuição pelos fatores de produção (capital e trabalho) e ao governo, sendo que várias empresas já a divulgavam voluntariamente, mesmo antes da sua obrigatoriedade. A DVA apresenta um caráter social muito importante, dessa forma, suas informações podem auxiliar os usuários da informaçãocontábil no reconhecimento das formas de geração de valor adicionado e, especialmente, na distribuição do valor gerado. 15 Quadro 4 – Modelo apresentado, correspondente ao CPC 09 DESCRIÇÃO Em milhares de reais 20X1 Em milhares de reais 20X0 1 - RECEITAS 1.1 - Vendas de mercadorias, produtos e serviços 1.2 - Outras receitas 1.3 - Receitas relativas à construção de ativos próprios 1.4 - Provisão para créditos de liquidação duvidosa - Reversão / (Constituição) 2 - INSUMOS ADQUIRIDOS DE TERCEIROS (inclui os valores dos impostos - ICMS, IPI, PIS e COFINS) 2.1 - Custos dos produtos, das mercadorias e dos serviços vendidos 2.2 - Materiais, energia, serviços de terceiros e outros 2.3 - Perda / Recuperação de valores ativos 2.4 - Outras (especificar) 3 - VALOR ADICIONADO BRUTO (1-2) 4 - DEPRECIAÇÃO, AMORTIZAÇÃO E EXAUSTÃO 5 - VALOR ADICIONADO LÍQUIDO PRODUZIDO PELA ENTIDADE (3-4) 6 - VALOR ADICIONADO RECEBIDO EM TRANSFERÊNCIA 6.1 - Resultado de equivalência patrimonial 6.2 - Receitas financeiras 6.3 - Outras 7 - VALOR ADICIONADO TOTAL A DISTRIBUIR (5+6) 8 - DISTRIBUIÇÃO DO VALOR ADICIONADO 8.1 - Pessoal 8.1.1 - Remuneração direta 8.1.2 - Benefícios 8.1.3 - F.G.T.S 8.2 - Impostos, taxas e contribuições 8.2.1 - Federais 8.2.2 - Estaduais 8.2.3 - Municipais 8.3 - Remuneração de capitais de terceiros 8.3.1 - Juros 8.3.2 - Aluguéis 8.3.3 - Outras 8.4 - Remuneração de Capitais Próprios 8.4.1 - Juros sobre o Capital Próprio 8.4.2 - Dividendos 8.4.3 - Lucros retidos / Prejuízo do exercício 8.4.4 - Participação dos não-controladores nos lucros retidos (só p/ consolidação) 5.1 Treinamento Considerando as demonstrações contábeis em geral responda que forma as informações contidas nessas demonstrações podem ser úteis ao investidor. E em que pontos o CPC 26 protege o interesse do investidor contra possível informação enganosa. 16 REFERÊNCIA BRASIL. Decreto n. 3.000, de 26 de março de 1999. Disponível em: Acesso em: 22 abr. 2015. BRASIL. Decreto-Lei n. 1.598, de 26 de dezembro de 1977. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. _____. Instrução Normativa RFB n. 1.700 de 14 de março de 2017. Diário Ofical da União, Poder Legislativo, Brasília, DF. 16 mar. 2017 _____. Instrução Normativa RFB n. 1.515, de 24 de novembro de 2014. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. ___. Instrução Normativa SRF n. 11 de 21 de fevereiro de 1996. Diário Ofical da União, Poder Legislativo, Brasília, DF. 22 fev. 1996 ____. Lei n. 11.638, de 28 de dezembro de 2007. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. ____. Lei n. 11.941, de 27 de maio de 2009. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. _____. Lei n. 12.973, de 13 de maio de 2014. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. _____. Regulamento do Imposto de Renda. Decreto n. 9.580 de 22 de Novembro de 2018. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez.2018 COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC). CPC 03 (R2) – Demonstração dos Fluxos de Caixa. 2010. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. _____. CPC 09 – Demonstração de Valor Adicionado. 2008. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. 17 _____. CPC 21 (R1) – Demonstração Intermediária. 2011. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. DFC. Demonstração de Fluxo de Caixa. Professor Quintino. Disponível em . Acesso: 16 jul 2021. . Acesso: 16 jul 2021. DMPL. Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido. Professor Quintino. Disponível em: . Acesso: 16 jul 2021. RAIMED - Revista de Administração IMED, 2(3), 2012, p. 195-206 - ISSN 2237 7956- Trabalho sobre Planejamento tributário: estudo do regime tributário menos oneroso para indústria”, disponível em Planejamento tributário: estudo do regime tributário menos oneroso para indústria”. . Acesso: 16 jul 2021. 18 GABARITO TEMA 1 – 1.2. O lucro real é o único regime onde o contribuinte paga imposto sobre o que efetivamente apurou de lucro, pois nos demais regimes a tributação é sobre o faturamento ou sobre uma base presumida do faturamento, portanto podemos dizer que trata-se de um regime mais justo para o contribuinte. É o único regime que permite a compensação de prejuízos fiscais sem prazo de vencimento e também onde o contribuinte consegue efetuar deduções de despesas que a legislação do imposto de renda entende como sendo dedutíveis. O regime de lucro real também aproveita-se de incentivos fiscais quando efetua doações para entidades sem fins lucrativos cadastradas nos programas governamentais, quando participa do PAT – Programa de Alimentação ao trabalhador entre outros. Com exceção de algumas atividades que são tributadas no lucro real as quais ficam obrigadas a tributação de Pis e Cofins no regime cumulativo, as demais quando tributadas no lucro real obrigam o contribuinte a tributação de Pis e Cofins no regime não cumulativo, o que lhe permite também tomar créditos de Pis e Cofins sobre mercadorias para revendas, matérias primas e outros produtos. Agora falando de desvantagens devemos lembrar que neste regime não existe a possibilidade de efetuar o parcelamento do Imposto apurado, o mesmo deve ser recolhido em cota única até o dia 31/03 do ano seguinte. Aqui a apuração é mais trabalhosa, visto que terá que ser levantado balanço de suspensão ou redução se o contribuinte quiser demonstrar prejuízo para deixar de recolher os impostos e também podemos citar o fato de que os saldos negativos do IRPJ somente poderão ser compensados no ano seguinte após o envio da ECF. Já no lucro real trimestral existe a possibilidade de se compensar prejuízos a partir do trimestre seguinte, visto que esta apuração é definitiva, e também de compensar saldos negativos do Imposto já a partir do próximo trimestre, com exceção do último trimestre. Resumindo, as vantagens e desvantagens deste regime de apuração deverá ser analisado de acordo com o perfil da empresa, atividade, localização, faturamento entre outras condições que podem caracterizar este regime como vantajoso ou desvantajoso para cada entidade individualmente. 19 TEMA 2 – 2.5 IRPJ Receita bruta Comércio: 5.171.690,00 (-) Impostos Não recuperáveis: (609.749,00) (-) Devoluções de Vendas: (240.995,00) (-) Cancelamento de Vendas: (110.990,00) Receita liquida: 4.209.956,00 (x) Alíquota da presunção: 8% (=) Presunção do Comércio: 336.796,48 Receita da Prestação do Serviço: 2.245.310,00 (x) Alíquota da presunção: 32% (=) Presunção do Serviço: 718.499,20 Presunção total: R$ 1.055.295,68 (+) Lucro na venda de um ativo imobilizado: 10.000,00 (100.000 – 70.000 = 30.000 “custo de aquisição” – 40.000 “valor da venda” (+) Doação recebida: 25.000,00 (+) Rendimento de aplicação financeira: 15.250,00 (=) Lucro antes do IRPJ e da CSLL: 1.105.545,68 (x) Alíquota do IRPJ: 15% (=) IRPJ a pagar: 165.831,85 (+) Adicional do IRPJ: 104.545,68 (1.105.545,68 – 60.000,00 x 10%) (-) IRPJ retido na aplicação financeira (2.287,50) (=) IRPJ a pagar no mês: 268.090,03 CSLL Receita bruta Comércio: 5.171.690,00(-) Impostos Não recuperáveis: (609.749,00) (-) Devoluções de Vendas: (240.995,00) (-) Cancelamento de Vendas: (110.990,00) Receita Líquida: 4.209.956,00 (x) Alíquota da presunção: 12% (=) Presunção do Comércio: 505.194,72 Receita da Prestação do Serviço: 2.245.310,00 (x) Alíquota da presunção: 32% (=) Presunção do Serviço: 718.499,20 20 Presunção total: R$ 1.223.693,92 (+) Lucro na venda de um ativo imobilizado: 10.000,00 (100.000 – 70.000 = 30.000 “custo de aquisição” – 40.000 “valor da venda” (+) Doação recebida: 25.000,00 (+) Rendimento de aplicação financeira: 15.250,00 (=) Lucro antes do IRPJ e da CSLL: 1.273.943,92 (x) Alíquota do IRPJ: 9% (=) CSLL a pagar no mês: 114.654,95 21 TEMA 3 – 3.1 Fluxo de Caixa - Direto - 2013 Recebimento de Vendas 490 Pagamento de Fornecedores (290) Pagamento de Despesas (20) Pagamento de juros dos empréstimos (corr.) (10) Fluxo de Caixa Operacional Líquido 170 Investimentos em recebíveis ñ correntes 0 Aquisição de máquinas (30) Caixa dos Investimentos (30) Amortização de empréstimos (corr.) (20) Pagamento de dividendos (75) Caixa dos Financiamentos (95) Variação do Caixa do Período 45 Saldo inicial 5 Saldo final 50 Variação do Caixa do Período 45 Fluxo de Caixa - Indireto - 2013 Contas a receber Resultado Líquido 165 Saldo inicial 50 (+) Depreciação 20 Vendas do período 500 (+) Resultado Financeiro (Não Circ.) 15 Saldo final 60 (=) Caixa Operacional Gerado 200 Recebimentos 490 var. de contas a receber (10) var. de estoques (5) Estoques var. de fornecedores (10) Saldo inicial 35 var. de despesas a pagar (5) CMV 275 (=) Variação do Capital de Giro Líquido (30) Saldo final 40 Fluxo de Caixa Operacional Líquido 170 Compras 280 Investimentos em recebíveis ñ correntes 0 Fornecedores Aquisição de máquinas (30) Saldo inicial 40 Caixa dos Investimentos (30) Compras do período 280 Amortização de empréstimos (corr.) (20) Saldo final 30 Pagamento de dividendos (75) Pagamentos (290) Caixa dos Financiamentos (95) Variação do Caixa do Período 45 Despesas a pagar Saldo inicial 5 Saldo inicial 10 Saldo final 50 Despesas do período 15 Variação do Caixa do Período 45 Saldo final 5 Pagamentos (20) 22 TEMA 4 Resposta correta: letra a TEMA 5 – 5.1 O objetivo das demonstrações financeiras é fornecer informações sobre a posição patrimonial e financeira, o desempenho e as mudanças na posição financeira da entidade, que sejam úteis a um grande número de usuários (investidores, empregados, credores por empréstimos, fornecedores e outros credores comerciais, clientes, governos e suas agências e o público em geral) em suas avaliações e tomadas de decisão econômica. O aluno deve observar que a informação contida nas demonstrações pode auxiliar o mercado na tomada de decisões, especialmente de investidores (decisão de investir e desinvestir) e credores (decisão de emprestar, envolvendo prazos e taxas de juros). Um exemplo de informação útil é a segregação de circulante e não circulante no Balanço Patrimonial fornece informação sobre o prazo de obtenção de benefícios econômicos e pagamento de obrigações, auxiliando a predizer capacidade de solvência da entidade no futuro. Os critérios para a classificação de passivos no circulante é um dos mecanismos utilizados pelo normatizador para proteger o interesse do investidor, pois evita que uma dívida que deverá ser paga no próximo período seja enganosamente classificada no não circulante. Outro exemplo de informação útil é a divulgação de despesas por natureza, pois pode permitir uma maior capacidade de o investidor projetar fluxos de caixa futuro do que pela apresentação por função. Um mecanismo utilizado pelo normatizador para evitar que o gestor “esconda” informação é a obrigação de se divulgar as despesas financeiras separadamente, evitando que se tenha uma impressão equivocada sobre o custo de capital de terceiros. AULA 6 CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Profª Marineusa Andreico Rodrigues 2 INTRODUÇÃO Nesta aula, retomamos normas que são importantes do ponto de vista do conteúdo informacional das demonstrações financeiras. Dessa maneira, as normas que regulamentam as informações por segmentos e por ativos não circulantes mantidos para venda e operações descontinuadas nos permitem apresentar adequadamente as demonstrações para a tomada de decisão de acionistas, credores e demais interessados (stakeholders) em uma organização. TEMA 1 – INFORMAÇÕES POR SEGMENTOS De acordo com o Pronunciamento Técnico do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) 22, um segmento operacional é um componente da entidade: (a) que desenvolve atividades de negócio das quais pode obter receitas incorrer em despesas (incluindo receitas e despesas relacionadas com transações com outros componentes da mesma entidade); (b) cujos resultados operacionais são regularmente revistos pelo principal gestor das operações da entidade para a tomada de decisões sobre recursos a serem alocados ao segmento e para a avaliação do seu desempenho; e (c) para o qual haja informação financeira individualizada disponível. (CPC, 2009a, p. 2) Assim, um segmento operacional pode ser a divisão de lácteos e a divisão de refrigerantes de uma indústria de bebidas, por exemplo, ou ainda a divisão da América Latina e a da Ásia de uma empresa de software. É interessante perceber que essa segmentação é definida pela forma como o principal gestor das operações recebe a informação sobre os resultados da empresa. Se ele recebe informação contendo tanto segmentos de negócios como geográficos para a tomada de suas decisões, assim é definida também a segmentação para fins de reporte aos investidores e credores. Destacar separadamente as informações de acordo com os segmentos em que a empresa atua, especialmente em entidades com diversas atividades diferentes ou, ainda, em conglomerados de empresas que formam um mesmo grupo econômico, geralmente com atividades distintas, possibilita ao mercado avaliar rentabilidade, investimentos e riscos envolvidos em cada segmento de maneira individual. Isso é válido para demonstrações financeiras separadas ou individuais, bem como uma controladora e suas controladas, que possuam instrumentos de dívidas ou instrumentos patrimoniais negociados em mercado de capitais. 3 1.1 Classificação de ativos não circulantes para venda A norma de ativos não circulantes mantidos para venda (Pronunciamento Técnico CPC 31) trata daqueles ativos que são reclassificados de ativos não circulantes para circulantes. Como é possível perceber, essa reclassificação poderia aumentar o nível de liquidez corrente da empresa de maneira artificial, o que obviamente não é desejável. Assim, a norma estabelece uma série de condições para que essa reclassificação seja feita e aborda também as operações descontinuadas, que são aquelas operações que já foram vendidas ou abandonadas ou que ainda o serão (CPC, 2009b). Imagine a seguinte situação: uma empresa possui um imobilizado e o gestor decide vendê-lo assim que possível. A questão é: esse ativo deve ser reclassificado como circulante? A reclassificação poderia permitir que a empresa demonstrasse uma posição mais fidedigna dos fluxos de caixa que se espera obter no curto prazo. Porém, se a norma não estabelecesse critérios para realizar essa reclassificação, seria possível que o gestor se utilizasse dessa possibilidade para modificar artificialmente seu nível de liquidez corrente (ativo circulante menos passivo circulante). Isso poderia representar uma grave forma de manipulação das demonstrações financeiras, pois a liquidez corrente é um indicador importante de capacidade de pagamento das dívidas e, portanto, de predição de insolvência no futuro. Com isso, o PronunciamentoTécnico CPC 31 (CPC, 2009b) estabelece três principais critérios para classificar um ativo não circulante como mantido para venda. 1. A entidade deve classificar um ativo não circulante como mantido para venda se o seu valor contábil vai ser recuperado, principalmente, por meio de transação de venda em vez do uso contínuo. 2. O ativo ou grupo de ativos deve(m) estar disponível(is) para venda imediata em suas condições atuais, sujeito(s) apenas aos termos que sejam habituais e costumeiros para venda de tais ativos. 3. A sua venda deve ser altamente provável. 1.2 Operações descontinuadas Uma operação descontinuada pode ser caracterizada como um segmento que está sendo vendido ou abandonado. Enquanto a operação ainda não foi descontinuada, provavelmente há ativos e passivos atrelados a essa operação e 4 que devem ser tratados como ativos não circulantes mantidos para venda. A divulgação dos resultados de uma operação descontinuada visa separar os resultados da operação descontinuada dos resultados das operações em continuidade, de modo a permitir que os usuários possam analisar e projetar resultados futuros com base no que se espera que vá continuar no futuro. Perceba que a operação descontinuada é definida como um componente da entidade. Isso permite que uma ampla gama de partes da empresa possa a princípio ser classificada como operação descontinuada, desde uma unidade produtiva até um segmento de negócios inteiro. 1.3 Mensuração e apresentação dos ativos classificados como não circulantes para venda O Pronunciamento Técnico CPC 31 (CPC, 2009b) exige que os ativos que satisfazem aos critérios de classificação como mantidos para venda sejam: a. mensurados pelo menor entre o valor contábil até então registrado e o valor justo, menos as despesas de venda, e que a depreciação ou a amortização desses ativos cesse; b. apresentados separadamente no balanço patrimonial e que os resultados das operações descontinuadas sejam apresentados separadamente na demonstração do resultado. 