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A LENDA DO GRAAL Introdução A busca do graal é o símbolo da aspiração cristã no apogeu do seu desejo de conhecimento, num período em que se lutava encarniçadamente pelo exclusivismo da verdade. Nestas condições, a essência do conhecimento oculta-se sob diversos ornamentos. Se a cruz se transformou no símbolo da obediência, o graal tornou-se no emblema da liberdade. A lenda do graal é, portanto, uma forma simbólica de expressar o caminho seguido pelos que buscam a verdade racionalmente e de como os símbolos se transformam em realidade. Representa, portanto, conhecimento e pureza. Os trovadores e a gaia ciência Desde o tempo de Afonso X, o Sábio, que havia na Galiza e também em Portugal, uma admirável escola poética, a Escola Trovadoresca. Entre os portugueses sempre existiram cultores da gaia ciência, como era chamada a arte de trovar. Fugidos da matança dos albigenses, os trovadores acolheram-se em diversas cortes da Europa. Alguns foram para a de Afonso X, na Espanha. A moda de trovar, à maneira provençal, entrou assim em diversos países, incluindo Portugal, onde já se sentia a sua influência desde o tempo de D. Sancho I. Os vários casamentos dos nossos monarcas, com famílias ligadas às casas de Sabóia, Bolonha e Aragão, contribuíram também, sem dúvida, para o aumento da influência da cultura ocitânica. Foi principalmente ali, nas cortes feudais da ocitânia, no sul da França, que se desenvolveu esta grande escola de poesia e esoterismo. Os seus cultores usavam uma língua característica, a língua d'oc. A palavra trovador deriva de trobar. O que significa trobar, em língua d’oc? Tem dois significados: investigar ou estudar e expressar por tropos, isto é, com palavras que têm sentido figurado. O trovador é, portanto, não somente aquele que faz poesia, mas também o que estuda, investiga e revela poética e veladamente os seus conhecimentos ou mensagens. São os próprios trovadores que nos advertem para esta particularidade da sua arte, dizendo-nos que trovar é "entrebescar les motz", isto é, baralhar o sentido das palavras. Os seus versos têm, portanto, um sentido duplo. Há dois grupos de dificuldades na poesia dos trovadores, consoante a intenção do autor. O primeiro é o trobar plan, em que a mensagem é relativamente fácil de apreender; o segundo é o trobar clus, literalmente, trovar fechado. Neste caso o significado das palavras é muito mais obscurecido. Pensar em trovadores é relacioná-los com as célebres cantigas de amigo, nas quais, segundo o conceito vulgar, o poeta imaginava uma "dama", a sua inspiradora, como suserano, a quem se devotava submissamente e dedicava os seus versos. Note-se que só excepcionalmente um trovador cantava o amor de uma dama por seu marido. Não que defendesse o amor adúltero ou anti-conjugal, mas porque o amor trovadoresco, o Fin Amor é um sentimento puro, que não envolve a satisfação física. O trovador, para se aproximar da sua dama, tinha de receber antes uma "ensenha", senha ou sinal de reconhecimento. Só depois a "dama" lhe impunha várias provas (asags), no final das quais era admitido (ou não) e considerado drudo. São ritos iniciáticos, muito semelhantes aos usados na cavalaria. A morte por amor, tão cantada pelos trovadores, era uma morte simbólica, iniciática, depois da qual havia um novo nascimento e surgia um homem novo. Não é por acaso que os trovadores estudavam a gaia ciência. Muito mais do que uma arte, era uma gnose iluminada pela razão. A gnose é uma atitude filosófica que não se baseia apenas na revelação. Tenta fazer participar a faculdade intelectiva do espírito no conhecimento das coisas e de Deus. Por isso foram perseguidos. A partir de 1209 inicia-se a cruzada contra os albigenses e a tradição trovadoresca da Provença é fortemente abalada. Antes, porém, já no século XII se tinha fundado uma sociedade iniciática, designada por Fede Santa. Julga-se que o Imperador Francisco II, da Alemanha, também ele um trovador, foi um dos seus fundadores. Os seus membros eram designados por fiéis do amor. Tudo indica que o famoso poeta italiano Dante, foi um membro desta sociedade, cuja índole rosacruciana é bem conhecida. E por isso que, ao escrever a sua obra, segundo os preceitos trovadorescos, adverte os seus leitores: O vós que a inteligência tendes clara Vêde o preceito aqui dissimulado Pelo véu do mistério nestes versos (Inf. X, 21) E Luís de Camões, o rosacruciano, recorda igualmente: E sabei que segundo o amor que tiverdes Tereis o entendimento dos meus versos. (soneto I) Tanto o preceito como o amor são sinonimos de conhecimento, do saber adquirido nesta escola hermética. A origem da lenda do Graal Wolfram de Eschembach é o trovador mais clássico e conhecido na sua época, na Alemanha. Viveu desde finais do século XII até 1210. Era membro de uma família nobre empobrecida. Pertenceu a um brilhante