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<p>Psicomotricidade</p><p>Clínica</p><p>Sumário</p><p>CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO</p><p>Simbolização do corpo</p><p>Corpo</p><p>Esquema corporal e imagem corporal</p><p>Contribuições da fisioterapia, medicina e psicologia para a</p><p>psicomotricidade</p><p>Contribuições da fisioterapia</p><p>Contribuições da medicina</p><p>Contribuições da psicologia</p><p>O pensamento clínico nas atividades em psicomotricidade</p><p>Introdução</p><p>Intervenção clínica</p><p>A maturação e as implicações neurológicas para a motricidade</p><p>humana</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento do nascimento</p><p>aos três anos de idade</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento dos três aos</p><p>cinco anos de idade</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento dos cinco aos 10</p><p>anos de idade</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento durante a</p><p>puberdade</p><p>6</p><p>16</p><p>26</p><p>34</p><p>Sumário</p><p>CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO</p><p>Crescimento na puberdade</p><p>Desenvolvimento</p><p>Maturação</p><p>Referências 48</p><p>Objetivos Definição</p><p>Explicando Melhor Você Sabia?</p><p>Acesse Resumindo</p><p>Nota Importante</p><p>Saiba Mais Reflita</p><p>Atividades Testando</p><p>Para o início do</p><p>desenvolvimento de uma</p><p>nova competência;</p><p>Se houver necessidade</p><p>de se apresentar um novo</p><p>conceito;</p><p>Algo precisa ser melhor</p><p>explicado ou detalhado;</p><p>Curiosidades indagações</p><p>lúdicas sobre o tema em</p><p>estudo, se forma necessárias;</p><p>Se for preciso acessar um</p><p>ou mais sites para fazer</p><p>download, assistir vídeos, ler</p><p>textos, ouvir podcast;</p><p>Quando for preciso se fazer</p><p>um resumo acumulativo</p><p>das últimas abordagens;</p><p>Quando forem necessárias</p><p>observações ou</p><p>complementações para o</p><p>seu conhecimento;</p><p>As observações escritas</p><p>tiveram que ser priorizadas</p><p>para você;</p><p>Textos, referências</p><p>bibliográficas e links para</p><p>aprofundamento do seu</p><p>conhecimento;</p><p>Se houver a necessidade</p><p>de chamar a atenção</p><p>sobre algo a ser refletido ou</p><p>discutido sobre;</p><p>Quando alguma atividade</p><p>de autoaprendizagem for</p><p>aplicada;</p><p>Quando o desenvolvimento de</p><p>uma competência for concluído</p><p>e questões forem explicadas.</p><p>@faculdadelibano_</p><p>1</p><p>Simbolização do</p><p>corpo</p><p>Psicomotricidade Clínica Capítulo 1</p><p>Simbolização do corpo</p><p>Objetivos</p><p>Para que se possa compreender a psicomotricidade, é importante</p><p>compreender o corpo e todas as suas funções na mente. Desse</p><p>modo, esse capítulo se dedicará ao estudo da simbolização do corpo,</p><p>compreendendo o que vem a ser ela e a sua função. Pronto para</p><p>iniciarmos? Vamos lá!</p><p>Para compreendermos a psicomotricidade, é importante compreender o corpo, sabendo</p><p>que ele constitui não só um material, mas também uma forma de apresentação do ser</p><p>humano. Desse modo, iremos nos debruçar compreendendo os elementos do corpo e</p><p>em que consiste o esquema e a imagem corporal.</p><p>Corpo</p><p>A psicomotricidade “nasceu” a partir do momento em que o corpo deixou de ser</p><p>concebido como pura carne para tornar-se o corpo que “fala”. Ao longo da história da</p><p>Psicomotricidade, a concepção sobre o corpo foi sendo modificada de corpo motor</p><p>para um corpo em movimento até chegar à significação de um sujeito com um corpo</p><p>em movimento.</p><p>Definição</p><p>A palavra “corpo” provém, conforme Levin (2003), por um lado, do</p><p>sânscrito garbhas, que significa “embrião” e, por outro, do grego karpós,</p><p>que quer dizer “fruto”, “semente”, “envoltura” e, por último, do latim corpus,</p><p>que significa “tecido de membros”, “envoltura da alma”, “embrião do</p><p>espírito”.</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>Desse modo, acabou-se a dualidade que separava o corpo da mente e desprezava o</p><p>corpo, colocando em destaque a dimensão intelectual. Por essa vertente, a concepção</p><p>francesa da Psicomotricidade ganhou destaque na finalização dessa dualidade, pois</p><p>os seus fundamentos teóricos partiram da necessidade de os psicomotricistas terem</p><p>iniciativa de se defenderem da pressão oriunda dessa dualidade. Daí nasceu o sucesso</p><p>da imagem da motricidade baseada na concepção de que o corpo e a psique são</p><p>inseparáveis. É com seu próprio corpo que o sujeito estabelece as relações consigo e</p><p>com o mundo.</p><p>O simbolismo trata de dar à representação do corpo uma representação indireta e</p><p>figurada do ser humano. Ou seja, o corpo foi nomeado como “corpo” para que, quando</p><p>dito, fizesse sentido ao indivíduo.</p><p>O corpo, no decorrer da história, vem sido chamado de diferentes formas, pelas diferentes</p><p>áreas do conhecimento. De acordo com Lopes (2010):</p><p>O corpo tal como a vida, está em constante mutação. As aparências físicas</p><p>demonstram de modo exemplar esta tendência: elas nunca estão prontas,</p><p>embora jamais estejam no rascunho. [...] cada corpo, longe de ser apenas</p><p>constituído por leis fisiológicas, supostamente imutáveis, não escapa a</p><p>história. (LOPES, 2010, p. 54)</p><p>Foi Freud o responsável, por meio da sua teoria do inconsciente, por fazer com que o</p><p>ser humano deixasse de estar sujeito aos ditames da vontade, pois ele entendeu que o</p><p>corpo possui formações no inconsciente, que seria a fonte biológica de toda pulsão e</p><p>FIGURA 1</p><p>Simbolização do corpo</p><p>FONTE</p><p>Pixabay</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>atitudes, gestos, reações corporais e comportamentos.</p><p>Freud recebeu a contribuição da psicanálise no que diz respeito à importância do afeto</p><p>na concepção comportamental e no desenvolvimento, estabelecendo uma valorização</p><p>do instrumento para que haja um maior desenvolvimento do ser humano. Assim, ele</p><p>propôs que o indivíduo se sentisse bem na sua pele, possibilitando uma livre expressão</p><p>de seu ser ao se assumir como uma realidade corporal.</p><p>Desta maneira, é possível enxergar que o corpo vai além de ser algo orgânico ou biológico,</p><p>ele é responsável por expressar emoções e possui vários significados. Os significados</p><p>são obtidos por meio das relações consigo, com o meio em que vive e com o outro,</p><p>sendo ele considerado um corpo receptor, sujeito, instrumental, erógeno, simbólico. No</p><p>entanto, no fenômeno psicomotor, estão presentes os aspectos instrumental-cognitivo</p><p>que expõe um privilegio aos processos cognitivos e o funcionamento motor relativo ao</p><p>próprio corpo.</p><p>O corpo é o vetor semântico pelo qual a relação do indivíduo com o</p><p>mundo é construída: atividades perceptivas, mas também expressão</p><p>de sentimentos, cerimoniais de ritos e de interação, conjunto de gestos</p><p>e mímicas, produção da aparência, jogos sutis da sedução, técnicas do</p><p>corpo, exercícios físicos, relação com a dor e com o sofrimento. O corpo</p><p>produz sentidos continuamente e, assim, insere- se ativamente no interior</p><p>de dado espaço social e cultural. “Antes de qualquer coisa, a existência é</p><p>corporal”. (LE BRETON, 2006, p. 7)</p><p>A motricidade humana, de acordo com Sérgio (1995), corresponde à ciência do corpo:</p><p>ao corpo-memória e ao corpo-profecia, ao corpo-estrutura e à conduta, ao corpo-</p><p>cultura e ao corpo-emoção, ao corpo-natural e ao corpo-cultura, ao corpo lúdico e</p><p>ao corpo produtivo, ao corpo normal e ao corpo com necessidades especiais. Nesse</p><p>sentido, a mente e o corpo devem ser compreendidos como elementos que compõem</p><p>um único organismo, sem fragmentação, no entanto parte de uma estrutura dinâmica,</p><p>que corresponde ao campo da corporeidade.</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>Por meio da análise do corpo humano e dos seus aspectos sociais, é possível compreender</p><p>a estrutura de uma sociedade por meio das particularidades que ela privilegia, como,</p><p>por exemplo, intelectuais, morais ou físicas.