1.4 Exercício Conforme o Pronunciamento Técnico CPC 22, responda: o que é um segmento operacional? Saiba mais As análises da empresa São Martinho, são realizadas sob a ótica dos produtos comercializados por ela. TEMA 2 – COMBINAÇÃO DE NEGÓCIOS Uma combinação de negócios (business combination) é uma transação em que as operações de duas ou mais empresas são colocadas sob controle comum, ou seja, é a junção de negócios distintos em uma única entidade econômica. No mercado e na imprensa, os termos fusões e aquisições são utilizados para indicar 5 as combinações de empresas. Pela legislação societária e fiscal, a expressão combinação de empresas é substituída por fusões e incorporações. Para o Pronunciamento Técnico CPC 15 (R1), uma Combinação de negócios é uma operação ou outro evento por meio do qual um adquirente obtém o controle de um ou mais negócios, independentemente da forma jurídica da operação. Neste Pronunciamento, o termo abrange também as fusões que se dão entre partes independentes (inclusive as conhecidas por true mergers ou merger of equals). (CPC, 2011a, p. 22, grifo do original) Vamos analisar alguns tipos de combinações. Figura 1 – Representação de uma fusão no Brasil Antes da Combinação Após a Combinação No Brasil, a Lei das Sociedades por Ações (S.A.), em seu art. 228, define uma fusão quando duas ou mais empresas se combinam e ambas são extintas juridicamente, formando uma nova entidade (Brasil, 1976). Figura 2 – Representação de uma incorporação no Brasil Antes da Combinação Após a Combinação No Brasil, esse tipo de estrutura de combinação (A + B = A) é conhecido por incorporação, denominação encontrada na Lei das S.A. (Brasil, 1976). Portanto, uma incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os seus direitos e obrigações. A combinação de negócios não se aplica a entidades sob um controle comum, por exemplo, joint ventures e conjuntos de ativos líquidos. O objetivo do Pronunciamento Técnico CPC 15 (R1) é aprimorar a relevância, a confiabilidade e a comparabilidade das informações que uma entidade fornece, em suas demonstrações contábeis, acerca de combinação de negócios e sobre Empresa Alfa (Combinante) Empresa Beta (Combinante) Empresa Gama (Criada) Empresa Alfa (Compradora) (Compradora) Empresa Beta (Adquirida) Empresa Alfa (Sobrevivente) 6 seus efeitos. Para isso, a norma determina como reconhecer e mensurar os ativos identificáveis adquiridos, os passivos assumidos, o ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) e divulgar as informações cabíveis (CPC, 2011a). Após nos certificarmos de que se trata o caso de uma combinação de negócios, o Pronunciamento Técnico CPC 15 (R1) orienta a sua contabilização pelo método de aquisição (compra) e essa aplicação exige que se saiba: a. a identificação do adquirente: existem algumas formas de se identificar o adquirente, que o Pronunciamento Técnico CPC 36 (R3) orienta que é aquele que obtém o controle da entidade, ao passo que o Pronunciamento Técnico CPC 15 (R1) nos diz que podemos identificá-lo como sendo aquele que realizou a transferência de caixa ou outros ativos ou incorre em passivos com o intuito de pagar pelo negócio recebido em troca (CPC, 2011a, 2012c); b. a data de aquisição da entidade: trata-se da data em que o adquirente obtém o controle da entidade adquirida, que geralmente é a data em que o adquirente legalmente transfere a contraprestação pelo controle da adquirida, adquire os ativos e assume os passivos da adquirida – a data de fechamento do negócio; c. os ativos identificáveis adquiridos, os passivos assumidos e as participações societárias de não controladores na adquirida, todos devidamente reconhecidos e mensurados: é a classificação ou designação de ativo identificável adquirido e passivo assumido em uma combinação de negócios; d. o ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) ou do ganho proveniente de uma compra vantajosa, devidamente reconhecido e mensurado: consiste em verificar os ativos identificáveis adquiridos, os passivos assumidos e quaisquer participações de não controladores na adquirida. A partir da data de aquisição, a entidade adquirente deve reconhecer separadamente do goodwill os ativos e passivos identificáveis e quaisquer participações de não controladores na adquirida, observando os dispostos no Pronunciamento Técnico CPC 00 (R2) (CPC, 2019). A entidade adquirente deve reconhecer também os efeitos fiscais originados de diferenças temporárias e de prejuízos fiscais da adquirida que existirem na data da combinação, conforme o Pronunciamento Técnico CPC 32, considerando a situação econômica presente 7 na data da combinação (CPC, 2009c). Isso significa que eventuais ativos fiscais diferidos decorrentes de prejuízos fiscais da adquirida só podem ser reconhecidos se, na data da combinação, seja provável a obtenção de lucros tributáveis no futuro, sem considerar os possíveis ganhos sinérgicos com a entidade adquirente. Na situação em que uma empresa adquire o controle sobre outra empresa e os ativos da adquirida são incorporados aos ativos da adquirente, os ativos adquiridos devem ter seus valores ajustados; portanto, é necessário fazer a identificação do valor justo dos ativos adquiridos e dos passivos assumidos. Assim, um ativo é identificável quando for possível separá-lo ou dividi-lo da entidade e negociá-lo individualmente ou em conjunto com outros ativos e passivos. 2.1 Exercício A empresa A comprou a empresa B por 1 mil reais, e os registros da empresa B apontavam: máquina: 600 reais; estoques: 100 reais; e passivos: 0. Porém, os valores justos eram, respectivamente, 590 reais e 260 reais, nos dois primeiros itens. A empresaA deverá contabilizar esses ativos em suas demonstrações contábeis usando os novos valores apurados. Demonstre como ficará essa contabilização. Saiba mais Entenda como ocorreu a reestruturação no setor aéreo brasileiro no Caso Latam. TEMA 3 – INVESTIMENTO EM CONTROLADA E COLIGADA O Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2) trata das definições, dos critérios de reconhecimento e de mensuração aplicáveis aos investimentos em empresas coligadas nas demonstrações contábeis individuais e consolidadas da empresa investidora, e em controladas e em empreendimentos controlados em conjunto nas demonstrações contábeis da investidora. A norma expressa que ela pode ser relaxada e, portanto, não ser aplicada àqueles investimentos em empresas coligadas e controladas que forem mantidos por organizações de capital de risco, fundos mútuos, trustes e entidades similares, e que, nesses casos, deve ser aplicado o Pronunciamento Técnico CPC 48. Porém, essa faculdade é dada somente à investidora, com o propósito de que esta opte por aquela situação que 8 melhor represente as suas intenções diante daquele empreendimento a que direcionou seu investimento. Assim, essa investidora teria a opção de usar o Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2) ou o Pronunciamento Técnico CPC 48 (CPC, 2012a, 2016). Primeiramente, poderemos começar analisando qual a influência e o controle exercido pela investidora na investida a fim de classificar o método de avaliação de cada investimento. Se houver pouca ou nenhuma influência, aplica- se o Pronunciamento Técnico CPC 48; se houver uma influência significativa, ou seja, mesmo sem o controle a investidora possui de certa forma influência no processo decisório da investida, tendo, por exemplo, o poder de participar das decisões financeiras, operacionais e estratégicas da investida, ou tratar-se de um controle conjunto sobre a investida (joint venture) aplica-se o Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2) (CPC, 2012a). De acordo com o Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2), os investimentos em coligadas, em empreendimentos controlados em conjunto (joint ventures) e em empreendimentos controlados devem ser contabilizados pelo método de equivalência patrimonial. Evidentemente, para aqueles investimentos em empresas controladas é necessária a elaboração de demonstrações contábeis consolidadas, para que se possa refletir a situação financeira do grupo econômico, exceto quando os empreendimentos estiverem mantidos para serem vendidos. Quando o método de equivalência patrimonial é empregado, o investimento é inicialmente reconhecido na investidora pelo seu custo e, em períodos seguintes, de acordo com a participação da investidora nos resultados da investida – coligada, controlada e/ou controlada em conjunto. Portanto, aquele procedimento anteriormente empregado, em que inicialmente registrávamos um investimento em uma coligada pelo custo de aquisição e, com o passar do tempo, esse custo se mantinha, em face da pequena relevância do investimento na coligada, deixou de existir, pois, com os novos pronunciamentos do International Accounting Standards Board (IASB), esse investimento deve ser classificado como um instrumento financeiro e seguir os procedimentos de mensuração e reconhecimento explanados no Pronunciamento Técnico CPC 48 (CPC, 2012a, 2016). Quando um investimento de aquisição de participação societária é realizado em coligada, controlada ou controlada em conjunto, é necessário apurar a diferença entre o valor pago pela investidora (custo) e a participação do 9 investidor no valor justo dos ativos líquidos identificáveis da investida. Essa diferença pode ser positiva ou negativa. Assim: a. se o valor pago pela investidora for maior que o valor justo da parcela adquirida nos ativos líquidos da investida: ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) deve ser incluído no valor contábil do investimento e não deve ser objeto de amortização e deve ainda ser feito o teste de recuperabilidade (impairment); b. se o valor pago pela investidora for menor que o valor justo da parcela adquirida nos ativos líquidos da investida: ganho por compra vantajosa deve ser incluído como receita na determinação da participação da investidora nos resultados da empresa investida, no período do investimento. A diferença entre o valor justo da parcela dos ativos líquidos adquiridos e o seu valor contábil deve ser segregada para que seja baixada proporcionalmente à sua realização na investida. Nas transações comerciais entre a investidora e as suas coligadas, a investidora deve eliminar sua participação no resultado dessas transações, para que seja computado apenas o lucro ou prejuízo realizado com partes independentes ao grupo econômico da investidora e assim se mantenha o fundamento econômico do método de equivalência patrimonial, reconhecendo-se apenas os resultados que a investidora efetivamente obteve com terceiros (e não com si mesma). O Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2) estabelece que os resultados de transações comerciais descendentes entre a controladora e a sua controlada não devem ser reconhecidos nas demonstrações individuais da controladora enquanto os ativos transacionados estiverem ainda registrados na controlada. O pronunciamento determina também que os resultados de transações comerciais ascendentes entre a controlada e a controladora e de transações entre controladas do mesmo grupo empresarial devem ser reconhecidos na controlada vendedora; entretanto, os resultados não devem ser reconhecidos nas demonstrações contábeis individuais da controladora enquanto esses ativos não forem negociados com outra entidade independente do grupo econômico (CPC, 2012a). 10 3.1 Exercício Em janeiro de 2014, a empresa São Paulo (SP) adquiriu 30% das ações ordinárias da empresa Rio de Janeiro (RJ), na Bovespa (B3) por 60 mil reais. As demais ações ordinárias estão divididas entre mais 5 diferentes investidores que, juntos, possuem 50% das ações, e o restante das ações estão disseminadas no mercado de capitais. É possível sugerir que a SP possui participação relevante na RJ e, portanto, que ela deve apresentar influência significativa sobre a RJ e usar o método de equivalência patrimonial? Saiba mais Quando foi privatizada em 1997, por meio do Programa Nacional de Desestatização do Governo Federal (PND), a Cia. Vale do Rio Doce era uma grande empresa sob o controle governamental, que, semelhantemente a todas as empresas sob o guarda-chuva de controle estatal brasileiro, sofria de incapacidade de gestão e governança. Hoje, a Vale é um conglomerado gigante de empresas controladas, coligadas e empresas controladas em conjunto (joint ventures) espalhadas em diferentes regiões do globo. Os principais investimentos em participações acionárias da Vale variam de 25%, na mineradora chinesa Zhuhai, a 100%, na Ferrovia Norte-Sul. TEMA 4 – DEMONSTRAÇÕES CONSOLIDADAS As demonstrações consolidadas são relatórios financeiros que procuram refletir a situação econômica e financeira de uma empresa controladora e de suas controladas na forma de uma única entidade econômica – o grupo empresarial. O Pronunciamento Técnico CPC 36 (R3) estabelece os princípios gerais para confecção e divulgação das demonstrações financeiras consolidadas para a entidade econômica que controla uma ou mais entidades (controladas) (CPC, 2012c). Assim, o pronunciamento estabelece: a. que a controladora deve apresentar demonstrações financeiras consolidadas, para refletir a situação econômica de todo o grupo econômico – da controladora e de todas as suas controladas; b. que o controle é a base para se realizar a consolidação das demonstrações financeiras das entidades do grupo; 11 c. como deve ser feita a aplicação da definição oferecida de controle, para identificar se existe tal condição e consolidar assignifica que a entidade precisa recorrer a padrões ao longo do tempo, ou seja, ter uma consistência para que os dados possam ser comparados historicamente. Por exemplo, uma simples mudança no critério de estimativa de vida útil de um ativo imobilizado dificulta a comparação de desempenho da entidade, pois foram utilizados parâmetros diferentes para mensuração. Porém, é importante diferenciar a comparabilidade da uniformidade. O fato de a informação ter que ser comparável não significa dizer que a entidade não possa alterar o padrão, pois a gestão pode identificar, por exemplo, que o padrão utilizado não reflete a melhor representação da realidade econômica da empresa e por isso precisa ser alterada e, portanto, não há impedimentos para isso. 2.4 Verificabilidade Embora não seja necessário que todos os analistas cheguem a uma mesma análise da situação econômica da empresa, a verificabilidade significa 6 dizer que vários analistas chegaram a uma mesma posição quanto à avaliação da situação econômica da entidade. Por exemplo, podemos verificar o valor do custo de um produto que está em estoque, pois existem documentos que comprovam essa aquisição e o seu valor. Contudo, já não podemos dizer o mesmo em relação ao seu preço de venda antes de a venda efetivamente ocorrer. Nesse caso, é preferível dar entrada no estoque da mercadoria pelo valor do custo, já que temos como verificar o preço pago pela compra do produto. 2.5 Tempestividade A tempestividade significa dizer que a informação precisa estar disponível no momento em que há a necessidade do seu uso, pois caso ocorra a demora na sua divulgação, poderá ocorrer uma perda da relevância da informação. Por exemplo, se determinado produto possui uma forte queda de preço no mercado, será necessário que a informação da ocorrência dessa queda ocorra no momento exato em que essa situação for verificada, e não ao longo do tempo de vida útil dos investimentos. 2.6 Compreensibilidade Significa dizer que as informações divulgadas nas demonstrações precisam ser prontamente entendidas pelos usuários. Observem que uma informação apenas pode ser útil se for compreendida pelo usuário. Isso não quer dizer que a informação deverá ser voltada para leigos, e sim que a informação deve ser compreendida pelos usuários que possuem conhecimentos sobre negócios. Portanto, entende-se que a compreensibilidade significa que a informação deve ser clara e objetiva. 