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<p>LUIZ GAMA CONTRA 0 IMPÉRIO A LUTA DIREITO NO BRASIL DA ESCRAVIDÃO BRUNO RODRIGUES DE LIMA</p><p>Copyright EDITORA CONTRACORRENTE Alameda Itu, 852 1° andar CEP 01421 002 EDITORES Camila Almeida Janela Valim Gustavo Marinho de Carvalho Rafael Valim Walfrido Warde Silvio Almeida EQUIPE EDITORIAL COORDENAÇÃO DE PROJETO: Erick Facioli PREPARAÇÃO DE TEXTO E REVISÃO TÉCNICA: Amanda Dorth DIAGRAMAÇÃO: Pablo Madeira CAPA E PROJETO GRÁFICO: Maikon Nery REVISÃO: Ieda EQUIPE DE APOIO Fabiana Celli Carla Vasconcelos Regina Gomes Nathalia Oliveira Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lima, Bruno Rodrigues de Luiz Gama contra império : a luta pelo direito no Brasil da escravidão / Bruno Rodrigues de Lima. -- São Paulo : Editora Contracorrente, 2024. Bibliografia. ISBN 978-65-5396-166-1 1. Abolicionistas - Brasil 2. Direito - Brasil História 3. Escravidão 4. Gama, Luiz, 1830-1882 5. Liberdade I. 23-185984 CDU-34:301 Índices para catálogo 1. Direito : Aspectos sociais 34:301 Tábata Alves da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9253 @editoracontracorrente f Editora Contracorrente @ContraEditora Editora Contracorrente</p><p>PRÓLOGO E podem colocar-se à retaguarda Os venerandos sábios de influência; Que o trovista respeita submisso, Honra, pátria, virtude, inteligência. Getulino [Luiz Gama] Este livro corresponde à versão revista, atualizada, e em português, de minha tese de doutorado, defendida em 28 de fevereiro de 2022, na Faculdade de Direito da Johann Wolfgang Goethe-Universität Frankfurt am Main, Alemanha. Originalmente intitulado "We Have Laws and I Know What I Will': Luiz Gama and the Normative Production of Freedom in Nineteenth-Century Brazil", meu trabalho ganhou o prêmio Walter Kolb de melhor tese de doutorado da Universidade de Frankfurt e a medalha Otto Hahn de destaque científico da Sociedade Max Planck. Sou imensamente grato aos professores examinadores Prof. Dr. Tho- mas Duve, Prof. Dr. Guido Pfeifer e Prof. Dr. Tâmis Parron -, que me conferiram cinco vezes summa cum laude, a mais alta nota no sistema acadêmico alemão, e indicaram minha tese para os citados prêmios. Nada disso seria possível sem o apoio institucional que recebi do Instituto Max Planck de História do Direito e Teoria do Direito. 1 Cf. "Prólogo", in: Getulino [Luiz Gama], Primeiras trovas burlescas. São Paulo: Tipografia Dois de Dezembro, 1859, pp. 5-7, especialmente 27</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA Nada disso seria possível, igualmente, sem apoio intelectual do meu orientador, diretor do referido Instituto Max Planck e professor drático de História do Direito comparado da Universidade de furt, Thomas fantásticas de Duve. Desde que cheguei a Frankfurt, em setembro 2018, encontrei condições de trabalho e recebi do professor Thomas Duve lições valiosas de metodologia e A tese reflete, em seus melhores aspectos, as orientações dele recebidas e, por extensão, o debate acadêmico de ponta da escola de História do Direito de Frankfurt. Ao professor Thomas Duve, pois, meu muito obrigado de coração pela forma respeitosa, rigorosa, transparente, amistosa e inteligente com que orientou meu Meu muito obrigado também ao Instituto Max Planck de His- tória do Direito e Teoria do Direito, aos seus diretores, Prof. Stefan Vogenauer, Prof. Dr. Thomas Duve e Prof. Dra. Marietta Auer, e a todos os seus funcionários, em particular aos do administrativo e da biblioteca, por tanto me auxiliarem na lida do dia a dia no Devo um agradecimento especial também à professora Marietta Auer, com quem tenho a satisfação de trabalhar, por propiciar excelentes condições de pesquisa em meu pós-doutorado e por incentivar meus passos em uma disciplina nova, a Teoria do Direito. Minha pesquisa também foi grandemente beneficiada pela troca de ideias com centenas de colegas acadêmicos. Entre 2018 e 2023, tive a chance de apresentar e debater resultados preliminares, testar hipóteses e sustentar conclusões em mais de cinquenta univer- sidades e centros de pesquisa em países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, Inglaterra e Suíça. Dei conferências em universidades como Stanford, Prince- ton, California (Berkeley) e Brown, nos Estados Unidos; King's College London, na Inglaterra; bem como apresentei trabalhos em seminários na Universidade de Viena, no Consejo Superior de Investigación Científica, em Madri, e no Instituto Ibero-Americano de Berlim. No Brasil, falei nos mais diversos espaços, de escolas de magistrados a escolas de samba; de livrarias a universidades; de tribunais superiores a defensorias públicas; de arquivos públicos à Presidência da República. Dialoguei com centenas de intelec- tuais, artistas, jornalistas, editores, juízes, advogados, estudantes, 28</p><p>PRÓLOGO militantes de movimentos sociais, entre outros, e pude contar com excelentes contribuições críticas e referências Espero que o texto faça jus a elas. Como espero, igualmente, que livro faça jus às contribui- ções intelectuais de tantos professores que encontrei no caminho do direito. De Arnaldo Lemos, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, onde ingressei, aos dezesseis anos de idade, como bolsista integral do Programa Universidade para Todos (ProUni), passando por Daniel Nicory do Prado, na Escola da Defensoria Pública do Estado da Bahia, onde fiz iniciação científica, até Airton Seelaender e Cris- tiano Paixão, na Universidade de Brasília, onde concluí o mestrado em Direito, Estado e Constituição, dezenas de professores deixaram suas marcas em minha formação. Impossível mencionar todos aqui. Registro, porém, e com alegria, Tâmis Parron, Marcelo