</p><p>Com relação ao corpo, a sua simbologia e os seus aspectos, é defendido por Freire</p><p>(1989) que, no ato de matricula da criança na escola, o seu corpo também deveria</p><p>ser matriculado em conjunto, pois ele considera todos os preconceitos sofridos pelas</p><p>crianças ao ingressar no ambiente escolar.</p><p>Não é justo que, em nome da educação, crianças e adolescentes</p><p>sejam confinados em cubículos de meio metro quadrado (o espaço de</p><p>movimentação possível de quem senta nas carteiras escolares), quatro</p><p>horas por dia, cinco dias por semana, duzentos por ano, onze anos, num</p><p>total de 8.800 horas de confinamento. É chocante, absurda, escandalosa</p><p>essa educação sem corpo, essa deformação</p><p>humana. (FREIRE, 2007, p. 157)</p><p>No que diz respeito a todas as experiências do corpo e a sua importância, Nasio (2009)</p><p>estabelece que:</p><p>A experiência do corpo ajuda-nos a compreender os sentidos construídos</p><p>artificialmente pelos conceitos, pela linguagem, pelos afetos, pela cultura</p><p>de um modo geral. Pelas diferentes possibilidades de expressão corporal</p><p>podemos compreender a indeterminação da existência, possuindo vários</p><p>sentidos, elaborados na relação consigo mesmo, com o outro, com o próprio</p><p>FIGURA 2</p><p>Corpo e mente</p><p>FONTE</p><p>Freepik</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>mundo. A expressão “sou meu corpo” sintetiza o encontro entre o sujeito e o</p><p>corpo. O ser humano define-se pelo corpo, isso significa que a subjetividade</p><p>coincide com os processos corporais. Mas é preciso considerar que “ser</p><p>corpo é estar atado a um certo mundo”. (NASIO, 2009, p. 54)</p><p>É necessário atentar às formas de comunicação de cada pessoa, sem que haja um</p><p>julgamento ou uma comparação. Ainda, deve-se enxergar a habilidade que o corpo</p><p>humano possui de alteração, respeitando as características pessoais de cada indivíduo</p><p>para reinventar a vida, fazendo com que seja despertado significado e sentido na sua</p><p>existência.</p><p>Esquema corporal e imagem corporal</p><p>A Neurologia e a Psicanálise, entre outros campos do conhecimento, vêm abordando</p><p>as definições de esquema corporal e imagem corporal, havendo nessa abordagem</p><p>implicações psicológicas, fisiológicas e socioculturais.</p><p>A psicanalista francesa Françoise Dolto apresenta a definição tanto de esquema corporal</p><p>quanto de imagem corporal. Para ela,</p><p>O esquema corporal especifica o indivíduo enquanto representante da</p><p>espécie, seja qual for o lugar, a época ou as condições em que vive. [...]</p><p>A imagem do corpo, pelo contrário, é própria de cada um: está ligada ao</p><p>sujeito e a sua história. (LEVIN, 2003, p. 72)</p><p>Levin (2003), que em seu livro expôs os conceitos de esquema corporal e imagem</p><p>corporal de Françoise Dolto, como demonstrado, considera pertinentes esses conceitos.</p><p>No entanto, ele retrata que esses termos, diversas vezes, são utilizados como sinônimos,</p><p>o que torna difícil diferenciá-los.</p><p>Assim, é importante compreender cada um desses conceitos de forma separada.</p><p>Começamos então com o esquema corporal.</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>Na concepção de Ledoux (1991, p. 85), o esquema corporal:</p><p>Especifica o indivíduo como representante da espécie. Mais ou menos</p><p>idêntico em todas as crianças da mesma idade, ele é uma realidade de</p><p>fato, esteio e intérprete da imagem do corpo. Graças a ele, o corpo atual</p><p>fica referido no espaço à experiência imediata. Ele é inconsciente, pré-</p><p>consciente e consciente. (LEDOUX, 1991, p. 85)</p><p>O esquema corporal pode ser compreendido como uma estrutura do cérebro, uma</p><p>estrutura neurossensorial que possui a responsabilidade de outorgar à pessoa o</p><p>conhecimento de forma gradativa das funções e partes do corpo, por meio da relação</p><p>da pessoa com o mundo e com outro indivíduo e de uma sucessão temporal. Em resumo,</p><p>podemos ditar o que o esquema corporal possui em uma ligação com as sensações.</p><p>Tem-se que o esquema corporal constitui a representação criada pelo indivíduo do</p><p>seu próprio corpo. Conforme a criança vai crescendo e ocorre o seu desenvolvimento</p><p>psicomotor, há a construção do esquema corporal. É nessa construção que a criança</p><p>começa a tomar consciência do seu corpo como um todo e, em virtude disso, ela</p><p>começa a nomear e indicar as partes do seu corpo.</p><p>Le Camus (1986) traz a explicação de Wallon sobre essa temática.</p><p>O esquema corporal não é “um dado inicial, nem uma entidade biológica ou</p><p>psíquica”, mas uma construção [...]. Estudar a gênese do esquema corporal</p><p>na criança é indagar-se como a criança chega “à representação mais</p><p>ou menos global, específica e diferenciada de seu corpo próprio” [...]. Esta</p><p>aquisição é importante. “É um elemento básico indispensável à construção</p><p>da personalidade da criança. “[...] É o resultado e a condição de legítimas</p><p>relações entre o indivíduo e o seu meio”. (LE CAMUS, 1986, p. 37)</p><p>Importante</p><p>O esquema corporal possibilita que o indivíduo compreenda totalmente</p><p>a si mesmo e informa a recepção das sensações. Ele faz com que o</p><p>indivíduo se relacione com os objetos, espaços e pessoas que o circulam.</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>Antes de a criança construir o seu corpo, ela necessita que outra pessoa o nomeie, para</p><p>que ela comece a se construir como um sujeito e o seu corpo possa assumir um símbolo.</p><p>Para compreender o esquema corporal, devemos então nos deter sobre a imagem</p><p>corporal.</p><p>A definição de imagem corporal é exposta por Ledoux (1991, p. 84-85).</p><p>A imagem inconsciente do corpo não é o corpo fantasiado, mas um lugar</p><p>inconsciente de emissão e recepção das emoções, inicialmente focalizado</p><p>nas zonas erógenas de prazer. Ela se tece em torno do prazer e do desprazer</p><p>de algumas zonas erógenas. [...] trata-se de uma memória inconsciente</p><p>da vivência relacional, de uma encarnação do Eu em crescimento. [...] a</p><p>imagem do corpo, individual, está ligada à história pessoal, a uma relação</p><p>libidinal marcada por sensações erógenas eletivas. Com vestígio estrutural</p><p>da história emocional, e não como prolongamento psíquico do esquema</p><p>corporal, ela se molda como elaboração das emoções precoces com os</p><p>pais tutelares. (LEDOUX, 1991, p. 84-85)</p><p>No esquema corporal, nós mentalizamos o nosso corpo, possibilitando uma comparação</p><p>de peso, altura e idade. Na imagem do corpo, isso não acontece, pois ela não se trata de</p><p>uma mentalização, mas sim do invisível, do inconsciente. É possível afirmar que a imagem</p><p>do corpo possui uma ligação com a história de vida do indivíduo, sendo estabelecida</p><p>por meio das sensações de desprazer e prazer constantes da relação do indivíduo com</p><p>outro, ocorrendo principalmente na infância com a relação entre pais e filhos.</p><p>Saiba Mais</p><p>Assista ao vídeo “Especial Psicomotricidade: esquema corporal”. Esse</p><p>vídeo aborda os conceitos do esquema corporal e os relaciona com</p><p>a idade do indivíduo. Para acessar, acesse o link: https://www.youtube.</p><p>com/watch?v=QWPyjlRW4Vs</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>A imagem corporal corresponde a um elemento que é primordialmente dialético, tendo</p><p>em vista que é formado entre o desejo próprio e o desejo do outro, repercutindo de</p><p>forma direta nas formas de ser da pessoa consigo mesma, com o mundo e com o outro.</p><p>Ainda, é sustentado por Ledoux (1991) que existe uma relação estreita entre a imagem</p><p>corporal e o esquema corporal.</p><p>A comunicação sensorial (emocional) e a fala do outro aparecem como</p><p>dois substratos dessa imagem do corpo. A simples experiência sensorial</p><p>(corpo a corpo), sem um mediador humano, só instrui o esquema corporal</p><p>e não estrutura a imagem do corpo. [...] viver num esquema corporal, sem</p><p>imagem do corpo, equivale ao ‘viver mudo’, solitário. (LEDOUX, 1991, p. 89)</p><p>É possível enxergar a imagem e o esquema corporal como uma relação humana, em</p><p>que a linguagem e o corpo constituem elementos que fundam as relações e a estrutura</p><p>do indivíduo.