2.7 Treinamento Relacione as colunas: a) Relevância b) Representação Fidedigna; c) Comparabilidade; d) Verificabilidade; e) Tempestividade; 7 f) Compreensibilidade; ( ) Significa que diferentes observadores, hábeis e independentes, podem chegar a um consenso, embora não cheguem necessariamente a um completo acordo quanto ao retrato de uma realidade econômica em particular ser uma representação fidedigna. ( ) É aquela capaz de fazer diferença nas decisões que possam ser tomadas pelos usuários. ( ) Classificar, caracterizar e apresentar a informação com clareza e concisão torna-a compreensível. ( ) É a característica qualitativa que permite que os usuários identifiquem e compreendam similaridades dos itens e diferenças entre eles (entre a mesma empresa e entre empresas similares). ( ) Ter informação disponível para tomadores de decisão a tempo de poder influenciá-los em suas decisões. ( ) Incluir a informação completa, neutra, desprovida de viés e livre de erros. Saiba mais O vídeo a seguir, do professor Quintino, nos traz de forma resumida as características qualitativas das informações contábeis/financeiras: . TEMA 3 – DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS E SEUS ELEMENTOS Os elementos das demonstrações financeiras são grupos de classes que retratam os efeitos patrimoniais das transações e outros eventos. Assim, podemos dizer que existem os seguintes elementos relacionados à posição patrimonial e financeira da entidade: o ativo, o passivo e o patrimônio líquido, e os elementos relacionados com a mensuração de desempenho da entidade, que são as receitas e as despesas. Esses elementos, seja no balanço ou na DRE, terão ainda uma subclassificação por natureza ou função. Podemos começar a defini-los da seguinte forma: • Ativo é um recurso controlado pela entidade como resultado de eventos passados e do qual se espera que fluam futuros benefícios econômicos para a entidade; 8 • Passivo é uma obrigação presente da entidade, derivada de eventos passados, cuja liquidação se espera que resulte na saída de recursos da entidade capazes de gerar benefícios econômicos; • Patrimônio líquido é o interesse residual nos ativos da entidade depois de deduzidos todos os seus passivos. Em se tratando do ativo, as contas devem ser organizadas de forma decrescente de liquidez. Assim, a primeira conta será sempre aquela mais próxima de se transformar em dinheiro. Nesse sentido, o ativo é subdividido em dois grupos: • Ativo Circulante: onde estão as contas de liquidez imediata, ou que se convertem em dinheiro no curto prazo. Usualmente, se considera como curto prazo o período inferior a um exercício social ou ano fiscal, comumente de primeiro de janeiro a 31 de dezembro (Caixas e equivalentes de caixas, Aplicações Financeiras, Clientes, Estoques Despesas antecipadas); • Ativo Não Circulante: são os demais bens e direitos que se tornarão dinheiro em um período superior a um exercício social, podendo ainda se dividir em: Ativo realizado a longo prazo, Investimentos, Imobilizado, Intangível e Diferido. O passivo também pode ser subdividido em dois grupos: • Passivo Circulante: onde estão relacionadas todas as dívidas e obrigações de curto prazo da empresa, ou seja, aquelas cujos vencimentos ocorrerão até o final do exercício social (ano) seguinte ao do encerramento do balanço. Normalmente são as contas que a empresa deve pagar para fornecedores, salários, empréstimos, impostos, etc. (fornecedores, salários a pagar, Impostos a pagar, Empréstimos e Financiamentos). • Passivo Não Circulante: demais obrigações de longo prazo (Empréstimos e Financiamentos a longo prazo). O Patrimônio Líquido, embora seja algo residual, também pode ter algumas subclassificações: • Capital Social: o capital investido pelos sócios; • Reservas de Capital: destinações específicas do capital social, como Ágio na Emissão de Ações e Doações; 9 • Ajustes de Avaliação Patrimonial: conta de ajuste em função das variações de valor justo em contas de ativo e passivo, até sua realização; • Reservas de Lucros: são as destinações do lucro como: Reserva legal, Reserva estatutária e Reserva para contingências; • Prejuízos acumulados: a legislação societária brasileira proíbe a existência de saldo positivo na conta Lucros Acumulados (também denominada de Lucros ou Prejuízos Acumulados), mantendo-se apenas o saldo negativo (Prejuízos Acumulados) ou destinando os lucros para Reservas de Lucro e/ou Distribuição de Dividendos, porém, nas normas internacionais de contabilidade (IFRS), não existe esse tipo de restrição. Também é importante mencionarmos aqui as Notas Explicativas, pois elas compreendem o detalhamento das operações ocorridas e retratadas no balanço e na DRE da empresa, porém ainda as estudaremos mais detalhadamente à frente. A DRE irá demonstrar como a entidade chegou naquele resultado especificado. Enquanto o BP demonstra a situação da empresa em uma determinada data, a DRE mostra como aquele resultado foi formado. O resultado da empresa é formado por receitas e despesas incorridas naquele determinado período. Já vimos os conceitos de despesa e receita na aula anterior, porém queremos acrescentar aqui que a estrutura conceitual não traz o conceito de custo, pois este é abrangido pelo conceito de despesa, visto que a forma como é utilizada não diferedemonstrações financeiras; d. os requisitos de contabilidade aplicados na elaboração das demonstrações financeiras consolidadas. Para o propósito de elaboração de demonstrações financeiras consolidadas, a empresa controladora deve: a. combinar ativos, passivos, patrimônio líquido, receitas, despesas e fluxos de caixa de suas empresas controladas, formando assim a posição financeira e patrimonial do grupo econômico; b. eliminar o investimento e a parcela no patrimônio líquido da empresa controladora em suas controladas; c. eliminar ativos, passivos, patrimônio líquido, receitas, despesas e fluxos de caixa decorrentes de transações entre as entidades pertencentes ao mesmo grupo econômico. A essência da sistemática de eliminação dos investimentos e das transações entre empresas do mesmo grupo, além da aglutinação dos ativos e passivos da controladora e de suas controladas, é de que as informações apresentadas nas demonstrações financeiras consolidadas reflitam a situação financeira e patrimonial do grupo econômico como uma única entidade, que realiza operações comerciais de compra e venda com terceiros e destes obtém seus resultados. Para propósito de elaboração das demonstrações financeiras consolidadas, é necessário observar ainda os casos de transações entre empresas do mesmo grupo em que a mercadoria negociada ainda está presente nos estoques da empresa compradora. Caso a mercadoria esteja totalmente em estoque, não há lucro a ser apurado, visto que não se efetivou a transação com terceiros. Para os casos em que ainda reste uma parte das mercadorias no estoque da compradora, deve-se apurar a margem de lucro embutida no preço de venda, que será a base do custo para a empresa compradora, e aplicar essa margem ao saldo em estoque, de modo a se eliminar o lucro presente nos estoques. Vale lembrar ainda que os procedimentos de consolidação e a própria consolidação em si são procedimentos que frequentemente sucedem uma operação de combinação de negócios. Portanto, os procedimentos descritos na 12 aula sobre esse tema devem ser atentamente compreendidos para que a consolidação das demonstrações seja realizada de forma mais substancial. 4.1 Exercício A Empresa Brasil (BR) possuía investimento de 120 mil reais pela totalidade da participação societária na empresa Bahia (BA) e, portanto, para consolidar as demonstrações financeiras da controladora BR com as da sua empresa controlada BA, precisava eliminar esse investimento, conforme Quadro 1. Quadro 1 – Investimento da controladora BR na controlada BA Débito Crédito Capital Social (PL) Lucros Retidos (PL) Investimentos em Controladas BA (AT) 100.000 20.000 120.000 Saiba mais Com operações em 17 países das Américas do Sul, Central e do Norte, o grupo Ambev é a cervejaria líder no mercado latino-americano. Além de cervejas, a empresa comercializa também refrigerantes e outras bebidas não alcóolicas. A Ambev produz a sexta cerveja mais consumida no mundo, a Skol, além de comercializar os produtos da PepsiCo e da Anheuser-Busch Invev. No final do ano de 2014, o grupo possuía aproximadamente 52 mil funcionários espalhados pelas suas regiões de atuação e consolidava, em suas demonstrações financeiras, 38 empresas controladas. TEMA 5 – DEMONSTRAÇÕES SEPARADAS E INDIVIDUAIS O Pronunciamento Técnico CPC 35 (R2) é o pronunciamento de contabilidade financeira que normatiza a sistemática de elaboração e de divulgação das demonstrações financeiras separadas quando a entidade investidora controla ou tem participação relevante em uma ou mais entidades, mas se faz necessário, por opção, por exigência legal ou pela dispensa da aplicação da consolidação ou do método de equivalência patrimonial, divulgar informações distintas daquelas tradicionalmente elaboradas, mas mensuradas pelo custo ou pelo valor justo (CPC, 2012b). É interessante observar que, no caso 13 brasileiro, a legislação societária não exige que esses tipos de investimentos sejam mensurados pelo custo ou pelo valor justo, mas também não dispensa a aplicação do método de equivalência patrimonial. Já segundo a Interpretação Técnica ICPC 09 (R2), as demonstrações financeiras constituem o conjunto completo de informações – conforme o Pronunciamento Técnico CPC 26 (R1) – e compreendem (CPC, 2011b, 2014): a. balanço patrimonial; b. demonstração do resultado do exercício; c. demonstração do resultado abrangente; d. demonstração das mutações do patrimônio líquido; e. demonstração dos fluxos de caixa; f. demonstração do valor adicionado g. notas explicativas às demonstrações contábeis. Essas demonstrações contábeis podem ser apresentadas como: a. demonstrações contábeis individuais de uma empresa única ou de uma controladora; b. demonstrações consolidadas de um grupo empresarial; c. demonstrações separadas de empresas investidoras que, assim, melhor refletiriam a situação dos negócios. As demonstrações separadas são aquelas apresentadas adicionalmente às demonstrações consolidadas ou adicionalmente às demonstrações contábeis da investidora que não possui investimentos em controladas, mas possui investimentos em coligadas ou em empreendimentos controlados em conjunto, contabilizados pelo método de equivalência patrimonial. O Pronunciamento Técnico CPC 35 (R2) destaca que não são consideradas demonstrações separadas aquelas emitidas por entidades que não possuem investimentos em controlada, em coligada ou em empreendimento controlado em conjunto. Como relatado no Pronunciamento Técnico CPC 35 (R2), conceitualmente, as demonstrações separadas só deveriam ser apresentadas nas circunstâncias em que os investimentos societários mensurados pela equivalência patrimonial da coligada ou apresentados na forma de demonstrações consolidadas entre a controladora e a controlada não representem de forma completa a razão e a destinação desses investimentos. Portanto, seriam poucos os casos que justificariam o emprego das demonstrações separadas (CPC, 2012b). 14 Como, no Brasil, a lei não dispensa o uso da aplicação do método de equivalência em investimentos em coligadas, em controladas e em empreendimentos controlados em conjunto, em situações legalmente não impositivas, a empresa, ao divulgar demonstrações separadas, terá sempre que usar o método de equivalência patrimonial. Em se tratando das demonstrações individuais, a Interpretação Técnica ICPC 09 (R2), algumas leis e regulamentos brasileiros determinam a divulgação das demonstrações contábeis individuais de investidoras que já divulgam as suas demonstrações consolidadas. A legislação societária no Brasil ainda prevê que o cálculo dos dividendos mínimos obrigatórios e totais, além do valor patrimonial das ações, seja determinado com base nas demonstrações financeiras individuais das empresas, mesmo quando forem controladas de um mesmo grupo econômico (CPC, 2014). A Interpretação Técnica ICPC 09 (R2) estabelece que, a fim de eliminar as diferenças que possam existir entre lucros líquidos e patrimônios líquidos individual e consolidado na elaboração de demonstrações individuais e demonstrações consolidadas, devem prevalecer as orientações previstas no Pronunciamento Técnico CPC 43 (R1). É importante frisar que o Pronunciamento Técnico CPC 43 (R1) ainda contempla a divergência entre a exigência brasileira do uso do método de equivalência patrimonial para demonstrações individuais e a normatização do Iasb sobre o uso do custo e do valor justo apenas para demonstrações separadas. Entretanto, na revisão do IAS 27, em agosto de 2014, o órgão internacional de regulação contábil passou a admitir também o uso da equivalência patrimonial, da mesma forma como se exigia o uso do valor justo e do custo como forma de avaliar investimentos de investidora em controladas, mas apenas em demonstrações separadas(CPC, 2010, 2014; IASB, 2014). 5.1 Estudo de caso No Sumário do Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2), aponta-se em que situações esse pronunciamento deve ser aplicado e também que “Ele não se aplica aos investimentos em coligadas e controladas que forem mantidos por organizações de capital de risco, fundos mútuos, trustes e entidades similares.” (CPC, 2012d, p. 1). O Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2) aponta ainda as seguintes exceções à aplicação do método de equivalência patrimonial: 15 Quando o investimento em coligada e em controlada, ou em empreendimento controlado em conjunto, for mantido direta ou indiretamente por uma entidade que seja uma organização de capital de risco, essa entidade pode adotar a mensuração ao valor justo por meio do resultado para esses investimentos, em consonância com o CPC 48. (CPC, 2012a, p. 6) Com base nesses apontamentos, vamos discutir os fundamentos econômicos que sustentariam essa não aplicação do pronunciamento e, portanto, quase uma negativa ao uso do método de equivalência patrimonial por aquelas entidades. Saiba mais Logo pela manhã do dia 25 de março de 2015, as rádios locais dos Estados Unidos anunciavam a todo o momento a compra da tradicionalíssima empresa norte-americana de alimentos Kraft Foods pela empresa brasileira 3G Capital e pela empresa norte-americana Berkshire Hathaway, ambas controladoras da Heinz. Essas duas empresas de investimento, a 3G Capital e a Berkshire, são empresas cujo objetivo é investir em empresas e/ou negócios com marcas reconhecidas e com forte potencial mercadológico. Elas levantam recursos financeiros por meio de fundos de investimentos e, juntamente com capital próprio, investem em empresas de diferentes atividades e regiões. O exemplo da 3G Capital pode de certa forma ser empregado para ilustrar que, para apresentar demonstrações financeiras separadas, é necessário um conjunto de conhecimentos sobre operações, participações e regulamentos contábeis para que os relatórios contábeis possam ser divulgados ao mercado financeiro de forma a refletir a natureza da relação entre a entidade investidora e as suas investidas e os motivos pelos quais essas informações são evidenciadas de forma separada, com o intuito de permitir que acionistas e credores embasem suas decisões econômicas sobre essas empresas. 16 REFERÊNCIAS BRASIL. Lei n. 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Diário Oficial da União, Brasília, 17 dez. 2021. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis. Interpretação Técnica ICPC 09 (R2): demonstrações contábeis individuais, demonstrações separadas, demonstrações consolidadas e aplicação do método da equivalência patrimonial. Brasília, 27 nov. 2014. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 00 (R2): estrutura conceitual para relatório financeiro. Brasília, 10 dez. 2019. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 15 (R1): combinação de negócios. Brasília, 4 ago. 2011a. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2): investimento em coligada, em controlada e em empreendimento controlado em conjunto. Brasília, 13 dez. 2012a. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 22: informações por segmento. Brasília, 31 jul. 2009a. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 26 (R1): apresentação das demonstrações contábeis. Brasília, 15 dez. 2011b. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. 17 CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis. Pronunciamento Técnico CPC 31: ativo não circulante mantido para venda e operação descontinuada. Brasília, 16 set. 2009b. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 32: tributos sobre o lucro. Brasília, 16 set. 2009c. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 35 (R2): demonstrações separadas. Brasília, 8 nov. 2012b. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 36 (R3): demonstrações consolidadas. Brasília, 20 dez. 2012c. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 43 (R1): adoção inicial dos Pronunciamentos Técnicos CPCs 15 a 41. Brasília, 16 dez. 2010. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 48: instrumentos financeiros. Brasília, 22 dez. 2016. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. _____. Sumário do Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2): investimento em coligada, em controlada e em empreendimento controlado em conjunto. Brasília, 13 dez. 2012d. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. CFC – Conselho Federal da Contabilidade. Norma Brasileira de Contabilidade n. 38 (R3), de 21 de novembro de 2014. Diário Oficial da União, Brasília, 1 dez. 18 2014. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2021. IASB – International Accounting Standards Board. IAS 27: Equity method in separate financial statements. Londres, 12 ago. 2014. RESPOSTAS Tema 1 De acordo com o Pronunciamento Técnico CPC 22, Um segmento operacional é um componente de entidade: (a) que desenvolve atividades de negócio das quais pode obter receitas e incorrer em despesas (incluindo receitas e despesas relacionadas com transações com outros componentes da mesma entidade); (b) cujos resultados operacionais são regularmente revistos pelo principal gestor das operações da entidade para a tomada de decisões sobre recursos a serem alocados ao segmento e para a avaliação do seu desempenho; e (c) para o qual haja informação financeira individualizada disponível. (CPC, 2009a, p. 2) Um segmento operacional nada mais é do que a divisão de um balanço por grupos de produtos e/ou por regiões, conforme o gestor receba a informação sobre os resultados. É importante que essa segmentação seja efetuada conforme ele a utilize para a sua tomada de decisões. Tema 2 Apuramos um excesso de 150 reais sobre o valor pago de 1 mil reais, em face do valor justo dos ativos líquidos, 850 reais, o qual – esse excesso – representa o ágio (goodwill) pela expectativa de rentabilidade futura. Quadro 2 – Contabilizações na empresa A (adquirente) Débito Crédito Ativos Identificáveis – Estoques Ativos Identificáveis – Máquinas Goodwill 260,00 590,00 150,00 Caixa 1.000,00 19 Tema 3 Presume-se que a influência significativa se dá quando a investidora possui 20% ou mais do capital votante da investida, sem controlá-la. Por influência significativa entende-se que é quando a investidora detém ou exerce o poder de participar nas decisões das políticas financeira e/ou operacional da investida, sem controlá-la. Portanto, se a empresa SP possui 30% das ações ordinárias da empresa RJ, entende-se que ela tem poder de votar nas assembleias e escolheros seus administradores, assim como também decidir sobre o direcionamento dos seus lucros, o que se trata de uma influência relevante, devendo-se assim utilizar- se o método da equivalência patrimonial. Tema 4 Quadro 3 – Sobre o investimento da controladora BR na controlada BA Contas Controladora BR Controlada BA Ajustes BP Consolidado Déb. Créd. Ativo Disponível Clientes Clientes – Controlada Estoques Invest. Controlada Imobilizado 40.000 60.000 5.000 75.000 120.000 200.000 20.000 30.000 50.000 100.000 120.000 60.000 90.000 5.000 125.000 - 300.000 Total 500.000 200.000 - 120.000 580.000 Passivo e PL Fornecedores Fornec. – Controlada Capital Lucros Retidos Não controladores 100.000 - 300.000 100.00 75.000 5.000 100.000 20.000 100.000 20.000 175.000 5.000 300.000 100.000 - Total 500.000 200.000 120.000 - 580.000 O Pronunciamento Técnico CPC 36 (R3) estabelece ainda que os resultados decorrentes de transações entre companhias do mesmo grupo econômico sejam reconhecidos no ativo – estoques, investimentos, imobilizados, devem ser eliminados em sua totalidade (CPC, 2012c). 20 Tema 5 Em se tratando de uma organização de capital de risco, o investimento que esta mantiver em controlada, coligada ou em conjunto, direta ou indiretamente, poderá ser mensurada a valor justo a parcela da participação no investimento, de acordo com a Norma Brasileira de Contabilidade (NBC) TG 38 (R2), a qual nos revela que deverá aquele montante ser reconhecido contabilmente pelo valor inicial ou pela mensuração (CFC, 2014). Essa avaliação a valor justo independe de a organização exercer ou não influência significativa sobre a sua parcela da participação. Caso a entidade faça essa escolha contábil, deverá adotar o método de equivalência patrimonial para a parcela remanescente da respectiva participação. Os fundamentos econômicos que podemos utilizar, nesse caso, são o fato de que um investimento de risco pode, hoje, ser altamente lucrável e, amanhã, altamente prejudicial. Dessa forma, não é algo seguro para se avaliar pelo método da equivalência patrimonial. AULA 1 CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Prof.ª Marineusa Andreico Rodrigues 2 TEMA 1 – CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA CONTABILIDADE: ATIVO, PASSIVO E RESULTADO O que as informações contábeis buscam retratar? Essa pergunta é muito interessante porque depois da adoção das Normas Internacionais de Contabilidade, esta passou a ser uma contabilidade muito mais voltada para as questões econômicas da entidade, atendendo, dessa forma, mais aos acionistas e credores. Portanto, podemos dizer que hoje as informações que são dispostas nas demonstrações contábeis revelam os aspectos econômicos da entidade. Quão rica é uma pessoa? Por acaso já nos perguntamos isso? Quando pensamos na riqueza de uma pessoa, por exemplo, pensamos no patrimônio que ela tem: casa, carro etc. Porém, o mais curioso é que pensamos no valor que esses bens têm se fossem vendidos hoje; muitas vezes, esses itens não estão à venda, o que pode significar que valem mais em uso para a pessoa. Dessa forma, há a necessidade de se descobrir qual é o valor em uso desses bens. Convenhamos que essa é uma questão um pouco difícil de responder, visto que para cada pessoa o mesmo bem pode ter valores diferentes. Uma máquina de escrever, por exemplo, pode ter um valor enorme para uma velha escritora, mas nenhum valor para uma pintora. Observemos também que a máquina de escrever para a escritora tem valor de uso, se ela estiver utilizando-a para escrever livros de grande sucesso, contudo, não terá nenhum valor se for vendida. Quando falamos em uma empresa podemos dizer que o aspecto que mais desperta curiosidade nos investidores e credores é o tamanho da sua riqueza e como ela está composta, pois é muito diferente dizermos que temos dinheiro vivo em mãos do que dizermos que temos um bem. Nas entidades, o patrimônio é formado pelos ativos, porém, deverá sempre ser representado pelo passivo também. Isso porque se no ativo da entidade estiver mencionado que ela tem uma bela propriedade que vale milhões, mas não mencionar que essa propriedade está financiada, passará uma falsa impressão de riqueza. Isso é o que dispõe o CPC 00 – Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro, quando ele define o Patrimônio Líquido como sendo “o interesse residual nos ativos da entidade depois de deduzidos todos os seus passivos”. O patrimônio líquido é conhecido como o 3 patrimônio próprio da entidade, pois trata-se do capital que os investidores/proprietários colocaram nela. Outra coisa importante a se avaliar em uma entidade é a evolução da sua riqueza. O investidor e o credor estão interessados no futuro da entidade, portanto, precisam saber qual deverá ser a riqueza dessa entidade no futuro; assim, podemos afirmar que a evolução da riqueza pode ser observada levando em consideração a diferença entre dois patrimônios no tempo. 1.1 Ativo As normas contábeis que tratam de ativos procuram determinar princípios que devem ser seguidos para divulgá-los. Elas são importantes para que estes não sejam superavaliados. Imaginemos que o desempenho do gestor seja avaliado pelo tamanho do ativo da empresa. Nesse caso, será bem possível que o gestor deseje que este tenha uma grande liquidez. Por esse motivo, a função das normas contábeis é de evitar o viés das informações divulgadas. Vamos responder às seguintes perguntas: o que é um ativo? Devemos reconhecer determinado ativo nas demonstrações? Como devemos mensurar o ativo? Em relação à primeira pergunta, é interessante dizer que cada norma pode estabelecer suas próprias definições, porém, o CPC 00 – Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro nos traz uma definição geral que deve ser seguida por todas as outras normas para definir um bem como ativo: “ativo é um recurso econômico presente controlado pela entidade como resultado de eventos passados”. Observemos que a questão do controle, por exemplo, é algo bem interessante, porque antes da entrada em vigor do International Financial Reporting Standards (IFRS), o que importava era a propriedade do bem e não a posse. Podemos observar isso quando falamos em contrato de arrendamento mercantil, pois quando a empresa adquire um bem por meio desse tipo de contrato, mesmo que este juridicamente ainda não lhe pertença, pois ela ainda não terminou de pagá-lo, ela já tem o controle desse bem, portanto, já deve reconhecê-lo no seu ativo, e, consequentemente, a sua dívida no passivo. 4 Outro aspecto importante para se determinar se determinado item é ou não um ativo é a questão de gerar benefícios econômicos futuros. Quando falamos em benefícios econômicos futuros, não estamos falando apenas em dinheiro presente, pois um imobilizado, por exemplo, terá como benefício econômico o seu uso, o contas a receber terá como benefício econômico o seu recebimento, portanto, o benefício econômico pode ser também traduzido por intermédio de fluxos de caixas futuros. Para responder à segunda pergunta, temos que lembrar que é possível que existam determinados ativos que não apareçam no balanço patrimonial, pois para isso ele deverá atender ao critério geral: ser relevante e representar fidedignamente o elemento que deseja representar. A terceira pergunta diz respeito à mensuração: como mensurar o ativo? Vejamos que cada norma traz um conjunto de princípios que devem ser seguidos, sendo o tema mais valioso para os normatizadores, pois essa aplicação envolve diferentes interesses econômicos. Mencionamos anteriormente o exemplo da máquinade escrever e o valor que seu uso pode ter para a escritora e nenhum valor para a pintora, e isso retrata exatamente essa questão da mensuração. Percebam que é muito arriscado deixar tanta subjetividade nas mãos do gestor, pois correremos o risco de o gestor superavaliar o ativo. Portanto, as normas contábeis utilizam substitutos à mensuração pelos fluxos futuros de caixa, adotando outras bases de mensuração. Assim, podemos dizer que existem três bases teóricas principais que vamos mencionar aqui que tratam da mensuração: os próprios fluxos de caixas descontados, o custo amortizado e o valor de mercado, e como dissemos em momento anterior, cada norma determinará como deve ser mensurado determinado ativo. 1.2 Passivo Agora vamos falar sobre os passivos. Conforme mencionamos anteriormente, o patrimônio deve ser apresentado pela seguinte fórmula: ativos menos passivos. Aqui também pode existir a possibilidade de o gestor incluir um viés por conta do seu interesse econômico ou profissional, por esse motivo as normas sobre o passivo também trazem um conjunto de diretrizes que deve ser seguido para que determinada operação seja reconhecida como passivo. 5 Vamos nos fazer as mesmas perguntas que fizemos para o ativo: é um passivo? Devemos reconhecer esse passivo no nosso balanço patrimonial? Como devemos mensurá-lo? O CPC 00 – Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro nos traz a seguinte definição de passivo: “uma obrigação presente de uma entidade de transferir um recurso econômico como resultado de eventos passados”. Portanto, podemos falar que em termos conceituais um passivo é uma obrigação que necessita ser quitada e para isso será necessário utilizar o ativo para sua quitação. Por esse motivo, mais uma vez enfatizamos que o patrimônio deverá ser apresentado: Ativo – Passivo = Patrimônio Líquido. Uma outra questão que gera bastante discussão é se a obrigação é presente ou não. Aqui entram os casos que envolvem provisões, pois quando a operação envolve incerteza quanto ao seu valor ou ao seu prazo, ele não pode ser reconhecido como um passivo. Portanto, já respondendo à segunda pergunta, podemos entender que um passivo pode ser reconhecido quando a sua divulgação for relevante e representar fidedignamente sua posição de obrigação presente a pagar. Desta podemos definir que um passivo apenas será reconhecido no balanço patrimonial quando for provável que será exigida uma saída de recursos econômicos futuros para liquidar a referida obrigação e considerado que o seu valor possa ser determinado em bases confiáveis. Não são reconhecidos no balanço aqueles que são apenas possíveis de serem pagos ou mesmo aqueles que, apesar de prováveis, o seu valor não possa ser medido confiavelmente. 1.3 Resultado Uma receita é definida pelo CPC 00 – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro como “um aumento no ativo ou uma diminuição de um passivo e um aumento no patrimônio líquido ao mesmo tempo, desde que não seja por aporte dos sócios. Já uma despesa é definida pelo mesmo CPC como sendo “uma diminuição de um ativo ou um aumento de um passivo e uma redução do patrimônio líquido ao mesmo tempo, desde que não seja por distribuição aos sócios. 6 Pelas normas do IFRS, o reconhecimento de uma receita ou despesa é dependente da forma como ativos e passivos são reconhecidos e mensurados. Por exemplo, uma depreciação de um ativo gera uma diminuição de um ativo e impacta no Patrimônio Líquido, assim como uma provisão é reconhecida no passivo e gera uma despesa, pois ela terá que desembolsar um valor futuramente. Dessa forma, quando as normas do ativo evitam que este seja superavaliado ou um passivo subavaliado de maneira indevida, está também ajudando a refletir um lucro de forma correta, pois se um ativo é postergado a sua receita também fica postergada. O patrimônio líquido pode ser separado em duas partes: aquela em que o lucro é considerado já obtido, ou seja, já realizado, e aquela em que o lucro ainda é considerado não realizado em função de alguma incerteza. Considerando a parte em que o lucro é considerado realizado, esta será demonstrado na Demonstração do resultado do exercício (DRE), e a outra parte ainda não realizada ficará no Patrimônio Líquido em uma conta chamada de Outros Resultados Abrangentes ou Ajustes de Avaliação Patrimonial. Essas duas partes juntas formam os Resultados Abrangentes, que contêm toda a variação do patrimônio líquido que não seja por aporte ou distribuição aos sócios. Dessa forma, podemos entender que as normas contábeis procuram estabelecer princípios que façam os relatórios refletirem o momento exato em que o lucro é obtido, mas sem otimismo exagerado. 1.4 Treinamento Qual é o objetivo do relatório financeiro para fins gerais, segundo o CPC 00 – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil- Financeiro? O objetivo principal é fazer com que ativos e passivos não sejam superavaliados ou subavaliados, evitando assim o viés por parte do gestor que possa interferir na informação real da entidade. Vídeo Recomendamos assistir ao vídeo a seguir do Professor Quintino para ficar por dentro do assunto. Disponível em: . Acesso em: 13 jun. 2021. 7 TEMA 2 – CONTABILIDADE, GOVERNANÇA CORPORATIVA E FUNÇÃO DAS NORMAS CONTÁBEIS Qual é o papel das normas contábeis? Podemos destacar aqui que o principal papel delas é tentar reduzir as possibilidades de manipulações por meio da adoção de critérios que possibilitem maior segurança aos usuários das informações contábeis. É importante destacar que sem as normas contábeis cada entidade poderia divulgar suas informações da forma como melhor lhe aprouvesse e de acordo com os seus próprios critérios, sem precisar sequer mencioná-los. Mesmo com normas contábeis, ainda há a possibilidade de o gestor não estar em conformidade com estas e adotar critérios que produzam efeitos que lhe sejam benéficos, gerando, dessa forma, o que chamamos de informação enviesada. Para explicar essa situação toda, surgiu uma teoria a qual denominamos Teoria da Agência, oriunda de um trabalho desenvolvido por Jensen e Meckling, em 1976. Nela, predizem que em uma relação contratual existem duas partes: o agente (encarregado de executar determina tarefa) e o principal (quem contrata o agente para executar uma determinada função em seu lugar. Essa teoria prediz que o agente está em uma posição privilegiada e por conta disso detém informações quantitativas e qualitativas superiores ao principal. Dessa forma, o principal não tem como saber se o agente realmente está agindo a favor dos seus interesses econômicos. Vamos a um exemplo: o José (agente) é contratado por Carlos (principal) por um salário fixo para vender seus produtos. Se José trabalhar pouco, seu salário será o mesmo e com um esforço menor, mas isso afetará o lucro do Carlos. O Carlos tem poucas informações de como está sendo o trabalho do José, se ele trabalhou muito ou pouco, e é dessa forma que nascem os conflitos que ocorrem em uma relação contratual. Nesse caso, deveríamos estar pensando que o Carlos deveria pagar comissão ao José e não um salário fixo, pois isso faria com que ele se esforçasse mais para conseguir fechar as vendas, e que o Carlos poderia exigir um relatório do José no qual ele indicasse quantas visitas fez. Contudo, a Teoria da Agência prediz nesse caso que o contrato é sempre incompleto e que não existe agente perfeito, e que José poderia sempre dar um jeito para maximizar seus interesses econômicos; mesmo assim nada impede que o contrato contenha cláusulas para tentar minimizar esses riscos a que o principal fica sujeito. Essas cláusulas servem para evitar o chamado “oportunismo do agente”.8 Foi por intermédio do estudo dessas teorias que nasceu a governança corporativa. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) define como governança corporativa como o “sistema usado segundo o qual as entidades são dirigidas e governadas, visando proteger os interesses do principal em relação às ações do agente”. A contabilidade entra aqui como um mecanismo da governança corporativa, pois ela auxiliará o principal a monitorar o trabalho do agente. O papel das normas contábeis aqui é de representar fielmente as informações sobre o desempenho do agente por intermédio do seu conjunto de regras e assim evitar a manipulação da informação. Uma boa governança corporativa precisa ter quatro pilares muito bem definidos: prestação de contas; conformidade; transparência; e senso de justiça. 2.1 Treinamento Quais as estratégias mais comuns de manipulação da informação contábil por parte do agente? Evitar a divulgação do prejuízo, suavizar os resultados para que a empresa pareça ser menos arriscada, reduzir a carga do imposto de renda, atingir as metas estipuladas pelos conselhos ou analistas de mercado, e o chamado big bath accounting, que é “descarregar” todas as perdas quando não é possível evitar a divulgação de prejuízo no período, aumentando a possibilidade de apresentação de lucro no período seguinte. Saiba mais Nos Estados Unidos e em outros países com mercados de capitais mais desenvolvidos, em que a propriedade das companhias é mais pulverizada, com maior número de acionistas minoritários participando do capital, o conflito mais recorrente entre agente e principal ocorre entre executivos contratados e acionistas, e o principal problema é a manipulação de resultados para aumentar a remuneração dos executivos. 9 TEMA 3 – RELAÇÕES ENTRE STAKEHOLDERS E GESTORES E FUNÇÃO DA INFORMAÇÃO FINANCEIRA Porque há informação contábil-financeira? Percebamos que a informação somente existe porque é necessária para alguém, ou seja, alguém necessita dessa informação para tomar uma decisão. E quem são essas pessoas? São os que chamamos stakeholders, ou seja, os usuários das informações contábeis, que podem ser internos ou externos. Vamos nos concentrar aqui a tratar dos usuários externos. Podemos agrupar os usuários em três grupos principais: credores, investidores e governo. Os credores são aqueles que concedem créditos à entidade e que necessitam da informação para saber se devem fazê-lo, bem como qual o valor do crédito que estão dispostos a emprestar. Nesse caso, o que interessa para o credor é saber informações relacionadas ao futuro da entidade, pois ele quer saber se esta terá condições de lhe devolver o dinheiro no futuro. Aqui a informação contábil que será muito importante para esse credor será a análise da capacidade de liquidação de suas dívidas no futuro. Em relação ao investidor, este também se interessa em saber a respeito do futuro da entidade, pois ele está investindo seu dinheiro naquele negócio e precisa saber se conseguirá ter retorno desse investimento e de quanto poderá ser esse retorno. Em ambos os casos anteriores, o interesse está voltado para o futuro da entidade; já em relação ao fisco, por exemplo, este até pode ter um interesse no futuro da entidade como em relação à geração de empregos, mas ele tem um grande interesse como agente arrecadador de tributos e dessa forma necessita de informações a respeito do passado da entidade. Portanto, precisará saber, por exemplo, se o volume de tributos que é pago pela entidade está correto. Observem que nessa relação entre gestor, acionistas, credores e governo, o gestor tem informações relevantes que os demais não têm, por exemplo, contratos com clientes que estão sendo encerrados, problemas de fornecimento que a empresa está enfrentando, pressão dos sindicatos por aumento de salários, riscos ambientais a que a empresa está sujeita à reparação e multas. Esse fenômeno é chamado de “assimetria da informação”, e ocorre quando uma das partes do contrato detém informações superiores às outras. A assimetria da 10 informação pode gerar falhas momentâneas inclusive no comportamento do mercado. Imaginemos um mundo sem informação contábil/financeira disponível para investidores. As incertezas em relação ao investimento seriam muito grandes e com isso o preço que um comprador estaria disposto a pagar pela ação da empresa seria muito menor do que de fato a ação estaria valendo. Dessa forma, podemos resumir a resposta à questão inicial da seguinte forma: as informações contábeis/financeiras servem para reduzir a assimetria informacional e também as perdas de valor nas transações econômicas. 3.1 Treinamento Os investidores podem utilizar demonstrações financeiras elaboradas com regras contábeis para apuração do lucro tributável com vistas a avaliar a situação econômica da empresa? A contabilidade feita de acordo com as normas tributárias até pode ser utilizada para a avaliação da situação econômica da empresa, mas não é o mais adequado, pois as normas tributárias têm mecanismos de proteção do fisco, que procuram evitar a subavaliação do lucro, ao passo que as normas IFRS são voltadas para a proteção de investidores e credores, procurando evitar a superavaliação do lucro. Utilizando a contabilidade tributária, investidores e credores teriam informações menos tempestivas e sujeitas a vieses de planejamento tributário por parte do gestor. Saiba mais Recomendamos acessar o link a seguir para ler uma apresentação com base em uma matéria sobre os maiores escândalos corporativos do século XXI. Disponível em: . Acesso em: 13 jun. 2021. TEMA 4 – ADOÇÃO DE IFRS NO BRASIL As Nomas Internacionais de Contabilidade foram adotadas no Brasil por intermédio da Lei n. 11.638, de 28 de dezembro de 2007. E como era antes da adoção do IFRS? Antes o Brasil dispunha de normas próprias que constavam nas legislações e em atos normativos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para as companhias abertas. Nessa época, as legislações voltadas para a 11 contabilidade tinham uma forte influência tributária principalmente por meio do Decreto-Lei n. 1.598, de 26 de dezembro de 1.977. Contudo, com a evolução do mercado de capitais e o interesse de investidores estrangeiros em nosso país, iniciou-se uma exigência por uma governança corporativa e por melhores informações, o que acabou pressionando o governo a adotar o IFRS. Existe um comitê que é responsável pela elaboração das normas chamado International Accounting Standards Board (Iasb). No Brasil, temos o comitê de pronunciamentos contábeis, que é responsável pela emissão das normas contábeis e pela tradução das normas e adaptações para atender às legislações brasileiras, quando for o caso. Podemos afirmar que as normas de contabilidade internacional são voltadas apenas para a divulgação de relatórios financeiros a credores e investidores, pois apresentam meios de aumentar a transparência dos relatórios e assim protegem os interesses dos investidores e credores. “Prevalência da Essência sobre a forma” é uma expressão utilizada quando falamos em IFRS, pois as normas internacionais de contabilidade trazem justamente isso: a prevalência da essência econômica sobre a forma jurídica. Isso significa que em uma relação contratual permanecerá o caráter econômico da situação que está escrito no contrato para efeitos de informação contábil/financeira. Um bom exemplo nesse caso é a operação de arrendamento mercantil, pois embora no contrato a propriedade do bem ainda não seja da entidade, as normas contábeis mandam reconhecer o ativo e o passivo atrelado a essa operação, pois entende-se que a empresa já tem o controle do bem. 4.1Treinamento Por que o Brasil adotou as Normas Internacionais de Contabilidade? O Brasil adotou as normas para desenvolver a competitividade do seu mercado de capitais, atrair mais investimentos estrangeiros e pequenos investidores brasileiros ao mercado de ação. A adoção das Normas Internacionais de Contabilidade é garantia de sucesso em todos os países? Para se adotar o IFRS, é necessário uma estrutura mínima no país para que essas normas realmente surtam efeitos, como uma infraestrutura legal de proteção aos investidores, formação profissional adequada aos profissionais da área, um mercado de capitais maduro, entre outras fatores 12 que propiciem uma melhor proteção aos investidores por meio das informações contábeis. Fique por Dentro Faça a leitura do artigo, Tributação Universal com efeitos territoriais? O crédito presumido na lei n. 12.973/2014, de Guilherme Galdino. Disponível em: . A Lei n. 12.973/2014 foi além: não só a bitributação jurídica foi afastada, mas também a bitributação econômica. Isso porque a pessoa jurídica brasileira pode computar, também, o tributo devido por outra pessoa jurídica, a sua controlada no exterior. TEMA 5 – LUCRO VERSUS FLUXO DE CAIXA As normas contábeis fazem o reconhecimento das operações por meio do princípio da competência, que é a medida correta para a apuração do lucro. Mas o lucro não passa pelo caixa? Sim, e será então que não seria mais fácil medir o desempenho da entidade por meio do fluxo de caixa? Mais fácil com certeza é, pois é mais fácil saber quanto entrou ou saiu do caixa em contraposição à quantidade de normas que existem na contabilidade. Contudo, o desempenho de uma empresa, quando medido por competência segundo as normas contábeis, rastreia de modo mais organizado a ocorrência de eventos que possam ter afetado a riqueza da entidade. Por exemplo, a valorização de uma propriedade e o seu reconhecimento como aumento no patrimônio da entidade somente é demonstrado se for feita a apuração do lucro. Caso os relatórios fossem feitos levando-se em conta a geração de caixa, essa valorização apenas apareceria quando a propriedade fosse efetivamente vendida. Podemos dizer que o mesmo acontece também com a despesa de depreciação. É feita uma alocação de fluxo de caixa de investimento em imobilizado realizado inicialmente, a alocação de uma parte do investimento e dividido entre o tempo de vida útil do ativo. Aquilo que sobra após a despesa de depreciação é chamado de lucro. Assim, o resultado obtido pelo uso do ativo é confrontado com o consumo do recurso investido inicialmente. 13 Podemos dizer que o regime de competência organiza o fluxo de caixa no tempo, pois este é suscetível ao processo de pagamento/recebimento; dessa forma, o lucro é a alocação racional no tempo dos fluxos de caixa gerados. 5.1 Estudo de caso Uma empresa brasileira tem um ativo de créditos de ICMS não homologados para utilização pelo fisco estadual, no montante de R$ 20 milhões. Desse montante, R$ 12 milhões referem-se a créditos obtidos há pouco mais de cinco anos, que não podem ser mais recuperados por terem expirado nesse ano. Entretanto, a empresa está apresentando no ano corrente um lucro de apenas R$ 5 milhões. Caso o ativo de créditos que estão expirados seja baixado, a empresa passaria a apresentar prejuízo. O gestor da empresa defende que o ativo não deve ser baixado nesse período, pois essa perda não se refere a este, mas a períodos passados, e seria um ajuste “meramente contábil”, que não representa a realidade econômica da empresa nesse momento. Vamos analisar a situação e avaliar as seguintes questões. a. Qual é o montante atual de benefícios econômicos futuros do ativo? O montante atual de benefícios econômicos é R$ 8 milhões (R$ 20 milhões – R$ 12 milhões). b. Uma eventual apresentação de prejuízo no período poderia comprometer a avaliação de desempenho, ou até a remuneração, do gestor? Poderia comprometer, pois a principal medida de desempenho do gestor é o lucro. Isso também poderia afetar a remuneração caso seja baseada em lucro. c. A posição do gestor pode ser entendida como uma forma de gerenciamento de resultados com o objetivo de evitar divulgação de prejuízos? Sim, pois é uma forma de maximização dos resultados, que é um tipo de gerenciamento de resultados por parte do gestor. d. O reconhecimento de uma perda representa um ajuste “meramente contábil”, como defende o gestor? O reconhecimento da perda não é meramente contábil, pois a entidade deixou de aproveitar os benefícios econômicos do ativo. Com isso, o montante de riqueza da entidade diminuiu, devendo ser representado por meio de um reconhecimento de perda no período. A perda não se refere a períodos passados, pois a expiração dos créditos ocorreu neste ano. 14 e. A qualidade da informação divulgada a investidores poderia ser prejudicada em função do não reconhecimento da perda pela baixa do ativo de créditos expirados? A qualidade fica prejudicada, pois não representa a realidade econômica da entidade nesse momento. Saiba mais Nem sempre é fácil acompanhar os noticiários econômicos se não tivermos o domínio dos conceitos contábeis. Recomendamos a leitura da matéria a seguir sobre a OGX. Disponível em: . Acesso em: 13 jun. 2021. 15 REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto-Lei n. 1.598, de 26 de dezembro de 1977. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 27 dez. 1977. Disponível em: . Acesso em: 9 fev. 2023. BRASIL. Lei n. 11.638, de 28 de dezembro de 2007. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 28 dez. 2007. Disponível em: . Acesso em: 9 fev. 2023. COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM). [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 9 fev. 2023. COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC). CPC 00 (R2) – Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro. [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 9 fev. 2023. JENSEN, C.; MECKLING, H. Theory of the Firm Managerial Behavior, Agency Costs and Ownership Structure. Journal of Financial Economics, 1976, 3, p. 605-360. ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE). [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 9 fev. 2023.em nada para o conceito de despesa, abrangendo assim, tanto as perdas como as despesas que surgem no decorrer das atividades usuais da empresa. 3.1 Treinamento De forma resumida, cite as características mais importantes da estrutura conceitual: Resposta: a Estrutura Conceitual: a) Define conceitos fundamentais (teorias escolhidas). b) Não significa uma norma/regra, mas um conjunto básico de princípios a serem seguidos na elaboração dos Pronunciamentos e das Normas propriamente ditas. c) Utilizada em todos os pronunciamentos. 10 d) Pode haver um número limitado de conflito entre a Estrutura Conceitual e um Pronunciamento Técnico. e) Será revisada de tempos em tempos. Saiba mais Assista ao vídeo do professor Quintino sobre as demonstrações financeiras e fique por dentro disponível em: . Acesso em: 27 jul. 2021. TEMA 4 – RECONHECIMENTO E DESRECONHECIMENTO De acordo com o CPC 00: Reconhecimento é o processo que consiste na incorporação ao balanço patrimonial ou à demonstração do resultado de item que se enquadre na definição de elemento e que satisfaça os critérios de reconhecimento [...]. Um item que se enquadre na definição de um elemento deve ser reconhecido se: a) For provável que algum benefício econômico futuro associado ao item flua para a entidade ou flua da entidade; e b) O item tiver custo ou valor que possa ser mensurado com confiabilidade. 4.1 Reconhecimento do ativo Um ativo deve ser reconhecido no balanço patrimonial quando for provável que benefícios econômicos futuros dele provenientes fluirão para a entidade e seu custo ou valor puder ser mensurado com confiabilidade. Portanto, podemos afirmar que um ativo não pode ser reconhecido quando não for provável que ele gerará benefícios econômicos além do período corrente para a entidade. Observe que, muitas vezes, a intenção da administração da entidade é a de gerar benefícios econômicos futuros para a entidade, porém nem sempre isso ocorre, por exemplo: uma empresa médica que está fazendo uma pesquisa para descobrir um medicamento contra o câncer. A princípio, ela está apenas pesquisando, não se tem certeza que essa pesquisa será bem-sucedida e que esse medicamento gerará uma patente para a entidade. Portanto, os gastos gerados por essa pesquisa não podem ser ativados, eles precisam ser lançados como despesa. Também não podemos esquecer que o custo ou o seu valor precisa ser mensurado com confiabilidade. 