Neves e Ligia Ferreira, que, de mestres, se tornaram também amigos. Não poderia deixar de apontar outros três professores: Silvia Hunold Lara, Ricardo Pirola e Rodrigo Camargo de Godoi. Eles foram importantes para que a tese alcançasse mais alto grau acadêmico e suas premiações, mostrando necessário o estudo obstinado nos caminhos adversos da luta por conhecimento e justiça. Agradeço imensamente também aos funcionários dos arquivos que tão bem me receberam em suas instalações. Foram mais de trinta arquivos e, em alguns deles, como no Arquivo Público do Estado de São Paulo e no Arquivo do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, passei de frequentador assíduo a parceiro institucional. Como o leitor verá, sem arquivo não haveria este livro; e sem os funcioná- rios do arquivo, não haveria este pesquisador. Muito obrigado, pois, a todos os funcionários de todos os arquivos em que trabalhei ao longo do doutorado. Sou muitíssimo grato também a toda a equipe da editora Contracorrente por tornar minha tese um livro tão bem cuidado. Gustavo Marinho, editor responsável, foi de generosidade ao longo do processo editorial. Seu entusiasmo em fazer o livro acontecer me deixa a certeza de que a escolha pela Contracorrente, mediada, aliás, pela professora de todos nós e decana da cátedra Luiz Gama, Ligia Ferreira, foi acertadíssima. No processo de edição, contei com 29</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA a revisão profissional competente de Ieda Lebensztayn e a leitura atenta dos amigos Alain El Youssef, Dermeval de Sena Aires Júnior, Gustavo Bernardino, Jéssica Aparecida Rodrigues, João Acuio, Jorge Sallum, Marcelo Ferraro, Mariana Campos, Paulo Henrique Pereira e Ricardo Spindola Diniz. Todos eles contribuíram para que texto estivesse tão mais leve quanto consistente. Aos meus amigos, salve simpatia!, a minha gratidão, de coração, e o meu abraço camarada. Represento-os cá na entidade venerável que é o amigo de todos nós, mestre Joel Miguez Sobrinho. À minha família, pai e mãe, ouro de mina, Helio Martins de Lima e Elaine Aparecida Rodrigues, o meu amor filial de sempre; ao meu irmão, Daniel Rodrigues de Lima, primeiro professor, meu respeito A Luiza Simões Pacheco, meu danke Oxum com um abraço para ti, pequenina, como se eu fosse saudoso poeta, e fosses a A Luiz Gama, minha reverência, sempre. BRUNO RODRIGUES DE LIMA Frankfurt am Main, II de janeiro de 2024. 30</p><p>INTRODUÇÃO PORQUE DE UMA HISTORIA DO DIREITO</p><p>Não é para Victor Hugo, nem para Castelar que apelamos: é para Savigny, Lúcio de Mendonça Em de agosto de 1880, o juiz de direito que mais tarde se tornaria ministro do Supremo Tribunal Federal, Lúcio de Mendonça, escreveu o primeiro perfil biográfico do jurista Luiz Falando de como a vida do biografado e a luta contra a escravidão se fundiam numa só "afirmação da liberdade humana", Mendonça indicou uma pista teórica promissora que a historiografia especializada em um século e meio ainda não levou em Para Mendonça, o lugar par excellence para estudo da vida e da obra de Gama assim como o seu reverso trágico, isto é, a escravidão era o direito. Não era nem a política, nem o romance. É isso precisamente o que ele sugere ao dizer que, para contar a trajetória pessoal do advogado abolicionista, e mesmo 1 Lúcio de Mendonça, "Luiz Gama", in: José Maria Lisboa (org.), Almanaque lite- rário de São Paulo para o ano de 1881. São Paulo: Tipografia da Província, 1880, pp. 50-62, especialmente p. 61; idem, "Luiz Gama por Lúcio de Mendonça", in: Luiz Gama, Liberdade, 1880-1882 (organização, introdução, estabelecimento de texto, comentários e notas de Bruno Rodrigues de Lima). São Paulo: Hedra, pp. 73-84, especialmente p. 84. De modo a facilitar o acesso dos leitores e leitoras, farei remissão aos originais e, sempre que possível, também às recentes edições das Obras completas de Luiz Gama. 2 Ibidem, pp. ibidem, pp. 73-84. 3 Ibidem, p. 61; ibidem, p. 83. 37</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA história da escravidão e da liberdade no Brasil, não se precisaria apelar a para os célebres políticos e romancistas Victor Hugo e Emilio Castelar, aqui tomados como signos da política e do romance; deveria buscar o jurista fundador da Escola Histórica, Friedrich antes von se Savigny, tido como signo do direito, mais particularmente da história do direito. A pista de Mendonça tem duas implicações iniciais. Primeiro, leva a dispensar uma "biografia de novela" dar conta da linha-mestra da trajetória de Gama; e segundo, resulta em apostar no direito como locus preferencial de interpretação da história do jurista.4 É claro que perfil do grande homem que foi Luiz Gama" está repleto de feitos que cabem muito bem a uma Mendonça mesmo não os nega. Ele próprio contribuiu muito para a romantização da figura de Gama, inventando a narrativa heroica do advogado abolicionista que, "nascido e criado escravo até a primeira juventude, tem depois alcançado a liberdade a mais de quinhentos escravos". Ninguém antes dele havia revelado publicamente o passado de Gama, nem contabilizado os seus feitos. Mendonça advertiu, porém, que as "linhas obscuras" do me- morável perfil biográfico deveriam ser entendidas mais como "fiel subsídio para cronistas de melhores dias" do que como um estudo aprofundado da obra de Essa tarefa deveria necessariamente se dar pelas fontes e pelos métodos da história do direito. Daí a menção direta a Savigny. Mesmo o abolicionismo de Gama, segundo Mendonça, deveria ser lido pelo crivo do jurista funda- mento do abolicionismo de Gama, insiste Mendonça, não estava no republicanismo ou na poesia romântica de Hugo ou Castelar, ou seja, não estava nem na política, nem no romance. Seu fundamento estava na compreensão profunda de que a "natureza das leis da instituição" 4 Boris Fausto, História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1994, p. 219. 