</p><p>FIGURA 4</p><p>Primeira infância</p><p>FONTE</p><p>Freepik.</p><p>Importante</p><p>A imagem corporal diz respeito à consciência corpórea que o indivíduo</p><p>possui de si mesmo. A imagem corporal é constituída por diferentes</p><p>fatores, entre os quais se considera aquilo que o indivíduo acredita, como</p><p>ele se sente em relação ao próprio corpo.</p><p>Psicomotricidade Clínica Simbolização do corpo Capítulo 1</p><p>Resumindo</p><p>Estudamos neste capítulo que o corpo é constituído por inúmeros</p><p>conceitos e que a psicomotricidade teve surgimento no momento em</p><p>que o corpo deixou de ser concebido apenas como carne. Vimos que o</p><p>corpo está em manutenção e que ele começou a ser compreendido como</p><p>um inconsciente, sendo responsável por expressar emoções e diversos</p><p>significados. É importante considerar que a mente e o corpo devem ser</p><p>compreendidos de forma única, para entender o comportamento do</p><p>ser humano. Em seguida,</p><p>estudamos o esquema corporal e a imagem</p><p>corporal, assimilando que o esquema corporal corresponde a um</p><p>elemento que tem ligação com as sensações; já a imagem corporal</p><p>é formada pelo desejo próprio e pelo desejo do outro, repercutindo de</p><p>forma direta nas formas de ser da pessoa consigo mesma, com o mundo</p><p>e com o outro.</p><p>@faculdadelibano_</p><p>2</p><p>Contribuições</p><p>da fisioterapia,</p><p>medicina e</p><p>psicologia para a</p><p>psicomotricidade</p><p>Psicomotricidade Clínica Capítulo 2</p><p>Contribuições da fisioterapia,</p><p>medicina e psicologia para a</p><p>psicomotricidade</p><p>Objetivos</p><p>Vemos a psicomotricidade como uma área independente, possuindo</p><p>os seus conceitos e os seus preceitos. Mas ela possui contribuições de</p><p>outras áreas e muitas vezes trabalha em conjunto com elas. Nesses</p><p>termos, é importante compreender essa ligação e contribuição com</p><p>as demais áreas. Vamos juntos compreender em que consistem essas</p><p>contribuições? Vamos lá!</p><p>O termo “psicomotricidade” inicialmente surgiu ligado ao discurso médico, no final do</p><p>século XIX, especificamente ao âmbito neurológico. Foram realizados estudos a partir</p><p>desse período e do início do século XX por neuropsiquiatras e neurofisiologistas franceses,</p><p>tendo como foco as doenças corticais. A partir daí, surgiu a necessidade de a área</p><p>médica nomear as zonas do córtex cerebral situadas além das regiões propriamente</p><p>motoras.</p><p>Em 1925, Henri Wallon, médico e psiquiatra francês, começou a trabalhar com o</p><p>movimento do corpo humano com intencionalidade.</p><p>Saiba Mais</p><p>Henri Paul Hyacinthe Wallon foi um filósofo, médico, psicólogo e político</p><p>francês. Ele foi o primeiro a relacionar a afetividade com o desenvolvimento</p><p>da inteligência. Henri Wallon inovou ao incluir a afetividade como um dos</p><p>aspectos centrais do desenvolvimento.</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>A partir da década de 1930, segundo Levin (2003), Eduard Guilmain, influenciado por</p><p>Wallon, propôs um novo método de trabalho utilizando várias técnicas provenientes da</p><p>neuropsiquiatria infantil e um conjunto de exercícios, como exercícios para reeducar a</p><p>atividade tônica, exercícios de mímica, de atitudes e de equilíbrio, a atividade de relação</p><p>e o controle motor (exercícios rítmicos, de coordenação e habilidade motora e exercícios</p><p>que tendem a diminuir sincinesias). Os exercícios pretendiam uma reeducação motora</p><p>para ajudar crianças portadoras de déflcit em seu funcionamento motor.</p><p>FIGURA 5</p><p>A psicomotricidade e o corpo humano</p><p>FONTE</p><p>Freepik.</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>Observando esse contexto teórico, podemos compreender as contribuições das</p><p>diferentes áreas para a psicomotricidade.</p><p>Contribuições da fisioterapia</p><p>Primeiramente, cabe a indagação: o que vem a ser a fisioterapia? De acordo com Coffito</p><p>(1987), a fisioterapia é uma</p><p>Ciência aplicada, cujo objetivo de estudo é o movimento humano em todas</p><p>as suas formas de expressão e potencialidades, quer nas suas alterações</p><p>patológicas, quer nas suas repercussões psíquicas e orgânicas, com</p><p>objetivos de preservar, manter, desenvolver ou restaurar a integridade de</p><p>um órgão ou sistema. (COFFITO, 1987, p. 63)</p><p>Então, compreendendo o que vem a ser a fisioterapia, podemos reforçar que a</p><p>psicomotricidade possui relação com três fatores:</p><p>• Motricidade.</p><p>• Afetividade.</p><p>• Mente.</p><p>Ela se relaciona com esses fatores devido ao fato de acreditar que o desenvolvimento</p><p>motor das pessoas possui relação com esses fatores.</p><p>Assim, a psicomotricidade surge como uma forma de auxiliar a fisioterapia, tendo em</p><p>vista que a sua finalidade é de aumentar a interação do indivíduo com o meio em que</p><p>vive por meio da atividade corporal e sua expressão simbólica. Como a fisioterapia visa</p><p>melhorar a vida das pessoas e tratar das dificuldades, ela possui uma ligação direta com</p><p>a psicomotricidade, que previne e trata as dificuldades, visando explorar o potencial de</p><p>cada indivíduo.</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>A psicomotricidade, aliada à fisioterapia, permite que haja uma manutenção das</p><p>capacidades funcionais, um melhoramento e aprimoramento do conhecimento de si</p><p>mesmo e uma eficácia das ações, principalmente das atividades do dia a dia.</p><p>Desse modo, a psicomotricidade, em conjunto com a fisioterapia, busca a facilitação</p><p>da afetividade, da mente e da motricidade, tendo em vista que acredita que há ligação</p><p>direta entre o desenvolvimento motor normal, a afetividade, a mente e a motricidade.</p><p>Mas quais são as atividades de psicomotricidade que são aplicadas pelo fisioterapeuta?</p><p>Como exemplo de atividades de psicomotricidade que são aplicadas pelo fisioterapeuta,</p><p>podemos citar:</p><p>1. Jogo de amarelinha – por meio desse jogo, é possível desenvolver o equilíbrio e a</p><p>coordenação motora.</p><p>2. Pular corda – atividade que tem como finalidade trabalhar a orientação de espaço</p><p>e tempo, como também a identidade corporal e o equilíbrio.</p><p>Importante</p><p>A psicomotricidade e a fisioterapia trabalham muitas vezes em conjunto,</p><p>tendo em vista que ambas buscam cuidar do corpo e do movimento do</p><p>indivíduo.</p><p>FIGURA 6</p><p>Jogo de amarelinha</p><p>FONTE</p><p>Freepik.</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>Contribuições da medicina</p><p>Inicialmente, podemos apontar que o próprio nome “psicomotricidade” veio da</p><p>medicina, mais especificamente da neurologia, tendo em vista que, após o século XIX,</p><p>foi possível realizar a nomeação das partes da zona do córtex que se encontram nas</p><p>regiões motoras.</p><p>Silva e Borges (2008) apontam que, no ano de 1870, médicos neurologistas e, em</p><p>seguida, psiquiatras, começaram a estudar as estruturas do cérebro com a finalidade</p><p>de encontrar algum fenômeno clínico que conceituasse a palavra “psicomotricidade”.</p><p>Os mesmos autores afirmam que Ernest Dupré foi o introdutor da psicomotricidade</p><p>no contexto científico, inserindo esse termo ao desenvolver os seus estudos sobre a</p><p>debilidade motora nos débeis mentais, que têm como característica a presença de</p><p>paratonias, sincinesias e inabilidades, fazendo um rompimento entre a síndrome e a</p><p>perturbação motora.</p><p>Assim, inicialmente, a psicomotricidade foi considerada uma prerrogativa da medicina</p><p>neurológica. Fonseca (2010) considera que</p><p>A mente humana não pode ser independente do corpo e do cérebro,</p><p>sendo impossível separar o mental do neuronal e o psíquico do motor.