círculo de trovadores, que se reunia na famosa corte de Hesse, landegrave da Turíngia. Recorde-se que foi precisamente aqui, num castelo, que viveu a família Germelshausen, os progenitores de Cristão Rosacruz (ou Christian Rosencreutz). Wolfran iniciou um conto sobre Titurel, antigo rei do Graal. Ficou incompleto devido à sua morte. Esta versão constitui sem dúvida o que há de mais puro sobre o assunto. Todavia, a ideia não foi original e tinha uma origem bem mais antiga. O protótipo do graal foi o cálice que todas as religiões antigas usavam para se beber o líquido sagrado, fermentado, que nos povos do oriente e do médio oriente se chamou soma ou ahoma. A tradição persa menciona um vaso místico semelhante, miraculoso, entregue a Jemshad, o rei perfeito. Platão refere também o carácter sagrado da taça usada nas libações religiosas, no seu diálogo sobre a natureza, quando se refere à Atlântida. Os reis iniciavam, diz-nos, as suas reuniões com o sacrifício de um touro e recolhiam algumas gotas do seu sangue numa taça. Wolfram recolheu os elementos do seu conto na tradição ocitânica, entre outros trovadores. Na Idade Média, as palavras ocitânia ou provença indicavam a mesma região. Ali encontrou Wolfran um trovador chamado Kyot, o Provençal (não confundir com Guiot, de Provins). Kyot falava naturalmente a língua d’oc e estudava o ocultismo, a decifração dos textos cabalísticos, a astrologia e línguas orientais. Viajava bastante, como quase todos os trovadores. Esteve em Tudela, na Espanha, mas foi, como tudo indica, em Toledo, que obteve, certamente através dos maniqueus, os pormenores ao conto do Graal (como de resto evidencia a etimologia da palavra maniqueu). O maniqueísmo já foi considerado como uma forma de gnosticismo ou heresia cristã. Há ainda quem o considere com raízes no budismo. Hoje prevalece a convicção de que se tratou de um ensaio para uma religião universal, composta por elementos cristãos e persas. Existe ainda um outro trovador, cuja obra foi do conhecimento de Wolfran e a quem se deve uma das versões mais conhecidas da lenda do Graal: Chrétien de Troyes. Mais tarde veremos quais são as diferenças entre as diversas versões principais. O simbolismo do Graal Já nos referimos à possível origem maniqueísta da lenda do Graal. A etimologia da palavra maniqueu equivale exatamente ao significado da palavra graal. Mani significa, em sânscrito, pedra preciosa ou gema. E em siríaco, Manas, traduz-se por vaso, receptáculo e em sânscrito é o 5º princípio da constituição humana, a faculdade de pensar que o homem tem. Há uma semelhança muito grande entre os cultos iranianos e hindus. Por exemplo, o soma (ou ahoma), a bebida dos deuses e dos sacrifícios era a mesma, e também o culto aos asuras era comum aos dois povos. Na Índia apagou-se perante o culto dos devas, enquanto que no Irão foi elevado a religião oficial (asura, sanscrito, ou aúra-masda,iraniano), etc. Eis a razão porque S. Agostinho, que na sua juventude foi maniqueísta, diz que esta palavra significa pedra viva ou vaso vivo (mani haya ou mana haya), ou ainda vaso que derrama o mana (mani ou mana + chei = derramar). A comparação do homem espiritual com uma pedra envolve um simbolismo comum a quase todas as religiões. A pedra bruta, não burilada, é o homem adormecido. A pedra trabalhada, cúbica, simboliza aquele que despertou, recebeu a luz e começou a viver consciente e livremente. A pedra cúbica é a pedra viva (lapidem vivum) de S. Pedro (Pe. 1,4). Podemos agora compreender o simbolismo do graal, consoante o ponto de vista de que for abordado: o etnológico, o literário e o místico ou alquimico. O Graal etnológico As libações rituais são uma prática universal. O pendor dionisíaco para buscar a visão espiritual por meio de bebidas manifestou-se um pouco por todo o lado. Na Grécia e em Roma utilizava-se o vinho. Na Índia e na Pérsia, o soma. Os Celtas recorriam à cerveja, considerado o sangue de Germunnos, na américa latina ainda hoje se utiliza uma bebida altamente tóxica. São líquidos a que se atribui um valor sagrado e a faculdade de permitir a ligação com o além ou até a sua visão antecipada. Não é somente o líquido que assume um caráter sagrado. É também o recipiente que o contém. O cálice ou graal utilizado nestas cerimonias é um objeto sagrado, tal como líquido nele contido, à semelhança da âmbula ou píxide atuais. O Graal na literatura Na literatura medieval, o graal surge nas lendas baseadas na tradição iniciática, com um enredo caracterizado pelas aspirações e pelo ambiente da época. A lenda arturiana fundamenta-se na história do graal. Na versão mais antiga, que pertence a Wolfran de Eschembach, o graal era talhado numa esmeralda, caída da fronte de Lúcifer (portador de luz). Wolfran não aceita a versão de Chrétien de Troyes, que considera adulterada e contrária à tradição, por ter eliminado tudo quanto fosse contrário