5 Lúcio de Mendonça, "Luiz Gama", in: José Maria Lisboa (org.), op. cit., pp. 50-62, especialmente p. 61; idem, "Luiz Gama por Lúcio de in: Luiz Gama, Liberdade, 1880-1882, op. cit., pp. 73-84, especialmente p. 84. 6 Ibidem, p. 50; ibidem, p. 73. 7 Ibidem, p. ibidem, p. 74. 38</p><p>INTRODUÇÃO PORQUÊ DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO da escravidão não produzia direito Logo, não havia falar significa adquiridos" constituída portanto, bases como em "direitos da posse ou da propriedade através da Apelar a "Savigny, reconhecer na tradição e nas fontes do direito as do conhecimento, da literatura e da prática profissional de Em síntese, Lúcio de Mendonça aponta que, para se compreender não só a obra jurídica de Gama, mas também a obra abolicionista, não se deve "apelar" nem à política, nem ao romance. Os historia- dores, ou os "cronistas de melhores dias", nos termos de Mendonça, deveriam sim apelar ao direito; e, especialmente, à história do direi- Afinal, vale para Gama o que Walter Benjamin falou de Karl Kraus: "Não se entende nada desse homem enquanto não se entender que, para ele, tudo, sem exceção, tudo, linguagem e matéria, ocorre necessariamente na esfera do A historiografia, contudo, não enfrentou esse dilema. Até hoje, não há estudo sobre a obra de Gama pelos métodos da disciplina a que ele mesmo dedicou a mais decisiva parte de sua vida profissional. Esta é, portanto, a primeira tese de direito sobre jurista Gama. Até hoje, os principais estudos sobre Luiz Gama se concentra- ram nas áreas de pesquisa da história social do abolicionismo e da literatura brasileira lato sensu falando, justamente no âmbito da política e do Desde o pioneiro e algo panfletário romance 8 Ibidem, p. 61; ibidem, p. 83. Grifo original. 9 Ibidem; ibidem. Grifo original. 10 Ibidem; ibidem. 11 Ibidem, p. 5I; ibidem, p. 74. 12 Walter Benjamin, "Karl Kraus" [1931], in: Rolf Tiedemann and Hermann Schweppenhäuser (org.), Gesammelte Schriften, Band II. Frankfurt am Main: Suhrkamp Taschenbuch Verlag, 1977, pp. 334-367, p. 349. A tradução desse excerto é minha. Agradeço ao colega Friedrich Weber-Steinhaus pela indicação dessa referência. 13 Dialogarei com a fortuna crítica e a historiografia especializada em Luiz Gama ao longo do trabalho. Inicialmente, contudo, indico cinco teses de doutorado fundamentais para uma leitura historiográfica acerca da trajetória e da ação política de Gama. Nesse sentido, cf. Zelbert Laurence Moore, Luiz Gama, Abolition and Republicanism in São Paulo, Brazil, (1870-1888). Philadelphia: 39</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA biográfico do jornalista Sud Mennucci, não por acaso intitulado precursor de livro "Luiz Gama, uma vida na do abolicionismo, até os mais recentes estudos, por plo as pesquisas o capítulo sobre o autor enveredam pelas malhas da política todas e do romance. 14 Zelbert Moore foi o primeiro a investigar metodologica- mente a participação de Gama no Partido Republicano e no movimento abolicionista de São Elciene Azevedo seguiu Mennucci de perto e privilegiou as relações de Gama com a maçonaria e Partido Republicano, destacando o perfil de um ativista político legalista no diapasão do movimento Kátia Leiróz se aprofundou nas ideias políticas de Gama e contextualizou criticamente seu discurso Ligia Ferreira escreveu a obra seminal para a poesia de De modo bastante instrutivo, Ferreira discutiu criticamente seus textos então conhecidos e comprovou pioneiramente sua contribuição original para a literatura brasileira. Silvio Oliveira Temple University (Tese de doutorado), 1978; Ligia Fonseca Ferreira, Luiz Gama (1830-1882): étude sur la vie et d'un noir citoyen, poète et militant de la cause antiesclavagiste au Brésil. Paris: Sorbonne (Tese de douto- rado), 2001; Silvio Roberto dos Santos Oliveira, Gamacopeia: ficções sobre poeta Luiz Gama. Campinas: Universidade Estadual de Campinas (Tese de doutorado), 2004; Elciene Azevedo, O direito dos escravos: lutas jurídicas e abolicionismo na província de São Paulo. Campinas: Editora da Unicamp, 2010; e Ana Flávia Magalhães Pinto, Escritos de liberdade: literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista. Campinas: Editora da Unicamp, 2018. 14 Respectivamente, Sud Mennucci, O precursor do abolicionismo no São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938; e Ana Flávia Magalhães Pinto, op. cit., pp. 15 Zelbert Moore, op. cit., pp. 68-84. 16 Elciene Azevedo, op. cit., em especial pp. Cf., igualmente, o livro resultante de dissertação de mestrado que antecede o trabalho citado, Elciene Azevedo, Orfeu de carapinha: a trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São Campinas: Editora da Unicamp, 1999, pp. 79-188. 17 Kátia Leiróz Teixeira, O grito da cor: a liberdade no pensamento abolicio- nista de Luiz Gama. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Dissertação de mestrado), 2000. 