</p><p>Isso nos faz compreender que o desenvolvimento pessoal e social em um</p><p>indivíduo normal ou portador de disfunções psicomotoras é o resultado da</p><p>integração e interação entre o corpo e o cérebro e os diversos ecossistemas</p><p>FIGURA 7</p><p>Pular corda</p><p>FONTE</p><p>Freepik</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>que compreendem o contexto sócio histórico onde ele se insere. (FONSECA,</p><p>2010, p. 76)</p><p>Foi a partir da compreensão da importância da psicomotricidade que ela deixou o seu</p><p>caráter meramente neurológico, passando a tomar proporções mais relevantes, sendo</p><p>um elemento de pesquisa para a educação, a reabilitação e a reeducação, não se</p><p>limitando apenas ao fator anatômico, biológico e fisiológico.</p><p>Desse modo, a medicina contribuiu para a estruturação da psicomotricidade e do seu</p><p>estudo e para que ela fosse o que é hoje, um elemento que possui ligação com as funções</p><p>cerebrais, motoras e que serve como meio de reabilitação, educação e reeducação.</p><p>Contribuições da psicologia</p><p>A psicomotricidade recebe influência da psicologia das comunicações não verbais e da</p><p>etnologia infantil, que considera as mímicas, os gestos e as posturas como formas de</p><p>expressão humana.</p><p>Nessa vertente, o corpo é compreendido como um corpo que fala, que possui significados.</p><p>De acordo com Le Camus (1986),</p><p>Foi por meio de linguagem que o corpo interessou aos psicomotricistas:</p><p>um corpo que sabe falar utilizando</p><p>a linguagem anterior à linguagem, uma</p><p>linguagem constituída de significantes mudos. (LE CAMUS, 1986, p. 61)</p><p>FIGURA 8</p><p>Psicomotricidade como</p><p>reabilitação</p><p>FONTE</p><p>Freepik.</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>No final do século XIX, Sigmund Freud (criador da teoria psicanalítica) investigava os</p><p>enigmas do psiquismo que brotavam na fala de seus pacientes, e sua teoria foi elaborada</p><p>para a compreensão desses enigmas. Freud escutava seus pacientes e buscava, por</p><p>meio de suas falas, analisar e tratar o corpo como o locus da manifestação consciente</p><p>ou inconsciente dos sentimentos, desejos e da falta de controle dos pensamentos</p><p>humanos.</p><p>FIGURA 9</p><p>Sigmund Freud</p><p>FONTE</p><p>Wikimedia Commons.</p><p>Importante</p><p>Psicanálise é o nome de um método de investigação dos processos</p><p>psíquicos e de um método de tratamento dos distúrbios neuróticos que</p><p>se fundamenta nessa investigação.</p><p>No ano de 1925, o psicólogo Henri Wallon ofereceu grandes contribuições para a</p><p>psicomotricidade. Isso aconteceu em decorrência da sua análise sobre os transtornos</p><p>e estágios do desenvolvimento mental e motor da criança. Wallon observa, em seus</p><p>estudos, que existe uma diferença que permite que se faça uma relação entre o</p><p>movimento e o afeto, junto ao meio ambiente, à emoção e aos hábitos do indivíduo</p><p>(WALLON, 1978).</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>Wallon (1978) aponta que o movimento corresponde à única maneira de expressão e ao</p><p>primeiro instrumento do psiquismo.</p><p>Tendo em vista as perspectivas estabelecidas por Wallon, Eduard Guilmain, em 1935,</p><p>visando estabelecer um diagnóstico, desenvolveu um exame psicomotor de prognóstico</p><p>e de indicação da terapêutica psicomotora.</p><p>Na década de 1970, a psicologia trabalhou em conjunto com a psicomotricidade,</p><p>verificando-se que a psicomotricidade era uma maneira de ajudar as crianças</p><p>que possuíam dificuldade de adaptação no ambiente escolar. Nessa perspectiva,</p><p>a motricidade passou a ser vista como uma relação, começando a existir uma</p><p>diferenciação entre postura terapêutica e reeducativa, sendo concedida uma maior</p><p>importância à afetividade, à relação e ao emocional (VALETIM, 2004, p. 29).</p><p>Desse modo, Levin (2007) diz que</p><p>A passagem da terapia à clínica psicomotora implica ocupar-se do</p><p>sujeito e não mais da pessoa; ocupar-se da transferência e não mais da</p><p>empatia; ocupar-se da vertente simbólica e não da expressiva [...]. A clínica</p><p>psicomotora é aquela no qual o eixo é a transferência e, nela, o corpo real,</p><p>imaginário e simbólico é dado a ser visto ao olhar do psicomotricista. (LEVIN,</p><p>2007, p. 19)</p><p>Desse modo, a psicologia causou fortes influências na psicomotricidade e na</p><p>forma de compreendê-la, mas, ao contrário do que as pessoas pensam, a palavra</p><p>“psicomotricidade” não advém da união das palavras “psicologia” + “motricidade”. A</p><p>psicomotricidade é uma disciplina única que teve contribuições de outras áreas em</p><p>virtude dos seus estudos.</p><p>Importante</p><p>Wallon foi considerado o principal responsável pelo nascimento do</p><p>movimento de reeducação psicomotora.</p><p>Psicomotricidade Clínica Contribuições da fisioterapia, medicina</p><p>e psicologia para a psicomotricidade</p><p>Capítulo 2</p><p>Importante ainda ser ressaltado que a psicomotricidade possui relação com o corpo,</p><p>assim, encontra-se interligada com a fisioterapia que cuida do corpo, enquanto a</p><p>psicologia possui uma relação com a mente.</p><p>Resumindo</p><p>Neste capítulo, dedicamo-nos a estudar as contribuições da fisioterapia,</p><p>da medicina e da psicologia para a psicomotricidade. Desse modo,</p><p>vimos a importância de Henri Wallon para a psicomotricidade e uma</p><p>introdução histórica dessa área. Em seguida, começamos estudando</p><p>as contribuições da fisioterapia, compreendendo primeiramente o</p><p>que ela vem a ser para, então, poder ver que ela possui uma ligação</p><p>estreita com a psicomotricidade em virtude de as duas cuidarem do</p><p>corpo e do movimento do ser humano. Vimos então as contribuições da</p><p>medicina e pudemos ver que foi em virtude dela que surgiu a figura da</p><p>psicomotricidade por meio dos estudos da zona do córtex das regiões</p><p>motoras, que pode ser utilizada para reabilitação. Por fim, detemo-nos</p><p>nas contribuições da psicologia, estudando que as pessoas a associam</p><p>mais à psicomotricidade, mas as duas se diferenciam, pois a psicologia</p><p>cuida da mente e a psicomotricidade se detém no estudo do corpo e da</p><p>reabilitação.</p><p>@faculdadelibano_</p><p>3</p><p>O pensamento</p><p>clínico nas</p><p>atividades em</p><p>psicomotricidade</p><p>Psicomotricidade Clínica Capítulo 3</p><p>O pensamento clínico</p><p>nas atividades em</p><p>psicomotricidade</p><p>Objetivos</p><p>Para compreender o que vem a ser a psicomotricidade e todas as</p><p>influências que ela possui, é necessário voltar o olhar para a compreensão</p><p>dos pensamentos clínicos nas atividades dessa área, visando entender</p><p>as atividades ligadas a ela. Vamos lá!</p><p>Introdução</p><p>Após as contribuições da Psicanálise passarem a integrar os interesses teóricos e</p><p>metodológicos da psicomotricidade, em 1977, Samí Ali lançou uma proposta para</p><p>articulações entre as teorias psicanalíticas e a psicomotricidade. Desse modo,</p><p>a psicomotricidade incorporou, em suas construções teóricas, vários conceitos</p><p>psicanalíticos, tais como inconsciente, transferência, imagem corporal, sublimação e</p><p>outros, formando um esboço de uma teoria psicanalítica de psicomotricidade.</p><p>Nessa época, a psicomotricidade ganhou uma nova definição e passou a ser “uma</p><p>motricidade em relação”, que é, no pensamento de Levin (1995), o ponto onde se opera</p><p>uma passagem no enfoque do olhar do psicomotricista, não mais voltado ao plano</p><p>motor, mas direcionado a um corpo em movimento. Sendo assim, não se trata mais</p><p>de uma reeducação, mas de uma terapia psicomotora, que se ocupa, observa e opera</p><p>num corpo em movimento, que se desloca e que constrói a realidade, à medida que se</p><p>emociona e que essa emoção se manifesta tonicamente. Sendo essa uma atividade de</p><p>terapia, passou-se a tratar também como clínica a atividade de psicomotricidade.</p><p>Psicomotricidade Clínica O pensamento clínico nas atividades em psicomotricidade Capítulo 3</p><p>Naquele momento, o novo enfoque dado à relação, à afetividade e ao momento</p><p>possibilitou uma reformulação na prática psicomotora: abandonaram-se as técnicas</p><p>reeducativas, abrindo-se espaço para a terapia psicomotora.