11 4.2 Reconhecimento do passivo O reconhecimento do passivo deve ocorrer quando for provável que deverá ocorrer a saída de um recurso (ativo) para a liquidar a operação. Por exemplo, uma provisão para contingência trabalhista apenas deve ser reconhecida no passivo quando for provável que a entidade terá que pagá-la. 4.3 Reconhecimento de receitas As operações que resultem em aumento dos benefícios econômicos para a entidade devem ser reconhecidas na DRE como receita. Dessa forma, podemos afirmar que o reconhecimento de uma receita dependerá do reconhecimento ou desreconhecimento e mensuração de ativos e passivos. A norma contábil restringe o reconhecimento de uma receita apenas quando a operação possa ser mensurada com confiabilidade e com um alto grau de certeza. 4.4 Reconhecimento de despesa As despesas reconhecidas devem sempre estar atreladas a uma receita, ou seja, pelo regime de competência. Porém, a confrontação não é preponderante em relação aos critérios de reconhecimento de ativos e passivo. Por exemplo, os gastos pré-operacionais devem ser reconhecidos como despesa, mesmo que não haja uma receita para confrontar, pois esses gastos não satisfazem os critérios para serem reconhecidos como ativo. 4.5 Treinamento A Resolução CFC n. 1.330, de 18 de março de 2011, aprova a ITG 2.000 e traz as formalidades para escrituração contábil. Pesquise nessa Resolução sobre as contas de compensação. Solução: Os itens 29 e 30 da Resolução CFC n. 1.330, de 18 de março de 2011, trazem a seguinte menção a respeito das contas de compensação: 29. Contas de compensação constituem sistema próprio para controle e registro dos fatos relevantes que resultam em assunção de direitos e obrigações da entidade cujos efeitos materializar-se-ão no futuro e que possam se traduzir em modificações no patrimônio da entidade. 30. Exceto quando de uso mandatório por ato de órgão regulador, a escrituração das contas de compensação não é obrigatória. Nos casos 12 em que não forem utilizadas, a entidade deve assegurar-se que possui outros mecanismos que permitam acumular as informações que de outra maneira estariam controladas nas contas de compensação. Saiba mais Leia na integra o CPC 00 disponível em: . Acesso em: 27 jul. 2021. TEMA 5 – MENSURAÇÃO A base mais comum de mensuração nas demonstrações contábeis é o custo histórico, porém existem algumas combinações, como por exemplo nos estoques, em que geralmente são mantidos pelo menor valor entre o custo e o valor líquido de realização. Quando o custo histórico se mostra ineficaz, a entidade pode utilizar também o custo corrente, porém isso é uma prática pontual em casos de hiperinflação. Vamos analisar a seguir algumas bases de mensuração mais comumente utilizadas: • Custo histórico. Os ativos são registrados pelos montantes pagos em caixa ou equivalentes de caixa ou pelo valor justo dos recursos entregues para adquiri-los na data da aquisição. Os passivos são registrados pelos montantes dos recursos recebidos em troca da obrigação ou, em algumas circunstâncias (como, por exemplo, imposto de renda), pelos montantes em caixa ou equivalentes de caixa que se espera que serão necessários para liquidar o passivo no curso normal das operações; • Custo corrente. Os ativos são mantidos pelos montantes em caixa ou equivalentes de caixa que teriam de ser pagos se esses mesmos ativos ou ativos equivalentes fossem adquiridos na data do balanço. Os passivos são reconhecidos pelos montantes em caixa ou equivalentes de caixa, não descontados, que se espera que seriam necessários para liquidar a obrigação na data do balanço; • Valor realizável (valor de realização ou de liquidação). Os ativos são mantidos pelos montantes em caixa ou equivalentes de caixa que poderiam ser obtidos pela sua venda em forma ordenada. Os passivos são mantidos pelos seus montantes de liquidação, isto é, pelos montantes em caixa ou 13 equivalentes de caixa, não descontados, que se espera que serão pagos para liquidar as correspondentes obrigações no curso normal das operações; • Valor presente. Os ativos são mantidos pelo valor presente, descontado dos fluxos futuros de entradas líquidas de caixa que se espera que seja gerado pelo item no curso normal das operações. Os passivos são mantidos pelo valor presente, descontado dos fluxos futuros de saídas líquidas de caixa que se espera que serão necessários para liquidar o passivo no curso normal das operações. Um assunto muito discutido é o fato de que, em essência, um ativo é o valor presente dos benefícios econômicos. Sendo assim, o correto seria avaliar o estoque, por exemplo, pelo valor que a entidade espera receber no futuro pela sua venda. Porém, temos que analisar que essa medida não é confiável, pois pode gerar muita subjetividade, dando margem para que o gestor superavalie o estoque, gerando um lucro maior, e isso acabe comprometendo a confiabilidade das informações geradas. Por esse motivo, a contabilidade utiliza, em alguns casos, o valor histórico para seu custo, pois é uma medida que pode ser facilmente verificada e não se espera um benefício menor que o seu custo futuro esperado. 5.1 Estudo de caso Uma determinada empresa compra uma mercadoria e tem direito ao crédito de ICMS (Imposto sobre Circulaçãode Mercadorias e Serviços). Normalmente, esse crédito é utilizado para abater dos débitos de ICMS sobre as vendas. Ao ler as normas IFRS/CPC, você percebe que esse tipo de crédito tributário não tem tratamento específico: não é um crédito de Tributos sobre o Lucro (CPC 32) e pode ser difícil de se enquadrar como um Instrumento Financeiro. Nesses casos em que não há um tratamento específico, qual deve ser o procedimento a ser tomado? 14 Saiba mais No link a seguir, você poderá analisar as demonstrações financeiras do Banco Itaú e a aplicação das Normas do IFRS em seu balanço. Acesse e fique por dentro. . 15 REFERÊNCIAS CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis. Pronunciamento técnico CPC 00 – Estrutura conceitual para elaboração e divulgação de relatório contábil- financeiro. Disponível em: . CFC – Conselho Federal de Contabilidade. Resolução CFC n. 1.330, de 18 de março de 2011. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 22 mar. 2011. GELBCKE, E. R. et al. Manual de Contabilidade Aplicável a Todas as Sociedades. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2018. HENDRIKSEN, E.S.; VAN BREDA, M. F. Teoria da Contabilidade. 1. ed. São Paulo: Atlas, 1999. IUDÍCIBUS, S.; LOPES, A. B. Teoria Avançada da Contabilidade. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2012. 16 GABARITO 2.7 Treinamento Gabarito: d,a,f,c,e,b 5.1 estUdo de caso Utilizar a Estrutura Conceitual para interpretar se é um ativo e se pode ser reconhecido no Balanço Patrimonial. AULA 3 CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Profª Marineusa Andreico Rodrigues 2 TEMA 1 – AJUSTE A VALOR JUSTO (AVJ) A NBC TG 46 – Mensuração do valor Justo –, publicada pelo Comitê de Pronunciamento Contábil (CPC), define como valor justo “o preço que seria recebido pela venda de um ativo ou que seria pago pela transferência de um passivo em uma transação não forçada entre participantes do mercado na data de mensuração” (CPC, 2012). O documento não identifica quais ativos ou passivos devem ser mensurados a valor justo, pois o valor justo será aplicado apenas quando outro CPC requerer ou permitir sua utilização. Os CPCs que permitem a utilização do valor justo são: • Ativos individuais: ativos biológicos, propriedade para investimentos, subvenções, derivativos e títulos e valores mobiliários, teste de recuperabilidade (impairment), combinação de negócios (ativos tangíveis e intangíveis); • Ativos em grupo: unidades geradoras de caixa; • Passivos: Passivo financeiro ou não financeiro, instrumento patrimonial, combinação de negócio. Os requisitos do CPC 46 não se aplicam a: Mensuração e divulgação: Pagamento baseado em ações (CPC 10); Operações de arrendamento mercantil (CPC 06); Estoques (CPC 16) e divulgação: Ativos Valor recuperável (CPC 01); Benefícios a empregados (CPC33). 1.1 Mensuração Para fazer a mensuração, é necessário utilizar uma técnica de avaliação, pois o preço terá que ser estimado. Existem três tipos de abordagens: 1) Abordagem de mercado: são utilizadas informações de preços que sejam relevantes no mercado com um negócio idêntico ou similar a que a operação que está sendo realizada possa ser comparada. Por exemplo: o mercado fornece cotação para a arroba do boi gordo; essa cotação pode ser utilizada pela empresa que possui cabeças de boi para mensurá-las a valor justo. 2) Abordagem de custo: o valor se baseia no que seria necessário atualmente para substituir a capacidade de serviço do ativo, ou seja, o custo de reposição ou substituição. Resumindo, podemos dizer que seria o preço 3 recebido pelo ativo com base no custo para um comprador participante do mercado para adquirir ou fabricar outro ativo semelhante que possa substituir aquele. Contudo, é importante observar que a regra de definição de valor justo não permite o uso de valores de entrada para a mensuração do valor justo, apenas valores de saída. 3) Abordagem de receita: é voltada para lucros futuros; por exemplo, fluxos de caixa, receitas ou despesas são convertidos em um único valor, ou seja, são descontados. Dessa forma, essa mensuração reflete as expectativas atuais do mercado em relação a esses valores futuros; nesse caso, na grande maioria das vezes a base de avaliação é obtida pelo fluxo de caixa. Portanto, é importante frisarmos que a entidade deverá buscar técnicas de avaliação que sejam consistentes, buscando sempre uma informação sem viés, que seja útil e verdadeira. Devemos lembrar que os inputs disponíveis no mercado para que se possa fazer a mensuração podem ser: observáveis ou não observáveis. Dizemos que são observáveis quando se baseiam em informações obtidas de fontes independente da entidade, e não observáveis quando as informações utilizadas são próprias da organização no mercado. Temos três níveis de hierarquia para mensuração a valor justo, conforme listados a seguir. 1) Informação de nível 1: consiste em preços cotados (não ajustados) em mercados ativos para ativos e passivos idênticos a que a entidade possa ter acesso na data da mensuração. Esses valores cotados em um mercado ativo trazem de forma mais confiável a mensuração do valor justo. Primeiramente, no caso de informação do nível 1 sugerimos que seja determinado qual é o mercado principal para o ativo ou, na ausência dele, qual é o mais vantajoso para aquele ativo e/ou passivo e também se a entidade pode realizar uma transação com o ativo ou passivo pelo preço nesse mercado na data da mensuração. A informação desse nível é a mais confiável e verificável, dentre as dos outros níveis que veremos a seguir, por isso deve ser utilizada sempre que possível em relação às demais. Podemos citar como exemplos os títulos e valores mobiliários negociados em bolsa, como ações, debêntures e derivativos negociados em mercado de bolsa futura. 4 2) Informação de nível 2: nesse nível de hierarquia podemos incluir: preços cotados para ativos ou passivos similares em mercados ativos; preços cotados para ativos ou passivos idênticos ou similares em mercados que não sejam ativos (informações, exceto preços cotados, que sejam observáveis para o ativo ou passivo, como: taxas de juros e curvas de rendimento observáveis em intervalos comumente cotados; volatilidades implícitas; e spreads de crédito e informações corroboradas pelo mercado). Lembramos que as informações (inputs) de nível 2 podem variar, dependendo da condição ou a localização do ativo; em que medida as informações estão relacionadas a itens que são comparáveis ao ativo ou passivo (incluindo os fatores descritos no item 39 da NBC TG 46 (R1); e o volume ou nível de atividade nos mercados em que as informações são observadas. Como exemplo, citamos os ativos imobilizados, como imóveis, em que existe o valor por metro quadrado para a edificação com base em dados de mercado observáveis em locais similares. 3) Informação de nível 3: quando não existem dados observáveis disponíveis para mensurar o valor justo – por haver pouca ou nenhuma atividade do mercado para aquele ativo ou passivo na data da mensuração e a entidade se baseia em dados não observáveis –, dizemos que ela estará se utilizando de informação de nível 3. Portanto, é possível afirmar que essa informação se alicerça em dados não observáveis, que podem ser desenvolvidos pela própria entidade, porém devendo ajustá-los caso observe que outros participantes do mercado utilizam dados diferentes. Isso ocorre, por exemplo, quando há o uso de informações internas à organização, como o uso de fluxo de caixa esperado e taxa de juros para desconto que reflita o risco do negócio, de maneira a realizar uma avaliação do valorjusto com base em uma estimativa. 1.2 Treinamento Pesquise e responda: o que se entende por mercado principal e mercado mais vantajoso? Resposta: Mercado principal é aquele ao qual a entidade tem acesso, que possui o maior volume e nível de atividade para o ativo ou passivo, mesmo que os preços em outros mercados sejam mais vantajosos. Já o mercado mais vantajoso maximiza o montante que seria recebido para vender o ativo ou 5 minimiza o montante que seria pago para transferir o passivo, depois de considerar os custos de transações e de transporte. Saiba mais Você sabia que a BRF estabeleceu que o cost approach é a técnica de avaliação mais apropriada para o cálculo do valor justo de seus animais vivos e que o income approach é a mais adequada para calcular o valor justo de suas florestas? Confira Relatório Integrado 2019 da empresa e entenda. O material está disponível no seguinte link: . TEMA 2 – AJUSTE A VALOR PRESENTE (AVP) A essência do pronunciamento técnico de ajuste a valor presente (AVP) é sobre a mensuração dos efeitos financeiros (juros) embutidos em operações que envolvam recebimentos ou pagamentos diferidos ao longo do tempo. Importante ressaltar que o AVP deve ser aplicado independentemente da apresentação explícita de juros nos contratos. O AVP demonstra o valor de um direito ou obrigação a qual é descontada pela taxa de juros efetiva da operação e desta obtém-se o seu valor presente no qual o valor relativo aos juros é contabilizado como receitas (direitos) ou despesas (obrigações). Quando a taxa de juros da operação é explícita na relação de negócio, fica mais fácil reconhecê-la. Porém, a dificuldade está nas operações em que a taxa de juros não aparece de forma explícita na operação negocial, ou seja, a contraparte não apresenta diferença entre os valores à vista ou a prazo. Portanto, nesse caso deve ser utilizada a taxa de juros representativa no mercado em que a operação está inserida, isto é, a taxa de juros para operações similares disponíveis. No reconhecimento das transações devem ser consideradas a relevância e a confiabilidade, devendo-se sempre analisar a relação custos versus benefícios. Por esse motivo, é recomendado que se reconheça o AVP apenas nas operações com prazos superiores a 90 dias ou um 1 ano. 2.1 Treinamento 6 Analise a operação de venda de mercadoria realizada por meio de venda a prazo e calcule os juros a taxas efetivas (juros compostos). • Valor da mercadoria: $ 4.000,00. • Prazo de recebimento: quatro meses (120 dias). • Taxa de juros: implícita (consideramos o valor à vista das mercadorias em $ 3.485,77. Solução: Como o prazo é superior a 120 dias, vamos tratá-lo como relevante e assim considerá-lo pelo valor à vista das mercadorias (observar se a taxa de juros está adequada em relação ao mercado – nesse caso, vamos definir que sim), bem como a apuração mensal dos efeitos financeiros relativos aos juros. Dessa forma, o primeiro passo é identificar a taxa de juros efetiva da operação. Quadro 1 – Fazendo o cálculo na HP 4.000,00 CHS PV 3.485,77 PV 4 n i = 3,50% am. Quadro 2 – Apropriação financeira pela taxa efetiva de juros Saldo inicial Juros (3,5%) Saldo final Mês 1 3.485,77 122,00 3.607,77 Mês 2 3.607,77 126,27 3.734,04 Mês 3 3.734,04 130,69 3.864,74 Mês 4 3.864,74 135,27 4.000,00 Importante observar que o valor dos juros ocorre pela taxa efetiva, considerando juros compostos para a operação. Saiba mais Você sabe qual é a diferença entre AVP e AVJ? O ajuste a valor presente não é sinônimo de valor justo e tem a finalidade de efetuar o ajuste para demonstrar o valor presente de um fluxo de caixa futuro. Já o ajuste a valor justo é o valor justo pelo qual um ativo pode ser negociado, ou um passivo liquidado. Item 2 da Resolução CFC n. 1.428/2013 7 TEMA 3 – ATIVO IMOBILIZADO E PROPRIEDADE PARA INVESTIMENTO Em essência, o que é um imobilizado? O CPC 27 define o ativo imobilizado como o item tangível que é mantido para uso na produção ou fornecimento de mercadorias ou serviços, para aluguel a outros, ou para fins administrativos, e se espera utilizar por mais de um período (CPC, 2009a). Chamamos de bem tangível aquilo que é corpóreo, ou seja, que podemos tocar. A norma abrange ativos utilizados fisicamente nas operações e também os que geram