18 Ligia Fonseca Ferreira, op. cit., especialmente pp. 25-III. 40</p><p>INTRODUÇÃO PORQUÊ DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO examinou passagens obscuras da autobiografia de Gama e analisou sua recepção Em comum, literária todos pelas os pesquisadores gerações investigaram Luiz Gama pelos referenciais teóricos ou da história política ou da história da literatura. Certamente tais enquadramentos teóricos propor- cionam ganhos analíticos insubstituíveis; mas também carregam limitações de análise, em especial quanto ao exame crítico da reconhecidamente principal área de atuação de Gama, ou seja, o Direito. Paradoxalmente, portanto, isso significa que tanto mais perto da política e do romance, tanto mais longe do Ou, na de Mendonça, tanto mais perto de Hugo e de Castelar, tanto mais longe de Savigny. Por romance e política, nesse caso, também se entendem os luga- res-comuns historiográficos que politizam e romanceiam a biografia de Gama, tornando-a no mais das vezes uma narrativa heroicizante alienada tanto de sua vida ordinária quanto de sua prática profis- "Talvez a atração que a história de Gama exerce", Oliveira acuradamente sugeriu, "tenha motivado os exageros imaginativos de alguns intérpretes pela 'falta' de maiores Responsável pelo balanço historiográfico mais apurado sobre Gama, em parte porque sucedeu os principais trabalhos acadêmicos então recém-publicados, Oliveira apontou corretamente a ausência de dados como um elemento decisivo para uma espécie de quase intransponível bloqueio da pes- quisa historiográfica acerca da obra do poeta e advogado abolicio- nista. Por um lado, a falta de um conjunto largo de fontes primárias 19 Silvio Roberto dos Santos Oliveira, op. cit., especialmente pp. 69-114. 20 Pelo menos sete pontos são repetidos à exaustão pela literatura especializada sem maior confronto com fontes primárias: i) a venda de Gama como escravo aos dez anos de idade pelo próprio pai; ii) a identidade política rebelde e a ne- gritude de sua mãe, a africana livre não cristã Luiza Mahin; iii) a alfabetização e a conquista de provas de sua liberdade após oito anos de escravidão; iv) a fuga do cativeiro; v) o aprendizado do direito, que oscilaria entre um misterioso autodidatismo e o suposto ingresso na Faculdade de Direito de São Paulo; e, finalmente, vi) a prática jurídica enquanto "rábula". 21 Silvio Roberto dos Santos Oliveira, op. cit., p. 28. 41</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA conferiu a um dos raríssimos documentos sobre sua vida, isto sua autobiografia, um certo grau de Por outro a foi na ausência de fontes primárias que estudiosos justamente autobiografia] lado, "pre- é, tenderam reelaborar relato [da buscando os vazios (profundos espaços de criação) interpretando os documentos", ou mesmo preenchendo-os pura e simplesmente preencher escassos "com imaginação". 22 Logo, os muitos vazios foram preenchidos com ficções a de toda ordem. "Desse modo", conclui Oliveira, "a de Luiz Gama ficcionalizou-se ao máximo". Dessa crítica, percebem-se dois problemas primeiro, o entrave da falta de documentação; e, segundo, o risco da ficcionalização. Emaranhados, os dois problemas se retroalimentam Em um primeiro plano, a ausência de fontes primárias é suprida por ficções políticas anacrônicas, ora pela especulação imaginativa romanceada. anacronismo distorce e aliena o personagem de seu contexto. A ficcionalização desmedida, por sua vez, dispensa cias Como solucionar esses impasses indicados por Oliveira? Primeiro, definindo o quadro teórico e metodológico para a análise do problema e, na sequência, estabelecendo o conjunto de fontes primárias para o seu estudo. Aberturas de xadrez: arquivo e metodologia da história do direito Como é sabido na literatura enxadrística, não se inventa moda nas aberturas. Nas aberturas, joga-se sempre com a teoria. Essa é a condição, aliás, para um meio-jogo criativo de alta Se transpusermos essa noção metodológica do xadrez para o método acadê- mico em ciências humanas, pode-se chegar a uma conclusão preliminar bastante útil: evitar ecletismos metodológicos iniciais e delimitar com 22 Ibidem, p. 236. 23 Ibidem. 24 Para uma visão introdutória e sucinta sobre teoria de aberturas em xadrez, cf., por exemplo, Paul van der Sterren, Fundamental Chess Openings. London: Gambit, 2009, pp. 6-8. 42</p><p>INTRODUÇÃO PORQUÊ DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO segurança qual o enquadramento teórico da pesquisa. Assim, a lição metodológica do xadrez pode ensinar algo à pesquisa da ciência da história do direito. Jogar com a teoria ou, nesse caso, pesquisar a teoria exige rigorosa coerência nos primeiros Assim, com definido de princípio que esta é uma pesquisa de história do direito, e não de história política ou de história da literatura, consequentemente delimita-se um determinado repertório de Embora a história do direito seja uma disciplina estabelecida há longo tempo, constituindo um corpus metodológico relativamente au- (e aqui se enfatiza justamente o que ela tem de autonomia), não se pode dizer precisamente que ela se caracteriza por uma abundante pluralidade Ao contrário, pode-se até mesmo dizer que a história do direito não possui um conjunto de variações de abertura tão extenso quanto outras disciplinas igualmente a exemplo da história cultural e da história econômica. Porém, o que vale para a teoria enxadrística parece servir para a teoria da história, e talvez para uma possível reflexão sobre a teoria da história do direito: as aberturas se esgotam com uma determinada sequência de movimen- tos, demandando pouco a pouco que o jogador, aqui o pesquisador, as abandone para que o jogo, ou melhor, a teoria, se desenvolva. Uma boa teoria, então, seria aquela em que o pesquisador cumpre diligentemente seus primeiros movimentos e depois a abandona - paradoxalmente, para o avanço da pesquisa em particular, e da teoria, em geral. Na história do direito, alguns dos primeiros movimentos são bem conhecidos foram percorridos antes, serão agora neste trabalho e, muito provavelmente, continuarão a ser trilhados no futuro. Uma sequência possível é: i) selecionar a unidade de observação dentro da sua correspondente unidade de análise temporal e espacial; ii) definir o corpus textual da pesquisa; e iii) examinar o que o historiador do direito António Manuel Hespanha chama de "mundo dos juristas", e como eles 25 Para uma reflexão metodológica e uma revisão do campo, a par do argumento da autonomia relativa da história do direito, ver Thomas Duve, "Global Legal History A Methodological Approach", Max Planck Institute for European Legal History Research Paper Series, 4, 2016, pp. I-22. 