</p><p>Desse modo, Fonseca (2004) aponta que a psicomotricidade tem por objetivo:</p><p>• Fazer uma mobilização e reorganização das funções psíquicas relacionais e</p><p>emocionais do ser humano em todo o seu processo de vida, desde o nascimento até</p><p>a velhice.</p><p>• Realizar um aperfeiçoamento do ato mental e da conduta consciente, em que</p><p>acontece a elaboração e a execução do ato motor.</p><p>• Fazer com que as sensações e as percepções sejam elevadas a níveis de</p><p>conscientização, conceitualização e simbolização.</p><p>• Fazer com que haja uma harmonização e maximização do potencial motor, cognitivo</p><p>e afetivo-relacional, isto é, o desenvolvimento global da personalidade, a modificação</p><p>da estrutura do processamento de informação do ser humano e a capacidade de</p><p>adaptação social.</p><p>• Fazer com que o corpo seja um resumo da personalidade do indivíduo, havendo uma</p><p>reformulação da harmonia e do equilíbrio das relações entre a esfera da harmonia</p><p>e do psíquico e o equilíbrio do motor, por meio do qual a consciência se manifesta e</p><p>se altera com o objetivo de realização e promoção da adaptação a situações novas.</p><p>FIGURA 10</p><p>Terapia psicomotora</p><p>FONTE</p><p>Freepik.</p><p>Psicomotricidade Clínica O pensamento clínico nas atividades em psicomotricidade Capítulo 3</p><p>Intervenção clínica</p><p>A clínica psicomotora tem seu olhar voltado para o sujeito, o que ocasiona a diferenciação</p><p>do corpo real, do simbólico e do imaginário. A clínica psicomotora inclui no campo</p><p>psicomotor o inconsciente, sendo observado por Levin (2003) que a ocupação da clínica</p><p>psicomotora é com a visão do Sujeito e não mais da pessoa, da transferência e não da</p><p>empatia, do</p><p>vínculo ou da comunicação corporal; ocupar-nos da vertente simbólica e</p><p>não da expressiva, ou seja, implica que nos detenhamos na estrutura dos transtornos</p><p>psicomotores e não apenas em seus signos. (LEVIN, 2003, p. 42)</p><p>A psicomotricidade encara as funções motoras e psíquicas de maneira independente, na</p><p>proporção em que a motricidade e o psiquismo se inter-relacionam de forma recíproca.</p><p>Considerando o viés terapêutico, a psicomotricidade recorre à mediação corporal,</p><p>tentando intervir em situações que possuem ligação com os problemas do</p><p>desenvolvimento, do comportamento, da maturação, do âmbito socioafetivo e de</p><p>aprendizagem.</p><p>Então, como saber se é necessária a intervenção clínica da psicomotricidade?</p><p>A operação clínica no campo psicomotor (referimo- nos especificamente à leitura, ao</p><p>olhar, à intervenção, à “corporificação”, à interpretação e à observação) é efeito dessa</p><p>rede transferencial, que se transforma em um dos eixos centrais do tratamento, já que o</p><p>corpo adquire sua consistência em relação ao simbólico, à lei (à proibição), que introduz</p><p>a castração no corpo e com ela a ânsia por onde emerge o desejo. (LEVIN, 2003, p. 16)</p><p>As principais indicações para o atendimento psicomotor são:</p><p>• Desatenção/pouca concentração em atividades (escolares)/ hiperatividade.</p><p>• Atraso no desenvolvimento psicomotor.</p><p>• Postura inadequada.</p><p>• Controle inadequado da força (inclusive do lápis sobre o papel, ocasionando fadiga</p><p>durante as atividades escolares).</p><p>• Dominância lateral indefinida (destro ou canhoto).</p><p>• Perturbação de hiperatividade e déficit de atenção.</p><p>• Problemas na regulação do tônus muscular.</p><p>• Dificuldades intelectuais e desenvolvimentais.</p><p>Psicomotricidade Clínica O pensamento clínico nas atividades em psicomotricidade Capítulo 3</p><p>• Noção inadequada de direção, de distância e de tempo (na sucessão dos</p><p>acontecimentos e na duração dos intervalos, inclusive da escrita).</p><p>• Posicionamento inadequado do lápis para a escrita.</p><p>• Dificuldade de realizar letra cursiva.</p><p>• Perturbação do espectro do autismo.</p><p>• Dificuldade para realizar a comunicação não verbal.</p><p>• Alteração na imagem e no esquema corporal.</p><p>• Problemas na grafomotricidade.</p><p>Para saber se o indivíduo possui problemas psicomotores, é necessário realizar testes e</p><p>avaliações que verifiquem aspectos como:</p><p>• Qualidade tônica (rigidez ou relaxamento muscular).</p><p>• Qualidade gestual (dissociação manual e dos membros superiores e inferiores).</p><p>• Agilidade.</p><p>• Equilíbrio.</p><p>• Coordenação.</p><p>• Lateralidade.</p><p>• Organização temporoespacial.</p><p>• Grafomotricidade.</p><p>Essas avaliações demonstrarão se o indivíduo, guardadas as devidas características</p><p>do desenvolvimento individual, possui atrasos no desenvolvimento motor, perturbações</p><p>de equilíbrio, coordenação, lateralidade, sensibilidade, esquema corporal, estrutura e</p><p>orientação espacial, grafismo, afetividade etc.</p><p>Esses problemas podem ser identificados em menor ou maior grau e são decorrentes</p><p>de causas variadas, como, por exemplo:</p><p>• Debilidade intelectual.</p><p>• Problemática emocional.</p><p>• Retardos de maturação.</p><p>• Desarmonias tônico-motoras.</p><p>Os distúrbios motores e psicoafetivos estão interligados e influenciam uns aos outros,</p><p>podendo manifestar-se em conjunto. Desse modo, a psicomotricidade deve levar em</p><p>conta o ser humano como um todo, observando se o problema diagnosticado provém</p><p>da parte física ou psíquica. Justamente por isso, um dos fatores advindos do pensamento</p><p>Psicomotricidade Clínica O pensamento clínico nas atividades em psicomotricidade Capítulo 3</p><p>clínico na psicomotricidade é a necessidade de diagnosticar antes de tratar.</p><p>Desse modo, o processo terapêutico psicomotor é composto de anamnese (entrevista),</p><p>avaliação do paciente (com testes e instrumentos específicos) e período de tratamento</p><p>(terapia). Durante o tratamento, são utilizados materiais específicos para desenvolver</p><p>habilidades e superar dificuldades de atenção, concentração, escrita, coordenação</p><p>motora e outras.</p><p>O psicomotricista deve ter um bom nível de conhecimento teórico para</p><p>trabalhar com seus pacientes. Uma compreensão que lhe permita</p><p>diagnosticar e acompanhar o sujeito e seus sintomas, mas deve, sobretudo,</p><p>vivenciar as técnicas que vai praticar e formar-se do ponto de vista pessoal</p><p>para poder lidar com o sofrimento do outro. O psicomotricista em formação</p><p>deverá passar pela experiência de jogar seu próprio jogo psicomotor para,</p><p>então, poder aprender a decodificar as suas estratégias relacionais e, a</p><p>partir daí, compreender as da criança que vai atender em sua prática</p><p>clínica. (CABRAL, 2008, p. 77)</p><p>Assim, o terapeuta pode auxiliar as pessoas que dele necessitarem na procura por seu</p><p>potencial evolutivo, por meio de um desenvolvimento no decorrer das sessões.</p><p>O ato de brincar é muito importante para a constituição subjetiva do sujeito</p><p>graças ao seu caráter simbólico que o impulsiona rumo à subjetividade. O</p><p>brincar na Psicomotricidade Relacional remete o sujeito numa determinada</p><p>direção da cura, pois possibilita que a criança e o adolescente alcancem</p><p>o saber sobre o seu corpo e sua representação simbólica. O corpo é um</p><p>mistério. Ele não é só fisiologia, ele é desejo. (GUERRA, 2008, p. 127)</p><p>Importante</p><p>Traçar um diagnóstico não é tarefa fácil, devido à complexidade do ser</p><p>humano. Com relação ao tratamento, ele varia de criança para criança,</p><p>dependendo da patologia que elas apresentam.</p><p>Psicomotricidade Clínica O pensamento clínico nas atividades em psicomotricidade Capítulo 3</p><p>É essencial que o terapeuta possua de uma disponibilidade corporal, para que haja</p><p>uma construção de vínculo entre ele e o paciente, tendo em vista que, na transferência</p><p>entre o terapeuta e o paciente, há uma carga afetiva que, no decorrer das sessões, deve</p><p>ser direcionada para os objetivos e, em seguida, para o mundo exterior.