benefícios como a locação de veículos, por exemplo; trata ainda de ativos que trazem benefícios de maneira indireta. Qual é a diferença entre um ativo imobilizado e uma despesa? Podemos responder a pergunta analisando primeiramente que um ativo imobilizado deve sempre trazer benefícios econômicos futuros à entidade, ao passo que uma despesa, não. Quando falamos em benefício econômico futuro, significa avaliar se determinado bem tem condições de oferecer um benefício adicional em relação ao que já se esperava dele inicialmente. Por exemplo, digamos que eu tenha um carro, que foi adquirido há dois anos, e preciso fazer a manutenção normal dele, especificamente trocar os pneus. Se minha expectativa inicial quando o comprei era usá-lo por cinco anos, é natural assumir que essa troca faz parte do desgaste decorrente do uso do veículo e, com isso, já era meu plano inicial de manter o carro por tal período. Portanto, a substituição dos pneus não deve afetar em nada a minha expectativa de utilizar o carro por mais três anos e esse gasto não deve ser incorporado ao ativo, mas tratado como despesa de manutenção. Por outro lado, se o motor do carro fundir amanhã, a minha opção de trocar o motor deve passar também pela decisão de manter o ativo em uso por mais tempo do que o previsto inicialmente. Substituir um motor com dois anos de uso não é algo esperado, e se eu resolver investir em um novo, é possível que tenha que obter benefícios econômicos adicionais em relação à expectativa inicial, estendendo o prazo de vida útil, para poder "pagar" o investimento. Assim, esse gasto com o carro pode ser incorporado ao ativo (com o motor velho sendo baixado), pois deve representar o mínimo de benefícios econômicos adicionais que espero obter no futuro com o uso do carro. O que é uma propriedade para investimento? Ela é definida pelo CPC 28 como a propriedade mantida para auferir aluguel, para valorização do capital ou 8 para ambas as finalidades. Uma propriedade é um imóvel – terreno ou edifício, ou parte de edifício, ou ambos. A propriedade para investimento não é mantida para uso na produção, fornecimento de bens ou serviços, finalidades administrativas ou venda no curso normal dos negócios. Se um bem é adquirido com a expectativa de venda, então é mais apropriado lançá-lo no estoque ou ativo circulante mantido para venda. Terrenos que estejam sendo mantidos para valorização em longo prazo ou para uso no futuro, mesmo que indeterminado, são exemplos de propriedade para investimento. Qual é a diferença entre um ativo imobilizado e uma propriedade para investimento? Podemos dizer que são separados por duas características: a forma de obtenção de benefícios econômicos e a capacidade de representação por meio da mensuração a valor justo. Observe que no imobilizado obtemos benefícios econômicos com o seu uso na maioria das vezes, o que não ocorre na propriedade para investimento; nesta, o benefício é obtido por meio de fluxos de caixa (venda ou aluguel), e não pelo uso. 3.1 Mensuração De acordo com o CPC 27, o custo de um item do ativo imobilizado compreende, em primeiro lugar, seu preço de aquisição, acrescido de impostos de importação e impostos não recuperáveis sobre a compra, depois de deduzidos os descontos comerciais e abatimentos (CPC, 2009a). O IPI na aquisição,por exemplo, deve fazer parte do custo, mas o ICMS destacado que pode ser recuperado, não. Também devem compor o custo quaisquer custos diretamente atribuíveis para colocar o ativo no local e condição necessários para ser capaz de funcionar da forma pretendida pela administração; isso inclui a mão de obra diretamente aplicada na construção ou aquisição do imobilizado, frete e custos de instalação, por exemplo. Além disso, deve também integrar o custo do imobilizado a estimativa inicial dos custos de desmontagem e remoção do item e de restauração do local em que está situado. Após o reconhecimento do item no imobilizado, este deve ser apresentado ao custo menos qualquer depreciação e/ou perda por recuperabilidade (impairment) acumuladas. Apesar de prevista nas normas IFRS/CPC, a divulgação de novas reavaliações do imobilizado foram proibidas no Brasil pela Lei n. 11.638/2007. 9 Já a mensuração para a propriedade para investimento poderá ser escolhida pela entidade e ser avaliada a valor justo ou custo; porém, é importante dizer que o método escolhido deverá ser aplicado a todas as propriedades para investimentos da entidade, e não apenas a alguma delas. Um imobilizado pode passar a ser classificado como propriedade para investimento, e vice-versa, dependendo da decisão de se colocar um imóvel que está no imobilizado para se obter aluguel, em vez de continuar a usá-lo, por exemplo. 3.2 Treinamento O que é vida útil de um ativo? Resposta: É o tempo que a entidade espera utilizá-lo. Isso significa que pode ser decorrente de uma política da gestão dela que considera, por exemplo, que irá vender e comprar um novo ativo após determinado período, fazendo com que a vida útil seja menor do que a vida econômica. Portanto, a vida útil não é definida por regras tributárias ou necessariamente pela duração física do ativo, mas pelo tempo que se espera obter o retorno do investimento feito nele. Saiba mais Na adoção inicial de IFRS/CPC, há a opção de mensurar o imobilizado pelo custo atribuído (deemed cost), sendo recomendável o uso de valor justo para isso. Essa opção é aplicável apenas na adoção inicial, já que o uso de valor justo nas mensurações posteriores configuraria reavaliação. TEMA 4 – ATIVO INTANGÍVEL Em essência, o que é um ativo intangível? O CPC 04 o conceitua como um ativo não monetário identificável sem substância física (CPC, 2010). Quando a norma define o intangível como não monetário, está tirando de seu escopo todas as disponibilidades e os ativos financeiros, como aplicações e recebíveis. Ao estabelecer que é um ativo identificável, também está tirando do escopo o goodwill, que contém exatamente tudo aquilo que não pode ser individualizado, separado e que é entendido como o ágio por expectativa de rentabilidade futura. A essência do intangível também está na definição, pois é um ativo sem substância física. Em se tratando do seu reconhecimento, o ativo intangível pode ser reconhecido no balanço patrimonial por meio de sua aquisição ou podem ser 10 desenvolvidos internamente. Quando tratamos do ativo adquirido, não há muitas controvérsias, pois o tratamento é igual a um ativo imobilizado; contudo, nos casos em que é desenvolvido internamente, a situação é um pouco mais complicada. Vamos analisar um exemplo. Suponhamos que eu esteja criando uma agência de turismo e tenha dado um nome a ela – M&D Viagens. Digamos também que eu tenha gastado $100 em propaganda sobre a empresa na expectativa de que ela se torne conhecida e consiga vender muitos pacotes turísticos. Será que eu estaria enganando investidores e credores caso divulgasse um ativo intangível de $100 referente à marca que está sendo desenvolvida internamente? Perceba que pode ser uma informação enganosa sim, pois não posso dizer (apesar de haver uma expectativa) que é provável que eu obtenha pelo menos $100 de dinheiro no futuro com o uso da marca. Além de não ser possível identificar o quanto a marca foi beneficiada com a propaganda de maneira isolada de outros ativos, não há evidência ou histórico de que todo esse gasto com propaganda provavelmente irá ser recuperado, já que depende da reação dos potenciais clientes. Portanto, nem todos os ativos intangíveis gerados internamente podem ser reconhecidos apenas porque algum gasto é incorrido. A definição da vida útil de um ativo intangível é outro ponto bastante polêmico. Por exemplo, a princípio um software adquirido poderia funcionar indefinidamente, mas é provável que haja mudança tecnológica e que o uso dele seja interrompido em algum momento no futuro. Essa é uma questão que se relaciona com a política da entidade em relação ao nível de atualização tecnológica que está disposta a ter. Se ela entende que o software tem vida útil definida, é necessário fazer a amortização do investimento no ativo intangível. De acordo com o CPC 04, o custo de um item do ativo intangível adquirido separadamente compreende o seu preço de compra, acrescido de impostos de importação e impostos não recuperáveis sobre a compra, depois de deduzidos os descontos comerciais e abatimentos e qualquer custo diretamente atribuível à preparação do ativo para a finalidade proposta (CPC, 2010). Assemelha-se muito ao tratamento dado à mensuração de um imobilizado adquirido. O reconhecimento dos custos cessa quando o ativo está nas condições operacionais pretendidas pela administração, mesmo que ainda não esteja sendo utilizado. Importante ressaltar que um ativo intangível pode ser adquirido também mediante uma combinação de negócios, e nesse caso o custo deve ser medido pelo valor justo. 11 4.1 Treinamento Uma entidade é líder de mercado em seu setor de atividade e tem uma marca consolidada há muitos anos. Ela adquiriu uma empresa concorrente, juntamente com a sua marca, e registrou esse intangível pelo valor justo de $300.000. Entretanto, os gestores da entidade decidiram que a marca será descontinuada em três anos para que a marca-líder fique ainda mais fortalecida. Qual deve ser o tratamento contábil aplicado após o reconhecimento desse intangível? Resposta: Depois de ter sido reconhecida no ativo intangível, a marca deve sofrer um teste de impairment para verificar se há valor recuperável com ela nos próximos três anos, pois a decisão dos gestores da entidade é um indicativo de que o ativo pode perder valor. Se houver valor remanescente, o ativo deve ser amortizado ao longo dos três anos de vida útil estabelecida pela gestão. Saiba mais Pode haver ativos intangíveis com vida útil ilimitada, o que projeta, a princípio, benefícios econômicos para a perpetuidade, muito embora possam sofrer perdas desses benefícios (impairment). Portanto, o intangível deve ser mensurado a custo quando reconhecido, podendo ser amortizado ao longo do tempo caso tenha vida útil definida. TEMA 5 – ATIVO BIOLÓGICO A primeira definição importante é a de ativo biológico. De acordo com o CPC 29, um “ativo biológico é um animal e/ou uma planta, vivos” (CPC, 2009b). Podemos citar como exemplos: bois, porcos, frangos, pés de milho, videiras, cana-de-açúcar etc. enquanto estiverem vivos. Entretanto, não são todos os ativos biológicos que estão sob o escopo do pronunciamento CPC 29, o qual deve ser aplicado apenas àqueles que estejam relacionados com as atividades agrícolas. De acordo com a norma, atividade agrícola é “o gerenciamento da transformação biológica e da colheita de ativos biológicos para venda ou para conversão em produtos agrícolas ou em ativos biológicos adicionais, pela entidade” (CPC, 2009b). Transformação biológica compreende "o processo de crescimento, degeneração, produção e procriação que causam mudanças qualitativa e quantitativa no ativo biológico" (CPC, 2009b). 12 Isso significa que, para receber o tratamento contábil dado pelo CPC 29, por exemplo, a mensuraçãoa valor justo, é preciso que o ativo biológico esteja sendo gerenciado de modo a gerar riqueza pela transformação biológica e posterior colheita. Por exemplo, um boi de corte pode estar sendo engordado de maneira intensiva em um confinamento. Assim, rações e medicamentos são administrados tendo em vista a eficiência da engorda do boi que, por sua vez, tem como objetivo o ganho econômico com esse crescimento. Assim, o confinamento do boi é uma atividade agrícola, e o boi, um ativo biológico. No caso de ativos biológicos que não se enquadram em uma atividade agrícola, é preciso pensar em animais ou plantas que não são cultivados com o objetivo de ganhar dinheiro com a sua transformação biológica. Vamos dar o exemplo de um cavalo que está sendo utilizado pelo pecuarista na criação de gado bovino a pasto: apesar de ser um animal vivo, a intenção da administração da entidade não é obter benefícios econômicos com a sua transformação biológica e posterior venda, mas sim com o seu uso. Com isso, o cavalo não deve ser apresentado na conta de ativos biológicos, mas sim na de ativo imobilizado. Um ativo biológico deve primeiramente atender à definição de ativo. Isso significa que a entidade precisa controlá-lo em função de um evento passado e esperar obter benefícios econômicos no futuro. Se a entidade comprou uma vaca leiteira, é possível dizer que a controla e que tem expectativa de obter benefícios com o leite produzido por ela. Entretanto, há situações em que a questão do controle poderia gerar dúvidas na interpretação. Por exemplo, será que abelhas podem ser um ativo da entidade, considerando que voam livremente? Criadores de abelhas vão dizer que é possível controlar as abelhas em uma colmeia por meio de seu manejo, o que traz a possibilidade de classificá-las como ativo. Perceba que o produto agrícola é aquele colhido de um ativo biológico, que deixa de sê-lo se for processado após a colheita. Essa diferenciação é importante porque apenas o produto agrícola deve ser mensurado a valor justo no momento da colheita e o seu valor não pode ser o do produto processado após a colheita. Observe que a norma especifica tratamento diferente para pelo menos quatro coisas que são relacionadas ou parecidas: ativo biológico, imobilizado, produto agrícola e estoque. Outra definição atrelada é a de planta portadora, que é aquela com capacidade de gerar produtos agrícolas por mais de um período, como é o caso de frutíferas e cana-de-açúcar. 13 De acordo com definição dada pelo CPC 27 (ativo imobilizado) e pelo CPC 29 (ativos biológicos e produtos agrícolas), uma planta portadora é “uma planta viva que: é usada na produção ou fornecimento de produto agrícola; se espera gerar produtos agrícolas por mais de um período; tem probabilidade remota de ser vendida como produto agrícola, exceto por vendas ocasionais do resíduo” (tradução livre). Apesar de serem plantas vivas – e com isso atenderem à definição de ativos biológicos –, as plantas portadoras não recebem esse tratamento e são tratadas como ativo imobilizado; assim, não são mensuradas a valor justo, mas a custo. É interessante que a planta, fisicamente, é constituída também pelos seus frutos em crescimento, mas contabilmente é separada em duas partes: a planta e a produção em crescimento. A primeira é tratada como ativo imobilizado; a segunda recebe o tratamento de ativo biológico e é mensurada a valor justo. Vamos exemplificar: a soqueira cana-de-açúcar (que é a raiz sobre a qual brota a cana que posteriormente é cortada) passa a ser mensurada pelo custo. Assim, quando terminado o processo de plantio, o custo acumulado (que equivale ao custo de uma construção, caso fosse um imóvel) passa a ser depreciado ao longo da vida útil do ativo, que é o número esperado de cortes (safras) da planta. 5.1 Estudo de caso Uma entidade, que possui uma fazenda de café em Monte Santo de Minas (MG), colheu 200 sacas de café do tipo arábica em junho. É necessário mensurar esses produtos agrícolas. Identifique quais dos critérios a seguir são adequados e calcule o valor justo menos despesas de venda das sacas de café colhidas. 1) Cento e vinte sacas foram classificadas como da qualidade PP223 (classificação dada por uma cooperativa de café), cujo preço é $30 acima da cotação do café tipo 6 (qualidade padrão) da Bolsa de Valores. As demais 80 sacas foram classificadas como da qualidade PF102, cujo preço é $10 abaixo do preço do café tipo 6. 2) A cotação de hoje Cepea/Esalq (físico) do café é de $260 por saca de 60kg, bica corrida, tipo 6, bebida dura para melhor (qualidade padrão), posto na cidade de São Paulo. O frete para São Paulo custa $5 por saca. 3) A cotação do contrato futuro de café negociado na BM&F para dezembro é de $305. 14 4) São Sebastião do Paraíso e Guaxupé são mercados nos quais a entidade costuma negociar o café, mas provavelmente dessa vez a maior parte será negociada com o primeiro, já que estará armazenada naquela cidade. A cotação nesses dois mercados está coincidindo com a cotação Cepea/Esalq nessa data, mas o custo do frete é de $2 por saca. 5) Foi firmado previamente um contrato de venda e entrega três meses após a colheita de 30 sacas da qualidade PP223, com preço fixado em $300 a saca, e custo de corretagem de 0,30%. Resposta: Deve ser usada a cotação em São Sebastião do Paraíso, que é o mercado principal, cujo preço coincide com a cotação Cepea/Esalq, que é a do dia da colheita (cotação do físico), e não da cotação do futuro, como é a da BM&F, ou a do contrato de venda. O ajuste no preço da cotação para as duas qualidades de café deve ser feito para a mensuração do valor justo, pois é informação de nível 2 (cotação de café semelhante). O frete deve ser deduzido para o cálculo do valor justo, pois a localização é característica do produto. O valor justo deve ser deduzido da comissão, que é a despesa de venda, calculada sobre o valor da cotação ajustada. 