43</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA o enxergavam, considerando seu "universo literário de "contínuo trânsito entre a 'cultura' de um grupo e a 'natureza' de todos" Os dois primeiros tópicos são relativamente bem conhecidos 26 compartilhados pela literatura de metodologia em ciências e Além disso, parece já estar claro que este livro tem o corpus textual do jurista Luiz Gama como unidade de observação do direito Brasil do século XIX (unidade de análise). Vale a pena, então, prestar no mais atenção inicialmente ao terceiro Para Hespanha, a "visão jurisdicista do mundo corresponde a uma construção in- telectual". 27 Nessa construção intelectual, "os juristas descrevem muito detalhadamente o mundo e muito exaustivamente as razões que movem o mundo; o seu mundo, claro, e as suas razões para 0 movimento do mundo". 28 Porém, os juristas não só viam e descre- viam, apontou Hespanha, como também agiam. Isso porque seu saber é organizado para intervir", ou seja, "como é um saber prático" que "visa dirigir comportamentos, e dirigi-los pelo convencimento, as suas proposições e as suas razões têm que suscitar os consensos, propondo coisas possíveis, se possível agradáveis, baseadas em razões Portanto, seja de modo reflexivo ou ativo, os juristas produzem conhecimento. No entanto, longe de ser uma construção intelectual puramente endógena, o estudo do mundo dos juristas também revela aspectos "do funcionamento das sociedades", na medida em que, com "ri- gor analítico do seu saber comparando, definindo, distinguindo, e prosseguindo nisso até a exaustão -, os juristas fornecem minuciosos planos da organização e do funcionamento da sociedade". Assim, para entender a construção intelectual do jurista numa dada sociedade e época, exige-se que se conheçam o seu mundo e as versões que ele 26 António Manuel Hespanha, Como os juristas viam o mundo (1550-1750): di- reitos, estados, pessoas, coisas, contratos, ações e crimes. Lisboa: CreateSpace Independent Publishing Platform (Amazon), 2015, p. 6. 27 Ibidem, p. 5. 28 Ibidem, pp. 5-6. 29 Ibidem. 30 Ibidem, p. 5. 44</p><p>INTRODUÇÃO o PORQUÊ DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO cria para esse mundo, lendo-o indispensavelmente no interior de sua disciplina. Cumpre, igualmente, debruçar-se por sobre "arquivo textual do jurista" e criticamente contextualizar, vendo como "ambiente externo irrita e remodela a sua gramática". 31 Para Hespanha, o "mundo dos juristas" é um mundo textual e trocando em e ressalvado que ele chama de direito dos rústicos, é o seu corpus textual e suas interações externas. É a descrição desse mundo e das razões do movimento desse mundo, portanto, um dos espaços centrais de produção de conhecimento da história do Embora pontos de contato com outras disciplinas sejam fundamentais, é recomendável que isso se dê, argumenta Hespanha, após lavrar o próprio campo, que é, nesse caso, ocupar-se do "mundo dos juris- Depois, evidente e abordagens multidisciplinares são bem-vindas. Pensando a autonomia disciplinar da história do direito ainda nos anos 1970, Hespanha alertou para assédio disciplinar da "história social na história do direito". 34 Remando contra a maré da historiografia marxista da história social do pós-guerra por exemplo, a liderada por E. P. Thompson -, Hespanha assinalou algumas barreiras epis- têmicas que entravariam a história social lato sensu em ler o direito em Para ele, o fato de materialismo histórico não compreender a autonomia do direito, enxergando-o, quando como um subsistema subordinado a uma infraestrutura econômica, implica algum grau de negação da autonomia discursiva e prática dos juristas. No limite, a história social permanecia, e parece permanecer, entabulada no velho clichê de Marx e Engels de que o direito não tem história Entendendo, nesse sentido, que a história do 31 Ibidem, respectivamente, p. 32 Ibidem, respectivamente, p. 5 e p. IO. 33 Ibidem, p. 5. 34 António Manuel Hespanha, A história do direito na história social. Lisboa: Livros Horizonte, 1978, especialmente p. 33. 35 Ibidem, pp. 32-48. 36 Ibidem, p. 35. 45</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA ocupa de um fenômeno profundamente social, Guevara Gil direito se "em rigor uma se falar em história social do disse ser Quando se tem muito direito, que há, pois, é do direito. Por conseguinte, não existe razão em importar acriticamente de outras historiografias uma aparelhagem de categorias, por exemplo coisas, estados, conceitos, formas, para sobre armadura práticas, A as historiadora quais também há "envolvendo muito muito a história do direito, a sociedade numa de conceitos e Linda Lewin enxergou isso há tempo. Embora tenha encontrado os mesmos ouvidos moucos que Hespanha encontrou, sua crítica de que a história social pouco enten- dia de direito continua a ecoar. "Da forma como está agora", e não à toa o diagnóstico da historiadora se dá depois de um caminhão de teses de história social que se debruçaram sobre fenômenos "muitas nuances de comportamento social passam despercebidas nos documentos simplesmente porque aqueles que os leem continuam a não estar familiarizados com disposições básicas de Mais, adverte Lewin: "Somente quando essas regras se tornarem centrais em nossas análises, a história social do Brasil será escrita como um empreendimento mais sutil e complexo".40 A par das lições de Hespanha, Guevara Gil e Lewin, portanto, este livro finca-se na história do direito para investigar a obra ju- rídica do jurista Luiz Gama. Nem de longe, contudo, isso denota isolamento metodológico: ao contrário, isso significa um ponto de partida ou, pensando em termos de os primeiros movimen- tos do jogo. Em muitas partes da obra, como se verá, serão evocadas leituras metodológicas interdisciplinares, como as desenvolvidas 37 Jorge Armando Guevara Gil, Propiedad agraria y derecho colonial: los documentos de la hacienda Santosis, Cuzco (1543-1822). Lima: Fondo Editorial de la Pontificia Universidad Catolica del Peru, 1993, p. xxvi. A tradução do excerto é minha. 