</p><p>Mas o que vem a ser essa carga afetiva?</p><p>Essa carga afetiva possui ligação direta com o prazer corporal e constitui um princípio</p><p>fundamental na intervenção, possibilitando que haja diferentes expressões do indivíduo,</p><p>entre eles, a linguagem.</p><p>Na clínica psicomotora, o olhar não pode ser reduzido a uma simples visão-</p><p>percepção ou à exploração visual talvez analisada como um conjunto de</p><p>processos cognitivos, mas antes como o meio fundamental e necessário</p><p>ao estabelecimento de uma ligação corporal, premissa das primeiras</p><p>relações sociais. (BOSCAINI, 2012, p. 142)</p><p>Outro fator importante na clínica psicomotricial é o ato de escutar, que vai além de</p><p>simplesmente ouvir. Essa escuta engloba todos os sentidos, necessitando que seja</p><p>sentido, visto e percebido o que se fala. Assim, nas sessões, são disponibilizados materiais</p><p>visando aguçar a criatividade do paciente.</p><p>FIGURA 11</p><p>Materiais que aguçam a criatividade</p><p>do paciente em terapia psicomotricial</p><p>FONTE</p><p>Freepik</p><p>Psicomotricidade Clínica O pensamento clínico nas atividades em psicomotricidade Capítulo 3</p><p>Esses materiais são disponibilizados para que o terapeuta possa identificar mais</p><p>facilmente os sentimentos do paciente.</p><p>Encontrar um equilíbrio entre o corpo e a simbologia do material, porque</p><p>apesar do material, a criança tem que chegar ao corpo do adulto. Nesse</p><p>encontro é muito importante a modulação tônica: brincar com o tônus,</p><p>com a agressividade, com a afetividade e com os contrastes. O outro</p><p>pode ser alcançado com a mesma forma tônica, mas consciente de que o</p><p>tônus ajudará a encontrar o equilíbrio. Portanto, o corpo do psicomotricista</p><p>desempenha um papel essencial na interação com a criança, pois as</p><p>diferentes partes, bem como as posições que adota, representam uma</p><p>ferramenta que é objeto de análise para facilitar uma intervenção mais</p><p>ajustada. (LLINARES; RODRÍGUEZ; LESME, 2019, p. 78)</p><p>Assim, o terapeuta busca, de todas as formas possíveis, decodificar os movimentos e as</p><p>palavras do paciente. É por meio do corpo que é possível identificar os reais problemas</p><p>do paciente na sessão de psicomotricidade.</p><p>Resumindo</p><p>Vimos neste capítulo que a psicomotricidade engloba em sua área</p><p>diferentes conceitos psicanalíticos. Em seguida,</p><p>pudemos compreender</p><p>as principais indicações do atendimento psicomotor. Ainda, pudemos</p><p>estudar como se identifica que o indivíduo possui problema psicomotores</p><p>e as suas causas. Observamos que traçar um diagnóstico não é fácil,</p><p>devendo ser levados em consideração diferentes fatores e, para que</p><p>se possa compreender melhor como o paciente está, na sessão, são</p><p>utilizados brinquedos que estimulem a fala e que demonstrem, a partir</p><p>dos seus movimentos, os seus problemas. Desse modo, o foco do</p><p>terapeuta deve ser no ouvir, mas não só no ouvir as palavras, mas ouvir</p><p>o corpo, ouvir os movimentos.</p><p>@faculdadelibano_</p><p>4</p><p>Amaturação e</p><p>as implicações</p><p>neurológicas para</p><p>a motricidade</p><p>humana</p><p>Psicomotricidade Clínica Capítulo 4</p><p>Amaturação e as</p><p>implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Objetivos</p><p>Trabalharemos nesse capítulo a maturação da motricidade humana a</p><p>suas implicações neurológicas. É de suma importância compreender</p><p>esse assunto, pois é devido a fatores neurológicos que há a necessidade</p><p>de terapia psicomotricista. Vamos lá</p><p>Segundo Fonseca (1988), a psicomotricidade é apresentada como uma ciência que</p><p>pretende transformar o corpo em um instrumento de relação e expressão com o outro,</p><p>por meio do movimento dirigido ao ser em sua totalidade, em seus aspectos motores,</p><p>emocionais, afetivos, intelectuais e sociais. Além disso, a psicomotricidade considera o</p><p>ser humano como o único que vive em evolução e é especialmente um ser que interage</p><p>com movimentos corporais.</p><p>O processo de crescimento, maturação e desenvolvimento humano interfere diretamente</p><p>nas relações afetivas, sociais e motoras dos jovens. Desse modo, é necessário adequar</p><p>os estímulos ambientais em função desses fatores. Primeiro, é necessário esclarecer que</p><p>o crescimento inclui aspectos biológicos, relacionados com a hipertrofia e a hiperplasia</p><p>celular, enquanto a maturação pode ser definida como um fenômeno biológico,</p><p>relacionando-se com o amadurecimento das funções de diferentes órgãos e sistemas.</p><p>Quando a maturação não ocorre de forma correta, o indivíduo pode apresentar dificuldade</p><p>de aprendizado. Tais atrasos devem ser objeto de atenção dos psicomotricistas e</p><p>profissionais que trabalham com avaliação e terapias psicopedagógicas. A interação</p><p>entre as crianças, principalmente com a família e na escola, influi na importância, na</p><p>duração e, mesmo, no próprio surgimento da dificuldade de aprendizagem.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>EXEMPLO:</p><p>O fato de a criança dominar o gesto gráfico, do qual depende a escrita, tem total relação</p><p>com o desenvolvimento psicomotor.</p><p>Com os tratamentos psicomotores e psicopedagógicos adequados, é possível</p><p>reverter um quadro de grau inicial de dificuldade de aprendizagem. É importante que</p><p>os profissionais que trabalham com a avaliação, diagnóstico e tratamento desses</p><p>aspectos cognitivos tenham total atenção ao estágio evolutivo no qual o processo de</p><p>aprendizagem da criança está situado.</p><p>Acesse</p><p>Para saber mais sobre as implicações da motricidade no</p><p>aspecto da aprendizagem, acesse o artigo “Motricidade e</p><p>aprendizagem: algumas implicações para a educação escolar”,</p><p>disponível no link: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_</p><p>arttext&pid=S1415-69542010000200005</p><p>FIGURA 12</p><p>Crescimento humano</p><p>FONTE</p><p>Freepik</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Já o crescimento pode ser definido como a relação entre essas características</p><p>biológicas do indivíduo, como o crescimento e a maturação, e o meio ambiente no qual</p><p>o indivíduo vive. Tanto o crescimento quanto a maturação e o desenvolvimento dos seres</p><p>humanos são processos que ocorrem durante toda a vida e são inter-relacionados.</p><p>Assim, o desenvolvimento motor não pode ser classificado como somente biológico ou</p><p>ambiental. Faz-se necessário que haja uma relação dessas abordagens com os fatores</p><p>socioculturais.</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento do nascimento aos três anos de idade</p><p>Observamos que, desde que o indivíduo nasce, ocorre uma complexa relação entre ele e</p><p>o ambiente que o cerca. As funções, tais como visão, paladar, audição e tato, já estarão</p><p>bem formadas, assim como as estruturas neurológicas, o que permitirá a interação do</p><p>indivíduo com o meio no qual ele vive. Desde o nascimento, os bebês já começam a</p><p>formar as primeiras impressões e afetividades com o ambiente no qual vivem, as quais</p><p>serão de suma importância em seu desenvolvimento futuro.</p><p>A atividade motora do recém-nascido é bem ativa, mas desordenada e sem finalidade</p><p>objetiva, movimentando de modo assimétrico tanto os membros superiores como</p><p>os inferiores (pedalagem). Alguns reflexos são próprios dessa idade e ocorrem</p><p>em praticamente todos os bebês, sendo inibidos nos meses subsequentes devido</p><p>principalmente ao amadurecimento do cerebelo e do córtex frontal, iniciando-se, assim,</p><p>o surgimento de movimentos voluntários e melhor organizados, como a locomoção, a</p><p>manipulação de objetos e o controle postural. Por isso, é fundamental que o bebê seja</p><p>exposto a estímulos motores adequados ao seu nível de desenvolvimento.</p><p>Nota</p><p>O crescimento tem relação com fatores biológicos, mas, de acordo</p><p>com o Ministério da Saúde, em crianças de até cinco anos, a influência</p><p>também de fatores ambientais é muito mais importante do que a de</p><p>fatores genéticos.