ao cristianismo. Chrétien de Troyes não se refere à origem do graal e apenas nos diz que era feito de ouro puro. Existe ainda uma outra importante versão desta lenda, que é a de Roberto de Boroso, o responsável pela inclusão da figura de José de Arimatéia na narrativa. Segundo ele, foi esta personagem a portadora do cálice usado na última Ceia. Por razões óbvias foi esta versão a mais divulgada. Uma adaptação à literatura desta lenda encontra-se na conhecidíssima história de D. Quixote, de autoria do espanhol Miguel de Cervantes. É um livro inspirado nas peregrinações do graal. O graal dos místicos É neste campo que adquire a sua maior importância, como veremos. Wolfran diz, na sua obra, que "pela virtude da pedra (o graal), a Fênix consome-se e converte-se em cinzas; mas graças a essa mesma pedra, a Fênix completa a sua mudança para ressurgir mais bela do que nunca". O simbolismo da Fênix, que renasce das próprias cinzas, ou da serpente que ciclicamente se renova, pela mudança na pele, é, na literatura hermética dos alquimistas, o símbolo do renascimento e da imortalidade. O ensino do renascimento foi ministrado nas religiões de mistérios. Ora, é um fato que a lenda do graal se começa a implantar quando os mistérios entraram em decadência. E desapareceram, não por falta de instrutores, mas por carência de alunos capacitados para os receber. O processo de imersão no materialismo atingia o ponto culminante. O ensino mais profundo ficava reservado a uma pequena elite de estudantes. Uma parte desses ensinamentos foi velado pelo simbolismo e transmitido pela tradição, para que todos os que estivessem preparados soubessem que o caminho estava sempre aberto para os receber. O significado esotérico do graal assemelha-se ao dos sacramentos cristãos. Ambos são sinais exteriores. Um sacramento é um sinal, exterior e sensível, que confere uma graça. Para ser transmitido precisa de três elementos fundamentais, a saber: uma fórmula de autoridade (que, ao ser proferida causa um certo efeito nos mundos supra-sensíveis, proporcional ao conhecimento das forças implicadas), um sinal ou signo de autoridade e um meio material, que sirva de veículo da energia (em regra uma substância oleosa). Porém, a graça só é recebida por quantos não lhe opõem óbice e a aceitam com fé. A fé constitui, portanto, uma condição importante para a obtenção da graça simbolizada pelo sacramento. A conquista do graal simboliza a aquisição do saber por mérito e esforço próprios. Só o obtém aquele que luta e se esforça por seguir no caminho da compreensão. No sacramento esotérico o conhecimento e a visão substituem a fé. Pelo sacramento exotérico ensina-se o dogma, pelo esotérico obtém-se o conhecimento. Que o graal não é um objeto material, afirma-o o próprio Wolfran, quando diz: "o graal é a pedra do desejo do paraíso". E o desejo do conhecimento, que é indissociável da pureza. Em várias línguas a palavra cálice (graal) significa também a cápsula que, na flor, contém as sementes. As plantas não conhecem a paixão. A sua fecundação faz-se da maneira mais pura e os seus órgãos de geração, a flor, projetam-se para o sol numa radiante manifestação de beleza. E no simbólico cálice que é o corpo humano, que se terá de purificar o místico sangue, para que, liberto de toda a paixão, mas rico de conhecimentos, possa rasgar o véu que oculta os mistérios da vida. Esta luta consciente é simbolizada pelo combate de S. Jorge contra o dragão. A sua cor é tradicionalmente a verde. Verde é também a cor da esmeralda, na qual, segundo o conto de Wolfran, foi talhado o graal. Também no oriente se recorre a uma pedra de cor verde, a que se atribui propriedades diversas, como material para a estatuária religiosa e fúnebre. É o jaspe. Consideram-no ali como símbolo da perfeição, na pureza, da bondade, prudência, etc. O uso da cor verde não se deve a uma questão de moda, de sentido estético ou a especulação, mas unicamente ao valor simbólico e ao efeito das suas vibrações. Na lenda de Parsifal, genialmente adaptada por Wagner, existem mais dois símbolos importantes: Amfortas e Klingsor. São a personificação de etapas distintas do progresso anímico. Parsifal simboliza o uso correto do poder espiritual, baseado na pureza de intenções; Amfortas significa aquele que utiliza as suas faculdades sem critério algum; sendo consciente delas, não tem uma orientação correta. Finalmente, Klingsor é o espelho do egoísta, numa palavra, do ignorante, que orienta as faculdades para a satisfação pessoal. _______ Bibliografia: Iniciação Antiga e Moderna, Max Heindel; Cristianismo Rosacruz, id.; Albigeois et Cathares, Fernand Niel; Perceval, A. Gérard Klockenbring; Le Karme, vol. VI, R. Steiner; Timeu e Crítias, Platão; Le Secret des Cathares, Gérard de Séde; Etudes Tradicionelles, nº 382. Nota: Revista "Rosacruz", Ano 61.º, n.º 306, Outubro, Novembro e Dezembro de 1987.