38 António Manuel Hespanha, op. cit., 2015, p. 5. 39 Linda Lewin, "Natural and Spurious Children in Brazilian Inheritance Law from Colony to Empire: A Methodological Essay", The Americas, vol. 48, 3, 1992, p. A tradução desse e do excerto seguinte são minhas. 40 46</p><p>INTRODUÇÃO PORQUÊ DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO pela pela história política, pelos estudos literários e, particularmente, pela história social da escravidão e da Certamente, essas perspectivas enriquecem a pesquisa na história do direito. Mas, reforça-se, tendo claro que se parte da história do direito, isso supõe que estudo procura responder como Gama via o mundo e, com os olhos em sua prática local, como ele refletia e como ele agia nesse mundo. Por um lado, procura-se contar como ele construiu intelectualmente seu mundo; por outro, como o mundo que ele encontrou moldou seu pensamento e sua prática. Para isso, definiram-se i) quadro de categorias jurídicas, essa "armadura de conceitos e fórmulas" de que fala Hespanha, que explicam o "mundo do jurista"; e também ii) corpus textual de pesquisa, con- siderando-o como arquivo do jurista, isto é, as suas fontes primárias e as que lhe são conexas.4 Quanto ao primeiro ponto, será usada uma pluralidade de categorias jurídicas por exemplo as de conhecimento normativo, multinormatividade, literatura normativo-pragmática e produção normativa de liberdade -, articuladas para investigar como Luiz Gama produziu conhecimento normativo de liberdade em uma sociedade escravista do século Acerca do segundo ponto, isto é, do corpus textual, utiliza-se um volume substancioso de informação que percorre detalhadamente 32 anos de sua vida pública. Uma vez que a primeira aparição de Gama numa fonte primária foi em abril de 1850, portanto aos dezenove anos de idade, e a última 41 António Manuel Hespanha, op. cit., 2015, p. 5. 42 A discussão dessas categorias se lê em todos os capítulos do livro, especialmente nos capítulos II, III, IV e V. À guisa de breve enquadramento teórico, e sem prejuízo das diversas contribuições teóricas referenciadas no corpo do trabalho, analiso as categorias jurídicas das fontes de época e da literatura a partir das proposições formuladas e/ou coligidas por Thomas Duve em, respectivamente, op. cit., pp. I-22; "Pragmatic Normative Literature and the Production of Normative Knowledge in the Early Modern Iberian Empires (16th-17th Centuries)", in: Thomas Duve e Otto Danwerth (eds.), Knowledge of the Pragmatici: Legal and Moral Theological Literature and the Formation of Early Modern Ibero-America. Leiden: Brill, 2020a, pp. I-39; "What is Global Legal History?", Comparative Legal History, vol. 8, n° 2, 2020b, pp. e "Rechtsgeschichte als Geschichte von Rechtsgeschichte Legal History, 29, 2021, pp. 47</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA na data de sua morte, em 24 de agosto de 1882, podem-se rastrear seus passos entre um ponto e outro e chegar a mais de 2.500 referências produzidas por ele ou ligadas diretamente a ele. É claro que, em trabalhando com um acervo textual ampliado e, em princípio, não se descarta fonte primária -, aparece um pouco de tudo: Luiz Gama como agente comercial, vendedor de cipó medicinal, crítico literário, dramaturgo, modelo de retratista, bibliotecário, copista, escrivão, amanuense, auxiliar de escritório, candidato a candidato a juiz de paz, candidato a dono de cartório, poeta, grafo, policial, líder político procurado por milícia de fazendeiro escravocrata, produtor do maior tomate já colhido em São Paulo, professor de português em escola de segundo grau, professor de escola de alfabetização, agente da Internacional Comunista, correspondente de Giuseppe Garibaldi, enfim, uma miscelânea de atividades que revelam as múltiplas entradas e saídas de Gama por sua cidade, província, país e mundo. Nenhuma atividade profissional, no entanto, sobressai ou con- corre em volume ou extensão com as duas mais exercidas em toda a sua vida política: a de jornalista e a de advogado. São, por assim dizer, as atividades por excelência que ocupam grande parte de todo o quadro das mais de 2.500 movimentações mapeadas. Assim, sua biografia é necessariamente mediada pelo direito e pela especialmente aquela "imprensa jurídica" que revolucionou o "mundo da edição Uma biografia jurídica? A vida de Luiz Gama durou cinquenta e dois anos, dois meses, três dias e sete horas.44 Deles, dez anos, quatro meses e dezenove dias foram vividos em sua cidade natal, Salvador da Bahia, e praticamente 43 António Manuel Hespanha, op. cit., 2015, p. 44 Para a data e horário de nascimento, eu me baseio na autobiografia de Gama; para a data e horário de óbito, reporto a crônica na imprensa da época. Cf., res- pectivamente, Luiz Gama, "Minha vida", in: Luiz Gama, Liberdade, 1880-1882, 48</p><p>INTRODUÇÃO PORQUÊ DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO todos os dias, meses e anos restantes