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Por outro lado, a falta de estímulos adequados nessa fase da vida pode acarretar o</p><p>comprometimento do indivíduo futuramente. Algumas anormalidades podem ser</p><p>detectadas logo cedo e, muitas vezes, são a causa de dificuldades no desenvolvimento</p><p>psicomotor.</p><p>EXEMPLO</p><p>“Nanismo”, por exemplo, é um termo usado para situações de baixa estatura grave.</p><p>Manifesta-se principalmente a partir dos dois anos de idade, impedindo o crescimento</p><p>e desenvolvimento durante a infância e adolescência. Pode ser causado por deficiência</p><p>de hormônio de crescimento (chamado de nanismo hipofisário) ou por doenças ósseas</p><p>congênitas.</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento dos três aos cinco</p><p>anos de idade</p><p>Entre os três e os cinco anos de idade, os sistemas sensoriais devem continuar a ser</p><p>estimulados por meio de experiências que proporcionem à criança diferentes modos de</p><p>integração sensório-motora. As habilidades motoras indispensáveis obtidas na etapa</p><p>anterior são cada vez mais refinadas, possibilitando a execução de movimentos de</p><p>complexidade crescente.</p><p>A coordenação motora deve ser desenvolvida de modo integrado com o processamento</p><p>cognitivo, em situações que exijam certo grau de percepção e decisão referente à</p><p>solução motora adequada, obviamente, condizente com a capacidade individual da</p><p>criança. Durante essa fase, o ganho de peso e o crescimento mantêm-se estáveis.</p><p>Nessa fase, as atividades psicomotoras devem enfatizar aspectos coordenativos e</p><p>cognitivos (tomada de decisão), em detrimento da preocupação com o treinamento</p><p>de capacidades como força e resistência.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento dos cinco aos 10 anos</p><p>de idade</p><p>Dando continuidade aos nossos estudos, a fase em que ocorre uma enorme evolução na</p><p>coordenação e no controle motor, facilitando a aprendizagem de habilidades motoras</p><p>cada vez mais complexas, é entre cinco e 10 anos de idade. Durante esse período, a</p><p>criança tem condições de entender as regras do esporte e participar em programas</p><p>estruturados de treinamento, sendo ainda aconselhável uma grande diversificação</p><p>dos movimentos. A adoção de jogos reduzidos, com regras simples e voltadas para</p><p>Você Sabia?</p><p>Você já ouviu falar na “dor do crescimento”? É uma sensação</p><p>dolorosa recorrente, sem causa específica, que recebeu esse nome</p><p>por se manifestar em uma fase crucial do desenvolvimento físico –</p><p>especialmente entre três</p><p>e oito anos. Os médicos acreditam que de 5</p><p>a 15% da população infantil enfrentem o problema pelo menos uma vez</p><p>na vida.</p><p>FIGURA 13</p><p>Crescimento dos cinco aos 10 anos</p><p>FONTE</p><p>Pixabay.</p><p>a realização de diversas habilidades, é</p><p>bastante válida.</p><p>Nessa fase, é visível o aumento relativamente</p><p>constante da força, da velocidade e da</p><p>resistência, especialmente quando ocorrem</p><p>estímulos ambientais adequados. As</p><p>habilidades motoras adquiridas na fase</p><p>anterior possuem fundamental importância</p><p>nas próximas fases de desenvolvimento do</p><p>indivíduo.</p><p>Durante o crescimento e o desenvolvimento,</p><p>as crianças adquirem muito rapidamente os</p><p>comportamentos do ambiente ao qual estão</p><p>expostas, ou seja, as crianças responderão</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>aos estímulos motores se estes forem feitos de forma correta. Desse modo, desde que</p><p>adequados às possibilidades da criança, é importante que sejam oferecidos estímulos</p><p>para a evolução dessas capacidades, preferencialmente em situações que privilegiem</p><p>o desenvolvimento da coordenação e a integração cognição-ação, como jogos de</p><p>habilidades físicas e manuais nos quais a criança precise pensar e utilizar o corpo para</p><p>completar as atividades. De acordo com Golomazov,</p><p>Para aprender um movimento, é necessário que os sistemas sensoriais e o</p><p>aparelhomotorestejambemdesenvolvidos. Enquanto não “amadurecem”, é</p><p>inútil e por vezes até nocivo, obrigar as crianças a aprender determinados</p><p>movimentos. (GOLOMAZOV, 1996, p. 27)</p><p>Assim, durante a avaliação e o atendimento psicomotor, é importante respeitar a fase</p><p>de formação na qual a criança está inserida, dando desafios e atividades relacionadas</p><p>à capacidade de cada indivíduo.</p><p>Crescimento, maturação e desenvolvimento durante a puberdade</p><p>Durante a pré-adolescência (aproximadamente dos 11 aos 16 anos de idade), ocorrem</p><p>diversas alterações morfológicas e funcionais que interferem diretamente no</p><p>envolvimento e na capacidade de desempenho esportivo psicomotor. A puberdade é</p><p>um período dinâmico do desenvolvimento marcado por rápidas alterações no tamanho</p><p>e na composição corporal. Um dos principais fenômenos da puberdade é o pico de</p><p>crescimento em estatura, acompanhado da maturação biológica (amadurecimento)</p><p>dos órgãos sexuais e das funções musculares (metabólicas), além de importantes</p><p>alterações na composição corporal, as quais apresentam importantes diferenças entre</p><p>os gêneros.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Em termos de exercícios físicos, não se deve aplicar carga máxima nos indivíduos na</p><p>puberdade antes dos 17 anos, pois isso poderá ocasionar a sobrecarga de sua estrutura</p><p>óssea. Com o avanço da puberdade e o aumento do hormônio testosterona, a carga</p><p>física suportada aumenta. Outro ponto importante para o desenvolvimento durante a</p><p>puberdade é a adaptação que ocorre no sistema nervoso central.</p><p>De acordo com Weineck (1991), quanto ao:</p><p>Desenvolvimento oportuno e específico da capacidade física da força</p><p>nas diferentes faixas etárias, é decisivo, para a evolução posterior do</p><p>desempenho, tomar cuidado com as particularidades do organismo em</p><p>crescimento. Isso se deve ao fato de que o sistema ósseo da criança e do</p><p>adolescente é mais elástico devido a menores inclusões calcárias, mas, em</p><p>compensação, resiste muito menos à pressão e à flexão, demonstrando,</p><p>portanto, até a faixa de 17 a 20 anos, quando a ossificação do sistema</p><p>esquelético é concluída, uma capacidade de carga inferior à do adulto.</p><p>(WEINECK, 1991, p. 42)</p><p>FIGURA 14</p><p>A puberdade é o período de transição</p><p>entre a infância e a vida adulta</p><p>FONTE</p><p>Freepik.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Crescimento na puberdade</p><p>Podemos observar que, nessa fase, a puberdade está relacionada ao aumento do</p><p>tamanho do corpo, ocasionado pela multiplicação de células, e que ela pode ser</p><p>mensurada pela medição de estatura, da massa corporal, de diâmetros e circunferências.</p><p>De acordo com Malina e Bouchard (2002), o crescimento é resultado de um complexo</p><p>mecanismo celular que envolve basicamente três fenômenos diferentes:</p><p>a. Hiperplasia – aumento do número de células a partir da divisão celular.</p><p>b. Hipertrofia – aumento do tamanho das células a partir de suas elevações funcionais,</p><p>particularmente com relação às proteínas e seus substratos.</p><p>c. Agregação – aumento da capacidade das substâncias intercelulares de agrupar as</p><p>células.</p><p>A imagem a seguir apresenta um conjunto de fatores que podem influenciar o</p><p>crescimento: fatores internos, como a carga genética herdada dos pais, a raça e o sexo;</p><p>e fatores externos, como o aporte nutricional e questões ambientais, como posição</p><p>geográfica, clima etc.</p><p>Você Sabia?</p><p>Durante a puberdade, existem fases em que o crescimento se torna</p><p>mais rápido, período chamado de “salto de crescimento” e que se refere</p><p>ao aumento acelerado de peso e altura. Esse salto de crescimento</p><p>ocorre geralmente aos 12 anos nas meninas e aos 14 anos nos meninos,</p><p>podendo haver variações. Antes desse período, meninos e meninas não</p><p>apresentam grandes variações de peso e altura entre eles.