15 REFERÊNCIAS BRF. Relatório Integrado 2019. 2020. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2021. CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis. Pronunciamento Técnico CPC 00 – Estrutura conceitual para elaboração e divulgação de relatório contábil- financeiro – Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade. Brasília: CPC, 2008a. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 04 (R1) – Ativo intangível – Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade – IAS 38. Brasília: CPC, 2010. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 12 – Ajuste a valor presente. Brasília: CPC, 2008b. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 27 – Ativo imobilizado – Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade – IAS 16. Brasília: CPC, 2009a. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 29 – Ativo biológico e produto agrícola – Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade – IAS 41. Brasília: CPC, 2009b. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2021. _____. Pronunciamento Técnico CPC 46 – Mensuração do valor justo – Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade – IFRS 13. Brasília: CPC, 16 2012. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2021. AULA 4CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Prof.ª Marineusa Andreico Rodrigues 2 INTRODUÇÃO Nesta aula, vamos tratar de alguns temas bem relevantes para a contabilidade societária. Vamos nos aprofundar nos Pronunciamentos Técnicos para entender o porquê dessas regras, quais são seus objetivos e como devem ser aplicadas na prática. TEMA 1 – IMPAIRMENT Este tema trata das questões envolvendo o tratamento contábil dos ativos na situação em que há necessidade de se reconhecer uma redução ao seu valor recuperável (impairment) de acordo com as normas IFRS/CPC. O objetivo do texto é fazer com que o leitor possa entender como devem ser mensurados os ativos nas situações em que o ativo sofre desvalorização e compreender os fatores que devem ser levados em conta para uma melhor apresentação dos ativos para fins de tomada de decisão de investidores e credores. A redução ao valor recuperável de ativos é conhecida em inglês pelo termo impairment of assets. A norma CPC 01 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos trata basicamente de uma questão de mensuração de ativos, mas na ocorrência de um evento adverso que indique que o valor de um ativo ou conjunto de ativos perdeu representatividade (CPC, 2010). Perceba que ela só trata de situações que envolvem possíveis perdas, e não ganhos. Uma das questões mais interessantes da norma CPC 01 é a própria razão da existência da norma. Ela existe porque o registro contábil de um ativo pode apresentar um valor superior à sua avaliação econômica, o que significa que os benefícios econômicos futuros do ativo podem ser reduzidos. Assim, o objetivo é trazer maior fidelidade de representação do valor dos ativos quando estes se desvalorizam. Assim, a norma procura reconhecer as perdas de maneira tempestiva, no momento em que acontecem, evitando a postergação desse reconhecimento Há um processo para o reconhecimento de impairment de um ativo. Em primeiro lugar, deve-se identificar se um ativo individual ou uma unidade geradora de caixa pode ou não estar desvalorizado. Em seguida, deve-se verificar se o valor recuperável do ativo ou unidade é menor que o seu valor contábil. Sendo menor, 3 deve-se reconhecer a perda estimada no resultado. Ao longo do tempo, é possível que o ativo volte a se valorizar e que a perda seja revertida. Cada norma estabelece seus próprios princípios de mensuração. Vamos pegar os ativos mensurados a custo, que são o principal alvo do CPC 01. O que representa o valor do custo? O custo tem a capacidade de representar o valor mínimo dos benefícios econômicos futuros porque, em uma decisão racional, o gestor não iria adquirir um ativo por um determinado valor esperando que os benefícios sejam menores do que está pagando. Por exemplo, o gestor não iria adquirir um estoque por $100 esperando vendê-lo por $90; no mínimo, ele espera obter $100 de volta. Isso significa que ele espera recuperar pelo menos os $100 investidos Assim, é preciso entender que o valor do ativo que está registrado no balanço patrimonial representa o valor investido, e que esse investimento precisa ser recuperado. Mais do que isso: que ele traga um volume de benefícios econômicos que seja maior do que o valor do investimento, para que o retorno seja positivo. É como se cada ativo ou grupo de ativos fosse um projeto de investimento que precisa gerar um valor presente líquido positivo (VPL) Entretanto, nem sempre as coisas ocorrem conforme o planejado. É possível que o projeto de investimento estivesse apontando um VPL positivo, mas o mercado mudou completamente e o investimento não está trazendo o retorno esperado. Ao fazer uma nova projeção de fluxos de caixa, o VPL calculado passou a ser negativo. Isso significa que o investimento não será mais recuperado integralmente. Nessa linha está a definição de valor recuperável para o cálculo da eventual perda por impairment. De acordo com o CPC 01, o valor recuperável de um ativo ou de uma unidade geradora de caixa é: “o maior montante entre seu valor justo líquido de despesa de venda e o seu valor em uso” (CPC, 2010). Para entender essa definição de valor recuperável, precisamos primeiramente entender como a norma considera que o ativo pode trazer benefícios futuros. Como o valor recuperável considera duas medidas em sua definição, valor justo e valor em uso, dá para perceber que há duas formas básicas de obtenção de benefícios econômicos: vendendo ou usando. Isso significa que a entidade precisa considerar essas duas opções no momento em que o impairment deve ser testado – vender ou usar. O valor recuperável de um ativo ou de uma unidade geradora de caixa é “o maior 4 montante entre seu valor justo líquido de despesa de venda e o seu valor em uso” (CPC, 2010) Temos alguns passos para o reconhecimento do impairment, os quais passamos a analisar: 1. Identificação do Ativo: nesse ponto, é importante fazer uma observação. Quando nos referimos a ativo, isso pode também significar um conjunto de ativos. Assim, é possível reconhecer perda por impairment em um ativo individual ou em um agrupamento de ativos. O CPC 01 define esse agrupamento como uma unidade geradora de caixa. Uma unidade geradora de caixa é definida pelo CPC 01 como “o menor grupo identificável de ativos que gera entradas de caixa, entradas essas que são em grande parte independentes das entradas de caixa de outros ativos ou outros grupos de ativos” (CPC, 2010). Assim, a norma estabelece um critério para agrupar os ativos quando da identificação de desvalorização (ou não): esse agrupamento deve gerar entradas de caixa. 2. Indicações da perda por impairment: a entidade deve avaliar indicações de fontes externas e internas de informações que sinalizem a perda de valor dos ativos. Saiba mais O CPC 01 traz uma lista de fontes externas de informação (não exaustiva) e fontes internas que devem ser observadas pela entidade. Essa lista está disponível no Pronunciamento Técnico CPC 01 (R1) – Redução ao valor recuperável de ativos: CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis. CPC 01 (R1) Redução ao Valor Recuperável de Ativos. IASB/IAS 36, 7 out. 2010. Disponível em: . Acesso em: 25 ago. 2021. 3. Teste de impairment: havendo indicação de que o ativo pode estar desvalorizado, passa-se então para a segunda etapa, que é o teste de impairment. Nesse teste, deve-se fazer a mensuração do valor recuperável do ativo ou da unidade geradora de caixa. 5 1.1 Reversão da perda por impairment A perda por impairment pode ser revertida. A cada final de período, a entidade deve avaliar se há alguma indicação de que a perda possa não mais existir ou ter diminuído (exceto perdas com goodwill). Se existir alguma indicação, a entidade deve estimar o valor recuperável desse ativo. 1.2 Treinamento A Kalango Equipamentos possui uma fábrica localizada na capital do Estado, entre outras. A fábrica produz um único produto, que nos últimos tempos vinha gerando fluxos regulares de caixa de $50.000 líquidos por ano. Porém, uma mudança na concorrência fez com que esse produto tivesse uma queda brusca nas vendas, e a expectativa para os próximos 7 anos é que haja uma geração de caixa de $30.000 por ano. A entidade considera que essa mudança no mercado é uma indicação de que o ativo pode estar desvalorizado. A fábrica pode ser considerada uma unidade geradora de caixa, de acordo com a norma de impairment. A fábrica possui apenas uma máquina como ativo que possa ser identificado como parte dessa unidade geradora de caixa, já que as instalações que ocupa são alugadas de terceiros. O custo inicial da máquina foi de $600.000, com estimativa inicial de vida útil de 20 anos, com valor residual zero, e já depreciada linearmente por 13 anosaté o presente momento. O valor justo da máquina é de $100.000 nesta data (31 de dezembro de 20x1). Verificou-se que não há despesas adicionais para se vender a máquina. Para o cálculo do valor em uso da unidade geradora de caixa, foi estimada uma taxa de juros de 12% ao ano. Considera-se que a projeção de $30.000 por ano para os próximos 7 anos está fundamentada nos orçamentos para os próximos 5 anos e que a extrapolação para os dois anos seguintes não considerou nenhuma taxa de crescimento. Verifique se a entidade deve reconhecer uma perda por impairment em 31 de dezembro de 20x1 e, se for o caso, de qual valor. Saiba mais A Petrobras protagonizou recentemente aquele que é considerado o maior episódio de corrupção em nosso país – políticos e executivos da empresa desviaram bilhões de dólares em recursos da empresa por meio de operações fraudulentas e de contratos viciados. Consequentemente, as demonstrações 6 financeiras de 2014 da companhia representaram um marco na divulgação contábil, pois evidenciou em sua demonstração de resultado a baixa que a empresa realizou em função da corrupção ocorrida. Gastos que haviam sido contabilizados no ativo imobilizado da empresa foram baixados com o título “Baixa de gastos adicionais capitalizados indevidamente”, em um montante de mais de R$ 6 bilhões, pois a apresentação de um resultado decorrente dos crimes apontados pelas investigações policiais era cobrada e esperada por investidores e credores. Porém, a Petrobras divulgou outro número que provavelmente surpreendeu mais que a perda referente à corrupção: a perda por impairment reconhecida em 2014 principalmente em função da queda no preço do petróleo, no valor de R$ 44,6 bilhões. Um montante expressivo para qualquer companhia e mais de 7 vezes o valor da perda declarada por corrupção (Petrobras, 2015). TEMA 2 – PROVISÕES, PASSIVO E ATIVO CONTINGENTE Este tema trata das questões envolvendo o tratamento contábil dado a provisões, passivos contingentes e ativos contingentes de acordo com as normas IFRS/CPC. O objetivo do texto é fazer com que o leitor possa entender quando devem ser reconhecidas as provisões no balanço patrimonial e como divulgar passivos contingentes e ativos contingentes. Este tema é importante porque se acredita que as provisões são bastante observadas por analistas e outros usuários das informações financeiras, face às incertezas que as cercam e aos valores envolvidos. 2.1 Provisões A primeira definição importante é a de provisão. É uma definição curta, mas de grande alcance: “provisão é um passivo de prazo ou de valor incertos”, conforme o CPC 25 (CPC, 2009b). A incerteza em relação a prazo e valor é o fator que diferencia a provisão de outros passivos. Fornecedores, contas a pagar e empréstimos, por exemplo, são diferentes de provisão porque os valores e os prazos foram formalmente acordados com a contraparte, e as incertezas em relação a esses dois fatores são muito pequenas. Os passivos decorrentes de apropriações por competência, como décimo terceiro salário e férias de empregados, podem até ter seus valores ou prazos sob 7 determinada incerteza, mas ela é muito pequena: talvez não se possa dizer exatamente em que mês um determinado empregado irá tirar férias, mas isso provavelmente não passará de um ano. Do mesmo modo, talvez não se saiba qual é exatamente o valor do décimo terceiro salário em função de reajustes e de remunerações variáveis, por exemplo, mas é possível fazer uma estimativa confiável com base em histórico, o que não implica alto grau de incerteza a ponto de classificar esse valor como uma provisão. Uma provisão precisa estar de acordo com a definição de passivo, que é dada pela Estrutura Conceitual e repetida pelo CPC 25: “passivo é uma obrigação presente da entidade, derivada de eventos já ocorridos, cuja liquidação se espera que resulte em saída de recursos da entidade capazes de gerar benefícios econômicos” (CPC, 2009b). É importante notar que uma obrigação não é gerada apenas por razões legais, como é o caso da obrigação que deriva de contratos ou da força da lei. É possível que a entidade se veja obrigada a entregar ativos mesmo que não haja uma obrigação legal e ainda não esteja sendo exigida pela contraparte. Por exemplo, se o presidente de uma empresa declara publicamente que irá indenizar uma comunidade afetada por uma contaminação que ocorreu recentemente, a entidade já está obrigada a fazer o pagamento no futuro, mesmo que a legislação não determine especificamente o pagamento na situação específica ou que a justiça não tenha determinado o pagamento dessas indenizações. A provisão é um dos itens que mais merece atenção no balanço, pois esta pode ser objeto de algum viés da informação contábil. Para evitar a divulgação de um lucro menor e de um passivo mais elevado, o gestor pode evitar o reconhecimento de uma provisão ou mensurá-la por um valor menor do que de fato é, já que a contrapartida é uma despesa. 2.2 Passivo contingente A segunda situação é aquela em que de fato há um passivo, conforme a sua definição, mas os critérios de reconhecimento no balanço patrimonial não são atingidos. Assim, existe uma obrigação presente, mas não é provável que um ativo tenha que ser entregue para liquidar a obrigação ou não é possível mensurar o valor com confiabilidade. Por exemplo, uma empresa derrama produtos químicos tóxicos em uma área, o que configura a existência de uma obrigação presente de realizar gastos com a recuperação da área, em função da legislação existente. 8 Além disso, é provável ou quase certo que a empresa despenderá recursos para liquidar a obrigação. Porém, pode não ser possível mensurar com confiabilidade o gasto a ser realizado nesse momento. Assim, o passivo não será reconhecido até que se obtenha uma medida confiável do valor a ser gasto. Se o passivo contingente não é reconhecido no balanço patrimonial, sua divulgação ocorre apenas por meio de notas explicativas. A informação contida na nota explicativa é importante para acionistas e credores na análise do risco de potenciais perdas futuras, já que os critérios de reconhecimento de provisão podem passar a ser atendidos com o desenvolvimento dos fatos. 2.3 Ativo contingente Da mesma forma que um passivo contingente, um ativo contingente também não deve ser reconhecido no balanço patrimonial. Por exemplo, se a entidade entrou com uma ação contra outra entidade, a entidade pode julgar que é possível que ganhe a ação. Nesse caso, momentaneamente a entidade não deve fazer nada, nem mesmo divulgação em nota explicativa Entretanto, apesar de definir o ativo contingente como possível, o CPC 25 traz uma gradação de probabilidades e do tratamento a ser dispensado em cada uma delas: possível, provável e praticamente certa (CPC, 2009b). Com a evolução dos acontecimentos, a entidade pode passar a julgar que é provável que vá ganhar a ação. Nesse caso, ela deve passar a divulgar informações sobre o ativo contingente em notas explicativas Quando a realização do ganho é praticamente certa, o ativo deixa de ser contingente e a entidade deve reconhecê-lo. Para isso, é necessário avaliar periodicamente os ativos contingentes. 2.4 Mensuração e divulgação O CPC 25 determina que o valor reconhecido como provisão deve ser a melhor estimativa do desembolso exigido para liquidar a obrigação presente na data do balanço (CPC, 2009b). Esse princípio de mensuração tem uma série de pressupostos e implicações. Segundo a norma, a melhor estimativa de desembolso necessário para liquidar a obrigação presente é o valor que a entidade racionalmente pagaria para liquidar a obrigação na data do balanço ou 9 para transferi-la para terceiros nesse momento, mesmo que isso seja impossível neste momento. A divulgação em nota explicativa é um aspecto relevante das