na cidade de São À parte a longa viagem entre sua cidade natal e São Paulo, e outras viagens sempre curtas que faria em idade adulta, todos os dias de Gama trans- correram na província de São Paulo.45 Assim, todas as suas conexões globais se deram ou em Salvador ou em São Paulo, ambas, à época, sociedades plenamente escravistas mas muito diferentes entre si. De modo que falar de sua vida é falar um pouco dessas duas cidades bem como de seu país e de sua época. Mas, como essa definitivamente não é uma biografia "do berço ao túmulo", não se pretende escrutinar eventos de toda a sua vida. Em outras palavras, não interessa saber se ele colheu maior tomate de São Paulo, se foi sócio de algum empreendimento comercial, ou esmiuçar quais os vínculos que tinha com a maçonaria ou Partido Republicano. Entende-se, assim, que seria contraproducente a uma biografia jurídica examinar longa e detidamente relações familiares, afetivas, comerciais e mesmo as políticas e Por outro op. cit., pp. 59-68, especialmente p. 60; e APESP, Gazeta do Povo, [Redação], "A morte de Luiz Gama", 24 ago. 1882, p. I. 45 Nesse parágrafo, o enquadramento do biografado se dá de modo semelhante a como Reiner Stach fez em sua trilogia sobre Kafka. Cf. Reiner Stach, Kafka, los primeros años y los años de las decisiones. Barcelona: Acantilado, 2016. A propósito, seu estudo introdutório na biografia de Kafka é das principais contribuições metodológicas para a escrita biográfica, mesmo para a escrita da biografia jurídica. Ver, nesse mesmo livro, pp. 46 Acerca do conceito de biografia jurídica, eu me baseio nas lições metodológi- cas de Martín, "Dilemas metodológicos y percepción histórico-ju- rídica de la biografía del jurista moderno", in: Esteban Conde Naranjo (ed.), Vidas por el Derecho. Madrid: Editorial Dykinson, 2012, pp. II-58; Carlos Petit, "Biblioteca, archivo, escribanía: portrait del abogado Manuel Cortina", in: Esteban Conde Naranjo, op. cit., pp. 329-386; Jesus Vallejo, "Biografía intermitente de Miguel Ayllón Altolaguirre", in: Esteban Conde Naranjo, op. cit., pp. 387-495; assim como nas igualmente valiosas reflexões metodológicas de Mia Korpiola, "Introduction", in: Mia Korpiola (ed.), Legal Literacy in Premodern European Societies. London: Palgrave Macmillan, 2019, pp. I-16; e Petteri Impola, "The Agency and Practical Learning of a Lay Advocate in Seventeenth-Century Helsinki: The Case of Gabriel Abrahamsson", in: Mia Korpiola, op. cit., pp. 89-118. 49</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA lado, uma biografia jurídica não pode ser sinônimo de um recorte abrupto sobre a vida profissional de um jurista, alienando-a de seus episódios biográficos constitutivos, a exemplo do passado familiar e de aspectos decisivos da infância e da juventude. Nesse sentido, e um tanto paradoxalmente, para ser uma biografia jurídica não se pode descuidar desses episódios formadores não jurídicos, muito embora biografado que formação direito". 47 do seja claro se deva privilegiar a e a atuação prática como "uma vida para Entendendo o estudo da "construção intelectual do jurista" nos termos de Hespanha, como uma espécie de biografia jurídica, este livro combina lições metodológicas de micro-história e biografia para examinar a literatura e a prática jurídica de Gama nos juízos locais.48 Por outro lado, as fontes de imprensa, policiais, administrativas e judiciais, o repositório por excelência do "arquivo textual do jurista" Luiz Gama, são lidas pela gramática do direito.49 Por ambos os caminhos, portanto, a obra pode ser lida tanto como biografia jurídica, quanto como uma história do direito do século XIX (unidade de análise) a partir da vida e obra de um jurista (unidade de observação). Em ambos os casos, em suma, toma-se caminho da história do direito. O livro está dividido em cinco capítulos. Intitulado "Mundo No labirinto das nações: Luiz Gama e a invenção da liberdade na era do contrabando", o primeiro se propõe a apresentar uma visão ampla da cidade e do país em que Gama nasceu e viveu até os dezoito anos de idade; cobre, então, os anos de 1830 a 1849. Estabelecendo links entre micro e macro-história e dialogando especialmente com a história social da escravidão, o capítulo destaca as confluências do global no local, especialmente do mundo Atlântico no Brasil, e do 47 Sebastián Martín, op. cit., pp. especialmente p. II. 48 António Manuel Hespanha, op. cit., 2015, p. 5. 49 Ibidem, p. 28. 50</p><p>INTRODUÇÃO PORQUÊ DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO particular no geral, isto é, de Gama no Tomando borgiana do mito de Teseu e Labirinto, analisa-se brevemente a leitura história dos pais de Gama, bem como eventos políticos importantes a para o Brasil da época. A partir de dezenas de fontes primárias desconhecidas, coteja-se metodicamente pontos obscuros da autobio- antes grafia de Gama, ressaltando como seu pai escravizou e como foi sua vida como escravizado em São Paulo; qual sua relação com a comunidade negra de São Paulo; como ele se alfabetizou e, finalmente, como conseguiu provas de sua liberdade e se tornou livre na era da escravidão ilegal. o segundo capítulo, que tem por título "Aprendizado Sol- dado, amanuense e poeta: primeiro homem de armas, depois homem de letras", examina detalhadamente letramento jurídico de Gama entre os anos de e 1867. Os anos de Gama como soldado e suas atividades em repartições policiais são decisivos para esse processo de aprendizado. Explorando as nuances de suas atividades como copista do escritório do notário Coelho Neto, bem como a função de assistente do delegado de polícia e catedrático de direito administrativo Furtado de Mendonça, capítulo apresenta