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>FIGURA 15</p><p>Fatores que podem influenciar o crescimento</p><p>FONTE</p><p>Elaborado pela autora com base em UNESP (2009).</p><p>Importante</p><p>A diferença de crescimento entre meninos e meninas acentua-se</p><p>durante a puberdade e é decorrente das mudanças hormonais, estando</p><p>relacionada à estatura e ao peso.</p><p>As mudanças do crescimento acarretam o alargamento dos quadris</p><p>e dos ombros, tanto nas meninas como nos meninos, porém, em</p><p>quantidade diferenciada. Essas alterações modificam a forma como</p><p>os adolescentes se movimentam e como respondem aos estímulos</p><p>motores a que são submetidos.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Desenvolvimento</p><p>O desenvolvimento na puberdade acarreta, além do crescimento, mudanças nos campos</p><p>emocional, cognitivo, físico e comportamental. A ilustração a seguir apresenta a relação</p><p>de interdependência do nível de desenvolvimento do indivíduo com os processos de</p><p>crescimento, maturação e adaptação.</p><p>Apesar de o crescimento e o desenvolvimento do indivíduo seguirem padrões e taxas</p><p>pré-determinadas, esses processos ocorrem de forma individualizada, ou seja, cada um</p><p>terá crescimento e aumento de peso individualizados.</p><p>Desse modo, o profissional que trabalha com psicomotricidade deve dedicar um tempo</p><p>para compreender o desenvolvimento individualizado de quem está sendo atendido,</p><p>bem como para focar primeiramente as habilidades básicas, como saltar, correr, pular</p><p>e movimentar os braços, considerando, ainda, as condições psicológicas do indivíduo.</p><p>FIGURA 16</p><p>Componentes inter-</p><p>relacionados do</p><p>desenvolvimento humano</p><p>FONTE</p><p>Elaborado pela autora com</p><p>base em UNESP (2009).</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Maturação</p><p>De acordo com Malina (2002), a maturação “refere-se ao tempo e controle temporal do</p><p>progresso pelo estado biológico maduro”, ou seja, a maturação diz respeito às mudanças</p><p>qualitativas pelas quais o corpo do indivíduo passa para poder progredir para os mais</p><p>altos níveis de funcionamento. Desse modo, Arruda diz que:</p><p>Nesse sentido é revelada a existência de uma interação entre maturação,</p><p>neste instante considerada o desabrochar das aptidões potencialmente</p><p>presentes no indivíduo, e a aprendizagem, considerada como um processo</p><p>proveniente da prática e do esforço do mesmo indivíduo. (ARRUDA, 2008, p.</p><p>27)</p><p>Você Sabia?</p><p>A Sociedade Brasileira de Pediatria, em parceria com o Departamento</p><p>Científico de Endocrinologia, disponibiliza um documento no qual é possível</p><p>verificar se o crescimento da/do criança/adolescente está ocorrendo de</p><p>forma correta. No documento, são</p><p>apresentadas fórmulas para cálculos</p><p>de acordo com dados dos pais, com parâmetros diferenciados para</p><p>meninos e meninas. Para ler o documento, acesse o link: https://www.</p><p>sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2016/09/CrescimentoVe8.pdf</p><p>Acesse</p><p>Você sabia que a atividade física e o desempenho obtido</p><p>possuem relação direta com a maturação do indivíduo? Para</p><p>saber mais, acesse o artigo aqui. https://www.scielo.br/j/rpp/a/</p><p>j67GkmF7LyZHP5jcCC8Pksp/?format=pdf&lang=pt</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>As principais características da maturação</p><p>durante a puberdade ocorrem por meio das</p><p>modificações nos órgãos sexuais.</p><p>No sexo feminino, dizem respeito ao</p><p>desenvolvimento dos ovários, do útero e da</p><p>vagina; no sexo masculino, referem-se ao</p><p>desenvolvimento dos testículos, da próstata e da</p><p>produção de esperma. Estudos apontam que os</p><p>indivíduos nos quais a maturação ocorre mais</p><p>precocemente provavelmente serão mais altos,</p><p>mais pesados e terão maiores níveis de força e</p><p>maior resistência muscular se comparados com</p><p>aqueles de maturação tardia.</p><p>FIGURA 17</p><p>Durante a puberdade, ocorre um</p><p>rápido crescimento e maturação</p><p>FONTE</p><p>Pixabay</p><p>Resumindo</p><p>Agora você consegue definir o que é o desenvolvimento humano?</p><p>Para que seja possível compreender o que é o desenvolvimento humano,</p><p>é necessário diferenciar as noções referentes ao crescimento e ao</p><p>desenvolvimento:</p><p>• O crescimento é o aumento do corpo do ponto de vista físico. Ele</p><p>pode ser aumento de estatura ou de peso. A unidade de medida é o</p><p>centímetro ou a grama. Os processos básicos dele são aumento de</p><p>tamanho celular (chamado de hipertrofia) ou aumento do número</p><p>das células (hiperplasia).</p><p>• A maturação é uma noção bem diferente sobre o crescimento.</p><p>Psicomotricidade Clínica Amaturação e as implicações neurológicas</p><p>para a motricidade humana</p><p>Capítulo 4</p><p>Nesse caso, trata-se de organização progressiva das estruturas</p><p>morfológicas. Aqui entram crescimento e diferenciação celular,</p><p>especialização dos aparelhos e sistemas.</p><p>• O desenvolvimento deve ser encarado de um ponto de vista holístico,</p><p>integrante dos processos do crescimento e maturação, mas levando</p><p>em conta também o impacto e a aprendizagem sobre cada evento</p><p>e, também, a integração psíquica e social.</p><p>• O desenvolvimento psicossocial é de fato a integração do aspecto</p><p>humano – o ser aprende a interagir e a mover-se, respeitar as regras</p><p>da sociedade, a rotina diária. Praticamente, a criança vai seguir os</p><p>passos que têm como finalidade a convivência com a sociedade a</p><p>que pertence.</p><p>Psicomotricidade Clínica</p><p>Referências</p><p>ARRUDA, M. Crescimento, desenvolvimento e aptidão física. In: Encontro Interdisciplinar:</p><p>dependência química, saúde e responsabilidade social. Educando e transformando</p><p>através da educação física. 2008, Campinas. Anais [...]. Campinas: UNICAMP, 2008.</p><p>BRASIL. Saúde da criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil.</p><p>Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2002.</p><p>COFFITO. Resolução n.º 80 de 9 de maio de 1987. Baixa Atos Complementares à Resolução</p><p>COFFITO-8, relativa ao exercício profissional do fisioterapeuta e à Resolução COFFITO-37,</p><p>relativa ao registro de empresas nos Conselhos Regionais de Fisioterapia e Terapia</p><p>Ocupacional, e dá outras providências. D.O.U n.º 093 – de 21/05/87, Seção I, p. 7609</p><p>Disponível em: https://www.coffito.gov.br/nsite/?p=2838 Acesso em: 27 set. 2022.</p><p>FONSECA, V. da. Manual de observação psicomotora: significação psiconeurológica dos</p><p>fatores psicomotores. Porto Alegre: Arte Médica, 2010.</p><p>FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2007.</p><p>GOLOMAZOV, S.; SHIRVA, B. Futebol: treino de qualidade do movimento para atletas jovens.</p><p>In: GOMES, A. C.; MANTOVANI, M. Adaptação técnica e científica. São Paulo: FMU, 1996.</p><p>LE CAMUS, J. O corpo em discussão: da reeducação psicomotora às terapias de mediação</p><p>corporal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.</p><p>LE BRETON, D. A sociologia do corpo. Rio de Janeiro: Vozes, 2007. LEDOUX, M. Introdução à</p><p>obra de Françoise Dolto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.</p><p>LEVIN, E. A clínica psicomotora. Petrópolis-RJ: Vozes, 2003. LEVIN, E. A clínica psicomotora: o</p><p>corpo na linguagem. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.</p><p>LOPES, V. G. Fundamentos da educação psicomotora. Curitiba: Editora Fael, 2010.</p><p>Psicomotricidade Clínica Referências</p><p>MALINA, R. M.; BOUCHARD, C. Atividade física do atleta jovem: do crescimento à maturação.</p><p>São Paulo: Roca, 2002.</p><p>NASIO, J. D. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.</p><p>PAPALIA, D.; FELDMAN, R. D. Crescimento, desenvolvimento e maturação. Cadernos de</p><p>referência de esporte, 3. Brasília: Fundação Vale, UNESCO, 2013.</p><p>WALLON, H. A. Evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, 1978.</p><p>WEINECK, J. Biologia do esporte. Barueri: Manole, 1991.</p>