novos elementos para afirmar como foi o aprendizado do direito por Gama. Discutindo os níveis de produção de saber normativo numa repartição policial, examina-se como o copista tinha contato com grande variedade de informações normativas e observava como autoridades locais as hierarquizavam. Já enquanto copista, pode-se ver como Gama conheceu por dentro os arquivos locais do conhecimento normativo das comunidades práticas e epistêmicas de direito em São Paulo. Foi esse conhecimento prático que o habilitou, na sequência, a ser nomeado primeiro escrivão, depois amanuense da secretaria de polícia de São Paulo. Esmiuçando dezenas de processos e ofícios ad- ministrativos locais, em especial aqueles relacionados com a liberdade de africanos, percebe-se como Gama foi aprendendo a interpretar criativamente o direito, às vezes possivelmente extrapolando suas atribuições funcionais. Durante o seu tempo de amanuense, Gama lançou-se na poesia e na crônica de imprensa. Ambos os gêneros literários serviriam para criar um projeto estético original e, como se verá, para inventar sua literatura normativo-pragmática. 51</p><p>BRUNO RODRIGUES DE LIMA O terceiro capítulo, "Literatura A imprensa como jurisdi- ção: da crônica forense à literatura narra justamente a criação desse estilo literário jurídico no triênio de 1867 a 1869. Examinando suas primeiras crônicas forenses, vê-se como Gama começa discutindo abstratamente ações judiciais, decisões judiciais e julgamentos de cortes superiores e passa paulatinamente a analisar casos concretos na jurisdição local em que ele é parte interessada. Daí que se pode falar numa transição de crônicas judiciais, assim entendidos os textos jurídicos não imbuídos de inte- resse concreto numa demanda específica, para uma literatura norma- tivo-pragmática, que tem propósito de interferir no entendimento jurídico da comunidade epistêmica ou prática de direito sobre uma matéria em uma ou mais jurisdições locais. Sistematicamente, Gama discutiu na imprensa diversos argu- mentos jurídicos. Criticando sentenças judiciais, por exemplo, ele sustentou muitas vezes como o juiz deveria processar e decidir causas de liberdade. Com isso, ele não apenas provocava a discussão de um caso judicial específico, mas apontava como deveriam ser processa- das e julgadas as demandas de liberdades seguintes. Durante todo 0 ano de 1869, Gama foi presença constante na imprensa, produzindo conhecimento normativo. Praticamente em todos os seus textos nor- mativo-pragmáticos, defendeu respostas normativas específicas em casos concretos que tramitavam nos juízos locais de São Paulo. De- vido a sua literatura normativo-pragmática voltada para a produção normativa de liberdade, ele foi demitido da posição de amanuense da secretaria de polícia de São Paulo. quarto capítulo, de nome "Direito advogado da liberdade", cobre a longa década de 1870 até o final da vida de Gama. A partir de agora, Gama já possuía licença para praticar direito em algumas comarcas de São Paulo. Isso muda o cenário anterior. Antes, ele atuava como solicitador, constrangido por uma série de limitações de repre- sentação; agora ele oficialmente escrevia como advogado. Com isso, podem-se analisar detalhadamente causas de liberdade, com a certeza de que era ele quem de fato e de direito conduzia a estratégia normativa de liberdade e respondia pelas injunções circunstanciais do processo. 52</p><p>INTRODUÇÃO DE UMA HISTÓRIA DO DIREITO Considerando a jurisdição como uma variável de primeira importância afinal, ela poderia modular decisivamente o samento e o julgamento de uma ação -, percorre-se a trajetória proces- do advogado Luiz Gama primeiro no juízo local de Santos, depois juízos da capital e, finalmente, naqueles do interior da província nos de São Paulo. Não é sem razão que Gama começa pelo juízo de Santos, mais aberto a demandas de liberdade, e depois leva sua estratégia normativa de liberdade para outras jurisdições. Em Santos, Gama estabelece as bases de sua produção normativa de liberdade original. A um só tempo, ele mobiliza duas estratégias de liberdade diferentes: uma profundamente fundamentada na doutrina do direito civil por- tuguês, e a outra assentada na multinormatividade da ilegalidade do comércio de escravos, produzindo conhecimento normativo original que resultou na liberdade de centenas de pessoas. quinto e último capítulo, "Teoria - Racializar o conceito para radicalizar a luta pelo direito", explora uma nova face do jurista, a de teórico da sociedade, apresentando como Luiz Gama discutiu conceitos clássicos da teoria do direito, a exemplo dos conceitos de pessoa, crime, direito e Constituição. Em termos de periodização, o capítulo parte do dicionário satírico Nomes e definições, que Gama publicou em 1876, e vai até o biênio 1880-1881, quando publicou sua mais radical obra abolicionista, a Carta a Ferreira de Menezes. Nesse período, o jurista articulou advocacia combativa e literatura com escritos de sátira e política repletos de formulações conceituais. Dessa rara combinação, forjada, aliás, por seu sugestivo método de investigação, escreveu a mais revolucionária doutrina jurídica do século XIX: a de que o escravo que matasse o senhor cumpria uma prescrição inevitável de direito natural. Gama escreveu mais, muito mais, e foi até as fundações da Constituição do Império do Brasil, encontrando lá o vício originário de um pacto constitucional racista e escravista. No epílogo "Memoria, samba e futuro", o arremate do livro. Como o título sugere, a ideia é partir da pelas linhas do samba, para refletir o futuro dessa que é, e oxalá seja, a década de Luiz Gama. 53</p>

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